III Encontro da ANPPAS
23 a 26 de maio de 2006
Brasília-DF
Viagem na floresta pelo itinerário da Justiça e
Educação Ambiental
Michelle Jaber – Universidade Federal de Mato Grosso
Michèle Sato – Universidade Federal de Mato Grosso
Resumo:
O destino privilegiado de nossa pesquisa é a Amazônia, a maior floresta tropical do
mundo. A Amazônia das águas, das lendas, dos mitos, dos povos da floresta, da
biodiversidade, da pluriculturalidade, dos saberes e dos sabores, tem se tornado palco de
disputas, conflitos e desigualdades. Um exemplo desses conflitos, é comunidade de Guariba,
inserida na Amazônia mato-grossense. Essa região foi e tem sido palco de grandes conflitos
ambientais, caracterizados fortemente pelas disputas de terras, onde a maioria das áreas
concentra-se nas mãos de uma minoria mais rica. Podemos perceber nessa região, as
consequências negativas geradas por esse modelo nefasto de “desenvolvimento” e pela falta
de cuidado ambiental, onde as populações mais antigas estão às margens da sociedade,
assistindo os fazendeiros destruir a floresta em nome do gado e da soja. Nosso olhar se
direciona aos seringueiros da Reserva Extrativista Guariba & Roosevelt, desejamos
compreender suas percepções em relação aos conflitos ambientais e os estudos dos mesmos
sobre a comunidade. Revelando assim, os limites e possibilidades da educação ambiental e
desejando ser protagonistas de movimentos por justiça ambiental que fortaleça Guariba.
O destino privilegiado de nossa pesquisa é a Amazônia, a maior floresta tropical do
mundo. A Amazônia das águas, das lendas, dos mitos, dos povos da floresta, da
biodiversidade, da pluriculturalidade, dos saberes e dos sabores, tem sido intensamente
debatida nacional e internacionalmente, devido a sua importância global em termos sociais,
ambientais e econômicos. O universo amazônico que retrataremos está longe da imagem
uniforme e monótona que muitos a caracterizam, é uma região extremamente pluralizada, a
Amazônia é, sobretudo, diversidade, de matas e de povos. “Há várias Amazônias na
Amazônia; há Amazônia dos rios de águas brancas e de águas pretas; há Amazônia dos
cerrados, dos manguezais e das florestas; [...] Assim como há Amazônia dos índios, caboclos
e seringueiros” (GONÇALVES, 2001 p. 09).
É oportuno ressaltar neste momento, o grande equívoco da ‘harmonia’ absoluta
clamada por alguns pesquisadores a floresta Amazônica. Sem a necessidade de recorrer à
teoria do caos, é notório, que os conflitos sociais ali existentes, não se divorciam dos
ambientais. Sublinhamos Euclides da Cunha (2000), quando denomina a Amazônia como
“Inferno Verde”, chamando-nos a atenção para outros significados da imensa floresta como,
surpreendente, misteriosa, extravagante e selvagem como os seus habitantes. De acordo com
este autor a Amazônia sempre teve o dom de impressionar a civilização distante, desde os
primeiros tempos da colônia, oscilando entre o paraíso e a destruição - entre os conflitos e as
belezas, é neste contexto que desejamos destacar a Amazônia, nas suas belezas e
biodiversidades incontestáveis, mas também na sua des-harmonia e des-ordem necessárias
para sua re-exitência.
Na dificuldade de convívio entre seus habitantes, a Amazônia tem se tornado palco de
disputas, conflitos e desigualdades. Na verdade, a luta, a violência e a resistência não são
novidades na realidade cotidiana da Amazônia. Vários momentos de confrontos, empates e
embates são vividos neste universo e narrados por várias bibliografias, mas sabemos que
embora com essa extensa literatura, não há teoria que consiga sintetizar o rico cenário que
reflete o universo da floresta.
Destacamos neste momento, a luta dos seringueiros, que a partir de 1975, começaram
a se organizar e buscar diferentes táticas de resistência. Foram criados os primeiros sindicatos,
alguns segmentos da Igreja Católica reforçaram a luta, assim como, estudantes, artista e os
movimentos sociais. Se índios e seringueiros haviam sido inimigos durante o primeiro ciclo
da borracha, agora se uniram para lutar contra um inimigo comum (AB’SABER, 1996). Essa
união entre os povos da floresta, além dos movimentos sociais e ambientalistas é marcada
fortemente pelo líder Chico Mendes, realizando os chamados “Empates”, que consistia na luta
de mulheres, crianças e homens, inteiramente desarmados com intuito de convencer os peões
que desmatavam as fazendas a abandonarem essa prática. Esse processo de resistência e luta
se deflagrou e o mundo todo começou a olhar a Amazônia com outras lentes. Embora com
toda essa visibilidade dada ao seringueiro Chico Mendes, não impediu que fosse assassinado
em sua própria casa. Mas sabemos que a luta continua, pulsando em toda a Amazônia, mesmo
com pouco eco, a re-existência da floresta persiste.
Mesmo a Amazônia sendo um dos principais focos do movimento ambientalista não
foi possível impedir a degradação de mais de 20% de seu território. Será este o destino que
desejamos para Amazônia e para o Brasil? Acreditamos que não. Desejamos dar valor à
floresta em pé, com suas biodiversidades e pluriculturalidade. Um exemplo destas propostas
são as Reservas Extrativistas, nascida no bojo da aliança entre os povos da floresta na defesa
dos seus espaços, mas esta proposta enfrenta enormes dificuldades de sustentabilidade e ainda
sofrem com a infiltração em suas áreas por alguns madeireiros e pecuaristas.
Em decorrência a grande devastação e deste modelo de des-envolvimento, várias
famílias de pequenos agricultores, seringueiros, quilombolas, ribeirinhos, beiradeiros e
caboclos foram expulsas de suas terras, além de, várias etnias perderam seus espaços
“sagrados” e mantém-se num processo de grandes disputas por terra, o que parece
incompreensível na Amazônia, ou ainda no Brasil, um dos países de maior extensão do
mundo.
Observa-se que essas são as sociedades marginalizadas com menor poder econômico,
marcados pela injustiça ambiental e impunidade. Evidenciando assim, o conceito da Rede
Brasileira de Justiça Ambiental (ACSERALD, 2004), que compreende a condição de
existência política tendenciosa, cujos danos ambientais sempre afetam os grupos de
trabalhadores, as populações de baixa renda, os segmentos raciais discriminados e as parcelas
marginalizadas que são mais vulneráveis da chamada cidadania. Infelizmente, nosso país
mantém fixo o desejo de ser um país de primeiro mundo, esquecendo que estes dizimaram os
diferentes, e vivem numa lógica de destruir-destruir, produzir-produzir, ganhar-ganhar, mas
isso para poucos, uma minoria que massacra a maioria.
A floresta tem cores e cheiros diferentes, qual o significado dela para um índio ou um
extrativista, para um madeireiro ou um pecuarista? E um rio para um ribeirinho e um
empresário? O modo de pensar, agir e sentir se diferencia, os povos da floresta vão tecendo
essa convivência interligada com todo; as matas, as águas, os solos e essencialmente os povos
que lá habitam (GONÇALVES, 2001).
Caminhando para um fosso de genocídios e etnocídios, destacamos o estado de Mato
Grosso (MT), conforme o Relatório Nacional de Direitos Humanos ao Meio Ambiente
(2005), em missão ao estado, a relatoria denuncia várias ações de opressão e impunidade a
ribeirinhos, que foram atingidos pela barragem da Usina de Manso; aos índios Xavante, que
perdem suas terra para o plantio de soja e aos Quilombos Mata Cavalo, invadidos pela
agropecuária (LEROY, 2005).
Mato Grosso, junto com mais oito estados compõe área denominada “Amazônia
Legal”. Com três importantes ecossistemas: Cerrado, Pantanal e Amazônia, o estado tem se
destacado por outros motivos. Destes ecossistemas, o que sobressai em extensão é a floresta
Amazônica, com 54% do território, mas infelizmente nosso cuidado ambiental é
desproporcional a este privilégio, fomos responsáveis por 48% do desmatamento ocorrido no
Brasil no período de junho de 2004 a julho de 2005 (BRASIL, 2005).
Seguindo esta lógica, o estado acumula outros títulos. É destaque internacionalmente
pelo agronegócio, como o maior produtor de soja e algodão do país, e consequentemente está
entre os estados que somam o temeroso Arco do Desmatamento, que consome a Amazônia. É
evidente a ligação do título de campeão do desmatamento e a maior exportador de soja do
país. Seguimos alimentando esse modelo econômico reproduzido historicamente, colocando
nossos povos e terras a serviço da lógica do mercado internacional. O atual governo estadual,
incorpora as falácias dos discursos nacionalistas da década de 70, compreendendo que é
preciso ‘integrar’ e limpar as terras, para não ‘perde-las’.
Este modelo é totalmente questionável, tanto nos aspectos ambientais, sociais e até
mesmo econômicos. Seguindo o raciocínio de Leroy et al (2002), independentemente do
crescimento do PIB (produto interno bruto) e da riqueza econômica, a crua realidade da
concentração absurda de renda não se modifica. Tanto em 1978 quanto em 1999, por
exemplo, os 10% mais ricos da população se apropriaram quase metade (47%) da renda
nacional. Não é a humanidade que está destruindo a Terra, são essas minorias, que vivem
segundo padrões de consumo completamente insustentável.
Há que se reconhecer, também, a existência de uma lógica triunfante e arrasadora na
implantação do capitalismo, com desdobramentos óbvios para a ecologia local. Para além da
crise atual em que vivemos, é preciso re-pensar este “(des)envolvimento”, questionando se
este é o único caminho a percorrer? Sato (2001) decifra esta palavra, afirmando que possui
uma significação histórica de avançar no sentido de maximizar potencialidades, desprezando
os “mais fracos”. Neste sentido, esse modelo, consegue grandes status na exportação, porque
deixa seus maiores custos para a sociedade local. Em contraposição a este modelo de
(des)envolver, desejamos o envolvimento e engajamento na luta por sustentabilidade dos
nossos territórios, com equidade social e proteção ambiental, e acima de tudo respeito pelas
diferenças.
As evidências deste modelo nefasto de desenvolver, estão estampadas nos altos
índices de desigualdades sociais e misérias que nos deparamos, assim como nos mosaicos de
imagens de satélites (figura 1) podemos observar o desastre que está ocorrendo.
Figura 1: Desmatamento no noroeste do estado de MT
Fonte: INPE, 2006
Os pontos amarelos, revelam o avanço do desmatamento na região noroeste do estado,
sinalizado pelo município de Colniza, considerado o município campeão do desmatamento no
estado de MT no ano de 2004. A primeira imagem é do ano 2000, pode-se observar que no
noroeste do estado havia uma área ainda preservada, após quatro anos, com avanço da
exploração madeireira e posteriormente da fronteira agrícola no norte e noroeste do estado, o
mapa passa a ter mais pontos amarelos do que verdes. Inspirados nas palavras de Boff (2003,
p.24), “o dado mais grave que se esconde na falta de cuidado é a perda de conexão com o
todo; o vazio da consciência que não mais se percebe parte e parcela do universo; e a ausência
da percepção da unidade de todas as coisas”.
Nosso recorte no universo amazônico é justamente nesta região de enormes conflitos
ambientais. No município de Colniza, noroeste do estado de Mato Grosso, mais
especificamente na vila de Guariba, circundada pela Reserva Extrativista Guariba &
Roosevelt (RESEX G&R) que, mesmo sendo uma área protegida por lei não impede o avanço
da destruição. Além disso, suas fronteiras não são ideais, desde que a área de proteção não
acolhe a maioria dos seringueiros do local.
Na Resex G&R, durante muitos anos, a principal atividade econômica foi à extração
do látex. “Hoje estamos vegetando aqui”, suspira um seringueiro, que lamenta não ter mais
para quem vender a borracha. Muitos que habitam na resex, são filhos dos ‘soldados da
borracha’, que foram para Amazônia na década de 40, durante o segundo ciclo da borracha.
Nesta época o governo incentivou a migração nordestina a Amazônia. As propagandas eram
intensas: passagem ida e volta se quisessem desistir, 35 mil cruzeiros parar o melhor
seringueiro do ano e dois salários mínimos de aposentadoria (FRM, 2005).
Ao fim do conflito, em 1945, os migrantes que sobreviveram às durezas da selva
foram esquecidos. E ainda hoje, continuam enfrentando dificuldades para manterem a cultura
do extrativismo, buscam alternativas de renda como o óleo de copaíba e a coleta de castanha
do Brasil, mas vendem esses produtos a atravessadores por preços ínfimos, devido à
precariedade das estradas e isolamento. Apesar da maioria deles já não extraírem o látex da
seringueira, ainda se reconhecem como ‘seringueiro’, são suas identidades, seus modos de
vida e suas esperanças de voltarem às atividades praticadas por muitos anos. Esses são os
últimos extrativistas “sobreviventes” do nosso estado, buscamos mais uma vez as teorias de
Euclides da Cunha (1994, p. 59), quando traz a analogia entre sísifo e seringueiros, “o
seringueiro é um solitário, perdido no deserto da floresta, trabalhando para se escravizar. Cada
dia num seringal corresponde a uma empreitada de Sísifo – partindo, chegando e novamente
partindo pelas estradas no meio da mata, todos os dias, num eterno giro de encarcerado numa
prisão sem muros”.
Este microcosmo amazônico, consegue refletir as injustiças ambientais corriqueiras no
nosso país. Muitos seringueiros em todo país, travam uma luta desumana contra
desenvolvimento perverso que invade suas áreas, com o desmatamento, queimadas e o avanço
da fronteira agrícola, alimentando o ciclo vicioso de destruição. As consequências dessas
injustiças e descasos são cruéis, no caso dos seringueiros da Resex G&R, alguns dos seus
habitantes estão se sucumbindo a este modelo e facilitando a invasão de suas terras.
Em algumas narrativas, os seringueiros, nos revelam que o impacto ambiental causado
pelo desmatamento é o mais preponderante. Admitem que sem a floresta não tem como viver,
e que estão perdendo espaços para os madeireiros, em seguida os pecuaristas e depois para
monocultura. Em contradição, alguns afirmam que a venda de madeira se torna inevitável,
afinal, é preciso “sobreviver”.
Como evitar que este tipo de situação ocorra? Um dos caminhos, é voltarmos mais
nossos olhares a essas comunidades, que muitas vezes são abandonadas pelo poder público, e
acabam tomando atitudes como estas. Cabe, por isso, ressaltar a violência histórico-cultural
institucionalizada, pelo Estado, que permite a violência, sustenta e ainda a promove.
Acreditamos que a união do setor governamental e sociedade civil são fundamentais para
formulação de políticas públicas que fortaleçam esses modos de vida, que “são movimentos
de re-existência, posto que não só lutam para resistir contra os que matam desmatam, mas por
uma determinada forma de existência, um determinado modo de vida e de produção, por
modos diferenciados de sentir, agir e pensar” (GONÇALVES, 2001 p. 130).
Além desse caminho apontado, é imprescindível a participação ativa da comunidade,
mas para tal participação, há que se criarem mecanismos educacionais eficientes que
realmente incentivem o exercício de cidadania da comunidade para a manutenção dos
ambientes (SATO & PASSOS, 2002).
Neste sentido, a Educação Ambiental (EA) emerge como elo importante no processo
de transformação. Mas como poderemos colaborar com esta comunidade? Qual a percepção
desses seringueiros em relação aos conflitos ambientais? Se sentem injustiçados? Quais
histórias possuem? Quais influências o ciclo da borracha marcou nesta gente? E de que forma
os dilemas de ordem sociais e ambientais são percebido para melhor proteção ecológica e
promoção da justiça ambiental? Mesmo sabendo que não conseguiremos responder todas
essas questões, continuamos na luta desejando uma comunidade sustentável, capaz de
repensar valores para um mundo mais equitativo, com solidariedade, cidadania e justiça
ambiental.
Itinerário da pesquisa
Esta pesquisa, compõe o quadro multidisciplinar do Projeto Biodiesel Guariba, uma
parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso, Eletronorte e Uniselva. Esta parceria é
financiada pelo “Programa Luz para todos”, do governo federal, que tem como meta levar
energia a todas as comunidades brasileiras até o ano de 2008. Além da geração de energia,
busca alternativa para matriz energética do nosso país, neste caso a produção através da
biomassa.
De acordo com Goldemberg (1998), o consumo de biomassa (4% de média mundial e
27% de representação nacional) ainda é altamente inferior ao consumo de petróleo (42% no
mundo e 46% no Brasil). Porém, recentemente foi decretada pelo governo federal brasileiro,
a mistura de 2% de biodiesel no óleo diesel, no decorrer do tempo, essa mistura será de 5%, e
possivelmente o porcentual aumentará gradativamente, ampliando o mercado existente na
área de biodiesel.
Em sintonia a este incentivo, o projeto promove a geração de energia com biomassa,
sem negar suas responsabilidades com a transformação social desejada. Com quatro áreas:
Química, Economia, Agronomia e Educação Ambiental, o projeto deseja o empoderamento
da comunidade de Guariba. Em especial ao componente da EA, temos identidade na luta pela
construção de sociedades sustentáveis, capaz de repensar valores para um mundo mais justo e
solidário.
É no campo da EA que depositamos nossas esperanças, nossas angústias e nosso mais
profundo desejo de transformação. Entretanto é imprescindível que saibamos de qual EA
estamos falando, pois como em todos os campos epistemológicos existem várias tendências e
olhares interpretativos. Nosso olhar se direciona a uma EA crítica, visceralmente
acompanhada de outros adjetivos como: libertadora, transformadora e política.
Entendemos a EA como um eterno re-inventar da vida, um processo permanente de
aprendizagem, movida nas lutas políticas por justiça ambiental, proteção ecológica e
incontestavelmente à democracia. Para Sato (1999) a EA deve ser projetada sobre as
realidades locais e globais, abrangendo os principais espaços da sociedade civil, das diversas
instituições e do Estado, com relevância na compreensão de que a relação “ser humano natureza” é mediatizada pelas relações na sociedade e representa um ponto central na
capacidade de ação ética, educativa e comunicativa, que permita a construção de um mundo
mais justo e igualitário.
Para isso, acreditamos ser necessário a formação da comunidade escolar de Guariba,
que está em pleno desenvolvimento pela equipe de EA, devemos ainda promover a formação
comunitária, ponto básico que possa oferecer o empoderamento político dos habitantes de
Guariba. A geração de energia deve ser fundamentada na proposição de inclusão social que
favoreça pleno exercício da democracia.
Em outras palavras, é preciso possibilitar um olhar crítico na formação dos sujeitos
para que estes se apropriem do projeto e que pautados no desejo de emancipação, possa se
valer do controle social e participação para melhor benefício da geração de biodiesel. Numa
perspectiva de Freire (1987) de emancipação do sujeito, em que todo ato de liberdade implica
num ato de invenção, de política e de arte, com incidência do conhecimento humano. É
através da mediação pedagógica da Educação Ambiental que a equipe se direciona, na
ancoragem de avaliar e ser avaliada - de envolver e ser envolvida na dinâmica do habitat de
Guariba, no recorte biogeográfico que lhe confere uma história de lutas e de justiça ambiental.
Com este olhar crítico e fenomenológico, vamos tecendo esta pesquisa numa
abordagem qualitativa. Favorecemos este caminho por permitir maior aproximação com os
sujeitos envolvidos, resgatando as conversas e história da localidade, levando em
consideração que as percepções não são vazias, estão arraigadas de memórias e experiências.
De acordo com Merleau-Ponty (1999), perceber não é experimentar um sem-número de
impressões, é ver jorrar de uma constelação de dados um sentido imanente sem o qual
nenhum apelo às recordações seria impossível. Neste sentido, a história oral vem
complementar a metodologia, segundo Ruscheinsky (2005, p. 140) a “história oral possibilita
conhecer fatos corriqueiros do cotidiano, leituras precárias ou peculiares, além de sua origem
e desenvolvimento”.
Recorreremos à fenomenologia e a história oral, para interpretar as narrativas dos
seringueiros, assim como para compreender os conflitos ambientais na região. Sabemos que
esses conflitos têm histórias, não conseguiremos compreendê-los sem re-visitar o passado
desta comunidade.
O exercício de pensar no tempo, de pensar a técnica, de pensar o
conhecimento enquanto se conhece, de pensar o quê das coisas, o para quê, o
como, o em a favor de quê, de quem, o contra quê, o contra quem são
exigências fundamentais de uma educação democrática à altura dos desafios
do nosso tempo. (Freire, 2000. p.52)
Nesta perspectiva Freiriana, vamos conhecendo e sendo conhecidos pelos
seringueiros, compreendendo suas percepções em relação aos conflitos ambientais e os
estudos dos mesmos sobre a comunidade, dando visibilidade a estas travessias conflitantes.
Revelando assim os limites e potencialidades da EA e desejando ser protagonistas de
movimentos por Justiça Ambiental que fortaleça Guariba.
Nessas viagens realizadas ao universo amazônico, não há racionalidade que segure as
lágrimas correndo pelas faces - sejam pelos integrantes do Grupo Pesquisador em Educação
Ambiental (GPEA), sejam nas vozes dolorosamente narradas pelas cicatrizes destas vidas.
Um sentido de impotência nos chega sorrateiramente, e simultaneamente este mesmo
sentimento nos impulsiona para lutar mudando cenários. Agarramo-nos à EA como
possibilidade de mudança, ainda que se reconheça que ela não pode tudo. Mas não podendo
tudo, ela poderá transformar alguma coisa. Ainda que emergencial, as mudanças do mundo só
serão realizadas se a proposta for processual no ritmo e dinâmica da própria vida amazônica.
São viagens neste microcosmo de florestas, águas, terras e queimas que possibilitam, ainda, a
nossa esperança.
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