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AS MULHERES FORRAS E AS PRÁTICAS EDUCATIVAS DESENVOLVIDAS NOS
ESPAÇOS DE SOCIABILIDADE DA VILA DE SÃO JOÃO DEL-REI: IMPORTANTES
RELAÇÕES DE MESTIÇAGENS CULTURAIS
Kelly Lislie Julio
Universidade Federal de Minas Gerais
RESUMO
A presente comunicação procura apresentar as primeiras considerações desenvolvidas no mestrado
referente ao processo de mestiçagem cultural desenvolvido pelas ex-escravas na vila de São João delRei durante o início do oitocentos. A partir da apropriação das regras e padrões estéticos voltados para
a aproximação com as nações européias, em especial a França, essas mulheres buscavam se inserir no
mundo dos brancos e, ao mesmo tempo, manter suas tradições. Esse processo, realizado nos espaços
de sociabilidade da vila onde através convivência das diversas camadas sociais poderia haver a
transmissão de variados conhecimentos, é entendido como prática educativa, na qual a partir das
diversas relações ali estabelecidas, os elementos e atitudes uma vez criados ou ali presentes poderiam
ser reconstruídos, superpostos, misturados, interpretados e adaptados. Para a realização dessa pesquisa
têm sido utilizados os testamentos e inventários das ex-escravas, das mulheres brancas e dos
comerciantes produzidos na sede da Comarca do Rio das Mortes, entre 1808 e 1840. Os inventários
permitem, por meio dos bens ali inscritos, os utensílios, as ferramentas, as jóias, as cores e formas dos
objetos, estudar e entender o cotidiano, as trocas, as apropriações e misturas efetivas no vestuário, nas
imagens e imaginários das ex-escravas através das práticas educativas desenvolvidas nos espaços de
sociabilidade são-joanense. Para isso, tem sido feita uma comparação entre os pertences encontrados
nos inventários dessas mulheres, além dos bens apresentados nos dos comerciantes a fim de perceber
as possibilidades de circulação de objetos e de seus usos por meio do comércio. Já os testamentos
trazem a possibilidade de perceber, através das suas disposições e pertences, a incorporação por parte
das forras, de costumes e atitudes considerados próprios das nações européias o que pode significar
um comportamento se não de toda a sociedade da época, pelo menos do grupo do qual estas mulheres
forras faziam parte. Além dessas fontes, os relatos de viagens e a iconografia do período em questão
fazem parte dos documentos pesquisados. É importante ressaltar que essas produções não são tomadas
como a expressão da realidade, mas uma interpretação de viajantes sobre os lugares, pessoas,
costumes e atitudes considerados, muitas vezes, como “misteriosos” e “exóticos”, ou seja,
impregnadas das suas visões de mundo. Entretanto, considero-as importantes, pois podem trazer
indícios significativos para entender o cotidiano vivido naquele período. Uma última fonte serão os
jornais produzidos na vila a fim de conhecer os discursos presentes no período em que buscavam
difundir um padrão estético que deveria ser seguido tendo em vista o modelo de civilização europeu.
Esses periódicos buscavam não só informar, mas também formar opiniões e posturas em seus leitores
e, para isso, traziam os mais variados temas, tais como, a moral, a política, os padrões de beleza e a
moda. Para essa pesquisa tem sido realizada uma investigação bibliográfica referente à história das
mulheres, das mulheres negras e da educação das mulheres. Além dessas produções, um exame
sistemático dos trabalhos realizados sobre a vila de São João del-Rei, o seu comércio, suas festas,
enfim sobre o seu cotidiano, a sua realidade social, econômica, religiosa e cultural tem sido feito, pois
são referências importantes no entendimento do contexto em que estavam inseridas as práticas,
posturas, atitudes e costumes das pessoas da vila. A partir dessas leituras procura-se estabelecer um
diálogo entre esses escritos e as fontes pesquisadas a fim de conhecer os indícios capazes de
demonstrar o processo de mestiçagem cultural desenvolvido pelas ex-escravas e suas filhas. O período
escolhido – 1808 a 1840 – toma como marco inicial a vinda da Corte, quando há um aumento da
influência estrangeira, já que com a abertura dos portos, tornam-se mais visíveis aspectos do modo de
vida europeu, especialmente das elites. Sofrendo essa influência mais diretamente, o Rio de Janeiro
irradiou-a para outros lugares, entre os quais a Vila de São João Del Rei, graças, por exemplo, aos
contatos comerciais. O segundo marco se deve ao fato de que a partir de 1840 estamos efetivamente
no segundo reinado e a relação estabelecida entre o Brasil e a Europa é de outra natureza. Há,
progressivamente, uma luta contra os interesses lusitanos na política brasileira e, conseqüentemente,
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nos outros campos. Em relação às modas, têm-se pouco a pouco, a construção de um discurso no qual
busca-se diminuir as imitações das modas estrangeiras, passando a ser visto como algo impróprio
imitar no traje aos estrangeiros. Até o presente momento, as fontes pesquisadas têm demonstrado um
processo de mistura, desenvolvido a partir da prática educativa existente na observação apropriação e
recriação das posturas, objetos e costumes das mulheres brancas pelas forras, mas também, momentos
de impermeabilidade, no qual elementos próprios da sua cultura de origem são mantidos. Percebe-se
também, que estas mulheres, muitas vezes conseguiam uma determinada ascensão econômica, mesmo
quando não obtinham ascensão social, já que traziam a marca da escravidão.
TRABALHO COMPLETO
Esta comunicação tem como objetivo trazer algumas considerações de um estudo mais amplo
em desenvolvimento no mestrado. Inserida nas discussões a respeito da História da Educação do
oitocentos, mais especificamente, das práticas educativas não-escolares, esses primeiros resultados faz
referência ao processo desencadeado pelas mulheres forras e suas descendentes, nos primeiros anos do
século XIX, na Vila de São João del-Rei. Acredita-se que, a partir dos contatos estabelecidos nos
espaços de sociabilidade da referida Vila, poderia haver um processo de aprendizagem tendo como
base o trânsito de conhecimentos, costumes e práticas. Para essa comunicação, busca-se entender as
trocas, apropriações e misturas observadas no vestuário e nas atitudes das ex-escravas e suas
descendentes, desenvolvidas em conseqüência dos contatos estabelecidos nos lugares comuns a todos
os segmentos.
As fontes utilizadas serão os testamentos e inventários produzidos entre 1808 e 1840 na sede
da Comarca do Rio das Mortes, um periódico são-joanense intitulado “O Mentor das Brasileiras”,
desenvolvido entre 1829 e 1832, além de trabalhos a respeito da Vila de São João del-Rei. A limitação
do período – 1808 a 1840 – toma como marco inicial a vinda da Corte portuguesa para o Brasil,
momento em que há um aumento da influência estrangeira, já que com a abertura dos portos, tornamse mais visíveis aspectos do modo de vida europeu, especialmente das elites; e se encerra em 1840
pois, é a partir desse período que o Brasil vive efetivamente o segundo reinado, produzindo uma
relação com a Europa de outra natureza. Além disso, é, nesse momento que, especificamente, em
relação ao vestuário, têm-se pouco a pouco, a construção de um discurso no qual busca-se diminuir as
imitações das modas estrangeiras, passando a ser visto como algo impróprio imitar no traje aos
estrangeiros.
Inicialmente faz-se necessário realizar uma breve contextualização da Comarca do Rio das
Mortes e a sua sede para, mais à frente, discutir um pouco sobre o tema pesquisado. Conforme Afonso
de Alencastro Graça Filho, “a criação da Comarca do Rio das Mortes remonta ao Alvará de 06 de abril
de 1714, que regulava a divisão da Capitania de Minas Gerais em três comarcas: a de Vila Rica (Ouro
Preto), Vila Real do Sabará (Rio das Velhas) e Rio das Mortes (São João del-Rei), para as quais o
governador da Capitania já havia nomeado ouvidores. Supõe-se, portanto,que essas três grandes
comarcas já existiam legalmente antes do citado alvará”1. Os primeiros desbravadores da região que
compunha a Comarca do Rio das Mortes foram os bandeirantes que vinham de São Paulo e do Rio de
Janeiro para as comarcas de Sabará e Vila Rica, nos anos iniciais de exploração aurífera, entre o final
no século XVII e o início do século XVIII. Foi em um desses locais de passagens obrigatórias,
denominado Porto Real da Passagem, onde o paulista Tomé Portes del Rei, que exercia o direito de
cobrança pela travessia do rio das Mortes, que se formaram as primeiras povoações, São João del-Rei
e São José del-Rei, hoje cidade de Tiradentes.
A Comarca do Rio das Mortes teve, durante a sua formação e afirmação, algumas
particularidades em relação às demais comarcas que compunham a Capitania de Minas Gerais. As
atividades nela desenvolvidas foram fortemente influenciadas pelas características naturais e também
pelos caminhos que por ela passavam e que se faziam obrigatórios.
Além desses fatores, outra peculiaridade da referida comarca está no fato de ela, conforme
Kenneth Maxwell, em fins do século XVIII, ser “povoada pela maior parte dos homens brancos e
quase a metade do número total das mulheres brancas de Minas Gerais” 2. A explicação para isso seria,
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segundo Alexandre Cunha e Marcelo Godoy, “o predomínio do comércio e da criação de gado, que
necessitavam em menor escala do recurso à mão-de-obra escrava”3.
Entretanto Graça Filho, ao apresentar as suas considerações sobre a formação populacional da
Comarca do Rio das Mortes, diz que entre 1776 e 1821, “o número de negros e mulatos no Rio das
Mortes passou de 21% para constituir 35%”4. Esses números, conforme o autor, representariam o
aumento demográfico da comarca que teria sido destacado pelo pesquisador norte-americano Kenneth
Maxwell. Segundo esse autor a elevação do número populacional teria tido a contribuição da
“mudança da população para o sul [de MG, o que] indicava profunda alteração das funções e da
economia de Minas Gerais, após a década de 1760. O declínio de Vila Rica e a ascensão do sul
refletiam a queda do papel dominante da mineração e a crescente importância das atividades agrícolas
e pastoris (...) [o que não significa] que qualquer uma delas (...) jamais tivesse sido excludente em
relação à outra”5.
Conforme GRAÇA FILHO, a “Comarca do Rio das Mortes destacou-se como área
abastecedora de alimentos para a província do Rio de Janeiro desde as primeiras décadas do século
XIX” 6. Entretanto, a ligação econômica, política e cultural com a Corte remontam a tempos mais
distantes. Intermediadas por negociantes, as duas regiões – Rio das Mortes e o Rio de Janeiro– tinham
um contato que foi intensificado com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil.
São João del-Rei era a sede da Comarca do Rio das Mortes. E, conforme Raimundo José da
Cunha Matos, “foi elevada à categoria de vila (...) pelo Governador e Capitão-General D. Brás
Baltasar da Silveira, no dia 8 de dezembro de 1713; (...) e a cabeça da comarca em 6 de abril de
1714”7. O seu título de cidade foi dado, segundo Graça Filho “pela lei provincial nº 93, de 6 de março
de 1838”8. Segundo Mafalda Zemella, citada por Graça Filho, o povoamento de São João del-Rei
“tivera início com as fazendas de cultura e criação, estabelecidas às margens do rio das Mortes,
famoso pelo episódio da ‘Guerra dos Emboabas’. Até o descobrimento do ouro de aluvião neste rio,
por Tomé Portes del-Rei fora uma região agrícola pastoril. Passada a sua época mineradora (...)
retornaria à economia agrícola e à pecuária”9.
Devido à proximidade entre a sede da Comarca do Rio das Mortes e a fronteira com o Rio de
Janeiro, a Vila de São João del-Rei servia como pouso na rota das minas e centralizava as exportações
de diferentes regiões da província10. Essa circulação de pessoas fazia com que a Vila apresentasse uma
realidade urbana bastante movimentada, na qual além das mercadorias e “novidades” vindas de outros
centros urbanos e de alguns países, circulasse também idéias, costumes, comportamentos e práticas.
Como foi dito anteriormente, a vinda da Corte portuguesa para o Brasil provocou uma
elevação do fluxo comercial entre a província do Rio de Janeiro e a Vila são-joanense. Segundo John
Luccock, viajante inglês que visitou São João del-Rei em 1818, “o comércio com o Rio era regular,
consistindo em quatro tropas, com cerca de cinqüenta mulas, que perfaziam oito jornadas por ano”11.
Dessa regularidade comercial se abastecia as lojas da Vila são-joanense de artigos importados12 e
variadas mercadorias que eram recebidas para serem novamente reexportadas13 e consumidas pelos
seus moradores. Juntamente com esses contatos comerciais, as relações políticas, culturais, sociais e
religiosas também se intensificaram. A elite intelectual da Vila de São João del-Rei recebia as
influências vindas da então sede do império português que, por sua vez, não somente pela chegada da
corte, mas também pela abertura dos portos, auferia novos hábitos e modos de pensar, viver e trajar da
cultura européia. O que se percebe é que o interesse de aproximação cultural com as nações européias,
sobretudo a França existente desde o século XVIII, se intensifica no século XIX agora acelerado por
meios de difusão, como a imprensa e a propaganda, além do comércio e de práticas em espaços de
sociabilidade tipicamente urbanos.
É nesse período que há, aqui no Brasil, uma maior valorização do discurso iluminista do
século XVIII, além de idéias como a de que as mulheres seriam uma das principais civilizadoras da
nação a partir da educação dos seus filhos. É também nesse instante que se intensifica uma concepção
de educação feminina voltada para a eleição de qualidades – como, por exemplo, a modéstia, o recato qualidades estas que deveriam ser partes inerentes das mulheres que seriam as esposas e mães dos
cidadãos que, por suas vezes, levariam o Brasil ao desenvolvimento e à civilização. Sendo assim,
fatores como o comportamento e o modo de vestir, que valorizassem essas qualidades, quando
colocados em prática, poderiam significar status e poder.
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Assim, além das consideráveis mudanças de ordem política, social e econômica
desencadeadas pela vinda da Corte, “as idéias filosóficas, políticas e educacionais francesas do século
XVIII são tomadas como modelos de orientação pelas pessoas responsáveis do país [e
conseqüentemente da Vila de São João del-Rei]. A partir da crença generalizada de que [os franceses]
viviam o auge da civilização, mais a propagação de ideais liberais de que a educação e a instrução
deviam ser estendidos à toda sociedade (...) cria-se quase uma unanimidade em torno da idéia de que a
sociedade não evolui se não cuidar também da educação feminina e não habilitar a mulher para
participar, junto com o homem dos progressos da técnica e das ciências.”14
A partir dessas idéias, pouco a pouco, o discurso por meio do qual buscava-se difundir um tipo
de mulher ideal, construía regras e padrões nos quais as mulheres deveriam modificar suas escolhas,
posturas e condutas visando uma formação civilizada que acabaria se refletindo no exercício dos seus
papéis sociais. Essas regras e padrões, construídas pela Igreja, o Estado, ou pela elite intelectual eram
difundidos por variadas instituições, dentre elas a recém-chegada imprensa que, exercendo uma função
educativa buscava não somente formar a opinião pública, mas, também, difundir uma civilidade15.
Dentre os variados periódicos na Vila de São João del-Rei16 que tentavam propagar os ideais
de civilização que então perpassava o imaginário das pessoas e instituições no período, poderíamos
citar como exemplo “O Mentor das Brasileiras” produzido entre 1829 e 1832, que, preocupado em
construir e propagar um tipo ideal de mulher difundia, através dos seus escritos, um discurso
ordenador que trazia normas de civilidade, a fim de empreender nas mulheres da elite uma formação
moral, intelectual e estética, esta última no que diz respeito às modas e a construção de um padrão de
beleza.17
Mas também, essas regras e padrões poderiam ser difundidos através da convivência entre as
pessoas nos espaços de sociabilidade. Esses espaços poderiam ser as festas (cívicas ou religiosas), os
passeios aos domingos com as famílias, o comércio diversificado da Vila, os encontros religiosos,
além das irmandades leigas ou ordens terceiras. Era nesses locais que poderia haver uma difusão dos
padrões europeus, onde os discursos e ideais civilizadores poderiam ser difundidos de uma maneira
mais ampla, e às mulheres da elite são-joanense mais especificamente. A partir das relações
estabelecidas nesses espaços de convivência, os ideais de civilização então em voga poderiam ser
transmitidos. Além disso, seria nesses espaços que os discursos e idéias poderiam ser percebidos em
sua materialidade, seja a partir de uma postura mais requintada ou na sofisticação do trajar, já que com
os hábitos e costumes “civilizados” trazidos pela Corte, a abertura dos portos e a influência
estrangeira, modifica-se o modus vivendi de algumas áreas urbanas, tais como ocorreu na vila de São
João del-Rei18.
É sabido que discursos e ideais civilizadores foram difundidos por e para as mulheres da elite
oitocentista. Esses discursos, propagados através das variadas instituições religiosas ou civis, poderiam
ser apreendidos, ou melhor, percebidos, nas suas posturas e atitudes desenvolvidas a partir das idéias
civilizadoras, como por exemplo, a valorização do título de esposa e mãe, mas também a partir dos
objetos que elas usavam em seu cotidiano.
Da mesma forma que as demais pessoas que compunham a realidade urbana da Vila, essas
“novas” mulheres, mesmo que não pertencessem ao número populacional de São João del-Rei, ou
seja, que não morassem nos limites da Vila, de alguma forma pertenciam ou freqüentavam seus
espaços de sociabilidade, como por exemplo, as irmandades. Conseqüentemente, ao freqüentar os
lugares comuns a pessoas de variados segmentos sociais, as mulheres da elite poderiam trazer consigo
aquelas posturas, práticas e atitudes consideradas civilizadas, além dos objetos que remetiam àquela
civilidade de matriz européia, tais como o vestuário, suas cores, os tecidos utilizados, além de
ornamentos e jóias. Nesse ambiente urbano, esses padrões poderiam ser compartilhados com outras
pessoas, tais como as ex-escravas e suas descendentes que, mesmo não pertencendo aos mesmos
segmentos sociais, ao freqüentarem os mesmos espaços de sociabilidade da Vila, como as
irmandades19 ou o comércio, poderiam sofrer as mesmas influências advindas das normas de
civilidade e participar do trânsito cultural.
Conforme Eduardo França Paiva, “os encontros pessoais, materiais e culturais foram
inevitáveis e corriqueiros”20. Da convivência entre as mulheres da elite e as forras e as suas
descendentes resultou um processo de “aproximação entre universos geograficamente afastados, em
hibridismos e em impermeabilidades, em (re)apropriações, em adaptações e em sobreposição de
representações e de práticas culturais”21. Tal processo se tornou possível, pois a parcela de
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contribuição não se deu apenas pela parte das mulheres da elite, mas também pela apropriação que
estas últimas fizeram de costumes, práticas e posturas das negras e suas descendentes que, ao transitar
pelos espaços da Vila, traziam crenças, tradições, visões de mundo, objetos e enfeites que remetiam à
cultura africana. Esse processo pode ser entendido como o que Serge Gruzinski chamou de fenômenos
de misturas culturais resultantes do “vaivém dos empréstimos”22, de um processo de interação, no qual
há o surgimento de novos mundos em um novo mundo.
Esse procedimento de mestiçagem cultural, de convivência dos variados segmentos sociais,
especificamente, de coexistência de grupos femininos distintos, poderia ser entendido como um
processo educativo. Isso porque, a partir dos contatos entre as diversas camadas sociais e tradições
culturais, processava-se o trânsito de conhecimentos, costumes e práticas que teria a faculdade de se
configurar como prática educativa, já que, dos encontros de culturas diferentes, no bojo das relações
estabelecidas, seria possível ocorrer as apropriações, interiorizações e re-elaborações, pelas exescravas e suas descendentes, dos discursos e ideais civilizadores difundidos por e para as mulheres da
elite são-joanense. Assim, dos processos de aprendizagem e da adoção de funções pedagógicas nas
práticas sociais e culturais que se desenvolviam nos espaços de sociabilidade, os elementos e atitudes
uma vez criados ou ali presentes poderiam ser reconstruídos, misturados, interpretados e adaptados.
Nesse sentido, os espaços de sociabilidade promoveram os contatos cotidianos entre diversos
segmentos da população, e, ao mesmo tempo, possibilitaram a ocorrência de práticas educativas, ou
seja, o contínuo processo de socialização, troca e produção de referências sociais e culturais e de
conhecimentos que seriam percebidos a partir das apropriações e re-elaborações dos objetos, das
posturas, costumes das mulheres da elite pelas ex-escravas e suas filhas. O entendimento desses
processos como práticas educativas decorre do fato de que, nas condições espaço-temporais
específicas dessa reflexão, as trocas e apropriações ocorriam no âmbito de um discurso civilizador e
ordenador, que visava, claramente, promover uma educação para a civilização e para o progresso,
tendo as mulheres como um de seus alvos privilegiados. É nesse quadro que se pretende analisar tais
movimentos culturais.
Acredita-se que essa mistura se deveu, em grande parte, à tentativa, por parte das mulheres
forras e suas descendentes, de construir para si uma posição diferenciada que as afastasse do mundo da
escravidão, do qual tinham saído. Assim, ao tentar se afastar da antiga condição de escravas ou
diminuir o estigma que carregavam – que incluía também a sua cor - essas mulheres forras buscavam
meios para se aproximar do mundo dos brancos e, com isso, “minorar a humilhação de serem
confundidas com escravas, de terem que apresentar suas cartas de alforria para comprovarem sua
liberdade e de sofrerem restrições e interdições legais destinadas a todos os não brancos. Para se
oporem a tal labéu, elegeram cores, roupas e adereços específicos...”23 que fizeram parte de um
movimento que resultou nas apropriações e misturas dos trajes, mas também dos valores e posturas.
As mulheres forras e suas descendentes – apropriações, misturas e re-elaborações.
Eu Ana Maria de Jesus filha natural de Maria Nunes de Ramos (...) sou
natural e batizada na Capela de São Miguel do Cajuru, hoje Freguesia, casada com
Joaquim Fernandes da Silva, de cujo matrimônio tivemos [cinco filhos] (...) Declaro
que sou irmã da Irmandade da Senhora das Mercês desta Vila, em cujo hábito quero
ser amortalhada e meu testamenteiro pagará tudo quanto eu dever a mesma
Irmandade (...) O mesmo fará com a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, de
quem também sou irmã24.
Eu Helena Maria da Silva (...) natural de Lagoa Dourada da Freguesia da
Senhora da Conceição dos Prados, filha natural de Maria da Silva, preta forra (...)
casada à face da Igreja com Florêncio Marques Lima, de cujo matrimônio não
tivemos filhos (...) [antes] tive duas filhas (...) Meu corpo será envolto em o hábito
do patriarca São Francisco de quem sou indigna irmã professa (...)25.
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Eu Francisca Maria de Neves filha natural de Francisca Maria da Graça,
falecida, nascida, batizada e moradora nesta [Vila de São João del-Rei] (...), solteira
e sem herdeiros. (...) Quero que o meu corpo [seja] amortalhado em hábito de São
Francisco de suja ordem sou irmã professa (...) e sepultado no cemitério da
Venerável Ordem Terceira do Carmo a quem deixo de esmola pela sepultura trinta
mil réis...26
Os trechos apresentados acima foram retirados das cópias dos testamentos registrados nos
inventários destas mulheres. As duas primeiras descendentes de ex-escravas, como veremos a seguir,
conseguiram uma determinada condição econômica. Casadas, a face da Igreja, deixaram para a sua
descendência, não só uma maior tranqüilidade financeira, como também, conseguiram construir
relações sociais com pessoas importantes da Vila.
Assim é o caso Ana Maria de Jesus. Em seu inventário é possível encontrar uma relação de
dívidas que ela e seu marido ainda tinham para receber. Entre os devedores havia oficiais mecânicos,
como pedreiros, paneleiras, fiadeiras, mas também, pessoas com patentes militares, como é o caso do
Alferes Silvestre Correa de Carvalho, que os devia de empréstimos. Esses dados nos permitem
perceber não só uma intricada rede de relações sociais que gerava formas de convivência, mas também
estratégias engendradas para uma melhor adaptação ao sistema escravista27.
Ana Maria de Jesus era mulher parda, mas não se identificou como tal no seu testamento,
indício de uma estratégia que, conforme Furtado, era utilizada para o esquecimento de suas origens,
numa sociedade em que a condição dos antepassados dizia mais sobre um indivíduo do que sua
trajetória de vida28. A informação da sua cor só pode ser obtida por meio das Listas Nominativas29 de
1831. Pelo monte-mor do seu inventário, 2:544$435, é possível perceber que ela conseguiu certa
ascensão econômica30. Entretanto, ao contrário de Helena Maria Silva, moradora no Termo de São
José, também descendente de escravos africanos, Ana Maria de Jesus não chegou a pertencer a uma
irmandade mais elitizada, como a de São Francisco, não obstante de sua ascensão econômica. Entre
suas posses, havia dois escravos e, expressão da sua religiosidade, um oratório particular. Ainda que
não tivesse tido um reconhecimento social da sua ascensão econômica, por meio da admissão em uma
irmandade como a de São Francisco, utilizava-se de outros meios para demonstrar, ou melhor, para se
aproximar dos valores e costumes dos segmentos dominantes da sociedade. Conforme Paiva, a
condição de forro, induzia a um “embranquecimento” dos valores e atitudes, o que vemos acontecer
com Ana Maria de Jesus, pois ao se tornar proprietária de escravos e exteriorizar a sua religiosidade, o
seu pertencimento à fé católica, ela demonstrava a absorção de visões de mundo e costumes
dominantes31.
Helena Maria da Silva, por sua vez, era filha de preta forra, casada e mãe de duas filhas
nascidas antes do seu casamento. Seus bens foram avaliados em 1:548$020, e, por si só, reflete sua
ascensão econômica. Entretanto, o que nos chama mais atenção são os seus pertences em si. Em
comparação com Ana Maria de Jesus seus bens tiveram uma avaliação menor. No entanto, numa
tentativa de viver no mundo dos livres, reproduziu para si um mundo semelhante ao da população
dominante. Para isso, procurou imitar seus hábitos, costumes, estilo de vida e indumentária32. Assim,
era proprietária de nove escravos e, em sinal de sua fé, possuía um oratório com cinco imagens,
crucifixo, rosário, além de, ao determinar os seus legados testamentais, exteriorizar a sua religião
católica ao rogar ao Padre Eterno que pelos merecimentos de seu Unigênito Filho tenha piedade de
sua alma. Para completar o processo de aceitação dos valores da elite branca e de forma a inserir-se
nessa sociedade33, pertencia a uma irmandade que lhe dava status e privilégios, conhecida por ser
exclusivamente das classes dominantes – a de São Francisco.
Já a última, apesar de não se identificar como branca, ou utilizar o termo “dona” para uma
melhor distinção da sua condição social, permite inferir sua posição a partir dos seus legados, como o
fato de além de pertencer a Ordem Terceira de São Francisco, ser enterrada na Ordem do Carmo. Ao
contrário das duas primeiras, era solteira e sem herdeiros. Por causa disso, deixou todos os seus bens,
avaliados em 1:144$000, para os seus escravos. Além disso, “numa tentativa de acerto de contas
espirituais, visando à absorção divina”34, Francisca Maria de Neves, deixou de esmola aos pobres
trinta mil réis, e um total de cento e setenta mil réis para irmandades, inclusive para algumas das quais
não fazia parte35. Numa demonstração das suas relações sociais e, principalmente, uma manifestação
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de quem seriam as pessoas com quem ela mantinha os contatos cotidianos, Francisca Maria de Neves
nomeou para seus testamenteiros, em primeiro lugar a um padre, em segundo um guarda-mor.
Nos três inventários foram encontrados jóias, e também vestuário. Trajes e adereços
representavam mais do que nunca ostentação. Para muitas mulheres, as roupas e jóias possuíam
significados simbólicos e rituais, assim como proteção36.
No inventário de Ana Maria de Jesus, as jóias e vestuário representaram 1,51% do monte mor.
Apesar de ser um valor pequeno – 29$310, de um monte avaliado em 2:544$435, teve a sua
importância. Entre esses bens, é possível encontrar uma saia de algodão, avaliada em $600; um vestido
de cassa lavrada 2$000; um vestido de paninho bordado 1$500; outro de chita azul 1$600; um branco
de cambraia usado $400; quatro varas de algodão novo $960; cinco libras de fio de algodão 1$000; um
vestido de chita amarelo usado 1$400; um terço encarnado francês $900; 1 lenço de seda novo pintado
1$200; uma toalha grande fina usada $480; outra toalha fina em bom uso de algodão americano $640;
e uma de aguar as mãos usada $320; uma capa de baeta azul usada $960.
Através da Lista Nominativa, constatou-se que Ana Maria de Jesus era fiadeira. Assim,
encontra-se entre seus pertences: um ferro de engomar avaliado em 1$200; duas rodas de fiar
possuindo um valor total de 2$560 e um tear usado com seus pertences calculado em 5$000.
Entretanto, ainda que muitas destas roupas fossem confeccionadas pela própria Ana Maria de Jesus, é
possível pensar que algumas delas foram adquiridas no comércio, como por exemplo, o lenço de ceda
pintado. Além disso, os panos utilizados para confecção eram comprados. Dentre as roupas e peças
arroladas, havia tecidos considerados diferentemente, como superiores e inferiores ou ordinários. De
acordo com Julita Scarano, citada por Erlaine Januário, as roupas dos segmentos de forros e escravos
eram confeccionadas em algodão, baeta ou outro tecido de qualidade inferior37. Sendo assim, aqueles
tecidos mais nobres e logicamente mais caros, veludo, seda, cetim e tafetá estiveram ao alcance apenas
dos grupos afortunados38. Pela descrição, havia entre os pertences da parda Ana Maria de Jesus,
tecidos inferiores, mas também os tecidos mais caros, além de objetos, como o terço encarnado francês
que ostentavam a sua riqueza nos moldes europeus e simbolizava o seu lugar social.
Helena Maria Silva possuía entre seus bens um número maior de jóias se comparada a Ana
Maria de Jesus. Conforme Faria, a propriedade de jóias tinha significados variados. Dentre eles, a
facilidade de funcionar como garantia de empréstimos39. Apesar de em seu inventário não haver
indícios de qualquer tipo de transações comprometendo as jóias em empenho, Helena Maria Silva
possuía muitas jóias que poderiam ser usadas para exteriorizar a sua riqueza. Para as missas aos
domingos ou para a participação em algum evento da Irmandade de São Francisco, a descendente de
escrava poderia usar: um laço e brinco, um par de botões de ouro, um crucifixo ou uns chapados
bentinhos, tudo com o peso de sete oitavas, avaliados em 9$800 e um rosário perfurado de ouro que
foi estimado em 1$200. Caso desejasse, poderia trocar o par de botões de ouro por um outro, também
de ouro, só que um pouco mais pesado, um oitava e que lhe deram o valor de 1$400. Para acompanhar
esses ornamentos, Helena Maria Silva poderia utilizar um capote de serafina pintada que valia 3$000;
ou um capote de baetão escuro de mesmo valor; ainda, se quisesse, poderia servi-se de uma capa de
baeta azul estimada em 2$000; e para acompanhar poderia escolher entre suas quatro saias – um de
durante; duas de chita e uma branca – que foram avaliadas em conjunto em 5$000. Numa posição mais
requintada, utilizaria ainda um lenço de seda vermelho ou então um branco e para finalizar a sua roupa
poderia colocar um chapéu. O que chama a atenção aqui, não é apenas a quantidade, mas também a
variedade e diversidade de tecidos e jóias. Há sim a presença de seda, mas predominam os tecidos de
baixo custo. Entretanto, Helena Maria Silva possuía outros objetos que poderiam representar uma
tentativa de aproximação com os modos e modas européias como, por exemplo, o chapéu. Outra
explicação para o predomínio de peças básicas, sem luxo, confeccionadas principalmente em tecidos
ordinários, talvez estivesse no fato de que muitas vezes, o trajo na América Portuguesa não estivesse
ligado apenas à sua cor/condição e sim, na permanência de costumes, práticas e hábitos africanos que
estariam presentes no cotidiano de homens e mulheres afro-descendentes, crioulos, mestiços e pardos.
Ou seja, muitas pessoas descendentes de escravos entendiam que determinados tecidos nobres só
poderiam ser utilizados pelos nobres e pela realeza da África, o que não significa que Helena Maria
Silva não se sentisse seduzida pelos tecidos nobres e não buscasse se aproximar dos padrões
europeus40.
Francisca Maria de Neves, por sua vez, cuja origem ainda nos é desconhecida, deixou pistas,
através de seus legados, que poderia se tratar de uma mulher branca, se pararmos para refletir em torno
1227
do fato de que pertencia a Ordem de São Francisco e foi enterrada no Carmo. Da mesma forma que as
demais, também possuía seus escravos, sendo um total de cinco. Rosa crioula e Ana parda foram
alforriadas e depois se tornaram suas herdeiras. Joana conga e João congo foram quartados em 50$000
e 100$000, respectivamente. Da mesma forma que as duas descendentes de escravos, Francisca Maria
de Neves possuía entre seus bens, jóias e roupas. As jóias perfaziam um total de 122$607 de um monte
de 1:259$607. Dentre essas jóias seria interessante destacar o par de brincos de coralina – uma
incrustação calcária que, assim como o coral, era composto de um material orgânico marinho – com
aros de ouro avaliado em 1$462. Mas, o que mais chama a atenção é a grande quantidade de colares de
aljofres e os brincos franceses. Entre suas roupas encontravam-se dois capotes de pano fino – 20$000;
seis vestidos de chita – 6$000; um vestido de seda rosa – 4$000; 12 camisas de paninho – 7$200 além
de um chapéu avaliado em 5$000. Assim como as outras duas mulheres analisadas, Francisca Maria
de Neves possuía roupas confeccionadas em tecidos de qualidade diferenciada. Mas, preocupara-se
mais em exteriorizar sua riqueza através das jóias.
Os três casos apresentados refletem como as roupas e as jóias funcionaram como instrumentos
de diferenciação e distinção, incorporando símbolos e sinais capazes atribuir-lhes o status social. A
indumentária, os acessórios e as jóias poderiam ser utilizados por essas mulheres como forma de
reafirmação da suas condições41.
Entretanto, o interesse aqui é perceber os pontos de contato entre as posturas e determinados
objetos destas mulheres. Nos três inventários existem peças de roupas confeccionadas em seda.
Francisca Maria de Neves, assim como Helena Maria Silva, possuía, além disso, um chapéu. Para
completar, pertenciam a mesma irmandade, mesmo que em vilas diferentes, já que Helena Maria Silva
morava no Termo de São José. Ana Maria de Jesus, da mesma forma que Francisca Maria de Neves
possuía alguns objetos franceses, além de utilizarem para a confecção de suas roupas panos em
comum, como o paninho.
Conforme o periódico O Mentor das Brasileiras que, em seus escritos traziam as idéias
iluministas do século XVIII, ou seja, da “importância de (...) educar o sexo feminino”42, já que ela
seria a educadora dos futuros cidadãos que levariam o Brasil ao desenvolvimento e à “civilização”, “...
o traje a francesa tem sido o mais seguido por si julgar mais análogo à delicadeza do corpo de nossas
brasileiras”43. Esse periódico, destinados à leitoras “preferencialmente brancas”, conforme foi
salientado por Campos44, trouxe o modelo francês que deveria ser utilizado pelas mulheres da elite.
Tendo como base esses escritos, mas não somente ele e sim todo o discurso ordenador e civilizador do
período em questão, podemos perceber que, possuir bens como, por exemplo, os objetos franceses
poderiam ser entendidos como indícios de apropriação dos padrões europeus, não só pela Francisca
Maria de Neves, supostamente uma mulher branca, como também pela descendente de escravos, Ana
Maria de Jesus. Esses objetos franceses conforme o Mentor vinham através da Corte do Rio de
Janeiro45 o que acaba corroborando com as colocações de Auguste Saint-Hilaire, que visitou São João
del-Rei em 1818 e 1819, apresentadas por Graça Filho, quando ele, ao descrever sobre o comércio
são-joanense diz que “os comerciantes (...) compram no Rio de Janeiro todos os objetos que podem ser
consumidos no interior”46.
Desse modo, pode-se dizer que essas mulheres analisadas possuíam objetos em comum que
remetiam à civilização européia. E que esses bens vinham através do Rio de Janeiro para a Vila de São
João del-Rei. Assim, ainda que morassem em lugares distintos, ou que pertencessem a gerações
ligeiramente afastadas47, essas três mulheres freqüentavam espaços de sociabilidade comuns a elas e,
claro, a outras mulheres e isso permitia esse trânsito de informações, costumes, visões de mundo e,
especificamente nesse exemplo dos objetos franceses, uma circulação de artefatos europeus ou que
remetessem à civilidade européia. Nesse sentido, esses espaços que, como foi dito anteriormente, se
tornavam lugares profícuos para a difusão de padrões europeus e para que se realizasse o trânsito de
costumes e práticas de culturas diferentes. Seriam nesses espaços que as normas de civilidade então
desenvolvidas poderiam ser difundidas, pois ao freqüentar esses espaços de sociabilidade, as mulheres
de diferentes segmentos sociais traziam suas visões de mundo, costumes e comportamentos. As
mulheres da elite, especificamente, trazia esses fatores, mas, ao mesmo tempo, juntamente com suas
concepções e atitudes, as normas, regras e padrões construídos em busca de uma civilização e que
poderiam ser transmitidos, compartilhados e recriados nas relações estabelecidas entre essas mulheres
e as forras e suas descendentes. Assim, creio que, Ana Maria de Jesus e Helena Maria da Silva, e
muitas outras, ao tentar afastar os indícios de suas origens, se aproximavam do mundo dos brancos e,
1228
conseqüentemente, do discurso civilizador em voga no período. Ou seja, ao possuir objetos e procurar
agir de forma semelhante, por exemplo, ao se tornar irmã da mesma irmandade, como é o caso da
segunda, à Francisca Maria de Neves e outras mulheres brancas, por conseguinte, se aproximavam dos
padrões europeus que as mulheres da elite supostamente já haviam se apropriados. Tal fato pode ser
visto como um exemplo de prática educativa que poderia ocorrer nos espaços comuns a diversos
segmentos sociais da Vila de São João del-Rei. Isto é, os contatos estabelecidos pelas ex-escravas e
suas descendentes provocavam uma recriação e apropriação das normas civilizadoras através da
incorporação das visões de mundo, costumes, comportamentos e objetos das mulheres da elite sãojoanense.
REFERÊNCIAS
Fontes Manuscritas
MRSJDR – INV – 1837 – caixa 108. Inventário de Ana Maria de Jesus – São João del-Rei, 25 de
FEV de 1837.
MRSJDR – INV – 1819 – caixa 321. Inventário de Helena Maria Silva – Fazenda Bom Jardim da
Boa Vista da Aplicação de N. S. do Monte do Carmo da Capela da Mata da Freguesia e Termo de
São José, 09 de SET de 1819.
MRSJDR – INV – 1833 – caixa 383. Inventário de Francisca Maria de Neves – São João del-Rei,
27 de NOV de 1833.
Fontes Impressas
Mentor das Brasileiras (O). São João del-Rei 1829 – 1832.
Bibliografia:
ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Alterações nas Unidades Produtivas Mineiras: Mariana –
1750-1850. Dissertação (Mestrado em História). UFF: Niterói, 1994.
____________. Homens ricos, Homens bons: produção e hierarquização social em Minas colonial,
1750-1822. (Tese de doutorado). Niterói: UFF, 2001
CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João delRei e SãoJosé do Rio das Mortes – 1810/1844. Dissertação (Mestrado). Belo Horizonte: UFMG, 1998.
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de diferenciação econômico-espacial e regionalização nos séculos XVIII e XIX. In: V Congresso
Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas da
ABPHE, 2003, Caxambu. Anais do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência
Internacional de História de Empresas da ABPHE. São Paulo : ABPHE, 2003., p. 26. Disponível em
http://www.abphe.org.br/congresso2003/textos.html. Acesso em 10/jun/05.
DUARTE, Constância Lima. Para a história da educação feminina brasileira, séc. XIX. In: Com
Textos. CIED/UFOP. Mariana, v.9. 1999.
1229
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Rio de Janeiro e de São João del-Rey (1700 – 1850). Tese Niterói: Departamento de História da
Universidade Federal Fluminense, 2004.
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FURTADO, Júnia F. (Org.) Diálogos Oceânicos. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2002.
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Comarca do Rio das Mortes. In: A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São
João del-Rei (1831 – 1888). São Paulo: Annablume. 2002.
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do Rio de Janeiro, 1998.
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espanhol, séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
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1808. Trad. João Maia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
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através dos testamentos. São Paulo: Annablume, 1995.
RODARTE, Mario Marcos Sampaio; BARBIERI, Alisson Flávio. Urbanização e Consistência de
Informações Censitárias no Dezoito Mineiro. IN: XI Encontro Nacional de Estudos Populacionais,
1998, Caxambu – MG. Anais do XI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 1998.
NOTAS DE FIM
1
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Jogando Caxangá: as divisões jurídico-administrativas na Comarca do
Rio das Mortes. In: A Princesa do Oeste e o mito da decadência de Minas Gerais: São João del-Rei (1831 –
1888). São Paulo: Annablume. 2002, p.31.
2
MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa; a Inconfidência Mineira: Brasil – Portugal – 1750 – 1808. Trad.
João Maia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.110.
3
CUNHA, Alexandre Mendes ; GODOY, Marcelo Magalhães . O espaço das Minas Gerais: processos de
diferenciação econômico-espacial e regionalização nos séculos XVIII e XIX. In: V Congresso Brasileiro de
História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas da ABPHE, 2003, Caxambu. Anais
do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas da
ABPHE. São Paulo : ABPHE, 2003., p. 26. Disponível em http://www.abphe.org.br/congresso2003/textos.html.
Acesso em 10/jun/05.
4
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Op. Cit. p.39.
5
MAXWELL, Kenneth. Op. Cit. p. 110.
6
GRAÇA FILHO, Afonso de Alencastro. Op. Cit. , p. 36.
1230
7
MATOS, Raimundo José da Cunha. Comarca do Rio das Mortes. In.: Corografia histórica da Província de
Minas Gerais (1837). Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1981, p. 115.
8
GRAÇA FILHO, A. A. Op. Cit.(2002). p. 33.
9
ZEMELLA, Mafalda P. O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII. 2ª ed., São Paulo,
HUCITEC/Edusp, 1990, p. 221-222. Apud: GRAÇA FILHO, A. A. A princesa do Oeste: Elite Mercantil e
Economia de Subsistência em São João del-Rei (1831 – 1888). Tese Rio de Janeiro: Instituto de Filosofia e
Ciências Sociais/ Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1998, p. 34.
10
GRAÇA FILHO, A. A. Op. Cit. (2002). p. 19.
11
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia;
São Paulo, Ed. USP, 1975. Apud: GRAÇA FILHO, A. A. Op. Cit.(1998). p. 55
12
GRAÇA FILHO, A. A. Op. Cit.(1998). p. 55
13
GRAÇA FILHO, A. A. Op. Cit.(1998). p. 58
14
DUARTE, Constância Lima. Para a história da educação feminina brasileira, séc. XIX. In: Com Textos.
CIED/UFOP. Mariana, v.9. 1999, p.22.
15
CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del-Rei e
SãoJosé do Rio das Mortes – 1810/1844. Dissertação (Mestrado). Belo Horizonte: UFMG, 1998, p.179.
16
A Vila de São João del-Rei teve 12 periódicos entre 1827 e 1844.
17
O referido periódico era produzido na vila de São João del-Rei, na mesma tipografia do periódico Astro de
Minas. Em seus escritos, existem indícios de que o Mentor era redigido por homens da própria vila que,
inspirados pelas idéias liberais, procuravam instruir as mulheres. Além da vila ele atingia também o Rio de
Janeiro, Ouro Preto, Campanha e Sabará e circulava uma vez por semana.
18
JANUÁRIO, Erlaine Aparecida. A sociedade das Aparências: Vila Rica (1789 – 1807). São João del-Rei:
UFSJ, 2003, p. 05. Monografia – Curso de Especialização em História de Minas – século XIX, da UFSJ;
Orientadora Dra. Maria Tereza Pereira de Cardoso.
19
Ao analisar os livros de “Entrada de Irmãos” da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos
da Vila de São João del-Rei no período, foi encontrado várias mulheres brancas – assim especificado, esposas ou
filhas de membros da elite. Nos termos de assentamento, parece ser interesse que se apresente a patente de
militar de seus pais ou esposos. Além disso, uma outra característica, também presente nos livros, foi a distinção
freqüentemente utilizada por essas mulheres, o distintivo “dona”.
20
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e Universo Cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716 – 1789. Belo
Horizonte: Editora da UFMG, 2001, p. 27.
21
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e Universo Cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716 – 1789. Belo
Horizonte: Editora da UFMG, 2001, p. 27.
22
GRUZINSKI, Serge. A colonização do imaginário: sociedades indígenas e ocidentalização no México
espanhol, séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.16.
23
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e Universo Cultural na Colônia: Minas Gerais, 1716 – 1789. Belo
Horizonte: Editora da UFMG, 2001, p. 213.
24
MRSJDR – INV – 1837 – caixa 108. Inventário de Ana Maria de Jesus – São João del-Rei, 25 de FEV de
1837.
25
MRSJDR – INV – 1819 – caixa 321. Inventário de Helena Maria Silva – Fazenda Bom Jardim da Boa Vista
da Aplicação de N. S. do Monte do Carmo da Capela da Mata da Freguesia e Termo de São José, 09 de SET de
1819.
26
MRSJDR – INV – 1833 – caixa 383. Inventário de Francisca Maria de Neves – São João del-Rei, 27 de NOV
de 1833.
27
PAIVA, Eduardo França. Escravos e Libertos nas Minas Gerais do Século XVIII: estratégias de resistência
através dos testamentos. São Paulo: Annablume, 1995, p. 26.
28
FURTADO, Júnia Ferreira. Pérolas Negras: mulheres livres de cor no Distrito Diamantino. In: FURTADO,
Júnia F. (Org.) Diálogos Oceânicos. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2002, p.88.
29
A Lista Nominativa seria um documento de recenseamento e representa, segundo Clotilde Paiva, citado por
Rodarte e Barbieri, para o século XIX, a documentação mais detalhada sobre a população mineira, com as
seguintes informações sobre cada indivíduo: nome; vínculo, ou relação, com o chefe de fogo; raça; condição
social (livre, escravo, forro, ou mesmo quartado); idade (em anos); estado civil; ocupação; nacionalidade.
PAIVA, Clotilde A., População e economia nas Minas Gerais do Século XIX. Tese (doutorado) São Paulo: USP,
1996. p.54. Apud: RODARTE, Mario Marcos Sampaio; BARBIERI, Alisson Flávio. Urbanização e
Consistência de Informações Censitárias no Dezoito Mineiro. IN: XI Encontro Nacional de Estudos
Populacionais, 1998, Caxambu – MG. Anais do XI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 1998, p. 1441
– 1473.
30
Tendo como base a faixa de fortuna dos pequenos proprietários das comarcas de Vila Rica e do Rio das
Mortes, para os períodos de 1750-1822, estabelecidas por Carla Almeida em sua tese de doutorado, de 1: 777$50
1231
réis, Ana Maria de Jesus poderia ser considerada mesmo no ano de 1837, quando foi aberto o seu inventário,
uma pessoa de consideráveis posses. Ver. ALMEIDA, Carla Maria de Carvalho. Homens ricos, Homens bons...,
p.191. Os valores apresentam-se em libras para a conversão em réis foi utilizada a razão de 3,555 réis por libra
esterlina-ouro. Ver: ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Alterações nas Unidades Produtivas Mineiras:
Mariana – 1750-1850. Dissertação (Mestrado em História). UFF: Niterói, 1994. p.74.
31
PAIVA, Eduardo França. Escravos e Libertos nas Minas Gerais do Século XVIII: estratégias de resistência
através dos testamentos. São Paulo: Annablume, 1995, p. 42.
32
FURTADO, Júnia Ferreira. Chica da Silva e co contratador de Diamantes: o outro lado do mito. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003, p. 23.
33
Idem, ibidem, p. 23
34
PAIVA, Eduardo França. Escravos e Libertos nas Minas Gerais do Século XVIII: estratégias de resistência
através dos testamentos. São Paulo: Annablume, 1995, p. 34.
35
No seu testamento deixou de esmola: a Venerável Ordem Terceira de São Francisco – 100$000; a Irmandade
do Santíssimo Sacramento - 30$000; a do Rosário – 20$000; a Santa Casa de Misericórdia – 20$000. Inventário
de Francisca Maria de Neves.
36
FARIA, Sheila Siqueira de Castro. Sinhás pretas, damas mercadoras: as pretas minas nas cidades do Rio de
Janeiro e de São João del-Rey (1700 – 1850). Tese Niterói: Departamento de História da Universidade Federal
Fluminense, 2004, p. 223.
37
SCARANO, Julita. Roupas de escravos e de Forros. In: Revista de Cultura Resgate, n.4, 1992. Apud:
JANUÁRIO, Erlaine Aparecida. A sociedade das Aparências: Vila Rica (1789 – 1807). São João del-Rei: UFSJ,
2003, p. 05. Monografia – Curso de Especialização em História de Minas – século XIX, da UFSJ; Orientadora
Dra. Maria Tereza Pereira de Cardoso.
38
JANUÁRIO, Erlaine Aparecida. A sociedade das Aparências: Vila Rica (1789 – 1807). São João del-Rei:
UFSJ, 2003, p. 05. Monografia – Curso de Especialização em História de Minas – século XIX, da UFSJ;
Orientadora Dra. Maria Tereza Pereira de Cardoso, p. 27.
39
FARIA, Sheila Siqueira de Castro. Sinhás pretas, damas mercadoras: as pretas minas nas cidades do Rio de
Janeiro e de São João del-Rey (1700 – 1850). Tese Niterói: Departamento de História da Universidade Federal
Fluminense, 2004, p.229.
40
JANUÁRIO, Erlaine Aparecida. A sociedade das Aparências: Vila Rica (1789 – 1807). São João del-Rei:
UFSJ, 2003, p. 05. Monografia – Curso de Especialização em História de Minas – século XIX, da UFSJ;
Orientadora Dra. Maria Tereza Pereira de Cardoso, p. 28.
41
JANUÁRIO, Erlaine Aparecida. A sociedade das Aparências: Vila Rica (1789 – 1807). São João del-Rei:
UFSJ, 2003, p. 05. Monografia – Curso de Especialização em História de Minas – século XIX, da UFSJ;
Orientadora Dra. Maria Tereza Pereira de Cardoso, p. 12.
42
O Mentor das Brasileiras, São João del-Rei, nº 10, segunda-feira, 02-02-1830, p. 80.
43
O Mentor das Brasileiras, São João del-Rei, nº 06, quarta-feira, 06-01-1830, p.47-8.
44
CAMPOS, Maria Augusta do Amaral. A marcha da civilização: as vilas oitocentistas de São João del-Rei e
São José do Rio das Mortes – 1810/1844. Dissertação (Mestrado). Belo Horizonte: UFMG, 1998. p 84.
44
CAMPOS, Op. Cit., p. 188.
45
O Mentor das Brasileiras, São João del-Rei, nº 06, quarta-feira, 06-01-1830, p.47-8.
46
SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil. Belo Horizonte, Ed.
Itatiaia; São Paulo, Ed USP, 1974, p. 111. Apud: GRAÇA FILHO, A. A. Op. Cit.(1998). p. 61.
47
O inventário de Ana Maria de Jesus é de 1837; de Francisca Maria de Neves 1833 e o de Helena Maria Silva
de 1819.
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