a história contada por diversas vozes
F Um
desejo
dos Bispos
Dom Odilo
Pedro
Scherer
12
ÍNDICE
F São
José de
Anchieta,
Apóstolo do
Brasil
F
Os Jesuítas e a Canonização
Pe. Adolfo Nicolás, S.J. .........................31
F
Dom Orani
João Tempesta
A História contada por diversas vozes
Palavra do Presidente
São José de Anchieta
Pe. Theodoro P. S. Peters, S.J. ........................ 06
F
Anchieta na Palavra dos Papas
Dom Odilo Pedro Scherer ............................. 17
F
A Celebração com o Papa em Roma
Dom Raymundo Damasceno Assis ............... 19
F
Anchieta, a Companhia de Jesus e o Brasil
Pe. Alfonso C. Palacio Larrauri, S.J. ............. 36
F
Uma lição de vida
Pe. Miecszyslaw Smyda, S.J. ......................... 38
F
Um intercessor para o Brasil
Pe. Theodoro P.S. Peters, S.J. ........................ 41
Linha do Tempo .............................................................10
A Canonização
F
Missa de Ação de Graças
Papa Francisco ............................................... 15
Entrevista
22
F
José de Anchieta: inteligência, cultura e santidade
Pe. Danilo Mondoni, S.J. ............................... 12
F
José de Anchieta, um ícone da evangelização
Pe. Josafá Carlos de Siqueira, S.J. ................. 44
F
Nos bastidores da Canonização
Pe. César Augusto dos Santos ........................ 47
F
Os santos têm uma missão
Pe. Marcelo F. de Aquino, S.J. ...................... 46
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
3
a história contada por diversas vozes
Padre Anchieta, tela de Cândido Portinari, de 1954.
4
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
editorial
Caros(as) leitores(as)
Com grande satisfação apresentamos esta edição especial
dos Cadernos da FEI que homenageia o Jesuíta e Santo, José de
Anchieta, que cumpriu 44 anos
de sua nobre missão entre nosso
povo, buscando agregar índios,
brasileiros, portugueses e espanhóis, em prol da unidade e da
paz de nosso território.
Certamente, gerir diferentes
culturas em circunstâncias adversas exigiu deste homem qualidades e virtudes que estavam
muito além de suas capacidades
humanas. A canonização de José
de Anchieta, no último mês de
abril, num primeiro momento
nos surpreende, considerando a
ausência da comprovação científica do segundo milagre exigido pela Igreja Católica; mas,
por outro lado, nos conforta,
pelo senso da dívida paga, ao
reconhecer as virtudes que nortearam suas ações em vida – humildade, serenidade, caridade,
coragem e fé, um milagre em si.
É com esse objetivo que a
FEI, irmanada na alegria de
todos os Companheiros de Anchieta, quer compartilhar com
todos seus colaboradores e parceiros extratos da história de
José de Anchieta, por meio de
diferentes leituras e de diferentes
vozes que se emocionaram com
o anúncio de sua canonização
e, consequentemente, com o reconhecimento de uma vida de
graça, de dedicação às coisas de
Deus e de respeito ao próximo.
são repleta de riscos e sacrifícios
na tão longínqua terra do Brasil,
somada à soberba da ousadia que
demonstrou na execução de sua
missão, sejam inspirações para o
modelo de universidade empreendedora que buscamos desenvolver e para o modelo de homens que pretendemos educar.
Que nos engrandeçamos
com os testemunhos de simplicidade desse jesuíta que costumava assinar suas cartas aos superiores de Roma, simplesmente
como – O último da Companhia
de Jesus, José.
Boa leitura.
Que a humildade de suas
ações e de seu desprendimento
ao aceitar ainda jovem uma mis-
Prof. Dr. Fábio do Prado
Reitor do Centro Universitário
da FEI
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
5
palavra do presidente
SÃO JOSÉ DE ANCHIETA
A surpresa e a alegria nos
impactaram. Surpresa, pela dis­
pensa de um novo milagre. Ale­
gria, pela atenção dada ao Brasil
através do reconhecimento do
seu grande Apóstolo. O milagre
exigido pelo processo foi comu­
tado porque a vida de Anchieta
foi um milagre da graça de Deus
sempre presente e correspondi­
da pelo mesmo em todas as suas
atitudes, palavras e ações.
As palavras passam e tudo o
que foi colocado por escrito per­
manece, já se afirmava na anti­
guidade. Anchieta deixou seu
6
legado por escrito em suas obras
e cartas. Nelas, ele se revela pela
fé, ciência, cultura, sensibilidade
para adaptar­se e interagir em
situações até então desconheci­
das, que se tornam oportunida­
des para desenvolver sua missão.
Deixou a Europa, a Penín­
sula Ibérica, e embarcou para
o Brasil com ideal e a cora­
gem para descobrir, conhecer
e envolver­se no Novo Mundo.
Chegando ao Brasil, ficou bra­
sileiro, aqui gastando sua vida,
consagrando sua inventividade,
transmitindo sua fé até a mor­
te, e aqui foi sepultado pela sua
gente, pelos seus índios. Não
retornou à Europa fisicamente,
Pe. Theodoro Paulo
S. Peters, S.J.
Presidente da FEI
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
“
“
E
m abril o Papa
Francisco declarou
que o Padre José de
Anchieta está in­
cluído no Cânon como modelo
no seguimento de Jesus e na res­
posta aos apelos da vontade de
Deus em sua vida e serviço.
Chegando ao Brasil, fi­
cou brasileiro, aqui gastando
sua vida, consagrando sua
inventividade, transmitindo
sua fŽ atŽ a morte, e aqui
foi sepultado pela sua gente,
seus ’ ndios.
palavra do presidente
mas a percorreu com sua corres­
pondência, apresentando a mis­
são como um empreendimento
a serviço de Deus, das pessoas,
nas circunstancias em que vi­
viam, para estimular mais jovens
idealistas a seguirem o caminho
de oferecer o melhor da cultu­
ra, da fé, dos próprios talentos,
para a construção do novo país.
A oportunidade percebida nas
diferenças e distâncias culturais
a serem complementadas, atra­
vés da reciprocidade que ofe­
rece e recebe o melhor de cada
povo, em vista de uma nação
que construísse o Reino de Deus
pela justiça, fraternidade e so­
lidariedade. “Vós que outrora
não éreis povo, mas agora sois
o povo de Deus, que não tínheis
alcançado a misericórdia, mas
agora a alcançastes.” (1Pe. 2,10).
“Ele fez de ambos os povos um
só, tendo derrubado o muro de
separação e suprimindo em sua
carne a inimizade... a fim de
criar em si mesmo um só Ho­
mem Novo estabelecendo a paz”
(Ef. 2,14.15).
A cultura ocidental dispunha
da fala articulada, escrita, teatro,
conteúdo acumulado, registrado,
arte da música, farmácia, línguas
estrangeiras, clássicas, literatura,
metodologia, o desenvolvimento
da ciência e sua consignação em
obras nas grandes bibliotecas, o
trato refinado na sociedade das
pessoas, a hierarquia organiza­
dora do bem comum, as leis, a
produção de alimentos, os recur­
sos da medicina e todos os meios
disponíveis, ainda que limitados.
Esta cultura chega ao Brasil
através de primeiros degreda­
dos, a seguir com as capitanias,
os governos gerais. Chegam e
encontram vastidões oceânicas,
florestas surpreendentes, cursos
fluviais, abundância diversifica­
da de natureza animal: quadrú­
pedes, bípedes, peixes, flora,
insetos, fornecedores de alimen­
to para a vida e a subsistência.
Tinham o hábito de escravizar
para o trabalho, para o domínio.
Os habitantes brasílicos des­
nudos, com cultura transmitida
oralmente, organização social su­
mária, muito solidários. Lidera­
dos por caciques para expedições
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
de caça e guerra de ataque ou
defesa, algumas tribos antropó­
fagas devoravam os capturados.
Era hábito aprisionar para matar
e devorar os inimigos vencidos de
todas as idades. A religiosidade e
a saúde eram expressas sob a in­
fluência dos pajés e xamãs. Inter­
pretavam a natureza para viver e
sobreviver com sustentabilidade.
Viviam em pequenas aldeias,
grupos de famílias, nas quais to­
dos tinham muita autonomia, es­
pecialmente as crianças.
Vulneráveis às doenças euro­
peias, à conquista, exerciam a
lei do mais forte, do menos vul­
nerável às investidas da natureza
bravia: mãe que provê, porém é
cruel com a caça, com o caçador,
com o coletor. Vivendo aclima­
tados ao sol, calor, intempéries,
chuvas, torrentes e enchentes. Seus
corpos eram expostos ao frio, ca­
lor, animais predadores, veneno­
sos, insetos nocivos. Vivem da
natureza, fazem farinha de pau,
preparam choupanas, cabanas,
são pessoas racionais, plenamen­
te em defasagem no que tange à
cultura ocidental e oriental. São
7
palavra do presidente
O confronto desigual pode­
ria ser a oportunidade para a
reciprocidade cultural, o amál­
gama que forjaria o seu povo.
Igualmente, começava a che­
gada de africanos para o tra­
balho escravo, sem direitos e,
igualmente, apenas com cultura
oral. “Esta terra é nossa empre­
sa” foi a expressão do primei­
ro superior provincial jesuíta,
Pe. Manoel da Nóbrega. Nela,
a vida cristã, religiosa, cidadã
deve criar suas raízes. Nela, o
Verbo de Deus deve se encarnar
para conduzir as diversas ex­
pressões culturais na adesão à fé
que ilumina a vida terrena pela
esperança da imortalidade em
comunhão com Deus Criador e
toda a sua Criação.
8
Anchieta iniciou seu itinerá­
rio embasado na cultura euro­
peia, partilhando seu saber, sua
fé, sua adesão ao Evangelho,
para induzir os colonos, os bra­
sílicos e os africanos a acolherem
os grandes valores que tornam
possível a paz e a fraternidade.
“
“
meninos grandes, com vanta­
gens da terra, desvantagens na
guerra e no confronto. Vigiam
ferozmente seus territórios ante
os estranhos e desconhecidos:
índios, brancos, africanos. Defa­
sagem na defesa, armas precisas
e precárias, botes, pirogas e ca­
noas diante caravelas com apa­
relhos de navegação.
Em suas cartas, atestou di­
ficuldades, progressos, oportu­
nidades. Sempre comunicou
a certeza de que Ž poss’ vel
encontrar a Deus em todas as
pessoas e conduzi­las ao con­
v’ vio com Ele.
Os passos de Jesus deviam palmi­
lhar esta terra virgem, inocente e,
ao mesmo tempo, hostil. Articular
os avanços da cultura e ciência das
três etnias foi um esforço de criati­
vidade para gerar na fé e consoli­
dar o amadurecimento dos neófi­
tos. Trabalhar com todos, acolher
a todos. Convidar e incentivar a
reter o melhor de si e a repelir o
que destrói a convivência, a par­
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
tilha e a segurança. A braveza do
índio a serviço do fortalecimento
do caráter, da honra, da coragem
para fazer o bem. A docilidade do
africano, desenraizado e deitando
as raízes em outro mundo, suan­
do para tornar possível a vida. A
ganância e astúcia europeias.
A resposta foi educar para
transformar as gerações através
das crianças, nas escolas pela
catequese, na encenação teatral
das vidas de Jesus, de Maria e
dos Apóstolos. Cada grupo fez
renúncias, escolhas, seleções de
seu passado, modo de viver, vi­
vendo a contradição entre a for­
ça e a liberdade, entre os antigos
e novos usos e costumes. Inva­
sores e invadidos, livres e escra­
vizados, eram mediados para a
concórdia, reconciliação, cola­
boração profícua e duradoura.
Não havia modelo a seguir a não
ser guiar­se pela intuição. Olhos
nos céus! Pés na terra! Mãos à
obra! Anchieta viveu a dialética
do ideal, possível, real. Anchie­
ta correspondeu­se com Inácio
de Loyola e Laines, fundadores
da Companhia de Jesus, com
palavra do presidente
Francisco de Borja, Everardo
Mercuriano e Cláudio Aqua­
viva, gerais da ordem, e muitas
outras pessoas. Em suas cartas,
atestou dificuldades, progressos,
oportunidades. Sempre comuni­
cou a certeza de que é possível
encontrar a Deus em todas as
pessoas e conduzi­las ao conví­
vio com Ele. Como São Pedro e
São Paulo, sabia viver em qual­
quer condição, porque acredi­
tava que Deus o guiava em seus
caminhos para o evangelho a ser
partilhado e encarnado em to­
das as latitudes, culturas e povos.
Esta atitude perseverante de An­
chieta é reconhecida pela Igreja,
que o apresenta como testemu­
nho e exemplo a todas as pessoas
de que Deus existe, está no meio
de nós para nos salvar e alegrar
com a vida eterna.
Em comunhão com a Igreja,
com o povo brasileiro e a Com­
panhia de Jesus, a FEI apresenta
esta edição especialmente de­
dicada a São José de Anchieta,
Apóstolo do Brasil nascente,
garantindo que a santidade e a
vocação de toda pessoa criada à
Lições de gramática, canto e religião eram realizadas ao ar livre pelos jesuítas.
imagem e semelhança de Deus é
dom de sua Sabedoria Inefável.
Que todos possam partilhar
os bons desejos e estímulos que
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
Anchieta desperta, renovando o
próprio sentir, pensar e agir. São
José de Anchieta, velai pelo Brasil,
intercedei por todos os filhos! ❒
9
A Canonização
10
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
A Canonização
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
11
a canonização
UM DESEJO DOS BISPOS DO BRASIL
Mensagem aos Bispos da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
vos pelos quais, a meu ver, o pedido mereceria nossa aprovação.
Na pauta da Assembleia Geral da
CNBB, de 2012, constava a apreciação do pedido da Associação
Internacional Anchieta para que
o Beato Padre José de Anchieta fosse declarado padroeiro da
Catequese no Brasil.
Estamos vivendo o Ano da Fé,
cujos frutos dependem muito de
uma boa catequese; em outubro
de 2012, foi celebrada em Roma
a 13ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, com o
tema “Nova evangelização para
a transmissão da fé cristã”; a catequese está inteiramente implicada no processo de transmissão
da fé cristã. E no próximo mês de
julho, estaremos acolhendo e realizando no Brasil a Jornada Mundial da Juventude; mais uma vez,
Tal questão, porém, acabou
não podendo ser apreciada, por
excesso de temas e por falta de
tempo. Assim, a apreciação
do mesmo pedido ficou para a
pauta da Assembleia Geral da
CNBB deste ano, 2013. Como
arcebispo de São Paulo, respaldando a iniciativa da Associação
Internacional Anchieta, desejo
apresentar, a seguir, alguns moti12
Dom Odilo
Pedro Scherer
Cardeal Arcebispo de
São Paulo, SP
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
“
“
E
stimados Irmãos no
Episcopado,
Atento a tudo o que prendia a aten• ‹ o dos ind’ genas,
ele apreendeu que a mœ sica e
a dan• a polarizavam o interesse deles, bem mais do que
discursos e homilias.
a canonização
também esse grande evento está
estreitamente relacionado com a
questão da catequese.
Todos esses eventos nos levam
a olhar para grandes catequistas,
que sirvam de modelo, referência e estímulo para a catequese
em nossos dias. O Beato José de
Anchieta foi, reconhecidamente,
um grande catequista no início
da evangelização do Brasil. Chegou aqui ainda jovem, com 18
anos de idade; aqui passou 44
anos de sua existência, falecendo
com a idade de 63 anos.
Desde que aqui chegou, Anchieta voltou sua especial atenção para os indígenas, para catequizá-los, isto é, aproximá-los
do Mistério de Cristo e do amor
de Deus. Já na raiz de sua vocação à vida religiosa e sacerdotal
estava o veio missionário e catequético, ao se deixar tocar pelas
cartas de S. Francisco Xavier e
de outros missionários em terras
brasileiras ou asiáticas, quando
eram lidas no refeitório das casas
dos jesuítas de Coimbra.
Mas foi na viagem de Salva-
dor para São Vicente, três meses
após seu desembarque em terras
brasileiras, que o carisma de catequista de Anchieta começou a
se destacar. Atento a tudo o que
prendia a atenção dos indígenas,
ele apreendeu que a música e a
dança polarizavam o interesse
deles, bem mais do que discursos
e homilias. Foi assim que o Apóstolo do Brasil começou a imaginar teatros com danças e cantos,
brincadeiras, tudo com fundo
evangelizador e catequético.
Não foi apenas para divertir
os indígenas, portugueses e estrangeiros que Anchieta redigiu
inúmeras peças teatrais e uma
infinidade de poesias e poemas.
Ele queria, através do lúdico, levar a Palavra de Deus, a vivência
e a moral cristã aos moradores
da Terra de Santa Cruz.
A elaboração da Gramática
Tupi e de um Vocabulário, meses
após sua chegada, foi também motivada pelo mesmo desejo de facilitar o aprendizado da língua indígena para os demais missionários
e, assim, propiciar a evangelização
e a catequese. Escreveu textos caCadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
tequéticos adequados à cultura
dos indígenas: “Doutrina Cristã”;
“Catecismo Brasílico”; “Doutrina
autógrafa e Confessionário”, este
último, em forma de perguntas e
respostas, tão ao gosto dos indígenas. Também o livro “Diálogo da
Fé” é de fundo catequético. Todos
esses livros foram escritos por Anchieta em língua Tupi.
Na missão, havia sempre
uma escola e uma capela; e dentro do planejamento escolar havia aulas de catequese. Estar com
as crianças e com os jovens significava para Anchieta também a
evangelização de seus pais.
Ele realizou longas caminhadas para batizar, ouvir confissões
e também preparar para a morte, não apenas os indígenas, mas
também os demais habitantes do
Brasil. E não podemos esquecer
seu trabalho catequético com os
africanos. Quando Anchieta foi
provincial dos jesuítas, criou um
trabalho especial em língua africana para o atendimento pastoral dos “negros da Guiné”, como
eram chamados em sua época e
como lemos em suas cartas.
13
a canonização
Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu, retrato de um momento da catequização dos índios. Tela de Benedito Calixto (1853-1927)
É sabido que nosso Catequista
viajou várias vezes do sul de São
Paulo ao sul de Pernambuco
exercendo sua missão evangelizadora e catequética. A pé,
ou com a pequena nau “Santa
Úrsula”, Anchieta percorreu
várias vezes, de sul a norte o litoral do Brasil. Sua ação catequética e missionária está registrada
nas dezenas de cartas que se salvaram, nos textos históricos por
ele escritos e nos registros con14
temporâneos e biogr��fi
ficos
cos redi�
redigidos perto do seu falecimento.
No seu funeral, estando presente
também o administrador apostólico Dom Bartolomeu Simões
Pereira, Anchieta já recebeu o
epíteto de “Apóstolo do Brasil”.
Eis, pois, alguns motivos pelos
quais nos parece valer a pena a
declaração de Anchieta como
Patrono da Catequese no Brasil.
Seu exemplo e dedicação missioCadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
nária, seu método “inculturado”,
sua operosidade apostólica, tudo
isso pode servir de exemplo e estímulo também para os catequistas
de hoje e para motivar uma profunda renovação e dinamismo da
ação catequética no Brasil.
Caros Irmãos Bispos, eis,
pois, os motivos que sustentam
o pedido a ser examinado na
próxima Assembleia Geral da
CNBB. Com minha fraterna
saudação e estima. ❒
a canonização
O PAPA FRANCISCO E ANCHIETA
Homilia feita pelo papa Francisco na missa festiva de Ação de Graças pela
canonização, no dia 24 de abril, na Igreja de Santo Inácio, em Roma.
Estiveram presentes cardeais, bispos e autoridades brasileiras, assim como fiéis e
religiosos residentes em Roma.
(Fonte: www.cnbb.org.br)
Q
No Evangelho que acabamos
de ouvir os discípulos não conseguem acreditar tamanha a alegria.
Olhemos a cena: Jesus ressuscitou,
os discípulos de Emaús contaram
sua experiência, e depois o próprio Senhor aparece no Cenáculo
e lhe diz: “A paz esteja convosco”.
Vários sentimentos irrompem
no coração dos discípulos: medo,
surpresa, dúvida e, finalmente,
alegria. Uma alegria tão grande
que “que não conseguiam acreditar” – diz o Evangelista. Estavam
atônitos, pasmos, e Jesus, quase
esboçando um sorriso, lhes pede
algo para comer e começa a explicar-lhes, aos poucos, a Escritura, abrindo o entendimento deles
para que possam compreendê-la.
“
“
ueridos irmãos e
irmãs,
Nesta quinta-feira
da Oitava da Páscoa, em que a luz
do Cristo Ressuscitado nos ilumina com tanta clareza, demos
graças a Deus também por São
José de Anchieta, o apóstolo do
Brasil, recentemente canonizado. É uma ocasião de grande
alegria espiritual.
... demos gra• as a Deus
tambŽ m por S‹ o JosŽ de Anchieta, o ap— stolo do Brasil,
recentemente canonizado.
Papa Francisco
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
15
a canonização
16
É o momento do estupor, do encontro com Jesus Cristo, em que
tanta alegria não parece ser verdade; mais ainda, assumir o regozijo e a alegria naquele momento
nos parece arriscado e sentimos a
tentação de refugiar-nos no ceticismo, no “não exagerar”. É um
relativizar tanto a fé que acaba
por distanciar-nos do encontro, da
carícia de Deus. É como se “destilássemos” a realidade do encontro
no alambique do medo, da segurança excessiva, do querer nós
mesmos controlar o encontro.
na porta, agora entra com seus
pés, pulando e louvando a Deus,
celebrando suas maravilhas. E
sua alegria é contagiosa.
Os discípulos tinham medo
da alegria... e também nós. A
leitura dos Atos dos Apóstolos
fala-nos de um paralítico. Ouvimos somente a segunda parte da
história, mas todos conhecemos a
transformação deste homem, entrevado desde o nascimento, prostrado na porta do Templo a pedir
esmola, sem jamais atravessar a
soleira, e como seus olhos se fixaram nos apóstolos, esperando que
lhe dessem algo. Pedro e João não
podiam dar-lhe nada daquilo que
ele buscava: nem ouro, nem prata. E ele, que sempre permaneceu
O missionário jesuíta José de Anchieta.
Autor desconhecido.
Isso é o que nos diz hoje a Escritura: as pessoas estavam cheias
de estupor, e maravilhadas acorriam para ver esta maravilha! E
em meio àquela confusão, àquela
admiração, Pedro anunciava a
mensagem. Porque a alegria do
encontro com Jesus Cristo, aquela
que nos dá tanto medo de assumir,
é contagiosa e grita o anúncio; porque “a Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração”; a atração
testemunhal que nasce da alegria
aceita e depois transformada em
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
anúncio. É uma alegria fundada. É
uma alegria apostólica, que se irradia, que se expande. Pergunto-me:
“Sou capaz, como Pedro, de sentar-me ao lado do irmão e explicar
lentamente o dom da Palavra que
recebi? Sou capaz de convocar ao
meu redor o entusiasmo daqueles
que descobrem em nós o milagre
de uma vida nova, nascida do encontro com Cristo?”
Também São José de Anchieta
soube comunicar aquilo que tinha
experimentado com o Senhor,
aquilo que tinha visto e ouvido
d’Ele; e essa foi e é a sua santidade. Não teve medo da alegria. São
José de Anchieta tem um hino belíssimo dedicado à Virgem Maria,
a quem, inspirando-se no cântico
de Isaías 52, compara com o mensageiro que proclama a paz, que
anuncia a alegria da Boa Notícia.
Que Ela, que naquele alvorecer
do domingo insone pela esperança, não teve medo da alegria, nos
acompanhe em nosso peregrinar,
convidando todos a se levantarem, para entrar juntos na paz
e na alegria que Jesus, o Senhor
Ressuscitado, nos promete. ❒
a história contada por diversas vozes
ANCHIETA, NA PALAVRA DOS PAPAS
Nascemos de um trabalho
missionário e continuamos a
ser uma Igreja missionária. E
precisamos sê-lo, mais do que
nunca! Os “sinais dos tempos”
ao nosso redor estão a pedir a
renovação da consciência, da
parte de toda a comunidade
eclesial, de que somos um povo
em estado permanente de missão e precisamos de uma nova
atitude missionária.
Os documentos recentes da
Igreja, em vários níveis, explicitam
esta urgência. E isso está em plena
coerência com o mandato que os
apóstolos receberam do próprio
Cristo no início da vida da Igreja:
“ide por todo o mundo, anunciai a
Boa Nova a todos os povos”.
O papa Francisco destacou
ainda mais o significado missionário de São José de Anchieta ao
proclamá-lo “santo”, junto com
dois outros missionários, que
atuaram na América do Norte:
São Francisco de Laval, primeiro bispo do Quebec (1623-1708),
e Santa Maria da Encarnação,
religiosa ursulina (1599-1672);
“
“
A
canonização de São
José de Anchieta, o
Apóstolo do Brasil,
tem enorme significado para a Igreja de São Paulo
e do Brasil. Não se trata apenas
da proclamação de mais um santo, mas da valorização de toda
uma história, da confirmação de
um serviço prestado ao Evangelho e da sinalização de um caminho para a Igreja percorrer.
Ò veio ao Brasil para anunciar Jesus Cristo e difundir o
Evangelho. Veio com o œ nico
objetivo de levar os homens a
CristoÓ .
Dom Odilo
Pedro Scherer
Cardeal Arcebispo de
São Paulo, SP
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
17
a história contada por diversas vozes
Outros papas também destacaram o significado missionário de Anchieta. Na missa do
Campo de Marte, em São Paulo
(03.07.1980), durante sua primeira visita ao Brasil, João Paulo
II referiu-se à “figura fascinante”
(de Anchieta), tão ligada à história religiosa e civil do Brasil, que
“veio ao Brasil para anunciar
Jesus Cristo e difundir o Evangelho. Veio com o único objetivo
de levar os homens a Cristo”. E
recordou trechos de cartas escritas por Anchieta aos seus Superiores sobre os trabalhos missionários desempenhados.
“Salvar as almas para a glória
de Deus, este era o objetivo de
sua vida”, continua ainda o Papa.
“Isso explica a prodigiosa atividade de Anchieta ao procurar
novas formas de atividade apostólica, que o levavam a fazer-se
tudo para todos; a fazer-se servo
de todos, para ganhar o maior
número possível de homens para
Cristo” (cf 1Cor 9,19-22).
18
Bento XVI, ao falar aos Bispos da Amazônia em visita “ad
limina” (04.10.2010), apresentou
a figura de Anchieta como “modelo de incansável e generosíssima atividade apostólica (...) promovendo a difusão da Palavra
de Deus tanto entre os indígenas
“
“
ambos nasceram na França e
dedicaram sua vida como missionários no Canadá.
...Ò modelo de incans‡ vel
e generos’ ssima atividade
apost— lica (...) promovendo
a difus‹ o da Palavra de Deus
tanto entre os ind’ genas como
entre os portuguesesÓ .
como entre os portugueses (...).
Isso pode servir de exemplo para
ajudar as vossas Igrejas particulares a encontrar os caminhos para
promover a formação dos discípulos missionários no espírito da
Conferência de Aparecida”.
O mesmo Papa, na sua Mensagem (18.10.2012) para a Jornada Mundial da Juventude do Rio
de Janeiro, apresentou Anchieta
como “modelo para a juventude“,
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
pela contribuição generosa que
deu, sendo ainda muito jovem,
para o anúncio do Reino de Deus
e o desenvolvimento deste mundo.
No encerramento da Jornada
Mundial da Juventude no Rio
de Janeiro (28.07.2013), no envio dos jovens em missão, o papa
Francisco convidou-os a imitarem
o exemplo de Anchieta: “A Igreja
tem necessidade de vocês, do seu
entusiasmo, da sua criatividade e
alegria. Um grande apóstolo do
Brasil, o Beato José de Anchieta,
partiu em missão quando tinha
apenas 19 anos de idade. Sabem
vocês que o melhor evangelizador dos jovens é um outro jovem?
Este é o caminho que todos vocês
devem percorrer.”
Conhecer e valorizar a vida
e a ação missionária de São José
de Anchieta ajudará, certamente, a recobrar a identidade missionária de nossa Igreja e a buscar caminhos e meios para melhor concretizar esta missão no
contexto sempre novo em que a
Igreja se encontra. ❒
Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 08.04.2014
a história contada por diversas vozes
A CELEBRAÇÃO COM O PAPA EM ROMA
Fiéis do Brasil, peregrinos,
autoridades civis e religiosas
compareceram à celebração
para homenagear São José de
Anchieta. Membros da CNBB
também marcaram presença,
como o arcebispo emérito de
São Paulo, cardeal dom Cláudio
Hummes, o arcebispo de Salvador
e primaz do Brasil, dom Murilo
Krieger, o bispo de Limeira, dom
Vilson de Oliveira. O prefeito da
Congregação para os Institutos de
Vida Consagrada e as Sociedades
de Vida Apostólica, cardeal dom
João Braz de Aviz, estava entre os
membros da Cúria Romana.
Agradecimento
Ao final da cerimônia, o pre­
sidente da CNBB, cardeal Ray­
mundo Damasceno, agradeceu
ao papa Francisco por decretar
santo o missionário brasileiro, pa­
dre Anchieta. Na mensagem, o
“
“
C
ardeais e bispos bra­
sileiros participaram
de uma missa de
ação de graças pela
canonização do padre José de An­
chieta. A cerimônia foi presidida
pelo papa Francisco, na quinta­
feira, 24 de abril, na igreja San­
to Inácio de Loyola, em Roma, e
concelebrada pelo arcebispo de
Aparecida e presidente da CNBB,
cardeal Raymundo Damasceno
Assis, e pelo arcebispo de São
Paulo, cardeal Odilo Pedro Sche­
rer. A assinatura do decreto da
santidade do Apóstolo do Brasil
ocorreu no dia 3 de abril.
Nosso Ap— stolo se fez santo servindo aos ind’ genas, aos
negros e a todos os pequenos
do Brasil. Queremos seguir
seus passos.
Dom Raymundo
Damasceno Assis
Cardeal Arcebispo de
Aparecida, SP
Presidente da CNBB
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
19
a história contada por diversas vozes
cardeal recordou a trajetória do
santo que dedicou­se à catequese
e viveu a pobreza e a simplicidade.
Abaixo, a íntegra do
discurso:
“Santidade, A Igreja no Brasil
e o povo brasileiro agradecem a
Deus por lhes permitir realizar
um sonho que durou mais de 400
anos: ver o Apóstolo do Brasil
apresentado à Igreja Universal
como testemunha de Jesus Cristo.
Estou certo, Santo Padre, de
trazer à sua presença centenas de
jesuítas que, ao longo de muitos
anos, trabalharam para este mo­
mento. Não só dou voz aos filhos
de Santo Inácio, mas também a
milhares de fiéis leigos envolvidos
pela santidade e carisma do Pa­
dre Anchieta. Eles deram o me­
lhor de si para que esta celebra­
ção acontecesse. Assim, em nome
de todos eles, vivos ou já na visão
beatífica, quero, do fundo do co­
ração, dizer­lhe: muito obriga­
do, Santidade! José de Anchieta
chegou jovem ao Brasil, com 19
anos de idade, pouco depois de
20
Cardeais e Bispos durante missa de ação de graças, pela canonização do padre José de Anchieta. A cerimônia foi
presidida pelo papa Francisco. (Fonte: www.cnbb.org.br, 25 de abril de 2014)
ter emitido os votos religiosos
de pobreza, castidade e obedi­
ência. Com um coração juvenil,
amou, desde o primeiro contato,
o povo brasileiro. A ele, dedicou
sua grande inteligência, cultura e
erudição, a capacidade de amar e
de sofrer por amor. A ele, consa­
grou suas qualidades humanas, a
capacidade de lutar, de ser aguer­
rido e a sua espiritualidade.
Como um São Francisco do
Novo Mundo, revelando notável
capacidade de observação da
natureza, escreveu a chamada
Carta de São Vicente. Nela, com
grande erudição, e de modo
muito completo e preciso, fez
a primeira descrição detalhada
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
da Mata Atlântica, importante
bioma brasileiro. Anchieta, tam­
bém como o santo de Assis, vi­
veu a pobreza e a simplicidade.
Em carta, descreveu como vivia
com os indígenas, chegando ao
ponto de relatar que, como to­
alha de mesa, usavam folha de
bananeira, para, em seguida,
completar que dela não tinham
necessidade, pois qual a razão da
toalha se lhes faltava a comida?
Como o pobrezinho de Assis, no
espírito da perfeita alegria, asse­
verou que estavam tão felizes na­
quela situação – ele e os demais
jesuítas –, que, ao pensarem no
tipo de vida levada nos colégios
da Europa, nenhum tipo de sau­
dade lhes vinha ao coração.
a história contada por diversas vozes
Santo Padre, contemplando
no Padre Anchieta a simplici­
dade de vida, o serviço prestado
aos marginalizados, o seu modo
de vida, encontramos o Senhor
da Vida. Nosso Apóstolo se fez
santo servindo aos indígenas,
aos negros e a todos os peque­
nos do Brasil. Queremos seguir
seus passos. Ele foi o nosso gran­
de e incansável evangelizador.
Seu exemplo motiva­nos a irmos
destemidamente ao encontro
de Jesus Cristo e dos irmãos. O
Padre Anchieta deixou­nos tam­
bém o exemplo do grande amor
que dedicava a Nossa Senhora, a
quem sempre pedia socorro.
Ela foi sua força e apoio nos
momentos cruciais de sua vida: no
ambiente conturbado de Coim­
bra, quando percebeu que sua
vida cristã poderia arruinar­se,
ou na Aldeia de Iperoig, na cos­
ta brasileira, onde, sem nenhum
apoio visível – a não ser a oração
–, por vários meses permaneceu
refém dos índios tamoios. Nesse
trágico momento, mais uma vez
recorreu a Maria e, certo de sua
ajuda, começou a escrever o Poe­
“Aqui fizemos uma casinha pequena de palha, e a porta estreita de cana. As camas são redes que os índios costuram; os cobertores, o fogo, para o qual, acabada
a lição à tarde, vamos buscar lenha no mato e a trazemos às costas, para passarmos a noite. A roupa é pouca e pobre, sem meias ou sapato, de pano de algodão...
A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes,
mas raramente, alguns peixinhos do rio e mais raramente ainda, alguma caça do
mato.” (Trecho de carta de Anchieta a Inácio de Loyola, 1554).
Fonte: http://www.pateocollegio.com.br/newsite/conteudo.asp?i=i1&pag_id=39
ma da Bem­Aventurada Virgem
Maria, Mãe de Deus, expressão
de sua extraordinária devoção e
amor à Santíssima Virgem.
Santo Padre, muito obrigado
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
por nos permitir partilhar com
os cristãos do mundo todo o belo
testemunho que foi a vida de São
José de Anchieta, o Apóstolo do
Brasil”. ❒
21
a história contada por diversas vozes
SÃO JOSÉ DE ANCHIETA,
APÓSTOLO DO BRASIL
São dias de alegria indizível
estes em que, de corações agra­
decidos, vivemos a canonização
do Beato José de Anchieta (1534­
1597), sacerdote jesuíta que, tan­
to no campo material quanto no
espiritual, muito trabalhou pelo
Brasil e, por esta razão, recebeu
com carinho e justiça o codino­
me de “Apóstolo do Brasil”.
Antes de penetrarmos dire­
tamente na vida desse grande
22
homem de Deus, atentemo­nos
para o rico significado catequéti­
co do momento em que estamos
celebrando: uma canonização.
Daí a questão: qual é, na Igreja,
o real significado dos verbos bea­
tificar e canonizar?
Beatificar é celebrar, em Ro­
ma ou fora dela, um ato solene
no qual o Papa, pessoalmente ou
através de um legado seu, decla­
ra que o(a) Servo(a) de Deus
pode ser venerado(a) como Bem
­Aventurado(a) ou Beato(a) por
meio de uma festa em lugares
delimitados como, por exemplo,
Dom Orani
João Tempesta
Cardeal Arcebispo do
Rio de Janeiro
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
“
“
N
o dia 3 abril, o após­
tolo do Brasil será
canonizado! Um ho­
mem de Deus que
soube acolher o chamado voca­
cional e viver nos inícios do Brasil
protagonizando a fundação de
colégios, cidades, entre as quais a
do Rio de Janeiro. O Papa Fran­
cisco nos dá esse belo presente!
S‹ o dias de alegria indiz’ vel estes em que, de cora• › es
agradecidos, vivemos a canoniza• ‹ o do Beato JosŽ de Anchieta.
a história contada por diversas vozes
as cidades em que viveu, atuou,
morreu.
quanto caminhamos nesta Terra
rumo à Pátria definitiva.
Canonizar é a ação pela qual
o Papa declara que o(a) Bem­
Aventurado(a) é Santo(a) ao
inscrevê­lo no cânon (catálogo)
dos santos, por isso se fala em ca­
nonização, termo utilizado pela
primeira vez no século XII, em
uma carta de Udalrico, Bispo de
Constança, ao Papa Calixto II
(1119­1124).
Via de regra, são exigidos dois
milagres – geralmente de recupe­
ração completa da saúde –, como
sinais comprobatórios da santi­
dade do(a) Servo(a) de Deus em
questão: um para a beatificação
e outro para a canonização. To­
davia, pode acontecer – como é o
caso de Anchieta – o que chama­
mos de “canonização equipolen­
te ou equivalente” e, para que ela
ocorra, devem ser preenchidos
três requisitos básicos:
Tanto a beatificação quanto
a canonização são funções re­
servadas ao Santo Padre – es­
pecialmente, de modo formal,
a partir do século XII, com o
Papa Alexandre III (1159­1181)
–, embora as cerimônias corres­
pondentes possam ser oficiadas
por um delegado papal. Requer­
­se, para se declarar que alguém
é beato(a) ou santo(a), a com­
provação das virtudes heroicas
do(a) candidato(a) nesta vida,
de modo que ele(a) mereça, por
graça divina, gozar, atualmente,
da visão de Deus face a face no
céu. De lá, pode ser invocado
oficialmente para interceder por
nós e nos servir de modelo en­
1) a prova do culto antigo ao
candidato a santo;
2) o atestado histórico incontes­
tável da fé católica e das vir­
tudes do candidato;
3) a fama ininterrupta de mila­
gres intermediados pelo can­
didato.
Isto posto, resta­nos rego­
zijarmos, enquanto católicos
e brasileiros, pela inscrição do
nosso querido José de Anchieta
no catálogo dos Santos por de­
terminação do Santo Padre, o
Papa Francisco, 34 anos depois
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
de ser declarado Beato pelo Papa
João Paulo II, em 22 de junho de
1980, ainda que o processo de
beatificação tenha sido iniciado
no já distante século XVII.
José de Anchieta nasceu em
São Cristóvão, Tenerife, uma das
ilhas espanholas do Arquipélago
das Canárias, em 19 de março de
1534, dia dedicado, no calendá­
rio litúrgico, a São José, patrono
da Igreja. Daí o seu nome de Ba­
tismo ser José de Anchieta.
Após estudar no famoso Co­
légio de Artes de Coimbra, in­
gressou, aos 17 anos, na Compa­
nhia de Jesus, dos Jesuítas, Or­
dem fundada por Santo Inácio
de Loyola em 1539 e aprovada
pelo Papa Paulo III, em 1540.
Recebeu aí boa formação em
filologia e literatura e, sobretu­
do, aprendeu que vivemos neste
mundo para “conhecer, amar e
servir a Deus e, mediante isso,
salvar nossa alma”. Aqui, tudo
o que fizermos deve ser “Para a
maior glória de Deus”.
Contudo, tão logo se fizera
jesuíta, foi provado com uma
23
a história contada por diversas vozes
grave doença ósteo­articular,
com fraqueza e dores em todo
o corpo, durante dois anos, ra­
zão pela qual os superiores, após
ouvirem os médicos, decidiram
enviá­lo ao Brasil na esperança
de que o bom clima da terra lhe
fizesse bem. Era a ação provi­
dencial de Deus em sua vida e
na dos brasileiros, daqueles e dos
nossos tempos.
Chegou à Bahia de Todos
os Santos, Salvador, em 13 de
julho de 1553, com apenas 19
anos de idade, como irmão je­
suíta, com um único objetivo:
salvar almas para Cristo. De lá,
deveria ir, junto com o Pe. Ma­
nuel da Nóbrega, seu superior,
para a Capitania de São Vicen­
te, litoral de São Paulo, a fim de
catequizar indígenas e colonos.
Como a viagem era também por
mar, um fato inesperado aconte­
ceu: no Sul da Bahia uma forte
tempestade surpreendeu as duas
embarcações e o barco em que
estava Anchieta acabou ficando
encalhado nos recifes.
Enquanto o veículo de via­
gem era consertado, conta­se
24
que Anchieta, consciente de que
depois da vinda de Cristo “o
tempo se fez breve” (1Cor 7,29),
foi à procura dos silvícolas da
região e começou a lhes falar de
Deus. Em uma dessas caminha­
das, levaram­no até uma indiazi­
nha que, doente, se encontrava
em seus últimos dias nesta Terra.
O padre a instruiu na fé e a ba­
tizou, dando­lhe o nome de Ce­
cília. Era o primeiro sacramento
que “o Apóstolo do Brasil” mi­
nistrava em seu tão vasto territó­
rio de missão.
Chegando, finalmente, a São
Vicente, Anchieta não parava
um só instante: fazia contato
com os habitantes do lugar para
falar­lhes de Deus e, ao mesmo
tempo, plantar as bases de uma
vida mais digna e justa para to­
dos. Não se limitou, porém, ape­
nas à região praiana, mas, ao
contrário, subiu a Serra do Mar,
chegou ao Planalto de Pirati­
ninga e, no dia 25 de janeiro de
1554, festa da Conversão de São
Paulo Apóstolo, participou da
fundação do colégio da vila de
São Paulo de Piratininga, onde
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
também lecionou. Ao lado do
colégio, construiu­se uma capela
na qual foi celebrada a primeira
Missa, em 25 de agosto daquele
mesmo ano. Estava, assim, nas­
cendo o núcleo da cidade que,
com o passar dos anos, se torna­
ria uma das maiores metrópoles
do mundo: São Paulo.
Foi superior da Capitania
de São Vicente e também pro­
vincial dos jesuítas por 10 anos,
ou seja, de 1577 a 1587. Logo
aprendeu a língua tupi, falada
pelos indígenas, e elaborou a
primeira gramática tupi­guara­
ni, traduzida para o alemão e o
latim. Nosso santo criou, desse
modo, uma língua­geral, que foi
usada no Brasil até 1750, ano em
que foi imposta a língua portu­
guesa. Compôs músicas, versos,
danças e teatros em linguagem
indígena. É chamado o “pai do
teatro brasileiro” e grande nome
da cultura nacional. Dentre seus
dez livros está o que leva o título
de “Poemas à Virgem Maria”,
cuja maior parte foi redigida nas
areias de Iperoig (hoje Ubatuba,
SP), no período em que ficou re­
a história contada por diversas vozes
Parecia arder em Anchieta as
palavras de São Paulo, o Após­
tolo das gentes: “Ai de mim se
eu não anunciar o Evangelho”
(1Cor 9,16). Daí ele valorizar
a espontaneidade dos silvícolas
que buscavam conhecer e pra­
ticar a fé católica, segundo se
depreende das correspondên­
cias que o religioso mantinha
com seus superiores na Europa.
Em carta ao Padre Diogo Laí­
nes, geral dos jesuítas, datada
de 1565, Anchieta, ainda refém
dos índios em Iperoig, relata que
todas as manhãs, Pindobuçu, o
chefe da tribo, ia visitá­lo para
perguntar coisas sobre Deus. O
religioso lhe mostrava, então,
imagens de uma Bíblia ilustra­
da que possuía e isso causava
muita admiração no índio que,
na manhã seguinte, voltava para
aprender mais (cf. Cartas. São
Paulo: P.H.A Viotti, 1984, p.
222, vol. 6 das Obras Comple­
tas). Ao se referir aos tupis de
São Paulo, o religioso jesuíta diz
que eles “voluntariamente (...)
vivem como cristãos, correspon­
dendo plenamente ao esforço de
seus catequistas” (Cartas, Jes. III,
316­317).
Nota­se, por esses dados, que
poderíamos multiplicar, o quan­
to Anchieta, agora nosso santo,
“
Nosso santo criou, desse
modo, uma l’ ngua-geral, que
foi usada no Brasil atŽ 1750,
ano em que foi imposta a
l’ ngua portuguesa. Comp™ s
mœ sicas, versos, dan• as e teatros em linguagem ind’ gena.
ƒ chamado o Ò pai do teatro
brasileiroÓ e grande nome da
cultura nacional.
“
fém dos índios tamoios. Escrevia
em português, espanhol, latim e
tupi­guarani.
viveu o ardor missionário que
motivava os religiosos europeus
a rumarem para as Américas,
segundo se lê, com muita clare­
za, nesta constatação: “A única
conversão que os evangelizado­
res pretendiam (e, em boa parte,
conseguiram) era a conversão no
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
plano sobrenatural: aceitação in­
terna, sustentada pela graça de
Deus, da fé na revelação divina,
seguida da mudança de vida no
intuito de ajustá­la aos preceitos
divinos, como preparação para a
vida eterna. Esta foi a suprema
missão que Cristo confiou à sua
Igreja: ‘Ide pelo mundo inteiro,
proclamai o Evangelho a todas
as criaturas. Quem crer e for ba­
tizado será salvo, quem não crer,
será condenado’ (Mc 16,15s)”
(João E. M. Terra. Catequese de índios e negros no Brasil colonial. Apa­
recida: Santuário, 2000, p. 38).
Esse ideal voltado ao sobre­
natural não fez, no entanto, de
Anchieta um alienado das coisas
deste mundo. Ele bem parecia
antever aquilo que, cerca de 410
anos depois, o Concílio Vaticano
II (1962­65) ressaltaria na Gaudium et Spes: “As alegrias e as espe­
ranças, as tristezas e as angústias
dos homens de hoje, sobretudo
dos pobres e de todos aqueles
que sofrem, são também as ale­
grias e as esperanças, as tristezas
e as angústias dos discípulos de
Cristo; e não há realidade algu­
25
a história contada por diversas vozes
ma verdadeiramente humana
que não encontre eco no seu co­
ração. Porque a sua comunida­
de é formada por homens, que,
reunidos em Cristo, são guiados
pelo Espírito Santo na sua pere­
grinação em demanda do reino
do Pai, e receberam a mensagem
da salvação para comunicá­la a
todos. Por este motivo, a Igreja
sente­se real e intimamente li­
gada ao gênero humano e à sua
história.” (n. 1). Daí, em 1555,
por ocasião das invasões france­
sas ao Rio de Janeiro, ele esteve
ao lado de Estácio de Sá, então
governador, ajudando a cons­
cientizar o povo de que não de­
viam aceitar os intrusos, pois eles
planejavam dividir nossa gente.
Segundo o Postulador da
causa, Padre César Augusto dos
Santos, SJ: “Em 1º de novembro
de 1566, Mem de Sá, o visita­
dor, padre Inácio de Azevedo,
o provincial, padre Luís da Grã,
o segundo bispo do Brasil, Dom
Pedro Leitão, José de Anchieta
e outros jesuítas partem para o
Rio de Janeiro, chegando à cida­
de no dia 19 de janeiro de 1567.
26
Cacique Tibiriçá e José de Anchieta. Pintura de Claudio Pastro, acervo da sede do Anchietanum, São Paulo/SP.
Eles partiram na armada envia­
da pelo rei de Portugal, coman­
dada pelo capitão Cristóvão de
Barros. Imediatamente no dia
seguinte à sua chegada, Mem
de Sá, confiante na intercessão
do padroeiro da cidade, São Se­
bastião, cuja festa litúrgica era
naquele dia, desfechou um as­
salto ao forte que estava no atu­
al Outeiro da Glória, o forte de
Ibiraguaçu­mirim. Conta An­
chieta, em sua Informação do Brasil
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
e suas Capitanias, que, depois de
destruir dois fortes (Ibiraguaçu­
mirim, na foz do rio da Carioca
e Paranapucuí, na Ilha de Mara­
cajá, atual Ilha do Governador),
Mem de Sá mudou a cidade para
o Morro de São Januário, depois
chamado Morro do Castelo, de
onde se tinha uma visão privile­
giada da entrada da barra. No
início do século 20, o morro foi
demolido e o local ficou conhe­
cido como Castelo ou Esplanada
do Castelo. No ataque a Ibira­
a história contada por diversas vozes
Contudo, como já vimos nes­
ta reflexão, o que mais se des­
tacava em Anchieta era o seu
zeloso sacerdócio ministerial.
Queria ele consumir­se como a
chama de uma vela para o bem
de todos, ministrando os Sacra­
mentos, lecionando – aos índios
pequenos ensinava latim e aos
jesuítas europeus dava aulas de
tupi – ajudando na edificação de
vilas onde o povo pudesse viver
dignamente. Morreu com 63
anos, no povoado que ele mes­
mo havia ajudado a edificar em
1569, Reritiba (hoje Anchieta, ES),
na Capitania do Espírito Santo.
Era o dia 9 de junho de 1597.
A partir daí, muitas pessoas
passaram a recorrer ao “Apósto­
lo do Brasil” a fim de que ele in­
tercedesse junto a Deus por elas.
Nasceram disso muitos relatos de
graças alcançadas pela intercessão
de Anchieta entre nós, especial­
mente no campo da restituição da
saúde, bem como a narração de
fatos lendários e pitorescos como
este: “Durante a vida do Pe. An­
chieta (1534­1597), um barquei­
ro garantia a quantos quisessem
“
“
guaçu­mirim, Estácio de Sá, ver­
dadeiro baluarte durante os dois
anos da cidade, foi mortalmen­
te ferido, vindo a falecer no dia
20 de fevereiro. Anchieta, que o
acompanhou muito de perto, as­
sim escreveu sobre esse capitão:
“tão amigo de Deus, tão manso
e afável, que nunca descansa de
noite e de dia, acudindo a uns e
a outros, sendo o primeiro nos
trabalhos...”
... o que mais se destacava em Anchieta era o seu zeloso sacerd— cio ministerial.
Queria ele consumir-se como
a chama de uma vela para o
bem de todos...
ouvir. A barca em que viajava o
Pe. Anchieta afundou. O padre
ficou retido no fundo pela barca
virada. E o barqueiro, até uma
hora depois, viu o Pe. Anchieta
tranquilamente lendo seu breviá­
rio lá, embaixo da água. Quando
o retiraram, nem o padre, nem o
livro haviam se molhado” (Oscar
G. Quevedo. Milagres, a ciência con-
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
firma a fé. S. Paulo: Loyola, 2000,
p. 296).
Não importa debater aqui se
tal fato ocorreu ou não, o que
nos interessa é frisar o quanto
o povo tinha Anchieta na conta
de santo. Tão santo que Deus
como que o “plastificara” contra
os acidentes naturais. Contudo,
importa frisar que a santidade
nem sempre vem acompanhada
de grandes portentos. Ela pode
ser fruto de uma vida simples,
escondida em Cristo, mas que
faz, cotidianamente, a vontade
do Pai. Mais: a narrativa nos
traz uma lição: ainda que debai­
xo das águas do mar da vida que
querem nos afogar, não perca­
mos a serenidade, seguremos fir­
mes nas mãos de Deus e sigamos
adiante, certos de que Ele não
chama ninguém à mediocrida­
de, mas, sim, a ser santo como
Ele mesmo é santo (cf. Lv 19,2;
Mt 5,48).
Para atingir esta tão ousa­
da meta é que, agora, pedimos
confiantes: São José de Anchie­
ta, Apóstolo do Brasil, rogai por
nós! ❒
27
entrevista Pe. Danilo Mondoni, S.J.
JOSÉ DE ANCHIETA: INTELIGÊNCIA,
CULTURA E SANTIDADE
28
Anchieta veio muito jovem para
o Brasil. Aqui viveu e morreu
como missionário entre índios e
colonos. Qual foi a formação que
recebeu e o que lhe favoreceu
desenvolver uma vasta produção
cultural e literária de alto nível?
“
“
Padre Danilo Mondoni, professor das Faculdades São
Bento, de São Paulo, Jesuíta
de Belo Horizonte e do Museu de Arte Sacra, é Mestre
em História da Igreja com
vários livros publicados. Por
ocasião do Bicentenário da
Restauração da Companhia
de Jesus, aprofundou seus estudos sobre o contexto histórico em que se deu a extinção
no Século XVII. As considerações e comentários sobre
Anchieta e seu tempo valorizam a importância da contribuição desse missionário
jesuíta para a vida cultural e
religiosa desde os primeiros
tempos de Brasil.
Conhecia bem as Sagradas
Escrituras. Ademais, a mem— ria prodigiosa, o sentido de
observa• ‹ o e a escuta do outro facilitaram sua comunica• ‹ o com os ’ ndios e colonos.
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
O jovem Anchieta já dominava bem três línguas: espanhol,
português e latim. Entrou em
contato com os jesuítas durante
os estudos de filosofia na universidade de Coimbra. Chegou ao
Brasil com a formação clássica
bem sedimentada. Em Piratininga assistiu às aulas de moral
dadas pelo Pe. Luís de Grã. Na
Bahia, durante ano e meio estudou teologia, orientado pelo Pe.
Quirício Caxa. Conhecia bem as
Sagradas Escrituras. Ademais, a
memória prodigiosa, o sentido
de observação e a escuta do ou-
entrevista Pe. Danilo Mondoni, S.J.
tro facilitaram sua comunicação
com os índios e colonos.
Já houve polêmica entre historiadores a respeito de, na fundação
de São Paulo, ser dado maior destaque ao papel de Anchieta, que
era um jovem estudante universitário que ao do Padre Manuel da
Nobrega, superior e responsável
pela missão. Qual seria o fundamento dessa polêmica?
A fundação de São Paulo foi
uma obra de conjunto. A missão nos campos de Piratininga,
na capitania de São Vicente,
era coordenada por Manuel de
Nóbrega, Superior Provincial.
Nóbrega incumbiu Anchieta
de continuar a construção do
colégio, e foi a partir deste que
Anchieta abriu os caminhos do
sertão. Em colaboração com os
companheiros jesuítas e com os
índios, Anchieta potencializou e
dinamizou o colégio, marco histórico da fundação de São Paulo.
Com o objetivo missionário de
trazer os índios para a religião e
costumes europeus, Anchieta e os
missionários jesuítas não teriam
contribuído para a extinção da cul-
tura indígena, sendo instrumentalizados pelos colonizadores?
No sistema do padroado,
romper com o sistema teria significado renunciar à missão evangelizadora. Cristianizar os selvagens pressupunha humanizá-los
por meio da adoção de costumes
e padrões de conduta próprios da
civilização cristã. Os missionários desenvolveram sua atividade
apostólica com o beneplácito e
sob a proteção da potência dominadora; recorreram ao poder político tanto para agrupar os índios
em aldeias próprias sob a orientação dos padres, como para defender esses mesmos indígenas dos
abusos dos colonos e da ganância
dos caçadores de escravos.
É por todos reconhecida a importância e o papel de Anchieta para
a formação da cultura brasileira
nos primórdios da colonização.
Sob o ponto de vista religioso,
o que há de notável na sua vida
para a Igreja considerá-lo um santo, comparando-o com os demais
missionários, não apenas jesuítas?
Apesar de frágil saúde (tuberculose óssea-articular), Anchieta
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
empreendeu constantes viagens,
percorrendo o litoral desde Cananeia até o Recife para acompanhar
as várias missões jesuítas. Foi um
religioso transparente, interessado
no bem das pessoas, atento especialmente aos pobres e doentes,
sem esconder sua predileção pelos
índios. Passava longas horas em
oração. Soube respeitar a natureza
e valorizar os elementos culturais
dos povos originários do Brasil.
O Papa Francisco é o primeiro jesuíta escolhido para governar a
Igreja. Ao canonizar Anchieta, estaria reabilitando um companheiro injustiçado pela história? Que
outros objetivos estariam implícitos nessa canonização?
O Papa pode declarar a santidade de uma pessoa mediante
uma proclamação solene ou um
decreto. O processo de canonização de Anchieta se iniciou em
1617. Ele foi beatificado em 22
de junho de 1980 pelo papa João
Paulo II, em reconhecimento de
sua fama de interceder por milagres. Sensível aos apelos dos Bispos do Brasil, o papa Francisco o
canonizou por decreto em 3 de
abril de 2014. A missão apostó29
entrevista Pe. Danilo Mondoni, S.J.
lica é o foco principal da Companhia de Jesus; como jesuíta,
certamente o papa Francisco vê
em Anchieta, o apóstolo do Brasil, um testemunho inspirador
de zelo apostólico e de empenho
pastoral em todas as formas de
ministério da Palavra.
A Igreja, como a sociedade, atravessa uma crise causada por problemas internos de disciplina e
doutrina. O conceito de santidade
não é o mesmo do início do século
passado. Como entender a santidade de Anchieta nos parâmetros
de uma sociedade secularizada?
A sociedade atual, fortemente marcada pelo individualismo,
passa por profunda crise de valores; a depressão e o suicídio
atingem níveis alarmantes; aumenta a desigualdade entre ricos
e pobres. Pela forma com que
trabalhou na formação e educação dos índios e colonizadores e
por sua familiaridade com a fauna e a flora brasileira, a figura
de Anchieta é um testemunho
de valorização do próximo e de
convívio sadio com a natureza. Como o objetivo último de
qualquer trabalho pastoral é a
30
salvação ou realização plena da
existência segundo a promessa
de Deus, São José de Anchieta é
referência de união com Deus e
amor fraterno, segundo o testemunho do próprio Cristo.
Qual a contribuição que a canonização de Anchieta pode trazer para o
Brasil e a América Latina, dentro do
contexto religioso e social?
Pode contribuir especialmente para a valorização do outro: os
humanos, a natureza, o Outro. Em
meio ao pluralismo e à fragmentação de valores, importa dar acesso
à inteligência das coisas de Deus
e à tradição cristã mais vigorosa,
questionar as raízes culturais e intelectuais da injustiça e educar para
a cultura da responsabilidade e do
sentido da solidariedade; enfim,
contribuir para que a humanidade
encontre o melhor caminho de preservar e promover a vida em todas
as suas dimensões – buscar Deus
em todas as coisas e participar da
luta por um mundo mais justo.
O que essa canonização representa para a comunidade jesuíta?
Representa o coroamento de
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
um processo iniciado muito cedo,
o reconhecimento da intensidade
e densidade da presença e atuação de Deus na vida de Anchieta. O desenvolvimento dos dotes
pessoais e o senso profundo de
comunhão servem de inspiração
para que a Companhia de Jesus se
realize como corpo para a missão.
Anchieta era jovem e conseguiu
grandes feitos. Isso seria uma característica jesuíta?
O pioneirismo é uma marca
tradicional jesuíta. A Companhia
de Jesus é uma ordem profundamente inovadora e ativa em todos
os campos e aspectos da evangelização e requer a mobilidade de
todos os membros e a adaptabilidade aos diversos ambientes. Em
meio às mudanças e transformações históricas, os jesuítas procuram se manter fiéis à sua identidade, ancorando-se nos Exercícios Espirituais, na Fórmula do
Instituto e nas Constituições, que
os encorajam à flexibilidade e
adaptação. Os princípios que os
sustentam estruturam uma identidade reconhecível por amigos e
adversários e constituem fonte de
energia e encorajamento. ❒
a história contada por diversas vozes
OS JESUÍTAS E A CANONIZAÇÃO
Mensagem enviada a todas as comunidades jesuítas logo que foi divulgada a notícia
da canonização.
A canonização
nesta data, 3 de abril,
do Beato José de Anchieta é um
acontecimento que a Igreja do
Brasil desejou muito e há muito
tempo. Anchieta foi proclamado
Apóstolo do Brasil, título pelo
qual é conhecido até hoje, pelo
arcebispo do Rio de Janeiro, na
cidade de Reritiba, na mesma
Igreja do Colégio onde se celebraram seus funerais em 1597.
A Companhia não deve
deixar de responder a este convite
que lhe é feito de resgatar esta
figura polivalente, motivadora
e extremamente atual. O que
nos quer dizer o Senhor ao nos
presentear, em menos de um ano,
com o reconhecimento eclesial
do valor evangélico das vidas de
dois companheiros nossos, Pedro
Fabro e José de Anchieta? Dois
homens que levaram adiante
missões tão diferentes e, no entanto, tão semelhantes no espírito
jesuítico que deve animar nossa
missão. Os dois, com a intensidade de suas vidas, convidam-nos
a descobrir que “restauração”,
mais que ser para nós um mero
acontecimento histórico, deve representar o “modo de ser” sempre presente, em um corpo apostólico em contínua recriação.
“
“
Q
ueridos irmãos e
amigos no Senhor:
Anchieta foi proclamado
Ap— stolo do Brasil, t’ tulo pelo
qual Ž conhecido atŽ hoje.
Pe. Adolfo
Nicolás, S.J.
Superior Geral da
Companhia de Jesus
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
31
a história contada por diversas vozes
José de Anchieta, “de estatura
mediana, magro, pelo vigor de seu
espírito forte e decidido, moreno,
de olhos azuis, fronte larga, nariz
grande, barba rala, de semblante
alegre e amável”, gastou 44 anos
de sua vida percorrendo boa
parte da geografia do Brasil e
levando a boa nova do Evangelho
aos indígenas.
Terceiro dos dez filhos que
teve a família López de Anchieta
y Díaz de Clavijo, José de Anchieta nasceu em Tenerife (Espanha), em 1534. Parente pela
linhagem paterna da família dos
Loyola, por suas veias corria,
como herança dos avós paternos,
sangue de judeus convertidos.
Logo foi enviado para estudar
na Universidade de Coimbra
(Portugal), durante o chamado
triênio de ouro do recém-fundado Colégio das Artes. Sua vocação à vida religiosa nasceu em
um clima de ideias e liberdades
morais que não a favoreciam,
talvez estimulado pelo exemplo
de alguns companheiros jesuítas
influentes na universidade. De
fato, as cartas de Francisco Xa32
vier comoviam a juventude universitária de toda Europa.
Admitido ao Noviciado da
Companhia na Província de
Portugal, em 1º de maio de
1551, logo contraiu uma grave
tuberculose ósseo-articular, que
aos 17 anos de idade lhe provocou uma visível curvatura na
coluna. Sua angústia de ser considerado inútil para o apostolado
se viu muito aliviada ao escutar
as consoladoras palavras do Pe.
Simão Rodrigues, fundador da
Província portuguesa: “Não se
preocupe por essa deformação,
Deus lhe quer assim”. Havia
uma esperança no ar: começavam a chegar do Brasil as cartas
do Pe. Manuel da Nóbrega, que
ponderavam o quão saudável
era para qualquer tipo de enfermidade o clima daquelas terras.
E para lá partiu Anchieta, em 8
de março de 1553, tendo feito
recentemente os primeiros votos,
aos 19 anos de idade, na terceira
expedição de jesuítas que embarcava para o Brasil.
Deparamo-nos já com o primeiro dos paradoxos desse joCadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
vem jesuíta: o forte contraste
entre sua fragilidade física e a
intensa vitalidade apostólica que
desenvolveu ininterruptamente
durante 44 anos, atravessando
numerosas regiões do Brasil, até
sua morte aos 63 anos. A vida
de José de Anchieta é apostólica
e radicalmente evangélica. “Não
basta sair de Coimbra – dizia a
seus irmãos doentes que ficavam
ali – com uns fervores que logo
se desfazem antes de cruzar a
linha (do Equador), ou que logo
se esfriam, com desejos de voltar
a Portugal. É necessário levar o
alforje cheio, para que as provisões
durem até o final da jornada”.
Os desafios da missão atual
exigem cada vez mais ‘a revitalização do corpo apostólico’
da Companhia. A fonte na qual
bebia a vitalidade apostólica de
Anchieta era sua profunda experiência espiritual. A solidez de
sua fama de santo e taumaturgo
fundamentava-se no amor, na
oração, na humildade e no serviço.
Uma das críticas que se fize­
ram a ele diante do Visitador foi
de que “fazia muita caridade”.
a história contada por diversas vozes
Dos 44 anos que viveu
no Brasil, 40 pelo menos se
caracterizaram por uma incessante peregrinação, começando
pela região de São Vicente e
Piratininga, entre 1554 e 1564,
quando da fundação da cidade
de São Paulo e seus primeiros
anos. Foi uma mobilidade
que não lhe impediu de se
entregar às aulas de latim e ao
estudo mais aprofundado da
língua tupi, uma vez que lhe
permitia uma grande atividade
missionária e catequética. Nomeado provincial, em 1577, e
posteriormente superior, percorre casas e comunidades: pai
dos pobres, taumaturgo para
os enfermos e os que sofriam,
conselheiro para os governantes,
mas, sobretudo, amigo e defensor
dos índios em suas aldeias.
Somente em 1595 a obediência o liberou das responsabilidades de governo. Restavamlhe dois escassos anos de vida.
Neles encontrou ainda tempo
para participar na defesa da
capitania do Espírito Santo
contra as incursões dos índios
goitacazes. Seu último destino
foi a aldeia de Reritiba. Ali começou a escrever uma “História
da Companhia de Jesus no Brasil”, preciosa obra perdida da
qual só restam fragmentos.
Não lhe movia, certamente,
para levar essa vida itinerante,
nenhum espírito de aventura,
senão um espírito de disponibilidade para a missão, de
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
liberdade espiritual e de prontidão para buscar e encontrar
a todo momento a vontade do
Senhor. Acompanhou-o, até o
fim, um ardor verdadeiramente
apostólico. “Dado que não
mereço ser mártir por outra via
– escreve ele mesmo – que pelo
menos a morte me encontre
desamparado em alguma dessas
“
“
Aos olhos de seus críticos, seu
excesso de bondade estaria na
origem de um governo que tendia
a ser brando. O Pe. Gouveia,
entretanto, não tinha a mesma
opinião. Descreve-o como: “homem fiel, prudente e humilde em
Cristo, muito querido por todos,
ninguém tinha queixa contra ele,
nem me é possível encontrar palavra ou ação em que tenha agido mal”. Sincero amigo de todos,
sabia unir a bondade ao rigor e
à firmeza, como desejava Santo
Inácio em todo bom superior.
Apesar de suas enfermidades,
bem visíveis, o provincialado de
Anchieta pôde ser considerado
um dos mais dinâmicos e frutuosos de seu tempo.
... pai dos pobres, taumaturgo
para os enfermos e os que
sofriam, conselheiro para os
governantes, mas, sobretudo,
amigo e defensor dos ’ ndios
em suas aldeias.
montanhas e ali dê a vida por
meus irmãos. A disposição de
meu corpo é fraca, mas me basta
a força da graça que, por parte
do Senhor, não me há de faltar”.
Não deveria ser a itinerância –
com tudo o que implica de liberdade espiritual, de disponibilidade e capacidade de discernir e de
tomar decisões – uma das características indispensáveis de nosso
corpo apostólico? O contínuo pe-
33
a história contada por diversas vozes
regrinar de Anchieta, quase uma
forma de vida, poderia inspirar
hoje em dia e estimular nossa busca de mobilidade apostólica, para
responder aos desafios que nos
propõem as novas fronteiras.
Uma característica de grande
relevância na figura humana,
espiritual e apostólica de José
de Anchieta se manifesta em
sua capacidade para organizar
estruturalmente a missão, integrando as distintas presenças
apostólicas e as diferentes dimensões em um só projeto
diversificado e complexo, mas
único. E, no centro, dando
sentido a tudo, o amor pelos
índios: “sinto os índios, escreve
ele mesmo, do seu último
refúgio na aldeia de Reritiba,
mais próximos que os portugueses, porque é por eles que vim
ao Brasil”.
Com o Pe. Nóbrega, participou na primeira fundação do
Rio de Janeiro. A segunda e definitiva fundação não se levaria
adiante senão dois anos depois,
com ajuda de uma esquadra
vinda de Portugal, capitaneada
34
pelo próprio governador Mem
de Sá. Na ocasião, Anchieta escreveu sua primeira obra
em latim: De gestis Mendi de Saa.
Pertence a essa época também
o auto sacramental intitulado
“Pregação universal”, inspirado na cerimônia indígena de
acolhida aos personagens ilustres, com o qual introduzia na
língua tupi a técnica do verso e
das estrofes, típica do teatro português. Sempre soube colocar a
serviço da missão seus extraordinários dons de perfeito humanista: seu domínio da gramática,
seu gosto pelos clássicos latinos e
sua habilidade na arte da oratória. Com enorme fecundidade,
compôs em tupi os “Diálogos
da fé” (catecismo maior para a
instrução dos índios na doutrina
cristã), adaptou opúsculos para
a preparação ao batismo e para
a confissão e concluiu a gramática da língua mais usada na
costa do Brasil, o tupi.
Sempre agente de reconciliação, empenhou-se profundamente no diálogo com os índios
tamoios, até o ponto de ser
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
tomado como refém e de viver
entre eles sequestrado por cinco meses. Feitas as pazes com os
tamoios e posto em liberdade,
ainda teve forças para retornar
a São Vicente e escrever o poema à Virgem De Beata Virgine Dei
Matre Maria. Não lhe intimidou
a carência de papel. Dístico por
dístico foi escrevendo sobre a
areia e memorizando aqueles
mais de 5.800 belíssimos versos.
O folclore popular, adaptado
como música religiosa, servialhe para a representação de
“autos” em português e tupi.
Era incessante sua atividade
para enriquecer o ministério
pastoral e catequético entre
os índios com representações
teatrais festivas. Considerava
imprescindível aproximar-se da
psicologia indígena.
São muitas as razões que
temos para estar agradecidos ao
Papa Francisco por propor ao
mundo, com o novo destaque
da santidade, o exemplo de José
de Anchieta. Para a Companhia
de Jesus é uma ocasião de
restaurar
com
intensidade
a história contada por diversas vozes
Quadro Poema à Virgem Maria, de Benedito Calixto, retrata o padre José de Anchieta escrevendo o poema na areia.
a busca daqueles horizontes
que ele perseguiu e que são
sempre novos: a sensibilidade
diante da diversidade étnica e a
pluralidade religiosa, cultural e
social; o desenvolvimento incan-
sável de uma nova liberdade
criativa e de uma responsável
capacidade de improvisação; a
busca constante de expressões
inculturadas para a experiência
cristã e evangelizadora.
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
Que este novo intercessor
nos ajude a buscar cada vez
com maior empenho a vontade
de Deus e a cumpri-la sem
descanso.
Fraternalmente no Senhor. ❒
35
a história contada por diversas vozes
ANCHIETA, A COMPANHIA DE JESUS
E O BRASIL
Mensagem enviada à Comunidade Universitária da FEI logo que foi anunciado que o
Beato José de Anchieta seria canonizado.
A canonização de Anchieta
é, antes de tudo, um acontecimento eclesial. Por meio dele
a fé cristã reconhece o valor
evangélico da vida e da missão
deste grande jesuíta e sua atualidade inspiradora. Não só para a
Igreja ou para a Companhia de
Jesus, mas também para todos
36
aqueles e aquelas que anseiam
e estão comprometidos na construção de um Brasil melhor.
Para nós jesuítas, essa canonização tem lugar no momento
preciso em que a Companhia
de Jesus organiza sua missão no
Brasil como uma unidade, tanto de estrutura quanto de horizonte, a ‘Província do Brasil’.
Após quase 5 séculos, estamos,
hoje, portanto, muito próximos
da realidade de Anchieta e seus
companheiros, para os quais a
Pe. Alfonso Carlos
Palacio Larrauri, S.J.
Provincial do Brasil
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
“
“
N
inguém poderia negar a importância
de José de Anchieta como referência constitutiva da história do
Brasil. Por meio de Anchieta e
seus primeiros companheiros, há
um vínculo que nos une, como
Companhia de Jesus, à gênese
da identidade social e cultural
do nosso país.
Um dos tra• os caracter’ sticos da figura de Anchieta foi
sempre a busca constante da
‘união dos diversos’.
a história contada por diversas vozes
missão era o Brasil, como uma
totalidade em construção.
Um dos traços característicos
da figura de Anchieta foi sempre
a busca constante da ‘união dos
diversos’. Traço que aparece de
forma paradigmática na missão
de São Paulo. O núcleo do que
viria a ser a grande cidade foi
sendo construído num diálogo
nem sempre pacífico entre os
diversos atores: um “Colégio diferente”, com ensino do latim e
as outras línguas, constituído por
alunos portugueses, mamelucos
e índios, com Igreja restaurada,
afluxo crescente de colonos portugueses e catequese itinerante
dos índios. Essa “união de diversos” continua a ser o grande desafio e a enorme potencialidade
para a construção social e para a
construção eclesial do Brasil.
Em sintonia com essa inspiração, também nós experimentamos e estamos convencidos que a
missão de anunciar a “boa nova”
do evangelho hoje no Brasil, passa
pelo encontro com o outro, pela
acolhida do diferente, pelo respeito da alteridade. No trabalho
atento a esta diversidade (regional, de culturas, de raças e etnias;
social, religiosa, etc.) que constitui
a fonte da sua riqueza humana e
da criatividade cultural e social
que lhe é reconhecida.
Monumento ao Padre José de Anchieta, na cidade
de San Cristóbal de La Laguna,Tenerife, Espanha.
de construção da nova “Província
do Brasil” descobrimos e aprendemos a conviver e dialogar com as
diversidades regionais e culturais;
a não fechar os olhos para novas
fronteiras – humanas, culturais, e
sociais – que desafiam nossa capacidade de abrir-nos para o desconhecido; a experimentar a riqueza
dessa diversidade para a missão.
Passados mais de quatro séculos, essa diversidade representa ainda a grande riqueza e
continua a ser o grande desafio
do nosso país. O Brasil não pode
ser compreendido sem um olhar
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
Para a Companhia de Jesus é
um compromisso inadiável comprometer-se com a construção de
um “projeto Brasil” que integre
de fato essa diversidade de modo
que ela encontre finalmente seu
lugar e seja reconhecida na construção comum do futuro.
Que Anchieta nos ajude a
transformar as nossas fragilidades
pessoais e sociais em força de comunhão que brota do conjunto;
Que ele nos ensine a arte de
acolher, respeitar e integrar as
diferenças numa unidade maior;
Que ele abra nossos olhos para
a realidade polivalente das nossas
raízes culturais e nos torne capazes
de entrar pelo caminho da convivência que contribui para a integração, porque sabe recriar consensos e dessa forma reinventar um
futuro mais rico e mais justo, porque mais original e originário. ❒
37
a história contada por diversas vozes
UMA LIÇÃO DE VIDA
Homilia proferida na celebração comemorativa na Catedral de São Paulo, no dia 7 de
abril. Foi presidida pelo Cardeal D. Odilo Scherer com a presença de muitos jesuítas,
autoridades e fiéis.
Excelentíssimo Senhor Ge­
raldo Alckmin, Governador do
Estado de S. Paulo,
Excelentíssimo Senhor Fer­
nando Haddad, Prefeito de São
Paulo,
Demais autoridades aqui pre­
sentes, caríssimos irmãos e irmãs,
É uma grande honra lhes di­
rigir a palavra em momento tão
significativo para todos nós, na
ocasião da canonização do Pa­
dre José de Anchieta.
No dia 09 de junho de 1597,
em Reritiba, hoje Anchieta, no
interior do Espírito Santo, ele
38
entregava sua vida a Deus aos
63 anos de idade e 44 anos de
total dedicação à missão evange­
lizadora da Companhia de Jesus
no Brasil. Foi peregrino, cate­
quista, escritor, poeta, autor de
peças, educador, músico, tradu­
tor, etnógrafo, padre, pregador,
provincial e diretor de colégio.
Quando o jovem José de An­
chieta aportou na Bahia aos 19
anos de idade, em 1553, ainda
noviço, era considerado de saú­
de frágil, por causa de espinhela
caída. Fragilidade que nunca o
deteve para a grande obra mis­
sionária que ele viria a realizar
Pe. Miecszyslaw
Smyda, S.J.
Provincial da Província
do Brasil Centro-Leste
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
“
“
E
minentíssimo Se­
nhor Cardeal Dom
Odilo Scherer, Ar­
cebispo desta Ar­
quidiocese de São Paulo,
Foi peregrino, catequista,
escritor, poeta, autor de pe• as, educador, mœ sico, tradutor, etn— grafo, padre, pregador, provincial e diretor de
colŽ gio.
a história contada por diversas vozes
junto com o Padre Manoel da
Nóbrega e demais coirmãos.
Desde o início, empenharam­
-se com afinco na obra de catequi­
sar os indígenas na doutrina cristã
e na moralização dos costumes
dos colonos portugueses. Vieram
para ensinar, mas tiveram muito
que aprender. A começar pela lín­
gua mais falada, o tupi­guarani.
essas dimensões estava ele, José
de Anchieta, com seus dons para
a poesia, o teatro, a música, a co­
reografia, a conquistar a presença
e participação dos indígenas nas
atividades missionárias que iam
criando e desenvolvendo.
Os jesuítas daquele tempo
foram pioneiros na tentativa de
adaptar o trabalho de evange­
lização à nova realidade, que
superasse as dificuldades encon­
tradas pela distância da língua e
dos costumes e pelo nomadismo
indígena. Foi aí, quando a mis­
são exigiu maior criatividade
e adaptação dos jesuítas, que o
gênio de José de Anchieta se ma­
nifestou de muitos modos.
Mergulharam cada vez mais
fundo para conhecer – às vezes
decifrar – o sentido da vida dos
indígenas, a quem queriam se
dedicar de corpo e alma, para
que fossem salvos e se tornassem
cidadãos da ordem da cristan­
dade. Combateram veemente­
mente o canibalismo ritual e
guerreiro dos tupis e tapuias. Da
mesma forma que, com espírito
de amor, zelo e total dedicação
lutaram para preservar os indí­
genas da escravização buscada
pelos colonos portugueses.
Muitos estudiosos reconhe­
cem que o êxito da catequese dos
jesuítas se deu pelo emprego da
música e do canto, da liturgia, das
procissões e festas, das danças reli­
giosas, dos autos e comédias, além
da devoção a relíquias do Sagra­
do Lenho da Cruz e das cabeças
das Onze Mil Virgens. Em todas
Em 1554, José de Anchieta
esteve presente na celebração da
missa da fundação do colégio de
São Paulo de Piratininga, onde
passaram a ser alfabetizados os
meninos, e os jovens jesuítas re­
cebiam aulas de latim. Jamais
poderiam imaginar que daque­
la cabana, em que celebraram
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
a missa de fundação do colégio,
surgiria a megalópole de hoje.
Anchieta esteve à frente dessa
nova casa nos seus primeiros dez
anos, os mais difíceis.
Abriu caminho não somente
pelo aprendizado e domínio do
idioma indígena, mas por se tor­
nar autor da primeira gramática
da língua tupi, de um dicionário
e de um livro de doutrina.
No evangelho, Jesus nos ensi­
na que a vida verdadeira é a vida
gasta para que outros tenham
vida; e que são bem­aventurados
os realizadores da paz.
Anchieta e Nóbrega não tive­
ram medo de colocar suas vidas
em risco, para intermediar a paz
com os tamoios, em Iperoig, atual
Ubatuba. No tempo em que per­
maneceu ali refém, Anchieta se
dedicou a compor o célebre Poe­
ma da Virgem Mãe de Deus, Ma­
ria, a quem consagra o sentido de
sua castidade, por amor a Deus, na
Companhia de Jesus.
Encontramos aí um valioso
testemunho para o nosso mundo,
cheio de conflitos e de desrespei­
39
a história contada por diversas vozes
to à vida; lição de que a vida sem
amor é vida sem sentido e sem
realização plena, e que só pode se
dar em Deus e em Cristo. Com
Anchieta reaprendemos a impor­
tância do encontro com o diferen­
te; a oportunidade de estabelecer
com ele a comunicação e o diálo­
go; a adquirir um novo olhar para
ver e conhecer o mundo. Surgem
daí novas possibilidades de cresci­
mento e de humanização.
Nas inúmeras cartas que es­
creveu a Portugal, o Apóstolo do
Brasil revelou-se exímio etnógrafo e hábil observador da na­
tureza. Foi um homem incansá­
vel na busca do conhecimento, a
partir da realidade encontrada.
Educador criativo dos pequenos
índios, não se deixava abater
pelas fadigas que a nova reali­
dade lhe trazia, impulsionado
que era pelo amor a Cristo, que
o chamou a cuidar de povos tão
diferentes. Nem poupava esfor­
ços para suprir a falta dos livros,
para copiar à mão e à luz de
vela, os textos para os seus pe­
quenos alunos indígenas.
A convivência com os pobres,
40
o diálogo evangelizador e a ca­
tequese foram grandes marcas
deste nosso Apóstolo do Brasil.
Aprendeu a servir aos diferentes
e mais necessitados, não pela im­
posição, mas pela atração e con­
vencimento. Como vela que se
consome para irradiar luz, calor
e vida, assim se esvaiu a vida des­
te nosso santo em nossas terras.
Quis a Providência Divina
que, neste ano de 2014, em que a
Companhia de Jesus comemora os
200 anos de sua restauração, após
expulsão dos jesuítas a mando do
Marquês de Pombal, e da sua su­
pressão por bula papal, chegasse a
termo um longo processo histórico
de reconhecimento da santidade
do Padre José de Anchieta.
O papa Francisco decidiu de­
clarar para toda a Igreja aquilo
que o nosso povo, há muito tem­
po, já sabia. Pois o processo de
canonização de Anchieta teve
início logo depois de sua morte,
tanto que em 1652 já era declara­
do “servo de Deus” pela Igreja e,
em 1736, proclamado como ve­
nerável. Sua beatificação, entre­
tanto, só veio a ocorrer em 1980,
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
pelo papa João Paulo II. E ago­
ra, no dia 3 de abril passado, o
Papa Francisco proclamou santo
a José de Anchieta, reconhecen­
do a santidade de um missionário
peregrino, de muitas e longas jor­
nadas a pé e de barco, que teve
de abrir caminhos pela floresta,
arriscar sua vida em muitas situa­
ções, pôr todos os seus dons e sua
vida a serviço da missão. Morreu
amado pelos índios, que se tor­
naram próximos seus e o venera­
vam como taumaturgo.
Vivemos hoje a honra de ce­
lebrar, com toda a Igreja, unidos
ao papa e a nosso povo, a ação
de graças a Deus por mais este
exemplo de vida gasta por causa
de Cristo e por sua Igreja.
Podemos aprender com ele
que vale a pena buscar e encon­
trar a vontade de Deus, e empre­
gar todos os meios para realizá­la;
pôr nossos dons a serviço dos ou­
tros e assim colaborar na constru­
ção de um mundo melhor, onde
todos os povos e raças possam ser
irmãos em Cristo Jesus e viver
como uma grande comunidade
unida, assim como a Igreja. ❒
a história contada por diversas vozes
UM INTERCESSOR PARA O BRASIL
Mensagem enviada à Comunidade Universitária da FEI logo que foi anunciado que o
Beato José de Anchieta seria canonizado.
Abrindo caminhos para que
todos tivessem acesso à fé, aos
sacramentos, construindo taperas, cabanas, fortificações e
capelas para abrigar e defender
todas as pessoas, estudando a
fauna e a flora para promover
a saúde, prevenindo doenças,
com antídotos naturais com a
farmacopeia nativa dos seus habitantes. Pilotou pirogas, barcos
e naus ao longo da costa para
que a cruz do Senhor fosse erguida como referência da fé e
da fraternidade. Observador das
“
“
O
Papa Francisco nos
surpreendeu com a
decisão de declarar
a santidade do padre José de Anchieta, assinando
o decreto de sua canonização
no dia 03 de abril. A surpresa
de uma decisão almejada pelos
brasileiros desde os primórdios
da evangelização no Brasil causa
impacto em todos nós. A vida de
Anchieta faz parte do Brasil. Anchieta percorreu rincões de nosso País, oferecendo o que tinha:
sua disposição, seu serviço, sua
compreensão da complexidade
da vida do colono, do índio. Foi
agente de comunicação, deslocando-se do sudeste ao nordeste,
promovendo a cooperação das
pessoas para o seu serviço missionário.
Anchieta percorreu rinc› es
de nosso Pa’ s, oferecendo o
que tinha: sua disposi• ‹ o, seu
servi• o, sua compreens‹ o da
complexidade da vida do colono, do ’ ndio.
Pe. Theodoro Paulo
S. Peters, S.J.
Presidente da FEI
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
41
a história contada por diversas vozes
Fundação de São Paulo, primeira missa de Antônio Parreiras (1913). Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo (Brasil).
pessoas, da natureza em que interagiam, procurou colocar seu
talento e conhecimento a serviço
da construção da nacionalidade
cultural brasileira. Os alimentos foram adequados ao modo
de viver, utilizando os recursos
do País. Ensinou e aprendeu a
viver com os produtos da terra.
Sem trigo, criou o pão de farinha de mandioca e, assim, ia
descobrindo e transmitindo em
seus escritos as soluções possí42
veis de serem replicadas em outros lugares e povoados.
Anchieta foi ao encontro das
pessoas nas situações, nas suas
culturas, usos e costumes. Ganhou a confiança de todos mediando conflitos e revanches das
partes adversas. Europeu, ofereceu sua língua, o saber cultivado,
o modo de proceder. Partilhou
os seus saberes com os índios e
bugres. Para a catequese, desenvolveu a pedagogia da alegria.
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
Pela participação nos teatros,
levava os indígenas a se identificarem com os personagens, admirando a valentia corajosa de
Cristo na Paixão, fascinando-se
com a Virgem Maria, pela sua
fé ao enfrentar o demônio tentador para promover o mal e a
desavença. Pela atuação os corações despertavam para uma
revelação inesperada. O teatro,
a mímica, foram os recursos
para transmitir conceitos e afir-
a história contada por diversas vozes
Inculturando-se, assumiu a
língua nativa, seus alimentos,
suas medicinas. Seu modo de
proceder ficou consignado em
suas obras, cartas, gramática da
língua indígena. Chegou jovem
ao Brasil, em 1553, aos 19 anos
foi enviado, porque enfermo, e
esta terra, recém descoberta, lhe
ofereceu uma energia nova, uma
capacidade de superação fantástica. Com meios restritos completou seus estudos, recebeu a ordenação sacerdotal. Anchieta soube
tomar decisões para realizar seu
projeto de vida. Decidiu dedicar-se ao próximo, respondendo
ao apelo de Jesus que o chamava
para oferecer o Evangelho a todas as pessoas da face da terra.
Seus feitos passaram de geração
a geração até os nossos dias.
Em 1597, morreu em Reritiba, atual Anchieta, no Espírito
Santo. Passados quatro séculos,
ele ainda fala com a sua vida entregue pelo bem desta terra de
promessas, de sua gente, de seu
evangelho. Anchieta é modelo
“
“
mar valores e virtudes. Assim ele
descobria as sementes do Verbo
plantadas pelo Criador: dotes
naturais, costumes ancestrais
eram reforçados e se tornavam a
porta de entrada do Evangelho
e os antivalores eram desencorajados, como a antropofagia, a
destruição dos semelhantes.
Anchieta foi ao encontro
das pessoas nas situa• › es, nas
suas culturas, usos e costumes. Ganhou a confiança de
todos mediando conflitos e revanches das partes adversas.
para a juventude porque jovem
tomou a decisão orientadora de
sua vida. Anchieta é inspiração
para o homem empreendedor
porque inovou a vida missionária nos primórdios do Brasil.
Anchieta é o patrono do Brasil
porque veio para ficar. Anchieta plantou civilização dando a
vida. Assumiu todos os riscos e
perigos, acreditando que estava
ao lado de Deus para cooperar
na missão geradora de vida e salvação eterna.
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
A Arquidiocese de São
Paulo e o Provincial dos Jesuí­
tas convidam a todos nós para comemorar a graça de Deus reconhecida pelo Papa Francisco na
vida do Santo José de Anchieta,
anunciando os seguintes eventos:
• Dia 03 de abril, quinta feira, às 14h, todas as Igrejas
tocarão os sinos de seus campanários ou soltarão fogos
pelo júbilo da canonização
do Padre José de Anchieta. Às
19h30, oração das Vésperas,
introduzida pela leitura da
Biografia de São José de Anchieta e concluída com o Te
Deum em ação de graças, na
Igreja do Pateo do Collegio.
• Dia 06 de abril, domingo,
às 10h, no Pateo do Collegio, concentração para saída
da procissão em direção à
Catedral de São Paulo, onde
será celebrada a Eucaristia
com a presença das autoridades e do povo de São Paulo.
Participemos desta alegria e
promessa de Deus para todo o
Brasil. São José de Anchieta, rogai por nós junto de Deus! ❒
43
a história contada por diversas vozes
JOSÉ DE ANCHIETA:
UM ÍCONE DA EVANGELIZAÇÃO
44
chegando até mesmo aos primórdios da biogeografia brasileira.
Sem nenhuma intenção de
proselitismo, não podemos deixar de reconhecer a grande contribuição deste homem, considerado um ícone da evangelização nos primórdios das raízes de
nossa brasilidade. Estar ligado à
fundação das duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de
Janeiro, não é algo trivial, pois
isto supõe capacidade de dialogar, de aceitar diferenças, de ser
inovador, de romper barreiras
religiosas e culturais, de integrar
Pe. Josafá Carlos
de Siqueira, S.J.
Reitor da Pontifícia
Universidade Católica do
Rio de Janeiro
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
“
A vis‹ o mission‡ ria vai
alŽ m de seu tempo, deixando
um legado religioso e cultural
para a hist— ria do Brasil, ainda hoje reconhecido por muitos intelectuais e historiadores
de nosso pa’ s.
“
A
canonização
do
Padre São José de
Anchieta, missionário jesuíta, feita recentemente pelo Papa Francisco,
é um reconhecimento histórico
de um homem que deu a sua
vida pelos valores e princípios do
Evangelho, tão importantes no
início do processo de miscigenação cultural de nossa nação. A
sua visão missionária vai além de
seu tempo, deixando um legado
religioso e cultural para a história
do Brasil, ainda hoje reconhecido
por muitos intelectuais e historiadores de nosso país. É difícil,
em poucas palavras, expressar a
riqueza desse legado, sobretudo
quando este se estende desde o
campo da literatura, da poesia,
da antropologia e dramaturgia,
a história contada por diversas vozes
culturas distintas e, extraordinariamente, de entregar sua
vida por uma causa mais nobre, sem pretensões de poder,
benefício próprio ou ambições
econômicas. A maneira como
Anchieta viveu e morreu aqui
em nosso país, é um testemunho inquestionável de alguém
que procurou trabalhar e gastar a sua vida com gratuidade
Evangelho nas Selvas (Padre Anchieta), por Benedito Calixto
e simplicidade, sempre defen(1893). Pinacoteca do Estado de São Paulo.
dendo aqueles que sofriam os
Hans Staden, André de Thevet,
efeitos nefastos do processo
Jean de Lery, Pedro de Guimacolonizador, como os povos indírães Gândavo, entre outros, a
genas na sua época.
carta escrita por José de Anchieta
Além deste árduo trabalho
em 1560, documento pouco code inculturação da fé, a sua connhecido pelos brasileiros, têm um
tribuição literária foi fundamenpapel relevante para os primórtal, lançando as bases da arte da
dios da chamada biogeografia
poesia lírica e épica no Brasil,
brasileira. Neste relato pré-bioalém dos sermões, cartas e uma
geográfico, aparece a riqueza
gramática tupi-guarani, a língua
e o uso da biodiversidade pelos
mais falada naquela época na
povos nativos, revelando também
costa do país.
aspectos etológicos de alguns animais. O que chama a atenção, é
Junto com outros que procua preocupação de Anchieta em
raram narrar em cartas os aspecmostrar a visão integradora do
tos etnológicos, etológicos e hishomem com a fauna e com a flotóricos no início do processo de
ra, agregando informações sobre
colonização, como Pero Vaz de
os fenômenos climáticos. A sua
Caminha, Pedro Lopes de Souza,
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
maneira holística em olhar a
realidade antropológica, etnológica, teológica e ambiental
integradamente, é sem dúvida
uma referência para o nosso
mundo atual, carente de uma
visão mais sistêmica da realidade socioambiental.
Ao canonizar o Padre Anchieta, o Papa Francisco foi
além dos milagres baseados
apenas nas curas e nas graças
alcançadas, mostrando que é
preciso ver também o legado e
a contribuição cultural que uma
pessoa deixa na história de um
país, sendo sempre estímulo às
futuras gerações. Que o exemplo do Santo José de Anchieta,
nos estimule a buscar sempre a
abertura e o diálogo com as diferentes culturas e religiões que
fazem parte de nossa brasilidade,
exercendo a solidariedade entre
os povos, e mostrando o quanto
temos que conhecer e aprender
com esta rica biodiversidade de
nosso país, mesmo sabendo que a
mesma se encontra cada vez mais
vulnerável pela exploração e destruição de nossos ecossistemas. ❒
45
a história contada por diversas vozes
OS SANTOS TÊM UMA MISSÃO
A alegria por essas canonizações não pode nos fazer esquecer
que é Deus o santo! A vida dos
homens e mulheres que chamamos santos e santas torna dizível
a santidade indizível de Deus.
Essa não é exclusiva à fé cristã.
Nossa Igreja faz a memória de
seus santos e santas, assim como
46
nossos irmãos e irmãs israelitas,
islamitas, budistas, hinduístas,
espíritas, nossos irmãos e irmãs
das religiões afrobrasileiras celebram em seus santos e santas a
santidade indizível de Deus. E,
por que não fazer a memória de
formas laicas de santidade naqueles homens e mulheres que
entregaram sua vida por alguma
causa pública da esfera cidadã?
Na vida de São José de Anchieta Deus santo se faz dizível
nas trilhas da experiência dos
Exercícios Espirituais. Deus ao
qual falamos em Jesus como a
um amigo, que nos abraça na sua
misericórdia e nos convida a trabalhar com seu Filho. São José de
Anchieta, rogai por nós! ❒
“
Pe. Marcelo Fernandes
de Aquino, S.J.
Reitor da Universidade do Rio
dos Sinos, São Leopoldo, RS
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
“
A
pós longa espera de
quatro séculos, agora, com intervalo de
poucos meses, a Igreja Católica canonizou os beatos Pedro Fabro e José de
Anchieta. Forma encontrada pelo
Papa Francisco de mostrar afeição
pela Companhia de Jesus, da qual
os dois novos santos eram sacerdotes. Pedro Fabro, um dos cofundadores da Companhia, e José de
Anchieta, considerado fundador de
São Paulo: dois santos para inspirar
quem quiser seguir Jesus Nazareno,
profeta messiânico, que confessamos o Cristo da fé da Igreja.
A vida de homens e mulheres que chamamos santos e
santas torna diz’ vel a santidade indiz’ vel de Deus.
entrevista Pe. César Augusto dos Santos
NOS BASTIDORES DA CANONIZAÇÃO
Padre César Augusto dos
Santos é Diretor do Programa Brasileiro da Rádio Vaticano e, há mais de dez anos,
postulador da Causa de Canonização do Beato José de
Anchieta.
“
... a Causa de Anchieta
possui mais de quatro sŽ culos, jamais caiu, nem mesmo quando os jesu’ tas foram
expulsos do Brasil e a Companhia de Jesus supressa em
toda a Igreja.
“
Residindo em Roma, teve
seu trabalho facilitado pela
proximidade e contatos com
a Cúria Romana. Seu testemunho tem a objetividade do
desdobramento dos fatos e a
emoção de quem cumpriu a
missão recebida.
Padre César, qual foi sua reação
quando ficou sabendo da decisão
do Papa em canonizar o B. José
de Anchieta, para você, que durante todo esse tempo esteve à
frente do processo? Foi surpresa
ou era esperado?
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
Minha reação, é claro, foi de
grande alegria. Deu-me a boa
nova o Cardeal Raymundo Damasceno Assis, quando fui buscálo na Casa Santa Marta. Disse-me
ele: “Padre Cesar, hoje, no café da
manhã, o Santo Padre falou que
concordava com o pedido da Conferência para canonizar Anchieta.
Deveremos aguardar o contato do
Cardeal Amato com o Postulador
Geral”. Algum tempo depois, Pe.
Anton Witwer, Postulador Geral
das Causas dos Santos da Companhia de Jesus, me chamava para
dizer que o Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação das
Causas dos Santos, havia lhe telefonado para que retomasse o Processo do Beato Pe. José de Anchie47
entrevista Pe. César Augusto dos Santos
ta e o fizesse sem dar atenção aos
milagres e sim à amplitude do culto. Ele pedia minha colaboração e
a “Positio” deveria estar pronta no
final de janeiro.
Não pensei nos dois ou três
meses que teria pela frente, mas
na possível dificuldade em verificar essa devoção espalhada em
todo o Brasil. Já há dois anos, Pe.
Witwer me dissera da alternativa
da amplidão de culto, contudo,
eu achava muito mais difícil do
que encontrar um milagre, haja
vista o tamanho do Brasil!
Falei com a direção da Rádio
Vaticano sobre o acontecido e
pedi compreensão para a divisão
de minha atenção. Entrei em contato com a senhora Myriam Daoud, que havia colaborado muitíssimo no gerenciamento da Canan
– Associação Pró Canonização de
Anchieta – e também contratei
uma pessoa para me ajudar.
Myriam pesquisava os arquivos da Canan e eu administrava
tudo daqui de Roma. Meus seis
jornalistas do Programa Brasileiro da Rádio Vaticano foram
fantásticos ao compreenderem
minha parcial ausência devido ao
meu trabalho de Vice-Postulador.
48
Ser um papa jesuíta não seria um fa­
vorecimento manifestado pela que­
bra das formalidades canônicas?
Não, porque não houve quebra de formalidade canônica. A
canonização por equipolência já
foi usada nos séculos passados e,
inclusive, por Bento XVI. Essa
proposta já havia sido “cantada”
anos atrás, pelo próprio Cardeal
Amato. A Canonização equipolente se usa em causas seculares,
cuja devoção ao candidato sempre permaneceu em alta e encontra-se disseminada por toda
a região que solicita a declaração
da santidade. Ora, a Causa de
Anchieta possui mais de quatro
séculos, jamais caiu, nem mesmo
quando os jesuítas foram expulsos
do Brasil e a Companhia de Jesus
supressa em toda a Igreja. Além
disso, em cada Estado da Federação encontramos ao menos 50
devotos multiplicadores.
Qual o ponto forte que teria levado o Papa a definir­se pela canonização?
Não diria que foi o Papa, mas
o pedido de Dom Raymundo e
a sugestão do Cardeal Amato de
fazê-la equipolente.
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
Há pessoas que criticam Anchieta
como mais preocupado em introduzir a cultura dos colonizadores
do que preservar a indígena. Até
que ponto isso é verdade? Ter­se­
ia comportado mais como político do que missionário?
Essas pessoas deveriam estudar antes de falar o que não sabem. Foi exatamente o contrário,
não só com Anchieta, mas com os
primeiros jesuítas. Padre Nóbrega e o primeiro bispo, Dom Pero
Fernandes, tiveram vários desencontros por causa disso: os jesuítas
eram acusados de se envolverem
com a cultura indígena e evangelizar de modo apropriado aos indígenas e isso não era bem visto,
ao ponto de Nóbrega deixar Salvador e ir para São Vicente.
Anchieta estuda a língua
Tupi e transforma seus sons em
escrita. Isso perenizou a língua
indígena; por outro lado, ele
catequizava com teatro, atividade lúdica bem ao gosto indígena com danças, cantos e cores
e fazia tudo de acordo com o
cerimonial indígena. Também
Anchieta foi estudar com os pajés a medicina indígena: ervas,
entrevista Pe. César Augusto dos Santos
raízes, como fazer tipoia e o uso
medicinal da argila.
Enquanto os colonizadores
trouxeram e impuseram o Cristianismo como religião de Estado, Anchieta trouxe o Evangelho,
Jesus Cristo, jamais obrigando.
Existe uma passagem em
que Anchieta ameaça os colonizadores escravocatas de não os
confessar mais se continuarem
a escravização indígena e não se
arrependerem publicamente.
Por que a Igreja levou tanto tempo para reconhecer a santidade
de Anchieta? Mudou­se o conceito de santidade ou fatores bloquearam o processo canônico?
São as vicissitudes da vida.
Assim que morreu, já na missa
de corpo presente, o bispo que
presidiu a celebração o chamou
de Apóstolo do Brasil; o processo
foi aberto imediatamente. Todavia, o Papa Urbano VIII emitiu
um decreto fixando a abertura
de qualquer processo de canonização somente após 50 anos da
morte do “candidato”. Depois
de esperar esse tempo e ser reaberto, o processo ficou sem di-
nheiro. Mais tarde, foi retomado
até a Companhia de Jesus ser
supressa de toda a Igreja.
Cada vez que se reabria o
processo, tudo era revisto. Finalmente, em 1980, o Papa João
Paulo II o beatificou. Na verdade não foram 417 anos de processo, mas cerca de 200 anos.
As situações mais complicadas foram vencidas pela Causa.
No século XVIII Anchieta foi
reconhecido como portador de
virtudes heróicas. Essa é, na minha opinião, a parte mais difícil
do processo, na qual tudo que
ele falou, escreveu ou realizou
é analisado e passa por um peneira fina; depois de sobreviver
tanto tempo sem uma base jesuíta para sustentá-lo, quando
da expulsão dos jesuítas: foram
110 anos sem alguém gerenciar
a Causa e ela sobreviveu ilesa.
O que na sua opinião a canonização de Anchieta vai contribuir
para a evangelização pretendida
pelo Papa Francisco?
Canonizar, no século XXI,
um homem que viveu no século XVI, só faz sentido se o vaCadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
lor de seu testemunho for atual
para o homem de hoje. No caso
de José de Anchieta, um missionário, sua ação deve ter sido tão
magnífica que, apesar do Concílio Vaticano II e de documentos
eclesiais mais recentes, continua atual.
São José de Anchieta evangelizou e não impôs a religião
dos colonizadores, atuando em
todos os âmbitos da sociedade.
Levou ainda a fé cristã para todas as dimensões do País que
nascia e se formava. Foi audaz
- o Papa Francisco pede audácia
aos jovens de hoje - e, sobretudo, não se intimidou com a situação inóspita, para um jovem
europeu com saúde frágil, de um
Brasil recém-descoberto.
Seu testemunho da boa nova
foi tal que as famílias indígenas
e portuguesas se mudavam para
o entorno do Colégio São Paulo
de Piratininga para poder estar
próximas daquele jovem tão cativante. Seu alegre anúncio de
Jesus Cristo atraiu tantos que
os levou à conversão à fé cristã
e deu início a uma das maiores
cidades do planeta. ❒
49
CADERNOS DA FEI – EDIÇÃO ESPECIAL
Publicação da Fundação Educacional Inaciana Pe. Sabóia de Medeiros, mantenedora
do Centro Universitário da FEI e dos institutos a ele associados: IPEI e IECAT.
Presidente
Pe. Theodoro Paulo S. Peters, S.J.
Coordenação Editorial
Pe. Paulo de Arruda D’Elboux, S.J.
Editado no Centro Universitário da FEI, Instituição filiada à
Associação Brasileira das Universidades Comunitárias
EXPEDIENTE
Revisão
Prof. Raúl Cesar Gouveia Fernandes
50
Arte final e diagramação
Setor de Comunicação e Marketing da FEI
Silvana V. Mendes Arruda
Endereço para correspondência
Setor de Comunicação e Marketing
Av. Humberto de Alencar Castelo Branco, 3972
CEP 09850-901
Bairro Assunção – S.B.Campo – SP
E-mail: [email protected]
Fotos
Cadú Coppini, Jésus Perlop
www.fei.edu.br
Cadernos da FEI – Edição Especial | Julho 2014
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