ANÁLISE DAS COLUNAS OPINATIVAS DO "JORNAL DA CIDADE DE TAUBATÉ" DO
PERÍODO ELEITORAL EM 2008
Jaime Pereira Lemes1, Ivan Martínez Vargas de Souza2 Monica Franchi Carniellon
1
Universidade de Taubaté / Departamento de Comunicação Social, R. do Colégio, 334, Taubaté, SP,
[email protected]
2
[email protected]
n
Orientadora, [email protected]
Resumo- Os veículos de comunicação impressa e seus colunistas devem explanar e defender abertamente
seus posicionamentos político e ideológico nos editoriais e nas colunas opinativas sobre política. Esta
pesquisa objetiva verificar se as colunas opinativas do Jornal da Cidade de Taubaté, publicadas no período
eleitoral do ano de 2008 podem ser classificadas como jornalismo político ou opinativo e também se
defendem de maneira clara e ética suas opiniões, embasando-as na análise crítica de fatos políticos e de
acontecimentos noticiáveis. Para isso, foram analisados os conteúdos textuais de todas as colunas
publicadas nas páginas destinadas à opinião de jornais que circularam durante o período eleitoral,
comparando-os ao que se espera de um texto jornalístico opinativo e/ou político, que busca(m) levar o leitor
a uma reflexão. Verificou-se que o periódico expressa em suas colunas opiniões contraditórias entre si, e
observou-se que essas opiniões não podem ser enquadradas nos gêneros textuais jornalísticos. Tampouco
estão dentro daquilo que o Código de Ética do Jornalista define como aceitável sobre a emissão de
opiniões.
Palavras-chave: jornalismo político; jornalismo opinativo; ética no jornalismo; eleições.
Área do Conhecimento: Ciências Sociais Aplicadas/Comunicação
Introdução
Esta pesquisa analisa o posicionamento
político e ideológico das colunas opinativas
presentes no veículo de comunicação de massa
diário
"Jornal da Cidade
de
Taubaté",
especificamente das que opinam e fazem
referência às candidaturas à prefeitura da cidade
de Taubaté (principal município em que o jornal
circula) de modo a verificar se seus conteúdos
seguem a linha de algum gênero textual do
Jornalismo Opinativo ou do Jornalismo Político,
tais como a crônica e o artigo. Candidataram-se
ao cargo de prefeito nessa eleição os políticos
Afonso Lobato (PV), Bernardo Ortiz Júnior
(PSDB), Fernando Borges (PSOL) e Roberto
Peixoto (PMDB).
Escolheu-se o Jornal da Cidade de Taubaté por
ser um veículo de comunicação regional que
concede considerável espaço à opinião política,
destinando uma página específica e diversas
colunas para a emissão de opiniões, enquanto que
os outros periódicos diários do município de
Taubaté, como, por exemplo, os jornais "Voz do
Vale" e "Diário de Taubaté", dificilmente dão
espaço às colunas opinativas sobre política. Os
gêneros textuais opinativos presentes no periódico
ocupam as páginas dois (a contra capa) e três da
publicação.
Os meios de comunicação de massa podem,
por meio de suas posições políticas e ideológicas,
influenciar na formação de opinião da sociedade,
e, conseqüentemente em seu voto. Para ROSSI,
“é inegável que ela [a imprensa] desempenha,
claramente, um papel chave para ganhar as
mentes e corações dos segmentos sociais que, no
Brasil ao menos, formam o que se chama de
opinião pública, ou seja, a classe média”(1980, p.9
e 10).
Os posicionamentos diante das posturas e
decisões tomadas por determinado governo (ou
político) ou frente a determinado candidato
durante uma eleição ocorrem com freqüência, pois
a objetividade é difícil de ser atingida: “entre o fato
e a versão que dele publica qualquer veículo [...]
há a mediação de um jornalista [...] que carrega
consigo
toda
uma
formação
pessoal,
eventualmente opiniões muito firmes a respeito do
próprio fato que está testemunhando”, (ROSSI,
1980, p.10).
Desse modo, é fato sabido que, muitas vezes,
um jornal ou jornalista busca privilegiar um
candidato em uma eleição em detrimento dos
outros. Uma das várias maneiras de se privilegiar
um candidato é dar mais espaço a ele. No caso da
imprensa escrita, esse espaço é medido através
da quantidade, do tamanho e da importância das
matérias em que seu nome aparece. Nos casos da
televisão e do rádio, o espaço é medido através do
tempo dado ao candidato, conforme afirma Conti
(1999, p.270). Um candidato que recebe mais
exposição que outro, será mais lembrado, e pode
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se utilizar disso para se eleger com maior
facilidade (SAMPAIO, 2001, p.2). Além do espaço,
a valência das matérias, ou seja, o fato de as
matérias serem elogiosas, críticas ou neutras,
também é um fator de emissão de opinião.
Segundo o Código de Ética dos jornalistas, "a
opinião manifestada em meios de informação deve
ser exercida com responsabilidade", (Capítulo3,
Art. 10). Isso quer dizer que não é vedado ao
jornal, ou jornalista opinar sobre determinados
fatos que julga cabível fazê-lo. Inclusive, para
Beltrão, "[a opinião] é que valoriza e engrandece a
atividade profissional, pois, quando expressa com
honestidade e dignidade, com a (...) intenção de
orientar o leitor (...) se torna fator importante na
opção da comunidade pelo mais seguro caminho à
obtenção do bem-estar e da harmonia do corpo
social" (1980, p.14). Nesse sentido, o próprio
Beltrão afirma que a política editorial de um jornal,
ou seja, a opinião de seu editor, fundamenta-se
em vários elementos, nos quais está presente não
só as convicções do grupo de controle do veículo,
mas também nos interesses econômicos da
empresa. Entretanto, o próprio Beltrão ressalta
que deve-se manter o equilíbrio entre a missão
pública de um jornal, de informar leitores, e seu
objetivo mercantil. Já o jornalismo político, outra
vertente do exercício jornalístico, apesar de ser
analítico, deve procurar manter isenção em suas
notícias e comentários. “A maior preocupação da
cobertura é informar o leitor, e não convencê-lo a
adotar determinadas ideias” (MARTINS, 2005,
p.13). Para Martins, “a grande imprensa (...) tem a
preocupação de separar nitidamente a informação
da opinião na cobertura política” (p. 17).
O autor ressalta ainda que “interpretação e
opinião não são a mesma coisa. (...) A
interpretação é uma primeira leitura do
acontecimento, é uma tentativa de juntar e
relacionar seus vários fragmentos no momento em
que ele está ocorrendo, (...) busca sugerir linhas
de raciocínio” (2005, p. 22).
Metodologia
Por meio de pesquisa bibliográfica e análise
qualitativa do conteúdo das colunas opinativas
sobre política regional publicadas pelo "Jornal da
Cidade" no período eleitoral do ano de 2008, que
compreende os meses de julho, agosto, setembro
e a primeira semana de outubro, foram verificados
os textos apresentados pelas colunas opinativas
do periódico. Esta pesquisa tem alguns
delimitadores. Primeiramente, não faz parte de
sua análise todas as matérias informativas
veiculadas no periódico. Em segundo lugar, faz
parte do escopo deste trabalho observar as
colunas opinativas do jornal veiculadas na página
de opinião do veículo e também a coluna assinada
pelo proprietário do periódico, o jornalista José
Antônio de Oliveira. Quanto às páginas de opinião,
analisou-se os textos opinativos sobre política
publicados durante o período eleitoral de 2008.
Foram considerados os textos referentes às
candidaturas ao cargo de prefeito da cidade de
Taubaté.
Buscou-se classificar se as colunas se
enquadram nas especialidades jornalísticas
Opinativa ou Política, observando-se em que
gêneros textuais jornalísticos seus conteúdos
podem ser enquadrados. Para isso, foram
observadas a linguagem utilizada nos textos das
colunas, a estrutura de raciocínio e de
organização das ideias que as colunas
apresentam e, por fim, o posicionamento político e
ideológico de seus redatores (observando
possíveis contradições entre as colunas). Como
parâmetro de análise e teoria de base foram
usados os conceitos de jornalismo opinativo
desenvolvido por BELTRÃO e de jornalismo
político desenvolvido por MARTINS.
Resultados
O periódico em análise não possuía na época
em que foram publicados os exemplares
analisados, editoriais, textos opinativos que
traduzem o posicionamento do jornal sobre
questões polêmicas. Isso dificulta a identificação
de maneira rápida e objetiva qual o
posicionamento político-ideológico do veículo. A
estrutura da editoria de opinião é constituída por
colunas de posição fixa e distribuídas nas páginas
dois e três do periódico. São cinco as colunas
opinativas que tratam de política e que são
veiculadas no referido espaço. Quanto à estrutura
dos textos, todas as colunas se assemelham, pois
são formadas por pequenas notas que tratam de
temas diferentes entre si e que são separadas por
intertítulos. A coluna “Em Pauta” é publicada
diariamente no canto superior esquerdo da página
dois do veículo e é assinada pelo jornalista Bruno
Monteiro, a coluna “Panorama JC” é publicada
abaixo do texto de Monteiro e assinada por Paulo
Melo. Ao lado do espaço de Melo, situa-se
“Painel”, coluna não-assinada do periódico. Na
página três, ocupando toda a extensão do canto
esquerdo da página, fica a “Bastidores da
Política”, assinada por José Antônio de Oliveira,
proprietário do jornal. A coluna “Pensando em
Você” é publicada esporadicamente pelo jornalista
José Carlos Cataldi ao lado da coluna do dono do
periódico. Observou-se que cada coluna expressa
em seus textos uma opinião, na maioria das
vezes, sem base na análise de fatos noticiáveis ou
em acontecimentos políticos e sim na subjetiva
opinião dos colunistas. A prova disso é que por
várias vezes, colunas expressam posicionamentos
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contrários ante um mesmo fato. É o caso, por
exemplo, dos comentários sobre os dados de uma
pesquisa eleitoral realizada pela Brasmarket e
divulgada pelo jornal Valeparaibano e pela TV
Band Vale no início do mês de julho. A coluna “Em
Pauta” afirma que Ortiz Júnior estaria
“comemorando” o resultado da pesquisa, que
mostrava empate técnico entre ele, Roberto
Peixoto e Padre Afonso. Ele afirma que “Ortiz
Júnior foi o candidato que mais cresceu em
comparação a primeira pesquisa”. Já a “Panorama
JC” salienta, em texto publicado na edição 375, de
9 e 10 de julho, que Padre Afonso estaria contente
com seu desempenho na mesma pesquisa, “haja
vista que está entre o atual prefeito que disputa a
máquina administrativa e com a chave do cofre
nas mãos e com o filho do todo poderoso Ortiz
que teve o comando da política local por mais de
25 anos”.
Com base nas análises de seus textos, podese afirmar que as colunas “Em pauta” e
“Panorama JC” defendem candidatos diferentes. A
primeira defende a candidatura de Ortiz Júnior,
uma vez que faz apenas elogios à sua chapa; a
segunda apoia a candidatura de Padre Afonso,
pois destina considerável espaço em seus textos
para elogiar sua candidatura. Por conta disso, a
coluna de Monteiro chega até mesmo a se
confrontar com a de Melo. No texto publicado na
edição 371 do periódico, em 3 de julho, Monteiro
afirma, ao comentar o resultado de pesquisa
eleitoral, que “ao contrário do que o colunista
verde falou ai no andar de baixo (será o inferno?),
que deve estar em desespero não o candidato que
ele falou não. Aliás, este, está muito feliz com o
resultado da pesquisa”. O candidato que Melo
teria mencionado é Ortiz Júnior.
A coluna “Painel”, por sua vez, apresenta
textos majoritariamente informativos, raramente
opinando sobre algum candidato. Entretanto em
algumas edições a coluna opina, como é o caso
do texto publicado na edição dos dias 2 e 3, que
faz comentários ironizando a aparição de Roberto
Peixoto no horário Eleitoral: “A primeira aparição
de Peixoto no horário Eleitoral de 2004 foi
precedida pelo depoimento do seu irmão
Moacirzinho, que lhe arrancou lágrimas ao falar do
pai, agora os marqueteiros preferiram a esposa
Luciana e os três filhos”. A coluna “Bastidores da
Política”, por sua vez faz comentários favoráveis e
elogiosos
a todos os candidatos, mas
principalmente aos três mais bem colocados nas
pesquisas eleitorais. Seguem exemplos: Sobre
Roberto Peixoto, afirma na edição do dia 14 de
agosto que “a campanha do Peixoto ganhou uma
turbinada ao contratar Marcelo Pimentel para
comandar a campanha”; sobre Ortiz Júnior, na
mesma edição, diz que ele “está comandando um
verdadeiro exército de vereadores” e sobre Padre
Afonso, na edição do dia 20 de agosto, diz que
seu candidato a vice, Rubens Freire, ficou
“empolgadíssimo” com a qualidade do programa
eleitoral.
A coluna de Catandi, por fim, dá pouco
destaque à temática da disputa pelo cargo de
prefeito nas eleições municipais em Taubaté.
Porém, faz por vezes elogios aos candidatos,
como é o caso, por exemplo de texto publicado em
20 de agosto, em que o jornalista afirma que
“vencerá a Eleição quem soube cativar o
eleitorado de Peixoto, com muita chance de vir
para o Padre Lobato”.
Discussão
A cada quadriênio, os brasileiros têm, por
direito garantido pela constituição, a possibilidade
de exercer sua cidadania através do voto, nas
eleições municipais.
Durante o período eleitoral, a mídia em geral se
debruça no assunto, de modo a pautar as
discussões
do
quotidiano
das
pessoas.
Dependendo do enfoque que se dá, os meios de
comunicação de massa têm o poder de influenciar
decisivamente a opinião pública. No caso do jornal
impresso, são os artigos de opinião que fazem de
modo mais incisivo esse papel.
A população nem sempre tem uma formação
crítica adequada, capaz de, ao ler, ver ou ouvir
uma notícia, formar uma opinião própria. Quase
sempre toma como verdade aquilo que recebe,
por ter esses meios de comunicação como meios
críveis. Assim, se o jornalismo produzido pelos
meios não levar em conta a responsabilidade ética
que deve ter, certamente isso se refletirá na ação
do povo. Escrever opinião sem fundamentos e
opinião como se fosse informação são práticas
condenadas pelo Código de Ética dos jornalistas
brasileiros e por vários teóricos da área do
jornalismo.
Conclusão
Observa-se, após análise de conteúdo, que as
colunas opinativas do Jornal da Cidade Taubaté
expressam opiniões contraditórias entre si, sendo
que cada coluna busca privilegiar, apenas por
convicções
pessoais
de
cada
colunista,
determinados candidatos ao cargo de prefeito da
cidade de Taubaté. O fato de não haver editorial
no periódico, não dá ao leitor uma noção clara de
qual é a linha editorial do periódico ou mesmo qual
é o seu posicionamento político. Há uma coluna
do proprietário do jornal, que, busca elogiar os
candidatos que acredita terem chance de se
elegerem. O fato é que na maioria das colunas
analisadas, seus autores não apresentam ao leitor
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nenhuma análise, por mais sucinta que seja, que
justifique suas opiniões, o que permite afirmar que
seus textos não se adéquam nos gêneros
jornalísticos opinativo e político. Em suma, a
estrutura superficial e subjetiva dos textos revela
despreocupação em informar e formar o leitor.
Referências
- BELTRÃO, L. Jornalismo
Alegre: Sulina, ARI, 1980.
Opinativo.
Porto
- CONTI, M. S. Notícias do Planalto: a imprensa e
Fernando Collor. São Paulo: Companhia das
Letras, 1999.
- Federação Nacional dos Jornalistas. Código de
Ética dos Jornalistas Brasileiros. Disponível em:
http://www.fenaj.org.br/federacao/cometica/codigo
_de_etica_dos_jornalistas_brasileiros.pdf. Acesso
em 15 jan. 2009.
- MARTINS, F. Jornalismo Político. São Paulo:
Contexto, 2005.
- ROSSI, C. O que é Jornalismo.
Círculo do Livro. 1990.
.São Paulo:
- SAMPAIO. H. A. Candidatos privilegiados: como
alguns jornais elegem os principais concorrentes
em
uma
eleição.
Disponível
em:
http://www.bocc.ubi.pt/pag/sampaio-hugocandidatos-privilegiados.pdf. Acesso em 20 jun.
2009.
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