Juan Carlos Martos, cmf
Para tempos difíceis e exigentes
Tradução | José Joaquim Sobral
A meus pais, irmãos
e a toda a minha família,
berço onde o Senhor me presenteou
o dom da vocação missionária
por meio de seu testemunho fiel,
feito de entrega, oração e apoio.
A meu tio Manuel,
sacerdote mártir,
e a meu tio Casto,
sacerdote exemplar.
No Centenário da província claretiana da Bética e no
Bicentenário do nascimento de S. Antônio Maria Claret.
Apresentação
Praticamente dediquei toda minha vida missionária à
pastoral vocacional. Desde que iniciei os estudos de teologia, meus superiores atribuíram-me diretamente esta tarefa
que, assim que fui ordenado presbítero, pude tornar simultânea com a formação de missionários e com a pastoral da
juventude. Por essa razão, quando me foi pedido redigir este
livro, compreendi que devia concentrar-me em colocar por
escrito o que tenho visto e ouvido, lido, discutido e compartilhado com muitos companheiros de jornada, de acertos e
desacertos por estes campos, às vezes tão desolados, da animação vocacional. Em particular, devo muito àqueles meus
irmãos claretianos que realizaram e continuam realizando
tarefas de animação vocacional em diversas áreas de ação
da congregação, a diversos membros de outros institutos
religiosos e também, embora em menor medida, a alguns
sacerdotes diocesanos. A todos nos preocupava e ocupava
o grande problema da escassez vocacional. Problema que
sempre me machucou porque continua sendo “a grande
tristeza da Igreja”, como o definiu o próprio João Paulo II;
porém, não me lembro em que ocasião.
Neste âmbito de trabalho direto, ao visitar comunidades e
centros pastorais e organizar inumeráveis encontros e cursos
de pastoral vocacional, observei que nem todos nós pensamos, dizemos nem fazemos as mesmas coisas. Sou testemunha direta da diversidade de atitudes, às vezes opostas, que
se demonstram diante do problema da escassez vocacional.
Elas, mais que os pronunciamentos capitulares, são as que
melhor definem o grau de responsabilidade que existe com
relação ao problema. Em síntese, e ultrapassando numerosos
matizes e enfoques, atrevo-me a apresentar algumas constatações diretamente recolhidas.
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Animação vocacional
A primeira é que “ninguém hoje nega a evidência da prolongada e álgida escassez vocacional”. Todos, sem distinção
nem exceção, aceitam sem evasivas a gravidade da situação da
escassez vocacional e a urgência de tomar decisões que ajudem
a dar, de algum modo, ao problema uma solução. Em relação
às “causas” que deram origem a tal situação, percebe-se uma
maior diversidade de explicações e interpretações. Proponho
sucintamente as mais debatidas: uns destacam, como causa
determinante de tal penúria, a situação atual da Igreja e da
sociedade (decréscimo da natalidade, secularização, indiferentismo, descrédito e desafeição para com a instituição eclesial
etc.); outros, sem negar a anterior, salientam, em particular,
a falta de testemunho, às vezes incluídos aí escândalos de sacerdotes e consagrados; finalmente há um outro grupo que
atribui o problema em particular à desorientação existente em
aspectos básicos como a pouca convicção e a escassa valorização da própria vocação, o problema da identidade, o estilo de
vida secularizado, os critérios errôneos de seleção vocacional
e de formação, a resistência à revisão de obras apostólicas, a
pobre vida comunitária, a evidência de uma necessária purificação ou algum outro aspecto de menor urgência.
Quanto às possíveis “soluções” e “remédios” a serem
tomados para enfrentar essa situação, a pluralidade de
opiniões parece não ter limites. Procurando não excluir
nenhuma das avaliações percebidas, ofereço o seguinte
elenco de posturas-tipo que quase completam o panorama
das sensibilidades.
– Em primeiro lugar, destaca-se um grupo de “silenciosos”. São aqueles que nunca se manifestam diante desta
situação concreta, de maneira que, quando é preciso tratar dela, mantêm um estranho silêncio, quase sempre de
difícil interpretação. Em todo caso, esse grupo silencioso e
abundante não costuma mostrar-se, posteriormente, ativo
na pastoral vocacional. Não colabora nem com sugestões,
nem com contribuições, nem com opiniões... E pode-se
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Juan Carlos Martos
suspeitar de sua sensibilidade e identificação com as próprias obras e estruturas.
– Um segundo grupo, não desprezível, teme certa animação vocacional por considerá-la proselitista e de talhe
farisaico, que, por ter sido condenada pelo próprio Jesus,
deveria ser excluída pela raiz. Poderíamos denominá-lo
como o grupo dos “críticos”. Pretendem denunciar aquele egoísmo institucional que leva a apresentar o próprio
instituto enaltecendo-o de maneira absoluta até mesmo
acima do Reino e da Igreja. Defendem com convicção
que a única coisa que importa é seguir o Senhor, ter fé
nele e sentir mais vivamente a Igreja. Acertam, sem dúvida alguma, ao pretender manter viva a chave de gratuidade e de eclesialidade necessárias em toda pastoral vocacional. Todavia, além de esquecer que cada carisma é
uma forma autêntica do seguimento de Cristo, raramente
oferecem alternativas de trabalho.
– Não poucos se desentendem pensando, ou sem pensar,
que a pastoral vocacional é uma responsabilidade que afeta
somente os superiores e os encarregados diretos de tais assuntos. Esses são os “inibidos”. Entendem que sempre foi
assim e assim deverá continuar sendo. Pensam que não se
deve pretender transformar todas as obras apostólicas para
dedicar todos à promoção das vocações. O problema, segundo eles, concentra-se sobretudo na qualidade pessoal e na
formação pastoral dos encarregados da pastoral vocacional.
– Outros sentem já muito avançada a idade. Sentem-se
“idosos e sem forças”. Pior ainda, sentem-se “repelentes”
em relação a este nosso mundo seduzido pela magia do
“jovem”. Por isso dobram-se sobre si mesmos na atitude
do avestruz, dizendo-se: “No momento da morte resta-nos
o consolo de que nós realizamos um bom serviço para a
Igreja e para o instituto”. Basicamente, manifestam, de
maneira expressa ou tácita, sua incapacidade de pôr em
ação uma pastoral que, no fundo, supera-os e, digamo-lo
também, os assusta.
13
Animação vocacional
– Em alguns existe certo “fatalismo providencialista”,
expresso em frases como estas: “é inútil trabalhar o tema
vocacional, porque não tem solução e não se pode fazer
nada para resolvê-lo”; “fizeram-se muitas tentativas inúteis, e os fatos demonstram a extrema dificuldade deste
trabalho...” Todos os esforços realizados até agora se
mostraram inúteis e todos os que se procurarem fazer no
futuro, inúteis serão também. É melhor deixar correr a
história. Deus nos irá acompanhando, como sempre, no
futuro. Ele não vai deixar escapar-lhe das mãos a história.
– Existem os que exibem outro tipo de desânimo de
teor mais pessimista e desesperançado. Resume-o esta
sentença: “O problema vocacional é um problema muito difícil; teria solução, mas nós não estamos capacitados
para resolvê-lo”. Poder-se-ia conseguir algo se nós fôssemos outros, ou se mudássemos radicalmente nossas vidas,
costumes e estruturas comunitárias e apostólicas (coisa
que não é previsível que vá acontecer, por mais empenhados e ávidos que estejamos por sua “refundação”).
– Outros, em províncias religiosas menos coesas, insistem que existe solução para o problema vocacional, mas
que no próprio organismo vai ser difícil resolvê-lo pela
divisão e pela diversidade de pareceres existentes na hora
de enfrentá-lo. Não se fará nem organizará nada, por falta de acordo. Seria necessário conseguir maior coesão e
união antes de reunir a coletividade dos consagrados que
o compõem. E isso vai sendo adiado.
– A maioria, embora em certas ocasiões pareça não ter
importância, acolhe com prazer e com animação a possibilidade de que o próprio organismo faça uma proposta
mais arriscada, mais séria e real para a pastoral vocacional.
Desejam-na e veem que isso é possível. Constatam que as
posições mais críticas e fatalistas não prestam para nada.
Partindo de uma visão mais “positiva”, eles acreditam que
existem soluções, confiando no Senhor e nas possibilidades
reais com que conta a província. Cresce neles o desejo e a
14
Juan Carlos Martos
esperança de algo melhor. São estas, certamente, as pessoas
com quem melhor e mais se pode contar.
A partir deste marco de impactos recebidos redigi este
livro. Isso explica que o dirija diretamente aos consagrados,
reconhecendo, sem nenhum tipo de reservas, como se verá,
que hoje precisamos atender a todas as vocações e fazê-lo
em missão compartilhada. Concentrei-me fundamentalmente na animação vocacional de candidatos à vida consagrada. Senti a necessidade de contribuir com minha modesta proposta para reforçar a voz de todos os que pedem
que seja reavivado um novo sentido de animação vocacional
que chegue a afetar nossa vida e nossa missão de consagrados. A isso me tenho dedicado até agora, disso é que mais
entendo e isso é o que me foi pedido. Em absoluto excluí a
possibilidade de que o escrito possa ser também aplicado
às vocações ao ministério ou à vida matrimonial e familiar.
Todavia, neste momento, atendê-las de uma maneira direta
supera em muito minhas possibilidades.
O contexto de minhas reflexões recolhe e responde às
questões mais radicais que observo na prática pastoral. Ao
fazê-lo, recorri a leituras, a convicções pessoais brotadas de
recordações vividas e de experiências; também recorri à consulta obrigatória e ao parecer contrastado de algum irmão
sábio. Pareceu-me que devia começar recordando o que sucedeu com a pastoral vocacional em nossa área geográfica ao
longo do período pós-conciliar. A isso dedico o primeiro dos
capítulos. Depois desse pórtico identifico com um contorno
preciso a natureza da pastoral vocacional, evitando assim
certos equívocos. A esse esboço dedico o segundo capítulo.
Outras questões surgiram devido ao seu próprio peso e sem
ordem premeditada, como o reconhecimento dos responsáveis e as estruturas de animação, ou mesmo a situação da
pastoral vocacional no conjunto de uma província religiosa. À figura do animador vocacional dedico um capítulo à
parte, visto que era insuficiente a apresentação feita ao falar
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Animação vocacional
dos responsáveis em geral. Por sua categoria de “ministério”,
bem que merecia mais. A mesma atitude exige a já não tão
novidadeira proposta da missão compartilhada na animação
vocacional. Os dois últimos capítulos seguem uma finalidade mais prática: oferecem um itinerário pedagógico para o
acompanhamento personalizado daqueles que embarcaram
em um processo de esclarecimento vocacional.
Em muitas de minhas reflexões e propostas reconheço que
não sou original. Por trás destas páginas os leitores saberão
reconhecer muitas e boas publicações sobre o tema. A seu momento, defenderei que “na situação atual” não convém ser excessivamente original. Já existem excelentes reflexões eclesiais
realizadas. Não se precisa de mais. O que se precisa verdadeiramente é que sejam conhecidas, sejam respaldadas e divulgadas. Precisamente essa foi, no fundo, minha única pretensão:
que toda a comunidade cristã se deixe transpassar, em sua vida
e ação, por um maior interesse vocacional, de maneira que Jesus, o Senhor, seja mais conhecido, amado e seguido, segundo
o dom com que ele tenha, com a força do Espírito, agraciado
cada um para bem do seu corpo, que é a Igreja.
Finalmente, cumpre-me agradecer a ajuda e o estímulo
recebidos para a composição destas páginas. Em particular
reconheço a inestimável ajuda de meu irmão de província,
Antonio Bolívar, que teve a amabilidade de tomar a seu cargo o ingente peso de corrigir pacientemente, no detalhe e
com primor, meus rascunhos e sugerir nuances interessantes
e complementares.
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Capítulo 1
Trajetória da pastoral vocacional
“Onde se perde o interesse,
também a memória se perde”
(W. Goethe)
Um breve apanhado sobre o itinerário pós-conciliar da
pastoral vocacional em nosso contexto1 nos servirá, sem dúvida, como pano de fundo para podermos entender em que
momento nos encontramos e para nos projetarmos para o futuro. Faremos, portanto, neste capítulo, um exercício de memória histórica, para finalizar destacando como resultado de
todo esse processo ter dado um passo decisivo2, atuado pela
pastoral vocacional e ter alcançado um estado adulto e maduro. Isso nos permitirá contar com uma acertada orientação,
que hoje o trabalho da animação vocacional requer.
Para resumir o trajeto realizado, distinguimos três etapas que
sintetizam o que vem sendo entendido e realizado em pastoral
vocacional. Poderíamos denominá-las como etapa da “abundância vocacional”, etapa da “escassez” e etapa do “salto qualitativo”. Por fim, vamos nos concentrar nessa última, cujo início
poderemos datar com base no Congresso sobre as Vocações, em
maio de 1997, e na qual atualmente nos encontramos.
Inspiradores são os estudos sobre o percurso histórico da pastoral vocacional
realizados por CENCINI, A. Vocaciones. De la nostalgía a la profecía. Madrid:
Atenas 1994. p. 41-52; MAGNO, Vito. “Pastoral de las Vocaciones. Historia”.
In: Diccionario de pastoral vocacional. Salamanca: Sígueme, 2005. p. 854-862; e a
de FERNÁNDEZ, Avelino. La pedagogía de la vocación hoy en nuestra Iglesia.
Todos Uno, n.134, 1998. p. 63-82.
1
2
Cf. Nuevas vocaciones para una nueva Europa (NVNE), 13c.
17
Animação vocacional
A etapa
da abundância
Denominamo-la assim por constituir um peculiar momento histórico no qual seminários menores, escolas apostólicas,
noviciados e centros de formação “estavam repletos” de aspirantes, postulantes, noviços e professos. Podemos situar essa
época nos anos anteriores e imediatamente posteriores ao
Concílio Vaticano II.
O traço significativo que caracteriza essa etapa é que a
maioria das numerosas novas vocações eram meninos ou
adolescentes, provenientes da dominante cultura da cristandade. Esta impregnava os âmbitos sociais, familiares e educacionais, que são os espaços mais incisivos para a socialização
dos valores religiosos. Propriamente falando, o verdadeiro
discernimento vocacional realizava-se “depois de entrar”
na instituição. Para ingressar nela era suficiente “querer ser
religioso” ou “querer ser padre”. Só depois se esclarecia e
se confirmava, processualmente, a verdadeira idoneidade
e motivação da vocação ao longo do processo de formação.
A perseverança apoiava-se em uma peculiar teologia da vocação e em uma pressão social e familiar que apelava para
o medo, para a ameaça de frustração e a irreversibilidade
do compromisso assumido. Consequentemente, abandonar o
processo iniciado era, mais ou menos, sinônimo de rejeição,
mas sempre culpável, ao chamado do Senhor.
Uma análise sumária do que então acontecia em relação à
metodologia pastoral da promoção vocacional apresenta seus
“aspectos positivos”. Ninguém duvida de que aquela abundância vocacional tornou possível a consolidação de estruturas
eclesiais que conseguiram uma indubitável projeção apostólica, permitiu a abertura de novas obras e atividades, o envio
de missionários para terras de missão etc. E não podemos esquecer nem mesmo o trabalho social que naquele tempo se
realizou em relação à formação de muitas gerações que, de
outro modo, jamais teriam tido a oportunidade de obter uma
educação de qualidade.
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Juan Carlos Martos
A partir da perspectiva que a distância histórica nos permite e partindo de nossas atuais percepções, registramos
também notáveis “lacunas e carências”. Para assinalar algumas mais significativas, detemo-nos somente nestas:
– Uma notável falta de sentido eclesial, observável
de maneira particular pelo enclausuramento no próprio
instituto, nos próprios interesses, nas próprias vocações.
Era o caldo de cultura mais oportuno para gerar competitividade intraeclesial e para incentivar a autossuficiência
e o particularismo.
– O termo “vocação” era utilizado pastoralmente a partir de uma concepção aristocrática e elitista. Era privilégio
exclusivo do grupo dos “vocacionados”; os outros — isto é,
a grande massa dos batizados — careceriam dessa vocação
e deveriam somente ser evangelizados. Tal proposta era
apoiada por uma convicção generalizada que reconhecia,
nas vocações de particular consagração, dons preciosos que
precisavam ser valorizados, desejados e protegidos.
– Propriamente, não existia uma pastoral vocacional,
no sentido preciso que foi adquirindo com o tempo. Não
se percebia a necessidade de contar com uma estrutura e
planejamento próprios, nem dispor de outros recursos além
dos da informação e propaganda, nem tornar ninguém especialista, porque o ambiente social propiciava uma “cultura vocacional” que bastava para cobrir as expectativas.
– Coisa bem diferente era a seleção e formação das vocações. É o problema típico dos tempos de abundância vocacional. Nem todos os que entraram naquele período deveriam
ter entrado. E os métodos de discernimento e iniciação vocacionais demonstravam a pobreza de meios, de conteúdos e de
planejamento. Salvou-se, isso sim, a dedicação abnegada de
não poucos consagrados à tarefa de atender e de acompanhar
a educação de inúmeros grupos de meninos que enchiam os
seminários menores e escolas apostólicas.
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Animação vocacional
A etapa
da escassez: pastoral da juventude
O começo da escassez
A etapa de abundância vocacional não durou muito. Desde
os tempos imediatamente posteriores ao Concílio Vaticano II,
iniciou-se um inesperado e progressivo empobrecimento no
número de ingressos nos institutos religiosos. Essa tendência
predominou durante as décadas de 1970 e 1980 e parte dos
anos 1990 e, em muitos de seus aspectos, continua até hoje.
Em um breve espaço de tempo chegou a níveis imprevisíveis,
inclusive alarmantes em certos casos. Foi um acontecimento
surpreendente. Precisamente, em tempos nos quais se construíam enormes edifícios para acolherem as vocações que até
então chegavam de maneira maciça, começava a grande crise com o desligamento de numerosos religiosos e sacerdotes e
com a escassez de novos candidatos. O decréscimo estatístico
deu início, assim, à sua derrocada.
Essa foi uma das consequências dos grandes processos de
transformação iniciados nos anos 1960 e que afetaram os diversos níveis da tessitura social (civil e religiosa). Influiu também na vida religiosa, que teve de enfrentar sua própria crise,
profunda e dolorosa, até quase transformá-la em pouco significativa, incapaz de dar sentido à vida ou de ser atraente
especialmente para os jovens, sem responder a certas exigências e sem aproximar-se de uma determinada sensibilidade do
mundo. O sinal mais palpável desta crise e da queda da sua
projeção social foi a inflexão numérica das vocações, agravada
pelo inevitável envelhecimento e pelas saídas que, precisamente
a partir desse período, alcançaram seu ponto mais elevado.
O clima interno deambulou em uma sucessão concatenada de sentimentos coletivos alternantes (euforia, desorientação, impotência, indiferença etc.). Marcou presença também
o “medo”: medo de não poder manter de pé as obras, medo
de serem poucos e sem relevância, medo de desaparecer...
Apesar do duro inverno vocacional iniciado, não faltaram
vocações, mas já se manifestavam à maneira de conta-gotas.
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Juan Carlos Martos
No perfil do candidato desse período começou a predominar
o adolescente/jovem. Os talentos vocacionais foram naquele
momento os denominados “bolsões protegidos da juventude”, isto é, os filhos de famílias humana e religiosamente integradas, jovens atendidos por instituições eclesiais (colégios,
paróquias, movimentos, associações etc.) que os protegiam
das influências negativas do ambiente sociocultural envolvente. Vocações deste tipo deviam ser cultivadas, levando em
consideração que a crescente cultura da secularização e da
descrença já não as produzia. Daí que os encarregados das
vocações deixaram de ser “recrutadores” de candidatos para
passar a serem “promotores” de vocações, integradas todas
as equipes de pastoralistas que aplicavam uma metodologia
especificamente orientada para a missão.
Aspectos positivos
Foi o início de uma degeneração coletiva da vida religiosa o ocorrido após o concílio? Porventura, foi este fenômeno o indicador certeiro de uma decadência acarretada por
certo “desmantelamento doutrinal” realizado pelo mesmo
concílio?3. Hoje não podemos em absoluto fazer uma avaliação catastrófica da vida consagrada pós-conciliar. A crise
vocacional responde, fundamentalmente, a razões que a excedem além dela mesma. Mas isso se traduz em sinal de alarme que exige de maneira inapelável assumir uma formação
permanente mais profunda.
Detendo-nos no especificamente vocacional, dois fenômenos se enfatizam como consequência positiva trazida pela escassez vocacional. O “primeiro” deles foi um “saudável processo de purificação”. Um olhar sereno sobre o decréscimo
numérico das vocações para entendê-lo como uma saudável,
Cf. OVIEDO, Lluis. Approccio alla realtà degli abbandoni. In: USG, Fedeltà e abbandoni
nella Vita Consecrata oggi. 66 Conventus semestralis. Ed. Litos, p. 67. O autor mencionado
advoga a recuperação e o incremento do sentido da excelência objetiva da vida religiosa sobre outras formas de vida cristã, recuperando a autoestima como consagrados,
incrementando a adesão eclesial e a identificação com o próprio instituto.
3
21
Animação vocacional
embora dolorosa, etapa de purificação. Com efeito, tratava-se
de uma autêntica “cura de humildade” do individualismo
congregacional, da autossuficiência, de certa competitividade intraeclesial e do isolamento eclesial. Entre as coisas boas
colhidas durante esta escassez vocacional, destacam-se a dignificação da vocação laica, o início e fortalecimento das relações intercongregacionais – não tanto ainda com as dioceses
–, o começo da missão compartilhada – sem dúvida motivada, embora não exclusivamente, pela carência de efetivos – e
uma maior abertura para o mundo.
Detenhamo-nos neste último dado. Trata-se de uma purificação espiritual que obriga situar-se diante do mundo e diante
da história em um plano mais crente e menos prometeico. A
história pertence a Deus. Ele é quem a governa. E nós assistimos, sem dúvida desorientados, a formas de crescimento que
nos superam, mas que passam pelos mesmos critérios de aniquilamento e pobreza assumidos pelo Filho do Homem. Uma
purificação desse tipo vem atrelada a uma pedagogia, sutil e
dolorosa, mas necessária e terapêutica. Precisar-se-á recuperar o sentido de pequenez4, a espiritualidade da “vergôntea de
Jessé” e a consciência de existir por pura Providência de Deus.
O “segundo fenômeno”, decisivo face ao futuro, foi o
“nascimento da pastoral vocacional”. A alarmante situação
provocou a necessidade de responder ao desafio que nos era
lançado. Pouco a pouco começou a nascer uma pastoral
vocacional verdadeira e própria. Foi preciso gerá-la quase
a partir da estaca zero. O instrumental empregado até esse
momento para recrutar vocações foi desterrado por ineficaz
e também por ser arcaico e ultrapassado.
Os inícios da incipiente pastoral vocacional foram a defensiva; em alguns casos até a defensiva desesperada. Um problema de tais proporções surpreendeu despreparados quanto à
mentalidade e carentes de iniciativas quanto a métodos. Nesses
4
Cf. GARCIANDÍA GOÑI, M. Qué pasa con la pastoral vocacional? Revisión de
la pastoral vocacional en la Iglesia. Seminarios, n.181, 2006. p. 353.
22
Juan Carlos Martos
primeiros momentos, a recém-estreada pastoral vocacional
balbuciava, iniciando algumas mudanças significativas.
Começou-se a aplainar uma “pastoral da juventude” organizada. Com entusiasmo, o movimento pastoral orientou seu
trabalho para adolescentes e jovens, teve de aprender a planejar, a recuperar processos catecumenais de crescimento da
fé, a impregnar a ação apostólica de sentido comunitário, a
formular em chaves pastorais os próprios valores carismáticos
e congregacionais, a integrar seculares nas equipes de trabalho... Houve quem entendeu que a pastoral da juventude era
como o “novo aquário” onde se reuniam as vocações que já
não fluíam de forma espontânea a partir de ambientes familiares, escolares e paroquiais; mas teve quem, de maneira mais
acertada, entendeu que a pastoral da juventude era a metodologia mais genuína da animação vocacional, visto que a evangelização dos jovens não seria jamais a adequada se não se
ajustasse a uma opção personalizada pelo seguimento de Jesus
em uma concreta forma de vida cristã. Se existe quem insiste
que este modelo está se esgotando quanto a seu rendimento,
bem certo é que não deve se extinguir em sua metodologia de
anúncio missionário, iniciação e discernimento.
Foi então que se fortaleceu a figura do “encarregado vocacional da província”, com ou sem equipe. Dessa maneira alguns religiosos se dedicavam de maneira exclusiva à promoção das vocações para o próprio instituto. Sem a suficiente
formação para uma tarefa que já exigia certa especialização e
sem suficientes apoios institucionais, com frequência tiveram
de lutar de maneira solitária contra uma lógica dominante
no interior, insensível ao problema e pouco colaboradora5,
existente no interior das comunidades religiosas.
Entre os “aspectos negativos” assinalamos que nunca ficou
de todo clara a integração e a ligação de seu trabalho com a
nova pastoral da juventude. Houve absorções, descuidos, enNVNE 13c. descreve esta figura como “cireneu vocacional”, solícito e frequentemente improvisador solitário, trabalhando com iniciativas e experiências episódicas.
5
23
Animação vocacional
frentamentos, falta de coordenação, invasão de campos etc.
no esforço por situar e demarcar, da forma mais adequada
possível, o trabalho especificamente vocacional com a pastoral
da juventude, âmbito privilegiado da mesma.
Por outro lado, a mentalidade de “delegação” por definição,
eliminava a responsabilidade coletiva. A figura do “delegado”
dispensava os outros de assumir a animação vocacional como
um dever vinculado essencialmente à mesma consagração.
O delegado era submetido à tortura da suspeita a respeito da
urgência e oportunidade de seu trabalho e, em particular, à
asfixiante prestação de suas exíguas contas no fim do exercício pastoral, isto é, sua eficácia. A insatisfação foi, portanto,
crescente até se tornar insustentável. O balanço destas pessoas,
certamente abnegadas, demonstra um resultado de ineficácia,
desencanto e abandono que, em muitos casos, levou à supressão
dessa tarefa. Existe quem ainda não encontrou substituto.
A etapa da pastoral juvenil-vocacional não conseguiu resolver definitivamente o problema da escassez de vocações.
As experiências criadas jamais conseguiram os resultados
numéricos que, explícita ou implicitamente, motivaram sua
criação. Quais foram as causas desta ineficácia? Que pode
ter acontecido para que o que todos viam como tábua de salvação não terminasse salvando do naufrágio generalizado?
Diferentes razões o explicam.
Houve precipitação, improvisação, falta de aprofundamento e de método adequado em não poucas propostas da
pastoral juvenil, às vezes excessivamente “juvenilizada”, sem
experiência nem profundidade, deixada nas mãos de agentes
de pastoral novatos e autossuficientes, às vezes não adequadamente preocupados com a evangelização, mas com outros
efeitos estéticos ou afetivos. Pagou-se um preço caro ao confundir a pastoral com o entretenimento. Esse último apresenta melhores atrativos que os que podemos oferecer das
plataformas apostólicas.
Não foram atendidos suficientemente os processos de personalização da fé. A atenção ao pequeno grupo, que supôs
24
Juan Carlos Martos
um avanço, em certo sentido, com relação à anterior pastoral de massas, absorveu a atenção, as forças e as energias. O
preço a pagar por isso foi, sem dúvida, também doloroso.
Apareceu uma implacável “lei do funil”, segundo a qual iam
se reduzindo drasticamente os membros daqueles grupos de
jovens, incapazes em muitos casos de superar certas provas
(as mudanças acadêmicas ou afetivas, as crises, os ambientes, as suculentas ofertas da sociedade de consumo...). Isso
era trabalhar para nada.
Em muitos de nossos institutos foi uma pastoral centrada
em si mesma: incapaz de ser assumida como própria por todos os membros do próprio instituto; incapaz de integração
ou em clara competição com a paróquia e com a igreja local;
incapaz de estabelecer e manter uma relação proveitosa com
a família; incapaz de se projetar fora de seu próprio âmbito...
Aquele modo de proceder também foi acusado, com certa
razão, de abusar da propaganda tendente a maquiar e idealizar,
a colocar em realce os aspectos atraentes e a ocultar as exigências da consagração. Faltou uma pastoral vocacional realizada
“sob a cruz do Senhor”6. A fatura paga por esta estratégia,
mais ingênua que imoral, foi a desconfiança e o descrédito.
Um preço demasiado alto.
Talvez um ponto, pouco assumido ainda nos ambientes
de vida consagrada, tenha sido o não entender sua natural
articulação com a renovação da vida consagrada. A eficácia
utilitarista levava a propostas pastorais só ou principalmente
em função dos vazios a preencher ou de situações anteriores
a restaurar, ou talvez desde uma ótica de medo e de nostalgia. Todos nós lamentamos a falta de testemunho. Mas muito poucos procuraram fazer da mesma pastoral vocacional
uma catapulta de renovação que possibilitasse a irradiação e
o contágio vocacional.
Cf. CENCINI, A. La cruz, verdad de la vida. Búsqueda vocacional y experiencia de
la cruz. Madrid: Paulinas, 2004. p. 55 e ss. Neste belo opúsculo, o autor procura
recuperar esta dimensão perdida.
6
25
Animação vocacional
Uma consequência que nos deve fazer refletir é que este
tipo de animação vocacional pôde seduzir, às vezes, pessoas
fracas e inconsistentes, pessoas frágeis e problemáticas, atraídas por motivos muito distantes da exigência de uma entrega
radical à verdadeira causa do Senhor.
Esta etapa, ainda que não tenha acabado de todo satisfatória, foi sem dúvida necessária. Marcou um antes e um
depois. E, embora não se tenham visto os frutos aguardados,
a etapa nos levou todos a convicções indiscutíveis:
– A pastoral vocacional exige de todo o corpo congregacional a “visibilidade”, presença significativa e proximidade dos jovens7.
– A pastoral vocacional força todo o instituto ao “testemunho”, isto é, a uma renovação de fundo da qualidade
de sua vida e da sua missão.
– A pastoral vocacional deve oferecer “profundidade
crente” em suas propostas, anseios e métodos.
– A pastoral vocacional não deve ser fechada, isolada
ou marginal, mas transversal, como espinha dorsal que
sustente em profundidade toda a pastoral e, também, específica e própria.
– A pastoral vocacional exige “formação e especialização”
qualificada de seus agentes, particularmente nos campos do
acompanhamento personalizado e do discernimento.
O “salto
qualitativo”. Animação vocacional
como impulso para a mudança
São muitos os que assinalam um momento significativo de
mudança no processo, que se manifesta como um desapego a
Cf. GÓMEZ, P. J. Por donde van los tiros? Diez pistas para impulsar una pastoral
juvenil actualizada. Misión Joven, 2003. p. 318-319. Entre as muitíssimas alusões a
esta urgência, acolho como tópico de amostra este estudo por sua clareza sintética.
7
26
Juan Carlos Martos
partir dos pressupostos da etapa precedente8. Esse momento
marca-o de forma concludente o documento Novas vocações
para uma nova Europa, documento final do Congresso Europeu
sobre as Vocações, celebrado em Roma de 5 a 10 de maio
de 1997 e preparado pelas Congregações para a Educação
Católica, para as Igrejas Orientais, para os Institutos de Vida
Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
Tal documento assume e apresenta a situação vocacional
da Europa, analisa-a desde o ponto de vista teológico, dando o fundamento e a indispensável estrutura de referência a
tudo o que se diga depois, e resulta em propostas práticas de
tipo pastoral e de tipo pedagógico9. É o documento que mais
influencia, atualmente, na pastoral vocacional e o que marca
linhas claras e precisas de orientação.
A nova situação
O documento é sensível a uma mudança de situação que
se foi produzindo no contexto da pastoral vocacional nos últimos anos. Com efeito, podemos recolher não poucos elementos desta mudança.
Talvez o dado mais significativo seja o resultante do movimento cultural e da antropologia atual do homem, que é
uma antropologia do homem sem vocação10. Pôs progressivaCf. CIRUJANO A. Incidencias del Magisterio de Juan Pablo II en la pastoral
vocacional. Seminarios, n. 28, 1982. p. 193-212.
8
9
Cf. NVNE 9.
Em NVNE 11c é feita uma descrição desta cultura “antivocacional” nestes termos:
“uma cultura pluralista e complexa tende a produzir jovens com uma identidade
imperfeita e frágil com a consequente indecisão crônica em face à opção vocacional. Muitos jovens nem sequer conhecem a ‘gramática elementar’ da existência,
são nômades: circulam sem se deter em nível geográfico, afetivo, cultural, religioso;
‘eles o tentam’. No meio da grande quantidade de informações, mas destituídos de
formação, aparecem distraídos, com poucos referenciais e modelos. Por isso temem
o seu porvir, sentem-se desassossegados diante de compromissos definitivos e questionam-se sobre sua existência. Se, por um lado procuram a todo custo autonomia
e independência, por outro, como refúgio, tendem a ser dependentes do ambiente
sociocultural e a conseguir a gratificação imediata dos sentidos: daquilo que ‘me
apetece’, daquilo que ‘faz sentir-me bem’ em um mundo afetivo feito sob medida”.
10
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Animação vocacional
mente o homem no centro de sua vida. Afirmar isso significa
que não existe ninguém que o possa chamar. Trata-se de uma
concepção individualista segundo a qual não significa nada o
fato de ser chamado. A vocação, em si mesma, expressa que
o outro é quem chama. Se o outro chama, esse outro ocupa o
centro da própria vida.
Esta antropologia antivocacional do homem sem vocação
dá a razão da sua urgência de voltar a criar uma cultura vocacional. E é importante pensar que os problemas da pastoral
vocacional não são somente problemas da Igreja sem sacerdotes e sem consagrados. É problema do homem e da concepção
do homem! Por essa razão, é importante não desenvolver uma
pastoral vocacional que busque simplesmente encher os seminários e os noviciados. Não. Propriamente, a pastoral vocacional é a vocação da pastoral hoje, pois se trata de modificar essa
antropologia e desativar essa concepção que coloca no centro
da vida o mesmo homem. Trata-se de entender que o homem
foi chamado, e foi chamado pelo Outro – que é Deus – que se
coloca no centro da vida e que é o único que pode chamar... e
de fato é o que me chamou à vida!
O primeiro objetivo da pastoral vocacional é colaborar na
criação de uma cultura vocacional11. Tornar possível o nascimento de um fenômeno cultural12 implica e compromete
sempre uma coletividade de pessoas. Portanto, é necessário
enfrentá-lo com uma estrutura que tenha como referencial
um sujeito coletivo que seja capaz de mudar sua mentalidade
e de gerir conjuntamente a ação pastoral.
11
Cf. NVNE 13b.
Cf. JOÃO PAULO II. Mensagem Pontifícia para a XXX Jornada Mundial de Oração pelas
vocações, celebrada a 2 de maio de 1993 (cf. L’Osservatore Romano, 18-XII-1992; cf. também Congregação para a Educação Católica P.O.V.E., Messaggi Pontifici per la Giornata
mondiale di preghiere per le vocazioni, Roma 1994. p. 241-245). A “cultura vocacional” foi
o tema daquela jornada e foi o chamado que o mesmo João Paulo II dirigiu em seu
discurso aos participantes no congresso (cf. Discurso aos participantes no Congresso
sobre as Vocações na Europa. L’Osservatore Romano, 11-V-1997. p. 4).
12
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Juan Carlos Martos
– Apesar da inicial desconfiança projetada contra as
estruturas, comissões, oficinas, organismos às vezes ineficazes ou distantes da realidade de cada dia, estamos plenamente conscientes da importância de certas estruturas
pastorais para criar uma mentalidade comum e inspirar,
impulsionar e orientar ações comuns. Particularmente no
âmbito vocacional é que se sente a necessidade de trabalhar conjuntamente na mesma direção, a partir de um
marco comum de valores e estratégias pastorais. Deve
nascer uma nova mentalidade, inspirada nos documentos
que a Igreja nos propôs nestes últimos decênios; mentalidade cada vez mais precisa e também acoplada às necessidades de cada lugar.
– A pastoral vocacional deve completar sua ação vendo
como todos os agentes de pastoral assimilam tal mentalidade,
para que seja verdadeira e propriamente uma “nova cultura
vocacional” que abranja todos, desde o vértice até a base. É,
portanto, polivalente a identidade e a função da animação
vocacional: por um lado, tem de criar mentalidade, trabalhando em um plano acima de tudo teórico; por outro lado,
deve promover experiências e sugerir métodos e caminhos a
percorrer. A chave que torna não só eficiente, mas também
eficaz, esse trabalho de animação é a “coerência interna”
entre o marco teórico prático utilizado que permita unir a
cultura vocacional em geral (aspecto teórico) a um determinado campo estritamente vocacional (aspecto prático).
– Esta proposta encerra em seu seio uma multidão de
efeitos colaterais como podem ser a necessidade de abrir
seu campo para o mundo e a cultura, tornando-se presente,
de uma forma especial, naqueles lugares em que se gera
cultura (os centros educacionais e culturais, os meios de
comunicação, os “areópagos” etc.); a recuperação do sentido eclesial manifestado em um aumento significativo de
comunhão entre as diversas formas de vida cristã e, particularmente, entre as congregações e em uma inserção
mais profunda na Igreja local, em um esforço conjunto por
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Animação vocacional
curar chagas; uma maior atenção às pessoas em sua singularidade vocacional nas propostas pastorais, sem dissolvê-la
no comunitário; e a manutenção da política de verter para
linguagens pastorais os frutos, já amadurecidos, do redescobrimento do próprio carisma.
– O florescimento de outras novas formas de vida consagrada, inclusive dentro das instituições religiosas já existentes... Este último fenômeno é um claro sinal de que a
vida consagrada tem em seu interior a capacidade de gerar
formas de vida cheias de sentido para o homem de hoje e,
portanto, ainda atraentes.
O salto qualitativo
É uma perspectiva nova que se apresenta como desafio e esperança para a animação vocacional. A perspectiva surgiu com
força na raiz do congresso de Roma e representa algo totalmente diferente em relação às fases precedentes: trata-se de um
“salto qualitativo” em relação às velhas concepções da animação vocacional, como o papa João Paulo II consignou em seu
discurso de encerramento desse congresso sobre as vocações13.
A pastoral vocacional tinha chegado a uma encruzilhada
histórica, a um passo decisivo, como se se tratasse de “um estado ‘adulto’ e ‘maduro’ da pastoral vocacional”14. Mais ainda,
o que muda não é a estratégia ou a metodologia, mas sua mesmíssima finalidade e natureza. Daí em diante não deverá ser
mais entendida como uma simples técnica de recrutamento,
mas, fundamentalmente, como um poderoso “estímulo de renovação” da Igreja e, em particular, da vida consagrada. Não
se trata, portanto, de atender somente a essa manifesta preocupação, mais ou menos angustiosa, quanto ao número e à sobrevivência, mas despertar, acima de tudo, a coragem de procurar,
viver e propor nosso modelo renovado de consagração.
13
“Discurso do Santo Padre...”. L’Osservatore Romano, 11-V-1997.
14
NVNE 13.
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Todavia, em que consiste exatamente esse “salto de qualidade” na pastoral das vocações? A resposta se resume em
um luminoso decálogo. Essa resposta nos é oferecida pelo
mesmo documento final do congresso15, quando convida a
realizar uma pastoral vocacional que:
– Expresse de forma “estável e coerente” a maternidade da Igreja, aberta ao desígnio inescrutável de Deus, que
sempre “gera vida” nela.
– Oriente-se eficazmente a suscitar e promover “todo
tipo de vocações”.
– Sinta a necessidade de estender, com valentia, “a
todos” o anúncio do Reino e a proposta vocacional, em
nome daquele Deus que não faz acepção de pessoas.
– Abra-se, diante do medo, à “esperança cristã”, que
nasce da fé e se projeta para a novidade e o futuro de Deus.
– Seja animada pela convicção de que toda pessoa,
sem excluir nenhuma, é um dom original de Deus.
– Promova antes de tudo a ajuda “à pessoa” para que
saiba discernir o desígnio de Deus sobre a sua vida para a
edificação da Igreja.
– Confie no Senhor, que continua chamando em “cada
Igreja e em cada lugar” e, em consequência, evite “importar vocações”.
– Inspire-se no “método de acompanhamento
comprovado”16 para poder prestar uma ajuda apropriada
a quem está em atitude de busca.
– Articule o “ministério do animador vocacional” com
a “ação coral”, de toda a comunidade, religiosa ou paroquial, de todo o instituto ou de toda a diocese, de cada
presbítero ou pessoa consagrada ou simples crente, e para
todas as vocações em cada fase da vida.
15
NVNE 13c.
Ver a abundante bibliografia com que contamos sobre o acompanhamento. Devido à
clareza, convido a ler o artigo de MARÍN ROMO, A. J. Crecer en el acompanãmiento.
Todos Uno, 2006. p. 43 ss. Ou o de GONZÁLEZ PAZ, A. Ajustar-se al patrón. Un horizonte integrador para acompañantes de vocaciones. Todos Uno, 2004. p. 5-11.
16
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Animação vocacional
– Combata a “patologia do cansaço” com um novo e
ardente impulso criativo e testemunhal.
Destinatários da animação vocacional
Como se poderá perceber, uma década depois daquele congresso, estamos ainda em um estado de acolhida e de assunção
destas indicações. Propriamente não nos encontramos em uma
fase de busca. Já sabemos o que temos de fazer. Cumpre-nos
somente delinear as pistas da prática pastoral que se projetem,
ao menos, para quatro pontos cardeais, tais como:
– Para a mesma “comunidade cristã” e, dentro dela,
a “comunidade religiosa”, para que cheguem a ser expressão viva e atraente de um testemunho vocacional
autêntico e crível.
– Para os “animadores vocacionais”, que devem encontrar sua identidade e seu lugar no conjunto da vida e
da missão da comunidade sem se diluir.
– Para “todos”, particularmente para os jovens, sem
exclusões nem elitismos, aos quais se deve oferecer o incentivo e a ajuda necessária para que se estabeleça sua
vocação à luz de Jesus Cristo.
– Para os “inquietos”, especialmente aqueles que por
sua idade se encontram em um momento de busca e de
esclarecimento, e necessitam de uma ajuda qualificada e
permanente em seu processo de discernimento.
Passou já o período sobre a incerteza a respeito dos métodos e dos conteúdos. Temos abertos horizontes e caminhos. É
questão de percorrê-los17. A realidade pastoral nos ensina que,
17
Ampliações em torno desta exortação dirigida a toda a comunidade eclesial a
ser, juntamente, sujeitos ativos e destinatários da pastoral vocacional, podemos
encontrá-las em IVMA. De la espera a la propuesta. Seminarios, n. 32, p. 5-11, 1986;
JOÃO PAULO II. No tengáis miedo de llamar. Mensagem para a Jornada Mundial de
Oração pelas Vocações, 1979; RUBIO MORÁN, L. Orientaciones eclesiales para
una pastoral eclesial de las vocaciones. Seminarium, n. 31, p. 697-725, 1991.
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atualmente, no dia a dia, nosso principal trabalho é a semeadura da semente da vocação. E sabemos o que, a curto prazo, nos
espera: um processo lento, às vezes desesperadoramente lento,
que nos porá à prova. Somente no fim os que perseverarem
recolherão os frutos do que se tenha semeado. Não outra coisa.
Isso supõe que a pastoral vocacional deve perder essa espécie de “complexo de inferioridade” em relação a outros setores da pastoral considerados mais urgentes, mais “produtivos”
e, talvez, menos problemáticos. Tal complexo pode mantê-la
em um estado de isolamento, menoridade, irrelevância ou
fonte de frustrações. O que quer significar que, necessariamente, deve encontrar seu lugar específico e sua articulação
em nível estrutural no conjunto da vida e da missão de cada
instituto religioso e de cada diocese. E esse lugar não pode ser,
sem mais, o da etapa anterior. Isso continua sendo ainda um
problema discutido18.
A esperança só permite entrever o que ainda não se cumpriu, proporciona luz para descobrir a direção apropriada e,
sobretudo, infunde força para enfrentar seu desenvolvimento.
A pastoral vocacional deve, assim, erigir-se em “profecia”19
de uma vida consagrada renovada, que não se centra em si
mesma, nem em suas próprias necessidades, mas no bem do
povo de Deus, para o que recebeu um dom que não pode ser
reservado para si mesmo.
Cf. MAGNO, Vito. Pastoral de las Vocaciones. Doctrina. In: Diccionario de pastoral
vocacional. Salamanca, Sígueme, 2005. p. 852.
18
Cf. CENCINI, A. Vocaciones, de la nostalgía a la profecía. Madrid: Atenas, 1994; neste
livro, particularmente nas páginas 49-51, aparece o sentido preciso no qual o autor
entende o profetismo da pastoral vocacional.
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Juan Carlos Martos, CMf - Editora Ave