UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ
JOÃO PAULO MATIAS PAIVA
ANÁLISE MICROCLIMÁTICA EM CONJUNTOS
HABITACIONAIS: o caso do Conjunto Ceará – Fortaleza/CE
FORTALEZA – CEARÁ
2010
i
JOÃO PAULO MATIAS PAIVA
ANÁLISE MICROCLIMÁTICA EM CONJUNTOS HABITACIONAIS: O CASO
DO CONJUNTO CEARÁ – FORTALEZA/CE.
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa
de Mestrado Acadêmico em Geografia do Centro de
Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual do
Ceará, como requisito parcial para obtenção do título
de mestre em Geografia.
Área de Concentração: Análise Geoambiental e
Ordenação do Território nas Regiões Semi-Áridas e
Litorâneas.
Orientadora: Profª. Drª. Lidriana de Souza Pinheiro
Co-orientadora: Profª. Drª. Maria Elisa Zanella
FORTALEZA – CEARÁ
2010
ii
P149a
Paiva, João Paulo Matias
Análise
Microclimática
em
Conjuntos
Habitacionais: o caso do Conjunto Ceará –
Fortaleza/CE. / João Paulo Matias Paiva. —
Fortaleza, 2010.
150 p. : il.
Orientadora: Profª. Drª. Lidriana de Souza
Pinheiro.
Dissertação
(Mestrado
Acadêmico
em
Geografia) – Universidade Estadual do Ceará,
Centro de Ciências e Tecnologia.
1. Clima Urbano. 2. Conforto Térmico. 3.
Conjuntos Habitacionais. 4. Fortaleza/CE. I.
Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências
e Tecnologia.
CDD: 551.6
iii
JOÃO PAULO MATIAS PAIVA
ANÁLISE MICROCLIMÁTICA EM CONJUNTOS HABITACIONAIS: o caso do
Conjunto Ceará – Fortaleza/CE.
Dissertação de Mestrado submetida ao
Programa de Mestrado Acadêmico em
Geografia do Centro de Ciências e Tecnologia
da Universidade Estadual do Ceará, como
requisito parcial para obtenção do título de
mestre em Geografia.
Área de Concentração: Análise Geoambiental e
Ordenação do Território nas Regiões SemiÁridas e Litorâneas.
Aprovada em: 28 / 06 / 2010.
Banca Examinadora:
_______________________________________________________________
Lidriana de Souza Pinheiro (Orientadora)
(Doutora em Oceanografia pela UFPE – Pernambuco, Professora do Mestrado
Acadêmico em Geografia – UECE)
_______________________________________________________________
Maria Elisa Zanella (Co-orientadora)
(Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR – Paraná,
Professora do Departamento de Geografia/UFC)
_______________________________________________________________
Marta Celina Linhares Sales (Membro)
(Doutora em Geografia Física pela USP – São Paulo, Professora do
Departamento de Geografia/UFC)
_______________________________________________________________
Isorlanda Caracristi
(Doutora em Geografia Física pela USP – São Paulo, Professora do Mestrado
Acadêmico em Geografia – UECE)
iv
Para minha irmã Rejane, por sua força,
fé e alegria de viver!
v
AGRADECIMENTOS
À Deus que nunca me deu outra opção a não ser a de reconhecer sua
presença e força na minha vida.
À minha orientadora, Profª. Lidriana Pinheiro, pela autonomia e liberdade que
me deu no desenvolvimento da pesquisa.
À minha co-orientadora, Profª. Elisa Zanella, exemplo de simplicidade,
competência e profissionalismo. Meu muito obrigado pelo acompanhamento,
respeito e pela confiança depositada em mim desde a época do PETGeografia/UFC.
À Profª. Marta Celina pelo apoio nos instrumentos dos trabalhos de campo e
também pelas orientações ao meu trabalho.
À Profª Isorlanda Caracristi pelas contribuições na disciplina Teoria e Método
em Geografia, bem como às contribuições ao meu trabalho.
À Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(FUNCAP) pelo apoio financeiro à pesquisa.
Ao Mestrado Acadêmico em Geografia da UECE na pessoa dos professores,
Elmo, Marcos Nogueira, Daniel Pinheiro. Em especial, agradeço à Profª. Lúcia
Mendes pela ajuda preciosa na análise das imagens de satélite. Agradeço
ainda às funcionárias Júlia e Lúcia pelo apoio no decorrer do curso.
Aos meus pais, Raimundo e Margarida, meus verdadeiros mestres que sempre
me incentivaram e me acompanharam em todos os momentos. Obrigado pelo
amor, dedicação e por todas as oportunidades que me proporcionaram.
À minha eterna Luciana, por seu amor, carinho, presença e compreensão,
sobretudo, nos momentos em que nem eu mais me suportava. Meus mais
profundos agradecimentos e sentimentos de amor.
vi
Aos meus irmãos, Jeane, Rejane, Neto e Daniel, sempre cúmplices e
companheiros, e sempre dispostos a ajudar no desenvolvimento de meus
trabalhos.
Aos amigos e companheiros do Mestrado, em especial Marcos Brito, Mariluza
Barros, Camila Dutra e Ana Karine, pela amizade e companheirismo em todos
os momentos. O curso não teria sido o mesmo, sem a presença dessas
pessoas tão queridas que muito me ajudaram e me fizeram sentir bem em
“terras estrangeiras”.
Ao Departamento de Geografia da UFC, especialmente os professores: Clélia
Lustosa, Levi Sampaio, Salete de Souza, Vanda Claudino e Raimundo Castelo.
Não posso deixar de agradecer ao Programa de Educação Tutorial –
PET/Geografia/UFC por ter me inserido verdadeiramente na vida e pesquisa
acadêmica. Agradecimentos especiais ao tutores Profª. Ivaine Tonini, Profº.
Eustógio Dantas, Profª. Elisa Zanella e Profª. Clélia Lustosa pelos incentivos e
pelo acompanhamento. Agradeço também o companheirismo de todos
bolsistas, em especial, Daniele Rodrigues, Geísa Silveira e Rosana.
Aos eternos amigos Silmara Quinto, Fabiano Freitas e Francisco Oliveira, pelos
momentos partilhados, brincadeiras e parcerias nas pesquisas desenvolvidas.
Pelos bons momentos vividos nas aulas de campo, nas caminhadas pelo
Campus do Pici, na confecção “forçada” de mapas e na correria dos prazos a
serem cumpridos. Sem dúvida nenhuma, todas essas coisas me fizeram uma
pessoa melhor. Muito obrigado por tudo!
Aos amigos de graduação, Anatália Franco, Sirlene Ferreira, Maria Rubevânia
e Renato Freitas, pela amizade e companheirismo no decorrer do curso.
À grande amiga Lourdinha, pela sua ajuda desde os tempos de PET até agora
no mestrado, principalmente na confecção dos mapas e pelas orientações ao
meu trabalho. Obrigado por sempre atender minhas ligações “urgentes” e pela
disponibilidade em ajudar continuamente.
vii
Às equipes que tornaram possível a realização dos trabalhos de campo:
Silmara, Fabiano, Francisco, Auricélio, Tadeu, Rosana, Bruna, Marcos,
Wescley, Daniel, Marília e Juliana. Agradeço, em especial, à amiga Vládia que
desde as aulas de campo “experimentais” colocou-se à disposição para a
coleta de dados, dedicando-se em tempo integral à minha pesquisa.
Ao amigo Marcelo Moura, pela orientação na concepção da pesquisa e pela
oportunidade que me deu de participar de seus trabalhos de campo, o que me
fez despertar para a Climatologia. Agradeço ainda pela ajuda na interpretação
dos sistemas atmosféricos. Além de agradecer, manifesto minha admiração à
esse geógrafo por sua competência e dedicação à Climatologia.
Aos queridos amigos Erasmo e Nádia, pela força, amizade e por todos os
momentos partilhados. Agradeço, especialmente, à grande poeta Mary
Nascimento, pela verdadeira amizade e partilha nos momentos difíceis dessa
caminhada e pela revisão ortográfica do trabalho.
À todos que direta e/ou indiretamente contribuíram para a realização desta
pesquisa.
viii
A vida é o que fazemos dela. As
viagens são os viajantes. O que
vemos não é o que vemos senão o
que somos.
(Fernando Pessoa)
ix
RESUMO
O trabalho foi realizado no Conjunto Ceará, situado no setor sudoeste da
cidade de Fortaleza / CE, com o objetivo de conhecer a dinâmica climática
dessa área sob o nível termodinâmico do S. C. U. de Monteiro (2003). O
objetivo
geral
da
pesquisa
constitui-se
em
analisar
os
contrastes
microclimáticos de um conjunto habitacional e a influência do uso e ocupação
do solo nesses parâmetros climáticos. A pesquisa foi realizada em 5 pontos
amostrais na área de estudo que apresentam dinâmica urbana e características
geoecológicas diferenciadas. A coleta de dados foi realizada em dois
experimentos de períodos sazonais contrastantes, com medições simultâneas
realizadas nos horários de 6, 9, 12, 15, 18 e 21 h. O primeiro experimento foi
realizado no dia 22/04/2009 correspondendo ao período chuvoso e o segundo
realizado no dia 23/10/2009 que corresponde ao período seco do Estado do
Ceará. Foram coletados os seguintes dados climáticos: temperatura, umidade
relativa do ar, velocidade e direção dos ventos e nebulosidade, e dados de
natureza urbana como fluxo de veículos e pessoas nos pontos de coleta. Os
sistemas atmosféricos atuantes nos dias dos experimentos foram analisados a
partir de cartas de pressão e imagens de satélites. Os resultados encontrados
evidenciam a dinâmica climática dos períodos sazonais em que foram
mensurados, tendo os sistemas de circulação atmosférica como fatores
determinantes no comportamento dos atributos climáticos. Os contrastes
térmicos e higrométricos observados foram expressivos para a realidade do
conjunto habitacional. Os pontos amostrais de intensa dinâmica urbana e
densidade
de
construções
foram
os
que
apresentaram
as
maiores
temperaturas e, consequentemente, condições desfavoráveis ao conforto
térmico.
Palavras-chave: Clima urbano. Conforto térmico. Conjuntos habitacionais,
Fortaleza/CE.
x
ABSTRACT
This study was developed in Conjunto Ceará, located in the southwestern
sector of the city of Fortaleza, in order to know about the climate dynamic of the
area under the thermodynamic level of Monteiro’s (2003) S. C. U. The goal of
the research is on analyzing the climatic contrasts of a housing development
and the influence of land use and occupation of these climatic parameters. The
survey was conducted in five sampling sites in the study area that show urban
dynamics and characteristics geoecological differentiated. Data collection was
performed in two
experiments
of
contrasting seasonal
periods,
with
simultaneous measurements made at the times of 6, 9, 12, 15, 18 and 21
h. The first experiment was held on 22/04/2009 corresponding to the rainy
season and the second held on 23/10/2009 which corresponds to the dry
season of the state of Ceara. We collected the following weather data:
temperature, relative humidity, wind speed and direction and cloud cover, and
urban data such as flow of vehicles and people at the collecting points. The
active weather systems in the days of the experiments were analyzed from
pressure charts and satellite images. The results show the climate dynamics of
the seasons in which they were measured, with the systems of atmospheric
circulation as factors in the behavior of the climatic attributes. The contrasts in
temperature and hygrometric observed were significant for the reality of
housing. The sites of intense urban dynamics and density of buildings were
those with the highest temperatures and thus unfavorable to thermal comfort.
Keywords:
Urban
climate.
Thermal
comfort.
Housing.
Fortaleza/CE.
xi
LISTA DE TABELAS
TABELA 1: População do Estado do Ceará e de Fortaleza..............................63
TABELA 2: Construção de conjuntos habitacionais da Região Metropolitana de
Fortaleza...........................................................................................................68
TABELA 3 – Contrastes Térmicos do Experimento I.......................................117
TABELA 4 – Contrastes Higrométricos do Experimento I...............................117
TABELA 5 – Contrastes Térmicos do Experimento II......................................131
TABELA 6 – Contrastes Higrométricos do Experimento II..............................131
xii
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1: Concepções teóricas da Climatologia.............................................24
FIGURA 2: Controles e atributos do clima.........................................................29
FIGURA 3: Trocas de calor do individuo com o ambiente.................................40
FIGURA 4: Nonograma do Índice do Conforto Equatorial (I.C.E)......................44
FIGURA 5: Carta Bioclimática de Olgyay (1952)...............................................46
FIGURA 6: Estratificação vertical da atmosfera urbana e escalas de
análise................................................................................................................48
FIGURA 7: Diagrama do Conforto Humano- INMET.........................................53
FIGURA 8: Localização dos Pontos de Coleta de Dados..................................55
FIGURA 9: Canal da Avenida G........................................................................59
FIGURA 10: Avenida Ministro Albuquerque Lima (Central)...............................59
FIGURA11: Monumento símbolo do Conjunto Ceará situado na Av. Min
Albuquerque Lima..............................................................................................60
FIGURA 12: Polo de lazer Luiz Gonzaga..........................................................71
FIGURA 13: Centro Cultural Patativa do Assaré...............................................71
FIGURA 14: ZCIT mostrada através das imagens do satélite METEOSAT-7...77
FIGURA 15: Atuação do sistema VCAN’s.........................................................77
FIGURA 16: Linha de Instabilidade atuando no litoral nos estados Maranhão,
Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte..................................................................78
FIGURA 17: Atuação de um CCM sobre a cidade de Fortaleza no dia 24/04/98
às 8 h local.........................................................................................................79
FIGURA 18: Nebulosidade oriunda das ondas de leste....................................80
FIGURA 19 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (19722001)..................................................................................................................85
FIGURA 20 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (19722001)..................................................................................................................86
xiii
FIGURA 21: Normais Climatológicas do PICI-INMET (1972-2001)...................87
FIGURA 22: Foto e imagem do Ponto 1 – Avenida Ministro Albuquerque
Lima...................................................................................................................90
FIGURA 23: Foto e imagem do Ponto 2 – Terminal de Ônibus ........................93
FIGURA 24: Foto e imagem do Ponto 3 – Rua 319..........................................96
FIGURA 25: Foto e imagem do Ponto 4 – Rua 448 .........................................99
FIGURA 26: Foto e imagem do Ponto 5 – Centro de Saúde da Família Maciel
de Brito ............................................................................................................102
FIGURA 27 – Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento I............106
FIGURA 28 – Dinâmica atmosférica do dia do Experimento I.........................109
FIGURA 29 – Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento I.....110
FIGURA 30 – Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento II...........119
FIGURA 31 – Dinâmica atmosférica do dia do Experimento II........................122
FIGURA 32 – Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento II....123
xiv
LISTA DE QUADROS
QUADRO 1 - Sistema Clima Urbano- Articulações dos subsistemas segundo os
canais de percepção..........................................................................................33
QUADRO 2 - Sumário das respostas humanas ao estresse termal, segundo
Griffths (1976)....................................................................................................41
QUADRO 3 - Quadro síntese das Condições Geoecológicas e Urbanas dos
Pontos ..............................................................................................................56
QUADRO 4 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento I..................115
QUADRO 5 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento I.....................116
QUADRO 6 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento I........................116
QUADRO 7 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento II.................129
QUADRO 8 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento II....................130
QUADRO 9 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento II.......................130
xv
LISTA DE MAPAS
MAPA 1 – Localização da Área de Pesquisa ...................................................61
MAPA 2 – Localização dos Conjuntos Habitacionais em Fortaleza..................67
MAPA 3 – Padrões de Ocupação do solo no Ponto 1.......................................91
MAPA 4 - Padrões de Ocupação do solo no Ponto 2........................................94
MAPA 5 – Padrões de Ocupação do solo no Ponto 3.......................................97
MAPA 6 – Padrões de Ocupação do solo no Ponto 4.....................................100
MAPA 7 - Padrões de Ocupação do solo no Ponto 5......................................103
xvi
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
BNH – Banco Nacional de Habitação
CCM’s- Complexo Convectivo de Mesoescala
CCS - Complexos Convectivos de escala subsinóptica
CEF – Caixa Econômica Federal
CPTEC- Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos
COHAB – Companhia de Habitação
DHN- Departamento de Hidrografia da Marinha do Brasil
ENOS - El Niño Oscilação Sul
FGTS - Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
FUNCEME. - Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hidricos do
Ceará
INMET- Instituto Nacional de Meteorologia
IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica
I.C.E- índice do Conforto Equatorial
INPE- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
LI- Linhas de Instabilidade
PCD’s- Plataforma de Coleta de Dados
PDDU- Plano diretor de Desenvolvimento Urbano
POAS - Perturbações Ondulatórias no campo dos ventos alísios
PRODECOM - Projeto de Desenvolvimento Comunitário do Conjunto Ceará
SDU - Secretaria de Desenvolvimento Urbano
SCU – Sistema Clima Urbano
SEMACE- Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Estado do Ceará
xvii
SEHAC – Secretaria Especial de Habitação e Ação Comunitária
SFH - Sistema Financeiro de Habitação
TA- Sistema Tropical Atlântico
T.e -Temperatura efetiva
UECE – Universidade Estadual do Ceará
UFC – Universidade Federal do Ceará
TSM- Temperatura da Superfície do Mar
VCAS-Vórtice Ciclônico de Altos Níveis
ZCIT-Zona de Convergência Intertropical
xviii
SUMÁRIO
DEDICATÓRIA
AGRADECIMENTOS
EPÍGRAFE
RESUMO
ABSTRACT
LISTA DE TABELAS
LISTA DE FIGURAS
LISTA DE QUADROS
LISTA DE MAPAS
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
1.INTRODUÇÃO................................................................................................20
2. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO.............................................23
2.1 - Concepções teóricas ................................................................................23
2.2 - O clima urbano: S.C.U. .............................................................................29
2.3 – O subsistema termodinâmico ..................................................................34
2.4 - Estudos do clima urbano ..........................................................................35
2.5 - Índices de conforto térmico........................................................................38
2.6 - As variáveis climáticas adotadas e a escala da pesquisa.........................46
2.7 - Procedimentos Metodológicos ..................................................................49
2.7.1 - Fase I: Levantamento bibliográfico e cartográfico ......................49
2.7.2 - Fase II: Trabalho de campo ........................................................50
2.7.3 - Fase III: Análise e representação dos dados ..............................57
3.
O
CONJUNTO
CEARÁ:
HISTÓRICO,
CARACTERIZAÇÃO
GEOECOLÓGICA E OS PADRÕES DE OCUPAÇÃO DO SOLO...................58
3.1 – Localização da área da pesquisa ............................................................58
3.2 - O surgimento dos conjuntos habitacionais em Fortaleza .........................62
xix
3.3 – Um breve histórico do Conjunto Ceará ....................................................69
3.4 – Caracterização Geoecológica ..................................................................72
3.4.1–Características geológicas/geomorfológicas, pedológicas,
hidrográficas e vegetacionais..................................................................72
3.4.2.– Caracterização Climática............................................................74
3.4.2.1 - A dinâmica atmosférica .................................................75
3.4.2.2 - Análise dos atributos do clima .......................................83
3.5 – Os padrões de ocupação do solo no Conjunto Ceará .............................88
3.5.1 - Ponto 1: Avenida Ministro Albuquerque Lima .............................88
3.5.2 – Ponto 2: Terminal de Ônibus ......................................................92
3.5.3 – Ponto 3: Rua 319 ......................................................................95
3.5.4 – Ponto 4: Rua 448 .......................................................................98
3.5.5 – Ponto 5: CSF Maciel de Brito (Rua 602)...................................101
4.
OS
MICROCLIMAS
URBANOS
NO
CONJUNTO
CEARÁ
–
FORTALEZA...................................................................................................104
4.1 - Análise do Experimento I: 22/04/2009 ....................................................105
4.1.1 – As condições sinóticas..............................................................105
4.1.2 - A dinâmica dos atributos climáticos ..........................................111
4.2 – Análise do Experimento II: 23/10/09.......................................................118
4.2.1 – As condições sinóticas .............................................................118
4.2.2 - A dinâmica dos atributos climáticos ..........................................124
4.3 – Análise sazonal dos experimentos ........................................................132
5.
O
ESTUDO
DO
CLIMA
URBANO:
CONTRIBUIÇÕES
AO
PLANEJAMENTO DA CIDADE......................................................................136
5.1 – Proposta ao clima urbano do Conjunto Ceará........................................137
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................141
ANEXOS .........................................................................................................146
xx
1. INTRODUÇÃO
A cidade, sendo um espaço expressivo da relação sociedade x natureza,
tem manifestado ao longo do tempo problemas socioambientais de diversas
escalas resultantes, sobretudo, do processo de urbanização. Por constituir-se
de um espaço, em geral, densamente ocupado e disputado por diversos
segmentos sociais, as questões relacionadas ao planejamento urbano e às
alterações no ambiente natural ganham destaque.
É inegável que a ação do homem e os processos decorrentes de sua
organização social, têm gerado, inclusive no ambiente urbano, alterações em
diversas esferas como: soterramento de ambientes lacustres e fluviais,
impermeabilização do solo, canalização de rios e utilização de diversos
materiais para construção, os quais muitas vezes alteram o comportamento do
clima em escala microclimática.
O crescimento urbano verificado na segunda metade do século XX
trouxe grande parte dos problemas supracitados, uma vez que não foi
acompanhado de políticas públicas eficientes na questão do planejamento do
espaço urbano. A cidade de Fortaleza insere-se nesse contexto, tendo a
expansão de seu tecido urbano como resultado principalmente da implantação
de conjuntos habitacionais nas áreas periféricas da cidade. Esses conjuntos
surgiram, muitos dos quais, com a realocação de moradores de outras áreas,
consideradas de risco, tendo o objetivo de reduzir a problemática habitacional e
“melhorar” as condições de moradia.
No entanto, muitos desses espaços foram construídos sem se levar em
conta estudos das condições naturais, implantação de infraestrutura e etc.,
causando um
crescimento desordenado.
Atualmente,
esses
conjuntos
habitacionais apresentam uma densidade populacional considerável e um
grande número de atividades e serviços, alguns deles chegando a ser polos de
serviços com relação a bairros vizinhos.
É neste sentido, que a dinâmica populacional da cidade com a
concentração e desenvolvimento das mais variadas atividades e serviços faz
com que o ambiente urbano se configure como uma esfera natural retrabalhada
ao modo do viver humano (MONTEIRO, 2003).
20
Esse crescimento populacional, bem como os padrões de ocupação do
solo urbano, gera mudanças na atmosfera da cidade no que diz respeito ao
comportamento
das
variáveis
climáticas
locais,
influenciando
conseqüentemente as condições de conforto térmico dos citadinos. Para
entender essas mudanças é necessário, como bem aponta Monteiro (1990),
adentrar a cidade para tomar-lhe a temperatura.
No intuito de entender a dinâmica climática em espaço intra-urbanos na
cidade de Fortaleza, principalmente em conjuntos habitacionais optou-se pelo
Conjunto Ceará como objeto de estudo da pesquisa. O conjunto é resultado
das políticas habitacionais do Banco Nacional de Habitação - BNH - na década
de 1970 e se destaca na cidade de Fortaleza como um dos maiores conjuntos
habitacionais tanto em termos demográficos como em extensão territorial.
O Conjunto Ceará está situado no setor sudoeste da cidade de
Fortaleza, e apresenta uma grande quantidade de atividades e serviços como
escolas, igrejas, pontos comerciais, bancos, residências que se apresentam de
certa forma concentrados no seu interior. Percebem-se áreas internas
homogeneizadas, no que se refere às formas de uso e ocupação do solo.
A idéia da pesquisa é oriunda do Roteiro para o Estudo do Clima Urbano
de Fortaleza na perspectiva do campo térmico proposto por Moura (2006,
2008) e integra o projeto O CLIMA EM ESPAÇOS INTRA-URBANOS DE
FORTALEZA E REGIÃO METROPOLITANA NO CAMPO TERMODINÂMICO E
O CONFORTO TÉRMICO, realizado no Departamento de Geografia da UFC,
sob a coordenação da Profª. Maria Elisa Zanella.
A análise assume relevância devido à escassez de trabalhos climáticos
na perspectiva dos espaços intra-urbanos de Fortaleza, além de discutir o
comportamento climático local relacionando-o com o processo de uso e
ocupação do solo com o objetivo de se pensar o planejamento da cidade e, no
caso, o bairro do Conjunto Ceará.
Para se investigar as características climáticas intra-urbanas e o conforto
térmico na área de estudo, foi traçado o seguinte objetivo geral:
Analisar os contrastes microclimáticos e o conforto térmico de um
conjunto habitacional e a influência do uso e ocupação do solo nesses
21
parâmetros climáticos, tomando como exemplo o Conjunto Ceará –
Fortaleza/CE.
E os seguintes objetivos específicos:
Identificar, dentre os pontos analisados, os contrastes térmicos e
higrométricos visando a análise do conforto térmico no conjunto
habitacional.
Identificar o comportamento atmosférico e os sistemas geradores de
diferentes tipos de tempo na área nos dias de coletas de dados e
aqueles que o antecedem.
Evidenciar o processo e as diferenças nos padrões de ocupação do solo
na área de estudo e a influência deste nas temperaturas e no conforto
térmico.
Propor estratégias de planejamento para viabilizar o conforto térmico e a
qualidade ambiental dos habitantes do conjunto.
22
2. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
2.1 - Concepções teóricas
O interesse do homem pelas questões climáticas é bastante antigo e
deriva das repercussões dos fenômenos atmosféricos no desenvolvimento das
atividades humanas (SANTANA NETO, 1998).
Ao longo do tempo, o conhecimento da atmosfera, acumulado pelo
homem, permitiu a este o estabelecimento de uma nova postura frente às
intempéries naturais, onde o caráter divino é substituído por um maior grau de
entendimento e manipulação de tais fenômenos. Mendonça & Danni-Oliveira
(2007) cita:
Desvendar a dinâmica dos fenômenos naturais, dentre eles, o
comportamento da atmosfera, foi necessário para que os
grupos sociais superassem a condição de meros sujeitos às
intempéries naturais e atingissem não somente a compreensão
do funcionamento de alguns fenômenos, mas também a
condição de utilitários e de manipuladores dos mesmos em
diferentes escalas (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007,
p.11).
Atribui-se aos gregos o pioneirismo no que se refere às primeiras
observações e registros do comportamento atmosférico. No entanto, somente
no período da Renascença, com as inovações tecnológicas, acontece o
desenvolvimento
e
conseqüentemente
sistematização
dos
aspectos
do
conhecimento
climáticos
da
(SANTANA
natureza,
NETO,
e
1998;
AYOADE, 2003; MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). Neste momento
histórico o conhecimento climático, tendo seu desenvolvimento motivado
principalmente pelas guerras, ganha impulso com a invenção de instrumentos
como termômetros e pluviômetros (SANTANA NETO, 1998), que juntamente
com outras invenções como o barômetro de mercúrio e o telégrafo que viriam
compor as atuais estações meteorológicas (AYOADE, 2003), tornam-se
fundamentais para a produtividade e a circulação das mercadorias em geral
(MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007).
Os
estudos
atmosféricos
desenvolveram-se
e
apresentam
diferenciações no decorrer do tempo, no que se refere às concepções
23
adotadas e aos procedimentos metodológicos aplicados. A Climatologia sendo
uma ciência que estuda os padrões de comportamento da atmosfera,
verificados durante um longo período de tempo (AYOADE, 2003) teve nessas
diferenciações a base para uma divisão em Climatologia Clássica ou
Tradicional e Climatologia Moderna ou Dinâmica.
FIGURA 1: Concepções teóricas da Climatologia.
Fonte: Adaptado de Conti, 2006.
O conceito de clima como sendo “o conjunto de fenômenos
meteorológicos que caracterizam o estado médio da atmosfera sobre cada
lugar da Terra”, elaborado por Julius Hann, serviu de embasamento para a
Climatologia Clássica. Nesta abordagem, há uma forte presença de um método
analítico-estatístico do clima, com ênfase no emprego de médias (MENDONÇA
& DANNI-OLIVEIRA, 2007).
Atkinson (1972), citado por Ayoade (2003), apresenta algumas das
deficiências da abordagem climática Clássica, sendo elas: o caráter descritivo e
não explicativo do clima, que desconsidera a gênese dos fenômenos
apresentados; a noção de uma atmosfera estática, enquanto que esta
apresenta-se como dinâmica e em constante mudança; a negligência quanto
aos fenômenos de feedback que atuam na atmosfera, ou seja, as interações
existentes na dinâmica atmosférica; e por último as classificações climáticas
24
apresentadas, cujas linhas demarcatórias tendem a demonstrar mudanças
abruptas de clima, uma vez que o que ocorre é uma alteração gradativa de um
tipo climático para outro.
Desse modo, a concepção tradicional do clima apresenta limitações
representadas pelo emprego de médias, uma vez que estas nem sempre
correspondem à realidade complexa do clima e também por não considerar o
fator tempo que implica em ritmo climático, podendo desta forma ser
considerada uma abordagem superficial.
No intuito de superar as limitações da Climatologia Tradicional, a
Climatologia dita moderna ou dinâmica apóia-se numa abordagem genética do
clima, enfatizando a explicação dos fenômenos atmosféricos em sua sucessão
(AYOADE, 2003).
A moderna climatologia [...] incide na explicação dos
fenômenos atmosféricos, além de descrevê-los. A atmosfera é
dinâmica, não-estática, e fazem-se esforços para compreender
os processos e interações que ocorrem na atmosfera e na
interface atmosfera-superfície da Terra. [...] Mas ao contrário
dos antigos, o homem moderno não quer viver à mercê do
tempo meteorológico. [...] o homem necessita capacitar-se a
entender os fenômenos atmosféricos de modo que possa
prevê-los, modificá-los ou controlá-los quando possível. Daí a
necessidade de enfatizar a explicação dos fenômenos
atmosféricos, que é a base da moderna meteorologia.
(AYOADE, 2003: 7)
O conceito de clima apresentado por Max Sorre (1934), e citado por
Conti (2006), que o define como “a série dos estados atmosféricos acima de
um lugar em sua sucessão habitual”, é a base para o desenvolvimento desta
abordagem. Na Climatologia Dinâmica, os elementos e fatores climáticos
deixam de ser analisados isoladamente e passam a ser entendidos a partir da
interação e interdependência existente entre eles. Além das médias, são
considerados os sistemas atmosféricos que influenciam o clima e a noção de
ritmo torna-se fundamental na explicação da sucessão dos tipos de tempo e,
conseqüentemente, na classificação climática.
Zavattini & Barros (2009) acrescenta ainda que a climatologia dinâmica
teve seu desenvolvimento atrelado ao desenvolvimento da Meteorologia. A
25
Meteorologia Dinâmica e a proposta climática de Sorre possibilitaram novas
formas de abordagem em Climatologia.
O enfoque dinâmico da Climatologia Geográfica teve, no Brasil, grande
repercussão com o geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro que,
considerando as ideias francesas de Maximilien Sorre e de Pierre Pédélaborde,
trouxe para as análises climáticas a noção de ritmo climático (MOURA, 2008).
A nova perspectiva é dinâmica (série e sucessão) e está
baseada em uma propriedade intensiva da atmosfera – a
própria idéia de tempo meteorológico, essencialmente
associativa. Parece-me que não há dúvida de que o paradigma
novo é o ritmo em substituição à média dos elementos
discretamente dissociados à atmosfera e expressos com meras
propriedades extensivas. (MONTEIRO, 1976:23)
Monteiro (1976) define o ritmo como o encadeamento sucessivo e
contínuo dos estados atmosféricos e suas articulações no sentido de retorno
aos mesmos estados. O autor apresenta a proposta técnica de análise rítmica
para os estudos climatológicos, em três anunciados:
O ritmo climático só poderá ser compreendido através da
representação concomitante dos elementos fundamentais do
clima em unidades de tempo cronológico pelo menos diárias,
compatíveis com a representação da circulação atmosférica
regional, geradora dos estados atmosféricos que se sucedem e
constituem o fundamento do ritmo. (MONTEIRO, 1976:9)
Só a análise rítmica detalhada ao nível de “tempo” revelando a
gênese dos fenômenos climáticos pela interação dos fatores,
dentro de uma realidade regional é capaz de oferecer
parâmetros válidos à consideração dos diferentes e variados
problemas geográficos dessa região. (MONTEIRO, 1976:12)
Na análise rítmica as expressões quantitativas dos elementos
climáticos estão indissoluvelmente ligados à gênese ou
qualidade dos mesmos e os parâmetros resultantes desta
análise devem ser considerados levando em conta a posição
no espaço geográfico em que se define. (MONTEIRO, 1976:13)
Assim, o paradigma do ritmo é apropriado para os estudos climáticos
desenvolvidos numa perspectiva geográfica, uma vez que a Climatologia
Geográfica é dinâmica e, além de uma mera análise quantitativa, procura
contemplar o estabelecimento de relações entre os fenômenos atmosféricos e
a sociedade (SANT’ANNA NETO, 2003).
26
Max Sorre é considerado o mentor de uma Climatologia Geográfica,
cujos trabalhos estão no cerne das reflexões que Monteiro concretizou em sua
proposta de análise rítmica como a essência da análise geográfica do clima.
(SANT’ANNA NETO, 2004).
As novas perspectivas teóricas que se abriram através dos
postulados de Max Sorre, no campo da Climatologia como
fenômeno Geográfico, possibilitou toda uma revisão conceitual
que, assumidas por Pierre Pédélaborde na França, na década
de 1950, e no Brasil por Carlos Augusto de F. Monteiro, na de
1960, cada um a sua maneira, propiciou uma verdadeira
revolução paradigmática em que, as noções de dinâmica,
gênese e ritmo passaram a constituir os fundamentos do
entendimento do fenômeno atmosférico como categoria de
análise geográfica, contrastando com as abordagens
generalizadoras e de caráter regional, mais em busca de
tipologias do que de processos. ((SANT’ANNA NETO,
2004:99).
O presente trabalho assume como base a concepção dinâmica do clima
por considerar que esta corresponde a um melhor tratamento e compreensão
dos fenômenos climáticos na organização do espaço geográfico. A análise
rítmica será também considerada no desenvolvimento do estudo do clima
urbano no Conjunto Ceará, embora o Sistema Clima Urbano seja o referencial
teórico-metodológico mais importante.
Para uma melhor análise dos fenômenos climáticos, faz-se necessário
identificar os controles e atributos do clima compreendendo suas inter-relações
no espaço geográfico.
O clima assume posição de destaque nos estudos ambientais, uma vez
que seus elementos e fatores encontram-se em constante interação com as
outras esferas do meio ambiente. As condições climáticas influenciam e são
influenciadas constantemente pelos elementos da paisagem, como a
vegetação e a própria dinâmica da sociedade (AYOADE, 2003).
Sendo, o clima, o resultado de um conjunto de atributos e fatores, a
compreensão destes torna-se necessário para o aprofundamento dos
processos ocorridos na dinâmica climática. Romero (1988) considera
elementos climáticos como os responsáveis em definir e fornecer os
componentes do clima, sendo a temperatura, a umidade do ar, as precipitações
27
e os ventos os principais. A autora atribui ainda aos fatores climáticos, a
qualidade de condicionar, determinar e dar origem ao clima, e divide os fatores
em globais (radiação solar, latitude, longitude, altitude, ventos, massas de água
e terra) e locais (topografia, vegetação, superfície do solo natural ou
construído).
Mendonça & Danni-Oliveira (2007) entendem os elementos climáticos
como os atributos físicos que caracterizam as propriedades da atmosfera
geográfica de um dado local, sendo representados pela temperatura, umidade
e pressão que manifestam-se através da precipitação, vento, nebulosidade,
ondas de calor e frio, de acordo com a diversidade geográfica. Já os fatores do
clima, ou controles climáticos, são definidos pelo autor como aquelas
características geográficas estáticas diversificadoras da paisagem, como
latitude, altitude, relevo, vegetação, continentalidade/maritimidade e atividades
humanas.
Embora sejam apresentados de formas isoladas, é necessário entender
que o mesmo não ocorre na dinâmica atmosférica, uma vez que elementos e
fatores atuam constantemente em conjunto (ROMERO, 1988). A divisão entre
elementos e fatores não deve ser considerada com tanta rigidez, mas a interrelação significativa existente entre eles (Figura 1), além do que, dependendo
da análise climática o número de elementos a ser envolvido pode se
consideravelmente ampliado (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007).
No ambiente urbano o clima ganha características próprias em virtude
do processo de urbanização que altera de forma significativa as características
climáticas locais.
28
FIGURA 2 - Controles e atributos do clima. Adaptado de Mendonça & Danni-Oliveira, 2007.
Latitude
Astronômico
Atividades
humanas
Vegetação
Global
N
Pressão
Temperatura
Regional
Relevo
Umidade
Elementos
Climáticos
Continentalidade
Maritimidade
Fatores
Geográficos
Local
Níveis de
Influência
2.2 - O clima urbano: S.C.U.
O professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, com base na
concepção dinâmica do clima proposta por Sorre e da Teoria Geral dos
Sistemas, lança em 1976 um quadro de referência teórica para o estudo do
clima urbano. A proposta teórica denominada como Sistema Clima Urbano
(S.C.U.) vem a tornar-se a principal referência para os estudos climáticos no
Brasil, contribuindo para a consolidação de uma escola climática em nosso
país.
O S.C.U. pode ser entendido a partir dos critérios de escolhas,
enunciados básicos, questões de consistência e os canais de percepção.
Nos critérios de escolha estão envolvidos o pragmatismo, dinamismo,
consistência, empirismo e o modelismo. O pragmatismo destaca a investigação
centrada no pesquisador e direcionada a outros pesquisadores e/ou aqueles
que queiram fazer uso dos resultados da investigação (VIANA, 2006;
MONTEIRO, 2003). O dinamismo contempla a abordagem sorreana do clima,
29
como base para a análise do comportamento atmosférico. A consistência
permite uma estrutura teórica adequada para enquadrar tanto os fenômenos
mais amplos e complexos como os mais simples e restritos, possuindo
elasticidade no tempo e espaço, indicando que a investigação possa ser
desenvolvida em qualquer ambiente urbano. O empirismo trata-se das
observações, de modo que os fenômenos estudados possam ser verificados ou
refutados. O modelismo implica na representação, diagramação e mesmo
mapeamento dos dados obtidos.
Monteiro (1976, 2003) apresenta os enunciados básicos do S.C.U. como
idéia reguladora de sua proposta teórica:
1- O clima urbano é um sistema que abrange o clima de um
dado espaço terrestre e sua urbanização. (MONTEIRO,
2003: 19)
2- O espaço urbanizado, que se identifica a partir do sítio,
constitui o núcleo do sistema que mantém relações íntimas
com o ambiente regional imediato em que se insere.
(MONTEIRO, 2003: 20)
3- O S.C.U. importa energia através do seu ambiente, é sede
de uma sucessão de eventos que articulam diferenças de
estados, mudanças e transformações internas, a ponto de
gerar produtos que se incorporam ao núcleo e/ou são
exportados para o ambiente, configurando-se como um
todo de organização complexa que se pode enquadrar na
categoria dos sistemas abertos. (MONTEIRO, 2003: 20)
4- As entradas de energia no S.C.U. são de natureza térmica
(oriundas da fonte primária de energia de toda a Terra – o
Sol), implicando componentes dinâmicas inequívocas
determinadas pela circulação atmosférica, e decisivas para
a componente hídrica englobada nesse conjunto.
(MONTEIRO, 2003: 21)
5- A avaliação dessa entrada de energia no S.C.U. deve ser
observada tanto em termos quantitativos como,
especialmente, em relação ao seu modo de transmissão.
(MONTEIRO, 2003: 22)
6- A estrutura interna do S.C.U. não pode ser definida pela
simples superposição ou adição de suas partes
(compartimentação ecológica, morfológica ou funcional
urbana), mas somente por meio da íntima conexão entre
elas. (MONTEIRO, 2003: 23)
7- O conjunto produto do S.C.U. pressupõe vários elementos
que caracterizam a participação urbana no desempenho do
sistema. Sendo variada e heterogênea essa produção, fazse mister uma simplificação, classificatória, que deve ser
constituída através de canais de percepção humana.
(MONTEIRO, 2003: 24)
8- A natureza urbana do S.C.U. implica em condições
especiais de dinamismo interno consoante o processo
30
evolutivo do crescimento e desenvolvimento urbano, uma
vez que várias tendências ou expressões formais de
estrutura se sucedem ao longo do processo de
urbanização. (MONTEIRO, 2003: 24)
9- O S.C.U. é admitido como passível de auto-regulação,
função essa conferida ao homem urbano que, na medida
em que o conhece e é capaz de detectar suas disfunções,
pode, através do seu poder de decisão, intervir e adaptar o
funcionamento do mesmo, recorrendo a dispositivos de
reciclagem e/ou circuitos de retroalimentação capazes de
conduzir o seu desenvolvimento e crescimento seguindo
metas preestabelecidas. (MONTEIRO, 2003: 25)
10- Pela possibilidade de interferência auto-reguladora,
acrescentam-se ao S.C.U., como sistema aberto, aquelas
propriedades de entropias negativas pela sua própria
capacidade de especialização dentro do crescimento
através de processos adaptativos, podendo ser qualificado,
assim, como um sistema morfogênetico. (MONTEIRO,
2003: 25)
Os enunciados servem como base para o desenvolvimento dos estudos
climatológicos, por tratarem-se mais de idéias reguladoras do que de regras a
serem completamente seguidas (MONTEIRO, 2001).
No que se refere às questões de consistência, são apresentados a
ordem de grandezas e os graus de organização, os padrões de comportamento
e auto-regulação, a dinâmica processual e padrões estruturais do Sistema
Clima Urbano.
A partir do que foi apresentado, Monteiro (1976) consolidou o quadro
teórico e metodológico para o estudo do clima urbano. Os níveis que formam a
estrutura geral do S.C.U. são formados por três subsistemas – Termodinâmico,
Físico – Químico, Hidrometeórico -, associados aos canais de percepção
humana, sendo: Canal I – Conforto Térmico, Canal II – Qualidade do Ar, Canal
III – Impacto Meteórico (Quadro 1).
Cada um dos subsistemas tem um objeto de estudo diferenciado sendo:
as ilhas de calor, ventilação, conforto e desconforto térmico o objeto do
subsistema termodinâmico; a poluição do ar, assim como as doenças
respiratórias o objeto do físico-químico, e os impactos meteóricos, incluindo os
problemas de inundação urbana o objeto do hidrometeórico. Assim, o S. C. U.
tem como foco de estudo o clima da cidade a partir de uma visão integrada, de
conjunto.
31
O sistema é composto por hierarquias que se intercalam tanto horizontal
como verticalmente, gerando um nível maior de resolução representado pelo
próprio clima da cidade, admitindo ainda níveis de resolução intermediários (os
grandes conjuntos de fenômenos do universo climático) (MOURA, 2008).
32
QUADRO 1 - Sistema Clima Urbano- Articulações dos subsistemas segundo os canais de
percepção. Fonte: Monteiro, 2003.
SUBSISTEMAS
Termodinâmico
Físico-Químico
Caracterização
Fonte
Hidrometeórico
CANAIS DE PERCEPÇÃO
I
II
III
Conforto térmico
Qualidade do Ar
Impacto Meteórico
Atmosfera
Atividade urbana
Radiação
Veículos
Atmosfera
auto- Estados
motores.Industrias
Circulação horizontal
especiais
(desvios rítmicos)
Obras-limpeza
Trânsito no sistema
Intercambio de operador De
e operando
Mecanismo de ação
Transformação
no Difusão
sistema
Projeção
Interação
operando
ao Do
operador
operador
ao
operando
através
do Concentração
sistema
no
sistema
núcleo Do núcleo ao ambiente
Do ambiente ao núcleo
ambiente
Desenvolvimento
Contínuo(permanente)
Meteorológica
Observação
Cumulativo(renovável)
especial Sanitária
(trabalho de campo)
Episódico (eventual)
e Meteorológica
meteorológica especial
Hidrológica (trabalho de
campo)
Correlações
disciplinares e
Engenharia sanitária e
Bioclimatologia
Arquitetura
Engenharia sanitária
infra estrutura urbana
tecnológicas
Urbanismo
“Ilhas de calor”,
Produtos
Ventilação
Poluição do ar
urbana
Aumento de precipitação
Efeitos diretos
Ataques à integridade
Desconforto e redução Problemas sanitários
Problemas de circulação
no desempenho humano
e comunicação urbana
Doenças
respiratórias,
oftalmológicas etc.
Reciclagem adaptativa
Controle de uso do solo
Tecnologia de conforto
Vigilância e controle dos Aperfeiçoamento
agentes de poluição
da
habitacional
da
infra-estrutura urbana e
regularização
fluvial.Uso do solo.
Responsabilidade
Natureza e Homem
Homem
Natureza
33
2.3 - O Subsistema Termodinâmico
O presente estudo é desenvolvido a partir do subsistema Termodinâmico
no canal I – Conforto Térmico. Este subsistema trata-se do mais utilizado pelos
estudos climáticos, como bem destaca Viana (2006), sobretudo no Nordeste
Brasileiro como aponta Moura (2008) ao realizar uma revisão bibliográfica de
grande parte das produções científicas envolvendo o clima urbano.
O subsistema Termodinâmico tem como objeto de estudo as ilhas de
calor e de frescor que convergem para a discussão do conforto térmico urbano.
Este subsistema assume posição de destaque dentro da estrutura geral do
S.C.U., como bem ressalta Monteiro (2001):
Dentro do esquema do S.C.U., esse canal atravessa toda a sua
estrutura, pois que é o insumo básico, é transformado pela
cidade e pressupõe uma produção fundamental no balanço de
energia líquida atuante no sistema. O uso do solo, a morfologia
urbana, bem como suas funções, estão intimamente implicados
no processo de transformação e produção. (MONTEIRO, 2003:
44)
O estudo das componentes térmicas da atmosfera permite a associação
com os outros processos atmosféricos, objetos dos outros subsistemas, como
a poluição do ar e os impactos meteóricos, já que a temperatura é fator
determinante no comportamento dos ventos, nos campos de pressão
atmosférica e mesmo nas precipitações.
O subsistema Termodinâmico é composto por cinco níveis de
resolução, sendo eles: 1- Insumo, 2 – Transformação, 3 – Produção, 4 –
Percepção e 5 – Ação. Os níveis apresentam-se com total interdependência e
funções específicas dentro do funcionamento do subsistema.
O insumo (nível 1) representa a entrada de energia no subsistema com
as devidas repercussões na circulação atmosférica. A transformação (nível 2)
da energia adquirida se dará a partir dos controles climáticos urbanos, ou seja,
as características do sítio urbano com sua natureza e funções, resultando na
produção (nível 3) de uma estrutura térmica geradora das ilhas de calor/frio
implicando diretamente no conforto térmico, variações dos campos de pressão,
e diminuição/aumento da velocidade dos ventos. Esses fenômenos são
percebidos pela sociedade tanto em nível individual como coletivo o que
34
constitui o nível 4 – Percepção. Os desdobramentos dessa percepção são
passíveis da ação (nível 5) individual, por meio da ventilação urbana, e coletiva,
através de decisões sobre os controles climáticos urbanos que implica em
planejamento (MOURA, 2008).
Nesse subsistema há necessidade de interdisciplinaridade com outras
ciências como a Bioclimatologia, a Geografia Médica, a Arquitetura e
Urbanismo, uma vez que a análise termodinâmica liga-se diretamente à
construção dos espaços habitacionais e urbanos, sendo estes importantes
responsáveis pelos mecanismos de transformação da energia do subsistema
(MONTEIRO, 2001). A interdisciplinaridade torna-se, portanto, fundamental no
processo de se efetivar as ações encontradas no estudo das componentes e
processos termodinâmicos do ambiente urbano.
2.4 - Estudos do clima urbano
Neste sentido alguns trabalhos foram e estão sendo realizados em
várias cidades do Brasil considerando-se a variação espacial da temperatura
do ar, na perspectiva do conforto térmico.
Lombardo (1985) é umas das referências de grande repercussão no
país. A autora estudou a Metrópole Paulistana a partir de imagens de satélite e
trabalhos de campo em padrões de ocupação do solo diferenciados na cidade.
A partir dos dados obtidos, identificou contrastes térmicos superiores a 10ºC
entre o centro da cidade de São Paulo e a área rural. A intensidade da ilha de
calor na Metrópole Paulistana refletiu a dimensão da mancha urbanizada e dos
diferentes tipos de usos do solo.
Araújo e Sant’anna Neto (2002) estudaram o clima urbano da cidade de
São Luís/MA em registros episódicos intra-urbanos em diferentes bairros da
cidade. Os dados apontaram que as áreas de uso do solo mais adensadas e
com pouca vegetação possuem uma tendência em apresentarem temperaturas
mais elevadas.
Mendonça (2003) desenvolveu metodologia para o estudo do clima
urbano em cidades de médio e pequeno porte aplicando-a na cidade de
35
Londrina/PR. O levantamento de dados meteorológicos na área de estudo foi
realizado a partir de 17 pontos amostrais em ambientes relativamente
homogêneos na cidade. Os resultados do estudo mostraram a ocorrência de
ilhas de calor de magnitudes de até 10º C na área urbana de Londrina, valores
esses também encontrados em cidades de grande porte como São Paulo e
Porto Alegre. Os locais mais aquecidos foram principalmente os de
urbanização mais densa e de pouca vegetação.
Brandão (2003) verificou o clima urbano do Rio de Janeiro/RJ a partir de
três transectos de características contrastantes no que se refere ao uso e
ocupação da área urbana. A autora considerou o uso residencial, comercial e
industrial, como também a densidade de construções, para verificar as
diferenças de temperatura na cidade. A partir dos dados, foi possível concluir
que nas áreas mais verticalizadas e densamente construídas, como os bairros
Botafogo e Copacabana, a temperatura esteve mais elevada, sobretudo a
noite. Percebeu-se também a importância das áreas verdes na formação de
ilhas de frescor, fato este observado no parque Jardim Botânico em quase
todos os trabalhos de campo realizados.
Azevedo et al (2003), ao verificar a influência do microclima em
residências representativas da favela de Paraisópolis no município de São
Paulo, analisou as temperaturas máximas e mínimas diárias e as condições de
conforto em função dos registros de umidade e temperatura, chegou à
conclusão de que a tipologia das casas e características como o telhado e o
tipo de material utilizado na construção das paredes das residências têm
influência direta nas condições de conforto/desconforto térmico dos moradores.
Tavares e Tarifa (2004), ao analisar dados climáticos da cidade de
Sorocaba numa série temporal de 41 anos, perceberam uma tendência de
aquecimento, mesmo a área não apresentando influências diretas da
urbanização e alertam ainda para a necessidade de estudos aprofundados no
sentido de se evitar explicações simplistas e “catastróficas”.
Imbroisi et al (2004), ao averiguar duas estações climatológicas do Rio
de Janeiro: Praça Mauá localizada no centro da cidade e Estação Ilha Rosa
longe da influência do meio urbano; constataram numa fase inicial que na
primeira década de análise (1972 a 1979), houve uma queda de temperatura
média anual na segunda enquanto que na primeira a oscilação da temperatura
36
não atingiu 1° C. Este fenômeno tendo influencias diretas do processo de
urbanização foi também associado à eventos naturais como o ciclo das
manchas solares.
Freitas (2004), estudando a cidade de Recife, realizou medições de
temperatura em diferentes anos (1998, 2001, 2003) identificando zonas de
conforto e desconforto térmico, sendo estas respectivamente situadas em
áreas de verticalização com altas taxas de densidade e grande exposição à
radiação solar e áreas de praças, parques, ao longo das margens dos rios e da
orla marítima em bairros que preservam as características naturais como solo
permeável, vegetação e baixa densidade de construções.
Lucena (2004), tomando como exemplo o segundo mais populoso bairro
da cidade do Rio de Janeiro, Bangu, que está situado no principal vetor de
crescimento da cidade: a zona Oeste, e que experimenta as maiores
temperaturas da cidade, procurou mapear as ilhas de calor intra-bairro e suas
magnitudes associando-as à situação sinótica dominante e ao uso do solo
urbano, e constatou que as ilhas de calor variaram de fraca à forte, sendo esta
localizada na área comercial do bairro caracterizada por uma concentração de
serviços, pessoas e veículos.
Silva e Ribeiro (2005), na favela de Paraisópolis, procuraram identificar
as transformações atmosféricas da área a partir do Sistema Clima Urbano,
constatando que o uso e ocupação do solo, assim como o arruamento da área,
foram agentes diferenciadores nas condições térmicas.
Azevedo e Tarifa (2006) apresentam para a cidade de São Paulo onze
evidências de que o ritmo semanal das atividades humanas tem um grande
significado na explicação do comportamento do sistema climático na Região
Metropolitana da cidade, chegando a afirmar a partir dos dados analisados da
década de 1990 que o dia de quarta-feira teve tendência em apresentar a
maior temperatura.
Moura (2006), estudando os microclimas de Fortaleza, analisou duas
áreas representativas da cidade: o centro, marcado por uma concentração de
pessoas e serviços, e a Lagoa da Sapiranga caracterizada por condições
naturais mais evidentes, observou as diferenças de temperatura por meio de
medições horárias em períodos sazonais contrastantes, não observando
grandes diferenças de temperatura entre as áreas, embora as magnitudes
37
térmicas mais elevadas tenham sido na área da Lagoa. O mesmo autor
estudou ainda o clima urbano de Fortaleza sob o nível do campo térmico, em
2008, a partir de 12 pontos amostrais identificando ilhas de calor, sobretudo, na
porção sudoeste da cidade.
Vários estudos vêm sendo desenvolvidos nesta perspectiva como uma
contribuição ao planejamento da cidade, embora ainda sejam poucos os que
têm sido efetivamente incorporados aos planos de gestão urbana.
2.5 - Índices de conforto térmico
Na análise do clima da cidade, o conforto térmico configura-se como
importante fator na qualidade ambiental urbana. Sendo um parâmetro urbano,
e juntamente com outras variáveis biológico-fisiológicas e psicológicas, integra
um conjunto de parâmetros que definem um conforto ambiental (HISSA, 2000).
O conforto térmico implica nas trocas de energia entre o corpo humano e
o ambiente envolvente, e por isso causa grande influência tanto na arquitetura
das cidades como também no organismo humano (FROTA & SCHIFFER,
1998; HISSA, 2000;). Desse modo, torna-se um elemento chave na
compreensão dos processos urbanos e dos problemas deles decorrentes.
O homem, estando em constante interação com o meio ambiente,
realiza processos de trocas térmicas com o meio de modo que um equilíbrio
térmico seja alcançado e condições de conforto possam ser desfrutadas.
Nesse processo estão incluídas variáveis diversas, podendo ser desde
variáveis ambientais ou físicas, como também fisiológicas e até mesmo
subjetivas. São essas trocas térmicas que permitirão ou não a obtenção da
sensação de conforto térmico.
O conforto térmico é definido por Fanger (1970) citado por Buriol et al
(2004) como:
Condição da mente que expressa satisfação com o ambiente
térmico ou a sensação de neutralidade térmica quando todo o
calor utilizado pelo organismo através do metabolismo é
trocado em igual proporção com o ambiente ao redor, através
38
de perdas por convecção, radiação, evaporação e por
condução através das roupas.
O metabolismo é o processo pelo qual o homem, por meio de
combustíveis orgânicos, produz sua energia térmica interna. Essa temperatura
é praticamente constante com limites estreitos para a sobrevivência, o que dá
ao homem a característica de ser um animal homeotérmico. 20% da energia
obtida pelo metabolismo é transformada em potencialidade de trabalho e os
80% restante se transforma em calor, que necessita ser dissipado para que o
equilíbrio do organismo seja alcançado (FROTA & SCHIFFER, 1988:10).
No sentido de alcançar o equilíbrio e conseqüentemente a sensação de
conforto térmico, o organismo utiliza mecanismos denominados termoreguladores com o objetivo de reduzir ou aumentar as perdas de calor para o
ambiente (Quadro 2). O ser humano em contato com o ambiente troca calor
através de mecanismos denominados: convecção, radiação, condução e
evaporação.
Esse calor é dissipado através dos mecanismos de trocas
térmicas entre o corpo e o ambiente, evolvendo as trocas
secas – condução, conveccção e radiação – e as trocas
úmidas – evaporação. O calor perdido para o ambiente através
das trocas secas é denominado calor sensível e é função das
diferenças entre o corpo e o ambiente. Já o calor perdido para
o ambiente através das trocas úmidas é denominado calor
latente e envolve mudança de estado de agregação – o suor,
líquido, passa para o estado gasoso, de vapor, através da
evaporação. Assim, o organismo perde calor para o ambiente
sob duas formas: calor sensível e calor latente. (FROTA &
SCHIFFER, 1988)
Sendo o conforto térmico, um produto de diversas variáveis que atuam
conjuntamente, pode-se classificar estas variáveis em: variáveis físicas ou
ambientais, pessoais e psicológicas. As variáveis ambientais são as que mais
influenciam
as
condições
atmosféricas
do
ambiente.
As
variáveis
meteorológicas que mais interferem no conforto térmico são a temperatura do
ar, velocidade do ar, umidade do ar e temperatura média radiante. As variáveis
pessoais têm grande influência nas condições de conforto do indivíduo. As que
mais influenciam são o tipo de atividade desempenhada pelo indivíduo e a
vestimenta. Já as variáveis psicológicas estão ligadas à percepção e
39
preferências térmicas dos indivíduos no momento consultado. Variam de
indivíduo para indivíduo (BURIOL et al, 2004).
FIGURA 3: Trocas de calor do individuo com o ambiente
Fonte: Romero, 1988.
Ao se estudar o conforto térmico numa perspectiva climática as variáveis
ambientais ganham destaque, uma vez que são estas as que mais influenciam
neste campo. Dentre elas tem-se a temperatura do ar, a umidade do ar, a
radiação e os ventos (AZEVEDO et al, 2003; HISSA, 2000; BURIOL et al,
2004) como os fatores físicos que mais se relacionam às sensações de
conforto.
40
Quadro 2: Sumário das respostas humanas ao estresse termal, segundo Griffths (1976).
Para o frio
Para o calor
Respostas termorregulatórias
Constrição
da
pele
dos
vasos
Dilatação da pele dos vasos sanguíneos
sanguíneos
Concentração do sangue
Dilatação do sangue
Flexão para redução da superfície
Extensão para o aumento da superfície
exposta do corpo
exposta do corpo
Aumento do tônus muscular
Queda do tônus muscular
Estremecimento
Transpiração
Tendência ao aumento de atividade
Tendência à redução de atividade
Distúrbios conseqüentes
Aumento do volume de urina
Queda do volume da urina. Sede e
desitradação
Risco de suprimento inadequado de
Dificuldade
na
sangue para a ponta dos dedos das
suprimento de sangue para o cérebro
mãos e dos pés e partes expostas
levando
levando à quebra por congelamento
esgotamento pelo calor. Dificuldade na
á
manutenção
manutenção
tontura,
do
balanço
náusea
do
e
clorídrico,
gerando cãibras.
Aumento da fome
Queda do apetite
Queda da temperatura do corpo
Ascensão da temperatura do corpo
Sonolência
Enfraquecimento do centro de regulação
de calor
Parada das batidas do coração e da
Falhas da regulação das terminações
respiração.
nervosas levando ao sufocamento.
Fonte: Mendonça (2001)
Embora o conforto térmico varie de acordo com o tipo de clima e
também de indivíduo para indivíduo, foram criadas escalas denominadas
Índices de Conforto Térmico para a análise do conforto. Esses índices têm
como principal objetivo integrar o conjunto de variáveis envolvidas no conforto
gerando um parâmetro ou indicador que possa ser usado às diversas
condições ambientais e às diferenças individuais das pessoas.
Frota & Schiffer (1998), ao resgatar os aspectos históricos dos índices
de conforto cita que, os primeiros estudos deste campo foram realizados pela
41
Comissão Americana da Ventilação no setor industrial em 1916, objetivando
relacionar a influência das condições termo-higrométricas no rendimento do
trabalho dos operários; e simulando as situações especiais de guerra. As
autoras classificam ainda os índices em:
Índices biofísicos – baseados nas trocas de calor entre o corpo
e o ambiente, correlacionando os elementos do conforto com
as trocas de calor que dão origem a esses elementos;
Índices fisiológicos – baseados nas reações fisiológicas
originadas por condições conhecidas de temperatura seca do
ar, temperatura radiante média, umidade e velocidade do ar;
Índices subjetivos – baseados nas sensações subjetivas de
conforto experimentadas em (FROTA & SCHIFFER, 1998)
Andrade (2005), ao analisar os diversos modelos de avaliação da
influência térmica sobre os seres humanos, cita duas abordagens existentes: o
óptico térmico universal e a abordagem adaptativa. O autor apresenta o
paradigma do óptico térmico universal como sendo determinado por um
pequeno número de parâmetros ambientais e realizado em situações
estereotipadas e estacionárias e cita a abordagem adaptativa, que valoriza a
variabilidade de respostas e as preferências térmicas dos indivíduos quanto às
condições externas e mais indicada para ambientes externos, salientando
ainda a inexistência de metodologias para este tipo de estudo.
Um grande número de escalas de conforto térmico foi desenvolvido com
fins de aplicação às condições ambientais de edificações e às condições
climáticas brasileiras. No presente capítulo são apresentadas as escalas:
Temperatura Efetiva de Thom (1959), citado por Ayoade (2003); Temperatura
Efetiva de Yaglou ou Houghten; Diagrama do Conforto Humano (INMET); Carta
Bioclimática de Olgyay; Índice de Conforto Equatorial de Webb; e a Carta
Bioclimática de Giovani (1969), citado por Hissa (2000).
O Índice Temperatura Efetiva (Te) de Thom (1959), apresentado por
Ayoade (2003), está incluída no grupo dos índices fisiológicos, sendo obtido a
partir da fórmula Te = 0,4 (Td + Tw) + 4,8, descrita mais adiante nos
procedimentos metodológicos. Esta escala busca a determinação das zonas de
conforto para pessoas adultas vestidas e em estado de repouso, com ligeiros
movimentos do ar. Pela fórmula, a zona de conforto encontra-se no intervalo de
18,9º C a 25,6º C, sendo os valores abaixo de 18,9º C representativos das
42
condições de stress ao frio e acima de 25,6º C de stress ao calor. Como forma
de suprir as dúvidas existentes sobre a aplicação dessa fórmula em áreas de
clima quente e úmido como em Fortaleza, optou-se por adotar o Índice de
Malhotra (1955) aplicado na Índia, e já utilizado por Moura (2008) para
Fortaleza, que define zona de conforto entre 21º C e 26º C, sendo os valores
abaixo e acima desse intervalo, representantes das zonas de stress ao frio e ao
calor, respectivamente.
O Índice de Yaglow ou Houghten (1923), também citado por Hissa
(2000), foi determinado a partir de uma correlação das variáveis temperatura,
umidade, velocidade do vento e vestimenta com as sensações de conforto.
Posteriormente, em 1932, este índice passou a ser chamado TEC
(Temperatura Efetiva Corrigida) depois que Vernom & Wagner aplicaram uma
correção que consistia no uso da temperatura do termômetro de globo (que
mede a radiação térmica), ao invés da temperatura do bulbo seco na definição
da zona de conforto, esses obtidos por monogramas para pessoas
normalmente vestidas em trabalho leve (HISSA, 2000).
O Diagrama do conforto Humano do INMET (2008) estabelece a zona de
conforto a partir do cruzamento da temperatura do ar com a umidade relativa,
gerando assim outras sete zonas, sendo elas: muito quente, muito úmido,
muito frio, muito seco, necessita de vento para conforto, necessita de sol para
conforto e confortável.
O Índice de Conforto Equatorial (Figura 3) foi desenvolvido por Webb na
década de 60 para habitantes de climas tropicais e foi testado em Cingapura.
Este índice considera que, nos climas quentes e úmidos, a temperatura do
bulbo úmido é significativa na definição das zonas de conforto térmico (HISSA,
2000). O nonograma do ICE correlaciona as sensações de calor aos dados de
P4SR (Previsão da Produção de Suor em 4 horas), sendo semelhante ao
gráfico da Temperatura Efetiva (Te). Frota & Schiffer (1988) salientam a
aplicabilidade deste índice às regiões de clima semelhante à de Cingapura
como a Amazônia.
43
FIGURA 4 - Nonograma do Índice do Conforto Equatorial (I.C.E)
A Carta Bioclimática de Olgyay (1952) (Figura 4) foi construída e testada
com habitantes de climas quentes, vestindo 1 “clo”1 (FROTA & SCHIFFER
1988). O autor combinou as variáveis temperatura e umidade relativa num
diagrama, estando a temperatura no eixo das ordenadas e a umidade relativa
no eixo das abcissas. O diagrama estabelece zona de conforto e desconforto e
propõe algumas medidas corretivas como: necessidade de vento, sombra e
radiação solar para obtenção de condições confortáveis.
1
Unidade que mede o nível de vestimentas sobre o corpo.
44
FIGURA 5 - Carta Bioclimática de Olgyay (1952)
A Carta Bioclimática de Givoni (1976) apresentada por Hissa (2000) faz
uma correlação entre a zona de conforto e as características climáticas locais,
com algumas estratégias de controle ambiental visando a demanda de projetos
de arquitetura.
Os índices supracitados estão entre os mais conhecidos e utilizados nas
análises do conforto térmico. No entanto, além desses índices existem ainda
outros utilizados pela arquitetura e demais ciências que foram desenvolvidos
para gerar parâmetros de conforto.
No desenvolvimento desta pesquisa foram utilizados os índices:
Temperatura Efetiva de Thom e o Diagrama do Conforto Humano do INMET. A
escolha por estas escalas decorre da disponibilidade de equipamentos na
coleta dos dados e pela facilidade de aplicação desses índices no contexto da
pesquisa.
45
2.6 - As variáveis climáticas adotadas e a escala da pesquisa
Para o desenvolvimento do trabalho no Conjunto Ceará, foram adotadas
as seguintes variáveis climáticas: temperatura, umidade relativa, ventos,
nebulosidade.
A temperatura do ar é uma variável de primeira ordem na compreensão
da dinâmica climática urbana (MOURA, 2008) e, por isso, tem recebido grande
atenção nos trabalhos de natureza climática. Ela é a medida do calor sensível
nele armazenado, sendo comumente dada em graus Celsius ou Fahrenheit e
medida por termômetros. Geralmente trabalha-se com valores de temperatura
do ar em tempo instantâneo, real, valores médios, máximos, mínimos ou ainda
valores normais (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007).
A partir da radiação solar, fase inicial de entrada de energia no Sistema
Superfície-Atmosfera, a temperatura tem como fator condicionante a relação
entre as taxas de aquecimento e resfriamento da superfície terrestre.
A temperatura varia tanto espacial como temporalmente em função de
fatores como o movimento diário e anual aparente do Sol, as variações
interanuais de temperatura, as nuvens, a maritimidade/continenalidade
(MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007), a topografia local (ROMERO, 1988),
a latitude, a natureza da superfície, a distância a partir dos corpos hídricos, o
relevo, os ventos e as correntes oceânicas (AYOADE, 2003). A variação se dá
ainda verticalmente a partir de um gradiente vertical de 0,6 º C/100 m na
Troposfera (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007).
A umidade atmosférica é a quantidade de vapor d’água presente na
atmosfera em um dado momento. Esse gás é originado naturalmente do
processo de evaporação que atua sobre as superfícies líquidas, dos
organismos vegetais e da evapotranspiração, desempenhando um papel
relevante de regulador térmico no sistema superfície-atmosfera (CONTI, 2007).
Nesse trabalho, consideramos, para o estudo do clima urbano e conforto
térmico, a umidade relativa que é a relação da umidade absoluta com a
capacidade máxima do ar de reter vapor d’água, àquela temperatura (FROTA &
SCHIFFER, 1988). A umidade atmosférica, assim como outros elementos
climáticos, varia com o revestimento do solo, presença ou não de corpos
hídricos, dentre outros fatores.
46
Já os ventos desempenham papel importante na dinâmica climática
urbana, influenciando diretamente o conforto térmico. A velocidade do vento
tem como fator determinante o gradiente de pressão estabelecido entre duas
áreas, dado pela diferença de pressão do ar entre duas superfícies contíguas,
de forma que quanto maior for o gradiente, mais veloz será o vento
(MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). Numa escala local, o movimento do
ar sofre influência da topografia, da rugosidade da superfície e da vegetação.
Xavier (2001) aponta uma redução de 50% da velocidade do vento para a
cidade de Fortaleza. Percebe-se com isso, a influência direta do ambiente
urbano com todas as suas características neste elemento climático.
A nebulosidade é a cobertura do céu por nuvens. Dependendo da
quantidade e do tipo de nuvens podem agir como uma barreira à entrada de
raios solares como também à dissipação de calor para a atmosfera pelas
superfícies urbanas. Moura (2008) levanta a hipótese de que a nebulosidade é
uma dos elementos de primeira ordem na alteração do campo térmico da
cidade de Fortaleza, mesmo quando comparados com outros dados de
natureza urbana.
Foram considerados, ainda no desenvolvimento do trabalho, elementos
urbanos como fluxo de veículos e pessoas uma vez que estes podem agir
diretamente no comportamento dos atributos climáticos urbanos em escala
local.
No que se refere às escalas em climatologia urbana, percebe-se que
essa questão é uma problemática que surge no desenvolvimento das
pesquisas nesse campo. O termo microclima tem sido amplamente utilizado
para designar as especificidades do clima no espaço urbano, embora ainda
não possua definições mais precisas.
A divisão vertical da atmosfera urbana apresentada por Oke (1987) e
citada por Andrade (2005) é bastante utilizada atualmente. Nessa proposta
(Figua 5), as subdivisões da atmosfera urbana são a Urban Canopy Layer
(UCL – atmosfera urbana inferior) situada abaixo da superfície ativa urbana que
corresponde grosseiramente ao nível dos telhados dos edifícios; a Urban
Boundary Layer (UBL – atmosfera urbana superior) encontrada acima da
superfície ativa e que integra a influência térmica de toda a cidade. Tem-se
47
ainda a Roughness Sublayer como a camada inferior da UBL, onde o fluxo é
influenciado pela rugosidade dos elementos individuais.
Figura 6: Estratificação vertical da atmosfera urbana e escalas de análise Fonte: Andrade, 2005
Andrade (2005), procurando definir de uma forma mais precisa as
escalas em climatologia urbana, apresenta dimensões típicas para cada uma
das categorias sem adotar limites rígidos para essas dimensões:
Microclima – reflete a influência de elementos urbanos
individuais e dos seus arranjos mais elementares
(edifícios e suas partes constituintes; ruas e praças,
pequenos jardins); a dimensão típica pode ir até cerca de
uma centena de metros; a influência direta desses
elementos restringe-se à Urban Canopy Layer.
Clima local/topoclima – clima de uma área com uma
combinação característica de elementos, podendo
corresponder seja a um tipo de ocupação do solo
diferenciado (bairro, parque urbano), seja a condições
topográficas específicas (vale, colina, etc). Um clima
local/topoclima engloba um mosaico de microclimas, que
se repetem com alguma regularidade.
Mesoclima - corresponde à influência integrada da cidade
(compreendendo vários climas locais), essencialmente ao
nível da Urban Boundary Layer. Podem considerar-se
igualmente como efeitos de mesoescala os efeitos “extra48
urbanos” de dimensão aproximada ou superior à da
própria cidade (sistemas de brisas, barreiras topográficas
e etc). (ANDRADE, 2005: 72-73)
Na presente pesquisa optou-se por adotar a escala microclimática na
análise das variáveis meteorológicas, considerando um nível mais próximo dos
indivíduos com o intuito de compreender as relações existentes entre os
atributos urbanos e climáticos, bem como definir as condições de conforto
térmico nas áreas amostrais da pesquisa.
2.7 - Procedimentos Metodológicos
Como forma de se verificar a variação da temperatura na área do
conjunto habitacional e os demais objetivos propostos para a pesquisa foi
desenvolvida uma metodologia dividida em 3 fases: FASE 1 (Levantamento
bibliográfico e cartográfico), FASE 2 ( Trabalho de campo) e FASE 3 ( Análise e
representação dos dados). Os procedimentos metodológicos adotados
baseiam-se, sobretudo, no roteiro estratégico de estudo do clima urbano de
Monteiro (1990).
2.7.1 - Fase I: Levantamento bibliográfico e cartográfico
Para o desenvolvimento desta etapa foi realizada uma revisão
bibliográfica no sentido de buscar aporte teórico sobre o assunto tratado. A
pesquisa tem como base teórica conceitual o subsistema termodinâmico do
Sistema Clima Urbano de Monteiro (1976, 2003). O levantamento cartográfico
da área em estudo foi feito utilizando-se de imagens do satélite QuickBird, do
ano de 2009. A resolução espacial das imagens desse satélite é de 0,60 cm,
permitindo assim excelentes resultados em mapeamentos detalhados. Essas
imagens foram úteis no trabalho de campo para a definição e caracterização
49
dos pontos de coleta de dados. Além das informações cartográficas foram
considerados no estabelecimento de tais pontos a homogeneidade desses
espaços no que se refere às características comerciais e residenciais, assim
como também concentração de serviços e fluxos de veículos e pessoas, além
do arruamento do conjunto. O material bibliográfico e cartográfico foi levantado
em órgãos como FUNCEME, SEMACE, UECE, UFC e páginas da web.
2.7.2 - Fase II: Trabalho de campo
Na etapa 2 foram coletados em campo os dados climáticos e urbanos
necessários
para
o
desenvolvimento
da
pesquisa.
As
condições
microclimáticas do conjunto habitacional foram analisadas em 5 pontos
distintos que apresentam estrutura/dinâmica urbana e condições geoecológicas
diferenciadas e são representativos para a área do conjunto (Figura 1). O
número de pontos estabelecidos tem relação direta com a disponibilidade de
instrumentos para a coleta de dados e de equipes para a realização dos perfis
climáticos.
Tomando por base a metodologia de Viana (2006), foram delimitadas 5
classes para a escolha das áreas de coleta de dados, sendo estas:
Classe 1 - área densamente construída de uso comercial predominante,
com vegetação arbórea pontual e pavimentação nas ruas;
Classe 2 - área construída com a presença do terminal.
Classe 3 - área densamente construída de uso residencial, com
vegetação arbustiva de médio porte em abundancia e ruas sem pavimentação.
Classe 4 - área densamente construída de uso residencial, com dois
pavimentos, vegetação arbórea escassa e ruas parcialmente pavimentadas;
Classe 5 - área com construções esparsas, gramados e vegetação
arbórea de grande porte em abundância e ruas parcialmente pavimentadas;
A partir destas classes foram localizadas os pontos de coleta. O PONTO
1 (classe 1), de coordenadas E 543909 e N 9583224, está localizado na Av.
Ministro Albuquerque Lima (denominada pelos moradores como avenida
Central) no cruzamento com a Avenida A, onde se concentra um grande
50
número de equipamentos urbanos e serviços, como bancos, lojas, bares e
restaurantes. O PONTO 2 (classe 2) localiza-se no terminal de ônibus do bairro
nas coordenadas E 543547 e N 9582952, onde há um grande fluxo de veículos
e pessoas resultando em grande potencial de produção de calor. O PONTO 3
(classe 3) possui as seguintes coordenadas E 542848 N 9582970 e está
situado na Rua 319 que possui características residenciais, vegetação
abundante e ausência de vias asfaltadas. O PONTO 4 (classe 4) de
coordenadas E 543685 e N 9584106 localiza-se na Rua 448, que apresenta
também
densidades
de
construções
com
características
residenciais,
vegetação escassa e vias parcialmente asfaltadas. E o PONTO 5 (coordenadas
E 543860 e N 9583504), localizado em frente ao Centro de Saúde da Família
Maciel de Brito, nas proximidades do polo de lazer do bairro, com abundância
de vegetação arbórea e arbustiva e construções esparsas. As condições
geoecológicas e os atributos de natureza urbana dos pontos são apresentados
no Quadro 3 e são descritos no Capítulo 3, que trata da caracterização
geoecológica da área de estudo.
Os dados de temperatura, umidade atmosférica, nebulosidade, direção e
velocidade dos ventos, fluxo de veículos e pessoas foram registrados em
períodos sazonais contrastantes, correspondendo ao período chuvoso (abril) e
ao período seco (outubro) do estado do Ceará. O experimento I foi realizado no
dia 22/04/2009, outono austral, e o Experimento II aconteceu no dia
23/10/2009, primavera austral. As medições aconteceram nos horários de 6, 9,
12, 15, 18, 21 horas com medições simultâneas nos 5 pontos.
A realização das leituras nesses horários não é aleatória e se justifica
por esses horários representarem as variações do tempo atmosférico no
decorrer do dia, em condições atmosféricas estáveis. Assim, às 6h há o final da
madrugada e o início do aquecimento diurno. Às 9h inicia-se o período de
maior aquecimento diurno, que atinge a máxima magnitude entre as 15h e 16h,
devido à máxima devolução de radiação terrestre para a atmosfera. Às 21h o
sol já se pôs há algumas horas e inicia-se o resfriamento noturno.
Esses
horários estabelecidos contemplam os representativos de um dia: manhã, tarde
e noite. Assim, no final de cada dia de observações, ficam registradas as
características climáticas de cada período, necessárias para a compreensão de
51
como o uso e ocupação do solo interferem na distribuição espacial térmica e
higrométrica do ar intra-urbano e rural (VIANA, 2006).
Para a coleta de dados em cada um dos pontos estabelecidos foram
utilizados: psicrômetro giratório; fitas (nº 1), com 20cm de comprimento;
bússola, para determinar a direção do vento; tabelas com a Escala Beaufort;
tabelas psicrométrica; tabelas com a indicação da simbologia da nebulosidade;
e diagramas do conforto humano.
A temperatura do ar (°C) foi obtida a partir do bulbo seco do psicrômetro.
A leitura psicrométrica, dada pela diferença entre os termômetros de bulbo
seco e úmido, foi registrada girando o aparelho por dois minutos seguidos de
mais um minuto aguardado em sombra antes da leitura (MOURA, 2006). Os
dados de temperatura e umidade do ar permitiram estabelecer duas escalas de
conforto térmico: a temperatura efetiva Thom (1959) apud Ayoade (2003) e o
índice de conforto humano do INMET (Figura 5).
A temperatura efetiva é dada a partir da fórmula:
Te = 0.4 x (Td + Tw) +4,8
Onde:
Te: temperatura efetiva
Td e Tw : temperaturas do bulbo seco e do bulbo úmido medidos em ºC.
Segundo esta escala a faixa de conforto está no intervalo de 18,9ºC e
25,6ºC, sendo que os valores abaixo de 18,9ºC são considerados como faixas
de estresse ao frio e acima de 25,6ºC são considerados faixas de estresse ao
calor (AYOADE, 2003).
52
Já o índice de conforto humano fornecido pelo INMET apresenta as
zonas de conforto a partir do cruzamento da temperatura do bulbo seco na
ordenada e da umidade relativa do ar no eixo da abscissa.
FIGURA 7 - Diagrama do Diagrama do Conforto Humano- INMET
Para a obtenção dos dados de velocidade do vento foi utilizada a escala
de Beaufort que trata-se de uma escala empírica, uma vez que não foi possível
um número suficiente de anemômetros para a cobertura de todos os pontos
trabalhados.
A direção dos ventos foi obtida a partir da fita métrica tendo ainda como
auxílio a bússola. Para a nebulosidade foi levada em consideração a okta, uma
unidade de medida usada na meteorologia para descrever a cobertura de
nuvens. A nebulosidade é expressa pelo número de oitavas partes que cobrem
o céu. (Vianello & Alves, 1996).
Como forma de se discutir as possíveis influências da urbanização na
dinâmica microclimática urbana, foi observado ainda o fluxo de veículos e
pessoas em cada um dos pontos estabelecidos no momento das medições dos
dados climáticos. O fluxo de veículos e pessoas foi quantificado no mesmo
intervalo de tempo em que o psicrômetro esteve registrando a temperatura do
ar, tempo este que corresponde a 1 (um) minuto.
53
A análise das condições sinóticas foi realizada a partir de imagens do
satélite GOES-10 no canal infravermelho e das cartas de pressão
disponibilizadas no site da Marinha do Brasil. Foram analisadas as cartas e
imagens para o dia anterior aos experimentos como também para o próprio dia
de coleta. Os dados coletados em campo foram registrados e catalogados na
Ficha de Campo (Anexo A).
54
55
QUADRO 3 – SÍNTESE DOS ASPECTOS GEOECOLÓGICOS E URBANOS DAS ÁREAS EXPERIMENTAIS DA PESQUISA
ASPECTOS GEOECOLÓGICOS
ASPECTOS DE NATUREZA URBANA
ÁREAS
EXPERIMENTAIS
H (m) D (%)
V
T.V.
SH
E
AR
O
Pe
T.Vi
FV
FP
FU
1. Av. Min. Albuquerque Lima
28
DM
B
A
AU
SE
A
SE
AU
II
A
A
C
2. Terminal de ônibus
12
P
B
A
AU
EM
B
SE
AU
I
A
A
C
3. Rua 319
12
P
M
MT
AU
SE
M
L
M
I
MB
MB
R
4. Rua 448 A
15
P
B
A
AU
SE
M
NE
AU
II
M
M
R
5. CSF Maciel de Brito
17
DA
A
MT
AU
EG
B
SE
A
I
A
MB
R
Legenda:
Aspectos Geoecológicos:
H – Hipsometria verificada em campo;
D – Declividade verificada em campo e
expressa nas categorias:
• DM (Declive moderado – inclinação
entre 5% e 30%),
• DA (declive acentuado – inclinação
maior que 30%)
• P (Plano – declive de até 5%);
V – vegetação verificada em campo e
expressa nas categorias:
• A (Alta),
• M (Média),
• B (Baixa),
• A (Ausente);
T.V. – Tipologia da Vegetação verificada em
campo e expressa nas categorias:
• MT (Mata de Tabuleiro),
• RL (Ribeirinha ou Lacustre),
• A (Antrópica),
Aspectos de Natureza Urbana:
O – Orientação dos Ventos Dominantes nas
áreas experimentais verificadas em campo e
expressa nas categorias:
• Sv (Sotavento da direção Sudeste),
• SE (Sudeste),
• NE (Nordeste),
• SW (Sudoeste),
• NW (Noroeste)
• E (Leste);
E – Espaçamento entre as edificações
verificado em campo e expresso nas
categorias:
• EG (Espaçamento Grande),
• EM (Espaçamento Médio)
• SE (Sem Espaçamento);
Pe – Permeabilidade do terreno verificada em
campo e expressa nas categorias:
• A (Alta),
• M (Média),
• B (Baixa) e
• A (Ausente);
AR – Altura relativa das edificações
verificadas em campo e expressa nas
categorias:
• A (Alta),
• M (Média) e
• B (Baixa);
T.Vi – Tipologia das Vias verificada em campo
e expressa nas seguintes categorias:
• I (Calçamento),
• II (Asfalto)
• AU (Ausente),
•
SV (Ausência de Vegetação);
SH – Superfície Hídrica verificada em campo
e expressa nas categorias:
• 1 (Rio/Riacho),
• 2 (Lagoa),
• AU (Ausente).
FV – Fluxo de veículos verificado em campo e
expresso nas categorias:
• A (Alta),
• M (Média),
• B (Baixa),
• MB (Muito Baixa) e
• A (Ausente);
FP – Fluxo de Pessoas verificado em campo e
expresso nas categorias:
• A (Alta),
• M (Média),
• B (Baixa),
• MB (Muito Baixa) e
• A (Ausente);
FU – Função Urbana verificada em campo e
expresso nas categorias:
• C (Comercial),
• R (Residencial),
• L (Lazer).
1
56
2.7.3 - Fase III: Análise e representação dos dados
Esta fase corresponde à análise e representação dos dados que foram
apresentados por meio de figuras, mapas e tabelas. Os pontos de coleta de
dados foram caracterizados, no que se refere aos padrões de ocupação, a
partir da interpretação visual das imagens auxiliada pelos trabalhos de campo.
A caracterização ocorreu num raio de 50 m² a partir do ponto e foi elaborada no
programa Microstation versão 7.1. Os padrões de ocupação do solo nas áreas
amostrais foram classificados em quatro categorias, sendo elas: área edificada,
subdividida em edificações de 1, 2 e 3 pavimentos, via asfaltada e via não
asfaltada; área vegetada, com vegetação arbórea e vegetação gramínea; área
não edificada e outros usos. Essas categorias são apresentadas e descritas
posteriormente no capítulo 3.
A dinâmica atmosférica foi representada pelas Cartas de Pressão ao
Nível do Mar do DHN do Ministério da Marinha do Brasil nos horários de 12
GMT (9 horas local) e 00 GMT (21 horas local) e pelas imagens do satélite
GOES-10, no canal infravermelho, fornecido pelo CPTEC/INPE para cada
horário das medições.
Os dados climáticos coletados em campo (Anexos 1 e 2) foram
organizados inicialmente em planilhas do Excel versão 2007 e posteriormente
representados em tabelas construídas no Word versão 2007 com uma escala
de cores para melhor se perceber os contrastes identificados na realidade intraurbana. Para o contexto inter-urbano foram comparados os dados coletados na
área de estudo com os dados da Plataforma de Coleta de Dados de Caucaia.
Os contrastes observados foram também sistematizados em tabelas no Word
2007.
57
3. O Conjunto Ceará: histórico, caracterização
geoecológica e os padrões de ocupação do solo.
No presente capítulo são apresentadas informações sobre o Conjunto
Ceará, objeto de estudo da pesquisa. Na primeira parte é feita a localização da
área, partindo para uma discussão sobre o surgimento dos conjuntos
habitacionais na cidade de Fortaleza e um breve histórico do Conjunto Ceará.
Posteriormente são apresentadas as características e a dinâmica climática da
área de pesquisa tomando por base a cidade de Fortaleza e, por fim, são
apresentados os padrões de ocupação do solo no Conjunto Ceará que
serviram de base para a coleta de dados climáticos.
3.1 – Localização da área da pesquisa
O Conjunto Ceará está localizado na porção sudoeste da cidade de
Fortaleza, capital do Ceará (Mapa 2). O conjunto habitacional tem como limites
os bairros Parque Genibaú ao norte, Granja Lisboa e Granja Portugal ao sul,
João XXIII a leste e distrito de Jurema/Caucaia a oeste. As principais vias de
acesso à área são as avenidas Vital Brasil, que corta os bairros Bom Sucesso
e Granja Portugal, e a Avenida Senador Fernandes Távora, que dá acesso à
área da pesquisa pelos bairros Joquei Clube e Autran Nunes.
O Conjunto Ceará foi construído pela COHAB no final da década de
1970 com recursos do BNH. O objetivo era reduzir o déficit habitacional
vivenciado por Fortaleza em virtude do crescimento populacional ocorrido neste
mesmo período.
Atualmente o bairro possui 303 ruas e 10 avenidas em seus 2.020 Km².
As ruas têm nove metros de largura, enquanto as avenidas – de contorno e de
penetração – possuem 14 metros de largura e um canteiro de 2 metros. As
avenidas são denominadas pelas letras A, B, C, D, E, F, G (Figura 6), H, I, e a
Avenida Ministro Albuquerque Lima, conhecida por Avenida Central (Figuras 7
e 8).
58
FIGURA 9: Canal da Avenida G
Fonte: João Paulo Matias, 2009
FIGURA 10: Avenida Ministro Albuquerque Lima (Central)
Fonte: João Paulo Matias, 2009
De um modo geral, as ruas são calçamentadas em pedras poliédricas e
as avenidas com paralelepípedo. O Conjunto Ceará é integrante da 5ª região
administrativa da cidade, sob a responsabilidade da Secretaria Executiva
Regional V, que conta com os Bairros: Conjunto Ceará, Bom Jardim, Granja
Portugal, Canindezinho, Parque São José, Siqueira, Parque Santa Rosa,
Conjunto Esperança, Parque Genibaú, Vila Manoel Sátiro, Novo Mondubim,
Jardim Cearense, Conjunto Pref. José Walter, Parque Pres. Vargas e
Maraponga.
59
FIGURA 11: Monumento símbolo do Conjunto Ceará situado na Av. Min Albuquerque
Lima
Fonte: João Paulo Matias, 2009
A área é dividida em 4 etapas de acordo com a ordem de construção.
Segundo dados do IBGE referentes ao Censo de 2000, a população local é de
41.854 habitantes vivendo em mais de 10.000 residências. O conjunto
habitacional apresenta uma grande quantidade de atividades e serviços como
escolas, igrejas, pontos comerciais, bancos e residências que se apresentam
de certa forma concentrados no seu interior. Percebe-se áreas internas
homogeneizadas, no que se refere às formas de uso e ocupação do solo.
60
16
3.2 - O surgimentos dos conjuntos habitacionais em Fortaleza
Para entender o surgimento dos conjuntos habitacionais na cidade de
Fortaleza, faz-se necessário evidenciar os processos de crescimento
populacional e urbanização ocorridos na cidade, sobretudo, na segunda
metade do século XX.
É a partir da década de 50 que Fortaleza vivencia um rápido crescimento
populacional motivado principalmente pelas migrações rurais-urbanas. Costa
(2005) apresenta os principais fatores que desencadearam os fluxos
migratórios para a capital do Ceará nesse período:
Na segunda metade do século XX, a crise da agricultura
cearense, a concentração fundiária e os longos períodos de
estiagens contribuíram para intensificar as migrações ruraisurbanas e acelerar o crescimento populacional de Fortaleza.
Além destes fatores que expulsam o homem do campo, a
cidade passa a ser atraente para diferentes grupos sociais, em
virtude do desenvolvimento do comércio e da indústria, da
implantação de infra-estrutura e serviços e da oferta de
empregos urbanos. (COSTA, 2005: 52)
A cidade passa a ser vista como esperança de melhores condições de
vida e de trabalho, uma vez que a estrutura social e as condições naturais no
campo já não permitiam a permanência do homem na zona rural. Ao chegar à
cidade, porém, esses migrantes não foram totalmente absorvidos pelo mercado
de trabalho e a disponibilidade de moradia tornou-se cada vez mais difícil, uma
vez que a cidade não consegue atender toda demanda populacional existente
no espaço urbano.
Segundo Souza (2006), o crescimento da cidade de Fortaleza torna-se
expressivo a partir de 1950, representado por uma taxa de crescimento
populacional de 49,9% em relação à década anterior. Esta mesma autora,
tomando por base os dados do IBGE mostra o crescimento populacional entre
os anos de 1890 - 2000, conforme observado na tabela.
62
TABELA 1: POPULAÇÃO DO ESTADO DO CEARÁ E DE FORTALEZA
1890
1900
1920
1940
1950
1960
1970
1980
1991
2000
Estado do Ceará
Crescimento
População
entre os
recenseamentos
(%)
805.687
849.127
5,4
1.319.228
55,3
2.091.032
58,5
2.695.450
28,9
3.337.856
23,8
4.491.590
34,5
5.380.432
19,7
6.366.647
18,3
7.417.402
16,5
Município de Fortaleza
Crescimento
População
entre os
recenseamentos
(%)
40.902
48.369
18,2
78.536
62,3
180.185
129,4
270.169
49,9
514.813
90,5
857.980
66,6
1.303.919
52,5
1.768.637
35,2
2.141.402
21,0
Fonte: IBGE citado por Souza (2006)
A partir da tabela percebe-se o rápido crescimento populacional de
Fortaleza, sobretudo nas décadas de 50, 60, 70 e 80, que foi acompanhado
pelo surgimento de uma série de problemáticas urbanas como saúde,
segurança, educação, saneamento, habitação, dentre outros. Isso se deve ao
fato de que o processo de urbanização verificado na cidade não foi
acompanhado de uma política que contemplasse a demanda gerada desse
crescimento.
A questão habitacional surge então como uma dessas problemáticas em
virtude da falta de moradia digna para muitos setores da população crescente
de Fortaleza. Assim a realidade urbana de Fortaleza é marcada, principalmente
nesse período, por um déficit habitacional expressivo e um crescimento
desordenado na cidade.
Como forma de amenizar esse problema, o governo passa a criar
medidas como a construção de conjuntos habitacionais. Bernal (2004) cita:
O crescimento desordenado de Fortaleza se intensificou a
partir das décadas de 1940 e 1950, quando a população
passou a ocupar áreas próximas aos centros industriais e
comerciais, ocasionando o aumento e a concentração de
favelas. Nas décadas de 1960 e 1970, os governos militares,
com o objetivo de resolver os problemas de moradia, passaram
a construir conjuntos habitacionais afastados da cidade,
agravando com isto o problema dos transportes urbanos,
diante da necessidade de deslocamento dos trabalhadores
para o local de trabalho. (BERNAL, 2004: 157)
63
A localização dos conjuntos habitacionais distante do centro de
Fortaleza foi um dos fatores propulsores para a expansão da cidade e para o
surgimento de centros secundários. Como salienta Costa (2005), o crescimento
populacional é um processo espacial e demográfico, pois o aumento da
população leva à expansão da malha urbana e ao seu adensamento.
Este crescimento se deu de forma intensa e desordenada, gerando um
déficit habitacional e a consequente ocupação de áreas não habitadas e de
grande precariedade em Fortaleza, fazendo crescer o número de moradias
sem infraestrutura básica em locais que, além de depreciar o valor paisagístico,
geralmente possuíam um elevado nível de risco para a população que os
ocupavam (FREITAS et al, 2006).
A construção de conjuntos habitacionais nas áreas periféricas da cidade
era uma das soluções para amenizar o déficit habitacional em Fortaleza. Costa
(2005) relata esse processo:
Na década de 70, com base na política do Banco Nacional de
Habitação, que utilizava recursos do FGTS para financiar
habitações populares a baixo custo, no intuito de reduzir o
déficit habitacional e responder às pressões populares, vários
conjuntos habitacionais foram edificados em Fortaleza. [...]
Esses conjuntos, localizados em áreas distantes, foram fatores
fundamentais para a expansão das cidades. Os moradores
organizados exigiam do poder público infra-estrutura e
serviços, os quais favoreciam a valorização de vazios urbanos.
(COSTA, 2005: 84-85)
No contexto da problemática de déficit habitacional das principais
cidades brasileiras, foi criado, em 1964, o Sistema Financeiro de Habitação –
SFH, com o objetivo de promover e financiar a construção de habitação para a
população de baixa e média renda e abrir linhas de financiamento para a
população de maior poder aquisitivo. O Banco Nacional de Habitação – BNH
era o órgão gestor e normatizador dessa política habitacional (CEARÁ, 2004).
A criação do Sistema Financeiro de Habitação – SFH, em 1964, pode
ser considerada um marco nas discussões acerca do acesso à moradia. Antes
de 1964 a demanda habitacional não chegava a ser tão expressiva e, portanto,
o desenvolvimento de programas e políticas definidos para o setor habitacional
no Brasil era praticamente inexistente (FREITAS et al, 2006)
64
Segundo relatório da Secretaria de Infra-Estrutura do Estado do Ceará
(2004), após o ano de 1964, a política habitacional brasileira divide-se em 3
fases em função de modificações que visavam identificar os principais erros e
acertos dos programas habitacionais desenvolvidos no país. São elas: fase
1964-1986, marcada pela efetiva atuação do SFH em 1967, quando se deu a
criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS; fase 1987-1995,
caracterizada pelo Programa Nacional de Mutirões Habitacionais da SEHAC, e
finalmente a fase compreendida entre os anos 1996-2000, onde os Estados e
Municípios passaram a ter maior autonomia na aplicação dos recursos geridos
pela Caixa Econômica Federal (CEARÁ, 2004).
Nos primeiros anos na política habitacional brasileira, compreendidos
entre 1964 e 1968, a intensa explosão demográfica e o acelerado processo de
urbanização pelos quais o país passava nesse período provocaram a produção
de habitação em massa e em curto prazo, através da adoção de um modelo
equivocado, podendo até ser considerado trágico, que foi a construção de
grandes conjuntos habitacionais localizados na periferia das grandes cidades
para atendimento às famílias com renda a partir de 01 salário mínimo. No
Ceará também ocorria um processo de urbanização acelerado, inclusive na
Região Metropolitana de Fortaleza, o que contribuiu para que, até 1986,
houvesse a proposta de construção de grandes conjuntos habitacionais
populares, implantados através da Companhia de Habitação do Ceará –
COHAB que tinha como objetivo o atendimento às famílias com renda de até
03 salários mínimos (CEARÁ, 2004).
A partir de 1987, o Governo Federal lançou o Programa Nacional de
Mutirões Habitacionais, através da SEHAC – Secretaria Especial de Habitação
e Ação Comunitária, prevendo o atendimento das camadas sociais até então
excluídas do SFH. A SEHAC teve curta duração e, além disso, não obteve
êxito na realização dos seus objetivos, deixando os Estados, inclusive o Ceará,
em grandes dificuldades por ter iniciado a construção de habitações em regime
de mutirão, com recursos do Tesouro Federal, cujos repasses foram suspensos
antes de suas conclusões, obrigando o Estado a investir complementarmente.
Procurando dar continuidade as políticas habitacionais, o Governo do Estado
através da Secretaria de Desenvolvimento Urbano – SDU resolveu continuar o
Programa Mutirão Habitacional, e a iniciar o Programa de Urbanização de
65
Favelas com os mesmos objetivos e critérios anteriormente utilizados, tendo
como agente promotor a COHAB-CE (CEARÁ, 2004).
No período compreendido entre 1996-2000 houve certa descentralização
nas decisões da aplicação dos recursos para o setor habitacional, fortalecendo
os papéis dos Estados e dos Municípios na execução da política habitacional
popular e da CEF como gestor dos recursos, oriundos do OGU, FGTS e de
Empréstimos Internacionais. Com o objetivo de se implementar políticas
habitacionais foram criados para o setor público os seguintes programas: PróMoradia, Pró-Saneamento, Programa Habitar Brasil, Programa de Ação Social
em Saneamento, Programa Morar Melhor, Programa Urbanização de Favelas e
Programa Vilas Rurais.
No decorrer das políticas habitacionais brasileiras, um dos fatos
marcantes foi a construção em massa de conjuntos habitacionais, o que
provocou uma séria de problemas na cidade como falta de infraestrutura,
saneamento básico, segurança etc.
A localização dos conjuntos habitacionais distantes das áreas centrais
de Fortaleza viabilizava a aquisição de terrenos bem mais baratos permitindo
que a população de baixo poder aquisitivo pudesse ser atendida pelos
programas habitacionais. Os custos maiores correspondente às obras de
infraestruturas e demais equipamentos sociais ficavam por conta dos governos
estaduais e municipais. Nesse processo percebe-se a ação do Estado como
um grande agente produtor do espaço urbano.
A partir disso, Fortaleza teve os seus primeiros conjuntos habitacionais
construídos nas décadas de 70, sendo eles: Cidade 2000, Prefeito José Walter,
Conjunto Ceará, Beira Rio, Nova Assunção, Santa Luzia do Cocó, dentre
outros (SOUZA, 2006). A partir da década de 80, outros conjuntos
habitacionais são construídos na Região Metropolitana de Fortaleza, muitos
dos quais funcionando como bairros da própria cidade e/ou como cidades
dormitórios. No mapa, percebe-se o grande número de conjuntos habitacionais
na realidade urbana de Fortaleza como também nos municípios vizinhos.
Observa-se, como já exposto, a localização distante das áreas centrais de
Fortaleza.
66
MAPA 2 - Localização dos Conjuntos Habitacionais em Fortaleza
Fonte: PEQUENO, 2008
Muitos desses espaços foram construídos sem se levar em conta
estudos das condições naturais, implantação de infraestrutura e etc., causando
um crescimento desordenado.
Sob a ótica do planejamento urbano este modelo ignorou as
consequências em longo prazo e denunciou a ausência de visão urbanística
dos planejadores, que promoveram o assentamento de milhares de famílias,
em áreas distantes da malha urbana, surgindo assim, muitas das cidadesdormitório, com todos os problemas sociais inerentes às comunidades
segregadas espacialmente (CEARÁ, 2004).
O tecido urbano de Fortaleza foi expandido tanto pelo poder público com
a construção de conjuntos habitacionais (Mapa 3), como pelo setor imobiliário,
através de loteamentos, e ocorreu de forma descontínua e fragmentada (SILVA
& LOPES, 2006). A localização dos conjuntos habitacionais que tanto
contribuiu para a expansão da malha urbana representou ainda um custo maior
aos cofres públicos uma vez que a população residente nessas áreas
necessitava, e ainda necessita de infraestrutura. Em muitos casos, a
infraestrutura desses espaços foi implantada de forma não planejada.
67
TABELA 2: Construção de conjuntos habitacionais da Região Metropolitana de
Fortaleza
CONJUNTOS
HABITACIONAIS
Pirambu
Monte Castelo
Aliança I
Aliança II
Sobral I
Sobral II
Santa Luzia do Cocó
Prefeito José Walter
Conjunto Ceará I
Conjunto Ceará II
Conjunto Ceará III
Conjunto Ceará IV
Novo juazeiro I
Industrial
Esperança
Novo Mondubim
Acaracuzinho
Timbó
Planalto Caucaia
Araturi I
Araturi II
Nova Metrópole
Nova metrópole II
Jereissati I
Jereissati II
Jereissati III
UNIDADES
HABITACIONAIS
218
380
84
48
469
400
294
4.774
966
2.516
2.037
3.150
220
1.276
2.039
720
1.976
2.900
1.264
1.413
817
1.576
1.420
5.000
5.000
1.334
ANO DE CONCLUSÃO
1967
1968
1970
1980
1970
1983
1971
1973
1977
1978
1979
1981
1979
1979
1981
1982
1982
1983
1984
1985
1985
1985
1985
1985
1986
1987
Fonte: http://conjceara.blogspot.com/
Mesmo com o grande número de conjuntos habitacionais construídos na
cidade de Fortaleza toda a demanda habitacional não foi plenamente atendida.
Apenas uma pequena parte da população foi beneficiada pelos conjuntos
habitacionais financiados pela COHAB e demais órgãos, uma vez que os
critérios dos programas muitas vezes limitavam o acesso de muitos segmentos
sociais a esse programa.
Souza (2006) apresenta a realidade atual desses espaços construídos:
Referidos conjuntos vem passando, nos últimos anos, por
mudanças na estrutura física de suas habitações,
presenciando-se, comumente, a ampliação ou reforma das
mesmas. Vem-se constatando, nas últimas décadas, uma
diversificação da população ali residente. Com efeito, é
significativo o número de funcionários públicos e profissionais
liberais que vem adquirindo casas nestes conjuntos. Supõe-se
68
que este fato esteja relacionado ao próprio empobrecimento da
classe média, nos últimos anos (SOUZA, 2006).
Atualmente, esses conjuntos habitacionais apresentam uma densidade
populacional considerável e um grande número de atividades, alguns deles
chegando a ser polos de serviços com relação a bairros vizinhos, como é o
caso do Conjunto Ceará.
3.3 - Um breve histórico do Conjunto Ceará
O relato da história do Conjunto Ceará aqui apresentado foi extraído do
livro Conjunto Ceará: Pólo de Desenvolvimento, produzido pelo Projeto de
Desenvolvimento Comunitário do Conjunto Ceará – PRODECOM, no ano de
1999.
O início da construção do Conjunto Ceará ocorreu na década de 70, no
momento em que a cidade de Fortaleza passava por um inchaço populacional
decorrente dos migrantes castigados pela seca no interior do estado e que
viam na cidade a possibilidade de melhoria de vida.
A solução encontrada para o déficit habitacional na cidade, como já
exposto acima, era a construção de conjuntos habitacionais. No caso do bairro
em análise, o Conjunto Ceará, o objetivo era construir um conjunto habitacional
por etapas ao longo da década de 70 que pudesse atender às famílias de baixa
renda que viviam em situações de risco. O financiamento para a obra era
proveniente dos recursos do BNH, tendo a COHAB como órgão executor do
projeto.
Embora o projeto inicial fosse a construção do conjunto ao longo da
década de 70, este foi iniciado apenas em 1976. No ano seguinte, em 10 de
novembro de 1977, a 1ª etapa do conjunto foi inaugurada já tendo os seus
primeiros habitantes ocupando as residências. Nesta primeira fase foram
construídas 966 unidades habitacionais entregues posteriormente à população
pelo então governador do estado, Adauto Bezerra.
Os primeiros habitantes do conjunto enfrentaram sérios problemas no
que se refere ás condições de infraestrutura como: saneamento básico, uma
vez que nem toda a área foi contemplada com este serviço; inundações nos
69
períodos chuvosos; além de vias inacabadas dificultando o trânsito de veículos
e pessoas no interior da área construída. O isolamento é outro ponto levantado,
pois o terreno onde se deu a construção do conjunto habitacional era distante
dos locais de trabalho como também de difícil acesso a outros serviços como
saúde, comércio, dentre outros. O fato era agravado pela deficiência dos
transportes públicos na cidade. Os primeiros moradores tinham que andar até a
Avenida Emílio de Menezes, situada no bairro vizinho, Granja Portugal, ponto
final das linhas de ônibus que operavam naquela região. Outras problemáticas
eram também vivenciadas, como a insegurança.
Nos anos seguintes houve a conclusão e inauguração das outras etapas
do conjunto habitacional: em 1978, a 2ª etapa com 2.516 unidades
habitacionais; em 1979 foi concluída a 3ª etapa, e, por fim, em 1981, a 4ª etapa
foi entregue aos habitantes do conjunto.
Na década de 80 o bairro passa por sérios problemas decorrentes, em
grande parte, dos períodos chuvosos. Ruas intransitáveis e de difícil acesso
para a circulação dos moradores eram os problemas mais perceptíveis,
associados à coleta insuficiente de lixo. Essa situação levou a população a
exigir do poder público uma reforma na área e para isso, foi elaborado um
projeto a ser entregue ao BNH no final da década de 80.
No entanto, com a extinção do BNH os recursos destinados às políticas
habitacionais passaram a ser gerenciados pela Caixa Econômica Federal e,
diante de alguns impasses entre os governos federal, estadual e municipal, o
projeto de reforma do Conjunto Ceará não foi colocado em prática logo de
início. A reivindicação dos moradores foi, em parte, atendida somente no início
da década de 90, com a reforma das 1ª, 2ª e 3ª etapas. A 4ª etapa ficou para
ser reformada nos anos seguintes. Nessa reforma, as vias de circulação foram
recuperadas e arborizadas, os canais pluviais das avenidas G e C foram
urbanizados e nesse mesmo período foi construído o polo de lazer Luiz
Gonzaga (Figura 10).
É partir da década de 90 que o Conjunto Ceará começa a manifestar
características de um polo de atração para os bairros vizinhos. Diversos
equipamentos urbanos e serviços são implantados no bairro, passado assim a
contribuírem para esse processo.
70
Atualmente o bairro registra mais de 700 estabelecimentos, entre
comércio, indústria e prestação de serviços (www.conjuntoceara.com). O
Conjunto Ceará, através de seus equipamentos urbanos e serviços, atrai
grande número de moradores de bairros vizinhos como Bom Jardim, Granja
Portugal, Granja Lisboa, Genibaú e mesmo de Caucaia que procuram serviços
bancários,
atendimento
médico,
e
diversos
segmentos
do
comércio,
principalmente na área de entretenimento. Os eventos culturais realizados no
bairro como festas juninas, carnaval e demais espetáculos artísticos e culturais
incrementam ainda mais para esse processo de polarização na região
sudoeste de Fortaleza.
FIGURA 12: Polo de lazer Luiz Gonzaga
Fonte: João Paulo Matias, 2009
FIGURA 13: Centro Cultural Patativa do Assaré
Fonte: João Paulo Matias, 2009
71
Os principais pontos de serviços encontrados na área do Conjunto
Ceará são: as agências bancárias, hospital, postos de saúde, terminal de
ônibus, estabelecimentos comerciais em diversos segmentos, escolas e centro
cultural (Figura 11) que se apresentam de certa forma concentrados no interior
do conjunto. A concentração da maior parte desses serviços localiza-se na
Avenida Ministro Albuquerque Lima, também conhecida como Avenida Central,
que é o corredor comercial do bairro. As outras etapas do bairro são de
características predominantemente residenciais.
3.4 – Caracterização Geoecológica
3.4.1 – Características geológicas/geomorfológicas, pedológicas,
hidrográficas e vegetacionais.
As características geoecológicas da área de estudo, neste tópico
apresentadas,
referem-se
aos
aspectos
geológicos,
geomorfológicos,
hidrográficos, pedológicos e vegetacionais. Para a caracterização dessas
condições naturais do Conjunto Ceará foram utilizados como referência os
estudos de Souza (1988), Claudino-Sales (2005), Lima (2004) e Nascimento
(2007), que tratam desses aspectos geoambientais para o Ceará e,
consequentemente, para Fortaleza.
Os aspectos geológicos/geomorfológicos são caracterizados pela
presença de coberturas
sedimentares cenozóicas, representadas pela
Formação Barreiras, que formam os tabuleiros costeiros. A Formação Barreiras
é constituída por sedimentos areno-argilosos tercio-quaternários de origem
continental. Esse material distribui-se como uma faixa de largura variável
acompanhando a linha de costa estando à retaguarda dos depósitos
holocênicos da planície litorânea.
Os tabuleiros costeiros, modelados no topo da formação barreira, são
relevos predominantemente planos com trechos suavemente ondulados
distribuídos ao longo do litoral em faixa praticamente contínua, entre as
planícies costeiras e as depressões sertanejas. As altitudes desses relevos
72
variam em média entre 30 a 80 metros, diminuindo gradativamente do interior
em direção ao mar.
Quanto à hidrografia, a área de estudo está inserida na Bacia do Rio
Maranguapinho correspondente a uma faixa norte-sul que se estende nas
proximidades da foz do Rio Ceará até o bairro Siqueira e possui 96 Km2 de
área. É formada por oito sub-bacias, cujos mananciais mais importantes são:
Riacho da Lagoa da Parangaba, Açude da Agronomia, Riacho do Açude João
Lopes, Riacho Sangradouro do Açude da Agronomia, Riacho da Lagoa do
Mondubim, Rio Maranguapinho, Braço do Rio Maranguapinho e Riacho
Correntes.
As classes de solos encontradas estão praticamente todas modificadas
devido à ocupação urbana. Os principais tipos de solos da área são: Argissolo
Vermelho-Amarelo
Distrófico,
Argissolo
Vermelho-Amarelo
Eutrófico,
Neossolos Flúvicos e Neossolos Quartzarênicos.
Os Argissolos Vermelho-Amarelo Distróficos e Eutróficos ocorrem
principalmente na zona pré-litorânea, em relevo plano a suave ondulado, no
domínio dos sedimentos da Formação Barreiras. São profundos, bem
desenvolvidos, com horizonte B de cores vermelho amarelado a vermelho e
textura média a argilosa abaixo de um horizonte A ou E de cores cinzentas ou
claras e de textura arenosa a média. Possuem baixa fertilidade natural, com
deficiência de água e suscetibilidade à erosão.
Os Neossolos Flúvicos são formados a partir da sedimentação fluvial,
distribuindo ao longo das planícies fluviais. São poucos desenvolvidos de
pouco profundos a muito profundos, comumente apresenta um horizonte A
sobre uma sucessão de camadas estratificadas sem nenhuma relação
pedogenética entre si, possuindo textura desde arenosa até argilosa. Eles
possuem alta fertilidade natural e grande potencialidade para o uso agrícola.
Os Neossolos Quartzarênicos são pouco desenvolvidos com seqüência
de horizontes A e C, de profundos a muito profundos, arenosos, constituídos
essencialmente de grãos de quartzo. Sua coloração é ligeiramente escura no
horizonte A, passando a amarelada ou cinzenta clara no horizonte C. São solos
pobres, praticamente sem reservas de nutrientes e de baixa capacidade de
retenção de água para as plantas.
73
Quanto às características da vegetação, estas encontram-se bastante
alteradas devido o processo de urbanização ocorrido em Fortaleza. A cidade
apresenta unidades vegetacionais definidas como Complexo Vegetacional
Litorâneo, o qual se subdivide em Vegetação Pioneira, Mata à retaguarda de
dunas, Vegetação de Tabuleiro, de duna, Vegetação de Mangue, Vegetação
Ribeirinha e Vegetação Lacustre. O PDDU de Fortaleza (2006) aponta ainda a
vegetação antrópica presente de forma mais expressiva em áreas não loteadas
ou com loteamentos ou lotes entremeados de pequenos sítios situados,
sobretudo, na periferia da cidade, como é o caso do Conjunto Ceará. Na área
de estudo, a vegetação primitiva é a Vegetação de Tabuleiro que foi
desmatada para a construção do conjunto habitacional. Atualmente, pequenas
porções dessa vegetação são encontradas na área do bairro.
3.4.2 – Caracterização Climática
O Conjunto Ceará insere-se nas classificações climáticas propostas para
Fortaleza, uma vez que é parte integrante da cidade. Desse modo, serão
apresentados as características do clima de Fortaleza e os principais sistemas
atmosféricos atuantes na cidade como forma de entender a dinâmica que atua
também na área de interesse da pesquisa.
O clima de Fortaleza é analisado a partir de diversas classificações,
sendo praticamente todas de base genérica, como bem aponta Moura (2008).
Este mesmo autor ressalta a importância de se desenvolver uma classificação
climática genética do clima de Fortaleza para o melhor entendimento dos
mecanismos atuantes e das características do clima da cidade.
Silva et al (2004) apresenta o clima de Fortaleza sob o domínio do Clima
Tropical
Quente
Sub-úmido,
caracterizado
por
apresentar
índices
pluviométricos variando ente 1.000 e 1.350 mm anuais com temperaturas
médias superiores a 24º C.
Outra classificação a ser considerada para o clima da cidade de
Fortaleza é a de Xavier (2001). A autora define Fortaleza como integrante da
74
Região do Litoral 3 (L3G – Litoral de Fortaleza). Esta classificação decorre de
um trabalho estatístico realizado por esta autora tomando por base a
distribuição dos postos pluviométricos do estado do Ceará no período
compreendido entre 1964 e 1996. Foi considerada a quadra chuvosa do
estado, correspondente aos meses de fevereiro, março, abril e maio, e utilizada
a técnica dos Quantis para identificar os anos chuvosos e secos e seus limites.
Desse modo, Fortaleza integra a Região L3G com os seguintes limites
inferiores e superiores de precipitação: ano muito seco (0mm e 762,7mm), ano
seco (762,7mm e 921,8mm), ano normal (921,8mm e 1311,0mm), ano chuvoso
(1311,0mm e 1612,3mm) e ano muito chuvoso (índices pluviométricos
superiores a 1612,3mm).
Como já citado acima as classificações apresentadas possuem um
caráter genérico, o que revela a importância e urgência de trabalhos que
busquem uma compreensão genética do clima da cidade para que Fortaleza
seja alcançada.
3.4.2.1 - A dinâmica atmosférica
Para uma melhor compreensão da dinâmica climática no Conjunto
Ceará faz-se necessário conhecer os sistemas atmosféricos que atuam no
clima de Fortaleza e as influências diretas e indiretas que estes repercutem na
cidade. Assim, pode-se enumerar os principais sistemas atmosféricos
presentes e atuantes em Fortaleza: a Zona de Convergência Intertropical
(ZCIT), os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCA’s), os Complexos
Convectivos de Mesoescala (CCMs), as Linhas de Instabilidade, as Ondas de
Leste e as Brisas marítimas e terrestres, assim como também o El Niño e o
Dipolo do Atlântico. Cada um desses sistemas possui características que,
quando atuam na cidade, condicionam os diferentes tipos de tempo
observados.
75
A Zona de Convergência Intertropical
A ZCIT é o principal mecanismo causador de chuva na região do
Nordeste do Brasil e, portanto, principal agente também na área de interesse
da pesquisa.
Molion & Bernardo (2002) definem a ZCIT como sendo:
Uma extensa região de convergência dos ventos Alísios de
nordeste, oriundos do sistema de alta pressão ou anticiclone
subtropical do HN [hemisfério norte] e dos ventos alísios de
sudeste, provenientes da alta subtropical do HS [hemisfério
sul]. É caracterizada por movimentos ascendentes, baixas
pressões, uma banda de nebulosidade e chuvas no sentido
leste-oeste aproximadamente. (MOLION & BERNARDO, 2002:
2)
Ferreira e Mello (2005) apontam ainda como condicionantes da ZCIT as
altas temperaturas da superfície do mar sobre o Oceano Atlântico Tropical, o
que determina a posição e intensidade desse sistema, associadas a uma
intensa atividade conectiva e à precipitação. A influência mais expressiva deste
sistema
atmosférico
de
grande
escala
no
Nordeste
brasileiro,
e
consequentemente na cidade de Fortaleza, ocorre entre os meses de fevereiro
a abril quando a ZCIT atinge uma posição mais ao sul, aproximadamente 2º a
4º S por ter migrado de sua posição mais ao norte, 14º N, em agosto-outubro.
Para a cidade de Fortaleza e o estado do Ceará, a ZCIT é o principal
causador de chuva, sendo esta a responsável pelo estabelecimento da quadra
chuvosa no Estado. Molion & Bernardo (2002) citam a relação existente entre a
ZCIT e o comportamento da pluviometria no Nordeste do Brasil. Os anos
considerados secos na região correspondem também ao bloqueio da ZCIT
mais ao norte de sua posição normal. Desse modo, o Nordeste fica sob uma
região de subsidência o que inibe a precipitação. Do contrário, em anos
considerados chuvosos, a ZCIT desloca-se até os 5º S, aumentando sua
intensidade devido a um aumento de convergência.
76
FIGURA 14: ZCIT mostrada através das imagens do satélite METEOSAT-7. Fonte: FUNCEME,
2006.
Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN’s)
Os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCA’s), de origem tropical, são
formados no Oceano Atlântico principalmente nos meses de janeiro e março e
com maior frequência nos meses de janeiro e fevereiro. Esses sistemas
movimentam-se de leste para oeste e possuem um tempo de vida que varia,
em média de 7 a 10 dias. Os VCA’s caracterizam-se por um aglomerado de
nuvens no formato de um círculo girando no sentido horário. Na periferia do
sistema formam-se nuvens causadoras de chuvas e no centro ocorre uma
subsidência do ar aumentando a pressão e inibindo o processo de formação de
nuvens. (FERREIRA e MELLO, 2005)
FIGURA 15: Atuação do sistema VCAN’s.
Fonte: Funceme (2006).
77
Linhas de Instabilidade
As Linhas de Instabilidade são um aglomerado de nuvens causador de
chuvas, sendo essas nuvens geralmente do tipo cumulus, que se organizam
em forma de linhas (SOUSA, 1998).
A formação das Linhas de Instabilidade ocorre pela grande quantidade
de radiação solar incidente sobre a região tropical formando o desenvolvimento
de nuvens cumulus que atingem um número máximo no período da tarde/noite
gerando assim chuvas (FERREIRA e MELLO, 2005).
As Linhas de Instabilidade que atuam na costa cearense são formadas
pela repercussão de brisas marítimas e pelas linhas de convergência da ZCIT
(FUNCEME, 2006).
FIGURA 16: Linha de Instabilidade atuando no litoral nos estados Maranhão, Piauí, Ceará e
Rio Grande do Norte.
Fonte: Funceme (2006).
78
Complexos Convectivos de Mesoescala
Souza (1998) define os Complexos Convectivos de Mesoescala (CCM’s)
como um aglomerado de nuvens que se formam devido às condições locais
favoráveis como temperatura, relevo, pressão etc., provocando fortes chuvas
com curta duração, e normalmente acompanhadas por fortes rajadas de vento.
Ocorre preferencialmente nas estações da primavera e verão no hemisfério sul
e geralmente formam-se no período noturno com um ciclo de vida entre 10 e 20
horas.
FIGURA 17: Atuação de um CCM sobre a cidade de Fortaleza no dia 24/04/98 às 8 h local.
Fonte: Funceme
Molion e Bernardo (2002) apresentam a dinâmica desse sistema:
Essas penetrações produzem grandes complexos convectivos
de escala subsinóptica (CCS) na região da ZCIT que, por sua
vez, geram perturbações ondulatórias no campo dos ventos
alísios (POAS). As POAS se propagam para oeste com
velocidade de 6º a 8º de longitude por dia, cruzam o Equador,
mas não tem condições de se desenvolverem sobre o oceano
devido à forte inversão psicrométrica sempre presente sobre o
campo dos alísios. Porém geralmente se intensificam quando
chegam à costa, devido ao aumento da convergência de
umidade e ao contraste térmico entre continente e oceano.
(MOLION & BERNARDO, 2002: 4).
79
Ondas de Leste
As ondas de leste são formadas no campo de pressão atmosférica, na
faixa tropical, na região influenciada pelos ventos alísios. Esse sistema
apresenta um deslocamento de leste para oeste, ou seja, desde a costa da
África até o litoral do Brasil.
FIGURA 18: Nebulosidade oriunda das ondas de leste.
Fonte: Funceme (2006)
Xavier (2001) cita esse sistema ao apresentar a dinâmica das chuvas no
litoral leste do Nordeste brasileiro:
[...] mencionemos as ondas de leste, que se propagam a partir
da costa da África e cuja intensificação pode dar-se em função
da presença de massas de ar carregadas de umidade
formadas sobre o Atlântico Sul (entre a linha do Equador e o
paralelo 20 graus sul), especialmente quando o mar apresenta
80
significativas anomalias de temperatura. Demais, também deve
contribuir um possível aumento da “componente zonal” do
vento sobre o atlântico nessas latitudes. (XAVIER, 2001: 366)
Quando em condições oceânicas e atmosféricas favoráveis, esse
sistema provoca chuvas no Ceará nos meses de junho, julho e agosto
(FERREIRA e MELLO, 2005).
Brisa marítima (Oceânica) e Brisa terrestre (Continental)
O sistema de brisas é resultado das diferenciações térmicas entre
superfícies terrestres e superfícies aquáticas. São mais fortes e ocorrem mais
regularmente na região dos trópicos (AYOADE, 2003:92).
Mendonça (2007) apresenta o processo de formação desses ventos
locais:
Nas costas oceânicas e de grandes lagos, a eficiência do
aquecimento do solo em relação á superfície líquida adjacente
faz com que à tarde o ar esteja mais aquecido em terra,
propiciando a formação de uma célula convectiva [...]. Com o
surgimento do gradiente barométrico, criado pela presença de
uma alta pressão sobre a água e de uma baixa pressão sobre
a terra, ao entardecer, o ar escoa em direção ao continente,
gerando a brisa oceânica. No período da noite, como o solo
também é mais eficiente em perder calor do que a água, o
gradiente de pressão inverte-se, formando uma alta pressão
sobre a terra e uma baixa pressão sobre a água. Em
decorrência desse contraste barométrico, o ar flui do continente
em direção à costa, configurando a brisa continental.
(MENDONÇA, 2007:80)
Sistema Tropical Atlântico (TA)
Sousa (1998) define o sistema Tropical Atlântico como resultado do
Anticiclone Semifixo do Atlântico Sul, um centro de alta pressão formado na
região quente do Atlântico Sul, produtor da Massa Tropical Atlântica (mTa). A
atuação da TA é constante ao longo do ano e traz condições de estabilidade no
inverno e de instabilidade no verão.
De acordo com Mendonça (2007), a mTa é:
81
[...] uma das principais massas de ar da dinâmica atmosférica
da América do Sul e, particularmente, do Brasil, onde
desempenha considerável influência na definição dos tipos
climáticos. [...] Possui características de temperaturas e
umidades elevadas. Sua mais expressiva atuação nos climas
do Brasil, por meio de correntes de leste e de nordeste, dá-se
no verão, quando, atraídas pelas relativas baixas pressões que
se forma sobre o continente, traz para a atmosfera deste
bastante umidade e calor, reforçando as características da
tropicalidade climática do país. (MENDONÇA, 2007: 110)
O sistema TA apresenta alta umidade relativa, e quando avança sobre o
continente gera temperaturas mais elevadas, pressão e umidades relativas
baixas, sendo assim responsável pelas condições de estabilidade de tempo
sobre Fortaleza, sobretudo no inverno e primavera, sendo um dos sistemas de
maior predominância na cidade (MOURA, 2008).
Influências do El Niño Oscilação Sul (ENOS) e Dipolo do Atlântico
O El Niño Oscilação Sul (ENOS) e o Dipolo do Atlântico apresentam
relações com o clima de Fortaleza e consequentemente com a área de estudo.
O fenômeno ENOS é uma associação de dois mecanismos existentes entre o
oceano e atmosfera. Berlato e Fontana (2003) explicam o fenômeno:
O El Niño (EN) representa o componente oceânico do
fenômeno, enquanto a Oscilação Sul (OS) representa a
contrapartida atmosférica. [...] Na verdade, o fenômeno ENOS
faz parte de uma variação irregular em torno das condições
normais do oceano e da atmosfera na região do Pacífico
tropical. Um extremo dessa variação é representado pelas
condições de El Niño, quando se verifica um aquecimento das
águas simultaneamente com diminuição da pressão
atmosférica no Pacífico leste (também denominada fase quente
ou fase negativa), e o outro extremo da variação é
representado pelas condições de La Niña, quando ocorre um
resfriamento das águas e aumento na pressão atmosférica na
região leste do Pacífico (também denominada fase fria ou fase
positiva). (BERLATO e FONTANA, 2003: 20-21)
Já o dipolo do Atlântico é a diferença entra a anomalia da Temperatura
da Superfície do Mar – TSM - na bacia do Atlântico Norte e Oceano Atlântico
82
Sul. Quando as águas do Atlântico sul estão mais frias, o Sistema de Alta
Pressão do Atlântico sul e os ventos alísios se intensificam. Se neste mesmo
período as águas do Atlântico Norte estiverem mais quentes, o Sistema de Alta
Pressão do Atlântico Norte e os ventos alísios de nordeste se enfraquecem.
Esse processo faz com que a ZCIT se desloque para posições mais ao norte
do Equador, favorecendo anos mais secos para a parte norte do Nordeste do
Brasil (Dipolo Positivo). Quando o processo ocorre de maneira inversa (Dipolo
Negativo), a ZCIT se desloca para posições mais ao sul da linha do Equador,
contribuindo para a ocorrência de anos normais, chuvosos ou muito chuvosos
para o mesmo setor (FERREIRA & MELLO, 2005).
O El Niño, dependendo de sua intensidade e do período do ano em que
ocorre é um dos responsáveis por anos secos ou muito secos no nordeste do
Brasil, sobretudo, quando associado com o Dipolo Positivo. O fenômeno La
Niña associado ao Dipolo Negativo é normalmente responsável por anos mais
chuvosos nesta mesma região (FERREIRA & MELLO, 2005).
3.4.2.2 – Análise dos atributos do clima
As variáveis meteorológicas de Fortaleza podem ser analisadas a partir
das Normais Climatológicas fornecidas pela Estação Meteorológica do Campus
do Pici, situada no Campus do Pici e pertencente ao Departamento de
Engenharia Agrícola do Centro de Ciências Agrárias da UFC. Pela análise das
normais é possível identificar o comportamento de atributos climáticos de
Fortaleza como: temperatura, precipitação, umidade relativa do ar, velocidade
do vento, nebulosidade, insolação, evaporação e pressão atmosférica. Esses
dados apresentados referem-se ao de período de 1972 a 2001.
A temperatura média anual da cidade é de 26º C, com médias mensais
variando entre 26º C no mês de julho e 27,6º C no mês de dezembro. A média
da temperatura máxima registrada corresponde a 30,3º C, sendo a média
mensal mais reduzida (29º C) registrada no mês de julho e as taxas mais
elevadas (31,1º C) nos meses de novembro e dezembro. Já a temperatura
83
mínima média é de 23,5º C, com taxas mais inferiores de 22,6º em agosto e
superiores de 24,5º C em dezembro (Figura 16a).
No que se refere à precipitação, as médias anuais são de 1608,4mm,
com índices extremos mensais superiores a 350mm em abril e 13mm em
novembro. A concentração das chuvas se dá no primeiro semestre,
correspondente a 87,2% das chuvas ocorridas durante o ano. O quadrimestre
mais chuvoso é representado pelos meses de fevereiro a maio, onde ocorrem
79,6% da chuva total do primeiro semestre.
A umidade relativa do ar revela uma media anual de 78%, com uma
variação de 84% no mês de abril e 73% nos meses de setembro e outubro,
sendo, portanto, esses os meses mais secos do ano.
A velocidade do ar apresenta uma média anual de 3,7 m/s. Os fluxos de
ar são registrados na cidade de Fortaleza com menor intensidade no primeiro
semestre, sendo as taxas mais reduzidas ocorridas nos meses de março (2,6
m/s) e abril (2,5 m/s). No segundo semestre ocorre comportamento inverso,
pois é neste período que os ventos intensificam registrando valores mais
acentuados nos meses de setembro (4,7 m/s) e outubro (4,6 m/s). Vale
ressaltar que esta variável é uma das que mais são influenciadas pela
rugosidade da superfície.
A nebulosidade apresenta comportamento atrelado à dinâmica das
chuvas. No primeiro semestre essa variável apresenta valores mais elevados
com taxas mensais de 6,6/10 nos meses de março e 6,4/10 nos meses de abril.
Os valores mínimos são registrados nos meses mais secos do ano, como
agosto, setembro e outubro.
A insolação registra uma soma anual de 2.832,3 horas com valores mais
baixos na quadra chuvosa do estado e índices mais elevados no segundo
semestre.
As taxas de evaporação são menores no primeiro semestre, sendo no
mês de abril que ocorrem os índices mais reduzidos (66,2 mm). Já no segundo
semestre essas taxas de evaporação acentuam-se principalmente no mês de
outubro que registra maior índice (162,5mm).
84
a- Normal Climatológica Temperatura Média, Máxima e Mínima.
Precipitação Média Mensal para Fortaleza
(1972-2001)
350
P
r
e
c
i
t
250
o
200
m
m
)
a
300
ã
(
i
p
ç
150
100
50
0
JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ
b- Normal Climatológica Precipitação
Umidade Relativa média para Fortaleza
(1972-2001)
85
80
75
70
65
JAN
FE V M A R A B R
M AI
J UN
J UL
A GO
SE T
OUT
NOV
DE Z
c- Normal Climatológica Umidade Relativa Média
FIGURA 19 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (1972-2001)
85
Velocidade do Vento para Fortaleza
(1972-2001)
5
4,5
4
3,5
3
2,5
2
1,5
1
0,5
0
JA N
FE V M A R A B R
M AI
J UN
J UL
A GO
SE T
OUT
NOV
DE Z
a- Normal Climatológica Velocidade do Vento
Nebulosidade para Fortaleza (1972-2001)
7
6
5
4
3
2
1
0
JA N
FE V
M AR
ABR
M AI
J UN
J UL
A GO
SE T
OUT
NOV
DE Z
b- Normal Climatológica Nebulosidade
Insolação média para Fortaleza (19722001)
350
300
250
200
150
100
50
0
JA N
FE V M A R A B R
M AI
JUN
JUL
A GO
SE T OUT NOV
DE Z
c- Normal Climatológica Insolação Média
FIGURA 20 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (1972-2001)
86
Evaporação média para Fortaleza (19722001)
200
150
100
50
0
JAN FEV MAR ABR MAI
JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ
Figura 21: Normal Climatológica Evaporação Média / PICI-INMET (1972-2001)
87
3.5 - Os padrões de ocupação do solo no Conjunto Ceará.
Buscando conhecer as características microclimáticas do Conjunto
Ceará relacionado às diversas formas de uso e ocupação do solo, foram
escolhidas 5 áreas no interior do conjunto habitacional que diferem entre si, no
que se refere aos padrões de uso e ocupação, para realizar a coleta de dados
climáticos. Esses setores representam as diferentes realidades urbanas da
área de interesse da pesquisa.
Em cada uma das áreas foi escolhido um ponto para a realização da
coleta de dados, referentes aos Experimentos I e II da pesquisa. O ponto 1 está
localizado na Avenida Central no cruzamento com a Avenida A. O ponto 2
encontra-se localizado no interior do Terminal de ônibus. O ponto 3 foi
estabelecido na Rua 319. O ponto 4 foi fixado na Rua 448, no trecho
compreendido entre as Ruas 448 B e 448 C e por fim, o ponto 5 foi situado nas
proximidades do Posto de Saúde da Família Maciel de Brito.
Cada um desses pontos foi estabelecido buscando diferentes condições
de uso e ocupação do solo para se verificar os contrastes possivelmente
existentes no comportamento dos atributos climáticos. A seguir são
caracterizados os setores experimentais num raio de 50 metros a partir do
ponto de coleta levando em consideração a existência de área construída
(horizontal e vertical), vegetação e espaço vazios.
3.5.1 – Ponto 1: Avenida Ministro Albuquerque Lima
(E = 543909 / N = 9583224 / Altimetria = 28m)
A Avenida Ministro Albuquerque Lima é também conhecida pelos
moradores do conjunto habitacional como Avenida Central, sendo nela que
ocorre uma concentração de comércio, bares, restaurantes, pizzarias e
barracas de comidas típicas. Essa concentração consolidou-se neste ponto do
bairro, devido, entre outros fatores, à presença do polo de lazer e outros
equipamentos urbanos como a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e
o antigo shopping do bairro, atualmente transformado em um centro cultural.
No polo de lazer acontecem frequentemente os eventos sociais do bairro como
88
festas, etc.. A Avenida Central recebe também esta denominação, pelo fato de
delimitar a divisão do bairro em Conjunto Ceará I e Conjunto Ceará II.
A área na qual se insere o ponto 1 é de grande fluxo de veículos e
pessoas, por tratar-se de vias de grande circulação interna do bairro. As
características do local são marcadas pela existência de uma topografia plana,
com declive suave.
No que se refere a padrões urbanísticos, a área do Ponto 1 possui um
arruamento regular definido em toda a área. O tamanho dos lotes apresenta
certa regularidade em metade da área. Já a forma dos lotes diferencia-se
bastante na maior parte dessa região, em virtude da diversidade dos tipos de
comércios. As residências apresentam-se em número bastante reduzido neste
ponto do bairro. A circulação interna existente e que domina na área são ruas
asfaltadas, sendo a circulação interna possível de ser realizada por carros,
caminhões, motos e fluxo de transeuntes. A vegetação existente é arbórea de
origem antrópica e está localizada pontualmente nos canteiros centrais da
avenida.
Quanto à ocupação da área ocorre verticalização de um, de dois e de
três pavimentos, sendo as construções de dois pavimentos a dominante como
mostra o mapa 3. Essas construções são de características eminentemente
comerciais. A área é densamente construída com ausência de espaços vazios
entre as edificações.
O ponto onde ocorreu a coleta de dados (Figura 20) foi no cruzamento
da Avenida Central com a Avenida A em frente a um posto de gasolina e a uma
agência bancária da área. O ponto está localizado sobre uma calçada
construída de cimento e possui altimetria de 28 m. Ressalta-se a inexistência
de sombra neste ponto durante todo o período do experimento.
89
Foto: João Paulo Matias, 2009.
Ponto 1
Figura 22: Imagem e Foto da Área do Ponto 1 – Av. Ministro Albuquerque Lima
Fonte: Google Earth, 2010.
90
91
3.5.2 – Ponto 2: Terminal de Ônibus
(E = 543547 / N = 9582952 / Altimetria = 12 m)
A área do Ponto 2 tem a presença do Terminal de ônibus como
característica marcante. O Terminal do Conjunto Ceará situado na Rua 113
s/n, é um dos 7 terminais de Fortaleza e possui um número de linhas menor
quando comparado com os demais.
O terminal foi inaugurado em 1993 e
atualmente conta com 17 linhas de ônibus operando com uma frota de 129
veículos. São programadas 1.331 viagens por dia atendendo a uma demanda
de 73.631 pessoas também ao dia. Dentro do terminal, os usuários dispõem de
alguns serviços como caixas-rápidos e lanchonetes (ETUFOR, 2009). O local é
caracterizado por uma topografia plana em todo o setor.
A área possui um arruamento regular e bem definido. Os lotes não
possuem tamanho e forma regular, uma vez que as construções existentes são
o terminal e uma praça, o que confere espaços diferenciados dos lotes
residenciais.
A circulação é feita em vias do tipo ruas, sendo estas todas
pavimentadas, e é caracterizada pelo tráfego de carros e principalmente dos
ônibus do transporte urbano no terminal. Através do mapa 4 constata-se
construções de 1 pavimento, sendo estas as que predominam em toda a área.
Entre as construções ocorre espaçamento entre alguma delas, sendo que
predomina na área as edificações sem espaçamento. A vegetação existente é
do tipo arbórea de origem antrópica localizada, sobretudo, na praça que fica
atrás do terminal.
O ponto de coleta dos dados (Figura 21) foi estabelecido dentro do
Terminal em cima de uma calçada revestida de pedra portuguesa de cor
branca e possui altimetria de 12 m (Figura 21). O ponto tem duas árvores
próximas, sendo que estas não oferecem sombra para o ponto de coleta.
92
Foto: João Paulo Matias, 2009.
Ponto 2
Figura 23: Imagem e Foto da Área do Ponto 2 – Terminal de Ônibus
Fonte: Google Earth, 2010.
93
94
3.5.3 – Ponto 3: Rua 319
(E = 542848 / N = 9582970 / Altimetria = 12 m)
O ponto 3 está situado na Rua 319 no cruzamento com a Rua 329
possuindo altitude de 12 m. A área é predominantemente residencial,
possuindo poucos equipamentos urbanos e revelando assim um reduzido fluxo
de veículos e pessoas durante o dia como foi verificado nos trabalhos de
campo realizados.
Predomina na área uma topografia plana. O arruamento é regular
definido na maior parte da área e já os lotes só possuem forma e tamanho
regular numa menor parte da área. A circulação de pessoas e veículos neste
ponto é feita através de ruas, sendo ausentes becos, travessas, dentre outras
vias de circulação. As ruas não possuem asfalto neste ponto do conjunto
habitacional.
Os padrões de ocupação do solo do ponto 3, observados no mapa 5,
permite identificar que a área edificada existente possui, em sua grande
maioria, apenas 1 pavimento. No entanto, ocorrem também residências de até
dois pavimentos. A vegetação predominante é do tipo gramínea, sendo a
vegetação arbórea pontual. Observa-se que neste ponto as ruas apresentam
largura maior do que nas outras áreas do conjunto habitacional que estão
sendo analisadas na pesquisa. A Rua 329 possui uma largura de
aproximadamente 37 metros, em sua maior parte recoberta por grama e ainda
com a presença de um campo de futebol. Já a Rua 319 possui, em seu trecho
mais largo, aproximadamente 44 metros possuindo um canteiro bastante
arborizado.
Essas
características
podem
influenciar
diretamente
as
características do microclima local, como bem aponta Frota & Schiffer (1988).
O Ponto 3 (Figura 22) foi estabelecido no cruzamento da Ruas 319 e
329 sobre o próprio calçamento. Neste ponto não há sombreamento durante
todo o dia, uma vez que a vegetação mais próxima é do tipo gramínea e as
edificações são relativamente distantes do ponto.
95
Ponto 3
Foto: João Paulo Matias, 2009.
Figura 24: Imagem e Foto da Área do Ponto 3 – Rua 319.
Fonte: Google Earth, 2010.
96
Foto: João Paulo Matias, 200
97
3.5.4 – Ponto 4: Rua 448
(E = 543685 / N = 9584106 / Altimetria = 15 m)
O ponto 4 está situado na Rua 448 no trecho compreendido entre as
Ruas 448 B e 448 C. A área no entorno do ponto é densamente construída e
de características residenciais predominantes.
O local possui uma topografia plana em toda a área do entorno do ponto.
O arruamento é regular e bem definido em toda a área. O tamanho das casas,
assim como a forma, varia muito, sendo inexistentes espaços vazios entre as
residências.
A área edificada possui, em sua grande maioria, dois pavimentos, o que
faz com que no período da manhã, no ponto onde ocorreu a coleta dos dados
climáticos, haja um sombreamento pelas residências. A via onde está
localizado o Ponto 3 não possui asfalto, no entanto, encontramos vias
asfaltadas no entorno do ponto. A vegetação é basicamente arbórea e de
origem antrópica, sendo pontual na frente das residências e/ou em alguns
quintais como mostra o mapa 6.
O Ponto 4 (Figura 23) foi estabelecido sobre uma calçada construída de
cimento à altura do número 181, no sentido leste da rua. A altimetria do ponto
verificada em campo foi de 15 m. Como já foi dito acima, este ponto encontrase sombreado pelo segundo pavimento das residências no período da manhã,
o que fez com que a leitura dos instrumentos neste momento ocorresse sob a
sombra.
98
Foto: João Paulo Matias, 2009.
Ponto 4
Figura 25: Imagem e Foto da Área do Ponto 4 – Rua 448.
Fonte: Google Earth, 2010.
99
100
3. 5. 5 – Ponto 5: CSF Maciel de Brito (Rua 602)
(E = 543860 / N = 9583504 / Altimetria = 17 m)
O ponto 5 está localizado nas proximidades do polo de lazer do bairro e
tem como características dominantes a ausência de construções tanto
residenciais como comerciais. A área onde se encontra o ponto 5 é marcada
pela presença de uma área coberta por uma vegetação densa de espécies
arbóreas e herbácea, sendo esta a área com maior cobertura de vegetação do
bairro. As poucas construções presentes correspondem às instalações do
Centro de Saúde da Família Maciel de Brito e à sede de uma empresa de
telefonia.
Na área verifica-se um declive moderado a acentuado e no ponto de
coleta verificou-se altimetria de 17 m. No que se refere á padrões urbanísticos,
existe um arruamento regular na maior parte da área, não havendo ainda um
padrão
no
tamanho
dos
lotes.
A
circulação
nesse
setor
é
feita
predominantemente por ruas, sendo ausentes becos e travessas. A área não
possui verticalização, e as poucas construções existentes são apenas de um
pavimento e apresentando um espaçamento médio entre si. O mapa 7 indica a
predominância nesse ponto de uma vegetação arbórea e herbácea com a
ocorrência de espaços utilizados para outros usos como a criação de animais,
além da ausência de vias asfaltadas neste mesmo trecho do conjunto
habitacional.
O ponto 5 (Figura 24) foi estabelecido em frente ao CSF Maciel de Brito,
sobre uma calçada de cimento. Neste setor não há sombreamento de
edificações no decorrer do período diurno.
101
Foto: João Paulo Matias, 2009.
Ponto 5
Figura 26: Imagem e Foto da Área do Ponto 5 – Rua 602.
Fonte: Google Earth, 2010.
102
103
4. OS MICROCLIMAS URBANOS NO CONJUNTO
CEARÁ – FORTALEZA.
As informações contidas neste capítulo são resultados obtidos através
dos dois experimentos realizados em campo. O Experimento I foi realizado no
dia 22/04/09 durante o outono, correspondendo à quadra chuvosa no estado do
Ceará. Já o Experimento II ocorreu no dia 23/10/09 na primavera,
correspondendo ao período seco do Estado.
A apresentação dos dados foi subdividida em duas partes: a análise das
condições atmosféricas e o comportamento dos atributos climáticos nos
setores experimentais da pesquisa. No primeiro momento são feitas
nefanálises e interpretação das Cartas de Pressão ao Nível do Mar da Marinha
do Brasil para o dia que antecede o experimento e também para o dia do
trabalho de campo. As imagens trabalhadas são oriundas do satélite GOES-10
no canal infravermelho disponíveis no site do INPE. As cartas de pressão da
Marinha do Brasil foram utilizadas para as 9h e 21 h locais, por estarem
disponíveis apenas nestes horários. A análise das condições sinóticas permite
a identificação dos sistemas atmosféricos atuantes nos dias de coleta de dados
e o condicionamento da circulação atmosférica regional sobre os atributos
climáticos locais.
Após
a
interpretação
das
condições
sinóticas
é
descrito
o
comportamento dos atributos climáticos mensurados em campo. O dia do
episódio foi dividido em: período diurno, que corresponde às medições
realizadas às 6, 9, 12 e 15 h; e período noturno correspondente às medições
das 18h e 21 h. Na análise dos atributos, além dos contrastes intra-urbanos, ou
seja, as diferenças encontradas na área de estudo, é feita ainda uma
comparação com os dados climáticos da PCD de Caucaia mostrando também
os contrastes interurbanos. Por fim, são feitas relações entre os dados dos dois
experimentos como forma de entender os microclimas urbanos da área de
interesse da pesquisa.
104
4.1 - Análise dos Experimento I: 22/04/2009
4.1.1 – As Condições Sinóticas
Dia anterior ao experimento I – 21/04/09
Às 9 h, horário local, constata-se pela carta de pressão e pela imagem
de satélite a atuação da ZCIT de média intensidade no oceano e baixa
intensidade no continente. A ZCIT atua até os 5º de latitude Sul, cobrindo então
a cidade de Fortaleza. Esse sistema repercute na área da pesquisa trazendo
condições de instabilidade, porém, não houve registro de chuva. Mesmo assim,
se confirma a presença de valores médios de nebulosidade.
A imagem GOES – 10 confirma a presença da ZCIT com nuvens
convectivas possivelmente do tipo cúmulusformes mais atuantes e intensas no
oceano, como mostra a carta de pressão para o mesmo horário.
Às 21 h, a ZCIT continua como o sistema atmosférico atuante na área de
pesquisa, apresentando neste momento uma maior intensidade tanto no
oceano como no continente. A área de atuação da ZCIT abrange o intervalo
entre 0º e 5º de latitude Sul.
O sistema de Baixa Pressão presente sobre o continente (1012 hPa)
avança no sentido norte associando-se com a ZCIT. No entanto, há fraca
participação dessa associação na cidade de Fortaleza.
Através da análise da imagem do satélite GOES-10, é facilmente
perceptível a nebulosidade presente em Fortaleza como decorrência da
atuação da ZCIT.
105
c) Carta de Pressão 21h
a) Carta de Pressão 9h
Figura 27: Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento I: 21/04/09
d) Imagem GOES-10 IR, 21 h
b) Imagem GOES-10 IR, 9 h
106
Dia do Experimento I – 22/04/09
A imagem do GOES-10 no canal infravermelho das 6 h, horário local,
mostra a continuidade da atuação da ZCIT na área de estudo, fato já verificado
no dia anterior ao experimento. Os elevados valores de nebulosidade, de até
7/8, registrados em campo corroboram com a atuação regional desse sistema
de instabilidade.
Às 9h, a carta de pressão exibe ainda a forte atuação da ZCIT. A aleta
indica para a área da pesquisa elevada nebulosidade (8/8), porém, ao analisar
a imagem GOES-10 infravermelho para o mesmo horário, verificou-se baixa
expressão dessa variável, fato esse comprovado com os valores encontrados
em campo, os quais ultrapassaram 6/8, com formação de nuvens altas
possivelmente cirruformes,
Ainda analisando a carta de pressão neste horário, pode-se constatar
ventos de direção sudoeste com intensidade de 5 nós (2,5 m/s) para o litoral
cearense.
Na imagem GOES-10 para o horário local das 12 h, verifica-se a
permanência da ZCIT para a área da pesquisa, porém esse sistema não traz
instabilidade uma vez que foram registrados apenas valores de até 6/8 no
Conjunto Ceará. Como evidencia a imagem há uma dispersão desse sistema, o
qual passa a exibir fraca expressão.
Às 15 h, a imagem GOES-10 infravermelho revela a continuidade da
presença da ZCIT e esse sistema segue a tendência do horário anterior, ou
seja, se apresenta com fraca expressão. Essa característica representa
condições de estabilidade atmosférica para a área de pesquisa e também a
nível regional. Na cidade de Fortaleza, e especificamente no Conjunto Ceará,
foi observado céu parcialmente nublado com valores de nebulosidade
oscilando entre 4/8 a 6/8.
A imagem GOES-10, às 18h local, exibe para o litoral do Ceará,
condições de estabilidade. Há a presença da ZCIT, em escala regional, mas
esse sistema continua pouco expressivo sem apresentar, portanto, nuvens
convectivas. Este cenário é confirmado com os valores encontrados a nível
microclimático pela pesquisa, como temperaturas variando de 26º C a 28º C e
nebulosidade de 3/8 a 4/8.
107
A carta e a imagem GOES-10 das 21h local, apresenta ainda a presença
da ZCIT oscilando entre 0º a 3º de latitude Sul, próximo à área da pesquisa, na
plataforma continental. A carta apresenta esse sistema na categoria forte
intensidade, no entanto, ao verificar a imagem infravermelha para o mesmo
horário, percebe-se esse sistema disperso e exibindo nuvens de média e alta
altitude. Mais uma vez esse cenário é confirmado com os dados obtidos no
campo.
A partir da análise das condições sinóticas representadas nas cartas de
pressão e imagens de satélites, é possível concluir que a ZCIT esteve presente
no decorrer do Experimento I como o principal sistema atmosférico atuante.
Esse sistema foi mais atuante e expressivo no oceano e consequentemente,
teve pouca expressão, em termos de instabilidade na área da pesquisa, fato
confirmado pelos valores de nebulosidade e ausência de chuvas.
108
b) Imagem GOES-10 IR, 9 h
d) Imagem GOES-10 IR, 21 h
a) Carta de Pressão 9h
c) Carta de Pressão 21h
Figura 28: Dinâmica atmosférica do dia do Experimento I: 21/04/09
109
15 h
6h
18 h
9h
FIGURA 29: Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento I: 21/04/09
21 h
12 h
110
4.1.2 - A dinâmica dos atributos climáticos
Período diurno (6, 9, 12 e 15 h)
Os contrastes de temperatura no período da manhã variaram entre 0,5º
e 1º C no contexto intra-urbano, sendo menores do que os valores encontrados
na realidade interurbana (Tabela 3). Às 6h, início do experimento, as condições
térmicas apresentaram-se em torno dos 23º C em todos os locais de coleta,
com exceção do ponto 2 onde se registrou uma temperatura inferior de 22,5º C.
Já às 9 h, a menor temperatura foi registrada no ponto 3 (28º C), enquanto que
nos pontos 1 e 5 a temperatura foi 1º C mais elevada. Os contrastes
higrométrico giraram em torno de 9% a 13% durante a manhã. Os maiores
valores de umidade foram registrados à 6h, nos pontos 4 e 2, sendo 98% e
100% respectivamente. Às 9h, com o aumento da temperatura, ocorre a
diminuição da umidade relativa do ar, por serem grandezas inversamente
proporcionais. As maiores cotas de umidade relativa são verificadas nos pontos
4 (83%) e 2 (81%) e o menor valor no ponto 3 (70%) para este horário (9 h).
Quanto aos fluxos de ar, a variação se deu entre 1,1 m/s a 9 m/s, sendo
o primeiro valor identificado em todos os pontos na primeira medição do dia, e
o segundo valor observado às 9h em quase todos os locais de coleta, com
exceção do ponto 4, onde se registrou velocidade do vento de 4 m/s. A
observação da nebulosidade mostrou céu com grande quantidade de nuvens
em quase toda a área de estudo. Os pontos 2, 4 e 5 apresentaram cobertura
de 7/8, seguido pelo ponto 1 (6/8), e o ponto 3 com o menor valor observado
para o primeiro horário (3/8), podendo este ser decorrente de erro do
observador. Às 9h, houve uma pequena redução da nebulosidade na área de
estudo. Essa grande quantidade de nuvens pode agir como barreira à entrada
de raios solares no início do dia, impedindo o aquecimento mais rápido da
superfície.
O fluxo de veículos foi intenso nos pontos 1 e 2 já nas primeiras horas
do experimento, sendo bastante reduzido ou quase inexistente nos demais
locais de coleta. A avenida Central e o Terminal são áreas de intenso fluxo
dentro da dinâmica urbana do bairro, fato já comprovado no levantamento para
a escolha dos pontos. Assim como o fluxo de veículos, o fluxo de pessoas
111
também foi elevado no ponto 2, em virtude de ser um “horário de pico” no
Terminal de Ônibus, onde um grande número de pessoas se dirigem para o
trabalho, escolas, universidades, etc. Os pontos 4 e 5 apresentam reduzido
fluxo de veículos e pessoas no decorrer da manhã.
No que se refere ao conforto térmico, o diagrama do INMET indica
condições de muita umidade em todos os pontos na primeira medição do
experimento e necessidade de vento para conforto nos pontos 1 e 5 ás 9h
(Quadro 6). Somente no ponto 3 foi encontrada situação de conforto, segundo
o diagrama. Já o Índice Temperatura Efetiva (Te) exibe zona de conforto em
todos os pontos às 6 h e Stress ao Calor ás 9h, situação esta que permanece
durante todo o período da tarde.
No período da tarde, os contrastes termo-higrométricos foram mais
acentuados com diferenças de temperatura variando de 1,5º a 2º C como
mostra a tabela 3. Ao meio-dia foram registrados os maiores valores de
temperatura de todo o dia de realização do experimento e consequentemente
os mais baixos valores de umidade relativa do ar em todos os pontos
analisados. Nos pontos 2 e 5 foram verificados valores extremos de 31,5º C
para este horário. O ponto 1 apresentou temperatura de 31º C, enquanto que
os pontos 3 e 4 apresentaram, para o horário, os valores mais baixos, ambos
30º C. O contraste higrométrico variou em torno 14% às 12 horas no contexto
intra-urbano (Tabela 4). Nos pontos 4, 5 e 1 são registrados valores de 74%,
69% e 68% respectivamente, considerados os maiores neste momento,
enquanto que o ponto 3 apresenta umidade relativa de 65% e o ponto 2 o valor
mais baixo (60%).
Às 15 h, o ponto 3 tem a menor temperatura para o horário exibindo um
valor de 27,5º C e o maior valor é registrado no ponto 2 (29,5º C), sendo neste
ponto que ocorre uma tendência de temperaturas mais elevadas durante todo o
dia do experimento. Como consequência da temperatura menos elevada, o
ponto 3 apresenta um dos maiores valores de umidade relativa (84%), assim
como também um fluxo de veículos e pessoas inexpressivo. As condições
higrométricas também foram elevadas nos pontos 1 (85%) e 4 (83%). O ponto
4 teve uma das menores temperaturas para o horário, provavelmente por ser
uma área com presença de construções de mais de um pavimento o que pode
criar um “efeito sombra” no local de coleta. Esse efeito dificulta a ação direta
112
dos raios solares na superfície e consequentemente o armazenamento de calor
pelas estruturas urbanas.
O vento, variável importante a ser considerada na definição das
condições de conforto, teve velocidade de 1,1 m/s no ponto 2 e 9 m/s nos
pontos 1, 4 e 5 tanto ao meio-dia como às 15 h. Durante a tarde, a velocidade
do vento foi mais elevada no ponto 3 (15,5m/s) (Quadro 4).
A nebulosidade varia pouco no período da tarde quando comparada com
a manhã. O céu apresenta uma cobertura de nuvens variando entre 4/8 e 6/8
na maior parte dos pontos de coleta. Essa situação reflete as condições
sinóticas de nível regional atuantes em Fortaleza.
No que se refere aos dados de natureza urbana, o ponto 1 manteve, no
período da tarde, a intensidade dos fluxos de veículos e pessoas para a
realidade intra-urbana (Quadro 5). O ponto 2 também configura-se como um
local de intenso fluxo, sendo no horário das 15 h registrado o maior movimento
de pessoas durante todo o dia do experimento. Já nos pontos 3, 4 e 5 o fluxo
de veículos e pessoas segue a tendência de serem reduzidos e até mesmo
inexistentes.
Período noturno (18 e 21 h)
No período noturno, a radiação solar deixa de agir diretamente sobre a
superfície terrestre. Em contrapartida, ocorre a liberação do calor armazenado
pela estrutura urbana durante o dia, o que passa a influenciar diretamente as
condições atmosféricas da cidade.
No horário das 18h, há uma pequena diminuição da temperatura em
todos os pontos de coleta de dados, embora o contraste térmico permaneça
em torno de 2º C como observado na Tabela 3. O ponto 3 mantém a
temperatura mais baixa (26º C), fato já verificado às 15 h, sendo acompanhado
neste momento pelo ponto 5 (26º C). Da mesma forma, os ponto 1 e 2 seguem
o comportamento do período diurno em apresentar a maior temperatura (28º C)
dentre os pontos analisados. Seguindo o comportamento inversamente
proporcional à temperatura, a umidade relativa registrada nos pontos 3 e 5 foi
92 % e nos pontos 1 e 2 foi de 77% para a primeira medição da noite.
113
Às 21h, o processo de transferência do calor absorvido pelas superfícies
durante o dia já está bastante desenvolvido. As temperaturas registradas
podem ser consideradas mais amenas com valores de 24,5º C no ponto 3 e
26,5º C no ponto 1. Os valores extremos de umidade relativa foram registrados
também no ponto 3 (95%) e no ponto 1(87%) (Quadro 4).
Na última medição do experimento foi constatado a ausência de
nebulosidade nos pontos 1, 3 e 5 e uma cobertura de nuvens bastante
reduzidas nos pontos 2 e 4.
A redução da nebulosidade no período noturno pode ser um dos fatores
que explica a diminuição da temperatura à noite, uma vez este processo
permite uma melhor dissipação do calor que passa a ser liberado à noite pelas
superfícies urbanas.
O vento teve velocidade de 1,1 m/s em praticamente todos os pontos,
com exceção do ponto 1 onde o fluxo de ar ocorreu numa velocidade de 4 m/s.
Quanto aos atributos de natureza urbana, às 18 h, são registrados
elevados fluxos de pessoas e veículos nos pontos 1 e 4. No ponto 3 o fluxo de
veículos e pessoas permanece inexistente, enquanto que no ponto 2 o
movimento de pessoas permanece intenso como ocorrido durante todo o dia
(Quadro 5).
No período noturno, segundo o diagrama do INMET, somente nos
pontos 3 e 5 são constatadas zona de conforto térmico, enquanto que nos
demais pontos há necessidade de vento para conforto. Às 21 h, a situação
muda com o predomínio de condições de muita umidade para a área de
pesquisa. No entanto, pelo Índice Te todos os pontos apresentam-se como
dentro de uma Zona de Conforto para este mesmo período.
114
QUADRO 4 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento I
Temperatura
34,1 – 36º c
32,1º - 34º C
TEMPERATURA (º C)
1. Av Min. Albuquerque Lima
30,1º - 32º C
2. Terminal de ônibus
28,1º - 30º C
3. Rua 319
26,1º - 28º C
4. Rua 448 A
24,1º - 26º C
5. PSF Maciel de Brito
HORA
6
9
12
15
18
21
Umidade Relativa
90,1 – 100%
UMIDADE RELATIVA (%)
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
HORA
80,1 – 90%
70,1 – 80%
60,1 – 70%
6
9
12
15
18
21
Velocidade do Vento
Vento Forte
VELOCIDADE DO VENTO (m/s)
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
HORA
Vento muito fresco
Vento Fresco
C
C
C
Vento Moderado
6
9
12
15
18
Direção do Vento
21
C
Norte
22º - 24º C
Sul
Leste
Oeste
Sudeste
Vento Fraco
Aragem
Nordeste Calmaria
Bafagem
Calmaria
NEBULOSIDADE (8/8)
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
HORA
6
9
12
15
18
21
Sistemas Atmosféricos
6
9
12
15
18
21
Nebulosidade
9 (sem visão)
8/8
7/8
6/8
5/8
4/8
3/8
2/8
1/8
0 (céu limpo)
Atuação da ZCIT
116
QUADRO 5 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento I
Fluxo de Veículos
Acima de 40
FLUXO DE VEÍCULOS
1. Av Min. Albuquerque Lima
31 - 40
2. Terminal de ônibus
21 - 30
3. Rua 319
11 - 20
1- 10
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
6
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
9
FLUXO DE PESSOAS
1
2
4
4
1
1
1
1
A
1
6
9
12
15
18
Ausente
21
Fluxo de Pessoas
2
4
1
1
A
12
3
4
A
2
2
15
2
4
A
4
1
18
1
4
1
1
A
21
4 - Acima de 30
3 - 21 – 30
2 - 11 - 20
1 - 1 – 10
A - Ausente
QUADRO 6 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento I
Te
Stress ao calor
(acima de 26º C)
Escala Temperatura Efetiva (Te)
1. Av Min. Albuquerque Lima
Zona de Conforto
(21º a 26º C)
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
Stress ao frio
(Abaixo de 22º C)
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
6
9
12
15
18
21
INMET
Necessita vento
para conforto
Escala INMET
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
Confortável
Muito úmido
6
9
12
15
18
21
117
TABELA 3 – Contrastes Térmicos do Experimento I
Contrastes Térmicos (º C)
Inter- Urbanos2
HORA
Intra-Urbanos3
06:00
0,1
-0,4
0,5
09:00
6,1
5,1
1
12:00
5,6
4,1
1,5
15:00
0,9
-1,1
2
18:00
2,3
0,3
2
21:00
1,4
-0,6
2
TABELA 4 – Contrastes Higrométricos do Experimento I
Contrastes Higrométricos (%)
HORA
Inter- Urbano¹
Intra-Urbano²
06:00
7,2
9
09:00
-9,8
13
12:00
-7,6
14
15:00
9,8
14
18:00
0,8
15
21:00
8,6
8
2
Representam as diferenças de valores (temperatura e umidade) encontradas entre os dados
do Experimento e o valor registrado na PCD de Caucaia. O primeiro valor indica a diferença
entre a maior temperatura encontrada na área com a PCD de Caucaia e o segundo, a
diferença entre a menor temperatura encontrada e a PCD de Caucaia.
3
Representa as diferenças dos maiores com os menores valores (temperatura e umidade)
encontrados na área de estudo durante a realização dos experimentos.
117
4.2. – Análise do Experimento II: 23/10/2009
4.2.1 – As Condições Sinóticas
Dia anterior ao experimento II – 22/10/09
As condições apresentadas pela carta de pressão das 12 GMT, 9 horas
local, para o dia que antecede o Experimento II, revelam o sistema Tropical
Atlântico (TA) dividido em dois núcleos por uma embrionária frente no oceano.
Para a área de estudo, no entanto, ocorre apenas uma repercussão do sistema
do núcleo de alta pressão de 1022 hPa. Com isso, fica constatado tanto pelas
informações da carta de pressão, como pela interpretação da imagem do
satélite GOES-10 no canal infravermelho para o mesmo horário, que a área da
pesquisa encontra-se sob condições de estabilidade.
A carta de pressão ao nível do mar de 00 GMT, 21 horas local, mostra
que o mesmo núcleo de alta pressão, já identificado às 9 horas, se dissipa e
passa a atuar de forma mais intensa na costa do estado do Ceará. Desse
modo, esse sistema traz condições de total estabilidade representadas por céu
limpo sem a presença de nuvens, conforme observado na imagem de satélite
do mesmo horário.
118
c) Carta de Pressão 21h
a) Carta de Pressão 9h
FIGURA 30: Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento II: 22/10/09
d) Imagem GOES-10 IR, 21 h
b) Imagem GOES-10 IR, 9 h
119
Dia do experimento II – 23/10/09
No dia do Experimento II, a imagem do GOES-10 no canal infravermelho
para o horário de 9 GMT, 6 horas local, exibe um cenário de estabilidade
atmosférica causada pela atuação do Anticiclone Semi-fixo do Atlântico Sul,
gerador do sistema Tropical Atlântico (TA). Essas condições são confirmadas
pela interpretação sinótica posterior e refletiram nas variáveis meteorológicas
obtidas em campo.
Às 9 horas local, identifica-se a repercussão do sistema TA, verificado
na carta de pressão ao nível do mar de 12 GMT, através da isóbara de 1012
hPa. A análise da imagem GOES-10 12GMT infravermelho vem confirmar as
condições de estabilidade na área de interesse da pesquisa, o Conjunto Ceará.
A partir da carta de pressão é possível afirmar também que a nebulosidade foi
de 4/8 com ventos de direção leste e de intensidade de 15 nós (7m/s). Essas
características verificadas confirmam de perto a habitualidade sinótica da
região, ou seja, ventos moderados e de direção predominantes de sudeste e
leste.
A imagem meteorológica do GOES-10 no canal infravermelho para o
horário 15 GMT, 12 horas local, apresenta a mesma dinâmica atmosférica dos
horários anteriores, ou seja, características de céu limpo com a presença de
nuvens altas possivelmente do tipo cirruformes. Este cenário é típico de
condições de estabilidade e esse quadro é confirmado pelos dados climáticos
obtidos no trabalho de campo como elevadas temperaturas que variaram em
torno de 31º a 35º C, baixa umidade relativa e nebulosidade variando de 2/8 a
4/8 nos pontos de coleta.
A interpretação da imagem do GOES-10 infravermelho para o horário de
18 GMT, 15 horas local, revela a continuidade da repercussão do sistema TA
na área de estudo e consequentemente das condições de estabilidade já
verificadas nos horários anteriores. Mais uma vez, essas condições são
confirmadas com os dados obtidos em campo como temperaturas elevadas e
nebulosidade variando em torno de 1/8 a 3/8. Vale ressaltar o fato que neste
horário são registrados os maiores valores de temperatura do ar observados no
decorrer da pesquisa.
120
Às 18 horas local, a imagem GOES-10 infravermelho 21 GMT indica a
permanência da estabilidade na área de estudo caracterizada pelo céu limpo
com a ausência de nuvens, e confirmada pela nebulosidade, praticamente
inexistente, observada em campo a partir dos pontos de coleta de dados.
A carta de pressão ao nível do mar para o horário 00 GMT, 21 horas
local, exibe a mesma estabilidade atmosférica presente em todo o experimento
II com repercussão do sistema TA, cujo núcleo se encontra na costa sul do
país. Na área de pesquisa a isóbara de valor 1012 hPa, também presente na
carta de pressão referente ao horário das 9 horas local, é atuante, mas neste
momento do dia se configura no entorno geográfico da costa nordestina. A
carta exibe ainda ventos de direção leste. A imagem meteorológica do GOES10 no canal infravermelho para este horário vem confirmar as condições
sinóticas encontradas na carta de pressão, ou seja, céu limpo com nuvens
altas. Estas informações mais uma vez vai de encontro às informações obtidas
em campo.
A interpretação sinótica revela, portanto, para o Experimento II, a
atuação da TA como o sistema atmosférico atuante no episódio. As condições
de estabilidade são confirmadas principalmente pelo comportamento dos
atributos climáticos verificados em campo. As condições de céu limpo foram
predominantes em praticamente todo o experimento.
121
b) Imagem GOES-10 IR, 9 h
d) Imagem GOES-10 IR, 21 h
a) Carta de Pressão 9h
c) Carta de Pressão 21h
FIGURA 31: Dinâmica atmosférica do dia do Experimento II: 23/10/09
122
15 h
6h
FIGURA 32 – Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento II
9h
18 h
21 h
12 h
123
4.2.2 - A dinâmica dos atributos climáticos
Período diurno (6, 9, 12 e 15 h)
Os contrastes térmicos deste período evidenciaram-se de forma mais
significativa no contexto interurbano quando comparados com o intra-urbano
(Tabela 5). As diferenças térmicas entre os pontos analisados mantiveram-se
quase que constantes durante as duas medições da manhã, registrando um
contraste da ordem de 1,5º C. O ponto 1 (Avenida Central) registrou a maior
temperatura nas medições das 6 e 9 h, apresentando valores de 26º C e 31,5º
C, respectivamente. Os menores valores de temperatura encontrados para
estes mesmos horários foram registrados no ponto 3 (24,5º C) às 9 h e nos
pontos 2 e 4 (30º C) na medição das 9 h como mostra o quadro 8.
Já os contrastes higrométricos são mais expressivos na realidade
urbana do que no contexto campo-cidade no período da manhã. Às 6 h, foi
registrada uma diferença de 23% para a primeira e 7,2% para a segunda
(Tabela 6). Às 9 h é registrado um valor negativo (-16,6 %) para o contexto
interurbano (PCD – Caucaia), enquanto que na área de estudo as diferenças
mantém-se na ordem de 11%. Os valores extremos de umidade relativa foram
encontrados nos pontos 3, 4 e 5 (84%) no horário das 6 h. No ponto 2, às 6 h,
verifica-se umidade relativa de 61% e, às 9h, 65%, evidenciando o
comportamento inverso da umidade em relação a temperatura.
A velocidade do vento (Quadro 8), segundo a escala Beaufort,
apresentou variação de 1,1 m/s a 6,3 m/s durante a manhã, sendo o primeiro
valor identificado em quase todos os pontos no horário das 6, com exceção do
ponto 4 onde foi registrado uma velocidade de 2,5 m/s (Aragem). As diferenças
nos fluxos de ar tornam-se mais visíveis as 9 h, sendo no ponto 4 onde o vento
continua com maior velocidade (6,3 m/s), seguido pelos pontos 3 (4,3m/s a 6,3
m/s), ponto 1 e 5 (2,5 m/s) e o ponto 2 registrando o menor valor (1,1 m/s). As
condições de conforto apresentaram relação com os fluxos de ar, por ser o
vento um fator de influência direta no conforto térmico.
De acordo com o Diagrama do Conforto Térmico (INMET) às 6 h os
pontos 1 e 2 apresentam condições de conforto enquanto que nos pontos 3, 4
e 5 são registradas condições de muita umidade (Quadro 9), embora
124
apresentem pequena variação de temperatura em relação aos dois primeiros
pontos. Às 9 h há uma necessidade de vento para conforto em todos os
pontos. Já o Índice de Temperatura Efetiva (Te) indica todos os locais como
Zona de Conforto às 6h, situação esta que se inverte às 9h em que o Stress ao
Calor predomina em todas as áreas. As condições de Stress ao Calor
permanecem em todos os pontos durante o período diurno do experimento.
A nebulosidade apresentou pouca variação na manhã, tendo como valor
extremo 5/8 no ponto 5 às 6h e no ponto 4 às 9h. Nos demais pontos foi
registrada nebulosidade de 4/8 nos pontos 1 e 4 às 6h, e as 9h nos pontos 1,3
e 5. O ponto 2 (Terminal) apresentou a menor cobertura de nuvens durante a
manhã: 3/8 às 6h e 2/8 às 9h.
Os valores de nebulosidade não agiram
diretamente como barreira à entrada de raios solares no decorrer da manhã.
Quanto aos atributos de natureza urbana (Quadro 8), os pontos 1 e 2
seguem a tendência de serem os locais de maior fluxo de veículos e pessoas
da área de estudo, fato este já verificado nos trabalhos de campo que
antecederam a coleta de dados e no experimento I da pesquisa. Nesses pontos
ocorreu um fluxo de 11 (ponto 2) e 7 (ponto 1) veículos por minuto e um fluxo
de 60 (ponto 2) e 9 (ponto 1) já no primeiro horário da manhã em função dos
equipamentos urbanos presentes nestas áreas. No ponto 3, durante a manhã,
não foi registrado fluxo de veículos e o fluxo de pessoas foi inexpressivo. O
ponto 4, embora tenha apresentado fluxo reduzido de veículos, registra, no
entanto, fluxo considerável de pessoas durante as medições da manhã (6h: 10
pessoas/minuto; 9h: 25 pessoas/minuto). Nas primeiras medições do
experimento os atributos decorrentes da funcionalidade urbana não se
configuraram como fatores de primeira ordem na variação dos dados
climáticos.
Ao meio-dia, início do período vespertino, se dá o momento da mais
intensa radiação solar, processo esse acompanhado também da liberação de
calor pelas estruturas urbanas devido ao armazenamento de energia ocorrido
pela manhã. Neste período do experimento são verificados os maiores
contrastes térmicos no contexto intra-urbano. As diferenças ocorrem na ordem
de 4º C (12h) e 2,5º C (15h). O ponto 2 registra, às 12h, a maior temperatura
(35º C) verificada nos dois experimentos da pesquisa seguido pelo ponto 3
(32,5º C) como mostra o quadro 7. O comportamento térmico no ponto 3, em
125
apresentar altos valores de temperatura nas primeiras medições, pode ser
explicado pelo fato de que áreas livres de construções e/ou com um maior
espaço entre estas se aquecem mais rapidamente e também devolvem de
forma mais rápida o calor absorvido para a atmosfera (VIANA, 2006). Às 15 h,
o ponto 1 assume a maior temperatura (32,5º C) para este horário, sendo
seguido pelo ponto 4 (32º C). Ao contrário do ocorrido na manhã, as diferenças
térmicas inter-urbanas são menores do que as da realidade urbana. Os
contrastes da temperatura, neste caso, variaram em torno de 2,4º C (12 h) e
1,4º C (15º C).
Já os contrastes higrométricos interurbanos apresentaram cotas mais
elevadas às 15 h (12,6%) do que os da realidade intra-urbana (4%) neste
mesmo horário. Ao meio-dia, no entanto, o processo se deu de forma contrária
registrando uma diferença de 3,8% entre campo-cidade e 14% dentro da área
de estudo.
O fluxo de ar permanece, no período da tarde, variando de 1,1 m/s a 6,3
m/s, não sendo registrados valores superiores a estes durante todo o
experimento II. O ponto 2 mantém-se como o local de mais baixa velocidade do
vento, enquanto que o ponto 3 permanece com a tendência em apresentar
valores mais elevados (4,3 m/s – 15 h a 6,3 m/s – 12 h). Esta característica
pode ser explicada pela maior largura da rua, o que pode permitir o fluxo do ar
sem obstrução pela rugosidade da superfície urbana.
As condições de conforto indicam, pelo diagrama do Conforto Térmico
(INMET), uma predominância da Necessidade de Vento para Conforto,
exceção apenas no ponto 2 às 12 h e no ponto 1 às 15 h onde foi registrada
zona Muito Quente (Quadro 9). Nesses mesmos pontos foram registradas as
maiores temperaturas e os menores valores de umidade relativa já exposto
anteriormente. A velocidade do vento, nestes casos, não foi capaz de amenizar
as condições de desconforto térmico.
A nebulosidade apresentou uma tendência de diminuição à tarde, sendo
o menor valor (1/8) registrado no ponto 3. Essa característica contribui para
uma maior influência da radiação solar na área de estudo, uma vez que os
raios solares podem atingir diretamente a superfície urbana.
No que se refere ao fluxo de veículos (Quadro 8), às 15 h é identificado,
no ponto 1, o mais intenso fluxo do experimento II representado por 30
126
veículos/minuto. Vale ressaltar que o Ponto 1 também apresentou o maior fluxo
registrado para o horário do meio-dia (18 veículos/minuto). No ponto 2, embora
o movimento de veículos pareça menor, ressalta-se que esses veículos
permanecem dentro do Terminal em pleno funcionamento, o que se traduz em
liberação de calor pela queima de combustível dos ônibus. Cogita-se a
hipótese de que essa característica, associada também ao grande fluxo de
pessoas e à estrutura física do terminal de ônibus, explique a elevação da
temperatura nesta área, sobretudo no período da tarde e da noite.
Quanto ao fluxo de pessoas, no ponto 2 (Terminal) são registrados
fluxos elevados de 50 e 30 pessoas/minuto às 12h e 15 h respectivamente, por
serem horários considerados de “pico” dentro da área. Os pontos 1 e 4
apresentam também tendência de valores elevados enquanto que o ponto 3
configura-se como o local de menor fluxo durante todo o experimento.
Período noturno (18 e 21 h)
No período noturno as condições térmicas e higrométricas são
decorrentes
principalmente
da
modificação
do
balanço
de
radiação,
representada, sobretudo, pela emissão para a atmosfera do calor que foi
armazenado durante o dia pelos materiais e superfícies urbanas.
O processo de resfriamento da superfície urbana por ser mais lento do
que o ocorrido na zona rural, pode ainda influenciar nas primeiras horas do dia
seguinte, conforme verificou Viana (2006) ao estudar a cidade de Teodoro
Sampaio em São Paulo.
Na área de estudo, os contrastes térmicos intra-urbanos (Tabela 5)
assumem os valores variando de 1,5º C (18 h) a 2º C (21 h) e sendo mais
elevados do que no contexto interurbano (-2,5º C às 18 h e 0,6º C às 21 h). As
diferenças higrométricas entre o Conjunto Ceará e a PCD de Caucaia, no
entanto, foram mais elevadas (25,8% às 18 h e 31,2 % às 21 h) do que as
diferenças verificadas dentro da área de estudo (7% às 18 h e 23% às 21 h).
O ponto 2 (Terminal) devido provavelmente ao armazenamento de calor
ocorrido durante o dia apresenta a maior temperatura para o horário das 18h
127
sendo esta 28º C. Os demais pontos registram 27º C, com exceção do ponto 3
(26,5º C). Às 21 h, no ponto 4, registra-se a maior temperatura do horário (27º
C), enquanto que no ponto 2 verifica-se a menor temperatura (25º C).
A velocidade do vento diminuiu em todos os pontos, com exceção do
ponto 1 que manteve às 18h valores semelhantes ao da tarde. O ponto 4
apresenta no período noturno os maiores valores de fluxo de ar (2,5 m/s).
Mesmo assim, há uma necessidade de vento para conforto no ponto 4, em
virtude da temperatura ser elevada neste período. Somente nos pontos 3 e 5, o
diagrama indica condições de conforto térmico. Pelo índice de Temperatura
Efetiva (Te) todos os pontos encontram-se dentro da Zona de Conforto nas
duas medições noturnas.
A nebulosidade reduz significativamente no período da noite na área de
estudo sendo praticamente inexistente às 18 h e bastante reduzida às 21 h,
variando de 1/8 a 2/8. Essa característica contribui de forma eficiente para o
processo de liberação de calor para a atmosfera pelas estruturas urbanas. A
ausência de nebulosidade associada com temperaturas amenas colabora ainda
para condições de conforto térmico.
Fluxo bastante elevado de pessoas é registrado no ponto 2 (Terminal)
durante as duas medições deste período (130 pessoas/minuto às 18 h e 40
pessoas/minuto às 21 h), seguido pelo ponto 4 (37 pessoas/minuto) e ponto 1
(16 pessoas/minuto). O fluxo no ponto 4 é representado pelo retorno da
população residente dos locais de trabalho e estudo.
128
QUADRO 7 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento II
Temperatura
34,1º - 36º C
32,1º - 34º C
TEMPERATURA (º C)
1. Av Min. Albuquerque Lima
30,1º - 32º C
2. Terminal de ônibus
28,1º - 30º C
3. Rua 319
26,1º - 28º C
4. Rua 448 A
24,1º - 26º C
5. CSF Maciel de Brito
HORA
6
9
12
15
18
21
Umidade Relativa
90,1 – 100%
UMIDADE RELATIVA (%)
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. CSF Maciel de Brito
HORA
80,1 – 90%
70,1 – 80%
60,1 – 70%
6
9
12
15
18
21
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. CSF Maciel de Brito
HORA
Vento muito fresco
Vento Fresco
Vento Moderado
6
9
12
15
18
Direção do Vento
21
C
Sul
50,1 – 60%
40 – 50%
Velocidade do Vento
Vento Forte
VELOCIDADE DO VENTO (m/s)
Norte
22º - 24º C
Leste
Oeste
Sudeste
Vento Fraco
Aragem
Nordeste Calmaria
Bafagem
Calmaria
NEBULOSIDADE (8/8)
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. CSF Maciel de Brito
HORA
6
9
12
15
18
21
6
9
12
15
18
21
Sistemas Atmosféricos
Nebulosidade
9 (sem visão)
8/8
7/8
6/8
5/8
4/8
3/8
2/8
1/8
0 (céu limpo)
Repercussão do
Sistema TA
129
QUADRO 8 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento II
Fluxo de Veículos
Acima de 40
FLUXO DE VEÍCULOS
1. Av Min. Albuquerque Lima
31 - 40
2. Terminal de ônibus
21 - 30
3. Rua 319
11 - 20
1- 10
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
6
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
9
FLUXO DE PESSOAS
1
2
4
4
1
1
1
3
4
1
6
9
12
15
18
Ausente
21
Fluxo de Pessoas
3
4
1
2
1
12
1
4
A
2
1
15
2
4
A
2
1
18
2
4
1
4
1
21
4 - Acima de 30
3 - 21 – 30
2 - 11 - 20
1 - 1 – 10
A - Ausente
QUADRO 9 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento II
Te
Stress ao calor
(acima de 26º C)
Escala Temperatura Efetiva (Te)
1. Av Min. Albuquerque Lima
Zona de Conforto
(21º a 26º C)
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
Stress ao frio
(Abaixo de 22º C)
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
6
9
12
15
18
21
INMET
Muito Quente
Escala INMET
1. Av Min. Albuquerque Lima
2. Terminal de ônibus
3. Rua 319
4. Rua 448 A
5. PSF Maciel de Brito
Necessita vento
para conforto
Confortável
6
9
12
15
18
21
Muito úmido
130
TABELA 5 – Contrastes Térmicos do Experimento II
Contrastes Térmicos (º C)
HORA
Inter-Urbano4
Intra-Urbanos5
06:00
1,6
0,1
1,5
7,8
6,3
1,5
2,4
0,9
1,5
1,4
-1,1
2,5
-2,5
-4
1,5
0,6
-1,4
2
09:00
12:00
15:00
18:00
21:00
TABELA 6 – Contrastes Higrométricos do Experimento II
Contrastes Higrométricos (%)
HORA
Inter – Urbano³
UR Intra-Urbano4
06:00
7,2
23
09:00
-16,6
11
12:00
3,8
14
15:00
12,6
4
18:00
25,8
7
21:00
31,2
23
4
Representam as diferenças de valores (temperatura e umidade) encontradas entre os dados
do Experimento e o valor registrado na PCD de Caucaia. O primeiro valor indica a diferença
entre a maior temperatura encontrada na área com a PCD de Caucaia e o segundo, a
diferença entre a menor temperatura encontrada e a PCD de Caucaia.
5
Representa as diferenças dos maiores com os menores valores (temperatura e umidade)
encontrados na área de estudo durante a realização dos experimentos.
131
4.3 – Análise sazonal dos experimentos
A partir dos dados coletados nos dois experimentos da pesquisa,
apresentados anteriormente, é possível tecer algumas considerações a
respeito dos microclimas no Conjunto Ceará, no que se refere ao
comportamento das variáveis climáticas trabalhadas. Neste momento são
destacados os fatos e eventos de maior frequência observados no decorrer da
pesquisa.
É necessário ressaltar as características climáticas do ano de 2009 que
influenciaram diretamente o comportamento das variáveis mensuradas em
campo. A combinação dos eventos La Niña e do Dipolo Negativo do Atlântico
ocasionaram elevados índices pluviométricos na cidade de Fortaleza
aumentando a duração da quadra chuvosa no estado do Ceará. A atuação
desses sistemas fez com que o ano de 2009 fosse considerado como um dos
anos mais chuvosos dos últimos 100 anos e explicam, sobretudo, os valores
mais amenos de temperatura e valores mais elevados de umidade relativa do
ar verificados principalmente no Experimento I da pesquisa.
O período de maior aquecimento do conjunto habitacional ocorreu entre
as medições de 9h e 15h nos dois experimentos realizados, em virtude de ser
esse o momento de maior incidência de radiação solar sobre a superfície bem
como também o período de devolução desse calor para a atmosfera.
Os contrastes térmicos foram mais acentuados no Experimento II do que
no Experimento I, tanto no contexto inter como intra-urbano. Os maiores
valores de temperatura encontrados fora 31,5º C nos pontos 2 e 5 ao meio-dia
no Experimento I e 35º C também no ponto 2 ao meio-dia no Experimento II.
As diferenças de temperatura se apresentarem de forma mais intensa no
período da tarde e noite para o contexto intra-urbano e no período da manhã
para a realidade interurbana. No experimento I, os maiores contrastes intraurbanos identificados foi de 2º C nos horários de 15, 18 e 21 h sendo nos
pontos 1 e 2 que a temperatura foi mais elevada. Já no Experimento II, as
diferenças encontradas na área de estudo foram de 2,5º C ás 15 h, tendo o
ponto 1 como o local de maior temperatura, e de 4º C ao meio-dia, desta vez
sendo no ponto 2 a maior temperatura observada.
132
No contexto interurbano, os maiores contrastes térmicos identificados foi
de 6,1º C às 9h no Experimento I, e 7,8º C no Experimento II. Em ambos os
experimentos, o ponto 1 aparece como o local de maior temperatura dentre os
pontos analisados na área de estudo. Vale ressaltar que embora o Ponto 1 seja
a área de maior altitude, dentre os pontos analisados, apresenta também uma
grande dinâmica urbana aliada à uma pouca arborização, o que pode justificar
a tendência deste ponto apresentar elevadas temperaturas durante os
experimentos.
Levanta-se a hipótese de que a Avenida Central (Ponto 1) e o Terminal
de Ônibus (ponto 2) apresentam a tendência em apresentar as maiores
temperaturas na área do conjunto habitacional em virtude da concentração de
equipamentos urbanos, comércios e serviços. As duas áreas são locais de
intenso fluxo de veículos e pessoas na realidade urbana do bairro. Além disso,
são setores que possuem uma estrutura urbana caracterizada por materiais
que possuem alto poder de absorção de energia, como o asfalto utilizado no
revestimento das vias do entorno dos pontos. A Avenida Central está localizada
na porção central da área de estudo, local onde se concentram bancos,
comércios e outros estabelecimentos de prestação de serviços. Já o Terminal
tem a presença constante de ônibus em funcionamento e circulação de
pessoas no seu interior. As características dessas áreas representam uma
fonte geradora de calor no ambiente urbano, o que pode influenciar
diretamente no comportamento microclimático observado na área de estudo.
A umidade relativa do ar manifesta comportamento inverso ao da
temperatura nos dois experimentos representando as características sazonais
nas quais os trabalhos de campo foram realizados, com valores mais elevados
para o primeiro semestre do que para o segundo. No experimento I, os maiores
valores de umidade relativa foram encontrados na primeira e última medição,
enquanto que nas demais os valores oscilaram entre 60% a 84%. Já no
segundo experimento, os menores valores foram registrados principalmente no
período diurno com variação de 41% a 84%. Foi registrada umidade de 100%
apenas no Ponto 5h às 6h no Experimento I e no ponto 1h às 21 h no
Experimento II.
Quanto aos ventos este segue a característica do estado em apresentar
fluxos mais elevados nos meses mais secos e mais reduzidos no período
133
chuvoso. No experimento I predominaram ventos de calmaria a vento fraco,
variando de 0 a 4,3 m/s. De modo geral, os pontos apresentaram valores
similares quanto a esta variável, com exceção do Ponto 2, onde foram
registrados os menores valores de fluxos de ar. A direção predominante dos
ventos foi a de sudeste. No experimento II, ocorreram ventos bafagem a ventos
moderados, variando de 1,1 m/s a 6,3 m/s. Os maiores valores de fluxos de ar
do Experimento II foram encontrados no ponto 4.
O conforto térmico, analisado a partir do diagrama do INMET e do Índice
Te, acompanha as condições de temperatura, umidade e ventos encontradas
nos dois experimentos. O diagrama INMET indica a predominância de
condições de muita umidade e necessidade de vento para conforto no decorrer
do Experimento I, enquanto que no Experimento II revela a necessidade de
vento para o conforto térmico na maior parte das medições do período diurno.
O Índice Te indica predomínio de condições de stress ao calor no período
diurno e condições de conforto no período noturno tanto do experimento I como
do segundo experimento, não revelando contrastes expressivos entre os
períodos sazonais analisados.
A nebulosidade foi resultado das condições atmosféricas geradas pelos
sistemas de circulação regional que atuaram em Fortaleza nos dias dos
experimentos. Os valores encontrados no Experimento I são provenientes da
atuação da ZCIT na cidade, a qual conferiu à área de estudo valores mais
elevados no período da manhã. No experimento II, os valores mais expressivos
de nebulosidade foram encontrados também no período diurno em função da
atuação do sistema TA. Os dados climáticos coletados no Experimento I
evidenciam a atuação da ZCIT como um dos principais sistemas atmosféricos
causadores de chuva no Nordeste do Brasil. Embora a precipitação não tenha
ocorrido no dia do Experimento, a nebulosidade observada na área de estudo
foi intensa em virtude desse sistema. Assim também foi a atuação do Sistema
TA no Experimento II, onde se verificou elevadas temperaturas e umidade
relativas baixas na área de estudo, características desse sistema quando
atuante no continente.
No que se refere aos elementos
de natureza urbana,
estes
apresentaram grandes contrastes dentre os pontos analisados. Os pontos 1, 2
e 4 apresentaram valores mais expressivos durante a realização dos dois
134
experimentos. Já os pontos 3 e 5 configuraram-se como locais de pouca
movimentação de veículos e pessoas na realidade urbana do Conjunto Ceará.
Os contrastes termo-higrométricos analisados no decorrer da pesquisa
foram acentuados para a realidade do conjunto habitacional. Os pontos 1, 2 e
4, caracterizados pela densidade de construções e intensa dinâmica urbana
apresentaram valores mais elevados de temperatura e também de umidade
relativa. Já os pontos 3 e 5, inseridos em áreas de maior cobertura vegetal e de
construções mais esparsas apresentaram temperaturas mais amenas e
também melhores condições de conforto térmico.
Esse fato faz com que se levante a hipótese de que a dinâmica urbana
ocorrida nas áreas dos pontos de coleta de dados, bem como as formas de uso
e ocupação, foram fatores de influência direta no comportamento dos atributos
climáticos locais.
135
5. O ESTUDO DO CLIMA URBANO: CONTRIBUIÇÕES AO
PLANEJAMENTO DA CIDADE.
O presente capítulo traz algumas reflexões acerca do clima urbano, na
perspectiva do planejamento da cidade e também da área de interesse da
pesquisa. O objetivo desta parte do relatório é apresentar algumas medidas
que possam reduzir a problemática da alteração das variáveis meteorológicas e
viabilizar condições de conforto térmico no Conjunto Ceará, bem como na
cidade de Fortaleza.
É na cidade que as alterações no ambiente são mais significativas,
principalmente no que se refere às mudanças ocorridas na atmosfera devido o
processo de urbanização. Tal fato implica na necessidade de um maior número
de estudos na área da Climatologia Urbana como forma de se melhor conhecer
as relações existentes entre a cidade e o clima local. Como bem aponta
Monteiro (1990):
A conquista do espaço urbanizado, ao mesmo tempo que
implica em derivações de vulto no quadro ecológico, passa,
através do seu desenvolvimento temporal, por várias feições da
massa edificada, de acordo com a própria evolução e
diversificação das funções urbanas. E este próprio evoluir é
condição básica para que a cidade seja capaz de alterar as
condições climáticas locais até adquirir atributos tais que a
possam dotar de um caráter de clima urbano. (MONTEIRO,
1990: 87)
Sendo um local de adensamento populacional faz-se necessário uma
melhor compreensão na cidade da relação sociedade-natureza e suas
implicações na produção do espaço urbano. Desse modo, algumas medidas
poderão ser de fato implementadas nos planos de gestão municipal, estadual e
federal visando um melhor planejamento do ambiente urbano.
No que se refere às questões climáticas, pouca atenção ainda é dada,
principalmente pelos gestores da cidade, a essa degradação no ambiente
urbano. Embora muitos trabalhos venham sendo realizados nessa perspectiva,
o que se percebe é que poucos são efetivados nos planos de gestão do
município de Fortaleza.
136
Inclusive a cidade de Fortaleza é um exemplo que revela um
crescimento urbano não acompanhado por planejamento. Grande parte da
cidade
expandiu-se
de
forma
desordenada
desconsiderando
as
potencialidades e fragilidades de seu sítio urbano. Os conjuntos habitacionais,
responsáveis em grande parte por essa expansão, foram construídos de uma
maneira geral sem planejamento e desconhecendo as características naturais
das áreas onde foram construídos.
A aplicação da Climatologia no planejamento urbano é um objetivo
apontado por quase todos os autores que trabalham com esta temática. No
entanto, o que se verifica é que a falta de aplicação desse campo de estudo é
também muito frequente. O clima urbano deve ser considerado também um
componente de primeira ordem no ambiente urbano, uma vez que pode
impactar diretamente a vida da sociedade (ANDRADE, 2005).
O enunciado nove da teoria do Sistema Clima Urbano de Monteiro
(2003) propõe a intervenção da sociedade no problema das alterações
climáticas da cidade, através do poder de decisão e do conhecimento da
dinâmica climática processada na cidade.
Assim, fica claro que é por meio de um planejamento ambiental que a
cidade reduzirá problemas socioambientais existentes e alcançará a tão
discutida sustentabilidade.
5.1 – Propostas ao Planejamento do Conjunto Ceará
A partir da pesquisa realizada na área do Conjunto Ceará, foi possível
observar o comportamento dos atributos climáticos influenciado, sobretudo,
pelos diferentes padrões de ocupação do solo. Com isso, é possível tecer
algumas sugestões que podem ser implantadas na área objetivando um melhor
planejamento urbano e também condições de conforto térmico.
•
Primeiramente,
percebe-se
a
necessidade
de
um
maior
conhecimento do clima urbano da cidade como um todo. O
comportamento das variáveis meteorológicas em escala intraurbana necessita ser melhor conhecido para que estratégias de
conforto ambiental sejam viabilizadas. Assim, faz-se necessário
137
um maior número de pesquisas neste campo da Climatologia
Urbana. Vale ressaltar ainda a importância de estudos realizados
a partir da proposta teórica do Sistema Clima Urbano como uma
forma de melhor entender as relações existentes entre o clima e o
fenômeno da urbanização.
•
Ocorre no Conjunto Ceará, e também nos demais bairros da SER
V, um intenso processo de expansão urbana caracterizado por
loteamentos e mutirões que crescem, em grande parte, de
maneira desordenada. O conhecimento climático e a assessoria
de órgãos competentes poderiam ajudar nesse processo,
diminuindo os impactos que esta massa edificada pode produzir
ao bairro e à cidade.
•
Uma das características do Conjunto Ceará é o grande número de
praças no bairro. Atualmente a área conta com 36 praças de
diversos tamanhos e funções. Essas áreas são locais de lazer e
entretenimento para a população local. No entanto, apresentam
problemas de manutenção por parte da gestão municipal.
Atualmente esses locais apresentam sérios problemas de
segurança e infraestrutura, principalmente o polo de lazer do
bairro que não possui mais infraestrutura para algumas atividades
outrora desenvolvidas como corrida, pistas de skates etc. O ideal
seria que essas praças possuíssem uma melhor arborização e
espaços de lazer como forma de favorecer o conforto térmico e,
consequentemente, a qualidade socioambiental aos moradores.
•
A vegetação primitiva da área foi quase que totalmente degradada
para a construção do conjunto habitacional. Os espaços verdes
que ainda sobram são bastante reduzidos e praticamente ocorrem
em áreas que não possuem nenhuma função urbana. Verifica-se,
de um modo geral, a pouca arborização em grande parte do
conjunto habitacional. Uma das possibilidades seria a construção
de parques e uma melhor arborização das praças e principais
avenidas como forma de tornar o clima local mais ameno.
•
Uma boa parte das ruas e avenidas do conjunto habitacional não
é asfaltada, o que já contribui para a redução da problemática de
138
impermeabilização do solo urbano tão presente em grande parte
da cidade de Fortaleza. O albedo mais reduzido da malha
asfáltica contribui para o maior armazenamento de calor pelas
superfícies e consequentemente para o aquecimento mais rápido
do ar. Assim é interessante que as ruas e avenidas do Conjunto
Ceará permaneçam apenas com a pavimentação existente
contribuindo assim para o conforto térmico e o escoamento
superficial, reduzindo, sobretudo, os problemas de inundação
urbana verificados principalmente na quadra chuvosa do Estado.
•
Outra questão relevante a ser considerada no ambiente urbano é
a conservação dos recursos hídricos. Vários trabalhos realizados
nas cidades apontam a importância dos ambientes fluviais e
lacustres como geradores de microclimas mais amenos quando
comparados com outras áreas com ausência de recursos hídricos
superficiais.
•
A utilização de materiais da construção civil adequados ao clima
local é também uma medida que viabiliza o conforto térmico, uma
vez que determinados materiais e cores possuem diferentes
níveis de absorção e reflexão de calor. Materiais e cores de
albedo mais elevado são mais indicados para as características
climáticas de Fortaleza, por refletirem de forma mais eficiente a
radiação solar.
•
Fazem-se necessários, ainda, estudos climáticos em vários
setores da cidade com uma maior cobertura de pontos que possa
dar conta da diversidade de usos e ocupação do solo. Quanto
mais as peculiaridades climáticas forem conhecidas em escala
intra-urbanas mais a dinâmica do clima urbano de Fortaleza será
revelada e consequentemente o conhecimento climático obtido a
partir desses estudos viabilizará ações que possam ser efetivadas
na gestão do município. Ressalta-se, sobretudo, os trabalhos que
vêm sendo realizados principalmente pelo Laboratório de
Climatologia e Recursos Hídricos do Departamento de Geografia
da UFC dentro do projeto O CLIMA EM ESPAÇOS INTRA-
139
URBANOS DE FORTALEZA E REGIÃO METROPOLITANA NO
CAMPO TERMODINÂMICO E O CONFORTO TÉRMICO.
•
Outro ponto importante a ser desenvolvido é a mobilização
popular para exigir do poder público e órgãos competentes a
efetivação de propostas mitigadoras dos problemas ambientais
verificados na escala municipal e também na área dos bairros de
Fortaleza.
•
Todas essas propostas são encaminhadas quando se há por
parte da população local, que é quem verdadeiramente vivencia o
bairro, uma educação ambiental que permita a tomada de
consciência dos problemas existentes na área. Há um grande
número de escolas no bairro que poderiam desenvolver projetos
de educação ambiental como forma de melhorar determinados
aspectos
no
conjunto
habitacional,
dentre
eles,
àqueles
relacionados ao clima urbano. Alguns investimentos poderiam
inclusive ser viabilizados pela gestão municipal e estadual para
que de fato essas iniciativas pudessem ser efetivadas na
realidade do bairro.
Com as propostas supracitadas, a pesquisa pretende dar uma
contribuição ao Conjunto Ceará, situado na periferia de Fortaleza, oferecendo
medidas que possam colaborar para com o planejamento da área, sobretudo,
no que diz respeito ao conforto térmico.
O trabalho realizado evidencia as condições climáticas intra-urbanas de
uma parte da cidade de Fortaleza e revela a necessidade de que demais
estudos sejam realizados nessa escala como forma de entender realmente a
dinâmica ocorrida no interior dos espaços da cidade e que podem repercutir no
ambiente urbano.
140
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145
21:00
18:00
15:00
12:00
9:00
6:00
HORA
T° BB Seco
T° Bb
Úmido
Umidade
Relativa
Conforto
Térmico
Velocidade dos
Ventos
Direção dos
Ventos
Nebulosidade
Fluxo de
Veículos
Fluxo de
Pessoas
Análise Microclimática e Planejamento em Conjuntos Habitacionais: o caso do Conjunto Ceará – Fortaleza /CE.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ
MESTRADO ACADÊMICO EM GEOGRAFIA
Anexo A – Ficha de Campo para Coleta de Dados
Estação Microclimática Nº: _____________________________________________________________________
Data de Coleta: ___ / ___ / ___
Equipe:______________________________________________________________________________________
ANEXOS
146
Anexo B – Atributos Climáticos e Urbanos do Experimento I: 22/04/09
Temperatura (º C)
HORA
PONTO 1
PONTO 2
PONTO 3
PONTO 4
PONTO 5
06:00
23
22,5
23
23
23
09:00
29
28,5
28
28,5
29
12:00
31
31,5
30
30
31,5
15:00
29
29,5
27,5
28,5
28
18:00
28
28
26
27
26
21:00
26,5
26
24,5
26
25,5
Umidade Relativa (%)
HORA
06:00
09:00
PONTO 1
95
78
PONTO 2
95
81
PONTO 3
91
70
PONTO 4
98
83
PONTO 5
100
78
12:00
15:00
68
85
60
71
65
84
74
83
69
77
18:00
21:00
77
87
77
92
92
95
83
92
92
92
PONTO 1
PONTO 2
PONTO 3
PONTO 4
PONTO 5
06:00
1,1
1,1
1,1
1,1
1,1
09:00
4
9
9
9
9
12:00
9
1,1
1,1
9
9
15:00
9
1,1
1,1
15,5
9
18:00
4
1,1
1,1
1,1
4
21:00
4
1,1
1,1
1,1
1,1
Velocidade do Vento (m/s)
HORA
Direção do Vento (º C)
HORA
PONTO 1
PONTO 2
PONTO 3
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PONTO 4
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SE
L
SE
SE
L
C
SE
L
NE
SE
12:00
SE
SE
L
NE
SE
15:00
NE
NE
NE
NO
NE
18:00
SE
NE
NE
C
NE
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SE
SE
NE
C
NE
147
HORA
06:00
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HORA
06:00
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18:00
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HORA
06:00
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15:00
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PONTO 1
6
4
4
6
2
0
Nebulosidade (8)
PONTO 2
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7
3
4
5
6
4
5
4
0
1
0
1
PONTO 4
7
6
5
5
3
2
PONTO 1
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40
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40
20
Fluxo de Veículos (nº/min)
PONTO 2
PONTO 3
PONTO 4
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7
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2
10
3
3
5
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5
3
0
7
1
1
2
PONTO 1
5
16
13
22
20
10
Fluxo de Pessoas (nº/min)
PONTO 2
PONTO 3
26
4
14
8
22
6
37
0
33
0
26
1
PONTO 4
9
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10
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33
15
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7
4
4
6
1
0
PONTO 5
1
1
0
5
1
0
PONTO 5
0
7
0
15
1
0
148
Anexo C – Atributos Climáticos e Urbanos do Experimento II: 23/10/09
Temperatura (º C)
HORA
PONTO 1
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24,5
25
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31,5
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30
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12:00
32
35
32,5
31
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15:00
32,5
31,5
30
32
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18:00
27
28
26,5
27
27
21:00
26
25
25,5
27
26
Umidade Relativa (%)
HORA
PONTO 1
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PONTO 3
PONTO 4
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06:00
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12:00
76
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49
61
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41
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54
50
84
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54
84
57
55
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18:00
21:00
59
77
100
55
70
87
59
77
84
55
77
77
57
74
84
Velocidade do Vento (m/s)
HORA
PONTO 1
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PONTO 3
PONTO 4
PONTO 5
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4
4
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9
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23
9
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9
4
23
23
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15,5
9
15,5
9
4
18:00
15,5
4
4
9
4
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1,1
4
4
9
4
Direção do Vento
HORA
PONTO 1
PONTO 2
PONTO 3
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06:00
L
L
L
NE
SE
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NE
L
L
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L
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L
SE
L
NE
L
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L
L
L
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L
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L
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L
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L
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L
SE
L
NE
L
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HORA
06:00
09:00
12:00
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18:00
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HORA
06:00
09:00
12:00
15:00
18:00
21:00
HORA
06:00
09:00
12:00
15:00
18:00
21:00
PONTO 1
4/8
4/8
3/8
3/8
1/8
2/8
Nebulosidade (8)
PONTO 2
PONTO 3
3/8
3/8
2/8
4/8
3/8
4/8
2/8
1/8
0
0
2/8
1/8
PONTO 4
4/8
5/8
4/8
3/8
0
2/8
PONTO 1
7
17
18
30
24
17
Fluxo de Veículos (nº/min)
PONTO 2
PONTO 3
PONTO 4
11
0
5
8
0
7
6
1
15
5
0
11
8
0
7
10
1
16
PONTO 1
9
17
21
7
14
16
Fluxo de Pessoas (nº/min)
PONTO 2
PONTO 3
60
2
40
1
30
5
50
0
130
6
40
1
PONTO 4
10
25
12
17
17
37
PONTO 5
5/8
4/8
2/8
3/8
0
2/8
PONTO 5
1
2
1
2
2
2
PONTO 5
52
8
1
6
4
12
150
Download

João Paulo Matias Paiva