UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ JOÃO PAULO MATIAS PAIVA ANÁLISE MICROCLIMÁTICA EM CONJUNTOS HABITACIONAIS: o caso do Conjunto Ceará – Fortaleza/CE FORTALEZA – CEARÁ 2010 i JOÃO PAULO MATIAS PAIVA ANÁLISE MICROCLIMÁTICA EM CONJUNTOS HABITACIONAIS: O CASO DO CONJUNTO CEARÁ – FORTALEZA/CE. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Mestrado Acadêmico em Geografia do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de mestre em Geografia. Área de Concentração: Análise Geoambiental e Ordenação do Território nas Regiões Semi-Áridas e Litorâneas. Orientadora: Profª. Drª. Lidriana de Souza Pinheiro Co-orientadora: Profª. Drª. Maria Elisa Zanella FORTALEZA – CEARÁ 2010 ii P149a Paiva, João Paulo Matias Análise Microclimática em Conjuntos Habitacionais: o caso do Conjunto Ceará – Fortaleza/CE. / João Paulo Matias Paiva. — Fortaleza, 2010. 150 p. : il. Orientadora: Profª. Drª. Lidriana de Souza Pinheiro. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Geografia) – Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências e Tecnologia. 1. Clima Urbano. 2. Conforto Térmico. 3. Conjuntos Habitacionais. 4. Fortaleza/CE. I. Universidade Estadual do Ceará, Centro de Ciências e Tecnologia. CDD: 551.6 iii JOÃO PAULO MATIAS PAIVA ANÁLISE MICROCLIMÁTICA EM CONJUNTOS HABITACIONAIS: o caso do Conjunto Ceará – Fortaleza/CE. Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Mestrado Acadêmico em Geografia do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de mestre em Geografia. Área de Concentração: Análise Geoambiental e Ordenação do Território nas Regiões SemiÁridas e Litorâneas. Aprovada em: 28 / 06 / 2010. Banca Examinadora: _______________________________________________________________ Lidriana de Souza Pinheiro (Orientadora) (Doutora em Oceanografia pela UFPE – Pernambuco, Professora do Mestrado Acadêmico em Geografia – UECE) _______________________________________________________________ Maria Elisa Zanella (Co-orientadora) (Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR – Paraná, Professora do Departamento de Geografia/UFC) _______________________________________________________________ Marta Celina Linhares Sales (Membro) (Doutora em Geografia Física pela USP – São Paulo, Professora do Departamento de Geografia/UFC) _______________________________________________________________ Isorlanda Caracristi (Doutora em Geografia Física pela USP – São Paulo, Professora do Mestrado Acadêmico em Geografia – UECE) iv Para minha irmã Rejane, por sua força, fé e alegria de viver! v AGRADECIMENTOS À Deus que nunca me deu outra opção a não ser a de reconhecer sua presença e força na minha vida. À minha orientadora, Profª. Lidriana Pinheiro, pela autonomia e liberdade que me deu no desenvolvimento da pesquisa. À minha co-orientadora, Profª. Elisa Zanella, exemplo de simplicidade, competência e profissionalismo. Meu muito obrigado pelo acompanhamento, respeito e pela confiança depositada em mim desde a época do PETGeografia/UFC. À Profª. Marta Celina pelo apoio nos instrumentos dos trabalhos de campo e também pelas orientações ao meu trabalho. À Profª Isorlanda Caracristi pelas contribuições na disciplina Teoria e Método em Geografia, bem como às contribuições ao meu trabalho. À Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) pelo apoio financeiro à pesquisa. Ao Mestrado Acadêmico em Geografia da UECE na pessoa dos professores, Elmo, Marcos Nogueira, Daniel Pinheiro. Em especial, agradeço à Profª. Lúcia Mendes pela ajuda preciosa na análise das imagens de satélite. Agradeço ainda às funcionárias Júlia e Lúcia pelo apoio no decorrer do curso. Aos meus pais, Raimundo e Margarida, meus verdadeiros mestres que sempre me incentivaram e me acompanharam em todos os momentos. Obrigado pelo amor, dedicação e por todas as oportunidades que me proporcionaram. À minha eterna Luciana, por seu amor, carinho, presença e compreensão, sobretudo, nos momentos em que nem eu mais me suportava. Meus mais profundos agradecimentos e sentimentos de amor. vi Aos meus irmãos, Jeane, Rejane, Neto e Daniel, sempre cúmplices e companheiros, e sempre dispostos a ajudar no desenvolvimento de meus trabalhos. Aos amigos e companheiros do Mestrado, em especial Marcos Brito, Mariluza Barros, Camila Dutra e Ana Karine, pela amizade e companheirismo em todos os momentos. O curso não teria sido o mesmo, sem a presença dessas pessoas tão queridas que muito me ajudaram e me fizeram sentir bem em “terras estrangeiras”. Ao Departamento de Geografia da UFC, especialmente os professores: Clélia Lustosa, Levi Sampaio, Salete de Souza, Vanda Claudino e Raimundo Castelo. Não posso deixar de agradecer ao Programa de Educação Tutorial – PET/Geografia/UFC por ter me inserido verdadeiramente na vida e pesquisa acadêmica. Agradecimentos especiais ao tutores Profª. Ivaine Tonini, Profº. Eustógio Dantas, Profª. Elisa Zanella e Profª. Clélia Lustosa pelos incentivos e pelo acompanhamento. Agradeço também o companheirismo de todos bolsistas, em especial, Daniele Rodrigues, Geísa Silveira e Rosana. Aos eternos amigos Silmara Quinto, Fabiano Freitas e Francisco Oliveira, pelos momentos partilhados, brincadeiras e parcerias nas pesquisas desenvolvidas. Pelos bons momentos vividos nas aulas de campo, nas caminhadas pelo Campus do Pici, na confecção “forçada” de mapas e na correria dos prazos a serem cumpridos. Sem dúvida nenhuma, todas essas coisas me fizeram uma pessoa melhor. Muito obrigado por tudo! Aos amigos de graduação, Anatália Franco, Sirlene Ferreira, Maria Rubevânia e Renato Freitas, pela amizade e companheirismo no decorrer do curso. À grande amiga Lourdinha, pela sua ajuda desde os tempos de PET até agora no mestrado, principalmente na confecção dos mapas e pelas orientações ao meu trabalho. Obrigado por sempre atender minhas ligações “urgentes” e pela disponibilidade em ajudar continuamente. vii Às equipes que tornaram possível a realização dos trabalhos de campo: Silmara, Fabiano, Francisco, Auricélio, Tadeu, Rosana, Bruna, Marcos, Wescley, Daniel, Marília e Juliana. Agradeço, em especial, à amiga Vládia que desde as aulas de campo “experimentais” colocou-se à disposição para a coleta de dados, dedicando-se em tempo integral à minha pesquisa. Ao amigo Marcelo Moura, pela orientação na concepção da pesquisa e pela oportunidade que me deu de participar de seus trabalhos de campo, o que me fez despertar para a Climatologia. Agradeço ainda pela ajuda na interpretação dos sistemas atmosféricos. Além de agradecer, manifesto minha admiração à esse geógrafo por sua competência e dedicação à Climatologia. Aos queridos amigos Erasmo e Nádia, pela força, amizade e por todos os momentos partilhados. Agradeço, especialmente, à grande poeta Mary Nascimento, pela verdadeira amizade e partilha nos momentos difíceis dessa caminhada e pela revisão ortográfica do trabalho. À todos que direta e/ou indiretamente contribuíram para a realização desta pesquisa. viii A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos senão o que somos. (Fernando Pessoa) ix RESUMO O trabalho foi realizado no Conjunto Ceará, situado no setor sudoeste da cidade de Fortaleza / CE, com o objetivo de conhecer a dinâmica climática dessa área sob o nível termodinâmico do S. C. U. de Monteiro (2003). O objetivo geral da pesquisa constitui-se em analisar os contrastes microclimáticos de um conjunto habitacional e a influência do uso e ocupação do solo nesses parâmetros climáticos. A pesquisa foi realizada em 5 pontos amostrais na área de estudo que apresentam dinâmica urbana e características geoecológicas diferenciadas. A coleta de dados foi realizada em dois experimentos de períodos sazonais contrastantes, com medições simultâneas realizadas nos horários de 6, 9, 12, 15, 18 e 21 h. O primeiro experimento foi realizado no dia 22/04/2009 correspondendo ao período chuvoso e o segundo realizado no dia 23/10/2009 que corresponde ao período seco do Estado do Ceará. Foram coletados os seguintes dados climáticos: temperatura, umidade relativa do ar, velocidade e direção dos ventos e nebulosidade, e dados de natureza urbana como fluxo de veículos e pessoas nos pontos de coleta. Os sistemas atmosféricos atuantes nos dias dos experimentos foram analisados a partir de cartas de pressão e imagens de satélites. Os resultados encontrados evidenciam a dinâmica climática dos períodos sazonais em que foram mensurados, tendo os sistemas de circulação atmosférica como fatores determinantes no comportamento dos atributos climáticos. Os contrastes térmicos e higrométricos observados foram expressivos para a realidade do conjunto habitacional. Os pontos amostrais de intensa dinâmica urbana e densidade de construções foram os que apresentaram as maiores temperaturas e, consequentemente, condições desfavoráveis ao conforto térmico. Palavras-chave: Clima urbano. Conforto térmico. Conjuntos habitacionais, Fortaleza/CE. x ABSTRACT This study was developed in Conjunto Ceará, located in the southwestern sector of the city of Fortaleza, in order to know about the climate dynamic of the area under the thermodynamic level of Monteiro’s (2003) S. C. U. The goal of the research is on analyzing the climatic contrasts of a housing development and the influence of land use and occupation of these climatic parameters. The survey was conducted in five sampling sites in the study area that show urban dynamics and characteristics geoecological differentiated. Data collection was performed in two experiments of contrasting seasonal periods, with simultaneous measurements made at the times of 6, 9, 12, 15, 18 and 21 h. The first experiment was held on 22/04/2009 corresponding to the rainy season and the second held on 23/10/2009 which corresponds to the dry season of the state of Ceara. We collected the following weather data: temperature, relative humidity, wind speed and direction and cloud cover, and urban data such as flow of vehicles and people at the collecting points. The active weather systems in the days of the experiments were analyzed from pressure charts and satellite images. The results show the climate dynamics of the seasons in which they were measured, with the systems of atmospheric circulation as factors in the behavior of the climatic attributes. The contrasts in temperature and hygrometric observed were significant for the reality of housing. The sites of intense urban dynamics and density of buildings were those with the highest temperatures and thus unfavorable to thermal comfort. Keywords: Urban climate. Thermal comfort. Housing. Fortaleza/CE. xi LISTA DE TABELAS TABELA 1: População do Estado do Ceará e de Fortaleza..............................63 TABELA 2: Construção de conjuntos habitacionais da Região Metropolitana de Fortaleza...........................................................................................................68 TABELA 3 – Contrastes Térmicos do Experimento I.......................................117 TABELA 4 – Contrastes Higrométricos do Experimento I...............................117 TABELA 5 – Contrastes Térmicos do Experimento II......................................131 TABELA 6 – Contrastes Higrométricos do Experimento II..............................131 xii LISTA DE FIGURAS FIGURA 1: Concepções teóricas da Climatologia.............................................24 FIGURA 2: Controles e atributos do clima.........................................................29 FIGURA 3: Trocas de calor do individuo com o ambiente.................................40 FIGURA 4: Nonograma do Índice do Conforto Equatorial (I.C.E)......................44 FIGURA 5: Carta Bioclimática de Olgyay (1952)...............................................46 FIGURA 6: Estratificação vertical da atmosfera urbana e escalas de análise................................................................................................................48 FIGURA 7: Diagrama do Conforto Humano- INMET.........................................53 FIGURA 8: Localização dos Pontos de Coleta de Dados..................................55 FIGURA 9: Canal da Avenida G........................................................................59 FIGURA 10: Avenida Ministro Albuquerque Lima (Central)...............................59 FIGURA11: Monumento símbolo do Conjunto Ceará situado na Av. Min Albuquerque Lima..............................................................................................60 FIGURA 12: Polo de lazer Luiz Gonzaga..........................................................71 FIGURA 13: Centro Cultural Patativa do Assaré...............................................71 FIGURA 14: ZCIT mostrada através das imagens do satélite METEOSAT-7...77 FIGURA 15: Atuação do sistema VCAN’s.........................................................77 FIGURA 16: Linha de Instabilidade atuando no litoral nos estados Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte..................................................................78 FIGURA 17: Atuação de um CCM sobre a cidade de Fortaleza no dia 24/04/98 às 8 h local.........................................................................................................79 FIGURA 18: Nebulosidade oriunda das ondas de leste....................................80 FIGURA 19 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (19722001)..................................................................................................................85 FIGURA 20 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (19722001)..................................................................................................................86 xiii FIGURA 21: Normais Climatológicas do PICI-INMET (1972-2001)...................87 FIGURA 22: Foto e imagem do Ponto 1 – Avenida Ministro Albuquerque Lima...................................................................................................................90 FIGURA 23: Foto e imagem do Ponto 2 – Terminal de Ônibus ........................93 FIGURA 24: Foto e imagem do Ponto 3 – Rua 319..........................................96 FIGURA 25: Foto e imagem do Ponto 4 – Rua 448 .........................................99 FIGURA 26: Foto e imagem do Ponto 5 – Centro de Saúde da Família Maciel de Brito ............................................................................................................102 FIGURA 27 – Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento I............106 FIGURA 28 – Dinâmica atmosférica do dia do Experimento I.........................109 FIGURA 29 – Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento I.....110 FIGURA 30 – Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento II...........119 FIGURA 31 – Dinâmica atmosférica do dia do Experimento II........................122 FIGURA 32 – Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento II....123 xiv LISTA DE QUADROS QUADRO 1 - Sistema Clima Urbano- Articulações dos subsistemas segundo os canais de percepção..........................................................................................33 QUADRO 2 - Sumário das respostas humanas ao estresse termal, segundo Griffths (1976)....................................................................................................41 QUADRO 3 - Quadro síntese das Condições Geoecológicas e Urbanas dos Pontos ..............................................................................................................56 QUADRO 4 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento I..................115 QUADRO 5 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento I.....................116 QUADRO 6 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento I........................116 QUADRO 7 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento II.................129 QUADRO 8 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento II....................130 QUADRO 9 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento II.......................130 xv LISTA DE MAPAS MAPA 1 – Localização da Área de Pesquisa ...................................................61 MAPA 2 – Localização dos Conjuntos Habitacionais em Fortaleza..................67 MAPA 3 – Padrões de Ocupação do solo no Ponto 1.......................................91 MAPA 4 - Padrões de Ocupação do solo no Ponto 2........................................94 MAPA 5 – Padrões de Ocupação do solo no Ponto 3.......................................97 MAPA 6 – Padrões de Ocupação do solo no Ponto 4.....................................100 MAPA 7 - Padrões de Ocupação do solo no Ponto 5......................................103 xvi LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS BNH – Banco Nacional de Habitação CCM’s- Complexo Convectivo de Mesoescala CCS - Complexos Convectivos de escala subsinóptica CEF – Caixa Econômica Federal CPTEC- Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos COHAB – Companhia de Habitação DHN- Departamento de Hidrografia da Marinha do Brasil ENOS - El Niño Oscilação Sul FGTS - Fundo de Garantia por Tempo de Serviço FUNCEME. - Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hidricos do Ceará INMET- Instituto Nacional de Meteorologia IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica I.C.E- índice do Conforto Equatorial INPE- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais LI- Linhas de Instabilidade PCD’s- Plataforma de Coleta de Dados PDDU- Plano diretor de Desenvolvimento Urbano POAS - Perturbações Ondulatórias no campo dos ventos alísios PRODECOM - Projeto de Desenvolvimento Comunitário do Conjunto Ceará SDU - Secretaria de Desenvolvimento Urbano SCU – Sistema Clima Urbano SEMACE- Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Estado do Ceará xvii SEHAC – Secretaria Especial de Habitação e Ação Comunitária SFH - Sistema Financeiro de Habitação TA- Sistema Tropical Atlântico T.e -Temperatura efetiva UECE – Universidade Estadual do Ceará UFC – Universidade Federal do Ceará TSM- Temperatura da Superfície do Mar VCAS-Vórtice Ciclônico de Altos Níveis ZCIT-Zona de Convergência Intertropical xviii SUMÁRIO DEDICATÓRIA AGRADECIMENTOS EPÍGRAFE RESUMO ABSTRACT LISTA DE TABELAS LISTA DE FIGURAS LISTA DE QUADROS LISTA DE MAPAS LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS 1.INTRODUÇÃO................................................................................................20 2. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO.............................................23 2.1 - Concepções teóricas ................................................................................23 2.2 - O clima urbano: S.C.U. .............................................................................29 2.3 – O subsistema termodinâmico ..................................................................34 2.4 - Estudos do clima urbano ..........................................................................35 2.5 - Índices de conforto térmico........................................................................38 2.6 - As variáveis climáticas adotadas e a escala da pesquisa.........................46 2.7 - Procedimentos Metodológicos ..................................................................49 2.7.1 - Fase I: Levantamento bibliográfico e cartográfico ......................49 2.7.2 - Fase II: Trabalho de campo ........................................................50 2.7.3 - Fase III: Análise e representação dos dados ..............................57 3. O CONJUNTO CEARÁ: HISTÓRICO, CARACTERIZAÇÃO GEOECOLÓGICA E OS PADRÕES DE OCUPAÇÃO DO SOLO...................58 3.1 – Localização da área da pesquisa ............................................................58 3.2 - O surgimento dos conjuntos habitacionais em Fortaleza .........................62 xix 3.3 – Um breve histórico do Conjunto Ceará ....................................................69 3.4 – Caracterização Geoecológica ..................................................................72 3.4.1–Características geológicas/geomorfológicas, pedológicas, hidrográficas e vegetacionais..................................................................72 3.4.2.– Caracterização Climática............................................................74 3.4.2.1 - A dinâmica atmosférica .................................................75 3.4.2.2 - Análise dos atributos do clima .......................................83 3.5 – Os padrões de ocupação do solo no Conjunto Ceará .............................88 3.5.1 - Ponto 1: Avenida Ministro Albuquerque Lima .............................88 3.5.2 – Ponto 2: Terminal de Ônibus ......................................................92 3.5.3 – Ponto 3: Rua 319 ......................................................................95 3.5.4 – Ponto 4: Rua 448 .......................................................................98 3.5.5 – Ponto 5: CSF Maciel de Brito (Rua 602)...................................101 4. OS MICROCLIMAS URBANOS NO CONJUNTO CEARÁ – FORTALEZA...................................................................................................104 4.1 - Análise do Experimento I: 22/04/2009 ....................................................105 4.1.1 – As condições sinóticas..............................................................105 4.1.2 - A dinâmica dos atributos climáticos ..........................................111 4.2 – Análise do Experimento II: 23/10/09.......................................................118 4.2.1 – As condições sinóticas .............................................................118 4.2.2 - A dinâmica dos atributos climáticos ..........................................124 4.3 – Análise sazonal dos experimentos ........................................................132 5. O ESTUDO DO CLIMA URBANO: CONTRIBUIÇÕES AO PLANEJAMENTO DA CIDADE......................................................................136 5.1 – Proposta ao clima urbano do Conjunto Ceará........................................137 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................141 ANEXOS .........................................................................................................146 xx 1. INTRODUÇÃO A cidade, sendo um espaço expressivo da relação sociedade x natureza, tem manifestado ao longo do tempo problemas socioambientais de diversas escalas resultantes, sobretudo, do processo de urbanização. Por constituir-se de um espaço, em geral, densamente ocupado e disputado por diversos segmentos sociais, as questões relacionadas ao planejamento urbano e às alterações no ambiente natural ganham destaque. É inegável que a ação do homem e os processos decorrentes de sua organização social, têm gerado, inclusive no ambiente urbano, alterações em diversas esferas como: soterramento de ambientes lacustres e fluviais, impermeabilização do solo, canalização de rios e utilização de diversos materiais para construção, os quais muitas vezes alteram o comportamento do clima em escala microclimática. O crescimento urbano verificado na segunda metade do século XX trouxe grande parte dos problemas supracitados, uma vez que não foi acompanhado de políticas públicas eficientes na questão do planejamento do espaço urbano. A cidade de Fortaleza insere-se nesse contexto, tendo a expansão de seu tecido urbano como resultado principalmente da implantação de conjuntos habitacionais nas áreas periféricas da cidade. Esses conjuntos surgiram, muitos dos quais, com a realocação de moradores de outras áreas, consideradas de risco, tendo o objetivo de reduzir a problemática habitacional e “melhorar” as condições de moradia. No entanto, muitos desses espaços foram construídos sem se levar em conta estudos das condições naturais, implantação de infraestrutura e etc., causando um crescimento desordenado. Atualmente, esses conjuntos habitacionais apresentam uma densidade populacional considerável e um grande número de atividades e serviços, alguns deles chegando a ser polos de serviços com relação a bairros vizinhos. É neste sentido, que a dinâmica populacional da cidade com a concentração e desenvolvimento das mais variadas atividades e serviços faz com que o ambiente urbano se configure como uma esfera natural retrabalhada ao modo do viver humano (MONTEIRO, 2003). 20 Esse crescimento populacional, bem como os padrões de ocupação do solo urbano, gera mudanças na atmosfera da cidade no que diz respeito ao comportamento das variáveis climáticas locais, influenciando conseqüentemente as condições de conforto térmico dos citadinos. Para entender essas mudanças é necessário, como bem aponta Monteiro (1990), adentrar a cidade para tomar-lhe a temperatura. No intuito de entender a dinâmica climática em espaço intra-urbanos na cidade de Fortaleza, principalmente em conjuntos habitacionais optou-se pelo Conjunto Ceará como objeto de estudo da pesquisa. O conjunto é resultado das políticas habitacionais do Banco Nacional de Habitação - BNH - na década de 1970 e se destaca na cidade de Fortaleza como um dos maiores conjuntos habitacionais tanto em termos demográficos como em extensão territorial. O Conjunto Ceará está situado no setor sudoeste da cidade de Fortaleza, e apresenta uma grande quantidade de atividades e serviços como escolas, igrejas, pontos comerciais, bancos, residências que se apresentam de certa forma concentrados no seu interior. Percebem-se áreas internas homogeneizadas, no que se refere às formas de uso e ocupação do solo. A idéia da pesquisa é oriunda do Roteiro para o Estudo do Clima Urbano de Fortaleza na perspectiva do campo térmico proposto por Moura (2006, 2008) e integra o projeto O CLIMA EM ESPAÇOS INTRA-URBANOS DE FORTALEZA E REGIÃO METROPOLITANA NO CAMPO TERMODINÂMICO E O CONFORTO TÉRMICO, realizado no Departamento de Geografia da UFC, sob a coordenação da Profª. Maria Elisa Zanella. A análise assume relevância devido à escassez de trabalhos climáticos na perspectiva dos espaços intra-urbanos de Fortaleza, além de discutir o comportamento climático local relacionando-o com o processo de uso e ocupação do solo com o objetivo de se pensar o planejamento da cidade e, no caso, o bairro do Conjunto Ceará. Para se investigar as características climáticas intra-urbanas e o conforto térmico na área de estudo, foi traçado o seguinte objetivo geral: Analisar os contrastes microclimáticos e o conforto térmico de um conjunto habitacional e a influência do uso e ocupação do solo nesses 21 parâmetros climáticos, tomando como exemplo o Conjunto Ceará – Fortaleza/CE. E os seguintes objetivos específicos: Identificar, dentre os pontos analisados, os contrastes térmicos e higrométricos visando a análise do conforto térmico no conjunto habitacional. Identificar o comportamento atmosférico e os sistemas geradores de diferentes tipos de tempo na área nos dias de coletas de dados e aqueles que o antecedem. Evidenciar o processo e as diferenças nos padrões de ocupação do solo na área de estudo e a influência deste nas temperaturas e no conforto térmico. Propor estratégias de planejamento para viabilizar o conforto térmico e a qualidade ambiental dos habitantes do conjunto. 22 2. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO 2.1 - Concepções teóricas O interesse do homem pelas questões climáticas é bastante antigo e deriva das repercussões dos fenômenos atmosféricos no desenvolvimento das atividades humanas (SANTANA NETO, 1998). Ao longo do tempo, o conhecimento da atmosfera, acumulado pelo homem, permitiu a este o estabelecimento de uma nova postura frente às intempéries naturais, onde o caráter divino é substituído por um maior grau de entendimento e manipulação de tais fenômenos. Mendonça & Danni-Oliveira (2007) cita: Desvendar a dinâmica dos fenômenos naturais, dentre eles, o comportamento da atmosfera, foi necessário para que os grupos sociais superassem a condição de meros sujeitos às intempéries naturais e atingissem não somente a compreensão do funcionamento de alguns fenômenos, mas também a condição de utilitários e de manipuladores dos mesmos em diferentes escalas (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007, p.11). Atribui-se aos gregos o pioneirismo no que se refere às primeiras observações e registros do comportamento atmosférico. No entanto, somente no período da Renascença, com as inovações tecnológicas, acontece o desenvolvimento e conseqüentemente sistematização dos aspectos do conhecimento climáticos da (SANTANA natureza, NETO, e 1998; AYOADE, 2003; MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). Neste momento histórico o conhecimento climático, tendo seu desenvolvimento motivado principalmente pelas guerras, ganha impulso com a invenção de instrumentos como termômetros e pluviômetros (SANTANA NETO, 1998), que juntamente com outras invenções como o barômetro de mercúrio e o telégrafo que viriam compor as atuais estações meteorológicas (AYOADE, 2003), tornam-se fundamentais para a produtividade e a circulação das mercadorias em geral (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). Os estudos atmosféricos desenvolveram-se e apresentam diferenciações no decorrer do tempo, no que se refere às concepções 23 adotadas e aos procedimentos metodológicos aplicados. A Climatologia sendo uma ciência que estuda os padrões de comportamento da atmosfera, verificados durante um longo período de tempo (AYOADE, 2003) teve nessas diferenciações a base para uma divisão em Climatologia Clássica ou Tradicional e Climatologia Moderna ou Dinâmica. FIGURA 1: Concepções teóricas da Climatologia. Fonte: Adaptado de Conti, 2006. O conceito de clima como sendo “o conjunto de fenômenos meteorológicos que caracterizam o estado médio da atmosfera sobre cada lugar da Terra”, elaborado por Julius Hann, serviu de embasamento para a Climatologia Clássica. Nesta abordagem, há uma forte presença de um método analítico-estatístico do clima, com ênfase no emprego de médias (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). Atkinson (1972), citado por Ayoade (2003), apresenta algumas das deficiências da abordagem climática Clássica, sendo elas: o caráter descritivo e não explicativo do clima, que desconsidera a gênese dos fenômenos apresentados; a noção de uma atmosfera estática, enquanto que esta apresenta-se como dinâmica e em constante mudança; a negligência quanto aos fenômenos de feedback que atuam na atmosfera, ou seja, as interações existentes na dinâmica atmosférica; e por último as classificações climáticas 24 apresentadas, cujas linhas demarcatórias tendem a demonstrar mudanças abruptas de clima, uma vez que o que ocorre é uma alteração gradativa de um tipo climático para outro. Desse modo, a concepção tradicional do clima apresenta limitações representadas pelo emprego de médias, uma vez que estas nem sempre correspondem à realidade complexa do clima e também por não considerar o fator tempo que implica em ritmo climático, podendo desta forma ser considerada uma abordagem superficial. No intuito de superar as limitações da Climatologia Tradicional, a Climatologia dita moderna ou dinâmica apóia-se numa abordagem genética do clima, enfatizando a explicação dos fenômenos atmosféricos em sua sucessão (AYOADE, 2003). A moderna climatologia [...] incide na explicação dos fenômenos atmosféricos, além de descrevê-los. A atmosfera é dinâmica, não-estática, e fazem-se esforços para compreender os processos e interações que ocorrem na atmosfera e na interface atmosfera-superfície da Terra. [...] Mas ao contrário dos antigos, o homem moderno não quer viver à mercê do tempo meteorológico. [...] o homem necessita capacitar-se a entender os fenômenos atmosféricos de modo que possa prevê-los, modificá-los ou controlá-los quando possível. Daí a necessidade de enfatizar a explicação dos fenômenos atmosféricos, que é a base da moderna meteorologia. (AYOADE, 2003: 7) O conceito de clima apresentado por Max Sorre (1934), e citado por Conti (2006), que o define como “a série dos estados atmosféricos acima de um lugar em sua sucessão habitual”, é a base para o desenvolvimento desta abordagem. Na Climatologia Dinâmica, os elementos e fatores climáticos deixam de ser analisados isoladamente e passam a ser entendidos a partir da interação e interdependência existente entre eles. Além das médias, são considerados os sistemas atmosféricos que influenciam o clima e a noção de ritmo torna-se fundamental na explicação da sucessão dos tipos de tempo e, conseqüentemente, na classificação climática. Zavattini & Barros (2009) acrescenta ainda que a climatologia dinâmica teve seu desenvolvimento atrelado ao desenvolvimento da Meteorologia. A 25 Meteorologia Dinâmica e a proposta climática de Sorre possibilitaram novas formas de abordagem em Climatologia. O enfoque dinâmico da Climatologia Geográfica teve, no Brasil, grande repercussão com o geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro que, considerando as ideias francesas de Maximilien Sorre e de Pierre Pédélaborde, trouxe para as análises climáticas a noção de ritmo climático (MOURA, 2008). A nova perspectiva é dinâmica (série e sucessão) e está baseada em uma propriedade intensiva da atmosfera – a própria idéia de tempo meteorológico, essencialmente associativa. Parece-me que não há dúvida de que o paradigma novo é o ritmo em substituição à média dos elementos discretamente dissociados à atmosfera e expressos com meras propriedades extensivas. (MONTEIRO, 1976:23) Monteiro (1976) define o ritmo como o encadeamento sucessivo e contínuo dos estados atmosféricos e suas articulações no sentido de retorno aos mesmos estados. O autor apresenta a proposta técnica de análise rítmica para os estudos climatológicos, em três anunciados: O ritmo climático só poderá ser compreendido através da representação concomitante dos elementos fundamentais do clima em unidades de tempo cronológico pelo menos diárias, compatíveis com a representação da circulação atmosférica regional, geradora dos estados atmosféricos que se sucedem e constituem o fundamento do ritmo. (MONTEIRO, 1976:9) Só a análise rítmica detalhada ao nível de “tempo” revelando a gênese dos fenômenos climáticos pela interação dos fatores, dentro de uma realidade regional é capaz de oferecer parâmetros válidos à consideração dos diferentes e variados problemas geográficos dessa região. (MONTEIRO, 1976:12) Na análise rítmica as expressões quantitativas dos elementos climáticos estão indissoluvelmente ligados à gênese ou qualidade dos mesmos e os parâmetros resultantes desta análise devem ser considerados levando em conta a posição no espaço geográfico em que se define. (MONTEIRO, 1976:13) Assim, o paradigma do ritmo é apropriado para os estudos climáticos desenvolvidos numa perspectiva geográfica, uma vez que a Climatologia Geográfica é dinâmica e, além de uma mera análise quantitativa, procura contemplar o estabelecimento de relações entre os fenômenos atmosféricos e a sociedade (SANT’ANNA NETO, 2003). 26 Max Sorre é considerado o mentor de uma Climatologia Geográfica, cujos trabalhos estão no cerne das reflexões que Monteiro concretizou em sua proposta de análise rítmica como a essência da análise geográfica do clima. (SANT’ANNA NETO, 2004). As novas perspectivas teóricas que se abriram através dos postulados de Max Sorre, no campo da Climatologia como fenômeno Geográfico, possibilitou toda uma revisão conceitual que, assumidas por Pierre Pédélaborde na França, na década de 1950, e no Brasil por Carlos Augusto de F. Monteiro, na de 1960, cada um a sua maneira, propiciou uma verdadeira revolução paradigmática em que, as noções de dinâmica, gênese e ritmo passaram a constituir os fundamentos do entendimento do fenômeno atmosférico como categoria de análise geográfica, contrastando com as abordagens generalizadoras e de caráter regional, mais em busca de tipologias do que de processos. ((SANT’ANNA NETO, 2004:99). O presente trabalho assume como base a concepção dinâmica do clima por considerar que esta corresponde a um melhor tratamento e compreensão dos fenômenos climáticos na organização do espaço geográfico. A análise rítmica será também considerada no desenvolvimento do estudo do clima urbano no Conjunto Ceará, embora o Sistema Clima Urbano seja o referencial teórico-metodológico mais importante. Para uma melhor análise dos fenômenos climáticos, faz-se necessário identificar os controles e atributos do clima compreendendo suas inter-relações no espaço geográfico. O clima assume posição de destaque nos estudos ambientais, uma vez que seus elementos e fatores encontram-se em constante interação com as outras esferas do meio ambiente. As condições climáticas influenciam e são influenciadas constantemente pelos elementos da paisagem, como a vegetação e a própria dinâmica da sociedade (AYOADE, 2003). Sendo, o clima, o resultado de um conjunto de atributos e fatores, a compreensão destes torna-se necessário para o aprofundamento dos processos ocorridos na dinâmica climática. Romero (1988) considera elementos climáticos como os responsáveis em definir e fornecer os componentes do clima, sendo a temperatura, a umidade do ar, as precipitações 27 e os ventos os principais. A autora atribui ainda aos fatores climáticos, a qualidade de condicionar, determinar e dar origem ao clima, e divide os fatores em globais (radiação solar, latitude, longitude, altitude, ventos, massas de água e terra) e locais (topografia, vegetação, superfície do solo natural ou construído). Mendonça & Danni-Oliveira (2007) entendem os elementos climáticos como os atributos físicos que caracterizam as propriedades da atmosfera geográfica de um dado local, sendo representados pela temperatura, umidade e pressão que manifestam-se através da precipitação, vento, nebulosidade, ondas de calor e frio, de acordo com a diversidade geográfica. Já os fatores do clima, ou controles climáticos, são definidos pelo autor como aquelas características geográficas estáticas diversificadoras da paisagem, como latitude, altitude, relevo, vegetação, continentalidade/maritimidade e atividades humanas. Embora sejam apresentados de formas isoladas, é necessário entender que o mesmo não ocorre na dinâmica atmosférica, uma vez que elementos e fatores atuam constantemente em conjunto (ROMERO, 1988). A divisão entre elementos e fatores não deve ser considerada com tanta rigidez, mas a interrelação significativa existente entre eles (Figura 1), além do que, dependendo da análise climática o número de elementos a ser envolvido pode se consideravelmente ampliado (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). No ambiente urbano o clima ganha características próprias em virtude do processo de urbanização que altera de forma significativa as características climáticas locais. 28 FIGURA 2 - Controles e atributos do clima. Adaptado de Mendonça & Danni-Oliveira, 2007. Latitude Astronômico Atividades humanas Vegetação Global N Pressão Temperatura Regional Relevo Umidade Elementos Climáticos Continentalidade Maritimidade Fatores Geográficos Local Níveis de Influência 2.2 - O clima urbano: S.C.U. O professor Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, com base na concepção dinâmica do clima proposta por Sorre e da Teoria Geral dos Sistemas, lança em 1976 um quadro de referência teórica para o estudo do clima urbano. A proposta teórica denominada como Sistema Clima Urbano (S.C.U.) vem a tornar-se a principal referência para os estudos climáticos no Brasil, contribuindo para a consolidação de uma escola climática em nosso país. O S.C.U. pode ser entendido a partir dos critérios de escolhas, enunciados básicos, questões de consistência e os canais de percepção. Nos critérios de escolha estão envolvidos o pragmatismo, dinamismo, consistência, empirismo e o modelismo. O pragmatismo destaca a investigação centrada no pesquisador e direcionada a outros pesquisadores e/ou aqueles que queiram fazer uso dos resultados da investigação (VIANA, 2006; MONTEIRO, 2003). O dinamismo contempla a abordagem sorreana do clima, 29 como base para a análise do comportamento atmosférico. A consistência permite uma estrutura teórica adequada para enquadrar tanto os fenômenos mais amplos e complexos como os mais simples e restritos, possuindo elasticidade no tempo e espaço, indicando que a investigação possa ser desenvolvida em qualquer ambiente urbano. O empirismo trata-se das observações, de modo que os fenômenos estudados possam ser verificados ou refutados. O modelismo implica na representação, diagramação e mesmo mapeamento dos dados obtidos. Monteiro (1976, 2003) apresenta os enunciados básicos do S.C.U. como idéia reguladora de sua proposta teórica: 1- O clima urbano é um sistema que abrange o clima de um dado espaço terrestre e sua urbanização. (MONTEIRO, 2003: 19) 2- O espaço urbanizado, que se identifica a partir do sítio, constitui o núcleo do sistema que mantém relações íntimas com o ambiente regional imediato em que se insere. (MONTEIRO, 2003: 20) 3- O S.C.U. importa energia através do seu ambiente, é sede de uma sucessão de eventos que articulam diferenças de estados, mudanças e transformações internas, a ponto de gerar produtos que se incorporam ao núcleo e/ou são exportados para o ambiente, configurando-se como um todo de organização complexa que se pode enquadrar na categoria dos sistemas abertos. (MONTEIRO, 2003: 20) 4- As entradas de energia no S.C.U. são de natureza térmica (oriundas da fonte primária de energia de toda a Terra – o Sol), implicando componentes dinâmicas inequívocas determinadas pela circulação atmosférica, e decisivas para a componente hídrica englobada nesse conjunto. (MONTEIRO, 2003: 21) 5- A avaliação dessa entrada de energia no S.C.U. deve ser observada tanto em termos quantitativos como, especialmente, em relação ao seu modo de transmissão. (MONTEIRO, 2003: 22) 6- A estrutura interna do S.C.U. não pode ser definida pela simples superposição ou adição de suas partes (compartimentação ecológica, morfológica ou funcional urbana), mas somente por meio da íntima conexão entre elas. (MONTEIRO, 2003: 23) 7- O conjunto produto do S.C.U. pressupõe vários elementos que caracterizam a participação urbana no desempenho do sistema. Sendo variada e heterogênea essa produção, fazse mister uma simplificação, classificatória, que deve ser constituída através de canais de percepção humana. (MONTEIRO, 2003: 24) 8- A natureza urbana do S.C.U. implica em condições especiais de dinamismo interno consoante o processo 30 evolutivo do crescimento e desenvolvimento urbano, uma vez que várias tendências ou expressões formais de estrutura se sucedem ao longo do processo de urbanização. (MONTEIRO, 2003: 24) 9- O S.C.U. é admitido como passível de auto-regulação, função essa conferida ao homem urbano que, na medida em que o conhece e é capaz de detectar suas disfunções, pode, através do seu poder de decisão, intervir e adaptar o funcionamento do mesmo, recorrendo a dispositivos de reciclagem e/ou circuitos de retroalimentação capazes de conduzir o seu desenvolvimento e crescimento seguindo metas preestabelecidas. (MONTEIRO, 2003: 25) 10- Pela possibilidade de interferência auto-reguladora, acrescentam-se ao S.C.U., como sistema aberto, aquelas propriedades de entropias negativas pela sua própria capacidade de especialização dentro do crescimento através de processos adaptativos, podendo ser qualificado, assim, como um sistema morfogênetico. (MONTEIRO, 2003: 25) Os enunciados servem como base para o desenvolvimento dos estudos climatológicos, por tratarem-se mais de idéias reguladoras do que de regras a serem completamente seguidas (MONTEIRO, 2001). No que se refere às questões de consistência, são apresentados a ordem de grandezas e os graus de organização, os padrões de comportamento e auto-regulação, a dinâmica processual e padrões estruturais do Sistema Clima Urbano. A partir do que foi apresentado, Monteiro (1976) consolidou o quadro teórico e metodológico para o estudo do clima urbano. Os níveis que formam a estrutura geral do S.C.U. são formados por três subsistemas – Termodinâmico, Físico – Químico, Hidrometeórico -, associados aos canais de percepção humana, sendo: Canal I – Conforto Térmico, Canal II – Qualidade do Ar, Canal III – Impacto Meteórico (Quadro 1). Cada um dos subsistemas tem um objeto de estudo diferenciado sendo: as ilhas de calor, ventilação, conforto e desconforto térmico o objeto do subsistema termodinâmico; a poluição do ar, assim como as doenças respiratórias o objeto do físico-químico, e os impactos meteóricos, incluindo os problemas de inundação urbana o objeto do hidrometeórico. Assim, o S. C. U. tem como foco de estudo o clima da cidade a partir de uma visão integrada, de conjunto. 31 O sistema é composto por hierarquias que se intercalam tanto horizontal como verticalmente, gerando um nível maior de resolução representado pelo próprio clima da cidade, admitindo ainda níveis de resolução intermediários (os grandes conjuntos de fenômenos do universo climático) (MOURA, 2008). 32 QUADRO 1 - Sistema Clima Urbano- Articulações dos subsistemas segundo os canais de percepção. Fonte: Monteiro, 2003. SUBSISTEMAS Termodinâmico Físico-Químico Caracterização Fonte Hidrometeórico CANAIS DE PERCEPÇÃO I II III Conforto térmico Qualidade do Ar Impacto Meteórico Atmosfera Atividade urbana Radiação Veículos Atmosfera auto- Estados motores.Industrias Circulação horizontal especiais (desvios rítmicos) Obras-limpeza Trânsito no sistema Intercambio de operador De e operando Mecanismo de ação Transformação no Difusão sistema Projeção Interação operando ao Do operador operador ao operando através do Concentração sistema no sistema núcleo Do núcleo ao ambiente Do ambiente ao núcleo ambiente Desenvolvimento Contínuo(permanente) Meteorológica Observação Cumulativo(renovável) especial Sanitária (trabalho de campo) Episódico (eventual) e Meteorológica meteorológica especial Hidrológica (trabalho de campo) Correlações disciplinares e Engenharia sanitária e Bioclimatologia Arquitetura Engenharia sanitária infra estrutura urbana tecnológicas Urbanismo “Ilhas de calor”, Produtos Ventilação Poluição do ar urbana Aumento de precipitação Efeitos diretos Ataques à integridade Desconforto e redução Problemas sanitários Problemas de circulação no desempenho humano e comunicação urbana Doenças respiratórias, oftalmológicas etc. Reciclagem adaptativa Controle de uso do solo Tecnologia de conforto Vigilância e controle dos Aperfeiçoamento agentes de poluição da habitacional da infra-estrutura urbana e regularização fluvial.Uso do solo. Responsabilidade Natureza e Homem Homem Natureza 33 2.3 - O Subsistema Termodinâmico O presente estudo é desenvolvido a partir do subsistema Termodinâmico no canal I – Conforto Térmico. Este subsistema trata-se do mais utilizado pelos estudos climáticos, como bem destaca Viana (2006), sobretudo no Nordeste Brasileiro como aponta Moura (2008) ao realizar uma revisão bibliográfica de grande parte das produções científicas envolvendo o clima urbano. O subsistema Termodinâmico tem como objeto de estudo as ilhas de calor e de frescor que convergem para a discussão do conforto térmico urbano. Este subsistema assume posição de destaque dentro da estrutura geral do S.C.U., como bem ressalta Monteiro (2001): Dentro do esquema do S.C.U., esse canal atravessa toda a sua estrutura, pois que é o insumo básico, é transformado pela cidade e pressupõe uma produção fundamental no balanço de energia líquida atuante no sistema. O uso do solo, a morfologia urbana, bem como suas funções, estão intimamente implicados no processo de transformação e produção. (MONTEIRO, 2003: 44) O estudo das componentes térmicas da atmosfera permite a associação com os outros processos atmosféricos, objetos dos outros subsistemas, como a poluição do ar e os impactos meteóricos, já que a temperatura é fator determinante no comportamento dos ventos, nos campos de pressão atmosférica e mesmo nas precipitações. O subsistema Termodinâmico é composto por cinco níveis de resolução, sendo eles: 1- Insumo, 2 – Transformação, 3 – Produção, 4 – Percepção e 5 – Ação. Os níveis apresentam-se com total interdependência e funções específicas dentro do funcionamento do subsistema. O insumo (nível 1) representa a entrada de energia no subsistema com as devidas repercussões na circulação atmosférica. A transformação (nível 2) da energia adquirida se dará a partir dos controles climáticos urbanos, ou seja, as características do sítio urbano com sua natureza e funções, resultando na produção (nível 3) de uma estrutura térmica geradora das ilhas de calor/frio implicando diretamente no conforto térmico, variações dos campos de pressão, e diminuição/aumento da velocidade dos ventos. Esses fenômenos são percebidos pela sociedade tanto em nível individual como coletivo o que 34 constitui o nível 4 – Percepção. Os desdobramentos dessa percepção são passíveis da ação (nível 5) individual, por meio da ventilação urbana, e coletiva, através de decisões sobre os controles climáticos urbanos que implica em planejamento (MOURA, 2008). Nesse subsistema há necessidade de interdisciplinaridade com outras ciências como a Bioclimatologia, a Geografia Médica, a Arquitetura e Urbanismo, uma vez que a análise termodinâmica liga-se diretamente à construção dos espaços habitacionais e urbanos, sendo estes importantes responsáveis pelos mecanismos de transformação da energia do subsistema (MONTEIRO, 2001). A interdisciplinaridade torna-se, portanto, fundamental no processo de se efetivar as ações encontradas no estudo das componentes e processos termodinâmicos do ambiente urbano. 2.4 - Estudos do clima urbano Neste sentido alguns trabalhos foram e estão sendo realizados em várias cidades do Brasil considerando-se a variação espacial da temperatura do ar, na perspectiva do conforto térmico. Lombardo (1985) é umas das referências de grande repercussão no país. A autora estudou a Metrópole Paulistana a partir de imagens de satélite e trabalhos de campo em padrões de ocupação do solo diferenciados na cidade. A partir dos dados obtidos, identificou contrastes térmicos superiores a 10ºC entre o centro da cidade de São Paulo e a área rural. A intensidade da ilha de calor na Metrópole Paulistana refletiu a dimensão da mancha urbanizada e dos diferentes tipos de usos do solo. Araújo e Sant’anna Neto (2002) estudaram o clima urbano da cidade de São Luís/MA em registros episódicos intra-urbanos em diferentes bairros da cidade. Os dados apontaram que as áreas de uso do solo mais adensadas e com pouca vegetação possuem uma tendência em apresentarem temperaturas mais elevadas. Mendonça (2003) desenvolveu metodologia para o estudo do clima urbano em cidades de médio e pequeno porte aplicando-a na cidade de 35 Londrina/PR. O levantamento de dados meteorológicos na área de estudo foi realizado a partir de 17 pontos amostrais em ambientes relativamente homogêneos na cidade. Os resultados do estudo mostraram a ocorrência de ilhas de calor de magnitudes de até 10º C na área urbana de Londrina, valores esses também encontrados em cidades de grande porte como São Paulo e Porto Alegre. Os locais mais aquecidos foram principalmente os de urbanização mais densa e de pouca vegetação. Brandão (2003) verificou o clima urbano do Rio de Janeiro/RJ a partir de três transectos de características contrastantes no que se refere ao uso e ocupação da área urbana. A autora considerou o uso residencial, comercial e industrial, como também a densidade de construções, para verificar as diferenças de temperatura na cidade. A partir dos dados, foi possível concluir que nas áreas mais verticalizadas e densamente construídas, como os bairros Botafogo e Copacabana, a temperatura esteve mais elevada, sobretudo a noite. Percebeu-se também a importância das áreas verdes na formação de ilhas de frescor, fato este observado no parque Jardim Botânico em quase todos os trabalhos de campo realizados. Azevedo et al (2003), ao verificar a influência do microclima em residências representativas da favela de Paraisópolis no município de São Paulo, analisou as temperaturas máximas e mínimas diárias e as condições de conforto em função dos registros de umidade e temperatura, chegou à conclusão de que a tipologia das casas e características como o telhado e o tipo de material utilizado na construção das paredes das residências têm influência direta nas condições de conforto/desconforto térmico dos moradores. Tavares e Tarifa (2004), ao analisar dados climáticos da cidade de Sorocaba numa série temporal de 41 anos, perceberam uma tendência de aquecimento, mesmo a área não apresentando influências diretas da urbanização e alertam ainda para a necessidade de estudos aprofundados no sentido de se evitar explicações simplistas e “catastróficas”. Imbroisi et al (2004), ao averiguar duas estações climatológicas do Rio de Janeiro: Praça Mauá localizada no centro da cidade e Estação Ilha Rosa longe da influência do meio urbano; constataram numa fase inicial que na primeira década de análise (1972 a 1979), houve uma queda de temperatura média anual na segunda enquanto que na primeira a oscilação da temperatura 36 não atingiu 1° C. Este fenômeno tendo influencias diretas do processo de urbanização foi também associado à eventos naturais como o ciclo das manchas solares. Freitas (2004), estudando a cidade de Recife, realizou medições de temperatura em diferentes anos (1998, 2001, 2003) identificando zonas de conforto e desconforto térmico, sendo estas respectivamente situadas em áreas de verticalização com altas taxas de densidade e grande exposição à radiação solar e áreas de praças, parques, ao longo das margens dos rios e da orla marítima em bairros que preservam as características naturais como solo permeável, vegetação e baixa densidade de construções. Lucena (2004), tomando como exemplo o segundo mais populoso bairro da cidade do Rio de Janeiro, Bangu, que está situado no principal vetor de crescimento da cidade: a zona Oeste, e que experimenta as maiores temperaturas da cidade, procurou mapear as ilhas de calor intra-bairro e suas magnitudes associando-as à situação sinótica dominante e ao uso do solo urbano, e constatou que as ilhas de calor variaram de fraca à forte, sendo esta localizada na área comercial do bairro caracterizada por uma concentração de serviços, pessoas e veículos. Silva e Ribeiro (2005), na favela de Paraisópolis, procuraram identificar as transformações atmosféricas da área a partir do Sistema Clima Urbano, constatando que o uso e ocupação do solo, assim como o arruamento da área, foram agentes diferenciadores nas condições térmicas. Azevedo e Tarifa (2006) apresentam para a cidade de São Paulo onze evidências de que o ritmo semanal das atividades humanas tem um grande significado na explicação do comportamento do sistema climático na Região Metropolitana da cidade, chegando a afirmar a partir dos dados analisados da década de 1990 que o dia de quarta-feira teve tendência em apresentar a maior temperatura. Moura (2006), estudando os microclimas de Fortaleza, analisou duas áreas representativas da cidade: o centro, marcado por uma concentração de pessoas e serviços, e a Lagoa da Sapiranga caracterizada por condições naturais mais evidentes, observou as diferenças de temperatura por meio de medições horárias em períodos sazonais contrastantes, não observando grandes diferenças de temperatura entre as áreas, embora as magnitudes 37 térmicas mais elevadas tenham sido na área da Lagoa. O mesmo autor estudou ainda o clima urbano de Fortaleza sob o nível do campo térmico, em 2008, a partir de 12 pontos amostrais identificando ilhas de calor, sobretudo, na porção sudoeste da cidade. Vários estudos vêm sendo desenvolvidos nesta perspectiva como uma contribuição ao planejamento da cidade, embora ainda sejam poucos os que têm sido efetivamente incorporados aos planos de gestão urbana. 2.5 - Índices de conforto térmico Na análise do clima da cidade, o conforto térmico configura-se como importante fator na qualidade ambiental urbana. Sendo um parâmetro urbano, e juntamente com outras variáveis biológico-fisiológicas e psicológicas, integra um conjunto de parâmetros que definem um conforto ambiental (HISSA, 2000). O conforto térmico implica nas trocas de energia entre o corpo humano e o ambiente envolvente, e por isso causa grande influência tanto na arquitetura das cidades como também no organismo humano (FROTA & SCHIFFER, 1998; HISSA, 2000;). Desse modo, torna-se um elemento chave na compreensão dos processos urbanos e dos problemas deles decorrentes. O homem, estando em constante interação com o meio ambiente, realiza processos de trocas térmicas com o meio de modo que um equilíbrio térmico seja alcançado e condições de conforto possam ser desfrutadas. Nesse processo estão incluídas variáveis diversas, podendo ser desde variáveis ambientais ou físicas, como também fisiológicas e até mesmo subjetivas. São essas trocas térmicas que permitirão ou não a obtenção da sensação de conforto térmico. O conforto térmico é definido por Fanger (1970) citado por Buriol et al (2004) como: Condição da mente que expressa satisfação com o ambiente térmico ou a sensação de neutralidade térmica quando todo o calor utilizado pelo organismo através do metabolismo é trocado em igual proporção com o ambiente ao redor, através 38 de perdas por convecção, radiação, evaporação e por condução através das roupas. O metabolismo é o processo pelo qual o homem, por meio de combustíveis orgânicos, produz sua energia térmica interna. Essa temperatura é praticamente constante com limites estreitos para a sobrevivência, o que dá ao homem a característica de ser um animal homeotérmico. 20% da energia obtida pelo metabolismo é transformada em potencialidade de trabalho e os 80% restante se transforma em calor, que necessita ser dissipado para que o equilíbrio do organismo seja alcançado (FROTA & SCHIFFER, 1988:10). No sentido de alcançar o equilíbrio e conseqüentemente a sensação de conforto térmico, o organismo utiliza mecanismos denominados termoreguladores com o objetivo de reduzir ou aumentar as perdas de calor para o ambiente (Quadro 2). O ser humano em contato com o ambiente troca calor através de mecanismos denominados: convecção, radiação, condução e evaporação. Esse calor é dissipado através dos mecanismos de trocas térmicas entre o corpo e o ambiente, evolvendo as trocas secas – condução, conveccção e radiação – e as trocas úmidas – evaporação. O calor perdido para o ambiente através das trocas secas é denominado calor sensível e é função das diferenças entre o corpo e o ambiente. Já o calor perdido para o ambiente através das trocas úmidas é denominado calor latente e envolve mudança de estado de agregação – o suor, líquido, passa para o estado gasoso, de vapor, através da evaporação. Assim, o organismo perde calor para o ambiente sob duas formas: calor sensível e calor latente. (FROTA & SCHIFFER, 1988) Sendo o conforto térmico, um produto de diversas variáveis que atuam conjuntamente, pode-se classificar estas variáveis em: variáveis físicas ou ambientais, pessoais e psicológicas. As variáveis ambientais são as que mais influenciam as condições atmosféricas do ambiente. As variáveis meteorológicas que mais interferem no conforto térmico são a temperatura do ar, velocidade do ar, umidade do ar e temperatura média radiante. As variáveis pessoais têm grande influência nas condições de conforto do indivíduo. As que mais influenciam são o tipo de atividade desempenhada pelo indivíduo e a vestimenta. Já as variáveis psicológicas estão ligadas à percepção e 39 preferências térmicas dos indivíduos no momento consultado. Variam de indivíduo para indivíduo (BURIOL et al, 2004). FIGURA 3: Trocas de calor do individuo com o ambiente Fonte: Romero, 1988. Ao se estudar o conforto térmico numa perspectiva climática as variáveis ambientais ganham destaque, uma vez que são estas as que mais influenciam neste campo. Dentre elas tem-se a temperatura do ar, a umidade do ar, a radiação e os ventos (AZEVEDO et al, 2003; HISSA, 2000; BURIOL et al, 2004) como os fatores físicos que mais se relacionam às sensações de conforto. 40 Quadro 2: Sumário das respostas humanas ao estresse termal, segundo Griffths (1976). Para o frio Para o calor Respostas termorregulatórias Constrição da pele dos vasos Dilatação da pele dos vasos sanguíneos sanguíneos Concentração do sangue Dilatação do sangue Flexão para redução da superfície Extensão para o aumento da superfície exposta do corpo exposta do corpo Aumento do tônus muscular Queda do tônus muscular Estremecimento Transpiração Tendência ao aumento de atividade Tendência à redução de atividade Distúrbios conseqüentes Aumento do volume de urina Queda do volume da urina. Sede e desitradação Risco de suprimento inadequado de Dificuldade na sangue para a ponta dos dedos das suprimento de sangue para o cérebro mãos e dos pés e partes expostas levando levando à quebra por congelamento esgotamento pelo calor. Dificuldade na á manutenção manutenção tontura, do balanço náusea do e clorídrico, gerando cãibras. Aumento da fome Queda do apetite Queda da temperatura do corpo Ascensão da temperatura do corpo Sonolência Enfraquecimento do centro de regulação de calor Parada das batidas do coração e da Falhas da regulação das terminações respiração. nervosas levando ao sufocamento. Fonte: Mendonça (2001) Embora o conforto térmico varie de acordo com o tipo de clima e também de indivíduo para indivíduo, foram criadas escalas denominadas Índices de Conforto Térmico para a análise do conforto. Esses índices têm como principal objetivo integrar o conjunto de variáveis envolvidas no conforto gerando um parâmetro ou indicador que possa ser usado às diversas condições ambientais e às diferenças individuais das pessoas. Frota & Schiffer (1998), ao resgatar os aspectos históricos dos índices de conforto cita que, os primeiros estudos deste campo foram realizados pela 41 Comissão Americana da Ventilação no setor industrial em 1916, objetivando relacionar a influência das condições termo-higrométricas no rendimento do trabalho dos operários; e simulando as situações especiais de guerra. As autoras classificam ainda os índices em: Índices biofísicos – baseados nas trocas de calor entre o corpo e o ambiente, correlacionando os elementos do conforto com as trocas de calor que dão origem a esses elementos; Índices fisiológicos – baseados nas reações fisiológicas originadas por condições conhecidas de temperatura seca do ar, temperatura radiante média, umidade e velocidade do ar; Índices subjetivos – baseados nas sensações subjetivas de conforto experimentadas em (FROTA & SCHIFFER, 1998) Andrade (2005), ao analisar os diversos modelos de avaliação da influência térmica sobre os seres humanos, cita duas abordagens existentes: o óptico térmico universal e a abordagem adaptativa. O autor apresenta o paradigma do óptico térmico universal como sendo determinado por um pequeno número de parâmetros ambientais e realizado em situações estereotipadas e estacionárias e cita a abordagem adaptativa, que valoriza a variabilidade de respostas e as preferências térmicas dos indivíduos quanto às condições externas e mais indicada para ambientes externos, salientando ainda a inexistência de metodologias para este tipo de estudo. Um grande número de escalas de conforto térmico foi desenvolvido com fins de aplicação às condições ambientais de edificações e às condições climáticas brasileiras. No presente capítulo são apresentadas as escalas: Temperatura Efetiva de Thom (1959), citado por Ayoade (2003); Temperatura Efetiva de Yaglou ou Houghten; Diagrama do Conforto Humano (INMET); Carta Bioclimática de Olgyay; Índice de Conforto Equatorial de Webb; e a Carta Bioclimática de Giovani (1969), citado por Hissa (2000). O Índice Temperatura Efetiva (Te) de Thom (1959), apresentado por Ayoade (2003), está incluída no grupo dos índices fisiológicos, sendo obtido a partir da fórmula Te = 0,4 (Td + Tw) + 4,8, descrita mais adiante nos procedimentos metodológicos. Esta escala busca a determinação das zonas de conforto para pessoas adultas vestidas e em estado de repouso, com ligeiros movimentos do ar. Pela fórmula, a zona de conforto encontra-se no intervalo de 18,9º C a 25,6º C, sendo os valores abaixo de 18,9º C representativos das 42 condições de stress ao frio e acima de 25,6º C de stress ao calor. Como forma de suprir as dúvidas existentes sobre a aplicação dessa fórmula em áreas de clima quente e úmido como em Fortaleza, optou-se por adotar o Índice de Malhotra (1955) aplicado na Índia, e já utilizado por Moura (2008) para Fortaleza, que define zona de conforto entre 21º C e 26º C, sendo os valores abaixo e acima desse intervalo, representantes das zonas de stress ao frio e ao calor, respectivamente. O Índice de Yaglow ou Houghten (1923), também citado por Hissa (2000), foi determinado a partir de uma correlação das variáveis temperatura, umidade, velocidade do vento e vestimenta com as sensações de conforto. Posteriormente, em 1932, este índice passou a ser chamado TEC (Temperatura Efetiva Corrigida) depois que Vernom & Wagner aplicaram uma correção que consistia no uso da temperatura do termômetro de globo (que mede a radiação térmica), ao invés da temperatura do bulbo seco na definição da zona de conforto, esses obtidos por monogramas para pessoas normalmente vestidas em trabalho leve (HISSA, 2000). O Diagrama do conforto Humano do INMET (2008) estabelece a zona de conforto a partir do cruzamento da temperatura do ar com a umidade relativa, gerando assim outras sete zonas, sendo elas: muito quente, muito úmido, muito frio, muito seco, necessita de vento para conforto, necessita de sol para conforto e confortável. O Índice de Conforto Equatorial (Figura 3) foi desenvolvido por Webb na década de 60 para habitantes de climas tropicais e foi testado em Cingapura. Este índice considera que, nos climas quentes e úmidos, a temperatura do bulbo úmido é significativa na definição das zonas de conforto térmico (HISSA, 2000). O nonograma do ICE correlaciona as sensações de calor aos dados de P4SR (Previsão da Produção de Suor em 4 horas), sendo semelhante ao gráfico da Temperatura Efetiva (Te). Frota & Schiffer (1988) salientam a aplicabilidade deste índice às regiões de clima semelhante à de Cingapura como a Amazônia. 43 FIGURA 4 - Nonograma do Índice do Conforto Equatorial (I.C.E) A Carta Bioclimática de Olgyay (1952) (Figura 4) foi construída e testada com habitantes de climas quentes, vestindo 1 “clo”1 (FROTA & SCHIFFER 1988). O autor combinou as variáveis temperatura e umidade relativa num diagrama, estando a temperatura no eixo das ordenadas e a umidade relativa no eixo das abcissas. O diagrama estabelece zona de conforto e desconforto e propõe algumas medidas corretivas como: necessidade de vento, sombra e radiação solar para obtenção de condições confortáveis. 1 Unidade que mede o nível de vestimentas sobre o corpo. 44 FIGURA 5 - Carta Bioclimática de Olgyay (1952) A Carta Bioclimática de Givoni (1976) apresentada por Hissa (2000) faz uma correlação entre a zona de conforto e as características climáticas locais, com algumas estratégias de controle ambiental visando a demanda de projetos de arquitetura. Os índices supracitados estão entre os mais conhecidos e utilizados nas análises do conforto térmico. No entanto, além desses índices existem ainda outros utilizados pela arquitetura e demais ciências que foram desenvolvidos para gerar parâmetros de conforto. No desenvolvimento desta pesquisa foram utilizados os índices: Temperatura Efetiva de Thom e o Diagrama do Conforto Humano do INMET. A escolha por estas escalas decorre da disponibilidade de equipamentos na coleta dos dados e pela facilidade de aplicação desses índices no contexto da pesquisa. 45 2.6 - As variáveis climáticas adotadas e a escala da pesquisa Para o desenvolvimento do trabalho no Conjunto Ceará, foram adotadas as seguintes variáveis climáticas: temperatura, umidade relativa, ventos, nebulosidade. A temperatura do ar é uma variável de primeira ordem na compreensão da dinâmica climática urbana (MOURA, 2008) e, por isso, tem recebido grande atenção nos trabalhos de natureza climática. Ela é a medida do calor sensível nele armazenado, sendo comumente dada em graus Celsius ou Fahrenheit e medida por termômetros. Geralmente trabalha-se com valores de temperatura do ar em tempo instantâneo, real, valores médios, máximos, mínimos ou ainda valores normais (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). A partir da radiação solar, fase inicial de entrada de energia no Sistema Superfície-Atmosfera, a temperatura tem como fator condicionante a relação entre as taxas de aquecimento e resfriamento da superfície terrestre. A temperatura varia tanto espacial como temporalmente em função de fatores como o movimento diário e anual aparente do Sol, as variações interanuais de temperatura, as nuvens, a maritimidade/continenalidade (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007), a topografia local (ROMERO, 1988), a latitude, a natureza da superfície, a distância a partir dos corpos hídricos, o relevo, os ventos e as correntes oceânicas (AYOADE, 2003). A variação se dá ainda verticalmente a partir de um gradiente vertical de 0,6 º C/100 m na Troposfera (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). A umidade atmosférica é a quantidade de vapor d’água presente na atmosfera em um dado momento. Esse gás é originado naturalmente do processo de evaporação que atua sobre as superfícies líquidas, dos organismos vegetais e da evapotranspiração, desempenhando um papel relevante de regulador térmico no sistema superfície-atmosfera (CONTI, 2007). Nesse trabalho, consideramos, para o estudo do clima urbano e conforto térmico, a umidade relativa que é a relação da umidade absoluta com a capacidade máxima do ar de reter vapor d’água, àquela temperatura (FROTA & SCHIFFER, 1988). A umidade atmosférica, assim como outros elementos climáticos, varia com o revestimento do solo, presença ou não de corpos hídricos, dentre outros fatores. 46 Já os ventos desempenham papel importante na dinâmica climática urbana, influenciando diretamente o conforto térmico. A velocidade do vento tem como fator determinante o gradiente de pressão estabelecido entre duas áreas, dado pela diferença de pressão do ar entre duas superfícies contíguas, de forma que quanto maior for o gradiente, mais veloz será o vento (MENDONÇA & DANNI-OLIVEIRA, 2007). Numa escala local, o movimento do ar sofre influência da topografia, da rugosidade da superfície e da vegetação. Xavier (2001) aponta uma redução de 50% da velocidade do vento para a cidade de Fortaleza. Percebe-se com isso, a influência direta do ambiente urbano com todas as suas características neste elemento climático. A nebulosidade é a cobertura do céu por nuvens. Dependendo da quantidade e do tipo de nuvens podem agir como uma barreira à entrada de raios solares como também à dissipação de calor para a atmosfera pelas superfícies urbanas. Moura (2008) levanta a hipótese de que a nebulosidade é uma dos elementos de primeira ordem na alteração do campo térmico da cidade de Fortaleza, mesmo quando comparados com outros dados de natureza urbana. Foram considerados, ainda no desenvolvimento do trabalho, elementos urbanos como fluxo de veículos e pessoas uma vez que estes podem agir diretamente no comportamento dos atributos climáticos urbanos em escala local. No que se refere às escalas em climatologia urbana, percebe-se que essa questão é uma problemática que surge no desenvolvimento das pesquisas nesse campo. O termo microclima tem sido amplamente utilizado para designar as especificidades do clima no espaço urbano, embora ainda não possua definições mais precisas. A divisão vertical da atmosfera urbana apresentada por Oke (1987) e citada por Andrade (2005) é bastante utilizada atualmente. Nessa proposta (Figua 5), as subdivisões da atmosfera urbana são a Urban Canopy Layer (UCL – atmosfera urbana inferior) situada abaixo da superfície ativa urbana que corresponde grosseiramente ao nível dos telhados dos edifícios; a Urban Boundary Layer (UBL – atmosfera urbana superior) encontrada acima da superfície ativa e que integra a influência térmica de toda a cidade. Tem-se 47 ainda a Roughness Sublayer como a camada inferior da UBL, onde o fluxo é influenciado pela rugosidade dos elementos individuais. Figura 6: Estratificação vertical da atmosfera urbana e escalas de análise Fonte: Andrade, 2005 Andrade (2005), procurando definir de uma forma mais precisa as escalas em climatologia urbana, apresenta dimensões típicas para cada uma das categorias sem adotar limites rígidos para essas dimensões: Microclima – reflete a influência de elementos urbanos individuais e dos seus arranjos mais elementares (edifícios e suas partes constituintes; ruas e praças, pequenos jardins); a dimensão típica pode ir até cerca de uma centena de metros; a influência direta desses elementos restringe-se à Urban Canopy Layer. Clima local/topoclima – clima de uma área com uma combinação característica de elementos, podendo corresponder seja a um tipo de ocupação do solo diferenciado (bairro, parque urbano), seja a condições topográficas específicas (vale, colina, etc). Um clima local/topoclima engloba um mosaico de microclimas, que se repetem com alguma regularidade. Mesoclima - corresponde à influência integrada da cidade (compreendendo vários climas locais), essencialmente ao nível da Urban Boundary Layer. Podem considerar-se igualmente como efeitos de mesoescala os efeitos “extra48 urbanos” de dimensão aproximada ou superior à da própria cidade (sistemas de brisas, barreiras topográficas e etc). (ANDRADE, 2005: 72-73) Na presente pesquisa optou-se por adotar a escala microclimática na análise das variáveis meteorológicas, considerando um nível mais próximo dos indivíduos com o intuito de compreender as relações existentes entre os atributos urbanos e climáticos, bem como definir as condições de conforto térmico nas áreas amostrais da pesquisa. 2.7 - Procedimentos Metodológicos Como forma de se verificar a variação da temperatura na área do conjunto habitacional e os demais objetivos propostos para a pesquisa foi desenvolvida uma metodologia dividida em 3 fases: FASE 1 (Levantamento bibliográfico e cartográfico), FASE 2 ( Trabalho de campo) e FASE 3 ( Análise e representação dos dados). Os procedimentos metodológicos adotados baseiam-se, sobretudo, no roteiro estratégico de estudo do clima urbano de Monteiro (1990). 2.7.1 - Fase I: Levantamento bibliográfico e cartográfico Para o desenvolvimento desta etapa foi realizada uma revisão bibliográfica no sentido de buscar aporte teórico sobre o assunto tratado. A pesquisa tem como base teórica conceitual o subsistema termodinâmico do Sistema Clima Urbano de Monteiro (1976, 2003). O levantamento cartográfico da área em estudo foi feito utilizando-se de imagens do satélite QuickBird, do ano de 2009. A resolução espacial das imagens desse satélite é de 0,60 cm, permitindo assim excelentes resultados em mapeamentos detalhados. Essas imagens foram úteis no trabalho de campo para a definição e caracterização 49 dos pontos de coleta de dados. Além das informações cartográficas foram considerados no estabelecimento de tais pontos a homogeneidade desses espaços no que se refere às características comerciais e residenciais, assim como também concentração de serviços e fluxos de veículos e pessoas, além do arruamento do conjunto. O material bibliográfico e cartográfico foi levantado em órgãos como FUNCEME, SEMACE, UECE, UFC e páginas da web. 2.7.2 - Fase II: Trabalho de campo Na etapa 2 foram coletados em campo os dados climáticos e urbanos necessários para o desenvolvimento da pesquisa. As condições microclimáticas do conjunto habitacional foram analisadas em 5 pontos distintos que apresentam estrutura/dinâmica urbana e condições geoecológicas diferenciadas e são representativos para a área do conjunto (Figura 1). O número de pontos estabelecidos tem relação direta com a disponibilidade de instrumentos para a coleta de dados e de equipes para a realização dos perfis climáticos. Tomando por base a metodologia de Viana (2006), foram delimitadas 5 classes para a escolha das áreas de coleta de dados, sendo estas: Classe 1 - área densamente construída de uso comercial predominante, com vegetação arbórea pontual e pavimentação nas ruas; Classe 2 - área construída com a presença do terminal. Classe 3 - área densamente construída de uso residencial, com vegetação arbustiva de médio porte em abundancia e ruas sem pavimentação. Classe 4 - área densamente construída de uso residencial, com dois pavimentos, vegetação arbórea escassa e ruas parcialmente pavimentadas; Classe 5 - área com construções esparsas, gramados e vegetação arbórea de grande porte em abundância e ruas parcialmente pavimentadas; A partir destas classes foram localizadas os pontos de coleta. O PONTO 1 (classe 1), de coordenadas E 543909 e N 9583224, está localizado na Av. Ministro Albuquerque Lima (denominada pelos moradores como avenida Central) no cruzamento com a Avenida A, onde se concentra um grande 50 número de equipamentos urbanos e serviços, como bancos, lojas, bares e restaurantes. O PONTO 2 (classe 2) localiza-se no terminal de ônibus do bairro nas coordenadas E 543547 e N 9582952, onde há um grande fluxo de veículos e pessoas resultando em grande potencial de produção de calor. O PONTO 3 (classe 3) possui as seguintes coordenadas E 542848 N 9582970 e está situado na Rua 319 que possui características residenciais, vegetação abundante e ausência de vias asfaltadas. O PONTO 4 (classe 4) de coordenadas E 543685 e N 9584106 localiza-se na Rua 448, que apresenta também densidades de construções com características residenciais, vegetação escassa e vias parcialmente asfaltadas. E o PONTO 5 (coordenadas E 543860 e N 9583504), localizado em frente ao Centro de Saúde da Família Maciel de Brito, nas proximidades do polo de lazer do bairro, com abundância de vegetação arbórea e arbustiva e construções esparsas. As condições geoecológicas e os atributos de natureza urbana dos pontos são apresentados no Quadro 3 e são descritos no Capítulo 3, que trata da caracterização geoecológica da área de estudo. Os dados de temperatura, umidade atmosférica, nebulosidade, direção e velocidade dos ventos, fluxo de veículos e pessoas foram registrados em períodos sazonais contrastantes, correspondendo ao período chuvoso (abril) e ao período seco (outubro) do estado do Ceará. O experimento I foi realizado no dia 22/04/2009, outono austral, e o Experimento II aconteceu no dia 23/10/2009, primavera austral. As medições aconteceram nos horários de 6, 9, 12, 15, 18, 21 horas com medições simultâneas nos 5 pontos. A realização das leituras nesses horários não é aleatória e se justifica por esses horários representarem as variações do tempo atmosférico no decorrer do dia, em condições atmosféricas estáveis. Assim, às 6h há o final da madrugada e o início do aquecimento diurno. Às 9h inicia-se o período de maior aquecimento diurno, que atinge a máxima magnitude entre as 15h e 16h, devido à máxima devolução de radiação terrestre para a atmosfera. Às 21h o sol já se pôs há algumas horas e inicia-se o resfriamento noturno. Esses horários estabelecidos contemplam os representativos de um dia: manhã, tarde e noite. Assim, no final de cada dia de observações, ficam registradas as características climáticas de cada período, necessárias para a compreensão de 51 como o uso e ocupação do solo interferem na distribuição espacial térmica e higrométrica do ar intra-urbano e rural (VIANA, 2006). Para a coleta de dados em cada um dos pontos estabelecidos foram utilizados: psicrômetro giratório; fitas (nº 1), com 20cm de comprimento; bússola, para determinar a direção do vento; tabelas com a Escala Beaufort; tabelas psicrométrica; tabelas com a indicação da simbologia da nebulosidade; e diagramas do conforto humano. A temperatura do ar (°C) foi obtida a partir do bulbo seco do psicrômetro. A leitura psicrométrica, dada pela diferença entre os termômetros de bulbo seco e úmido, foi registrada girando o aparelho por dois minutos seguidos de mais um minuto aguardado em sombra antes da leitura (MOURA, 2006). Os dados de temperatura e umidade do ar permitiram estabelecer duas escalas de conforto térmico: a temperatura efetiva Thom (1959) apud Ayoade (2003) e o índice de conforto humano do INMET (Figura 5). A temperatura efetiva é dada a partir da fórmula: Te = 0.4 x (Td + Tw) +4,8 Onde: Te: temperatura efetiva Td e Tw : temperaturas do bulbo seco e do bulbo úmido medidos em ºC. Segundo esta escala a faixa de conforto está no intervalo de 18,9ºC e 25,6ºC, sendo que os valores abaixo de 18,9ºC são considerados como faixas de estresse ao frio e acima de 25,6ºC são considerados faixas de estresse ao calor (AYOADE, 2003). 52 Já o índice de conforto humano fornecido pelo INMET apresenta as zonas de conforto a partir do cruzamento da temperatura do bulbo seco na ordenada e da umidade relativa do ar no eixo da abscissa. FIGURA 7 - Diagrama do Diagrama do Conforto Humano- INMET Para a obtenção dos dados de velocidade do vento foi utilizada a escala de Beaufort que trata-se de uma escala empírica, uma vez que não foi possível um número suficiente de anemômetros para a cobertura de todos os pontos trabalhados. A direção dos ventos foi obtida a partir da fita métrica tendo ainda como auxílio a bússola. Para a nebulosidade foi levada em consideração a okta, uma unidade de medida usada na meteorologia para descrever a cobertura de nuvens. A nebulosidade é expressa pelo número de oitavas partes que cobrem o céu. (Vianello & Alves, 1996). Como forma de se discutir as possíveis influências da urbanização na dinâmica microclimática urbana, foi observado ainda o fluxo de veículos e pessoas em cada um dos pontos estabelecidos no momento das medições dos dados climáticos. O fluxo de veículos e pessoas foi quantificado no mesmo intervalo de tempo em que o psicrômetro esteve registrando a temperatura do ar, tempo este que corresponde a 1 (um) minuto. 53 A análise das condições sinóticas foi realizada a partir de imagens do satélite GOES-10 no canal infravermelho e das cartas de pressão disponibilizadas no site da Marinha do Brasil. Foram analisadas as cartas e imagens para o dia anterior aos experimentos como também para o próprio dia de coleta. Os dados coletados em campo foram registrados e catalogados na Ficha de Campo (Anexo A). 54 55 QUADRO 3 – SÍNTESE DOS ASPECTOS GEOECOLÓGICOS E URBANOS DAS ÁREAS EXPERIMENTAIS DA PESQUISA ASPECTOS GEOECOLÓGICOS ASPECTOS DE NATUREZA URBANA ÁREAS EXPERIMENTAIS H (m) D (%) V T.V. SH E AR O Pe T.Vi FV FP FU 1. Av. Min. Albuquerque Lima 28 DM B A AU SE A SE AU II A A C 2. Terminal de ônibus 12 P B A AU EM B SE AU I A A C 3. Rua 319 12 P M MT AU SE M L M I MB MB R 4. Rua 448 A 15 P B A AU SE M NE AU II M M R 5. CSF Maciel de Brito 17 DA A MT AU EG B SE A I A MB R Legenda: Aspectos Geoecológicos: H – Hipsometria verificada em campo; D – Declividade verificada em campo e expressa nas categorias: • DM (Declive moderado – inclinação entre 5% e 30%), • DA (declive acentuado – inclinação maior que 30%) • P (Plano – declive de até 5%); V – vegetação verificada em campo e expressa nas categorias: • A (Alta), • M (Média), • B (Baixa), • A (Ausente); T.V. – Tipologia da Vegetação verificada em campo e expressa nas categorias: • MT (Mata de Tabuleiro), • RL (Ribeirinha ou Lacustre), • A (Antrópica), Aspectos de Natureza Urbana: O – Orientação dos Ventos Dominantes nas áreas experimentais verificadas em campo e expressa nas categorias: • Sv (Sotavento da direção Sudeste), • SE (Sudeste), • NE (Nordeste), • SW (Sudoeste), • NW (Noroeste) • E (Leste); E – Espaçamento entre as edificações verificado em campo e expresso nas categorias: • EG (Espaçamento Grande), • EM (Espaçamento Médio) • SE (Sem Espaçamento); Pe – Permeabilidade do terreno verificada em campo e expressa nas categorias: • A (Alta), • M (Média), • B (Baixa) e • A (Ausente); AR – Altura relativa das edificações verificadas em campo e expressa nas categorias: • A (Alta), • M (Média) e • B (Baixa); T.Vi – Tipologia das Vias verificada em campo e expressa nas seguintes categorias: • I (Calçamento), • II (Asfalto) • AU (Ausente), • SV (Ausência de Vegetação); SH – Superfície Hídrica verificada em campo e expressa nas categorias: • 1 (Rio/Riacho), • 2 (Lagoa), • AU (Ausente). FV – Fluxo de veículos verificado em campo e expresso nas categorias: • A (Alta), • M (Média), • B (Baixa), • MB (Muito Baixa) e • A (Ausente); FP – Fluxo de Pessoas verificado em campo e expresso nas categorias: • A (Alta), • M (Média), • B (Baixa), • MB (Muito Baixa) e • A (Ausente); FU – Função Urbana verificada em campo e expresso nas categorias: • C (Comercial), • R (Residencial), • L (Lazer). 1 56 2.7.3 - Fase III: Análise e representação dos dados Esta fase corresponde à análise e representação dos dados que foram apresentados por meio de figuras, mapas e tabelas. Os pontos de coleta de dados foram caracterizados, no que se refere aos padrões de ocupação, a partir da interpretação visual das imagens auxiliada pelos trabalhos de campo. A caracterização ocorreu num raio de 50 m² a partir do ponto e foi elaborada no programa Microstation versão 7.1. Os padrões de ocupação do solo nas áreas amostrais foram classificados em quatro categorias, sendo elas: área edificada, subdividida em edificações de 1, 2 e 3 pavimentos, via asfaltada e via não asfaltada; área vegetada, com vegetação arbórea e vegetação gramínea; área não edificada e outros usos. Essas categorias são apresentadas e descritas posteriormente no capítulo 3. A dinâmica atmosférica foi representada pelas Cartas de Pressão ao Nível do Mar do DHN do Ministério da Marinha do Brasil nos horários de 12 GMT (9 horas local) e 00 GMT (21 horas local) e pelas imagens do satélite GOES-10, no canal infravermelho, fornecido pelo CPTEC/INPE para cada horário das medições. Os dados climáticos coletados em campo (Anexos 1 e 2) foram organizados inicialmente em planilhas do Excel versão 2007 e posteriormente representados em tabelas construídas no Word versão 2007 com uma escala de cores para melhor se perceber os contrastes identificados na realidade intraurbana. Para o contexto inter-urbano foram comparados os dados coletados na área de estudo com os dados da Plataforma de Coleta de Dados de Caucaia. Os contrastes observados foram também sistematizados em tabelas no Word 2007. 57 3. O Conjunto Ceará: histórico, caracterização geoecológica e os padrões de ocupação do solo. No presente capítulo são apresentadas informações sobre o Conjunto Ceará, objeto de estudo da pesquisa. Na primeira parte é feita a localização da área, partindo para uma discussão sobre o surgimento dos conjuntos habitacionais na cidade de Fortaleza e um breve histórico do Conjunto Ceará. Posteriormente são apresentadas as características e a dinâmica climática da área de pesquisa tomando por base a cidade de Fortaleza e, por fim, são apresentados os padrões de ocupação do solo no Conjunto Ceará que serviram de base para a coleta de dados climáticos. 3.1 – Localização da área da pesquisa O Conjunto Ceará está localizado na porção sudoeste da cidade de Fortaleza, capital do Ceará (Mapa 2). O conjunto habitacional tem como limites os bairros Parque Genibaú ao norte, Granja Lisboa e Granja Portugal ao sul, João XXIII a leste e distrito de Jurema/Caucaia a oeste. As principais vias de acesso à área são as avenidas Vital Brasil, que corta os bairros Bom Sucesso e Granja Portugal, e a Avenida Senador Fernandes Távora, que dá acesso à área da pesquisa pelos bairros Joquei Clube e Autran Nunes. O Conjunto Ceará foi construído pela COHAB no final da década de 1970 com recursos do BNH. O objetivo era reduzir o déficit habitacional vivenciado por Fortaleza em virtude do crescimento populacional ocorrido neste mesmo período. Atualmente o bairro possui 303 ruas e 10 avenidas em seus 2.020 Km². As ruas têm nove metros de largura, enquanto as avenidas – de contorno e de penetração – possuem 14 metros de largura e um canteiro de 2 metros. As avenidas são denominadas pelas letras A, B, C, D, E, F, G (Figura 6), H, I, e a Avenida Ministro Albuquerque Lima, conhecida por Avenida Central (Figuras 7 e 8). 58 FIGURA 9: Canal da Avenida G Fonte: João Paulo Matias, 2009 FIGURA 10: Avenida Ministro Albuquerque Lima (Central) Fonte: João Paulo Matias, 2009 De um modo geral, as ruas são calçamentadas em pedras poliédricas e as avenidas com paralelepípedo. O Conjunto Ceará é integrante da 5ª região administrativa da cidade, sob a responsabilidade da Secretaria Executiva Regional V, que conta com os Bairros: Conjunto Ceará, Bom Jardim, Granja Portugal, Canindezinho, Parque São José, Siqueira, Parque Santa Rosa, Conjunto Esperança, Parque Genibaú, Vila Manoel Sátiro, Novo Mondubim, Jardim Cearense, Conjunto Pref. José Walter, Parque Pres. Vargas e Maraponga. 59 FIGURA 11: Monumento símbolo do Conjunto Ceará situado na Av. Min Albuquerque Lima Fonte: João Paulo Matias, 2009 A área é dividida em 4 etapas de acordo com a ordem de construção. Segundo dados do IBGE referentes ao Censo de 2000, a população local é de 41.854 habitantes vivendo em mais de 10.000 residências. O conjunto habitacional apresenta uma grande quantidade de atividades e serviços como escolas, igrejas, pontos comerciais, bancos e residências que se apresentam de certa forma concentrados no seu interior. Percebe-se áreas internas homogeneizadas, no que se refere às formas de uso e ocupação do solo. 60 16 3.2 - O surgimentos dos conjuntos habitacionais em Fortaleza Para entender o surgimento dos conjuntos habitacionais na cidade de Fortaleza, faz-se necessário evidenciar os processos de crescimento populacional e urbanização ocorridos na cidade, sobretudo, na segunda metade do século XX. É a partir da década de 50 que Fortaleza vivencia um rápido crescimento populacional motivado principalmente pelas migrações rurais-urbanas. Costa (2005) apresenta os principais fatores que desencadearam os fluxos migratórios para a capital do Ceará nesse período: Na segunda metade do século XX, a crise da agricultura cearense, a concentração fundiária e os longos períodos de estiagens contribuíram para intensificar as migrações ruraisurbanas e acelerar o crescimento populacional de Fortaleza. Além destes fatores que expulsam o homem do campo, a cidade passa a ser atraente para diferentes grupos sociais, em virtude do desenvolvimento do comércio e da indústria, da implantação de infra-estrutura e serviços e da oferta de empregos urbanos. (COSTA, 2005: 52) A cidade passa a ser vista como esperança de melhores condições de vida e de trabalho, uma vez que a estrutura social e as condições naturais no campo já não permitiam a permanência do homem na zona rural. Ao chegar à cidade, porém, esses migrantes não foram totalmente absorvidos pelo mercado de trabalho e a disponibilidade de moradia tornou-se cada vez mais difícil, uma vez que a cidade não consegue atender toda demanda populacional existente no espaço urbano. Segundo Souza (2006), o crescimento da cidade de Fortaleza torna-se expressivo a partir de 1950, representado por uma taxa de crescimento populacional de 49,9% em relação à década anterior. Esta mesma autora, tomando por base os dados do IBGE mostra o crescimento populacional entre os anos de 1890 - 2000, conforme observado na tabela. 62 TABELA 1: POPULAÇÃO DO ESTADO DO CEARÁ E DE FORTALEZA 1890 1900 1920 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 Estado do Ceará Crescimento População entre os recenseamentos (%) 805.687 849.127 5,4 1.319.228 55,3 2.091.032 58,5 2.695.450 28,9 3.337.856 23,8 4.491.590 34,5 5.380.432 19,7 6.366.647 18,3 7.417.402 16,5 Município de Fortaleza Crescimento População entre os recenseamentos (%) 40.902 48.369 18,2 78.536 62,3 180.185 129,4 270.169 49,9 514.813 90,5 857.980 66,6 1.303.919 52,5 1.768.637 35,2 2.141.402 21,0 Fonte: IBGE citado por Souza (2006) A partir da tabela percebe-se o rápido crescimento populacional de Fortaleza, sobretudo nas décadas de 50, 60, 70 e 80, que foi acompanhado pelo surgimento de uma série de problemáticas urbanas como saúde, segurança, educação, saneamento, habitação, dentre outros. Isso se deve ao fato de que o processo de urbanização verificado na cidade não foi acompanhado de uma política que contemplasse a demanda gerada desse crescimento. A questão habitacional surge então como uma dessas problemáticas em virtude da falta de moradia digna para muitos setores da população crescente de Fortaleza. Assim a realidade urbana de Fortaleza é marcada, principalmente nesse período, por um déficit habitacional expressivo e um crescimento desordenado na cidade. Como forma de amenizar esse problema, o governo passa a criar medidas como a construção de conjuntos habitacionais. Bernal (2004) cita: O crescimento desordenado de Fortaleza se intensificou a partir das décadas de 1940 e 1950, quando a população passou a ocupar áreas próximas aos centros industriais e comerciais, ocasionando o aumento e a concentração de favelas. Nas décadas de 1960 e 1970, os governos militares, com o objetivo de resolver os problemas de moradia, passaram a construir conjuntos habitacionais afastados da cidade, agravando com isto o problema dos transportes urbanos, diante da necessidade de deslocamento dos trabalhadores para o local de trabalho. (BERNAL, 2004: 157) 63 A localização dos conjuntos habitacionais distante do centro de Fortaleza foi um dos fatores propulsores para a expansão da cidade e para o surgimento de centros secundários. Como salienta Costa (2005), o crescimento populacional é um processo espacial e demográfico, pois o aumento da população leva à expansão da malha urbana e ao seu adensamento. Este crescimento se deu de forma intensa e desordenada, gerando um déficit habitacional e a consequente ocupação de áreas não habitadas e de grande precariedade em Fortaleza, fazendo crescer o número de moradias sem infraestrutura básica em locais que, além de depreciar o valor paisagístico, geralmente possuíam um elevado nível de risco para a população que os ocupavam (FREITAS et al, 2006). A construção de conjuntos habitacionais nas áreas periféricas da cidade era uma das soluções para amenizar o déficit habitacional em Fortaleza. Costa (2005) relata esse processo: Na década de 70, com base na política do Banco Nacional de Habitação, que utilizava recursos do FGTS para financiar habitações populares a baixo custo, no intuito de reduzir o déficit habitacional e responder às pressões populares, vários conjuntos habitacionais foram edificados em Fortaleza. [...] Esses conjuntos, localizados em áreas distantes, foram fatores fundamentais para a expansão das cidades. Os moradores organizados exigiam do poder público infra-estrutura e serviços, os quais favoreciam a valorização de vazios urbanos. (COSTA, 2005: 84-85) No contexto da problemática de déficit habitacional das principais cidades brasileiras, foi criado, em 1964, o Sistema Financeiro de Habitação – SFH, com o objetivo de promover e financiar a construção de habitação para a população de baixa e média renda e abrir linhas de financiamento para a população de maior poder aquisitivo. O Banco Nacional de Habitação – BNH era o órgão gestor e normatizador dessa política habitacional (CEARÁ, 2004). A criação do Sistema Financeiro de Habitação – SFH, em 1964, pode ser considerada um marco nas discussões acerca do acesso à moradia. Antes de 1964 a demanda habitacional não chegava a ser tão expressiva e, portanto, o desenvolvimento de programas e políticas definidos para o setor habitacional no Brasil era praticamente inexistente (FREITAS et al, 2006) 64 Segundo relatório da Secretaria de Infra-Estrutura do Estado do Ceará (2004), após o ano de 1964, a política habitacional brasileira divide-se em 3 fases em função de modificações que visavam identificar os principais erros e acertos dos programas habitacionais desenvolvidos no país. São elas: fase 1964-1986, marcada pela efetiva atuação do SFH em 1967, quando se deu a criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS; fase 1987-1995, caracterizada pelo Programa Nacional de Mutirões Habitacionais da SEHAC, e finalmente a fase compreendida entre os anos 1996-2000, onde os Estados e Municípios passaram a ter maior autonomia na aplicação dos recursos geridos pela Caixa Econômica Federal (CEARÁ, 2004). Nos primeiros anos na política habitacional brasileira, compreendidos entre 1964 e 1968, a intensa explosão demográfica e o acelerado processo de urbanização pelos quais o país passava nesse período provocaram a produção de habitação em massa e em curto prazo, através da adoção de um modelo equivocado, podendo até ser considerado trágico, que foi a construção de grandes conjuntos habitacionais localizados na periferia das grandes cidades para atendimento às famílias com renda a partir de 01 salário mínimo. No Ceará também ocorria um processo de urbanização acelerado, inclusive na Região Metropolitana de Fortaleza, o que contribuiu para que, até 1986, houvesse a proposta de construção de grandes conjuntos habitacionais populares, implantados através da Companhia de Habitação do Ceará – COHAB que tinha como objetivo o atendimento às famílias com renda de até 03 salários mínimos (CEARÁ, 2004). A partir de 1987, o Governo Federal lançou o Programa Nacional de Mutirões Habitacionais, através da SEHAC – Secretaria Especial de Habitação e Ação Comunitária, prevendo o atendimento das camadas sociais até então excluídas do SFH. A SEHAC teve curta duração e, além disso, não obteve êxito na realização dos seus objetivos, deixando os Estados, inclusive o Ceará, em grandes dificuldades por ter iniciado a construção de habitações em regime de mutirão, com recursos do Tesouro Federal, cujos repasses foram suspensos antes de suas conclusões, obrigando o Estado a investir complementarmente. Procurando dar continuidade as políticas habitacionais, o Governo do Estado através da Secretaria de Desenvolvimento Urbano – SDU resolveu continuar o Programa Mutirão Habitacional, e a iniciar o Programa de Urbanização de 65 Favelas com os mesmos objetivos e critérios anteriormente utilizados, tendo como agente promotor a COHAB-CE (CEARÁ, 2004). No período compreendido entre 1996-2000 houve certa descentralização nas decisões da aplicação dos recursos para o setor habitacional, fortalecendo os papéis dos Estados e dos Municípios na execução da política habitacional popular e da CEF como gestor dos recursos, oriundos do OGU, FGTS e de Empréstimos Internacionais. Com o objetivo de se implementar políticas habitacionais foram criados para o setor público os seguintes programas: PróMoradia, Pró-Saneamento, Programa Habitar Brasil, Programa de Ação Social em Saneamento, Programa Morar Melhor, Programa Urbanização de Favelas e Programa Vilas Rurais. No decorrer das políticas habitacionais brasileiras, um dos fatos marcantes foi a construção em massa de conjuntos habitacionais, o que provocou uma séria de problemas na cidade como falta de infraestrutura, saneamento básico, segurança etc. A localização dos conjuntos habitacionais distantes das áreas centrais de Fortaleza viabilizava a aquisição de terrenos bem mais baratos permitindo que a população de baixo poder aquisitivo pudesse ser atendida pelos programas habitacionais. Os custos maiores correspondente às obras de infraestruturas e demais equipamentos sociais ficavam por conta dos governos estaduais e municipais. Nesse processo percebe-se a ação do Estado como um grande agente produtor do espaço urbano. A partir disso, Fortaleza teve os seus primeiros conjuntos habitacionais construídos nas décadas de 70, sendo eles: Cidade 2000, Prefeito José Walter, Conjunto Ceará, Beira Rio, Nova Assunção, Santa Luzia do Cocó, dentre outros (SOUZA, 2006). A partir da década de 80, outros conjuntos habitacionais são construídos na Região Metropolitana de Fortaleza, muitos dos quais funcionando como bairros da própria cidade e/ou como cidades dormitórios. No mapa, percebe-se o grande número de conjuntos habitacionais na realidade urbana de Fortaleza como também nos municípios vizinhos. Observa-se, como já exposto, a localização distante das áreas centrais de Fortaleza. 66 MAPA 2 - Localização dos Conjuntos Habitacionais em Fortaleza Fonte: PEQUENO, 2008 Muitos desses espaços foram construídos sem se levar em conta estudos das condições naturais, implantação de infraestrutura e etc., causando um crescimento desordenado. Sob a ótica do planejamento urbano este modelo ignorou as consequências em longo prazo e denunciou a ausência de visão urbanística dos planejadores, que promoveram o assentamento de milhares de famílias, em áreas distantes da malha urbana, surgindo assim, muitas das cidadesdormitório, com todos os problemas sociais inerentes às comunidades segregadas espacialmente (CEARÁ, 2004). O tecido urbano de Fortaleza foi expandido tanto pelo poder público com a construção de conjuntos habitacionais (Mapa 3), como pelo setor imobiliário, através de loteamentos, e ocorreu de forma descontínua e fragmentada (SILVA & LOPES, 2006). A localização dos conjuntos habitacionais que tanto contribuiu para a expansão da malha urbana representou ainda um custo maior aos cofres públicos uma vez que a população residente nessas áreas necessitava, e ainda necessita de infraestrutura. Em muitos casos, a infraestrutura desses espaços foi implantada de forma não planejada. 67 TABELA 2: Construção de conjuntos habitacionais da Região Metropolitana de Fortaleza CONJUNTOS HABITACIONAIS Pirambu Monte Castelo Aliança I Aliança II Sobral I Sobral II Santa Luzia do Cocó Prefeito José Walter Conjunto Ceará I Conjunto Ceará II Conjunto Ceará III Conjunto Ceará IV Novo juazeiro I Industrial Esperança Novo Mondubim Acaracuzinho Timbó Planalto Caucaia Araturi I Araturi II Nova Metrópole Nova metrópole II Jereissati I Jereissati II Jereissati III UNIDADES HABITACIONAIS 218 380 84 48 469 400 294 4.774 966 2.516 2.037 3.150 220 1.276 2.039 720 1.976 2.900 1.264 1.413 817 1.576 1.420 5.000 5.000 1.334 ANO DE CONCLUSÃO 1967 1968 1970 1980 1970 1983 1971 1973 1977 1978 1979 1981 1979 1979 1981 1982 1982 1983 1984 1985 1985 1985 1985 1985 1986 1987 Fonte: http://conjceara.blogspot.com/ Mesmo com o grande número de conjuntos habitacionais construídos na cidade de Fortaleza toda a demanda habitacional não foi plenamente atendida. Apenas uma pequena parte da população foi beneficiada pelos conjuntos habitacionais financiados pela COHAB e demais órgãos, uma vez que os critérios dos programas muitas vezes limitavam o acesso de muitos segmentos sociais a esse programa. Souza (2006) apresenta a realidade atual desses espaços construídos: Referidos conjuntos vem passando, nos últimos anos, por mudanças na estrutura física de suas habitações, presenciando-se, comumente, a ampliação ou reforma das mesmas. Vem-se constatando, nas últimas décadas, uma diversificação da população ali residente. Com efeito, é significativo o número de funcionários públicos e profissionais liberais que vem adquirindo casas nestes conjuntos. Supõe-se 68 que este fato esteja relacionado ao próprio empobrecimento da classe média, nos últimos anos (SOUZA, 2006). Atualmente, esses conjuntos habitacionais apresentam uma densidade populacional considerável e um grande número de atividades, alguns deles chegando a ser polos de serviços com relação a bairros vizinhos, como é o caso do Conjunto Ceará. 3.3 - Um breve histórico do Conjunto Ceará O relato da história do Conjunto Ceará aqui apresentado foi extraído do livro Conjunto Ceará: Pólo de Desenvolvimento, produzido pelo Projeto de Desenvolvimento Comunitário do Conjunto Ceará – PRODECOM, no ano de 1999. O início da construção do Conjunto Ceará ocorreu na década de 70, no momento em que a cidade de Fortaleza passava por um inchaço populacional decorrente dos migrantes castigados pela seca no interior do estado e que viam na cidade a possibilidade de melhoria de vida. A solução encontrada para o déficit habitacional na cidade, como já exposto acima, era a construção de conjuntos habitacionais. No caso do bairro em análise, o Conjunto Ceará, o objetivo era construir um conjunto habitacional por etapas ao longo da década de 70 que pudesse atender às famílias de baixa renda que viviam em situações de risco. O financiamento para a obra era proveniente dos recursos do BNH, tendo a COHAB como órgão executor do projeto. Embora o projeto inicial fosse a construção do conjunto ao longo da década de 70, este foi iniciado apenas em 1976. No ano seguinte, em 10 de novembro de 1977, a 1ª etapa do conjunto foi inaugurada já tendo os seus primeiros habitantes ocupando as residências. Nesta primeira fase foram construídas 966 unidades habitacionais entregues posteriormente à população pelo então governador do estado, Adauto Bezerra. Os primeiros habitantes do conjunto enfrentaram sérios problemas no que se refere ás condições de infraestrutura como: saneamento básico, uma vez que nem toda a área foi contemplada com este serviço; inundações nos 69 períodos chuvosos; além de vias inacabadas dificultando o trânsito de veículos e pessoas no interior da área construída. O isolamento é outro ponto levantado, pois o terreno onde se deu a construção do conjunto habitacional era distante dos locais de trabalho como também de difícil acesso a outros serviços como saúde, comércio, dentre outros. O fato era agravado pela deficiência dos transportes públicos na cidade. Os primeiros moradores tinham que andar até a Avenida Emílio de Menezes, situada no bairro vizinho, Granja Portugal, ponto final das linhas de ônibus que operavam naquela região. Outras problemáticas eram também vivenciadas, como a insegurança. Nos anos seguintes houve a conclusão e inauguração das outras etapas do conjunto habitacional: em 1978, a 2ª etapa com 2.516 unidades habitacionais; em 1979 foi concluída a 3ª etapa, e, por fim, em 1981, a 4ª etapa foi entregue aos habitantes do conjunto. Na década de 80 o bairro passa por sérios problemas decorrentes, em grande parte, dos períodos chuvosos. Ruas intransitáveis e de difícil acesso para a circulação dos moradores eram os problemas mais perceptíveis, associados à coleta insuficiente de lixo. Essa situação levou a população a exigir do poder público uma reforma na área e para isso, foi elaborado um projeto a ser entregue ao BNH no final da década de 80. No entanto, com a extinção do BNH os recursos destinados às políticas habitacionais passaram a ser gerenciados pela Caixa Econômica Federal e, diante de alguns impasses entre os governos federal, estadual e municipal, o projeto de reforma do Conjunto Ceará não foi colocado em prática logo de início. A reivindicação dos moradores foi, em parte, atendida somente no início da década de 90, com a reforma das 1ª, 2ª e 3ª etapas. A 4ª etapa ficou para ser reformada nos anos seguintes. Nessa reforma, as vias de circulação foram recuperadas e arborizadas, os canais pluviais das avenidas G e C foram urbanizados e nesse mesmo período foi construído o polo de lazer Luiz Gonzaga (Figura 10). É partir da década de 90 que o Conjunto Ceará começa a manifestar características de um polo de atração para os bairros vizinhos. Diversos equipamentos urbanos e serviços são implantados no bairro, passado assim a contribuírem para esse processo. 70 Atualmente o bairro registra mais de 700 estabelecimentos, entre comércio, indústria e prestação de serviços (www.conjuntoceara.com). O Conjunto Ceará, através de seus equipamentos urbanos e serviços, atrai grande número de moradores de bairros vizinhos como Bom Jardim, Granja Portugal, Granja Lisboa, Genibaú e mesmo de Caucaia que procuram serviços bancários, atendimento médico, e diversos segmentos do comércio, principalmente na área de entretenimento. Os eventos culturais realizados no bairro como festas juninas, carnaval e demais espetáculos artísticos e culturais incrementam ainda mais para esse processo de polarização na região sudoeste de Fortaleza. FIGURA 12: Polo de lazer Luiz Gonzaga Fonte: João Paulo Matias, 2009 FIGURA 13: Centro Cultural Patativa do Assaré Fonte: João Paulo Matias, 2009 71 Os principais pontos de serviços encontrados na área do Conjunto Ceará são: as agências bancárias, hospital, postos de saúde, terminal de ônibus, estabelecimentos comerciais em diversos segmentos, escolas e centro cultural (Figura 11) que se apresentam de certa forma concentrados no interior do conjunto. A concentração da maior parte desses serviços localiza-se na Avenida Ministro Albuquerque Lima, também conhecida como Avenida Central, que é o corredor comercial do bairro. As outras etapas do bairro são de características predominantemente residenciais. 3.4 – Caracterização Geoecológica 3.4.1 – Características geológicas/geomorfológicas, pedológicas, hidrográficas e vegetacionais. As características geoecológicas da área de estudo, neste tópico apresentadas, referem-se aos aspectos geológicos, geomorfológicos, hidrográficos, pedológicos e vegetacionais. Para a caracterização dessas condições naturais do Conjunto Ceará foram utilizados como referência os estudos de Souza (1988), Claudino-Sales (2005), Lima (2004) e Nascimento (2007), que tratam desses aspectos geoambientais para o Ceará e, consequentemente, para Fortaleza. Os aspectos geológicos/geomorfológicos são caracterizados pela presença de coberturas sedimentares cenozóicas, representadas pela Formação Barreiras, que formam os tabuleiros costeiros. A Formação Barreiras é constituída por sedimentos areno-argilosos tercio-quaternários de origem continental. Esse material distribui-se como uma faixa de largura variável acompanhando a linha de costa estando à retaguarda dos depósitos holocênicos da planície litorânea. Os tabuleiros costeiros, modelados no topo da formação barreira, são relevos predominantemente planos com trechos suavemente ondulados distribuídos ao longo do litoral em faixa praticamente contínua, entre as planícies costeiras e as depressões sertanejas. As altitudes desses relevos 72 variam em média entre 30 a 80 metros, diminuindo gradativamente do interior em direção ao mar. Quanto à hidrografia, a área de estudo está inserida na Bacia do Rio Maranguapinho correspondente a uma faixa norte-sul que se estende nas proximidades da foz do Rio Ceará até o bairro Siqueira e possui 96 Km2 de área. É formada por oito sub-bacias, cujos mananciais mais importantes são: Riacho da Lagoa da Parangaba, Açude da Agronomia, Riacho do Açude João Lopes, Riacho Sangradouro do Açude da Agronomia, Riacho da Lagoa do Mondubim, Rio Maranguapinho, Braço do Rio Maranguapinho e Riacho Correntes. As classes de solos encontradas estão praticamente todas modificadas devido à ocupação urbana. Os principais tipos de solos da área são: Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico, Argissolo Vermelho-Amarelo Eutrófico, Neossolos Flúvicos e Neossolos Quartzarênicos. Os Argissolos Vermelho-Amarelo Distróficos e Eutróficos ocorrem principalmente na zona pré-litorânea, em relevo plano a suave ondulado, no domínio dos sedimentos da Formação Barreiras. São profundos, bem desenvolvidos, com horizonte B de cores vermelho amarelado a vermelho e textura média a argilosa abaixo de um horizonte A ou E de cores cinzentas ou claras e de textura arenosa a média. Possuem baixa fertilidade natural, com deficiência de água e suscetibilidade à erosão. Os Neossolos Flúvicos são formados a partir da sedimentação fluvial, distribuindo ao longo das planícies fluviais. São poucos desenvolvidos de pouco profundos a muito profundos, comumente apresenta um horizonte A sobre uma sucessão de camadas estratificadas sem nenhuma relação pedogenética entre si, possuindo textura desde arenosa até argilosa. Eles possuem alta fertilidade natural e grande potencialidade para o uso agrícola. Os Neossolos Quartzarênicos são pouco desenvolvidos com seqüência de horizontes A e C, de profundos a muito profundos, arenosos, constituídos essencialmente de grãos de quartzo. Sua coloração é ligeiramente escura no horizonte A, passando a amarelada ou cinzenta clara no horizonte C. São solos pobres, praticamente sem reservas de nutrientes e de baixa capacidade de retenção de água para as plantas. 73 Quanto às características da vegetação, estas encontram-se bastante alteradas devido o processo de urbanização ocorrido em Fortaleza. A cidade apresenta unidades vegetacionais definidas como Complexo Vegetacional Litorâneo, o qual se subdivide em Vegetação Pioneira, Mata à retaguarda de dunas, Vegetação de Tabuleiro, de duna, Vegetação de Mangue, Vegetação Ribeirinha e Vegetação Lacustre. O PDDU de Fortaleza (2006) aponta ainda a vegetação antrópica presente de forma mais expressiva em áreas não loteadas ou com loteamentos ou lotes entremeados de pequenos sítios situados, sobretudo, na periferia da cidade, como é o caso do Conjunto Ceará. Na área de estudo, a vegetação primitiva é a Vegetação de Tabuleiro que foi desmatada para a construção do conjunto habitacional. Atualmente, pequenas porções dessa vegetação são encontradas na área do bairro. 3.4.2 – Caracterização Climática O Conjunto Ceará insere-se nas classificações climáticas propostas para Fortaleza, uma vez que é parte integrante da cidade. Desse modo, serão apresentados as características do clima de Fortaleza e os principais sistemas atmosféricos atuantes na cidade como forma de entender a dinâmica que atua também na área de interesse da pesquisa. O clima de Fortaleza é analisado a partir de diversas classificações, sendo praticamente todas de base genérica, como bem aponta Moura (2008). Este mesmo autor ressalta a importância de se desenvolver uma classificação climática genética do clima de Fortaleza para o melhor entendimento dos mecanismos atuantes e das características do clima da cidade. Silva et al (2004) apresenta o clima de Fortaleza sob o domínio do Clima Tropical Quente Sub-úmido, caracterizado por apresentar índices pluviométricos variando ente 1.000 e 1.350 mm anuais com temperaturas médias superiores a 24º C. Outra classificação a ser considerada para o clima da cidade de Fortaleza é a de Xavier (2001). A autora define Fortaleza como integrante da 74 Região do Litoral 3 (L3G – Litoral de Fortaleza). Esta classificação decorre de um trabalho estatístico realizado por esta autora tomando por base a distribuição dos postos pluviométricos do estado do Ceará no período compreendido entre 1964 e 1996. Foi considerada a quadra chuvosa do estado, correspondente aos meses de fevereiro, março, abril e maio, e utilizada a técnica dos Quantis para identificar os anos chuvosos e secos e seus limites. Desse modo, Fortaleza integra a Região L3G com os seguintes limites inferiores e superiores de precipitação: ano muito seco (0mm e 762,7mm), ano seco (762,7mm e 921,8mm), ano normal (921,8mm e 1311,0mm), ano chuvoso (1311,0mm e 1612,3mm) e ano muito chuvoso (índices pluviométricos superiores a 1612,3mm). Como já citado acima as classificações apresentadas possuem um caráter genérico, o que revela a importância e urgência de trabalhos que busquem uma compreensão genética do clima da cidade para que Fortaleza seja alcançada. 3.4.2.1 - A dinâmica atmosférica Para uma melhor compreensão da dinâmica climática no Conjunto Ceará faz-se necessário conhecer os sistemas atmosféricos que atuam no clima de Fortaleza e as influências diretas e indiretas que estes repercutem na cidade. Assim, pode-se enumerar os principais sistemas atmosféricos presentes e atuantes em Fortaleza: a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCA’s), os Complexos Convectivos de Mesoescala (CCMs), as Linhas de Instabilidade, as Ondas de Leste e as Brisas marítimas e terrestres, assim como também o El Niño e o Dipolo do Atlântico. Cada um desses sistemas possui características que, quando atuam na cidade, condicionam os diferentes tipos de tempo observados. 75 A Zona de Convergência Intertropical A ZCIT é o principal mecanismo causador de chuva na região do Nordeste do Brasil e, portanto, principal agente também na área de interesse da pesquisa. Molion & Bernardo (2002) definem a ZCIT como sendo: Uma extensa região de convergência dos ventos Alísios de nordeste, oriundos do sistema de alta pressão ou anticiclone subtropical do HN [hemisfério norte] e dos ventos alísios de sudeste, provenientes da alta subtropical do HS [hemisfério sul]. É caracterizada por movimentos ascendentes, baixas pressões, uma banda de nebulosidade e chuvas no sentido leste-oeste aproximadamente. (MOLION & BERNARDO, 2002: 2) Ferreira e Mello (2005) apontam ainda como condicionantes da ZCIT as altas temperaturas da superfície do mar sobre o Oceano Atlântico Tropical, o que determina a posição e intensidade desse sistema, associadas a uma intensa atividade conectiva e à precipitação. A influência mais expressiva deste sistema atmosférico de grande escala no Nordeste brasileiro, e consequentemente na cidade de Fortaleza, ocorre entre os meses de fevereiro a abril quando a ZCIT atinge uma posição mais ao sul, aproximadamente 2º a 4º S por ter migrado de sua posição mais ao norte, 14º N, em agosto-outubro. Para a cidade de Fortaleza e o estado do Ceará, a ZCIT é o principal causador de chuva, sendo esta a responsável pelo estabelecimento da quadra chuvosa no Estado. Molion & Bernardo (2002) citam a relação existente entre a ZCIT e o comportamento da pluviometria no Nordeste do Brasil. Os anos considerados secos na região correspondem também ao bloqueio da ZCIT mais ao norte de sua posição normal. Desse modo, o Nordeste fica sob uma região de subsidência o que inibe a precipitação. Do contrário, em anos considerados chuvosos, a ZCIT desloca-se até os 5º S, aumentando sua intensidade devido a um aumento de convergência. 76 FIGURA 14: ZCIT mostrada através das imagens do satélite METEOSAT-7. Fonte: FUNCEME, 2006. Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN’s) Os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis (VCA’s), de origem tropical, são formados no Oceano Atlântico principalmente nos meses de janeiro e março e com maior frequência nos meses de janeiro e fevereiro. Esses sistemas movimentam-se de leste para oeste e possuem um tempo de vida que varia, em média de 7 a 10 dias. Os VCA’s caracterizam-se por um aglomerado de nuvens no formato de um círculo girando no sentido horário. Na periferia do sistema formam-se nuvens causadoras de chuvas e no centro ocorre uma subsidência do ar aumentando a pressão e inibindo o processo de formação de nuvens. (FERREIRA e MELLO, 2005) FIGURA 15: Atuação do sistema VCAN’s. Fonte: Funceme (2006). 77 Linhas de Instabilidade As Linhas de Instabilidade são um aglomerado de nuvens causador de chuvas, sendo essas nuvens geralmente do tipo cumulus, que se organizam em forma de linhas (SOUSA, 1998). A formação das Linhas de Instabilidade ocorre pela grande quantidade de radiação solar incidente sobre a região tropical formando o desenvolvimento de nuvens cumulus que atingem um número máximo no período da tarde/noite gerando assim chuvas (FERREIRA e MELLO, 2005). As Linhas de Instabilidade que atuam na costa cearense são formadas pela repercussão de brisas marítimas e pelas linhas de convergência da ZCIT (FUNCEME, 2006). FIGURA 16: Linha de Instabilidade atuando no litoral nos estados Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Fonte: Funceme (2006). 78 Complexos Convectivos de Mesoescala Souza (1998) define os Complexos Convectivos de Mesoescala (CCM’s) como um aglomerado de nuvens que se formam devido às condições locais favoráveis como temperatura, relevo, pressão etc., provocando fortes chuvas com curta duração, e normalmente acompanhadas por fortes rajadas de vento. Ocorre preferencialmente nas estações da primavera e verão no hemisfério sul e geralmente formam-se no período noturno com um ciclo de vida entre 10 e 20 horas. FIGURA 17: Atuação de um CCM sobre a cidade de Fortaleza no dia 24/04/98 às 8 h local. Fonte: Funceme Molion e Bernardo (2002) apresentam a dinâmica desse sistema: Essas penetrações produzem grandes complexos convectivos de escala subsinóptica (CCS) na região da ZCIT que, por sua vez, geram perturbações ondulatórias no campo dos ventos alísios (POAS). As POAS se propagam para oeste com velocidade de 6º a 8º de longitude por dia, cruzam o Equador, mas não tem condições de se desenvolverem sobre o oceano devido à forte inversão psicrométrica sempre presente sobre o campo dos alísios. Porém geralmente se intensificam quando chegam à costa, devido ao aumento da convergência de umidade e ao contraste térmico entre continente e oceano. (MOLION & BERNARDO, 2002: 4). 79 Ondas de Leste As ondas de leste são formadas no campo de pressão atmosférica, na faixa tropical, na região influenciada pelos ventos alísios. Esse sistema apresenta um deslocamento de leste para oeste, ou seja, desde a costa da África até o litoral do Brasil. FIGURA 18: Nebulosidade oriunda das ondas de leste. Fonte: Funceme (2006) Xavier (2001) cita esse sistema ao apresentar a dinâmica das chuvas no litoral leste do Nordeste brasileiro: [...] mencionemos as ondas de leste, que se propagam a partir da costa da África e cuja intensificação pode dar-se em função da presença de massas de ar carregadas de umidade formadas sobre o Atlântico Sul (entre a linha do Equador e o paralelo 20 graus sul), especialmente quando o mar apresenta 80 significativas anomalias de temperatura. Demais, também deve contribuir um possível aumento da “componente zonal” do vento sobre o atlântico nessas latitudes. (XAVIER, 2001: 366) Quando em condições oceânicas e atmosféricas favoráveis, esse sistema provoca chuvas no Ceará nos meses de junho, julho e agosto (FERREIRA e MELLO, 2005). Brisa marítima (Oceânica) e Brisa terrestre (Continental) O sistema de brisas é resultado das diferenciações térmicas entre superfícies terrestres e superfícies aquáticas. São mais fortes e ocorrem mais regularmente na região dos trópicos (AYOADE, 2003:92). Mendonça (2007) apresenta o processo de formação desses ventos locais: Nas costas oceânicas e de grandes lagos, a eficiência do aquecimento do solo em relação á superfície líquida adjacente faz com que à tarde o ar esteja mais aquecido em terra, propiciando a formação de uma célula convectiva [...]. Com o surgimento do gradiente barométrico, criado pela presença de uma alta pressão sobre a água e de uma baixa pressão sobre a terra, ao entardecer, o ar escoa em direção ao continente, gerando a brisa oceânica. No período da noite, como o solo também é mais eficiente em perder calor do que a água, o gradiente de pressão inverte-se, formando uma alta pressão sobre a terra e uma baixa pressão sobre a água. Em decorrência desse contraste barométrico, o ar flui do continente em direção à costa, configurando a brisa continental. (MENDONÇA, 2007:80) Sistema Tropical Atlântico (TA) Sousa (1998) define o sistema Tropical Atlântico como resultado do Anticiclone Semifixo do Atlântico Sul, um centro de alta pressão formado na região quente do Atlântico Sul, produtor da Massa Tropical Atlântica (mTa). A atuação da TA é constante ao longo do ano e traz condições de estabilidade no inverno e de instabilidade no verão. De acordo com Mendonça (2007), a mTa é: 81 [...] uma das principais massas de ar da dinâmica atmosférica da América do Sul e, particularmente, do Brasil, onde desempenha considerável influência na definição dos tipos climáticos. [...] Possui características de temperaturas e umidades elevadas. Sua mais expressiva atuação nos climas do Brasil, por meio de correntes de leste e de nordeste, dá-se no verão, quando, atraídas pelas relativas baixas pressões que se forma sobre o continente, traz para a atmosfera deste bastante umidade e calor, reforçando as características da tropicalidade climática do país. (MENDONÇA, 2007: 110) O sistema TA apresenta alta umidade relativa, e quando avança sobre o continente gera temperaturas mais elevadas, pressão e umidades relativas baixas, sendo assim responsável pelas condições de estabilidade de tempo sobre Fortaleza, sobretudo no inverno e primavera, sendo um dos sistemas de maior predominância na cidade (MOURA, 2008). Influências do El Niño Oscilação Sul (ENOS) e Dipolo do Atlântico O El Niño Oscilação Sul (ENOS) e o Dipolo do Atlântico apresentam relações com o clima de Fortaleza e consequentemente com a área de estudo. O fenômeno ENOS é uma associação de dois mecanismos existentes entre o oceano e atmosfera. Berlato e Fontana (2003) explicam o fenômeno: O El Niño (EN) representa o componente oceânico do fenômeno, enquanto a Oscilação Sul (OS) representa a contrapartida atmosférica. [...] Na verdade, o fenômeno ENOS faz parte de uma variação irregular em torno das condições normais do oceano e da atmosfera na região do Pacífico tropical. Um extremo dessa variação é representado pelas condições de El Niño, quando se verifica um aquecimento das águas simultaneamente com diminuição da pressão atmosférica no Pacífico leste (também denominada fase quente ou fase negativa), e o outro extremo da variação é representado pelas condições de La Niña, quando ocorre um resfriamento das águas e aumento na pressão atmosférica na região leste do Pacífico (também denominada fase fria ou fase positiva). (BERLATO e FONTANA, 2003: 20-21) Já o dipolo do Atlântico é a diferença entra a anomalia da Temperatura da Superfície do Mar – TSM - na bacia do Atlântico Norte e Oceano Atlântico 82 Sul. Quando as águas do Atlântico sul estão mais frias, o Sistema de Alta Pressão do Atlântico sul e os ventos alísios se intensificam. Se neste mesmo período as águas do Atlântico Norte estiverem mais quentes, o Sistema de Alta Pressão do Atlântico Norte e os ventos alísios de nordeste se enfraquecem. Esse processo faz com que a ZCIT se desloque para posições mais ao norte do Equador, favorecendo anos mais secos para a parte norte do Nordeste do Brasil (Dipolo Positivo). Quando o processo ocorre de maneira inversa (Dipolo Negativo), a ZCIT se desloca para posições mais ao sul da linha do Equador, contribuindo para a ocorrência de anos normais, chuvosos ou muito chuvosos para o mesmo setor (FERREIRA & MELLO, 2005). O El Niño, dependendo de sua intensidade e do período do ano em que ocorre é um dos responsáveis por anos secos ou muito secos no nordeste do Brasil, sobretudo, quando associado com o Dipolo Positivo. O fenômeno La Niña associado ao Dipolo Negativo é normalmente responsável por anos mais chuvosos nesta mesma região (FERREIRA & MELLO, 2005). 3.4.2.2 – Análise dos atributos do clima As variáveis meteorológicas de Fortaleza podem ser analisadas a partir das Normais Climatológicas fornecidas pela Estação Meteorológica do Campus do Pici, situada no Campus do Pici e pertencente ao Departamento de Engenharia Agrícola do Centro de Ciências Agrárias da UFC. Pela análise das normais é possível identificar o comportamento de atributos climáticos de Fortaleza como: temperatura, precipitação, umidade relativa do ar, velocidade do vento, nebulosidade, insolação, evaporação e pressão atmosférica. Esses dados apresentados referem-se ao de período de 1972 a 2001. A temperatura média anual da cidade é de 26º C, com médias mensais variando entre 26º C no mês de julho e 27,6º C no mês de dezembro. A média da temperatura máxima registrada corresponde a 30,3º C, sendo a média mensal mais reduzida (29º C) registrada no mês de julho e as taxas mais elevadas (31,1º C) nos meses de novembro e dezembro. Já a temperatura 83 mínima média é de 23,5º C, com taxas mais inferiores de 22,6º em agosto e superiores de 24,5º C em dezembro (Figura 16a). No que se refere à precipitação, as médias anuais são de 1608,4mm, com índices extremos mensais superiores a 350mm em abril e 13mm em novembro. A concentração das chuvas se dá no primeiro semestre, correspondente a 87,2% das chuvas ocorridas durante o ano. O quadrimestre mais chuvoso é representado pelos meses de fevereiro a maio, onde ocorrem 79,6% da chuva total do primeiro semestre. A umidade relativa do ar revela uma media anual de 78%, com uma variação de 84% no mês de abril e 73% nos meses de setembro e outubro, sendo, portanto, esses os meses mais secos do ano. A velocidade do ar apresenta uma média anual de 3,7 m/s. Os fluxos de ar são registrados na cidade de Fortaleza com menor intensidade no primeiro semestre, sendo as taxas mais reduzidas ocorridas nos meses de março (2,6 m/s) e abril (2,5 m/s). No segundo semestre ocorre comportamento inverso, pois é neste período que os ventos intensificam registrando valores mais acentuados nos meses de setembro (4,7 m/s) e outubro (4,6 m/s). Vale ressaltar que esta variável é uma das que mais são influenciadas pela rugosidade da superfície. A nebulosidade apresenta comportamento atrelado à dinâmica das chuvas. No primeiro semestre essa variável apresenta valores mais elevados com taxas mensais de 6,6/10 nos meses de março e 6,4/10 nos meses de abril. Os valores mínimos são registrados nos meses mais secos do ano, como agosto, setembro e outubro. A insolação registra uma soma anual de 2.832,3 horas com valores mais baixos na quadra chuvosa do estado e índices mais elevados no segundo semestre. As taxas de evaporação são menores no primeiro semestre, sendo no mês de abril que ocorrem os índices mais reduzidos (66,2 mm). Já no segundo semestre essas taxas de evaporação acentuam-se principalmente no mês de outubro que registra maior índice (162,5mm). 84 a- Normal Climatológica Temperatura Média, Máxima e Mínima. Precipitação Média Mensal para Fortaleza (1972-2001) 350 P r e c i t 250 o 200 m m ) a 300 ã ( i p ç 150 100 50 0 JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ b- Normal Climatológica Precipitação Umidade Relativa média para Fortaleza (1972-2001) 85 80 75 70 65 JAN FE V M A R A B R M AI J UN J UL A GO SE T OUT NOV DE Z c- Normal Climatológica Umidade Relativa Média FIGURA 19 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (1972-2001) 85 Velocidade do Vento para Fortaleza (1972-2001) 5 4,5 4 3,5 3 2,5 2 1,5 1 0,5 0 JA N FE V M A R A B R M AI J UN J UL A GO SE T OUT NOV DE Z a- Normal Climatológica Velocidade do Vento Nebulosidade para Fortaleza (1972-2001) 7 6 5 4 3 2 1 0 JA N FE V M AR ABR M AI J UN J UL A GO SE T OUT NOV DE Z b- Normal Climatológica Nebulosidade Insolação média para Fortaleza (19722001) 350 300 250 200 150 100 50 0 JA N FE V M A R A B R M AI JUN JUL A GO SE T OUT NOV DE Z c- Normal Climatológica Insolação Média FIGURA 20 (a,b,c): Normais Climatológicas do PICI-INMET (1972-2001) 86 Evaporação média para Fortaleza (19722001) 200 150 100 50 0 JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ Figura 21: Normal Climatológica Evaporação Média / PICI-INMET (1972-2001) 87 3.5 - Os padrões de ocupação do solo no Conjunto Ceará. Buscando conhecer as características microclimáticas do Conjunto Ceará relacionado às diversas formas de uso e ocupação do solo, foram escolhidas 5 áreas no interior do conjunto habitacional que diferem entre si, no que se refere aos padrões de uso e ocupação, para realizar a coleta de dados climáticos. Esses setores representam as diferentes realidades urbanas da área de interesse da pesquisa. Em cada uma das áreas foi escolhido um ponto para a realização da coleta de dados, referentes aos Experimentos I e II da pesquisa. O ponto 1 está localizado na Avenida Central no cruzamento com a Avenida A. O ponto 2 encontra-se localizado no interior do Terminal de ônibus. O ponto 3 foi estabelecido na Rua 319. O ponto 4 foi fixado na Rua 448, no trecho compreendido entre as Ruas 448 B e 448 C e por fim, o ponto 5 foi situado nas proximidades do Posto de Saúde da Família Maciel de Brito. Cada um desses pontos foi estabelecido buscando diferentes condições de uso e ocupação do solo para se verificar os contrastes possivelmente existentes no comportamento dos atributos climáticos. A seguir são caracterizados os setores experimentais num raio de 50 metros a partir do ponto de coleta levando em consideração a existência de área construída (horizontal e vertical), vegetação e espaço vazios. 3.5.1 – Ponto 1: Avenida Ministro Albuquerque Lima (E = 543909 / N = 9583224 / Altimetria = 28m) A Avenida Ministro Albuquerque Lima é também conhecida pelos moradores do conjunto habitacional como Avenida Central, sendo nela que ocorre uma concentração de comércio, bares, restaurantes, pizzarias e barracas de comidas típicas. Essa concentração consolidou-se neste ponto do bairro, devido, entre outros fatores, à presença do polo de lazer e outros equipamentos urbanos como a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e o antigo shopping do bairro, atualmente transformado em um centro cultural. No polo de lazer acontecem frequentemente os eventos sociais do bairro como 88 festas, etc.. A Avenida Central recebe também esta denominação, pelo fato de delimitar a divisão do bairro em Conjunto Ceará I e Conjunto Ceará II. A área na qual se insere o ponto 1 é de grande fluxo de veículos e pessoas, por tratar-se de vias de grande circulação interna do bairro. As características do local são marcadas pela existência de uma topografia plana, com declive suave. No que se refere a padrões urbanísticos, a área do Ponto 1 possui um arruamento regular definido em toda a área. O tamanho dos lotes apresenta certa regularidade em metade da área. Já a forma dos lotes diferencia-se bastante na maior parte dessa região, em virtude da diversidade dos tipos de comércios. As residências apresentam-se em número bastante reduzido neste ponto do bairro. A circulação interna existente e que domina na área são ruas asfaltadas, sendo a circulação interna possível de ser realizada por carros, caminhões, motos e fluxo de transeuntes. A vegetação existente é arbórea de origem antrópica e está localizada pontualmente nos canteiros centrais da avenida. Quanto à ocupação da área ocorre verticalização de um, de dois e de três pavimentos, sendo as construções de dois pavimentos a dominante como mostra o mapa 3. Essas construções são de características eminentemente comerciais. A área é densamente construída com ausência de espaços vazios entre as edificações. O ponto onde ocorreu a coleta de dados (Figura 20) foi no cruzamento da Avenida Central com a Avenida A em frente a um posto de gasolina e a uma agência bancária da área. O ponto está localizado sobre uma calçada construída de cimento e possui altimetria de 28 m. Ressalta-se a inexistência de sombra neste ponto durante todo o período do experimento. 89 Foto: João Paulo Matias, 2009. Ponto 1 Figura 22: Imagem e Foto da Área do Ponto 1 – Av. Ministro Albuquerque Lima Fonte: Google Earth, 2010. 90 91 3.5.2 – Ponto 2: Terminal de Ônibus (E = 543547 / N = 9582952 / Altimetria = 12 m) A área do Ponto 2 tem a presença do Terminal de ônibus como característica marcante. O Terminal do Conjunto Ceará situado na Rua 113 s/n, é um dos 7 terminais de Fortaleza e possui um número de linhas menor quando comparado com os demais. O terminal foi inaugurado em 1993 e atualmente conta com 17 linhas de ônibus operando com uma frota de 129 veículos. São programadas 1.331 viagens por dia atendendo a uma demanda de 73.631 pessoas também ao dia. Dentro do terminal, os usuários dispõem de alguns serviços como caixas-rápidos e lanchonetes (ETUFOR, 2009). O local é caracterizado por uma topografia plana em todo o setor. A área possui um arruamento regular e bem definido. Os lotes não possuem tamanho e forma regular, uma vez que as construções existentes são o terminal e uma praça, o que confere espaços diferenciados dos lotes residenciais. A circulação é feita em vias do tipo ruas, sendo estas todas pavimentadas, e é caracterizada pelo tráfego de carros e principalmente dos ônibus do transporte urbano no terminal. Através do mapa 4 constata-se construções de 1 pavimento, sendo estas as que predominam em toda a área. Entre as construções ocorre espaçamento entre alguma delas, sendo que predomina na área as edificações sem espaçamento. A vegetação existente é do tipo arbórea de origem antrópica localizada, sobretudo, na praça que fica atrás do terminal. O ponto de coleta dos dados (Figura 21) foi estabelecido dentro do Terminal em cima de uma calçada revestida de pedra portuguesa de cor branca e possui altimetria de 12 m (Figura 21). O ponto tem duas árvores próximas, sendo que estas não oferecem sombra para o ponto de coleta. 92 Foto: João Paulo Matias, 2009. Ponto 2 Figura 23: Imagem e Foto da Área do Ponto 2 – Terminal de Ônibus Fonte: Google Earth, 2010. 93 94 3.5.3 – Ponto 3: Rua 319 (E = 542848 / N = 9582970 / Altimetria = 12 m) O ponto 3 está situado na Rua 319 no cruzamento com a Rua 329 possuindo altitude de 12 m. A área é predominantemente residencial, possuindo poucos equipamentos urbanos e revelando assim um reduzido fluxo de veículos e pessoas durante o dia como foi verificado nos trabalhos de campo realizados. Predomina na área uma topografia plana. O arruamento é regular definido na maior parte da área e já os lotes só possuem forma e tamanho regular numa menor parte da área. A circulação de pessoas e veículos neste ponto é feita através de ruas, sendo ausentes becos, travessas, dentre outras vias de circulação. As ruas não possuem asfalto neste ponto do conjunto habitacional. Os padrões de ocupação do solo do ponto 3, observados no mapa 5, permite identificar que a área edificada existente possui, em sua grande maioria, apenas 1 pavimento. No entanto, ocorrem também residências de até dois pavimentos. A vegetação predominante é do tipo gramínea, sendo a vegetação arbórea pontual. Observa-se que neste ponto as ruas apresentam largura maior do que nas outras áreas do conjunto habitacional que estão sendo analisadas na pesquisa. A Rua 329 possui uma largura de aproximadamente 37 metros, em sua maior parte recoberta por grama e ainda com a presença de um campo de futebol. Já a Rua 319 possui, em seu trecho mais largo, aproximadamente 44 metros possuindo um canteiro bastante arborizado. Essas características podem influenciar diretamente as características do microclima local, como bem aponta Frota & Schiffer (1988). O Ponto 3 (Figura 22) foi estabelecido no cruzamento da Ruas 319 e 329 sobre o próprio calçamento. Neste ponto não há sombreamento durante todo o dia, uma vez que a vegetação mais próxima é do tipo gramínea e as edificações são relativamente distantes do ponto. 95 Ponto 3 Foto: João Paulo Matias, 2009. Figura 24: Imagem e Foto da Área do Ponto 3 – Rua 319. Fonte: Google Earth, 2010. 96 Foto: João Paulo Matias, 200 97 3.5.4 – Ponto 4: Rua 448 (E = 543685 / N = 9584106 / Altimetria = 15 m) O ponto 4 está situado na Rua 448 no trecho compreendido entre as Ruas 448 B e 448 C. A área no entorno do ponto é densamente construída e de características residenciais predominantes. O local possui uma topografia plana em toda a área do entorno do ponto. O arruamento é regular e bem definido em toda a área. O tamanho das casas, assim como a forma, varia muito, sendo inexistentes espaços vazios entre as residências. A área edificada possui, em sua grande maioria, dois pavimentos, o que faz com que no período da manhã, no ponto onde ocorreu a coleta dos dados climáticos, haja um sombreamento pelas residências. A via onde está localizado o Ponto 3 não possui asfalto, no entanto, encontramos vias asfaltadas no entorno do ponto. A vegetação é basicamente arbórea e de origem antrópica, sendo pontual na frente das residências e/ou em alguns quintais como mostra o mapa 6. O Ponto 4 (Figura 23) foi estabelecido sobre uma calçada construída de cimento à altura do número 181, no sentido leste da rua. A altimetria do ponto verificada em campo foi de 15 m. Como já foi dito acima, este ponto encontrase sombreado pelo segundo pavimento das residências no período da manhã, o que fez com que a leitura dos instrumentos neste momento ocorresse sob a sombra. 98 Foto: João Paulo Matias, 2009. Ponto 4 Figura 25: Imagem e Foto da Área do Ponto 4 – Rua 448. Fonte: Google Earth, 2010. 99 100 3. 5. 5 – Ponto 5: CSF Maciel de Brito (Rua 602) (E = 543860 / N = 9583504 / Altimetria = 17 m) O ponto 5 está localizado nas proximidades do polo de lazer do bairro e tem como características dominantes a ausência de construções tanto residenciais como comerciais. A área onde se encontra o ponto 5 é marcada pela presença de uma área coberta por uma vegetação densa de espécies arbóreas e herbácea, sendo esta a área com maior cobertura de vegetação do bairro. As poucas construções presentes correspondem às instalações do Centro de Saúde da Família Maciel de Brito e à sede de uma empresa de telefonia. Na área verifica-se um declive moderado a acentuado e no ponto de coleta verificou-se altimetria de 17 m. No que se refere á padrões urbanísticos, existe um arruamento regular na maior parte da área, não havendo ainda um padrão no tamanho dos lotes. A circulação nesse setor é feita predominantemente por ruas, sendo ausentes becos e travessas. A área não possui verticalização, e as poucas construções existentes são apenas de um pavimento e apresentando um espaçamento médio entre si. O mapa 7 indica a predominância nesse ponto de uma vegetação arbórea e herbácea com a ocorrência de espaços utilizados para outros usos como a criação de animais, além da ausência de vias asfaltadas neste mesmo trecho do conjunto habitacional. O ponto 5 (Figura 24) foi estabelecido em frente ao CSF Maciel de Brito, sobre uma calçada de cimento. Neste setor não há sombreamento de edificações no decorrer do período diurno. 101 Foto: João Paulo Matias, 2009. Ponto 5 Figura 26: Imagem e Foto da Área do Ponto 5 – Rua 602. Fonte: Google Earth, 2010. 102 103 4. OS MICROCLIMAS URBANOS NO CONJUNTO CEARÁ – FORTALEZA. As informações contidas neste capítulo são resultados obtidos através dos dois experimentos realizados em campo. O Experimento I foi realizado no dia 22/04/09 durante o outono, correspondendo à quadra chuvosa no estado do Ceará. Já o Experimento II ocorreu no dia 23/10/09 na primavera, correspondendo ao período seco do Estado. A apresentação dos dados foi subdividida em duas partes: a análise das condições atmosféricas e o comportamento dos atributos climáticos nos setores experimentais da pesquisa. No primeiro momento são feitas nefanálises e interpretação das Cartas de Pressão ao Nível do Mar da Marinha do Brasil para o dia que antecede o experimento e também para o dia do trabalho de campo. As imagens trabalhadas são oriundas do satélite GOES-10 no canal infravermelho disponíveis no site do INPE. As cartas de pressão da Marinha do Brasil foram utilizadas para as 9h e 21 h locais, por estarem disponíveis apenas nestes horários. A análise das condições sinóticas permite a identificação dos sistemas atmosféricos atuantes nos dias de coleta de dados e o condicionamento da circulação atmosférica regional sobre os atributos climáticos locais. Após a interpretação das condições sinóticas é descrito o comportamento dos atributos climáticos mensurados em campo. O dia do episódio foi dividido em: período diurno, que corresponde às medições realizadas às 6, 9, 12 e 15 h; e período noturno correspondente às medições das 18h e 21 h. Na análise dos atributos, além dos contrastes intra-urbanos, ou seja, as diferenças encontradas na área de estudo, é feita ainda uma comparação com os dados climáticos da PCD de Caucaia mostrando também os contrastes interurbanos. Por fim, são feitas relações entre os dados dos dois experimentos como forma de entender os microclimas urbanos da área de interesse da pesquisa. 104 4.1 - Análise dos Experimento I: 22/04/2009 4.1.1 – As Condições Sinóticas Dia anterior ao experimento I – 21/04/09 Às 9 h, horário local, constata-se pela carta de pressão e pela imagem de satélite a atuação da ZCIT de média intensidade no oceano e baixa intensidade no continente. A ZCIT atua até os 5º de latitude Sul, cobrindo então a cidade de Fortaleza. Esse sistema repercute na área da pesquisa trazendo condições de instabilidade, porém, não houve registro de chuva. Mesmo assim, se confirma a presença de valores médios de nebulosidade. A imagem GOES – 10 confirma a presença da ZCIT com nuvens convectivas possivelmente do tipo cúmulusformes mais atuantes e intensas no oceano, como mostra a carta de pressão para o mesmo horário. Às 21 h, a ZCIT continua como o sistema atmosférico atuante na área de pesquisa, apresentando neste momento uma maior intensidade tanto no oceano como no continente. A área de atuação da ZCIT abrange o intervalo entre 0º e 5º de latitude Sul. O sistema de Baixa Pressão presente sobre o continente (1012 hPa) avança no sentido norte associando-se com a ZCIT. No entanto, há fraca participação dessa associação na cidade de Fortaleza. Através da análise da imagem do satélite GOES-10, é facilmente perceptível a nebulosidade presente em Fortaleza como decorrência da atuação da ZCIT. 105 c) Carta de Pressão 21h a) Carta de Pressão 9h Figura 27: Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento I: 21/04/09 d) Imagem GOES-10 IR, 21 h b) Imagem GOES-10 IR, 9 h 106 Dia do Experimento I – 22/04/09 A imagem do GOES-10 no canal infravermelho das 6 h, horário local, mostra a continuidade da atuação da ZCIT na área de estudo, fato já verificado no dia anterior ao experimento. Os elevados valores de nebulosidade, de até 7/8, registrados em campo corroboram com a atuação regional desse sistema de instabilidade. Às 9h, a carta de pressão exibe ainda a forte atuação da ZCIT. A aleta indica para a área da pesquisa elevada nebulosidade (8/8), porém, ao analisar a imagem GOES-10 infravermelho para o mesmo horário, verificou-se baixa expressão dessa variável, fato esse comprovado com os valores encontrados em campo, os quais ultrapassaram 6/8, com formação de nuvens altas possivelmente cirruformes, Ainda analisando a carta de pressão neste horário, pode-se constatar ventos de direção sudoeste com intensidade de 5 nós (2,5 m/s) para o litoral cearense. Na imagem GOES-10 para o horário local das 12 h, verifica-se a permanência da ZCIT para a área da pesquisa, porém esse sistema não traz instabilidade uma vez que foram registrados apenas valores de até 6/8 no Conjunto Ceará. Como evidencia a imagem há uma dispersão desse sistema, o qual passa a exibir fraca expressão. Às 15 h, a imagem GOES-10 infravermelho revela a continuidade da presença da ZCIT e esse sistema segue a tendência do horário anterior, ou seja, se apresenta com fraca expressão. Essa característica representa condições de estabilidade atmosférica para a área de pesquisa e também a nível regional. Na cidade de Fortaleza, e especificamente no Conjunto Ceará, foi observado céu parcialmente nublado com valores de nebulosidade oscilando entre 4/8 a 6/8. A imagem GOES-10, às 18h local, exibe para o litoral do Ceará, condições de estabilidade. Há a presença da ZCIT, em escala regional, mas esse sistema continua pouco expressivo sem apresentar, portanto, nuvens convectivas. Este cenário é confirmado com os valores encontrados a nível microclimático pela pesquisa, como temperaturas variando de 26º C a 28º C e nebulosidade de 3/8 a 4/8. 107 A carta e a imagem GOES-10 das 21h local, apresenta ainda a presença da ZCIT oscilando entre 0º a 3º de latitude Sul, próximo à área da pesquisa, na plataforma continental. A carta apresenta esse sistema na categoria forte intensidade, no entanto, ao verificar a imagem infravermelha para o mesmo horário, percebe-se esse sistema disperso e exibindo nuvens de média e alta altitude. Mais uma vez esse cenário é confirmado com os dados obtidos no campo. A partir da análise das condições sinóticas representadas nas cartas de pressão e imagens de satélites, é possível concluir que a ZCIT esteve presente no decorrer do Experimento I como o principal sistema atmosférico atuante. Esse sistema foi mais atuante e expressivo no oceano e consequentemente, teve pouca expressão, em termos de instabilidade na área da pesquisa, fato confirmado pelos valores de nebulosidade e ausência de chuvas. 108 b) Imagem GOES-10 IR, 9 h d) Imagem GOES-10 IR, 21 h a) Carta de Pressão 9h c) Carta de Pressão 21h Figura 28: Dinâmica atmosférica do dia do Experimento I: 21/04/09 109 15 h 6h 18 h 9h FIGURA 29: Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento I: 21/04/09 21 h 12 h 110 4.1.2 - A dinâmica dos atributos climáticos Período diurno (6, 9, 12 e 15 h) Os contrastes de temperatura no período da manhã variaram entre 0,5º e 1º C no contexto intra-urbano, sendo menores do que os valores encontrados na realidade interurbana (Tabela 3). Às 6h, início do experimento, as condições térmicas apresentaram-se em torno dos 23º C em todos os locais de coleta, com exceção do ponto 2 onde se registrou uma temperatura inferior de 22,5º C. Já às 9 h, a menor temperatura foi registrada no ponto 3 (28º C), enquanto que nos pontos 1 e 5 a temperatura foi 1º C mais elevada. Os contrastes higrométrico giraram em torno de 9% a 13% durante a manhã. Os maiores valores de umidade foram registrados à 6h, nos pontos 4 e 2, sendo 98% e 100% respectivamente. Às 9h, com o aumento da temperatura, ocorre a diminuição da umidade relativa do ar, por serem grandezas inversamente proporcionais. As maiores cotas de umidade relativa são verificadas nos pontos 4 (83%) e 2 (81%) e o menor valor no ponto 3 (70%) para este horário (9 h). Quanto aos fluxos de ar, a variação se deu entre 1,1 m/s a 9 m/s, sendo o primeiro valor identificado em todos os pontos na primeira medição do dia, e o segundo valor observado às 9h em quase todos os locais de coleta, com exceção do ponto 4, onde se registrou velocidade do vento de 4 m/s. A observação da nebulosidade mostrou céu com grande quantidade de nuvens em quase toda a área de estudo. Os pontos 2, 4 e 5 apresentaram cobertura de 7/8, seguido pelo ponto 1 (6/8), e o ponto 3 com o menor valor observado para o primeiro horário (3/8), podendo este ser decorrente de erro do observador. Às 9h, houve uma pequena redução da nebulosidade na área de estudo. Essa grande quantidade de nuvens pode agir como barreira à entrada de raios solares no início do dia, impedindo o aquecimento mais rápido da superfície. O fluxo de veículos foi intenso nos pontos 1 e 2 já nas primeiras horas do experimento, sendo bastante reduzido ou quase inexistente nos demais locais de coleta. A avenida Central e o Terminal são áreas de intenso fluxo dentro da dinâmica urbana do bairro, fato já comprovado no levantamento para a escolha dos pontos. Assim como o fluxo de veículos, o fluxo de pessoas 111 também foi elevado no ponto 2, em virtude de ser um “horário de pico” no Terminal de Ônibus, onde um grande número de pessoas se dirigem para o trabalho, escolas, universidades, etc. Os pontos 4 e 5 apresentam reduzido fluxo de veículos e pessoas no decorrer da manhã. No que se refere ao conforto térmico, o diagrama do INMET indica condições de muita umidade em todos os pontos na primeira medição do experimento e necessidade de vento para conforto nos pontos 1 e 5 ás 9h (Quadro 6). Somente no ponto 3 foi encontrada situação de conforto, segundo o diagrama. Já o Índice Temperatura Efetiva (Te) exibe zona de conforto em todos os pontos às 6 h e Stress ao Calor ás 9h, situação esta que permanece durante todo o período da tarde. No período da tarde, os contrastes termo-higrométricos foram mais acentuados com diferenças de temperatura variando de 1,5º a 2º C como mostra a tabela 3. Ao meio-dia foram registrados os maiores valores de temperatura de todo o dia de realização do experimento e consequentemente os mais baixos valores de umidade relativa do ar em todos os pontos analisados. Nos pontos 2 e 5 foram verificados valores extremos de 31,5º C para este horário. O ponto 1 apresentou temperatura de 31º C, enquanto que os pontos 3 e 4 apresentaram, para o horário, os valores mais baixos, ambos 30º C. O contraste higrométrico variou em torno 14% às 12 horas no contexto intra-urbano (Tabela 4). Nos pontos 4, 5 e 1 são registrados valores de 74%, 69% e 68% respectivamente, considerados os maiores neste momento, enquanto que o ponto 3 apresenta umidade relativa de 65% e o ponto 2 o valor mais baixo (60%). Às 15 h, o ponto 3 tem a menor temperatura para o horário exibindo um valor de 27,5º C e o maior valor é registrado no ponto 2 (29,5º C), sendo neste ponto que ocorre uma tendência de temperaturas mais elevadas durante todo o dia do experimento. Como consequência da temperatura menos elevada, o ponto 3 apresenta um dos maiores valores de umidade relativa (84%), assim como também um fluxo de veículos e pessoas inexpressivo. As condições higrométricas também foram elevadas nos pontos 1 (85%) e 4 (83%). O ponto 4 teve uma das menores temperaturas para o horário, provavelmente por ser uma área com presença de construções de mais de um pavimento o que pode criar um “efeito sombra” no local de coleta. Esse efeito dificulta a ação direta 112 dos raios solares na superfície e consequentemente o armazenamento de calor pelas estruturas urbanas. O vento, variável importante a ser considerada na definição das condições de conforto, teve velocidade de 1,1 m/s no ponto 2 e 9 m/s nos pontos 1, 4 e 5 tanto ao meio-dia como às 15 h. Durante a tarde, a velocidade do vento foi mais elevada no ponto 3 (15,5m/s) (Quadro 4). A nebulosidade varia pouco no período da tarde quando comparada com a manhã. O céu apresenta uma cobertura de nuvens variando entre 4/8 e 6/8 na maior parte dos pontos de coleta. Essa situação reflete as condições sinóticas de nível regional atuantes em Fortaleza. No que se refere aos dados de natureza urbana, o ponto 1 manteve, no período da tarde, a intensidade dos fluxos de veículos e pessoas para a realidade intra-urbana (Quadro 5). O ponto 2 também configura-se como um local de intenso fluxo, sendo no horário das 15 h registrado o maior movimento de pessoas durante todo o dia do experimento. Já nos pontos 3, 4 e 5 o fluxo de veículos e pessoas segue a tendência de serem reduzidos e até mesmo inexistentes. Período noturno (18 e 21 h) No período noturno, a radiação solar deixa de agir diretamente sobre a superfície terrestre. Em contrapartida, ocorre a liberação do calor armazenado pela estrutura urbana durante o dia, o que passa a influenciar diretamente as condições atmosféricas da cidade. No horário das 18h, há uma pequena diminuição da temperatura em todos os pontos de coleta de dados, embora o contraste térmico permaneça em torno de 2º C como observado na Tabela 3. O ponto 3 mantém a temperatura mais baixa (26º C), fato já verificado às 15 h, sendo acompanhado neste momento pelo ponto 5 (26º C). Da mesma forma, os ponto 1 e 2 seguem o comportamento do período diurno em apresentar a maior temperatura (28º C) dentre os pontos analisados. Seguindo o comportamento inversamente proporcional à temperatura, a umidade relativa registrada nos pontos 3 e 5 foi 92 % e nos pontos 1 e 2 foi de 77% para a primeira medição da noite. 113 Às 21h, o processo de transferência do calor absorvido pelas superfícies durante o dia já está bastante desenvolvido. As temperaturas registradas podem ser consideradas mais amenas com valores de 24,5º C no ponto 3 e 26,5º C no ponto 1. Os valores extremos de umidade relativa foram registrados também no ponto 3 (95%) e no ponto 1(87%) (Quadro 4). Na última medição do experimento foi constatado a ausência de nebulosidade nos pontos 1, 3 e 5 e uma cobertura de nuvens bastante reduzidas nos pontos 2 e 4. A redução da nebulosidade no período noturno pode ser um dos fatores que explica a diminuição da temperatura à noite, uma vez este processo permite uma melhor dissipação do calor que passa a ser liberado à noite pelas superfícies urbanas. O vento teve velocidade de 1,1 m/s em praticamente todos os pontos, com exceção do ponto 1 onde o fluxo de ar ocorreu numa velocidade de 4 m/s. Quanto aos atributos de natureza urbana, às 18 h, são registrados elevados fluxos de pessoas e veículos nos pontos 1 e 4. No ponto 3 o fluxo de veículos e pessoas permanece inexistente, enquanto que no ponto 2 o movimento de pessoas permanece intenso como ocorrido durante todo o dia (Quadro 5). No período noturno, segundo o diagrama do INMET, somente nos pontos 3 e 5 são constatadas zona de conforto térmico, enquanto que nos demais pontos há necessidade de vento para conforto. Às 21 h, a situação muda com o predomínio de condições de muita umidade para a área de pesquisa. No entanto, pelo Índice Te todos os pontos apresentam-se como dentro de uma Zona de Conforto para este mesmo período. 114 QUADRO 4 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento I Temperatura 34,1 – 36º c 32,1º - 34º C TEMPERATURA (º C) 1. Av Min. Albuquerque Lima 30,1º - 32º C 2. Terminal de ônibus 28,1º - 30º C 3. Rua 319 26,1º - 28º C 4. Rua 448 A 24,1º - 26º C 5. PSF Maciel de Brito HORA 6 9 12 15 18 21 Umidade Relativa 90,1 – 100% UMIDADE RELATIVA (%) 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito HORA 80,1 – 90% 70,1 – 80% 60,1 – 70% 6 9 12 15 18 21 Velocidade do Vento Vento Forte VELOCIDADE DO VENTO (m/s) 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito HORA Vento muito fresco Vento Fresco C C C Vento Moderado 6 9 12 15 18 Direção do Vento 21 C Norte 22º - 24º C Sul Leste Oeste Sudeste Vento Fraco Aragem Nordeste Calmaria Bafagem Calmaria NEBULOSIDADE (8/8) 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito HORA 6 9 12 15 18 21 Sistemas Atmosféricos 6 9 12 15 18 21 Nebulosidade 9 (sem visão) 8/8 7/8 6/8 5/8 4/8 3/8 2/8 1/8 0 (céu limpo) Atuação da ZCIT 116 QUADRO 5 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento I Fluxo de Veículos Acima de 40 FLUXO DE VEÍCULOS 1. Av Min. Albuquerque Lima 31 - 40 2. Terminal de ônibus 21 - 30 3. Rua 319 11 - 20 1- 10 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito 6 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito 9 FLUXO DE PESSOAS 1 2 4 4 1 1 1 1 A 1 6 9 12 15 18 Ausente 21 Fluxo de Pessoas 2 4 1 1 A 12 3 4 A 2 2 15 2 4 A 4 1 18 1 4 1 1 A 21 4 - Acima de 30 3 - 21 – 30 2 - 11 - 20 1 - 1 – 10 A - Ausente QUADRO 6 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento I Te Stress ao calor (acima de 26º C) Escala Temperatura Efetiva (Te) 1. Av Min. Albuquerque Lima Zona de Conforto (21º a 26º C) 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 Stress ao frio (Abaixo de 22º C) 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito 6 9 12 15 18 21 INMET Necessita vento para conforto Escala INMET 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito Confortável Muito úmido 6 9 12 15 18 21 117 TABELA 3 – Contrastes Térmicos do Experimento I Contrastes Térmicos (º C) Inter- Urbanos2 HORA Intra-Urbanos3 06:00 0,1 -0,4 0,5 09:00 6,1 5,1 1 12:00 5,6 4,1 1,5 15:00 0,9 -1,1 2 18:00 2,3 0,3 2 21:00 1,4 -0,6 2 TABELA 4 – Contrastes Higrométricos do Experimento I Contrastes Higrométricos (%) HORA Inter- Urbano¹ Intra-Urbano² 06:00 7,2 9 09:00 -9,8 13 12:00 -7,6 14 15:00 9,8 14 18:00 0,8 15 21:00 8,6 8 2 Representam as diferenças de valores (temperatura e umidade) encontradas entre os dados do Experimento e o valor registrado na PCD de Caucaia. O primeiro valor indica a diferença entre a maior temperatura encontrada na área com a PCD de Caucaia e o segundo, a diferença entre a menor temperatura encontrada e a PCD de Caucaia. 3 Representa as diferenças dos maiores com os menores valores (temperatura e umidade) encontrados na área de estudo durante a realização dos experimentos. 117 4.2. – Análise do Experimento II: 23/10/2009 4.2.1 – As Condições Sinóticas Dia anterior ao experimento II – 22/10/09 As condições apresentadas pela carta de pressão das 12 GMT, 9 horas local, para o dia que antecede o Experimento II, revelam o sistema Tropical Atlântico (TA) dividido em dois núcleos por uma embrionária frente no oceano. Para a área de estudo, no entanto, ocorre apenas uma repercussão do sistema do núcleo de alta pressão de 1022 hPa. Com isso, fica constatado tanto pelas informações da carta de pressão, como pela interpretação da imagem do satélite GOES-10 no canal infravermelho para o mesmo horário, que a área da pesquisa encontra-se sob condições de estabilidade. A carta de pressão ao nível do mar de 00 GMT, 21 horas local, mostra que o mesmo núcleo de alta pressão, já identificado às 9 horas, se dissipa e passa a atuar de forma mais intensa na costa do estado do Ceará. Desse modo, esse sistema traz condições de total estabilidade representadas por céu limpo sem a presença de nuvens, conforme observado na imagem de satélite do mesmo horário. 118 c) Carta de Pressão 21h a) Carta de Pressão 9h FIGURA 30: Dinâmica atmosférica do dia anterior ao Experimento II: 22/10/09 d) Imagem GOES-10 IR, 21 h b) Imagem GOES-10 IR, 9 h 119 Dia do experimento II – 23/10/09 No dia do Experimento II, a imagem do GOES-10 no canal infravermelho para o horário de 9 GMT, 6 horas local, exibe um cenário de estabilidade atmosférica causada pela atuação do Anticiclone Semi-fixo do Atlântico Sul, gerador do sistema Tropical Atlântico (TA). Essas condições são confirmadas pela interpretação sinótica posterior e refletiram nas variáveis meteorológicas obtidas em campo. Às 9 horas local, identifica-se a repercussão do sistema TA, verificado na carta de pressão ao nível do mar de 12 GMT, através da isóbara de 1012 hPa. A análise da imagem GOES-10 12GMT infravermelho vem confirmar as condições de estabilidade na área de interesse da pesquisa, o Conjunto Ceará. A partir da carta de pressão é possível afirmar também que a nebulosidade foi de 4/8 com ventos de direção leste e de intensidade de 15 nós (7m/s). Essas características verificadas confirmam de perto a habitualidade sinótica da região, ou seja, ventos moderados e de direção predominantes de sudeste e leste. A imagem meteorológica do GOES-10 no canal infravermelho para o horário 15 GMT, 12 horas local, apresenta a mesma dinâmica atmosférica dos horários anteriores, ou seja, características de céu limpo com a presença de nuvens altas possivelmente do tipo cirruformes. Este cenário é típico de condições de estabilidade e esse quadro é confirmado pelos dados climáticos obtidos no trabalho de campo como elevadas temperaturas que variaram em torno de 31º a 35º C, baixa umidade relativa e nebulosidade variando de 2/8 a 4/8 nos pontos de coleta. A interpretação da imagem do GOES-10 infravermelho para o horário de 18 GMT, 15 horas local, revela a continuidade da repercussão do sistema TA na área de estudo e consequentemente das condições de estabilidade já verificadas nos horários anteriores. Mais uma vez, essas condições são confirmadas com os dados obtidos em campo como temperaturas elevadas e nebulosidade variando em torno de 1/8 a 3/8. Vale ressaltar o fato que neste horário são registrados os maiores valores de temperatura do ar observados no decorrer da pesquisa. 120 Às 18 horas local, a imagem GOES-10 infravermelho 21 GMT indica a permanência da estabilidade na área de estudo caracterizada pelo céu limpo com a ausência de nuvens, e confirmada pela nebulosidade, praticamente inexistente, observada em campo a partir dos pontos de coleta de dados. A carta de pressão ao nível do mar para o horário 00 GMT, 21 horas local, exibe a mesma estabilidade atmosférica presente em todo o experimento II com repercussão do sistema TA, cujo núcleo se encontra na costa sul do país. Na área de pesquisa a isóbara de valor 1012 hPa, também presente na carta de pressão referente ao horário das 9 horas local, é atuante, mas neste momento do dia se configura no entorno geográfico da costa nordestina. A carta exibe ainda ventos de direção leste. A imagem meteorológica do GOES10 no canal infravermelho para este horário vem confirmar as condições sinóticas encontradas na carta de pressão, ou seja, céu limpo com nuvens altas. Estas informações mais uma vez vai de encontro às informações obtidas em campo. A interpretação sinótica revela, portanto, para o Experimento II, a atuação da TA como o sistema atmosférico atuante no episódio. As condições de estabilidade são confirmadas principalmente pelo comportamento dos atributos climáticos verificados em campo. As condições de céu limpo foram predominantes em praticamente todo o experimento. 121 b) Imagem GOES-10 IR, 9 h d) Imagem GOES-10 IR, 21 h a) Carta de Pressão 9h c) Carta de Pressão 21h FIGURA 31: Dinâmica atmosférica do dia do Experimento II: 23/10/09 122 15 h 6h FIGURA 32 – Evolução da dinâmica atmosférica do dia do Experimento II 9h 18 h 21 h 12 h 123 4.2.2 - A dinâmica dos atributos climáticos Período diurno (6, 9, 12 e 15 h) Os contrastes térmicos deste período evidenciaram-se de forma mais significativa no contexto interurbano quando comparados com o intra-urbano (Tabela 5). As diferenças térmicas entre os pontos analisados mantiveram-se quase que constantes durante as duas medições da manhã, registrando um contraste da ordem de 1,5º C. O ponto 1 (Avenida Central) registrou a maior temperatura nas medições das 6 e 9 h, apresentando valores de 26º C e 31,5º C, respectivamente. Os menores valores de temperatura encontrados para estes mesmos horários foram registrados no ponto 3 (24,5º C) às 9 h e nos pontos 2 e 4 (30º C) na medição das 9 h como mostra o quadro 8. Já os contrastes higrométricos são mais expressivos na realidade urbana do que no contexto campo-cidade no período da manhã. Às 6 h, foi registrada uma diferença de 23% para a primeira e 7,2% para a segunda (Tabela 6). Às 9 h é registrado um valor negativo (-16,6 %) para o contexto interurbano (PCD – Caucaia), enquanto que na área de estudo as diferenças mantém-se na ordem de 11%. Os valores extremos de umidade relativa foram encontrados nos pontos 3, 4 e 5 (84%) no horário das 6 h. No ponto 2, às 6 h, verifica-se umidade relativa de 61% e, às 9h, 65%, evidenciando o comportamento inverso da umidade em relação a temperatura. A velocidade do vento (Quadro 8), segundo a escala Beaufort, apresentou variação de 1,1 m/s a 6,3 m/s durante a manhã, sendo o primeiro valor identificado em quase todos os pontos no horário das 6, com exceção do ponto 4 onde foi registrado uma velocidade de 2,5 m/s (Aragem). As diferenças nos fluxos de ar tornam-se mais visíveis as 9 h, sendo no ponto 4 onde o vento continua com maior velocidade (6,3 m/s), seguido pelos pontos 3 (4,3m/s a 6,3 m/s), ponto 1 e 5 (2,5 m/s) e o ponto 2 registrando o menor valor (1,1 m/s). As condições de conforto apresentaram relação com os fluxos de ar, por ser o vento um fator de influência direta no conforto térmico. De acordo com o Diagrama do Conforto Térmico (INMET) às 6 h os pontos 1 e 2 apresentam condições de conforto enquanto que nos pontos 3, 4 e 5 são registradas condições de muita umidade (Quadro 9), embora 124 apresentem pequena variação de temperatura em relação aos dois primeiros pontos. Às 9 h há uma necessidade de vento para conforto em todos os pontos. Já o Índice de Temperatura Efetiva (Te) indica todos os locais como Zona de Conforto às 6h, situação esta que se inverte às 9h em que o Stress ao Calor predomina em todas as áreas. As condições de Stress ao Calor permanecem em todos os pontos durante o período diurno do experimento. A nebulosidade apresentou pouca variação na manhã, tendo como valor extremo 5/8 no ponto 5 às 6h e no ponto 4 às 9h. Nos demais pontos foi registrada nebulosidade de 4/8 nos pontos 1 e 4 às 6h, e as 9h nos pontos 1,3 e 5. O ponto 2 (Terminal) apresentou a menor cobertura de nuvens durante a manhã: 3/8 às 6h e 2/8 às 9h. Os valores de nebulosidade não agiram diretamente como barreira à entrada de raios solares no decorrer da manhã. Quanto aos atributos de natureza urbana (Quadro 8), os pontos 1 e 2 seguem a tendência de serem os locais de maior fluxo de veículos e pessoas da área de estudo, fato este já verificado nos trabalhos de campo que antecederam a coleta de dados e no experimento I da pesquisa. Nesses pontos ocorreu um fluxo de 11 (ponto 2) e 7 (ponto 1) veículos por minuto e um fluxo de 60 (ponto 2) e 9 (ponto 1) já no primeiro horário da manhã em função dos equipamentos urbanos presentes nestas áreas. No ponto 3, durante a manhã, não foi registrado fluxo de veículos e o fluxo de pessoas foi inexpressivo. O ponto 4, embora tenha apresentado fluxo reduzido de veículos, registra, no entanto, fluxo considerável de pessoas durante as medições da manhã (6h: 10 pessoas/minuto; 9h: 25 pessoas/minuto). Nas primeiras medições do experimento os atributos decorrentes da funcionalidade urbana não se configuraram como fatores de primeira ordem na variação dos dados climáticos. Ao meio-dia, início do período vespertino, se dá o momento da mais intensa radiação solar, processo esse acompanhado também da liberação de calor pelas estruturas urbanas devido ao armazenamento de energia ocorrido pela manhã. Neste período do experimento são verificados os maiores contrastes térmicos no contexto intra-urbano. As diferenças ocorrem na ordem de 4º C (12h) e 2,5º C (15h). O ponto 2 registra, às 12h, a maior temperatura (35º C) verificada nos dois experimentos da pesquisa seguido pelo ponto 3 (32,5º C) como mostra o quadro 7. O comportamento térmico no ponto 3, em 125 apresentar altos valores de temperatura nas primeiras medições, pode ser explicado pelo fato de que áreas livres de construções e/ou com um maior espaço entre estas se aquecem mais rapidamente e também devolvem de forma mais rápida o calor absorvido para a atmosfera (VIANA, 2006). Às 15 h, o ponto 1 assume a maior temperatura (32,5º C) para este horário, sendo seguido pelo ponto 4 (32º C). Ao contrário do ocorrido na manhã, as diferenças térmicas inter-urbanas são menores do que as da realidade urbana. Os contrastes da temperatura, neste caso, variaram em torno de 2,4º C (12 h) e 1,4º C (15º C). Já os contrastes higrométricos interurbanos apresentaram cotas mais elevadas às 15 h (12,6%) do que os da realidade intra-urbana (4%) neste mesmo horário. Ao meio-dia, no entanto, o processo se deu de forma contrária registrando uma diferença de 3,8% entre campo-cidade e 14% dentro da área de estudo. O fluxo de ar permanece, no período da tarde, variando de 1,1 m/s a 6,3 m/s, não sendo registrados valores superiores a estes durante todo o experimento II. O ponto 2 mantém-se como o local de mais baixa velocidade do vento, enquanto que o ponto 3 permanece com a tendência em apresentar valores mais elevados (4,3 m/s – 15 h a 6,3 m/s – 12 h). Esta característica pode ser explicada pela maior largura da rua, o que pode permitir o fluxo do ar sem obstrução pela rugosidade da superfície urbana. As condições de conforto indicam, pelo diagrama do Conforto Térmico (INMET), uma predominância da Necessidade de Vento para Conforto, exceção apenas no ponto 2 às 12 h e no ponto 1 às 15 h onde foi registrada zona Muito Quente (Quadro 9). Nesses mesmos pontos foram registradas as maiores temperaturas e os menores valores de umidade relativa já exposto anteriormente. A velocidade do vento, nestes casos, não foi capaz de amenizar as condições de desconforto térmico. A nebulosidade apresentou uma tendência de diminuição à tarde, sendo o menor valor (1/8) registrado no ponto 3. Essa característica contribui para uma maior influência da radiação solar na área de estudo, uma vez que os raios solares podem atingir diretamente a superfície urbana. No que se refere ao fluxo de veículos (Quadro 8), às 15 h é identificado, no ponto 1, o mais intenso fluxo do experimento II representado por 30 126 veículos/minuto. Vale ressaltar que o Ponto 1 também apresentou o maior fluxo registrado para o horário do meio-dia (18 veículos/minuto). No ponto 2, embora o movimento de veículos pareça menor, ressalta-se que esses veículos permanecem dentro do Terminal em pleno funcionamento, o que se traduz em liberação de calor pela queima de combustível dos ônibus. Cogita-se a hipótese de que essa característica, associada também ao grande fluxo de pessoas e à estrutura física do terminal de ônibus, explique a elevação da temperatura nesta área, sobretudo no período da tarde e da noite. Quanto ao fluxo de pessoas, no ponto 2 (Terminal) são registrados fluxos elevados de 50 e 30 pessoas/minuto às 12h e 15 h respectivamente, por serem horários considerados de “pico” dentro da área. Os pontos 1 e 4 apresentam também tendência de valores elevados enquanto que o ponto 3 configura-se como o local de menor fluxo durante todo o experimento. Período noturno (18 e 21 h) No período noturno as condições térmicas e higrométricas são decorrentes principalmente da modificação do balanço de radiação, representada, sobretudo, pela emissão para a atmosfera do calor que foi armazenado durante o dia pelos materiais e superfícies urbanas. O processo de resfriamento da superfície urbana por ser mais lento do que o ocorrido na zona rural, pode ainda influenciar nas primeiras horas do dia seguinte, conforme verificou Viana (2006) ao estudar a cidade de Teodoro Sampaio em São Paulo. Na área de estudo, os contrastes térmicos intra-urbanos (Tabela 5) assumem os valores variando de 1,5º C (18 h) a 2º C (21 h) e sendo mais elevados do que no contexto interurbano (-2,5º C às 18 h e 0,6º C às 21 h). As diferenças higrométricas entre o Conjunto Ceará e a PCD de Caucaia, no entanto, foram mais elevadas (25,8% às 18 h e 31,2 % às 21 h) do que as diferenças verificadas dentro da área de estudo (7% às 18 h e 23% às 21 h). O ponto 2 (Terminal) devido provavelmente ao armazenamento de calor ocorrido durante o dia apresenta a maior temperatura para o horário das 18h 127 sendo esta 28º C. Os demais pontos registram 27º C, com exceção do ponto 3 (26,5º C). Às 21 h, no ponto 4, registra-se a maior temperatura do horário (27º C), enquanto que no ponto 2 verifica-se a menor temperatura (25º C). A velocidade do vento diminuiu em todos os pontos, com exceção do ponto 1 que manteve às 18h valores semelhantes ao da tarde. O ponto 4 apresenta no período noturno os maiores valores de fluxo de ar (2,5 m/s). Mesmo assim, há uma necessidade de vento para conforto no ponto 4, em virtude da temperatura ser elevada neste período. Somente nos pontos 3 e 5, o diagrama indica condições de conforto térmico. Pelo índice de Temperatura Efetiva (Te) todos os pontos encontram-se dentro da Zona de Conforto nas duas medições noturnas. A nebulosidade reduz significativamente no período da noite na área de estudo sendo praticamente inexistente às 18 h e bastante reduzida às 21 h, variando de 1/8 a 2/8. Essa característica contribui de forma eficiente para o processo de liberação de calor para a atmosfera pelas estruturas urbanas. A ausência de nebulosidade associada com temperaturas amenas colabora ainda para condições de conforto térmico. Fluxo bastante elevado de pessoas é registrado no ponto 2 (Terminal) durante as duas medições deste período (130 pessoas/minuto às 18 h e 40 pessoas/minuto às 21 h), seguido pelo ponto 4 (37 pessoas/minuto) e ponto 1 (16 pessoas/minuto). O fluxo no ponto 4 é representado pelo retorno da população residente dos locais de trabalho e estudo. 128 QUADRO 7 – Síntese dos Atributos Climáticos do Experimento II Temperatura 34,1º - 36º C 32,1º - 34º C TEMPERATURA (º C) 1. Av Min. Albuquerque Lima 30,1º - 32º C 2. Terminal de ônibus 28,1º - 30º C 3. Rua 319 26,1º - 28º C 4. Rua 448 A 24,1º - 26º C 5. CSF Maciel de Brito HORA 6 9 12 15 18 21 Umidade Relativa 90,1 – 100% UMIDADE RELATIVA (%) 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. CSF Maciel de Brito HORA 80,1 – 90% 70,1 – 80% 60,1 – 70% 6 9 12 15 18 21 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. CSF Maciel de Brito HORA Vento muito fresco Vento Fresco Vento Moderado 6 9 12 15 18 Direção do Vento 21 C Sul 50,1 – 60% 40 – 50% Velocidade do Vento Vento Forte VELOCIDADE DO VENTO (m/s) Norte 22º - 24º C Leste Oeste Sudeste Vento Fraco Aragem Nordeste Calmaria Bafagem Calmaria NEBULOSIDADE (8/8) 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. CSF Maciel de Brito HORA 6 9 12 15 18 21 6 9 12 15 18 21 Sistemas Atmosféricos Nebulosidade 9 (sem visão) 8/8 7/8 6/8 5/8 4/8 3/8 2/8 1/8 0 (céu limpo) Repercussão do Sistema TA 129 QUADRO 8 – Síntese dos Atributos Urbanos do Experimento II Fluxo de Veículos Acima de 40 FLUXO DE VEÍCULOS 1. Av Min. Albuquerque Lima 31 - 40 2. Terminal de ônibus 21 - 30 3. Rua 319 11 - 20 1- 10 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito 6 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito 9 FLUXO DE PESSOAS 1 2 4 4 1 1 1 3 4 1 6 9 12 15 18 Ausente 21 Fluxo de Pessoas 3 4 1 2 1 12 1 4 A 2 1 15 2 4 A 2 1 18 2 4 1 4 1 21 4 - Acima de 30 3 - 21 – 30 2 - 11 - 20 1 - 1 – 10 A - Ausente QUADRO 9 – Síntese do Conforto Térmico do Experimento II Te Stress ao calor (acima de 26º C) Escala Temperatura Efetiva (Te) 1. Av Min. Albuquerque Lima Zona de Conforto (21º a 26º C) 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 Stress ao frio (Abaixo de 22º C) 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito 6 9 12 15 18 21 INMET Muito Quente Escala INMET 1. Av Min. Albuquerque Lima 2. Terminal de ônibus 3. Rua 319 4. Rua 448 A 5. PSF Maciel de Brito Necessita vento para conforto Confortável 6 9 12 15 18 21 Muito úmido 130 TABELA 5 – Contrastes Térmicos do Experimento II Contrastes Térmicos (º C) HORA Inter-Urbano4 Intra-Urbanos5 06:00 1,6 0,1 1,5 7,8 6,3 1,5 2,4 0,9 1,5 1,4 -1,1 2,5 -2,5 -4 1,5 0,6 -1,4 2 09:00 12:00 15:00 18:00 21:00 TABELA 6 – Contrastes Higrométricos do Experimento II Contrastes Higrométricos (%) HORA Inter – Urbano³ UR Intra-Urbano4 06:00 7,2 23 09:00 -16,6 11 12:00 3,8 14 15:00 12,6 4 18:00 25,8 7 21:00 31,2 23 4 Representam as diferenças de valores (temperatura e umidade) encontradas entre os dados do Experimento e o valor registrado na PCD de Caucaia. O primeiro valor indica a diferença entre a maior temperatura encontrada na área com a PCD de Caucaia e o segundo, a diferença entre a menor temperatura encontrada e a PCD de Caucaia. 5 Representa as diferenças dos maiores com os menores valores (temperatura e umidade) encontrados na área de estudo durante a realização dos experimentos. 131 4.3 – Análise sazonal dos experimentos A partir dos dados coletados nos dois experimentos da pesquisa, apresentados anteriormente, é possível tecer algumas considerações a respeito dos microclimas no Conjunto Ceará, no que se refere ao comportamento das variáveis climáticas trabalhadas. Neste momento são destacados os fatos e eventos de maior frequência observados no decorrer da pesquisa. É necessário ressaltar as características climáticas do ano de 2009 que influenciaram diretamente o comportamento das variáveis mensuradas em campo. A combinação dos eventos La Niña e do Dipolo Negativo do Atlântico ocasionaram elevados índices pluviométricos na cidade de Fortaleza aumentando a duração da quadra chuvosa no estado do Ceará. A atuação desses sistemas fez com que o ano de 2009 fosse considerado como um dos anos mais chuvosos dos últimos 100 anos e explicam, sobretudo, os valores mais amenos de temperatura e valores mais elevados de umidade relativa do ar verificados principalmente no Experimento I da pesquisa. O período de maior aquecimento do conjunto habitacional ocorreu entre as medições de 9h e 15h nos dois experimentos realizados, em virtude de ser esse o momento de maior incidência de radiação solar sobre a superfície bem como também o período de devolução desse calor para a atmosfera. Os contrastes térmicos foram mais acentuados no Experimento II do que no Experimento I, tanto no contexto inter como intra-urbano. Os maiores valores de temperatura encontrados fora 31,5º C nos pontos 2 e 5 ao meio-dia no Experimento I e 35º C também no ponto 2 ao meio-dia no Experimento II. As diferenças de temperatura se apresentarem de forma mais intensa no período da tarde e noite para o contexto intra-urbano e no período da manhã para a realidade interurbana. No experimento I, os maiores contrastes intraurbanos identificados foi de 2º C nos horários de 15, 18 e 21 h sendo nos pontos 1 e 2 que a temperatura foi mais elevada. Já no Experimento II, as diferenças encontradas na área de estudo foram de 2,5º C ás 15 h, tendo o ponto 1 como o local de maior temperatura, e de 4º C ao meio-dia, desta vez sendo no ponto 2 a maior temperatura observada. 132 No contexto interurbano, os maiores contrastes térmicos identificados foi de 6,1º C às 9h no Experimento I, e 7,8º C no Experimento II. Em ambos os experimentos, o ponto 1 aparece como o local de maior temperatura dentre os pontos analisados na área de estudo. Vale ressaltar que embora o Ponto 1 seja a área de maior altitude, dentre os pontos analisados, apresenta também uma grande dinâmica urbana aliada à uma pouca arborização, o que pode justificar a tendência deste ponto apresentar elevadas temperaturas durante os experimentos. Levanta-se a hipótese de que a Avenida Central (Ponto 1) e o Terminal de Ônibus (ponto 2) apresentam a tendência em apresentar as maiores temperaturas na área do conjunto habitacional em virtude da concentração de equipamentos urbanos, comércios e serviços. As duas áreas são locais de intenso fluxo de veículos e pessoas na realidade urbana do bairro. Além disso, são setores que possuem uma estrutura urbana caracterizada por materiais que possuem alto poder de absorção de energia, como o asfalto utilizado no revestimento das vias do entorno dos pontos. A Avenida Central está localizada na porção central da área de estudo, local onde se concentram bancos, comércios e outros estabelecimentos de prestação de serviços. Já o Terminal tem a presença constante de ônibus em funcionamento e circulação de pessoas no seu interior. As características dessas áreas representam uma fonte geradora de calor no ambiente urbano, o que pode influenciar diretamente no comportamento microclimático observado na área de estudo. A umidade relativa do ar manifesta comportamento inverso ao da temperatura nos dois experimentos representando as características sazonais nas quais os trabalhos de campo foram realizados, com valores mais elevados para o primeiro semestre do que para o segundo. No experimento I, os maiores valores de umidade relativa foram encontrados na primeira e última medição, enquanto que nas demais os valores oscilaram entre 60% a 84%. Já no segundo experimento, os menores valores foram registrados principalmente no período diurno com variação de 41% a 84%. Foi registrada umidade de 100% apenas no Ponto 5h às 6h no Experimento I e no ponto 1h às 21 h no Experimento II. Quanto aos ventos este segue a característica do estado em apresentar fluxos mais elevados nos meses mais secos e mais reduzidos no período 133 chuvoso. No experimento I predominaram ventos de calmaria a vento fraco, variando de 0 a 4,3 m/s. De modo geral, os pontos apresentaram valores similares quanto a esta variável, com exceção do Ponto 2, onde foram registrados os menores valores de fluxos de ar. A direção predominante dos ventos foi a de sudeste. No experimento II, ocorreram ventos bafagem a ventos moderados, variando de 1,1 m/s a 6,3 m/s. Os maiores valores de fluxos de ar do Experimento II foram encontrados no ponto 4. O conforto térmico, analisado a partir do diagrama do INMET e do Índice Te, acompanha as condições de temperatura, umidade e ventos encontradas nos dois experimentos. O diagrama INMET indica a predominância de condições de muita umidade e necessidade de vento para conforto no decorrer do Experimento I, enquanto que no Experimento II revela a necessidade de vento para o conforto térmico na maior parte das medições do período diurno. O Índice Te indica predomínio de condições de stress ao calor no período diurno e condições de conforto no período noturno tanto do experimento I como do segundo experimento, não revelando contrastes expressivos entre os períodos sazonais analisados. A nebulosidade foi resultado das condições atmosféricas geradas pelos sistemas de circulação regional que atuaram em Fortaleza nos dias dos experimentos. Os valores encontrados no Experimento I são provenientes da atuação da ZCIT na cidade, a qual conferiu à área de estudo valores mais elevados no período da manhã. No experimento II, os valores mais expressivos de nebulosidade foram encontrados também no período diurno em função da atuação do sistema TA. Os dados climáticos coletados no Experimento I evidenciam a atuação da ZCIT como um dos principais sistemas atmosféricos causadores de chuva no Nordeste do Brasil. Embora a precipitação não tenha ocorrido no dia do Experimento, a nebulosidade observada na área de estudo foi intensa em virtude desse sistema. Assim também foi a atuação do Sistema TA no Experimento II, onde se verificou elevadas temperaturas e umidade relativas baixas na área de estudo, características desse sistema quando atuante no continente. No que se refere aos elementos de natureza urbana, estes apresentaram grandes contrastes dentre os pontos analisados. Os pontos 1, 2 e 4 apresentaram valores mais expressivos durante a realização dos dois 134 experimentos. Já os pontos 3 e 5 configuraram-se como locais de pouca movimentação de veículos e pessoas na realidade urbana do Conjunto Ceará. Os contrastes termo-higrométricos analisados no decorrer da pesquisa foram acentuados para a realidade do conjunto habitacional. Os pontos 1, 2 e 4, caracterizados pela densidade de construções e intensa dinâmica urbana apresentaram valores mais elevados de temperatura e também de umidade relativa. Já os pontos 3 e 5, inseridos em áreas de maior cobertura vegetal e de construções mais esparsas apresentaram temperaturas mais amenas e também melhores condições de conforto térmico. Esse fato faz com que se levante a hipótese de que a dinâmica urbana ocorrida nas áreas dos pontos de coleta de dados, bem como as formas de uso e ocupação, foram fatores de influência direta no comportamento dos atributos climáticos locais. 135 5. O ESTUDO DO CLIMA URBANO: CONTRIBUIÇÕES AO PLANEJAMENTO DA CIDADE. O presente capítulo traz algumas reflexões acerca do clima urbano, na perspectiva do planejamento da cidade e também da área de interesse da pesquisa. O objetivo desta parte do relatório é apresentar algumas medidas que possam reduzir a problemática da alteração das variáveis meteorológicas e viabilizar condições de conforto térmico no Conjunto Ceará, bem como na cidade de Fortaleza. É na cidade que as alterações no ambiente são mais significativas, principalmente no que se refere às mudanças ocorridas na atmosfera devido o processo de urbanização. Tal fato implica na necessidade de um maior número de estudos na área da Climatologia Urbana como forma de se melhor conhecer as relações existentes entre a cidade e o clima local. Como bem aponta Monteiro (1990): A conquista do espaço urbanizado, ao mesmo tempo que implica em derivações de vulto no quadro ecológico, passa, através do seu desenvolvimento temporal, por várias feições da massa edificada, de acordo com a própria evolução e diversificação das funções urbanas. E este próprio evoluir é condição básica para que a cidade seja capaz de alterar as condições climáticas locais até adquirir atributos tais que a possam dotar de um caráter de clima urbano. (MONTEIRO, 1990: 87) Sendo um local de adensamento populacional faz-se necessário uma melhor compreensão na cidade da relação sociedade-natureza e suas implicações na produção do espaço urbano. Desse modo, algumas medidas poderão ser de fato implementadas nos planos de gestão municipal, estadual e federal visando um melhor planejamento do ambiente urbano. No que se refere às questões climáticas, pouca atenção ainda é dada, principalmente pelos gestores da cidade, a essa degradação no ambiente urbano. Embora muitos trabalhos venham sendo realizados nessa perspectiva, o que se percebe é que poucos são efetivados nos planos de gestão do município de Fortaleza. 136 Inclusive a cidade de Fortaleza é um exemplo que revela um crescimento urbano não acompanhado por planejamento. Grande parte da cidade expandiu-se de forma desordenada desconsiderando as potencialidades e fragilidades de seu sítio urbano. Os conjuntos habitacionais, responsáveis em grande parte por essa expansão, foram construídos de uma maneira geral sem planejamento e desconhecendo as características naturais das áreas onde foram construídos. A aplicação da Climatologia no planejamento urbano é um objetivo apontado por quase todos os autores que trabalham com esta temática. No entanto, o que se verifica é que a falta de aplicação desse campo de estudo é também muito frequente. O clima urbano deve ser considerado também um componente de primeira ordem no ambiente urbano, uma vez que pode impactar diretamente a vida da sociedade (ANDRADE, 2005). O enunciado nove da teoria do Sistema Clima Urbano de Monteiro (2003) propõe a intervenção da sociedade no problema das alterações climáticas da cidade, através do poder de decisão e do conhecimento da dinâmica climática processada na cidade. Assim, fica claro que é por meio de um planejamento ambiental que a cidade reduzirá problemas socioambientais existentes e alcançará a tão discutida sustentabilidade. 5.1 – Propostas ao Planejamento do Conjunto Ceará A partir da pesquisa realizada na área do Conjunto Ceará, foi possível observar o comportamento dos atributos climáticos influenciado, sobretudo, pelos diferentes padrões de ocupação do solo. Com isso, é possível tecer algumas sugestões que podem ser implantadas na área objetivando um melhor planejamento urbano e também condições de conforto térmico. • Primeiramente, percebe-se a necessidade de um maior conhecimento do clima urbano da cidade como um todo. O comportamento das variáveis meteorológicas em escala intraurbana necessita ser melhor conhecido para que estratégias de conforto ambiental sejam viabilizadas. Assim, faz-se necessário 137 um maior número de pesquisas neste campo da Climatologia Urbana. Vale ressaltar ainda a importância de estudos realizados a partir da proposta teórica do Sistema Clima Urbano como uma forma de melhor entender as relações existentes entre o clima e o fenômeno da urbanização. • Ocorre no Conjunto Ceará, e também nos demais bairros da SER V, um intenso processo de expansão urbana caracterizado por loteamentos e mutirões que crescem, em grande parte, de maneira desordenada. O conhecimento climático e a assessoria de órgãos competentes poderiam ajudar nesse processo, diminuindo os impactos que esta massa edificada pode produzir ao bairro e à cidade. • Uma das características do Conjunto Ceará é o grande número de praças no bairro. Atualmente a área conta com 36 praças de diversos tamanhos e funções. Essas áreas são locais de lazer e entretenimento para a população local. No entanto, apresentam problemas de manutenção por parte da gestão municipal. Atualmente esses locais apresentam sérios problemas de segurança e infraestrutura, principalmente o polo de lazer do bairro que não possui mais infraestrutura para algumas atividades outrora desenvolvidas como corrida, pistas de skates etc. O ideal seria que essas praças possuíssem uma melhor arborização e espaços de lazer como forma de favorecer o conforto térmico e, consequentemente, a qualidade socioambiental aos moradores. • A vegetação primitiva da área foi quase que totalmente degradada para a construção do conjunto habitacional. Os espaços verdes que ainda sobram são bastante reduzidos e praticamente ocorrem em áreas que não possuem nenhuma função urbana. Verifica-se, de um modo geral, a pouca arborização em grande parte do conjunto habitacional. Uma das possibilidades seria a construção de parques e uma melhor arborização das praças e principais avenidas como forma de tornar o clima local mais ameno. • Uma boa parte das ruas e avenidas do conjunto habitacional não é asfaltada, o que já contribui para a redução da problemática de 138 impermeabilização do solo urbano tão presente em grande parte da cidade de Fortaleza. O albedo mais reduzido da malha asfáltica contribui para o maior armazenamento de calor pelas superfícies e consequentemente para o aquecimento mais rápido do ar. Assim é interessante que as ruas e avenidas do Conjunto Ceará permaneçam apenas com a pavimentação existente contribuindo assim para o conforto térmico e o escoamento superficial, reduzindo, sobretudo, os problemas de inundação urbana verificados principalmente na quadra chuvosa do Estado. • Outra questão relevante a ser considerada no ambiente urbano é a conservação dos recursos hídricos. Vários trabalhos realizados nas cidades apontam a importância dos ambientes fluviais e lacustres como geradores de microclimas mais amenos quando comparados com outras áreas com ausência de recursos hídricos superficiais. • A utilização de materiais da construção civil adequados ao clima local é também uma medida que viabiliza o conforto térmico, uma vez que determinados materiais e cores possuem diferentes níveis de absorção e reflexão de calor. Materiais e cores de albedo mais elevado são mais indicados para as características climáticas de Fortaleza, por refletirem de forma mais eficiente a radiação solar. • Fazem-se necessários, ainda, estudos climáticos em vários setores da cidade com uma maior cobertura de pontos que possa dar conta da diversidade de usos e ocupação do solo. Quanto mais as peculiaridades climáticas forem conhecidas em escala intra-urbanas mais a dinâmica do clima urbano de Fortaleza será revelada e consequentemente o conhecimento climático obtido a partir desses estudos viabilizará ações que possam ser efetivadas na gestão do município. Ressalta-se, sobretudo, os trabalhos que vêm sendo realizados principalmente pelo Laboratório de Climatologia e Recursos Hídricos do Departamento de Geografia da UFC dentro do projeto O CLIMA EM ESPAÇOS INTRA- 139 URBANOS DE FORTALEZA E REGIÃO METROPOLITANA NO CAMPO TERMODINÂMICO E O CONFORTO TÉRMICO. • Outro ponto importante a ser desenvolvido é a mobilização popular para exigir do poder público e órgãos competentes a efetivação de propostas mitigadoras dos problemas ambientais verificados na escala municipal e também na área dos bairros de Fortaleza. • Todas essas propostas são encaminhadas quando se há por parte da população local, que é quem verdadeiramente vivencia o bairro, uma educação ambiental que permita a tomada de consciência dos problemas existentes na área. Há um grande número de escolas no bairro que poderiam desenvolver projetos de educação ambiental como forma de melhorar determinados aspectos no conjunto habitacional, dentre eles, àqueles relacionados ao clima urbano. Alguns investimentos poderiam inclusive ser viabilizados pela gestão municipal e estadual para que de fato essas iniciativas pudessem ser efetivadas na realidade do bairro. Com as propostas supracitadas, a pesquisa pretende dar uma contribuição ao Conjunto Ceará, situado na periferia de Fortaleza, oferecendo medidas que possam colaborar para com o planejamento da área, sobretudo, no que diz respeito ao conforto térmico. O trabalho realizado evidencia as condições climáticas intra-urbanas de uma parte da cidade de Fortaleza e revela a necessidade de que demais estudos sejam realizados nessa escala como forma de entender realmente a dinâmica ocorrida no interior dos espaços da cidade e que podem repercutir no ambiente urbano. 140 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AYOADE, Introdução à Climatologia para os Trópicos. São Paulo: DIFEL,2003. ALMEIDA, J. R.; TERTULIANO, M. F. Diagnose dos Sistemas Ambientais: métodos e indicadores. In: CUNHA, S. B.; GUERRA, A. J. T. Avaliação e perícia ambiental. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. ANDRADE, H. O clima urbano: natureza, escalas de análise e aplicabilidade. Finisterra-Revista Portuguesa de Geografia, XL (80), 2005, p. 67-91. ARAÚJO, R. R.; SANT’ANNA NETO, J. L. O processo de urbanização na produção do clima urbano de São Luís-MA. In: SANT’ANNA NETO, J. L. (Org.) O clima das cidades brasileiras. Presidente Prudente: UNESP, 2002. AZEVEDO, T. R. et al. 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Fortaleza, n. 16, p. 255-261, 2009. 145 21:00 18:00 15:00 12:00 9:00 6:00 HORA T° BB Seco T° Bb Úmido Umidade Relativa Conforto Térmico Velocidade dos Ventos Direção dos Ventos Nebulosidade Fluxo de Veículos Fluxo de Pessoas Análise Microclimática e Planejamento em Conjuntos Habitacionais: o caso do Conjunto Ceará – Fortaleza /CE. UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ MESTRADO ACADÊMICO EM GEOGRAFIA Anexo A – Ficha de Campo para Coleta de Dados Estação Microclimática Nº: _____________________________________________________________________ Data de Coleta: ___ / ___ / ___ Equipe:______________________________________________________________________________________ ANEXOS 146 Anexo B – Atributos Climáticos e Urbanos do Experimento I: 22/04/09 Temperatura (º C) HORA PONTO 1 PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 PONTO 5 06:00 23 22,5 23 23 23 09:00 29 28,5 28 28,5 29 12:00 31 31,5 30 30 31,5 15:00 29 29,5 27,5 28,5 28 18:00 28 28 26 27 26 21:00 26,5 26 24,5 26 25,5 Umidade Relativa (%) HORA 06:00 09:00 PONTO 1 95 78 PONTO 2 95 81 PONTO 3 91 70 PONTO 4 98 83 PONTO 5 100 78 12:00 15:00 68 85 60 71 65 84 74 83 69 77 18:00 21:00 77 87 77 92 92 95 83 92 92 92 PONTO 1 PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 PONTO 5 06:00 1,1 1,1 1,1 1,1 1,1 09:00 4 9 9 9 9 12:00 9 1,1 1,1 9 9 15:00 9 1,1 1,1 15,5 9 18:00 4 1,1 1,1 1,1 4 21:00 4 1,1 1,1 1,1 1,1 Velocidade do Vento (m/s) HORA Direção do Vento (º C) HORA PONTO 1 PONTO 2 PONTO 3 06:00 09:00 PONTO 4 PONTO 5 SE L SE SE L C SE L NE SE 12:00 SE SE L NE SE 15:00 NE NE NE NO NE 18:00 SE NE NE C NE 21:00 SE SE NE C NE 147 HORA 06:00 09:00 12:00 15:00 18:00 21:00 HORA 06:00 09:00 12:00 15:00 18:00 21:00 HORA 06:00 09:00 12:00 15:00 18:00 21:00 PONTO 1 6 4 4 6 2 0 Nebulosidade (8) PONTO 2 PONTO 3 7 3 4 5 6 4 5 4 0 1 0 1 PONTO 4 7 6 5 5 3 2 PONTO 1 35 58 40 30 40 20 Fluxo de Veículos (nº/min) PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 12 7 2 2 10 3 3 5 6 4 1 5 3 0 7 1 1 2 PONTO 1 5 16 13 22 20 10 Fluxo de Pessoas (nº/min) PONTO 2 PONTO 3 26 4 14 8 22 6 37 0 33 0 26 1 PONTO 4 9 5 10 19 33 15 PONTO 5 7 4 4 6 1 0 PONTO 5 1 1 0 5 1 0 PONTO 5 0 7 0 15 1 0 148 Anexo C – Atributos Climáticos e Urbanos do Experimento II: 23/10/09 Temperatura (º C) HORA PONTO 1 PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 PONTO 5 06:00 26 25 24,5 25 25 09:00 31,5 30 31 30 31 12:00 32 35 32,5 31 31,5 15:00 32,5 31,5 30 32 31 18:00 27 28 26,5 27 27 21:00 26 25 25,5 27 26 Umidade Relativa (%) HORA PONTO 1 PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 PONTO 5 06:00 09:00 12:00 76 54 49 61 65 41 84 54 50 84 59 54 84 57 55 15:00 18:00 21:00 59 77 100 55 70 87 59 77 84 55 77 77 57 74 84 Velocidade do Vento (m/s) HORA PONTO 1 PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 PONTO 5 06:00 4 4 4 9 4 09:00 9 4 15,5 23 9 12:00 9 4 23 23 9 15:00 15,5 9 15,5 9 4 18:00 15,5 4 4 9 4 21:00 1,1 4 4 9 4 Direção do Vento HORA PONTO 1 PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 PONTO 5 06:00 L L L NE SE 09:00 NE L L NE L 12:00 L SE L NE L 15:00 L L L NE L 18:00 L SE L NE L 21:00 L SE L NE L 149 HORA 06:00 09:00 12:00 15:00 18:00 21:00 HORA 06:00 09:00 12:00 15:00 18:00 21:00 HORA 06:00 09:00 12:00 15:00 18:00 21:00 PONTO 1 4/8 4/8 3/8 3/8 1/8 2/8 Nebulosidade (8) PONTO 2 PONTO 3 3/8 3/8 2/8 4/8 3/8 4/8 2/8 1/8 0 0 2/8 1/8 PONTO 4 4/8 5/8 4/8 3/8 0 2/8 PONTO 1 7 17 18 30 24 17 Fluxo de Veículos (nº/min) PONTO 2 PONTO 3 PONTO 4 11 0 5 8 0 7 6 1 15 5 0 11 8 0 7 10 1 16 PONTO 1 9 17 21 7 14 16 Fluxo de Pessoas (nº/min) PONTO 2 PONTO 3 60 2 40 1 30 5 50 0 130 6 40 1 PONTO 4 10 25 12 17 17 37 PONTO 5 5/8 4/8 2/8 3/8 0 2/8 PONTO 5 1 2 1 2 2 2 PONTO 5 52 8 1 6 4 12 150