Seminário internacional “ Herança, identidade, educação e cultura: gestão dos sítios e lugares de memória ligados ao tráfico negreiro e à escravidão” Palestra: Apresentação de experiências e práticas exemplares Terceira Sessão Moderador: Mariza de Carvalho Soares, professora emérita da Universidade Federal Fluminense Data: 21/08/2012 – 09:30 África a) Ghana – Stephen Korsah b) Cabo Verde – Charles Samson Akibode c) Nigéria – Gabriel Olatunde Babawale d) Benin – Micheline Egounlety e) Moçambique – Cândido Loforte de Sousa Teixeira Mariza Soares deseja bom dia e discorre sobre o prazer que é presidir a mesa com um grupo de africanos falando sobre suas experiências em termos de tratamento das suas heranças. Relata ausência do senhor Augustin Senghor, do Senegal, também palestrante apresenta Micheline Egounlety de Benin para falar em seu lugar. Apresentação Stephen Korsah Ghana Sua apresentação é acerca das experiências museológicas e pedagógicas do castelo de Cape Coast. O prédio, fartamente ilustrado por fotografias em uma apresentação de powerpoint, funciona como espaço expositivo. Fez uma breve histórico do castelo. Originalmente era um forte português, construído em 1555, Cape Coast passou para o controle sueco em 1653. Em 1664, os ingleses, após alternância de domínio de suecos, holandeses e da população local, assumiram o castelo. Apesar da elegância de sua arquitetura, o castelo é símbolo do comércio de escravos, um ícone das centenas de milhares de africanos presos e forçados a imigrar para a América e Europa. Desde 1976 é patrimônio mundial. A cidade de Cape Coast foi a capital de Gana até 1877. Os visitantes e os turistas sempre são acompanhados por guias ao castelo. Devido à sua localização, há um grande desafio na conservação de seus objetos e artefatos. O ambiente marinho contribui com depósitos de sal e poeira sobre as peças, chão escorregadio, peças de ferro enferrujadas pela atmosfera salina, algas, fungos, retratos e fotografias deteriorados pela exposição à luz, infestação por roedores, vazamentos, infiltrações, destruição de instalações elétricas, além de ser difícil usar aparelhos eletrônicos. A deterioração das peças causa o risco de perda de condição de patrimônio mundial. Uma grande preocupação para os gestores. Exemplos, em fotos, da deterioração ilustraram o argumento do palestrante. Stephen afirma que é complicado contar uma história verdadeira. Por onde começar? Qual a verdade? Devemos usar a versão do livro didático ou tradição oral? Aqueles que trabalham no castelo querem proporcionar uma história autêntica e de qualidade. Os livros didáticos têm relatos distorcidos. O castelo sempre tem de atender às expectativas dos visitantes com suas diferentes vivências. Aos africanos envolvidos na diáspora, qual a verdadeira história? E para os estrangeiros? Outro grande desafio. A história oficial dificulta tratar com essa pluralidade. Resolveram contar a história do castelo como a conhecem, a partir da tradição oral e algo dos livros oficiais. Há sempre pressão sobre os profissionais da educação, as equipes de guias. Devido à sazonalidade dos visitantes, empregam voluntários em alguns momentos. Alguns são pagos, outros não. Muito do movimento do museu é doméstico. Como o museu recebe desde crianças com 6 anos até universitários, acreditase que seja um centro formador de agentes de mudança e difusão da história. O foco é nos alunos, estudantes e população local. Ainda que não ignore – ou deixe de atender – aos interesses de outros públicos. O castelo cobra entradas com preços diferenciados. Cidadãos de Ghana pagam menos que estrangeiros. Estudantes e pesquisadores também têm desconto. Essa situação é questionada, e muitas vezes não compreendida, por visitantes estrangeiros, especialmente de países vizinhos. Porém, segundo Stephen, a diferença de valores serve de estímulo à população local visitar o castelo. Para outros, muitas vezes é apenas uma visita turística. A taxa é usada para realizar a manutenção do castelo. Novamente, é reforçada a ideia que o espaço funciona como multiplicador na difusão da verdade acerca da história do comércio atlântico de escravos. Há falta de apoio financeiro, logístico e técnico. Existem, contudo, parcerias com outras instituições, e uma tentativa de equilibrar educação e turismo. O palestrante pergunta como se enfrentaria o desafio de conservar uma construção antiga sem apagar a história do edifício? Como visto anteriormente, uma parte considerável dos desafios é de conservação e preservação. Para isso, há um departamento para cada um dos itens. Outras boas práticas incluem oficinas, compartilhamento de informações, leituras: tudo em busca de uma história verdadeira. Para evitar a distorção de fatos há uma capacitada equipe de educação com fluência no espanhol e francês. É outro desafio manter bons funcionários. Há muitos voluntários, estagiários e alunos que ajudam (pagos ou não) quando há um movimento maior de visitantes. Em conclusão, a gestão de espaços de memória acerca do tráfico de escravos é imperativa para quebrar o silêncio. Além disso, há um retorno econômico através do turismo de memória. Ou seja, a experiência é acima de tudo prática. Apresentação de Charles Samson Akibode – Cabo Verde Ele fala sobre sítio de Cidade Velha, em Cabo Verde mostrando ilustrações no powerpoint. Charles afirma que falar de escravidão exige cuidados com conceitos. E faz um breve panorama histórico de Cabo Verde. Descoberto em 1460, por portugueses, a cidade proporcionou alguns dos primeiros escravos aos europeus. Lá foi fundado o primeiro mercado de escravos do comércio atlântico, no dia 14 de agosto de 1444. A arquitetura de Cidade Velha é militar e religiosa, apresentando uma grande densidade de prédios desse tipo para um espaço tão reduzido. Há, inclusive, mais edifícios religiosos por habitante que Roma. Na história da humanidade a alquimía entre o militar e o religioso indica uma predominância da questão econômica. Charles, preocupado com uma terminologia correta, fez questão de indicar a confusão semântica do nome. “Ilhas de Cabo Verde” que segundo ele é um termo confuso. Como poderia ser ilha e cabo ao mesmo tempo? Tratase, pois, de uma orientação náutica. São as ilhas no caminho do cabo do Senegal. O Cabo Verde é tido como um ponto chave da diáspora atlântica do escravo africano. Em estudos recentes, o termo “comércio atlântico” é mais adequado. Mesmo antes da chegada dos europeus à América, Cidade Velha já era um ponto chave dessa diáspora. Isso é algo esquecido, ocultado. Além de Cidade Velha, outros lugares cruciais nesse processo foram as Ilhas Madeira, Canária, Lagos e Sevilla. A tomada da predominância comercial frente aos árabes, portanto, foi motivo para escravização. Esta, por sua vez, focouse na produção de canadeaçúcar. O palestrante ressalta sua postura de não apenas ver uma história material europeia no estudo de escravidão desde a África. Ele não pretende falar de aspectos específicos de igrejas, fortes ou fortalezas. Reconhece a importância desses tópicos, contudo, prefere um olhar que vê no escravo um ser completo capaz de mudar a sociedade. Em outras palavras, é um estudo de cultura imaterial sobre a escravidão. O passado da escravidão como patrimônio imaterial. Posteriormente, o assunto foi o de relações entre Brasil e Cabo Verde, sendo que a cidade africana foi a primeira economia canadeaçúcar. As primeiras plantas que chegam ao Brasil vieram de Cabo Verde. Assim como as primeiras vacas e os primeiros escravos. Outras plantas saíram do Brasil e foram para Cabo Verde. A mandioca por exemplo. Usada inicialmente pra alimentar escravos passou a ser mais difundida após uma crise de fome em Cabo Verde. Ou seja, intercâmbio biológico. O feijão fradinho, chamado feijão caupi, é outro exemplo. A arte culinária é uma resistência intelectual, inventar um prato é força de uma cultura. Música e dança são outras expressões culturais do comércio atlântico de escravos. Ritmos de alegria ou tristeza expressos como códigos de comunicação. Os portugueses proibiram escravos de comemorar suas festas tradicionais, deixando mais claro o caráter de resistência dessas expressões culturais. Como conclusão, é imperativo desenvolver um projeto participativo de caráter mais horizontal e menos vertical. Inverter a lógica e garantir a inserção da comunidade próxima ao sítio é necessário. Entre outros pontos, destaca Charles que devemos: conservar valores arquitetônicos; reforçar a gestão e valorização do patrimônio; melhorar as condições de vida dos moradores próximos ao sítio; e, por fim, valorizar as tradições da terra. Em síntese, capacitação de moradores e comunidade em geral que garantiriam uma gestão mais participativa do sítio. Apresentação de Gabriel Babawale – Nigéria Gabriel Babawale da Nigéria começa por expressar a satisfação com a Fundação Palmares e com a Unesco pela oportunidade em compartilhar experiências em questões que são muito importantes para o povo africano. Em termos gerais, falará das experiências no contexto da Nigéria. Ele enfatiza a necessidade de documentar as experiências que eles têm, especialmente para o povo africano, e da importância do seminário. O mundo é diverso e há diferenças em cor, heranças, etc., mas o importante é enfatizar as identidades para ter uma humanidade comum. A escravidão é, no contexto da África, muito importante, mas as pesquisas que documentam os males do comércio de escravos e outras informações a este respeito fazem necessário alguns esclarecimentos. Em termos de identidade, tratase de indivíduos, daquilo que diferencia um ser humano de outro. Por isso, no seminário, tornase importante falar de uma identidade comum. A educação dá o caminho para se falar de comunidades, dá base para estas discussões, ela é a chave para a libertação. Tanto a educação formal, como a informal, da tradição oral africana. Por sua vez, as leis, a linguagem, a propaganda, enfim, a totalidade da vida de um indivíduo e a forma como as pessoas lidam com seu contexto nos dão um mapa político de como a cultura é tratada. Um país que negligencia a cultura é um país sem sucesso. O dano monumental que a escravidão causou faz com que este tema, um crime contra a humanidade, seja de grande importância na construção da herança humana no continente da África. É importante documentar os experimentos de história, dos eventos históricos, não apenas para fazer uma história factual, mas para viver e deixar viva a cultura negra. No contexto destas clarificações, é importante entender os recursos abundantes das comunidades, em especial, da herança e sítios de memória da Nigéria. Falar de sítios históricos, portanto, no contexto amplo e vasto da Nigéria, é falar dos recursos disponíveis para o governo. Deste grande número, apenas alguns podem ser transformados em lugares de visita e memória, principalmente nos estados de Badagry, Bonny e Calabar, na Nigéria. Há necessidade de preservar cidades históricas, locais turísticos. Badagry tem uma histórica única, não só pela escravidão, mas por ter o primeiro edifício de engenharia, onde o cristianismo entrou pela primeira vez no país. Entre os sítios, um bastante desenvolvido é o Museu da Herança de Badagry, o Mercado de Escravos de Verekete, o Ponto sem Retorno, Seriki Faremi Williams Abass. Ainda assim, as condições não são as melhores. Calabar, que teve a primeira escola secundarista da Nigéria e o primeiro porto marítimo internacional, conhecido no século XVI, tem importantes sítios; em especial o Museu da História da Escravidão, e o Museu Nacional que também é ligado à memória do tráfico de escravos e é muito visitado, pois possui o maior número de documentos originais da Nigéria. O palácio do Museu da História da Escravidão também tem vestígios e memória do tráfico de escravos. Peças do museu mostram carga humana, junto a sistema audiovisual, a moeda de troca é possível de ser vista, material usado para imobilizar os escravos, assim como instalações de comércio e tráfico indicando percentuais de escravos que eram levados para Inglaterra. Também há maquetes de feiras de leilão de escravos, onde se pode ver o preço colocado em seres humanos, pessoas marcadas com ferro quente, tudo graficamente apresentado, com áudio do choro e gritos das pessoas. Abolição também é mostrada, pessoas fugindo, pessoas sendo libertadas, quebrando correntes da opressão. Há outros monumentos da escravidão em toda Calabar. O que é importante, é que muito esforço vem sendo feito para preservar estes espaços para o país e a humanidade. Há uma comissão para gerenciar os monumentos ligados ao ministro de cultura. Outras ONGs ou agências, como o Comitê Nigeriano para a Arte buscam garantir a sobrevivência destes sítios. Eles enfrentam vários desafios como falta de recursos financeiros, especialmente por causa da crise econômica e da corrupção, não recebendo atenção que cultura merece. Especialmente o tráfico transsaariano necessita de atenção. A ausência de recursos humanos especializados é de grande importância, pois poucas são as pessoas, na Nigéria, que sabem gerir estes sítios com eficiência. O governo parece ver a cultura como categoria inferior, isso estava antes sob a tutela do ministério da informação, mas hoje as pessoas que trabalham neste ministério não comemoram seu trabalho, pois sabem que é necessário muito esforço para gerir estes espaços e estas memórias. A história nos diz que as pessoas que passaram pela mesma experiência que eu são “demonizadas” por serem colaboradores. A própria abolição na Nigéria foi feita à força, com agentes de segurança ingleses e a recusa da rainha em entender o pedido de anulação posteriormente apresentado em carta manuscrita. É importante compartilhar e recordar os sucessos e as falhas na manutenção e conservação destes espaços. Assim, uma das metas deste seminário é atrair a atenção global para a gestão de sítios históricos, em especial àqueles ligados à escravatura. Além disso, seria interessante que os organizadores, futuramente, voltassem sua atenção para outras áreas com a esperança de presentear a herança global africana e a identidade para a educação de gerações presentes e das futuras. Agradece novamente à Unesco. Apresentação de Miecheline Egounlety Benin Após seus agradecimentos, Micheline lamentou o problema técnico que a impossibilitou de mostrarnos imagens selecionadas sobre seu tema. Contudo, garantiu que faria o possível para as imagens circularem entre os participantes do seminário. A palestrante partilhou algumas experiências sobre memória e história em sítios do Benin. Os escravos de Benin foram conquistados pelo rei, no século XVIII, após guerras internas. Posteriormente, eram negociados em portos holandeses e ingleses. O sítio de Wida é muito importante, pois sua população foi a que primeiro teve contato com os portugueses. Foi, portanto, um ambiente de coabitação, com papéis de acordo com suas posições. Os escravos vieram do interior, frutos de guerra, e eram depois vendidos por ingleses, dinamarqueses, holandeses e enviados à América. Este comércio deixou marcas muito fortes e profundas na cultura do Benin. Em 1977, medidas foram tomadas para assegurar a proteção desse lugar. A partir do museu histórico, então, foram transformados em atração turística. Entre os exemplos de atrações turísticas de memória em Benin, Micheline cita Zomai, um local sem luz, que sediava rituais particulares praticados pelos escravos. A árvore do retorno, palco de um ritual de expiação de culpa dos escravos, também é outra atração permanente. O forte português, o porto francês e a floresta sagrada de Passé são outros lugares da memória da escravidão em Benin. A gestão desses espaços é responsabilidade de mercadores locais que se baseiam em dispositivos e estatutos que visam à melhora das condições de trabalho e da vida da comunidade. A floresta sagrada do Passé foi refúgio de população escrava no Benin. Foi reabitada, reflorestada e restaurada a partir do projeto A Rota do Escravo. Nela há representações dos locais de armazenamento dos escravos nos navios e indicações dos locais de morte dos escravos. A floresta é um símbolo da resistência africana frente à investida européia. A espiritualidade do lugar está em foco e garante a importância desse lugar. Ou seja, o patrimônio é imaterial. A população local contribui para manutenção dos sítios. Há também um escritório de turismo na cidade. Este trabalho de resgate de memória exigiu – e exige – um grande esforço da população do Benin, que participa ativamente desta iniciativa. Isso foi possível a partir de uma aproximação das linguagens e mídias, evitando textos prolixos que não funcionam bem para o público comum. O processo adotado traz diferentes realidades às nossas memórias. E, como resultado, o crescimento das visitas aos sítios é visível. Este discurso de vergonha, sofrimento e dificuldades ajuda numa tomada de consciência, apesar de depender de medidas provisórias relativas à proteção. Aqui na América, segundo ela, por sermos descendentes da diáspora, devemos perceber a dimensão de importância da Rota do Escravo. Em sua conclusão, ela diz que a Rota do Escravo em Benin, em Wida, sofre pela degradação. Apesar do grande conjunto de vestígios, não há aplicação de programas já criados e não concretizados. A conservação dos sítios, levando em consideração o contexto político do país, é uma luta que promove esperança de melhorias de vídeo. Apresentação de Cândido Teixeira – Moçambique Cândido Teixeira de Moçambique agradece à Fundação Palmares, que foi de fato muito importante, pois foi uma corrida contra o tempo a presença dele aqui hoje. Lamenta a ausência do colega do Senegal, pois estava convencido de que sua presença o deixaria protegido. Chama a atenção dos amigos da zona diplomática, para recomendar que brasileiros levem vacina contra febre amarela para Moçambique, pois foi uma das razões pela qual ele quase não embarcou, apesar de não terem cobrado a vacina em nenhum momento durante o trajeto. Ele recomenda em tom de humor que o Estado de Moçambique cobre o mesmo. A costa de Moçambique faz comércio de escravos desde tempos imemoriáveis, antes dos portugueses chegarem. Estes não se interessavam por isso, e sim pelo ouro, ocupando militarmente o território para chegar ao ouro. O comércio de escravos mantinhase, mas não era mais representativo. Foi com a chegada dos holandeses em 1642, no Cabo, em busca de ouro, posteriormente se estabeleceram na região entre 1721 a 1730 no que hoje é Maputo, que o contexto mudou. Portugueses visitavam anualmente o continente, mas voltavam para Ilha de Moçambique, e foram obrigados a tomar territorialmente o local em função da presença dos holandeses. Posteriormente os interessados no comércio dos escravos foram os franceses, que visitaram os portos de Moçambique para abastecer com mão de obra as Ilhas Mascarenhas e sua produção de cana de açúcar. Em 1580, com a perda da independência de Portugal, e ataque dos holandeses em Angola, portugueses concentrados no Brasil resolveram se abastecer em Moçambique, dando a volta pelo Cabo. Por isso, escravos que saíram da atual costa moçambicana dirigiamse para o Índico, França e para as Américas, sendo Brasil um dos principais mercados. O primeiro problema em termos de estudo é que não se possui documentação suficiente para historiar todas essas saídas. É mais fácil encontrar registro nos locais de destino. A documentação é frágil por várias razões, em parte, por que a independência de Moçambique, em 1985, destruiu parte da documentação. Também em função do período de guerra interna que não permitiu que se organizassem os arquivos. O acervo, hoje em Maputo, tem muitas dificuldades, inclusive na conservação. Em 2001, em convite para reunião em Lisboa do Comitê da Rota do Escravo, houve a primeira tentativa de enumerar os sítios, e falavase em 20 sítios. Mas concluíram que são praticamente portos e zonas adjacentes aos portos. O que tem sido particularmente tratado é a Ilha de Moçambique, primeiro por que foi a capital até fins do século XIX e tem grande concentração administrativa. Mas também dada riqueza patrimonial, tendo Fortaleza de São Sebastião, Cidade de Maputo e Cidade de Pedra e Cal. Além disso, há construções bem distintas, riquezas que se fazem além dos aspectos de natureza – como a influência cultural bantu, portuguesa, muçulmana, suaíli – elementos que formaram o conjunto que levou ilha a ser considerada Patrimônio Mundial da Humanidade. O processo, no entanto, foi muito difícil. Em 1982 foi elaborado relatório azul, resultado de trabalho de oito semanas de uma universidade e escola superior em conservação da Dinamarca. O relatório foi publicado pela Unesco em 1985 e serviu de base para a candidatura, pois foi a possibilidade de inventariar e apresentar aquilo que tem importância para os seus interesses. A principal dificuldade, hoje, em Moçambique, é a confusão administrativa do setor de cultura, que já passou por diversas mudanças, sendo secretaria ligada à educação, parte de um ministério com temática mais ampla abarcando inclusive a juventude, entre outros. Isso não favorece estabilidade dos quadros mais jovens que não veem expectativa de inclusão, ficam devedores do processo. Além deste fator, são existentes muitas estruturas no mesmo território – presidente do município, administrador do distrito e chefe de gabinete de conservação da Ilha de Moçambique, por exemplo. Como a ilha concentra o turismo do país, interesses econômicos começam a fazer parte, compramse terrenos e ruínas e transformamse em restaurantes, sem controle da parte do estado. Em 2007, no programa da Ilha da Reunião construiu o Jardim da Memória, um lugar antes preparado para concentração das pessoas e escravos. Hoje, o Jardim é gerido por dois irmãos, um jardineiro e um guarda. Nada é quantificado sobre as visitas. Será necessário que o governo tome consciência dos aspectos culturais essenciais, pois se juntam interesses econômicos, descoberta de petróleo em outra parte do país e a ilha é lentamente transformada em local de repouso da alta burguesia, processo apoiado por empresas, algumas brasileiras. Turismo e patrimônio são os filhos mais pobres do sistema. Agradece aos presentes.