28 SOCIEDADE
PÚBLICO • QUARTA-FEIRA, 22 NOV 2006
CIÊNCIAS
Chimpanzés preferem acasalar
com fêmeas mais velhas
O facto de os nossos parentes mais próximos serem promíscuos e as fêmeas permanecerem férteis
toda a vida pode explicar esta diferença de comportamento em relação aos humanos, dizem os
cientistas que observaram uma comunidade de chimpanzés durante oito anos. Por David Marçal
Os machos chimpanzés e os
humanos são diferentes no
que respeita a preferências
na idade das fêmeas para
acasalar. Apesar de, tal como
nos humanos, preferirem
algumas fêmeas em vez
de outras, os chimpanzés
sentem-se mais atraídos
por fêmeas mais velhas.
São as conclusões de um
trabalho realizado por
cientistas das universidades de Harvard e de Boston,
publicado ontem na revista
Current Biology.
Enquanto os chimpanzés
têm um sistema de acasalamento promíscuo, os
humanos formam relações
de acasalamento invulgarmente longas, o que torna
as fêmeas jovens, com
maior potencial reprodutivo, mais atraentes.
Estudos multiculturais
indicam que a atractividade feminina humana
tem, em geral, um pico
antes da maternidade e
decai com o envelhecimento. Pensa-se que a
menopausa, que
limita a fertilidade futura,
acentua a preferência por
mulheres jovens.
Teoricamente, numa espécie
sem menopausa nem relações
duradouras, os machos não
deviam sentir-se mais atraídos por parceiras jovens. Esta
foi a hipótese que a equipa de
Martin Muller, da Universidade de Boston, testou, estudando
os nossos parentes mais próximos, que são promíscuos e as
fêmeas permanecem férteis
toda a vida.
Os cientistas estudaram
as preferências de acasalamento da comunidade de
chimpanzés Kanyawara do
Parque Nacional Kibale, no
Uganda, durante oito anos.
É complicado inferir as preferências a partir dos dados de
acasalamentos efectivamente
consumados, porque cada cópula reflecte sempre algum
compromisso entre as duas
estratégias reprodutivas, do
macho e da fêmea.
Os machos nem sempre
conseguem acasalar com as
suas parceiras preferidas. Seja porque a competição com
outros machos é intensa ou
porque as fêmeas expressam
preferências conflituosas. Por
isso, os investigadores usaram
múltiplas abordagens para
avaliar a atractividade das
fêmeas.
O primeiro é a abordagem
para a cópula. As cópulas
de chimpanzés são
As cópulas iniciadas
por iniciativa do macho
aumentam com a idade
das fêmeas. E o número de
machos num grupo é maior
se estiverem presentes
fêmeas mais velhas
frequentemente precedidas
por comportamentos de corte
masculinos, como observar fixamente a fêmea com o pénis
erecto. Depois, tanto o macho
como a fêmea se podem aproximar para acasalar.
Os investigadores verificaram que as cópulas iniciadas
por iniciativa do macho
aumentam com a idade das
fêmeas. E o número de machos num grupo é maior se
estiverem presentes fêmeas
mais velhas. Uma terceira
análise demonstrou que as
fêmeas mais velhas têm uma
taxa de cópula mais alta com
machos de elevado estatuto.
Como os machos dominantes
têm mais possibilidades de
realizar as suas preferências
de acasalamento, trata-se de
uma indicação da preferência
masculina.
Segundo os autores, os dados distinguem solidamente
os padrões de preferências
de humanos e chimpanzés,
indicando que a preferência
dos homens por mulheres
jovens é uma característica
que surgiu como resposta
adaptativa à tendência humana para formar ligações
duradouras. ■
E nos humanos,
como é?
Será certo que os homens preferem mesmo
mulheres mais novas?
Há algumas explicações
para isso: o pico da fertilidade nas mulheres é
entre os 20 e os 24 anos,
e pelos 50 anos chega à
menopausa. Mas os homens, em teoria, podem
continuar a fazer filhos
até morrerem. Por outro
lado, diz-se que as mulheres preferem homens
mais velhos por terem
uma posição social mais
elevada. Estas ideias são
explicadas, por exemplo,
no livro A Sobrevivência
dos Mais Belos, de Nancy
Etcoff (Replicação). Mas
o primatólogo Frans de
Waal, da Universidade
de Emory (EUA), disse
à revista Science que
os dados sobre os hábitos de acasalamento
em várias culturas não
permitem fazer comparações com os chimpanzés: “Toda a gente pensa
que os homens preferem
mulheres mais jovens.
Mas todos os resultados
humanos se baseiam
em questionários e na
selecção de fotografias
de mulheres que consideram atraentes. Não
sabemos se na vida real
fariam o mesmo.” C.B.
30 SOCIEDADE
PÚBLICO • DOMINGO, 26 NOV 2006
CIÊNCIAS
DR
A CIÊNCIA
DO ORGASMO
ALEATÓRIO
As carpas foram alguns dos peixes estudados por Lynne Sneddon: quando expostos a estímulos dolorosos, mostram alívio com analgésicos
Será que os peixes
conseguem sentir dor?
DAVID MARÇAL
Será que os peixes sentem dor? Este é
actualmente um assunto controverso,
com muitos estudos a demonstrar a
possibilidade de os peixes sentirem não
só dor mas também medo e stress. Os
peixes fazem parte de muitas actividades humanas, como aquacultura, pesca
e investigação, pelo que a questão tem
consequências éticas importantes no
modo como devem ser tratados.
Lynne Sneddon, da Universidade de
Liverpool, uma das investigadoras que
acredita que devemos tratar os peixes
com humanidade, esteve recentemente
em Lisboa, no âmbito do um encontro
dedicado ao bem-estar de animais aquáticos, que decorreu no Instituto Superior
de Psicologia Aplicada. Sneddon defende
que os peixes não só possuem todas as
estruturas anatómicas necessárias à
percepção de dor, como o seu comportamento normal é alterado em resultado
de experiências dolorosas.
Mas detectar dor nos animais é algo
complicado. Os cientistas fazem determinações indirectas, principalmente
baseadas em respostas a eventos potencialmente dolorosos.
Uma questão de córtex?
A primeira questão é saber se os peixes
possuem as estruturas neurológicas para
sentir, processar e reagir a estímulos potencialmente dolorosos. Aparentemente
sim. Estudos recentes mostraram que as
trutas possuem fibras nervosas para detectar a dor semelhantes às que existem
nos humanos. Estas fibras, chamadas
noci-receptores, estão distribuídas pela
face do peixe.
Nos mamíferos, o processamento
da dor no sistema nervoso central envolve áreas específicas do cérebro e os
peixes têm todas essas áreas. Contudo,
existe alguma controvérsia quanto ao
tamanho do córtex, uma vez que este é
essencial para o processamento da dor
nos humanos.
Emoções fazem parte dos estados dolorosos
Como humanos, é natural que já
tenhamos sentido dor, por exemplo
associada a uma experiência sensorial e física, como um corte ou
uma queimadura, ou a um trauma
emocional, sem que tenha ocorrido
qualquer lesão. Isto faz com que
a dor seja um conceito complexo,
que compreende componentes
sensoriais e emocionais. A dor
pode ser definida com um estado
emocional que leva a proteger-nos,
a evitar situações ou estímulos nocivos e defender as áreas afectadas
de mais dor, de modo a permitir a
cura. Os humanos podem comunicar a dor uns aos outros. Mas
não há nenhum comportamento
universal que indique que o animal está a sentir dor. Em 1986,
foi proposta uma definição para a
dor animal, como uma experiência
sensorial adversa causada por um
estímulo nocivo ou potencialmente
capaz de danificar os tecidos, tais
como temperaturas extremas,
pressão mecânica elevada ou
químicos agressivos. O animal
deve afastar-se do estímulo nocivo
numa resposta motora defensiva,
podendo também ser desencadeadas respostas vegetativas, como alterações no sistema cardiovascular
e inflamação. D.M.
Pode parecer algo inusitado,
mas é motivo de discussão
entre os cientistas se os
peixes podem não sentir
estímulos dolorosos; há quem
diga que sim, e de tal forma
que até deixam de alimentar
quando estão a sofrer
O córtex dos peixes é relativamente
muito mais pequeno e menos diferenciado que o dos humanos (o que também
é verdade para todos os outros animais).
Assim, segundo algumas opiniões, os
peixes são incapazes de sentir dor porque
têm um córtex muito pequeno.
No laboratório de Sneddon, alguns
peixes foram sujeitos a estímulos
mecânicos, térmicos e químicos potencialmente dolorosos. O resultado destas
experiências demonstrou que os estes
estímulos nocivos são acompanhados
de alterações no cérebro.
Verificam-se modificações na expressão genética em certas zonas do cérebro.
Imagens obtidas por ressonância magnética também demonstram que o cérebro é
activado pelos estímulos nocivos.
Outra abordagem são os aspectos
psicológicos da possível percepção da
dor. Peixes sujeitos a estímulos nocivos
exibem um comportamento anormal por
longos períodos, que podem durar até seis
horas. Os comportamentos normais de
alimentação são suspensos e os peixes
descuidam as actividades de fuga aos
predadores, atitudes que demonstram
que a dor sentida é dominante na sua
atenção.
A administração de morfina, um analgésico, atenua estes comportamentos
adversos, mostrando que se tratam de
reacções de resposta à dor. Outros estudos
demonstram que os peixes são capazes de
aprender a evitar os estímulos nocivos, o
que também deixa de se verificar quando
é administrada morfina.
“Eu nunca fui um peixe, por isso não
posso garantir-lhes que eles sentem dor.
É virtualmente impossível entrar na
mente de um animal e saber o que ele
está a sentir. Mas acredito que devemos
dar aos peixes o benefício da dúvida e
tratá-los como se eles fossem capazes de
sentir dor”, afirma Sneddon. ■
Critérios fisiológicos
para avaliar se um
animal é capaz de
sentir dor
1. Noci-receptores
presentes: ter um
sistema nervoso
com sensores
específicos
para a dor.
2. Sistema nervoso
central
3. Noci-recepetores
ligados ao sistema
nervoso central
4. Opiáceos
endógenos: o
animal tem a
capacidade de fazer
os seus próprios
analgésicos
5. As reacções
podem ser
modificadas com
analgésicos
6. Reacções
a estímulos
prejudiciais
análogas às dos
humanos
Alterações
psicológicas
indicativas de que o
animal está a sofrer
1. Aprende a evitar
os estímulos
nocivos.
2. Comportamento
normal é suspenso.
Alimentação e fuga
aos predadores são
descuidadas, por
exemplo.
A iniciativa Orgasmo Global (http:
//globalorgasm.org) quer organizar
um orgasmo sincronizado à escala
planetária no próximo dia 22 de Dezembro (ponha na agenda). O primeiro Orgasmo Anual Sincronizado com
o Solstício pretende que os participantes concentrem os seus pensamentos
na Paz, durante e após o orgasmo. Segundo os promotores, a combinação
de alta energia orgásmica com uma
intenção mental dirigida poderá ter
um efeito maior do que meditações e
orações em massa. No site, é enfatizada a urgência da acção com o facto de
mais duas frotas norte-americanas
equipadas com equipamento anti-submarino estarem a caminho do Golfo
Pérsico. Não lhes restará alternativa
senão fazer meia volta, arriscando-se
mesmo a abalroar um farol caso parte
significativa da tripulação se encontre
a aderir à iniciativa.
E se fosse mesmo verdade? Se acontecimentos de consciência colectiva
à escala global pudessem influenciar
a energia e a matéria?
Investigadores da UniAnálise versidade de Princeton
descreveram a existência de uma correlação entre dados
aleatórios gerados continuamente e
grandes acontecimentos mundiais,
como o 11 de Setembro ou a morte da
princesa Diana.
A equipa, liderada pelo psicólogo
Roger Nelson, do Departamento de
Engenharia Mecânica e Aeroespacial,
de Princeton construiu uma rede de
64 geradores de eventos aleatórios
espalhados pelo mundo. Os geradores convertem ruído electrónico,
com origens a nível quântico, numa
sequência imprevisível de zeros e uns.
Os autores defendem que os dados
continuamente produzidos por estes
instrumentos tendem a divergir do
esperado quando acontecimentos
globais de grande relevo estimulam
a coerência de pensamentos e emoções
de muitas de pessoas. Como num grande orgasmo colectivo pela Paz.
Roger Nelson esclareceu recentemente que o laboratório não está ligado à iniciativa GlobalOrgasm.org,
mas que irão estar atentos e olhar
para os números aleatórios caso o orgasmo pareça “verdadeiramente global”. Não esclarece que métodos serão
utilizados para tal averiguação.
A ideia é que haja um novo orgasmo todos os anos até ao solstício de
Dezembro de 2012, quando acaba o
calendário Maia e começa uma nova
era. Por esta altura, o mundo já estará
eventualmente preparado para uma
grande orgia global que, a acontecer,
certamente acabará com todas as
guerras. Durante 15 minutos, pelo
menos.
O artigo dos investigadores de Princeton foi publicado em 2002 na revista
Foundations of Physics Letters e, não
obstante a vasta quantidade de matemática pouco trivial, será certamente
uma boa fonte de frases de engate para
dia 22.
A revista consta na lista do Science
Citation Index e tem um factor de impacto de 0,5. Isto significa que é uma
publicação credível mas não muito
importante. A Nature e a Science têm
factores de impacto à volta dos 30.
No fundo, talvez haja uma ténue
evidência científica de que o orgasmo
global resulte: quem não participar é
porque apoia a guerra no mundo e não
quer que as frotas anti-submarinas
voltem para trás. ■ DAVID MARÇAL
CIÊNCIAS
SOCIEDADE 29
PÚBLICO • DOMINGO, 10 DEZ 2006
RUI GAUDENCIO
Tabaco é o agente
mais nocivo
Este gráfico mostra o registo de exposição pessoal a
partículas PM2,5 do aluno X, ao longo de quase 24
horas. A interpretação é feita com base no “diário de
bordo”, onde são registadas as experiências e os ambientes por que passa em cada momento do dia.
A legislação canadiana (ver texto ao lado) apenas
permite que a média diária para o ar ambiente exterior exceda os 30 microgramas por metro cúbico
sete vezes por ano. O aluno X (que andou tanto no
exterior como em interiores) tem uma média diária,
neste dia 22 de Novembro, dez vezes superior: 300
microgramas por metro cúbico. O aluno X fuma ou
tem amigos que fumam.
Há vários picos ao longo do dia, correspondentes
a fumo de cigarro nas proximidades, que chegam
às 11 miligramas por metro cúbico. Ou seja, por
alguns instantes é atingido um valor 440 vezes mais
elevado do que o limite médio anual proposto pela
Comissão Europeia.
O aluno X passeou algumas horas num centro
comercial, onde também encontrou concentrações
muito elevadas de partículas nocivas. Os valores
na sala de aulas são muito baixos. Na cozinha, a
confecção dos alimentos faz subir os valores por
momentos. Na sala, onde o medidor foi deixado durante a noite, o nível de partículas baixa durante
a madrugada, devido à ausência de actividade, até
ao acordar. D.M.
Os dados registados pelo dectetor de partículas são lançados num computador portátil para serem analisados
Alunos do secundário
medem a qualidade do ar que
respiram por um dia
Estudo europeu inovador avalia a exposição pessoal a partículas de poluição
DAVID MARÇAL
“Tive que pôr isto dentro do
casaco”, diz Maria do Carmo
Sousa, aluna do 11º da Escola Secundária Maria Amália
Vaz de Carvalho, em Lisboa.
Salvador Sobral, também
com 16 anos e da mesma
turma de Geografia, acha
que teve azar com o dia que
lhe coube para transportar
o detector de partículas de
poluição: “Calhou num dia
de chuva e isto não pode
apanhar água.”
Salvador Sobral e Maria
do Carmo Sousa são dois
dos cerca de 200 jovens portugueses que participam num
projecto de investigação
europeu chamado EuroLifeNet. Durante um dia, cada
um transportou um detector
de partículas portátil e mediu a qualidade do ar que
respirou para os cientistas
avaliarem. Em Portugal,
estão envolvidos jovens das
regiões de Viana do Castelo,
Açores e Lisboa e Vale do Tejo e, em Itália, da Lombardia.
Os estudantes portugueses,
do 9º ao 12º ano, são acompanhados por 20 professores.
A primeira campanha de
medições decorreu entre 3
e 24 de Novembro.
Os dados registados por
Salvador e Maria do Carmo
são descarregados para o
computador portátil com a
ajuda das professoras Ana-
bela Neves e Maria João
Vieira. Em ambos os casos,
os valores de partículas
registados nas últimas 24
horas são baixos: “Não tinha
ideia nenhuma, mas fiquei a
saber que a minha casa não
tem poluição”, diz Salvador.
Maria do Carmo vai ainda
mais longe: “Gostava que os
valores fossem mais altos,
era mais interessante.” Mas
nem sempre é assim e não é
por acaso que nem Salvador
ou Maria do Carmo fumam,
pois uma das causas frequentes para que os valores
disparem é o fumo de cigarro
(ver gráfico).
Os detectores medem as
partículas mais pequenas,
ou seja com dimensões inferiores a 2,5 micrómetros
(PM2,5). Estas são as mais
perigosas pois podem chegar
às regiões de trocas gasosas
nos pulmões e algumas, muito pequenas, podem mesmo
passar através dos pulmões
para a corrente sanguínea e
afectar outros órgãos.
De GPS na cidade
Os alunos levam também
com eles um dispositivo
de localização geográfica
por satélite (GPS). Deste
modo, as concentrações de
partículas poluentes podem ser associadas a uma
localização (desde que haja
satélites em linha de vista).
Num percurso realizado por
uma aluna entre o bairro de
Campo de Ourique e a escola
(que fica próximo do Parque
Eduardo VII), foram atingidos por momentos valores de
700 microgramas por metro
cúbico, devido ao intenso
tráfego automóvel (mesmo
assim, muito inferiores aos
registados por outros alunos
na proximidade de fumo de
cigarro).
Para além da importância
da investigação ambiental,
o EuroLifeNet tem também
uma importante compo-
“Não seria possível
recolher estes dados
com os métodos
tradicionais de
investigação,
com técnicos
de laboratório e
bolseiros, pois teria
um orçamento
enormíssimo”, frisa
o investigador João
Joanaz de Melo
nente pedagógica. Os dados
recolhidos podem ser trabalhados no âmbito de várias
disciplinas, nomeadamente
Área Projecto Química, Física, Química e Geografia.
Os alunos de Geografia
da professora Maria João
Vieira descarregaram todos
os dias imagens de satélite
da Internet, e vão procurar
relacionar as concentrações
de partículas com as condições meteorológicas. Em que
tipos de tempo há mais partículas no ar? “Hoje os valores
são baixos, porque o vento
também ajuda à dispersão
de partículas”, comenta Maria João, referindo-se aos
dados de Salvador e Maria
do Carmo.
João Joanaz de Melo, investigador da Universidade
Nova de Lisboa, destaca
duas vertentes do projecto:
“Cada um dos alunos que faz
isto está a ganhar interesse
pela ciência. Por outro lado,
não seria possível recolher
estes dados com os métodos
tradicionais de investigação,
com técnicos de laboratório
e bolseiros, pois teria um
orçamento enormíssimo.”
Joanaz de Melo enfatiza o
carácter inovador do projecto: “A monitorização diária
de uma pessoa é informação
que não existe em mais lado
nenhum.” ■
Europa demasiado
permissiva?
Os mais recentes conhecimentos científicos revelam
que os principais riscos para a saúde não residem
nas partículas maiores, mas sobretudo nas mais
finas. Por essa razão a União Europeia prepara-se
para, pela primeira vez, legislar sobre as partículas
inferiores a 2,5 micrómetros (PM2,5), na nova directiva sobre a qualidade do ar. O assunto é quente.
O valor limite constante da proposta da nova
directiva comunitária para a concentração média
anual de PM2,5 no ar ambiente (exterior) é de 25
microgramas por metro cúbico. A meta é para ser
atingida até 2025.
O Parlamento Europeu aprovou em Setembro
um relatório que considera o limite proposto pela
Comissão Europeia pouco ambicioso e sugere um
valor alvo de 20. Este padrão é assumido pelos autores do relatório como um compromisso entre as
exigências de maior protecção da saúde humana e
a exequibilidade.
O valor correspondente usado desde há quase dez
anos pela Agência de Protecção Ambiental (EPA)
norte-americana é de 15, e o valor em vigor no estado
da Califórnia é 12. No Canadá, as leis proíbem que
o valor médio diário de 30 microgramas por metro
cúbico seja ultrapassado mais do que sete vezes por
ano. A média anual recomendada pela Organização
Mundial de Saúde é dez.
“Os dados científicos usados em todos estes casos
são os mesmos; o que aparentemente difere, é o nível
de ambição para reduzir a poluição”, pode ler-se
na declaração aprovada em Setembro em Munique
e Paris por cientistas da área da saúde e poluição
atmosférica (http://www.apheis.net/). O grupo considera o limite proposto pela Comissão Europeia
demasiado permissivo e que está demonstrado que
uma média anual entre 20 a 25 microgramas por metro cúbico de partículas inferiores a 2,5 micrómetros
é gravemente prejudicial para a saúde. D.M.
CIÊNCIAS
SOCIEDADE 27
PÚBLICO • QUINTA-FEIRA, 14 DEZ 2006
M. LAKSHMAN/AP
Os mamíferos
podem ter
descoberto o voo
antes das aves
Fóssil da Mongólia
revela mamífero
planador com 130
milhões de anos
CLARA BARATA
A dor actua a muitos níveis, voluntários e involuntários, mas são raros os indivíduos em quem o sentido da dor está ausente
Conhecidas no Paquistão três
famílias que não sentem dor
Poderá ser possível
desenvolver
analgésicos com menos
efeitos secundários
DAVID MARÇAL
Desde os dez anos que era
bem conhecida pelos serviços de saúde locais a criança
que inicialmente despertou o
interesse dos cientistas. Actuava regularmente em espectáculos de rua, espetando facas
nos braços e caminhando
sobre brasas, sem sentir dor.
Morreu antes de completar o
décimo quarto aniversário,
na sequência de um salto do
telhado de uma casa. Posteriormente, os investigadores
procuraram e estudaram três
famílias consanguíneas do
Norte do Paquistão, pertencentes ao clã Qureshi birdari,
com histórias semelhantes de
ausência de dor.
Os seis indivíduos afectados
nunca tinham sentido dor em
qualquer parte do seu corpo,
nem mesmo enquanto bebés:
nenhum fazia a mínima ideia
do que é a sensação de dor.
Os mais velhos acabaram
por aprender que certos
acontecimentos provocam
dor e chegam a fingir dor na
sequência de entradas mais
duras em jogos de futebol.
Tinham lesões nos lábios e
na língua, por se morderem
nos primeiros quatro anos
de vida. Alguns necessitaram mais tarde de cirurgia
plástica e, em dois casos,
ocorreu a perda de dois terços da língua. Todos exibiam
feridas e cortes frequentes e
a maioria tinha sofrido fracturas que só foram diagnosticadas retrospectivamente. No
entanto, exames neurológicos
cuidados revelaram que são
capazes de sentir tudo o resto: toque, calor, frio, cócegas,
pressão e noção da posição
dos membros.
Os estímulos dolorosos são
transmitidos na forma de impulsos eléctricos, que viajam
desde a extremidade das
células nervosas na periferia
do corpo até ao cérebro. Estes
impulsos nervosos passam
por canais de iões, que são
proteínas na membrana das
células que funcionam como
portas de passagem para átomos ou moléculas com carga
eléctrica.
Existem vários tipos de
canais de iões, nomeadamente de canais de iões de
sódio, que contribuem para
produzir estes impulsos nervosos. O tipo de canal de sódio
importante para este estudo
(designado por NaV1.7) está
localizado nas extremidades
dos nervos que sentem a dor
(nociceptores). Estes canais
de sódio comportam-se como
uma espécie de amplificadores dos impulsos eléctricos
da dor: quando a diferença
de potencial eléctrico atinge
um determinado valor, o
neurónio dispara.
Os investigadores descobriram que os elementos destas
famílias têm modificações
numa proteína que é uma
espécie de “tijolo” da construção destes canais e por isso
não sentem dor. O trabalho,
conduzido por uma equipa
multinacional de cientistas,
maioritariamente de instituições do Reino Unido e
Paquistão, é publicado hoje
na revista Nature.
A primeira pista do envolvimento deste tipo de canal
Viver sem
experiências
dolorosas?
Enquanto indivíduos
com ausência do
sentido da visão
ou audição são
relativamente
comuns, a
incapacidade
completa de sentir
dor é muito rara.
A dor é um sentido
essencial que
evoluiu em todos
os organismos
complexos para
reduzir os danos nos
tecidos e células, de
modo a prolongar
a sobrevivência. A
experiência da dor
resulta na adopção
de comportamentos
preventivos que tanto
servem para afastar
o organismo de um
ambiente perigoso,
como para permitir
a reparação dos
danos: por exemplo,
deixar uma perna
partida em repouso
para que novo osso
se possa formar.
A dor também nos
protege no nosso
ambiente, ensinandonos que situações
e comportamentos
podem provocar
lesões. A dor percorre
muitos caminhos
no sistema nervoso.
O bloqueio destes
sistemas com
analgésicos foi
um grande avanço
farmacológico. D.M.
de sódio na dor veio de estudos com modelos animais:
ratinhos modificados geneticamente para não o terem
apresentaram uma reposta
à dor reduzida.
Outra modificação conhecida neste canal é a causa
de uma doença hereditária
chamada eritromelalgia. Os
pacientes sentem ataques de
dores do tipo queimadura, como resposta a calor moderado. Tudo isto sugere que este
canal específico estabelece
uma espécie de factor multiplicador (ganho) na sensação
de dor nos humanos.
A dor é importante (ver
caixa), mas o alívio da dor
é essencial para a medicina
moderna, de modo a permitir cirurgias e tornar certas
doenças mais suportáveis.
Mesmo assim, ainda há
alguns tipos de dor que não
reagem aos tratamentos
actuais. Compreender o
mecanismo desta ausência
de dor poderá ajudar a encontrar novos analgésicos.
Como este tipo de canais
de iões de sódio não existe
no músculo cardíaco nem
no sistema nervoso central, medicamentos que
actuem como bloqueadores
específicos destes canais
deveriam em princípio ter
menos efeitos secundários
do que os actuais.
“Este estudo levanta a
hipótese de se poderem desenvolver fármacos que bloqueiem selectivamente este
canal de sódio, o que poderá
ter importantes implicações
terapêuticas no tratamento da
dor crónica”, comentou Alexandre Rainha Campos, do
serviço de neurocirurgia do
Hospital de Santa Maria. ■
Os primeiros animais a voar
podem ter sido os mamíferos, e não as aves, diz hoje,
na revista Nature, a equipa
que descobriu na Mongólia o
fóssil de um animal que viveu
há pelo menos 130 milhões de
anos e que planava, como os
esquilos voadores actuais.
Isto revela que a evolução
começou a fazer experiências de voo nos mamíferos ao
mesmo tempo que nas aves,
ou até antes.
Os primeiros inventores do
voo foram os pterossauros,
animais semelhantes aos dinossauros mas com asas, que
apareceram há mais de 200
milhões de anos. A primeira
ave primitiva, a Arqueopterix,
só surgiu há 150 milhões de
anos. Os mais antigos fósseis
de mamíferos capazes de planar encontrados até agora
tinham 70 milhões de anos.
Os cientistas concluíram
que este animal é tão diferente de outros conhecidos (apesar de parecer um esquilo)
que funda uma nova ordem
de mamíferos. Deram-lhe o
nome científico Volaticotherium antiquus (que quer dizer
“antigo animal planador”).
Foi descoberto o esqueleto
fossilizado do Volaticotherium, e também a impressão
que deixou na rocha. Foi
esta impressão que permitiu
perceber que tinha uma membrana que ligava os membros
dianteiros e posteriores, que
se estendia quando o animal
saltava de árvore em árvore,
formando como que uma
espécie de vela, ou pára-quedas, que lhe permitia planar.
Os membros são alongados, o
que é uma característica dos
animais de hoje que planam.
Na rocha descoberta na
Mongólia oriental vê-se também a impressão deixada
por pêlos da membrana e de
outras partes do corpo do
animal, que não devia pesar
mais que 70 gramas, para
um comprimento entre 12
e 14 centímetros. Os dentes
aguçados revelam que se
alimentava de insectos.
Os cientistas calculam que
tenha vivido entre há 130 e
164 milhões de anos e que,
apesar de ter semelhanças
com os esquilos planadores
actuais (que pertencem à ordem dos roedores), não será o
seu antepassado directo, nem
de outros mamíferos actuais.
“Estamos a descobrir uma
imagem muito diferente dos
mamíferos que viviam na época dos dinossauros”, disse Jin
Meng, do Museu Americano
de História Natural, um dos
autores da descoberta.
CHUANG ZHAO E LIDA XING
O Volaticotherium planava quando saltava entre as árvores
24 SOCIEDADE
PÚBLICO • QUINTA-FEIRA, 21 DEZ 2006
CIÊNCIAS
Obesidade humana é controlada
por microrganismos?
LAURA KYRO, ZHEN HE, LARGUS ANGENENT, JEFFREY
BILIÕES DE BACTÉRIAS
VIVEM NO NOSSO CORPO
GORDON
Mau tempo na Florida
deixa em dúvida o
local de aterragem,
que terá de ocorrer
obrigatoriamente
até sábado
Diferenças
na população
bacteriológica podem
justificar diferenças na
absorção de calorias
DAVID MARÇAL
Para além de factores genéticos e dos hábitos alimentares,
o controlo do peso corporal
poderá também estar relacionado com o tipo de microrganismos presentes no
tracto gastrointestinal. Esta
hipótese é levantada por
cientistas da Universidade
de Washington, em dois artigos publicados hoje na revista
Nature.
Muito foi dito e escrito
acerca da sequenciação do
genoma humano, mas o
nosso próprio genoma não é
o único com que temos que
nos preocupar: biliões de
bactérias vivem no tracto
intestinal humano e cada espécie traz o seu próprio ADN
para a festa.
De facto, pensa-se que o
número de genes dos microrganismos que vivem no nosso
corpo é superior aos nossos,
em várias ordens de magnitude. Os genomas microbianos
conferem-nos capacidades
que não temos, como digerir
alguns componentes da nossa
dieta.
Há dois grupos predominantes de populações de
bactérias no sistema digestivo humano: os firmicutes
e bacteriodetes.
Os autores estudaram um
pequeno número de pessoas
obesas, e descobriram que a
proporção de material genético de firmicutes era mais alto
do que em indivíduos com
peso regular. Mais, quando
indivíduos obesos perdem
peso ao longo de um ano, a
proporção de fermicutes torna-se mais parecida com a de
pessoas sem obesidade.
No segundo trabalho, os autores descrevem as diferenças
nos microrganismos do tracto
intestinal de ratinhos obesos
e não obesos, que confirmam
a tendência: os ratinhos obesos têm uma proporção mais
alta de fermicutes intestinais.
Para além disso, os microrganismos dos ratinhos obesos
eram mais ricos em genes
que codificam enzimas que
ajudam a digerir certos tipos
de polissacarídeos (polímeros
de açucares), que, de outro
modo, seriam indigestíveis.
Os ratos obesos também
tinham mais produtos com
calorias nas fezes, ou seja,
as bactérias dos ratos obesos
parecem ajudá-los a extrair
mais calorias dos alimentos
ingeridos.
Os cientistas fizeram ainda uma outra experiência.
Transferiram os microrganis-
Vaivém já vem a
caminho, mas não se
sabe onde aterrará
Ilustração artística que representa as bactérias que vivem no nosso corpo
mos de ratinhos obesos para
ratos sem micróbios e com
um peso regular. Para outro
grupo de ratinhos transferiram os microrganismos de
ratinhos com peso regular.
Ao fim de duas semanas,
verificaram que os receptores a quem foram dadas as
bactérias dos ratinhos obesos extraíram mais calorias
dos alimentos e tiveram um
ligeiro aumento da gordura
corporal. Embora pequeno,
o aumento é estatisticamente
superior ao dos ratinhos que
receberam microrganismos
de dadores não obesos.
Tudo isto sugere que diferenças na eficiência de extracção de calorias dos alimentos
podem ser determinadas pela
composição bacteriana do
tracto intestinal, o que justificaria diferenças no peso
corporal.
É uma ideia que muda a
maneira como vemos as causas da obesidade, mas que os
próprios autores consideram
que precisa de ser explorada.
Por exemplo, as diferenças
de peso são tão pequenas que
poderiam ser eventualmente
explicadas pelas pequenas
diferenças na quantidade
elementos ingeridos.
“No todo, acho que o artigo suscita a possibilidade de
termos de considerar o tipo
de população bacteriana no
tracto intestinal como um
factor que pode contribuir
para a obesidade, embora se
mostre que não será preponderante”, afirma João André
Carriço, investigador em
biomatemática do Instituto
de Engenharia de Sistemas e
Computadores – Investigação
e Desenvolvimento. ■
O vaivém Discovery já vem
a caminho da Terra, depois
de uma missão bem sucedida
na Estação Espacial Internacional (ISS), mas ainda não
é bem certo quando vai
aterrar, porque as previsões
meteorológicas não são boas
para hoje em Cabo Canaveral, na Florida, que devia
ser o seu destino. Seja onde
for, o vaivém tem de aterrar
até sábado, porque se acaba
o combustível que fornece
electricidade à nave.
No Centro espacial Kennedy, na Florida, esperam-se
hoje nuvens baixas, chuva e
ventos fortes na base aérea de
Edwards, na Califórnia, que
é outro local possível para a
aterragem. As melhores previsões meteorológicas são
para White Sands, no Novo
México, mas esta costuma
ser a última escolha da NASA,
porque em 1982 um vaivém
que aterrou lá ficou com os
travões danificados, devido
à muita poeira desta pista
no deserto. “É difícil decidir
para onde vão e quando para
lá vão”, disse o porta-voz da
NASA George Diller, citado
pela AP.
A tripulação do Discovery
tem um pouco menos de margem de tempo para aterrar
porque a missão teve de ser
prolongada por mais um dia,
para terminar as reparações
necessárias nos painéis solares da estação.
Mas, antes de regressarem
à Terra, os astronautas lançaram ontem dois pequenos satélites e fizeram uma última
revisão do escudo térmico da
nave — para se certificarem
de que não sofreu danos que
possam pôr a sua segurança
em causa ao reentrarem na
atmosfera, quando o vaivém
é submetido a enormes temperaturas. Para isso usaram
o braço robótico do vaivém,
munido de uma extensão de
15 metros com câmaras, para
procurar buraquinhos feitos
por micrometeoritos durante
a estadia da nave no espaço.
Um dos satélite chama-se
Mepsi, e é do tamanho de
uma caneca. Servirá para
testar se pequenos satélites
autónomos como este podem servir para observar
naves e satélites maiores. O
outro pequeno satélite que
a tripulação do Discovery
deve lançar chama-se Raft,
e foi construído por alunos
da Academia Naval dos
Estados Unidos, para testar
os limites de um sistema de
radar que detecta objectos
orbitais que passem sobre os
Estados Unidos. De regresso
ao planeta vem o astronauta alemão Thomas Reiter,
que passou os últimos seis
meses na Agência Espacial
Internacional. Foi substituído na plataforma orbital pela
astronauta norte-americana
Sunita Williams.
Durante a missão de oito
dias na estação, a tripulação
do Discovery fez quatro saídas para o espaço, durante
as quais instalaram novos
painéis solares, arranjaram
outro que teimava em não
se dobrar bem e, de caminho,
renovaram todo o sistema
eléctrico da ISS. Com todas
estas saídas para o espaço, o
astronauta Robert Curbeam
quebrou um recorde: fez quatro saídas e tornou-se assim
a pessoa que mais passeios
espaciais efectuou numa só
missão.
São precisas pelo menos
mais 13 missões de vaivém
para terminar a construção
da ISS, tarefa com a qual os
Estados Unidos se comprometeram — não há mais naves
capazes de levar tanto peso
para a órbita da Terra como
os vaivéns norte-americanos.
Mas as velhas naves têm de
deixar de voar até 2010, por
isso o tempo urge. ■
NASA
Regulação do peso corporal é uma afinação fina
Está bem demonstrada a importância dos
sistemas de controlo biológico que fazem
com que haja uma grande proximidade
entre as calorias adquiridas e as gastas
pelo corpo. Para a grande maioria dos
humanos (incluindo os obesos), a entrada de calorias excede o gasto em menos
de um por cento. Mas estas pequenas
diferenças podem ter um efeito cumulativo ao longo dos anos e resultar em
aumentos de peso significativos. Note-se
que nem todas as calorias ingeridas são
necessariamente adquiridas pelo corpo,
podendo ser simplesmente rejeitadas, o
que resulta em fezes mais calóricas. A
capacidade do corpo equilibrar a toma e
o gasto de calorias depende da possibilidade que o cérebro tem de monitorizar
os níveis de gordura corporal. O cérebro
é “informado” dos níveis de gordura corporal através de mudanças nos níveis de
hormonas que circulam no sangue. Uma
dessas hormonas é a leptina. Os níveis
de leptina aumentam quando aumenta
a gordura corporal. Em ratos e humanos
que não tenham esta hormona, verificase que há uma aquisição descontrolada
de calorias, o que tem como consequência
um aumento rápido da gordura corporal.
Reciprocamente, níveis baixos de leptina causam dificuldade em manter o peso
corporal. D.M.
Robert Curbeam junto a um dos painéis solares da ISS
CIÊNCIAS
“As universidades devem competir
pelo dinheiro com a investigação”
E N T R E V I STA C O M
A R C A D I N AVA R R O
Arcadi Navarro em 2001 fez um grande estrondo quando publicou na Nature um artigo em que colocava em números o
fenómeno da contratação de docentes universitários com base em critérios de proximidade social em vez de mérito científico.
Acerca da situação das universidades espanholas, que não deverá ser muito diferente das portuguesas, chegou à conclusão de
que preferem os defeitos dos de dentro às virtudes dos que vêm de fora. Por David Marçal (texto) e Daniel Rocha (foto)
A endogamia nas universidades é
definida como a existência de uma
rede social que, independentemente
do mérito dos candidatos, sistematicamente atribui posições aos amigos e
conhecidos. O critério usado por Arcadi
Navarro, especialista em biologia evolutiva da Universidade Pompeu Fabra de
Barcelona foi muito simples: comparou
a morada do primeiro artigo publicado
numa revista científica pelos docentes
universitários com a morada actual.
Em Espanha era a mesma, em 95 por
cento dos casos.
Dito de outro modo, apenas cinco
por cento das vagas das faculdades são
atribuídas a candidatos de fora. Nos Estados Unidos, a situação é exactamente
inversa: o número de candidatos externos a obter lugares é de 93 por cento.
No Reino Unido é de 83 por cento e em
França 50.
Tudo isto tem consequências na
produtividade científica. Vários estudos demonstram que quando são
escolhidos amigos em vez dos candidatos com mais mérito, o número e
o impacto das publicações científicas
baixa significativamente. O PÚBLICO
falou com Arcadi Navarro, à margem
de um debate sobre a mobilidade e endogamia nas universidades portuguesas,
no Instituto Gulbenkian de Ciência, em
Oeiras.
PÚBLICO — Quais são as consequências da endogamia nas universidades?
ARCADI NAVARRO – São horríveis.
As pessoas em vez de ciência estão a
fazer política de corredores e a universidade torna-se numa maneira de
arranjar salários para os amigos.
Como se pode explicar as enormes
diferenças entre os países?
Por sistemas muito diferentes. Há
países onde é proibido arranjar um
emprego na mesma universidade
onde se fez o doutoramento, como na
Alemanha. Em França, para entrar
numa instituição do CNRS (Centro
Nacional de Investigação Científica), é
preciso fazer um exame nacional muito
exigente.
Já em Espanha as posições são atribuídas por comités formados por pessoas de
dentro da universidade. Seria um bom
Fragmentos
do debate
sobre Portugal
“Preferem os defeitos dos de
dentro às virtudes dos que
vêm de fora”
Carlos Fiolhais, Universidade de Coimbra
“Não é um problema exclusivo das universidades, é
transversal a toda a sociedade portuguesa. As carreiras
nos hospitais são tão ou mais
endogâmicas”
António Coutinho, director
do Instituto Gulbenkian de
Ciência
“O Estado não deve proteger as instituições das
consequências das suas más
decisões”
Diogo Lucena, Universidade Nova de Lisboa
“Não podemos resolver um
problema tão complexo de
forma simples”
Manuel Heitor, secretário
de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Arcadi Navarro levou para a ribalta da ciência internacional o tema do favoritismo nas universidades espanholas
sistema se as instituições competissem
através da investigação que fazem. Mas
as universidades espanholas recebem o
financiamento com base no número de
alunos de licenciatura. Outro factor é a
escassez de recursos em países como Espanha e Portugal, que cria um ambiente
ultracompetitivo, e as coisas são organizadas um pouco ao estilo da máfia.
Que medidas poderiam ser tomadas para reduzir este problema?
Fazer as universidades competir.
Permitir-lhes contratar quem queiram, mas fazer o seu financiamento
depender da ciência produzida. E dar
o dinheiro aos investigadores em vez de
às instituições. E a agência de financiamento avalia o investigador.
O favoritismo não pode passar
para essas avaliações?
Pode acontecer. De modo a evitá-lo,
as avaliações devem ser anónimas e
feitas por comités maioritariamente
estrangeiros. Se a sua carreira depender de avaliações sérias por padrões
internacionais, as pessoas trabalham.
Há uns anos, em Espanha, houve quem
obtivesse um lugar de professor catedrático sem um único artigo publicado
numa revista científica.
Como seria a receptividade das
instituições a estas medidas?
Em relação a fazê-las competir e
pensar na ciência que fazem (porque
isto influenciaria o seu financiamento) são contra. Quanto a criar equipas
de investigação que não dependem
financeiramente das instituições, mas
de uma agência de financiamento externa, estão receptivas.
Tornar as universidades competitivas é uma grande mudança
estrutural e cultural. Como é que
pode ser feito?
[Risos] Essa é a questão. As coisas
que se podem fazer não são revoluções,
mas pequenas mudanças que podem ter
grandes consequências.
Por exemplo, em países de topo a nível científico, a todo o financiamento
atribuído a um projecto de investigação
é cobrada uma enorme taxa (overhead)
pelas universidades, que pode chegar
até 50 por cento. O cientista recebe 100
e a instituição fica com 50 para gastar
como quiser. Nos países com mais
endogamia, os overheads tendem a ser
baixos. Por exemplo, até este ano, em
Espanha eram de 15 por cento.
Do ponto de vista dos administradores da universidade são trocos. Se baixar um pouco o dinheiro atribuído por
cada aluno e aumentar o financiamento
que vem dos overheads, a investigação
torna-se importante porque define o dinheiro que entra no sistema. E as universidades começam a querer contratar
pessoas que ganhem grandes projectos
e tragam muito dinheiro. ■
A endogamia pode afectar a produtividade
científica das universidades portuguesas
A endogamia tem um efeito
claramente negativo na
produtividade
científica,
segundo números da base de
dados de publicações ISI Web
of Knowledge, compilados por
Arcadi Navarro.
No Reino Unido, apenas
dois em cada dez elementos
da faculdade são recrutados
internamente, e foram em 2005
produzidos 1463 artigos científicos por milhão de habitantes.
SOCIEDADE 23
PÚBLICO • SÁBADO, 30 DEZ 2006
E cada um deles foi citado noutros artigos em média mais de
três vezes, o que é uma medida
da sua importância.
No caso espanhol, em que
19 em cada 20 professores
universitários são recrutados
na instituição, foram publicados 834 artigos por milhão de
habitantes, citados 2,2 vezes.
Portugal produziu 608 artigos
por milhão de habitantes
em 2005, citados em média
menos de duas vezes. Não há
nenhum trabalho específico
sobre a endogamia nas universidades portuguesas. O
Observatório da Ciência e do
Ensino Superior (OCES) apresentou dados obtidos noutros
estudos e apresentou-os quarta-feira no debate Endogamia
e Mobilidade na Universidade
Portuguesa.
Mas os números não são
directamente comparáveis
com os publicados por Arcadi
Navarro na Nature. Nos dados
do OCES foram considerados
os docentes que se doutoraram
na própria instituição, ao passo que o critério usado por Navarro para definir endogamia
foi a instituição onde estavam
quando publicaram o primeiro
artigo científico. Também não
são comparáveis com o estudo
a nível europeu publicado por
Manuel Soler na Nature (ver
gráfico), porque este apenas se
refere a duas áreas (zoologia
e ecologia).
No entanto, os números
existentes permitem concluir
que a endogamia é claramente
predominante nas universidades portuguesas: segundo
os números do OCES, sete em
cada dez professores fizeram
o doutoramento na mesma
universidade em que agora
têm um emprego. ■ D.M.
Download

Chimpanzés preferem acasalar com fêmeas mais velhas