28 SOCIEDADE PÚBLICO • QUARTA-FEIRA, 22 NOV 2006 CIÊNCIAS Chimpanzés preferem acasalar com fêmeas mais velhas O facto de os nossos parentes mais próximos serem promíscuos e as fêmeas permanecerem férteis toda a vida pode explicar esta diferença de comportamento em relação aos humanos, dizem os cientistas que observaram uma comunidade de chimpanzés durante oito anos. Por David Marçal Os machos chimpanzés e os humanos são diferentes no que respeita a preferências na idade das fêmeas para acasalar. Apesar de, tal como nos humanos, preferirem algumas fêmeas em vez de outras, os chimpanzés sentem-se mais atraídos por fêmeas mais velhas. São as conclusões de um trabalho realizado por cientistas das universidades de Harvard e de Boston, publicado ontem na revista Current Biology. Enquanto os chimpanzés têm um sistema de acasalamento promíscuo, os humanos formam relações de acasalamento invulgarmente longas, o que torna as fêmeas jovens, com maior potencial reprodutivo, mais atraentes. Estudos multiculturais indicam que a atractividade feminina humana tem, em geral, um pico antes da maternidade e decai com o envelhecimento. Pensa-se que a menopausa, que limita a fertilidade futura, acentua a preferência por mulheres jovens. Teoricamente, numa espécie sem menopausa nem relações duradouras, os machos não deviam sentir-se mais atraídos por parceiras jovens. Esta foi a hipótese que a equipa de Martin Muller, da Universidade de Boston, testou, estudando os nossos parentes mais próximos, que são promíscuos e as fêmeas permanecem férteis toda a vida. Os cientistas estudaram as preferências de acasalamento da comunidade de chimpanzés Kanyawara do Parque Nacional Kibale, no Uganda, durante oito anos. É complicado inferir as preferências a partir dos dados de acasalamentos efectivamente consumados, porque cada cópula reflecte sempre algum compromisso entre as duas estratégias reprodutivas, do macho e da fêmea. Os machos nem sempre conseguem acasalar com as suas parceiras preferidas. Seja porque a competição com outros machos é intensa ou porque as fêmeas expressam preferências conflituosas. Por isso, os investigadores usaram múltiplas abordagens para avaliar a atractividade das fêmeas. O primeiro é a abordagem para a cópula. As cópulas de chimpanzés são As cópulas iniciadas por iniciativa do macho aumentam com a idade das fêmeas. E o número de machos num grupo é maior se estiverem presentes fêmeas mais velhas frequentemente precedidas por comportamentos de corte masculinos, como observar fixamente a fêmea com o pénis erecto. Depois, tanto o macho como a fêmea se podem aproximar para acasalar. Os investigadores verificaram que as cópulas iniciadas por iniciativa do macho aumentam com a idade das fêmeas. E o número de machos num grupo é maior se estiverem presentes fêmeas mais velhas. Uma terceira análise demonstrou que as fêmeas mais velhas têm uma taxa de cópula mais alta com machos de elevado estatuto. Como os machos dominantes têm mais possibilidades de realizar as suas preferências de acasalamento, trata-se de uma indicação da preferência masculina. Segundo os autores, os dados distinguem solidamente os padrões de preferências de humanos e chimpanzés, indicando que a preferência dos homens por mulheres jovens é uma característica que surgiu como resposta adaptativa à tendência humana para formar ligações duradouras. ■ E nos humanos, como é? Será certo que os homens preferem mesmo mulheres mais novas? Há algumas explicações para isso: o pico da fertilidade nas mulheres é entre os 20 e os 24 anos, e pelos 50 anos chega à menopausa. Mas os homens, em teoria, podem continuar a fazer filhos até morrerem. Por outro lado, diz-se que as mulheres preferem homens mais velhos por terem uma posição social mais elevada. Estas ideias são explicadas, por exemplo, no livro A Sobrevivência dos Mais Belos, de Nancy Etcoff (Replicação). Mas o primatólogo Frans de Waal, da Universidade de Emory (EUA), disse à revista Science que os dados sobre os hábitos de acasalamento em várias culturas não permitem fazer comparações com os chimpanzés: “Toda a gente pensa que os homens preferem mulheres mais jovens. Mas todos os resultados humanos se baseiam em questionários e na selecção de fotografias de mulheres que consideram atraentes. Não sabemos se na vida real fariam o mesmo.” C.B. 30 SOCIEDADE PÚBLICO • DOMINGO, 26 NOV 2006 CIÊNCIAS DR A CIÊNCIA DO ORGASMO ALEATÓRIO As carpas foram alguns dos peixes estudados por Lynne Sneddon: quando expostos a estímulos dolorosos, mostram alívio com analgésicos Será que os peixes conseguem sentir dor? DAVID MARÇAL Será que os peixes sentem dor? Este é actualmente um assunto controverso, com muitos estudos a demonstrar a possibilidade de os peixes sentirem não só dor mas também medo e stress. Os peixes fazem parte de muitas actividades humanas, como aquacultura, pesca e investigação, pelo que a questão tem consequências éticas importantes no modo como devem ser tratados. Lynne Sneddon, da Universidade de Liverpool, uma das investigadoras que acredita que devemos tratar os peixes com humanidade, esteve recentemente em Lisboa, no âmbito do um encontro dedicado ao bem-estar de animais aquáticos, que decorreu no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Sneddon defende que os peixes não só possuem todas as estruturas anatómicas necessárias à percepção de dor, como o seu comportamento normal é alterado em resultado de experiências dolorosas. Mas detectar dor nos animais é algo complicado. Os cientistas fazem determinações indirectas, principalmente baseadas em respostas a eventos potencialmente dolorosos. Uma questão de córtex? A primeira questão é saber se os peixes possuem as estruturas neurológicas para sentir, processar e reagir a estímulos potencialmente dolorosos. Aparentemente sim. Estudos recentes mostraram que as trutas possuem fibras nervosas para detectar a dor semelhantes às que existem nos humanos. Estas fibras, chamadas noci-receptores, estão distribuídas pela face do peixe. Nos mamíferos, o processamento da dor no sistema nervoso central envolve áreas específicas do cérebro e os peixes têm todas essas áreas. Contudo, existe alguma controvérsia quanto ao tamanho do córtex, uma vez que este é essencial para o processamento da dor nos humanos. Emoções fazem parte dos estados dolorosos Como humanos, é natural que já tenhamos sentido dor, por exemplo associada a uma experiência sensorial e física, como um corte ou uma queimadura, ou a um trauma emocional, sem que tenha ocorrido qualquer lesão. Isto faz com que a dor seja um conceito complexo, que compreende componentes sensoriais e emocionais. A dor pode ser definida com um estado emocional que leva a proteger-nos, a evitar situações ou estímulos nocivos e defender as áreas afectadas de mais dor, de modo a permitir a cura. Os humanos podem comunicar a dor uns aos outros. Mas não há nenhum comportamento universal que indique que o animal está a sentir dor. Em 1986, foi proposta uma definição para a dor animal, como uma experiência sensorial adversa causada por um estímulo nocivo ou potencialmente capaz de danificar os tecidos, tais como temperaturas extremas, pressão mecânica elevada ou químicos agressivos. O animal deve afastar-se do estímulo nocivo numa resposta motora defensiva, podendo também ser desencadeadas respostas vegetativas, como alterações no sistema cardiovascular e inflamação. D.M. Pode parecer algo inusitado, mas é motivo de discussão entre os cientistas se os peixes podem não sentir estímulos dolorosos; há quem diga que sim, e de tal forma que até deixam de alimentar quando estão a sofrer O córtex dos peixes é relativamente muito mais pequeno e menos diferenciado que o dos humanos (o que também é verdade para todos os outros animais). Assim, segundo algumas opiniões, os peixes são incapazes de sentir dor porque têm um córtex muito pequeno. No laboratório de Sneddon, alguns peixes foram sujeitos a estímulos mecânicos, térmicos e químicos potencialmente dolorosos. O resultado destas experiências demonstrou que os estes estímulos nocivos são acompanhados de alterações no cérebro. Verificam-se modificações na expressão genética em certas zonas do cérebro. Imagens obtidas por ressonância magnética também demonstram que o cérebro é activado pelos estímulos nocivos. Outra abordagem são os aspectos psicológicos da possível percepção da dor. Peixes sujeitos a estímulos nocivos exibem um comportamento anormal por longos períodos, que podem durar até seis horas. Os comportamentos normais de alimentação são suspensos e os peixes descuidam as actividades de fuga aos predadores, atitudes que demonstram que a dor sentida é dominante na sua atenção. A administração de morfina, um analgésico, atenua estes comportamentos adversos, mostrando que se tratam de reacções de resposta à dor. Outros estudos demonstram que os peixes são capazes de aprender a evitar os estímulos nocivos, o que também deixa de se verificar quando é administrada morfina. “Eu nunca fui um peixe, por isso não posso garantir-lhes que eles sentem dor. É virtualmente impossível entrar na mente de um animal e saber o que ele está a sentir. Mas acredito que devemos dar aos peixes o benefício da dúvida e tratá-los como se eles fossem capazes de sentir dor”, afirma Sneddon. ■ Critérios fisiológicos para avaliar se um animal é capaz de sentir dor 1. Noci-receptores presentes: ter um sistema nervoso com sensores específicos para a dor. 2. Sistema nervoso central 3. Noci-recepetores ligados ao sistema nervoso central 4. Opiáceos endógenos: o animal tem a capacidade de fazer os seus próprios analgésicos 5. As reacções podem ser modificadas com analgésicos 6. Reacções a estímulos prejudiciais análogas às dos humanos Alterações psicológicas indicativas de que o animal está a sofrer 1. Aprende a evitar os estímulos nocivos. 2. Comportamento normal é suspenso. Alimentação e fuga aos predadores são descuidadas, por exemplo. A iniciativa Orgasmo Global (http: //globalorgasm.org) quer organizar um orgasmo sincronizado à escala planetária no próximo dia 22 de Dezembro (ponha na agenda). O primeiro Orgasmo Anual Sincronizado com o Solstício pretende que os participantes concentrem os seus pensamentos na Paz, durante e após o orgasmo. Segundo os promotores, a combinação de alta energia orgásmica com uma intenção mental dirigida poderá ter um efeito maior do que meditações e orações em massa. No site, é enfatizada a urgência da acção com o facto de mais duas frotas norte-americanas equipadas com equipamento anti-submarino estarem a caminho do Golfo Pérsico. Não lhes restará alternativa senão fazer meia volta, arriscando-se mesmo a abalroar um farol caso parte significativa da tripulação se encontre a aderir à iniciativa. E se fosse mesmo verdade? Se acontecimentos de consciência colectiva à escala global pudessem influenciar a energia e a matéria? Investigadores da UniAnálise versidade de Princeton descreveram a existência de uma correlação entre dados aleatórios gerados continuamente e grandes acontecimentos mundiais, como o 11 de Setembro ou a morte da princesa Diana. A equipa, liderada pelo psicólogo Roger Nelson, do Departamento de Engenharia Mecânica e Aeroespacial, de Princeton construiu uma rede de 64 geradores de eventos aleatórios espalhados pelo mundo. Os geradores convertem ruído electrónico, com origens a nível quântico, numa sequência imprevisível de zeros e uns. Os autores defendem que os dados continuamente produzidos por estes instrumentos tendem a divergir do esperado quando acontecimentos globais de grande relevo estimulam a coerência de pensamentos e emoções de muitas de pessoas. Como num grande orgasmo colectivo pela Paz. Roger Nelson esclareceu recentemente que o laboratório não está ligado à iniciativa GlobalOrgasm.org, mas que irão estar atentos e olhar para os números aleatórios caso o orgasmo pareça “verdadeiramente global”. Não esclarece que métodos serão utilizados para tal averiguação. A ideia é que haja um novo orgasmo todos os anos até ao solstício de Dezembro de 2012, quando acaba o calendário Maia e começa uma nova era. Por esta altura, o mundo já estará eventualmente preparado para uma grande orgia global que, a acontecer, certamente acabará com todas as guerras. Durante 15 minutos, pelo menos. O artigo dos investigadores de Princeton foi publicado em 2002 na revista Foundations of Physics Letters e, não obstante a vasta quantidade de matemática pouco trivial, será certamente uma boa fonte de frases de engate para dia 22. A revista consta na lista do Science Citation Index e tem um factor de impacto de 0,5. Isto significa que é uma publicação credível mas não muito importante. A Nature e a Science têm factores de impacto à volta dos 30. No fundo, talvez haja uma ténue evidência científica de que o orgasmo global resulte: quem não participar é porque apoia a guerra no mundo e não quer que as frotas anti-submarinas voltem para trás. ■ DAVID MARÇAL CIÊNCIAS SOCIEDADE 29 PÚBLICO • DOMINGO, 10 DEZ 2006 RUI GAUDENCIO Tabaco é o agente mais nocivo Este gráfico mostra o registo de exposição pessoal a partículas PM2,5 do aluno X, ao longo de quase 24 horas. A interpretação é feita com base no “diário de bordo”, onde são registadas as experiências e os ambientes por que passa em cada momento do dia. A legislação canadiana (ver texto ao lado) apenas permite que a média diária para o ar ambiente exterior exceda os 30 microgramas por metro cúbico sete vezes por ano. O aluno X (que andou tanto no exterior como em interiores) tem uma média diária, neste dia 22 de Novembro, dez vezes superior: 300 microgramas por metro cúbico. O aluno X fuma ou tem amigos que fumam. Há vários picos ao longo do dia, correspondentes a fumo de cigarro nas proximidades, que chegam às 11 miligramas por metro cúbico. Ou seja, por alguns instantes é atingido um valor 440 vezes mais elevado do que o limite médio anual proposto pela Comissão Europeia. O aluno X passeou algumas horas num centro comercial, onde também encontrou concentrações muito elevadas de partículas nocivas. Os valores na sala de aulas são muito baixos. Na cozinha, a confecção dos alimentos faz subir os valores por momentos. Na sala, onde o medidor foi deixado durante a noite, o nível de partículas baixa durante a madrugada, devido à ausência de actividade, até ao acordar. D.M. Os dados registados pelo dectetor de partículas são lançados num computador portátil para serem analisados Alunos do secundário medem a qualidade do ar que respiram por um dia Estudo europeu inovador avalia a exposição pessoal a partículas de poluição DAVID MARÇAL “Tive que pôr isto dentro do casaco”, diz Maria do Carmo Sousa, aluna do 11º da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa. Salvador Sobral, também com 16 anos e da mesma turma de Geografia, acha que teve azar com o dia que lhe coube para transportar o detector de partículas de poluição: “Calhou num dia de chuva e isto não pode apanhar água.” Salvador Sobral e Maria do Carmo Sousa são dois dos cerca de 200 jovens portugueses que participam num projecto de investigação europeu chamado EuroLifeNet. Durante um dia, cada um transportou um detector de partículas portátil e mediu a qualidade do ar que respirou para os cientistas avaliarem. Em Portugal, estão envolvidos jovens das regiões de Viana do Castelo, Açores e Lisboa e Vale do Tejo e, em Itália, da Lombardia. Os estudantes portugueses, do 9º ao 12º ano, são acompanhados por 20 professores. A primeira campanha de medições decorreu entre 3 e 24 de Novembro. Os dados registados por Salvador e Maria do Carmo são descarregados para o computador portátil com a ajuda das professoras Ana- bela Neves e Maria João Vieira. Em ambos os casos, os valores de partículas registados nas últimas 24 horas são baixos: “Não tinha ideia nenhuma, mas fiquei a saber que a minha casa não tem poluição”, diz Salvador. Maria do Carmo vai ainda mais longe: “Gostava que os valores fossem mais altos, era mais interessante.” Mas nem sempre é assim e não é por acaso que nem Salvador ou Maria do Carmo fumam, pois uma das causas frequentes para que os valores disparem é o fumo de cigarro (ver gráfico). Os detectores medem as partículas mais pequenas, ou seja com dimensões inferiores a 2,5 micrómetros (PM2,5). Estas são as mais perigosas pois podem chegar às regiões de trocas gasosas nos pulmões e algumas, muito pequenas, podem mesmo passar através dos pulmões para a corrente sanguínea e afectar outros órgãos. De GPS na cidade Os alunos levam também com eles um dispositivo de localização geográfica por satélite (GPS). Deste modo, as concentrações de partículas poluentes podem ser associadas a uma localização (desde que haja satélites em linha de vista). Num percurso realizado por uma aluna entre o bairro de Campo de Ourique e a escola (que fica próximo do Parque Eduardo VII), foram atingidos por momentos valores de 700 microgramas por metro cúbico, devido ao intenso tráfego automóvel (mesmo assim, muito inferiores aos registados por outros alunos na proximidade de fumo de cigarro). Para além da importância da investigação ambiental, o EuroLifeNet tem também uma importante compo- “Não seria possível recolher estes dados com os métodos tradicionais de investigação, com técnicos de laboratório e bolseiros, pois teria um orçamento enormíssimo”, frisa o investigador João Joanaz de Melo nente pedagógica. Os dados recolhidos podem ser trabalhados no âmbito de várias disciplinas, nomeadamente Área Projecto Química, Física, Química e Geografia. Os alunos de Geografia da professora Maria João Vieira descarregaram todos os dias imagens de satélite da Internet, e vão procurar relacionar as concentrações de partículas com as condições meteorológicas. Em que tipos de tempo há mais partículas no ar? “Hoje os valores são baixos, porque o vento também ajuda à dispersão de partículas”, comenta Maria João, referindo-se aos dados de Salvador e Maria do Carmo. João Joanaz de Melo, investigador da Universidade Nova de Lisboa, destaca duas vertentes do projecto: “Cada um dos alunos que faz isto está a ganhar interesse pela ciência. Por outro lado, não seria possível recolher estes dados com os métodos tradicionais de investigação, com técnicos de laboratório e bolseiros, pois teria um orçamento enormíssimo.” Joanaz de Melo enfatiza o carácter inovador do projecto: “A monitorização diária de uma pessoa é informação que não existe em mais lado nenhum.” ■ Europa demasiado permissiva? Os mais recentes conhecimentos científicos revelam que os principais riscos para a saúde não residem nas partículas maiores, mas sobretudo nas mais finas. Por essa razão a União Europeia prepara-se para, pela primeira vez, legislar sobre as partículas inferiores a 2,5 micrómetros (PM2,5), na nova directiva sobre a qualidade do ar. O assunto é quente. O valor limite constante da proposta da nova directiva comunitária para a concentração média anual de PM2,5 no ar ambiente (exterior) é de 25 microgramas por metro cúbico. A meta é para ser atingida até 2025. O Parlamento Europeu aprovou em Setembro um relatório que considera o limite proposto pela Comissão Europeia pouco ambicioso e sugere um valor alvo de 20. Este padrão é assumido pelos autores do relatório como um compromisso entre as exigências de maior protecção da saúde humana e a exequibilidade. O valor correspondente usado desde há quase dez anos pela Agência de Protecção Ambiental (EPA) norte-americana é de 15, e o valor em vigor no estado da Califórnia é 12. No Canadá, as leis proíbem que o valor médio diário de 30 microgramas por metro cúbico seja ultrapassado mais do que sete vezes por ano. A média anual recomendada pela Organização Mundial de Saúde é dez. “Os dados científicos usados em todos estes casos são os mesmos; o que aparentemente difere, é o nível de ambição para reduzir a poluição”, pode ler-se na declaração aprovada em Setembro em Munique e Paris por cientistas da área da saúde e poluição atmosférica (http://www.apheis.net/). O grupo considera o limite proposto pela Comissão Europeia demasiado permissivo e que está demonstrado que uma média anual entre 20 a 25 microgramas por metro cúbico de partículas inferiores a 2,5 micrómetros é gravemente prejudicial para a saúde. D.M. CIÊNCIAS SOCIEDADE 27 PÚBLICO • QUINTA-FEIRA, 14 DEZ 2006 M. LAKSHMAN/AP Os mamíferos podem ter descoberto o voo antes das aves Fóssil da Mongólia revela mamífero planador com 130 milhões de anos CLARA BARATA A dor actua a muitos níveis, voluntários e involuntários, mas são raros os indivíduos em quem o sentido da dor está ausente Conhecidas no Paquistão três famílias que não sentem dor Poderá ser possível desenvolver analgésicos com menos efeitos secundários DAVID MARÇAL Desde os dez anos que era bem conhecida pelos serviços de saúde locais a criança que inicialmente despertou o interesse dos cientistas. Actuava regularmente em espectáculos de rua, espetando facas nos braços e caminhando sobre brasas, sem sentir dor. Morreu antes de completar o décimo quarto aniversário, na sequência de um salto do telhado de uma casa. Posteriormente, os investigadores procuraram e estudaram três famílias consanguíneas do Norte do Paquistão, pertencentes ao clã Qureshi birdari, com histórias semelhantes de ausência de dor. Os seis indivíduos afectados nunca tinham sentido dor em qualquer parte do seu corpo, nem mesmo enquanto bebés: nenhum fazia a mínima ideia do que é a sensação de dor. Os mais velhos acabaram por aprender que certos acontecimentos provocam dor e chegam a fingir dor na sequência de entradas mais duras em jogos de futebol. Tinham lesões nos lábios e na língua, por se morderem nos primeiros quatro anos de vida. Alguns necessitaram mais tarde de cirurgia plástica e, em dois casos, ocorreu a perda de dois terços da língua. Todos exibiam feridas e cortes frequentes e a maioria tinha sofrido fracturas que só foram diagnosticadas retrospectivamente. No entanto, exames neurológicos cuidados revelaram que são capazes de sentir tudo o resto: toque, calor, frio, cócegas, pressão e noção da posição dos membros. Os estímulos dolorosos são transmitidos na forma de impulsos eléctricos, que viajam desde a extremidade das células nervosas na periferia do corpo até ao cérebro. Estes impulsos nervosos passam por canais de iões, que são proteínas na membrana das células que funcionam como portas de passagem para átomos ou moléculas com carga eléctrica. Existem vários tipos de canais de iões, nomeadamente de canais de iões de sódio, que contribuem para produzir estes impulsos nervosos. O tipo de canal de sódio importante para este estudo (designado por NaV1.7) está localizado nas extremidades dos nervos que sentem a dor (nociceptores). Estes canais de sódio comportam-se como uma espécie de amplificadores dos impulsos eléctricos da dor: quando a diferença de potencial eléctrico atinge um determinado valor, o neurónio dispara. Os investigadores descobriram que os elementos destas famílias têm modificações numa proteína que é uma espécie de “tijolo” da construção destes canais e por isso não sentem dor. O trabalho, conduzido por uma equipa multinacional de cientistas, maioritariamente de instituições do Reino Unido e Paquistão, é publicado hoje na revista Nature. A primeira pista do envolvimento deste tipo de canal Viver sem experiências dolorosas? Enquanto indivíduos com ausência do sentido da visão ou audição são relativamente comuns, a incapacidade completa de sentir dor é muito rara. A dor é um sentido essencial que evoluiu em todos os organismos complexos para reduzir os danos nos tecidos e células, de modo a prolongar a sobrevivência. A experiência da dor resulta na adopção de comportamentos preventivos que tanto servem para afastar o organismo de um ambiente perigoso, como para permitir a reparação dos danos: por exemplo, deixar uma perna partida em repouso para que novo osso se possa formar. A dor também nos protege no nosso ambiente, ensinandonos que situações e comportamentos podem provocar lesões. A dor percorre muitos caminhos no sistema nervoso. O bloqueio destes sistemas com analgésicos foi um grande avanço farmacológico. D.M. de sódio na dor veio de estudos com modelos animais: ratinhos modificados geneticamente para não o terem apresentaram uma reposta à dor reduzida. Outra modificação conhecida neste canal é a causa de uma doença hereditária chamada eritromelalgia. Os pacientes sentem ataques de dores do tipo queimadura, como resposta a calor moderado. Tudo isto sugere que este canal específico estabelece uma espécie de factor multiplicador (ganho) na sensação de dor nos humanos. A dor é importante (ver caixa), mas o alívio da dor é essencial para a medicina moderna, de modo a permitir cirurgias e tornar certas doenças mais suportáveis. Mesmo assim, ainda há alguns tipos de dor que não reagem aos tratamentos actuais. Compreender o mecanismo desta ausência de dor poderá ajudar a encontrar novos analgésicos. Como este tipo de canais de iões de sódio não existe no músculo cardíaco nem no sistema nervoso central, medicamentos que actuem como bloqueadores específicos destes canais deveriam em princípio ter menos efeitos secundários do que os actuais. “Este estudo levanta a hipótese de se poderem desenvolver fármacos que bloqueiem selectivamente este canal de sódio, o que poderá ter importantes implicações terapêuticas no tratamento da dor crónica”, comentou Alexandre Rainha Campos, do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. ■ Os primeiros animais a voar podem ter sido os mamíferos, e não as aves, diz hoje, na revista Nature, a equipa que descobriu na Mongólia o fóssil de um animal que viveu há pelo menos 130 milhões de anos e que planava, como os esquilos voadores actuais. Isto revela que a evolução começou a fazer experiências de voo nos mamíferos ao mesmo tempo que nas aves, ou até antes. Os primeiros inventores do voo foram os pterossauros, animais semelhantes aos dinossauros mas com asas, que apareceram há mais de 200 milhões de anos. A primeira ave primitiva, a Arqueopterix, só surgiu há 150 milhões de anos. Os mais antigos fósseis de mamíferos capazes de planar encontrados até agora tinham 70 milhões de anos. Os cientistas concluíram que este animal é tão diferente de outros conhecidos (apesar de parecer um esquilo) que funda uma nova ordem de mamíferos. Deram-lhe o nome científico Volaticotherium antiquus (que quer dizer “antigo animal planador”). Foi descoberto o esqueleto fossilizado do Volaticotherium, e também a impressão que deixou na rocha. Foi esta impressão que permitiu perceber que tinha uma membrana que ligava os membros dianteiros e posteriores, que se estendia quando o animal saltava de árvore em árvore, formando como que uma espécie de vela, ou pára-quedas, que lhe permitia planar. Os membros são alongados, o que é uma característica dos animais de hoje que planam. Na rocha descoberta na Mongólia oriental vê-se também a impressão deixada por pêlos da membrana e de outras partes do corpo do animal, que não devia pesar mais que 70 gramas, para um comprimento entre 12 e 14 centímetros. Os dentes aguçados revelam que se alimentava de insectos. Os cientistas calculam que tenha vivido entre há 130 e 164 milhões de anos e que, apesar de ter semelhanças com os esquilos planadores actuais (que pertencem à ordem dos roedores), não será o seu antepassado directo, nem de outros mamíferos actuais. “Estamos a descobrir uma imagem muito diferente dos mamíferos que viviam na época dos dinossauros”, disse Jin Meng, do Museu Americano de História Natural, um dos autores da descoberta. CHUANG ZHAO E LIDA XING O Volaticotherium planava quando saltava entre as árvores 24 SOCIEDADE PÚBLICO • QUINTA-FEIRA, 21 DEZ 2006 CIÊNCIAS Obesidade humana é controlada por microrganismos? LAURA KYRO, ZHEN HE, LARGUS ANGENENT, JEFFREY BILIÕES DE BACTÉRIAS VIVEM NO NOSSO CORPO GORDON Mau tempo na Florida deixa em dúvida o local de aterragem, que terá de ocorrer obrigatoriamente até sábado Diferenças na população bacteriológica podem justificar diferenças na absorção de calorias DAVID MARÇAL Para além de factores genéticos e dos hábitos alimentares, o controlo do peso corporal poderá também estar relacionado com o tipo de microrganismos presentes no tracto gastrointestinal. Esta hipótese é levantada por cientistas da Universidade de Washington, em dois artigos publicados hoje na revista Nature. Muito foi dito e escrito acerca da sequenciação do genoma humano, mas o nosso próprio genoma não é o único com que temos que nos preocupar: biliões de bactérias vivem no tracto intestinal humano e cada espécie traz o seu próprio ADN para a festa. De facto, pensa-se que o número de genes dos microrganismos que vivem no nosso corpo é superior aos nossos, em várias ordens de magnitude. Os genomas microbianos conferem-nos capacidades que não temos, como digerir alguns componentes da nossa dieta. Há dois grupos predominantes de populações de bactérias no sistema digestivo humano: os firmicutes e bacteriodetes. Os autores estudaram um pequeno número de pessoas obesas, e descobriram que a proporção de material genético de firmicutes era mais alto do que em indivíduos com peso regular. Mais, quando indivíduos obesos perdem peso ao longo de um ano, a proporção de fermicutes torna-se mais parecida com a de pessoas sem obesidade. No segundo trabalho, os autores descrevem as diferenças nos microrganismos do tracto intestinal de ratinhos obesos e não obesos, que confirmam a tendência: os ratinhos obesos têm uma proporção mais alta de fermicutes intestinais. Para além disso, os microrganismos dos ratinhos obesos eram mais ricos em genes que codificam enzimas que ajudam a digerir certos tipos de polissacarídeos (polímeros de açucares), que, de outro modo, seriam indigestíveis. Os ratos obesos também tinham mais produtos com calorias nas fezes, ou seja, as bactérias dos ratos obesos parecem ajudá-los a extrair mais calorias dos alimentos ingeridos. Os cientistas fizeram ainda uma outra experiência. Transferiram os microrganis- Vaivém já vem a caminho, mas não se sabe onde aterrará Ilustração artística que representa as bactérias que vivem no nosso corpo mos de ratinhos obesos para ratos sem micróbios e com um peso regular. Para outro grupo de ratinhos transferiram os microrganismos de ratinhos com peso regular. Ao fim de duas semanas, verificaram que os receptores a quem foram dadas as bactérias dos ratinhos obesos extraíram mais calorias dos alimentos e tiveram um ligeiro aumento da gordura corporal. Embora pequeno, o aumento é estatisticamente superior ao dos ratinhos que receberam microrganismos de dadores não obesos. Tudo isto sugere que diferenças na eficiência de extracção de calorias dos alimentos podem ser determinadas pela composição bacteriana do tracto intestinal, o que justificaria diferenças no peso corporal. É uma ideia que muda a maneira como vemos as causas da obesidade, mas que os próprios autores consideram que precisa de ser explorada. Por exemplo, as diferenças de peso são tão pequenas que poderiam ser eventualmente explicadas pelas pequenas diferenças na quantidade elementos ingeridos. “No todo, acho que o artigo suscita a possibilidade de termos de considerar o tipo de população bacteriana no tracto intestinal como um factor que pode contribuir para a obesidade, embora se mostre que não será preponderante”, afirma João André Carriço, investigador em biomatemática do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento. ■ O vaivém Discovery já vem a caminho da Terra, depois de uma missão bem sucedida na Estação Espacial Internacional (ISS), mas ainda não é bem certo quando vai aterrar, porque as previsões meteorológicas não são boas para hoje em Cabo Canaveral, na Florida, que devia ser o seu destino. Seja onde for, o vaivém tem de aterrar até sábado, porque se acaba o combustível que fornece electricidade à nave. No Centro espacial Kennedy, na Florida, esperam-se hoje nuvens baixas, chuva e ventos fortes na base aérea de Edwards, na Califórnia, que é outro local possível para a aterragem. As melhores previsões meteorológicas são para White Sands, no Novo México, mas esta costuma ser a última escolha da NASA, porque em 1982 um vaivém que aterrou lá ficou com os travões danificados, devido à muita poeira desta pista no deserto. “É difícil decidir para onde vão e quando para lá vão”, disse o porta-voz da NASA George Diller, citado pela AP. A tripulação do Discovery tem um pouco menos de margem de tempo para aterrar porque a missão teve de ser prolongada por mais um dia, para terminar as reparações necessárias nos painéis solares da estação. Mas, antes de regressarem à Terra, os astronautas lançaram ontem dois pequenos satélites e fizeram uma última revisão do escudo térmico da nave — para se certificarem de que não sofreu danos que possam pôr a sua segurança em causa ao reentrarem na atmosfera, quando o vaivém é submetido a enormes temperaturas. Para isso usaram o braço robótico do vaivém, munido de uma extensão de 15 metros com câmaras, para procurar buraquinhos feitos por micrometeoritos durante a estadia da nave no espaço. Um dos satélite chama-se Mepsi, e é do tamanho de uma caneca. Servirá para testar se pequenos satélites autónomos como este podem servir para observar naves e satélites maiores. O outro pequeno satélite que a tripulação do Discovery deve lançar chama-se Raft, e foi construído por alunos da Academia Naval dos Estados Unidos, para testar os limites de um sistema de radar que detecta objectos orbitais que passem sobre os Estados Unidos. De regresso ao planeta vem o astronauta alemão Thomas Reiter, que passou os últimos seis meses na Agência Espacial Internacional. Foi substituído na plataforma orbital pela astronauta norte-americana Sunita Williams. Durante a missão de oito dias na estação, a tripulação do Discovery fez quatro saídas para o espaço, durante as quais instalaram novos painéis solares, arranjaram outro que teimava em não se dobrar bem e, de caminho, renovaram todo o sistema eléctrico da ISS. Com todas estas saídas para o espaço, o astronauta Robert Curbeam quebrou um recorde: fez quatro saídas e tornou-se assim a pessoa que mais passeios espaciais efectuou numa só missão. São precisas pelo menos mais 13 missões de vaivém para terminar a construção da ISS, tarefa com a qual os Estados Unidos se comprometeram — não há mais naves capazes de levar tanto peso para a órbita da Terra como os vaivéns norte-americanos. Mas as velhas naves têm de deixar de voar até 2010, por isso o tempo urge. ■ NASA Regulação do peso corporal é uma afinação fina Está bem demonstrada a importância dos sistemas de controlo biológico que fazem com que haja uma grande proximidade entre as calorias adquiridas e as gastas pelo corpo. Para a grande maioria dos humanos (incluindo os obesos), a entrada de calorias excede o gasto em menos de um por cento. Mas estas pequenas diferenças podem ter um efeito cumulativo ao longo dos anos e resultar em aumentos de peso significativos. Note-se que nem todas as calorias ingeridas são necessariamente adquiridas pelo corpo, podendo ser simplesmente rejeitadas, o que resulta em fezes mais calóricas. A capacidade do corpo equilibrar a toma e o gasto de calorias depende da possibilidade que o cérebro tem de monitorizar os níveis de gordura corporal. O cérebro é “informado” dos níveis de gordura corporal através de mudanças nos níveis de hormonas que circulam no sangue. Uma dessas hormonas é a leptina. Os níveis de leptina aumentam quando aumenta a gordura corporal. Em ratos e humanos que não tenham esta hormona, verificase que há uma aquisição descontrolada de calorias, o que tem como consequência um aumento rápido da gordura corporal. Reciprocamente, níveis baixos de leptina causam dificuldade em manter o peso corporal. D.M. Robert Curbeam junto a um dos painéis solares da ISS CIÊNCIAS “As universidades devem competir pelo dinheiro com a investigação” E N T R E V I STA C O M A R C A D I N AVA R R O Arcadi Navarro em 2001 fez um grande estrondo quando publicou na Nature um artigo em que colocava em números o fenómeno da contratação de docentes universitários com base em critérios de proximidade social em vez de mérito científico. Acerca da situação das universidades espanholas, que não deverá ser muito diferente das portuguesas, chegou à conclusão de que preferem os defeitos dos de dentro às virtudes dos que vêm de fora. Por David Marçal (texto) e Daniel Rocha (foto) A endogamia nas universidades é definida como a existência de uma rede social que, independentemente do mérito dos candidatos, sistematicamente atribui posições aos amigos e conhecidos. O critério usado por Arcadi Navarro, especialista em biologia evolutiva da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona foi muito simples: comparou a morada do primeiro artigo publicado numa revista científica pelos docentes universitários com a morada actual. Em Espanha era a mesma, em 95 por cento dos casos. Dito de outro modo, apenas cinco por cento das vagas das faculdades são atribuídas a candidatos de fora. Nos Estados Unidos, a situação é exactamente inversa: o número de candidatos externos a obter lugares é de 93 por cento. No Reino Unido é de 83 por cento e em França 50. Tudo isto tem consequências na produtividade científica. Vários estudos demonstram que quando são escolhidos amigos em vez dos candidatos com mais mérito, o número e o impacto das publicações científicas baixa significativamente. O PÚBLICO falou com Arcadi Navarro, à margem de um debate sobre a mobilidade e endogamia nas universidades portuguesas, no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras. PÚBLICO — Quais são as consequências da endogamia nas universidades? ARCADI NAVARRO – São horríveis. As pessoas em vez de ciência estão a fazer política de corredores e a universidade torna-se numa maneira de arranjar salários para os amigos. Como se pode explicar as enormes diferenças entre os países? Por sistemas muito diferentes. Há países onde é proibido arranjar um emprego na mesma universidade onde se fez o doutoramento, como na Alemanha. Em França, para entrar numa instituição do CNRS (Centro Nacional de Investigação Científica), é preciso fazer um exame nacional muito exigente. Já em Espanha as posições são atribuídas por comités formados por pessoas de dentro da universidade. Seria um bom Fragmentos do debate sobre Portugal “Preferem os defeitos dos de dentro às virtudes dos que vêm de fora” Carlos Fiolhais, Universidade de Coimbra “Não é um problema exclusivo das universidades, é transversal a toda a sociedade portuguesa. As carreiras nos hospitais são tão ou mais endogâmicas” António Coutinho, director do Instituto Gulbenkian de Ciência “O Estado não deve proteger as instituições das consequências das suas más decisões” Diogo Lucena, Universidade Nova de Lisboa “Não podemos resolver um problema tão complexo de forma simples” Manuel Heitor, secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Arcadi Navarro levou para a ribalta da ciência internacional o tema do favoritismo nas universidades espanholas sistema se as instituições competissem através da investigação que fazem. Mas as universidades espanholas recebem o financiamento com base no número de alunos de licenciatura. Outro factor é a escassez de recursos em países como Espanha e Portugal, que cria um ambiente ultracompetitivo, e as coisas são organizadas um pouco ao estilo da máfia. Que medidas poderiam ser tomadas para reduzir este problema? Fazer as universidades competir. Permitir-lhes contratar quem queiram, mas fazer o seu financiamento depender da ciência produzida. E dar o dinheiro aos investigadores em vez de às instituições. E a agência de financiamento avalia o investigador. O favoritismo não pode passar para essas avaliações? Pode acontecer. De modo a evitá-lo, as avaliações devem ser anónimas e feitas por comités maioritariamente estrangeiros. Se a sua carreira depender de avaliações sérias por padrões internacionais, as pessoas trabalham. Há uns anos, em Espanha, houve quem obtivesse um lugar de professor catedrático sem um único artigo publicado numa revista científica. Como seria a receptividade das instituições a estas medidas? Em relação a fazê-las competir e pensar na ciência que fazem (porque isto influenciaria o seu financiamento) são contra. Quanto a criar equipas de investigação que não dependem financeiramente das instituições, mas de uma agência de financiamento externa, estão receptivas. Tornar as universidades competitivas é uma grande mudança estrutural e cultural. Como é que pode ser feito? [Risos] Essa é a questão. As coisas que se podem fazer não são revoluções, mas pequenas mudanças que podem ter grandes consequências. Por exemplo, em países de topo a nível científico, a todo o financiamento atribuído a um projecto de investigação é cobrada uma enorme taxa (overhead) pelas universidades, que pode chegar até 50 por cento. O cientista recebe 100 e a instituição fica com 50 para gastar como quiser. Nos países com mais endogamia, os overheads tendem a ser baixos. Por exemplo, até este ano, em Espanha eram de 15 por cento. Do ponto de vista dos administradores da universidade são trocos. Se baixar um pouco o dinheiro atribuído por cada aluno e aumentar o financiamento que vem dos overheads, a investigação torna-se importante porque define o dinheiro que entra no sistema. E as universidades começam a querer contratar pessoas que ganhem grandes projectos e tragam muito dinheiro. ■ A endogamia pode afectar a produtividade científica das universidades portuguesas A endogamia tem um efeito claramente negativo na produtividade científica, segundo números da base de dados de publicações ISI Web of Knowledge, compilados por Arcadi Navarro. No Reino Unido, apenas dois em cada dez elementos da faculdade são recrutados internamente, e foram em 2005 produzidos 1463 artigos científicos por milhão de habitantes. SOCIEDADE 23 PÚBLICO • SÁBADO, 30 DEZ 2006 E cada um deles foi citado noutros artigos em média mais de três vezes, o que é uma medida da sua importância. No caso espanhol, em que 19 em cada 20 professores universitários são recrutados na instituição, foram publicados 834 artigos por milhão de habitantes, citados 2,2 vezes. Portugal produziu 608 artigos por milhão de habitantes em 2005, citados em média menos de duas vezes. Não há nenhum trabalho específico sobre a endogamia nas universidades portuguesas. O Observatório da Ciência e do Ensino Superior (OCES) apresentou dados obtidos noutros estudos e apresentou-os quarta-feira no debate Endogamia e Mobilidade na Universidade Portuguesa. Mas os números não são directamente comparáveis com os publicados por Arcadi Navarro na Nature. Nos dados do OCES foram considerados os docentes que se doutoraram na própria instituição, ao passo que o critério usado por Navarro para definir endogamia foi a instituição onde estavam quando publicaram o primeiro artigo científico. Também não são comparáveis com o estudo a nível europeu publicado por Manuel Soler na Nature (ver gráfico), porque este apenas se refere a duas áreas (zoologia e ecologia). No entanto, os números existentes permitem concluir que a endogamia é claramente predominante nas universidades portuguesas: segundo os números do OCES, sete em cada dez professores fizeram o doutoramento na mesma universidade em que agora têm um emprego. ■ D.M.