JOÃO TOLEDO: O EDUCADOR PAULISTA SEGUNDO A HISTORIOGRAFIA DA
EDUCAÇÃO BRASILEIRA
Paulo Edyr Bueno de Camargo
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS)
1- INTRODUÇÃO
O interesse a respeito do movimento escolanovista foi despertado, pela primeira
vez, a partir da leitura de um artigo de Dermeval Saviani, publicado em 1983, intitulado
Tendências e correntes da educação brasileira. Nas conclusões desse artigo, Saviani discute a
maneira como o professor pensa a sua prática educativa. Segundo o autor, o professor, nesse
momento, depara-se com o primeiro ato do seu drama, pois “[...] sua cabeça é escolanovista
mas as condições em que terá de atuar são as da escola tradicional” (SAVIANI, 1983, p. 41).
Esse descompasso entre a formação do professor, realizado a partir da influência
“progressista” nos cursos de educação, e as condições materiais das escolas em que atuará,
demonstrou que se estava diante de um problema que merecia maiores esclarecimentos.
Em outro artigo de Saviani, escrito em decorrência da comemoração do
centenário de nascimento do mais célebre dos autores escolanovistas, Anísio Teixeira,
esclarece que “[...] em meus estudos não aparece em nenhum momento uma transposição
daquelas críticas gerais ao modo como a Escola Nova foi sendo apropriada (grifo nosso) pelo
discurso pedagógico para as posições específicas de Anísio Teixeira” (SAVIANI, 2000, p.
165-6). Nos dois artigos, apesar do longo período de tempo decorrido entre eles, continua em
evidência a forma como o ideário escolanovista foi assimilado pelo professorado num
cotidiano escolar, como salienta o primeiro artigo, em que as condições materiais das nossas
salas de aula não favoreciam a concretização dessas idéias.
O conhecimento do processo histórico, responsável pela geração desse
descompasso, ganha em clareza com a exploração da sua gênese. Precisamos ir até as raízes
da questão, até os seus fundamentos. As lições de Aristóteles, ainda hoje pertinentes porque
históricas, também reforçam a importância de conhecermos as origens dos problemas. “Se
estudarmos as coisas em seu estágio inicial de desenvolvimento, quer se trate deste assunto ou
de outros, teremos uma visão mais clara delas” (ARISTÓTELES, 1985, p. 13). Seria
necessário, portanto, estudar o pensamento de um autor que, ao mesmo tempo, estivesse
imbuído do ideário da renovação escolar, no seu estágio inicial de desenvolvimento nos anos
20, mas também estivesse em contato direto com as agruras e dificuldades de um professor
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dentro de sala de aula. Em outras palavras, alguém que estivesse, por assim dizer, na “linha de
frente” do movimento de implantação do ideário escolanovista. Era preciso analisar um autor
que construísse uma ponte entre o ideário escolanovista e as condições materiais concretas da
sua realização e, dessa forma, encontrar o elo entre esses dois momentos, aparentemente
intransponíveis e inconciliáveis. O autor que, no nosso entender, cumpre essa exigência é
João Toledo.
O professor João Augusto de Toledo nasceu em Tiête / SP, aos 12 de maio de
1879, e faleceu em São Paulo, em 1941. João Augusto de Toledo dedicou 35 aos de sua vida
ao magistério e à vida pública. Formou-se pela escola Complementar de Itapetininga, em
1900 e, por ter concluído o curso com distinção, sua primeira nomeação para o magistério fezse no cargo de diretor do grupo escolar de Serra Negra. Dirigiu também o grupo escolar de
Rio Claro.Exerceu o cargo de lente de Pedagogia da Escola Normal de São Carlos e diretor da
Escola Normal de Campinas. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo,
inspetor geral do ensino do Estado de São Paulo, assistente técnico da Diretoria Geral do
Ensino e ocupou, em 1932, o cargo de diretor geral da Instrução Pública em São Paulo.
Dirigiu ainda, já aposentado, o Instituto Ana Rosa localizado na capital paulista.
Ficou conhecido nos meios educacionais como João Toledo, por ser este o nome
adotado na capa de todas as suas obras. Toda a sua produção foi destinada aos bancos
escolares, das escolas primárias às escolas normais.
João Toledo atuou e publicou as suas obras nos anos 20 e 30. A década de 20
marcou a introdução no país do escolanovismo, por meio de Reformas do Ensino, então
efetuadas em vários Estados brasileiros. Nesse período o ideário educacional renovador
amadureceu, consolidando-se de fato nos anos 30, quando novas iniciativas de remodelação
escolar continuaram ocorrendo.
Não obstante estudarmos a obra de um personagem da história da educação
brasileira, não compartilhamos a concepção de que a análise histórica deva ser centrada na
figura de um indivíduo, ou na ação individual. Segundo Marx, os homens fazem a história,
mas eles a fazem em circunstâncias dadas, e sempre a constroem de forma coletiva.
O estudo a respeito do pensamento do educador João Toledo enquadra-se numa
temática de pesquisa denominada de Estudos histórico-biográficos. Essa modalidade de
temática é portadora de grande manancial de possibilidades de investigação, pois parte do
pensamento de figuras ligadas direta ou indiretamente às atividades de ensino e possibilita a
compreensão da própria educação nos períodos em que viveram.
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2- O EDUCADOR PAULISTA SEGUNDO A HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO
BRASILEIRA
Este trabalho é o resultado parcial da pesquisa a respeito da obra teórico-prática
de João Toledo. Ele objetiva, num primeiro momento, analisar as principais críticas que a
historiografia educacional brasileira atribuiu à obra de João Toledo e, em seguida, demarcar,
em largos traços, as idéias principais do educador paulista.
A obra teórico-prática de João Toledo - localizada no centro do debate a respeito
da concretização do ideário escolanovista - foi analisada diferentemente por dois dos
principais representantes da historiografia da educação brasileira: Fernando de Azevedo e
Jorge Nagle.
Os livros de João Toledo: Sombras que Vivem; O Crescimento Mental e Escola
Brasileira foram analisados por Fernando de Azevedo quando este escrevia estudos de crítica
e teoria literária para o jornal “O Estado de São Paulo”, nos anos de 1924 a 1926. O estudo a
respeito de João Toledo denominado Literatura Pedagógica tornou-se parte integrante do livro
Máscaras e Retratos (AZEVEDO, 1962, p. 113-8). Neste texto, Fernando de Azevedo critica a
“estreiteza” de João Toledo em sua proposta de reforma de processos pedagógicos,
considerando Escola Brasileira “[...] mais um livro prático do que um tratado científico, para
terminar com a arte sutil e delicada que ensina a ensinar” ( Id., ibid. , p. 116). A proposta de
Azevedo é a criação de um grande ideal renovador, e para tanto seria fundamental “[...] uma
ampliação do material didático em que, nos países cultos, já veio operar uma verdadeira
revolução o cinema escolar, precioso como auxiliar do ensino intuitivo tão caro ao Sr. João
Toledo [...]” (Id., ibid., p. 117). João Toledo, por seu lado, precisava trabalhar em sua sala de
aula com materiais didáticos disponíveis nas escolas, e isto o faz pensar que os grandes ideais
renovadores estavam apenas no plano das idéias.
Azevedo (1962) ainda demonstra total incompreensão das possíveis dificuldades
encontradas por João Toledo, atribuindo a uma característica de personalidade os obstáculos
colocados pela falta de condições materiais.
“Mas, com ser um espírito arejado, essa timidez excessiva, - um dos traços do
seu temperamento suscetível e nervoso, manifesto ainda nas palestras,
impediu que na ‘Escola Brasileira’ se irradiassem, iluminado-a por todos os
cantos com maior poder de projeção, os grandes ideais renovadores da
educação moderna” (AZEVEDO, 1962, p. 116).
Fernando de Azevedo, no livro A educação na encruzilhada, sem citar diretamente
os nomes, novamente critica o posicionamento teórico de João Toledo.
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A oposição a essas reformas – já pela resistência passiva de indivíduos
isolados na rotina, já pela reação obstinada de interessados em manter o
statu quo, - era tamanha que à reforma promovida pelo Dr. Sampaio Dória,
em 1920, sucedeu um decênio de estagnação no ensino público, e mesmo
depois de 1930, as reformas parciais de Lourenço filho, em 1931 e a que se
traduziu no “Código de Educação”, em 1933, sucederem-se duas crises
reacionárias (grifo nosso), que fizeram submergir quase integralmente as
primeiras e estiveram a ponto de comprometer a segunda, de 1933, já
definitivamente vitoriosa na maior parte dos seus princípios fundamentais
(AZEVEDO, 1960, p. 28).
Ora, consultando a biografia de João Toledo, observamos que ele exerceu, em
1932, o cargo de diretor geral da Instrução Pública em São Paulo: substituiu Lourenço Filho,
portanto, e, segundo Azevedo (1960), seria um dos responsáveis pela “crise reacionária” que
quase levou à bancarrota as reformas desenvolvidas em 1931.
O pensamento de Fernando de Azevedo foi tema da Dissertação de Mestrado,
defendido por Maria Luiza Penna, na PUC, Rio de Janeiro, da qual resultou o livro intitulado
Fernando de Azevedo: educação e transformação. Segundo Penna (1987), Fernando de
Azevedo caracteriza-se, sobretudo, por ser um estudioso da nossa cultura, acreditando que
sem uma modificação de mentalidades não haverá uma real transformação da vida social. A
cultura, nesse sentido, determinaria a consciência. Ainda, segundo Penna (1987), o próprio
Fernando de Azevedo se caracteriza como um “idealista crítico”, atribuindo à palavra
idealismo dois significados. No primeiro, idealismo representa a necessidade de construção de
grandes ideais educacionais e, no segundo, num nível mais profundo, a importância dos
fatores ideológicos na construção da realidade. Assim, a concepção de Fernando de Azevedo
configurou-se diametralmente oposta à concepção marxista, pois, na última, as idéias são
subordinadas à base material da sociedade.
Fernando de Azevedo, com efeito, coerente com a sua teoria, acredita que os
obstáculos à concretização do ideário escolanovista não se devem, ao contrário da hipótese
aqui defendida, à falta de condições materiais presentes nas salas de aula. Para ele, os
obstáculos, antes, são de ordem cultural e ideológica.
Na mesma direção das críticas apontadas por Fernando de Azevedo à obra de João
Toledo, apareceu na Poliantéia Comemorativa do 1º Centenário do Ensino Normal em São
Paulo (1846-1946) uma biografia de João Toledo, escrita por Antonio D’Ávila, criticando-o
por seu “conservadorismo”.
A propaganda da escola nova chegou até nós em 1926 e Toledo sem evocar
qualquer lugar ou exigir posição privilegiada, passou a representar aos
defensores da nova idéia, a escola do passado, o tradicionalista das diretrizes
pedagógicas, o ranço didático (Poliantéia, 1946, p. 112).
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Jorge Nagle em seu livro, considerado um clássico da historiografia educacional
brasileira, Educação e sociedade na Primeira República, publicado em 1974, em
contraposição a Fernando de Azevedo, situa a obra de João Toledo sintonizada com a
perspectiva da Escola Nova.
Nagle (1974) realiza uma análise da literatura educacional, na década de 1920,
descrevendo, numa visão panorâmica, quatro orientações muito definidas. A primeira
orientação é composta pelos trabalhos ligados às pregações nacionalistas. A propagação da
escola, segundo essa concepção, deve ser realizada o mais intensamente possível. No entanto,
no conjunto de obras constituintes dessa concepção raramente se encontram argumentos de
natureza pedagógica.
A segunda orientação se caracteriza por apresentar trabalhos de natureza
pedagógica geral. Agora, os problemas da educação somente devem ser analisados da
perspectiva científica. Essa orientação deve ser dividida em três núcleos principais.
No primeiro, encontram-se publicações que analisam a escolarização a
partir de esquemas pedagógicos mais amplos, onde, na maioria dos casos, a
pedagogia é apresentada como ciência “experimental”. Nesses livros,
predominam os itens do seguinte tipo: conceito de pedagogia, papel dos
órgãos dos sentidos, crescimento físico, questões de aprendizagem,
caracterização da criança, problemas metodológicos. Enfim, questões
teóricas e práticas de muitos assuntos de natureza intra-escolar. A esse
núcleo pertencem as seguintes obras: João Toledo, Escola Brasileira; Maria
Lacerda de Moura, Lições de Pedagogia; Alfredo F. Magalhães, Noções de
Pedagogia e Pedro Deodato de Morais, Pedagogia Científica 5 (NAGLE,
1974, p. 269)
A nota nº 5, presente na citação de Nagle (1974) acima exposta, faz uma ressalva
ao livro de João Toledo.
5 – O livro de João Toledo apresenta algumas particularidades que escapam
às mencionadas no texto, por exemplo, apresenta alguns dados sobre o país,
outros sobre hereditariedade e ética pedagógica, além de alguma exposição
sobre questões que interessam ao quarto conjunto de obras, isto é, aquelas
que analisam o processo de escolarização do ponto-de-vista da Escola
Nova. Quanto a este último aspecto, o mesmo se pode dizer do livro
mencionado de Pedro Deodato de Morais (Id., ibid., p. 368).
O segundo núcleo é composto de obras de caráter exclusivamente metodológico e
o terceiro núcleo, por sua vez, é composto de obras relacionas aos instrumentos de medidas
(testes).
A terceira orientação, na seqüência, é constituída por obras que realizam um
balanço da produção educacional, realizada em virtude das comemorações do primeiro
centenário da Independência.
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A quarta orientação, segundo a qual a obra de João Toledo estaria, em parte,
relacionada, são “[...] as mensageiras do novo modo de pensar e de realizar a tarefa que
compete às instituições escolares, pois refletem a visão especial com que deve ser tratada a
problemática educacional, tal como se formou graças ao movimento escolanovista” (Id., ibid.,
p. 270).
A polêmica a respeito da filiação de João Toledo ao ideário escolanovista ou
tradicional, segundo as acepções de Jorge Nagle e Fernando de Azevedo, respectivamente,
somente poderá ser diluída, como não poderia deixar de ser, com a consulta às próprias obras
do autor. Em primeiro lugar, no entanto, baseados em Bloch (1951) e Foulquié (1952),
destacaremos as principais características do movimento escolanovista.
Segundo Bloch (1951), a escola tradicional apresenta uma grande indiferença pela
vida da criança, pois separa o mundo dos interesses espontâneos do infante do mundo de suas
obrigações escolares. Com isso, os exercícios escolares e problemas ministrados pela escola
tradicional tornam-se artificiais e, essencialmente, estranhos aos problemas reais com que a
criança se depara em sua vida cotidiana.
Pedir assim ao educador que tenha por centro de gravidade a própria criança,
é nada menos que pedir-lhe realize uma verdadeira revolução, se é verdade
que até aqui, como vimos, o centro de gravidade sempre esteve fora dela. É
essa revolução – exigência fundamental do movimento de educação nova –
que Claparède compara à de Copérnico na astronomia (BLOCH, 1951, p. 37).
De acordo com Foulquié (1952), a escola tradicional faz dos alunos meros
ouvintes das lições do professor. A formação intelectual é puramente livresca. A escola ativa,
contrariamente, “[...] comporta grande porção de prática e a prática é ação. O próprio trabalho
escolar consiste menos em armazenar conhecimentos e em memorizar textos que em adquirir
experiência no ensaio de obras pessoais” (FOULQUIÉ, 1952, p.114).
João Toledo, corroborando a acepção de Jorge Nagle, sem dúvida, e apesar de não
ser considerado um dos baluartes do ideário escolanovista no Brasil, é um autor sintonizado
com o movimento renovador da educação. Senão vejamos. Toledo (1932) critica aquela que
talvez seja a característica principal da escola tradicional: a memorização.
O tempo desperdiçado com questiúnculas múltiplas, formalísticas, calcadas
sobre a memória, para uso remoto ou simples ornamento do espírito [...] em
história, a lista dos governadores geraes, com um rosário de datas [...] são
perfeitamente inuteis, sob o ponto de vista educativo ou utilitário (TOLEDO,
1932, p. 69).
Toledo (1932), seguindo um princípio escolanovista, também propõe a
aproximação das matérias de ensino com a prática e a vivência das crianças.
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Não se limite o professor a falar, perderá metade de seu esforço e de seu
tempo:- materialize, objective seus pensamentos. Os arranjos escolares, o
escotismo, as excursões, a observação da natureza, os hymnos, as dansas, os
jogos, o desenho, o trabalho manual, commentários a acontecimentos
palpitantes da época, são mil modos de objectivação interessante e attrahente
[...] (Id., ibid., p.83).
E, ainda exemplificando a importância da prática, João Toledo, de passagem, faz
uma crítica contundente ao professor tradicional. “Nas escolas de crianças, é tão feia heresia
preleccionar e não argüir – sem ter presente por qualquer fórma, o objeto a ser explicado –
que só isso basta para pôr a mostra a calva do mestre incapaz” (Id.,ibid., p. 226-7).
Nesse sentido, sugere a adoção de métodos ativos de ensino.
É indispensavel que se cante, que se danse, que se discurse, para vir a ser
um bom cantor, um bom dansarino, um bom orador. Tambem Payot
entende assim: ‘É preciso substituir, por toda parte, os méthodos passivos,
herdados dos jesuítas e que ainda dominam no ensino, por méthodos que
provoquem a actividade de espírito dos alumnos, que lhes desenvolvam o
poder de observação, o juízo, a faculdade de raciocinar’. Não é novo este
conceito. Coménius já affirmava.‘O trabalho intelectual não será
aproveitável á criança, se não for uma obra pessoal sua’. E Kant, com seu
gênio luminoso: ‘O melhor meio de se comprehender é fazer. O que se
aprende mais solidamente e o que melhor se retém é aquillo que, de um
modo ou de outro, se aprende por si mesmo’. E nós nos obstinaremos a
pensar pelos pequeninos? – talvez neste ponto esteja a causa actual da
pouca efficiencia educativa das escolas (Id.,ibid., p. 179)
João Toledo não se limita a defender idéias escolanovistas, como homem de ação,
define o papel do cargo de inspetor escolar perante a tarefa de transição da escola tradicional
para a escola nova.
[...] o mal, originado pelo velho ensino, rotineiro e livresco, das escolas
primárias e normaes, está sendo removido pela renovação lenta dos métodos e
pelo curso das complementares, mais especializado e eminentemente prático;
e, se a exigência e a aptidão técnica dos inspetores augmentarem um pouco,
elle diminuirá, por certo, com rapidez e segurança ( Id., ibid., p. 221).
No livro intitulado Didáctica, cuja primeira edição é de 1930, portanto, cinco anos
após a primeira edição de Escola Brasileira, João Toledo, enfaticamente, propõe a transição
almejada.
Não ouvimos de braços cruzados o clamor dos educadores modernos. Nosso
esforço, de ha muito, e em grande parte do paiz, iniciou a remodelação da
velha escola, abandonando ideias e práticas tradicionaes e tentando novos
rumos, para attingir a novas finalidades, impostas pelas condições da vida
actual (TOLEDO, 1930, p. 13).
João Toledo pelo fato de ser uma pessoa que vivenciava cotidianamente as
dificuldades de um professor dentro da sala de aula em nossas escolas públicas, conhecia os
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problemas que a efetiva concretização do ideário escolanovista ensejava. Somente o
conhecimento das condições reais em que as atividades de ensino estavam organizadas,
naquele período, podiam esclarecer os limites materiais concretos que pesavam sobre a
realização dos ideais renovadores.
[...] adapta-se ás condições do meio social, em que é ministrada: é uma
contingência á qual não póde fugir. Sem esta adaptação, que é sempre parcial,
qualquer plano e qualquer empenho fracassariam, por mais bellamente
arquitectado e por mais intenso que fossem (TOLEDO, 1932, p.15).
A preocupação com a falta de condições materiais, dificultando a concretização do
ideário escolanovista, não está circunscrita apenas a João Toledo. No livro de Fernando de
Azevedo A Educação na Encruzilhada, na verdade o resultado de um inquérito promovido
pelo jornal “O Estado de São Paulo” a respeito da situação do ensino paulista na primeira
metade da década de 1920, vários eminentes educadores deram os seus depoimentos. Nesse
momento, observamos que as preocupações de João Toledo também povoavam a mente de
outros educadores da sua época. Por exemplo, quando perguntados por Fernando de Azevedo,
responsável pelo inquérito, a respeito da viabilidade de resolver o problema da educação
popular através da utilização de grandes recursos modernos como o cinema e o rádio, dois
depoentes assim se manifestaram: o primeiro, A . Almeida Junior, “Tudo excelente, mas, ao
que parece, de realização longínqua, em escolas que carecem muitas vezes, de sala
apropriada, de mobiliário e de outras coisas mais urgentes e fundamentais” (AZEVEDO,
1960, p. 56) e o segundo, Renato Jardim, “Acho que são de grande valia os recursos a que
acima alude, mas pensar em uma larga utilização deles no ensino público, no estado atual de
coisas, é um sonho” (Id., ibid., p.66).
Todavia ainda em relação à filiação de João Toledo ao ideário escolanovista, como
bem destacou Nagle (1974), sua adesão é parcial. Em alguns momentos, podemos observar a
centralização do processo de ensino na figura do professor, característica central da escola
tradicional. “[...] o mestre é um estímulo vivo do trabalho escolar, um incentivo do
aprendizado, a alma do programma” (TOLEDO, 1932, p. 59). Seria a contra-revolução
copernicana em educação? João Toledo, em outra passagem, propõe uma conciliação entre
escola nova e escola tradicional.
Não é ainda relativamente velha a tendencia pedagógica para deslocar a
educação primária, apoiada outróra sobre o esforço da criança, e calcá-la no
seu interesse espontâneo ou em outro adquirido, que a habilidade do mestre
suscita e alimenta. Ganha terreno a doutrina, mais nas justificativas
theóricas que na prática escolar; e, porque empolgue o enthusiasmo de
muitos, convém prevenir possiveis excessos, lembrando que, se o interesse
é porta aberta á entrada, livre e rápida, de noções indispensaveis, o esforço
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tempéra a resistência mental do educando e cria, para elle, o poder de
controle sobre si mesmo. Provocar e desenvolver o primeiro, mas não
desprezar o segundo – é regra prudente que se offerece ao educador (Id.,
ibid., p. 58-9).
O entendimento dessa contradição não pode ficar restrita a alguma determinação
interna à obra de João Toledo. Qualquer movimento educacional é expressão, antes de tudo,
de movimentos sociais mais amplos. É necessário, portanto, situar essa questão no quadro
geral da sociedade daquele período. Nesse sentido, acreditamos que somente a matriz teóricometodológica baseada na concepção marxista da história como luta de classes, permite a
compreensão da forma como as relações do objeto de pesquisa – no caso a obra de João
Toledo – desvelam o combate que as forças sociais travam naquele momento histórico,
manifestada na forma como o objeto reflete esse antagonismo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nos próximos passos da nossa pesquisa, iremos procurar apreender como as
questões ideológicas da época se refletem na obra de João Toledo. Podemos perceber, por
enquanto, que a sua preocupação em adaptar a educação às condições concretas do nosso
meio denota um forte colorido nacionalista em seu pensamento “[...] por todos os cantos, onde
a immigração tem penetrado, núcleos de estrangeiros se têm formado, conservando-se alheios
aos interesses cívicos de nosso paiz” (Id., ibid., p.24). A educação, para ele, teria um
importante papel de difusão do sentimento de nacionalidade, colocando-a a serviço do
nacionalismo.
O nacionalismo em João Toledo, segundo ele próprio, “[...] tomando por guia
principal os trabalhos de Oliveira Vianna” (Id., ibid., p. 39), mais especificamente, pode ser
descrito como um nacional ruralismo, pois, freqüentemente, salienta a nossa “vocação”
agrária.
“Fomos e continuamos a ser um paiz agrícola. Resta distribuir as culturas
racionalmente pelas zonas mais apropriadas e instruir o lavrador na escolha
das sementes, no uso das máquinas e no emprego dos adubos. Um trabalho
intelligente faria deste immenso paiz um celleiro inesgotável” (id., ibid., p.
79).
O pensamento escolanovista de Fernando de Azevedo, por outro lado, identifica o
ruralismo, ou as bases agrárias da estrutura social brasileira, como uma das causas do atraso
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da sociedade brasileira. Reside, portanto, na visão de mundo subjacente ao pensamento
educacional o caráter polêmico da obra de João Toledo.
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11
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