ENTRE A LETRA E A VOZ: O ESPAÇO DO LEITOR NO CONTO DE
TRADIÇÃO ORAL
Mirtes Maria de Oliveira PORTELLA (PUCSP)
ISBN: 978-85-99680-05-6
REFERÊNCIA:
PORTELLA, Mirtes Maria de Oliveira. Entre a letra
e a voz: o espaço do leitor no conto de tradição oral.
In: CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS
LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007,
Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 749-760.
1. INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo principal analisar os modos de expressão e
percepção do conto Dom Anin sob o ponto de vista da Poética da Oralidade,
estabelecida por Paul Zumthor. Não obstante, para um melhor fundamento teórico,
utilizaremos um suporte conceitual que contempla outros estudiosos que,
principalmente, têm a perspectiva da literatura enquanto fenômeno integrado à
linguagem.
Quanto ao tema proposto, este trabalho representa uma oportunidade de reflexão
sobre uma narrativa de domínio coletivo, em linguagem que fala de prodígios e
encantamentos, com a característica de ser oralmente transmitida.
Dado que buscamos compreender o fenômeno da letra e da voz como princípios
relacionados, julgamos que o aparato teórico sob o ponto de vista de Zumthor se
apresenta como o mais adequado, por ele compreender o texto escrito e a oralidade, - ou
vocalidade, como ele prefere – advinda deste texto, como um conjunto de inter-relações
em movimento. Por meio dessa linha teórica tentaremos encontrar as possíveis respostas
para a questão suscitada: mantidos os prosaísmos da fala vocalizada pelo contador
popular, qual é o espaço de percepção do leitor do conto Dom Anin?
Quanto aos procedimentos metodológicos, faz-se necessário esclarecer que a
partir da reflexão teórica a respeito das narrativas de tradição oral e seus aspectos
característicos, procurou-se investigar o como a oralidade inscrita no texto assegura a
percepção e performance da voz no ato de leitura.
O texto do conto popular Dom Anin, utilizado neste trabalho, foi aquele narrado
por José Herculano da Rocha, recolhido por Francisco Assis de Souza Lima e editado
no livro Contos Populares Brasileiros: Ceará (2003).
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Transcrita e representada na forma escrita, esta narrativa mantém as
especificidades da literatura oral representada no texto, quais sejam, a fluidez da
linguagem e a expressão da voz viva, como reflexão sonora e experiência corporal (cf.
Merleau Ponty e Paul Zumthor) marcadas na página impressa, à espera de um leitor.
Um leitor, cujo corpo reflexionante perfaça na experiência da leitura a conexão com a
experiência emergencial da fala, o “enlace de som e motricidade, reversibilidade de
ambos e primeira reflexão, a voz conduz à fronteira misteriosa onde irão cruzar-se pela
primeira vez o mundo da expressão e a persuasão silenciosa do sensível” (CHAUI,
2007, p.28).
Todavia, a transposição do suporte midiático estabelece um distanciamento entre
as instâncias narrativa e autoral, não observado no suporte oral. De todo modo, o
narrador passa a ser essa voz que, representada na brancura da página, aspira a
concretude na interação com o leitor.
Um diferencial apresentado pelo referido corpus é manter o nível organizacional
da vocalidade expressa pelo narrador, quando da sua performance: o ritmo, a sintaxe, os
marcadores conversacionais, os prosaísmos. Na tentativa de não apagar a situação de
enunciação, buscou-se preservar na transposição do oral para o escrito, o discurso e a
pessoalidade do contador, resultando, assim, numa escrita portadora de hibridismo, cujo
traço mais comum é a presença de elementos associados à língua falada, característica
não muito apreciada pelas instituições de salvaguarda dos padrões formais da língua.
Mantendo os registros da vocalidade em que foi produzido, não abafando os
vestígios da voz do contador popular, cujo falar adentra o universo da escrita, o conto
Dom Anin é um texto que situa o leitor diante da possibilidade de performatizar, não
somente a plenitude da língua falada, mas também os recursos sonoros do contador que,
ao serem registrados, sugerem também o gestual que acompanha sua narração e
performance.
O contador de Dom Anin é uma figura localizada no tempo e local da narração,
mas sua voz, ao ser transportada para texto escrito, evidencia a linguagem que dá
conteúdo ao conto, facultando ao leitor a percepção da comunicação poética, princípio
determinante do literário que, segundo Paul Zumthor, caracteriza-se pela forma como é
recebido, em experiência poética pelo leitor e não somente como decodificação de
signos gráficos (ZUMTHOR, 2000, p. 91).
Como um instantâneo cultural apoiado na memória da tradição oral, às primeiras
palavras do contador é possível visualizar a instauração do momento popularmente
conhecido por “senta que lá vem história”: “Ela se chamava-se Ana e ela mesmo botou,
apelidou o nome dela por Dom Anin. Disse que era uma moça muito disposta e o velho
pai dela só tinha ela” (p.169).
Quem “disse” ao contador? Qual é a força que ele evoca, dando a impressão de
que não está sozinho? E para quem ele precisa demonstrar isto?
Como um fenômeno que remete aos mitos e representações culturais subjetivas,
no ato de contar histórias está implícito um sujeito às voltas com todo um sistema de
comunicação, marcado pela coletividade humana (ZUMTHOR, 2001 p.32). Como que
condensadas na voz do contador, estaria toda uma gama de vozes ancestrais, nas quais,
ele busca amparo e endosso para o que vai ter seqüência, para a sua performance, ou
como diz Irene Machado,
O texto oral, concebido como voz cultural, é ato de palavra citada, em
que a voz poética é sobretudo memória. (...) A performance oral
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efetiva aquilo que o poeta viu e ouviu, rememora e improvisa com sua
voz, com seu corpo, com sua memória. O poema projeta uma espécie
de memória vocalizada, graças à qual a palavra se torna criação, não
de um indivíduo, mas de uma tradição sustentada pelo trânsito da voz
(MACHADO, 1993, p.3).
Note-se que, por tratar-se de um contador de contos de tradição oral, às voltas
com o público, do qual ele precisa conquistar atenção e credibilidade, é como um
mestre de cerimônias que ele procura alicerçar sua narrativa em dados plausíveis: “E
tinha umas guerras preparada aí – num sei se era em catorze, quando era – e o destino
dela dava pra pegar no cangaço que nem cabra home, viu?” (p.169).
Segundo Zumthor, a natureza discursiva da literatura, - excetuando talvez a
presença do sagrado - aspira à qualidade de rito, à medida que, como esse, constitui-se
de emergência, reiterabilidade e reconhecimento. Assim, é na linguagem vocalizada e
direcionada pelo contador à platéia, que temos a percepção de um cerimonial em
preparação inicial de performance. A poesia, como a performance, aspira à condição de
rito, à medida que, como esse, constitui-se de emergência, reiterabilidade e
reconhecimento, e como nas cerimônias ritualísticas, articula-se entre textos
identificados como tais, produtores assim identificados e público iniciado (ZUMTHOR,
2000, p. 54).
2. O LUGAR DO LEITOR
Imbuído dos procedimentos que lembram os tempos do mundo, quando contar
era um gesto espontâneo e natural, o contador transporta o leitor para seu espaço
próprio de ação. Agora são dois espaços que em ato de performance se interpenetram: o
do texto e o do leitor, um ponto de tensão que se instaura entre a escrita e a voz, fazendo
com que Dom Anin não seja somente um texto, mas todo o entorno e a presença da
língua que corporifica a Forma Poética, e, ao falar peculiar do contador fica difícil,
senão impossível, separar o texto escrito de sua voz:
E certo meu irmão, aí, se despediu dos pai e viajou, viajou. Quando
chegou na guerra, era fumaça de pólvora naquele meio de mundo,
passando por riba de gente morto, isso na carreira, aí, ela era muito
disposta, viu? Aí, danou bala pra cima também. Era pá!, o cabra
atirava nela, ela atirava no cabra, se abaixava, corria, mexia pr’aqui,
pr’acolá e lutou muito tempo nessas guerras (p.170).
Aos olhos leitores, o lugar do leitor não pode ser visto sob a perspectiva de uma
estratégia escritural, autoral, em função do leitor implícito, como postula a estética da
recepção, mas, a partir do ponto de vista de uma expressão verbal que se oferece
enquanto fala, como um recurso aproximativo dialogal. As entonações verbais e
variações dialetais do contador dão o tom dessa aproximação, muito comum num
processo conversacional.
Na conversação narrativa, o tempo de produção da fala é instantâneo e não
sujeito à correção, por isso, quando o contador alterna a transmutação da voz, dando
possibilidade de colocação para cada personagem, são os recursos estilísticos da fala do
sertanejo, - que não se deixam aprisionar pelas convenções da escrita - que dão o tom e
o ritmo narrativo. Gradativamente, o leitor é transportado para o aqui e agora do texto,
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vai pressentindo o corpo imaginário sendo criado, e se coloca em cena como
testemunha, projetando, assim, o próprio corpo como que participando do espetáculo
narrado, a partir do ato de leitura.
O texto transcrito se oferece como representação da voz do contador, conforme
Bakhtin, mas sob a perspectiva de Zumthor, é um texto que aspira à tridimensionalidade
corporal, posto que, é um texto que figura, vivifica e encena o que diz (DUARTE, 2006,
p.1), em contato com um leitor real. É para um leitor/expectador real que o contador se
volta, quando diz: “E certo meu irmão”; “Aí, se falaram e se apresentaram e se
abraçaram e lá vai, essas coisa... viu?; “- Isso era uma moça, viu?, num era rapaz, mas
tava em traje de home”.
Assim, é como expectador de um teatro vocal e gestual que o leitor se apropria
do objeto narrado, em ato de performance. Um objeto que se constrói seguindo os
registros de alterações fonéticas previstas pela ortofonia, mas sem se deixar conduzir
pela norma culta que estabelece a gramática, que adequa à substituição de pertim à
pronúncia correta de perto.
No entanto, isso não altera a apreensão do conteúdo discursivo pelo leitor, que,
quando lê “Mas minha fia, como é que você quer, se é um cangaceiro pra brigar? Como
é?” ou, “Mas minha filha, num dá não! Se você fosse rapaz, eu deixava você ir, mas
você é uma moça, num pode não! Lá não tem mulher brigando, só tem home!”, que
corresponde à fala que representa a argumentação contrária do pai à ida da filha à
guerra, o leitor dá-se conta de que, é consoante à fala popular, na variante caipira, que
se deve buscar o sentido do texto, e não de acordo com a ortoépia, que estuda a
pronúncia correta dos fonemas. Aliás, pode-se até objetivar o estudo da adequada
emissão das vogais, a nitidez de articulação das consoantes e a articulação de plurais
metafônicos, menos com intuito corretivo e mais no sentido de compreensão do falar
sertanejo. Posto que, naturalmente, é desse falar peculiar que se constitui a estrutura
discursiva que dá suporte à Forma Poética do conto em questão.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diz-se que quem ouve um conto, involuntariamente lembra ideais congênitos
impregnados, mas em latência, na alma e que isso explica o porquê de se gostar de
contar e ouvir histórias, seja qual for o nível intelectivo dos envolvidos. Dos contos
ouvidos aos sertanejos de sua infância, o estudioso de cultura popular, Câmara Cascudo
(1898-1986), afirma que foi o primeiro leite intelectual, por ele, bebido.
Independentemente, do índice de identificação por vezes estigmatizante da
língua, e, entendendo a literatura como um tipo de expressão da existência humana, o
conto Dom Anin, narrado por um cidadão do Crato, em 1980, é a manifestação vocal de
um fragmento dessa existência, que, em conteúdo, nada perde pelas alterações fonéticas
da linguagem coloquial popular do sertão. O fato de o narrador dizer véio em lugar de
velho, em nada avilta a compreensão da matéria narrativa.
Seguindo as orientações conceituais propostas, concluímos que, para fazer-se
obra poética, o texto em análise necessita do engajamento de um leitor real, na
percepção da matéria narrada em ato de leitura. Um leitor que, decodificando os signos
gráficos na superfície da página, seja também capaz de escutar o que lê. Essa dupla
função lhe possibilitará ocupar um espaço, cuja perspectiva lhe difunde e amplia os
domínios. Assim, sendo leitor e expectador, ele também será aquele capaz de além de
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ler e ouvir, projetar na imaginação as cenas narradas, descritas e dramatizadas da
história, atualizando com a sua, a performance do contador.
Finalmente, considerando-se que este trabalho tem por objetivo o estudo do
conto Dom Anin sob o ponto de vista da Poética da Oralidade, devemos entendê-lo
como uma pequena aplicação do instrumental oferecido para a compreensão dos
objetivos propostos.
REFERÊNCAIS
BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal, São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CASCUDO, Câmara. Literatura oral no Brasil, São Paulo: Global, 2006.
CHAUI, Marilena. Merleau-Ponty: o corpo reflexionante. In: Curso Cult
12/13/03/2007.
LIMA, Francisco Assis de Souza. (coord.) Dom Anin. In: Contos populares brasileiros:
Ceará. Recife: Massangana, 2003. p. 269-176.
MACHADO, Irene. Imagens da linguagem – da oralidade viva à oralidade escrita
no texto. In: Anais do Congresso da FILLM. Brasília, 1993.
MATOS, Gislayne Avelar Matos. A palavra que se ouve e a palavra que se vê. In: A
palavra do contador de histórias. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
OLIVEIRA, Maria Rosa Duarte de. O espaço de interlocução em Grande SertãoVeredas. In: Guimarães Rosa: 50 anos de Grande Sertão Veredas e Corpo de baile.
UNESP, Assis, 2006.
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: A “literatura” medieval. São Paulo: Companhia das
Letras, 2001.
______. Performance, recepção, leitura. São Paulo: Educ, 2000.
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ANEXO – Conto Dom Anin
Ela se chamava-se Ana e ela mesmo botou, apelidou o nome dela por Dom
Anin. Disse que era uma moça muito disposta e o velho pai dela só tinha ela. E tinha
umas guerra preparada aí – num sei se era em catorze, quando era – e o destino dela
dava pra pegar no cangaço que nem cabra home, viu?
Aí, um dia ela disse:
- Meu pai, se o senhor deixasse, comprasse uma arma pra mim, um rifle ou um
fuzil mode eu ir brigar nessas guerra que tão brigando... eu queria.
Aí, o veio disse:
- Mas minha filha, num dá não! Se você fosse um rapaz, eu deixava você ir, mas
você é uma moça, num pode não! Lá não tem mulher brigando, só tem home!
- Não, meu pai, mas se o senhor deixasse, eu ia.
- Não, minha filha, num vai não! Vai não!
Aí, ela pegou entristecer, imaginando, com vontade de fugir, mas tinha uma (...),
e foi, o veio escutou, disse:
- Minha véia, o que é que se faz com essa fia?
Aí, a véia disse:
- É cumprir o destino dela!
O veio disse:
- Num é possível!
Ela:
- É cumprir o destino dela.
Aí, um dia ela tornou a pedir. Aí, o véio disse:
- Mas minha fia, como é que você quer, se é um cangaceiro pra brigar? Como é?
- Eu vou dizer a meu pai como é que é. Nós vamo à loja, compra um terno de
uma mescla da boa e mando fazer uma blusa e uma calça do jeito de cangaceiro, uma
cartucheira e um fuzil e um chapéu de couro bem bom, com a aba virada pra trás todo
barrado, aí, fico parecendo com um home.
O velho disse:
- Não, mas ainda tem um porém. Um porém.
- Qual é o porém, meu pai?
- Ô minha fia, você deve saber sem eu explicar!
Aí, ela disse:
- Não, o senhor explique.
Aí, ela... ele foi e disse:
- O seio!
- Ora, isso eu boto um negócio aí e ataca tudo, tudo, tudo, num tem quem note!
Aí, o véio disse:
- Tá danado!
Ela deu todo jeitim do véio deixar.
- Pois é, minha fia, se a senhora quer cumprir seu destino... vai.
Aí, foram pra loja, comprou da mescla melhor que tinha, mandou o alfaiate fazer
a... o vestuário e as blusa de cangaceiro. – Eu morava em Paraíba e eu vi como era, viu?
Roupa bem-feita! – O certo é que ela se entonou-se... Era assim: um vestuário, chapéu
de couro, cartucheirão danado, cantil do lado – sabe o que é cantil? Carregar água pra
beber, viu? Coisinha de... de borracha.
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E certo meu irmão, aí, se despediu dos pai e viajou, viajou. Quando chegou na
guerra, era fumaça de pólvora naquele meio de mundo, passando por riba de gente
morto, isso na carreira, aí, ela era muito disposta, viu? Aí, danou bala pra cima também,
Era pá!, o cabra atirava nela, ela atirava no cabra, se abaixava, corria, mexia pr’aqui,
pr’acolá e lutou muito tempo nessas guerra.
Agora comiam assim: quando chegavam assim numa casa, que o pessoal corria,
o que tinha eles comia e assim foram vivendo um bocado de tempo.
Aí, quando ela já tava enjoada, matou o desrino de brigar nas luta, né? Aí, ela
tava assim num canto, lá vinha um rapaz. Um rapaz desconfiado. Aí, quando chegou:
- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Como foi que o senhor escapou, home? – o rapaz com ela, viu?
Ela disse:
- Eu me escapei bem. Que nem o senhor escapou. Como é? O senhor é que vem
pronto, como é que é isso?
Ele disse:
- Não, eu tô atrás de escapar! Eu vinha acolá na carreira, aí...
E Dom Anin:
- E eu também.
Aí, o rapaz perguntou:
- Como é que o senhor se chama?
Aí, ela disse:
- Me chamo Dom Anin.
Ela chamava-se Ana, mas botou o nome pra Dom Anin.
- E o senhor?
- Me chamo João.
Aí, se falaram e se apressaram e se abraçaram e lá vai, essas coisa... viu?
Aí, o João perguntou:
- Me diga uma coisa. E o senhor mora longe daqui?
Aí, Dom Anin morava perto, mas disse:
- Eu moro longe.
Aí, deu... deu assunto do lugar que morava. Aí, Dom Anin perguntou:
- E o senhor, onde mora?
Aí, João disse:
- Eu moro bem pertim daqui e eu num tenho pai nem irmão nem m... só tenho
mãe, uma mãe véia. Vamo lá pra casa?
Aí, Dom Anin disse:
- Vamo. – Isso era uma moça, viu?, num era rapaz, mas tava em traje de home. –
Vamo!
Aí, o home seguiu mais Dom Anin pra casa dele. Quando chegou lá, a véia
abraçou o filho João, pensava que tinha morrido nas guerra:
- Ô, meu filho, como se foi, tu escapou? Graças a bom Deus, o Coração de Jesus,
(...) – tudo.
E abraçou o filho. E Dom Anin espiando.
- Ô, meu filho, e esse companheiro, te acompanhou? Donde é ele?
Aí, João disse:
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- Mãe, esse rapaz é de longe, foi que ele só vinha mais eu, com esse rapaz, nós
se demo a conhecer, ele mora muito longe daqui, e eu moro mais perto, chamei ele pra
ficar uns dois ou três dias mais a gente, uma fuga enquanto ele vai embora pra casa dele.
Aí, ela falou pra ele... Aí, quando a véia falou pra Dom Anin, já foi conhecendo.
Aí:
- Meu fio, vem cá! – ele voltou pra dentro. Aí, a véia disse: - Ô meu fio, e aquele
rapaz (...) Me diga uma coisa, parece que é uma moça!
A véia, viu? Aí, o home disse:
- E minha mãe já tá caducando? Minha mãe já tá caducando. Que um rapaz que
vive com um armamento daquele, brigando! Minha mãe tá comparando com uma
moça? É não, mãe!
- Meu filho! Hum... hum!...
Aí, Dom Anin volta pra fora, aí... Dom Anin comprou um poldo... o anjo da
guarda dele. Comprou não, apareceu um poldim pra Dom Anin. Toda bem cedo, toda
meio-dia, toda tardinha, Dom Anin tinha que ir pro brejo mudar o poldo. O poldo dando
todo assunto a ele.
Aí, o poldim disse:
- Dom Anin, você tenha cuidado que aquela véia tá descobrindo muita coisa. Ela
hoje vai usar uma experiência pra ver se você é moça ou se não é. Se é home. E tenha
cuidado!
Aí, o poldo ensinou pra ele fazer. Aí, quando chegou em casa, aí, João disse:
- Ô, Dom Anin, essa roupa tá um pouco véia, vamo pra loja comprar umas
fazenda?
Aí, ele disse:
- Vamo.
Aí, a véia disse:
- João, você preste atenção em que roupa ele se agrada. Se ele se engraçar só de
roupa que for pra muié, é muié! Se for só roupa pra home, é home!
Aí, o poldim ensinou a Dom Anin o que é pra fazer, e a véia ensinou o filho. Aí
foram na loja, aí, Dom Anin disse:
- Ô João, mas aquele chapeuzão pra nós (...) assenta bem...
Aí, João disse:
- Mas Dom Anin, essa fazenda pra mode nós fazer um vestido...
- Nda, que (...) nada! Bom é aquele terno acolá pra nós, é que assenta, home!
Só se engraçava novidade pra home. Aí, João fez as comprinha, ele também fez,
vieram pra casa. Chegou lá a véia foi logo:
- Meu filho, como se foi?
- Fui bem, minha mãe. Nesse caso, quem é muié sou eu! Porque eu só me
engraçava vestuário tudo pra muié, e ele só coisa pra home.
Aí, a véia disse:
- Meu filho, eu não tô acreditando! Ali é uma moça!
- É não, minha mãe! Minha mãe ta cadu... É não, minha mãe!
- Tá certo, meu filho, certo. Meu filho, vamos usar outra experiência.
Aí, Dom Anin correu pra mudar o poldo. Quando chegou lá, o poldo ensinou
como é que era pra ele fazer. Aí, a véia:
- Meu filho, eu vou assar uma carne de porco bem engordurada, e pra você ir
fazer aqui um lanche, antes do almoço. Eu boto a carne no espeto, quando ela tiver
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correndo aquela gordura, eu levo pra mesa, e você chame Dom Anin e mande ele partir
a carne. Que se ele partir e lamber os dedo, é muié (Risos). E se num lamber, é home.
Aí, a véia assou a carne, só que botava a carne ali quando ele chegasse. Aí:
- Chega meu filho, venha cá mais o rapaz.
Aí, quando sentaram ali, a véia veio com a carne chiii!, descendo a gordura. Aí,
botou ali na cuia da farinha, aí, o João disse:
- Parta, Dom Anin.
Aí, Dom Anin só fez, lá na farinha, (...), com uma vontade de molhar a boca,
mas num podia, né? Tava ensinado. Aí, aprtiram a carne e comeram. A véia lá pra
dentro escutando. Quando acabou:
- Ô, mãe, já acabemo. Traz o café.
Tomaram café.
- Meu fio, como se foi?
- Minha mãe, só quem lambeu os dedo fui eu. Dom Anin num lambeu os dedo
de jeito nenhum. Será que minha mãe tá enganada? Será que quem é muié é eu?
Aí, a véia:
- Num tem nada com o peixe, mas ali é uma moça. Mas, meu filho, se fosse uma
moça, pra tu casar com ela, eita moça bonita!
De fato, era uma moça... Eu ainda vi ela, viu? Bonita, bonita mesmo! Olha, aí...
e João disse:
- Eh, mãe! É o quê? É nada!
- Tá certo.
Quando foi outro dia, a véia caçou todos meio pra descobrir. Era no tempo da
seca, tava fazendo calor... Aí, a véia disse:
- Ô João, vamo fazer outra arrumação pra ver se a gente descobre.
Tinha uns pé de flor em riba da casa, (...) uma flor encarnada, outras branca...
- Tu chama Dom Anin pra dormir de noite, aqui nesses pé de flor, arma uma
rede pra vocês, vocês se balança, canta uma moda, uma coisa... Quando vocês dormirem
lá, se quando o dia amanhecer, se a rede dele tiver cheia de flor encarnada, é home. Se
for flor branca, é muié.
Aí, Dom Anin correu, foi mudar o poldo. Lá o poldo avisou como é que fazia:
- João... Dom Anin, tu não dorme, cuidado!
Aí, João:
- Dom Anin, vamos... um calor danado, vamo armar uma rede ali, debaixo dos
pés de arvoredo ali pra nós dormir?
- Vamo.
Pra tudo donde João chamava, Dom Anin ia.
- Vamo!
Armaram a redona, aí, se deitaram, se balançaram, cantaram moda, essas coisa, o
quê. Aí, João agarrou no sono, e Dom Anin acordado. Quando vinha um ventim... xiii!,
a rede de Dom Anin se enchia de flor branca e a... aí, ele tirando as flor... E a de João,
flor encarnada. Aí, Dom Anin tirava as flor da rede dele e botava na rede de João, tirava
as de João, botava na rede dele. E nisso ele levou a noite todinha. Quando João se
estremecia na rede, aí, Dom Anin saía... Roonc! Roonc! Quando João agarrava no sono,
Dom Anin cuidava, até quando (...). Quando foi bem cedinho, que João se levantou-se,
a rede dele tava cheia de flor branca, e a de Dom Anin só tinha flor encarnada, chega
tava aquele cordão (...).
Aí, a mãe de João:
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- Que foi, meu filho?
- Nesse caso quem é muié sou eu, que aí só tem flor branca, pura, pura! Num
tem encarnada. Em Dom Anin só tem flor encarnada, num tenho nda com isso!
- Mas é muié!
É e num é, aquela teima da... da véia mais o filho, teimando! Aí, Dom Anin por
ali...
- Rapaz, eu vou embora. Já gozei muito... mas ainda vou esperar alguma coisa
aí...
Quando foi outro dia, aí, a véia disse:
- João, só tem um meio pra nós descobrir agora. Fora esse num tem outro. –
Bicho danado é véia né?
- (...) vocês chegaram, não tomaram banho, chame Dom Anin para o banho.
Aí, danou-se, não? Aí, danou-se! Mas teve...
- Aí, foi descoberto!
- Foi não, foi o quê! Não, teve jeito.
Aí, João disse:
- Dom Anin, nós num tomemo... vamos tomar um banho naqueles poço.
- Vamo.
Aí, Dom Anin amarrou o poldim bem no beicim do poço (...). Aí, o poldim
disse:
- Dom Anin, você hoje vai cuidar pra tomar banho nesse poço, vem um bocado
de gente, e a véia que atrás de descobrir alguma coisa. Você me amarre aqui num jeito,
quando João chegar, que ele for tirando a roupa, você faça que vai tirando também, que
quando eu ver que tá no ponto de tirar, aí eu faço aquele... me enlinho aqui, eu mesmo
me enlinho aqui e faço aquele zoada e aí, você se acocora, esquenta o corpo, num toma
mais não!
- É mesmo! Tá certo.
Aí, chegou em casa, João:
- Vamo tomar banho?
- Vamo!
Foram. Saíram com a rapaziada, aquela água de poço. Eles dois, dois rapaz mais
ou meno, né?, ficaram ali de cócoras, esfriando o corpo. Isso num era uma roupa nem
duas não, era bem três roupa, tudo atacado, tudo bem atacado. – Avalie Dom Anin
como tava todo atacado, hein? – Capa por riba de capa e capa e tal.
Aí, os outro tiraram a roupa e jogaram tudo (...) e tchibum! (...) Dom Anin mais
João escutando. Aí, João disse:
- Dom Anin , nós já esfriemo o corpo?
- Já, já.
Aí, Dom Anin foi logo desabotoando o blusão de cima... – João – aí, quando
desabotoou a blusa pra tirar, aí, tirou a ... a camisa de João. E Dom Anin foi começando
desabotoar a de baixo até, quando foi começando a desabotoar, meu irmão, o poldo fez
uma zoada tão grande! Aí, quem tava dentro do poço saiu nu e João acabou de abotoar a
camisa e Dom Anin correu do jeito que tava, aí, o bichim tava... com a corda já
morrendo enforcado. Aí, disse:
- Ô, ia perdendo meu cavalo! Ô... mas... mas rapaz! Ah, João, (...) o sangue
agora, eu to com o sangue quente num vou tomar mais banho não...
João disse:
- E eu também não posso não. Também não posso não!
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Foram pra casa. Aí, a véia:
- Como se foi, meu filho?
- Fui bem.
- Tomaram banho?
- Não, senhora.
- Óie, num tô dizendo! É moça!
- Mas mãe, num teve banho por isso, isso e isso.
Aí, contou tudo, aí, ela disse:
- Ainda tem um negócio pra eu descobrir ainda. Tem um negócio pra eu
descobrir. Aí, disse:
- Você chame Dom Anin pra passar três dia com três noite escrevendo debaixo
daquele arvoredo. Eu levo almoço, levo janta, levo café, merenda, tudo pra vocês. Se ele
cochilar primeiro, é mulher, e se não cochilar, é homem.
Aí, Dom Anin... João disse:
- Mas mãe, isso é uma perversidade!
- Não! Agora... agora eu quero saber disso!
Aí, João disse:
- Ô Dom Anin, vamo ver quem agüenta mais sono?
Dom Anin disse:
- Vamo.
Aí, arrumaram as rede, mais um bocado de papel e tinta, lápis, essas coisa, foram
escrever... Na primeira noite João já cochilou. Pouquinho, mas cochilou e Dom Anin de
olho bugaiado. No outro dia a velha veio, e lá vai, lá vai... quando foi nos dois dia, João
já tava bêbado de sono, e Dom Anin de olho bugaiado. Quando foi pra inteirar três
noitecom três dia, João tomou um cochilo tão grande que caiu, ficou lá, morto. E Dom
Anin morrendo de sono, mas não dormiu de jeito nenhum.
Aí, quando Dom Anin disse:
- João! João! – ela nada.
Ora, antes do dia amanhecer, Dom Anin fez uma carta bem-feita, bem notada,
dizendo quem era, quem não era, donde era, donde num era, aí, deixou tudo em cima
dos papéis tudo.
Aí, o povo disse: - Dom Anin acaba de ir s’embora.
Aí, Dom Anin foi até o poldo, o poldo tinha se sumido! – era o anjo da guarda
dele, que era pra (..) ele.
Aí, quando João se levandou-se, que ela veio trazer a merenda com café: - Dom
Anin cadê... João, cadê teu companheiro?
- Dom Anin?
Nada, nada! Foi mudar o poldo. Chega lá, nem poldo nem Dom Anin nem
ninguém, viu? Aí, ele:
- Ôxente, cadê Dom Anin? O que é que houve? Cadê, cadê?
Caçou e nada, nada, nada. Aí, correu água dos óio com pena do camarada, fazia
dia que tavam junto, né? E certo que foram juntar os papéis, aí, achou que Dom Anin
deixou quem era, quem num era, pai, mãe, donde era, donde num era! Aí, que João
ajuntou os papéis, disse:
- Eita, minha mãe! É uma moça mesmo!
- Eu num te disse, malvado! Tava de bem te forçar pra tu ir atrás dela! Eu bem
que dizia que aquilo era uma moça. É uma moça, tá vendo?!
- Mas minha mãe!
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Aí, João pegou a chorar com desgosto, com pena, essas coisa, (...), lá vai. Aí,
ficou.
Aí, Dom Anin viajou, rapaz, quando chegou em casa, foi uma festa tão grande,
tinha música, tinha sanfona, mas tinha tudo, viu? Foi uma festa tão boa, que levaram
uma garrafa de pinga, só deu pra eu, de tão alegre eu fiquei. Foi, comi um doce e (...) a
cana, e entrou por uma de pinto e uma de pato, rei meu senhor disse que eu contasse
quatro.
José Herculano da Rocha. 02/1980
Recolhido: Francisco Assis de Sousa Lima
AT 514+884
Poldo – sm. – Filhote de cavalo, o mesmo que poldro ou potro
Olho bugaiado – pop. - Olhos esbugalhados, semi abertos
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entre a letra e a voz: o espaço do leitor no conto de tradição oral