Leo Avessa
João Miguel
A cara do cinema independente
Por Belisa Figueiró
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Este ano promete ser um dos melhores na carreira de João Miguel, o ator que despontou para o cinema no filme “Cinema, Aspirinas e
Urubus”, em 2005, ganhando prêmios em festivais no Brasil e no exterior.
Desde então, vem dando uma nova cara ao cinema brasileiro independente. Além de protagonizar “Estômago”, um filme que se sustenta em
sua performance, estreará em mais três, totalizando 10 longas em muito
pouco tempo.
João Miguel tem um jeito muito brasileiro e, apesar de alguns papéis
explorarem a sua vertente nordestina, é um ator completo para qualquer
tipo de papel. E isso é fruto de sua experiência por longos anos no teatro,
em Salvador, onde escreveu e encenou “Bispo”, sucesso que garantiu o
fôlego da peça por nove anos, até a migração para o cinema. Na televisão, brilhou em um dos melhores episódios da série “Carandiru”, exibida
pela Rede Globo em 2005.
A virada na carreira e na vida obrigou o baiano a trocar Salvador
por São Paulo, mas ele continuou ligado ao grupo de diretores e atores
que estão mudando a cara do novo cinema brasileiro. Além de trabalhar
com Marcelo Gomes, em “Aspirinas”, atuou nos filmes do também baiano Sérgio Machado, “Cidade Baixa”; com Karim Aïnouz, em um papel de
destaque, no filme “O Céu de Suely”; e com Paulo Caldas, em “Deserto
Feliz”. Está nos filmes ainda inéditos de Suzana Amaral, “Hotel Atlântico”;
Pola Ribeiro, “O Jardim das Folhas Sagradas”; e José Eduardo Belmonte,
“Se Nada mais Der Certo”.
O ator tem entrado na televisão em produtos especiais, como a série
do “Fantástico”, “Te Quiero América” – que o levou a viajar por toda a
América Latina. É rigoroso também com os papéis que escolhe, ao ponto
de abrir mão de uma participação no filme “Tropa de Elite” para protagonizar “Estômago”, um filme mais próximo do seu gosto humanista de atuar.
lembro da entrevista inteira, só de uma parte em que eu falei: “Glauber,
eu vou te perguntar uma pergunta.” E ele falou: “Então, eu vou te responder uma resposta.” Aí eu disse: “Ih, rapaz! Acho que eu fiz alguma coisa
errada!” E ele: “Está tudo ceeeeerto!” Hoje eu não lembro nem qual foi a
pergunta e nem a resposta.
Revista de CINEMA – Como você começou no teatro, na Bahia?
João Miguel – Eu venho de uma geração de pessoas que foram envolvidas com teatro, quando a Bahia teve uma escola muito representativa para o Brasil. Dali saíram várias pessoas de cinema. O primeiro
espetáculo que eu fiz foi com 9 anos e, a partir disso, sempre fiz teatro.
Dos 14 aos 17 anos, participei de um grupo na Bahia ligado às escolas,
percorria o Estado inteiro. Aos 18, eu fui para o Rio de Janeiro, onde
estudei teatro na Casa das Artes de Laranjeiras [CAL]. Depois comecei
um trabalho com o Luiz Carlos Vasconcellos, que era um projeto de palhaços nas ruas, nas escolas, nos hospitais. Para mim, é muito significativa essa formação de palhaço. Quando eu terminei a CAL, já tinha 23
anos e voltei para a Bahia, onde dei aulas de palhaço para meninos de
rua, em Salvador. Nessa época, também criei uma hérnia de disco em
função de tanto trabalho e resolvi avaliar algumas coisas. Fui palhaço
do circo Picolino durante dois anos e também participei do Projeto Axé,
com meninos de rua. Depois passei um período na Paraíba, onde eu
também dava aulas. Lá criamos um laboratório de um espetáculo que
deu origem ao “Bispo”. O palhaço me levou para uma interação mais
social, de trabalhar nas associações das comunidades de bairros, de
se apresentar em hospitais, praças. Isso tem muito a ver com a minha
formação, esse despojamento, essa desconstrução. Eu sou um ator investigativo, de fazer pesquisa mesmo.
“O palhaço me levou para uma interação mais social, de
trabalhar nas comunidades. Isso tem muito a ver com a
Leo Avessa
minha formação, esse despojamento, essa desconstrução.
Sou um ator investigativo, de fazer pesquisa mesmo”
Nesta entrevista exclusiva, João Miguel fala das possibilidades de
começar uma carreira no exterior com o filme português “Antes do Amanhã”, de Sérgio Tréfaut; da sua futura participação em “Quincas Berro
D’Água”, de Sérgio Machado; e também dos seus planos para se tornar
diretor de cinema.
Revista de CINEMA – Você começou a ser ator ainda criança, inclusive participou de um programa de televisão com Glauber Rocha, aos 9
anos de idade, não é? Poderia contar sobre essa experiência?
João Miguel – Foi com 10 anos, na verdade. Eu era vizinho de uma
atriz baiana que era amiga de um cara chamado Nonato Freire. Ele resolveu fazer um programa de televisão no qual crianças apresentavam os
programas, apareciam como repórteres. Eu já tinha feito um espetáculo
de teatro e acho que as pessoas achavam que eu era expressivo, tinha
um mundo próprio de brincadeiras, de jogos. Aí o Nonato me chamou
para fazer esse programa com outras crianças, nós criávamos as matérias e, numa dessas entrevistas, apareceu o Glauber Rocha. Eu não me
Revista de CINEMA – E
como você chegou ao cinema?
João Miguel – Teve um
período da minha vida que
eu escrevi dois programas de
televisão e acho que foi isso
que me levou para o audiovisual de um jeito muito curioso.
Eu imaginava e visualizava os
programas a partir do que eu
tinha escrito e acho que ali
já começava esse desejo secreto de fazer cinema.
Revista de CINEMA – Então, além de ator, você também foi se desenvolvendo como roteirista, dramaturgo?
João Miguel – De alguma maneira sim, pela própria coisa de acreditar e de respeitar muito a tradição do teatro, mas também de procurar
as respostas e as perguntas ligadas ao hoje. O palhaço me dá essa possibilidade de não só atuar, mas de dialogar com as artes plásticas e com
a literatura. Essas coisas todas estão dentro de um caldeirão que você,
às vezes, nem sabe direito o que é, mas se traduz em espetáculos como
o “Bispo”, que foi um divisor de águas na minha carreira. Escrevi essa
peça a partir de um texto de Edgard Navarro, nós dois co-dirigimos e
eu convivi com esse espetáculo durante nove anos. Foi uma espécie de
arauto da minha profissão.
Revista de CINEMA – Você sempre esteve ligado ao teatro, nunca
trabalhou em outra área, nunca fez nada paralelo?
João Miguel – A minha vida inteira foi ligada ao teatro. Sempre desejei fazer outras coisas, mas nunca me imaginei. Queria escrever mais e
hoje eu tento me permitir. Tento escrever roteiro para cinema, por exemRevista de Cinema 17
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plo. Já pensei também em abrir um restaurante de comida baiana. Mas
eu venho de uma cidade – acho importante falar disso – que é muito viva
em todos os sentidos, muito sexual, muito latente nas ruas, e isso tem
muito a ver com a minha formação. Eu sou ao mesmo tempo recluso e
preciso dessa movimentação da realidade, para entender o que está
filme depois do “Aspirinas”, que foi “Estômago”. E acho que, junto comigo, tem um monte de gente fazendo coisas interessantes, como Júlio
Andrade [“Cão sem Dono”] e Rosane Mulholland [“Falsa Loura”].
Revista de CINEMA – Mas você sente uma pressão, uma tendência
de as pessoas falarem que “o João Miguel está
dominando o mercado”?
João Miguel – Não, pelo contrário. Eu até
dou risada. Porque eu não acho isso. O único
mercado do ator hoje é a televisão. Quando a
gente fala de outros mercados, muitas confusões se criam. Eu fico superfeliz de ter um reconhecimento do cinema. Da mesma maneira
que eu sou obsessivo com o teatro, me dedico,
e quero me entregar ao máximo, também está
acontecendo com o cinema de uma maneira
natural, a partir de encontros com diretores. Eu
acredito no coletivo do cinema para criar. O cinema é muito do seu inconsciente, ele te toca
“Essa catalogação [papel de nordestino] ocorre
porque no Brasil tem essa tendência. Mas eu
não posso ficar pensando nisso. Também tenho
interesse de falar do universo urbano”
acontecendo ao meu redor. Ser criado em Salvador me fez muito observador, interessado por gente. O meu ofício, hoje, diz respeito muito a um
teatro e a um cinema humanistas, no sentido de que o que interessa é o
homem, mas claro que num contexto social. Os personagens pelos quais
eu me apaixono são homens comuns, que são excêntricos. Isso me levou
ao sertão, me levou a conhecer o meu País a partir dessa peculiaridade
do humano.
Revista de CINEMA – Principalmente esse homem do interior, não é?
João Miguel – Eu acho que são homens dos seus interiores, que podem estar em qualquer lugar. Eu vejo isso aqui, em São Paulo, também,
que tem essa riqueza humana na cidade grande, no caos. Acho que é
dialogar com o seu tempo também, não é uma coisa tão segmentada
ou direcionada. Eu sou fruto de um outro tempo. O próprio Ranulpho
– que eu trago no “Cinema, Aspirinas e Urubus” – é um personagem
encantador porque ele não é o sertanejo submisso, não é uma caricatura do sertão. Eu falo do Ranulpho como se estivesse falando hoje,
mesmo que a história seja de 50 anos atrás. Isso me interessa: discutir
poeticamente a realidade que a gente vive hoje. O cinema traz essa
possibilidade de mostrar os Brasis a partir da ótica poética de cada diretor. Quando eu estou fazendo um filme, me sinto representando esse
olhar do diretor, mas também colocando a minha poesia, o meu olhar.
Atuar, para mim, é uma maneira de ter voz num tempo em que tudo está
muito catalogado.
Revista de CINEMA – Dessa geração de grupos teatrais baianos que
você citou, também vieram para o Rio de Janeiro e São Paulo os atores
Lázaro Ramos e Wagner Moura. Vocês chegaram a trabalhar juntos?
João Miguel – Eu vim sozinho, com o espetáculo “Bispo”. Com o
Lázaro, cruzei na peça “A Casa Fechada”, dirigida por Márcio Meirelles.
Ele tinha 16 anos e eu já era um pouco mais velho. O Wagner é uma pessoa com quem eu sempre cruzo. Para o ano que vem, temos um projeto
de filme com o Sérgio Machado que é o “Quincas Berro D’Água”, uma
adaptação do livro “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, de
Jorge Amado. Para mim, esse é o melhor livro do Jorge Amado, que fala
da morte, da classe média baiana. Nós todos estamos loucos para nos
encontrar. Como eles ficam no Rio, a gente se fala mais é por telefone
mesmo. E eu admiro muito essa geração, porque são atores que trazem
essa atitude acima da catalogação de que “estão fazendo tudo”. Às vezes, você ouve uma coisa dessas. Eu sou super-rigoroso com os projetos
que eu escolho, basicamente os de baixo orçamento. Só protagonizei um
Em “Estômago”, filmado em Curitiba, João Miguel teve o seu papel de protagonista
muito mais. Para mim, é fascinante essa possibilidade de construir junto
com o diretor e a equipe. Os filmes que eu tenho topado fazer são nessa
linha, são filmes de risco.
Revista de CINEMA – Inclusive em diversos dos seus papéis no cinema, você tem aparecido na pele de um nordestino. Não tem medo de
ficar marcado como um ator monotemático?
João Miguel – Ao mesmo tempo em que eu tenho esse universo de
ter um sertão dentro de mim, eu sou um homem hiperurbano. Inclusive,
acabei de fazer o filme do José Eduardo Belmonte, “Se Nada mais Der
Certo”. Eu escolho os personagens que me dizem alguma coisa, que me
apaixonam, independentemente de onde que ele é. Essa catalogação
e esse risco ocorrem porque o Brasil tem essa tendência a catalogar
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o que me instiga no cinema é esse abismo. Eu tenho uma tendência
ao abismo, eu me jogo. Preciso de um processo investigativo que me
alimente. Para isso, procuro estar sempre nas ruas. Isso me dá muito
alimento para construir meus personagens.
Lenise Pinheiro
O espetáculo “Bispo”,
encenado por nove anos,
é o arauto da carreira de
João Miguel
Revista de CINEMA – E como você criou os seus personagens nos
filmes “Mutum” e “Estômago”?
João Miguel – Eu resolvi fazer o papel do pai em “Mutum” [longametragem de Sandra Kogut que ganhou o prêmio de melhor filme no Festival do Rio, em 2007], e a localização ali é muito importante, no sertão.
Mas a geografia está dentro de um contexto humano. Aquele pai que não
consegue amar, não consegue revelar o sentimento dele, que é duro. Em
“Estômago”, foi outro caminho. Me interessou a coluna vertebral daquele
roteiro, que fala de poder, de sexo, de comida. Às vezes, nesse turbilhão
de hoje, a gente absorve coisas que não são nossas. Acho que o Brasil
ainda tem muito essa tendência de que o que vem de fora é bacana e aqui
dentro a gente se mata. Acho que o filme fala um pouco disso.
as coisas. Mas eu não posso ficar pensando nisso. É óbvio que, como
nordestino, esse universo me pertence e eu tenho interesse de falar
disso, como eu tenho também interesse de falar do universo urbano,
que também me pertence. Eu fui criado numa cidade grande e moro
há cinco anos em São Paulo, uma cidade que tem o mundo todo dentro
dela, uma cidade de imigrantes. Tenho vontade também de falar sobre
Revista de CINEMA – E, nesses processos todos, você trabalhou
com diretores bem diferentes. A Suzana Amaral, por exemplo, já falou
que não dá o roteiro de cara para os atores. Como foi o trabalho nesse
último filme dela, “Hotel Atlântico”?
João Miguel – Tivemos um processo parecido com o que eu estava
falando, mas não de uma maneira dogmática. Num certo momento, o roteiro chegava até nós. O que
importava era o que a gente
estava construindo. Nós lemos o livro, depois estudamos o roteiro, mas sabendo
que não era a versão final.
Não nos prendemos às falas,
apenas à estrutura. Ficamos
alguns dias na chácara da
Suzana, só nós, construindo
as cenas a partir daquele
esboço. E mesmo durante as
cenas, a liberdade existia de
uma maneira muito honesta.
Eu faço um enfermeiro, na
passagem final do filme. Posso dizer que foi uma das experiências mais produtivas que eu tive como
ator no cinema. A Suzana me viu no “Aspirinas” e enxergou algum jeito
de eu fazer que interessava para ela. Nos seus filmes, ela constrói a partir
do que o ator dá. Depende muito das ações físicas. Ela faz as cenas a
partir do que a gente propõe para ela. Você sente a diretora sem medo
do ator. Ela tem ousadia, desprendimento para contar uma história nãolinear. Estou muito curioso para ver esse filme.
“Fui convidado [para ‘Tropa de Elite’], mas acabou não
acontecendo. Tive um problema de datas. Na época,
fui convidado para fazer o ‘Estômago’. Exercitar um
protagonista, naquele momento, seria melhor”
a classe média brasileira, como os argentinos falam de uma maneira
mais contundente.
Revista de CINEMA – Quais são os personagens que você ainda
gostaria de fazer?
João Miguel – Eu sempre procuro personagens que estejam vivos,
que possam dizer alguma coisa para mim e dialogar com o tempo em
que eu vivo. O personagem do Quincas me interessa muito, porque fala
de sobreviventes e de amizade numa época na Bahia em que os preconceitos eram muito fortes, como ainda são. Eu tenho vontade também
de falar sobre as ditaduras no País, que não seja de forma emblemática,
nem levantando bandeira, mas dialogando com coisas históricas que
aconteceram, que a gente possa repensar. Para mim, criar um personagem é um risco. Eu não tenho uma fórmula, vai sendo criado a partir desse coletivo, do olhar do diretor. Pode ter uma base técnica, mas
Revista de CINEMA – Como foi com os demais diretores?
João Miguel – Eu tenho um carinho muito grande por todos eles, que
ficaram meus amigos. Marcelo Gomes, Karim Aïnouz, Paulo Caldas, Sérgio Machado. Cada um tem a sua trajetória, são diretores que eu respeito
muito, são apaixonados por cinema e estão buscando o seu cinema. Isso
tudo me faz pensar: será que um dia eu também não deveria exercitar a
direção? Hoje eu penso nisso, mas não numa maneira de “eu vou ser diRevista de Cinema 19
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retor”. Mas por ser apaixonado pelo meu ofício e por aquilo me levar a ter
curiosidade de realizar poeticamente. Eu trago muito o meu olhar quando
estou fazendo e, às vezes, eu penso se eu não deveria também brincar
de direcionar o olhar e contar uma história a partir daí. Com o Marcelo,
por exemplo, a gente fez o “Aspirinas”, que foi o nosso primeiro filme e o
da maioria da equipe também. Aquilo trazia um tesão de fazer, mas sem
saber o que ia dar depois. Foi maravilhoso ver o Marcelo orquestrar a
linguagem de cada um sem ter medo, por não ter nada a perder. Tudo
poderia ser arriscado. Eu tenho uma cumplicidade muito grande com ele
e com o filme, que ficou maior do que a gente. Nós discutimos muito,
até hoje, sobre cinema. Com o Sérgio, a mesma coisa. Nos conhecemos
há 20 anos, desde os tempos de escola, na Bahia. Fizemos teatro juntos.
Não é por acaso que vamos fazer esse filme do “Quincas”, que fala de
amizade. Com o Karim, eu tenho uma identificação muito grande, esse
olhar de cinema. Ele é um grande artista plástico, um grande fotógrafo.
época, eu também fui convidado para fazer “Estômago” e achei mais interessante fazer um filme de baixo orçamento, em Curitiba. Fiquei curioso
pela história, e exercitar um protagonista, naquele momento, seria melhor do que fazer um personagem menor. Foi uma opção minha.
Revista de CINEMA – Alguns dos filmes que você fez foram exibidos
em festivais internacionais. Você já recebeu alguma proposta para trabalhar no exterior?
João Miguel – Sim, talvez eu faça um filme em Portugal, com a atriz
Maria de Medeiros, chamado “Antes do Amanhã”. Meu papel é o de um
jornalista brasileiro. Vai ser filmado na França e no Brasil. Ainda não está
totalmente confirmado, porque cinema a gente nunca sabe. Mas, se der
tudo certo, vai ser o primeiro longa de ficção de Sérgio Tréfaut.
Revista de CINEMA – E no Brasil, com quais diretores você gostaria
de trabalhar e quais são os seus próximos projetos?
João Miguel – Com o Karim, eu gostaria que a
gente se cruzasse de novo, por saber que ele é um
cara sempre inquieto. Admiro muito também o Eduardo
Coutinho, isso dele misturar atores e não-atores, principalmente neste último filme, “Jogo de Cena”. Para
2008, tenho alguns projetos de teatro, de dança. E, em
2009, tem um filme de ficção, de Cláudio Barroso, sobre
o Gregório Bezerra, que fazia parte do Partido Comunista e foi torturado em praça pública em 1964. Mas eu
sou muito do agora, não penso tanto no futuro assim.
Tenho uma lógica muito de sobrevivência, acho que
as coisas se conspiram para acontecer na hora certa.
Acredito que o caminho me levará a bons encontros.
Revista de CINEMA – Mas não tem nenhum contrato fechado para 2008?
João Miguel – Nada. Eu sou um ator independente (risos). Mas tenho boas possibilidades.
Revista de CINEMA – Novela, nem pensar?
João Miguel – As pessoas acham que eu sou
muito radical, mas é porque eu sou muito fiel ao meu
processo. Eu estou vivendo um ciclo com o cinema e
estou aprendendo a fazer cinema, fazendo. Acho que
ainda terei um diálogo mais estreito com a televisão.
“Cinema, Aspirinas e Urubus” lançou o ator no cinema, em 2005, e também foi o longa de estréia
do diretor Marcelo Gomes
O Zé Eduardo [Belmonte] foi uma surpresa maravilhosa. A gente não se
conhecia. Ele é um diretor que está construindo uma filmografia muito
particular, sem medo de errar, se conectando com a geração dele.
Revista de CINEMA – Qual é o seu personagem neste filme dele, “Se
Nada mais Der Certo”?
João Miguel – É um cara cujo pai morreu e ele caminha com a arma
do pai durante três semanas. Fica com aquele fantasma do pai, não sabe
se se mata ou se mata alguém. Já com a Sandra Kogut, em “Mutum”,
foi uma aventura trabalhar com aqueles meninos. Ela queria me chamar
desde o início. O personagem do pai foi um dos mais difíceis que eu fiz,
tinha essa agressividade que aparentemente eu não tenho. Aquela coisa
contida que a Sandra me pedia era muito difícil.
Revista de CINEMA – É verdade que você iria trabalha no filme “Tropa de Elite”? O que houve? Por que você não fez o filme?
João Miguel – Eu fui convidado, mas acabou não acontecendo. Prefiro não falar qual era esse personagem. Tive um problema de datas. Na
Revista de CINEMA – Recentemente você conheceu toda a América do Sul com a série para o “Fantástico”, “Te Quiero América”. Como foi essa experiência?
João Miguel – O processo foi muito interessante, com uma equipe
de nove pessoas, todo mundo viajando por todos os países, trabalhando
por quase 50 dias quase ininterruptamente, sem folga. A gente foi criando
tudo durante a gravação. Foi um grande exercício para mim, por mais que
na edição não tenha ficado tudo ali. O programa tem uma outra logística,
optaram por um outro olhar. A gente tinha um material muito vasto, sobre
muitas coisas.
Revista de CINEMA – Mas você pretende seguir fazendo televisão?
João Miguel – Eu penso em dialogar mais com a televisão. A gente
sabe o que significa a televisão como indústria, e hoje ela está tendo
que se repensar, e não só a rede Globo. Eu acredito que o cinema tem
contribuído muito para isso, direta ou indiretamente. A prova disso são
as produções de televisão feitas por diretores de cinema, como a série
“Alice”, dirigida pelo Karim e pelo Sérgio, da Gullane e da HBO. O próprio
Cao Hamburger fazendo trabalhos também para a HBO. Isso não é tanto
o Brasil documentado, mas são pessoas com mais cara de Brasil. Isso
me interessa.
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