UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS JUDITE SCHERER WENZEL A SIGNIFICAÇÃO CONCEITUAL EM QUÍMICA EM PROCESSO ORIENTADO DE ESCRITA E REESCRITA E A RESSIGNIFICAÇÃO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA Ijuí 2013 JUDITE SCHERER WENZEL A SIGNIFICAÇÃO CONCEITUAL EM QUÍMICA EM PROCESSO ORIENTADO DE ESCRITA E REESCRITA E A RESSIGNIFICAÇÃO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação Scricto Sensu em Educação nas Ciências da UNIJUÍ como requisito parcial da obtenção do título de doutor. Orientador: Prof. Dr. Otavio Aloisio Maldaner Ijuí 2013 Catalogação na Publicação W482s Wenzel, Judite Scherer. A significação conceitual em química em processo orientado de escrita e reescrita e a ressignificação da prática pedagógica / Judite Scherer Wenzel – Ijuí, 2013. 230 f. : il. ; 30 cm. Tese (doutorado) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí e Santa Rosa). Educação nas Ciências. “Orientador: Otavio Aloisio Maldaner”. 1. Ensino de química. 2. Escrita e reescrita. 3. Significação conceitual. 4. Interação discursiva. 5. Constituição docente. I. Maldaner, Otavio Aloisio. II. Título. CDU : 37:54 Frederico Cutty Teixeira CRB10 / 2098 À minha família - meu porto seguro. Para minha amada Thaís que me mostrou o verdadeiro sentido da vida. AGRADECIMENTOS A Deus pela vida. A minha mãe Jacinta e ao meu pai Egon que sempre incentivaram os meus estudos e pela sua ajuda, por seus ensinamentos e exemplo de vida permitiramme trilhar os meus caminhos. Amo vocês e sou eternamente grata! Ao amado Leandro, esposo, companheiro e amigo que me apoiou e me auxiliou em mais essa etapa de formação e constituição docente. Muito obrigada! Em especial a minha querida e amada Thaís que me deu mais forças e coragem na caminhada da tese. Com a sua chegada mostrou-me que tudo é possível, que é só querer e acreditar. Que bom que já esteve comigo nesta jornada! Minha mana Jandira e minha afilhada Rafaela pelas boas horas de risada e de diversão que sempre renovaram as minhas energias. Adoro vocês! Aos queridos, Edite, Bento, Fredi, Juliana e Renê por me acolherem sempre bem, pelo apoio demonstrado, pela confiança e palavras de incentivo. Valeu! Um agradecimento em especial, ao querido e muito admirado professor Dr. Otavio Aloisio Maldaner pelos seus ensinamentos, pelos diálogos sobre o ensino de química e sobre a química, pois esses foram fundamentais e se tornaram catalisadores no percurso da tese. Agradeço também a sua atenção em todos os momentos da trajetória da pesquisa. Ressalto que o Maldaner é para mim um modelo de educador em química e um eterno orientador. Obrigada pela rica oportunidade de poder trabalhar com você! A todos os professores do Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências da UNIJUÍ pelo apoio e pelos ensinamentos; Às professoras Dra. Lenir Basso Zanon, Dra. Maria Simone Schwengber e Dra. Maria do Carmo Galiazzi pelas valiosas contribuições na banca de qualificação, tornando essa etapa muito significativa na trajetória da pesquisa; Às professoras Dra. Lenir Basso Zanon, Dra. Maria do Carmo Galiazzi, Dra Helena Copetti Calai e Dra. Roseli Schnetzler pela banca final e pelas valiosas considerações; Aos colegas de doutorado, em especial, ao Roque, Adriana, Adair e Edegar pelas caronas, almoços e diálogos; Aos licenciandos do Curso de Ciências: Biologia, Física e Química Licenciatura pela parceria na proposta pedagógica; À UFFS pelo apoio à pesquisa e à formação docente; Aos colegas, em especial colegas e bolsistas vinculados ao Grupo de Estudo e Pesquisa sobre o Ensino de Ciências e Matemática (GEPECIEM); Enfim a todos que nesses últimos anos ouviram com atenção os meus anseios de pesquisa, dialogaram comigo e tiveram a paciência em compreender todo esse processo: pelas ausências, pelo tempo, pela prioridade e por entenderem a minha insistência em sempre retomar a temática da tese, os meus sinceros agradecimentos. RESUMO A discussão que perpassa a tese está inserida num contexto real de ensino de química; contempla a significação conceitual em processo de escrita e de reescrita orientada e aspectos da constituição docente. Para isso, nas aulas de química, acompanhadas pela pesquisa, diferentes instrumentos pedagógicos foram intencionalmente inseridos por possibilitarem a escrita e a reescrita de textos pelos estudantes num processo orientado pedagogicamente. Aliado a isso, fez-se um acompanhamento das aulas pela escrita em diário de bordo que, possibilitou a qualificação da reflexão do processo pedagógico vivenciado, ressignificando-o, num movimento de constituição docente. Os textos produzidos no decorrer das aulas constituem o corpus da pesquisa e para a sua análise a opção metodológica consistiu em princípios da análise textual discursiva mediante a elaboração de categorias a priori e emergentes. O referencial teórico que perpassa a tese é de cunho histórico cultural, com interlocuções entre os estudos vigotskianos e a teoria da enunciação de Bakhtin. Também foram trazidos para a discussão autores que discorrem sobre a especificidade da linguagem química e da sua importância para a significação conceitual. No percurso da tese a linguagem química é entendida como constitutiva do discurso escolar e por isso, necessária de ser significada pelos estudantes para possibilitar o seu entendimento químico. Com o referencial teórico e com a prática de ensino vivenciada foi possível depreender que o uso consciente da linguagem química pelos estudantes é condição para a formação do seu pensamento químico. E o caminho que é defendido, para isso, com base nos dados de pesquisa construídos, consiste na prática da escrita e da reescrita num processo qualificado de orientação, que estabeleça interações discursivas favoráveis. Em suma, a tese consiste num convite para repensar o ensino da química considerando-o como um processo interativo sempre mediado pelo uso intencional dos meios, pelo uso das palavras e dos conceitos próprios da química, para com isso possibilitar a significação conceitual para os estudantes. Palavras Chaves: Ensino de Química; Escrita e Reescrita; Significação Conceitual; Interação Discursiva; Constituição Docente. ABSTRACT The discussion that passes by the thesis is inserted in a real context of chemistry teach; contemplate the conceptual meaning in writing and rewriting guided process and aspects of docent structure. With this, in chemistry classes, that were followed by research, different pedagogical tools were intentionally inserted to able the writing and rewriting of texts by the students in a pedagogical guided process. Allied of that, it had been done a follow up of the classes through writing in a logbook that, enabled the qualification of the reflection of the pedagogical process seen, meaning again, in a movement of docent structure. The texts were produced during the classes composed the corpus of the research and, to its analysis the methodological option composed the ways of textual discussion analysis with levels of elaboration a priori and emergent. The theoretical referential that passes by the thesis is historical and cultural mark, with interlocutions through Vygotsky studies and Bakhtin‟s Theoretical of Enunciation. And they also were taken to the discussion, writers that dwell about the specificity of the chemistry language and to its importance to the conceptual meaning. On the way of the thesis the chemistry language is understand as constructive of the scholar speech and for that, it is necessary to be positive to the students enable its chemistry comprehension. With the theoretical referential and with the teaching practice developed it was possible to infer that the conscious use of chemistry language by the students it is the condition to formation of the chemistry thoughts. And the way that is defended, to this, with bases in researches data constructed, it consists in writing and rewriting practices in a qualified guided process, establishing favorable interaction discussion. In sum, the thesis consists in an invitation always mediated by the intentional use of the tools, by the use of the words and their own concepts, through that, enable the conceptual meaning to the students. Key Words: Chemistry Teaching, writing and rewriting, conceptual meaning, discursive interaction, docent constitution. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Processo Pedagógico Interativo ............................................................ 17 Figura 2: Representação da dissolução do NaCl(s) em água ............................... 37 Figura 3: Recorte do Mapa Conceitual Forças Intermoleculares........................ 159 Figura 4: Recorte do Mapa Conceitual Solução I ............................................... 162 Figura 5: Recorte do Mapa Conceitual Solução II .............................................. 162 LISTA DE QUADROS Quadro 1: Resultados da Revisão Bibliográfica no Periódico Química Nova ..... 93 Quadro 2: Categorias a priori do Processo de ATD ......................................... 122 Quadro 3: Categorias Emergentes do Processo da ATD ................................. 123 Quadro 4: Resultados da construção de dados referentes à questão 1 do caderno de anotações e suas reescritas. ......................................................... 126 Quadro 5: Questões 1 e 2, respostas selecionadas para a reescrita e orientação para a reescrita – (Turma X) ............................................................................ 144 Quadro 6: Questão 1 e 2, respostas selecionadas para a reescrita e orientação para a reescrita – (Turma Y) ............................................................................ 145 Quadro 7: Resultados obtidos pela análise da Reescrita das Provas .............. 146 LISTA DE SIGLAS AC - Apropriação Conceitual ATD - Análise Textual Discursiva CD - Constituição Docente CEP - Comitê de Ética em Pesquisa DB - Diário de Bordo DC - Discurso Científico DDC - Discurso de Divulgação Científica DP - Discurso Pedagógico DCE - Discurso Cotidiano do Estudante EC - Evolução Conceitual ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio ID - Interação Discursiva JP - Jornal de Pesquisa LCE - Linguagem Científica Escolar OS - Orientação por Símbolo OST - Orientação Mista com Texto e Símbolo OT - Orientação com escrita de Texto PPC - Projeto Pedagógico do Curso TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TDCs - Textos de Divulgação Científica UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul UFFS - Universidade Federal da Fronteira Sul ZDP - Zona de Desenvolvimento Proximal SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................... 13 2 UM OLHAR PARA O CONTEXTO ACOMPANHADO ................... 29 2.1 O componente curricular Química I ............................................................. 30 2.2 Ser professora, Ensinar Química e Aprender Química: Vivências e Reflexões que Originaram a Temática da Tese ................................................ 32 2.3 A Organização Metodológica ao Ensinar Química I ................................... 39 2.4 Instrumentos Pedagógicos nas aulas de Química I ................................... 43 2.4.1 A Participação dos Estudantes na Pesquisa ............................................... 46 2.4.2 Os Cadernos de Anotações dos Estudantes ............................................... 47 2.4.3 Reescrita das respostas das Provas ........................................................... 51 2.4.4 Mapas Conceituais ...................................................................................... 53 2.4.5 O Diário de Bordo ........................................................................................ 56 3 APRENDER QUÍMICA E USO CONSCIENTE DA LINGUAGEM CIENTÍFICA ESCOLAR .................................................................... 60 3.1 A Formação do Pensamento Químico mediante a Significação da Linguagem Química no Contexto Escolar ........................................................ 61 3.2 Diferentes Sentidos Atribuídos à Mesma Palavra em Sala de Aula e a .... 71 Necessidade da Mediação Qualificada do Professor ....................................... 71 3.3 Gêneros Discursivos Escolares ................................................................... 80 4 ESCRITA E REESCRITA DE TEXTOS COMO PRÁTICA PEDAGÓGICA INTERATIVA ............................................................ 91 4.1 A Prática da Escrita em Cursos de Graduação em Química ..................... 92 4.2 Escrever e Reescrever nas Aulas de Química I ........................................ 101 4.3 O Processo de Escrever e de Reescrever como um Ato Enunciativo, Dialógico e de Alteridade.................................................................................. 107 4.4 Motivações e Limitações no Processo de Escrever e de Reescrever em Sala de Aula. ................................................................................................ 112 4.5 O Processo de Escrever e Reescrever nas aulas de Química I como Prática de Pesquisa em Sala de Aula .............................................................. 116 5 A ESCRITA E A REESCRITA DOS ESTUDANTES NA PRÁTICA DE ENSINO VIVENCIADA ............................................. 120 5.1 Elaboração das Categorias de Análise...................................................... 121 5.2 Escrita e Reescrita no Caderno de Anotações: Alguns Resultados Construídos ....................................................................................................... 124 5.2.1 Indícios de Apropriação Conceitual e de Evolução Conceitual na Escrita e na Reescrita do Caderno de Anotações ............................................................. 126 5.3 Reescrita das Respostas das Provas: Alguns Resultados Construídos ....................................................................................................... 139 5.4 Resultados Referentes aos Mapas Conceituais ....................................... 156 6 A PRÁTICA DA ESCRITA NA CONSTITUIÇÃO DOCENTE E NA COMPREENSÃO DO PROCESSO PEDAGÓGICO ............... 166 6.1 Constituição Docente pela escrita no DB ................................................. 168 6.2 Interação Discursiva: Diálogos estabelecidos no processo de ensino vivenciado .......................................................................................................... 172 6.2.1 Interações discursivas nos diálogos estabelecidos em sala de aula ......... 176 6.2.2 Interações discursivas estabelecidas no processo de escrita e reescrita orientada ............................................................................................................ 181 6.3 Especificidades da LCE: Algumas definições que perpassam o ensino da química ............................................................................................. 197 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................... 203 REFERÊNCIAS ............................................................................... 213 ANEXOS ......................................................................................... 218 13 1 INTRODUÇÃO Sou professora de Química, e os desafios, as possibilidades, as limitações e as alegrias em ensinar química são a origem desta tese. O desafio está em ensinar os conceitos relacionados à química possibilitando espaços de significação e evolução conceitual em sala de aula para cada estudante. Assim, com base no referencial histórico cultural e na teoria da enunciação de Bakthin a questão central que perpassou a tese consistiu em como possibilitar aos estudantes a significação conceitual em sala de aula pelo uso da escrita e da reescrita em processo qualificado de orientação. Considerei-a necessária de ser pesquisada, acompanhada e, por isso, tomei-a como tema central da tese. Entendo a Química como uma ciência humana, historicamente construída e caracterizada por uma linguagem específica, que compreende gênero de discurso com diversas expressões, cada uma delas com particularidades que precisam ser significadas pelo estudante, para que possa, de fato, aprender Química e pensar na forma desse conhecimento o mundo material e suas transformações. Defendo a tese de que a formação do pensamento químico requer especial atenção numa sala de aula e deve ser o objetivo do professor ao ensinar química. O pensamento químico implica na apropriação e na significação da linguagem química, e esse processo, entre outras particularidades, está condicionado à capacidade de imaginação. O estudante precisa ser capaz de relacionar o conhecimento químico em diferentes níveis de conhecimento, como o abstrato, o representacional e o concreto. Gilbert e Treagust (2009 p. 06) apresentam diferentes autores que abordam a química em três diferentes níveis de conhecimento e, considerando as particularidades de cada uma das propostas, os autores, apresentam a subdivisão em níveis macro, submicro e simbólico. Em sua discussão reforçam que a relação entre ambos os níveis é a chave para o ensino e a compreensão química. Nessa direção, o uso de imagens ou de recursos que possibilitam uma visualização tridimensional de algum fenômeno no ensino de química precisa vir acompanhado de uma discussão qualificada sobre os fenômenos que representam, caso contrário, como apontam Ferreira e Arroio (2013), apenas reforçam concepções alternativas que podem apresentar um significado bem distinto do conhecimento químico. Nesse sentido, para possibilitar ao estudante fazer as necessárias relações entre os diferentes níveis de 14 conhecimento considero importante o processo da significação conceitual pela interação discursiva em sala de aula. Ainda em relação ao pensamento químico, no entendimento de Chagas (1997), a sua base e sua estruturação estão na compreensão da teoria molecular, e esta requer o uso consciente de diferentes conceitos, como átomo, molécula, substância. O uso desses conceitos por estudantes em diferentes níveis de ensino foram objetos de estudo de Nakhleh (1992), que traz uma abordagem que retrata os equívocos dos estudantes ao fazerem uso desses termos e ressalta que o professor em sala de aula precisa ajudar os estudantes na compreensão da diferença entre átomos, moléculas e íons e também para discernir sobre o uso de cada um em diferentes contextos. Daí entendo a importância de o professor ouvir os estudantes em sala de aula e de redimensionar os sentidos atribuídos. Também no seu trabalho, Nakhleh (1992), enfatiza que a criação de uma estrutura cognitiva de um campo complexo de conhecimento, como a química, não é fácil, e, segundo o autor, não é de se admirar que os estudantes do ensino médio ao chegarem ao nível superior encontrem dificuldades e, ainda, que estas, muitas vezes, trancendem a pós-graduação. O autor destaca a importância da instrução e da ajuda do professor em sala de aula, de ele perceber e dialogar sobre as diferentes definições, ou sobre o uso de algum conceito, ou a sua multiplicidade de interpretação pelos estudantes. Nakhleh (1992) exemplifica isso com a definição de dois termos: oxidação e redução, a definição desses conceitos, por exemplo, pode ser realizada pelo uso do número de oxidação, pela quantidade de oxigênio, ou ainda, em termos de ganho ou perda de elétrons. Assim, nessa multiplicidade de definições é primordial o papel do professor de estar atento às particularidades de sentido atribuído aos conceitos em circulção. Nakhleh (1992) destaca também a necessidade de discutir com os estudantes a diferença entre o entendimento científico de algum termo e o seu uso cotidiano, como, por exemplo, as diferenças entre os termos calor e temperatura. No entendimento desse autor (1992) é importante o professor perceber os equívocos conceituais dos estudantes e trabalhar junto para o seu redirecionamento, mas, para isso, ressalta o autor, é preciso também que o estudante esteja envolvido no processo, que assuma o seu posicionamento e a sua condição de estudante. 15 Ainda em relação à formação do pensamento químico, Chagas (1997) ressalta que o mesmo requer uma constante relação teórica e prática. Assim, por exemplo, o termo ligação química requer a compreensão das interações eletrostáticas do núcleo de um átomo pelos elétrons de valência de outro átomo, que implica na formação de uma nova condição de um novo orbital que deixa ser atômico e passa a ser molecular ou, ainda, pensando nas ligações iônicas, as interações eletrostáticas entre íons; mas também requer a compreensão da representação da ligação química por traços ou pela escrita de fórmulas de Lewis. E esse processo implica na capacidade de imaginação dos estudantes. Todos esses conceitos requerem a capacidade de abstração e de imaginação que superem a representação de uma ligação química por um traço, ou pela escrita de íons. Ou seja, a representação realizada no papel, seja ela pela escrita de uma fórmula, de uma reação química ou de uma ligação química, precisa desencadear no estudante a capacidade de imaginar as diferentes interações, os movimentos das partículas de maneira coerente com o entendimento químico. Para isso, é importante o uso de diferentes recursos audiovisuais e, aliado a estes, o uso qualificado da linguagem química, dos conceitos químicos, que pela sua significação permitem a compreensão das simulações, das imagens num diálogo entre os níveis do conhecimento químico. Ressalto que todo esse processo da formação do pensamento químico requer a discussão pelo professor em sala de aula sobre a concepção de modelos, de analogias e também sobre a escolha de uma determinada representação em detrimento de outra. Por exemplo, entender a diferença e as semelhanças em escrever Cu, Cu(s), Cu2+(aq) e, num outro contexto, CuCl2(s); ou, ainda, o que significa a distribuição eletrônica, muitas vezes, associada pelos estudantes apenas na escrita ou no desenho de um quadrado e na inserção de setas em sentidos opostos, sem serem de sentidos químicos relevantes para eles. Pensar quimicamente também implica, além de relacionar os diferentes níveis de conhecimento, em conseguir fazer as necessárias relações conceituais, o que, por sua vez, requer um pensamento conceitual, pois é preciso compreender um conceito no âmbito de um sistema de conceitos. Todas essas particularidades que são constituintes da linguagem química, nas suas diferentes representações, pela escrita de fórmulas, de palavras, do uso de modelos, de analogias requerem especial atenção em sala de aula e implicam na necessária 16 mediação do professor para possibilitar a formação do pensamento químico dos estudantes. Todo esse processo implica no uso qualificado da linguagem química, pois linguagem e pensamento se constituem mutuamente (Vigotski, 2000). Para isso, é preciso que o estudante saiba muito mais do que apenas repetir as palavras do professor ou de um livro didático, mas que, pelas interações discursivas estabelecidas em aula, torne suas as palavras do professor e consiga argumentar, fazendo uso consciente dos conceitos químicos. Considerando essas particularidades e a importância do uso qualificado da linguagem química1 para a sua significação, o objetivo da pesquisa consistiu em proporcionar aos estudantes, nas aulas de química, o uso qualificado da linguagem química num processo orientado de escrita e de reescrita mediante a inserção intencional de diferentes instrumentos pedagógicos2. Para possibilitar a compreensão desse processo com a finalidade de entender como a prática da escrita e da reescrita orientada auxilia na significação conceitual em química, para compreender a potencialidade dessa prática os textos3 produzidos pelos estudantes foram objetos de análise. Nessa análise o olhar esteve direcionado para o posicionamento do estudante frente à prática da escrita, para os indícios de apropriação e de evolução conceitual e, também, para o processo pedagógico interativo estabelecido. Também as aulas foram transcritas em diário de bordo (DB) e na reflexão proporcionada pela sua escrita e análise foi possível ampliar a compreensão teórica sobre a prática pedagógica vivenciada, em especial, sobre o processo de significação conceitual e da importância da mediação qualificada do professor. Com isso foi oportunizado a ressignificação da prática pedagógica. Reitero que o conhecimento químico constitui-se em pensamento próprio para o entendimento do mundo, e contempla uma linguagem também específica: a linguagem química. Daí o meu encanto por ensinar essa ciência e o desafio de 1 A linguagem química referida é entendida no âmbito do contexto escolar. Entendo-a, em todo o percurso da tese, como a linguagem científica escolar (LCE). Esta contempla o gênero da linguagem científica, do discurso científico e do discurso pedagógico no contexto pedagógico. Explico mais características dos gêneros discursivos escolares na subseção 3.2. 2 Os referidos instrumentos pedagógicos foram utilizados intencionalmente no decorrer das aulas por terem como meio a escrita e a reescrita da linguagem química. Consistiram em caderno de anotações, provas e suas correções e mapas conceituais. 3 O termo texto é utilizado com um sentido mais amplo, referindo-se a respostas de questões, descrições de aulas práticas, mapas conceituais. Sem ampliar a discussão quanto à tipologia de textos. 17 criar espaços pedagógicos interativos para promover a significação conceitual em sala de aula. Assumo, em todo o percurso, a minha condição de professora de química e reafirmo que a minha motivação e os desafios no decorrer desta investigação consistiram em pesquisar a minha prática de ensinar para compreender-me melhor como professora em constituição e que, ao proporcionar o uso da linguagem química pelos estudantes em diferentes contextos, mediante a escrita e a reescrita de textos num processo orientado, a aprendizagem química foi qualificada. Assim, o ensinar química pela apropriação e significação da linguagem química, minha constituição como professora pesquisadora4 e o processo de ensino interativo5 são aspectos centrais da presente tese. Diz Vigotski (2000) que o desenvolvimento intelectual do indivíduo depende de processos intencionais, interativos e mediados pela linguagem. Góes (1997 p.14) apresenta um modelo de interação “SSO” que consiste na relação mediada entre o sujeito cognoscente, o sujeito mediador e o objeto de conhecimento. A autora ressalta que a relação com o sujeito cognoscente deva ser interativa em processos dialógicos. Nesse contexto o modelo interativo, proposto por Góes (1997) pode ser ampliado conforme expressa a figura 1: Figura 1: Processo Pedagógico Interativo Fonte: autoria própria 4 A constituição de professora pesquisadora ocorreu mediante a escrita no diário de bordo, esse processo possibilitou-me um olhar crítico e reflexivo sobre o fazer docente. No capítulo 6 apresento uma discussão mais ampla sobre a constituição e a prática de ensino vivenciada. 5 A interação a que me refiro é entendida como uma interação discursiva estabelecida no contexto pedagógico. 18 No âmbito da sala de aula, o professor é o outro que apresenta o significado químico estabelecido historicamente e, pelas diferentes interações estabelecidas, ocupa o lugar de mediador no processo de ensino (sujeito mediador). O professor ao fazer uso das palavras apresenta intencionalidades específicas, direcionamentos que objetivam possibilitar ao estudante (sujeito cognoscente) o aprendizado em química. Em tal contexto, a mediação ocorre pelo uso da linguagem, pelas palavras, num processo que busca o redimensionamento dos sentidos pela ação mediadora do professor, possibilitando aos estudantes a significação conceitual em química. Entendo esse processo interativo inerente à evolução conceitual. Geraldi (2002, p.19) afirma que “sem linguagem a relação pedagógica inexiste”, assim a linguagem é vista como movimento, como possibilidade de reconstrução e de interpretação de saberes, como constitutiva do sujeito, sendo, portanto, mediadora do processo de ensino e, por isso, necessária de ser significada entre os sujeitos envolvidos. O processo representado na figura 1 não descarta a relação imediata entre estudante e o objeto de conhecimento, mas possibilita avanços cognitivos que são características da espécie humana e que são possíveis somente na e pela significação conceitual, pelo uso consciente da linguagem em processos mediados. Halliday, apud Fang (2004, p. 337, trad. própria) compreende que “a linguagem é a condição essencial para a aprendizagem, o processo pelo qual a experiência torna-se conhecimento".6 A significação da linguagem química é condição para o estudante aprender química. Para isso ocorre um confronto entre palavras, entre gêneros de discursos específicos que dialogam em sala de aula, a saber, as palavras que os estudantes já usam e que contemplam o discurso cotidiano do estudante (DCE), as palavras do professor e que se caracterizam como discurso escolar. Este, por sua vez, é constituído por diferentes discursos, o discurso científico (DC), o discurso de divulgação científica (DDC) e o discurso pedagógico (DP). Nessa multiplicidade de gêneros e confrontos discursivos acontece uma aula de química, daí a importância da atenção para os sentidos e os significados atribuídos para uma determinada palavra em sala de aula. No entendimento de Bakhtin (2006), cada palavra vai ao encontro de outras palavras, as quais são denominadas pelo 6 language is the essential condition of learning, the process by which experience becomes knowledge. 19 autor, como contrapalavras, e é nesse confronto que é possível a construção de novas compreensões, as quais, pelo seu uso em diferentes contextos, indicam os níveis de apropriação e de significação de uma nova linguagem, como é o caso da linguagem química. Numa aula de química, por exemplo, o professor precisa estar ciente de que a linguagem escolar, utilizada por ele, consiste em gêneros discursivos caracterizados por diferentes expressões específicas, que, por sua vez, apresentam organizações sintáticas, semânticas muito particulares e que, inicialmente, não apresentam os mesmos significados para os estudantes. A linguagem química constitutiva de tal discurso apresenta símbolos, nomes, equações, fórmulas, gráficos, entre outros, que demandam interpretações bastante específicas no âmbito da química, para serem entendidos. Importante ressaltar que tais expressões apenas apresentam algum significado químico para os sujeitos iniciados na linguagem química. Para os estudantes, ela se configura numa nova linguagem que precisa ser significada sob um olhar da química, o que é possível apenas pela mediação do professor, caso contrário, o estudante não conseguirá fazer uso consciente da linguagem química para explicar determinado fenômeno sob esse ponto de vista e, em consequência, não aprenderá química. Isso exige que o professor, na sala de aula, esteja atento a essas especificidades, pois o simples uso da palavra pode mascarar as limitações conceituais dos estudantes. Repetir uma palavra dita por outra pessoa não é difícil. Uma criança, por exemplo, faz uso das palavras de um adulto sem ter consciência do seu significado. Diz Vigotski (2000) que, ao fazer uso da palavra, o significado está apenas iniciando. Aliado a isso, é importante considerar que a mesma palavra é, por sua natureza, polissêmica, apresenta diferentes sentidos que dependem do contexto da enunciação (Bakhtin, 2006) e também, numa aula de química, apesar do contexto ser o mesmo para os sujeitos envolvidos na interação, o simples uso de uma palavra desencadeia sentidos diversos, em cada um dos sujeitos, em decorrência das suas vivências anteriores. Assim, é possível perceber a necessidade de o professor atuar como mediador nos diferentes processos interativos estabelecidos na sala de aula. É papel essencial do professor, o de mediar, pelo uso da linguagem, a produção dos sentidos no contexto de uma aula. Quando determinada palavra é utilizada no âmbito específico da química, na 20 aula de química, por exemplo, é necessário que os sujeitos envolvidos no discurso a percebam e façam o uso dela com um significado mais próximo do significado químico historicamente construído, pois somente assim terão aprendido química. Nesse sentido, numa sala de aula, as palavras adquirem um sentido novo em relação ao seu uso no cotidiano. É preciso que o estudante tome consciência do sentido anterior atribuído às palavras para poder avançar na significação. O estudante deve compreender, por exemplo, as particularidades e as relações necessárias ao fazer uso da palavra solução no contexto da química e diferenciála do uso estabelecido no seu dia a dia. Entendo que a apropriação da linguagem química pelo estudante é um passo inicial que permite, pela orientação sistemática e qualificada do professor, ampliar os sentidos atribuídos às palavras direcionando-os para os significados químicos. Como professora de química, sempre me questionei, e ainda me questiono, sobre o aprender significativo7 dos estudantes nas aulas de química: é ele possível pela interação estabelecida em sala de aula? É possível possibilitar, em sala de aula, a significação conceitual? Nesse âmbito, com a preocupação de proporcionar espaços e oportunidades para a significação da linguagem química e do aprender química, algumas questões, entre outras, inquietaram o meu fazer pedagógico e foram conduzindo a presente investigação: por que para os estudantes é difícil escrever ou falar usando as palavras próprias para o pensamento químico? Tenho percebido na prática de sala de aula, como professora no Ensino Médio e no Ensino Superior, que os conceitos específicos da química, como molécula, átomo, ligação, interação, reação, transformação (...) ácido, base, solução, equilíbrio químico aparecem, muitas vezes, dispersos na escrita dos estudantes, são omitidos, ou, na maioria das vezes, são pobres de sentidos e de relações conceituais. Muitas vezes, o estudante ainda não é capaz de fazer uso da linguagem química para explicar determinado fenômeno, apenas reproduz definições expressas em livros didáticos ou pelo professor. Na compreensão vigotskiana (2000), para esses estudantes, a evolução do significado conceitual 7 O aprender significativo a que me refiro é entendido como a capacidade em estabelecer relações conceituais. 21 ainda não começou ou ainda é muito insuficiente, dificultando qualquer pensamento segundo o conhecimento químico sobre o mundo. De acordo com Vigotski (2000, p. 478 e 479), se algo não apresenta significado para mim, não consigo produzir pensamentos, falar ou escrever, isto é, “a transição do pensamento para a palavra passa pelo significado [...] o significado medeia o pensamento em sua caminhada para a expressão verbal”. Neste argumento está alicerçada a minha defesa da necessidade de, na sala de aula, introduzir instrumentos pedagógicos que permitam a qualificação no uso da linguagem química pelos estudantes, proporcionando os significados conceituais. Inerente a essa inserção, defendo o processo orientado pelo professor, sempre mediado pelo uso intencional dos meios pelo uso das palavras e dos conceitos próprios da química. A escolha de, nas aulas de química, fazer uso qualificado da linguagem química pela escrita de textos está ancorada nos estudos de Marques (2001) que ao discutir avanços entre a oralidade e a escrita nas diferentes épocas históricas afirma que, essas relações transformadas entre a oralidade e a escrita fazem da escrita algo muito mais valioso do que se fosse ela a simples codificação da linguagem oral. É ela um novo espaço de reconstrução da realidade, das personalidades e da cultura, em que a educação assume nova relevância enquanto provocação de aprendizagens significativas (MARQUES, 2001, p. 69). O referido autor também reforça a importância da escrita não ser considerada como mera transcrição da fala, mas de ser compreendida como meio de negociação de sentidos entre os interlocutores envolvidos no processo. Aliado a isso há o entendimento (Vigotski (2000), Marques (2001), Riward e Straw (2000)) de que a escrita exige maior organização cognitiva do que a fala, na qual os interlocutores se comunicam utilizando recursos, como gestos, diferentes tons expressivos e outros. Daí a importância de processos formativos que possibilitem aos estudantes aprender a estruturar e a organizar as ideias na medida em que escrevem e reescrevem, ampliando assim, as suas capacidades cognitivas. Marques (2001) ressalta também a importância da interlocução entre os sujeitos na prática da escrita e da leitura e entende esse processo como um espaço de produção de significados. Esse posicionamento corrobora com o 22 processo interativo da escrita e da reescrita orientada que foi proposto e analisado na presente tese. No entendimento de Dolz e Schneuwly (2011) no processo de escrever já está implícita a reescrita. Eles entendem a reescrita como um posicionamento reflexivo frente ao texto, de o escritor retomar o que escreveu, de ler, reler e fazer as correções necessárias, num processo que, nas palavras dos autores (2001, p. 03, trad, própria) “é lento, trabalhoso, cheio de idas e vindas e no decorrer deste o texto escrito é objeto de reescritas constantes”8. Também Marques (2001) chama a atenção para isso ao defender que a leitura é inerente ao processo de escrita. O mesmo autor acredita que quem escreve também deve se posicionar como um leitor frente à sua escrita. Entendo que esse posicionamento precisa ser aprendido e que para isso é importante o professor atuar como mediador iniciando o estudante no processo de reescrita. E, assim, pela vivência os estudantes vão percebendo a importância do seu posicionamento frente a um texto escrito. Ao considerar as especificidades da linguagem química a orientação do professor torna-se ainda mais necessária. Acredito que é pelo processo da reescrita orientada que o estudante retoma o seu texto e toma consciência das suas limitações, com isso, amplia a sua escrita e a significação conceitual em novos níveis. Ressalto que a constatação da ausência da apropriação da linguagem química pelos estudantes decorre desde a minha atuação como professora no Ensino Médio, quando solicitava a escrita sobre experimentos realizados em aula. Nas descrições realizadas pelos estudantes, prevalecia uma linguagem de senso comum, poucos conceitos químicos e apenas algumas tentativas de relacionar um conceito com outro. Com base em Vigotski (2000), entendo que o estudante, ao não usar a linguagem química, não amadureceu a palavra, isto é, a palavra ainda não tem significado suficiente e não é significativa para o estudante, por isso, ele não faz uso dela na sua escrita, não consegue elaborar um pensamento usando tal palavra e, consequentemente, não escreve a partir dela. Como professora no Ensino Superior, tenho utilizado diferentes propostas de escrita no âmbito do componente curricular de Química I9, entre elas, comentários 8 se trata de un proceso lento, laborioso, lleno de idas y venidas, a lo largo del cual el texto escrito es objeto de reescrituras constantes (p. 03). 9 as aulas do componente curricular Química I foram acompanhadas no decorrer da pesquisa e a organização das mesmas está descrita na subseção 2.1. 23 de artigos, resenhas, provas descritivas. É válido ressaltar que, nos primeiros dois semestres em que ministrei Química I, para a escrita de comentários de textos e resenhas, utilizei como ferramenta pedagógica um blog (juditeqmc.blogspot.com). As postagens no blog foram de artigos de divulgação científica ou de questões que abordavam algum aspecto do conteúdo trabalhado em aula, e outros. Num semestre, solicitei aos estudantes que postassem comentários sobre cada artigo e, no outro, a atividade consistiu na escrita de uma resenha crítica de apenas um dos artigos postados. Ao propor a escrita nesses diferentes espaços formativos, fui constatando, novamente, a dificuldade dos estudantes de se expressarem quimicamente, de usarem os conceitos químicos para explicar diferentes fenômenos e de fazerem as necessárias relações entre conceitos. Ressalto, também, que pela leitura da escrita dos estudantes foi possível indiciar algumas simplificações e contradições teórico-conceituais que, provavelmente, passariam despercebidas caso não tivesse adotado a sistemática da escrita. Na sala de aula, perceber tais dificuldades é muito difícil, pois a organização metodológica consistia, quase na totalidade do tempo, na minha fala em sala de aula, e, assim, ao não ouvir o estudante, não percebia as suas limitações. As dificuldades conceituais percebidas ou a ausência das palavras específicas da química nos textos escritos dos estudantes indicavam-me uma lacuna no processo de ensino de química e sinalizavam a importância da inserção de outros instrumentos pedagógicos que possibilitassem o uso da linguagem química e a sua significação pelos estudantes. Aliado a isso, ficava evidenciada a necessidade de um acompanhamento mediado da escrita dos estudantes. A prática sinalizava que pouco adiantava os estudantes apenas escreverem sobre algum conteúdo, era preciso orientar a sua escrita para, com isso, também qualificar o posicionamento do estudante frente ao seu texto. Assim começou a amadurecer a ideia de estabelecer, em sala de aula, a escrita e a reescrita em processos orientados e, também, de acompanhar esse processo de ensino interativo pesquisando a minha própria prática de sala de aula. Os resultados, as potencialidades e as limitações de tal prática estão descritas no decorrer desta tese. Ressalto que as origens deste trabalho e os questionamentos que instigaram a pesquisa consistiram nas vivências de sala de aula e pelo que ouvia dos 24 estudantes, como, por exemplo: faça prova de marcar e não de escrever, ou, então, isso é muito difícil e ainda não entendi nada. Assim, alguns questionamentos emergiram: é possível com a escrita e a reescrita de textos, num processo mediado, proporcionar uma ampliação/significação conceitual dos estudantes? Ao escrever e reescrever sobre algum conteúdo, com a ajuda do professor, o estudante amplia as suas relações conceituais? A escrita e/ou a reescrita de textos, de respostas a questões, de práticas experimentais possibilitam ao estudante a formação do pensamento químico? Ao acreditar nessas contribuições e assumir como positivo as suas respostas, outras questões foram reconduzindo a pesquisa e precisavam ser investigadas e vivenciadas para produzirem respostas mais coerentes: Quais instrumentos pedagógicos são possíveis de serem trabalhados nas aulas de química para possibilitar a prática da escrita e da reescrita? Qual o direcionamento e quais as características da orientação do professor frente às respostas dos estudantes que os auxiliem na sua evolução conceitual? Parto do pressuposto de que o uso da linguagem química de forma mecânica não mobiliza o pensamento. Entendo que tal processo assemelha-se com o que Bakhtin (2006) caracteriza como língua morta. O autor exemplifica o seu entendimento de língua morta com o ato de recitar um poema, pois este, depois de declamado, segundo Bakhtin (2006), pode muito bem ser esquecido sem, no entanto, modificar o sujeito que o declamou. Assim, se o estudante apenas reproduzir mecanicamente as palavras específicas da química, a química para ele não é significativa, pois ele não faz uso consciente de tal linguagem e, assim, não forma um pensamento com ela. Esse estudante, se não ampliar o uso de tais palavras em outros contextos e não internalizar os significados que a linguagem traz, não conseguirá visualizar e interpretar os fenômenos do seu dia a dia usando os modelos teóricos da química, pois ainda não é capaz de pensar quimicamente, apenas reproduzir palavras da química, mas ainda não tomou consciência de seus significados. Com base nessas compreensões sobre a importância do uso significativo da linguagem de uma ciência, defendo que aprender química é apropriar-se da linguagem química no contexto escolar em espaços qualificados de orientação pedagógica; é possibilitar ao estudante, nos diferentes movimentos interativos, pelo uso orientado da linguagem química, a formação do pensamento químico. 25 Assim, ao fazer uso da palavra num processo interativo de significação conceitual, o estudante vai ampliando os sentidos das palavras, permitindo a evolução do significado dos conceitos químicos e o pensamento conceitual químico começará a ser constituído. Vigotski (2000, p. 398) diz que o “significado da palavra só é um fenômeno de pensamento na medida em que o pensamento está relacionado à palavra e nela materializado, e vice versa” e que não consigo realizar qualquer pensamento sem palavras. O pensamento, continua, (2000, p. 412) “não se expressa mas se realiza na palavra”. Ainda, com o aporte teórico histórico-cultural, assumo que a palavra é o meio, a mediação para a formação do conceito, e, em seguida, torna-se seu símbolo. Tenho como entendimento de que é no processo de escrita e de reescrita orientada pelo professor em sala de aula que o estudante se apropria e passa a fazer uso de maneira consciente da linguagem química. Com essas argumentações, acreditando na potencialidade da prática da escrita e da reescrita de textos num processo orientado desenvolvi e acompanhei as aulas de Química I. Assim, a presente tese configura-se na discussão sobre o acompanhamento das próprias aulas visando explicitar as limitações e as potencialidades das mesmas. Para a construção e análise dos dados utilizei princípios da análise textual discursiva (ATD) (Moraes, Galiazzi, 2011). Justifico a escolha por proporcionar diferentes mecanismos de análise em sequência recursiva e que contemplam a desconstrução, a unitarização e a categorização do texto. Isso me permitiu uma maior apreensão e apropriação do material empírico produzido. De um modo geral, segundo Moraes e Galiazzi (2011, p. 112), a ATD consiste em “identificar e isolar enunciados dos materiais submetidos à análise, categorizar esses enunciados e produzir textos, integrando nessa descrição a interpretação”. Ao apresentar a metodologia da pesquisa, é importante destacar que entre os textos produzidos no decorrer das aulas de Química I apenas alguns foram selecionados10 para a análise e esses, foram constituindo-se em dados de pesquisa na medida em que os significados foram sendo construídos, pois, nas palavras de Moraes e Galiazzi (2011, p. 17) “os textos não carregam um 10 A explicação dos recortes e dos critérios para a seleção dos textos analisados está descrita no capítulo 5 da tese. 26 significado a ser apenas identificado; trazem significantes exigindo que o leitor ou pesquisador construa significados a partir de suas teorias e pontos de vista”. E ainda, afirmam que “nada é realmente dado tudo é construído”. No processo da ATD as categorias de análise consistiram em categorias a priori e emergentes11. O texto da tese foi subdividido em capítulos, os quais, por sua vez, foram novamente subdivididos devido às especificidades das temáticas abordadas. No segundo capítulo, cujo título escolhido foi “Um olhar para o Contexto Acompanhado”, apresento o componente curricular Química I e, também, discuto as particularidades do corpus12 da pesquisa, que consistiu nos textos escritos pelos estudantes, nos diferentes instrumentos pedagógicos: o caderno de anotações de cada estudante; as provas e as suas correções; a elaboração de mapas conceituais e, nos textos escritos no DB. No capítulo três, com o título: “Aprender Química e o Uso Consciente da Linguagem Científica Escolar” apresento as particularidades do discurso escolar, com atenção para o DC, o DDC e o DP considerando-os constitutivos da linguagem científica escolar (LCE). Argumento quanto à necessidade da significação da linguagem química no contexto escolar para a aprendizagem do estudante e a formação do seu pensamento químico. Para isso, também chamo a atenção para a formação dos conceitos científicos no ambiente escolar e da sua importância para a ressignificação dos conceitos cotidianos. No quarto capítulo, intitulado “Escrita e Reescrita de Textos como Prática Pedagógica Interativa”, o foco da discussão está na justificativa e argumentação sobre a escolha da escrita e da reescrita como meio para a apropriação e a significação conceitual em química. Para isso apresento um olhar sobre a prática da escrita nos cursos de graduação em química e amplio a discussão sobre as especificidades da prática da escrita e da importância do estudante assumir esse processo como atividade (Leontiev, 2006). Na discussão também assumo a prática de ensino vivenciada como constitutiva da metodologia da pesquisa em sala de aula e, como um processo dialógico. 11 A explicação do processo de elaboração das categorias e a representação dos quadros nos quais apresento as categorias estão descritos no capítulo 5. 12 Segundo Moraes e Galiazzi (2011) o corpus consiste nas produções textuais, que constituem os dados da pesquisa. 27 Nos capítulos cinco e seis discuto, mais especificamente, as categorias de análise que foram construídas no processo da ATD. No início do capítulo cinco, cujo título é “A Escrita e a Reescrita dos Estudantes na Prática de Ensino Vivenciada”, apresento e aprofundo a metodologia utilizada, explico o processo de categorização e apresento as categorias a priori e emergentes. Em seguida, faço uma discussão sobre as categorias a priori para cada um dos instrumentos pedagógicos. Atenção para indícios de apropriação e significação conceitual pelos estudantes no processo de escrita e de reescrita. No capítulo seis, “A Prática da Escrita na Constituição Docente e na Compreensão do Processo Pedagógico” a discussão contempla, de maneira mais direta, as categorias emergentes de pesquisa. Nesse capítulo, faço referência a minha constituição como professora pesquisadora mediante a prática da escrita no DB. Também apresento uma discussão frente ao processo interativo estabelecido mediante a análise das orientações escritas para os estudantes e de alguns diálogos estabelecidos em aula e que estão descritos no DB. Em seguida, redimensiono a discussão, partindo da análise dos textos escritos pelos estudantes, atentando para algumas especificidades da LCE. Com isso, o capítulo seis pode ser caracterizado como uma metarreflexão sobre a prática vivenciada, pois me possibilitou a compreensão da mesma. Finalizando, no capítulo sete, apresento uma análise da prática de ensino vivenciada, com atenção para possíveis limitações e contribuições desta para o ensino de Química. Ressalto a importância da significação conceitual para aprender química e a necessidade da orientação qualificada para isso. O que requer, por sua vez, interações discursivas favoráveis, que implicam na conscientização do professor da linguagem utilizada em sala de aula e na contrapartida do estudante em assumir o ensino como atividade principal. Com essa organização do texto, com a necessidade de recortes inerentes à prática da pesquisa e com a multiplicidade de autores, de vozes fui tecendo a presente tese. Com Marques (2001), entendo que o escrever da tese dá-se na interlocução de muitas vozes, as quais decorreram de diferentes leituras, da prática de ensino vivenciada, das falas dos estudantes que foram sendo internalizadas, bem como da presença, mesmo que fisicamente ausente, dos leitores. Estes, no entendimento de Marques (2001), espiam de maneira indiscreta o que está sendo escrito, sua presença é apenas virtual, mas o escritor 28 ao considerar a sua presença torna-se também leitor de sua escrita. E assim escreve e reescreve o seu texto, sempre num posicionamento reflexivo, que faz da escrita um ato de leitura e de redimensionamento do conhecimento. E é nessa multiplicidade de interlocuções, nessas vozes que “agitam, conduzem, animam e perturbam” o processo que se dá o escrever. E é isso, que nas palavras de Marques (2001, p. 26), faz do escrever “uma amplificação de perspectivas, abertura de novos horizontes, construção de saberes novos”. Nessa direção, com Bakhtin (2006), afirmo que as palavras aqui utilizadas são as minhas palavras povoadas com as palavras dos outros. Reitero também que esta tese foi escrita com um direcionamento para os outros, num primeiro momento para mim, em seguida para o orientador, para a banca de defesa, após, para um público seleto de professores e demais leitores que se sintam atraídos pela temática aqui abordada. Assim, com esses direcionamentos, pela importância dada ao outro, aos leitores, e neles me incluo, pois no ato do escrever o autor, como já afirmou Marques (2001) se constitui também leitor, esta tese configura-se como um gênero discursivo específico, como uma enunciação, pois está dirigida para o outro, o que requer, por sua vez, um posicionamento responsivo dos leitores. E o desafio que eu coloco consiste em ensinar química 13 mediante a significação conceitual pelo uso da escrita orientada nas aulas de química num processo pedagógico interativo. 13 Ressalto que aqui pode ser subentendido a área de ensino de cada leitor. Eu fiz uso da química, pois é ela que perpassa toda a discussão da tese, pois sou professora de Química e essa condição eu assumi em todo o percurso. 29 2 UM OLHAR PARA O CONTEXTO ACOMPANHADO Alguns diálogos da minha vida: As pessoas me perguntavam: - O que você faz? Eu respondia com orgulho: - Sou Professora de Química! As pessoas então diziam: - Ah! Química, eu não gostava, aliás, eu nunca entendi. E outras, ainda completavam: - Mas também, são apenas algumas fórmulas, ou regras para serem decoradas... O diálogo, que escolhi como epígrafe deste capítulo, muito me incomoda e, esse desconforto, aliado ao querer um ensino de química um pouco diferente, foi movendo a minha tese. Acredito que, como professores, é preciso sempre perguntar: por que esse desprezo pela química? Por que essa ideia simplista de que a química é apenas um conjunto de fórmulas ou de regras para serem decoradas? Algumas alternativas eu proponho na minha tese. O caminho de mudança não é fácil, mas é preciso tentar. Neste capítulo apresento o contexto prático de ensino vivenciado e acompanhado no decorrer da tese. Nesse âmbito, além de retomar a origem da problemática, de explicitar a metodologia de ensino adotada, descrevo os instrumentos pedagógicos utilizados para realizar a prática da escrita e da reescrita nas aulas de Química I. Para contemplar essas temáticas, o capítulo foi subdividido em subseções. Na subseção 2.1, há uma atenção especial para o componente curricular Química I, sua organização e o seu contexto de oferta que é o Curso de Ciências: Biologia, Física e Química Licenciatura. Seguindo, na subseção 2.2 retomo a origem da problemática da pesquisa, ampliando a discussão referente à escolha da temática abordada, justificando, assim, a importância do estudo realizado. Também, reafirmo a interligação da tese com a minha prática de ensino, sendo que uma foi conduzindo à outra e vice versa. Ainda, para exemplificar a organização das aulas de Química I e para mostrar como a temática estava inserida na minha metodologia de ensino, na subseção 2.3 apresento uma explicitação da organização metodológica adotada nas aulas. E, finalizando o capítulo, na subseção 2.4 apresento a maneira de participação dos estudantes com um olhar para a ética da pesquisa e também 30 faço uma descrição de cada um dos instrumentos pedagógicos utilizados no decorrer das aulas de Química I, os quais, por sua vez, permitiram constituir os dados da minha pesquisa e foram, também, instrumentos de avaliação, sendo, portanto, integrantes da metodologia de ensino produzida em aula. 2.1 O componente curricular Química I A prática de ensino vivenciada, as aulas de química, perpassa todo o texto da tese. Por isso acredito na importância da contextualização desse espaço pedagógico para possibilitar entendimentos quanto aos resultados que foram sendo construídos no decorrer da pesquisa. Os dados da pesquisa foram obtidos mediante a análise dos textos produzidos em atividades realizadas junto às aulas de Química I que ocorreram no decorrer do primeiro semestre de 2012. O componente curricular Química I é ofertado no Curso de Graduação em Ciências: Biologia, Física e Química Licenciatura da UFFS. O campus da UFFS, no qual a pesquisa foi desenvolvida, situa-se no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Cerro Largo. A Universidade, em questão, encontra-se em fase de implantação e iniciou suas atividades de ensino em março de 2010. Eu comecei a trabalhar na referida instituição em julho de 2010. Ressalto que no campus de Cerro Largo, os estudantes na sua grande maioria (90%), são oriundos do ensino público aprovados mediante as notas do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Esse perfil é incentivado pela política de acesso à universidade, pois os estudantes que cursaram o Ensino Médio em escolas públicas recebem uma bonificação na nota do ENEM facilitando, assim, o seu acesso à UFFS. O Curso de Ciências: Biologia, Física e Química Licenciatura é oferecido no turno noturno e a maioria dos estudantes, apesar dos auxílios disponíveis, como bolsas: transporte, alimentação ou permanência, trabalham durante o dia. Essas particularidades, aliado ao fato da Química I ser ofertada aos ingressantes no Curso, resultam num perfil de estudantes que ainda não apresentam vínculos com projetos de pesquisa e, na sua grande maioria, não têm dedicação exclusiva aos estudos. Isso, por sua vez, ressalta a importância da inserção da prática da escrita para esses estudantes. Justifico a escolha desse espaço formativo, as aulas de Química I, primeiro, por eu ser a professora, e também, por ele ser o primeiro contato do estudante 31 com a Química ao ingressar no referido Curso. Assim o mesmo “se constitui uma disciplina de interface entre o conhecimento previamente estruturado, nível do ensino básico, e aqueles que constituirão a formação do profissional na área de química” (Silva, Eichler, Del Pino, 2003, p. 590) e, portanto, torna-se um importante alicerce para a construção inicial do pensamento químico nos estudantes. A ementa curricular, da Química I, conforme o Plano de Ensino, anexo A, consiste nos seguintes tópicos: “Matéria e Energia; Substâncias Puras e Misturas. Soluções. Compostos. Tabela Periódica. Estrutura Atômica. Ligações Químicas e suas teorias. Estrutura Molecular. Nomenclatura de Compostos. Interações Intermoleculares. Atividades experimentais envolvendo: segurança no laboratório; toxicidade de compostos; manipulação de resíduos; nomes e usos de materiais de laboratório”. No decorrer da tese, tal ementa não foi alterada, apenas os focos de ensino foram redimensionados e foi reavaliada a ordem de abordagem de cada tópico, amplio essa discussão na subseção 2.3. Pela descrição da ementa de Química I, é possível identificar aproximações com a disciplina de Química Geral que é muito tradicional nos Cursos de Graduação, sejam eles de formação em química seja em áreas afins, até mesmo porque não é propriamente uma ementa, mas consiste numa listagem de itens de conteúdos a serem contemplados. Destaco, ainda, o objetivo geral elaborado por mim e descrito no Plano de Ensino: “proporcionar a significação e a internalização de conceitos químicos, para que o estudante apresente um entendimento do mundo material em termos de átomos, moléculas e de seus arranjos e movimentos permitindo a relação do mundo microscópico aos fenômenos observáveis”. Tal objetivo remete para a minha intencionalidade em valorizar a significação da linguagem química no ensino de Química I e está diretamente relacionado à temática da tese. Isso retrata que a problemática aqui discutida apresenta, de fato, uma ligação com a minha prática de ensino e é decorrente das minhas vivencias ao ensinar Química. Na discussão que segue, apresento mais detalhadamente como as questões da linguagem e da significação conceitual foram se tornando tão importantes para mim ao ensinar Química, e por isso, necessárias de serem investigadas mediante a presente pesquisa. 32 2.2 Ser professora, Ensinar Química e Aprender Química: Vivências e Reflexões que Originaram a Temática da Tese Foi na e pela vivência da sala de aula, na minha atuação como professora de Química que se originou a problemática da tese. Ao ensinar Química I, a temática da tese foi ganhando espaços no meu fazer pedagógico, foi se tornando constitutiva da minha prática docente. Para explicar todo esse processo, apresento inicialmente, uma discussão reflexiva sobre como foi a organização metodológica nas primeiras vezes em que ministrei Química I e passo a explicitar como tal prática foi sendo reconduzida e reavaliada mediante a minha formação continuada e as minhas percepções de sala de aula. E, por fim, ressalto que toda essa vivência formativa resultou na proposta de ensino aqui defendida e que consiste na prática da escrita e da reescrita pedagogicamente orientada como caminho para possibilitar a evolução da significação e do significado conceitual em química. Iniciei minha docência no Ensino Superior, como já referi anteriormente, no ano de 2010 ministrando Química I. Nas duas primeiras vezes em que eu a ministrei, segui uma sequência “tradicional”, linear e também fragmentada para abordar os conteúdos. Hoje percebo que estava espelhada, em tal prática de ensino, muito da minha vivência como aluna de um Curso de Graduação em Química Licenciatura. Quando assumi a Química I como professora, era inevitável lembrar-me das minhas aulas de Química Geral, pois foi nesse componente curricular que tive que fazer minha primeira recuperação. Por isso, foi muito marcante na minha trajetória acadêmica. Fiquei em recuperação somente por meio ponto, pensava na época! Hoje, afirmo que foi por muita falta de pensamento químico. Na condição de estudante, do primeiro semestre do curso, não era possível, para mim, perceber a ausência de tal pensamento. Pois aprender química reduzia-se, na maioria das vezes, em reproduzir o que foi dito em aula e não a construir argumentações sobre problemas práticos, envolvendo uma discussão conceitual mais ampla, o que, por sua vez, foi se tornando mais importante no decorrer do Curso e, mais especificamente, na minha atuação 33 como professora pela tomada de consciência14 da importância da significação da linguagem química em sala de aula. Apesar dessas limitações e das críticas realizadas frente à minha formação inicial, muito do que vivenciei estava ainda refletido nas minhas aulas de Química I. Os resultados das notas dos estudantes, o não acompanhamento deles e os estudos teóricos realizados no mestrado/doutorado em Educação nas Ciências começavam a refratar a minha prática de ensino e a inquietar o meu posicionamento em aula. Considerando a „interferência‟ da minha formação continuada sobre a minha prática de ensino, apoio-me em Bakhtin (2006) que salienta que a linguagem não é apenas refletida no sujeito, mas que, ao ser assumida e significada, ela também é refratada e, assim, vai se modificando devido à interpretação própria do sujeito e, com isso, modifica a prática do sujeito. Nesse sentido, a prática de ensino, vivenciada na minha graduação, vinha sendo refratada pelos estudos possibilitados no âmbito do mestrado/doutorado em Educação nas Ciências. Outras vozes começavam a perturbar a minha vida de professora universitária. Exigiam-me mudanças no meu fazer pedagógico e na organização da Química I, pois nada adiantava eu escrever ou ler sobre o ensino de química e não trazer isso para a sala de aula. Era preciso assumir outra postura, acreditar e propor outros instrumentos de ensino. As vivências e as teorias abordadas no decorrer da minha formação continuada confrontavam-se com a minha prática pedagógica. Esse confronto possibilitou-me tomar consciência das limitações da minha prática e da metodologia utilizada. E foi me conduzindo para a temática da presente tese: de oportunizar aos estudantes fazerem uso da escrita e da reescrita em processos orientados para possibilitar a significação conceitual em química e também, de permitir novas compreensões teóricas sobre esse processo pedagógico interativo. Posso dizer que inicialmente eu enfeitava o „ensino tradicional‟, vivenciado na minha graduação, com o encaminhamento de leituras complementares relacionadas aos tópicos de ensino. Os artigos para a leitura eram selecionados por mim, e aos estudantes eu apenas solicitava a escrita de comentários, ou uma análise crítica sobre os mesmos. Nessa metodologia, os textos escritos pelos 14 Entendo tomada de consciência com base em Vigotski (2000, p. 290), e nas palavras do autor, “a tomada de consciência se baseia na generalização dos próprios processos psíquicos, que redunda em sua apreensão”. 34 estudantes não retornavam para eles após as minhas leituras e, reduziam-se, na maioria das vezes, em cópias de fragmentos dos artigos ou do resumo do colega, sem, de fato, oportunizar a necessária evolução conceitual em química para os estudantes. Pois uma escrita morta, mecânica, não consciente, não possibilita avanços cognitivos, não desencadeia novos pensamentos. De um modo geral, a organização do componente curricular de Química I consistia em eu iniciar o conteúdo pelas propriedades gerais da matéria, fenômenos físicos e químicos, modelos atômicos, tabela periódica, ligações químicas e, por último, trabalhar soluções. Essa organização metodológica, nas palavras do meu orientador, professor Maldaner, é conhecida “de cor e salteada” por qualquer professor de Química Geral, pois decorre de uma visão tradicional de ensino, que vai do particular para o geral, numa sequência linear e fragmentada de conteúdos, que tem sido muito criticada junto ao ensino de Ciências/Química. Reafirmo que tal modelo de ensino é reflexo da minha formação inicial e, apesar das refrações possibilitadas na minha formação continuada, mediante discussões, leituras, nos dois primeiros semestres que ministrei Química I, predominou um modelo de ensino muito próximo ao vivenciado na minha formação inicial. Tal vivência remete ao peso da formação inicial docente e retrata a reprodução de modelos de práticas de outros professores no ensino. Com isso fica evidenciado a força dos saberes que são construídos ou internalizados pelas nossas vivências como estudantes, em especial, no decorrer da formação inicial. Nesse âmbito, chamo a atenção para a importância de os licenciandos terem vivenciado a prática da escrita e da reescrita em aulas específicas de química no decorrer da sua formação inicial. Entendo que é importante que eles percebam e tomem consciência da sua capacidade de elaboração fazendo uso da linguagem química. Pois, se o sujeito não tem essa vivência de escrever sobre os conteúdos específicos ficará mais difícil para ele, posteriormente, nas suas aulas, elaborar ou reelaborar algum material didático, por exemplo. Reitero a importância de o professor de química se autorizar a elaborar uma atividade experimental, a propor uma metodologia de ensino ou ainda de escrever sobre a sua aula para assim, poder apresentar nas suas aulas um material pedagógico de elaboração própria. Mas para isso ele precisa de espaços formativos que possibilitem a qualificação da sua prática de escrita iniciando-o no 35 caminho da autoria. Nesse âmbito, destaco que além de possibilitar aos estudantes avanços na sua significação conceitual em química a prática da escrita oportunizou a eles a sua iniciação na escrita. Os estudantes fizeram uso das palavras químicas para explicar diferentes fenômenos e com isso, acredito que para eles, na sua posterior prática de ensino será mais fácil de escreverem fazendo uso das palavras específicas da química. Ressalto que no decorrer da pesquisa, ao propor algumas mudanças na organização de ensino para as aulas de Química I, fui percebendo o quanto é difícil romper com uma organização mental já estabelecida, com a visão de linearidade que perpassa o ensino e que vai constituindo a nossa organização pedagógica de maneira, muitas vezes, não refletida ou não consciente. Percebi a dificuldade e a resistência em superar uma prática de ensino pautada na linearidade e na sequência de conteúdos historicamente estabelecidos no sistema de ensino e que são considerados normais e intransponíveis. Romper com essa lógica não é uma tarefa fácil. Na sala de aula foi preciso um esforço para, muitas vezes, me controlar e não dizer isso será abordado mais adiante, ou então, isso nós iremos estudar daqui a duas aulas. Nesse âmbito, destaco que o processo de refração sobre a prática de ensino é um continuum, ou seja, foi preciso impregnar, de fato, o discurso da mudança, para, assim, nas minhas aulas, propor rupturas mais acentuadas na prática de ensino. E arrisco, ainda, afirmar que o processo de refração pode ocorrer em diferentes níveis de intensidade e que as mudanças no fazer pedagógico são um desafio para cada professor. E que essas tendem a acontecer quando o professor acompanha as suas aulas, como, por exemplo, ao escrever sobre elas. Pois, assim, pela escrita é possível revisitar uma aula, refletir sobre ela e redimensionála. Nesse movimento o professor faz da sua sala de aula um ambiente de pesquisa e passa a qualificar a sua ação docente. Isso tudo requer tempo e dedicação do professor, é mais fácil apenas repetir um modelo de ensino vivenciado e tacitamente aceito pela maioria dos estudantes e dos professores do que se apropriar da linguagem da mudança e assumir outro modo de ensino, mesmo que parcialmente. Para exemplificar a linearidade na abordagem dos conteúdos, na minha prática de ensino, trago para a discussão o conteúdo Soluções que era abordado apenas no final do semestre de Química I. Acreditava que para o estudante 36 entender tal conteúdo seria necessário que ele soubesse algo sobre: ligação química, estrutura da matéria, fenômeno físico, fenômeno químico e força intermolecular. Pensava que, pelo fato de ter apresentado e discutido tais conteúdos anteriormente em sala de aula, os estudantes conseguiriam, por si só, fazer as relações necessárias para compreender a formação de soluções. Essa visão bastante reducionista e tradicional de organização do ensino vai ao encontro dos resultados obtidos por Echeverría (1993), ao entrevistar professores sobre como trabalhavam em suas aulas o conteúdo Soluções. Eu, como professora de Química I, ao trabalhar o conteúdo Solução, fazia uso de diferentes relações conceituais. Trazia, no meu discurso, os conceitos anteriormente apresentados em aula. Porém, uma das dificuldades que fui encontrando consistiu em conseguir com que os estudantes também realizassem as relações conceituais, tão necessárias para a compreensão da formação de soluções. Apesar de ter „ensinado‟ nas aulas de Química I sobre átomo, molécula, ligação química, força intermolecular/interpartícula era, ainda, muito difícil para o estudante perceber e compreender todos esses aspectos na formação de uma solução. Isso indicava que trabalhar os conteúdos na sequência historicamente construída não possibilitava aos estudantes a realização das necessárias relações conceituais e, consequentemente a significação dos mesmos. Também, fui percebendo, pela análise das respostas das provas dos estudantes, as suas dificuldades em explicar fenômenos do dia a dia com o uso correto15 e relacionado de conceitos químicos. Para exemplificar essas limitações, trago uma resposta de uma questão de uma prova realizada no semestre de 2011 (semestre anterior ao da execução da pesquisa). Na questão da prova, foi solicitado, aos estudantes, que fizessem um desenho que representasse a dissolução do cloreto de sódio em água. Um estudante representou tal fenômeno conforme a figura 2 que segue. 15 O termo correto refere-se ao uso de palavras com significados coerentes em Química. 37 Figura 2: Representação da dissolução do NaCl(s) em água Fonte: avaliação, estudante, turma Química I/2011 Para a referida questão, apenas três estudantes, de um total de quarenta, fizeram uma representação considerando aspectos em nível atômico-molecular, identificando a separação dos íons do cloreto de sódio e a sua interação com os dipolos das moléculas de água. Os demais, que responderam a questão, desenharam um copo com água e uma colher com sal de maneira semelhante ao desenho apresentado na figura anterior. O desenho da figura 2 retrata que o estudante, apesar de ter estudado sobre a estrutura da matéria e sobre interações interpartículas/intermoleculares no decorrer de todo o semestre, ao fazer a representação da dissolução do cloreto de sódio em água, fez o desenho no qual predominou o conhecimento empírico, de senso comum. Reproduziu, no final do semestre de Química I, apenas o que visualiza, o aspecto macroscópico do fenômeno. Não fez uso da representação com símbolos químicos, ou seja, não se apropriou da linguagem química. Não foi capaz de usar de maneira consciente os conceitos químicos para explicar um fenômeno observado no seu dia a dia. Talvez, uma das limitações para as respostas decorreu da própria questão, na qual eu deveria ter especificado que “a representação deve ser em nível particular da matéria”, mas tal particularidade, para mim, estava implícita, uma vez que o contexto da pergunta era uma prova de química e, assim, a linguagem requerida é a que contemple os significados históricos da química e as respectivas representações simbólicas dessa área. A resposta apresentada deu-me indícios de que representar um determinado fenômeno, fazendo uso de modelos teóricos químicos mais avançados, ainda era muito difícil para os estudantes, apesar de estarem no término de Química I. O que predomina, num primeiro momento, são os modelos empíricos, e fazer uso de conceitos e de símbolos específicos da química para explicá-los ainda denotava 38 ser um desafio. Essas limitações representacionais, aliado às respostas descritas pelos estudantes nas provas de Química I, foram desencadeando, em mim, uma necessidade de mudanças no meu processo de ensino. Comecei a perceber a necessidade da mediação junto à escrita ou às representações dos estudantes. Estava implícita a importância de estabelecer processos pedagógicos para orientar o estudante, para que ele pudesse perceber, pela mediação, as suas limitações e com isso ter condições de ampliar as suas significações conceituais em química. Vale ressaltar, também, que, ao ensinar o conteúdo soluções, nos semestres anteriores ao do semestre acompanhado pela pesquisa, percebi que os estudantes se mostravam mais familiarizados com tal conteúdo quando eram abordados os cálculos referentes às diferentes concentrações, quais sejam, molar, comum, percentual, fração molar. Essa percepção dos estudantes corrobora os resultados de Echeverria (1993) de que, ainda, prevalece uma visão quantitativa para o ensino de Soluções tanto na organização das aulas quanto nas avaliações, limitando assim as interpretações desse fenômeno. Para exemplificar tal fato, um estudante16 numa aula de química assim se manifestou: a química da escola era diferente, tinha mais cálculo, agora tem mais teoria, mais textos para ler (estudante, turma 2011). Considerando a fala desse estudante, e as dificuldades percebidas em sala de aula, há indícios de que ainda predomina, no ensino da química, a valorização de aspectos quantitativos em detrimento aos qualitativos e que essa também é a visão da química trazida pelos estudantes que chegam à Universidade. Romper com essa visão não é tarefa fácil, mas acredito que é preciso, caso contrário, mantém-se o circulo vicioso. Nesse contexto, afirmo que as problemáticas de aprendizagens vivenciadas nos primeiros semestres em que ministrei Química I, bem como a minha prática de ensino na escola básica e a minha formação continuada foram constituindo as origens e justificam a escolha da temática que perpassa a tese. Destaco, como origem da problemática, o fato de que os estudantes, nas suas respostas escritas, não avançavam na construção de significados químicos e não conseguiam, no final do semestre, fazer as relações mínimas e necessárias entre conceitos químicos. Esses fatores foram se constituindo como indícios da necessidade de 16 Faço uso do termo estudante, ou estudantes no decorrer do texto da tese referindo-me de maneira genérica tanto ao sexo feminino ou masculino. 39 mudar a organização de ensino no componente curricular: Química I, de repensar as minhas aulas e a minha prática docente. E desencadearam algumas perguntas: o que de fato quero priorizar nas aulas de Química I? O que fazer para possibilitar o início da formação do pensamento químico pelos licenciandos ingressos no Curso de Ciências: Biologia, Física e Química Licenciatura, da UFFS? Com base nesses questionamentos, decidi fazer uso de instrumentos pedagógicos em sala de aula que possibilitassem o uso da escrita e da reescrita de textos num processo orientado pedagogicamente no decorrer de todo o semestre. A prática de ensino esteve ancorada na defesa teórica da importância de o estudante fazer uso da linguagem química para, assim, possibilitar a sua apropriação e a evolução do significado conceitual em química. Para isso, a organização geral de ensino no componente curricular Química I teve, também, algumas modificações. Passo a discutir sobre os aspectos da mudança na subseção que segue. 2.3 A Organização Metodológica ao Ensinar Química I Para o componente curricular de Química I, as mudanças possíveis foram pensadas e discutidas por mim, com o apoio do meu orientador professor Maldaner, tornando, assim, a pesquisa da tese menos solitária, pois eu tinha com quem compartilhar as especificidades do ensino da Química. A estrutura curricular que já estava definida no PPC (Projeto Político Pedagógico do Curso), cujo ementário foi anteriormente descrito, não foi alterada, as mudanças consistiram em apenas alguns aspectos, como a maneira de abordar determinado conteúdo ou a alternância da ordem em apresentar os mesmos. Afirmo que fazer essas mudanças, romper com a sequência tradicional de conteúdos, mesmo que parcialmente, foi difícil. Entre as modificações, destaco a inserção intencional de diferentes instrumentos pedagógicos que reconduziram a prática de ensino e possibilitaram uma maior interação com os estudantes. Esses instrumentos estão explicitados na subseção 2.5. Para exemplificar algumas mudanças em relação à abordagem dos conteúdos que foram desenvolvidas nas aulas de Química I, apresento uma 40 discussão sobre a primeira aula, que, na minha avaliação, superou ou redimensionou alguns aspectos da minha organização anterior de ensino e retrata o meu posicionamento em sala de aula. Essas descrições decorrem da análise do meu DB17, bem como da descrição do Plano de Ensino. No primeiro encontro, não iniciei a aula como nos semestres anteriores, com a apresentação clássica da definição de matéria, energia, substâncias, átomos (...), mas levei para a sala de aula o texto “Água: Um líquido Vital”, disponível na revista eletrônica QMCWEB (2011), para ser lido e discutido pelos estudantes. O artigo, em questão, caracteriza-se como texto de divulgação científica e apresenta características próprias de tal gênero discursivo, que se caracteriza por ser mais facilmente compreensível para estudantes iniciados em Ciências da Natureza após o Ensino Médio, em comparação a um artigo científico, com a linguagem própria de uma comunidade científica. Esta é mais elaborada do que aquela e está direcionada para sujeitos que já apresentam domínio do conhecimento científico. Após a leitura do texto, os estudantes discutiram-no em pequenos grupos. Solicitei que cada grupo destacasse as partes principais do texto e que conversassem sobre elas. Posteriormente, foi aberta a discussão no grande grupo. Nesse âmbito, já no primeiro encontro, desafiei os estudantes a lerem um texto que, por ser de divulgação científica, apresentou diferentes conceitos e termos específicos da química relacionados com a linguagem cotidiana. Com isso, os estudantes tiveram a oportunidade de ler sobre os diferentes conceitos químicos importantes de serem significados para o entendimento das diferentes propriedades da água. O objetivo foi identificar, num primeiro encontro, o nível de significação conceitual dos estudantes, inserindo-os na linguagem química num contexto de aplicação conceitual referente às propriedades da água. Importante enfatizar que a escolha do texto, além das características inerentes a qualquer texto de divulgação científica, foi justificada no DB devido a amplitude de conceitos relacionados no decorrer do texto, por exemplo, ao exemplificar as propriedades físico-químicas da água, o artigo aborda 17 No decorrer das aulas de Química I fui escrevendo sobre cada aula, uma prática que, além de ser um campo de dados, foi fundamental para a minha constituição como professora pesquisadora, e por isso, caracterizo o diário não apenas como diário de pesquisa, mas também como diário de bordo. No item 2.4.3 explico com mais detalhes no que consistiu o diário de bordo. 41 também: substância, ligação química, solubilidade, forças intermoleculares, estados físicos, temperatura crítica, soluções, 18 densidade, entre outros (DB, p.02) . Tais conceitos, de um modo geral, correspondem à ementa do componente curricular Química I e, ainda, fazem referência a conceitos químicos já “vistos” em níveis anteriores de escolarização dos estudantes, e, por isso, no meu entendimento, seriam de fácil compreensão. Nesse âmbito, a atividade de leitura e de discussão do texto foi selecionada como sendo um primeiro exercício para possibilitar aos estudantes o contato com as diferentes relações conceituais, bem como com as especificidades da linguagem química, no âmbito do gênero escolar. Na minha organização anterior de ensino, tal texto teria sido encaminhado aos estudantes apenas no final do semestre. Reitero que o fato de trazer o texto no início do semestre, na primeira aula, possibilitou-me fazer uso da linguagem química sem a preocupação de, num primeiro encontro, trazer apenas a definição de cada conceito, mas, ao discutir o conceito num contexto de aplicação, possibilitar aos estudantes a formulação de sua compreensão e definição. Praticamente toda a ementa da Química I esteve em discussão já na primeira aula, com esse primeiro texto, possibilitando aos estudantes um contato com as palavras específicas da química, ou seja, na sala de aula o professor ao fazer uso da palavra considera a significação da mesma. No caso específico, as palavras foram abordadas num contexto de aplicação que consistiu nas especificidades das propriedades da água que são percebidas pelos estudantes no seu dia a dia, mas que ainda não são compreendidas, pelos estudantes, sob um olhar da química. Essa organização metodológica está de acordo com Vigotski (2000) de que é pelo uso contínuo das palavras em diferentes contextos, em aplicações práticas distintas, que é proporcionado aos estudantes a ampliação dos sentidos atribuídos a elas. Izquierdo e Sanmartí (2000) chamam a atenção para o fato de que saber definir um conceito, por exemplo, é um ponto final da aprendizagem. Pois, segundo os autores, para conseguir definir um conceito o estudante precisa saber selecionar aspectos essenciais relacionados ao conceito. Com base em Vigotski (2000), chamo a atenção para o fato de que, a definição de um conceito é um dos processos no decorrer da significação conceitual e não o fim 18 aula dia 29/02/12. 42 propriamente, como entendem Izquierdo e Sanmartí (2000). Também, entendo que a reprodução de uma definição conceitual apresentada em sala de aula está num nível mais avançado do que a sua aplicação propriamente. Ao possibilitar e estimular os estudantes a fazerem uso da palavra em sala de aula, desde o primeiro encontro, já fui apresentando a minha metodologia de ensino, que consistiu numa organização que contemplou princípios do educar pela pesquisa, pois, o uso de diferentes instrumentos culturais da pesquisa como a fala, a escrita e a leitura perpassaram as aulas. Sobre tal aspecto metodológico específico, do educar pela pesquisa, amplio a discussão no capítulo três, ao abordar, na subseção 3.4., a prática da escrita e da reescrita como indícios da pesquisa em sala de aula. Para exemplificar o processo de ensino, sob o olhar dos estudantes, trago, a seguir, algumas posições deles e que foram descritas no questionário de avaliação semestral19 (ver Anexo C). O questionário foi encaminhado aos estudantes no final do semestre para ser respondido de maneira voluntária e anônima. O objetivo foi possibilitar apreender indícios da visão dos estudantes ao cursar Química I e será usado com essa finalidade no texto da tese, ampliando as discussões referentes à prática de ensino vivenciada. Sobre a metodologia de ensino no decorrer das aulas de Química I, um estudante assim escreveu: antes mesmo de rever o conteúdo éramos surpreendidos com as perguntas, mas acredito que isso tenha contribuído para que houvesse um envolvimento maior e empenho por parte de nós alunos (AS_AN43). Nesse âmbito, destaco a importância da postura do professor em sala de aula. É preciso que ele ensine pelo exemplo, que faça os questionamentos em sala de aula, para que o estudante aprenda a questionar e a se envolver no processo de ensino. Nessa direção, outro estudante escreveu que a química deixou-me curiosa e despertou o meu interesse em pesquisar e procurar saber (AS_AN30). 19 O questionário de avaliação semestral aplicado aos estudantes teve como objetivo proporcionar um olhar crítico sobre a metodologia de ensino e os instrumentos pedagógicos utilizados no decorrer do semestre. Os estudantes foram convidados a responder ao questionário de maneira anônima. Os textos dos estudantes foram transcritos, com algumas correções gramaticais, mas com o cuidado em não modificar o sentido do texto. Apresentam-se em itálico e a identificação para essas transcrições apresenta o seguinte código: AS_AN 1, 2, que significa: Avaliação Semestral, Anônimo seguido pelo Número de Ordem para cada estudante, 1, 2, 3 .... O questionário foi aplicado nas duas turmas e 43 estudantes o devolveram respondido. 43 Esses posicionamentos denotam a percepção dos estudantes de que, de fato, a sua participação, a necessidade de buscarem conhecimentos, de realizarem leituras, eram importantes no decorrer do semestre. Especificamente isso ficou mais evidenciado na afirmação do estudante, AS_AN43 anteriormente referida, ao dizer que antes mesmo de rever o conteúdo, éramos surpreendidos com as perguntas. Ainda sobre o processo de ensino reitero que, tanto em trabalhos em grupos, em aulas expositivas, como em discussões teóricas é preciso uma orientação qualificada do professor. É importante que o professor adote uma organização metodológica que possibilite a explicação dos conteúdos em sala de aula e que oriente os caminhos de busca aos estudantes. Entendo com o referencial histórico cultural que a relação assimétrica estabelecida em sala de aula é condição para a aprendizagem. Esse entendimento ficou evidenciado numa descrição do DB: [...] nas discussões [os estudantes] precisam de uma fala minha para continuar (p. 39)20. O estudante aprende com o outro mais capaz, seja ele o colega, seja o professor, mas é o professor que tem condições de perceber com mais clareza e com mais qualificação as limitações conceituais dos estudantes e de orientar o diálogo possibilitando avanços na significação conceitual dos estudantes. A importância da orientação, da interação discursiva estabelecida em sala de aula, ficou evidenciada na construção dos resultados, e essa discussão é apresentada no capítulo seis. Especificamente a interação discursiva se configurou como uma categoria emergente de análise no processo da ATD. A explicação da organização metodológica das aulas de Química I remete para a necessidade da explicitação dos instrumentos pedagógicos utilizados e que perpassaram as aulas. Foram estes que possibilitaram o uso da linguagem química mediante a prática da escrita e da reescrita num processo orientado. A apresentação e a organização metodológica de cada um dos instrumentos pedagógicos é o tema central da subseção que segue. 2.4 Instrumentos Pedagógicos nas aulas de Química I 20 In DB, dia 12/09/12 44 Com a metodologia de ensino adotada em sala de aula, na perspectiva de proporcionar espaços formativos para a evolução na significação conceitual com o uso da linguagem química, os estudantes no decorrer das aulas fizeram uso de diferentes instrumentos pedagógicos que possibilitaram a prática da escrita e da reescrita. Os instrumentos foram: caderno de anotações; provas descritivas; reescrita orientada das provas e elaboração de mapas conceituais. Além desses, também apresento, no final desta subseção, o meu DB, que foi escrito após cada aula de Química I. Este me possibilitou uma maior compreensão do processo pedagógico vivenciado. Os textos produzidos pelo uso dos instrumentos pedagógicos e do DB foram, após critérios de seleção, constituindo o corpus da pesquisa. E para a construção dos dados da pesquisa e para a sua análise, fiz uso de princípios metodológicos da ATD, como referido na introdução da tese. Importante também destacar que os textos produzidos pelos estudantes no decorrer das aulas de Química I foram objetos de avaliação. Em relação à avaliação e aos registros de notas, há uma orientação, na UFFS, de que os registros das notas devem ser subdivididos em dois momentos: um na metade do semestre e o outro no final. Os registros contemplam a Nota Parcial I (NP1) e Nota Parcial II (NP2). Ficam ao critério de cada professor as composições das Notas Parciais, com orientações, de que as mesmas, não sejam apenas provas. Na Química I, por exemplo, os textos produzidos nos diferentes instrumentos pedagógicos, anteriormente referidos, foram constituintes das Notas Parciais em outras palavras, os instrumentos pedagógicos consistiram em instrumentos de avaliação. Essa multiplicidade de instrumentos de avaliação indicia avanços e inovações no processo de avaliação em química como foi possível de ser evidenciada nos posicionamentos dos estudantes e que foram escritos na avaliação semestral. Um estudante escreveu: as avaliações foram muito boas, sempre divididas em provas, caderninho e trabalhos (AS_AN19). Outro estudante destacou que, um dos pontos positivos é a forma de divisão de notas, há trabalhos, o caderno de anotações, a prova e a sua reescrita e todas me ajudaram a entender mais química (AS_AN14). Ficou indiciada, nas escritas dos estudantes, a contribuição dos diferentes instrumentos para o seu aprendizado em química. Ao considerar as condições históricas de ensino e de avaliação no ensino da Química, é possível perceber que tem predominado a visão quantitativa tanto de 45 ensino e como de instrumentos de avaliação. No âmbito de tal visão, há uma ampla valorização do uso de fórmulas e de cálculos em detrimento da interpretação, da discussão teórica e do uso da escrita ou da leitura. Em química, como avaliação, há o predomínio de provas que apresentam questões de múltipla escolha, por exemplo. Sobre tal mecanismo de avaliação, Lemke (1997, p. 184, trad. própria) diz que “não valorizam a habilidade dos estudantes para ir mais além da memorização de palavras”.21 Assim, as mesmas não possibilitam aos estudantes um avanço na sua significação conceitual, e, da mesma maneira, os seus resultados não podem servir de indícios de que o estudante tenha realmente aprendido química. Parto do entendimento de que reproduzir o que o professor disse em aula ou, ainda, apenas marcar uma resposta certa numa prova não são indicativos de aprendizagem, pois tais atividades não representam o uso consciente dos conceitos específicos da química, frente a uma situação prática, considerando as suas relações e especificidades. Acredito que saber utilizar conceitos da Química em situações práticas pode permitir a apreensão de indícios sobre o nível de apropriação conceitual do estudante e da sua significação conceitual, o que, por sua vez, não é possível de ser percebido apenas na reprodução simples das palavras. Assim, reitero que apenas aprendeu química quem é capaz de fazer uso dos conceitos químicos de maneira consciente para explicar diferentes fenômenos. Nas aulas de Química I, os diferentes instrumentos pedagógicos que contemplaram a escrita e a reescrita de textos tinham como objetivo possibilitar que os estudantes fizessem uso da linguagem química e que avançassem na sua significação conceitual em química com a ajuda sistemática das minhas orientações. Destaco que cada instrumento apresentou particularidades de aplicação e de organização metodológica. A escrita no caderno de anotações, por exemplo, era realizada, na maioria das vezes, fora da sala de aula, permitindo, com isso, que os estudantes tivessem acesso a um número maior de materiais de pesquisa. Após cada entrega do caderno, eu fazia as necessárias correções e orientava a reescrita de cada estudante. Já as provas, eram aplicadas num 21 “no valoran la habilidad de los educandos para ir más allá de memorizaciones de palabras” (LEMKE, 1997, p. 184). 46 contexto diferenciado do caderno de anotações, consistiam, num primeiro momento, num trabalho individual e sem material de consulta. E, num segundo momento, foi proporcionada a reescrita de algumas respostas das provas mediante orientações direcionadas. Os mapas conceituais foram elaborados por grupos de alunos no final do semestre. Parte do trabalho da sua elaboração foi realizada em aula, e a sua socialização ocorreu, também, em sala de aula para todos os estudantes. Assim, cada instrumento pedagógico apresentou a sua metodologia, as suas contribuições e também limitações no decorrer do processo. Apresento, em seguida, uma descrição mais detalhada de cada um dos referidos instrumentos e do DB. Faço, também, uma explanação sobre a participação dos estudantes na pesquisa e sobre o compromisso ético estabelecido no desenvolvimento da mesma. Uma discussão mais ampla sobre a contribuição e a limitação dos instrumentos pedagógicos e também sobre o DB, encontram-se nos capítulos cinco e seis da tese. Nestes, a atenção é para as categorias de pesquisa construídas no decorrer da ATD, as quais perpassam os indícios de apropriação e de evolução do significado conceitual mediante o uso qualificado e consciente da linguagem química em sala de aula, a minha constituição de professora pesquisadora, a compreensão da ID estabelecida e a discussão mais específica referente a alguns aspectos da LCE. Em seguida explico como foi a participação dos estudantes na pesquisa, uma vez que a maior parte do corpus consistiu nos textos elaborados pelos estudantes pelo uso dos diferentes instrumentos pedagógicos no processo de ensino acompanhado. 2.4.1 A Participação dos Estudantes na Pesquisa Na primeira aula de Química I, todos os estudantes foram convidados a participar como sujeitos da pesquisa. Para isso expliquei a temática da mesma e encaminhei aos estudantes o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (ver Anexo B), o qual apresenta os preceitos éticos da pesquisa e garante, entre outros, o anonimato dos sujeitos participantes e autoriza-me a fazer uso dos textos produzidos pelos estudantes no decorrer das aulas de Química I. Importante ressaltar que, independentemente da autorização da sua participação na pesquisa, os textos dos estudantes foram corrigidos, avaliados e as suas reescritas orientadas no decorrer das aulas de Química I. Pois, como já 47 referi anteriormente, os textos dos estudantes independente da pesquisa, constituíram os instrumentos de avaliação do semestre. No decorrer da tese os textos dos estudantes e os textos escritos por mim estão apresentados em itálico. Para as transcrições foram preservados os conteúdos e realizadas apenas algumas correções ortográficas. Os sujeitos são nominados de estudantes, sem fazer nenhuma distinção entre os sexos. Na subseção 6.1, para ser possível a localização dos textos de cada um dos estudantes, fiz uso de letras (A, B, C, D, E, F e G) para a sua nominação. Ressalto que a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ) pelo Parecer Nº. 317/2011. Reitero, também, que os textos dos estudantes permanecerão arquivados (por um período mínimo de cinco anos). Além dos textos dos estudantes que foram selecionados para análise mediante critérios explicitados no capítulo cinco, também, constituíram o corpus de análise os textos escritos no meu DB, o qual foi escrito após cada aula de Química I. Para a construção dos resultados da pesquisa os princípios metodológicos consistiram na metodologia a ATD. As categorias de análise estão descritas e discutidas no capítulo cinco e seis. Passo em seguida a explicar sobre cada um dos instrumentos pedagógicos utilizados nas aulas de Química I, iniciando pelo caderno de anotações. 2.4.2 Os Cadernos de Anotações dos Estudantes A sistemática do uso de cadernos de anotações foi apresentada/explicada aos estudantes no primeiro dia de aula. Aliado a isso, foi apresentada a eles a temática da presente pesquisa e o convite para a sua participação na mesma. Após a primeira aula, encaminhei três questões para serem respondidas no caderno de anotações, caracterizando-se numa primeira prática de escrita22. Ressalto que o caderno de anotações não era o mesmo caderno costumeiramente utilizado em aula pelo estudante para fazer anotações. Era um caderno com outra finalidade no qual os estudantes respondiam questões encaminhadas nas aulas, escreviam sobre as aulas experimentais e/ou escreviam 22 a primeira questão, e as suas reescritas foram selecionadas para a análise, e os resultados estão descritos na subseção 5.1. 48 sobre leituras encaminhadas e a maioria das escritas nesse caderno não foram realizadas em aula. Ressalto que a escrita solicitada para as aulas experimentais não seguiu o formato tradicional de um relatório de laboratório. Foi solicitado aos estudantes que descrevessem o procedimento experimental, com atenção para as explicações teóricas inerentes ao experimento. O meu objetivo, com essas orientações, era estimular a escrita sobre o experimento e o pensamento do estudante sobre o mesmo. Não exigi dos estudantes as subdivisões, os itens obrigatórios de um relatório e, por isso, não caracterizo as escritas do caderno de anotações como relatório. Reitero que essa escolha foi devido à metodologia de ensino que estava propondo, no sentido de que a preocupação do estudante, ao escrever, estivesse voltada para as explicações teórico-práticas e não tanto para a estruturação da escrita, nos padrões específicos de um relatório. Não quero, com isso, dizer que escrever um relatório com todas as partes não é importante. Com certeza é também fundamental para a formação profissional do estudante. Mas, como os estudantes de Química I estão apenas no início do Curso, terão ainda várias oportunidades para aprender a escrever o formato convencional de um relatório científico em outros espaços formativos. Mesmo assim, ao ler a escrita dos estudantes sobre a prática experimental, a minha orientação consistiu em padronizar os termos usados visando às características próprias da linguagem científica. Na primeira escrita da aula experimental, por exemplo, os estudantes usaram, na sua escrita, termos usuais da linguagem cotidiana como, colocamos, botamos. Sugeri que, na sua reescrita, utilizassem termos mais voltados à linguagem científica, como acrescentou-se, transferiu-se. Também, ao descreverem sobre a liberação de bolhas numa reação química, alguns estudantes utilizaram a palavra ferveu. Orientei para o uso de observou-se uma efervescência, ou, ainda, observou-se a formação de bolhas. Essas orientações, pelo uso correto da linguagem científica junto aos textos dos estudantes, tinham como objetivo possibilitar aos estudantes que, pelo uso correto das palavras químicas, fossem ampliando os sentidos atribuídos às palavras na direção do significado químico historicamente estabelecido para elas. Portanto, no processo da escrita das práticas experimentais, apesar de não solicitar as partes específicas e tradicionais de um relatório, fui orientando a escrita para o uso de termos específicos da linguagem científica, com atenção 49 para as especificidades dessa linguagem. Prain (2006, p. 184, trad. própria), ao discutir sobre o aprendizado em ciências e o uso da escrita em seu ensino, com base em alguns autores, afirma que “a escrita para a aprendizagem em ciência no âmbito escolar deve concentrar-se principalmente em gêneros tradicionais da ciência, porque esses gêneros representam as práticas específicas de representação da comunidade científica”.23 Os estudantes precisam ser iniciados nas especificidades da linguagem científica, e, apesar de não ter exigido todas as partes de um relatório tradicional, fui mediando a linguagem dos estudantes para o uso de termos mais específicos e com o uso de representações inerentes à linguagem da Química. Por outro lado, outros trabalhos pesquisados por Prain (2006) ampliam a visão da escrita apenas como apropriação do gênero discursivo (Scardamalia 1987, Torrance e Galbraith 1999, Klein 1999, Gianello 1988) e defendem-na como um recurso para permitir aos alunos entenderem os conceitos da ciência, o método científico e as práticas para além da sala de aula. E o objetivo ao possibilitar aos estudantes a escrita e a reescrita consistiu em possibilitar um maior nível de entendimento conceitual em química, visando o aprendizado. Ainda sobre o caderno de anotações, é importante explicitar como foi o processo de reescrita dos textos no decorrer do semestre: cada estudante tinha o seu caderno de anotações. A sua entrega para correção, para o encaminhamento das orientações foi sistemática no decorrer do semestre. Os estudantes entregavam os cadernos de anotações, eu fazia a correção, escrevia os comentários para cada escrita e os devolvia na aula seguinte. Novas questões somente eram encaminhadas para serem respondidas no caderno quando estes estavam com os estudantes. Com isso limitava o tempo de uma semana para a escrita das orientações e retornar o caderno aos estudantes para as reescritas e para novos questionamentos. No final do semestre, totalizaram-se cinco entregas dos cadernos de anotações para a correção e a orientação. Após a primeira correção, a orientação para a reescrita foi mediante comentários descritivos em cada um dos cadernos. Escrevi um comentário para cada 23 uma das questões respondidas. Os comentários consistiram de “advocates of this orientation argue that writing for learning in science should focus mainly on traditional school science genres because these genres represent the enduring specific representational practices of the science community” (p. 184). 50 apontamentos sobre limitações conceituais percebidas nas respostas, indicativos de caminhos teóricos para serem pensados ou, ainda, de novas perguntas para serem respondidas. Todas as orientações encaminhadas tiveram como objetivo ampliar o diálogo sobre o tema, sobre o conteúdo com a intenção de possibilitar que os estudantes atingissem níveis de apropriação e de significação mais avançados. Na primeira correção, dos 90 comentários escritos, alguns se caracterizavam por ultrapassar uma página, e muitos tinham características semelhantes, pois os estudantes apresentavam em seus textos erros parecidos, os quais implicavam, por sua vez, orientações semelhantes. Tais percepções, bem como o montante de trabalho em escrever cada comentário, fizeram-me reavaliar a metodologia empregada para a orientação. A alternativa encontrada consistiu na elaboração de símbolos para nortear a reescrita. Assim, no decorrer da segunda correção, ao ler as respostas dos estudantes, elaborei uma folha com símbolos (ver Anexo D) que padronizavam a indicação para a reescrita e facilitavam, também, a minha orientação. Na segunda correção do caderno de orientação, já fiz uso desses símbolos para orientar a reescrita dos estudantes. Assim, ao entregar os cadernos pela segunda vez, entreguei, também, a cada estudante uma folha com os símbolos e os seus significados. Da mesma forma, expliquei as novas orientações, atentando para as especificidades de cada símbolo. Nas correções posteriores além da inserção dos símbolos, na maioria delas, foi necessário ampliar as orientações e escrever alguns comentários adicionais. As potencialidades e as limitações referentes à metodologia empregada para orientar a reescrita dos estudantes e as contribuições e as limitações da escrita e da reescrita no caderno de anotações na apropriação e na evolução do significado conceitual em química estão descritos nos capítulos 5 e 6, no qual apresento a construção e a análise dos dados obtidos mediante princípios metodológicos da ATD. Com atenção para a apropriação e a evolução conceitual em química, para a interação discursiva estabelecida e para as especificidades da LCE que foram percebidas no decorrer da análise de da construção dos dados. Sobre a escrita dos cadernos, um estudante, escreveu: do Caderno gostei muito, aprendi muito, mas também achei bem complicado no início (AS_AN06). O posicionamento desse estudante reflete a necessidade do aprender a escrever 51 nas aulas de química e o caderno tornou-se um desafio, pois era preciso saber argumentar sobre determinado assunto. Adianto, com base na experiência vivenciada, que inserir a escrita nos espaços de ensino, em especial no ensino da química, pode ser cada vez mais implementado para possibilitar, de fato, a aprendizagem química dos estudantes. Além do caderno de anotações, outro instrumento pedagógico e, por sua vez, de avaliação, foi a reescrita das respostas das provas. Passo a escrever sobre esse processo de reescrita, explicando a sua organização e a sua organização metodológica. 2.4.3 Reescrita das respostas das Provas Outro instrumento de avaliação, que também compõe o corpus da pesquisa, consistiu nas reescritas de algumas das respostas das questões das provas realizadas no decorrer do semestre. As provas foram respondidas de maneira individual e sem consulta e, após cada prova, foi possibilitado aos estudantes, em pequenos grupos, realizarem a reescrita de algumas respostas. O objetivo foi o de possibilitar ao estudante perceber limitações em seu entendimento manifestado na primeira escrita, discuti-las no grupo e fazer a reescrita. Ainda, em relação às provas, destaco que as mesmas contemplavam, na sua maioria, questões descritivas, das quais algumas apresentavam características mais tradicionais, visto que apenas solicitavam aos estudantes a escrita de fórmulas, de nomes das substâncias, ou se resumiam em classificações de compostos. Respostas para essas questões eram mais diretas e, de certa maneira, de memória direta, sem necessidade de os estudantes fazerem relações com outros conteúdos. Por sua vez, foram as mais respondidas pelos estudantes. Isso indica que os estudantes estão acostumados a esse tipo de questões. Já nas outras questões, mais abertas, era exigida do estudante uma maior habilidade argumentativa, pois, para respondê-las era preciso escrever sobre algum conceito e realizar algumas relações conceituais. Dessas, muitas não foram respondidas pelos estudantes ou, então, as suas respostas não contemplavam corretamente a questão, implicando a necessidade de serem reescritas. Chamo a atenção para o fato de que foram as respostas de caráter argumentativo que possibilitaram uma melhor visualização de indícios da 52 significação conceitual dos estudantes. E foram essas as respostas analisadas para a discussão referente à apropriação e a significação conceitual que apresento no capítulo 5. A reescrita das respostas das provas foi realizada em grupos de estudantes previamente organizados por mim. Para tanto, considerei a importância dos processos interativos entre os pares, acreditando no aprendizado de um com a ajuda de outro mais capaz. Nesse contexto, o critério para a seleção dos integrantes dos grupos para a realização da reescrita foi a variação das notas dos estudantes obtidas nas provas. Integrava o grupo um estudante com maior nota, um com nota intermediária e um com a menor nota. Justifico tal escolha pensando com Vigotski (2000) de que é possível haver interações favoráveis apenas quando há uma assimetria entre os sujeitos envolvidos. O que também remete para o entendimento de que qualquer processo pedagógico é de natureza assimétrica e requer uma interação qualificada entre os sujeitos, no caso, os próprios pares. Para realizar as reescritas, os estudantes nos seus grupos, receberam algumas respostas descritas na prova, estas respostas foram selecionadas por mim. Os erros dessas respostas eram representativos das limitações conceituais mais comuns percebidas na correção de todas as provas. Portanto, apesar de nem todos os estudantes receberem a sua resposta para ser reescrita, a seleção das respostas, por ser representativa dos erros, permitia aproximar a reescrita com as reais dificuldades dos estudantes. Ressalto que essas limitações conceituais apenas foram possíveis de serem percebidas pelo fato de os estudantes fazerem uso da linguagem química ao responderem questões que exigiram a argumentação e a explicação de diferentes situações práticas. Para a reescrita as orientações encaminhadas consistiram na solicitação de o grupo analisar, corrigir ou, ainda, ampliar a resposta inicial dada a uma questão da prova. Um objetivo dessa prática foi o de proporcionar aos estudantes uma maior atenção para as limitações conceituais cometidas nas respostas das provas no entendimento dessa prática como um caminho para possibilitar-lhes a tomada de consciência sobre as suas limitações em termos de significados químicos, para, assim, com as orientações encaminhadas, redimensionarem o seu pensamento. 53 Outro objetivo foi o de possibilitar aos estudantes que, ao lerem as respostas, percebessem as particularidades da linguagem química e a necessidade de aprender essa linguagem e de atribuir mais atenção para as palavras escritas. Mais: que pensassem sobre a importância da interpretação da pergunta, bem como, da necessidade de (re)lerem a sua resposta escrita em uma prova. Enfim, que assumissem a sua responsabilidade de estudantes ao responderem uma questão na prova, pois muitos respondiam as questões das provas com muita pressa, sem um posicionamento responsivo frente às mesmas. Esse comportamento é necessário de ser internalizado pelos estudantes. Outro instrumento pedagógico utilizado nas aulas de Química I foi elaboração de um mapa conceitual. Faço em seguida uma explanação sobre este instrumento justificando o seu uso na prática de ensino vivenciada. 2.4.4 Mapas Conceituais24 A escolha pelo uso dos mapas conceituais como instrumento pedagógico está ancorada no entendimento de que a sua elaboração possibilita uma forma diferenciada de relacionar os conceitos, exigindo dos estudantes, pensamento integrado. Ao mesmo tempo em que o mapa conceitual exige dos estudantes o estabelecimento de diferentes relações entre os conceitos, implica, também, sua divisão, na definição conceitual. Na medida em que o estudante vai construindo o seu mapa conceitual, lhe é possibilitado à ampliação da sua teia conceitual e com isso, há avanços na significação que o estudante atribui para determinado conceito. Nesse contexto acredito que a elaboração dos mapas conceituais possibilita uma aprendizagem significativa (aprendizagem que possibilita a relação entre conceitos), pois um mapa conceitual implica também uma relação hierárquica entre conceitos. Nesse sentido, essa prática de ensino vai ao encontro da defesa de Vigotski (2000) de que um conceito apenas é compreendido na medida em que se relaciona com outros conceitos com diferentes níveis de generalidade. No entendimento de Moreira (2010, p. 11) “mapas conceituais são diagramas de significados, de relações significativas; de hierarquias conceituais 24 O termo mapas conceituais tem como aporte teórico Moreira (2010). 54 [...] não buscam classificar conceitos, mas sim relacioná-los e hierarquizá-los”. Entendo também, que a construção de mapas conceituais permite a superação da ideia de que o significado do conceito está no próprio conceito, pois possibilita ao estudante ampliar o significado atribuído a um determinado conceito partindo das diferentes relações que ele consegue atribuir entre os diferentes conceitos. Nesse sentido, tem-se uma visão de língua viva, na qual os conceitos estão interligados, em que a significação conceitual pode evoluir na construção e na reconstrução dos mapas conceituais. O processo de construção do mapa conceitual permite que os estudantes percebam as necessárias e as possíveis relações conceituais, com uso dos verbos de ligação de maneira coerente entre os conceitos. Reitero que o esforço de construção dos mapas conceituais supera uma visão simplista de que se apropriar de um conceito é apenas saber enunciar uma definição pré-estabelecida para o mesmo, num processo apenas memorizado. Nessa concepção de ensino, entende-se que, se o estudante sabe repetir a definição estática de um conceito, ele, de fato, detém o seu significado. Parte-se de uma concepção de língua morta. Lembra-nos Vigotski (2000) de que esse método de ensino, da simples reprodução verbal, é a principal falha do método “escolástico de ensino”. Pois para possibilitar a significação conceitual pelos estudantes, é preciso que eles entendam e percebam as diferentes relações conceituais, que compreendam que um conceito está interligado aos demais, para, assim, possibilitar a formação inicial do seu pensamento químico. Assim, a compreensão e a sistematização de uma definição conceitual não se reduzem à sua simples reprodução, mas consistem em partir de aspectos conceituais essenciais e relacionados, fazendo uso consciente das palavras necessárias. Destaco, de maneira antecipada, que a construção dos mapas conceituais pelos estudantes, aliada aos demais textos produzidos pelos instrumentos pedagógicos, possibilitou-me perceber indícios das limitações e das evoluções conceituais dos estudantes. Nos mapas conceituais isso foi possível pela análise das relações conceituais que eles estabeleceram. Para a construção dos mapas conceituais, as turmas foram divididas em grupos, cada grupo com três estudantes. Cada um dos grupos ficou responsável pela construção de um mapa conceitual, as temáticas escolhidas para os mapas estavam de acordo com a ementa de Química I e foram subdivididas em: Substância, Ligação Química, Força Intermolecular e Solução. A construção dos dados, que apresento no 55 capítulo 5, foi mediante a análise dos mapas conceituais sobre Força Intermolecular e Solução, pois tais temáticas, na minha avaliação, contemplam os diferentes conceitos abordados na Química I. Para fazer um comparativo e para possibilitar a avaliação dos mapas conceituais construídos pelos estudantes, elaborei um mapa conceitual, denominado como mapa „padrão‟ (ver anexo E), para cada uma das temáticas propostas. O objetivo da comparação entre os mapas conceituais não foi para dizer que o mapa elaborado por mim é o melhor ou o verdadeiro, mas para identificar minimamente algumas relações básicas e necessárias, que no meu entendimento, seriam importantes de serem realizadas para possibilitar a significação conceitual em química para determinada temática. Também, em sala de aula, o mapa padrão serviu como recurso pedagógico para mostrar aos estudantes a possibilidade da construção de diferentes mapas conceituais para um mesmo assunto. Apesar de, em sala de aula, ter sido pouco o tempo destinado para a orientação e discussão dos mapas conceituais, alguns grupos de estudantes se organizaram e tiveram mais orientações em horário extraclasse. Com isso, o processo de reconstrução dos mapas pelos estudantes foi, na minha avaliação, muito válido, pois permitiu que eles ampliassem algumas relações conceituais estabelecidas. Destaco que, no processo de orientação, chamou-me a atenção o mapa conceitual de dois grupos, cuja temática foi Substância. Quando me mostraram o primeiro esboço do mapa ainda em construção, identifiquei, em ambos, a seguinte relação: substância - é – mistura. Essa relação mostrou-me que ainda o conceito substância não estava claro para os estudantes ou que, ao construir o mapa conceitual, houve pouca atenção para as relações escritas mediante o uso de conectores, dos verbos de ligação utilizados. Talvez quisessem escrever: substância - é constituinte de uma - mistura, o que implicaria numa outra dimensão do que a afirmação realizada. Chamo a atenção para o fato de, muitas vezes, os estudantes não apresentarem o hábito de reler o que escreveram e, assim, não identificam e não corrigem os erros conceituais cometidos. A falta de atenção dos estudantes, em relação ao que escreveram, já foi referida anteriormente quando destaquei os erros cometidos nas respostas das provas. 56 Ressalto novamente que, mediante a análise dos mapas conceituais, foi possível identificar, de outra maneira, o nível de significação conceitual dos estudantes mediante as relações conceituais estabelecidas, daí a importância desse instrumento pedagógico, os resultados construídos estão descritos no capítulo cinco da tese. Acredito que a apresentação dos mapas conceituais pelos estudantes, em sala de aula, não possa ser considerada como uma finalização da sua construção, mas apenas uma etapa, e que, pelo olhar do professor e dos colegas, cada estudante possa perceber a necessidade da ampliação da sua construção para além das aulas de Química I. Apresento, a seguir, o DB que também foi utilizado no decorrer das aulas de Química I, porém, o seu uso ocorreu de maneira diferenciada dos instrumentos pedagógicos anteriormente explicitados. Não foi escrito pelos estudantes. Não consistiu em instrumento de avaliação, mas, por sua vez, potencializou a minha avaliação sobre cada aula de Química I. O DB foi escrito após cada aula de Química I e constitui também um valioso corpus da pesquisa. 2.4.5 O Diário de Bordo25 Após cada aula de Química I, eu reservava um tempo, ainda na Universidade, para escrever sobre a aula. Na escrita, destaquei os aspectos que mais me chamaram atenção da aula ministrada. No DB estão apresentadas frases dos estudantes, questionamentos, aspectos da metodologia de ensino adotada, a minha percepção da aula, enfim, o seu texto consiste num „desabafo docente‟ que foi realizado após cada aula. Nesse sentido, o escrever no DB permitiu-me compreender, pela tomada de consciência, os acontecimentos da aula a partir de relações subjetivas que foram sendo constituídas entre todos os sujeitos: eu, professora, e os estudantes. Escrever o DB foi se constituindo em um movimento de reflexão na e sobre a prática docente e, nos textos descritos, é possível encontrar desde a transcrição de questionamentos, de diálogos ocorridos na sala de aula, até um diálogo particular, que ocorria comigo e com a minha prática de ensino. Esse diálogo foi (re)conduzindo as minhas aulas e reconstituindo-me. Para a prática da escrita, 25 O termo diário de bordo tem como aporte teórico Porlán e Martín (1997). 57 como a desenvolvida no DB, há outras muito semelhantes que são denominadas de portfólio, ou ainda de diário de pesquisa. A minha escrita, apesar de estar vinculada à pesquisa, à tese, não consistiu apenas num diário de pesquisa, pois, na escrita, a atenção foi ampliada para o processo pedagógico vivenciado em cada aula, sendo, portanto, um DB. Barbosa e Hess (2010), ao defenderem a escrita nos diferentes níveis de ensino, apresentam essa prática com a denominação de Jornal de Pesquisa (JP). Os autores não usam o termo diário de pesquisa ou DB, pois defendem o JP como sendo um instrumento que visa à socialização da escrita, tornando-a pública, enquanto, na interpretação dos autores, o DB seria algo mais pessoal, vinculado ao seu uso original. Ao olhar para o diário de professor descrito por Pórlan e Martín (1997), é possível perceber que esses autores defendem a sociabilidade do mesmo, enfatizando a importância da troca de leituras entre pares. E essa, também, é a visão de DB aqui defendida, qual seja, de o mesmo ser um instrumento que auxilie na reflexão individual e coletiva do fazer docente e não de ser um mecanismo individual e fechado do professor. E assim, as minhas escritas estão socializadas no decorrer da tese. Na minha investigação, o DB configurou-se como um rico espaço para a reflexão sobre a prática docente, permitiu-me dar mais atenção aos processos de interação estabelecidos na sala de aula, bem como, permitiu-me perceber a ausência deles ou as suas limitações. A minha escrita e a minha atenção na sala de aula foram direcionadas para a temática que eu estava pesquisando, isto é, a apropriação e a significação da linguagem química pelos estudantes. Com isso, no DB, apesar de apresentar uma análise da metodologia da aula, aparecem descritos questionamentos e respostas dos estudantes26, os quais me faziam pensar sobre a importância de estabelecer, em sala de aula, espaços para que o estudante fizesse uso da linguagem química, bem como para que ele percebesse a necessidade de ampliar os significados conceituais mediante a escrita orientada. Nas respostas ou no silêncio da aula, foi possível perceber as diferenças ou aproximações das significações conceituais estabelecidas entre mim e os estudantes. Nesse sentido a constituição docente (CD) é uma categoria de análise 26 Estes registros contribuíram na construção da categoria emergente de análise: Interação Discursiva em sala de aula, discutida no capítulo seis. 58 que emergiu da leitura do DB, pelas observações descritas, quanto ao fazer docente em sala de aula, ao retratar as angústias e as incertezas da prática. Sobre isso, amplio a discussão no capítulo seis, ao realizar uma metarreflexão sobre a prática docente, sobre o processo pedagógico interativo vivenciado, tendo como aporte os resultados construídos mediante a análise dos textos escritos no DB. Também destaco que foi a primeira vez que realizei essa prática de escrita, portanto, estava-me constituindo como professora que escreve na e sobre a sua prática. Pelo processo de escrita, percebia limitações na minha prática docente, que, antes, não eram por mim significadas ou conscientes, como, por exemplo, quanto à minha linguagem utilizada em sala de aula e aos símbolos químicos empregados, da sua importância por estarem voltados a estudantes que estão iniciando o estudo da química. Reafirmo, com isso, a importância do professor de química fazer uso correto da simbologia química e de significá-la junto aos estudantes, pois, apesar de eles já terem „visto‟ química nos anos anteriores de ensino, é preciso, sempre, a atenção do professor para os diferentes sentidos atribuídos para as palavras, em especial para os símbolos e as palavras que constituem a linguagem química. Algumas particularidades da linguagem química podem, muitas vezes, passar despercebidas por quem já está inserido nessa linguagem, mas, para quem está iniciando, pode até configurar-se num obstáculo para entendimento. Na química, por exemplo, é preciso que o professor perceba e chame a atenção dos estudantes para a diferença do significado conceitual ao escrever Na ou Na(s), ou ainda, Na+(aq). Tal exemplo consiste em algumas das outras particularidades que fui percebendo ao prestar mais atenção na minha própria linguagem em sala de aula e da importância de o professor perceber e estar atento a essas particularidades e explicitar as diferenças aos estudantes. A partir da própria vivência, concordo com Barbosa e Hess (2010) que destacam que é no processo de escrita e de reescrita, de leitura e de releitura que o aluno se faz como alguém que pensa e que significa o que faz. Daí a importância de o professor escrever sobre a sua prática, para pensar mais sobre ela e ampliar os significados do seu fazer pedagógico. O escrever sobre a aula permite ao professor tomar consciência da sua ação e, assim, buscar melhorá-la. Como já escrevi anteriormente, os resultados e uma discussão mais ampla sobre 59 a minha CD e a ID estabelecida em sala de aula estão descritas no capítulo seis da tese, e consistem numa metarreflexão sobre a prática de ensino vivenciada. Após apresentar, neste capítulo, de maneira geral o contexto de ensino que foi vivenciado e, também, os diferentes instrumentos pedagógicos que perpassaram as aulas de Química I, apresento, no capítulo seguinte, uma discussão referente à linguagem que é constituinte da prática de ensino na sala de aula, e que precisa ser valorizada e mediada pelo professor, em especial, nas aulas de química, para assim tornar-se significativa para os estudantes. A questão da particularidade da linguagem que o professor usa em sala de aula ficou evidenciada, também, na escrita de um estudante: Gostei muito das aulas de química, foram um pouco complicadas no início devido à linguagem da professora usada em sala de aula (AS_AN19), ou seja, os estudantes precisam, no decorrer do processo, ser inseridos na linguagem da química, para, de fato, conseguir dialogar com o professor. As particularidades da LCE e a importância da sua apropriação e significação para o aprendizado são o foco central do capítulo que segue. 60 3 APRENDER QUÍMICA E USO CONSCIENTE DA LINGUAGEM CIENTÍFICA ESCOLAR Um diálogo vivenciado na primeira aula de Química I e transcrito do DB: Perguntei aos estudantes: O que ocorre em nível molecular quando a água entra em ebulição? E um estudante, assim, respondeu: a água reage com o oxigênio do ar e forma água novamente (DB, p. 01, aula dia 29/02/12). O diálogo que eu escolhi para iniciar este capítulo e que foi transcrito do DB retrata a importância de o professor ouvir os estudantes em sala de aula, de proporcionar espaços para os estudantes fazerem uso das palavras químicas e exporem os seus entendimentos, para proporcionar a eles a tomada de consciência das suas limitações conceituais. Diz Fontana (2010, p.121) que é pelo uso das palavras que “a criança aprende a aplicá-las consciente e deliberadamente, direcionando o próprio pensamento”. Na interação discursiva estabelecida em sala de aula, a palavra dita pelo professor vai ao encontro das palavras que o estudante já apresenta e, assim, são diversos os sentidos atribuídos às palavras pelos estudantes. O estudante, com as palavras que já apresenta, realiza relações e (re)elabora uma explicação para determinado fenômeno. Essa explicação, por sua vez, pode estar muito distante do entendimento químico e, por isso, necessária de ser mediada pelo professor. O diálogo que iniciou o capítulo, por exemplo, retratou a limitação do estudante em perceber que o fenômeno da ebulição da água em nível particular da matéria consiste de maneira simplificada, num aumento da agitação molecular que permite o rompimento das forças intermoleculares, e assim as moléculas de água passam do estado físico líquido para o estado físico gasoso, estabelecendo um equilíbrio líquido-vapor. E isso não implica o rompimento de ligações intramoleculares e nem a reação das moléculas de água com o gás oxigênio, como disse o estudante. A explicação química dos fenômenos precisa ser construída e, constantemente (re)elaborada junto aos estudantes, daí a importância da interação estabelecida com o professor em sala de aula, pois é no processo da construção dos significados e no redimensionamento dos sentidos atribuídos às palavras pelos estudantes que ganha importância a mediação do professor. Neste 61 capítulo, a minha atenção é para a importância da significação da LCE e as particularidades do discurso escolar nas aulas de química. Ao iniciar o capítulo, na subseção 3.1, apresento uma discussão referente à significação dos conceitos científicos e a sua importância para a formação do pensamento químico. Para a referida discussão, o aporte teórico consistiu na teoria histórico-cultural com os trabalhos de Vigotski (2000, 1993) e algumas tentativas de aproximações com os estudos de Bakhtin (2006, 2010). A significação, no entendimento de ambos, ocorre em processos dialógicos estabelecidos entre interações culturais e individuais. E a sala de aula consiste num espaço em que essas relações são estabelecidas. Daí a importância dessa discussão para a presente tese. Seguindo, na subseção 3.2, apresento uma discussão que mais se aproxima da epígrafe do capítulo, pois escrevo sobre a importância da atenção, do professor em sala de aula, para os diferentes sentidos atribuídos às palavras e, reitero, ainda, a importância da sua atuação como mediador no processo da significação conceitual. Finalizando o capítulo, na subseção 3.3, apresento uma discussão referente aos gêneros discursivos escolares. Para isso, o foco da atenção é para a LCE e para as especificidades dos diferentes gêneros discursivos que a constituem na sala de aula. 3.1 A Formação do Pensamento Químico mediante a Significação da Linguagem Química no Contexto Escolar A defesa que perpassa todo o percurso da tese consiste no entendimento de que, para aprender química, é preciso que o estudante consiga se apropriar e significar a linguagem química num processo mediado pelo professor. Nesse sentido, entendo que é importante discutir o processo de formação do pensamento químico, o qual, por sua vez, é inerente ao processo de significação conceitual. Nas palavras de Vigotski (2000, p. 398) “o significado da palavra só é um fenômeno de pensamento na medida em que o pensamento está relacionado a palavra e nela materializado, e vice-versa”. Não é possível pensar sem palavras, pois, “o pensamento não se exprime na palavra mas nela se realiza” (p. 409). 62 É preciso o estudante se apropriar, significar as palavras químicas para formar um pensamento químico, e, assim, fazer uso consciente da linguagem química. Entendo, com Geraldi (2010), que o uso consciente da linguagem consiste em tornar seu, pela interação com o outro, o que é social. E, com base em Vigotski (2000), reafirmo que o uso consciente dos conceitos químicos permite aos estudantes formarem o seu pensamento químico na medida em que os significados dos conceitos evoluem atingindo um maior nível de generalização. Para Bakhtin (2006), o processo de significação consiste em relações estabelecidas entre a polissemia e a unicidade da palavra ou entre o tema/sentido e o significado abstrato dicionarizado. E numa perspectiva vigotskiana, a significação consiste em correlações estabelecidas entre os sentidos atribuídos às palavras e o significado historicamente estabelecido. Diz-nos Vigotski (2000, p. 465) que “tomada isoladamente no léxico, a palavra tem apenas um significado. Mas este não é mais que uma potência que se realiza no discurso vivo, no qual o significado é apenas uma pedra no edifício do sentido". Na sala de aula, por exemplo, é preciso que o professor atue como mediador no processo de significação conceitual e que direcione os sentidos atribuídos às palavras pelos estudantes para os significados químicos já estabelecidos historicamente. Entendo que o processo de significação da LCE, em sala de aula, implica a formação de conceitos científicos, os quais, por sua vez, são constituintes do discurso escolar, e necessários de serem significados pelos estudantes para iniciarem a formação do seu pensamento químico. No entendimento de Vigotski (2000), como já foi referido, o pensamento somente é possível com a palavra, daí a importância do processo da formação e da significação dos conceitos científicos no contexto escolar, em especial, nas aulas de química. Vigotski (2000) traz um estudo referente à formação dos conceitos cotidianos e científicos, ambos, de origem social, e a sua construção inicia na relação com os outros, passando, apenas posteriormente, a ser de domínio próprio. O referido autor, ao acompanhar o desenvolvimento conceitual das crianças, destacou que a criança, por nascer num âmbito social, é guiada pela palavra do outro e vai se constituindo nesse ambiente. Apenas num momento posterior a criança passa a fazer uso das palavras dos outros para orientar o seu pensamento, e, ao fazer uso das palavras dos outros, a apropriação conceitual está apenas iniciando. Nesse estágio de desenvolvimento, a formação conceitual 63 e a formação do pensamento verbal apresentam, ainda, um longo caminho a ser percorrido, o qual evolui e se modifica em diferentes instâncias ou níveis de desenvolvimento até atingir o pensamento por conceitos. Na interpretação de Vigotski (2000), os processos de desenvolvimento dos conceitos científicos e dos conceitos cotidianos ocorrem por vias opostas, como se fossem duas linhas em sentidos opostos. Ambos são apreendidos pelos sujeitos, mas tal aprendizagem ocorre com organizações cognitivas diferentes, em espaços físicos diferenciados, apresentando, também, objetivos distintos. A apropriação dos conceitos cotidianos, por exemplo, começa com o real, com a sua aplicação espontânea pelos sujeitos, e apenas posteriormente há uma conscientização desses conceitos mediante a sua definição verbal. Os sujeitos fazem uso dos conceitos cotidianos de maneira não consciente, em decorrência do seu ambiente social. A criança, por exemplo, já nasce num ambiente social e vai, pela sua inserção nesse ambiente, constituindo a sua personalidade, e é nesse meio, de maneira inconsciente, que a criança aprende os conceitos cotidianos. Entendo que os conceitos cotidianos, referidos por Vigotski (2000), integram os gêneros de discurso primários estudados por Bakhtin (2010, p. 282) os quais, segundo este autor “nos são dados quase da mesma forma como nos é dada a língua materna”. Desse modo, por estarem imersos nesse ambiente, os sujeitos fazem uso dos mesmos, em diferentes contextos, moldando livremente o discurso em diferentes formas de gênero, com uso da linguagem cotidiana. Trata-se de uso espontâneo, não consciente, pela convivência com o outro. Os conceitos científicos, por sua vez, são apresentados inicialmente ao sujeito pela sua definição verbal, com o seu uso de maneira não espontânea, a palavra química, na sala de aula, é trazida pelo professor, por exemplo. Nas palavras de Cruz e Góes (2006, p. 35), esses conceitos “tornam-se acessíveis principalmente nas relações escolarizadas, pela mediação deliberada e explícita de um adulto que visa a aquisição pela criança de conhecimentos sistematizados”. Com base em Bakhtin (2010), classifico os conceitos científicos como integrantes do gênero secundário do discurso, o qual, no entendimento do autor, se caracteriza como sendo mais elaborado, surgindo num convívio cultural mais complexo, mais organizado. Tais condições, por sua vez, corroboram com o uso dos conceitos científicos proposto por Vigotski (2000), em espaços com 64 intencionalidade de significa-los, com objetivos específicos. Isso que caracteriza o direcionamento do discurso, vai ao encontro da interação discursiva que se busca no ambiente escolar, na sala de aula; o professor, nas aulas de química, por exemplo, busca redimensionar os sentidos das palavras para o significado químico historicamente estabelecido. Vigotski (2000), para exemplificar o processo da formação dos conceitos cotidianos e dos conceitos científicos, faz uso de uma analogia com a aprendizagem da língua materna e da língua estrangeira, respectivamente. O aprendizado da língua materna, segundo o autor, ocorre desde o nascimento da criança, e o da língua estrangeira ocorre, por sua vez, na escola, mediante espaços organizados que se caracterizam por uma elaboração e por uma orientação mais sistemática em processos mediados pelo professor. Assim, no primeiro caso, a criança faz uso da língua sem ter consciência de sua estrutura, ou da gramática. Ao aprender uma língua estrangeira, na escola, ocorre o contrário: a criança inicia o seu aprendizado com as regras, com a estrutura, com a gramática de maneira intencional, ou seja, inicia o aprendizado pela necessidade da tomada de consciência. É válido ressaltar que Vigotski (2000) chama a atenção para a importância do elo entre essas duas formas de formação conceitual e também de pensamento: a cotidiana e a científica. Ambas, como já referi, ocorrem em sentidos opostos, mas não seguem trajetórias paralelas. Uma não anula a outra, pelo contrário, podem, conforme Vigotski (2000), se cruzar várias vezes, fundir-se, separar-se, ou, ainda, andar lado a lado. O importante, como salienta o autor, é considerar que um processo de formação conceitual enriquece o outro. Com base em Vigotski, Cruz e Góes (2006) afirmam que os conceitos científicos, que no início de seu desenvolvimento são esquemáticos e desprovidos da riqueza advinda da experiência, ganham vitalidade e concretude em sua relação com os conceitos espontâneos. Por outro lado, as características do processo de construção de conceitos científicos transformam os espontâneos em termos de sistematicidade e reflexividade (CRUZ e GÓES, 2006, p. 35). Nesse sentido, Bakhtin (2010, p. 263) ao defender o princípio dialógico da linguagem, destaca a relação mútua entre os gêneros primários e secundários do discurso. O autor afirma que “os gêneros primários integram os secundários e adquirem um caráter especial, como, por exemplo, o de perder o vínculo com a 65 realidade concreta”. Para que o estudante faça uso consciente da linguagem química em sala de aula, ou, para que ele, de fato, aprenda química, é necessário a formação dos conceitos científicos, que, como mostraram os estudos de Vigotski (2000), começam pela sua definição verbal e, para serem significados, precisam ser gradualmente apropriados pelos estudantes. Os conceitos não são absorvidos prontos ou acabados, e a sua formação consiste, conforme o referido autor (2000, p246), “num ato real e complexo de pensamento que não pode ser aprendido por meio de simples memorização”. Nesse mesmo sentido, Bakhtin (2006, p. 109), ao se referir à língua materna afirma “que os indivíduos não recebem a língua pronta para ser usada; eles penetram na corrente da comunicação verbal; ou melhor, somente quando mergulham nessa corrente é que sua consciência desperta e começa a operar”. Desse modo, entendo que é de forma análoga que os estudantes aprendem a nova linguagem da química e de que a significação conceitual é possível, somente, mediante o uso dos conceitos científicos em diferentes espaços, num processo orientado pelo professor. É nesse âmbito que é possível iniciar, no estudante, a formação do pensamento químico, pela tomada de consciência do uso da LCE. Em relação à formação do pensamento por conceitos, Vigotski (2000) considera a necessidade da existência de três elementos psicológicos fundamentais, quais sejam: a possibilidade de realizar relações entre os conceitos ou entre o sistema de conceitos; a tomada de consciência da própria atividade mental; e o surgimento de relações especiais, mais avançadas, que o indivíduo adquire com os objetos, o que lhe permite compreender melhor a essência destes últimos. Um conceito se relaciona com outro num sistema que implica uma nova estrutura de generalização. Nesse sistema ocorre uma hierarquia de relações, nas palavras de Vigotski (1993, p. 66) “um conceito de grau superior implica a existência de uma série de conceitos subordinados e pressupõe também uma hierarquia de conceitos com diversos níveis de generalidade”, e nesse âmbito o uso do conceito é consciente. Ainda, nas palavras de Vigotski (2000, p. 246), “o conceito é em termos psicológicos um ato de generalização, é um ato real e complexo do pensamento”. Nesse sentido Lemke (1997, p. 182, trad. própria), diz que “somente se pode usar o conceito quando se tem um conjunto de palavras que se referem a ele. Se 66 constrói o significado com o uso de diferentes palavras”.27 É preciso, que o estudante saiba, ao explicar determinado fenômeno, fazer uso de diferentes relações conceituais que são necessárias para o seu entendimento e conseguir compreender o conceito no âmbito do sistema hierárquico. A capacidade de generalização, segundo Vigotski (2000, p. 359), “enriquece a percepção da realidade imediata”, pois possibilita aos sujeitos, pelas diferentes relações conceituais estabelecidas, novas compreensões sobre o mundo, por exemplo, os estudantes sabem de alguma forma, que as coisas mudam, modificam-se das mais diversas formas (por exemplo, evaporam, sublimam, mudam de cor, tornam-se diferentes na aparência), mas é pela apropriação e significação dos conceitos químicos que será possível a compreensão química desses fenômenos na medida em que os significados desses conceitos evoluem. Entendo que é pelos diferentes níveis de generalidade que são possíveis de serem percebidas as operações mentais realizadas, pelo estudante, com um determinado conceito. Nessa perspectiva, reitero a importância da construção dos mapas conceituais28 nas aulas de Química I, pois a sua análise me permitiu identificar as diferentes operações desencadeadas por um conceito, e, assim, me possibilitou uma visão da estrutura da generalização que os estudantes usaram para um determinado conceito na construção do mapa. Ainda, sobre a formação conceitual, num outro contexto, Vigotski (1993) afirma que: a formação de conceitos é o resultado de uma atividade complexa em que todas as funções intelectuais básicas tomam parte. No entanto, o processo não pode ser reduzido à associação, à atenção, à formação de imagens, à inferência ou às tendências determinantes. Todas são indispensáveis, porém insuficientes sem o uso do signo, ou palavra, como o meio pelo qual conduzimos as nossas operações mentais, controlamos o seu curso e as canalizamos em direção à solução do problema que enfrentamos (VIGOTSKI, 1993, p. 50). Assim, no momento em que o estudante faz uso da palavra a formação do conceito está apenas em fase inicial. O autor (1993) ressalta que o domínio da sintaxe da linguagem ocorre antes do domínio da sintaxe do pensamento. 27 “sólo puedes usar flexiblemente ese concepto si puedes prescindir de um conjunto determinado de palabras para referirte a el. Es decir, si puedes construir su significado com otras palabras” (p. 182). 28 Os resultados da análise dos mapas conceituais estão descritos no capítulo cinco da tese. 67 Exemplifica isso com o uso das palavras porque, como, ou, quando por crianças, antes mesmo de elas entenderem as relações causais, condicionais ou temporais de tais palavras, isto é, antes de elas fazerem uso consciente de tais palavras, elas podem, por exemplo, até expressar de maneira correta o uso da palavra porque, indicando a causa, mas tal uso não significa que a criança saiba, em outras situações que exigem a tomada de consciência, identificar que a palavra porque remete para a causa. Ou seja, a criança pode fazer uso de palavras abstratas, mas nem por isso apresenta um pensamento abstrato. Nas palavras de Cruz e Góes (2006, p. 35), “ao lidar com conceitos do cotidiano, ela frequentemente entra em contradição quando é levada a pensar sobre eles, porque ainda não sabe considerá-los no plano das abstrações”. A criança faz uso das palavras sem ter a consciência do seu significado, simplesmente reproduz o discurso no qual está inserida, e isso é apenas o passo inicial para a significação conceitual, para a formação do pensamento abstrato. Fazer uso ou apropriar-se das palavras consiste num passo inicial junto ao processo de significação, antecede a formação do pensamento conceitual. Dessa forma, um estudante que consegue relacionar corretamente as palavras específicas da química para explicar um determinado fenômeno apresenta indícios da formação do pensamento químico, pois, nessa situação, o uso da palavra não foi apenas de forma mecânica ou inconsciente, mas desencadeou no estudante a capacidade de realizar diferentes relações conceituais, o que, por sua vez, remete para a significação e para a formação do pensamento conceitual. Possibilitar ao estudante a capacidade de realizar relações conceituais de maneira consciente para a explicação de determinado fenômeno é um processo inerente ao aprendizado. Assim, para explicar a solubilidade do cloreto de sódio em água, por exemplo, é primordial que o estudante consiga pensar o fenômeno considerando as forças interpartículas que são rompidas/formadas entre as substâncias envolvidas e que considere, também, os diferentes aspectos das ligações químicas das substâncias, como a formação de dipolos, a atração eletrostática. Enfim, é preciso que o estudante estabeleça diferentes relações conceituais para explicar e compreender os aspectos físico-químicos envolvidos no processo da dissolução. Nos dizeres de Vigotski (2000, p. 368), “ser significado é o mesmo que estar em determinadas relações de generalidade com outros significados [...] a 68 natureza do conceito se revela de forma mais completa nas relações específicas de um dado conceito com outros conceitos”. Assim, ao fazer uso dos conceitos científicos e ao reconstruir um fenômeno mentalmente, o estudante estará usando uma nova forma de pensamento, por conceito. Nesse estágio de desenvolvimento, terá atingido as formas superiores de pensamento humano, enriquecendo, com isso, as suas atividades cognitivas. Segundo o referido autor (2000), o entendimento de um conceito é possível mediante as relações conceituais estabelecidas entre diferentes conceitos. Nessa direção, há, também, uma aproximação com Bakhtin (2006), quando este diz que não é a palavra em si, isolada, segundo seu aspecto semântico, que traz o significado, mas que este é verificado, construído ou entendido no todo da enunciação. Para Bakhtin (2006), a enunciação pode ser uma ou mais palavras cujo significado se transforma e se ajusta a cada “tema”, tendo, como base, uma determinada ideologia. Assim, uma palavra adquire uma nova dimensão de significados dependendo do contexto no qual a mesma é abordada. Numa aula de química, por exemplo, é primordial que o estudante perceba as particularidades e a significação das palavras no âmbito de tal ciência. Isso remete para a importância da mediação, da orientação qualificada do professor em sala de aula. O termo „corrente elétrica‟, por exemplo, pode ter diferentes atribuições de sentidos, dependendo da sua enunciação, do contexto no qual ele é utilizado. No âmbito físico-químico, é preciso um nível de abstração para compreender que a palavra „corrente‟ extrapola a concretude do termo e é preciso pensar, em nível de energia, sem, no entanto, esquecer a importância da sequência e também da alternância, etapas inerentes ao ciclo energético. O termo adquire outros sentidos que precisam ser significados junto aos sujeitos envolvidos no diálogo, para que, assim, os mesmos se insiram de maneira qualificada na discussão. Ambos os autores, Vigotski e Bakhtin, defendem a importância do contexto29 em que a palavra é utilizada para a atribuição de sentidos e de significados 30 para a mesma. Na sala de aula, em especial nas aulas de química, é preciso, por exemplo, que o professor aproxime, pela orientação, os sentidos atribuídos às 29 Para Vigotski, o contexto remete à situação prática e, na visão de Bakhtin, a ideia de contexto é ampliada, pois este autor considera também a individualidade de cada sujeito envolvido na discussão. 30 Uma discussão mais ampla em relação ao entendimento de sentido e de significado atribuído na presente tese está descrito na subseção 3.2. 69 palavras pelos estudantes, aos significados químicos historicamente estabelecidos. Entendo, com base no referencial teórico adotado, que a significação no espaço escolar consiste na relação entre a polissemia e a unicidade, entre os sentidos e os significados atribuídos às palavras. E, assim, partindo de diferentes sentidos atribuídos para as palavras, pela polissemia inerente ao discurso escolar, é preciso que o professor oriente os sentidos atribuídos, pelos estudantes, para o significado mais próximo da química, buscando, com isso, alguma unicidade no âmbito do entendimento químico. A unicidade é aqui entendida não como sendo estática, ou apenas dicionarizada, mas dinâmica, possível de ser ampliada e de ser qualificada no processo de significação conceitual que é ocasionado pelas diferentes generalizações desencadeadas no processo de desenvolvimento do individuo. Face ao exposto, entendo, com base em Vigotski (1993, 2000), que, quando o estudante usa uma nova palavra, o processo de desenvolvimento conceitual está apenas iniciando, e que apenas ao desenvolver internamente o seu significado, pelo uso da palavra em diferentes contextos, num processo mediado pelo professor, a palavra vai amadurecendo e ampliando os níveis de generalização. Ainda, numa outra interpretação, Bakhtin (2010) caracteriza a existência da palavra para qualquer falante em três aspectos: como palavra da língua neutra que não pertence a ninguém; como palavra dos outros, que carrega enunciados alheios, e, por último, como palavra própria. Segundo esse autor (2010, p. 294), “quando passo a fazer uso da palavra ela vai se tornando minha, pois está compenetrada da minha expressão”, e nesse processo, no entendimento de Bakhtin, a minha palavra traz junto a palavra dos outros, com diferentes graus de interpretação e de sentidos, e a palavra vai se tornando cada vez mais minha na medida em que faço uso consciente da mesma em diferentes situações. Nesse sentido, a apropriação da linguagem, o fazer uso da linguagem química, precede a tomada de consciência, é, apenas, o início da construção do significado da palavra. O tomar consciência requer a apropriação da linguagem científica. Nesse âmbito, defendo a importância de possibilitar ao estudante o entendimento das particularidades da linguagem química pelo uso da mesma, em diferentes situações, considerando-a como um gênero específico e, por isso, 70 necessário de ser apropriado pelo estudante, para, assim, desencadear nele o aprendizado mediante a sua significação. O estudante vai atribuindo sentidos para a palavra dita em sala de aula, e, ao conseguir trabalhar de maneira consciente com a palavra, usando diferentes níveis de generalizações, o conceito vai se tornando mais independente da palavra, passando a constituir o pensamento, o que permite que o estudante atinja níveis mais avançados de generalização. Reitero que esses são possíveis de serem atingidos mediante a ajuda do outro, do professor e dos colegas por seus diferentes níveis de entendimento construídos no processo da aula. Ao atingir um novo estágio de desenvolvimento cognitivo, o estudante é capaz de pensar usando as palavras específicas da química. Assim, a palavra substância, por exemplo, desencadeia diferentes relações lógico-abstratas, em diferentes níveis de generalização, sem precisar de algo concreto que a represente. Conforme exemplificou Tunes (2000, p. 44), o conceito substância “remete ao conceito de constituinte, o qual, por sua vez, liga-se ao de átomo” e, assim, fica evidenciada uma característica dos conceitos científicos que, nas palavras da autora, se organizam “num sistema hierárquico de inter-relações conceituais, portanto, um sistema de relações de generalidade”, como já foi dito anteriormente, com base em Vigotski (2000). Importante ressaltar que atingir o estágio de pensamento conceitual, mesmo num nível avançado de generalização, não caracteriza o abandono das formas mais elementares de pensamento. No entendimento de Vigotski (2000), uma maneira de pensar não substitui a outra, mas ambas coexistem e se influenciam mutuamente. Em seguida, amplio a discussão referente aos sentidos atribuídos, na sala de aula, na direção dos significados mais próximos da química. É preciso que, pela mediação do professor, os sentidos atribuídos às palavras, pelos estudantes, se aproximem dos significados químicos historicamente estabelecidos, para, assim, desencadear o pensamento químico e proporcionar entendimentos mais precisos dos diferentes fenômenos vivenciados. Assim, a palavra dita pelo professor deve desencadear, nos estudantes, sentidos que se aproximem dos sentidos atribuídos pelo professor. Na próxima subseção abordo alguns exemplos de sentidos divergentes em sala de aula que, por sua vez, são necessários de serem percebidos pelo professor para que ele consiga mediar o seu redimensionamento e possibilite um 71 entendimento químico sobre o mundo, ampliando as capacidades cognitivas e a formação do pensamento químico. 3.2 Diferentes Sentidos Atribuídos à Mesma Palavra em Sala de Aula e a Necessidade da Mediação Qualificada do Professor Ao considerar a sala de aula como espaço de interação mediado pela linguagem há um avanço em relação ao entendimento tradicional de ensino que consistia na crença da transmissão direta de conhecimentos, em que aprender química reduzia-se simplesmente à reprodução da definição conceitual descrita no livro didático ou ditada pelo professor em sala de aula. Na perspectiva de ensino que perpassa a tese, e que dá ênfase aos processos dialógicos estabelecidos em sala de aula, mediante o processo da escrita e da reescrita orientada, há a necessidade de discutir a multiplicidade de sentidos atribuídos às palavras numa aula de química, por exemplo. E também de ampliar a discussão sobre a necessidade de o professor mediar o diálogo aproximando os sentidos atribuídos às palavras para os significados químicos historicamente estabelecidos. Esta é a temática central da presente subseção. Para iniciar a discussão referente aos sentidos e aos significados das palavras em sala de aula, reitero que o entendimento atribuído para o sentido e para o significado, no texto da tese, tem como aporte a teoria histórico-cultural e seguindo Cruz e Góes (2006, p. 39), assumo que “a relação entre significado e sentido é uma dialética de forças que compõem a significação da palavra, que não deve ser ignorada no estudo de qualquer dos processos humanos”. Para Vigotski (2000, p. 465), o sentido atribuído a uma palavra consiste num “conjunto de fenômenos psicológicos que a palavra desperta na consciência (...) é sempre uma formação dinâmica, fluida complexa, que tem várias zonas de estabilidade”. Assim, o sentido atribuído a uma palavra pelos sujeitos se modifica em função do contexto no qual a mesma é empregada. No entendimento desse autor, o contexto está mais relacionado com a situação em que a palavra é empregada, enquanto Bakhtin (2006) considera como contexto também os interlocutores envolvidos, suas particularidades. Segundo, este autor a palavra vai ao encontro de outra palavra, e, assim, o sentido atribuído a ela varia de acordo com as contrapalavras que cada sujeito apresenta. O sentido atribuído a uma palavra 72 pode evoluir na direção de um significado mais preciso no decorrer do processo de interação estabelecido entre os sujeitos, pois os contextos de interações estabelecidos, no entendimento de Bakhtin (2006, p. 110), “encontram-se numa situação de interação e de conflito tenso e ininterrupto”, daí a ideia de avanços e de multiplicidade de sentidos atribuídos a uma palavra no transcorrer de uma aula, por exemplo. Já o significado, diz Vigotski (2000, p. 465), “é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso”. Assim, o significado consiste “numa zona mais estável” e, por isso, permanece relativamente constante nas mudanças de sentidos atribuídos às palavras. Mas, nem por isso o significado é imutável. Pelo contrário, Vigotski (2000) entende o significado como dinâmico, podendo o mesmo ser ampliado mediante novos modos de pensamento. Por isso, o significado de uma palavra é histórico. O significado atribuído a uma palavra depende das relações conceituais estabelecidas, e, assim, são possíveis os avanços científicos os novos entendimentos sobre diferentes fenômenos e, também, o desenvolvimento intelectual dos indivíduos. Buscando aproximações entre Vigotski e Bakhtin, entendo que a interpretação de sentido, apresentada por Vigotski (2000, 1993), vai ao encontro da ideia de polissemia referida por Bakhtin (2006), e que o significado, por sua vez, se aproxima da ideia de unicidade proposta por este autor. Assim, a palavra dita na sala de aula, pelo professor, apresenta-se, para cada estudante, com múltiplos sentidos. Nessa direção, defendo que o professor, numa aula de química, por exemplo, (re)direcione os sentidos atribuídos às palavras para o significado químico historicamente estabelecido. Numa aula, o estudante e o professor, muitas vezes, usam as mesmas palavras, mas os sentidos e os significados atribuídos a elas são, inicialmente, muito diferentes. Isso corrobora com Vigotski (1993, p. 42) de que, “as palavras se apoderam da função dos conceitos e podem servir como meios de comunicação, muito antes de atingirem o nível dos conceitos”. Assim, a simples reprodução das palavras, no contexto de uma aula, pode esconder o real significado atribuído a elas pelos sujeitos envolvidos no diálogo, mascarando a real aprendizagem. Para exemplificar isso, passo a escrever sobre um episódio que foi vivenciado na primeira aula de Química I e que está descrito no DB. 73 Essa aula consistiu, como já mencionei, na leitura e na discussão do artigo de divulgação científica: Água: Um líquido Vital, disponível na revista eletrônica QMCWEB31. Na discussão sobre o texto, ao socializar o que achou importante, um estudante disse que era o fato de a água ser constituída por moléculas. Quando o estudante destacou essa característica, solicitei a ele que explicasse o seu entendimento sobre molécula e que justificasse por que isso lhe pareceu importante. Para minha surpresa, o estudante disse que não sabia explicar o que era molécula e que apenas havia destacado isso do texto (DB, p. 05)32. A limitação conceitual do estudante, ao afirmar que não sabia explicar o seu entendimento sobre molécula, apenas ficou evidenciada devido ao questionamento realizado por mim. Caso contrário, a ausência de significado do estudante poderia ter sido mascarada pelo simples fato dele ter usado a palavra molécula como sendo uma característica importante da água. Essa semelhança, o uso da palavra num diálogo, pode, muitas vezes, incorrer numa falsa impressão de entendimento e, com isso, mascarar a formação do pensamento envolvido na significação. Se não houver atenção para tais fatos, por parte do professor, falsos indícios de aprendizagem poderão permear o diálogo de uma aula. A diferença de sentidos atribuídos a uma mesma palavra é exemplificada por Vigotski (2000) mediante o diálogo estabelecido entre um adulto e uma criança. Eles, diz o autor, apesar de fazerem uso da mesma palavra ao se referirem a algo concreto, atribuem a ela diferentes significados. A criança faz uso da palavra sem fazer relações conceituais, sem apresentar um pensamento abstrato em relação à palavra. A palavra, para a criança, está reduzida ao objeto. O uso da mesma palavra por um adulto e por uma criança permite apenas uma comunicação entre ambos, porém não propicia, ainda, entendimentos mais abstratos na criança. Também, na sala de aula, o estudante, muitas vezes, faz uso das palavras específicas da química, por exemplo, sem ter se apropriado do seu significado químico, sem conseguir ainda pensar quimicamente. O estudante, ao falar as palavras específicas da química, na maioria das vezes, apenas reproduz, de maneira mecânica, a palavra dita pelo professor ou a palavra lida em algum texto, sem tomar consciência da mesma. Por isso, defendo que é preciso ampliar os 31 http://www.qmc.ufsc.br/qmcweb/artigos/agua.html 32 aula dia 09/03/12. 74 espaços, na sala de aula, para ouvir os estudantes, seja pela fala, seja pela escrita, bem como, de desafiá-los a explicitar o seu entendimento, questionandoos, a fim de estimular a formação do seu pensamento químico pelo uso consciente da linguagem química. O professor não pode contentar-se apenas com o fato do estudante saber repetir as suas palavras, mas é preciso que o professor possibilite espaços ou instrumentos pedagógicos, para que o estudante faça uso consciente da linguagem química na explicação de diferentes fenômenos num processo mediado. Para isso, é primordial ampliar, na sala de aula, os espaços para a orientação do professor, para que ele consiga atuar, ou criar a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) do estudante e, assim, possibilite a sua aprendizagem. A ZDP, no entendimento de Vigotski (2000, p.112), é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (VIGOTSKI, 2000, p. 112). Em outras palavras, consiste em ensinar o que o estudante ainda não é capaz de realizar sozinho, mas que é capaz de realizar com a ajuda do outro. Nesse sentido, atuar na ZDP é como oferecer uma pequena ajuda para o estudante conseguir avançar. Nas palavras de Vigotski (2000, p. 329) “em colaboração a criança sempre pode fazer mais do que sozinha”, mas reitera “não infinitamente mais”. Ressalta ainda, que é possível avançar dentro dos seus limites de desenvolvimento e de suas potencialidades intelectuais. Nesse âmbito, o aprendizado é entendido como um processo colaborativo, numa relação assimétrica, em que o estudante aprende com o outro mais capaz. É na relação entre os sujeitos que ocorrem os encontros de diferentes palavras, a palavra do outro, do professor, as contrapalavras dos estudantes e são estabelecidas interações discursivas que precisam se mostrar favoráveis. Esse processo, segundo Góes (1997), está vinculado às diferentes relações sociais que, por sua vez, são dinâmicas, tensas, conflituosas ou harmoniosas, e é nesse contexto que as interações são estabelecidas e que a ZDP deve ser compreendida. Não deve contemplar apenas algumas dessas características, apenas o encontro harmonioso entre os sujeitos, que, segundo Góes (1997), tem prevalecido. Freitas 75 (2001, p. 41), tendo como base diferentes autores que investigaram o conceito de ZDP, enfatiza que no processo de ensino aprendizagem “o outro tem um papel contraditório e o jogo dialógico, que constitui a relação entre sujeitos, não tende apenas a uma direção; abrange circunscrição, expansão, dispersão e estabilização de significados e envolve o deslocamento “forçado” de certas operações de conhecimento”. Nesse contexto a defesa na presente tese é de que a ajuda do professor para se mostrar potencial deve ser qualificada e sistemática no processo de ensino, que por sua vez não é compreendido como linear ou homogêneo, mas que requer constantes interações discursivas, com uso qualificado da LCE, implica em confrontos, em desencontros de sentidos, objetivando um redimensionamento, visando à significação conceitual em química. Para isso, aposto na importância do uso de diferentes instrumentos pedagógicos que possibilitem diferentes interações discursivas em sala de aula pelo uso da LCE num processo qualificado de escrita e de reescrita orientados. Outros exemplos de limitações conceituais percebidas nas aulas de Química I e que estão descritas no DB decorrem da segunda aula. Nessa aula realizei a correção de exercícios encaminhados na aula anterior, e alguns questionamentos feitos pelos estudantes, no decorrer da correção, foram transcritos no DB. Alguns desses questionamentos foram: Professora, o número atômico encontro na tabela, e o número de átomos? ; O que é número atômico? ; Como sei quantos elétrons tem um átomo? (DB p. 07)33. Tais questões podem, para muitos professores de Química I ou de Química Geral, passar despercebidas, pois ambas remetem para entendimentos considerados básicos na química para estudantes oriundos do Ensino Médio. E em diferentes situações, até pode parecer que os estudantes tenham se apropriado dos mesmos, pelo uso que fazem das palavras. Mas tais questionamentos, anotados no DB, retratam a falta de significação química atribuída, pelos estudantes, a esses conceitos. O estudante, ao não saber quantos elétrons tem um átomo, reporta à necessidade de diálogo sobre número atômico, sobre o próprio conjunto que caracteriza um átomo, bem como, para a discussão sobre a diferenciação de um íon e de um átomo, por exemplo. Ao 33 aula dia 14/03/12. 76 responder a dúvida do estudante foi preciso que, em sala de aula, eu dissesse mais do que simplesmente que o número de elétrons é igual ao número de prótons, pois essa definição, com certeza, o estudante ouviu no Ensino Médio, mas, para ele, isso não foi significativo, ou seja, ele ainda não entendeu alguns dos princípios básicos da química, que se caracterizam como essenciais para a construção do seu pensamento químico. O estudante ainda não consegue fazer uso consciente dessa definição. Nesse contexto, reporto-me a Bakhtin (2006, p. 115) que diz que “a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia em mim numa extremidade, na outra, apoia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor”. Ainda, no entendimento do referido autor, a palavra sempre vai ao encontro de outras palavras, daí a multiplicidade de sentidos que a mesma palavra pode desencadear. Cada sujeito envolvido no discurso, no diálogo da sala de aula, por exemplo, atribui, para uma determinada palavra, o sentido que se apoia nas suas outras palavras. Nesse âmbito, fica evidenciada a necessidade de o professor atuar como mediador no processo da significação conceitual. É preciso que, mediante as interações estabelecidas em sala de aula, o professor perceba a multiplicidade de sentidos atribuídos, pelos estudantes, para uma determinada palavra, que a simples aplicação esconde, para, assim, atuar como orientador, possibilitando aos estudantes uma significação mais próxima dos significados químicos historicamente estabelecidos. Ainda, ao considerar que a sala de aula é um espaço de enunciações e que, por sua vez, o enunciado, como diz Bakhtin (2006), está sempre dirigido para alguém e espera uma resposta responsiva, torna-se essencial que o professor, em sala de aula, perceba os sentidos dos estudantes, para identificar as possíveis limitações dos seus entendimentos. É importante que o professor conheça o seu interlocutor e que perceba as multiplicidades de sentidos desencadeados por uma palavra dita em sala de aula. Para isso, são primordiais os espaços e o uso de instrumentos pedagógicos que possibilitam aos estudantes fazerem uso das palavras químicas em sala de aula. Os sentidos atribuídos à determinada palavra, pelos estudantes, podem estar bem distantes do significado atribuído a ela pelo professor. O estudante pode, inicialmente, até repetir a palavra dita pelo professor, mas ainda não opera com o conceito, apenas reproduz o que o professor falou, sem apresentar o 77 significado químico de tal palavra. Por exemplo, quando dois professores falam sobre átomos, íons ou moléculas, apresentam um entendimento que está num nível cognitivo diferenciado do que quando falam sobre isso com estudantes que estão iniciando a química. Esse entendimento vai ao encontro do que diz Bakhtin (2006, p. 151): “aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavra, mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores”. Entendo, com Bakhtin, que os sentidos atribuídos, pelos estudantes, às palavras ditas pelo professor variam de acordo com as suas vivências, com as suas contrapalavras. O fato de a palavra dita pelo professor ir ao encontro das palavras que os estudantes já apresentam, converge, também, para o que diz Vigotski (1993, 2000), de que o significado de uma palavra não pode ser transposto de maneira direta, como um exercício de memorização. Na sala de aula, pelo professor não é possível transmitir, de maneira direta, os seus conhecimentos. Ele apenas atua como mediador do processo, citando Vigotski (2000): a experiência pedagógica nos ensina que o ensino direto de conceitos sempre se mostra impossível e pedagogicamente estéril. O professor que envereda por esse caminho costuma não conseguir senão uma assimilação vazia de palavras, um verbalismo puro e simples que estimula e imita a existência dos respectivos conceitos na criança mas, na prática, esconde o vazio (VIGOTSKI, 2000 p.247). Assim, no decorrer do processo de ensino, é necessário que haja espaços pedagógicos que possibilitem ao estudante a apropriação da linguagem química pelo seu uso em diferentes contextos mediados pelo professor. Exemplificando essa situação, trago um diálogo transcrito no DB. O episódio ocorreu numa aula em que os estudantes estavam respondendo uma prova. Um estudante, referindo-se para as questões da prova, chegou até mim, e disse: Professora eu não entendo as suas perguntas. Pedi, então, que exemplificasse as suas dúvidas. Perguntou-me então: se distribuição eletrônica era o mesmo que distribuir em camadas, e, também, se 34 fórmula de Lewis é a fórmula dos pontinhos (DB p. 34) . No referido questionamento foi possível perceber o quão distante ainda estavam, para o estudante, a significação conceitual química e, por sua vez, a 34 aula dia 25/05/12. 78 formação qualificada do seu pensamento químico, ainda não contemplando as necessárias interações entre os diferentes níveis de conhecimento: o abstrato, o conceitual e o representacional. Ao referir-se, por exemplo, aos elétrons da camada de valência como sendo „pontinhos‟, o estudante retrata um pensamento por complexos indiciando ainda pouca capacidade de abstração conceitual, mas retrata uma apropriação da representação que foi realizada em sala de aula. Para esse estudante, a fórmula de Lewis está reduzida ao desenho, a sua representação gráfica, ao papel, aos „pontinhos‟, e, apenas, com esse pensamento, não consegue, ainda, fazer associações abstratas entre os conceitos inerentes à mesma. Isso retrata a dificuldade da formação do pensamento químico em sala de aula, de como um desenho, uma representação repercute ou não no imaginário dos estudantes. E isso mostra a importância da mediação do professor e das interações discursivas estabelecidas. Também, os autores Roque e Silva (2008)35 exemplificaram semelhante limitação ao referirem-se ao entendimento dos estudantes para a representação do anel benzênico no estudo da química orgânica. Nas palavras dos autores (2008, p. 923) “o aluno associa a molécula do benzeno, por exemplo, a um hexágono com uma bolinha dentro”, assim como o estudante, no diálogo anteriormente transcrito, associou a fórmula de Lewis aos pontinhos. Os autores enfatizam sobre a necessidade de esclarecimentos para evidenciar a realidade microscópica representada, é preciso que os estudantes consigam estabelecer relações conceituais para as representações entre os diferentes níveis de conhecimento. Destaco, ainda, que, na sua pergunta, o estudante não fez uso das palavras específicas da química que poderiam indicar um nível mais avançado de significados e de generalizações, pois não citou níveis de energia, camada de valência, elétrons ou nuvem eletrônica. Com base em Vigotski (2000), afirmo que esse estudante ainda pensa mediante o uso de complexos, o que é característico de uma fase do pensamento infantil e que consiste na necessidade de relacionar as palavras com um objeto, com a sua representação concreta. Na fala do estudante, a fórmula de Lewis foi relacionada ao desenho dos pontinhos. Na organização da linguagem cotidiana é que predominam as relações das palavras com o objeto, com o concreto. Já no 35 Corresponde ao artigo A4 da revisão bibliográfica da revista Química Nova apresentada no quadro 1, p. 93. 79 pensamento por conceitos científicos deve predominar, como foi referido anteriormente, a relação das palavras com outras palavras, num processo de maior generalidade, ampliando a formação de relações conceituais. Essa especificidade, a mudança na organização do pensamento precisa ser apreendida pelos estudantes. Para que os estudantes consigam fazer uso dos conceitos específicos da química relacionando-os de maneira abstrata, é preciso que se apropriem da linguagem química e que ampliem os seus significados com a ajuda do professor, em interações favoráveis em sala de aula. Em relação ao pensamento por complexos e por conceitos, Vigotski (2000) chama a atenção que a distinção fundamental é conseguir operar a palavra como um signo, com diferentes maneiras, servindo como meio para as operações intelectuais, operando mediante generalizações abstratas. O uso do pensamento por complexos também foi possível de ser percebido na construção dos mapas conceituais dos estudantes, pois, relacionaram diferentes propriedades químicas com exemplos concretos. Para os estudantes, ainda é mais fácil pensar partindo dos exemplos concretos. A importância da interação favorável estabelecida em sala de aula, entre professor e estudantes, remete para o que Bakhtin (2010) denominou de posição responsiva no discurso, ou seja, o estudante, ao compreender o significado do discurso em sala de aula, tem a possibilidade de ocupar uma posição responsiva, concordando ou discordando do enunciado, ampliando-o, fazendo uso consciente do mesmo em diferentes contextos. Nas palavras de Bakhtin (2010, p. 271), “toda a compreensão é prenhe de resposta (...) o ouvinte se torna falante”. Ainda, conforme o autor (2010, p.272), “cedo ou tarde, o que foi ouvido e ativamente entendido responde nos discursos subseqüentes ou no comportamento do ouvinte”. Assim, é muito importante estabelecer, em sala de aula, espaços pedagógicos que possibilitem aos estudantes, pelo uso da linguagem química, num processo mediado pelo professor, a sua posição responsiva, encaminhandoos para a construção de significados químicos mais precisos e historicamente estabelecidos. Nesse sentido, ao considerar a importância da interação dos sujeitos, entendo que é nos processos mediados que ocorre a construção de enunciados e a significação dos mesmos. Para isso é importante o professor ouvir o estudante com mais atenção, tomar consciência das palavras que usa em aula 80 e dos sentidos atribuídos a elas pelos estudantes. Amplio essa discussão no capítulo seis ao abordar aspectos da categoria emergente ID. Numa aula de química, é importante considerar que os significados requeridos pertencem a uma comunidade científica específica. Assim, no discurso estabelecido nas aulas de química, a linguagem científica da química é referência, pois o professor tem o domínio do conhecimento científico e faz uso de tal linguagem no seu discurso. E, ao considerar o contexto em que está inserido, a sala de aula, faz uso da LCE, que é constituída por diferentes gêneros discursivos escolares sobre os quais passo a discutir na subseção que segue. 3.3 Gêneros Discursivos Escolares Um aspecto importante, considerando a temática da tese, é o que se refere às características próprias da linguagem estabelecidas na sala de aula. Para situar a linguagem de uma aula de química como um conjunto de gêneros discursivos escolares específicos, apresento, nesta subseção, uma discussão referente aos aspectos que caracterizam um gênero discursivo e também, as particularidades da LCE estabelecida nas aulas de química. Para tanto, o aporte teórico buscado foi Bakhtin (2010, 2006) e autores próximos a sua teoria, além de autores que vem discutindo características específicas do DC, DDC e DP que, na tese, são entendidos como constituintes da LCE. Entendo, com Bakhtin (2010), que os gêneros discursivos se caracterizam como enunciados estáveis que apresentam conteúdos temáticos, estilo próprio e, também, uma construção composicional específica. Ou seja, a linguagem de um gênero discursivo é histórica e concreta e, por isso, ocorre no âmbito de interações sociais de uma determinada esfera social, como, por exemplo, a sala de aula, pois esta apresenta objetivos, direções e público específico: os estudantes. Assim, o que caracteriza um gênero discursivo são o tema, a forma composicional e/ou as marcas linguísticas. Essas condições são características fundamentais dos enunciados, no entendimento de Bakhtin (2010). Nesse sentido, Rodrigues (2005, p. 164), tendo como fundamentação estudos bakhtinianos, afirma que “cada esfera com sua função socioideológica particular e suas condições concretas específicas, historicamente formula na/para a interação verbal gêneros discursivos que lhe são próprios”. Desse modo, 81 entendo que, nos discursos realizados em sala de aula, há escolhas de gêneros específicos que contemplam determinados objetivos e que vão ao encontro dos destinatários, ou seja, na enunciação da sala de aula há uma preocupação com os outros do discurso: os estudantes. Nas palavras de Bakhtin (2010, p. 305), “o direcionamento, o endereçamento do enunciado é sua peculiaridade constitutiva sem a qual não há e nem pode haver enunciado”. O autor reitera que tais peculiaridades constituem e determinam os gêneros do discurso. Também diz que: “a situação dá forma à enunciação (...) a situação e os participantes mais imediatos determinam a forma e o estilo ocasionais da enunciação” (p. 261). Com esses entendimentos, nas aulas de química, por exemplo, o discurso escolar estabelecido caracteriza-se por uma linguagem bastante específica, a LCE e esta, por sua vez, apresenta na sua composição aspectos de diferentes gêneros discursivos, como o DC, o DDC e o DP. Estes, por sua vez, vão ao encontro dos diferentes discursos cotidianos trazidos pelos estudantes e a interação discursiva estabelecida propicia maior consciência da linguagem cotidiana sobre um mesmo fenômeno em circulação no processo pedagógico. Com isso, nessa multiplicidade discursiva, instaura-se um processo interativo em sala de aula que precisa, pelo posicionamento do professor, (re)direcionar sentidos atribuídos inicialmente pelos estudantes buscando aproximá-los dos significados químicos historicamente construídos. E assim, a LCE se configura num novo gênero discursivo, a saber, o gênero escolar, e, desse modo, também apresenta aspectos específicos devido a sua condição social, aos objetivos propostos e aos sujeitos envolvidos no processo. Pela prática de sala de aula, ao ensinar química, ao analisar as escritas dos estudantes e ao analisar os comentários escritos nas orientações fui percebendo a importância de, como professora, estar atenta às particularidades da linguagem química e, também, da necessidade de perceber as limitações conceituais dos estudantes, para poder atuar como mediadora potencial no processo de ensino. Para isso foi preciso estar atenta aos sentidos atribuídos pelos estudantes em sala de aula e redimensioná-los num processo que qualificou o uso da LCE. Ao caracterizar a LCE como um gênero discursivo escolar, é importante discutir mais sobre as considerações feitas por Bakhtin (2010) referente às características dos gêneros do discurso. Para esse autor, os gêneros discursivos 82 refletem as condições específicas e as finalidades de cada contexto no qual a linguagem é utilizada, como, por exemplo, o contexto científico, midiático, didático, artístico. Nas palavras do autor (2010, p. 293), “o gênero do discurso não é uma forma da língua, mas uma forma típica do enunciado; como tal forma, o gênero inclui certa expressão típica a ele inerente”. Assim, é importante considerar as especificidades do gênero discursivo escolar utilizado pelo professor e que ocorre numa condição social específica, a sala de aula, cujo objetivo é ensinar química e, na interação estabelecida, o outro é o estudante, e é para ele que se volta o discurso do professor em sala de aula. Por isso, é importante a atenção para os sentidos e para os significados que o estudante atribui ao discurso do professor. É na relação pedagógica que o professor precisa trazer o estudante para participar e se apropriar da LCE, e, assim, possibilitar o aprendizado. Bakhtin (2010) enfatiza que na enunciação os diferentes interlocutores são considerados, pois, ao falar ou escrever, há um direcionamento para alguém, seja para um estudante, seja para um professor, seja para uma comunidade científica, seja para um amigo. Em todos os casos, a forma da linguagem utilizada será diferente, pois os leitores, por sua vez, também são diferentes. Nesse sentido, o discurso escolar aqui defendido é diferente do DC que, por sua vez, é diferente do DDC que, também, difere do DP. Mas são esses diferentes gêneros discursivos que, no meu entendimento, constituem o discurso do professor e que vão ao encontro do gênero discursivo cotidiano do estudante. E essa multiplicidade de gêneros discursivos corrobora com as afirmações de Bakhtin (2010) de que a riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas por que são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e por que cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo (BAKHTIN, 2010, p. 262). Entendo que o gênero do DC, por exemplo, é direcionado para um público com um domínio do conhecimento científico e, assim, apresenta particularidades bastante específicas que são facilmente entendidas para quem está inserido na área. Mas, nas aulas de química, por exemplo, o professor faz uso de diferentes gêneros discursivos, que constituem, por sua vez, um novo discurso: o discurso escolar. Nas suas enunciações, o professor precisa considerar o alvo do discurso, 83 que é os estudantes, e precisa estar atento às especificidades do processo de ensino. Isso implica tanto o uso da linguagem química, que se aproxima do DC e do DDC, como o uso da linguagem pedagógica, que consiste no DP e que está mais próxima do DCE. Considero que cada professor vai a partir de sua vivência formativa ampliando o seu DP e possibilitando a significação do mesmo, para isso é importante a conscientização do professor das características e das especificidades da linguagem que usa em sala de aula. O DP é contemplado por atitudes, habilidades, exemplos que o professor utiliza ao especificar determinado conteúdo químico, por exemplo. Com base nas especificidades do discurso escolar, afirmo que o estudante, ao iniciar a sua escrita ou ao falar nas aulas de química, precisa inicialmente aprender essa nova forma de linguagem, a LCE, que apresenta características próprias, diferentes da linguagem a que está habituado no seu dia a dia. Classifico, com Bakhtin (2010, p. 263), o gênero discursivo escolar como gênero discursivo secundário que surge “nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado” e que, “no processo de sua formação eles incorporam e reelaboram diferentes gêneros primários que se formaram nas condições discursivas imediatas”. Esse entendimento corrobora com Vigotski (2000) ao afirmar que o estudante, ao se apropriar e ao significar os conceitos científicos, amplia e redimensiona os conceitos cotidianos, e essa discussão já foi apresentada anteriormente. Ainda, conforme Bakhtin (2006, p. 285), “quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade”. Conseguimos, por exemplo, comunicar-nos melhor com as pessoas que pertencem ao nosso grupo social, pois conhecemos a sua linguagem e o seu modo de expressão. Daí a importância de o estudante se familiarizar, com as especificidades da LCE, para, de fato, entender o seu significado e conseguir fazer uso consciente de tal linguagem. Nesse sentido, defendo a necessidade de cada estudante, mediante o uso de diferentes instrumentos pedagógicos e com a orientação do professor, apropriarse da LCE e significá-la. Após a discussão sobre o entendimento de gêneros discursivos, tendo como base o referencial bakhtiniano, passo a abordar algumas das características específicas dos diferentes gêneros discursivos que constituem a LCE, para isso, 84 atenção mais direcionada para o DC e o DDC que estão mais vinculados à linguagem química e que apresentam particularidades que são importantes de serem percebidas pelo professor em sala de aula. Para tanto, estabeleço um diálogo com Fang (2004), Lemke (1997), Mortimer (2010, 1998); Oliveira e Queiroz (2012)36, Ferreira e Queiroz (2012), Latour (2000), River e Straw (2004), Prain (2006), Cunha e Giordan (2009) e Sutton (1997). Os referidos autores, em seus trabalhos, abordam as características da linguagem científica e da linguagem da divulgação científica com atenção para a importância da sua apropriação e da sua significação para aprender Ciências/Química. Fang (2004), ao escrever sobre a literatura científica e sobre textos científicos, discute as especificidades da linguagem científica. Apesar da atenção do autor centrar-se na linguagem escrita de textos, tais características perpassam, também, para a oralidade, isto é, estão presentes no discurso do professor em sala de aula e, por isso, são constitutivas da LCE. O autor chama a atenção para as especificidades da linguagem científica e parte da premissa de que uma grande barreira para o ensino de Ciências consiste na dificuldade de os estudantes entenderem essas especificidades. Nessa linha de pensamento, Fang (2004) exemplifica quatro características da linguagem científica que, segundo ele, constituem os textos científicos. Reafirmo que tais características, com diferentes intensidades, constituem também a LCE, quais sejam: densidade de informações, abstração, termos técnicos e de respeitabilidade. Passo a escrever sobre cada uma delas, trazendo outros pesquisadores que apresentam entendimentos semelhantes. Quanto à densidade de informações, Fang (2004) explica, com base em Halliday, que ela ocorre devido ao grande número de termos específicos, ou, com base em Eggins, devido à porcentagem de termos científicos (content words) em relação ao número de palavras contidas numa frase. Importante destacar que, na linguagem científica, os termos específicos incluem, na sua maior parte, substantivos, verbos, adjetivos e alguns advérbios. Entre os termos não específicos estão: preposições, conjunções, verbos auxiliares, alguns advérbios, artigos e pronomes. Tais características são diferentes da linguagem comum, que apresenta um predomínio de verbos, de advérbios e de adjetivos. 36 Corresponde ao artigo A8 da revisão bibliográfica da revista Química Nova apresentado no quadro 01 da p. 87. 85 A densidade de informação pode ser dada, conforme as exemplificações de Fang, pelo uso de expressões substantivas extensas, as quais condensam informações e, para serem entendidas pelos estudantes, precisam ser significadas. Essas características da linguagem científica foram denominadas por Sutton (1997, p. 14, trad. própria) como “sistema de etiquetagem” 37 e essas são muitas vezes utilizadas em detrimento das características que o autor denominou de “sistema interpretativo”, que contempla as analogias, as metáforas. No entendimento de Sutton (1997, p. 22, trad. própria) “é preciso que o estudante compreenda que os termos científicos não se originaram como universais, mas que decorreram de um esforço interpretativo de diferentes raciocínios realizados pelos cientistas”.38 O referido autor ressalta que uma visão da linguagem científica apenas como “etiquetagem” limita o processo de ensino para um modelo de recepção, no qual se tem uma mensagem pronta e que precisa ser repassada ao estudante, num entendimento de transmissão, em que há uma palavra para cada coisa. Para exemplificar a densidade de informação, transcrevi um trecho do texto trabalhado nas primeiras aulas de Química I, “Água: um líquido vital”. O referido texto é um gênero de DDC e, assim, algumas das características da linguagem científica são possíveis de serem encontradas no decorrer do texto. A diferença de um texto científico para o de divulgação científica consiste no seu destinatário, que não é mais um cientista apenas, mas um público mais amplo, e, por isso, há alguns termos mais acessíveis, bem como algumas explicações que, num texto científico, seriam suprimidas. No entendimento de Cunha e Giordan (2009), os recursos lexicais específicos, como analogias, exemplificações, comparações e metáforas, são características particulares do DDC, e esses o diferenciam do DC. Ferreira e Queiroz (2012), com base em Zamboni, caracterizam o DDC, por elas denominado de textos de divulgação científica (TDCs) contemplando três características: cientificidade, didaticidade e laicidade. A laicidade, segundo as autoras, consiste nos indícios do discurso cotidiano devido à presença de 37 38 Sistema de Etiquetaje (1997, p. 14). “debemos mostrar a estos estudiantes que tales enunciados no fueron universales em sus Orígenes, y ayudarles a compreender el esfuerzo interpretativo y los razionamientos que los científicos realizaron” (p. 22). 86 diferentes formas de contextualização. A didaticidade está relacionada a aspectos do discurso didático como explicações, retomadas e orientações metodológicas. Tais particularidades, as formas de explicações, a atenção para o público alvo, estão vinculados ao estilo de cada gênero discursivo e indicam a diversidade dos mesmos. No trecho que transcrevi do artigo anteriormente referido, os termos específicos estão em negrito, e as expressões substantivas complexas estão destacadas em negrito e sublinhadas: o estado líquido da água tem uma estrutura complexa e dinâmica, que envolve associação entre as moléculas. A forte e extensa ligação hidrogênio entre as moléculas produz um valor muito alto de certas propriedades físicas, tais como temperatura de ebulição, viscosidade, tensão superficial, calor específico, entre outros (In: http://smtp.qmc.ufsc.br/qmcweb/artigos/agua.html). Para o estudante interpretar e compreender esse excerto, é preciso o entendimento de diferentes termos específicos, os quais ainda remetem ao entendimento de outros. Daí a complexidade inerente à interpretação de um artigo de divulgação científica, apesar dos recursos lexicais utilizados serem mais amplos do que no DC. Com essas particularidades, para proporcionar um entendimento aos estudantes, o professor precisa atuar como mediador no processo, fazendo uso do DP e atentando para as especificidades do DCE. Assim, fica evidenciada a multiplicidade de gêneros discursivos que constituem o discurso escolar e que precisam ser significados junto aos estudantes. É valido ressaltar que os termos específicos (negrito) são ainda mais condensados do que as expressões substantivas extensas (negrito e sublinhado), pois condicionam, para o seu entendimento, um conjunto maior de conceitos e, assim, implicam uma maior capacidade de generalização dos estudantes para o seu entendimento. Nessa linha de pensamento, Mortimer (1998) chama atenção para as relações conceituais que precisam ser lembradas, realizadas para o entendimento de uma única palavra. Por exemplo, quando um químico fala a palavra Solução, ele já traz consigo uma capacidade de generalização. Essa palavra remete o químico ao entendimento de que há um soluto em interação com o solvente e que tal interação é devido à intensidade das forças intermoleculares envolvidas. Ou seja, todo um processo físico-químico, toda uma relação 87 conceitual está sendo denominada por uma única palavra: Solução. Essa palavra, com base nos estudos de Fang (2004), pode ser considerada como um termo específico. Uma segunda característica da linguagem científica, e que foi discutida por Fang (2004), refere-se à questão da abstração que consiste no uso de entidades abstratas para descrever um processo. Na linguagem cotidiana, por exemplo, fala-se sobre experiências reais e relata-se todo o processo com uso de verbos, adjetivos e advérbios. Mas, na linguagem científica, para descrição dos processos, os verbos e os advérbios são substituídos por substantivos, com uso de entidades abstratas. Esse mecanismo foi denominado por Halliday, segundo, Fang (2004) e Mortimer (1998), de nominalização. Assim, na linguagem científica, um substantivo é utilizado para nomear todo um processo. Essa característica nominalista caracteriza-se também pela ausência do sujeito. Para exemplificar essa diferenciação, Mortimer (1998) traz duas maneiras de falar sobre o mesmo processo da relação entre solubilidade e temperatura. O referido autor (1998, p. 103) usa as duas formas de linguagem, a cotidiana e a científica, respectivamente: “ao colocarmos sal em água e aquecermos, conseguimos dissolver uma quantidade maior do que em água fria” (linguagem cotidiana). E a mesma situação, mas na linguagem científica, seria assim abordada: “o aumento da temperatura provoca um aumento da solubilidade do sal”. Para Halliday, conforme Mortimer (1998), o processo de nominalização da linguagem científica, como o anteriormente descrito, aumenta a densidade léxica, e os termos usados carregam significados interligados numa estrutura conceitual própria da ciência. Daí a importância de o estudante fazer uso dessa linguagem num processo orientado pelo professor. A terceira característica da linguagem científica, apontada por Fang (2004), consiste na linguagem técnica utilizada no decorrer do texto científico. Nesse âmbito, a linguagem científica é considerada mais estruturada do que a linguagem comum. Dizemos e escrevemos, por exemplo: pesou-se 10 g e não pesamos 10 g, ou mediu-se 10 mL e não medimos 10 mL. Essa característica não se restringe apenas à descrição de textos, ou de técnicas experimentais do DC. Mas, ela, conforme, Mortimer (2011), Cunha e Giordan (2009), é retratada também no DDC, no qual, também, predomina a impessoalidade do autor. 88 Considerando a impessoalidade do DC, Oliveira e Queiroz (2012, p. 852) afirmam que nessa maneira de escrever “o autor assume no texto a postura de mero observador, distante do objeto de pesquisa, apenas relatando os resultados dela proveniente”. Mas as mesmas autoras chamam a atenção de que é possível, ainda, apesar da objetividade e neutralidade científica, identificar, sutilmente, a presença dos autores, seja pela descrição da justificativa, seja na descrição das limitações, ou ainda, na descrição da hipótese do trabalho, pois, nesses espaços do texto, os autores, no entendimento de Oliveira e Queiróz (2012) assumem-se juntamente com os seus pares, colegas de pesquisa, e, assim, são possíveis de serem identificados. E a quarta característica da linguagem científica discutida por Fang (2004) consiste na respeitabilidade do DC, e está relacionada com a seriedade, organização e com a característica de afirmação do DC. Isso também é reportado pelo uso de um discurso impessoal. Aliado às especificidades da linguagem científica descritas por Fang (2004) as autoras Oliveira e Queiroz (2012), em seu artigo sobre linguagem científica, descreveram algumas características, denominadas por elas de retóricas, quais sejam: a padronização textual, que consiste na organização da escrita conforme as normas científicas; a não reprodutibilidade das etapas da pesquisa, ou seja, o texto científico apresenta-se com uma organização padrão, linear, que facilita a identificação das partes do texto pelo leitor; e a ausência de subjetividade, com o uso da impessoalidade, da voz passiva. Também, segundo as autoras, outra característica retórica consiste no direcionamento do autor para o leitor imaginário, no sentido de explicar todo o processo de pesquisa, considerando as possíveis dúvidas, assim como, a pressuposta existência de contra-argumentos. O autor, afirmam elas, questionase sobre possíveis críticas ao seu trabalho e procura respondê-las já no seu texto. Aliado a esse diálogo, faz uso de um referencial bibliográfico e de citações que corroborem o tema de sua pesquisa para auxiliar na persuasão do leitor e mostrar a importância da sua temática. Isso remete para a respeitabilidade do DC discutido por Fang (2004). A característica apontada por Oliveira e Queiroz (2012) de que pela argumentação apresentada é possível perceber que no texto do DC o leitor foi considerado pelo indício de um diálogo, mesmo com o objetivo de convencimento, 89 vai ao encontro da classificação do DC como enunciação, pois há, apesar da suposta neutralidade do autor, um diálogo estabelecido: ao escrever, o autor faz uso de diferentes vozes e também considera os seus possíveis leitores. O que corrobora a fala de Bakhtin (2010, p. 301) de que “o papel dos outros para quem se constrói o enunciado é excepcionalmente grande”. No entendimento desse autor, tal característica é constitutiva do enunciado. Nesse âmbito, a linguagem científica, apesar de ser caracterizada como monológica, neutra, impessoal, apresenta, na sua composição, características dialógicas, uma vez que o seu discurso consiste em respostas ao que já foi dito. Ainda, em relação à característica retórica da linguagem científica, Lemke (1997) diz que cada gênero discursivo, que é um padrão de organização da linguagem científica, seja um relatório, seja um artigo de divulgação científica, apresenta um conjunto de estruturas retóricas, como por exemplo, silogismos, analogias e definições. Lemke (1997) ressalta que as diferentes características anteriormente referidas, vão constituindo o gênero escolar, pois estão presentes no livro didático, na fala do professor e nas leituras trazidas para a sala de aula. Lemke (1997, p. 37, trad. própria) percebeu que, na fala do professor em sala de aula, “se utiliza muito a voz passiva, os substantivos abstratos em lugar de verbos, os verbos de relação abstrata em lugar de verbos de ação” 39 . Esse posicionamento corrobora a minha defesa de que a LCE é constituída por diferentes discursos, necessários de serem significados junto aos estudantes. Assim, com atenção voltada para a palavra, para os seus significados e para as possíveis relações conceituais estabelecidas, a linguagem passa a ser constitutiva nos processos de interações estabelecidos em sala de aula. Daí a importância de os estudantes serem estimulados a participar em sala de aula, fazendo uso qualificado dessa nova linguagem (GÓES, 1997). Esses entendimentos superam a visão da linguagem apenas como instrumento de comunicação, mas apresentam-na como constitutiva dos sujeitos, numa visão de que a linguagem e o pensamento se constituem mutuamente. Nesse âmbito, reafirmo a importância da presente tese de possibilitar espaços para os estudantes fazerem uso da LCE em diferentes situações, mediante diferentes instrumentos pedagógicos, num processo orientado pelo 39 “se utiliza mucho la voz pasiva, los substantivos abstractos em lugar de verbos, los verbos de relación abstracta em lugar de verbos de acción” (p. 37). 90 professor. Os diferentes instrumentos pedagógicos possibilitaram o uso da LCE mediante a escrita e a reescrita de textos pelos estudantes num processo orientado. Assim, as particularidades, as potencialidades da escrita e do seu uso para a significação conceitual, para o aprendizado em química consistem na temática que apresento no próximo capítulo. 91 4 ESCRITA E REESCRITA DE TEXTOS COMO PRÁTICA PEDAGÓGICA INTERATIVA “Professora eu sei isso, mas não consigo escrever!” (fala de um estudante transcrita do DB) (p. 05, aula dia 09/03/12). A fala que eu escolhi para fazer a abertura deste capítulo remete para algumas situações vivenciadas em sala de aula. O processo da escrita, o escrever para o estudante, foi se tornando relevante nas aulas de Química I, pois como já explicitei, anteriormente, a escrita foi perpassando os diferentes instrumentos pedagógicos. A decisão pela prática da escrita teve sua origem, como mencionado no primeiro capítulo, no fato de os estudantes não conseguirem escrever sobre uma determinada situação fazendo uso da linguagem química, ficando evidenciado, as suas limitações conceituais e a ausência de um pensamento químico. Com isso decidi oportunizar aos estudantes, nas aulas de Química I, fazerem uso qualificado da linguagem química num processo de escrita e reescrita orientada. A escolha pela prática da escrita está ancorada na importante contribuição do escrever para a ampliação das capacidades cognitivas do sujeito que, ao escrever e reescrever redimensiona a sua forma de pensar (Marques, 2001). Assim, o processo de escrita foi sistematicamente orientado, e aos estudantes foi oportunizada a reescrita de seus textos. A decisão em optar pela escrita e pela reescrita como meio de apropriação e de significação conceitual partiu do entendimento de que, ao escrever, num processo orientado pelo professor, o estudante teria a possibilidade de fazer uso consciente das palavras específicas da química, de ampliar as suas relações conceituais e, consequentemente, de formar um pensamento químico sobre o mundo. Neste capítulo, o objetivo principal é explicitar a escolha da prática da escrita e da reescrita nas aulas de Química I. Para isso, na subseção 4.1, apresento um olhar sobre como está sendo desenvolvida a prática da escrita nos cursos de Graduação em Química. Em seguida, na subseção 4.2, faço a justificativa do uso da prática da escrita e da reescrita nas aulas de Química I e assumo o processo 92 de escrever e de reescrever como meio para possibilitar a apropriação e a significação da LCE pelos estudantes. Na subseção 4.3, com base em Bakhtin, defendo a prática de escrita e de reescrita vivenciada como um processo dialógico e de alteridade, com atenção para a interação estabelecida mediante a orientação e a escrita dos estudantes. E, na subseção seguinte, apresento uma discussão, com base em Leontiev (2006), sobre a necessidade de a prática da escrita se tornar uma atividade de aprendizagem. Isso remete à superação de uma simples tarefa para uma atividade. Ao finalizar o capítulo, na subseção 4.5, defendo o processo de escrever vivenciado nas aulas de Química I como uma prática de pesquisa em sala de aula. Para tanto, o foco é a metodologia da pesquisa em sala de aula com atenção para os princípios do educar pela pesquisa. 4.1 A Prática da Escrita em Cursos de Graduação em Química Os estudos sobre linguagem científica e sobre ensino de química no Brasil, segundo um levantamento realizado por Flor e Cassiani (2012, p.181), do período de 2000 a 2008 remetem, nas palavras das autoras, “para três enfoques principais: papel e funcionamento de analogias no ensino de Química, análise de interações discursivas em sala de aula e escrita e leitura de artigos científicos e divulgação científica no ensino superior”. O levantamento das autoras também indicou que os trabalhos sobre leitura e escrita foram publicados com mais ênfase a partir de 2007. Especificamente para se ter uma ideia sobre a prática da escrita nos cursos de graduação em Química, uma vez que esse é o nível de ensino acompanhado, consultei publicações na revista Química Nova, do período de 2000 a 2012, com o objetivo de olhar para se, e de que maneira o tema linguagem química e escrita estavam sendo contemplados. Foram analisados os artigos da seção Educação. Justifico a escolha dessa revista por se tratar de um periódico bimensal consolidado na área da Química e pelo seu acesso através do portal “www.scielo.br” que reúne publicações científicas latino-americanas e que é mantido por agências brasileiras de fomento à pesquisa. E a seção Educação foi escolhida por apresentar artigos de investigações direcionados ao ensino de Química para a graduação e para a pós-graduação. 93 No período de 2000 a 2012 foram publicados 260 artigos na seção Educação. O critério para a seleção dos artigos para serem analisados considerou a presença das palavras: argumentação/comunicação, linguagem química/científica, escrita ou leitura, quer no título, quer nas palavras chaves dos artigos. Com os critérios estabelecidos 08 artigos foram selecionados para análise. Observo que é possível que outros artigos publicados na revista Química Nova nesse período também possam, eventualmente, contemplar a temática em questão, mas não foram selecionados devido às particularidades dos critérios adotados. Apesar das limitações do instrumento utilizado e de não abranger, na revisão bibliográfica, um maior número de edições ou de revistas, os resultados dão indícios da lacuna na discussão referente à escrita nos cursos de Graduação em Química e da sua importância para a significação conceitual em química. No quadro 1, que segue, apresento os títulos dos artigos selecionados, as palavras chaves, o ano de publicação e também um código identificando cada um dos artigos. As palavras que contemplaram os critérios para a seleção dos artigos encontram-se sublinhadas. Quadro 1: Resultados da Revisão Bibliográfica no Periódico Química Nova Cód. Ano Título do artigo Palavras Chaves A1 2001 A2 . A3 2007 A4 2008 A Linguagem Escrita nos Cursos de Graduação em Química Promovendo a argumentação no ensino superior de química Perfil de leitores em um Curso de Licenciatura em Química A linguagem química e o ensino da química orgânica A5 2008 A6 2008 escrever para aprender; habilidades de comunicação; atribuições da escrita 40 (trad. própria) ensino superior; argumentação; química 41 (trad. Própria) formação de professores; leitura; 42 Química (trad. Própria) modelos moleculares; linguagem química, ensino de química (trad. 43 Própria) ensino de graduação; comunicação científica; pesquisa participativa (trad. 44 Própria) reação de deslocamento; linguagem 2007 Considerações sobre o papel da comunicação científica na educação em química Conceitos de química dos 40 writing to learn; communication skills; writing assignments 41 higher education; argumentation; chemistry 42 teacher formation; reading; Chemistry. 43 molecular models; chemical language; chemistry teaching. 44 undergraduate education; scientific communication; participatory research 94 A7 . 2010 A8 2012 ingressantes nos cursos de química; modelos de reação química 45 graduação do instituto de (trad. Própria) química da universidade de São Paulo Escrita científica de alunos de química; relatórios de laboratório; 46 graduação em Química: argumentação (trad. Própria) análise de relatórios de laboratório A retórica da Linguagem linguagem científica; retórica; material 47 Científica: das bases teóricas didático (trad. Própria) à elaboração de material didático para o ensino superior de química Fonte: autoria própria Os artigos selecionados apresentaram diferentes discussões teóricas que tinham como temática geral a linguagem química nos Cursos de Graduação em Química, algumas características apontadas em A2, A4 e A7 já foram apresentadas no capítulo anterior ao discorrer sobre as particularidades da LCE. Em seguida aponto algumas das principais características de cada um dos artigos e, amplio a discussão com os artigos que, de fato, contemplaram a questão da escrita na graduação em química. Os artigos A2, A5, A7 e A8 apresentaram na sua discussão uma maior ênfase para aspectos específicos da linguagem científica com atenção para a importância de o estudante aprender a estrutura dos argumentos científicos. Em A3 os autores, Júnior e Silva (2007), retratam a carência ou o uso não orientado de leituras num determinado Curso de Graduação em Química. Ressaltam que as leituras que são realizadas reduzem-se apenas à leitura do livro didático das disciplinas específicas. Nesse sentido, os referidos autores, defendem a importância de inserir espaços para que o estudante aprenda a ler, não no sentido de uma leitura apenas informativa, mas, que pela leitura ele consiga estabelecer um diálogo com o texto e apresentar um posicionamento crítico frente às leituras. Essa situação, apresentada para a prática da leitura nos Cursos de Graduação em Química converge com a situação da prática da escrita como foi possível 45 displacement reaction; chemical language; chemical reaction models 46 chemistry; laboratory reports; argumentation 47 scientific language; rhetoric; didactic material 95 depreender pelas leituras realizadas, da necessidade de o estudante aprender a escrever, de ter espaços formativos para isso. De aprender a escrever para pensar, para reorganizar o seu pensamento, não apenas num processo simplista de escrever copiando. No artigo A4 foi apresentada uma discussão sobre a importância da significação da linguagem química para o ensino da química orgânica. Os autores Roque e Silva (2008), contemplaram, na sua discussão, a importância de os estudantes entenderem as especificidades do discurso da química orgânica. De conseguirem formular um pensamento coerente ao fazer uso de uma representação, como por exemplo, de uma fórmula estrutural. Os autores também chamaram a atenção para a importância de o professor estar atento, em sala de aula, para essas especificidades relacionadas aos diferentes tipos de linguagem. Nessa mesma direção, considerando a importância de o professor perceber e de (re)direcionar as limitações conceituais dos estudantes em sala de aula, os autores Fernandez et al. (2008), em A6, apresentaram uma investigação sobre as concepções conceituais em química de estudantes ingressantes nos cursos de Química. A análise teve como objetivo perceber as potencialidades e as limitações dos estudantes, ao ingressarem na universidade, solicitando a eles estabelecer relações conceituais mais amplas para determinados conceitos. Partindo das necessidades apontadas, os autores propunham atividades extras com esses estudantes no decorrer de sua formação inicial. Numa outra perspectiva, mas também apontando para a importância da linguagem química, em A5, as autoras Oliveira e Queiroz (2008) apresentam um estudo sobre as concepções de professores, de estudantes de graduação e de estudantes de pós-graduação em química para a expressão “comunicação científica”. Nessa investigação o relatório de laboratório foi citado como uma importante atividade de comunicação científica para cada um dos sujeitos entrevistados. As autoras também salientaram que os estudantes de graduação apontaram a dificuldade em se comunicar de maneira oral, enquanto que os professores e estudantes da pós-graduação falaram da dificuldade de se comunicarem da forma escrita. Esses posicionamentos indicam que os estudantes da graduação, diferentemente dos professores e dos pós-graduandos não estão habituados em se comunicar de forma escrita e, por isso sua dificuldade está centrada, apenas, na comunicação oral. De um modo geral, as 96 autoras defendem a necessidade da ampliação de espaços, nos cursos de graduação em química, que oportunizem aos estudantes aprender a fazer uso correto da linguagem química e, também de entenderem a importância da comunicação científica, tanto oral como escrita, para a sua vida profissional. Voltando para a temática principal deste subcapítulo que é a presença da linguagem escrita nos cursos de graduação em química, a discussão que segue contempla mais especificamente os artigos A1 e A7 que discutiram em seu trabalho a escrita nesse contexto formativo. Em A1 Queiroz (2001, p.146) apresenta um panorama geral sobre o uso da escrita nos cursos de Graduação em Química, sendo que nesses, segundo a autora, as práticas de escrita “enfatizam o desenvolvimento de habilidades quantitativas, como a efetuação de cálculos e resolução de problemas, em prejuízo do desenvolvimento de habilidades qualitativas”. Queiroz (2001) também chama atenção para a necessidade de o estudante de química aprender a se expressar fazendo uso da linguagem química para seguir a carreira profissional de cientista. A isso, eu acrescento que se apropriar da linguagem química, saber se comunicar fazendo uso de tal linguagem é, também, condição para o processo de aprender, para ampliar a significação conceitual do estudante e é fundamental para ser professor de química. A prática da escrita e da reescrita orientadas são por mim defendidas por possibilitarem ao estudante aprender química. Foi possível depreender pela análise realizada, particularmente em A1, A5 e A7, que uma prática de escrita clássica nos cursos de Graduação em Química é a escrita de relatórios. Faz-se a experimentação, e, em seguida, solicita-se aos estudantes a escrita de um relatório. Em alguns casos, como afirmaram os estudantes, em A5, essa escrita está condicionada ao simples preenchimento de fichas com espaços predestinados para, apenas, serem inseridos os resultados obtidos na técnica. Com isso, reduz-se a capacidade de argumentação química do estudante, e não há uma efetiva contribuição para a sua significação conceitual. Ou ainda, a escrita de relatórios, se reduz na cópia de relatórios de estudantes veteranos, como indiciaram os posicionamentos de estudantes da pós-graduação, também em A5. Em A5, A7 e A8 ficou evidenciado que, de um modo geral, na análise da escrita de relatórios a atenção se reduz à formatação dos mesmos. Em A7, por exemplo, os autores Oliveira et. al. (2010), apresentam uma análise com atenção 97 para o uso adequado de termos que caracterizam o gênero específico, relatório. Nos seus estudos o objetivo foi verificar a capacidade de argumentação48 dos estudantes fazendo uso de métodos específicos para o estudo do argumento. Foi possível depreender que nesses artigos predomina uma discussão referente à importância do uso correto da linguagem científica com ênfase na questão estrutural do argumento. Numa discussão que perpassa a importância da apropriação do gênero específico, que é o relatório, em detrimento da apropriação ou da significação conceitual, ou seja, o aprender química, a evolução da significação conceitual mediante a escrita de relatórios não foi objeto de análise. Ressalto que saber organizar um pensamento químico coerente, com uso de uma argumentação favorável, somente é possível na medida em que o estudante significa os conceitos químicos e consegue fazer uso consciente dos mesmos. Daí a importância da atenção para o processo da evolução da significação conceitual e da necessidade da orientação e de meios para que isso seja possível nas aulas de química. Não quero com isso menosprezar a importância de os estudantes aprenderem os gêneros discursivos próprios da ciência. Como já referi anteriormente, tenho clareza da importância de o estudante aprender a se comunicar, de saber escrever um relatório científico, de ser capaz de fazer uso da linguagem científica no âmbito do DC, ou do DDC, ou, ainda, de saber elaborar projetos de pesquisa. Esses gêneros discursivos específicos perpassam e constituem a vida acadêmica e, posteriormente, serão exigidos, também, na vida profissional dos estudantes, seja como professor ou como pesquisador na área específica da química. Sutton (2003, p. 22, trad. própria) ao comparar a importância do uso da linguagem científica com os equipamentos de laboratório afirmou que “de alguma maneira, o lápis do cientista é mais importante que outro equipamento de laboratório”49. 48 Também de âmbito internacional o projeto RODA (razonamiento, discusión, argumentación) que vem sendo desenvolvido pela Universidad de Santiago de Compostela desde1994 tem estudado aspectos da argumentação dos estudantes, em especial quanto a forma e os componentes de um argumento, com uso do modelo de Toulmin. Os autores Jiménez Aleixandre, María Pilar y Díaz de Bustamante, Joaquín em artigo publicado na revista Enseñanza de Las Ciencias, 2003, n. 21 (3), apresentam uma análise sobre esse projeto. O título do artigo é: Discurso de aula e argumentación em la classe de ciencias: cuestiones teóricas y metodológicas. 49 alguna manera, el lápiz del científico es más importante que outro equipamiento de laboratório (p. 22). 98 Nessa direção, também apontam os estudos desenvolvidos por Latour e Woolgar (2000) ao investigar e acompanhar a vida de laboratório, os autores destacam que muito mais do que saber fazer uso dos instrumentos do laboratório, é preciso saber interpretar os resultados e saber comunicá-los para a comunidade científica. Daí a necessidade de se apropriar do discurso específico e de ampliar a significação conceitual em química. Apesar de o foco desta tese ser a significação conceitual em química mediante a prática da escrita e da reescrita de textos num processo orientado pelo professor, as características dos gêneros discursivos específicos da linguagem científica são possíveis de serem verificados nos textos dos estudantes, pois a LCE, que foi sendo apropriada por eles, como já referi anteriormente, é constituída por diferentes gêneros discursivos (DC, DDC, DP) que fazem parte do discurso escolar e que estão em interação com o DCE. No processo de orientação para a reescrita, a ênfase dada foi para as relações conceituais estabelecidas pelos estudantes, com o meu olhar mais direcionado para oportunizar a apropriação e a evolução no significado conceitual, em detrimento da forma específica de um relatório, por exemplo. Entendo que, para o estudante, ao evoluir num pensamento conceitual químico será mais fácil escrever e entender as especificidades da linguagem científica e, assim comunicar-se em tal âmbito discursivo. Sem significados mais avançados para os conceitos, a argumentação química fica difícil ou impossível, ainda mais considerando as especificidades da linguagem científica que requer maiores níveis de abstração e de generalização. Ainda em A1 Queiroz (2001) traz exemplos de metodologias de ensino que fazem uso da escrita no ensino superior de química. Importante ressaltar que todos os exemplos trazidos são de âmbito estrangeiro. Segundo a autora, a ênfase no uso da escrita no ensino subdivide-se em duas perspectivas: numa delas, a escrita é considerada como um mecanismo, como um treinamento para possibilitar aos estudantes capacidades para realizarem a escrita de TDCs. Nessa perspectiva, o uso da escrita objetiva a apropriação do DDC e, a atenção está direcionada para a preparação da carreira de pesquisador. O objetivo principal é que o estudante aprenda a escrever artigos científicos. A outra perspectiva, segundo Queiroz (2001), considera a prática da escrita como uma estratégia de ensino, como uma ferramenta pedagógica que possibilite 99 uma melhor compreensão dos conceitos químicos pelos estudantes e, ainda, como um recurso para facilitar e ampliar a comunicação entre os estudantes e o professor. Essa prática de escrita vem sendo adotada, em especial, segundo a autora, nas salas de aulas com uma quantidade maior de estudantes. Isso porque numa sala de aula com muitos estudantes50 fica mais difícil ouvir a posição de cada um dos estudantes. Nessas condições a escrita também é considerada como uma alternativa para possibilitar ao professor „ouvir‟ individualmente os estudantes. Uma das propostas descritas, por Queiroz, consistiu no uso de uma “caixa de dúvidas” para os estudantes, de maneira anônima, depositarem questões referentes às aulas, para fazer a retomada dessas questões nas aulas posteriores51. Das metodologias de ensino que adotam a prática da escrita, descritas por Queiroz (2001), em A1, a maioria também se encontra descrita num artigo de âmbito internacional publicado por Klein e Aller (1998)52. Nesse, os autores Klein e Aller (1998) também abordam a escrita no ensino de Química e citam algumas iniciativas metodológicas. Das práticas descritas, em ambos os trabalhos, destaco uma que, na minha avaliação, apresenta alguns aspectos metodológicos que se aproximam da proposta de ensino defendida na presente tese, por isso, necessária de ser mais detalhada. Essa prática, segundo Queiroz (2001) e Klein e Aller (1998), foi proposta pelo professor J. L. Koprowski e se caracteriza pela escrita de relatórios experimentais pelos estudantes, seguida da correção feita pelo professor e posterior reescrita dos estudantes. Na correção, a atenção do professor esteve voltada, especificamente, para questões de cunho editorial e/ou cientifico. Sob esse aspecto, o que se aproxima com a minha proposta é, apenas, a possibilidade de os estudantes reescreverem o seu relatório após as orientações dadas pelo professor. Além disso, cada estudante fazia a leitura dos relatórios dos colegas atuando como revisor, o que se aproxima da proposta de reescrita das provas, pois, também, nesse processo, os estudantes fazem a leitura das 50 Como foi o caso das turmas de Química I acompanhadas com 50 estudantes. 51 Essa prática de ensino é de âmbito estrangeiro e foi desenvolvida por M. Strauss e T. Fulwiler. 52 Este artigo foi publicado numa revista estrangeira Language and Learning Across the Disciplines, disponível em http://wac.colostate.edu/llad/ e foi um artigo lido em paralelo com a revisão bibliográfica realizada no periódico Química Nova. 100 respostas dos colegas, ou das suas respostas e precisam realizar a análise e a correção das mesmas. A diferença fundamental entre a prática de escrita e de reescrita exemplificada e a prática de ensino por mim defendida está no foco que permeia as orientações para a reescrita. Na prática do professor J. L. Koprowski a orientação para a reescrita consistiu na ampliação do uso de termos da linguagem científica com atenção para o uso específico dos gêneros clássicos dessa linguagem. A atenção nas revisões voltava-se para aspectos editoriais ou científicos, enquanto que, na proposta de mediação e de orientação aqui defendida, o foco principal consistiu em proporcionar aos estudantes a apropriação e a significação da LCE mediante a escrita e a reescrita orientada acreditando na sua potencialidade para a formação do pensamento químico dos estudantes. Entendo que todas as iniciativas que visam a ampliar os espaços de escrita nos diferentes níveis de ensino são muito importantes. É preciso superar os vícios estabelecidos no sistema escolar que consistem em o estudante apenas copiar e colar textos da internet ou de livros didáticos, e retomar a capacidade de escrita, de expressão própria. Na prática de escrita vivenciada foi possível perceber que os estudantes não conseguem se expressar corretamente fazendo uso adequado das palavras conforme a gramática da língua portuguesa (trocam ss, por s, t por d, c por x e não conjugam os tempos verbais de maneira correta...), esses erros, apesar de serem apenas um problema de correção ortográfica de escrita implicam numa maior dificuldade em produzir um pensamento coerente. Ressalto que uma escrita bem realizada, de maneira coerente, denota boa capacidade de produção de pensamento. Um estudante, ao referir-se à prática da escrita, escreveu que a escrita do caderno achei bem complicado e estressante, pois pelo fato de não saber se expressar direito e nunca ser de fato o que a professora queria que escrevêssemos (AS_AN29). O posicionamento do estudante ao explicitar a dificuldade de se expressar direito implica na importância de aprender a fazer um uso coerente da língua culta para proporcionar uma maior clareza na sua escrita e ter condições de expressão mais favoráveis. Mas, o estudante, no seu posicionamento, ao complementar dizendo que nunca ser de fato o que a professora queria que escrevêssemos indicou que o não saber se expressar 101 também está relacionado a uma carência de significação conceitual, a uma falta de entendimento químico. Por não ter ainda a formação de um pensamento químico o estudante não consegue fazer uso coerente dos conceitos químicos na explicação de um fenômeno, por exemplo. Para que um enunciado seja entendido, para que apresente uma coerência química é preciso saber fazer uso das palavras necessárias. Isso implica a apropriação do gênero específico da linguagem química. O estudante precisa saber fazer uso de estratégias lexicais, semânticas e pragmáticas específicas para que a sua escrita tenha um entendimento químico favorável. É importante que o estudante aprenda a argumentar, a expressar os seus conhecimentos de forma escrita, para, assim, ao escrever, (re)elaborar o seu pensamento sobre os fenômenos e ampliar as suas capacidades cognitivas. A prática da escrita requer um maior nível de abstração e o desenvolvimento desta é consequência do desenvolvimento dos significados. Na medida em que o estudante se apropria dos significados químicos e começa a formular um pensamento químico é possível, pela produção escrita em processos orientados, ampliar, evoluir na significação química. Nesse sentido a defesa do uso da escrita e da reescrita orientada nas aulas de química. No decorrer do semestre, muitos estudantes avançaram na escrita, visto que, pelo processo da reescrita orientada, ampliaram a sua capacidade de argumentação e de generalização. Os resultados de tal prática estão descritos no capítulo cinco da tese. Em seguida, amplio as discussões referentes à defesa da prática da escrita e da reescrita nas aulas de Química I, sendo que esse posicionamento pode e deve ser ampliado para diferentes níveis de ensino e, também, para outras áreas do saber. 4.2 Escrever e Reescrever nas Aulas de Química I Amplio, aqui, a discussão sobre a importância da prática da escrita e da reescrita nas aulas de Química I. Defendo essa prática como um caminho capaz de possibilitar aos estudantes a apropriação e a evolução no significado conceitual em química. Nessa discussão, ainda não apresento os resultados, os quais estão descritos no capítulo cinco e seis da tese. O objetivo é discorrer sobre 102 diferentes visões teóricas relativas às contribuições da prática da escrita e da reescrita para a apropriação e a significação da LCE, para assim aprender química. Em âmbito internacional, segundo Klein e Aller (1998), a importância do escrever nas aulas de química foi discutida na Sociedade Americana de Química e também na Sixth Annual Conference on Chemical Education no ano de 1992. Nessa conferência, segundo os autores, foi enfatizado que a escrita possibilita ao estudante o pensamento químico, aperfeiçoando o entendimento de conceitos químicos, bem como, aumenta a comunicação entre estudantes e professores, aperfeiçoando os modos interativos de ensino o que leva, potencialmente, a um aprendizado melhor em química. A minha defesa, pelo uso da escrita e da reescrita nas aulas de Química I, parte do entendimento de Vigotski (2000) de que o escrever difere da fala por requerer um alto grau de abstração. E, nesse sentido, o processo de escrever é considerado um meio para estruturar o pensamento, pois exige uma maior organização cognitiva do que a fala, a compreensão na escrita somente é possível pelo conjunto de palavras e de combinações usadas de maneira articulada e bem estruturada. Numa comparação entre a escrita e a fala, Goody (1994), apud Rivard e Straw (2000), mostrou que na escrita os pensamentos são mais abstratos, mais objetivos e explícitos. Marques (2001) ao abordar a prática da escrita ressalta que essa prática, assim como a leitura, precisa ser aprendida pelos sujeitos e que a escrita não pode ser vista como uma simples decodificação da fala, mas da necessidade da compreensão de sentido e isso, segundo o autor, é mais difícil ao se lidar com palavras desconhecidas, com nomes próprios, como é o caso da LCE. Nas palavras do autor (2001, p. 89): “o que faz a escrita não são simples sinais gravados num suporte físico, mas é a significância que eles adquirem ao se inscreverem na ordem simbólica pela qual os homens se entendem criando seus mundos”. Especificamente ao se tratar da LCE com suas particularidades é importante que o estudante perceba o uso que ele faz de uma determinada palavra e que consiga estabelecer as relações necessárias para dar à sua escrita um sentido químico favorável. E com isso, nesse processo de escrita e reescrita avançar na significação conceitual em química. Também importante destacar algumas diferenças quanto ao posicionamento do sujeito que escreve e o processo de escrita em si. Góes (1993), ao estudar 103 sobre a escrita e a sua ação reflexiva aponta, com base em Scarmadalia & Bereiter (1987), para dois posicionamentos de escritores, sendo um, para escritores iniciantes e o outro para escritores experientes. No primeiro caso a escrita consiste mais num relato, o autor apenas conta o que sabe e não se preocupa em retomar o que escreveu. No segundo caso, o escrever é considerado como uma situação problema e com isso, o autor, revisa os seus textos e descobre novas relações e nesse processo transforma o seu pensamento. Entendo que é o segundo posicionamento que contribui para um maior nível de significação e foi esse o comportamento buscado no decorrer do processo de reescrita orientado. Para isso foi fundamental a participação efetiva do estudante, de ele passar a assumir e perceber a prática da escrita como uma atividade de ensino.53 Os autores Rivard e Straw (2000) acompanharam o aprendizado de estudantes nas aulas de Ciências em diferentes situações, ao fazerem uso da fala por meio de discussões em grupo e, ao fazerem uso da escrita para a sistematização das suas ideias. Os autores destacaram que, apesar de a fala e a escrita serem processos que melhoram o entendimento dos estudantes por possibilitarem o uso da linguagem específica da Ciência, a escrita, diferentemente da fala, consiste numa importante ferramenta para estruturar o pensamento dos estudantes. Isso porque a escrita, na sua estruturação, requer uma maior generalização, clarificação e organização de ideias. Rivard e Straw (2000) perceberam que, ao escrever, o estudante conseguia tornar as ideias, anteriormente menos estruturadas, mais coerentes. Os referidos autores afirmam que a elaboração escrita demanda um maior esforço cognitivo, e por exigir mais detalhes e ser mais rigorosa em relação à fala, contribui para a apropriação de conhecimentos mais complexos de uma maneira mais organizada. Nas palavras de Riward e Straw (2000, p. 585, trad. própria), “a escrita exigiu uma postura lógico reflexiva, que possibilitou aos estudantes refinar o seu pensamento, melhorando assim, o seu entendimento conceitual”54. Nesse mesmo sentido, Rego (2000), com base em Vigotski, salienta que a escrita promove 53 54 amplio a discussão referente ao entendimento de atividade na subseção 4.5. Explaining,or analytical writing, requires a reflective logical stance that encouraged students to refine their thinking thereby enhancing their conceptual understanding (p.585). 104 modos diferenciados e mais abstratos de pensamento e de relacionamento com as pessoas e com o conhecimento. Também, numa perspectiva histórico-cultural, Góes (1997, p. 101), ao falar sobre a escrita, diz que essa consiste numa “instância propícia para a emergência e elevação dos níveis de reflexividade na esfera da linguagem e, por decorrência, da atividade mental”. A autora ainda enfatiza a necessidade de “novas formas de relação com a própria linguagem como um processo muito relevante para o desenvolvimento do sujeito” (p. 102). Também Moraes, Galiazzi e Ramos (2002, p. 198) apontam que a prática da escrita permite ao estudante “avançar no sentido do domínio de entendimentos mais abstratos, implicando uma apropriação mais qualificada do discurso”. Ainda, nessa direção, Queiroz (2001, p. 146) afirma que “quando se solicita ao aluno que escreva algo, impinge-se a ele a tarefa de "pensar" sobre este assunto, pois o ato de escrever envolve muito mais do que simplesmente expor ideias armazenadas na cabeça”. Essa discussão corrobora a defesa de Izquierdo (1999) de que, com o uso da escrita sobre os fenômenos, os alunos constroem relações e se apropriam dos conhecimentos científicos. Nesse sentido também Boscolo e Mason (1995), apud Prain (2006, p. 185, trad. própria), afirmam que o escrever possibilita aos estudantes fazerem "conexões sistemáticas" na produção de "um entendimento significativo da importância do assunto, matéria”55. Vigotski (2000) defende que a prática da escrita somente é possível mediante a tomada de consciência e o domínio da linguagem. Analogamente, reporto-me para a prática de escrita vivenciada e entendo que o estudante apenas é capaz de escrever fazendo uso coerente dos termos específicos da linguagem química pela tomada de consciência de tais termos, o que, por sua vez, dá indícios da formação do seu pensamento químico. Retomo, agora, para a discussão, a frase escolhida como epígrafe deste capítulo: Professora eu sei isso, mas não consigo escrever! O posicionamento do estudante reflete ausência de um pensamento químico mais completo, pois, sem ter consciência da palavra, não é possível escrever sobre ela. Nas palavras de Vigotski (2000, p. 479), “o significado medeia o pensamento em sua caminhada rumo à expressão verbal”. Com isso, reitero a importância de espaços em sala de aula que permitam ao 55 Boscolo and Mason (2001, p. 85) proposed that the act of writing enabled students to make “systematic connections” in producing a “a meaningful understanding of subject matter” (Prain, 2006, p. 185). 105 estudante fazer uso qualificado da LCE para assim possibilitar o seu aprendizado em química. Em relação à prática da escrita, Prain (2006) apresenta uma discussão teórica sobre o entendimento das funções implícitas quanto ao seu uso na aprendizagem em ciências. O autor destaca duas perspectivas para o uso da escrita nas aulas de ciências. A primeira, denominada de orientação epistêmica, consiste no uso da escrita com ênfase na apropriação dos gêneros específicos e tradicionais da linguagem científica. Caracteriza-se, portanto, como uma escrita com formatação mais rígida. A segunda apresenta uma perspectiva de ensino com uma orientação de escrita mais ampla, considerando diversas modalidades ou formas de escrita. Os autores da primeira orientação, no entendimento de Prain (2006), defendem a escrita de gêneros específicos/tradicionais da ciência em sala de aula por serem representativos da comunidade científica. Tomando como base os trabalhos de Martin e Vell (1999), Prain (2006) destaca que os estudantes apenas irão aprender efetivamente as regras e os significados da escrita específica da ciência através de uma análise detalhada de textos científicos e, ainda, mediante a escrita de gêneros específicos da ciência. Também Unsworth (2001), de acordo com Prain (2006), defende que, para o estudante se apropriar dos gêneros específicos da ciência, é preciso um processo de ensino que inclua relatórios descritivos, exposições e debates, ou seja, que o estudante participe de espaços que reproduzam a vida de um cientista e que escreva textos que possibilitem o uso específico dos termos adequados à linguagem científica. Essa perspectiva, no meu entendimento, se aproxima da ênfase que vem sendo dada nos trabalhos publicados aqui no Brasil sobre o uso da escrita nos cursos de Graduação em Química, como discuti na subseção 4.1, pois apresentam uma atenção especial para a forma do argumento, para a organização de um relatório, por exemplo. Ao explicitar a segunda perspectiva, Prain (2006) traz autores que defendem o uso de diferentes gêneros da escrita no ensino de ciências. Assim, o escrever não está condicionado apenas à escrita de gêneros específicos, de relatórios tradicionais, por exemplo. Autores dessa perspectiva defendem a escrita de folhetos, de cartas, ou de outras modalidades, e o objetivo consiste em aprimorar o ensino de Ciências e possibilitar aos estudantes espaços para a criatividade, incentivando o uso de analogias e de metáforas no processo de escrita. Segundo 106 Prain (2006), nessa perspectiva, busca-se que o estudante perceba a prática da escrita como um recurso para a comunicação, a argumentação e a justificação dos seus pontos de vista e também como uma ferramenta para a aprendizagem e a organização do seu conhecimento. Ainda, no entendimento do autor, esse uso da escrita converge para a alfabetização científica, pois oportuniza que os estudantes discutam ciência em diferentes espaços, com o uso de diferentes formas de linguagem e possibilita uma interação da linguagem cotidiana com a linguagem específica. Acredito que a segunda perspectiva se aproxima mais da prática de escrita e de reescrita que é aqui defendida por possibilitar ao estudante se apropriar e ampliar a significação da LCE, que, por sua vez, como já referi no capítulo anterior, contempla diferentes gêneros discursivos - o gênero científico, o gênero de divulgação científica, o gênero pedagógico – que vão ao encontro do gênero cotidiano do estudante. Com isso, quero dizer que não é participando das aulas de Química I que o estudante vai entender todos os significados de um artigo científico específico da química, por exemplo. Mas ao ter um maior contato com a LCE e ao se apropriar de alguns termos o estudante será capaz de fazer uso das palavras para organizar um posicionamento, para explicar determinado fenômeno, para responder algum questionamento, para assim iniciar no processo de argumentação em química, pois este é um longo caminho a ser percorrido, mas que pode ser iniciado quando o estudante passa a fazer uso consciente da LCE em diferentes contextos pedagógicos. E assim, entendo que ao se apropriar do discurso escolar o estudante terá melhores condições cognitivas de argumentar quimicamente e de se comunicar fazendo uso cada vez mais consciente de gêneros mais específicos do DC. Nesse âmbito, a minha defesa, ao propor o processo da escrita e da reescrita nas aulas de Química I, converge com o entendimento de Lemke (1997) de que aprender ciências permite ao estudante fazer uso das palavras necessárias para construir significados em diferentes contextos e não apenas repetir, como um papagaio, de maneira mecânica, as palavras do professor ou do livro didático. E de que, para aprender química, o estudante precisa saber falar, ou escrever sobre um fenômeno articulando diferentes palavras, num híbrido de vozes, fazendo uso consciente da LCE que é constitutiva do discurso escolar. E todo esse processo requer a significação conceitual em química. 107 Desse modo, entendo que a escrita e a reescrita nas aulas de Química I consistiu numa prática de ensino que pelo uso da LCE inseriu os estudantes nessa linguagem e os iniciou no DC, no DDC e, também, no DP, com diferentes níveis de intensidade e de generalização que dependem da efetiva participação do estudante e da ID estabelecida entre professor e estudante. Aspectos da ID são discutidos no capítulo 6 da tese. A ID consistiu numa categoria emergente no processo da ATD. Nesse âmbito, ao considerar os sujeitos envolvidos e as diferentes interações estabelecidas, nas trocas entre os comentários de orientação e as respostas dos estudantes, caracterizo a prática da escrita e da reescrita vivenciada pelo uso do caderno de anotações como uma atividade dialógica (Bakhtin). O estudante escrevia para mim, e eu para ele, ao escrever a orientação que visava a qualificação na reescrita. Assim, o outro, no processo de escrita e de reescrita vivenciado, apesar de ausente fisicamente, fez-se sempre presente pelo processo de direcionamento. Em seguida, passo a detalhar o processo de interação vivenciado na prática da escrita nas aulas de Química I. 4.3 O Processo de Escrever e de Reescrever como um Ato Enunciativo, Dialógico e de Alteridade Após discutir sobre a importância da prática da escrita como um meio para possibilitar a significação conceitual em química, vou caracterizar, nesta subseção, o processo de escrita e de reescrita orientada56, compreendendo-o como ato enunciativo, dialógico e de alteridade. Reitero que o processo de escrever e de reescrever perpassou todo o semestre de Química I e constituiu-se em prática de aprendizagem e de avaliação, como já explicitei anteriormente. E foi por isso um rico espaço de interação estabelecida com os estudantes. Para a presente discussão o aporte teórico vem de estudos de Bakhtin (2006) e de alguns de seus interlocutores, como Geraldi (2010) e Mortimer (2011). Diz Bakhtin (2006, p. 16-17) que “toda enunciação, fazendo parte de um processo de comunicação ininterrupto, é um elemento do diálogo, no sentido amplo do termo, englobando as produções escritas”. Nesse contexto, destaco o processo da escrita e da reescrita orientada como prática da enunciação. Na 56 Considerando a prática da escrita e da reescrita no caderno de anotações. 108 enunciação, o texto se destina a outro que apreende, e este outro, diz o autor (2006, p. 151) “não é um ser mudo, privado de palavra, mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores”. Diz Bakhtin (2006) que, ao escrever, o escritor tem, no horizonte, um interlocutor e, no caso específico, o estudante, ao escrever sobre um conteúdo, sobre uma aula prática, ou ao responder algum conteúdo, escrevia para mim, e, por sua vez, as minhas orientações para a reescrita eram escritas considerando o estudante, as suas dificuldades e os seus avanços. Assim, o processo de escrita e de reescrita orientada estabelecido nas aulas de Química I vai ao encontro do que diz Bakhtin (2006, p. 126), ao afirmar que “o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica”, pois consiste numa resposta, numa refutação ou numa confirmação. Destaco, ainda, que no processo de escrita e de reescrita orientada, houve uma alternância dos sujeitos do diálogo, pois o estudante escrevia, eu fazia os comentários e o estudante, por sua vez, reescrevia. Essa alternância dos sujeitos do discurso também é uma característica do enunciado. Segundo Bakhtin (2010), as fronteiras de cada enunciado se delimitam pela alternância dos sujeitos do discurso e que a abertura de resposta aos enunciados caracteriza o seu acabamento. O referido autor afirma que o enunciado é um elo na cadeia de comunicação discursiva e não pode ser separado dos elos precedentes que o determinam tanto de fora quanto de dentro gerando nele atitudes responsivas diretas e ressonâncias dialógicas [...] o papel dos outros, para quem se constrói o enunciado é excepcionalmente grande [...] há um direcionamento para alguém (BAKHTIN, 2010, p. 301). Assim, o estudante, ao escrever, considera o seu destinatário - o professor e este, ao ler e comentar a escrita do estudante vai conduzindo o diálogo. O destinatário do enunciado é também aquele que responde ao enunciado, ou, como diz Bakhtin, aquele a quem eu respondo é o meu destinatário, de quem, por sua vez, aguardo resposta [e, complementa] ao construir o meu enunciado, procuro defini-lo de maneira ativa, por outro lado, procuro antecipá-lo, e essa resposta antecipável exerce, por sua vez, uma ativa influência sobre o meu enunciado (dou resposta pronta para às objeções que prevejo)” (BAKHTIN, 2010, p. 302). 109 O estudante escrevia para mim, professora, considerando as explicações anteriores, as minhas orientações e, possivelmente, já pensava nas minhas perguntas e comentários posteriores. Para o estudante, a escrita não era uma prática livre, aberta, ela era direcionada, apresentava uma linguagem específica e, portanto, deveria apresentar, em seu contexto, significados coerentes com a química. Isso ficou implícito em algumas manifestações dos estudantes que, em sala de aula, mostravam os seus cadernos de anotações e perguntavam é isso que a senhora quer que eu escreva aqui? Além de demonstrar que os estudantes consideravam as minhas orientações, tais posicionamentos indiciam um entendimento de que era preciso finalizar o diálogo. Os estudantes queriam receber um OK após a resposta. Mas, pelo contrário, a reescrita do estudante possibilitava-me novos pensamentos, novas dúvidas, novos questionamentos, e, assim, estabelecia-se um novo diálogo. No início, após a segunda orientação, alguns estudantes perguntavam: novamente reescrever essa resposta? Eles não estavam acostumados a essa metodologia, pois, no sistema de ensino tradicional, ou a resposta está certa ou está errada, não há essa interlocução, esse diálogo através da orientação para a reescrita. A escrita na, maioria das vezes, é vista como um fim em sim mesmo e não como um meio de aprendizagem, assim o próprio processo de reescrita precisou ser aprendido. Por outro lado, inicialmente, alguns estudantes, não consideraram os meus comentários para a reescrita, simplesmente, escreviam outra resposta, e na orientação eram remetidos novamente ao questionamento inicial, solicitando a sua reescrita. O estudante não conseguia identificar as inconsistências na sua escrita, e acabava escrevendo sobre outro assunto. Alguns estudantes foram percebendo que era necessário se posicionar frente à sua resposta, de reler, de reavaliar e, também de ler com atenção o meu comentário, ou símbolo, para então, responder novamente a questão e com isso, ampliar o seu pensamento em relação a um determinado assunto. Nesse sentido, um estudante, escreveu: o reescrever e ler e, muitas vezes, reler e refazer auxiliou-me na aprendizagem (AS_AN30). O posicionamento desse estudante desencadeou a tomada de consciência sobre a importância do processo metodológico vivenciado para o seu aprendizado o que remete, também, para um posicionamento responsivo do estudante. 110 Entendo, com Bakhtin (2006, p. 135), que o posicionamento responsivo no processo da enunciação está vinculado à compreensão estabelecida no diálogo e, nas palavras desse autor, compreender “é opor à palavra do locutor uma contrapalavra”. É no processo de compreensão que é possível a significação, pois essa, diz Bakhtin (2006, p. 135), “só se realiza no processo de compreensão ativa e responsiva”, assim nas interações discursivas favoráveis que é possível ocorrer a significação conceitual, por exemplo. Um diálogo sempre reflete e refrata diferentes compreensões, diferentes sentidos são atribuídos a uma mesma palavra, mas entendo que numa aula de química a compreensão que se busca, os sentidos que se quer estabelecer no diálogo devem estar próximos aos significados químicos historicamente estabelecidos, para, possibilitar a significação conceitual em química. Assim, também, com outros campos das Ciências. O professor em sala de aula tem um direcionamento, tem um objetivo e é esse que direciona o processo discursivo estabelecido. Ao caracterizar a prática da escrita e da reescrita como enunciação, essa prática no meu entendimento, é também dialógica pelas relações interativas do eu e do outro, do estudante e do professor, bem como, pelas relações do estudante com as suas escritas, pois ele, estudante, se tornou um leitor da sua própria escrita. O que corrobora o entendimento de Marques (2001) de que o escritor é também leitor de seu texto e que isso ocorre na medida em que ele considera a presença do leitor e se posiciona frente ao seu texto. O texto escrito pelo estudante remete a outros textos, a textos passados, a textos de outros (as minhas falas em sala de aula, as suas leituras) e aos textos futuros. Daí a importância da reescrita entendida como um amplo espaço de correlações num processo de diálogo (Góes, 1993). Entendo o diálogo no processo da escrita mais numa perspectiva bakhtiniana, pois Vigotski (2000) não fez a análise do movimento dialógico para a produção escrita (Smolka, 2010), sua atenção consistiu no processo de trocas orais e, assim para Vigotski (2000), no ato da fala ou da enunciação para ser um processo dialógico o outro deve estar fisicamente presente. Bakhtin (2006) é que amplia a discussão referente à dialogia da linguagem e, para esse autor, um discurso dialógico deve estar orientado para o outro que pode, ou não estar fisicamente presente. Nesse sentido entendo que o processo de escrita e de reescrita vivenciado também pode ser considerado uma forma de diálogo. 111 Nesse processo de dialogia interativa entre professor e estudante, a escrita consiste em ato de responsividade57 que, segundo Bakhtin (2006), supera a ideia de leitor e de escritor passivos e estáticos, passando para sujeitos participantes e ativos. O estudante, ao escrever sobre determinado fenômeno, ao passar de uma compreensão passiva para uma compreensão ativa, responsiva, possibilita a construção do seu pensamento químico, pois, ao escrever sobre determinado fenômeno, passa a fazer uso da LCE em enunciações concretas, de maneira contextualizada e dialógica e não apenas na reprodução passiva de definições conceituais isoladas que, muitas vezes, predominam nas práticas escolares. Portanto é preciso considerar, no processo da escrita e da reescrita, o caráter responsivo ativo existente nessas relações, determinado inclusive e principalmente pela representação do outro. O professor é um outro também ativo, responsivo no processo, que apresenta características próprias, como, por exemplo, um maior entendimento químico e, por isso, capaz de contribuir como mediador no processo de significação em química. Nos dizeres de Geraldi (2010, p. 89), “as ações do outro, os dizeres do outro, prenhes de sua cultura, quando confrontados com objetos e fenômenos que nos escondem as valorações que nós mesmos atribuímos, mostram-nos o que não mais conseguimos enxergar”. Em outras palavras, o professor, com as suas orientações, possibilita aos estudantes perceberem as suas limitações conceituais e, mediante a tomada de consciência dessas limitações, possibilita avanços. Pela interação estabelecida, guiada pela alteridade, o sujeito se constitui e se transforma através do outro, mediante as relações assimétricas estabelecidas no contexto escolar. Assim, como na interação verbal, as interações proporcionadas mediante a escrita evoluíram e refletiram em mudanças na forma da escrita e das representações dos estudantes. Os estudantes que consideravam os meus comentários avançaram na escrita, pois ao perceberem as suas limitações conceituais ampliavam as suas explicações. Tais resultados encontram-se amplamente discutidos no capítulo cinco e seis. Ainda, pelo processo de escrita e de reescrita, posso afirmar que é pela orientação do professor, pela condução que ele dá ao diálogo que o estudante vai 57 ao mesmo tempo em que sou responsável pelo que faço e digo, também faço e digo em resposta a uma série de elementos presentes em minha vida como signos (GEGe, 2009, p. 90). 112 construindo o seu conhecimento químico no uso consciente da LCE, tornando-se capaz de ampliar as formas de relacionar os conceitos e de pensar quimicamente. Mas, para que o processo dialógico estabelecido pela prática da escrita e da reescrita, de fato, contribuísse no aprendizado do estudante, foi preciso posição responsiva do estudante no processo. Foi primordial que o estudante assumisse a prática da escrita e da reescrita como uma atividade de ensino, envolvendo-se no processo. Essa discussão é o foco da próxima subseção, na qual apresento algumas contribuições da teoria de Leontiev (2006) para discutir as motivações e as limitações do processo de escrita e de reescrita vivenciado nas aulas de Química I. 4.4 Motivações e Limitações no Processo de Escrever e de Reescrever em Sala de Aula. Discuto agora, com base nas contribuições de Leontiev (2006), a necessidade de, em sala de aula, o professor ter a contrapartida dos estudantes, ou seja, de eles se envolverem no processo de ensino, de assumirem a sua condição de estudante. Para isso, a metodologia de ensino e os instrumentos pedagógicos trazidos pelo professor devem ser assumidos pelos estudantes como atividades, superando apenas a tecnicidade de tais práticas. É preciso que o estudante perceba os reais motivos das diferentes situações pedagógicas e os assuma como seus motivos, com a preocupação de ampliar o seu aprendizado. No entendimento de Leontiev (2006), a atividade acontece quando temos um motivo, uma necessidade e um objeto, os quais, por sua vez, desencadeiam processos de significações nos sujeitos. E o processo de aprendizagem apresenta um direcionamento, uma finalidade, que por sua vez, implica em ações, mas uma ação nem sempre pode ser considerada como uma atividade. Quando essa não apresenta um motivo, consiste, apenas, numa função operacional resumindo-se numa técnica a ser executada, numa tarefa. Uma ação pode vir a ser uma atividade ao agregar o motivo da atividade ao seu objeto de ação e ao possibilitar a significação. Da mesma forma, uma atividade pode voltar a ser uma ação ao perder o motivo inicial para o qual foi proposta. Para o referido autor a atividade caracteriza-se como o processo de significação. Também importante considerar que os motivos podem mudar no decorrer do processo da atividade. 113 Assim, no meu entendimento, o processo da escrita e da reescrita realizado pelos estudantes não pode ser caracterizado como uma atividade por si mesma, pois isso depende da motivação dos estudantes convergir com os objetivos que foram propostos por mim. Citando Leontiev (2006, p. 69), “uma ação é um processo cujo motivo não coincide com seu objetivo, mas reside na atividade da qual ele faz parte”. Assim, se o estudante, no decorrer do semestre, apenas realizou a tarefa de escrever para atingir a nota semestral e conseguir a sua aprovação, a sua prática de escrita consistiu apenas numa ação. Ao reduzir o seu objetivo à obtenção da nota, o estudante não atingiu o objetivo proposto pela atividade, que consistia em possibilitar a ele o aprendizado químico pelo uso qualificado da linguagem química. E assim o estudante apesar de ter realizado as tarefas não apresentou indícios de significação conceitual. Nessa direção, Barbosa e Hess (2010, p. 56), ao discutirem a importância de os estudantes escreverem um JP, destacam que “os alunos universitários perderam a referência da aprendizagem como apreensão de conteúdo com sentido para si, para se fixarem na aprendizagem que significa tão somente a prestação de contas com o professor”. Nesse âmbito, as ações desenvolvidas pelos estudantes apresentam como único motivo a aprovação no final do semestre, sem a preocupação da aprendizagem em si e, por isso, não podem ser classificadas como atividades. Nessa situação, o professor não tem uma contrapartida do estudante ficando difícil o seu engajamento na atividade. E assim, não ocorre uma interação favorável. Escolhi o processo da escrita e da reescrita como um instrumento pedagógico com o objetivo geral de ampliar, junto aos estudantes, o aprendizado químico mediante o uso consciente da linguagem química. Esta foi a minha motivação inicial ao propor a atividade. Para os estudantes, os instrumentos pedagógicos e a escrita de textos foram apresentados por mim, caracterizandose, portanto, como algo externo a suas vontades ou as suas necessidades iniciais, pois a maioria dos estudantes não havia vivenciado, ainda, semelhante prática de ensino. Nesse contexto, mesmo explicitando os objetivos da ação, argumentando pela importância da escrita para a sua aprendizagem. Os argumentos compreendiam os meus motivos e não, inicialmente, os motivos dos estudantes. Assim, entendo, com Leontiev (2006), que inicialmente a prática de escrita e de reescrita não pode ser caracterizada como uma atividade para os 114 estudantes, apenas uma operação ou uma condição quase “imposta” a eles para a atribuição da nota, sendo condição mínima a sua participação para passar em Química I. Dessa forma, trago para discussão se a ação proporcionada pela escrita e pela reescrita foi se transformando em atividade para os estudantes. Se o motivo, inicialmente por mim estabelecido coincidiu com o objetivo da ação do estudante, de escrever e de reescrever para aprender química, possibilitando a significação ou se permaneceu como ação, tarefa no decorrer do semestre, reduzida a uma simples prática a ser cumprida. Leontiev (2006, p. 69) destaca que a passagem da ação para a atividade “é um ponto excepcionalmente importante” e consiste na “maneira pela qual surgem todas as atividades e novas relações com a realidade”. Daí a importância de identificar se a ação foi se constituindo em atividade no decorrer da prática da escrita e da reescrita orientada. Para isso, nessa subseção, apresento alguns resultados obtidos pela análise dos posicionamentos dos estudantes escritos no questionário de avaliação semestral ao se referirem à prática da escrita e reescrita vivenciada. Também o envolvimento dos estudantes com a prática da escrita e da reescrita pode ser visualizada no capítulo 5 e 6, quando apresento os resultados construídos mediante a análise das categorias a priori e emergentes. O estudante que, no decorrer do processo, se envolveu com a escrita, que considerou as minhas orientações para a reescrita e que teve avanços na significação conceitual, dá indícios de que houve a transição, de motivo no decorrer do processo. O estudante ao assumir a prática da escrita como meio de aprendizagem e que, pela escrita, apropriou-se dos conceitos e ampliou a sua significação conceitual denota atividade. Leontiev (2006) ressalta que a transição de motivo pode levar muito tempo, pois é necessário que o estudante tome consciência de novas relações estabelecidas. Assim, no inicio do processo, a escrita e a reescrita não se apresentam ao estudante como necessárias, como importantes para o seu aprendizado, pois ele ainda não a vivenciou e, assim, não sabe das suas contribuições. Tal prática de ensino para se tornar significativa precisa ser vivenciada pelo estudante. Nesse sentido, um estudante, escreveu: do caderno, gostei muito, aprendi muito, mas também achei complicado no início (AS_AN06). Pelo seu posicionamento, já apresentado anteriormente, é possível afirmar que, 115 ao vivenciar a prática da escrita e da reescrita, passou a assumi-la como atividade, pois começou a perceber a sua importância para o seu aprendizado, superando a dificuldade percebida inicialmente. Reitero que o motivo por mim estabelecido para a prática da escrita e da reescrita pode até ter sido compreensível para os estudantes, mas deve tornar-se também necessário e se constituir num motivo realmente eficaz para os próprios estudantes, para, assim, assumirem a prática da escrita e da reescrita como processo de aprendizagem. Ainda no questionário de avaliação semestral, a escrita de um estudante converge com a discussão anterior, pois ele assumiu que: pela escrita fui aprendendo, no início foi difícil, mas o processo me fez evoluir, então gosto e aprendi química (AS_AN16). O posicionamento desse estudante permite afirmar que, no decorrer do processo, ele conseguiu perceber a contribuição da escrita e da reescrita para a sua aprendizagem. Para ele, a ação, inicialmente considerada difícil, e talvez obrigatória, pois foi exigência minha, mas motivado pela convicção pedagógica de melhorar a aprendizagem em química, passa a se tornar atividade. O estudante passou a aprender pela escrita, e essa vivência, a prática da escrita, mudou o sentido da ação e, ao mudar o sentido da ação, muda também segundo Leontiev (2006), a organização psicológica envolvida. Assim, o estudante passou a se dedicar com mais intensidade à prática da escrita, e esta se tornou significativa para ele, tanto que, ao finalizar a sua frase, escreveu que gosto e aprendi química. Também, reafirmando o comprometimento com a prática da reescrita, outro estudante escreveu que a cada reescrita aumentava a vontade de pesquisar e escrever (AS_AN40). Nesse sentido, foi possível constatar pelos depoimentos dos estudantes, que ao perceberem, pela vivência, a prática da escrita e da reescrita como um caminho para aprender química, ampliaram o seu envolvimento e o seu compromisso com tal prática. Entendo que isso é válido para qualquer prática pedagógica proposta pelo professor. É necessário que ela se torne uma atividade significativa para, assim, unir motivo e motivação no processo. Em decorrência do que diz Leontiev (2006) para que o plano de ensino seja favorável, uma condição necessária é que os estudantes se comprometam e se envolvam com a metodologia proposta pelo professor. Isso fica mais evidente, em especial, 116 quando, em sala de aula, o comprometimento, a participação do estudante é um ponto central. Ressalto que ao adotar em sala de aula a prática da escrita e da reescrita como instrumento pedagógico, a participação do estudante foi fundamental no processo de ensino. Também, nesse processo, pela característica da metodologia de ensino que foi proposta, é possível caracterizá-la como potencializadora da prática da pesquisa em sala de aula. Passo a discutir, na subseção que segue alguns aspectos da metodologia de ensino com pesquisa, com especial atenção para o processo de escrita e de reescrita vivenciado nas aulas de Química I. 4.5 O Processo de Escrever e Reescrever nas aulas de Química I como Prática de Pesquisa em Sala de Aula Entendo que, no processo de ensino vivenciado, as práticas de escrita e de reescrita caracterizaram-se, também, como instrumentos de investigação que possibilitaram uma maior compreensão do processo pedagógico vivenciado. No entendimento de Ramos e Moraes (2011), ao acompanhar a produção escrita dos estudantes e oferecer um parecer com vistas a um movimento reconstrutivo, num processo de reescrita, integram-se diferentes modos de linguagens (cotidiana e científica) e, nesse processo, propõe-se o educar pela pesquisa. Nesse sentido, amplio a discussão sobre essa metodologia de ensino, com atenção para os três instrumentos culturais que perpassam a aula com pesquisa: escrita, fala e leitura. Nas palavras de Ramos e Moraes (2011, p. 318), “quando na sala de aula se implementa os princípios do educar pela pesquisa, incentiva-se um uso intenso da linguagem como ferramenta do aprender, seja pela fala, pela leitura ou pela escrita”. Partindo desses entendimentos, destaco que a prática de ensino desenvolvida na presente investigação apresenta características próprias do educar pela pesquisa. Os princípios da pesquisa em sala de aula, no entendimento de Moraes, Galiazzi e Ramos (2002), podem ser entendidos como um movimento dialético, em espiral, que se inicia com o questionar dos estados do ser, fazer e conhecer dos participantes, construindo-se a partir disso novos argumentos que possibilitam atingir novos patamares desse ser, fazer e conhecer, estágios esses então comunicados a todos os participantes do processo (MORAES, GALIAZZI e RAMOS, 2002 p. 11). 117 Assim, numa sala de aula, em que a proposta metodológica é a pesquisa, é primordial a ampliação de espaços para o diálogo, com um movimento que inicia com o questionamento, a problematização, a dúvida, seguidos da argumentação e da comunicação (Moraes, Galiazzi e Ramos, 2002). Considerando a importância do diálogo em sala de aula, um estudante, escreveu que antes tinha vergonha de falar, mas com o tempo fui me acostumando (AS_AN21), ou seja, é pela vivência em espaços que possibilitam e incentivam a participação dos estudantes que os mesmos vão aprendendo a se posicionar e vão percebendo a importância disso para a sua aprendizagem. Em outro contexto, os mesmos autores (2004) afirmam que, na sala de aula com pesquisa, aposta-se essencialmente no diálogo, na leitura, na escrita, no argumento fundamentado e negociado [pois esses, destacam os autores] são formas de aumentar as interlocuções nas atividades coletivas e, consequentemente, meios de ampliar e complexificar o conhecimento e de desenvolver gradativamente a inteligência (MORAES, GALIAZZI, RAMOS, 2004, p. 90). Quanto aos questionamentos em sala de aula, um estudante escreveu que antes mesmo de rever o conteúdo éramos surpreendidos com as perguntas (AS_AN43). Outro estudante, referindo-se ao meu posicionamento em sala de aula, escreveu que às vezes respondia nossa dúvida com outra pergunta (AS_AN29). Os posicionamentos desses estudantes frente à metodologia de ensino remetem para a aula como um “jogo de perguntas e respostas” proposto por Moraes (2007). Importante considerar que o questionamento é inerente ao processo de pesquisa, o qual sempre inicia com um problema. Assim, o objetivo do questionamento em sala de aula consiste em provocar o diálogo, em mostrar, a partir dele, a necessidade da busca de novos conhecimentos. Demo (2005) enfatiza que, pelo questionamento, o estudante aprende a duvidar, a perguntar e será motivado a tomar iniciativa e a buscar referências teóricas sobre o assunto abordado. Nesse sentido, um estudante complementa a sua escrita anterior sobre as perguntas, afirmando acredito que isso tenha contribuído para que houvesse um envolvimento maior e empenho por parte de nós alunos (AS_AN43). O outro 118 estudante, por sua vez, escreveu que o fato de a professora responder as dúvidas com outras perguntas fazem às vezes a gente se enrolar ainda mais (AS_AN29). Tais posicionamentos remetem para duas posições: uma, em que o estudante percebeu o questionamento realizado em aula como um desafio, destacando a necessidade de ir em busca de outros materiais; o outro em que ficou evidenciado que, apesar dos questionamentos, é preciso ampliar a mediação em sala de aula, e, ainda, que o estudante precisa estar envolvido no processo para ir em busca de soluções, caso contrário se “enrola” ainda mais, pois não compreende o questionamento realizado. Galiazzi (2005) discute que uma limitação numa sala de aula com princípios da pesquisa consiste em conseguir a participação efetiva dos estudantes. A limitação fica mais evidente, conforme a autora, quando a discussão é sobre conteúdos mais específicos. Isso eu, também, vivenciei nas minhas aulas, ao abordar conteúdos como ligações químicas, distribuição eletrônica (...). Nessas aulas, quanto mais necessidade de abstração conceitual, mais difícil foi a interação verbal estabelecida com os estudantes. Eles falavam menos em aula, pois o assunto exigia mais abstrações e se apropriar dele numa aula para conseguir se posicionar e formular uma pergunta é muito difícil. E uma alternativa a essa limitação, como apontou Galiazzi (2005), consiste em o professor propor aos estudantes a escrita e acompanhá-la. Esse entendimento corrobora com os espaços estabelecidos para a escrita e a reescrita dos estudantes. Por isso, acredito que oportunizei, em sala de aula, aspectos do educar pela pesquisa, da metodologia da pesquisa em sala de aula. A escrita, além de oportunizar um espaço de aprendizagem ao estudante, é vista como um instrumento que permite ao professor ouvir os estudantes, e possibilita aos estudantes a busca de outros materiais e a ampliação dos seus conhecimentos. Como evidenciei em trabalhos anteriores (WENZEL, 2012), para que a escrita de fato contribua para o aprendizado do estudante precisa ser acompanhada e, orientada pelo professor e, aliado a isso, possibilitar ao estudante a sua reescrita, para que ele perceba as suas limitações conceituais e tome consciência delas. Sobre a tomada de consciência, um estudante, ao avaliar a prática da escrita e da reescrita vivenciada nas aulas de Química I, escreveu que, com a reescrita do caderno e da prova eu pude rever o que eu errei e fazer novamente (AS_AN38). 119 Entendo que pela mediação estabelecida com o professor e pelos comentários escritos é possível potencializar a escrita do estudante. Isso ficou implícito em algumas afirmações dos estudantes: a escrita e a reescrita é um meio de o aluno aprender bem o conteúdo, pois a professora sendo bem exigente faz com que o aluno sempre tem que buscar mais e mais sobre o assunto abordado (AS_AN32). Outro estudante, sobre a escrita e a reescrita do caderno, assim, escreveu: induzia-nos a fazer pesquisa sobre o que agente escrevia no caderno (AS_AN37). Esse induzir e ser exigente, referidos pelos estudantes, remetem ao meu posicionamento na orientação da reescrita, pois, por elas, exigia maior argumentação e, assim, induzia-os a ampliarem seus estudos, suas investigações. Ainda, ao referir-se à prática da escrita e da reescrita nas aulas de Química I, outro estudante assim se expressou: a respeito da escrita e da reescrita dos cadernos, foi muito bom, pois se você errava alguma questão, depois você podia reescrevê-la, assim forçava o aluno a pesquisar, correr atrás (AS_AN20). Com base nesses posicionamentos, acredito que o processo de escrita, de análise e de reescrita possibilitou aos estudantes reconstruir e ampliar os seus conhecimentos. Demo (2005) ressalta que reconstruir conhecimentos significa incluir interpretação própria. Considerando o ensino de química, é preciso que o aluno consiga formular um pensamento fazendo uso dessa nova linguagem, para, assim, explicar diferentes fenômenos químicos. Nesse sentido, na sala de aula com pesquisa, há uma atenção para a apropriação e para os níveis de significação da linguagem química pelo estudante, e é nesse contexto que há uma estreita aproximação com a prática de ensino vivenciada nas aulas de Química I. O escrever e o reescrever, como ficou evidenciado pelos posicionamentos dos estudantes, possibilitaram uma melhor compreensão e reconstrução das suas ideias, das suas percepções e das suas argumentações, possibilitando a tomada de consciência de suas limitações conceituais e, pela orientação em processos mediados pela linguagem, a ida em busca de outros materiais, potencializando a sua escrita com o uso qualificado da LCE. Mais indícios da apropriação e da evolução no significado conceitual pelos estudantes serão apresentados no próximo capítulo, ao apresentar a construção dos resultados mediante a discussão das categorias de pesquisa. 120 5 A ESCRITA E A REESCRITA DOS ESTUDANTES NA PRÁTICA DE ENSINO VIVENCIADA Achei muito importante a reescrita do caderno, pois assim aprendi as coisas que errei. Outro ponto é as reescritas das provas além do aluno aprender o que errou, ganha alguns pontos a mais. Em relação aos mapas conceituais aprendi muito com esse trabalho, uma nova experiência (AS_AN16). Neste capítulo apresento uma discussão sobre os resultados obtidos mediante a análise da escrita e da reescrita dos estudantes no decorrer das aulas de Química I. O processo metodológico adotado para a construção dos dados teve como princípios a ATD e no processo metodológico foram elaboradas categorias de análise que contemplaram categorias a priori e emergentes. Todas as categorias estão diretamente relacionadas ao processo de ensino de química, mediado pela linguagem, no processo da escrita e da reescrita orientada. Pela impregnação com o material empírico e pela análise de cada uma das categorias, foram possíveis a construção e a elaboração dos resultados com base em discussão sobre o uso da LCE pelos estudantes com indícios da sua significação conceitual. Para tanto, o capítulo foi subdivido em três subseções, sendo que cada uma se refere aos resultados construídos mediante a análise dos textos produzidos pelos estudantes com o uso dos instrumentos pedagógicos adotados nas aulas de Química I. Ao iniciá-lo, na subseção 5.1, apresento o processo de elaboração das categorias de análise e, também, justifico e argumento sobre o uso da categorização adotada. Em seguida, na subseção 5.2, abordo especificamente os resultados construídos mediante a análise dos textos escritos no caderno de anotações. E essa subseção contempla outro item no qual discuto mais especificamente as categorias de análise a priori: a apropriação conceitual (AC) e a evolução conceitual (EC) para os textos dos estudantes no caderno de anotações. Seguindo o capítulo, na subseção 5.3, apresento uma discussão referente aos resultados construídos mediante a análise das reescritas das provas dos estudantes. Nesse caso, também há uma atenção especial para as categorias a priori de análise. E, finalizando o capítulo, na subseção 5.4, apresento os resultados da análise dos mapas conceituais, que, por sua vez, possibilitaram-me 121 outro olhar quanto aos níveis de generalização dos estudantes, pois, pela análise do mapa, foi possível verificar as relações conceituais estabelecidas para um determinado conceito químico. 5.1 Elaboração das Categorias de Análise A construção dos dados, como já referido na introdução da tese, teve como metodologia os princípios da ATD. O uso de tal metodologia possibilitou uma maior impregnação nos textos. Foi preciso ler, reler e escrever sobre os textos dos estudantes para, assim, construir os resultados. O processo de construção das categorias de análise teve como preocupação possibilitar a compreensão do processo pedagógico vivenciado. Para isso, especial atenção foi dada para os textos escritos pelos estudantes nos diferentes instrumentos pedagógicos e, também para as minhas escritas nos comentários de orientação e no DB. A categorização adotada na pesquisa consistiu, inicialmente, na elaboração de categorias a priori que decorreu da discussão teórica num momento anterior ao de dar início à análise dos textos dos estudantes. Mas é válido destacar que, nesse processo, os textos dos estudantes já estavam sendo lidos para a orientação de suas reescritas e que isso ocorreu no decorrer das aulas de Química I. Nesse sentido, as leituras e as orientações necessárias no processo também influenciaram, indiretamente, a elaboração das categorias a priori, além do referencial teórico. As categorias a priori, a AC e a EC, contemplam a discussão teórica que perpassa a tese e estão vinculadas ao referencial histórico cultural. Perceber o uso e a EC dos estudantes no decorrer do processo pedagógico foi um caminho que julguei primordial na pesquisa realizada para compreender a importância do processo pedagógico e o processo de aprendizagem. As categorias a priori são apresentadas no quadro 2 que segue. 122 Quadro 2: Categorias a priori do Processo de ATD Categorias a priori Entendimento Apropriação Conceitual (AC) Ocorre quando o estudante na sua escrita faz uso dos termos específicos da LCE, mas sem indiciar uma significação química para os mesmos. Evolução Conceitual (EC) Ocorre quando o estudante na sua escrita ao fazer uso dos termos específicos inicia num processo de realizar relações conceituais para explicar determinado fenômeno. Fonte: autoria própria Ao iniciar a análise dos textos58 escritos pelos estudantes a atenção estava direcionada para as duas categorias estabelecidas a priori, a AC e a EC. As partes dos textos que indiciavam aspectos das categorias foram sublinhadas com cor diferente, cada uma indicava, no princípio, uma das categorias. No decorrer das leituras e releituras dos textos outras cores foram necessárias, e estas foram direcionando para a necessidade da elaboração das categorias emergentes. Ao ler os textos dos estudantes, por exemplo, alguns aspectos da LCE ficavam evidenciados, indicando a necessidade de ampliar a discussão referente a algumas denominações conceituais que perpassam as aulas de química, mas que precisam ser significadas e discutidas pedagogicamente. Também ficaram visíveis aspectos relacionados com as interações discursivas estabelecidas entre os comentários de orientação escritos por mim e as respostas dos estudantes. Ressalto que a orientação no processo de reescrita dos cadernos de anotações está identificada, nas subseções que seguem, por diferentes letras OT, OS ou OTS - que indicam o modo de orientação empregada: o OT representa uma orientação com uso de um texto ou de questões; o OS indica uma orientação por meio de símbolos59, e OST indica um processo de orientação misto, com uso de símbolos e de texto ou de questões. As potencialidades e as limitações dos 58 Os textos a que me refiro são os que contemplaram os requisitos de escolha, do recorte da pesquisa. As condições da escolha dos textos que foram analisados para cada um dos instrumentos pedagógicos estão descritas nas subseções que seguem. Os critérios e as justificativas de escolha dos textos variaram conforme o instrumento pedagógico. Apenas a assinatura do TCLE foi condição mínima para todos os textos. 59 Os símbolos foram elaborados no decorrer da segunda correção dos cadernos e a cada estudante foi entregue uma folha com os símbolos e a sua respectiva explicação (ver anexo D). 123 diferentes métodos de orientação pela escrita estão contempladas na categoria emergente ID que será explicitada no capítulo 6. Aspectos dessa categoria também emergiram da leitura do DB pela transcrição de alguns diálogos estabelecidos em sala de aula que denotavam a necessidade de análise para possibilitar um melhor entendimento do processo pedagógico vivenciado e da importância da conscientização do discurso escolar. Ainda, na leitura do DB ficaram muito evidenciados aspectos que foram contemplados na categoria emergente denominada de CD, pois retrataram um processo de reflexão sobre a ação e indiciavam mudanças na prática docente. O quadro 3, que segue, apresenta as categorias emergentes do processo da ATD. Estas emergiram da análise dos textos dos estudantes, dos textos escritos por mim nas orientações e nas descrições no DB. Quadro 3: Categorias Emergentes do Processo da ATD Categorias Emergentes Entendimento Especificidades da LCE Nos textos dos estudantes foi possível perceber o uso de algumas definições que perpassam o discurso escolar, mas que precisam ser significadas e se tornar objeto de atenção nas aulas de química pelos sentidos atribuídos a elas. No processo de orientação estabelecido em aula ou na escrita de comentários foi possível constatar indícios da importância da ID favorável em sala de aula. A escrita no DB permitiu-me uma reflexão sobre a minha prática e, assim, redimensionou a minha constituição docente. Interação Discursiva (ID) Constituição Docente (CD) Fonte: autoria própria Entendo que de um modo geral as duas modalidades de categorias, a priori e emergente, contemplaram aspectos da linguagem, do processo de ensino, da significação conceitual e da formação docente e assim possibilitaram um maior entendimento da prática pedagógica vivenciada, sendo possível a sua ressignificação pedagógica. As categorias que emergiram da leitura dos textos relacionam-se com as categorias a priori e possibilitaram a ampliação da discussão e dos entendimentos referentes à temática da investigação. Considerando o processo de categorização, reitero com as palavras de Galiazzi e Moares (2011, p.25) de que “o essencial no processo não é a sua forma de 124 produção, mas as possibilidades de o conjunto de categorias construído propiciar uma compreensão aprofundada dos textos-base de análise e, em consequência, dos fenômenos investigados”. Em seguida, apresento os resultados construídos mediante a análise dos textos dos estudantes. Para tanto, retomo algumas características de cada instrumento pedagógico, também explico justificando os recortes que delinearam a amostra dos textos que foi analisada para cada um dos instrumentos pedagógicos. Inicio com a discussão dos resultados construídos pela análise dos textos escritos nos cadernos de anotações. Ressalto que este instrumento pedagógico perpassou todo o semestre e, assim, contemplou efetivamente o processo de escrita e de reescrita num processo orientado. 5.2 Escrita e Reescrita no Caderno de Anotações: Alguns Resultados Construídos O caderno de anotações foi o instrumento pedagógico que perpassou todo o semestre de Química I. Um estudante, ao referir-se à prática da escrita e da reescrita no caderno, escreveu: teve o estresse de escrever e reescrever os caderninhos, mas foi a melhor forma que aprendi, pois tive que ir atrás de respostas (AS_AN34). O posicionamento do estudante retrata o compromisso com a escrita no caderno, pois, apesar de ela ter sido considerada um estresse, o estudante ao afirmar: foi a melhor forma que aprendi, indicou que, no decorrer do processo de escrita e de reescrita vivenciado percebeu a importância de tal prática para o seu aprendizado. A escrita nos cadernos de anotação caracterizou-se pelas respostas de questionamentos decorrentes das aulas, do conteúdo abordado e de explicitações sobre as aulas experimentais. Já no início do semestre, foi solicitado aos estudantes um caderno para as anotações, e, após a primeira aula, encaminhei alguns questionamentos para serem respondidos. Esse processo de escrita, de correção e de reescrita totalizou, no final do semestre, 05 entregas do caderno, possibilitando aos estudantes um total de 04 reescritas para as primeiras questões. No final do semestre, havia um total de 59 cadernos que perpassaram todas as entregas. O critério para a seleção dos cadernos que foram analisados foi os 125 que apresentaram mais de duas reescritas para a resposta da primeira questão60 encaminhada após a primeira aula de Química I. Esta questão foi encaminhada aos estudantes após a leitura do artigo “Água: Um líquido Vital”, e, para os estudantes que se envolveram no processo da escrita e da reescrita, que ampliaram as discussões no decorrer do diálogo, foi possibilitado um total de 04 reescritas. Justifico, com isso, a escolha por essa questão: pela possibilidade de tantas reescritas e por sua temática ser bem ampla, perpassando a ementa do componente curricular Química I. Assim, pela análise das reescritas, foi possível achar indícios de EC dos estudantes no processo. Com esse critério de seleção o número de cadernos apto a ser analisado foi 07, e com base neles foram produzidos os dados. Ao trazer para discussão alguns recortes dos textos dos estudantes retirados dos cadernos de anotações, cada participante foi designado, independentemente do sexo, com letras A, B (...), garantindo o anonimato dos mesmos. No quadro 4, que segue, estão apresentados os resultados construídos pela análise das respostas da primeira questão, com atenção para as categorias a priori, a AC e a EC. Também no quadro estão indicadas as formas de orientações escritas por mim em cada um dos comentários encaminhados aos estudantes, se OT, OS ou OTS. Ressalto que a análise das orientações encaminhadas aos estudantes e as suas respostas deram origem a categoria emergente ID cuja discussão é realizada no capítulo seis. 60 A questão a qual faço referência: A água, apesar de ser representada por uma fórmula molecular relativamente simples, composta apenas por dois elementos químicos, na proporção de 2:1, apresenta várias propriedades específicas e fundamentais para a vida. Entre elas, apresentarse no estado líquido à temperatura ambiente, enquanto que outras moléculas com massa molecular semelhante a da água, como por exemplo, o metano (CH 4), a amônia (NH3) e o sulfeto de hidrogênio (H2S) são gases nas mesmas condições. Também, a água apresenta menor densidade no estado sólido do que no estado líquido e, entre outras propriedades, é caracterizada como solvente universal. Explique, considerando a estrutura molecular da água, tais propriedades específicas. 126 Quadro 4: Resultados da construção de dados referentes à questão 1 do caderno de anotações e suas reescritas. Estudante 1ª Escrita 1ª Reescrita 2ª Reescrita 3ª Reescrita 4ª Reescrita A AC OT AC OS EC OS EC OT AC - B AC OT AC OS AC OS AC OST AC - C AC OT AC OS AC OST AC OST AC - D AC OT AC OS EC OT EC - - - E AC OT AC OS AC OST AC OST - - F AC OT EC OS EC OST EC - - - G AC OT AC OS AC OST EC - - - (AC – apropriação conceitual, EC – evolução conceitual, OT – orientação com texto, OS – orientação com símbolo, OST – orientação com texto e símbolo) Fonte: autoria própria Apresento em seguida uma explicação do quadro 4 com atenção para as categorias a priori AC e EC. A argumentação que segue foi elaborada mediante a análise das escritas e reescritas dos estudantes e estudantes e envolve exemplos de unidades de significado mediante o uso dessas categorias. 5.2.1 Indícios de Apropriação Conceitual e de Evolução Conceitual na Escrita e na Reescrita do Caderno de Anotações Entendo, com Vigotski (2000), a AC como um passo que indica o início do processo da significação conceitual. Na presente discussão, a AC foi considerada contemplada quando o estudante fez uso, no seu texto, de uma palavra específica da química. Mas reafirmo que esse uso não implica, necessariamente, que o estudante consiga trabalhar com essa palavra de maneira consciente, fazendo as relações conceituais necessárias. Muitas vezes, a AC apenas se limita à reprodução das palavras, com significados químicos ainda muito insuficientes. Isso ficou evidenciado, em especial, em todo o percurso de reescrita para o estudante C, que apesar de escrever textos amplos sobre determinado assunto expressando aspectos de EC, pela análise do conjunto de seus textos escritos, foi possível perceber que os indícios de EC ainda representavam um processo muito inicial de significação, pois no decorrer da sua escrita fazia uso equivocado de termos como átomos, moléculas. Isso indicava que o uso desses termos por esse 127 estudante ainda não eram conscientes, pois sozinho ele não conseguia perceber essas limitações conceituais. No entendimento de Bakthin (2006), a palavra, quando apresentada pela primeira vez pelo sujeito, ainda é a palavra do outro, ou seja, o estudante apenas reproduz a palavra, mas ainda não consegue fazer uso do significado químico historicamente construído para ela. Com Vigotski (2000), entendo que, no contexto de AC, o estudante, ainda não assimilou o conceito, apenas faz uso da palavra, o que é condição inicial para o processo de significação conceitual. Assim o estudante, ao escrever, faz uso das palavras específicas da química no seu texto, mas, nesse âmbito, diz Vigotski (2000, p. 247), “ele ainda sente-se impotente diante de qualquer tentativa de emprego consciente do conhecimento assimilado”. O estudante sabe repetir a palavra que foi dita pelo professor ou que está escrita no livro didático, mas os sentidos atribuídos a ela ainda são muito diferentes do significado historicamente construído. Considerando o quadro 4 (p. 126), chamo a atenção para o fato de que o processo de significação, de EC não é linear, e que a AC e a EC andam juntas no processo pedagógico. E num mesmo texto podem aparecer indícios de ambos os processos. Eu ao fazer a subdivisão que está descrita no referido quadro ao analisar os textos dos estudantes o critério para caracterizar como AC ou EC foram as limitações conceituais percebidas. O estudante pode ter avançado em algum aspecto, mas se na sua escrita predominaram indícios de AC, foi essa a característica que foi para o quadro. Nesse contexto não é possível afirmar que os estudantes B, C ou E, por exemplo, não tenham atingido níveis de EC apenas o que foi mais evidenciado, pelos termos químicos utilizados por eles nos textos analisados foram aspectos que indicaram a AC. A mesma argumentação é válida para os estudantes A, D, F e G, pois os textos escritos podem mascarar um real desenvolvimento cognitivo do estudante. O que tentei trazer para o quadro foram aspectos que pela análise realizada davam indícios de AC ou de EC. Essas limitações também foram apontadas por Vigotski (2000) que salientou a questão de mascaramento ao analisar a formação do pensamento por conceitos. Assim, o estudante pode atingir níveis mais avançados de EC para alguns aspectos, mas para outros ainda pode apresentar apenas o primeiro nível de significação, isto é AC. Isso ficou mais evidenciado com o processo de reescrita do estudante C que para alguns 128 aspectos denotava EC, mas pelo uso de alguns termos no mesmo texto indicava apenas AC. Considerando essa relação não linear entre a AC e a EC, a discussão que segue aborda tanto exemplos que indicam aspectos de AC como também de EC. Na primeira escrita que consistiu em responder uma questão relacionada à leitura do artigo “Água: Um líquido vital”, como já foi anteriormente explicitado, os sete estudantes, que tiveram seus cadernos analisados, apresentaram, nas suas respostas, a escrita de termos específicos da química, contemplando assim a categoria AC. Destaco que a apresentação dos termos ocorreu em níveis diferenciados quanto ao número de termos específicos utilizados, e, também quanto ao grau de complexidade dos mesmos. Mas ressalto que fazer uso das palavras específicas da química é condição para iniciar a sua significação. Com Vigotski (2000), afirmo que, à medida que o estudante começa a fazer uso das palavras próprias da química, ao atingir a AC, o processo de EC está apenas iniciando. Nas palavras do mesmo autor (2000, p. 246), “quando uma palavra nova, ligada a um determinado significado, é aprendida pela criança, o seu desenvolvimento está apenas começando”. Assim, os diferentes níveis de significação permitidos pela EC contribuem para a apropriação de palavras relacionadas que, na medida em que vão sendo usadas em diferentes situações, num processo orientado, adquirem sentido no contexto, e é possível atingir diferentes níveis de EC. Desse modo, no processo pedagógico, ocorre tanto a AC como a EC, e acredito que um dos objetivos, ao ensinar química, consiste em proporcionar aos estudantes avanços na EC em química, indiciando a formação do seu pensamento químico. Esse processo, em contexto escolar, implica na significação da LCE. Nos textos analisados os estudantes apresentaram maiores indícios de EC quando passaram a escrever sobre determinado assunto com maior autonomia, relacionando diferentes conceitos químicos, numa linguagem que retratou aspectos da LCE. O estudante B, por exemplo, na sua primeira escrita, apresentou limitações de sentidos atribuídos aos termos químicos utilizados, pois afirmou que a molécula de água se expande no estado sólido (p. 01). E, ao tentar, na sua reescrita, explicar a sua afirmativa reescreveu que: 129 as moléculas de água se expandem no estado sólido, por causa da geometria das moléculas [...] acabam se separando. Isso acontece por que o gelo é formado por moléculas de água arranjadas geometricamente em forma de cristais. Quando elas se organizam dessa maneira, deixam mais espaços vazios entre os átomos do que no estado líquido (estudante B, caderno de anotações, p. 14, 2012, grifos meus). Na sua reescrita, o estudante B, apesar de escrever que as moléculas se separam por causa da nova organização no estado sólido, devido à sua geometria cristalina, o que retrata um avanço para a sua explicação, ainda apresenta limitações de significação conceitual ao afirmar, no mesmo texto, que os espaços vazios ocorrem entre os átomos da água. O estudante não conseguiu avançar na sua reescrita, não demonstrou avanços significativos no seu entendimento sobre o fenômeno em questão, não superou, na minha avaliação, o estágio de AC. O estudante B não conseguiu explicar, na sua reescrita, de maneira consciente, a limitação da sua afirmação anterior de que “as moléculas de água se expandem” e, apesar de, na sua reescrita, dizer que as moléculas acabam se separando, ele no final, volta a afirmar que os espaços aumentam entre os átomos da água. Portanto o expandir, referido pelo estudante, pode ser compreendido como um crescimento da molécula e não como um espaçamento entre as moléculas. Exemplos semelhantes a essa explicação do estudante B, da dificuldade em compreender os espaços vazios na matéria foram abordados por Mortimer (2000) ao especificar aspectos do atomismo substancialista, que vai ao encontro da interpretação do estudante ao considerar o aumento do espaço entre os átomos não considerando o espaçamento entre as moléculas. Nesse sentido o posicionamento apresentado pelo estudante B denota uma ausência de uma compreensão conceitual em química e retrata a necessidade de orientações pedagógicas61 ainda mais especificas para que o estudante tome consciência das suas compreensões e que o professor perceba as dificuldades em se estabelecer a compreensão da ciência no processo pedagógico. Em todo o processo de reescrita, para essa questão, apesar das orientações, o estudante B não avançou em termos de desenvolvimento conceitual em química. Fez uso das 61 As orientações encaminhadas para o estudante B são objeto de discussão para a categoria emergente ID que se encontra explicitada na subseção 6.2. 130 palavras químicas, mas não avançou em termos de significação e de formação do seu pensamento químico. Chamo a atenção para um item presente em algumas respostas e que consistia na explicação sobre a causa da diferença dos estados físicos da água e da amônia à temperatura ambiente. Com exceção do estudante D, os estudantes A, B, C e E, apesar das orientações, não avançaram para além da afirmação de que “as ligações de hidrogênio são responsáveis pelo fato da água ser líquida a temperatura ambiente enquanto, em geral, outras moléculas de tamanho semelhante são gases” (texto da 2ª reescrita do caderno do estudante C, p. 69). Esses estudantes não realizaram relações fundamentais entre conceitos para a explicação dessa particularidade. Nas suas respostas, assim como o estudante C, os demais estudantes fizeram uso de uma explicação geral sem considerar as especificidades inerentes à causa das diferenças entre os estados físicos da água e da amônia, entre elas, a eletronegatividade dos elementos envolvidos na formação dos compostos, a geometria molecular, a intensidade dos dipolos em cada molécula. Ou seja, na sua explicação, os estudantes não realizaram tentativas de generalizações, e as respostas descritas por eles para esse fenômeno, em especial, indicaram apenas indícios de AC. Os estudantes descreveram uma característica geral das substâncias, sem se darem conta de que tanto entre as moléculas de água quanto entre as moléculas de amônia as interações intermoleculares são ligações hidrogênio. Assim, a explicação deveria ser outra, mas esse posicionamento implica, por sua vez, um nível de generalização mais avançado. Considerando o processo de reescrita do estudante G é importante destacar que na sua primeira escrita ao explicar sobre a característica da água ser solvente universal, o estudante, escreveu que a água tem capacidade de dissolver moléculas polares, pois polar dissolve polar, e apolar dissolve apolar. E assim, na minha primeira orientação, solicitei que ele avançasse na discussão considerando as forças interpartículas envolvidas no processo de dissolução. O estudante G, ao fazer a primeira reescrita, apenas explicou a polaridade de uma molécula, explicitando as causas desse fenômeno. Para isso, fez uso de termos como, distribuição da nuvem eletrônica, sem considerar a questão da geometria molecular ou dos ângulos de ligações. 131 Nesse caso, a minha orientação consistiu na inserção do símbolo RI (Resposta Incompleta - reler o comentário feito anteriormente ou reler a questão, a pergunta, o problema). Na sua segunda reescrita, ele descreveu duas das interações interpartículas: a dipolo-dipolo e as forças de london. Não fez nenhuma relação com o questionamento inicial, qual seja o de a água atuar como solvente universal, e também não considerou as forças intermoleculares específicas entre as moléculas da água e as demais substâncias/íons. O estudante, nas suas reescritas para a primeira questão encaminhada, não conseguiu avançar em relação à sua primeira escrita que consistiu na reprodução da definição clássica e recorrente no ensino de que polar dissolve polar, e apolar dissolve apolar. Interessante que, nesse processo de orientação, o termo forças interpartículas, utilizado por mim, levou o estudante G a descrever duas forças intermoleculares - dipolo-dipolo e london - sendo que uma é característica de moléculas polares e a outra de moléculas apolares. O estudante não considerou o restante da orientação que, por sua vez, implicava um pensamento mais estruturado: pensar sobre a causa de a água ser um solvente universal e explicar o porquê de uma substância polar dissolver outra polar. E é essa limitação que retrata apenas um início na significação conceitual pela AC. O estudante estava, apenas, se apropriando dos termos específicos da química, descrevia, nas suas escritas, definições isoladas que remetiam a um ou a outro conceito, mas não conseguia relacioná-los de maneira consciente, na forma de um texto com uma coerência química. Seguindo o diálogo na orientação da segunda para a terceira reescrita, pedi para ele ampliar a sua resposta considerando as interações envolvidas na formação de soluções aquosas. Nessa orientação, fiz uso de um termo químico mais amplo, soluções aquosas, que, por sua vez, implica o entendimento das interações intermoleculares na questão da polaridade das substâncias. Esse comentário levou o estudante G a ampliar a sua resposta de maneira geral. Assim, pela análise da terceira reescrita, foi possível perceber indícios de EC. Apesar de não responder completamente a orientação dada após a primeira reescrita, o estudante explicou a polaridade da água em termos de momento dipolar resultante. Considerou, para tanto, o ângulo de ligação, a geometria molecular. Assim, o estudante G passou de uma definição clássica de polar dissolve polar para o uso de conceitos relacionados, como momento dipolar 132 resultante, ângulo de ligação, explicando a causa da polaridade da água. Ele ainda não se apropriou da explicação referente ao processo de dissolução, não conseguiu explicar as interações estabelecidas no processo de dissolução, mas, por outro lado, avançou na sua interpretação em relação às forças intermoleculares, ao explicar a causa da água ser líquida à temperatura ambiente escreveu que: a atração elétrica devido as fortes ligações de hidrogênio aproxima as moléculas de água, tornando mais difícil separá-las, e por consequência, elevando o ponto de ebulição (Caderno de anotações, estudante G, p. 25). Apesar de o estudante ainda apresentar limitações em termos de uma explicação mais completa sobre o fenômeno, há alguns indícios de busca da inserção de interpretação própria ao fazer uso de termos como e por consequência, com a preocupação de exemplificar o fenômeno descrito. Pode-se compreender, também, adiantando a discussão referente a ID realizada de que a orientação ainda não atingiu o âmago da dificuldade que o estudante apresenta: ele parece não relacionar polar/apolar como sendo a expressão das forças interpartículas. Ele precisa ainda tomar consciência de que a polaridade que explicita cria forças elétricas interpartículas agindo nas dissoluções. E, nessa multiplicidade de discursos ao se apropriar da LCE e fazer uso consciente dessa linguagem foi possível indiciar aspectos da EC, com diferentes níveis de generalização conceitual atingido pelos estudantes. A capacidade de generalização implica diferentes relações conceituais, pressupondo um movimento estrutural na rede de linhas de latitude e longitude. No entendimento de Vigotski (2000, p. 368), a apreensão dos conceitos científicos requer a interrelação entre diferentes conceitos e “na medida em que se desenvolvem as relações de generalidade, amplia-se a independência do conceito em face da palavra, do seu sentido e da sua expressão e surge uma liberdade cada vez maior das operações semânticas em si e em sua expressão verbal”. O estudante, ao atingir os maiores níveis da generalização conceitual, torna-se capaz de realizar diferentes relações conceituais para explicar determinado fenômeno, ou seja, consegue organizar o seu pensamento por conceitos, e isso é uma condição para a formação do pensamento químico nos estudantes. Entendo com Vigotski (2000) que, pelo nível de generalização empregado, é possível verificar a natureza do pensamento, seja ela sincrética, complexa ou conceitual. O mesmo autor (2000) destaca que, apesar de um adulto ter atingido o 133 pensamento conceitual, é comum, ainda, estar presente na sua linguagem o pensamento por complexos, pois um modo de pensar não exclui o outro. No caso do pensamento por complexos, as palavras utilizadas referem-se a vínculos concretos e não a vínculos abstratos ou lógicos, como no caso do pensamento por conceitos. Chamo a atenção para o fato de, na sala de aula, em especial nas aulas de química, predominarem diferentes discursos, o científico, o de divulgação científica e o pedagógico, e, no âmbito desses gêneros discursivos escolares, é comum tanto o uso de relações mais conceituais que implicam num pensamento conceitual mais estruturado, como, o uso de exemplos concretos que se aproximam de um pensamento por complexos. Também é importante ressaltar que a formação de pensamentos mais abstratos implica uma maior significação conceitual. Essa capacidade de apresentar um pensamento químico mais abstrato é percebida, em sala de aula, no discurso do professor que já pertence a essa área de conhecimento. Lemke (1997, p. 13, trad. própria) nos diz que “os professores de ciências pertencem a uma comunidade de pessoas que falam a linguagem da ciência”, e que os mesmos “usam esta linguagem para dar sentido a cada tema de uma maneira particular”62. Mas é importante considerar que, em sala de aula, além das relações abstratas, o professor também faz uso de exemplos concretos para exemplificar determinados fenômenos, aproximando-se mais do DCE. É importante que, pela apropriação e pela significação conceitual, o estudante avance de um pensamento apenas por complexos para um pensamento por conceitos. Isso não implica o não uso do pensamento por complexos, mas de avanços na sua estrutura cognitiva, permitindo também níveis de generalizações mais avançados. Ressalto que ao analisar a escrita dos estudantes, foi possível identificar alguns indícios de apropriação do discurso escolar e este denotou aspectos de EC. Para exemplificar, trago a resposta da primeira reescrita do estudante F que, ao escrever sobre a propriedade da água ser solvente universal, escreveu que: [...] outras substâncias como moléculas polares são solúveis em água, enquanto 62 los profesores de ciencias pertencen a uma comunidad de personas que hablan el lenguaje de la ciencia (...) Los profesores utilizan dicho linguaje para dar sentido a cada tema de uma manera particular (LEMKE, p. 13, 1997). 134 que as apolares são insolúveis, por exemplo, água e óleo [...]. No texto escrito por F, ficou explícito o uso do pensamento por complexos, pois fez uso de um exemplo concreto para explicar a não solubilidade de substâncias apolares em água. O exemplo descrito pelo estudante, por sua vez, apresenta-se como clássico no discurso escolar e, assim, retrata a apropriação do estudante pela LCE. Reitero que, pela significação da LCE, foi possível perceber indícios de EC, pois, como bem afirma Bakhtin (2006), quando nos apropriarmos de um gênero do discurso, conseguimos nos expressar com mais confiança como, por exemplo, conversamos tranquilamente no nosso dia a dia, fazendo uso do discurso cotidiano, pois estamos inseridos nesse discurso, ele nos constitui e por isso, fazemos uso do mesmo sem problemas. Assim também o estudante, ao se apropriar dos gêneros discursivos escolares, apesar de o caminho de apropriação ser inverso ao do discurso cotidiano, passou, mediante o processo de escrita e de reescrita orientada, a fazer uso mais consciente dos termos da química para explicar determinado fenômeno, ou seja, foi se apropriando e significando o discurso escolar. O estudante D, na sua primeira escrita, especificamente sobre a água ser considerada solvente universal, escreveu que: “[...] a água é capaz de quebrar substâncias como o açúcar e o sal” (p. 2). O estudante, na sua primeira escrita, demonstrou limitações conceituais quanto às interações que ocorrem a nível particular no processo de dissolução, apresentou uma ideia simplista de que a água quebra substâncias. Para isso, no primeiro comentário, orientei que o estudante D fizesse novamente uma leitura do artigo “Água um Líquido Vital” e que ampliasse a discussão sobre as causas de a água ser caracterizada como um solvente universal e sublinhei na sua escrita o termo quebrar. Na sua primeira reescrita escreveu que: a água é considerada solvente universal, pois dissolve uma infinidade de substâncias, sendo que as moléculas de água (solvente) penetram nas partículas do soluto, promovendo assim a separação das partículas (grifos meus) (p.11). Na sua reescrita o estudante D ampliou o uso dos termos químicos, não fez mais uso do termo quebrar, explicando-o em termos de separação das partículas, isso retrata um avanço no seu modo de pensamento. Mas a sua explicação remete para um composto iônico interagindo com a água, pois se referiu à separação de partículas e não de 135 moléculas, por exemplo. Para ampliar essa discussão, a segunda orientação consistiu na inserção do símbolo RI (Resposta Incompleta - reler o comentário feito anteriormente ou reler a questão, a pergunta, o problema). Assim, na sua segunda reescrita, o estudante D passou a explicar a característica de solvente universal, considerando agora a polaridade das moléculas de água e mencionou também a ligação hidrogênio: [...] a propriedade de solvente universal está relacionada a polaridade das moléculas de água [...] a ligação de hidrogênio formada quando átomos de oxigênio de uma molécula atraem os átomos de hidrogênio da molécula vizinha, a existência desse tipo de ligação explica várias propriedades importantes da água. O fato da água ser líquida a temperatura ambiente é uma delas (Estudante D, caderno de anotações, p. 18 e 19, 2012, grifos meus). Nessa reescrita, o estudante não mais escreveu sobre a dissolução, não retomou a questão da interação com outras substâncias, mas apresentou outros termos químicos, mais específicos relacionados à molécula da água, como por exemplo, polaridade das moléculas de água, ligação de hidrogênio. Nas respostas anteriores, o estudante estava preocupado em descrever o processo de dissolução que, na verdade, é uma consequência do fato de a água ser solvente universal. Na reescrita, sua preocupação estava voltada para as causas, para as condições que explicam o fato de a água ser considerada solvente universal. Com isso, posso afirmar que o estudante conseguiu interpretar a minha orientação, e que nessa escrita apresentou alguns indícios de relações conceituais, uma vez que a característica de solvente universal foi relacionada à polaridade da água e, esta, por sua vez, remeteu para as forças intermoleculares, que implicaram a citação de outras propriedades, como o fato de a água se apresentar no estado líquido à temperatura ambiente. Essa característica reforça algumas das particularidades da linguagem química que consistem na nominalização e no uso de termos substantivos extensos que, para serem entendidos, requerem a significação de diferentes conceitos (Prain, 2006). Assim, o termo solvente universal, por exemplo, para ser entendido, requer o entendimento de forças intermoleculares, de polaridade das substâncias, de dissolução, de interações favoráveis, de formação de dipolos formando um sistema hierárquico de generalizações. O estudante D não abordou, na sua resposta, todos esses conceitos, mas a sua explicação, pelas iniciativas 136 de relações conceituais estabelecidas mostrou o início da formação de pensamento conceitual, e por isso, foi considerado um processo de EC, conforme indicado no quadro 4. Destaco que, alguns termos, algumas explicações não foram retomadas pelo estudante D no processo de reescrita. Foi possível perceber que na sua primeira escrita ele teve um foco temático que continuou na primeira reescrita apesar das limitações conceituais, e, na segunda reescrita, o estudante D, ao considerar o meu comentário, já remeteu para outras questões. Assim o segundo comentário de orientação também foi numa outra direção, considerando a última escrita do estudante. Chamo a atenção para o fato de que, nesse caso específico, em relação à dissolução e a formação de soluções, outras perguntas estavam sendo respondidas no caderno. Para o caso da dissolução do açúcar e do sal, por exemplo, uma questão solicitou que os estudantes explicassem a dissolução dessas substâncias na água e, por isso, não retomei essa discussão no processo de reescrita na primeira questão com o estudante D. Continuando no processo de reescrita para o referido estudante, o meu terceiro comentário, após a sua segunda reescrita, considerou o fato de o estudante ter condicionado o estado físico da água à temperatura ambiente com as ligações hidrogênio. Na minha orientação, que foi OT, solicitei que ele explicasse por que a amônia, sendo uma molécula análoga à água e apresentando ligações hidrogênio entre suas moléculas é encontrada no estado gasoso à temperatura ambiente, enquanto que a água é líquida. Na sua terceira reescrita, o estudante D assim se posicionou: em ambas as moléculas existem H ligado a um átomo muito eletronegativo (H-N na amônia e H-O na água). No entanto, o átomo de oxigênio é mais eletronegativo que da amônia, pelo que a diferença de eletronegatividade nas ligações estabelecidas é maior na molécula de água [e, por fim, afirma que] como consequência, as ligações de hidrogênio são mais intensas na água, aumentando seu ponto de ebulição (estudante D, caderno de anotações, p. 19, 2012, grifos meus). A escrita do estudante D demonstrou que ele conseguiu iniciar um pensamento conceitual, relacionando diferentes conceitos, para explicar as causas das diferenças dos estados físicos da amônia e da água à temperatura ambiente, por exemplo, pois, na sua resposta, relacionou diferentes conceitos 137 como eletronegatividade, forças intermoleculares e ponto de ebulição. Também na sua escrita fez uso de uma linguagem que retratou a LCE, numa relação entre pensamento conceitual e pensamento por complexos, pois, ao afirmar que o átomo de hidrogênio está ligado a um átomo muito eletronegativo em ambas as moléculas, o estudante exemplificou isso indicando H-N e H-O, ou seja, fez uso dos conceitos, mas também indicou uma representação concreta/gráfica para o fato com uso da representação das ligações entre os átomos. Também o estudante F, no seu processo de reescrita, avançou na sua explicação sobre a água ser considerada solvente universal, explicando a polaridade da molécula de água e a interação molecular. Na sua segunda reescrita, ampliando a discussão da primeira reescrita, o estudante escreveu que: o oxigênio atrai os elétrons da ligação muito mais fortemente que o hidrogênio devido a sua carga nuclear efetiva, levando uma carga parcial positiva nos átomos de hidrogênio e uma carga resultante negativa nos átomos de oxigênio. Isso e a geometria da molécula da água gera um momento dipolo. A atração elétrica devido a esse dipolo aproxima as moléculas de água, tornando difícil separá-las, e por conseqüência elevando o ponto de ebulição. Essa atração é conhecida como ligação de hidrogênio (estudante F, caderno de anotações, p. 30, 2012, grifos meus). O texto escrito pelo estudante F apresentou indícios do uso de diferentes relações conceituais, pois fez uso de termos químicos específicos como: carga nuclear efetiva, atração elétrica, carga resultante, geometria da molécula, momento dipolo e ligações hidrogênio, para explicar a condição de solvente universal. Essa explicação o levou a outras características inerentes às moléculs de água, como por exemplo, o alto ponto de ebulição. Ainda, para essa resposta, chamo a atenção para algumas características mais específicas relacionadas ao discurso escolar. O estudante fez uso de termos específicos da química (destacados no texto) que estão mais próximos do DC, mas também fez uso de uma linguagem mais próxima do DP, pois, ao explicar um fenômeno, ele teve a preocupação de tornar entendida a sua explicação. Isso pode ser percebido mais especificamente quando o estudante F escreveu: tornando difícil separá-las e por consequência. Esses termos, na linguagem científica, estariam suprimidos, pois um químico entenderia tal relação de forma direta, mas, no âmbito escolar, é necessário 138 realizar esse discurso ampliando as explicações com uso de adjetivos e de advérbios para possibilitar que o estudante identifique e compreenda os termos mais específicos da linguagem química. Daí ficou novamente evidenciado a multiplicidade de gêneros discursivos na sala de aula e a necessidade da sua apropriação e sua significação pelos estudantes. Segundo Bakhtin (2010), a palavra pode se apresentar em três aspectos: como neutra, sem pertencer a ninguém, como a palavra dos outros, quando apresenta a interpretação dos outros, e como minha, quando consigo operar com a palavra numa situação determinada, como é o caso do contexto pedagógico. Numa aula de química, por exemplo, é importante que o estudante ao se apropriar das palavras consiga utilizá-las considerando as suas especificidades, com um significado mais próximo da química. Pela análise da escrita do estudante F, afirmo que, ao realizar as diferentes relações conceituais com o uso do discurso escolar, há indícios de que as palavras usadas por mim, em sala de aula, foram se tornando suas pelo processo da reescrita. Assim, afirmo que no processo, o estudante F apresentou indícios de EC, pois a apropriação e o uso consciente da LCE é condição para o aprendizado e para o avanço no seu desenvolvimento conceitual. Portanto, pelo quadro 4 é possível perceber que, para as escritas e reescritas da primeira questão encaminhada no caderno de anotações, os estudantes A, D, F e G apresentaram indícios de EC. Pela análise que foi apresentada ficou evidenciado que a palavra dita por mim, em sala de aula, ou escrita nos textos de orientação, foi se tornando a palavra do estudante pelo processo de reescrita. Chamo a atenção que pela análise dos textos dos estudantes no processo da ATD ficou evidenciado a importância da categoria emergente ID. Olhar para a ID estabelecida entre mim e os estudantes permitiu compreender o processo de AC e de EC. Essa discussão está contemplada no capítulo seis quando discuto os resultados construídos mediante a categoria emergente ID. Outro instrumento pedagógico utilizado nas aulas de Química I consistiu na reescrita de algumas respostas das questões das provas que, por sua vez, foi um processo diferente da escrita e da reescrita do caderno de anotações. Enquanto este foi uma prática individual e que, na sua maioria, não foi realizada em sala de aula, aquela foi realizada em grupos de estudantes em sala de aula. Chamo a 139 atenção que um diferencial no processo de reescrita das respostas das questões das provas, em particular, consistiu na importância dada às relações assimétricas estabelecidas entre os colegas em sala de aula e pela sua contribuição para a EC dos estudantes. Na subseção que segue, apresento mais explicações sobre o referido instrumento pedagógico e sobre os resultados construídos mediante a análise dos textos reescritos, com atenção para as duas categorias a priori, AC e EC. 5.3 Reescrita das Respostas das Provas: Alguns Resultados Construídos Antes de iniciar a discussão referente ao processo da reescrita das respostas das provas63, apresento algumas características sobre as questões das provas que foram aplicadas no decorrer do semestre de Química I. Essas consistiram, na sua maioria, em questões discursivas com objetivo de estimular a escrita dos estudantes e de ampliar o uso dos termos específicos da LCE. Defendo que tais questões estão aliadas a uma perspectiva de ensino que supera a simples memorização de definições conceituais. Nessa direção, Lemke (1997), ao discutir sobre diferentes instrumentos de avaliação, destacou que as provas com questões de múltipla escolha se limitam em possibilitar ao estudante apenas a habilidade de memorização e, no entendimento do referido autor, são as avaliações que exigem dos estudantes o uso da linguagem da ciência em diferentes contextos de aplicações que podem permitir a identificação do seu conhecimento conceitual. Também, em relação aos instrumentos de avaliação que consistem na resolução de problemas, Lemke (1997) defende que esses devem vir acompanhados por uma descrição sobre o método de resolução utilizado. Ficou evidenciada, pelo posicionamento de um estudante, a contribuição das questões descritivas, gostei das perguntas, pois assim você escreve, explica, aprende, não apenas marca a que você acha que está certa (AS_AN21). O 63 A ideia da realização da reescrita das respostas das provas está descrita no DB após a correção da primeira prova assim escrevi: vou analisar cada questão da prova discutir os conceitos relacionados e apresentar para os estudantes para proporcionar uma reflexão sobre suas escritas e perceberem as limitações das suas respostas. Mas quem de fato precisa discutir os conceitos e as respostas são os estudantes, então vou fazer um documento com orientações sobre cada questão, inserindo algumas respostas para serem analisadas e corrigidas por eles (DB, p. 06, aula dia 04/05). 140 posicionamento desse estudante, ao se referir a questões de marcar, remete para uma prática de avaliação muito utilizada, em especial, nas avaliações de química com questões de escolha de alternativas corretas, sem possibilitar que o estudante escreva a sua resposta. Outra prática de escrita muito comum em provas consiste em solicitar aos estudantes que simplesmente reproduzam uma definição conceitual, sem, no entanto, possibilitar a eles um pensamento mais amplo com o estabelecimento de relações conceituais. E também, o simples fato de reproduzir uma definição não possibilita ao professor evidenciar o real sentido atribuído a ela pelo estudante. A reprodução de uma simples definição pode mascarar o real aprendizado. Aliado a isso a prática de escrita que se limita a uma reprodução, pouco contribui para a evolução do significado conceitual dos estudantes, pois apenas se caracteriza numa escrita funcional, ou seja, o estudante pode, nessas condições, até fazer uso da palavra, mas não atribuir a ela os significados próprios da química, por exemplo. Em relação às questões das provas, a maioria delas referia-se a determinados problemas e, para suas respostas, a simples reprodução de definições não era suficiente. As questões tinham como objetivo possibilitar aos estudantes ampliarem a sua capacidade de argumentação e significarem os conceitos químicos. Destaco que essa prática de escrita está aliada ao entendimento de que o estudante ao fazer uso das palavras em diferentes contextos e ao ser desafiado a estabelecer diferentes relações entre elas, possa iniciar a formação do seu pensamento químico e, assim, as palavras dos outros se tornam as suas palavras (Bakhtin, 2010). Isso é possível na medida em que o estudante, pelo uso da LCE, internaliza as palavras e atribui a elas significados químicos mais precisos. Nesse âmbito, a reescrita das respostas das provas teve como objetivo proporcionar aos estudantes a oportunidade de perceber os seus erros conceituais, ou os erros dos colegas e, posteriormente, realizar a sua correção. Eu selecionei as respostas para serem corrigidas, reescritas, pelos estudantes ao realizar a correção das provas. As respostas escolhidas para correção remetiam para algumas das limitações de significação conceitual em química que foram recorrentes e, assim, as amostras de respostas selecionadas, para serem analisadas e corrigidas pelos estudantes, consistiram em indicativos das dificuldades da maioria dos estudantes. 141 A metodologia escolhida para esse processo de reescrita consistiu no trabalho em grupo e, essa escolha, objetivou possibilitar aos estudantes de, com a ajuda do outro, ampliar os seus entendimentos e, assim, aprimorar o seu aprendizado químico. Para tanto, os grupos foram pré-selecionados por mim, com atenção para a necessária assimetria entre os seus integrantes, utilizando a variedade de notas das provas dos estudantes. Assim, cada grupo teve integrantes que denotavam diferentes níveis de dificuldades e de AC. Essa prática de ensino colaborativo parte do entendimento de que o aprendizado, em sala de aula, ocorre em relações assimétricas, nas quais o professor é o sujeito mais capaz que orienta e faz a mediação no processo de ensino e que, ao mesmo tempo nesse processo interativo, também amplia o seu aprendizado. Nos grupos, outras assimetrias aparecem, ampliando as possibilidades de aprendizados. Reafirmo que o objetivo do trabalho em grupo consistiu em possibilitar aos estudantes mais capazes através da orientação e da explicação aos demais colegas, além de ajudá-los, ampliar o seu aprendizado, pois o fato de externar o seu conhecimento ao outro faz com que o estudante necessite sintetizar e reelaborar os seus pensamentos. Tais procedimentos são importantes para o seu próprio aprendizado. Em relação à reescrita das respostas das provas, um estudante, assim se posicionou: a reescrita das provas achei interessante fazer em grupos pois um sempre tem a contribuir (AS_AN20). Para esse estudante o objetivo pensado por mim, de possibilitar a interação favorável dos estudantes, foi percebido. O posicionamento do estudante, ao afirmar que um sempre tem a contribuir retrata a intenção do trabalho de proporcionar a colaboração entre os estudantes. Também, no DB, após uma aula de reescrita das provas assim escrevi: ouvi uma aluna de um grupo dizer: Ah! Essa eu acertei na prova me deixa explicar e [completei] ela estava bem entusiasmada (p. 30)64. Pelas observações realizadas em aula, ficou evidenciado que em grupos menores os estudantes se autorizam em realizar a explicação. Assim, pela prática da reescrita das respostas das provas, foi possibilitado aos estudantes fazerem uso consciente da LCE, pois as discussões estabelecidas perpassaram os conteúdos de química, que, por sua vez, precisavam ser explicados aos colegas de maneira pedagógica, para, assim, possibilitar os 64 DB, aula dia 16/05/12. 142 entendimentos necessários. Ainda, após a discussão em grupo, foi preciso sistematizar as conclusões, ou seja, reestruturá-las com um maior grau de organização e de abstração a fim de realizar a reescrita solicitada. Nesse âmbito, a reescrita das respostas das provas possibilitou o uso dos três instrumentos culturais da metodologia da pesquisa em sala de aula: a leitura, a fala e a escrita. Primeiramente foi preciso que os estudantes lessem as respostas selecionadas. Essa leitura exigiu deles muita atenção, pois pela leitura e pela posterior interpretação era possível identificar as limitações das respostas. Portanto, essa prática não podia ser reduzida a uma leitura mecânica. Ela requeria dos estudantes uma interpretação. Era preciso que eles identificassem se a resposta selecionada por mim estava certa, ou então quais os erros conceituais que ela apresentava. Assim, durante e após a leitura, era preciso discutir no grupo. Ao menos um estudante precisava mediar o diálogo. Era preciso elaborar um posicionamento frente às respostas. Aliado a isso, era importante buscar material de apoio, com leituras em livros didáticos e em textos sobre o assunto da questão, para, assim, realizar a correção que, por sua vez, implicava no exercício da escrita. Chamo a atenção para o fato de que, apesar das diferentes interações estabelecidas no trabalho em grupo, em decorrência da minha metodologia de análise adotada, que consistiu na análise dos textos escritos, a atenção está para indícios de AC ou de EC para cada grupo, considerando a reescrita que foi analisada. Outras discussões, quanto às metodologias utilizadas por cada grupo, apenas são possíveis pelo recorte de alguns episódios descritos no DB ou, ainda, pela avaliação feita pelos estudantes no final do semestre, pois não fiz uso de gravações ou de filmagens no decorrer das aulas. A metodologia adotada pelos grupos, durante a prática da reescrita, é possível de ser evidenciada em alguns comentários escritos no DB: um grupo fez uso do computador utilizando internet (p. 30)65; muitos grupos pesquisavam conceitos básicos na internet, como por exemplo, um grupo estava buscando o que era um cátion [...] poucos grupos estavam com livros indicados na bibliografia básica (p. 31)66; alguns estudantes utilizam o seu caderno de anotações, além do 65 DB, dia 16/05/13 66 DB, dia 18/05/13 143 caderno da aula para auxiliar na reescrita (p. 42)67. Quanto à metodologia utilizada pelos grupos, especificamente em relação aos materiais para consulta teórica, como ficou explícito nas observações descritas no DB, a maioria dos estudantes não tinha o hábito de fazer uso dos livros indicados na bibliografia básica do componente curricular. Faziam uso da internet em sites de busca. Outro material de consulta, que chamou a minha atenção, consistiu nos seus cadernos de anotações que passaram a ser também um referencial para os estudantes. Assim, o material empírico que foi analisado para a construção dos resultados, na sua maioria, foi para as questões das provas e as reescritas das respostas. Para tanto, selecionei, para análise, as respostas e as reescritas de duas questões que se referiram ao processo de dissolução e de diluição. A escolha dessas questões remete para a amplitude dos conceitos químicos necessários de serem relacionados no entendimento de ambos os processos. Essas questões foram encaminhadas na segunda metade do semestre e, assim, a sua análise possibilitou-me visualizar as escritas dos estudantes mais no final do semestre da Química I. Nesse contexto, analisei as reescritas de 5 grupos, e os resultados da análise serão discutidos a seguir. As reescritas das questões das provas analisadas contemplaram as duas turmas nas quais eu ministrei Química I. Como para cada turma as reescritas selecionadas foram diferentes, e também devido a algumas diferenças nas questões das provas, fiz referência para cada uma das turmas com uso de letras. Uma turma está identificada pela letra X e a outra turma pela letra Y. Da turma X eu fiz a análise de apenas um grupo. Da turma Y analisei a reescrita de quatro grupos. Para a discussão dos resultados, cada grupo foi identificado por um número de 1 a 5. Em seguida, nos quadros 5 e 6, apresento as questões da prova encaminhada para cada uma das turmas, as respostas selecionadas para a reescrita e, também, a minha orientação para a reescrita. As duas questões selecionadas para análise estavam vinculadas ao seguinte texto introdutório: Imagine alguém sem nenhum conhecimento científico, pegando um punhado de açúcar e misturando-o em um litro de água. Do ponto de vista dessa pessoa, o açúcar “some” e a água fica com um gosto 67 DB, dia 19/09/13 144 diferente. Ela pode ter a percepção de que fez uma “mistura” e de que o gosto do açúcar ficou na água. Essa mesma percepção ocorre quando o sal é misturado à água (Introdução questão 1 e 2 prova 2012, turma X e Y). Quadro 5: Questões 1 e 2, respostas selecionadas para a reescrita e orientação para a reescrita – (Turma X) Q1X Respostas selecionadas da Q1X para serem reescritas Orientação para a reescrita Q 1X Q2x Respostas selecionadas da Q2X para serem reescritas Orientação para a reescrita Q2x Explique, considerando as interações das partículas, o que acontece para que o açúcar e o sal sejam solúveis em água e, por exemplo, o dióxido de silício (SiO2(s)) não seja. R1Q1X açúcar e água: ocorre a separação das moléculas de sacarose pela água. sal e água: em meio aquoso ocorre a quebra do retículo cristalino do NaCl(s) e há liberação dos íons. Ou seja, as condições para o sal e o açúcar se dissolverem na água é favorável e a do SiO2(s), não. Um ponto que explica isso pode ser o fato do SiO2(s) ser apolar e a água polar, levando em consideração que semelhante dissolve semelhante, nesse caso. R2Q1X O sal e o açúcar são solúveis em água porque sofrem interações solutosolvente, formando uma mistura homogênea. O sal e o açúcar são polares e a água também é (semelhante dissolve semelhante). Já o SiO 2 é apolar, portanto não se dissolve na água. Conforme a solicitação do enunciado da questão 1 as respostas (R1, R2) estão incompletas. Identifique as limitações de cada uma das respostas e faça um texto corrigindo e/ou acrescentando o que faltou. A formação de uma solução implica a dissolução do soluto num determinado solvente. Aliás, dissolver é o termo correto para o “some” que foi descrito anteriormente. Muitas vezes, as pessoas usam também o verbo diluir para falar desse “sumiço”, o que é errado. Explique o que significa o termo diluir e exemplifique a sua aplicação com um fato do seu dia a dia. R1Q2X O termo diluir significa dissolver. Quando faço meu café eu adoço com o açúcar, então eu dissolvo na água o próprio café também é solúvel em água. R2Q2X Diluir é quando nós diluirmos um soluto em um solvente, e as interações entre partículas são fracas e esse determinado soluto não vai ser bem dissolvido no solvente. E a solução não vai ficar homogênea. Um fato do nosso dia a dia é quando precisamos diluir um comprimido efervescente em água. Porque quando o comprimido é diluído sobra um resto no fundo do copo e assim da pra perceber que não foi uma dissolução e sim uma diluição. R3Q2X Diluir é acrescentar mais solvente à uma solução, ou seja, já existe uma solução mas ela está muito concentrada, então adiciona-se mais solvente. Ex: se eu tenho um café forte, para que ele fique mais fraco eu adiciono mais água. Assim ele fica menos consistente e mais fraco. Das três respostas anteriormente referidas, escolha a resposta que explica corretamente o termo diluir e faça a análise destacando o(s) erro(s) conceituais das outras duas respostas. Fonte: autoria própria 145 Quadro 6: Questão 1 e 2, respostas selecionadas para a reescrita e orientação para a reescrita – (Turma Y) Q Q1Y Resposta selecionada da Q1Y para ser reescrita O Orientação para a reescrita Q1Y Q 2Y Respostas selecionadas da Q2Y para serem reescritas Explique, considerando as interações interpartículas (intermoleculares), o que acontece para que o açúcar e o sal sejam solúveis em água e, por exemplo, o Fe(s) não seja. R1Q1Y O sal se dissolve na água pois sua rede cristalina é constituída por íons quais tem sua estrutura rompida em presença da molécula polar da água que + separa e deixa livre o cátion Na e o ânion Cl . A sacarose é solúvel em água pois possui regiões polares em sua molécula que forma ligações do tipo ponte de hidrogênio. O Ferro Fe(s) não é solúvel em água pois se encontra no seu estado físico sólido, que faz com que ambos não se misturem. Conforme a solicitação do enunciado da questão 1 a resposta (R1) está incompleta. Identifique as limitações da resposta e faça um texto corrigindo e/ou acrescentando o que faltou. A formação de uma solução implica a dissolução do soluto num determinado solvente. Aliás, dissolver é o termo correto para o “some” que foi descrito anteriormente. Muitas vezes, as pessoas usam também o verbo diluir para falar desse “sumiço”, o que é errado. Explique o que significa o termo diluir e exemplifique a sua aplicação com um fato do seu dia a dia. R1Q2Y Diluição é o ato físico químico de tornar uma solução menos concentrada em partículas de soluto através do aumento do solvente (número de vezes que a concentração vai diminuir). O fator da diluição corresponde a relação entre o volume da solução depois de diluída e o volume da solução antes de ser diluída. Exemplo: ao diluir um pacote de suco em uma jarra de água, quanto mais suco despejar mais forte, ou seja, mais escuro vai ficar. R2Q2Y Diluir – aumentar o volume passou do estado sólido para o líquido, por exemplo: o café “granulado” em água, a gelatina em “pó” em água. Orientação para a reescrita Q2Y R3Q2Y Diluir – procedimento para preparar uma solução menos concentrada pela adição de solvente. Ex: quando temos um café muito forte acrescentamos mais água (solvente). Das três respostas anteriormente referidas, escolha a resposta que explica corretamente o termo diluir e faça a análise destacando o(s) erro(s) conceituais das outras duas respostas. Fonte: autoria própria Ao olhar os quadros 5 e 6, é possível observar as diferenças para cada uma das turmas. Por exemplo, para a Q1X, selecionei duas respostas para serem corrigidas e, para a Q1Y, selecionei apenas uma resposta para ser reescrita. Assim, na discussão dos resultados as turmas serão sempre referidas ao escrever sobre determinado grupo. Da turma X analisei a reescrita de apenas um grupo, e da turma Y, de quatro grupos. Em seguida, no quadro 7, apresento os resultados da análise das reescritas das provas considerando as categorias a priori anteriormente apresentadas no quadro 4 (p. 126). Foi possível perceber que os estudantes, apesar de já terem vivenciado o processo de reescrita no decorrer de todo o semestre, na maioria 146 das vezes, realizaram a elaboração de uma nova resposta, sem de fato, reescrever a primeira. O quadro que segue foi construído tendo como base as leituras e a identificação das categorias a priori nos textos dos estudantes mediante as leituras e releituras e a coloração do texto para dada uma das categorias a priori. Quadro 7: Resultados obtidos pela análise da Reescrita das Provas Grupos Questão AC EC 01 Q1X Q2X Q1Y Q2Y Q1Y Q2Y Q1Y Q2Y Q1Y Q2Y X X X X X X X X X X X / / / / X / X X X 02 03 04 05 (a marcação X significa que foi contemplado e / significa contemplou parcialmente) Fonte: autoria própria Chamo a atenção para o fato de que para cada uma das reescritas solicitadas aos estudantes, a orientação consistiu em OT, e os textos que foram escritos para a orientação encontram-se descritos nos quadros 5 e 6. As orientações, nesse caso, apresentaram um direcionamento diferenciado em relação às orientações encaminhadas no caderno de anotações, pois não estavam direcionadas especificamente para cada grupo, também as limitações conceituais não foram destacadas nas respostas, e, aliado a isso eu não escrevi um texto para complementar a resposta descrita, ou para direcionar a resposta de maneira mais específica na correção necessária. A orientação, para a reescrita das provas, foi mais técnica, pois o objetivo consistia em indicar ao estudante o que fazer frente à resposta encaminhada. Por exemplo, na orientação para a reescrita das respostas da questão 2, para ambas as turmas, escrevi que: das três respostas anteriormente referidas escolha a resposta que explica corretamente o termo diluir, e faça a análise destacando o(s) erro(s) conceituais das outras duas respostas. Essa orientação teve como objetivo direcionar o olhar dos estudantes para a necessidade de, entre as três respostas, identificar uma correta e realizar a correção das outras duas . Tais orientações, no 147 meu entendimento, apresentam um caráter mais operacional, mais técnico, apenas de condução da tarefa, e por isso não vou ampliar a minha discussão referente a elas especificamente. Apenas vou discutir os modos diferenciados com que cada grupo se apropriou da orientação e realizou o que estava sendo solicitado. É importante destacar que a correção foi entendida como uma etapa importante para o aprendizado do estudante. Defendo a ideia de que quem precisa tomar consciência das limitações e dos erros cometidos é o próprio estudante, para assim ter a possibilidade de entender e de perceber a necessidade de avançar e de ampliar as relações conceituais. Como professora eu apenas direcionei o olhar dos estudantes para as correções necessárias e estava presente na sala de aula para auxiliar nas dúvidas que fossem surgir no decorrer da correção. Mas, também em sala de aula, tomei o cuidado em não indicar a resposta certa aos estudantes, e sim de desafiá-los e de apenas orientar as suas buscas apostando na interação assimétrica com os pares. Reitero que na análise realizada, considerei aspectos de EC, na medida em que os estudantes avançaram na reescrita das respostas com ampliação de relações conceituais e com indícios de superação das limitações apresentadas na primeira resposta. De um modo geral, todos os grupos, na sua reescrita, fizeram uso de termos específicos da química, com níveis diferenciados de uso e de complexidade, assim, todos os grupos contemplaram a categoria AC. Passo, em seguida, a discutir mais especificamente os resultados apresentados no quadro 7, para tanto, faço uso de alguns recortes das reescritas dos estudantes e posterior discussão. Para iniciar, apresento alguns resultados construídos mediante a análise da reescrita do grupo 01 que, ao reescrever as respostas, R1 e R2 para a Q1X, indicaram avanços na explicação de alguns termos usados. Na sua reescrita, os estudantes avançaram em relação às duas respostas selecionadas para serem reescritas. Apesar de o grupo não ter destacado nas respostas as limitações percebidas e de ter realizado a escrita de um único texto para a sua correção, a sua reescrita, dá indícios de avanços na explicação para o que estava sendo proposto no enunciado da questão: explicar considerando as interações entre partículas. Para isso, os estudantes do grupo 01, na sua reescrita, passaram a usar termos mais específicos da linguagem química num exercício de relacioná- 148 los para explicar o fenômeno da dissolução, e por isso, caracterizei a escrita contemplando indícios de EC. Na sua reescrita, o grupo escreveu: Quando ocorre dissolução da sacarose na água, são estabelecidas novas ligações de hidrogênio entre os grupamentos hidroxila (OH) polares das moléculas de sacarose a as moléculas de água, também polares. Essas novas interações são fortes o suficiente para romper as interações intermoleculares existentes antes da dissolução: sacarosesacarose e água–água. Em outras palavras, as forças soluto-solvente são mais fortes que as forças soluto-soluto e solvente-solvente. A interação entre água e sacarose permite a dissolução da sacarose em água. A solução de sacarose, não ocorre a formação de íons em solução, mas a formação de ligações de hidrogênio entre as moléculas de sacarose e da água. O açúcar não é uma substância iônica é molecular mesmo assim, dissolve em água, pois a sacarose também é + polar. Na dissolução do NaCl(s) os íons Na e Cl são cercados por grupos de moléculas de água devido a força de atração entre eles e os dipolos da água (íon-dipolo). Os cátions são atraídos pelo lado de carga negativa da molécula de água (oxigênio que é mais eletronegativo) e os ânions pelos lados de carga positiva (hidrogênios que são menos eletronegativos). Como o SiO2 é apolar e a água é polar considerando a regra que semelhante dissolve semelhante não acontece a interação soluto solvente (Reescrita da R1Q1X e R2Q1X, grupo 01, grifos meus). O texto desse grupo, de maneira geral, permitiu identificar avanços na discussão sobre a solubilidade em relação às duas respostas apresentadas para serem corrigidas (R1Q1X e R2Q1X quadro 5). O grupo fez uso de diferentes termos químicos (sublinhados) que precisam ser pensados de maneira relacionada para possibilitar o entendimento do fenômeno de dissolução. Os estudantes passaram a escrever sobre forças intermoleculares, ligações hidrogênio, dipolo-dipolo, íon, molécula, soluto e solvente. Tais relações conceituais são fundamentais para a compreensão do fenômeno da dissolução. Especificamente, o referido grupo, ao reescrever que as condições para o sal e o açúcar se dissolverem na água é favorável, apresenta um avanço conceitual, pois passa a explicar as condições favoráveis, descritas na primeira resposta em termos de interações entre partículas: os íons Na+ e Cl- são cercados por grupos de moléculas de água devido a força de atração entre eles e os dipolos da água (íon-dipolo). Os estudantes desse grupo demonstram o entendimento da interação dos íons e das moléculas de água, enfatizam a questão do dipolo da água e caracterizam a interação como íon-dipolo, o que denota um avanço na interpretação da formação da solução em nível de partículas, considerando a importância da interação estabelecida solvente e 149 soluto para a formação da solução. Isso foi apontado por Echeverria (1993) como uma limitação dos estudantes de Ensino Médio em perceber a participação do soluto e do solvente na formação de soluções, bem como, em identificar as diferentes interações possíveis entre suas partículas, apesar de, segundo a referida autora, esse entendimento ser de fundamental importância para a compreensão da formação de uma solução, por exemplo. Para a dissolução do açúcar e do sal em água, o grupo 01 avançou nas explicações, pois, para a afirmação feita na primeira resposta em R1Q1X (quadro 5) ocorre a separação das moléculas de sacarose, o grupo, na sua reescrita, apesar de não ter identificado explicitamente essa limitação, apresentou toda uma discussão para esse fenômeno considerando as forças intermoleculares envolvidas: Quando ocorre dissolução da sacarose na água, são estabelecidas novas ligações de hidrogênio entre os grupamentos hidroxila (OH) polares das moléculas de sacarose a as moléculas de água, também polares [...]. O grupo também avançou em termos de explicação sobre as condições para ocorrer a dissolução: essas novas interações são fortes o suficiente para romper as interações intermoleculares existentes antes da dissolução: sacarose-sacarose e água–água. Nesse texto, pelas relações conceituais estabelecidas, têm-se indícios de uma evolução na operação mental dos estudantes. Pela análise do texto escrito, é possível afirmar que o grupo avançou no entendimento químico sobre a formação de soluções, em especial, em relação às interações que ocorrem no processo de dissolução. Na sua escrita, também foi possível perceber indícios de uma elaboração de pensamentos mais abstratos, pois passam a nomear, no mesmo texto, a sacarose e a água em termos de soluto e de solvente: as forças soluto-solvente são mais fortes que as forças soluto-soluto e solvente-solvente. Essa mudança na forma de escrever, explicando o fenômeno da dissolução, passando a identificar a água como solvente e o açúcar ou o sal como solutos denota indícios de uma formação de pensamento por conceitos e uma apropriação da LCE. De maneira semelhante, o grupo 05, apesar de não ter indicado as limitações no texto para ser reescrito, ao reescrever a R1Q1Y, passou a explicar a dissolução do sal em água em termos de solvatação, ampliando um pensamento apenas por complexos, pois no texto passou a fazer referência as relações conceituais ao explicar a interação soluto-soluto e solvente-solvente: 150 Quando o sal é adicionado em água a atração das moléculas de água sobre os íons, são maiores que a atração entre os íons, então ocorre a + dissociação iônica (separação dos íons Na e Cl ). Esta solvatação ocorre porque as forças de interação soluto-solvente superam as forças soluto-soluto e solvente –solvente [...] (R1Q1Y, grupo 05, grifos meus). Também nos textos escritos pelos grupos foi possível identificar o uso de termos específicos da química, aliados ao uso de outros termos que especificam o lugar dos grupos, pois a sua escrita pode ser caracterizada como constitutiva do discurso escolar. Conforme Prain (2006), Hodson destaca que os estudantes, para chegarem a fazer uso da linguagem científica, alternam linguagem cotidiana com linguagem científica. No processo de escrita vivenciado é possível afirmar que os estudantes ao se apropriar do discurso escolar, vão ampliando as maneiras de explicações e indiciam avanços na significação conceitual. O grupo 01, por exemplo, ao fazer uso de em outras palavras para explicar melhor a sua escrita, demonstra a preocupação em explicar os seus entendimentos. Isso é recorrente em aulas de química, no âmbito da LCE. Assim, esse posicionamento sinaliza uma apropriação do discurso escolar. Já para o grupo 05, o uso do discurso escolar, ficou mais evidenciado quando complementam a sua explicação sobre dissociação iônica, especificando que essa consiste na separação dos íons Na+ e Cl-. As explicações detalhadas, com a inserção de exemplos, caracterizam o discurso escolar, mais especificamente o DP e este aliado a algumas particularidades dos demais discursos que perpassam a sala de aula precisa ser apropriado pelos licenciandos. Na linguagem científica, voltada para químicos, tanta explicação seria desnecessária, aliás, a mesma nem apareceria no DC. Mas no contexto da sala de aula as explicitações são fundamentais, é preciso exemplificar, ampliar a explicação, pois os estudantes estão iniciando na formação do seu pensamento químico. Então, além do uso de algumas características do DC, como as nominalizações, os estudantes se apropriaram também das minhas explicações, exemplificações em aula, num movimento de apropriação e significação da LCE. O grupo 05, no seu texto, assumiu um ponto de vista ao afirmar que devido a atração entre os íons Na+ e Cl- e os dipolos da água podemos dizer que os cátions [...]. O uso dessas afirmações aliadas ao uso das palavras específicas da química confere indícios de apropriação da LCE, e essa apropriação, o fato de tornar suas 151 as palavras dos outros, é fundamental no processo de aprendizagem, inicia o estudante no processo de significação conceitual. A apropriação do discurso escolar também foi possível de ser evidenciada pelo exemplo descrito nas respostas: se eu tenho um café forte, para que ele fique mais fraco eu adiciono mais água (R3Q2X) ou, conforme a seguinte escrita: quando temos um café muito forte acrescentamos mais água (solvente) (R3Q2Y). O exemplo do café, descrito pelos estudantes nas suas respostas das provas, foi abordado por mim em sala de aula, ou seja, os exemplos e a linguagem que o professor usa em sala de aula vão sendo internalizados pelos estudantes e se tornam muitas vezes, também o exemplo deles, num processo que inicia pela imitação, pelo uso do mesmo exemplo do professor. Isso retrata a importância da colaboração em sala de aula, mesmo que no momento da resolução do problema não houve a situação de colaboração, essa havia sido vivenciada pelo estudante, e como diz Vigotski (2000, p. 342) “quando em casa a criança resolve problemas depois de ter visto a amostra em sala de aula, ela continua a agir em colaboração, embora nesse momento o professor não esteja ao seu lado”. Nas respostas dos estudantes que não fizeram uso dos meus exemplos, os outros exemplos citados não representam corretamente o fenômeno da diluição. Nesse sentido é possível afirmar que o estudante, ao se apropriar da linguagem do professor, ao conseguir imitar fazendo uso dos mesmos exemplos, está iniciando no processo de significação conceitual e com isso começa a realizar algumas relações conceituais. O estudante ao lembrar-se do exemplo discutido em aula passa a realizar outras relações e, assim, amplia o seu entendimento sobre o fenômeno, até atingir um nível de significado que não precisa mais de exemplos do real, formando, então, pensamento por conceitos, ou ainda, passa a ser capaz de fazer explicações sem a colaboração próxima do professor. Mas, aliado aos avanços conceituais, na maioria das respostas analisadas, foi possível perceber uma limitação quanto ao uso correto da linguagem química, como, por exemplo, a representação para os íons sódio e cloreto. Esses não foram representados de maneira recomendada aos estudantes - Na+(aq) e Cl-(aq) – isso retrata a importância da mediação do professor, da necessidade da orientação e da atenção para a representação correta da linguagem química. Apropriar-se da maneira mais adequada de se expressar é um processo que precisa ser vivenciado pelos estudantes com o uso de diferentes instrumentos 152 pedagógicos sistematicamente orientados pelo professor. Entendo que a capacidade de escrever e de interpretar os símbolos, as fórmulas químicas de maneira correta, é um processo inerente ao aprender química, pois a significação correta de, por exemplo, Na, Na(s) ou, ainda Na+(aq) é fundamental para o entendimento de alguns fenômenos. Aliado a isso, saber se comunicar e fazer uso coerente das representações químicas são indícios da formação de um pensamento químico. Discuto agora especificamente sobre os grupos 02, 03 e 04 que, na sua reescrita para a Q1Y, conforme o quadro 6, contemplaram parcialmente a condição de EC. O grupo 02, por exemplo, ao tentar realizar a correção da resposta selecionada (R1Q1Y), deu indícios de muitas limitações conceituais. Escreveu, por exemplo, que os íons da água interferem nos íons do sal, e que o açúcar é dissolvido por que os átomos de água envolvem os átomos de açúcar. Os integrantes desse grupo consideraram a molécula de água formada por íons e, em seguida, escreveram que os átomos de água é que interagem com o açúcar. Com isso retrataram limitações na formação do seu pensamento químico, aliado à falta de atenção para os termos químicos utilizados para a mesma resposta, o que revela a ausência da significação conceitual. Mas, ao explicar a não solubilidade do Fe(s) em água o grupo escreveu que: o Fe(s) não se dissolve pois é formado por ligações metálicas que são mais fortes que as da água com o ferro e, na tentativa de corrigir a resposta selecionada o grupo escreveu que não tem nada a ver com o fato do ferro ser sólido e sim com o tipo de ligação que ele é formado. Apesar das limitações de significados percebidos na sua resposta, também há indícios de EC, pois demonstraram entendimento sobre a condição para a formação de uma solução, que consiste em interações favoráveis entre soluto e solvente que, no caso de uma substância metálica com a água, como o ferro, por exemplo, pelas interações não serem favoráveis, não há a formação de solução. Os estudantes tentaram explicar isso, ao escreverem que as ligações metálicas são mais fortes que as da água com o ferro. Na sua reposta, esse grupo teve um índice menor de uso dos termos específicos, não citaram as palavras solvente, soluto ou forças interpartículas, por exemplo. Amplio a discussão mais específica sobre o exemplo da não dissolução do ferro no capítulo seis, apontando para as limitações conceituais do mesmo, como uma perspectiva da necessária significação do processo pedagógico. 153 O grupo 03, por exemplo, ampliou o uso de termos específicos da química e explicou corretamente sobre a composição do composto cloreto de sódio, ao escrever que o mesmo é formado pelos íons Cl- e Na+. Mas, no decorrer do texto, escreveu que cada molécula de NaCl se divide em partículas ainda menores. O uso do termo molécula (sublinhado por mim), para especificar o cloreto de sódio, retrata uma limitação na significação do conceito de molécula e de fórmula mínima representativa de composto iônico. E, em seguida, no mesmo texto, o grupo faz uso correto dos termos moléculas e íons ao escrever que as características elétricas da molécula de água interferem na atração eletrostática dos íons do sal, que se enfraquecem e se dispersam pelo líquido. Essa diferença quanto ao uso dos termos específicos num mesmo texto denota que os estudantes estão ainda na fase da AC. Fazem uso dos termos específicos da química, mas ainda não de maneira espontânea e consciente, ou seja, não são capazes de aplicar o conceito em situações práticas. Para esse grupo considerei indícios de EC, pois, na explicação da solubilidade da sacarose em água, consideraram as interações dipolo-dipolo e as interações ligações de hidrogênio estabelecidas entre as moléculas de água e as moléculas de sacarose. Já as limitações conceituais apresentadas na escrita do grupo 04 estavam voltadas para a discussão da não solubilidade do Fe (s) em água68. Os integrantes desse grupo, afirmaram que o Fe(s) não é solúvel em água, porque não estão em forma de íons (átomos com cargas elétricas) que reagem com a água. Na mesma resposta, os estudantes (re)afirmaram que os íons do sal reagem com a água, e por isso o cloreto de sódio é solúvel. Isso indica também limitações de significados quanto aos entendimento de reações químicas e interações interpartículas, essas discussões são retomadas no capítulo seis. Ao analisar as reescritas das respostas das provas ficou evidenciado novamente que o processo de AC e EC não é linear; o estudante, em alguns aspectos apresentou indícios de EC e para outros apenas a AC. Isso está de acordo com o entendimento de Vigotski (2000), de que o processo desencadeado pode estar vinculado a novos níveis de abstração que ainda não são possíveis de serem analisados. Além de limitações e contradições conceituais denotadas pela escrita de relações incorretas e corretas num mesmo texto, também foi possível 68 Amplio a discussão referente as limitações desse exemplo no capítulo seis. 154 identificar que, no processo de escrita ainda falta aos estudantes, o hábito em realizar uma leitura atenta do seu texto, de se posicionar de maneira reflexiva frente a sua escrita, de ler com atenção o que escreveram. Esse é um processo que precisa ser ainda apreendido por eles, apesar de todos os espaços de leitura, de escrita e de reescrita vivenciados nas aulas de Química I. As limitações conceituais que foram percebidas pelo uso inadequado de conceitos, como, por exemplo, molécula, íons, átomos anteriormente referidos, reforça a necessidade da orientação do professor em sala de aula, pois, como destaca Smolka (2000, p. 32), “existem modos de tornar próprio, de tornar seu, que não são adequados ou pertinentes para o outro”. O estudante faz uso da linguagem química em seus textos, mas não de maneira adequada ao significado historicamente estabelecido. Atenção, em particular, para o grupo 02, que foi aquele que teve menos indícios de EC. No trabalho de reescrita desse grupo, apenas dois integrantes estavam presentes, sendo que um apresentava notas com variações intermediárias e o outro apresentava notas muito baixas. É possível afirmar que para este grupo, a interação estabelecida não foi muito favorável, não houve muitas trocas entre os sujeitos, faltou a interação com um estudante mais capaz. Em relação ao processo de AC, Smolka (2000, p. 33) destaca que entre “o “próprio” (seu mesmo) e o “pertinente” (adequado ao outro) parece haver uma tensão que faz da apropriação uma categoria essencialmente relacional”. É na relação estabelecida entre os sujeitos que a AC é possível. Assim, na interação assimétrica com um colega, pode ocorrer uma apropriação pertinente dos conceitos químicos, desde que ele saiba perceber as limitações conceituais e também conduzir os sentidos atribuídos pelos seus colegas. Reitero que é mais fácil de o professor perceber as limitações conceituais do que um colega que também está sendo inserido na linguagem química. Nesse âmbito, afirmo que nos diálogos estabelecidos em sala de aula os sentidos atribuídos às palavras pelos estudantes não podem ser controlados, mas, podem e precisam ser reorientados pelo professor. Nas aulas de química, por exemplo, busca-se um sentido pertinente, adequado para o contexto da química. Assim, as palavras usadas pelos estudantes precisam adquirir novos sentidos, que sejam adequados à química, e essa adequação, muitas vezes, 155 somente é percebida pelo diálogo com o professor (seja na forma oral ou escrita) numa relação discursiva entre a unicidade e a polissemia. Considerando a questão 1, que remetia para a solubilidade de diferentes substâncias em água, em relação a não solubilidade do dióxido de silício (SiO2(s)) e a não solubilidade do Fe(s), as explicações escritas pelos estudantes não avançaram tanto quanto no caso da dissolução do sal e do açúcar, o que, por sua vez, remete também para os exemplos mais abordados em sala de aula e que são mais próximos do dia a dia dos estudantes e, também para as limitações conceituais implicadas no uso desses exemplos. Isso retrata para a necessidade de um olhar mais crítico para o processo de significação pedagógica, do cuidado que o professor precisa ter em sala de aula ao fazer uso de determinados exemplos e, ainda, de como esses vão redirecionando os significados nos estudantes. Amplio a discussão sobre isso no capítulo seis ao abordar especificidades da LCE nas aulas de química. Sobre a não solubilidade do SiO2(s), o grupo 01 fez uso de algumas partes de cada uma das respostas selecionadas para reescrita. Escreveu que: Como o SiO2(s) é apolar e a água é polar considerando a regra que semelhante dissolve semelhante nesse caso, não acontece a interação soluto-solvente (grifos meus). Apesar de a discussão ter sido restrita e pautada nas respostas anteriores, considerei um avanço (parte sublinhada), pois o grupo destacou que a afirmação semelhante dissolve semelhante implica a interação soluto-solvente. Apesar de saber que esse não é o único fator responsável pelo processo de solubilidade, de dissolução, é importante destacar que os estudantes do grupo 01, pela sua escrita na Q1X, demonstraram indicativos de entendimentos quanto ao processo de interação e da sua importância para a formação de soluções. E para a Q2X, não realizaram o que estava sendo orientado, apenas indicaram a resposta correta. Ao explicar sobre a não solubilidade do Fe (s) o posicionamento do grupo 04, por sua vez, retratou indícios de limitação conceitual na sua interpretação. Os estudantes do grupo apenas afirmaram que o Fe(s) não é solúvel em água por ter suas partículas muito unidas e ainda, que a água não tem o poder de dissolver os metais. Esses posicionamentos remetem à falta de termos específicos da química para explicar esse fenômeno. Do ponto de vista de uma interpretação química, ao se referirem às partículas muito unidas, podem ter associado isso à intensidade das ligações metálicas, ou ainda para uma concepção do estado sólido 156 desconsiderando os espaços vazios da matéria. E, ao afirmarem que a água não tem o poder de dissolver os metais, teria sido mais bem descrito com o uso de termos químicos específicos, como interações interpartículas não favoráveis, por exemplo, ou ainda ampliado para a discussão referente a reatividade dos metais. A ausência do uso de termos específicos químicos remete para uma ausência de significação conceitual específica da química, e com isso também a ausência da nominalização. É importante que no decorrer de sua formação os estudantes se apropriem cada vez mais da LCE, para assim, formar o pensamento químico. Em geral, sobre a reescrita das provas, destaco que essa prática exigiu dos estudantes um posicionamento frente às suas próprias respostas ou frente às respostas de seu colega e, ao perceberem as limitações conceituais das mesmas, foi preciso reelaborar a resposta e reescrevê-la. No grupo, todo esse processo de identificar as limitações das respostas e da sua correção criou a necessidade de conversar com o colega, de buscar material teórico de apoio para, assim, reelaborar e reescrever. Nesse contexto, diferentes interações foram possíveis e pela análise das reescritas ficou evidenciado que a orientação, a interação, para ser efetiva, deve possibilitar que o estudante amplie a sua significação conceitual. Isso para alguns grupos não foi sempre possível, apesar das condições assimétricas préestabelecidas. Estas com certeza, não foram adequadas. Outro trabalho em grupo que foi realizado nas aulas de Química I foi o da elaboração de mapas conceituais pelos estudantes. Esse processo foi mediado por mim, em espaço extraclasse. Segue uma discussão dos resultados referentes à análise de alguns dos mapas conceituais produzidos, com atenção para as relações conceituais estabelecidas. 5.4 Resultados Referentes aos Mapas Conceituais A escolha pela elaboração de mapas conceituais nas aulas de Química I foi no sentido de perceber as relações conceituais estabelecidas pelos estudantes, bem como de possibilitar a eles aprimorarem as suas relações conceituais no decorrer da elaboração do mapa. Um mapa conceitual somente pode ser construído mediante a realização de diferentes relações conceituais estabelecidas 157 pelo uso de conectores (Moreira, 2010), isso é semelhante ao que ocorre na nossa consciência com um determinado conceito que, segundo Vigotski (2000), apresenta-se como uma figura no campo das relações de generalidade. Numa analogia com o globo, fazendo uso dos termos longitude e latitude, Vigotski (1993, 2000), explica que a localização de um conceito implica num movimento estrutural na linha de latitude e longitude, sendo que uma das coordenadas possibilita a verificação entre o grau de concretude e de abstração de um conceito e a outra possibilita a referência para a aplicação do conceito. Nas palavras de Vigotski (1993 p. 79) “a esta posição de um conceito no sistema total dos conceitos localização do conceito poderemos chamar a medida da sua generalidade”. E esta, no entendimento do autor (1993) implica nas operações intelectuais com esses conceitos, como por exemplo, realizar comparações, juízos ou conclusões. Nesse sentido, a construção do mapa conceitual esteve ancorada na compreensão de Vigotski (2000) de que o significado do conceito é possível mediante as relações estabelecidas com outros conceitos, de que a natureza de um conceito já pressupõe um sistema de conceitos. Entendo que é importante que o estudante consiga realizar as necessárias relações conceituais para explicar um determinado fenômeno e perceber que a compreensão química dos fatos somente é possível pelas diferentes relações conceituais estabelecidas, daí o objetivo da construção do mapa conceitual. O mais simples fenômeno como uma salmoura, por exemplo, para ser compreendido pelo estudante é preciso que ele entenda o processo de dissolução do cloreto de sódio, que implica a formação de uma solução, a qual, por sua vez, somente é compreendida pela identificação das interações interpartículas, que dependem das propriedades das substâncias, em termos de polaridade, de geometria, de atrações eletrostáticas, de rupturas, de separação, de solvatação. Enfim, não foi possível que o estudante compreendesse os fenômenos químicos, sem ter a capacidade de realizar as necessárias relações conceituais. E conseguir explicar um fenômeno relacionando diferentes conceitos específicos da química é condição para a formação do pensamento conceitual e para o entendimento químico. Portanto, o objetivo na construção do mapa conceitual consistiu em oportunizar aos estudantes a tomada de consciência das necessárias relações 158 conceituais implicadas no entendimento conceitual. E também, possibilitou-me visualizar as relações conceituais estabelecidas pelos estudantes para um determinado conceito químico. Com atenção para a medida de generalidade e, assim, identificar os níveis de generalização conceitual atingidos no final do semestre de Química I. Para a elaboração dos mapas, escolhi quatro conceitos químicos-chave que perpassaram as aulas de Química I: substância, ligação química, forças interpartículas/intermoleculares e solução. Esses foram sorteados entre os grupos dos estudantes. Ressalto que, para a construção dos mapas conceituais, os grupos foram escolhidos pelos próprios estudantes e não previamente definidos por mim, como na reescrita das provas. Justifico essa diferença porque a construção dos mapas conceituais não foi realizada integralmente em sala de aula. Para a análise, selecionei os mapas conceituais que tinham como conceito forças interpartículas/intermoleculares e solução, pois esses, no meu entendimento, implicam um maior número de relações conceituais para a sua compreensão. Assim, foram analisados um mapa de forças interpartículas/intermoleculares e dois mapas contemplando o conceito solução, totalizando assim uma amostra de três mapas conceituais que passam a ser discutidos. Ao analisar os mapas, uma maior atenção foi dispensada aos verbos de ligação utilizados e às relações conceituais estabelecidas. Para isso, quando necessário, no decorrer da discussão, realizei um comparativo com os mapas conceituais por mim elaborados e que foram denominados de mapas padrão (Anexo E). Os mapas padrão consistiram num parâmetro para a avaliação dos mapas elaborados pelos estudantes e, também, em sala de aula serviram de exemplos aos estudantes como alternativa de outro mapa conceitual possível para o conteúdo em questão. Para iniciar a discussão, apresento, na figura 3, um recorte do mapa conceitual referente às forças intermoleculares/interpartículas: 159 Figura 3: Recorte do Mapa Conceitual Forças Intermoleculares Fonte: Mapa Conceitual sobre Forças Intermoleculares, Grupo de Estudantes, 2012. Especificamente, com atenção ao recorte apresentado na figura 3, ressalto o fato de os estudantes terem caracterizado corretamente que as forças intermoleculares ocorrem pelas interações eletrostáticas decorrentes da formação de polos elétricos, o que denota uma significação conceitual favorável, apesar de não explicitarem a formação dos polos. Ainda, ao indicarem que as forças intermoleculares mantêm unidas as moléculas, os estudantes, seguem com um verbo de ligação após a palavra moléculas. Mas esse deveria partir diretamente das forças intermoleculares, no contexto, isso fica subentendido que o „podem ser‟ escrito pelos estudantes está se referindo às forças intermoleculares. No seu mapa exemplificaram os tipos de forças intermoleculares: íon - dipolo, dipolo – dipolo, dipolo - dipolo induzido, dispersão de London e ligações de hidrogênio. Chamo a atenção para o fato de os estudantes, apesar de terem escrito, em seu mapa, que a interação íon – dipolo ocorre com íons e moléculas polares, não usaram o termo forças interpartículas. Não perceberam a limitação conceitual do termo intermolecular empregado, pois, a sua nominalização, indica que são forças “entre moléculas” (intermolecular). Essa limitação é decorrente da interpretação que é reproduzida para esse termo, na maioria dos livros didáticos, pois as forças íon-dipolo, apesar das suas particularidades, são abordadas no mesmo contexto das forças intermoleculares. Não há uma preocupação em especificar a sua 160 diferença em relação à natureza das partículas envolvidas, que são de natureza diferenciada do que numa interação dipolo-dipolo, por exemplo. Essas particularidades da linguagem química, e que, muitas vezes, não são percebidas ou discutidas em aula, remetem novamente para a importância da apropriação e da significação conceitual em química. E para a necessidade da atenção do professor para isso, o que por sua vez, remete para a significação do processo pedagógico e para as particularidades da LCE que precisam ser trabalhadas pelo professor em sala de aula. Também, no mesmo mapa conceitual, em termos de intensidade das forças intermoleculares, os estudantes, indicaram que: ligação de hidrogênio - é interação mais forte - implica maior – ponto de fusão ponto de ebulição e que dispersão de London – é - interação com pouca intensidade – implica menor – ponto de fusão ponto de ebulição. Com essas relações, eles demonstraram um maior entendimento em relação a algumas das consequências da intensidade das forças intermoleculares. Ainda, em seu mapa, para cada exemplo de força intermolecular descrita, o grupo indicou ocorre entre e destacou se ocorriam entre moléculas polares, apolares, íons e moléculas polares, moléculas polares e apolares. Aliado a isso, ao se referirem às moléculas polares, por exemplo, escreveram que se caracteriza pela – formação de dipolos, e para as moléculas apolares: caracterizam-se pela – soma vetorial nula. Com isso, os estudantes demonstraram de maneira implícita a importância de considerar tanto a geometria molecular como também a atração eletrostática entre a natureza dos átomos envolvidos nas ligações intra-atômicas para classificar uma molécula como polar ou como apolar. Mas eles não fizeram uso de tais explicações. Essas foram por mim interpretadas pela leitura da sua escrita. Nesse sentido, para possibilitar aos estudantes essa percepção, ou para ter indícios de que esse foi o aporte das relações realizadas, teria sido importante ampliar a orientação na elaboração dos mapas conceituais, ou, também, ter realizado uma reescrita orientada dos mesmos. Pois, apesar de os estudantes terem vivenciado todo o processo de escrita e de reescrita, pela análise dos mapas foi possível constatar uma falta de autonomia para ampliar as relações conceituais. Isso está de acordo com o entendimento de Vigotski (2000) de que a mediação pedagógica é um longo processo a ser desencadeado para possibilitar a significação conceitual. 161 Ainda no seu mapa conceitual, o grupo fez a seguinte relação: forças intermoleculares – são responsáveis: – capilaridade; - tensão superficial; estados físicos da matéria. Ao analisar essas relações, entre outras, o que me chamou atenção foi o fato de os estudantes não terem mencionado a formação de soluções. Também nenhuma outra relação estabelecida, em seu mapa, indicou alguma aproximação mais direta com a formação de soluções. Indicaram que as forças intermoleculares – são rompidas – nas mudanças de fase – (sólido, líquido e gasoso) – que requer energia. Aqui os estudantes também não fizeram a relação de que as forças intermoleculares são rompidas para a formação de soluções, no processo de dissolução. Assim, apesar de os estudantes terem estabelecido relações que denotam significações conceituais importantes para o entendimento das forças intermoleculares, o grupo não fez uma relação mais ampla de tais forças com a formação de soluções. O que retrata que, para esta questão específica, os estudantes ainda apresentaram um baixo nível de generalização conceitual que, por sua vez, precisa ser orientado e apreendido no decorrer de todo o curso de graduação. Outra característica percebida ao analisar esse mapa conceitual é que os estudantes fizeram uso de um exemplo concreto em seu mapa. Ao exemplificar a tensão superficial, assim escreveram: tensão superficial – por exemplo – flutuar (agulha). Isso denota que os estudantes ainda fazem uso de um pensamento por complexos, pois precisam do exemplo para entender um determinado conceito. Nas palavras de Vigotski (1993, p. 58), os estudantes no decorrer do processo de execução de uma tarefa, o mapa conceitual “operam com a palavra como um conceito, mas definem-no como complexo – forma de pensamento esta que vacila entre o conceito e o complexo”. Os estudantes na maior parte do seu mapa explicitaram as forças intermoleculares pensando nas suas aplicabilidades, como aumento do ponto de ebulição, de fusão o que, remete para exemplos concretos. Importante destacar que eles, no seu mapa, iniciaram algumas relações que implicaram no uso de relações conceituais mais abstratas, como por exemplo: forças intermoleculares – ocorre devido à – interações eletrostáticas – pela formação de polos elétricos. Essas relações indicam um bom nível de pensamento conceitual, ou, ao menos o início desse pensamento. Em relação aos dois mapas conceituais, que estão representados nas figuras 4 e 5 sobre o conceito solução, ambos os grupos, na construção do mapa, 162 destacaram os tipos de soluções formadas classificando-as em gasosas, líquidas ou sólidas, ou em moleculares, iônicas ou metálicas e, em cada caso, exemplificaram-nas. Isso novamente retratou a presença de uma organização de pensamento por complexos. Figura 4: Recorte do Mapa Conceitual Solução I Fonte: Mapa Conceitual sobre Solução, Grupo de Estudantes, 2012. Figura 5: Recorte do Mapa Conceitual Solução II Fonte: Mapa Conceitual sobre Solução, Grupo de Estudantes, 2012. 163 Os recortes dos mapas conceituais representados nas figuras 4 e 5 retratam as relações conceituais realizadas por esses dois grupos, com uma análise comparativa entre os mapas é possível perceber que o mapa representado na figura 4 apresenta alguns indícios de relações conceituais contemplando um maior nível de generalidade, mas as relações estabelecidas no mapa representado na figura 5 estão vinculadas ao concreto, as soluções foram apenas classificadas e exemplificadas. Sem demonstrar um entendimento mais amplo do processo de formação das mesmas. No mapa representado na figura 4, entre as relações conceituais estabelecidas destaco a referência às forças intermoleculares mediante as seguintes relações: soluções moleculares – são – formadas por soluto molecular – ligam-se por forças intermoleculares – como – dipolo –dipolo, pontes de hidrogênio, dispersão; e ainda: soluções iônicas – são – formadas por solutos que possuem carga – ligam-se por forças intermoleculares do tipo – íon-dipolo. Essas relações estabelecidas indicam um início de pensamento conceitual, os estudantes passaram a explicar soluções moleculares e iônicas considerando a importância das interações. Isso denota também uma hierarquia no sistema conceitual que está sendo compreendido, têm-se soluções, que podem ser classificadas em moleculares ou iônicas e estas, por sua vez, implicam na formação de interações. Nesse mapa (figura 4) os estudantes não ampliaram a explicação de que na formação de soluções as interações devem ser favoráveis e que devem ocorrer entre o soluto e o solvente. Ao classificarem as soluções como moleculares, ou iônicas fizeram menção apenas ao soluto e o solvente ficou subentendido. Eles apenas identificaram o tipo de soluto devido a provável referência concreta de classificação das soluções em moleculares ou iônicas, sem, nesses casos haver atenção para o solvente que, na maioria dos casos é a água. Essa construção novamente retrata a importância da significação pedagógica, de que é necessário tomar consciência dos exemplos utilizados em sala de aula, e de significa-los junto aos estudantes. Também chamo a atenção para o fato de que neste mapa, o termo forças intermoleculares foi usado referindo-se para a interação íon-dipolo. Novamente não foram consideradas as particularidades do soluto iônico e o significado do termo intermolecular. Assim, como o uso do termo ponte de hidrogênio que apesar de, durante todo o 164 semestre, ter corrigido e ter feito uso do termo ligações hidrogênio, a maioria dos estudantes não mudou a maneira de nominar essa interação e continuou a se referir a ela pelo termo pontes de hidrogênio. Em nenhum dos mapas referentes à solução os termos: energia de solvatação, energia de rede ou dissolução foram mencionados pelos estudantes. Os seus mapas não foram muito ricos nessas relações mais abstratas, eles se basearam mais na parte classificatória das soluções, o que remete, ainda, para uma falta de significação conceitual sobre o assunto, pois denota um indício muito inferior de capacidade de generalização. Foi possível indiciar também que o uso dos referenciais utilizados na construção dos mapas, por esses grupos, em especial pelo grupo que elaborou o mapa representado na figura 5, não foi muito além dos livros didáticos utilizados no Ensino Médio. Assim, pode-se afirmar pelos mapas sobre solução que foram analisados, que os estudantes apresentaram poucos indícios de uma EC mais ampla, pois uma relação que, na minha opinião, é fundamental num mapa sobre solução: solução – implica – dissolução – depende – interações favoráveis não foi contemplada nos mapas dos estudantes, e, ainda, apenas um dos dois grupos se referiu às forças intermoleculares em seu mapa. Acredito que a prática da elaboração dos mapas conceituais deveria ter sido orientada com mais frequência, possibilitando também a sua reescrita, orientando leituras e outros caminhos de pensamento. Vale ressaltar, também, que esse instrumento pedagógico foi novidade para os estudantes, como foi apresentado na epígrafe do capítulo: em relação aos mapas conceituais aprendi muito com esse trabalho, uma nova experiência. Por ter sido uma nova metodologia vivenciada e os estudantes estarem iniciando o seu entendimento referente à construção do mapa conceitual, o uso do verbo de ligação, de conectores, além de indicar algumas limitações conceituais, também remetia para um problema de construção do próprio mapa, do entendimento da sua função. Por isso, em alguns casos, não foram muito bem empregados. Outro estudante, sobre o mapa conceitual assim se posicionou: tive dificuldade no mapa conceitual, quem sabe por ser o primeiro que fiz (AS_AN42). Apesar das limitações percebidas, especificamente sobre os mapas conceituais, um estudante, no questionário de avaliação semestral, assim se posicionou: em relação aos mapas conceituais, eu adorei, porque pude 165 compreender muitas „coisinhas‟ que eu não conseguia relacionar uma às outras. (AS_AN37), e outro estudante: os mapas bem interessantes para ir além, saber onde uma coisa leva a outra (AS_AN29). Assim, mesmo com as limitações percebidas pela análise dos mapas dos estudantes, essa prática, para eles, ampliou a sua maneira de relacionar os conceitos, pois consistiu numa primeira tentativa de construção. Os estudantes estavam diante de um conceito, e foi preciso que eles pensassem para além da sua definição verbal. Chamo a atenção para o fato de que as relações que foram estabelecidas apresentaram-se mais como um modo de classificação, tanto para o mapa sobre as forças interpartículas/intermoleculares como, para o mapa sobre soluções. Mas as poucas relações conceituais que eles conseguiram realizar, apesar das limitações, já denotam avanços na sua capacidade cognitiva e é um início para a formação do pensamento conceitual. No capítulo que segue apresento os resultados construídos mediante a análise do DB e das interações discursivas estabelecidas com os estudantes tanto em sala de aula como no processo de orientação para a reescrita. Nessa discussão, apresento a defesa da escrita como constitutiva na formação docente. Não são apenas os estudantes que tomam consciência das suas limitações pela prática da escrita, mas o professor, ao escrever sobre a sua prática, também se apropria e significa as suas ações, a sua linguagem e toma consciência de sua prática. Com isso, pelo processo da reflexão proporcionado pela escrita é possível avançar qualificando a prática de ensino, ressignificando-a. Ainda no próximo capítulo apresento a discussão referente a categoria emergente especificidades da LCE, os dados foram construídos pela análise dos textos escritos pelos estudantes. Em suma, o capítulo que segue por apresentar aspectos da reflexão na e sobre a prática pedagógica vivenciada, caracteriza-se como um convite para a continuidade sobre o diálogo do aprender e do ensinar química, no direcionamento de uma nova compreensão do processo pedagógico interativo estabelecido em sala de aula. 166 6 A PRÁTICA DA ESCRITA NA CONSTITUIÇÃO DOCENTE E NA COMPREENSÃO DO PROCESSO PEDAGÓGICO achei difícil, muitos alunos no laboratório, eles ficavam conversando, mas não sobre química [...] (DB, p. 10, 21/03/12). me senti melhor, consegui deixar mais tempo para os estudantes falarem [...] consegui ouvir mais os estudantes (DB, p. 12, 23/03/12). Essas partes transcritas do DB e que foram escolhidas como epígrafe para este capítulo retratam o constante refletir da ação docente e a tomada de consciência da minha prática em sala de aula mediante a escrita no DB. Ao escrever achei difícil ou, então, me senti melhor apresento um posicionamento crítico frente à minha aula. No primeiro episódio, a conversa dos alunos me incomodava porque ela não estava direcionada especificamente para os conteúdos químicos, os estudantes conversavam em aula, mas não sobre química, situação que não me agradou. O comportamento dos estudantes precisou ser redirecionado. Para isso, também a minha metodologia em sala de aula precisou ser repensada, redimensionada. Já a fala dos estudantes, a que fiz referência no segundo episódio, foi considerada como um ponto positivo, pois, nessa aula, de acordo com os registros do DB, consegui trazer os estudantes para participarem do diálogo. Além da importância da reflexão na e sobre a prática, também ficou implícito, nas escritas anteriores, o posicionamento em relação ao direcionamento discursivo em sala de aula. Nas aulas de química, por exemplo, o discurso do professor está direcionado para essa ciência, e é esse o diálogo que eu buscava ouvir dos estudantes nas aulas de química, tanto que, na aula em que eu afirmei “me senti melhor”, aparecem transcritos no DB exemplos de diálogos estabelecidos entre mim e os estudantes, diferentemente, por sua vez, da primeira situação em que a escrita consistiu numa crítica à aula. Chamo a atenção para o fato de que o olhar posterior sobre a prática possibilitado pela memória escrita da aula é muito importante para a constituição do professor que pesquisa a sua prática e para a compreensão do processo pedagógico. É pela tomada de consciência das limitações ou das contribuições de uma aula que é possível avançar. Para mim, o processo da escrita possibilitou a reflexão na e 167 sobre a prática de ensino e foi um espaço para a minha constituição de professora pesquisadora da minha prática. Neste capítulo, apresento uma discussão referente às categorias de análise emergentes que estão direcionadas para a minha “constituição docente” (CD), para a “interação discursiva” (ID) estabelecida no processo pedagógico vivenciado e para algumas “especificidades da LCE” que perpassam as aulas de química e que foram identificadas nos textos dos estudantes no processo da ATD. O objetivo é contribuir para a discussão sobre a importância de o professor fazer de sua sala de aula um espaço de pesquisa mediante a escrita no DB e mediante a análise da escrita dos estudantes. Isso reporta para a importância do discurso escolar que é estabelecido em sala de aula e da necessidade da sua significação para os sujeitos envolvidos. Ressalto que escrever sobre a prática de ensino, sobre a metodologia empregada em sala de aula, sobre os diálogos estabelecidos e relatá-los no decorrer deste trabalho implicou uma exposição do meu fazer pedagógico, o que, por sua vez, não é uma situação muito confortável. Mas essa exposição é uma característica inerente ao processo de pesquisa e é necessária de ser vivenciada ao assumir a condição de pesquisadora da minha prática. Também pela análise da escrita dos estudantes foi possível qualificar a compreensão teórica do processo pedagógico vivenciado, em especial sobre a importância da ID entre professor e estudante e sobre algumas “especificidades da LCE” que foram possíveis de serem identificadas nos textos escritos pelos estudantes. Nesse contexto, chamo a atenção para o fato de que a prática de ensino vivenciada e os textos que foram analisados e discutidos no decorrer da tese não foram desenvolvidos apenas com uma amostra de estudantes. A prática de escrita e de reescrita orientada ocorreu em condições reais de ensino. Por isso, as suas limitações e as suas potencialidades são ainda mais importantes de serem discutidas e analisadas. Isso, por sua vez, justifica essa metarreflexão que apresento a partir da discussão das categorias emergentes. Para tanto, a categoria emergente CD é abordada na subseção 6.1. Nessa, apresento uma reflexão sobre a importância do escrever no DB como (re)orientador da prática de ensino e como constituinte do fazer docente. Em seguida, na subseção 6.2 apresento uma discussão relacionada à categoria emergente ID e para isso, apresento os resultados da análise das 168 orientações encaminhadas aos estudantes na escrita do caderno de anotações e de alguns diálogos estabelecidos em sala de aula e que estão descritos no DB. Finalizo o capítulo, na subseção 6.3 atenção para algumas “especificidades da LCE”. Essa discussão remete para um olhar crítico frente a algumas definições conceituais em química que são recorrentes nas aulas e que são importantes de serem discutidas no contexto do ensino da química. 6.1 Constituição Docente pela escrita no DB Nos capítulos anteriores, defendi o escrever nas aulas de química porque esse processo possibilita que os estudantes façam uso consciente das palavras específicas da LCE oportunizando a eles a significação conceitual em química. Nessa direção, afirmo que escrever no DB permitiu uma análise mais crítica e reflexiva sobre as aulas, pois, possibilitou-me a tomada de consciência sobre as aulas, as atitudes e as palavras usadas em sala de aula. Assim, posicionamentos como os que foram apresentados na epígrafe achei difícil, ou me senti bem são recorrentes nos textos do DB e foram dando indícios da necessidade de uma categoria emergente que contemplasse esse processo formativo. Muitos dos comentários descritos no DB denotaram aspectos da reflexão sobre a prática de ensino por se referirem às limitações e às potencialidades percebidas após uma aula de química, daí emergiu a categoria CD. Entendo que assumir posições crítico-reflexivas frente a uma aula é muito importante para o professor, pois possibilitam avanços na sua prática de ensino e assim também qualificam a sua constituição como professor pesquisador de sua prática. O professor pesquisador que faço referência está ancorado no entendimento de Maldaner (2000, p. 30) de que “é capaz de refletir a respeito de sua prática de forma crítica, de ver a realidade de sala de aula para além do conhecimento na ação e de responder, reflexivamente, aos problemas do dia a dia nas aulas”. No entendimento de Porlán e Martin (1997), o processo de escrever num DB é uma vivência a ser aprendida. Inicialmente, dizem os autores, a escrita se caracteriza apenas pela descrição, sem considerar o contexto total de uma aula, limitando-se numa descrição das atividades, no relato de procedimentos, na descrição da organização metodológica, sem o professor tomar uma posição frente às mesmas. Mas, ao avançar no processo da escrita, são realizadas 169 associações mais amplas com uma análise mais profunda, pois, na medida em que escreve, o professor vai inserindo as suas opiniões e vai buscando auxílio na literatura e assim, vai dialogando com a aula. Ainda, nas palavras de Porlán e Martin (1997, p. 67, trad. própria), “o importante é superar o nível de simples relato e entrar na análise das causas e das conseqüências” 69 . É preciso que o professor, durante a escrita, ou ao fazer a análise da mesma, amplie os seus questionamentos e já comece a redirecionar a sua prática pedagógica, pois, assim, a escrita passa a ser constitutiva da sua prática de ensino. Os autores destacam ainda que é importante que o professor consiga, pelo processo da escrita, realizar, de fato, uma análise da sua aula e não apenas descrever interpretações espontâneas. Nesse sentido, o DB configura-se como um instrumento capaz de mudar pela conscientização as concepções sobre o fazer docente. Ao escrever sobre a aula, é importante que o professor se questione sobre o que ocorreu na aula, que pense sobre a aula, fazendo, assim, uma memória da mesma numa perspectiva crítico-reflexiva, constituindo-se pesquisador de sua prática. A utilização periódica do DB permite que o professor reflita sobre os processos mais significativos de uma aula (Porlán e Martin, 1997). Ao analisar os textos escritos no DB percebi, já nas primeiras descrições, que fui tecendo um diálogo comigo e, de maneira implícita, com o referencial teórico, assumindo um posicionamento crítico em relação às aulas. Ao me posicionar frente às aulas, apesar de não ter trazido explicitamente textos de outros autores, as suas teorias estão visíveis nos meus posicionamentos e vão reconduzindo a minha prática de uma aula para outra, ou ainda, de uma turma para outra70. Fiz alguns recortes dos textos do DB que retratam o diálogo das minhas percepções da aula com o referencial teórico, o que dá indícios da qualificação da CD pela escrita no DB. Segue uma discussão sobre os mesmos. Após a primeira aula, que consistiu na leitura do artigo “Água: Um Líquido Vital” e das discussões decorrentes em sala de aula, assim escrevi: para mim 69 “lo importante es superar el nivel de simple relato y entrar en el análisis de las causas y consecuencias” (p.67). 70 Chamo a atenção para o fato de eu ter ministrado Química I em duas turmas, apesar das características, das especificidades de cada turma, as vivencias de uma turma auxiliavam permitiam um repensar a aula da outra turma pelo processo da escrita. Pois o escrever desencadeava o pensamento sobre alternativas para abordar determinado conteúdo, por exemplo. 170 ainda é um desafio ouvir o estudante, a minha tendência é responder (DB p. 02)71. Numa outra aula, reporto-me novamente a essa problemática do tempo permitido em aula para o estudante responder uma questão. Dessa vez, isso ocorreu após uma aula experimental e o meu posicionamento foi de crítica frente à aula realizada, devido à ênfase dada para a execução da técnica pelo uso de um maior número de experimentos em detrimento da discussão teórica. Especificamente a problematização foi ao encontro da necessidade de ampliar o tempo de discussão, de permitir ao estudante falar e da necessidade de rever essa aula experimental. Assim, escrevi: [...] acredito que não foi uma aula significativa, teve pouca discussão, não penso a experimentação dessa forma (DB, p. 10)72, pela escrita no DB, foi possível tomar consciência das minhas atitudes em sala de aula. Ao escrever, eu pensava sobre a aula, sobre os acontecimentos, e isso possibilitou a tomada de consciência das limitações e também das possíveis potencialidades de uma aula. A minha crítica frente à aula e a minha preocupação com a importância de ouvir o estudante remetem para o referencial do educar pela pesquisa, para a importância da significação da linguagem química em sala de aula e da necessidade de mediar os sentidos atribuídos às palavras, o que somente é possível ao ampliar os espaços de diálogo em sala de aula. Também, na minha escrita ficou implícita uma concepção de aula experimental que supere apenas a atividade técnica e que valorize o diálogo e a discussão sobre o experimento, o que, não aconteceu, de acordo com o relato, na minha primeira aula experimental. Esse posicionamento crítico-reflexivo em relação a uma aula somente é possível, se o professor reservar um tempo para pensar sobre a aula, o que foi possível, para mim, ao escrever no DB. Pela análise do DB, afirmo que a escrita, mesmo que de maneira implícita, permitiu um diálogo entre a minha prática de ensino e o referencial teórico que acompanha a minha formação de professora. E o pensamento, ao ser (re)orientado por um referencial teórico, auxilia na tomada de consciência e possibilita avanços na metodologia de ensino. Em seguida, apresento alguns 71 aula dia 29/02/12. 72 aula dia 21/03/12. 171 recortes das minhas escritas que depreendem avanços em relação à primeira aula experimental vivenciada. Ao escrever sobre a terceira aula experimental73 assim me posicionei: [...] penso que evoluí desde a primeira aula, consegui ouvir mais os estudantes, numa melhor organização do tempo [e concluo], ainda é preciso avançar (DB p. 13 e 14).74 Pelas limitações percebidas na metodologia adotada na primeira aula, foi necessário mudar a minha organização, ampliar os espaços para os estudantes se posicionarem e modificar a prática de ensino em si. A tomada de consciência foi possível pela escrita no DB. Por isso, afirmo que escrever no DB caracterizouse em instrumento que permitiu a investigação acerca da própria prática pedagógica e assim possibilitou avanços na compreensão da mesma (Gonçalves et. al. 2008). Esse movimento é constitutivo da formação docente, pois implica num processo reflexivo sobre a prática. O exercício de escrever sobre a aula, de relatar as diferentes falas dos estudantes e os diálogos estabelecidos com eles já remetia para o processo de reflexão sobre a aula. Nesse sentido ressalto que escrever no DB contribuiu para a minha constituição de professora pesquisadora e também para tomar consciência das interações discursivas estabelecidas em sala de aula e das especificidades do discurso escolar. Nas palavras de Aragão (2011, p. 24) “os professores pesquisadores, são sobretudo investigadores narrativos”. Considerando especificamente o processo de CD no decorrer da prática pedagógica vivenciada, pelos diferentes caminhos percorridos, pelos instrumentos pedagógicos adotados, pela pesquisa que foi realizada junto à prática de ensino foi possível a elaboração de um mapa conceitual com atenção para a CD no decorrer do processo pedagógico vivenciado e pesquisado. O referido mapa está apresentado no Anexo F e indica alguns aspectos da prática pedagógica e da CD que perpassaram a tese. O acompanhamento da prática pedagógica possibilitou a qualificação e o redimensionamento da CD e um repensar sobre o ensino de química, em especial, sobre a importância da significação conceitual pelo uso qualificado da LCE em sala de aula. 73 Para as aulas experimentais as turmas foram divididas, assim, eu trabalhava a mesma aula experimental três vezes o que permitia pela reflexão sobre a prática avançar na metodologia e na organização da mesma aula. 74 aula dia 23/03/12. 172 Em seguida, a discussão refere-se à ID que foi estabelecida no processo pedagógico. Atenção aos diálogos estabelecidos em sala de aula e que estão descritos no DB e para os diálogos estabelecidos mediante os comentários de orientação e as respostas dos estudantes. O objetivo consiste em apresentar aspectos da ID estabelecida e reforçar a sua contribuição para a significação conceitual em química. Ressalto que a atenção para a ID estabelecida em sala de aula também redimensiona a própria CD, pois permitiu-me a tomada de consciência das limitações e potencialidades da prática de ensino, em especial do discurso estabelecido em aula. Daí a necessidade de um olhar mais direcionado para o processo dialógico que foi estabelecido no decorrer das aulas de Química I e da sua contribuição para o processo de significação conceitual. 6.2 Interação Discursiva: Diálogos estabelecidos no processo de ensino vivenciado Ao considerar a importância da ID parto do entendimento histórico cultural de que a significação conceitual está relacionada com as condições de interações estabelecidas e da condição das suas expressões. Nesse sentido a significação conceitual, nas palavras de Fontana (2005, p.26), “é o efeito da interlocução entre os interlocutores”. No discurso da sala de aula e no processo de orientação estabelecido pela escrita e reescrita de textos considero que a ID favorável é condição para oportunizar avanços na significação conceitual dos estudantes. A ID é entendida, na presente tese, no âmbito do diálogo que foi estabelecido, seja em sala de aula, seja pelo processo de orientação na escrita e de reescrita, num movimento que buscava a significação conceitual. A ID no contexto pedagógico implica num movimento no qual a palavra do professor vai ao encontro das palavras que os estudantes já apresentam e vice-versa. Nas enunciações estabelecidas no diálogo da sala de aula e na prática orientada da escrita e da reescrita, vão se construindo, ampliando e redimensionando os significados dos conceitos. Esse processo discursivo na significação conceitual corrobora com Fontana (2005, p. 28) que, com base em Bakhtin, afirma “o processo de elaboração conceitual emerge como processo de articulação, pelo confronto, de muitas vozes sócio- historicamente definidas em condição de interação – compreensão/expressão – determinadas.” 173 O processo de reescrita orientada que foi proposto para os estudantes objetivou que, eles, com base na minha orientação, avançassem no entendimento químico. Assim, nesse processo de significação, a ação do escrever passa a se tornar atividade (Leontiev, 2006). Nesse âmbito, o processo de orientação para a escrita e a reescrita, caracterizou-se num diálogo estabelecido entre as orientações encaminhadas e os textos dos estudantes e visava ampliar as compreensões entre os sujeitos envolvidos no diálogo. Com base em Bakhtin (2010), entendo que a ID estabelecida no processo pedagógico seja enunciação, pois apresenta um direcionamento, um público específico e objetivos peculiares. Ela se estabelece na relação entre sentido e significado e implica o uso de diferentes gêneros discursivos constituintes do discurso escolar. Em outras palavras, a ID retrata uma relação entre o discurso exterior e interior, num processo que busca a compreensão da palavra do outro até se tornar palavra própria. Nas palavras de Bakhtin (2006): compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, encontrar o seu lugar adequado no contexto correspondente. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreensão (BAKTHIN, 2006, p. 127). Essa atitude responsiva precisa ser conquistada em sala de aula e para isso é importante a inserção de metodologias que favoreçam o uso qualificado da linguagem em processo de interações discursivas. Isso foi buscado pelo uso dos instrumentos pedagógicos, pela orientação no processo de escrita e nas discussões em sala de aula. Daí a importância de discutir sobre aspectos das interações estabelecidas tanto na sala de aula como no processo da escrita orientada. A ID estabelecida em sala de aula foi possível de ser identificada pela análise das escritas do DB, e a ID no processo de orientação foi identificada pela análise dos cadernos de anotações, com atenção para a reescrita da primeira questão, cujos resultados já foram discutidos parcialmente no capítulo 5, e serão ampliados aqui na perspectiva do diálogo estabelecido pelas orientações encaminhadas. A discussão que apresento está subdividida em ID estabelecida em sala de aula e ID estabelecida na orientação para a escrita e reescrita no caderno de 174 anotações. Cada uma das interações estabelecidas no contexto pedagógico apresentou especificidades, particularidades tanto metodológicas como de posicionamento entre os sujeitos envolvidos no diálogo. A orientação para a reescrita no caderno de anotações, por exemplo, caracterizou-se em orientação individual, enquanto que as interações estabelecidas em sala de aula remetiam ao coletivo, para toda a turma. Outra diferença consistiu nos posicionamentos dos sujeitos nesses dois processos discursivos. Em sala de aula, por exemplo, os sujeitos envolvidos estavam frente a frente, o professor que fazia a mediação estava presente fisicamente, e o processo de orientação pela escrita no caderno de anotações caracterizou-se pela ausência física dos interlocutores. Nesse contexto, é válido destacar que na ID estabelecida pela escrita faltou, muitas vezes, a entoação, o gesto, a descrição detalhada, o que limitou alguns entendimentos. Chamo a atenção para o fato dessa particularidade da ausência física do interlocutor no diálogo tornar o ato de escrever e a sua compreensão mais difícil do que a fala, pois é preciso que o outro entenda o que se escreveu sem a presença física do interlocutor para explicar ou para intensificar o seu tom de voz em algum aspecto mais importante. Segundo Vigotski (2000, p. 313), a escrita “é uma linguagem de pensamento, de representação, mas uma linguagem desprovida do traço mais substancial da fala o som material”. Daí a importância de o estudante ir se constituindo, pelo processo da escrita orientada, como um escritor reflexivo que analisa e retoma o seu texto com atenção, para, assim, possibilitar um entendimento químico favorável. O fato de, no discurso estabelecido em sala de aula, ouvir as particularidades de cada um dos estudantes foi difícil, considerando o número elevado de estudantes por turma (entre 40 e 50 alunos). Aliado a isso, alguns estudantes, apesar de serem questionados, não expressavam a sua opinião em sala de aula. Esse posicionamento que foi por mim identificado foi possível de ser evidenciado também, na análise do questionário de avaliação semestral respondido pelos estudantes. Alguns ao escreverem sobre a sua participação nas aulas citaram a sua ausência, a falta de sua participação. Um deles assim escreveu: [...] poderia interagir fazendo mais questionamentos em sala de aula, mas às vezes acho que o que vou perguntar não é tão importante (AS_AN37). Outro estudante, assim se posicionou: acho que poderia ter participado mais, porém tinha um pouco de medo em me expressar (AS_AN10). 175 Os posicionamentos dos estudantes referidos remetem à condição vivenciada pela maioria, que contempla o medo de errar e a vergonha da exposição frente aos colegas, ao professor. Esses comportamentos decorrem de uma organização escolar que incentiva a fala do professor em detrimento a do aluno, além de implicar outras limitações como para a concepção de Ciência, de verdade, de erro, que não são o foco da minha discussão, mas que são importantes de serem consideradas pelo professor em sala de aula. Reforço a necessidade de o professor, apesar das resistências, buscar oportunizar, pela metodologia de ensino adotada, qualificar a participação dos estudantes nas aulas, nas discussões. É com a sua insistência que eles vão ampliando e qualificando a sua participação, como bem escreveu um estudante: antes tinha mais vergonha de falar, mas com o tempo fui me acostumando (AS_AN21). Essa mudança de comportamento não é algo imediato nem homogêneo e ocorre na medida em que eles internalizam a metodologia de ensino e, pela nova vivência, autorizam-se a falar em sala de aula. Nesse sentido, o acompanhamento pela escrita individual de textos foi uma boa alternativa para ouvir os posicionamentos dos estudantes e para buscar as necessárias mediações. Também, ao explicar ou ao retomar algum conteúdo sem ter a efetiva participação dos estudantes, trazia alguns exemplos dos textos deles escritos no caderno de anotações com o objetivo de enriquecer o diálogo e, mesmo, de trazê-los para o diálogo, ainda que a voz deles através da minha voz. Assim, a escrita dos estudantes esteve presente também no meu discurso em sala de aula aproximando-o das reais necessidades dos estudantes. Ressalto que em ambos os processos de ID estabelecido para esta se tornar favorável é importante que o professor consiga, pelas orientações encaminhadas, seja no diálogo oral ou escrito, atuar de maneira qualificada na ZDP do estudante para, assim, pela sua ajuda, permitir a ampliação do entendimento químico e ampliar a capacidade cognitiva do estudante. Em seguida apresento alguns recortes do DB que mostram aspectos da ID estabelecida em sala de aula, e na subseção posterior apresento uma discussão para o processo de ID estabelecido nas orientações que foram escritas no caderno de anotações. 176 6.2.1 Interações discursivas nos diálogos estabelecidos em sala de aula A minha atenção ao escrever sobre as aulas esteve direcionada para a as interações discursivas, para as falas dos estudantes e para as minhas respostas, ou seja, para o processo dialógico interativo estabelecido, para a interação linguística estabelecida em sala de aula. Alguns dos diálogos estabelecidos em aula encontram-se no DB. Pela análise realizada foi possível perceber o quanto é importante o professor estar atento para as palavras usadas e para os sentidos atribuídos a elas em sala de aula e a importância da mediação do professor para possibilitar o redirecionamento dos sentidos para os significados químicos historicamente estabelecidos. Ressalto que perceber as diferenças de significação conceitual dos estudantes, no decorrer de uma aula, é muito difícil sem estar atento a elas. Nesse sentido, a escrita e a posterior análise dos diálogos estabelecidos em sala de aula configuraram-se como rico espaço de reflexão e de compreensão da prática de ensino vivenciada. O estudante, ao ser iniciado na química ou ao falar a palavra em voz alta ou, ainda, ao ler alguma parte de algum texto mais específico de química, ainda não apresenta o significado conceitual mínimo e necessário para a formação do seu pensamento químico, e a sua fala se reduz, muitas vezes, numa repetição de palavras. Ele está apenas começando o processo de significação conceitual, e é preciso que o professor perceba essas limitações e atue como mediador potencial nesse processo. Segue um recorte do DB que remete para a importância de o professor ouvir o estudante em sala de aula e de mediar o seu pensamento: Após uma discussão cuja temática consistiu em propriedades periódicas, 75 os estudantes solicitaram que eu ditasse para eles a „resposta correta‟ , ou a „definição correta‟ para a variação dos raios atômicos no decorrer de um período da classificação periódica. Mas eu devolvi a solicitação e instiguei que eles formulassem uma resposta partindo da nossa discussão e que, em seguida, fizessem a leitura da sua explicação. Ao ler a sua resposta um estudante explicou que os elétrons aumentam de tamanho ao longo de um período e que assim aumenta o tamanho do átomo, ou seja, o seu raio atômico. Após a resposta perguntei se todos concordavam com a afirmação, e outro estudante disse que havia entendido que o raio diminuía no decorrer do período. E, ainda outro assim se manifestou, o raio diminui, pois aumenta a atração. Tentei continuar o diálogo, perguntando aos estudantes: E então o raio atômico 75 Nesse posicionamento a „resposta correta‟ que está sendo referida é no sentido de apresentar um significado químico coerente. 177 aumenta ou diminui no decorrer de um período? Pensem nas características dos halogênios em relação aos metais alcalinos, por exemplo. A maioria dos estudantes respondeu que o raio atômico diminui, sem maiores explicações. Assim continuei: Isso, o raio atômico diminui no decorrer do período, mas o que causa essa diminuição, que atração é essa que o colega falou e que aumenta no decorrer do período? Pensem em termos de cargas, de atrações eletrostáticas. Após alguns instantes de silêncio alguns alunos disseram atrai mais e diminui o tamanho, mas não explicitavam a causa dessa atração. Um aluno disse: aumenta o positivo e atrai mais o negativo (mostrando com as mãos o gesto que eu fiz, em aula, representando a atração). Com isso, eu retomei a palavra e nominei o positivo e o negativo referido pelo 76 estudante, com a sua nominação química [...] (DB p. 16 e 17). Ouvir o posicionamento dos estudantes, seja pela fala ou pela escrita, no âmbito de uma aula, é muito importante. É um exercício que precisa ser recorrente nas aulas de química, mas também é preciso mediar esse diálogo e saber conviver com alguns silêncios em sala de aula. O professor precisa dar tempo para os estudantes elaborarem uma resposta, isso eu ainda preciso aprender. Na resposta dos estudantes, foi possível evidenciar que, apesar de eu ter explicado que, de um modo geral, a diminuição do raio atômico (representei isso fazendo um movimento de juntar as mãos) no decorrer do período, ocorre devido ao aumento da atração nuclear efetiva ocasionada pelo aumento do número atômico (cargas positivas), isso se considerarmos os átomos em que a adição de elétrons ocorre na camada de valência [...]. No diálogo apresentado pelos estudantes alguns entendimentos foram muito diferentes. Os estudantes até fizeram uso de algumas palavras que eu usei na minha explicação, como diminuição do raio atômico e atração, outros, se apropriaram dos gestos, mas não dos termos específicos da química, apenas fazendo uso de uma linguagem mais próxima da linguagem cotidiana, positivo e negativo, por exemplo. Mas isso é um caminho natural na apropriação e significação conceitual no processo pedagógico. O estudante inicia fazendo uso de algumas palavras mais específicas tentando explicá-las com palavras próprias. Essa diversidade no discurso dos estudantes no processo de ensino foi também indicada pelos estudos de Mortimer (1998). Na presente tese, essa multiplicidade de discursos é entendida como constituinte do discurso escolar e remete para a importância de o professor mediar os seus significados. O professor, em sala de aula, apresenta na 76 aula dia 30/03 178 sua fala aspectos do DC, como foi possível de ser evidenciado nos termos químicos que foram utilizados por mim ao explicar a variação do raio atômico, mas também foi possível evidenciar outros discursos, como o DP, ao tentar representar o movimento de atração, de diminuição do raio atômico com as mãos ou o DCE, ao fazer uso do termo carga positiva, por exemplo. Ou seja, o discurso escolar objetiva que o estudante compreenda os conceitos, e para isso o professor faz uso de diferentes discursos com direcionamentos específicos e que precisam ser apropriados e significados pelos estudantes para oportunizar o aprendizado. Olhando novamente para a explicação que foi realizada por mim ao explicar a diminuição do raio atômico, a multiplicidade de termos específicos (sublinhados) que foram referidos evidencia a especificidade da linguagem química, do DC, como por exemplo, a densidade de informações (Prain, 2006) que ocorre devido à quantidade de nomes específicos que precisam ser significados para possibilitar a compreensão de determinado conceito. Essa capacidade está relacionada à formação de um pensamento por conceitos (Vigotski, 2000), que requer diferentes relações conceituais para o entendimento de um determinado conteúdo ou conceito. Considerando o diálogo que foi apresentado, apesar de nas minhas falas fazer indicações de caminhos de pensamentos e de instigar os estudantes com outras perguntas, eles não conseguiram ampliar efetivamente a sua explicação para o fenômeno em questão, não avançaram em termos químicos na elaboração de uma explicação para a causa da diminuição do raio atômico. Ressalto que no acontecimento de uma aula é mais difícil fazer a orientação individual, percebi isso ao analisar a descrição desse diálogo, pois não retomei a ideia da estudante que mencionou que os tamanhos dos elétrons aumentavam. Isso retrata uma limitação no processo interativo estabelecido em sala de aula e da necessidade de aprender ouvir com mais atenção as falas dos estudantes. A minha atenção, como foi possível depreender pelo diálogo transcrito, esteve direcionada para a causa da diminuição do raio atômico; tentei direcionar a explicação dos estudantes fornecendo pistas de pensamentos, em termos de comparações entre os elementos do mesmo período. O meu objetivo era de que os estudantes pensassem em termos de reatividade, de formação de cátions e ânions, por exemplo. Vejo agora que eu deveria ter exemplificado com alguma 179 situação. Para mim, que sou professora de química, essas relações são conscientes, mas não o são para os estudantes. Entender as variações do raio atômico implica um maior nível de generalização conceitual que permita relacionar diferentes conceitos. Essa característica foi descrita por Vigotski (2000, p. 291) ao afirmar “só no sistema o conceito pode adquirir as potencialidades de conscientizáveis e a arbitrariedade”. Saber realizar as necessárias relações conceituais implica em uso consciente dos conceitos químicos e os torna arbitrários. Como os estudantes não responderam ao primeiro estímulo, ao menos não em voz alta, a pista posterior que foi dada teve como objetivo possibilitar a eles pensar em termos de cargas elétricas e da atração eletrostática que aumenta no decorrer do período. Um estudante fez uso de termos positivo e negativo e indicou o gesto feito por mim em sala de aula (que foi aproximar as duas mãos indicando a atração eletrostática a diminuição do raio atômico). Isso é um indicativo de que ele estava se apropriando de alguns aspectos da LCE, mais voltados ao DP, relacionando-os ao DCE. Na minha explicação também fiz uso dos termos cargas positivas e negativas e o estudante reproduziu essas palavras e não as palavras mais específicas da química como número atômico, elétrons ou carga nuclear efetiva. Vigotski (2000) chama a atenção, como já foi referido, que se aprende por imitação, e Bakhtin (2010) salienta que as palavras dos outros vão se tornando as nossas palavras. O estudante em sala de aula inicia o processo de significação conceitual ao se apropriar do discurso do professor, e este é constituído pela LCE que, por sua vez, contempla algumas características do DC, do DDC e do DP que vão ao encontro do DCE, como foi anteriormente referido. Instaura-se assim um processo de ID que precisa do direcionamento, da ajuda do professor para possibilitar a necessária significação conceitual em química. Acredito que foi importante possibilitar aos estudantes produzirem a sua resposta, em especial quanto a causa da diminuição do raio atômico, pois os estudantes na sua maioria associavam a diminuição do raio atômico apenas às setas que direcionam essa diminuição, e que foram por eles memorizadas. Mas essa visualização, a memorização da seta, não possibilita a compreensão do fenômeno. Decorar definições ou representações tem sido muito utilizado pelos estudantes nas aulas de química, o que limita um pensamento químico sobre o mundo. 180 Numa iniciativa de ampliar o diálogo tentei possibilitar uma maior conscientização das suas limitações conceituais e permitir a tomada de consciência. Com as pistas dadas busquei redirecionar/ampliar o seu pensamento possibilitando maior compreensão química. Essa ajuda, quando potencializada, é um passo muito importante para a construção de significados. Entendo com Vigotski (2000) que, na medida em que o sujeito toma consciência do seu conhecimento, em espaços mediados, é oportunizada a ele a ampliação do seu desenvolvimento cognitivo. Isso ocorre ao se apropriar cada vez mais de um conhecimento com um maior grau de generalidade. E é nesse processo de significação que é possível avançar da simples percepção para uma compreensão de um fenômeno químico, por exemplo. Se eu tivesse apenas ditado uma resposta „correta‟, conforme a solicitação dos estudantes, não teria percebido a diferença de significação entre a minha explicação e o entendimento dos estudantes. Perceber essas diferenças em sala de aula, retomar a palavra do estudante, analisar o diálogo estabelecido além de auxiliar na aprendizagem, também implica na ressignificação da prática pedagógica. O professor ao tomar consciência da linguagem que usa nas suas explicações, e de como essa influencia na significação conceitual dos estudantes pode redimensionar a sua prática de ensino. No diálogo que foi apresentado, por exemplo, eu deveria ter ampliado o diálogo, ter perguntado ao estudante o seu entendimento de cargas positivas e negativas, e não ter retomado logo a mesma explicação. É claro isso estava vinculado ao espaço daquela aula e da minha avaliação daquele momento. Daí a importância da escrita no DB e do movimento reflexivo que possibilita ao professor a tomada de consciência sobre a sua prática. Em relação ao diálogo estabelecido em aula, Lemke (1997, p. 46, trad. própria) ressalta que “são poucos os professores que dispensam atenção suficiente para a maneira como se expressam os alunos acerca de um tema, da semântica e dos termos que utilizam”77. Nesse sentido entendo que é primordial que o professor esteja atento para os sentidos que os estudantes atribuem para as palavras. É preciso que os estudantes saibam muito mais do que apenas repetir as palavras certas, mas que consigam, em sala de aula, formar o seu pensamento químico mediante o uso qualificado da LCE. 77 son pocos los profesores que ponen suficiente atención a cómo se expresan los alumnos acerca de um tema, o a la semántica de los términos que utilizan” (p. 46) 181 Reafirmo que a ID é importante de ser estabelecida em sala de aula e que consiste numa prática que precisa ser aprendida tanto pelo professor, como pelos estudantes. Pela prática de ensino vivenciada destaco que um caminho para tomar consciência das diferentes interações discursivas foi mediante a escrita no DB. Outra possibilidade de perceber as potencialidades e as limitações das interações discursivas foi pelo processo de escrita e de reescrita orientada. Pela análise das orientações encaminhas e das respostas dos estudantes foi possível constatar indícios de algumas potencialidades e limitações de tal prática. No processo de orientação pela escrita, ao ler o texto do estudante eu escrevia uma orientação e o estudante reescrevia o seu texto. Esse processo foi caracterizado no capítulo 4 como dialógico, pois o diálogo, segundo Bakhtin (2006, p. 125) deve ser compreendido “num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta, de pessoas colocadas face a face, mas toda a comunicação verbal, de qualquer tipo que seja”. O texto escrito pelo estudante tinha um direcionamento, eles escreviam para mim. Para compreender esse processo, na discussão que segue, apresento um olhar mais específico sobre as orientações e as reescritas dos estudantes, com atenção para a ID estabelecida nesse processo e a sua contribuição para o processo de significação conceitual em química. 6.2.2 Interações discursivas estabelecidas no processo de escrita e reescrita orientada Olhando para o processo interativo estabelecido no processo de escrita e reescrita retomo a discussão iniciada na subseção 4.4 tendo como base a teoria de atividade proposta por Leontiev (2006). Ressalto que em todo o processo pedagógico vivenciado foram intencionalmente inseridos diferentes instrumentos que tinham como meio o uso da escrita. O seu uso objetivava oportunizar aos estudantes a apropriação e a evolução conceitual, pelo processo orientado de reescrita. No entendimento de Leontiev (2006), a atividade acontece quando temos um motivo, uma necessidade e um objeto, os quais, por sua vez, desencadeiam processos de significações nos sujeitos. Na prática de ensino vivenciada a atividade consistia na escrita e na reescrita, o motivo, por mim 182 estabelecido, visava a significação conceitual e a necessidade consistia no uso qualificado da LCE. Visando desencadear nos estudantes a necessidade de fazer uso da LCE o processo de escrita e reescrita foi mediado (Vigotski, 2000), pois pelos questionamentos inseridos, pelos comentários, eu objetivava mostrar aos estudantes a necessidade do uso correto da LCE, para assim possibilitar a sua significação. A atividade de um sujeito de acordo com Leontiev (2006) é desencadeada por um motivo e direcionada para um objeto. No início o motivo era externo ao estudante, mas foi intencionalmente trazido por mim para a sala de aula, e com isso desencadearam-se as ações, que consistiram na escrita e nas reescritas. As interações estabelecidas visavam possibilitar ao estudante atingir o motivo proposto pela atividade, e com isso, de fato, se apropriar e significar os conceitos químicos. Com base nesses entendimentos o que trago para discussão, ao iniciar a análise das interações discursivas estabelecidas, é se o processo de escrita e reescrita pode ou não ser caracterizado como atividade. Por exemplo, o estudante que se comprometeu que se envolveu com a metodologia proposta, mas que, pela análise realizada não evidenciou aspectos de EC atingiu a atividade? Se o estudante não atingiu o motivo por mim estabelecido no processo, a sua prática consiste apenas numa ação? Como exemplo, passo a explicitar o processo de escrita e reescrita vivenciado pelo estudante C. Ele se apropriou da metodologia proposta, realizou a reescrita e buscou contemplar as orientações, corrigindo as limitações conceituais por mim indicadas. Assim, estava comprometido com a metodologia proposta. Nos seus textos foi possível identificar avanços em relação a algumas explicações descritas, mas, apesar disso, em cada reescrita apresentava o uso equivocado para termos químicos como átomos, moléculas, o que retratava uma ausência de significado químico. Para esse estudante o processo de escrita e reescrita evidenciou a importância do uso da LCE, pois as limitações descritas por ele somente foram percebidas pelo processo orientado de reescrita. Como por exemplo, na sua primeira escrita ao escrever sobre a densidade da água, o estudante C escreveu que a água e o gelo, apesar de serem feitos de H2O, possuem densidades diferentes [...] (caderno de anotações, p. 2). Ao realizar a orientação para a reescrita, sublinhei essa frase e escrevi: a fórmula H2O 183 representa tanto gelo quanto água líquida. Rever essa frase. Apesar de ser uma correção simples em termos de significados químicos, implica num entendimento de representação da fórmula química. Na sua reescrita, C, assim escreveu: a água no estado sólido ou líquido possui densidades diferentes. O fato de o estudante C ter realizado a correção, indica que ele se apropriou da metodologia proposta e que estava em processo de atividade, apesar de ainda não ter evidenciado um nível de significação conceitual mais avançado. Esse processo que foi descrito para o estudante C, retrata que não é a simples execução da ação que a transforma, de maneira mágica ou instantânea, em atividade, mas que outras dimensões pedagógicas estão envolvidas nesse processo, na transição da ação para a atividade, entre elas, destaco o processo de orientação, contemplando aspectos da ID estabelecida no processo de reescrita. Isso mostra em situação prática analisada a validade do entendimento de Vigotski (2000) de que o aprendizado é um longo caminho e que requer interações discursivas favoráveis entre os sujeitos envolvidos. Entendo que essas interações são possíveis, também com base em Vigotski (2000), quando o professor atua como mediador potencial, atingindo de maneira qualificada a ZDP do estudante, pois isso possibilitará ao estudante um comportamento responsivo no diálogo estabelecido. Mas também, requer o comprometimento do estudante, a contrapartida, de ele ter a atividade do estudo como principal. Assim, a atividade, segundo Leontiev (2006), consiste num processo de significação e o seu início e o seu direcionamento se dá por um motivo, ainda no entendimento do autor (2006) só se constitui um atividade quando o motivo que leva o indivíduo a agir diz respeito ao conteúdo da ação. Assim, o estudante C, por exemplo, apesar de não ter atingido níveis de significação mais avançados, esteve em processo de atividade, pois assumiu a sua condição de estudante. A ação estava relacionada com o motivo que foi proposto. Ao reler as respostas dos estudantes e as minhas orientações percebi, em alguns casos, limitações nas orientações e a necessidade de ter ampliado os textos, de ter escrito mais para cada um dos estudantes. Lembro que uma das limitações vivenciadas por mim no processo da correção consistiu no número elevado de cadernos, no início do semestre, aliado a isso, a quantidade de textos para serem corrigidos e orientados no decorrer do semestre. Isso às vezes condicionava e até limitava as minhas orientações e a interpretação da escrita do 184 estudante. Os textos, ou os símbolos que consistiram nas orientações descritas nos cadernos de orientações tinham como objetivo qualificar a reescrita dos textos dos estudantes, buscando atuar de maneira qualificada em possível ZDP de estudantes pelos diferentes processos dialógicos estabelecidos possibilitar a eles ampliar a sua significação conceitual. As orientações foram pensadas como um conjunto de pistas que permitissem ao estudante avançar na significação conceitual em química (Vigotski, 2000). Para tanto, o estudante escrevia um texto, e eu orientava a sua reescrita com uso de símbolos que indicavam o problema, ou então com textos de cunho explicativo ou complementar, ou, ainda, ampliava a discussão inserindo outros questionamentos. O objetivo consistiu em desafiar os estudantes e estimulá-los a seguir outro caminho na produção do pensamento, bem como de possibilitar a eles a tomada de consciência das suas limitações nos significados conceituais para, assim, ampliar a sua significação conceitual em química. Em outras palavras, o processo de orientação objetivava uma ID favorável entre as minhas orientações e as respostas dos estudantes. Vigotski (2000), em seus estudos, destaca que o aprendizado somente é possível pela ajuda do outro mais capaz, pois é com essa ajuda, segundo o autor, que o estudante consegue realizar o que ainda não é capaz de realizar sozinho, conquistando novos níveis de desenvolvimento cognitivo. Daí a importância da orientação do professor atuar na ZDP do estudante. De nada adianta, diz Vigotski (2000), querer ensinar ao estudante o que ele já sabe e também o que ele ainda não é capaz de saber, isto é, está além do que ele consegue realizar com ajuda. Todo o processo de orientação que foi desenvolvido por meio de orientação, seja pelo uso de texto (OT), por símbolo (OS) ou mista com uso de texto e símbolo (OTS) esteve vinculado ao entendimento de Vigotski (2000) de que em colaboração, com a ajuda do outro mais capaz é possível fazer mais do que quando sozinho, com isso, desenvolver-se cognitivamente. Assim a categoria, ID, que emergiu no processo de ATD tem como objetivo possibilitar a compreensão do processo de orientação e de reescrita que foi vivenciado nas aulas de Química I e a sua implicação no processo de significação conceitual. No quadro 04 (p.124), está indicado o tipo de orientação que foi encaminhada após cada escrita do estudante. Para o primeiro texto que foi corrigido iniciei com orientações apenas OT, após a primeira reescrita fiz uso de 185 orientações OS e, posteriormente, predominaram orientações mistas, OTS. Como já referi, a primeira orientação consistiu na escrita de comentários para cada uma das respostas e caracterizou-se como uma OT, e foi substituída, na segunda orientação, pela OS. Essa mudança ocorreu, pois, no início do semestre, eu tinha quase 100 cadernos para serem corrigidos, e de todos os comentários escritos, alguns consistiram em mais de uma página, e desses, muitos apresentavam características semelhantes, visto que os erros conceituais ou as limitações apresentadas pelos estudantes foram semelhantes e, por isso, levavam a comentários também parecidos. A percepção de semelhança nas escritas dos estudantes, aliada ao trabalho de escrever cada um dos comentários, fizeram-me reavaliar a metodologia de orientação empregada. A alternativa encontrada foi a elaboração de símbolos que objetivaram indicar aos estudantes os caminhos para a reescrita. Ressalto que a opção em possibilitar a escrita e a reescrita para todos os estudantes esteve vinculada ao questionamento inicial da tese que era acompanhar a prática da escrita e da reescrita orientada num contexto real de ensino de química. Os símbolos foram elaborados no decorrer da segunda correção dos cadernos. Ao realizar a segunda entrega dos cadernos para os estudantes, entreguei a eles uma folha com os símbolos e as suas devidas explicações (Anexo D). O uso dos símbolos também foi explicitado aos estudantes com exemplos dados em sala de aula com algumas orientações encaminhadas nos cadernos de anotações. Após a segunda reescrita, ao perceber algumas limitações de alguns estudantes quanto à interpretação dos símbolos, retomei a inserção de comentários. Assim, para algumas orientações, passei a fazer uso de um processo de orientação mista, a OST, que contemplou tanto a escrita de um comentário como o uso de um símbolo. Apresento a seguir alguns diálogos estabelecidos no decorrer do processo de escrita e de reescrita com atenção para as orientações encaminhadas, atentando para as palavras usadas e para a ID estabelecida. Faço isso com os textos dos estudantes que indiciaram maiores níveis de evolução conceitual (EC) e com estudantes que apenas mostraram aspectos de apropriação conceitual (AC), conforme os resultados anteriormente indicados no quadro 04 (p. 124). 186 Para iniciar esta discussão, escolhi dois diálogos que reportam para uma ID não favorável, pois o processo de escrita e reescrita analisado78 deram indícios apenas de aspectos de AC. Um deles estabelecido com o estudante B e o outro com o estudante E. Ressalto que alguns aspectos dos textos escritos pelos estudantes B e E já foram apresentados no capítulo anterior, cujo objetivo foi demonstrar indícios de AC nos textos. Justifico o uso dos mesmos exemplos, pois agora a atenção está voltada para as minhas orientações, com o objetivo de compreender como elas participaram desse processo. Para isso reporto-me primeiramente para um recorte do texto escrito pelo estudante B, na sua primeira escrita: Na temperatura ambiente a água é líquida por que a força de atração entre as moléculas é maior. O que significa que as moléculas estão mais atraídas entre si. Já a amônia tem ligações mais fracas, ou seja, estão mais afastadas e por isso são gases. A molécula de água se expande no estado sólido, por isso tem menor densidade [...] (estudante B, caderno de anotações, p. 1, 2012). Na primeira escrita o estudante B tentou explicar a causa de a água ser encontrada no estado líquido à temperatura ambiente, para isso, apresentou algumas argumentações coerentes ao afirmar que a força de atração (interações intermoleculares) entre as moléculas de água é maior em relação às forças de atração entre as moléculas de amônia. Mas na sua escrita o estudante não explicou de maneira favorável a comparação com a amônia. Outra limitação na sua escrita consistiu na afirmação de que a molécula de água se expande no estado sólido (essa parte foi apresentada no capítulo 5 ao discutir aspectos da AC). Após essa escrita no meu primeiro texto de orientação, assim escrevi: Considerando as moléculas de água e as moléculas de amônia, entre ambas a interação molecular é a mesma, mesmo assim, apresentam-se em diferentes estados físicos à temperatura ambiente. Discuta essa questão. Também é importante ter bem claro que as propriedades de uma substância são decorrentes de um conjunto de moléculas, por exemplo, e não de uma única molécula. Pense nisso e reescreva a explicação sobre a menor densidade da água sólida em relação à água líquida (texto de orientação, caderno de anotações, estudante B, p. 5, 2012). 78 Os textos que foram analisados são os mesmos que referi no capítulo 5 (respostas escritas e reescritas para a primeira questão, acrescentando agora os comentários que foram encaminhados nas orientações). 187 No processo dialógico, o estudante B assim respondeu ao meu comentário79: [...] as moléculas de água se expandem no estado sólido, por causa da geometria das moléculas [...] acabam se separando. Isso acontece por que o gelo é formado por moléculas de água arranjadas geometricamente em forma de cristais. Quando elas se organizam dessa maneira, deixam mais espaços vazios entre os átomos do que no estado líquido. A amônia é encontrada na temperatura ambiente como gás a 18 e 35ºC (estudante B, caderno de anotações, p. 15, 2012, grifos meus). Após a leitura da primeira reescrita do estudante B, ao encaminhar a segunda orientação, sublinhei a seguinte frase: deixam mais espaços vazios entre os átomos e inseri os símbolos RA e C80. E também sublinhei a última frase descrita e inseri o símbolo RI81. Na sua segunda reescrita o estudante B descreveu aspectos da molécula de amônia, desde a sua geometria até a sua fórmula estrutural, mas não avançou na discussão do que foi solicitado, de compará-la com a molécula de água, para então explicar a diferença entre os estados físicos dessas substâncias à temperatura ambiente. Quanto aos espaços vazios, nessa reescrita, a argumentação descrita foi “as moléculas de água se expandem [...] devido a geometria das moléculas”. Após essa segunda reescrita ainda insisti com a inserção de símbolos, RI e RA sublinhando as limitações conceituais percebidas. Vejo agora, pela análise realizada, que uma possibilidade para esse estudante teria sido o uso de textos nas orientações. Pois ao sublinhar as limitações conceituais percebidas e ao inserir apenas símbolos eu ainda não estava atingindo um processo ativo de significação junto a esse estudante. Havia outros aspectos mais básicos que precisavam ser compreendidos pelo estudante para que ele avançasse. Talvez a descrição de aspectos das forças intermoleculares entre as moléculas de água e de amônia, ou ainda a sua importância para as diferentes propriedades dos compostos. 79 Parte desse texto já foi apresentado na subseção 5.1.2 ao apresentar indícios de AC. Justifico o uso do mesmo texto por ser outro o foco de análise e também para com essa discussão possibilitar um maior entendimento sobre a AC que foi discutida no capítulo anterior. 80 Conforme a lista de símbolos encaminhada (Anexo, D, p. 208) o símbolo RA remetia para: Rever/ Ampliar a Discussão e o símbolo C: ver o significado da palavra na química, o significado do conceito químico. 81 RI, conforme a lista de símbolos encaminhada (Anexo, D, p. 208) remetia para resposta incompleta, reler o comentário feito anteriormente, ou a questão, a pergunta, ou o problema. 188 Na terceira reescrita o estudante B escreveu que [...] as moléculas de água encontram-se mais afastadas entre elas [...] (p. 48). Isso indiciou algum avanço, pois não afirmou mais que as moléculas se expandem, mas considerou o espaçamento entre as moléculas. Mas em relação à comparação entre a molécula de água e de amônia, novamente, houve uma descrição sobre as propriedades da amônia, desde a sua geometria chegando até a uma explicitação do seu pH. Essa resposta descrita por B, para mim, no processo de orientação indiciou uma ausência na compreensão com o questionamento que estava sendo realizado. Visando diminuir essa lacuna de compreensão, na quarta orientação assim, escrevi: você ainda não explicou porque a amônia é um gás a temperatura ambiente e por que a água é líquida. Considere na sua explicação: ambas são moléculas polares, interagem entre si por forças intermoleculares ligações de hidrogênio e apresentam massa molar semelhante (texto de orientação, caderno de anotações, estudante B, p. 48-49, 2012). Após esse comentário, ao reescrever, B ampliou a explicação sobre as ligações de hidrogênio na molécula de água sobre a sua importância, mas terminou afirmando que “[...] as ligações de hidrogênio são responsáveis pela grande maioria das propriedades das moléculas de água e, em particular, pelo fato da água ser líquida a temperatura ambiente, enquanto, em geral outras moléculas de tamanho semelhante são gases” (p 69). Esta resposta, apesar de ter apresentado aspectos importantes relacionados às propriedades da água e às interações ligações de hidrogênio, não ampliou a argumentação apresentada por mim. E com isso o estudante não conseguiu explicar o que estava sendo solicitado. A explicação que foi descrita pelo estudante é recorrente em livros didáticos, mas não possibilita aos estudantes ampliarem o entendimento de que apesar de outras moléculas também apresentarem a mesma interação molecular do que as moléculas de água as suas propriedades físicas, químicas são diferentes, e a explicação está relacionada com a intensidade das forças intermoleculares, com a geometria das moléculas, com os elementos constituintes das substâncias. Enfim, é muito comum em química e no seu ensino o uso de algumas definições que precisam ter mais atenção do professor. Além dessa explicação outros aspectos foram possíveis de serem percebidos apenas pela análise da escrita dos 189 estudantes no processo de escrita e reescrita orientada e estão discutidos na subseção 6.3. Em seguida apresento o processo de ID estabelecido com o estudante E, que também retrata algumas limitações conceituais e interativas semelhante ao processo discursivo estabelecido com o estudante B. Após a primeira reposta do estudante E assim escrevi: na resposta da questão 1 você explica muito bem a formação das ligações de hidrogênio entre as moléculas de água. Apenas para completar, amplie a seguinte frase que você escreveu: é devido as ligações de hidrogênio que a água é líquida a temperatura ambiente, diferente de outras moléculas semelhantes. Para isso pense nas moléculas de amônia nas quais também ocorrem as interações ligações de hidrogênio, porém o NH3 é gasoso a temperatura ambiente (caderno de anotações do estudante E, p. 12, 2012). Chamo a atenção para o fato de que o objetivo do meu comentário foi direcionar o pensamento do estudante E para além de uma definição simplista descrita em textos ou em livros didáticos de que a água é líquida em temperatura ambiente devido às ligações de hidrogênio. Com isso, a minha intenção foi a de direcioná-lo para outras relações conceituais necessárias de serem consideradas para explicar o fenômeno apontado, como, por exemplo, para a intensidade das ligações de hidrogênio, considerando a diferença dos elementos químicos envolvidos e também a diferença na geometria molecular de ambos os compostos e com isso o módulo do vetor resultante. Na sua primeira reescrita, na tentativa de explicar a diferença entre os estados físicos da água e da amônia o estudante E escreveu que: a água não é uma molécula linear, se fosse, não seria líquida à temperatura ambiente, logo, a amônia também não é linear, sendo uma molécula que faz dipolo (p. 16). Com isso, na orientação seguinte sublinhei o termo dipolo descrito pelo estudante e inseri o símbolo RI82. Pois ao descrever as interações entre as moléculas de amônia denominando-as de dipolo, o estudante deu a entender que não foi dada a devida atenção para o meu comentário de orientação. Nesse eu já havia indicado que as forças intermoleculares entre as moléculas de água e de amônia 82 RI remetia para resposta incompleta, reler o comentário feito anteriormente, ou a questão, a pergunta, ou o problema. 190 eram as mesmas e consistiam nas ligações de hidrogênio, e, por isso, o símbolo escolhido para a reescrita foi RI. Ainda na primeira reescrita o estudante E ampliou a sua primeira resposta e também escreveu que: a água forma soluções aquosas através de hidratação de moléculas (processos de separação de cátions e ânions) (p. 16). Para potencializar a reescrita também sublinhei esta frase e inseri o símbolo RA 83. O estudante, na sua segunda reescrita ao tentar explicar o termo hidratação, fez uso equivocado da palavra molécula ao se referir à separação de cátions e de ânions no processo de hidratação. Sendo que esse processo ocorre quando as moléculas de água interagem com compostos iônicos, os quais por sua vez se dissociam em cátions e ânions, o que não ocorre com compostos moleculares, por exemplo. Pela análise da escrita dos estudantes foi possível perceber que o uso de termos químicos como átomos, moléculas, íons, na maioria das vezes, é realizado pelos estudantes sem desencadear um pensamento químico. Ou ainda, os estudantes ao não refletirem sobre a sua escrita, ao não se posicionarem de maneira crítica frente ao seu texto não percebem essas limitações. E este também foi um dos objetivos da orientação, pois ao sublinhar os erros conceituais e inserir um símbolo de direcionamento para a reescrita, esperava que o estudante refletisse sobre a sua escrita, que pensasse nos termos químicos utilizados e avançasse na significação conceitual, pela tomada de consciência das limitações dos significados conceituais na produção de seu pensamento nas escritas. Mas, para minha surpresa, na sua segunda reescrita, ele, escreveu sobre a tensão superficial da água, uma temática que até então não havia sido contemplada nas suas respostas, mas que estava descrita no artigo trabalhado em aula. Especificamente sobre a não consideração da orientação para a reescrita, além de outras limitações relacionadas ao uso da linguagem específica da química, retrata que aos estudantes, na sua escolarização anterior, não foi dada oportunidade de tomar a sua escrita como objeto de atenção e de análise, o que implicou numa limitação do estudante em compreender a sua escrita, em ter 83 O símbolo RA remetia para: Rever/ Ampliar a Discussão. 191 um posicionamento reflexivo frente ao seu texto, e assim dificuldades para reescrever o seu texto. Retomando o processo de orientação para o estudante E, após a sua segunda reescrita, que explicitou a tensão superficial da água, a terceira orientação, visando possibilitar avanços e um redimensionamento para a escrita anterior, consistiu num híbrido OST. Nessa orientação tentei redirecionar a atenção do estudante E para as orientações anteriores, em especial, para a orientação escrita após a primeira resposta, e escrevi: as propriedades da água descritas por você são muito importantes de serem entendidas, mas gostaria que você avançasse pensando num comparativo entre a molécula de água e de amônia. Também inseri o símbolo RI84. E assim, com a nova orientação, o estudante E, na sua terceira reescrita, escreveu: o NH3 à temperatura ambiente é gasoso, sua condição normal. A água é que possui propriedades peculiares que a difere dos demais compostos que também apresentam ligações de hidrogênio entre suas moléculas (Caderno de Anotações, p.50). Nesta reescrita houve um avanço, pois o estudante passou a considerar que a interação nas moléculas de amônia também são ligações de hidrogênio, mas ele ainda não explicitou quais as propriedades peculiares da molécula da água que ocasionam essa diferença para que as substâncias sejam encontradas à temperatura ambiente em diferentes estados físicos. E foi nessa direção que encaminhei a quarta orientação, que consistiu novamente num híbrido de OST. No texto da orientação escrevi: Explique o porquê das propriedades peculiares da água em relação à amônia, pense em termos de intensidade de forças interpartículas considerando os elementos constituintes, compare as propriedades químicas dos elementos envolvidos (Caderno de Anotações, p. 50) e inseri o símbolo RA85. Mas a quarta reescrita não foi realizada apesar de o estudante ter deixado, em seu caderno, um espaço reservado para essa reescrita. A reescrita das respostas para a primeira questão do caderno de anotações, em especial para o estudante E, e também para os estudantes B e C apenas deram indícios de AC com diferentes níveis de apropriação conceitual. Os 84 RI remetia para resposta incompleta, reler o comentário feito anteriormente, ou a questão, a pergunta, ou o problema. 85 O símbolo RA remetia para: Rever/ Ampliar a Discussão. 192 estudantes apresentaram nas escritas analisadas algumas limitações conceituais e dificuldades em estabelecer relações conceituais necessárias. Isso denota que a ID realizada ainda não atingiu o âmago das dificuldades que esses estudantes apresentavam e retrata que o processo de significação conceitual para eles estava apenas começando. No caso do estudante E, ele não percebeu, apesar das pistas dadas, que era preciso relacionar outros fatores para explicitar as particularidades das propriedades das moléculas de água a que se referiu na última reescrita. O estudante não conseguiu avançar na explicitação, ainda não considerou que o fato de a diferença de eletronegatividade entre o Oxigênio e o Hidrogênio ser maior em relação ao Nitrogênio e Hidrogênio ocasiona uma maior diferença na carga parcial estabelecida na molécula o que por sua vez, intensifica as forças elétricas interpartículas. Também, não considerou a questão da geometria molecular da água que consiste num ângulo diferenciado em relação à molécula de amônia o que também contribui para um maior momento dipolar resultante. Ele, para compreender tal fenômeno, precisa tomar consciência de que, para o exemplo em questão, as forças elétricas interpartículas são decorrentes de propriedades químicas dos elementos constituintes das substâncias e da geometria molecular que, por sua vez, implica na distribuição das cargas elétricas. Pela análise foi possível depreender que o estudante E ainda não atingiu, para essa primeira questão, um pensamento por conceitos, e as limitações nas suas explicações denotam a importância de os estudantes conseguirem realizar as necessárias relações conceituais para compreender um determinado fenômeno. Entendo com Vigotski (2000) que atingir o nível de pensamento por conceitos requer uma maior capacidade de abstração, é conseguir fazer uso de uma palavra relacionando-a com outra palavra. Esse tipo de pensamento conceitual, como já foi discutido no capítulo dois, é uma característica do discurso científico e requer uma maior atenção em sala de aula. Quanto aos meus comentários que foram mediadores nesse processo de reescrita posso dizer que não foram suficientes para ajudar esses estudantes na construção do seu pensamento químico. Talvez devesse ter ampliado a discussão teórica em cada um dos comentários. Isso retrata que o processo de significação conceitual é um longo caminho a ser percorrido e que requer especial atenção do 193 professor em sala de aula para que seja possível ID favorável, além de compromisso do próprio estudante com sua aprendizagem. Também, nesse âmbito, chamo a atenção para o fato de as orientações terem sido diferentes para cada estudante. Elas foram direcionadas pelas minhas contrapalavras frente às respostas dos estudantes e, talvez, em alguns casos, eu deveria ter sido mais direta nos comentários e ter apontado mais especificamente o erro do estudante, mas, ao mesmo tempo, tive que ter o cuidado de, ao orientar, não apresentar a resposta esperada ao estudante, pois o meu objetivo era que ele, pela orientação encaminhada, tomasse consciência das suas limitações de significados conceituais e avançasse na sua elaboração desses significados, como aconteceu com os estudantes que conseguiram atingir indícios de EC. Uma simples correção feita por mim não iria auxiliar nesse processo. Para tanto, condicionei-me em sublinhar, nas respostas dos estudantes, as limitações nos significados conceituais percebidas, além de inserir os símbolos ou os textos que, na minha avaliação seriam qualificados para redirecionar a sua reescrita. Reitero que inserir comentários explicativos para mediar a reescrita não foi fácil, pois, além de requer tempo, também foi um processo que precisou ser aprendido por mim. O posicionamento de não repassar a resposta pronta ao estudante ou de apenas inserir um símbolo indicando a resposta certa ou errada, precisou ser aprendido por mim no decorrer do processo. Foi preciso pensar em qual comentário seria capaz de conduzir o processo de produção do pensamento do estudante e de instigá-lo a ampliar e a reconstruir a sua resposta. Também foi possível perceber diferenças nas ZDP dos estudantes, cada um apresentando potencialidades cognitivas diferenciadas. Passo a trazer exemplos de alguns aspectos da ID estabelecida na escrita e reescrita do estudante F que apresentou mais indícios de EC, conforme o quadro 4 (p. 126). Na sua primeira escrita F apenas descreveu as propriedades da água como: capacidade de dissolver substâncias iônicas ou polares, a diferença de densidade entre a água líquida e sólida, a tensão superficial entre outras, sem contemplar a explicação da pergunta que consistia em explicar a causa dessas propriedades. E, nesse sentido, no comentário para orientar a reescrita escrevi: na resposta da primeira questão faltou você explicar as causas das propriedades da água que você citou. Como por exemplo, explicar porque substâncias polares e iônicas são solúveis em água. E ainda, explicar por que a água é líquida a temperatura 194 ambiente, e ainda, porque o gelo é menos denso que a água líquida (caderno de anotações, p. 07, 2012). O comentário encaminhado objetivou fazer com que o estudante F pensasse na explicação química para fenômenos que são por ele percebidos no dia a dia, como, por exemplo, o gelo boiar sobre a água líquida, o óleo não ser solúvel em água e tantos outros que estão relacionados com as propriedades físico-químicas da água e que apenas serão compreendidos quando o conhecimento químico for significado pelo sujeito. Acreditei na necessidade de o estudante pensar sobre os fenômenos e de buscar uma explicação para as propriedades da água que foram apenas descritas por ele num primeiro momento. O fato de instigar o estudante em avançar na sua escrita vai ao encontro da metodologia da pesquisa em sala de aula, que defende um processo de ensino que supere a condição de cópia e que possibilite ao estudante espaços para o seu posicionamento, para a reconstrução dos seus conhecimentos. Na sua primeira reescrita o estudante F, assim como já foi referido no capítulo anterior, exemplificou a solubilidade de compostos polares e apolares em água, sem, no entanto, ampliar a explicação sobre o fenômeno de dissolução. Após esse comentário sublinhei os exemplos descritos e inseri o símbolo DT86. Ainda, na mesma escrita, o estudante F, ao explicar as causas da água ser líquida à temperatura ambiente, avançou na sua explicação ao justificar esse fenômeno pelas interações intermoleculares, ligações de hidrogênio, entre as moléculas de água explicando a sua intensidade e a formação de tais ligações. Isso indiciou avanços na significação. È importante que os estudantes percebam essas relações entre a estrutura da matéria, entre as interações intermoleculares e as propriedades percebidas, como, por exemplo, o alto ponto de ebulição da água. Mas ainda na sua escrita o estudante não explicou a diferença de densidade entre a água líquida e sólida por isso, também, além do símbolo DT, inseri o símbolo RI87. 86 DT, conforme a folha de símbolos (Anexo, D, p. 208) significava Rever/Ampliar a Discussão Teórica - faltou discutir sobre o fenômeno, dizer se a transformação foi física ou química e explicála; faltou discussão sobre as interações envolvidas no processo descrito; faltou a discussão dos resultados, dos dados obtidos experimentalmente. 87 RI, conforme a folha de símbolos (Anexo, D, p. 208) significava resposta incompleta, reler o comentário feito anteriormente, ou a questão, a pergunta, ou o problema. 195 Considerando o símbolo DT na sua segunda reescrita, o estudante F passou a explicar as interações entre as moléculas de água e um composto iônico, fazendo uso de termos como interação íon-dipolo, destacando a importância da polaridade da água: as moléculas da água apresentam interações favoráveis com os compostos iônicos chamada de íon-dipolo (p. 29). Em seguida, no seu texto, respondendo ao símbolo RI, explicou a diferença da densidade da água líquida e sólida explicando-a em termos de ligações de hidrogênio e estrutura cristalina. Também argumentou dizendo que: o aumento do volume da água líquida ocorre devido aos espaços vazios entre as moléculas de água ocasionados pela estrutura cristalina formada, pois no estado sólido cada molécula de água faz mais ligações de hidrogênio do que no estado líquido, tornando a estrutura mais rígida, mais organizada (caderno de anotações, estudante F, p. 31). Também, devido ao símbolo DT, o estudante ampliou a explicação sobre a polaridade da molécula de água e passou a usar os termos carga nuclear efetiva, geometria molecular. Mas ainda, no seu texto, não explicou a solubilidade de compostos polares em água. Devido a isso, no comentário escrevi: amplie a explicação sobre a solubilidade das substâncias moleculares em água. Também inseri o símbolo CV88 para um erro de concordância identificado no texto (caderno de anotações, p. 31). Na terceira reescrita o estudante F demonstrou um entendimento químico quanto à condição para o processo de solubilidade ao escrever que: as interações entre as moléculas do solvente (água) e as do soluto é que são responsáveis pelo processo de solubilização (p. 64). Em seguida explicou o processo de dissolução de um composto iônico em água, em termos de hidratação, de interação íon dipolo. Também, escreveu sobre a não solubilidade de hidrocarbonetos em água, justificando em termos de interação não favoráveis e pela diferença de polaridade entre as moléculas e explicou sobre a solubilidade do álcool em água com uso de termos como interação ligações hidrogênio, polaridade, hidroxila. Analisando os textos escritos pelo estudante F e o diálogo estabelecido foi possível indiciar avanços na significação conceitual, pois os textos escritos indicavam a importância das relações conceituais mesmo que ainda num contexto 88 CV conforme a lista de símbolos (Anexo, D) significava concordância verbal, pontuação, ou descrição mais detalhada da prática. 196 de pensamento por complexos. O estudante fez uso de exemplos e, a partir deles, realizava as explicações, e esse é um caminho de apropriação e significação. Na sala de aula esse movimento é recorrente, ou parte-se de um exemplo e em seguida discute-se a sua explicação, ou inicia-se pela explicação e em seguida busca-se um exemplo. No discurso escolar é visível essa preocupação da relação do abstrato com o concreto, como também foi possível de ser verificado no meu primeiro comentário que fiz uso de exemplos para nortear a escrita do estudante F. Ressalto que com este estudante o uso de símbolos na segunda reescrita não teve problemas talvez pelo contexto, pois fez uso de exemplos e pelo símbolo DT, precisava explicá-los. Talvez por isso, o uso de símbolos, tenha sido favorável. Na sua terceira reescrita não inseri nenhum símbolo, poderia ter ampliado a discussão, não o fiz, porque essa questão de solubilidade também estava sendo discutida em outras questões no caderno de anotações. No processo de escrita e de reescrita analisado, ficou evidenciado que, além de questionar e de problematizar as respostas dos estudantes, é preciso que o professor, de fato, atue como um mediador potencial no processo da reconstrução das respostas. Ou seja, é preciso que pelas suas orientações, consiga atuar nas possíveis ZDPs dos estudantes, pois, conforme Vigotski, para o aprendizado ser eficiente, deve possibilitar o uso das “funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processos de maturação” (p.113). Ou seja, o professor, pela orientação, pode possibilitar que o estudante atinja explicações mais elaboradas e, assim, avance na significação conceitual. Isso requer atenção e o uso de termos específicos para cada orientação. Finalizando esta subseção, reafirmo que os termos específicos da LCE, pelo seu uso reprodutivo, quando não trabalhados em sala de aula de maneira orientada, num processo que problematize e reoriente as respostas dos estudantes, podem mascarar as limitações de significados, pois o estudante é capaz de usar a mesma palavra dita pelo professor, de apenas apropriar-se de maneira superficial e não tomar consciência da sua própria limitação conceitual. Pelo processo de orientação, pela problematização do professor, na medida em que o estudante precisa reescrever a sua resposta, articular o seu pensamento de maneira coerente, ele vai percebendo as limitações. Mas esse posicionamento frente ao texto é preciso ser construído pelos estudantes e um caminho foi à 197 orientação. Pois assim o estudante revisitava a sua escrita e pensava sobre ela. Algumas vezes o comentário não indicava para o estudante o caminho que eu havia pensado isso retrata a diferença entre os nossos conhecimentos e novamente aponta para atenção que o professor precisa denotar para esses diálogos em sala de aula. Outro aspecto que foi possível de ser identificado pela análise das respostas dos estudantes é a necessidade de repensar, redirecionar alguns aspectos que perpassam o ensino de química. É importante que no decorrer do processo pedagógico se avance na significação de algumas definições conceituais que são apresentadas nas aulas de química e que, algumas vezes, por não serem explicitadas com mais intensidade pelo professor dificultam um maior entendimento químico pelos estudantes. Objetivando ampliar essa discussão na próxima subseção apresento algumas discussões conceituais mais específicas em química e que estão relacionadas aos posicionamentos dos estudantes. 6.3 Especificidades da LCE: Algumas definições que perpassam o ensino da química A prática da escrita e da reescrita orientada possibilitou-me um maior contato com os entendimentos químicos dos estudantes, ou ainda com os sentidos que eles atribuem para determinado conceito químico. Essas particularidades de interpretação ou de limitações de significação conceitual e que não foram explicitamente discutidas no processo pedagógico indiciaram a categoria emergente “especificidades da LCE”. No ensino da química é comum o uso de algumas definições padrões para explicar determinados fenômenos químicos e estas podem vir a ser tomadas, pelos estudantes, que ainda não apresentam um mínimo conhecimento em química, como características próprias de algumas classes de compostos ou de alguns fenômenos, sem perceber a necessidade de considerar diferentes relações conceituais para a compreensão química do mundo, ou de algum fenômeno, ou das próprias definições. Assim elas são tomadas como verdadeiras independentemente das condições envolvidas. Avanços no nível da generalidade conceitual implicam a formação de um pensamento conceitual, o que, por sua vez indicia num avanço significativo de 198 entendimentos sobre o conhecimento químico. Nesse contexto, concordo com Vigotski (2000) quando afirma que os significados evoluem e, entendo, que os sentidos atribuídos para uma determinada palavra em sala de aula precisam se aproximar do significado químico historicamente estabelecido, sendo que este é um dos objetivos ao ensinar química. Possibilitar uma nova compreensão sobre os fenômenos com uso desses conhecimentos. Ressalto que apesar dos indícios de evoluções conceituais que foram possíveis de serem identificados pela análise das escritas dos estudantes, foi possível também a percepção de algumas limitações conceituais que perpassaram o processo pedagógico. Reconheço que algumas não foram objetos de análise no decorrer das aulas de Química I, e por isso são necessárias de serem descritas e discutidas nesse espaço, pois pela leitura da escrita dos estudantes foi possível tomar consciência dessas limitações. Para discussão trago especificamente partes dos textos da reescrita para a questão da prova, que está indicada no quadro 5 (p. 142), em que solicitei aos estudantes que explicassem a solubilidade do cloreto de sódio e da sacarose em água e a não solubilidade do Fe(s). Pela análise da própria questão da prova e da reposta descrita por um grupo de estudantes, já referida no capítulo anterior, foi possível perceber algumas limitações que decorrem de uma definição mais geral que é, muitas vezes, usada em sala de aula de que “os metais não são solúveis em água”, essa definição, por sua vez, está muito vinculada aos metais de uso cotidiano. E foi nesse contexto que foi elaborada a questão, mas ao ler as explicações dos estudantes tomei consciência das limitações do exemplo utilizado. E percebi a necessidade de inserir outras discussões para possibilitar aos estudantes entendimentos mais específicos relacionados às propriedades químicas dos metais, por exemplo. Ou seja, possibilitar a eles um pensamento químico sobre o mundo. Na escrita que foi analisada o grupo de estudantes que, ao responder a questão, fez uso do seu entendimento de metal ferro sólido com o seu cotidiano, assim como eu o fiz ao inserir esta questão ou, até mesmo, associaram a sua resposta com a prática experimental que realizamos no laboratório que foi inserir um pedaço de alumínio em água. Apesar de em sala de aula ter mencionado o caso dos metais que reagem e se dissolvem quando em contato com a água, como, por exemplo, os metais alcalinos, alcalinos terrosos, isso não foi suficiente 199 para ampliar o pensamento dos estudantes e de fazer com que eles superassem a definição de que “a água não tem o poder de dissolver os metais”, como escreveram nas suas respostas. Essas limitações precisam ser trabalhadas com mais atenção e com mais tempo em sala de aula, daí a importância da conscientização do professor pelo uso de algumas definições ou nominalizações químicas. Pela definição mais geral, “metais não são solúveis em água” o estudante não consegue compreender que o metal sódio ou o metal potássio, por exemplo, que não são metais usuais do seu cotidiano são extremamente reativos quando em contato com a água implicando num processo de dissolução e de reação química. E que isso decorre das propriedades químicas específicas relacionadas à sua elevada eletropositividade o que aumenta a sua reatividade e, que ao entrarem em contato com a água ocorre uma violenta reação química que implica também num processo de dissolução. Daí a necessidade de qualificar, em sala de aula, a discussão sobre a solubilidade de metais em água, por exemplo. Justifico que, na elaboração da questão da prova, a escolha para a explicação da não solubilidade do ferro em água foi no sentido de possibilitar a discussão sobre a importância das interações interpartículas favoráveis. Mas olhar com atenção para as respostas dos estudantes e refletir sobre a questão reportaram-me novamente para as especificidades da linguagem química e do conhecimento químico que precisa ser trabalhado de maneira mais relacionado. O grupo 02 nas suas respostas, como foi discutido no capítulo cinco, fez uso da discussão relacionada as forças interpartículas, mas, pela análise, ao perceber que a explicação dos estudantes do grupo 04 estava ancorada na definição clássica e reducionista de que os metais não são solúveis em água julguei importante ampliar essa discussão. Pela escrita dos estudantes e posterior análise foi possível, para mim, a tomada de consciência dessas limitações de compreensão conceitual que são inerentes ao processo pedagógico, mas que são necessárias de serem percebidas e conscientizadas pelo professor em sala de aula. Possibilitar um entendimento químico sobre um determinado fenômeno requer diferentes relações entre conceitos e não pode estar reduzida a algumas definições que quando não trabalhadas com cuidado podem limitar as explicações dos estudantes. 200 Nesse contexto, ressalto que para o professor, pelo fato de ele ter um maior conhecimento químico, o exemplo usado por ele não reduz a sua interpretação para outros fenômenos relacionados, mas para o estudante que está sendo iniciado na química é importante que fiquem explícitas as particularidades de um determinado fenômeno, como o caso da solubilidade e reatividade dos metais sódio, potássio, em água. Assim, afirmo que ensinar química não é uma tarefa fácil e é necessário que o professor tome consciência da linguagem que medeia esse aprendizado. Também reafirmo que o processo de escrita e reescrita vivenciado na prática pedagógica deu indícios de que a significação conceitual em química consiste num longo processo pedagógico e que precisa ser orientado pelo professor. Assim também, nas aulas de Química I, ao abordar a formação de soluções ficou evidenciado a importância de discutir com os estudantes alguns entendimentos relacionados ao processo de dissolução (a separação de partículas) e de reações químicas, por exemplo. Entendo que é preciso avançar num entendimento de que a formação de uma solução implica num processo físico–químico e que a distinção entre dissolução e reação química implicaria num nível de significação conceitual mais avançado. Para direcionar a discussão em sala de aula é importante ampliar o entendimento sobre a dissolução, de entendêla como um processo de manutenção das propriedades químicas das partículas envolvidas, assim, por exemplo, na dissolução do cloreto de sódio em água ocorre o rompimento do retículo cristalino, mas os íons sódio e os íons cloro permanecem em solução, apresentando novas interações eletrostáticas, num processo de solvatação. E, mesmo mantendo as propriedades químicas das partículas envolvidas, a formação de uma solução, o processo de dissolução implica, por exemplo, em características novas que são específicas para a solução formada e que variam conforme a quantidade de soluto para uma mesma quantidade de solvente, por exemplo. Assim é importante proporcionar aos estudantes o entendimento de que as propriedades físico-químicas da solução de cloreto de sódio não correspondem às propriedades da água e nem as do cloreto de sódio, mas sim, dessa nova solução formada que implicou nas rupturas de interações e na formação de novas interações entre as partículas. 201 Ainda em termos das especificidades da LCE, outras definições perpassam o ensino de química e foram identificadas nos textos escritos pelos estudantes, como por exemplo, semelhante dissolve semelhante, ou ainda, polar dissolve polar e apolar dissolver apolar, essas definições são muito ouvidas em sala de aula e apareceram nos textos escritos pelos estudantes como foi indicado no capítulo anterior. Nos resultados da análise que foram apresentados foi possível observar que, apesar das orientações, para alguns estudantes foi difícil conseguir argumentar sobre tais definições fazendo uso de conceitos químicos relacionados. Isso denota a discussão levantada por Vigotski (2000) de que fazer uso da palavra, ou, repetir a palavra do outro, é apenas o início da significação conceitual e que para a formação do pensamento químico no estudante é importante que ele vivencie espaços pedagógicos discursivos que possibilitam um uso consciente de alguns termos ou palavras químicas. Ressalto que todo esse processo pedagógico que implica no uso qualificado da linguagem química em contexto escolar requer atenção do professor e um acompanhamento sistemático em relação aos sentidos que os estudantes atribuem a determinado conceito, por exemplo. Daí foi fundamental a prática da escrita e da reescrita orientada e também a escrita do DB, pois me permitiu perceber algumas das limitações de sentidos, que sem essa metodologia, sem ouvir os estudantes, talvez não tivessem sido possíveis de serem significados e discutidos. Destaco a importância de o professor rever algumas definições ou conceitos ao ensinar química, sempre com atenção para os sentidos que podem ser atribuídos a elas. Como, por exemplo, o fato de nominar um sistema heterogêneo como, água e óleo de mistura heterogênea. É importante refletir sobre a palavra mistura, que denota interações entre soluto e solvente e pensar se é adequado esse termo, mistura heterogênea. Outra nominação que destaco é o termo ligações intermoleculares, que denota interações entre moléculas, então não é correto usar o mesmo termo para interações que envolvem íons, ou átomos. Mas essas diferenças não são muitas vezes explicitadas, em especial nos textos dos livros didáticos, e para o professor que já é um iniciado em química esses entendimentos estão dados, mas é diferente para o estudante que está aprendendo essa nova linguagem e por isso é importante atenção para os termos químicos que são utilizados em sala de aula, assim como para as representações, 202 como as do Na, Na(s) ou Na+(aq) que para o professor são diferenças básicas e simples, mas que para o estudante ainda precisam ser significadas. Finalizando a discussão referente às especificidades da LCE ressalto que algumas definições podem parecer óbvias e simples para quem é da área, mas, muitas vezes, não são compreendidas pelos estudantes e, com isso, o pensamento químico sobre o mundo também é limitado. Desta forma, reforço a necessidade de o professor de química tomar consciência do discurso que usa em sala de aula e dos sentidos a ele atribuído pelos estudantes, para, assim, possibilitar avanços de significações conceituais. Em seguida, num exercício de fechamento do texto da tese apresento as considerações finais que já remetem para outros questionamentos. O processo de questionamento é inerente à prática de um professor que pesquisa a sua prática de sala de aula e que busca avanços para o ensino de química, por isso, o fechamento desta tese não poderia ser outro que não a indicação de novos questionamentos. 203 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prof. Judite, as suas cobranças são pesadas, sempre perguntas e mais perguntas, muitas vezes difíceis de responder. Mas tudo isso é de grande valia. Particularmente obtive uma grande evolução, e devo isso a você. Obrigada (AS_AN24). [...] outra coisa que me chama a atenção é a falta de vontade dos estudantes, parece que tudo é mais interessante menos estudar [...] (DB, p. 41, dia 14.09.12) Na prática pedagógica vivenciada e discutida nos capítulos anteriores, evidencia-se um movimento de ressignificação da prática por minha parte. Foi um espaço rico de constituição docente, com certeza, por revisitar os diferentes textos produzidos no decorrer das aulas, seja no diário de bordo, nas escritas e reescritas dos estudantes, nas orientações encaminhadas, pude tomar consciência da complexidade da ação pedagógica na constituição de um novo pensamento junto aos estudantes com base nos significados dos conceitos científicos. Os dois posicionamentos, escolhidos como epígrafes deste capítulo retratam dois movimentos: o primeiro escrito por um estudante, no questionário de avaliação semestral, reporta para a importância do posicionamento do professor em sala de aula; o segundo, transcrito a partir do diário de bordo, ressalta a angústia que algumas vezes perpassava a sala de aula e me instigava, e que remete para a importância do posicionamento do estudante em sala de aula. Esses dois movimentos vão ao encontro da interação discursiva que ficou muito evidenciada no decorrer da prática pedagógica que foi acompanhada. Foi preciso em sala de aula buscar um diálogo com os estudantes que visava à ressignificação dos sentidos em circulação. Assim, na epígrafe apresentada a percepção da falta do comprometimento por parte de alguns estudantes, aliado ao desafio de mostrar a eles a necessidade do estudo, do compromisso com sua aprendizagem, de trazê-los para a interação da sala de aula, foi constante. No entendimento de Maldaner (2012, p. 118), com base em Vigotski, “o que move o ser humano é a necessidade” e, assim, busquei no processo discursivo da sala de aula fazer com que os estudantes sentissem a necessidade de que para compreender os fenômenos percebidos em seu dia a dia, sob a perspectiva da 204 química, a condição era avançar nos níveis de apropriação conceitual e de evolução conceitual. Partindo da hipótese de que aprender química é fazer uso consciente da linguagem que a constitui, precisei vivenciar isso em condições reais de ensino para compreender o processo de apropriação e de significação da linguagem cientifica escolar (LCE). Para isso acompanhei as minhas aulas de Química I e, em todo o percurso, apostei no uso qualificado da LCE com muitos e constantes questionamentos em aula, como referido pelo estudante e, também, pela prática de escrita e de reescrita orientada. Os dados da pesquisa foram construídos pela análise de uma amostra de textos que foram escritos no decorrer das aulas, assim há a possibilidade de outras pesquisas envolvendo os textos produzidos. A preocupação inicial esteve vinculada à identificação de aspectos de apropriação conceitual e de evolução conceitual nos textos escritos pelos estudantes. No decorrer da investigação outros aspectos mostraram-se importantes para a compreensão do processo, como a interação discursiva estabelecida e algumas especificidades da LCE. Como todo esse processo esteve vinculado à minha prática de ensino, a análise do diário de bordo contemplou também aspectos da constituição docente. Este olhar permitiu a elaboração de um mapa conceitual (Anexo F) que traz uma visão geral do processo de constituição docente que perpassou a tese. No presente trabalho ficou evidenciado que a significação conceitual é condição para aprender química e que ela implica no uso qualificado e consciente da LCE o que, por sua vez, requer interações discursivas favoráveis em sala de aula. As interações discursivas estabelecidas ocorrem pelo uso de diferentes discursos que são constituintes da linguagem científica escolar, a saber: o discurso científico, de divulgação científica, pedagógico e cotidiano. A pesquisa mostrou, ainda, que cada um desses discursos apresenta particularidades que precisam ser significadas pelos sujeitos envolvidos na sala de aula. Num esforço de superar a organização linear e fragmentada de abordagem de conteúdos escolares e acreditando na importância do estabelecimento da relação conceitual para a compreensão química do mundo, algumas modificações foram permeando as minhas aulas de Química I, como, por exemplo, iniciar as aulas com a leitura de um texto abordando diferentes conceitos relacionados às propriedades da água. Esta foi uma prática interessante e diferenciada para mim, 205 pois permitiu-me perceber desde o início a importância do uso da LCE e da mediação do professor. Assim, apesar de no primeiro encontro ter percebido a importância de ouvir os estudantes em sala de aula, para então, num processo de diálogo, buscar aproximar os sentidos atribuídos às palavras dos significados químicos historicamente construídos, foi possível constatar, não sem olhar os registros no diário de bordo, que os diálogos estabelecidos, em alguns casos, não foram suficientes. Por exemplo, ao não conseguir uma explicação favorável do estudante ou após um silêncio em aula, eu retomava a palavra e seguia a explicação, sem saber se as palavras anteriores já faziam sentido para eles. Isso retrata que apesar de ter a atitude do questionamento, a condução do diálogo em sala de aula ainda apresentou lacunas. Estas foram possíveis de serem percebidas pela análise do diário de bordo e com isso reafirmo a importância dessa escrita por permitir-me a tomada de consciência do processo pedagógico e, assim, sua ressignificação. Nas aulas acompanhadas foram usados intencionalmente diferentes instrumentos pedagógicos que tinham como meio a escrita de textos e objetivavam o uso qualificado da LCE pelos estudantes. A escolha pela escrita esteve ancorada no entendimento de que o seu uso amplia as capacidades cognitivas dos sujeitos devido ao nível de abstração e de organização mental exigidos nesse processo (Marques, 2001). Também estiveram vinculadas as percepções, decorrentes da minha vivência como professora de química, das dificuldades dos estudantes expressarem-se com uso dos termos específicos da química, em especial, na escrita de textos. O que também foi evidenciado, por exemplo, nas primeiras respostas das provas, nas quais, os estudantes escreviam na tentativa de contemplar o problema, sem a devida atenção para os termos químicos utilizados. Na sua escrita ficou evidenciado o uso inadequado das palavras químicas pelas limitações dos significados conceituais apresentados. Isso reforçou a minha compreensão de que a prática da escrita, para possibilitar avanços cognitivos, precisa ser mediada e orientada em processos de reescritas. O estudante ao ter de retomar as suas respostas, ao ter de dialogar com os colegas, demonstrou, na maioria dos aspectos, ampliação do entendimento químico sobre o fenômeno, qualificando seu argumento. Isso também foi constatado no processo de reescrita no caderno de anotações. Assim, mediante a 206 orientação, pela ajuda do outro mais capaz, alguns estudantes, na prática pedagógica acompanhada, atingiram níveis diferenciados de evolução conceitual. Esse processo não ocorreu de maneira instantânea, pois implicou em várias reescritas e em diferentes tentativas de orientações e que, também, não foi linear, nem universal, pois os estudantes apresentaram indícios de evolução e de involução num mesmo processo de reescrita e, assim, foram atingidos níveis diferenciados de apropriação e de significação conceitual. Isso representa a complexidade da prática pedagógica e a necessidade de um acompanhamento crítico e sistemático da mesma. Os resultados que foram construídos, a partir das categorias de análise, possibilitaram a compreensão de que o processo de significação conceitual de uma ciência, como a Química, requer interações discursivas favoráveis, que implicam na relação professor/estudante, estudante/estudante, estudante/conhecimento num processo mediado pela linguagem científica escolar. Pela vivência que tive na elaboração da escrita das orientações posso afirmar que atingir as interações discursivas favoráveis remete a um grande desafio da docência: o de possibilitar que o estudante aprenda, na química e em qualquer campo do saber humano, significando o conhecimento historicamente construído. Ainda em relação às interações discursivas, estas, mostraram-se favoráveis ao atuar na zona de desenvolvimento proximal dos estudantes à medida que o estudante assumia a sua condição de estudo como atividade principal. Para entender melhor o (não)comprometimento de estudantes com a atividade de estudo como atividade principal, estando em contexto de graduação em nível superior, outras pesquisas precisam acompanhar o processo pedagógico com especial atenção para esse fato. Na minha pesquisa a atenção estava mais direcionada para a interação discursiva e para o meu posicionamento, mas ao assumir a importância do posicionamento do estudante em sala de aula, ficam algumas questões que não foram discutidas, apesar de destacadas na epígrafe do capítulo, e que merecem novas investigações que implicam no entendimento da postura do estudante em sala de aula. De qualquer forma, é necessário ampliar os entendimentos quanto aos níveis de apropriação e de significação conceitual que são atingidos ou ainda não atingidos em sala de aula. Assim, alguns questionamentos seguem em aberto: Como ocorre a efetiva participação 207 do estudante no processo de ensino proposto pelo professor? Quais instrumentos pedagógicos qualificam a participação dos estudantes nas aulas? Como devem ser usados? Quais outros interesses e/ou preocupações dificultam os estudantes a fazerem do estudo sua atividade principal? A prática de ensino vivenciada fortaleceu a minha concepção de que o discurso do professor em sala de aula precisa fazer sentido para o estudante e que esse movimento discursivo implica tanto na postura e na atitude do professor em sala de aula, como na responsividade do estudante. O discurso do professor vai ao encontro do discurso do estudante e precisa ser significado, para constituir o seu pensamento sobre o mundo em novo nível de generalidade. A compreensão, no entendimento de Bakthin (2006), é ampliada na medida em que conseguimos apresentar uma contrapalavra para a palavra do outro, num processo que também implica a apropriação e a significação da palavra do outro. Considerando o comportamento responsivo em sala de aula, alguns questionamentos mais podem ser feitos: É suficiente o estudante realizar apenas as tarefas, as ações no dizer de Leontiev (2006), não se comprometendo, efetivamente, a atingir determinados níveis de apropriação conceitual e de evolução conceitual que foram o motivo da proposta? Como é possível a transição, em sala de aula, da ação para a atividade? Ou, ainda, como e quais os fatores que contribuem para as mudanças de motivos ao realizar uma ação? Ao olhar para os textos escritos dos estudantes, para os diálogos da sala de aula ou para as orientações encaminhadas foi possível evidenciar algumas características da linguagem científica escolar, como, por exemplo, as especificidades de termos ou definições químicas que perpassaram as aulas. Algumas especificidades foram apresentadas e discutidas no capítulo seis, dentro dos recortes realizados, como por exemplo, a questão de dissolução e de reação química que precisa ser compreendida pelos estudantes num contexto físicoquímico, superando definições simplistas de que ou é fenômeno físico ou químico. Também em relação a algumas definições químicas que são utilizadas, como polar dissolve polar, metais não são solúveis em água, que precisam ser significadas possibilitando a sua compreensão num maior nível de generalização conceitual. Pode inferir-se que a análise em todo o material produzido permitiria apontar ainda outras especificidades. 208 No decorrer do processo, acompanhei a prática de ensino pela escrita no diário de bordo e esta me permitiu uma reflexão sobre a prática pedagógica, num movimento de ressignificação da mesma. Assim, a reflexão sobre as ações realizadas passou a integrar também a discussão da presente tese e qualificou o processo pedagógico vivenciado. Uma limitação vivenciada em sala de aula foram os silêncios por parte dos estudantes, o que me reporta para a importância da prática da escrita e da reescrita, que oportunizou a eles fazerem uso da linguagem científica escolar. Também o caderno de anotações dos estudantes se tornou um material pedagógico rico e, assim, o processo de escrita e de reescrita acompanhado permitiu, pelo silêncio dos estudantes, trazer para sala de aula as suas reais dificuldades, as suas necessidades e qualificar o processo pedagógico de significação conceitual. A escrita e a reescrita sobre determinado fenômeno, em processo qualificado de orientação, possibilitaram aos estudantes a tomada de consciência e a sistematização de conceitos, que no entendimento de Vigotski (2000, p. 292) consiste na capacidade de generalização e “a generalização de um conceito leva à localização de dado conceito em um determinado sistema de relações de generalidade”. Esta capacidade indica a formação do pensamento químico e retrata as potencialidades da prática de ensino vivenciada. No ensino da química a escrita se reduz, na maioria das vezes, na descrição de práticas experimentais ou em respostas de questões descritivas, as quais, na sua maioria, exigem apenas a descrição da técnica ou a reprodução de uma definição conceitual e, com isso, podem mascarar o real entendimento dos estudantes e também não contribuem para a formação do pensamento químico. Que é condição para aprender química. Olhando para os resultados construídos, posso afirmar que perceber indícios de evolução conceitual nos textos dos estudantes foi uma recompensa para a prática de ensino vivenciada, que foi elaborada e acompanhada com essa finalidade, o que me leva a reafirmar a sua importância no processo do ensino da química e, com certeza, em outros campos do saber. Da mesma maneira ressalto que foi possível identificar que alguns estudantes, apesar de todo o percurso de ensino, ainda denotaram a ausência de significação conceitual em química, mas, para estes, os diferentes níveis de apropriação conceitual atingido já denotam avanços em relação aos estudantes que não vivenciaram o processo. 209 O presente trabalho mostrou que a interação discursiva favorável em sala de aula é condição para ensinar e aprender química e que isso implica na significação da LCE. Esta, por sua vez, requer o uso qualificado da linguagem química, o que foi possível no decorrer do processo orientado de escrita e de reescrita. Apesar das limitações inerentes ao processo de ensino vivenciado, como o número de estudantes e a quantidade de textos para ser corrigida pelo excesso de questões que foram encaminhadas, a prática da escrita e da reescrita orientada mostrou-se possível de ser realizada em condições reais de ensino e revelou-se como prática importante para a apropriação e significação conceitual, desde que acompanhada e orientada pelo professor e assumida pelo estudante como atividade principal, pois está em período de formação universitária. Especificamente, uma contribuição, para mim, como professora de química, no decorrer da prática de ensino vivenciada, foi tomar consciência da importância da significação da LCE tanto para os estudantes como para o professor em sala de aula. Para a tomada de consciência o diário de bordo mostrou-se instrumento eficaz. Nele ficou registrada grande parte dos aspectos da prática vivenciada, dos diálogos estabelecidos. E durante a realização da sua escrita, foi possível redimensionar os sentidos atribuídos para as palavras com atenção para a significação da linguagem científica escolar, o que mostra a importância dessa prática para a constituição docente e para a qualificação do processo pedagógico. A pesquisa em todo o seu percurso permitiu mudar e avaliar a minha organização em sala de aula, também ampliar a compreensão da importância da mediação do professor em sala de aula na busca de interações discursivas favoráveis. A produção de conhecimento pelo acompanhamento sistemático da prática docente, com atenção para o aprendizado químico, é um espaço de pesquisa que ainda precisa ser ampliado, e um caminho para isso é o acompanhamento das aulas pela escrita em diário de bordo. Entendo que uma análise mais cuidadosa do meu diário de bordo pode apontar para outros aspectos de ensino que não foram objetos da pesquisa. Com isso, permanecem em aberto algumas questões, como: os termos e exemplos utilizados por mim em aula foram suficientes e adequados? Ao fazer uso de um termo em sala de aula havia consciência suficiente das especificidades que trazia? E como foram as disponibilidades em discuti-las com os estudantes? 210 O pensamento químico requer a significação conceitual, que, por sua vez, implica no uso consciente da linguagem química. E isso precisa acontecer nas aulas de química; deve ser o motivo inicialmente trazido pelo professor e tornar-se motivo do estudante. Ao estudante é preciso ser dada oportunidade da apropriação e da significação da linguagem química (Vigotski, 2000) e, aliado a isso, a oportunidade de conscientizá-lo da necessidade da sua participação no processo, assumindo-o como atividade principal (Leontiev, 2006). A significação conceitual não é um processo fácil e automático, mas precisa ser sistematicamente acompanhada pelo professor em sala de aula. O uso da linguagem química pelos estudantes pode ser tanto no diálogo oral estabelecido em sala de aula como pelo processo de escrita. A prática de ensino vivenciada mostrou-me que pela escrita individual foi possível buscar estabelecer interações discursivas com cada um dos estudantes, o que na sala de aula, em função de diversos fatores, como o número de alunos, os silêncios estabelecidos isso é mais difícil. Também, no processo de reescrita foi possível iniciar o estudante num outro comportamento frente ao seu texto escrito. O estudante precisou assumir, no decorrer do processo, o seu posicionamento de autor e passou a fazer uso mais consciente da LCE para explicar determinado fenômeno. A prática que foi vivenciada mostrou-se como um movimento inicial de autoria, o que denota a ausência de tal prática em outros espaços formativos e mostra a sua relevância para o ensino. A prática da escrita reflexiva deve perpassar as aulas, não apenas de química, mas de outros campos de saber. Isso requer um repensar as práticas de ensino e, também, retrata um campo de pesquisa que precisa ser acompanhado em outras investigações. Alguns questionamentos nesse sentido: Como a prática da escrita está presente na prática do professor em sala de aula? Como a prática da escrita perpassa a formação inicial nos diferentes cursos de formação? A prática da escrita está sendo utilizada nos outros níveis de ensino? O escrever sobre os acontecimentos de uma aula iniciava os processos de reflexão sobre a prática o que implicava em mudanças. Ao corrigir os textos dos estudantes e escrever as orientações as limitações conceituais indicadas reportavam-me para a necessidade de ouvir os estudantes e para a necessidade do redimensionamento da prática de ensino. Ao escrever o presente texto outras compreensões foram possíveis e assim todo o processo, nas diferentes 211 instâncias, seja de escrita, de leituras e de sala de aula se caracterizou como constitutivo da minha prática docente e de professora pesquisadora. Assim a escrita em diário de bordo torna-se também uma prática inerente ao fazer docente, pois permite a reflexão na e sobre a ação. Entendo, pela própria formação, que a escrita é qualificada se o professor participar de coletivos de formação continuada que possibilitem a socialização da prática pela leitura do diário de bordo. Espaços como esses, de socialização da prática docente, merecem ser ampliados e investigados. Em relação à inserção da escrita e da reescrita orientada no ensino, pela prática que foi vivenciada, posso afirmar que foi preciso disponibilizar de tempo para realizar as correções e as orientações devido ao número de textos que foram produzidos nas aulas de Química I. O que me motivou para isso foi o direcionamento da minha pesquisa e a intenção que eu tinha em realizar e investigar essa prática. Pois todo o percurso da pesquisa esteve ancorado na realidade da sala de aula e nos desafios relacionados ao ensinar química pela significação conceitual. Neste processo, a prática da escrita e da reescrita orientada, mostrou-se uma alternativa positiva potencializando o ensino. A continuidade de tal prática implica a sua inserção em outros espaços pedagógicos, para isso, poderá ser feito uso de outros instrumentos pedagógicos, ou, para diminuir o número de textos, a escrita poderá ser realizada com apenas um dos instrumentos que foram utilizados, apesar das suas especificidades. Algumas alternativas podem ajudar a contornar a questão do tempo que o professor dispõe em função de números de alunos, número de turmas e outras implicações inerentes a sua realidade, para a reescrita e orientação, por exemplo, podem ser selecionados apenas alguns dos textos produzidos pelos estudantes. A sua discussão e reescrita pode, ser encaminhada na própria aula. A reescrita pode ser realizada individualmente ou em grupos de estudantes previamente selecionados com atenção para as necessárias assimetrias. A resposta selecionada para a reescrita pode tanto ser de uma questão de aula, como uma questão de prova desde que a sua reescrita seja orientada de maneira qualificada. Nos espaços de ensino, sejam em escolas, em universidades, é importante (re)assumir o papel da escrita para o desenvolvimento cognitivo do sujeito. Oportunizar que os estudantes escrevam e reescrevam, num processo mediado, 212 é condição para a apropriação e a significação da LCE. Para isso ressalto a importância do posicionamento, do comprometimento de todos os sujeitos envolvidos na prática pedagógica. Com esse direcionamento são possíveis mais alguns questionamentos: Como é o posicionamento do professor em sala de aula frente ao não comprometimento dos estudantes? Quais as alternativas pedagógicas que possibilitam um maior comprometimento do estudante? A escolha dos estudantes universitários, por um determinado curso, apresenta qual motivo principal? Como e quais são as alternativas para tornar o estudo a atividade principal no atual contexto social? Na pesquisa foi possível evidenciar que a significação conceitual é possível pelo uso qualificado da linguagem química. E que esse processo inicia pela apropriação da linguagem e vai qualificando-se pelas interações discursivas favoráveis estabelecidas. Em todo esse processo de significação conceitual foi possível identificar e compreender que é fundamental tanto a mediação constante do professor como, também a contrapartida do estudante. O que, por sua vez, retrata a importância de ampliar investigações que contemplem aspectos das interações discursivas estabelecidas em sala de aula, com atenção, tanto para a linguagem e para a sua significação como para a mediação do professor e para o posicionamento do estudante. 213 REFERÊNCIAS ARAGÃO, R. M. R. Memórias de Formação e Docência: Bases para Pesquisa Narrativa e Biográfica. In: CHAVES, S. N.; BRITO, M. dos R. de (orgs.). Formação e docência: perspectivas da pesquisa narrativa e autobiográfica. Belém: CEJUP, 2011, p. 13-35 BARBOSA, J. G.; HESS, R. O diário de pesquisa: o estudante universitário e seu processo formativo. Brasília: Liberlivro, 2010, 103p. BAKHTIN, Mikhail M., Estética da Criação Verbal. Trad. Paulo Bezerra. 5. ed. 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