ANAIS DIMENSÕES COMPETITIVAS DE RECURSOS HUMANOS APLICADAS À GESTÃO DE UMA EMPRESA PÚBLICA DE PESQUISA E DESENVOLVIMENTO ODEMILSON FERNANDO SENTANIN ( [email protected] ) ESCOLA DE ENGENHARIA DE SÃO CARLOS - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FERNANDO CÉSAR ALMADA SANTOS ( [email protected] ) ESCOLA DE ENGENHARIA DE SÃO CARLOS - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Resumo: Este artigo objetiva apresentar a importância do papel estratégico da área de recursos humanos nas organizações e discutir quais as mudanças estratégicas ocorridas na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, quais seus impactos para a gestão de Recursos Humanos e com qual intensidade as dimensões competitivas de recursos humanos foram aplicadas na empresa. Analisam-se a gestão da cultura organizacional, a aprendizagem organizacional e o trabalho em equipe, associados aos cenários externos da organização desde sua criação. O estudo realizado aponta para a necessidade de desenvolvimento de ações voltadas à área de recursos humanos e à gestão de sua cultura organizacional. Palavras-chave: Mudança organizacional; Aprendizagem organizacional; Trabalho em equipe; Cultura organizacional; Pesquisa e desenvolvimento; Recursos humanos. 1. Introdução Ainda é muito comum nas organizações a visão da gestão de pessoas ou recursos humanos como um sistema fragmentado, com entendimentos parciais sobre seu significado e sua importância estratégica. No entanto, dentro de uma visão sistêmica e para que as organizações possam atingir um desenvolvimento competitivo e sustentável, a área de recursos humanos deve ocupar um papel estratégico dentro dessas organizações, alinhando-se aos objetivos da organização, deixando de ser apenas uma área funcional e transformando-se em um fator estratégico para o crescimento da organização. Se antes, a área de recursos humanos consistia em uma série de atividades burocráticas, ao se definir recursos humanos como uma área estratégica para as organizações, torna-se imprescindível que existam ações estratégicas de seus gestores que possibilitem à organização internalizar junto aos seus funcionários e gerentes os objetivos propostos dessa organização. Sentanin (2004) assevera que essa internalização terá os resultados desejados se houver conscientização das pessoas sobre o trabalho em equipe e uma mudança cultural dos funcionários e gestores da organização envolvidos no processo. Em continuidade, uma efetiva gestão de recursos humanos como elemento estratégico do negócio, exige de seus profissionais uma compreensão aprofundada dos negócios e 1/15 ANAIS capacidade de descentralização das decisões sobre atividades tradicionais para pessoal de linha das unidades de negócios. Lipiec (2001) ressalta, ainda que levando-se em consideração a evolução da função de recursos humanos para um nível estratégico, os gerentes dessa área devem contribuir de forma contundente para os resultados e desenvolvimento da organização, por meio de uma visão holística da organização, alinhando estrategicamente suas atividades ao negócio, desenvolvendo centralmente suas competências em função das mudanças do ambiente. Entretanto, esse processo evolutivo da área de recursos humanos, transformando-se de uma área operacional para uma área estratégica, tem sido o grande desafio das organizações. Muitas empresas apresentam sua área de recursos humanos orientada estrategicamente, mas efetivamente não conseguem traduzir em ações práticas que reflitam seu papel estratégico, principalmente porque deixam de considerar alguns propósitos relevantes e determinantes para a transformação da área de recursos humanos. Santos (1998), a partir da compreensão das bases da gestão estratégica de negócios, define o trabalho em equipe, a aprendizagem organizacional e a cultura organizacional como os principais propósitos estratégicos ou dimensões competitivas da gestão de recursos humanos determinantes para o sucesso das organizações em termos sustentáveis em um ambiente em constante mudança e cada vez mais complexo. As organizações públicas também estão inseridas nesse processo de transformação organizacional e, devido às suas particularidades que as diferem das empresas privadas, têm formulado suas estratégias buscando manterem-se competitivas. Para Brito (2000), especificamente nas empresas púbicas de pesquisa e desenvolvimento, o principal fator que tem levado a esta reorientação estratégica é a tendência de o Estado reduzir progressivamente a sua participação no financiamento das atividades de pesquisa, obrigando essas empresas a buscarem novas fontes de custeio para suas pesquisas. Essas mudanças estimularam as empresas a institucionalizar práticas de gestão e definir suas estratégias de médio e longo prazo para manterem-se competitivas. Com base nesta análise, este artigo propõe-se a apresentar os aspectos teóricos sobre a importância do papel estratégico da área de recursos humanos nas organizações, bem como discutir quais as mudanças estratégicas ocorridas na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, quais seus impactos para a gestão de Recursos Humanos e com qual intensidade as dimensões competitivas de recursos humanos foram aplicadas na empresa, considerando suas especificidades de uma empresa pública de pesquisa e desenvolvimento. A presente pesquisa foi realizada no período de 2007 e 2008, sendo o estudo de caso realizado por meio da análise de documentos e relatórios de entrevistas relacionadas ao tema com gerentes e funcionários da empresa e, também a própria participação de um dos autores deste artigo nas atividades e discussões sobre o planejamento estratégico e ambiente interno da empresa pesquisada. 2. Revisão de literatura Considerando os objetivos apresentados neste trabalho, será apresentada uma revisão da literatura sobre as principais mudanças estratégicas ocorridas nas organizações, quais os impactos dessas mudanças para as organizações e para a gestão de recursos humanos. Finalizando, são apresentadas as dimensões competitivas de recursos humanos que possibilitam a esta área tornar-se estratégica para uma organização. 2/15 ANAIS 2.1. Mudanças estratégicas nas organizações Para fazer face à crescente competitividade, cumprir novas leis ou regulamentações, introduzir novas tecnologias ou atender a variações nas preferências de consumidores ou de parceiros, as organizações estão sendo obrigadas a mudar rápida e constantemente (HERNANDEZ e CALDAS, 2001). Gonçalves (1998) destaca que, embora sejam muitas as abordagens com que o tema mudança organizacional tem sido tratado por estudiosos da área organizacional, parece haver um consenso entre os autores quanto ao fato de que as alterações do ambiente externo têm forçado as organizações a promoverem mudanças em seus sistemas de gestão com freqüência e velocidade cada vez maiores. Essa mudança, imposta pelo ambiente competitivo, força as organizações a adequarem seus modelos de gestão a essa nova realidade, alinhando seus processos, suas competências e sistemas de informação aos objetivos estratégicos da empresa. Robbins (2002) apresenta seis forças específicas que estimulam a mudança: a natureza da força de trabalho, a tecnologia, os choques econômicos, a competição, as tendências sociais e a política internacional. Nesse contexto, essas mudanças podem ser inseridas em uma organização por meio de quatro categorias: • • • • mudar a estrutura, envolve alterações nas relações de autoridade, mecanismos de coordenação e replanejamento do trabalho; mudar a tecnologia, significa mudança na maneira pela qual o trabalho é realizado e a introdução de novos equipamentos, ferramentas ou métodos operacionais para a realização desse trabalho; mudar as instalações físicas, envolve mudanças no arranjo físico do espaço de trabalho, como de instalação de equipamentos, alterações de divisórias e paredes; mudar as pessoas, refere-se à modificação de atitudes, habilidades, expectativas, percepções e comportamentos dos funcionários de modo que esses trabalhem mais efetivamente em conjunto. A grande dificuldade em uma mudança organizacional reside na complexidade da tarefa de convencer todo um coletivo de indivíduos a acreditar nos benefícios da mudança e conseguir retirá-lo de sua zona de conforto para uma outra lógica de atuação com novos valores, propósitos, processos, sistemas e conhecimentos (KOTTER, 1996). 2.2. Impactos das mudanças estratégicas nas organizações e na gestão de RH As constantes mudanças ocorridas no ambiente refletem diretamente no contexto organizacional. As organizações são forçadas a se ajustarem rapidamente ao ambiente para manterem-se competitivas. Suas estratégias devem ser revistas e ajustadas ao cenário interno e externo pelos quais a organização está passando. Por consequência, todas as áreas da organização também são reformuladas. A área de recursos humanos, por sua vez, também necessita de ajustes principalmente, objetivando apoiar-se em um modelo estratégico de negócios com participação mais atuante no processo estratégico. Em função das mudanças ocorridas no ambiente e baseando-se na gestão estratégica de recursos humanos, Ubeda (2003) destaca a importância do monitoramento do desempenho 3/15 ANAIS como uma tecnologia importante para identificar as competências das empresas, tanto organizacionais como individuais. Segundo Brandão e Guimarães (2001, p.14), “mais que tecnologias independentes ou distintas, a gestão de competências e a de desempenho parecem complementar-se em um contexto mais amplo de gestão organizacional”. A necessidade de associar o desempenho ou as competências humanas ao desempenho ou às competências da organização como um todo faz com que as duas tecnologias estejam inseridas em um contexto de gestão estratégica de recursos humanos, entendida como a função de atrair, desenvolver e manter o pessoal necessário para atingir os objetivos organizacionais (TAYLOR, BEECHLER e NAPIER, 1996), bem como integrar os subsistemas de recursos humanos (gestão de carreira, remuneração, recrutamento e seleção, treinamento e desenvolvimento, entre outros) e a estratégia organizacional (BRANDÃO e GUIMARÃES, 2001). Zarifian (2001) destaca que algumas condições são determinantes para garantir um vínculo entre as implicações estratégicas de um organização e a mobilização das competências: • Visibilidade das implicações estratégicas da empresa para que se definam os grandes campos de competências e as principais competências que a empresa pretende privilegiar, para que as atribuições e prioridades da chefia sejam planejadas e para que cada indivíduo possa dar sentido ao seu trabalho tendo pleno conhecimento de suas implicações estratégicas; • Vínculo entre “desempenho local” e “desempenho global”, pois ser competente é necessário agir localmente tendo a preocupação e visão dos efeitos globais; • Capacidade de julgar e decidir empiricamente em situação concreta e imediata; • Melhoria contínua e procedimentos de progresso, tendo em vista que o dinamismo das organizações implica que as competências existentes sejam sobrepostas por novas competências que objetivam melhoria contínua no desempenho. O estilo das competências consta tanto do conhecimento das empresas (ações estratégicas de longo prazo) como das habilidades, a capacidade do empregado em realizar as atividades para as quais foi treinado (atividades táticas e operacionais) (BATALHA, 2005). 2.3. Dimensões competitivas de Recursos Humanos Dentro do cenário atual, a competitividade das empresas passa a ser determinada pela sua capacidade de crescer frente aos concorrentes internacionais, o que envolve tanto a construção de um conjunto de políticas públicas, como a obtenção de ganhos contínuos de eficiência por parte dos agentes envolvidos no processo organizacional (BATALHA et al., 2005). As propostas para obtenção de vantagem competitiva sustentável parecem caminhar em uma mesma direção: gestão estratégica de recursos humanos, gestão de competências, acumulação do saber e gestão do capital intelectual. Nessas proposições, a ênfase nas pessoas passa a ser um recurso determinante para o sucesso organizacional, uma vez que a busca pela competitividade impõe às empresas a necessidade de contar com profissionais altamente capacitados e aptos a fazer frente às ameaças e oportunidades do mercado (BRANDÃO e GUIMARÃES, 2001). 4/15 ANAIS A comunicação da estratégia aos funcionários de uma organização é pré-requisito para o sucesso da estratégia de negócios. Da mesma forma a clara identificação dos objetivos estratégicos é uma pré-condição para a organização ser capaz de traduzi-la em metas de desempenho. Para Mabey e Salaman (1995), se a organização não for capaz de explicitar sua estratégia, ela não será capaz de identificar as dimensões de desempenho específicas que proporcionarão a consecução de suas metas estratégicas. Nesse sentido, a partir da clara compreensão das bases estratégicas de negócios, cada área da organização deverá identificar as prioridades ou dimensões competitivas (SANTOS, 1998) que possam contribuir para que a organização obtenha vantagem competitiva em seus respectivos mercados. Para a área de recursos humanos, Santos (1998) define os principais propósitos ou dimensões competitivas, conforme apresentadas no Quadro 1: • Constituição de redes de trabalho que possibilitem a integração de competências, habilidades e tecnologias em competências essenciais relacionadas às vantagens competitivas da estratégia empresarial; • Renovação de competências profissionais de seu corpo de funcionários como um todo, que constitui a aprendizagem organizacional, viabilizando a criação de um ambiente propício à mudança; • Gestão da cultura organizacional, enquanto concepção e monitorização de valores organizacionais que sirvam para orientar e coordenar o trabalho dos vários especialistas profissionais e das respectivas equipes, ao invés de se buscar qualquer outro tipo de padronização dos procedimentos de trabalho. Quadro 1 - Dimensões competitivas da estratégia de recursos humanos. CONSTITUIÇÃO DE REDE DE TRABALHO BASEADA EM EQUIPES • Formação de equipes ad-hoc com base em objetivos e propósitos estratégicos; • Necessidade de interfuncionalidade; • Agrupamento funcional e por mercado das unidades organizacionais; • Horizontalização organizacional; • Formação de equipes voltadas para competências essenciais; • Reformulação contínua dos processos de trabalho das equipes. APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL • Compreensão do ambiente competitivo e da empresa com base no raciocínio sistêmico; • Aumento da capacidade decisória dos funcionários; • Renovação contínua dos modelos mentais, individuais e de grupos; • Compartilhamento de visão e de informação; • Renovação contínua do domínio pessoal dos especialistas profissionais; • Relacionamento profissional baseado na confiança mútua; • Experiência concreta e vivência ativa nos processos de negócios; • Nivelamento da importância das áreas funcionais; • Adequação de teorias, conceitos e modelos à prática organizacional. GESTÃO DA CULTURA ORGANIZACIONAL • Valores essenciais ligados às vantagens competitivas; • Negociação dos valores essenciais pelos funcionários; • Adaptabilidade das culturas organizacionais; • Ajustamento mútuo como forma de coordenação do trabalho baseado em valores organizacionais; • Necessidade de monitoração da cultura por meio de pesquisas de clima organizacional. Fonte: Santos (1999, p.43). 5/15 ANAIS As redes de trabalho caracterizadas pelas equipes da organização configuram-se em grupos cujos “esforços individuais resultam em um nível de desempenho maior do que a soma das entradas individuais” (ROBBINS, 2002, p.250). Ostroff e Smith (1992) destacam que tornar um grupo de trabalho uma equipe é um processo complexo. Uma real equipe, em oposição a um mero grupo de indivíduo com obrigações comuns, usualmente é constituída por pessoas com habilidades complementares, comprometidas com um propósito comum e com metas de desempenho específicas e mensuráveis para as quais mantêm responsabilidades mútuas. Casey (2005) assume as organizações como um sistema complexo de ação social e, sociologicamente, define aprendizagem organizacional como um sistema de ação organizacional que possui quatro subsistemas interrelacionados responsáveis pelo seu desenvolvimento: adaptação (interface ambiental) que leva informações ao sistema; realização de metas (ação-reflexão) que consiste em atividades usadas para acompanhar os objetivos do sistema de aprendizagem; integração (disseminação-difusão) que associa as ações de transferência de informações e conhecimentos às necessidades de outros subsistemas; e manutenção que fornece a memória e o significado coletivo ao sistema. Bastos, Gondim e Loiola (2004) destacam que os conceitos sobre aprendizagem organizacional estão diretamente associados às mudanças culturais, cognitivas e comportamentais. A cultura organizacional, como tratada por Robbins (2002), significa uma “percepção comum de valores compartilhada pelos membros de uma organização”, tem grande importância para análise das situações do dia-a-dia nas organizações, no entanto, passa desapercebida, com pouca visibilidade para as pessoas que estão inseridas no contexto organizacional pois seu processo de criação e desenvolvimento pressupõe valores que se consolidam ao longo do tempo e são resultantes de uma realidade histórica socialmente construída (GUIMARÃES, 2004). “O que está visível é apenas parte da cultura organizacional, talvez seja até a parte menos importante. O que governa o dia-a-dia das organizações está embutido nas pessoas, faz parte delas, que assumem que aquilo em que elas acreditam é sim a cultura da organização, mesmo que algumas vezes essa crença não seja exatamente a cultura oficial” (CRUZ, 2003, p.116). A caracterização das dimensões estratégicas de recursos humanos possibilita uma melhor compreensão da importância dessas dimensões para o desempenho das organizações, entretanto, Santos (1998) ressalta que não existem limites definidos entre elas, pois se complementam e se sobrepõem no contexto organizacional. 2.4 Gestão de Recursos Humanos em empresas públicas Do ponto de vista das organizações públicas, Vigoda-Gadot e Meiri (2008) destacam que há uma percepção consensual de que a nova abordagem de administração pública integra conhecimentos interdisciplinares e experiências adquiridas em gestão de negócios e outras disciplinas que aumentam o seu desempenho. Para Soni (2004), o gerenciando estratégico de recursos humanos envolve uma ligação direta entre as estratégicas de recursos humanos com as estratégias da organização e, para que isso ocorra, as organizações públicas devem: adotar algumas ações de planejamento de recursos humanos e desenvolver ferramentas flexíveis de recrutamento, treinamento e remuneração dos empregados; determinar suas competências internas e então definir se investirá internamente para conseguir novas competências ou contratará serviços do setor 6/15 ANAIS privado; por fim, deve possuir um sistema de carreira que reconheça os méritos e proporcione desenvolvimento aos funcionários. No entanto, para Pichault (2007), grande parte dos problemas encontrados no gerenciamento de recursos humanos das organizações públicas está na falta de coerência entre as reformas internas das práticas de recursos humanos, em especial no que se refere ao planejamento e implantação no âmbito interno das organizações. Na visão de Lotta (2002), o funcionário da área pública deve possuir um direcionamento para as ações, marcado pelo propósito de realizar, bem como, assumir responsabilidades, deixando de ser um sujeito indiferente às decisões dentro da organização. Pires e Macedo (2006) relacionam algumas especificidades que são acrescidas às organizações públicas em relação às características básicas das demais organizações como: apego às regras e rotinas, supervalorização da hierarquia, paternalismo nas relações, apego ao poder. Tais diferenças são importantes na definição de processos internos, na relação com inovações e mudança, na formação dos valores e crenças organizacionais e elaboração de políticas de recursos humanos. “Os gerentes do setor privado têm maior flexibilidade econômica e financeira de conduzir sua força de trabalho através de um ambiente turbulento do que os gerentes do setor público. A flexibilidade econômica possibilita aos gerentes do setor privado alocar recursos estrategicamente para treinamento e melhoria de desempenho enquanto o gerente do setor público não tem esta flexibilidade tendo em vista que, freqüentemente, tem que responder às normas legislativas e jurídicas” (HAREL e TZAFRIR, 2001, p.324). Essas diferenças apresentadas por Pires e Macedo (2006) e Harel e Tzafrir (2001) demonstram claramente a necessidade de ações estratégicas que possibilitem às empresas públicas definir como utilizar e associar as dimensões competitivas de recursos humanos propostas por Santos (1998), dentro das especificidades de uma empresa pública. Neste contexto, Brandão e Guimarães (2001) alertam que o desafio das organizações públicas está relacionado à utilização de tais instrumentos associados a práticas de aprendizagem coletiva, desenvolvimento de equipes e gestão do conhecimento, dentre outras, que ofereçam múltiplas oportunidades de crescimento profissional e estimulem as pessoas não apenas a desenvolver coletivamente competências mas também a compartilhá-las de maneira a contribuírem para o alcance dos objetivos estratégicos da organização. 3. Estudo de Caso O estudo foi realizado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, instituição de pesquisa e desenvolvimento vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, criada em abril de 1973. A empresa está sob a coordenação do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária – SNPA e tem como missão “viabilizar soluções de pesquisa, desenvolvimento e inovação para a sustentabilidade da agricultura, em benefício da sociedade brasileira” (Embrapa, 2008a). Por meio da análise de documentos e relatórios apresentados pela empresa, entrevistas relacionadas ao tema com gerentes e funcionários da empresa, e também a própria participação do pesquisador nas atividades e discussões sobre o planejamento estratégico e ambiente interno da empresa pesquisada, este artigo objetiva avaliar quais as mudanças estratégicas ocorridas na Embrapa, quais seus impactos para a área de Recursos Humanos e com qual intensidade as dimensões competitivas de recursos humanos foram aplicadas na empresa. 7/15 ANAIS A presente pesquisa, ocorrida no período de 2007 e 2008, apresenta os resultados parciais de uma investigação associada à pesquisa de doutorado realizada em conjunto pelos autores deste artigo. 3.1. Mudanças estratégicas na Embrapa As organizações públicas de pesquisa e desenvolvimento, especificamente a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa têm formulado suas estratégias buscando competitividade sustentável, por meio de um processo estruturado de aprendizagem organizacional que tem como referência principal o planejamento e gestão estratégica baseados em cenários (EMBRAPA, 2008a). Criada em 1973 com o objetivo de fortalecer e reestruturar o sistema de pesquisa agropecuária brasileiro, a Embrapa, inicialmente, concentrou seus esforços em programas de capacitação de recursos humanos, criou seus centros nacionais e fortaleceu sua infra-estrutura física de pesquisa, principalmente em termos laboratoriais. A partir de 1988, com o objetivo de modernizar sua gerência e definir rumos e direcionamentos institucionais de médio e longo prazos como forma de acompanhamento das mudanças do ambiente externo, a Embrapa vem exercitando o planejamento estratégico por meio da elaboração e implementação de seus Planos Diretores, para a Empresa (PDE) e suas Unidades Descentralizadas (PDU’s). O Quadro 2, a seguir, apresenta os cenários organizacionais pelos quais a Embrapa vem passando, destacando-se a mudança ocorrida na empresa a partir de 1988, quando iniciou-se o exercício de planejamento estratégico como conseqüência das grandes mudanças ocorridas no ambiente ao qual a empresa estava inserida. Quadro 2 - Cenários organizacionais da Embrapa. Período Cenários organizacionais da Embrapa Formação e consolidação da empresa; Criação e desenvolvimento de seus recursos humanos; Disponibilidade de recursos financeiros para o desenvolvimento de projetos. Elaboração e implementação do I Plano Diretor; Modernização da gestão empresarial; Aplicação do planejamento estratégico; Foco no resultado. Elaboração e implantação do II Plano Diretor; Análise de cenários globais; Redefinição da missão e visão da empresa; Implantação de projetos estratégicos para estruturar e dar consistência ao modelo de gestão; Definição de uma política global da Empresa composta por pesquisa e desenvolvimento, negócios e comunicação empresarial. • Elaboração e implantação do III Plano Diretor; 1999 a 2003 • Foco no cliente; • Estrutura por processos e projetos. • Elaboração e implantação do IV Plano Diretor; • Adoção de estratégias de transferência de conhecimentos e tecnologias, utilizando processos de incubação de empresas; 2004 a 2007 • Construção de redes de transferência de conhecimento e tecnologia, envolvendo empresas públicas e privadas de pesquisa e desenvolvimento; • Desenvolvimento profissional por meio de capacitações técnicas e estratégicas; • Criação e aprimoramento de mecanismos de captação de recursos junto a iniciativa privada Fonte: Complementação de Ubeda (2003, p.69). • Década de 70 • • • • 1988 a 1992 • • • • • 1994 a 1998 • • 8/15 ANAIS De acordo com o relato de entrevista de um ex-presidente, “o objetivo central do processo de reorientação estratégica foi fazer crescer, no interior da cultura organizacional, uma nova compreensão sobre a sustentabilidade institucional que não fosse mais baseada em elos políticos frágeis, mas em uma maior interação entre a organização e seus clientes, beneficiários ou usuários” (BRITO, 2000, p.106). A globalização do mercado e as políticas impostas pelo Estado, com a diminuição da participação no financiamento das atividades de pesquisa, obrigou as empresas públicas a buscarem novas fontes de recurso para o custeio de suas pesquisas. Para obter esses recursos, as organizações públicas de pesquisa passam a concorrer entre si e, até mesmo, com empresas do setor privado, sendo necessária a criação de estratégias que consolidem parcerias com a iniciativa privada e agências de fomento, na busca de financiamentos para o desenvolvimento das pesquisas. 3.2. Impactos das mudanças estratégicas na Embrapa e em sua gestão de RH Nesse cenário de mudança, a área de recursos humanos também é afetada, sendo necessárias mudanças tanto na estrutura organizacional da área de recursos humanos como no desenvolvimento de competências alinhadas à estratégia da organização. No decorrer de seu planejamento estratégico a Embrapa tem-se mostrado atenta à essas necessidades. Em seu IV Plano Diretor, elaborado em 2004 com vigência até 2007, a empresa definiu suas diretrizes estratégicas para a área de gestão de pessoas buscando valorizar e oferecer oportunidades de desenvolvimento educacional para que as pessoas estivessem aptas a desempenhar, com iniciativa e inovação, seus papéis ocupacionais na Embrapa, enfatizando a necessidade de “adequar o sistema de avaliação de desempenho das pessoas para valorizar a inovação organizacional, o trabalho em rede e outros arranjos coletivos” (EMBRAPA, 2004). O V Plano Diretor (2008-2023), recentemente elaborado, define as estratégias de médio e longo prazo que guiarão a Embrapa na busca de seus objetivos. A empresa define os desafios organizacionais e institucionais que precisam ser superados por meio de suas diretrizes estratégicas e, para superar esses desafios, define estratégias associadas às essas diretrizes (EMBRAPA, 2008a). Para uma de suas diretrizes estratégicas que é atrair, desenvolver e reter talentos técnicos e gerenciais o V Plano Diretor da Embrapa define algumas estratégias e sub-estratégias associadas, como: • Criar mecanismos para atração de talentos e assegurar as condições para seu desenvolvimento e retenção; • Aprimorar, continuamente, a política de gestão de pessoas direcionando-a para o reconhecimento e retenção de talentos; • Orientar a avaliação de pessoas e equipes com foco em resultados e no desenvolvimento na carreira; • Incentivar o trabalho em rede e outros arranjos coletivos. Essas diretrizes e estratégias definidas no V Plano Diretor foram resultados de várias análises de cenários, compreendendo a própria análise de seu ambiente interno, que apresentou alguns aspectos que merecem atenção por parte da empresa no que diz respeito aos 9/15 ANAIS aspectos relacionados à área de gestão de pessoas, tal como a necessidade de um sistema de gestão de desempenho individual, reconhecimento e valorização profissional que viabilize participação mais consciente, motivada e produtiva de cada indivíduo, tendo como base um sistema que contemple suas competências e sua capacidade de trabalhar em equipe, em consonância com os objetivos estratégicos da organização. Em termos organizacionais, a Embrapa vem desenvolvendo ações voltadas a maximizar o envolvimento e maior participação da área de recursos humanos em sua estratégia. Há uma conscientização da alta gerência quanto à importância da área de recursos humanos para a estratégia da organização e da necessidade transformar as áreas de gestão de pessoas de suas unidades em agentes importantes na tomada de decisão. Ações têm sido adotadas com o objetivo de potencializar essa inserção, com capacitações periódicas de seus funcionários envolvidos com a área de gestão de pessoas, enfatizando o papel estratégico que essa área deve ter para a organização. No entanto, apesar do reconhecimento sobre a importância da área de recursos humanos para a elaboração de estratégias constata-se que, na prática, a área de recursos humanos das unidades descentralizadas da Embrapa, está muito voltada para atividades burocráticas e rotineiras, carecendo de desenvolvimento e evolução de um estágio operacional para um cenário estratégico. Algumas causas podem ser citadas com relação à situação anterior. A própria constituição da Embrapa como empresa pública, sujeita às normas e diretrizes governamentais e o número de funcionários aquém das necessidades para a área de recursos humanos, inviabilizando ações mais estratégicas, uma vez que as atividades rotineiras não podem ser desconsideradas em função de responsabilidades trabalhistas e legais da empresa. A falta de autonomia das unidades em relação às políticas de recursos humanos estando, basicamente, dependentes das demandas e diretrizes emanadas do Departamento de Gestão de Pessoas, que é a unidade centralizada da Embrapa responsável pelas políticas e diretrizes de recursos humanos da organização. 3.3.Dimensões competitivas de Recursos Humanos na Embrapa Na busca de diferencial competitivo na área de recursos humanos, as dimensões competitivas – trabalho em equipe, aprendizagem organizacional e cultura organizacional – são detectadas em algumas ações da organização. Com a implementação de ações voltadas a implantação de uma gestão por processos de negócios (SENTANIN, 2004) – um modelo organizacional que privilegia a flexibilidade, o fluxo de informações, a busca de parcerias, a confiança e o compartilhamento de informações – a Embrapa busca fortalecer a integração entre atividades e a constituição de rede de trabalho baseada em equipe, enfatizando a interfuncionalidade e a horizontalização organizacional. Também, por meio de uma metodologia de análise e melhoria de processos, anualmente, as unidades da Embrapa, elegem processos que serão reformulados e reavaliados buscando, com isso, aprimorar esses processos dentro da organização, tornando-os mais eficientes e efetivos em termos de agilidade e estrutura. Em seus editais de chamada para apresentação de projetos de pesquisa a Embrapa também enfatiza a constituição de redes de pesquisas, integrando suas unidades de pesquisa entre si, participação de outras instituições de pesquisa e iniciativa privada. Como destacado por Sentanin (2004), essas ações implementadas pela Embrapa demonstram também que a empresa vêm passando por um momento de transição e 10/15 ANAIS aprendizagem organizacional, com a proposta de implantação desse novo modelo de estrutura organizacional. Ações organizacionais como a elaboração e implementação dos Planos Diretores a partir de 1988, análise dos cenários globais, definição de políticas de pesquisa e desenvolvimento, negócios e comunicação empresarial, foco em resultado e no cliente, construção de rede de conhecimentos demonstram a preocupação da Embrapa com a evolução do ambiente ao qual a organização está inserida e, como conseqüência demonstra uma aprendizagem da organização, forçando seus funcionários e gestores a se adaptarem à nova realidade apresentada pela empresa. Com a implantação do plano de desligamento incentivado (PDI) a partir de 2006, muitos funcionários da Embrapa estão desligando-se da Empresa. Aliado às novas contratações que estão sendo realizadas, verifica-se uma renovação do quadro de funcionários com novas mentalidades e visões organizacionais. Como conseqüência dessa renovação a própria cultura organizacional também está se adaptando à nova realidade. Como exemplo, destaca-se que nos últimos concursos realizados a empresa tem buscado contratar funcionários capacitados, ao contrário do que ocorreu em sua criação, quando os funcionários foram formados dentro da empresa. Pesquisas de clima organizacional também foram realizadas na Embrapa. Na década de 90 foram realizados três estudos sobre Clima Organizacional (1996, 1998 e 1999). Na última pesquisa realizada em 2005, foram verificados treze fatores que impactam no clima organizacional: conduta ética, sistemas de reconhecimento, documentos orientadores, comunicação interna, liderança, capacitação, remuneração, imagem da empresa, percepção da unidade, organização do trabalho, relacionamento, motivação e participação (EMBRAPA, 2008b). Como conseqüência dessa pesquisa de clima organizacional, a Embrapa implantou ações corporativas relacionadas à área de gestão de pessoas como (EMBRAPA, 2008b): • Reestruturação do processo de avaliação de desempenho – SGD; • Aprovação do Plano de Carreiras da Embrapa – PCE; • Reestruturação da área de comunicação interna; • Capacitação de chefes e supervisores; • Atualização do treinamento introdutório aos recém-contratados; • Implantação da Comissão de Ética; • Criação de um box com informativos sobre os diversos produtos desenvolvidos pelo Departamento de Gestão de Pessoas. Em 2009 está prevista uma nova pesquisa de clima organizacional e, para tanto a Embrapa está realizando workshops relacionados ao temas com a participação de representantes de todas as Unidades Descentralizadas e Centrais para que possam ser definidas as diretrizes e metodologia para aplicação e análise dos resultados obtidos, tanto em nível local como em nível corporativo. Essas ações implementadas pela empresa demonstram que as dimensões competitivas de recursos humanos propostas por Santos (1998) estão sendo aplicadas em sua gestão, constituindo-se em uma aprendizagem para a Embrapa na busca de vantagem competitiva sustentá 11/15 ANAIS 4. Resultados e discussões Obterão vantagem competitiva sustentável as empresas que conseguirem planejar e estruturar sua estratégia adaptando-a frente às constantes mudanças ocorridas no ambiente competitivo, de forma a conseguirem implementá-la de forma efetiva na busca de melhores posições. No caso da Embrapa, está clara a preocupação com esse novo ambiente quando, a partir de 1988, a empresa começou a exercitar e implementar seus planos diretores, a fim de se manter competitiva. Na área de gestão de pessoas, conforme mencionado por Leitão (2006), a Embrapa encontra-se em um momento de transição de seu quadro de pessoal, onde parte da sua expertise desenvolvida, particularmente seus pesquisadores, encontra-se no momento de carreira próximo a aposentadoria, com um percentual significativo de profissionais em processo de desligamento da empresa. Esse fato indica a necessidade do desenvolvimento e aplicação de estratégias e/ou ferramentas que auxiliem na busca de competências internas que minimizem os impactos negativos dessa situação. Apesar de várias ações da empresa enfatizando a importância da área de gestão de pessoas como um parceiro estratégico, verifica-se fortemente sua ligação com uma mentalidade funcional e operacional, prendendo-se às rotinas burocráticas e legais, necessitando com isso de ações internas que valorizem e transformem a área de recursos humanos como participante ativo das decisões estratégicas da Embrapa, principalmente no que diz respeito às suas Unidades Descentralizadas. No entanto, para que essa internalização tenha os resultados desejados, é de grande importância a conscientização das pessoas envolvidas no processo e, principalmente, que saibam qual seu papel dentro desse novo modelo organizacional. Outro fator importante para essa mudança organizacional na Embrapa ser efetiva e conseguir os resultados planejados é a conscientização da alta gerência – não somente em nível corporativo mas, principalmente, em termos de unidades – quanto à importância dessas mudanças, pois não basta os funcionários estarem motivados, é necessária, também, essa proatividade em termos gerenciais. Para que isso efetivamente ocorra, é necessária uma mudança cultural dos funcionários envolvidos nesse processo, aprendizagem constante por parte da organização e que seja enfatizado o trabalho em equipe de modo que as pessoas deixem de ver suas atividades isoladamente e passem a percebê-las como parte integrante de um todo dentro da organização. Esta afirmação é corroborada por Mendes e Guimarães (2002) que enfatizam os aspectos comportamentais como um fator determinante para o sucesso na condução do processo de reestruturação das unidades de pesquisa da Embrapa. Especificamente, com relação às dimensões competitivas de recursos humanos definidas por Santos (1998) e apresentadas no Quadro 1, conclui-se a o trabalho em equipe é a dimensão mais consolidada e formalizada na Embrapa com a formação de equipes específicas, responsáveis por projetos baseados em objetivos e propósitos estratégicos, agrupamento e definição de suas unidades organizacionais de acordo com o mercado e as características regionais e locais e a busca da horizontalização organizacional – com a redução dos níveis hierárquicos – e interfuncionalidade com a ênfase na gestão de seus processos de negócios. A dimensão da aprendizagem organizacional ocupa um nível médio de implantação e formalização. Apesar da compreensão do ambiente competitivo em que está inserida, como 12/15 ANAIS parte de um sistema amplo de pesquisa e desenvolvimento, juntamente com outras instituições de pesquisa, iniciativa privada e agências de fomento, e também, da sua preocupação com a melhoria dos processos de negócios, a Embrapa necessita de estratégias que possibilitem o aumento da capacidade decisória de seus funcionários, principalmente de suas áreas de apoio, para que possam participar ativamente das equipes gestoras de negócios e, como conseqüência das experiências concretas e da vivência ativa nos processos, possam repensar o modo como colaborar mais efetivamente para a estratégia da organização. A participação das áreas funcionais na estratégia da organização implicará um nivelamento da importância dessas áreas, possibilitando uma maior integração com as áreas de pesquisa e desenvolvimento e comunicação na elaboração e análise de viabilidade de seus projetos de pesquisa. Com a implantação do programa de desligamento incentivado, torna-se necessário que a Embrapa intensifique ações na busca de mecanismos para fazer com que a informação e o conhecimento tácito adquirido por esses funcionários que estão prestes a se desligarem da organização, permaneçam dentro da empresa para que possam ser utilizados de forma explícita no desenvolvimento de novas pesquisas. A cultura organizacional, como dimensão competitiva da gestão de recursos humanos, é um processo pouco formalizado dentro da organização. Os valores estão presentes no planejamento estratégico mas não são formalmente pensados em termos de cultura organizacional. A formalização da cultura possibilitará à empresa oferecer oportunidades de compartilhamento na definição e acompanhamento de seus processos e projetos de pesquisa. Os novos formatos de edital de seleção de concursos públicos, aliados à implantação do programa de desligamento incentivado, estão transformando a cultura organizacional da Embrapa. Os funcionários recém-contratados estão trazendo para a empresa novos modelos mentais e valores essenciais, forçando a organização a adaptar-se à essa realidade. Por outro lado, esses novos funcionários também necessitam a se ajustarem a esse cenário e ambiente organizacional, obrigando, com isso, a empresa e seus funcionários ajustem-se mutuamente na busca de valores essências efetivos para a cultura da organização. As pesquisas de clima organizacional realizadas pela empresa demonstram a preocupação no monitoramento da cultura organizacional e têm apresentado resultados que possibilitam a tomada de decisão e a definição de políticas e diretrizes na busca da efetividade organizacional. A implementação dessas ações mostra, claramente, ser esse o caminho para a criação de um ambiente receptivo à mudança, à redução de resistências e ao maior comprometimento das pessoas ligadas à organização. 5. Conclusões Neste trabalho foi apresentada uma revisão da literatura sobre as principais mudanças estratégicas ocorridas nas organizações e quais os impactos dessas mudanças para as organizações e para a gestão de recursos humanos, confrontando-se esses aspectos teóricos com um estudo de caso realizado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa. Os resultados obtidos demonstram que as mudanças organizacionais ocorridas na Embrapa impactaram a gestão de recursos humanos. 13/15 ANAIS Considerando-se a especificidade da Embrapa, como uma empresa pública de pesquisa e desenvolvimento, estando sua área de recursos humanos sujeita a algumas diretrizes governamentais, torna-se imprescindível que sejam desenvolvidas ações associadas às dimensões competitivas de recursos humanos, como tratadas por Santos (1998), para que sejam aplicadas à gestão da Embrapa de maneira e conseguir manter-se competitiva no cenário do agronegócio. Referências BASTOS, A.V.B.; GONDIM, S.B.G.; LOIOLA, E. Aprendizagem organizacional versus organizações que aprendem: características e desafios que cercam essas duas abordagens de pesquisa. Revista de Administração de Empresas, v.39, n.3, p.220-230, 2004. BATALHA, M.O. et al. Recursos humanos e agronegócio: a evolução do perfil profissional. Jaboticabal: Novos Talentos, 2005. BRANDÃO, H.P.; GUIMARÃES, T.A. 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