“Eu tenho uma grande arma em minhas mãos. Um terço de Nossa Senhora que trago comigo,
diariamente, e rezo!”
© 2013, Miguel Aparecido Teodoro
Revisão: O Autor
Impressão: CETED
A. M. Teodoro, Miguel Aparecido Teodoro, 1956
José Henrique Cortat / Miguel Aparecido Teodoro. Guaçuí, 2013
24p,: 21cm
1. Biografia brasileira I. Título
Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio,
somente com autorização expressa do autor.
E-mail do autor: [email protected]
Agradecimentos:
À Dona Cacilda e seus familiares, pela atenção que dispensaram à minha pessoa; pela
paciência que demonstraram nas diversas vezes que os procurei, buscando informações,
através de fotografias, entrevistas e questionários, cujas respostas se tornaram fulcro da
elaboração e redação deste nosso trabalho, enriquecendo-o largamente.
À senhora Maridalva – responsável pelo Arquivo Geral da Assembléia Legislativa do
Espírito Santo, que gentilmente nos atendeu em nossas solicitações, disponibilizando-nos
valioso arquivo, a fim de que pudéssemos encontrar as informações necessárias e
concluir as nossas pesquisas.
Dedicatória:
Dedico esta singela Biografia de um dos mais ilustres personagens públicos da História
de Guaçui-ES, a todos os estudantes, professores, políticos e ao povo da Pérola do
Caparaó.
Particularmente, dedico aos familiares do senhor José Henrique Cortat, especialmente à
Dona Cacilda.
“O que fazemos na vida ecoa na eternidade” (Máximus Décimus Merilus – General
Romano).
JOSÉ HENRIQUE CORTAT
Nascimento: 30/12/1907
Local: Santa Clara - RJ
Filiação: Pai: Henrique Luiz Cortat
Mãe: Luiza Cândida Cortat
Avós paternos: Henrique José Cortat e Thereza Clemência Cortat
Avós maternos: Francisco Antônio de Araújo e Cândida Maria de Araújo
Bisavós paternos: Henri Joseph Cortat e Catherine Cortat.
Originários de: Chantillon – Cantão: Jura Bernois – Suíça.
Bisavós maternos: originários do Distrito Santa Rita da Floresta – Cantagalo – RJ.
Tronco familiar. Arquivo: SEC/CDH Fonte: Prefeitura Municipal de Nova Friburgo - RJ
Censo de descendentes suíços. Arquivo: SEC/CDH
Fonte: Prefeitura Municipal de Nova Friburgo - RJ
Relação dos filhos de Henrique Luiz Cortat e Luiza Cândida Cortat
Fonte: Arquivo Particular da Família Cortat. Guaçuí - ES
Sinto-me honrado por ter recebido desta academia, a missão de pesquisar e redigir
sobre a vida deste ilustre personagem de nossa história, Sr. José Henrique Cortat, a fim
de que dados sobre sua persona grata sejam imortalizados e, neste momento, solenizada
a sua biografia.
Antes, porém, quero ressaltar que há períodos da história do Brasil para os quais não
faltam definições prontas e acabadas. Consideremos, por exemplo, os dez primeiros anos
da República, que são descritos como um período de acomodação do novo regime, uma
fase marcada pela ascensão oligárquica depois dos mandatos dos militares; período no
qual, em 26 de setembro de 1891, se unia em matrimônio, o casal Henrique José Cortat e
Luiza Cândida.
As primeiras duas décadas do século 20, outro exemplo, transformaram-se no caldeirão
em que ferveram as revoltas anunciadoras do Brasil moderno, que começaria a surgir
com a Revolução de 30.
O que dizer, porém, dessas duas décadas que fazem a ponte entre esses dois
momentos? O Brasil desse intervalo - 1900 a 1920 - não foi um país de contornos nítidos tudo se apresentou um pouco indefinido, como num salão enfumaçado da Belle Époque.
É comum associar os primeiros anos do século 20 às invenções que encantavam a
sociedade urbana, mas para esse traço marcante da história tecnológica e social não há
correspondente na história política.
Naqueles 20 anos do início do século passado, encontram-se tanto resquícios da disputa
típica do início da República como raízes do agito dos anos 20, onde os fatos e os
acontecimentos se faziam ecoar em todos os cantos e recantos deste nosso Brasil, o que
não seria diferente na pequenina Santa Clara do Estado do Rio de Janeiro, em cujo
contexto histórico, político e social, especificamente no dia 30 de dezembro de 1907, o lar
do casal Capitão Henrique Luiz Cortat e Luiza Cândida Cortat é mais uma vez abençoado
e iluminado por Deus com o nascimento de seu sétimo filho. Um menino que foi batizado
com o nome de José Henrique Cortat.
Os primeiros passos da infância ficaram registrados entre a casa da fazenda e a roça,
propriedade de seu pai e avós paternos. Sua infância foi como a infância de todos os
meninos de sua época, não dispensando os rigores educacionais, impingido pelos pais
aos filhos, conforme a educação e os costumes daqueles tempos idos.
Embora tenha sido alfabetizado em Santa Clara-RJ, iniciou seus estudos primários na
cidade de Carangola-MG e os concluiu em Ubá-MG e, posteriormente, cursou a
Faculdade na Escola de Farmácia no Ginásio Municipal Leopoldinense, Leopoldina-MG,
onde se formou no ano de 1927.
José Henrique Cortat – Formando da Escola de Farmácia de Leopoldina –MG
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Retornando à sua cidade natal empreendeu sua primeira farmácia onde exerceu, por sete
anos, o ofício de farmacêutico, particularmente para 80 famílias de colonos de seu avô,
visitando-os, religiosamente em seu cotidiano, não importando a distância. Para tanto,
utilizava um cavalo como meio de transporte.
Entre tantos afazeres profissionais, não esquecia a jovem Maria Aparecida Vargas que
conhecera em Leopoldina, no período em que frequentava a Escola de Farmácia, para
qual escreveu duas belas poesias: As violetas; e, Minhas Orquídeas. Com ela uniu-se em
matrimônio no dia 26 de maio de 1930. Ambos, por mais cinco anos, residiram em Santa
Clara.
José Henrique Cortat e Maria Aparecida Vargas Cortat (26/05/1929)
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Passados quatro anos de vida conjugal, o jovem casal descobriu que não podiam ter
filhos. Assim, ao visitaram a irmã Henriqueta e o cunhado Francisco Viana, pediram-lhes
para que deixassem levar a sobrinha Cacilda, de 04 anos de idade, para ser criada como
se fosse filha deles. Com a permissão de seus pais, Cacilda foi criada pelo casal José
Henrique Cortat e Maria Aparecida Vargas Cortat, que a criaram e a educaram, bem
como, mais tarde, fizeram com Izabel Rosa e Lúcia Pirovani, que os deixaram apenas
após seus casamentos.
Em 1935 mudou-se para Siqueira Campos, onde fundou sua primeira farmácia, a
Farmácia Santa Cruz, que se localizava na Avenida Espírito Santo, onde, hoje, se
encontra a 4ª Ciretran e, em 1937, fundou a Pharmácia Espírito Santo, que atendia na
Praça 25 de Dezembro, na parte inferior do Grande Hotel Minas Gerais.
A 1ª Farmácia.
Farmácia Santa Cruz – Avenida Espírito Santo – Siqueira Campos – ES
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
José Henrique Cortat, apesar de sua sabedoria, competência profissional e dinamismo,
era um homem simples que sabia ler e entender a realidade na qual vivia. Sempre alegre,
nunca desanimava. Profundamente religioso, honesto e sincero, destacando-se pela sua
elegância, pela dedicação à família e ao trabalho. Em sua farmácia, atendia a todas as
pessoas com igualdade e admirável educação, pois com ele, como se fosse um médico,
consultavam-se adultos e crianças. Uma atitude que lhe rendera muitos amigos e
compadres. Fato que o tornou muito popular nos anos quarenta do século passado.
O popular José Henrique Cortat
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Sua popularidade somada à amizade de pessoas influentes como, por exemplo, José
Ferraz, Ozório Marques Joaquim Fernandes, Ucercino Aguiar, Dr. Chiquinho, Juvenal
Nolasco, Padre Miguel de Sanctis, Bento Mendonça, Agenor Thomé, Antônio Siqueira e
tantos outros, lançaram-no como homem público numa campanha eleitoral que o elegeria
como legislador municipal.
Uma vez lançado na vida política, a amizade com Francisco Lacerda de Aguiar – Prefeito
Municipal no Período de 18 de novembro de 1945 a 16 de abril de 1947, levou-o a ocupar,
pela primeira vez, interinamente o mesmo cargo entre os meses de abril a dezembro do
mesmo ano.
Convite da posse do Prefeito José Henrique Cortat
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Nesses meses de governo, José Henrique Cortat, como homem dinâmico, incansável e
progressista, rastreou as necessidades urgentes das quais carecia o município de
Guaçuí. Suas realizações, nesse curto período, são pouco enumeradas, uma vez que
ocupava o cargo interinamente que, como já dissemos, substituía a seu antecessor.
A experiência obtida nesta sua primeira fase de governo o tornaria, mais tarde, um dos
maiores administradores públicos que o povo e a cidade Guaçuí viriam conhecer, pois de
posse das listas de carências, elencadas naquele mandato interino, empreendeu-as,
todas, na administração que lhe seria conferida no pleito eleitoral de 1950, cuja campanha
seria marcada pelo slogan: Incansável e Progressista.
Prefeito José Henrique Cortat
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Em seu governo, inaugurado em 31 de janeiro de 1951 construíram-se a estrada que liga
Guaçuí - ES a Santa Rita do Prata - RJ e, ainda, a ponte que liga Guaçuí a São Tiago, a
ponte da Tremedeira, o Matadouro Municipal, bem como, ao lado do Dr. João Adão
fundou e construiu a Santa Casa de Misericórdia de Guaçuí.
Estrada Guaçuí/ES x Stª Rita do Prata-RJ
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Fez inaugurar em sua gestão o Tiro de Guerra 01-278, o que possibilitou aos jovens a
prestação do serviço militar. Construiu e inaugurou a caixa central de abastecimento de
água tratada, como também, favoreceu a instalação da torre de transmissão de sinal de
televisão – a primeira do interior do Brasil; Promoveu o aquecimento do comércio de café,
fazendo com que na cidade se instalasse onze armazéns compradores do referido
produto; estimulou a construção de fábricas e indústrias e novos comércios, visando atrair
compradores de todas as regiões e estados do Brasil.
Ponte Guaçuí x São Tiago
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Além desses grandiosos feitos em benefício de nossa terra, ampliou, ainda, o Campo de
Aviação e inaugurou a linha aérea entre Rio de Janeiro e Guaçuí, com dois vôos
semanais.
Cristor Redentor – Guaçuí - ES
Neste período a cidade de Guaçuí tornou-se o centro de convergência e o principal pólo
comercial do sul do estado.
Obra do Matadouro Municipal
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
No esporte, o futebol representado pelo Esporte Clube Capixaba, destacou-se a nível
nacional e, na arquitetura, deu-se início à construção do segundo maior monumento do
Brasil: o Cristo Redentor.
Tão logo tendo encerrado o seu mandato, alcançou o reconhecimento do povo pelo qual
tanto trabalhou e, assim, José Henrique Cortat foi eleito, a três de outubro de 1958,
Deputado Estadual do Estado do Espírito Santo, cargo este, que ocupou até o final de
1962.
José Henrique Cortat e Esposa
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Como Deputado Estadual, atuou na 1ª Sessão Ordinária da 4ª Legislatura (Sessões de 4
a 27 de maio de 1959); foi Membro efetivo da Comissão de Finanças, Orçamento e
Tomada de Contas; Membro Suplente da Comissão de Educação, Saúde Pública e
Assistência Social. Em 1961 atuou na 4ª Sessão Extraordinária da 4ª Legislatura (sessões
de 12 a 27 de janeiro 1961). Foi Membro efetivo da Comissão de Economia; Membro
suplente da Comissão de finanças, Orçamento e Tomada de Contas. Destacou-se
como 2º Vice-Presidente Mesa Diretora da 3ª Sessão Ordinária da 4ª Legislatura
(Sessões de 15 a 23 de março de 1961). Ainda neste mesmo ano, atuou na Sessão
Ordinária que aconteceu entre os dias 2 a 27 de outubro. No mesmo período, mais uma
vez, foi nomeado Membro da Comissão de Finanças, Orçamento e Tomada de Contas.
Em 1962, ocupou, pela segunda vez, a cadeira de 2º Vice-Presidente da Mesa Diretora
da 6ª Sessão Extraordinária da 4ª Legislatura realizada entre os dias 01 a 14 de março,
atuando na 6ª Sessão Extraordinária da 4ª Legislatura. Mais uma vez foi nomeado
Membro da Comissão de Finanças, Orçamento e Tomada de Contas.
Como Deputado Estadual, José Henrique Cortat discursou inúmeras vezes, em favor da
educação, pleiteando os direitos das professoras e a aposentadoria dos trabalhadores.
Lutou pela abertura e melhoria de estradas, visando favorecer aos meios de transportes.
Empreendeu esforços para favorecer o homem do campo. Lutou para que não faltasse a
merenda escolar aos alunos do curso primário e defendeu a manutenção da cadeira de
Educação Física em todas as escolas do Estado do Espírito Santo para os alunos da rede
primária de ensino. Defendeu projetos em favor da Saúde e ampliações de hospitais e
enfatizou a importância do saneamento básico.
José Henrique Cortat e Esposa
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Embora, para exercer a função de deputado, não tenha abandonado a profissão com a
qual serviu a tantas pessoas, tão logo terminou o seu mandato, continuou suas atividades
como farmacêutico, sempre muito solícito. Fato interessante a ser destacado neste
contexto, é que trabalhando na farmácia da Santa Casa de Misericórdia de Guaçuí,
doava, religiosamente todos os meses, o salário que recebia para a própria Santa Casa.
Isto é algo de extraordinário e inacreditável! Porém, cabem aqui algumas questões: Em
que forma esse homem foi forjado? Em que berço foi educado? Como é possível um
coração tão desapegado?
Questões, cujas respostas ficarão a cargo do tempo e da história que, em sua escrita,
deixa a desejar quando se trata de uma personalidade com o quilate, o perfil, a
hombridade, a sinceridade e a honestidade de José Henrique Cortat.
José Henrique Cortat a serviço do povo de Guaçuí/ES
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Por isso, sinto-me honrado de estar aqui neste momento, imortalizando-o nesta pequena
biografia, pois em meus pensamentos, recordo-me especificamente daqueles anos
sessenta do século passado, uma vez que as relações de amizade e compadrio que o
unia a meus pais tornara sua presença uma constância em nossa casa, visitando-nos
com frequência, demonstrando o carinho que tinha com minha irmã caçula, sua afilhada.
Residência do Sr. José Henrique Cortat
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
De modo particular, lembro-me dos anos setenta e oitenta, período no qual muitas vezes
pude vê-lo à varanda de sua residência, apreciando as tardes e olhando os transeuntes.
Hoje, em meus devaneios, busco a meditar sobre a existência daquele homem simples,
cujo carisma, popularidade, dedicação profissional, e por ser portador de um coração que
o fazia enxergar, sobretudo, os mais humildes. Tanto é vez que a atenção que nos
dispensava estendia-se também à grande maioria do povo de Guaçuí.
José Henrique Cortat a serviço do povo de Guaçuí/ES
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Senhoras e Senhores, o que fazemos na vida ecoa na eternidade. O que imortaliza um
homem não são somente suas palavras, mas também as suas obras. Indiscutivelmente,
José Henrique Cortat foi um homem que dedicou a sua vida servindo, indistintamente, a
todas as pessoas.
José Henrique Cortat a serviço do povo de Guaçuí/ES
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Assim ele cumpriu a sua missão, servindo de exemplo para cada um de nós. Com
certeza, aquela velha frase dita em um de seus discursos: “Eu tenho uma grande arma
em minhas mãos. Um terço de Nossa Senhora que trago comigo, diariamente, e rezo!”,
Com certeza essa frase, até aquele derradeiro dia 03 de junho de 1985, tenha sido o
suporte no qual buscou pautar o sentido de sua existência em nosso meio.
José Henrique Cortat e Esposa
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Possivelmente, com o objetivo de doar a sua vida, seu conhecimento, seu tempo, sua
razão de ser, para cada um de nós que hoje aqui estamos.
José Henrique Cortat e Esposa
Foto. Fonte: Família Cortat – Guaçuí - ES
Então, só me resta dizer: Meu Deus! Valeu a pena esta vida! Valeu a pena ter conhecido
e convivido com José Henrique Cortat.
O AUTOR
Prof. Miguel Aparecido Teodoro
Mestre em História Social do trabalho
Professor MSC – Historiador – Escritor e Poeta
Residente em: Guaçuí/ES - Bacharel em Teologia pela Escola Diaconal Santo Estevão
Diocese de Cachoeiro de Itapemirim - ES.
Teólogo pelo Instituto de Ciências Humanas João Paulo II/Faculdade Católica de
Anápolis.
Graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Alegre/ES.
Pós-graduado, Lato Sensu, Especialista em Ciências Sociais – História Social pela
Universidade Severino Sombra/Vassouras-Rio de Janeiro.
Pós-graduado, Stricto Sensu.
Mestre em História Social do Trabalho – pela Universidade Severino Sombra/VassourasRio de Janeiro.
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Biografia de José Henrique Cortat