MAIO | JUNHO 2006
04 PERSPECTIVA
10 ENTREVISTA
Sobre a idéia de competência
Com o educador espanhol
por Nílson José Machado
Álvaro Marchesi
14 REFLEXÃO&AÇÃO
Roteiros de estudos e discussão docente
CARO PROFESSOR,
Falar sobre educação é refletir sobre as práticas social, cultural,
política e histórica concretas, intrinsecamente associadas ao processo de construção do conhecimento humano. Dessa perspectiva,
Edições SM vê a escola como um espaço vivo de troca e diálogo,
um centro de aprendizagem e produção de experiências pedagógicas que envolvem novas formas de ensinar e de aprender, articuladas com as necessidades sociais. Por isso, sente-se partícipe de uma
proposta de educação que vai além dos conteúdos educacionais e
que está voltada para a formação integral do aluno.
É com o intuito de possibilitar a formação do professor e de promover a reflexão sobre temas educacionais que Edições SM apresenta a revista Aprender juntos, publicação que aborda dois temas
de grande relevância para a educação no mundo atual: o desenvolvimento de competências e a formação de valores, desafios para a
escola contemporânea.
Aprender juntos é composta de seções como:
Perspectiva, na qual o leitor irá se deparar com grandes nomes da
Educação brasileira debatendo assuntos da atualidade: Luiz Carlos de Menezes discute a importância das competências do professor para formar competências; Nílson José Machado aborda a
idéia que fazemos do que é competência; e Marcos Méier chama
a atenção para a interação professor-aluno como caminho para a
construção de certos valores;
Entrevista com o educador espanhol Álvaro Marchesi;
Reflexão&Ação, seção em que Edições SM apresenta propostas
para a formação de grupos de estudos com professores.
Esperamos que Aprender juntos contribua para a sua reflexão.
Boa leitura!
Borja Basagoiti
Diretor Geral, Edições SM
EDITORIAL
1 PANORAMA
Um caminho a percorrer
PAULO DE CAMARGO
3 PERSPECTIVA
A interação professor-aluno na construção de valores
MARCOS MÉIER
4 PERSPECTIVA
Sobre a idéia de competência
NÍLSON JOSÉ MACHADO
10 ENTREVISTA
Álvaro Marchesi
“Educar é despertar o desejo de saber”
12 PERSPECTIVA
A competência para promover competências
LUIZ CARLOS DE MENEZES
14 REFLEXÃO&AÇÃO
Grandes temas da educação contemporânea
Roteiros de estudos e discussão docente
MAIO | JUNHO 2006
EQUIPE EDITORIAL
Igor Mauro, Inês Calixto, Ilaine Melo,
Ariane Tagliacolli, Paulo de Camargo
COLABORADORES
Nílson José Machado, Marcos Méier,
Luiz Carlos de Menezes,
Inês Calixto, Ilaine Melo
PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO
Alysson Ribeiro, Samuel Oliveira,
Rodrigo Solsona
JORNALISTA RESPONSÁVEL
Paulo de Camargo
mtb 21.671
São Paulo / SP
Rio de Janeiro / RJ
Belo Horizonte / MG
Recife / PE
Tel. 11 3847-8925
Tel. 21 2554-8844
Tel. 31 2102-9813
Tel. 81 3243-5366
Outras localidades Tel. 0800 773 5530
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www.edicoessm.com.br
PANORAMA
POR PAULO DE CAMARGO
UM CAMINHO
A PERCORRER
Competência é o que mobiliza
o conhecimento para enfrentar
uma determinada situação,
é a capacidade de lançar
mão dos mais variados
recursos de forma criativa
e inovadora, no momento
e do modo necessário:
informações, valores,
Desenvolver competências , formar valores: essas
idéias ocupam um espaço cada vez mais central na reflexão dos professores de ensino fundamental e médio.
Tudo porque, em última instância, representam um dos
principais desafios da escola contemporânea: formar
alunos mais do que aptos a dominar determinados conteúdos, capazes de ler e interpretar o mundo e aprender
continuamente. Jovens com comportamento socialmente responsável, cooperativos e solidários.
A antropóloga Margaret Mead (1901-1978), olhando
para os desafios da educação no século xxi, afirmou:
“Chegamos ao ponto em que temos de educar as pessoas naquilo que ninguém sabia ontem, e prepará-las
para aquilo que ninguém sabe ainda o que é, mas que
alguns terão de saber amanhã”.
DIRETRIZES | MEC
As diretrizes do MEC explicitam cinco
competências que os alunos devem
dominar ao final do ensino médio:
domínio de linguagens;
compreensão de fenômenos;
» construção de argumentações;
» solução de problemas;
» elaboração de propostas.
»
»
MATRIZ DE
COMPETÊNCIAS | ENEM
Competência 1 Dominar a norma culta
da Língua Portuguesa e fazer uso das
linguagens Matemática, Artística e Científica.
Competência 2 Construir e aplicar
conceitos das várias áreas do conhecimento
para a compreensão de fenômenos naturais, de
processos histórico-geográficos, da produção
tecnológica e das manifestações artísticas.
Competência 3 Selecionar, organizar,
relacionar dados e informações representados
de diferentes formas para tomar decisões
e enfrentar situações-problema.
Competência 4 Relacionar informações
representadas de diferentes formas
e conhecimentos disponíveis em
situações concretas para construir
uma argumentação consistente.
Competência 5 Recorrer aos conhecimentos
desenvolvidos na escola para a elaboração
de propostas de intervenção solidária na
realidade, respeitando valores humanos e
considerando a diversidade sociocultural.
Escritos de autores influentes como Phillipe Perrenoud, Charles Hadji, Edgar Morin, Antoni Zabala,
Yves de La Taille apontam para a relevância desse
tema, que integra os palcos de reflexão não apenas
no Brasil, mas em todo o mundo. No Brasil o tema
da formação para competências pessoais reverberou
e ganhou espaço ao integrar os Parâmetros Curriculares Nacionais (pcn) e ser objeto de um instrumento
de avaliação específico – o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
De maneira geral, pode-se dizer que o trabalho
sobre o desenvolvimento de competências pessoais
desperta freqüentemente três principais questões:
sua aparente contradição com o trabalho das disciplinas e seus conteúdos; sua articulação com objetivos específicos da sala de aula; e a base de valores
que sustenta esse trabalho.
2
PANORAMA
Para Nílson Machado, é preciso estar atento e desconstruir a idéia de oposição entre disciplinas e competências, comumente divulgada entre os educadores.
De fato, disciplinas e competências não se opõem,
mas se solidarizam. O desafio está em reencontrar o
papel das disciplinas curriculares como meio, e o papel da formação para competências e valores como
o fim da educação. Ao educador cabe a missão de
redescobrir-se mediador nesse processo, considerando
o papel fundamental do conhecimento. Só pode ser
competente uma pessoa que tem conhecimentos.
Ainda na reflexão sobre competências e valores
deparamo-nos com questões como, por exemplo:
uma das competências avaliadas nas provas de Redação do Enem é a elaboração de proposta de intervenção sobre a problemática desenvolvida, mostrando
respeito à diversidade de pontos de vista culturais,
sociais, políticos, científicos e outros. Pergunta-se:
Caso o aluno redija um texto bem-estruturado com
argumentações pertinentes à sua tese, mas defenda
um ponto de vista não politicamente correto, como
será avaliado o seu texto?
Nesse ponto, surge a questão referente à matriz
de valores que sustenta a competência de um aluno.
Há autores que consideram o desenvolvimento de
valores parte indissociável do desenvolvimento de
competências. Segundo Lino de Macedo, professor
do Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo, a sociedade confunde competência com destreza e eficiência, e afirma: “A idéia de competência
pressupõe as duas coisas: a competência técnica e a
dimensão ética”.
Por todas essas questões, é possível dizer que o
trabalho sobre competências e valores oferece aos
educadores de hoje uma rara possibilidade de fazer
parte da história da construção de uma nova visão
de ensino. Afinal, se é certo que o desafio de formar
competências e de trabalhar sobre valores é uma missão intrínseca da escola contemporânea, também é
verdade que se trata de uma caminhada que está apenas começando. E, como escreveu o poeta Antônio
Machado, “o caminho se faz ao caminhar”.
Paulo de Camargo, Jornalista especializado em
Educação, consultor de comunicação e mestre
em Literatura pela Universidade de São Paulo.
MAIO | JUNHO 2006
PERSPECTIVA
POR MARCOS MÉIER
A INTERAÇÃO PROFESSOR-ALUNO
NA CONSTRUÇÃO DE VALORES
Os alunos não desejam um professor “amigo”, da
forma como nós concebemos a palavra. Eles querem
um professor sério, que saiba brincar na hora certa,
bem-humorado, que exerça sua autoridade com segurança e que tenha uma “relação de amizade” com
eles. Amigos, eles têm vários. Autoridades com uma
relação amigável, poucas.
Em muitas salas de aula há um clima generalizado de desmotivação. Muitos alunos não se interessam em aprofundar os conteúdos, realizam apenas
o mínimo necessário para atender às exigências de
“nota” ou de desempenho em cada disciplina e, infelizmente, não criam nada. A falta de motivação é,
curiosamente, um problema de autoridade! Autoridade no sentido de ser autor. Os alunos, em geral,
não são autores. Eles copiam, resumem idéias de outros autores, apresentam sínteses de trabalhos já realizados, estudam teorias criadas por outras pessoas e
especializam-se em dizer o que se espera que digam.
Isso tudo dissipa a motivação, minimiza a criatividade, mantém os alunos na passividade e os ensina a
consumir informações ao invés de gerá-las.
É preciso mudar. É preciso respeitar a inteligência e a criatividade dos alunos. Eles precisam
ser especialistas em suas próprias idéias. Precisam
criar, inovar, criticar propondo soluções, argumentar
e contra-argumentar. Em suma, precisam assumir
sua condição de autores. Para que os alunos deixem
dessa postura passiva e passem a agir, o professor
precisa também mudar sua forma de mediar.
O professor que tem a consciência de seu valor
próprio, de seu conhecimento, de sua personalidade e
de sua própria identidade já construída, não se sente
inseguro, com medo ou fragilizado. Ele, com tranqüilidade, com sabedoria, exerce sua autoridade. Com
o passar do tempo, os alunos vão percebendo que o
professor é estável, seguro, maduro e, principalmente,
que o professor está realmente interessado no crescimento deles próprios. O vínculo é construído.
Mas, é bom ressaltar, os alunos têm uma opinião
muito particular sobre o que é ser “amigo”. Um professor amigo é alguém com abertura, autoridade, que
não humilha ninguém, não privilegia os melhores, não
é preconceituoso, tem forte senso de justiça e exerce seu
poder de controle sobre a disciplina, sobre o comporta-
MAIO | JUNHO 2006
mento dos alunos. É a base para que o aluno confie nas
orientações quanto à construção de valores, metodologia de estudos e autonomia na aprendizagem.
Um professor, para ser bem-sucedido, não pode
apenas ter um alto conhecimento da disciplina que
leciona ou um método eficaz de explicar ou de desenvolver a construção da aprendizagem de cada
aluno. É preciso que ele seja humano, real, pessoal. É
preciso que dialogue com seus alunos. Que construa
uma relação baseada no respeito mútuo, em que os
valores éticos, morais, relacionais sejam, por ambas
as partes, considerados. Um professor precisa, em
primeiro lugar, ser especialista em gente!
Marcos Méier, Mestre em educação, psicólogo, matemático e especialista
na Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva de Feuerstein.
Palestrante e Consultor nas áreas de Desenvolvimento Pessoal,
Desenvolvimento da Inteligência, Educação e Inteligência Espiritual.
PARA SABER MAIS
NICOLAS, Philibert. Documentário: SER e TER. França, 2002.
(O documentário traz um questionamento sobre o tempo
de aprender e, também, sobre como podem ser artificiais
nossas convicções em torno das “etapas” do ensinar.)
DELORS, Jacques. A educação
para o século XXI, questões
e perspectivas. Porto
Alegre: ArtMed, 2005.
FREIRE, Paulo. Pedagogia
da autonomia. São Paulo:
Paz e Terra, 1997.
PERSPECTIVA
3
PERSPECTIVA
NÍLSON JOSÉ MACHADO
SOBRE A IDÉIA DE
COMPETÊNCIA
Com clareza etimológica
e conceitual sobre a idéia
de competência, Nílson
Machado nos lança numa
reflexão ao mesmo tempo
simples e rica, como
uma porta de entrada
para a complexidade do
tema e as dificuldades
de sua aplicação no
contexto escolar.
1 Método Com ironia lapidar, Descartes inicia seu Discurso
do Método caracterizando a idéia de bom senso: é aquilo
de que todos se consideram suficientemente providos a
ponto de ninguém admitir que precisa de mais do que
tem. Algo similar parece ocorrer com a idéia de competência: em um cenário em que o conhecimento ocupa um
lugar central, constituindo o principal fator de produção,
em que as permanentes transformações são a regra, precisamos continuamente desenvolver e atualizar nossas
competências; poucos assumem de bom grado, no
entanto, a condição de carência de competência,
e menos ainda a de incompetente.
2 Etimologia Embora difusa, a etimologia
é fecunda: deriva de com + petere, que em
latim significa pedir junto com os outros,
buscar junto com os outros. Aquele a quem
nada apetece é um inapetente; aquele que
nada quer, que não sabe buscar junto com
os outros, é um incompetente. Derivações
próximas são competitio, que significa tanto
acordo quanto rivalidade e que conduziu,
apenas no latim tardio, à idéia de competição; competentia, que remete à proporção, à
justa relação, ou à capacidade de responder
adequadamente em dada situação. A associação
de competência com capacidade conduz a atenção
a capacitas, que significa a possibilidade de conter
alguma coisa, de apreender, de compreender algo.
As principais características da idéia de competência parecem encontrar raízes em tal feixe de
relações etimológicas.
3 Competência Seis são os elementos fundamentais
para constituir tal noção: pessoalidade, âmbito,
mobilização, conteúdo, abstração e integridade.
Em uma frase: a competência é um atributo das
pessoas, exerce-se em um âmbito bem delimitado,
está associada a uma capacidade de mobilização
de recursos, realiza-se necessariamente junto
com os outros, exige capacidade de abstração e
pressupõe conhecimento de conteúdos. Complementarmente: animais ou objetos não são competentes, não existe uma competência para todos
os âmbitos possíveis, é impossível a competência
sem uma ação efetiva, a falta de conhecimento
é o primeiro sintoma de incompetência, a incapacidade de abstrair o contexto é uma forma de
incompetência, e não se pode ser competente sem
integrar-se com os outros, sem levar em consideração os outros.
4 Pessoalidade Em primeiro lugar, naturalmente,
vem a pessoalidade da competência. Somente as
pessoas são competentes ou incompetentes; quase
automaticamente, o substantivo competência é
orlado pelo adjetivo pessoal. Atribuir-se competência a objetos, a artefatos ou mesmo a animais
pode ocorrer em metáforas circunstanciais, mas
não pode passar disso. As pessoas é que pedem,
buscam junto com os outros, têm vontades ou são
inapetentes, o que abre as portas para a incompetência. As pessoas se constituem representando
papéis, caracterizam-se como um feixe de papéis,
em alguns dos quais são protagonistas, em outros,
coadjuvantes. As pessoas são personagens de peças variadas, em que ora submetem-se a diretores
exigentes, ora são autores da própria peça que
representam. A sociedade consiste em um vasto
sistema de distribuição de papéis: na família, na
escola, no trabalho, no lazer, na cultura, na política etc. A pessoa competente seleciona adequadamente seus papéis, responde a um chamamento
interior, a uma vocação que a distingue de todas
as outras. Não se pode ser competente exercendo
atividades que não correspondem a esse chamamento pessoal, tanto quanto não se pode viver a
vida de outra pessoa. Na Grécia antiga, os atores
que simplesmente fingiam representar, muitas
vezes roubando os papéis dos outros, eram chamados de hipócritas. Toda competência, que não
é pessoal em sentido estrito, não passa de simulação, de hipocrisia.
5 Estruturação A idéia de competência também
está inextricavelmente associada a um âmbito em
que ela se exerce. Afirmações do tipo “Fulano é
competente” carecem de sentido ou soam demasiadamente vagas se não se qualifica o contexto em
que tal competência se realiza; não se sustenta facilmente uma pretensão de competência “para o que
der e vier”. Naturalmente, quanto mais restrito é
o âmbito em que uma competência se exerce, mais
facilmente ela pode ser caracterizada em seus pormenores, estruturada em habilidades capilares que
lhe dão forma e consistência; quanto mais amplo
é tal âmbito, mais difícil é tal estruturação, sempre
necessária. É mais fácil, por exemplo, dizer-se o
que constitui um motorista competente do que o
que caracteriza um cidadão competente. Essa vinculação entre as idéias de competência e de âmbito
é similar à existente entre as noções de autoridade
e âmbito. De fato, não existe uma autoridade para
todos os âmbitos possíveis, toda autoridade tem
um âmbito em que é exercida; extrapolá-lo significa uma sempre indesejável derrapagem para
o terreno do autoritarismo. Aliás, é justamente
o âmbito em que uma autoridade é legítima que
determina os limites de sua competência. Uma
pretensa competência sem limites seria mais propriamente denominada de arrogância.
6 Aplicações De alguém que leu e compreendeu
todos os conteúdos atinentes e dispõe de todos
os instrumentos necessários para a realização de
determinada tarefa, mas que não consegue realizá-la, pode-se afirmar com segurança: é incompetente. A competência está sempre associada à
capacidade de mobilização dos recursos de que se
dispõe para realizar aquilo que se deseja. A fonte
de legitimação de todo o conhecimento do mundo
é justamente essa possibilidade de mobilização
para a realização dos projetos das pessoas; sem
ela, o conhecimento é inerte, é como um banco
de dados carente de usuários. Não se trata aqui
PERSPECTIVA
5
PERSPECTIVA
de uma defesa ardorosa das aplicações práticas, nem sempre boas conselheiras na
configuração das competências, mas sim do reconhecimento enfático de que qualquer ação a ser realizada pressupõe algum nível de conhecimento teórico (theoria,
em grego, quer dizer visão), sem o que não se pode lograr um fazer propriamente
humano, manifestação de uma vontade livre e consciente. A idéia de mobilização
também se relaciona com o fato de que sempre conhecemos muito mais do que
conseguimos explicitar em palavras. Muitos de nossos saberes permanecem tácitos, não encontramos palavras para expressá-los, mas eles subjazem a aquilo que
somos capazes de explicitar e sustentam aquilo que conseguimos realizar. A competência também se expressa nessa capacidade de mobilizar esse conhecimento
tácito de que dispomos para realizar aquilo que explicitamente desejamos.
7 Mobilização Quando nos referimos à capacidade de mobilização do que se sabe
para realizar o que se deseja, claramente se desenham diante de nós situações em
que alguém que sabe muito consegue mobilizar pouco, enquanto, por outro lado,
alguém que sabe menos consegue mobilizar mais, sendo, em conseqüência, mais
bem-sucedido do ponto de vista das realizações efetivas. Nada disso, no entanto,
pode servir de base para uma mínima desvalorização daquilo que se sabe, do
conteúdo, ou do conhecimento de que necessitamos para a realização de qualquer ação. Sem dúvida, a falta de conhecimento é o primeiro sintoma, e o mais
efetivo, da caracterização da incompetência, e a competência consiste em combinar de modo eficaz a busca pelo conhecimento de que se necessita com as formas
adequadas de mobilização do mesmo. O desvio que consiste na caracterização da
competência unicamente pelo conhecimento de que se dispõe, ainda que inerte,
não pode ser substituído pelo elogio de uma competência “esperta”, que se
limita a explorar os parcos recursos que já temos à mão, desdenhando
da necessidade, sempre crescente, de novos conhecimentos. Se a
competência não pode se limitar a sua dimensão técnica, ao
conhecimento efetivo, sempre carente de incremento, dos
múltiplos temas associados a qualquer ação consciente
que se pretenda realizar, também é verdade que sem tal
dimensão técnica, sem tais conteúdos cognitivos, ela
não passa de um balão retórico prestes a explodir
diante do mais inocente espinho.
8 Significação É importante também mencionar
que a necessidade do âmbito, inerente à idéia
de competência, não significa uma subestimação da necessidade de abstração também
inerente a tal idéia. Porque, sem dúvida,
àquele que é capaz de realizar tarefas
apenas quando estritamente vinculadas
a determinado contexto, permanecendo
imobilizado por uma alteração mínima
no mesmo, falta, sem dúvida, competência. Quem sabe que 3 abacaxis + 4 abacaxis = 7 abacaxis, mas tem dúvidas sobre o
resultado da adição de 3 bananas com 4
bananas, não aprendeu a somar 3 com 4,
e é certamente incompetente. Se é o âm-
6
PERSPECTIVA
MAIO | JUNHO 2006
bito/contexto que dá vida à idéia de competência,
também o é a capacidade de abstrair o contexto,
de transportar-se o que se sabe para outros âmbitos, conservando-se a visão ou a compreensão
que possibilita um fazer consciente. É incompetente tanto quem não é capaz de contextuar o que
conhece, viabilizando uma ação plena de significações, quanto quem não consegue alçar-se por
sobre as peculiaridades do contexto, abstraindo
os elementos irrelevantes para o fim almejado
e atendo-se ao que realmente se considera fundamental. Abstrair, portanto, não é o oposto de
contextuar, mas um elemento complementar do
contínuo movimento contextuação/abstração; a
falta de um dos elementos do par somente pode
possibilitar um andar capenga, que limita a atuação de um ser humano competente.
9 Integridade Ao situar a pessoalidade como um
elemento fundamental da idéia de competência,
convém mencionar um ponto crítico sem cuja
consideração pode-se entrar em um desvio isolacionista, que contamina tal idéia. Trata-se do fato
de que ninguém se constitui como pessoa sem os
outros: permanentemente, agimos e representamos papéis socialmente prefigurados, para os outros e com os outros. Como sujeitos de uma ação
consciente, atuamos segundo perspectivas pessoais, absolutamente idiossincráticas, perseguimos
projetos, pessoais e coletivos, orientados por um
cenário de valores socialmente partilhados, e
necessariamente sujeitamo-nos (ou submetemonos) aos outros, no sentido de levar em consideração seus pontos de vista, seus argumentos, seus
MAIO | JUNHO 2006
valores. Assim, um elemento complementar em
relação à pessoalidade na constituição da idéia
de competência é a integridade pessoal, tanto
no sentido da pressuposição de um quadro de
valores que se professam e que são efetivamente
vivenciados, quanto no que se refere a uma integração com os outros, associada essencialmente a
uma permanente abertura em tal quadro de valores para o diálogo, para a argumentação racional
em busca de consensos. A idéia de integridade – a
de manter-se inteiro como pessoa e, ao mesmo
tempo, integrado ao corpo social em que se partilham valores e crenças – é um elemento fundamental para caracterizar a competência. Sem ela,
a competência pode ser associada apenas a sua
dimensão técnica, sendo confundida com o mero
desempenho especializado, sem a referência a um
quadro de valores socialmente acordados, sem
compromisso com a articulação entre o interesse
público e o privado, tão necessário para a vivência da plena cidadania. Parece-nos um completo
contra-senso a pertinência da utilização da palavra competência para caracterizar as ações de um
terrorista, de um torturador, ou do autor de um
crime hediondo qualquer, realizado de maneira
tecnicamente perfeita.
10 Conhecimento Vamos resumir o que se alinhavou até aqui. Em seu uso corrente, à palavra
competência associa-se quase automaticamente o
qualificativo pessoal, o que constitui um indício
lingüístico forte da pessoalidade como elemento
fundador da idéia de competência. Competentes
ou incompetentes são os agentes, são as pessoas.
PERSPECTIVA
7
PERSPECTIVA
O mercado não age, os computadores não
agem, os animais não agem, os livros não
agem, apenas as pessoas agem livremente,
conscientemente, na busca da realização
de seus projetos, caracterizando-se como
competentes ou incompetentes. Como a
noção de autoridade, a de competência
traz consigo sempre a idéia de âmbito, de
contexto: exerce-se uma autoridade ou
uma competência sempre em determinado
âmbito, não resistindo a uma análise mais
densa uma suposta competência para o
que der e vier. Toda competência pressupõe uma capacidade de mobilização de
recursos, em busca da realização de seus
desejos, de seus projetos. Quem nada deseja, nada projeta, quem vive a inapetência
abre as portas para a vivência da incompetência. A competência pressupõe sempre a
aderência a um contexto e, simultaneamente, a possibilidade de liberar-se dele,
abstraindo suas peculiaridades não para
distanciar-se de qualquer contexto, mas
sim para abrir as portas para novas contextuações. Quanto maior a competência,
maior a capacidade de se pôr em movimento o círculo abstração/contextuação.
Embora constitua um desvio semântico
grave a identificação da competência
como mero domínio de conteúdos
técnicos em determinada área do
conhecimento, o primeiro indício
da falta de competência ocorre
exatamente nesse terreno,
dos conteúdos. É impossível
conceber-se qualquer forma
de competência que possa
prescindir de conhecimentos específicos, de
complexidade crescente
a cada dia. Não se trata
necessariamente de conhecimento escolar, ou
científico, ou formal
em algum sistema de
ensino: trata-se do
conhecimento em sen-
8
PERSPECTIVA
tido pleno, que pode incluir as disciplinas
escolares, mas que certamente vai muito
além delas, envolvendo as noções de conhecimento e de valor, e desembocando na
idéia de sabedoria, ou do conhecimento
relevante, do saber que tem valor. A noção
de competência, finalmente, fiel a sua raiz
etimológica, caracteriza-se plenamente
como capacidade de pedir junto com os
outros, de buscar-se coletivamente fins
prefigurados, mantendo-se a integridade
pessoal e a integração social.
11 Autoridade Para concluir, uma proporção
analógica: assim como existe certa contaminação semântica da idéia de autoridade
pelo caráter indesejável do termo autoritarismo, só ocorre contaminação análoga da
idéia de competência pela associação direta
com a noção de competição: uma palavra
final pode contribuir para uma descontaminação em ambos os casos. O exercício da
autoridade é fundamental para a criação e/
ou a manutenção da ordem legítima, construída sobre um arcabouço de normas socialmente acordadas. Toda autoridade, no
entanto, tem um âmbito que lhe compete;
extrapolá-lo é o passo em falso, às vezes
sutil, para o ingresso no terreno minado do
autoritarismo. Convém lembrar que cada
pessoa constrói sua consciência na medida
em que assume a responsabilidade pelos
seus atos e exerce uma autoridade sobre
si mesmo, controlando suas volições de
primeiro nível, meras vontades ou desejos
nos limites de sua condição de animal, e
elaborando as bases para as volições de
segundo nível, os desejos de certos desejos
e não de outros. Há em cada pessoa um
âmbito em que ela é a maior autoridade
sobre si mesma: ninguém pode invadir tal
âmbito sem que se constitua uma arbitrariedade intolerável. O exercício pleno de
tal autoridade nesse âmbito íntimo pressupõe, portanto, a vivência plena de uma
responsabilidade radical. A assunção das
responsabilidades, inerentes ao papel que
MAIO | JUNHO 2006
se desempenha nos limites da competência correspondente, é o antídoto para a descontaminação
do exercício da autoridade, sem medo de parecerse autoritário.
12 Competição No caso da idéia de competência,
a associação direta com a noção de competição
não pode ser temida por duas razões principais.
Em primeiro lugar, há, na própria idéia de competição, uma ambivalência atenuante, uma vez
que ela tanto significa rivalidade como acordo:
naturalmente, tal acordo refere-se à plena aceitação das regras que regulam os processos competitivos, da justeza e do equilíbrio das mesmas.
Mencione-se aqui, ainda que de passagem, que
tal ambivalência semântica encontra-se presente
em inúmeros termos latinos, como altus, por
exemplo, que tanto significa alto como também
profundo. Nos esportes, nas Olimpíadas, por
exemplo, as competições apresentam o sentido
positivo resultante de tal aceitação: busca-se algo
junto com os outros, a existência dos outros faz
com que cada um cresça, supere seus próprios limites. A razão mais importante, no entanto, para
a contigüidade semântica com a competição não
contaminar a idéia de competência é a seguinte:
buscar junto com os outros não significa necessariamente que se alguém fica com, os demais
ficarão sem o objetivo pretendido; tudo depende
do que se busca, do que se pretende. Se o objetivo
colimado é um bem material, é um pote de ouro
ou uma medalha de ouro, então é verdade que se
alguém ganha, os outros têm que perder; se o que
se busca, no entanto, é um bem comum, é o conhecimento, por exemplo, como ocorre na escola,
então não mais ocorre tal situação. Quando se
busca o conhecimento junto com os outros, todos
podem ser, e em geral o são, legítimos vencedores,
e a competência, ou a competição mostra sua face
construtiva, sem restrições.
Nílson José Machado, Professor Titular da Faculdade
de Educação da Universidade de São Paulo. Autor de
diversos livros, entre os quais As competências para
ensinar no século XXI (em co-autoria com Philippe
Perrenoud, Lino de Macedo e Cristina Allessandrini).
PARA SABER MAIS
DEMO, Pedro. Conhecer e aprender.
Sabedoria dos limites e desafios.
Porto Alegre: Artmed, 2000.
PERRENOUD, Philippe & THURLER, Mônica
Gather. As competências para ensinar no século
XXI. A formação dos professores e o desafio
da avaliação. Porto Alegre: Artmed, 2002.
Referências bibliográficas
D’ALLONNES, M. R. Le pouvoir des
commencements. Paris: Seuil, 2006.
MACHADO, N. J. Conhecimento e
valor. São Paulo: Moderna, 2004.
MACHADO, N. J. Sobre a idéia de competência.
In: PERRENOUD, P. et alii. Competências para
ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed,
2002. (O texto aqui citado tem em comum com o
presente texto apenas o título).
ORTEGA Y GASSET, J.
Obras completas vols. 1 e
2. Madrid: Alianza, 1987.
RAMOS, S.
Hacia un nuevo
humanismo. México:
Fondo de Cultura
Económica, 1997.
ENTREVISTA
EDUCAR É DESPERTAR
O DESEJO DE
Há poucos anos, Álvaro Marchesi foi
escolhido uma das 50 personalidades
mais importantes da Espanha, por sua
atuação no mundo da Educação. Não por
acaso: ex-vice-ministro da Educação,
foi um dos responsáveis, junto com
César Coll, pela reforma da Educação
espanhola, que tanta influência teve
sobre os caminhos do ensino no Brasil.
Pesquisador e professor da Universidade Complutense de Madrid, é autor de diversos livros, muitos traduzidos no Brasil – o mais recente, O que será
de nós, os maus alunos?, publicado pela Editora
ArtMed. Marchesi concedeu à Aprender juntos a seguinte entrevista.
APRENDER JUNTOS O que mudou na escola para que
questões como a das habilidades e competências
passassem a ser tão importantes? Trata-se de uma
tendência passageira ou acredita-se que a escola das
próximas décadas se organizará cada vez mais em
torno desses conceitos?
ÁLVARO MARCHESI Creio que a mensagem de fundo sobre as competências e as habilidades tem estado nas
propostas educativas há quinze anos, ao menos, pelo
que se pode pensar que vão se manter por muito mais
tempo. O importante é compreender que se pretende
transmitir esses conceitos e não tanto conhecer uma
longa lista de competências e habilidades. Trata-se
de orientar a atividade educativa para que os alunos adquiram um conjunto de conhecimentos que
lhes sirvam para resolver problemas e para eleger as
estratégias adequadas que lhes permitam enfrentar
seus problemas com maiores garantias de êxito. O
mais importante, em conseqüência, no processo de
ensino e de aprendizagem, não é que os alunos adquiram determinados conteúdos, mas que sejam capazes de aprender por eles mesmos, de trabalhar em
equipe, de comunicar-se, ter iniciativa, comportar-se
de forma socialmente responsável e de desenvolver
um comportamento moral autônomo. Os conteúdos
que se aprendem devem estar em função das competências que se pretende que os alunos adquiram.
10
ENTREVISTA
SABER
Mas desenvolver habilidades e competências parece ser mais fácil na teoria do que na
prática, não é?
ÁLVARO MARCHESI Creio que estas reflexões são fáceis de
compreender e a maioria dos professores estará de
acordo com elas. Porém, não é simples levar à prática
por três razões principais. A primeira, porque nós,
os professores, temos sido preparados para ensinar
conteúdos e temos uma formação escassa para ensinar de outra maneira. A segunda, porque a maioria
dos livros e dos materiais didáticos disponível segue
insistindo em conteúdos de aprendizagem e apenas
estabelece relações com as competências exigidas. E
a terceira razão procede das contraditórias mensagens dos próprios responsáveis pela educação: ainda
que por uma parte insistam em que as competências
sejam a principal referência da ação educativa, na
hora de avaliar se fixam quase exclusivamente nos
dados e conceitos que os alunos aprenderam.
APRENDER JUNTOS
APRENDER JUNTOS De certa forma, as discussões teóricas
atuais que envolvem novas metodologias ou abordagens pedagógicas não desconsideram o trabalho do
educador? Ou seja, não é como dizer: “esqueça tudo
o que você fez antes”?
ÁLVARO MARCHESI Não creio que educar seja algo distinto do que os professores intuem. Educar é principalmente despertar o desejo de saber dos alunos,
cuidar de seu desenvolvimento afetivo e social e favorecer sua autonomia moral. Não é só, nem principalmente, transmitir conhecimentos sem favorecer
o desenvolvimento integral dos alunos na sociedade
em que estão vivendo. O que acontece é que não
é simples incorporar os três grandes objetivos, aos
quais acabo de fazer referência, no ensino de cada
uma das matérias. Exige reflexão, adaptação metodológica, inovação e auto-avaliação, o que por
sua vez necessita tempo, trabalho em comum dos
professores e projetos compartilhados. Preparar-se
para responder às exigências atuais do ensino é uma
obrigação profissional dos professores, mas também
é uma obrigação daqueles que são responsáveis pelas
condições de trabalho desses mesmos professores.
MAIO | JUNHO 2006
Eliana Assunção
Recentemente, um livro de sua autoria fez muito sucesso no Brasil, ao abordar a questão
do fracasso escolar. Por que é tão difícil para os educadores e para a escola compreender as reais causas
dos problemas de aprendizagem?
ÁLVARO MARCHESI Há que se reconhecer que educar a
todos os alunos é muito complicado. Quando os
alunos se atrasam significativamente em sua aprendizagem, perdem também a motivação para aprender
ou têm um comportamento conflitante na classe, e
torna-se muito difícil ensiná-los. A reflexão principal, que a escola e os responsáveis pela educação
deveriam fazer, é que a estratégia mais produtiva é
a prevenção dos problemas, quer dizer, evitar que
os alunos fiquem defasados em relação à idade/série, desmotivem-se e se cansem da escola. Para isso,
é preciso ajudar aos mais atrasados desde as séries
iniciais, organizar um ensino atrativo, favorecer o diálogo com os alunos, sua participação nas atividades
e a colaboração das famílias. Tudo isso supõe que
o professorado tenha vontade e preparo para essas
atividades. Quer dizer: que tenha a disposição e as
competências para ensinar bem, para criar um clima
de respeito e de diálogo, para animar as famílias a
colaborar com a educação de seus filhos. Das competências dos alunos passamos para as competências
dos professores. São diferentes, sem dúvida, mas estão relacionadas. É difícil conseguir que os alunos
adquiram determinadas competências se seus professores não dispõem das capacidades e competências
necessárias para isto.
APRENDER JUNTOS
No Brasil, muitas vezes os professores se perdem enumerando listas de habilidades e
competências. Ou seja, é como se “ensinar” competências fosse apenas mais uma matéria. Trata-se de
uma distorção do entendimento de competências no
contexto da educação?
ÁLVARO MARCHESI Sim, é uma colocação equivocada. É
preciso conhecer, a princípio, quais são as principais
competências que os alunos devem adquirir. Mas o
trabalho principal deve estar centrado em organizar
o conjunto de atividades educativas para promover
a aquisição dessas competências. O professor deve
saber, por exemplo, que se comunicar de forma
precisa é uma competência que hão de adquirir todos os alunos e que é responsabilidade de todos os
professores. O que tem de fazer o professor quando
planeja sua aula de Ciências, por exemplo, é incorporar atividades científicas que, além de contribuirem
para a aprendizagem de Ciências, ponham em ação a
competência comunicativa.
APRENDER JUNTOS
APRENDER JUNTOS Os professores também se queixam de
que, quando fazem cursos e assistem a congressos, recebem “explicações” nos moldes tradicionais. Ou seja,
têm aulas tradicionais onde lhe tentam convencer a não
dar mais aulas tradicionais... Como vê essa questão?
ÁLVARO MARCHESI Como disse anteriormente, o problema principal que os professores enfrentam é
a falta de formação e de materiais disponíveis. Às
vezes, a formação que se oferece é demasiadamente
teórica e está pouco relacionada com a prática concreta do professor e com a situação da escola. Por
isso, permitir que os professores possam refletir em
sua instituição de ensino sobre os problemas que
enfrentam e assessorá-los nos processos de mudança
parece ser a melhor estratégia formativa.
MAIO | JUNHO 2006
Todas essas questões são válidas para
a Espanha? Ou seja, os problemas aqui tratados, o
trabalho sobre competências, a formação de valores
são questões universais na educação contemporânea?
ÁLVARO MARCHESI Na Espanha, estão se discutindo os
mesmos temas. Neste momento, o Ministério da
Educação propôs novos Parâmetros Curriculares em
torno de oito competências básicas: competência em
comunicação lingüística, competência matemática,
competência em conhecimento do mundo físico, tratamento da informação e competência digital, competência social e cidadã, competência cultural e artística,
competência para aprender a aprender, e autonomia e
iniciativa pessoal. Ao mesmo tempo, discute-se como
se pode concretizar a educação de valores nas diferentes etapas educativas. Como se pode ver, os problemas
e as alternativas são bastante similares.
APRENDER JUNTOS
ENTREVISTA
11
PERSPECTIVA
POR LUIZ CARLOS DE MENEZES
A COMPETÊNCIA PARA
PROMOVER COMPETÊNCIAS
1
Quando se pensa em uma educação que não
se limita a transmitir conhecimento, como
propõem muitos educadores2, o trabalho do
professor passa a ser entendido como uma
atividade de alcance cultural e social, que
deve resultar em qualificações que atribuam
emancipação pessoal ao educando.
1 Baseado em texto do
autor, publicado em
Ciência e Arte –
imaginário e descoberta.
São Paulo: Terceira
Margem, 2003.
2 Como John Dewey, Jean
Piaget e Lev Vygotsky,
Anísio Teixeira, Paulo
Freire, António Nóvoa ou
Philippe Perrenoud.
Para poder promover, entre os jovens,
competências para a cultura e para o trabalho, para o convívio e a realização pessoal, os
professores precisam, antes de tudo, ter desenvolvido em si mesmos essas competências.
No Brasil, ao longo da última década,
a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional e os parâmetros educacionais e
exames nacionais, como o Enem, têm enfatizado o conceito de competência na condução e na avaliação do aprendizado escolar,
mas falta muito para estas idéias serem postas em prática, na realidade e na formação
de professores. Há muita teoria boa disponível e há muito por aprender na prática
para avançar na direção de uma formação
docente que atenda às múltiplas dimensões
necessárias, mas é possível ilustrar de forma
singela como a questão é cíclica, no sentido
de que o professor necessita das competências que, em princípio, sua escolarização
deveria ter promovido.
O conjunto de competências que a
escola promove, em todas as suas etapas,
ciclos ou níveis, pode ser classificado de
muitas maneiras diferentes, e não deveria
ser muito diferente do conjunto de qualificações de que o convívio pessoal, familiar,
social e funcional necessita e que também
desenvolve. Cada etapa da educação está
mais voltada para determinados aspectos
formativos, ainda que todos estejam presentes em todas as etapas.
Nas etapas mais elementares da escola, na
educação infantil, e no início do ensino fundamental, concentra-se o desenvolvimento de
competências socioafetivas. O convívio entre
as crianças, ou entre elas e as professoras, ampliando o convívio familiar e social, promove
amizades, a percepção de limites e possibilidades, de direitos e responsabilidades, de disciplina de trabalho, o aprendizado de regras
nas disputas e nos conflitos. Todas as demais
etapas escolares devem continuar a promover
estes desenvolvimentos, mas o fazem de forma
mais especialmente para o professor, cujo trabalho é densamente social e afetivo.
Desde os primeiros anos do ensino fundamental,
e especialmente na sua etapa intermediária, até o sexto
ano, digamos, a ênfase vai sendo deslocada para as
competências expressivo-comunicativas, ampliando e
consolidando a linguagem verbal, lado a lado com a
gestual ou corporal, e com a capacidade de argumentar ou contra-argumentar, desenvolvendo o domínio
de diferentes linguagens. Essa etapa enfatiza a alfabetização no idioma, a alfabetização matemática e o
início da alfabetização científica, tecnológica, artística
e humanística. Seria recomendável maior articulação
entre as várias linguagens escritas, gráficas, matemáticas, corporais e artísticas, assim como, especialmente
no que se refere à capacidade de argumentação, é lamentável que, nesta etapa escolar, já se dê um maior
isolamento dos alunos, tornando mais raras as oportunidades de troca e de aprendizado efetivamente
coletivo. A fragilidade no domínio dessas linguagens
múltiplas enfraquece todos os demais aprendizados,
especialmente para um professor, não importa que
disciplina lecione, que deveria, com desenvoltura,
transitar entre as diferentes linguagens.
Nos últimos anos do ensino fundamental e em
todo o ensino médio tradicional, as ênfases estarão
na transmissão ou elaboração de conhecimentos. Especialmente no ensino médio, a ênfase sempre esteve
nas competências cognitivo-interpretativas, ou seja,
no conhecimento, na compreensão e na interpretação de fenômenos naturais, manifestações culturais,
sistemas políticos, movimentos sociais e processos
tecnológicos. Infelizmente, em função de uma recepção passiva de conteúdos disciplinares, apresentados
sem contexto significativo, conhecer tem correspondido simplesmente a tomar conhecimento, estar
informado, relegando-se dimensões importantes do
conhecimento, como o desenvolvimento da curiosidade, do desejo de conhecer, da capacidade de aprender, de procurar e interpretar informações, da fruição cultural. As competências cognitivas são, entre
todas, as mais reconhecidas e as menos questionadas
como essenciais à educação escolar e, em conseqüência, à formação docente, mas isso não significa que
elas estejam sendo promovidas com sucesso, tanto
na formação docente quanto no aprendizado escolar.
Entre outras razões, curiosamente, talvez isto se deva
também a problemas socioafetivos e à falta do domínio de linguagens...
Na nova educação básica brasileira, outros conjuntos de competências, as prático-propositivas e as
ético-estéticas, passariam também a ocupar papel imMAIO | JUNHO 2006
portante, capacitando para a vida e para o trabalho,
preparando para diagnosticar, equacionar e resolver
problemas e situações reais, ao propor alternativas,
compatibilizar interesses, coordenar vontades e ações.
Essas competências que, enfim, têm a ver com a condução da própria vida e com a participação na vida comunitária, profissional e social, constituem uma nova
dimensão do saber, ao mesmo tempo que articulam as
demais competências sociais, afetivas, expressivas, comunicativas, cognitivas e interpretativas. Não deveria
restar qualquer dúvida quanto ao significado dessas
competências práticas e propositivas para qualquer
professor, que permanentemente enfrenta situações
inéditas, que precisa coordenar vontades conflitantes,
além, é claro, de ter de promover o desenvolvimento
dessas competências em seus alunos. Curiosamente,
este é o mais frágil aspecto da formação docente entre
nós, pois a tradição, na formação de nossos professores, é de um ensino teórico e propedêutico, em detrimento de maior vivência prática.
A única ponte que se estabelece entre os centros
formadores e as escolas são os estágios, usualmente
artificiais ou insuficientes, pois sonegam aos que estão se formando a oportunidade de confirmar suas
habilidades, de propor inovações e de verificar o alcance de suas proposições. As competências sociais
e afetivas, expressivas e comunicativas, cognitivas
e interpretativas, práticas e propositivas já fazem
parte das propostas, diretrizes e parâmetros que, em
princípio, norteiam a educação básica brasileira, mas
falta pôr em prática essas recomendações.
Luiz Carlos de Menezes, Livre Docente pela Universidade de São Paulo.
Doutor (PhD) pela Universität Regensburg (RFA). Mestre (M Sc) pela
Carnegie-Mellon University (EUA). Professor Associado do Instituto de
Física da Universidade de São Paulo. Autor de livros, artigos e vídeos
sobre física, educação e formação de professores.
PARA SABER MAIS
GIROUX, H. A. Os professores como intelectuais.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
GOODSON, I. F. Vidas de professores.
Porto: Porto Editora, 1997.
NÓVOA, António. Os professores e sua
formação. Lisboa: Dom Quixote, 1991.
VASCONCELOS, T. M. Sena de. Ao redor
da mesa grande. A prática educativa de
Ana. Porto: Porto Editora, 1997.
ZEICHNER, K. M. A formação
reflexiva de professores: idéias e
práticas. Lisboa: Educa, 1993.
REFLEXÃO&AÇÃO
POR ASSESSORIA PEDAGÓGICA EDIÇÕES SM
GRANDES TEMAS DA EDUCAÇÃO
CONTEMPORÂNEA
Roteiros de estudos e
discussão docente
Os professores hoje convivem com o desafio constante de educar numa sociedade que
se transforma aceleradamente, que se faz e desfaz com impressionante rapidez. Uma das
exigências para a eficácia de sua prática, nesse contexto, é a reflexão. À escola, cabe oportunizar momentos de estudos em que o educador comunique, partilhe e discuta suas idéias.
Ao professor cabe assumir a responsabilidade por seu próprio desenvolvimento profissional,
fazendo-se protagonista na implementação de políticas educativas e de mudanças de propostas pedagógicas. Com o intuito de contribuir para esses momentos, a seção Reflexão&Ação
dessa edição traz dois momentos de estudos: o primeiro aborda a temática do desenvolvimento de competências pessoais na escola, e o segundo discute, a partir da entrevista com
Álvaro Marchesi, os principais desafios vividos pelos professores na implementação de uma
prática educativa que desperte para o desejo de saber, forme para a autonomia moral e para
uma vivência social responsável.
Modo de fazer
PROPOSTA DE DISCUSSÃO I
Sobre a idéia de competência
Tem por objetivo levar a
refletir sobre a idéia, o
espaço e o tempo que a
formação para competências
pessoais ocupa no âmbito
dos processos de ensinoaprendizagem, na escola.
1 INTRODUÇÃO Anteceda o encontro, com a leitura do artigo Sobre a idéia
de competência, de Nílson José Machado, publicado nesta revista.
2 RECEPÇÃO Acolha os professores: este momento é fundamental,
quando nos sentimos acolhidos, valorizados, ficamos mais abertos para
a relação, para o novo, mais envolvidos com o contexto em questão.
3 OBJETIVOS Fale sobre os objetivos do encontro, a importância desse
momento para você, como responsável, e para a escola.
4 TEMA Apresente o tema junto com esta revista; você recebeu um cd;
se quiser, use-o para a introdução do estudo. É importante que os
professores estejam de posse do artigo de Nílson José Machado e o
utilizem como subsídio de trabalho.
5 ORGANIZE O GRUPO Há várias dinâmicas que podem ser usadas na
formação de grupos; isso dependerá do tempo de que se dispuser para
este estudo. Sugerimos que sobre a mesa do professor seja colocada
uma mensagem escrita em papel colorido e um
bombom. Nesse momento, você deverá pedir aos
professores que se reúnam em grupos de acordo
com a cor do papel da mensagem que receberam.
6 DISCUTA Escolha algumas das questões abaixo e
entregue-as para cada um dos grupos de discussão.
A
“Com freqüência, na escola, os conteúdos disciplinares são apresentados aos alunos e aprendidos por eles sem que venham efetivamente a
residir neles(...). Avaliações são feitas e bons resultados são alcançados sem que o conhecimento
torne-se um conhecimento pessoal do aluno.
Quando isso ocorre, por mais que os alunos
pareçam saber, pouca ou nenhuma competência
foi desenvolvida.” (machado, n.j. – Sobre a idéia de
competência. In: perrenoud, p. et alii – Competências
para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002).
O que o grupo pensa sobre isso?
Apontem algumas sugestões para
resolver essa questão.
D
“O desenvolvimento científico não pode ser
considerado de forma desvinculada do projeto
a que serve (...). As ciências precisam servir às
pessoas e a organização da escola deve visar,
primordialmente, ao desenvolvimento das competências pessoais.” (machado, n.j. – Sobre a idéia
de competência. In: perrenoud, p. et alii – Competências
para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002).
“(...) Infelizmente, em função de uma recepção
passiva de conteúdos disciplinares, apresentados sem contexto significativo, conhecer
tem correspondido simplesmente a tomar
conhecimento, estar informado.” (Luiz Carlos de
Menezes, Competências para promover competências).
Como o grupo avalia essas premissas?
Que relações estabelece entre as proposições do autor e o projeto pedagógico que desenvolve na escola?
É possível desenvolver competências pessoais
na escola? Que caminhos o grupo indica?
7 COMPARTILHE Peça aos grupos que se separem e
B
“... a competência é um atributo das pessoas,
exerce-se em um âmbito bem delimitado, está
associada a uma capacidade de mobilização
de recursos, realiza-se necessariamente junto
com os outros, exige capacidade de abstração
e pressupõe o conhecimento de conteúdos.”
(machado, n.j. – Sobre a idéia de competência. In:
perrenoud, p. et alii – Competências para ensinar
no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002).
Trabalhar com competências é um imperativo no cenário social. Que idéia
o grupo tem de competência?
É possível criar um projeto educativo que
a contemple em seus seis elementos fundamentais: pessoalidade, âmbito, mobilização,
conteúdo, abstração e integridade? Justifique.
C
“A demanda por uma organização alternativa
do trabalho escolar em seus diversos níveis, tem
crescido sobremaneira. Com ela, tem crescido
também um terrível mal-entendido: a idéia de
que disciplinas e competências disputam os mesmos espaços e tempos escolares, contrapondo-se
de modo radical.” (machado, n.j. – Sobre a idéia de
competência. In: perrenoud, p. et alii – Competências
para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002).
O que o grupo pensa sobre isso?
De que modo competências e disciplinas se
solidarizam na formação escolar do aluno?
MAIO | JUNHO 2006
formem novos grupos com outros participantes. O
objetivo deste momento é a partilha e a ampliação
da reflexão. Cada participante apresenta as questões e as reflexões feitas por seu grupo inicial.
8 INICIE UMA ASSEMBLÉIA Para concluir dos trabalhos. Este momento pode ser dirigido por meio
das seguintes questões:
Qual a idéia que temos de competência na escola?
O modo como encaminhamos
nosso trabalho dá conta da formação de competências pessoais?
Que aluno queremos formar?
Que escola queremos ser?
Se achar necessário, inicie esse momento pela
partilha dos trabalhos realizados no grupo.
9 CONCLUSÃO A idéia deste momento é que ele seja
uma síntese afetiva e significativa do encontro.
Peça a cada professor que, espontaneamente, expresse numa frase o que o momento de estudo
significou para ele.
10 DOCUMENTAÇÃO Monte um portfólio contendo
as discussões apresentadas na assembléia.
REFLEXÃO&AÇÃO
15
PROPOSTA DE DISCUSSÃO II
Educar é despertar o desejo de saber
Tem por objetivo levar a discutir os
principais desafios enfrentados pelos
educadores na implementação de
uma educação voltada para o trabalho
com competências na escola.
4. ORGANIZE O GRUPO Proponha aos grupos que se
reorganizem e façam a leitura da entrevista, procurando responder às questões:
Quais os principais aspectos do texto.
O grupo concorda com as idéias do
autor ou discorda dele quanto:
• ao
Modo de fazer
1 INTRODUÇÃO Acolha os professores.
2 OBJETIVOS Fale sobre os objetivos do encontro.
3 TEMA Apresente o tema e faça um levantamento
dos conhecimentos prévios: apresente Álvaro
Marchesi e o tema da entrevista. Fale sobre a importância de se refletir sobre essas questões dentro da escola. Pergunte aos professores a idéia que
têm do que é:
um aluno autônomo;
socialmente responsável;
com formação moral autônoma.
Para esse momento, podem-se organizar grupos e
usar revistas, tesoura, cola e cartolina, para que
as idéias sejam expressas por meio de imagens. É
importante trabalhar com o contexto em que o
professor fundamenta suas idéias e sua prática.
conceito de educação que propõe;
• às
três principais razões que dificultam o
trabalho com competências na escola.
Justifique as respostas dadas às questões acima.
Como o grupo acredita que deva ser uma
prática pedagógica para dar conta de um
aluno autônomo na busca do conhecimento
cooperativo e socialmente responsável?
5 ABRA UMA ASSEMBLÉIA A assembléia é uma plenária das discussões feitas no grupo. Você poderá
mediar esse momento propondo, no decorrer das
apresentações, questionamentos como:
Isso que vocês estão dizendo pode
se aplicar a outras situações?
Podemos aplicar isso ao nosso
trabalho cotidiano?
Como é o trabalho no dia-a-dia e
como vocês gostariam que fosse?
Em que vocês se baseiam para dizer que...
6 CONCLUA Lembre-se de que este é o momento de
fazer uma síntese afetiva e significativa do encontro.
Peça a alguns professores que expressem espontaneamente o que o encontro significou para eles.
7 DOCUMENTAÇÃO Monte um portfólio com as discussões realizadas na assembléia.
Assessoria Pedagógica Edições SM
Inês Calixto, Pedagoga, especialista em Gestão Colegiada.
Ilaine Melo, Pedagoga, historiadora.
PARA SABER MAIS
Assessoria Pedagógica Edições SM
Tel. 11 3847-8941
assessoriapedagó[email protected]
PERRENOUD, Philippe & THURLER, Mônica
Gather. As competências para ensinar no século
XXI. A formação dos professores e o desafio
da avaliação. Porto Alegre: ArtMed, 2002.
ZABALA, Antoni. Como trabalhar os conteúdos
procedimentais em aula. Porto Alegre: ArtMed.
16
REFLEXÃO&AÇÃO
MAIO | JUNHO 2006
Trabalhamos pela
dignidade das pessoas.
Cremos que a diversidade enriquece.
Defendemos a educação integral.
Despertamos nas crianças
o desejo de saber.
ISTO É EDUCAÇÃO EM VALORES
Acreditamos que nossa responsabilidade não
se limita apenas à publicação de ótimos livros.
Oferecemos um projeto educativo completo,
que prevê assessoria aos professores,
programas de estímulo à leitura, incentivo à
pesquisa e à avaliação da qualidade do ensino.
Instituímos como necessidade desenvolver e
oferecer, no âmbito de nossa atuação escolar,
uma ampla variedade de serviços, tais
como cursos, oficinas didáticas, assessoria
pedagógica para os projetos publicados,
conteúdos na internet, entre outros.
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pouco mais sobre o Grupo SM e a
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Belo Horizonte Tel. 31 2102-9813
Recife Tel. 81 3243-5366
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10 ENTREVISTA 04 PERSPECTIVA 14