MAIO | JUNHO 2006 04 PERSPECTIVA 10 ENTREVISTA Sobre a idéia de competência Com o educador espanhol por Nílson José Machado Álvaro Marchesi 14 REFLEXÃO&AÇÃO Roteiros de estudos e discussão docente CARO PROFESSOR, Falar sobre educação é refletir sobre as práticas social, cultural, política e histórica concretas, intrinsecamente associadas ao processo de construção do conhecimento humano. Dessa perspectiva, Edições SM vê a escola como um espaço vivo de troca e diálogo, um centro de aprendizagem e produção de experiências pedagógicas que envolvem novas formas de ensinar e de aprender, articuladas com as necessidades sociais. Por isso, sente-se partícipe de uma proposta de educação que vai além dos conteúdos educacionais e que está voltada para a formação integral do aluno. É com o intuito de possibilitar a formação do professor e de promover a reflexão sobre temas educacionais que Edições SM apresenta a revista Aprender juntos, publicação que aborda dois temas de grande relevância para a educação no mundo atual: o desenvolvimento de competências e a formação de valores, desafios para a escola contemporânea. Aprender juntos é composta de seções como: Perspectiva, na qual o leitor irá se deparar com grandes nomes da Educação brasileira debatendo assuntos da atualidade: Luiz Carlos de Menezes discute a importância das competências do professor para formar competências; Nílson José Machado aborda a idéia que fazemos do que é competência; e Marcos Méier chama a atenção para a interação professor-aluno como caminho para a construção de certos valores; Entrevista com o educador espanhol Álvaro Marchesi; Reflexão&Ação, seção em que Edições SM apresenta propostas para a formação de grupos de estudos com professores. Esperamos que Aprender juntos contribua para a sua reflexão. Boa leitura! Borja Basagoiti Diretor Geral, Edições SM EDITORIAL 1 PANORAMA Um caminho a percorrer PAULO DE CAMARGO 3 PERSPECTIVA A interação professor-aluno na construção de valores MARCOS MÉIER 4 PERSPECTIVA Sobre a idéia de competência NÍLSON JOSÉ MACHADO 10 ENTREVISTA Álvaro Marchesi “Educar é despertar o desejo de saber” 12 PERSPECTIVA A competência para promover competências LUIZ CARLOS DE MENEZES 14 REFLEXÃO&AÇÃO Grandes temas da educação contemporânea Roteiros de estudos e discussão docente MAIO | JUNHO 2006 EQUIPE EDITORIAL Igor Mauro, Inês Calixto, Ilaine Melo, Ariane Tagliacolli, Paulo de Camargo COLABORADORES Nílson José Machado, Marcos Méier, Luiz Carlos de Menezes, Inês Calixto, Ilaine Melo PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO Alysson Ribeiro, Samuel Oliveira, Rodrigo Solsona JORNALISTA RESPONSÁVEL Paulo de Camargo mtb 21.671 São Paulo / SP Rio de Janeiro / RJ Belo Horizonte / MG Recife / PE Tel. 11 3847-8925 Tel. 21 2554-8844 Tel. 31 2102-9813 Tel. 81 3243-5366 Outras localidades Tel. 0800 773 5530 [email protected] [email protected] www.edicoessm.com.br PANORAMA POR PAULO DE CAMARGO UM CAMINHO A PERCORRER Competência é o que mobiliza o conhecimento para enfrentar uma determinada situação, é a capacidade de lançar mão dos mais variados recursos de forma criativa e inovadora, no momento e do modo necessário: informações, valores, Desenvolver competências , formar valores: essas idéias ocupam um espaço cada vez mais central na reflexão dos professores de ensino fundamental e médio. Tudo porque, em última instância, representam um dos principais desafios da escola contemporânea: formar alunos mais do que aptos a dominar determinados conteúdos, capazes de ler e interpretar o mundo e aprender continuamente. Jovens com comportamento socialmente responsável, cooperativos e solidários. A antropóloga Margaret Mead (1901-1978), olhando para os desafios da educação no século xxi, afirmou: “Chegamos ao ponto em que temos de educar as pessoas naquilo que ninguém sabia ontem, e prepará-las para aquilo que ninguém sabe ainda o que é, mas que alguns terão de saber amanhã”. DIRETRIZES | MEC As diretrizes do MEC explicitam cinco competências que os alunos devem dominar ao final do ensino médio: domínio de linguagens; compreensão de fenômenos; » construção de argumentações; » solução de problemas; » elaboração de propostas. » » MATRIZ DE COMPETÊNCIAS | ENEM Competência 1 Dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso das linguagens Matemática, Artística e Científica. Competência 2 Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas. Competência 3 Selecionar, organizar, relacionar dados e informações representados de diferentes formas para tomar decisões e enfrentar situações-problema. Competência 4 Relacionar informações representadas de diferentes formas e conhecimentos disponíveis em situações concretas para construir uma argumentação consistente. Competência 5 Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para a elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando valores humanos e considerando a diversidade sociocultural. Escritos de autores influentes como Phillipe Perrenoud, Charles Hadji, Edgar Morin, Antoni Zabala, Yves de La Taille apontam para a relevância desse tema, que integra os palcos de reflexão não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. No Brasil o tema da formação para competências pessoais reverberou e ganhou espaço ao integrar os Parâmetros Curriculares Nacionais (pcn) e ser objeto de um instrumento de avaliação específico – o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). De maneira geral, pode-se dizer que o trabalho sobre o desenvolvimento de competências pessoais desperta freqüentemente três principais questões: sua aparente contradição com o trabalho das disciplinas e seus conteúdos; sua articulação com objetivos específicos da sala de aula; e a base de valores que sustenta esse trabalho. 2 PANORAMA Para Nílson Machado, é preciso estar atento e desconstruir a idéia de oposição entre disciplinas e competências, comumente divulgada entre os educadores. De fato, disciplinas e competências não se opõem, mas se solidarizam. O desafio está em reencontrar o papel das disciplinas curriculares como meio, e o papel da formação para competências e valores como o fim da educação. Ao educador cabe a missão de redescobrir-se mediador nesse processo, considerando o papel fundamental do conhecimento. Só pode ser competente uma pessoa que tem conhecimentos. Ainda na reflexão sobre competências e valores deparamo-nos com questões como, por exemplo: uma das competências avaliadas nas provas de Redação do Enem é a elaboração de proposta de intervenção sobre a problemática desenvolvida, mostrando respeito à diversidade de pontos de vista culturais, sociais, políticos, científicos e outros. Pergunta-se: Caso o aluno redija um texto bem-estruturado com argumentações pertinentes à sua tese, mas defenda um ponto de vista não politicamente correto, como será avaliado o seu texto? Nesse ponto, surge a questão referente à matriz de valores que sustenta a competência de um aluno. Há autores que consideram o desenvolvimento de valores parte indissociável do desenvolvimento de competências. Segundo Lino de Macedo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a sociedade confunde competência com destreza e eficiência, e afirma: “A idéia de competência pressupõe as duas coisas: a competência técnica e a dimensão ética”. Por todas essas questões, é possível dizer que o trabalho sobre competências e valores oferece aos educadores de hoje uma rara possibilidade de fazer parte da história da construção de uma nova visão de ensino. Afinal, se é certo que o desafio de formar competências e de trabalhar sobre valores é uma missão intrínseca da escola contemporânea, também é verdade que se trata de uma caminhada que está apenas começando. E, como escreveu o poeta Antônio Machado, “o caminho se faz ao caminhar”. Paulo de Camargo, Jornalista especializado em Educação, consultor de comunicação e mestre em Literatura pela Universidade de São Paulo. MAIO | JUNHO 2006 PERSPECTIVA POR MARCOS MÉIER A INTERAÇÃO PROFESSOR-ALUNO NA CONSTRUÇÃO DE VALORES Os alunos não desejam um professor “amigo”, da forma como nós concebemos a palavra. Eles querem um professor sério, que saiba brincar na hora certa, bem-humorado, que exerça sua autoridade com segurança e que tenha uma “relação de amizade” com eles. Amigos, eles têm vários. Autoridades com uma relação amigável, poucas. Em muitas salas de aula há um clima generalizado de desmotivação. Muitos alunos não se interessam em aprofundar os conteúdos, realizam apenas o mínimo necessário para atender às exigências de “nota” ou de desempenho em cada disciplina e, infelizmente, não criam nada. A falta de motivação é, curiosamente, um problema de autoridade! Autoridade no sentido de ser autor. Os alunos, em geral, não são autores. Eles copiam, resumem idéias de outros autores, apresentam sínteses de trabalhos já realizados, estudam teorias criadas por outras pessoas e especializam-se em dizer o que se espera que digam. Isso tudo dissipa a motivação, minimiza a criatividade, mantém os alunos na passividade e os ensina a consumir informações ao invés de gerá-las. É preciso mudar. É preciso respeitar a inteligência e a criatividade dos alunos. Eles precisam ser especialistas em suas próprias idéias. Precisam criar, inovar, criticar propondo soluções, argumentar e contra-argumentar. Em suma, precisam assumir sua condição de autores. Para que os alunos deixem dessa postura passiva e passem a agir, o professor precisa também mudar sua forma de mediar. O professor que tem a consciência de seu valor próprio, de seu conhecimento, de sua personalidade e de sua própria identidade já construída, não se sente inseguro, com medo ou fragilizado. Ele, com tranqüilidade, com sabedoria, exerce sua autoridade. Com o passar do tempo, os alunos vão percebendo que o professor é estável, seguro, maduro e, principalmente, que o professor está realmente interessado no crescimento deles próprios. O vínculo é construído. Mas, é bom ressaltar, os alunos têm uma opinião muito particular sobre o que é ser “amigo”. Um professor amigo é alguém com abertura, autoridade, que não humilha ninguém, não privilegia os melhores, não é preconceituoso, tem forte senso de justiça e exerce seu poder de controle sobre a disciplina, sobre o comporta- MAIO | JUNHO 2006 mento dos alunos. É a base para que o aluno confie nas orientações quanto à construção de valores, metodologia de estudos e autonomia na aprendizagem. Um professor, para ser bem-sucedido, não pode apenas ter um alto conhecimento da disciplina que leciona ou um método eficaz de explicar ou de desenvolver a construção da aprendizagem de cada aluno. É preciso que ele seja humano, real, pessoal. É preciso que dialogue com seus alunos. Que construa uma relação baseada no respeito mútuo, em que os valores éticos, morais, relacionais sejam, por ambas as partes, considerados. Um professor precisa, em primeiro lugar, ser especialista em gente! Marcos Méier, Mestre em educação, psicólogo, matemático e especialista na Teoria da Modificabilidade Estrutural Cognitiva de Feuerstein. Palestrante e Consultor nas áreas de Desenvolvimento Pessoal, Desenvolvimento da Inteligência, Educação e Inteligência Espiritual. PARA SABER MAIS NICOLAS, Philibert. Documentário: SER e TER. França, 2002. (O documentário traz um questionamento sobre o tempo de aprender e, também, sobre como podem ser artificiais nossas convicções em torno das “etapas” do ensinar.) DELORS, Jacques. A educação para o século XXI, questões e perspectivas. Porto Alegre: ArtMed, 2005. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. PERSPECTIVA 3 PERSPECTIVA NÍLSON JOSÉ MACHADO SOBRE A IDÉIA DE COMPETÊNCIA Com clareza etimológica e conceitual sobre a idéia de competência, Nílson Machado nos lança numa reflexão ao mesmo tempo simples e rica, como uma porta de entrada para a complexidade do tema e as dificuldades de sua aplicação no contexto escolar. 1 Método Com ironia lapidar, Descartes inicia seu Discurso do Método caracterizando a idéia de bom senso: é aquilo de que todos se consideram suficientemente providos a ponto de ninguém admitir que precisa de mais do que tem. Algo similar parece ocorrer com a idéia de competência: em um cenário em que o conhecimento ocupa um lugar central, constituindo o principal fator de produção, em que as permanentes transformações são a regra, precisamos continuamente desenvolver e atualizar nossas competências; poucos assumem de bom grado, no entanto, a condição de carência de competência, e menos ainda a de incompetente. 2 Etimologia Embora difusa, a etimologia é fecunda: deriva de com + petere, que em latim significa pedir junto com os outros, buscar junto com os outros. Aquele a quem nada apetece é um inapetente; aquele que nada quer, que não sabe buscar junto com os outros, é um incompetente. Derivações próximas são competitio, que significa tanto acordo quanto rivalidade e que conduziu, apenas no latim tardio, à idéia de competição; competentia, que remete à proporção, à justa relação, ou à capacidade de responder adequadamente em dada situação. A associação de competência com capacidade conduz a atenção a capacitas, que significa a possibilidade de conter alguma coisa, de apreender, de compreender algo. As principais características da idéia de competência parecem encontrar raízes em tal feixe de relações etimológicas. 3 Competência Seis são os elementos fundamentais para constituir tal noção: pessoalidade, âmbito, mobilização, conteúdo, abstração e integridade. Em uma frase: a competência é um atributo das pessoas, exerce-se em um âmbito bem delimitado, está associada a uma capacidade de mobilização de recursos, realiza-se necessariamente junto com os outros, exige capacidade de abstração e pressupõe conhecimento de conteúdos. Complementarmente: animais ou objetos não são competentes, não existe uma competência para todos os âmbitos possíveis, é impossível a competência sem uma ação efetiva, a falta de conhecimento é o primeiro sintoma de incompetência, a incapacidade de abstrair o contexto é uma forma de incompetência, e não se pode ser competente sem integrar-se com os outros, sem levar em consideração os outros. 4 Pessoalidade Em primeiro lugar, naturalmente, vem a pessoalidade da competência. Somente as pessoas são competentes ou incompetentes; quase automaticamente, o substantivo competência é orlado pelo adjetivo pessoal. Atribuir-se competência a objetos, a artefatos ou mesmo a animais pode ocorrer em metáforas circunstanciais, mas não pode passar disso. As pessoas é que pedem, buscam junto com os outros, têm vontades ou são inapetentes, o que abre as portas para a incompetência. As pessoas se constituem representando papéis, caracterizam-se como um feixe de papéis, em alguns dos quais são protagonistas, em outros, coadjuvantes. As pessoas são personagens de peças variadas, em que ora submetem-se a diretores exigentes, ora são autores da própria peça que representam. A sociedade consiste em um vasto sistema de distribuição de papéis: na família, na escola, no trabalho, no lazer, na cultura, na política etc. A pessoa competente seleciona adequadamente seus papéis, responde a um chamamento interior, a uma vocação que a distingue de todas as outras. Não se pode ser competente exercendo atividades que não correspondem a esse chamamento pessoal, tanto quanto não se pode viver a vida de outra pessoa. Na Grécia antiga, os atores que simplesmente fingiam representar, muitas vezes roubando os papéis dos outros, eram chamados de hipócritas. Toda competência, que não é pessoal em sentido estrito, não passa de simulação, de hipocrisia. 5 Estruturação A idéia de competência também está inextricavelmente associada a um âmbito em que ela se exerce. Afirmações do tipo “Fulano é competente” carecem de sentido ou soam demasiadamente vagas se não se qualifica o contexto em que tal competência se realiza; não se sustenta facilmente uma pretensão de competência “para o que der e vier”. Naturalmente, quanto mais restrito é o âmbito em que uma competência se exerce, mais facilmente ela pode ser caracterizada em seus pormenores, estruturada em habilidades capilares que lhe dão forma e consistência; quanto mais amplo é tal âmbito, mais difícil é tal estruturação, sempre necessária. É mais fácil, por exemplo, dizer-se o que constitui um motorista competente do que o que caracteriza um cidadão competente. Essa vinculação entre as idéias de competência e de âmbito é similar à existente entre as noções de autoridade e âmbito. De fato, não existe uma autoridade para todos os âmbitos possíveis, toda autoridade tem um âmbito em que é exercida; extrapolá-lo significa uma sempre indesejável derrapagem para o terreno do autoritarismo. Aliás, é justamente o âmbito em que uma autoridade é legítima que determina os limites de sua competência. Uma pretensa competência sem limites seria mais propriamente denominada de arrogância. 6 Aplicações De alguém que leu e compreendeu todos os conteúdos atinentes e dispõe de todos os instrumentos necessários para a realização de determinada tarefa, mas que não consegue realizá-la, pode-se afirmar com segurança: é incompetente. A competência está sempre associada à capacidade de mobilização dos recursos de que se dispõe para realizar aquilo que se deseja. A fonte de legitimação de todo o conhecimento do mundo é justamente essa possibilidade de mobilização para a realização dos projetos das pessoas; sem ela, o conhecimento é inerte, é como um banco de dados carente de usuários. Não se trata aqui PERSPECTIVA 5 PERSPECTIVA de uma defesa ardorosa das aplicações práticas, nem sempre boas conselheiras na configuração das competências, mas sim do reconhecimento enfático de que qualquer ação a ser realizada pressupõe algum nível de conhecimento teórico (theoria, em grego, quer dizer visão), sem o que não se pode lograr um fazer propriamente humano, manifestação de uma vontade livre e consciente. A idéia de mobilização também se relaciona com o fato de que sempre conhecemos muito mais do que conseguimos explicitar em palavras. Muitos de nossos saberes permanecem tácitos, não encontramos palavras para expressá-los, mas eles subjazem a aquilo que somos capazes de explicitar e sustentam aquilo que conseguimos realizar. A competência também se expressa nessa capacidade de mobilizar esse conhecimento tácito de que dispomos para realizar aquilo que explicitamente desejamos. 7 Mobilização Quando nos referimos à capacidade de mobilização do que se sabe para realizar o que se deseja, claramente se desenham diante de nós situações em que alguém que sabe muito consegue mobilizar pouco, enquanto, por outro lado, alguém que sabe menos consegue mobilizar mais, sendo, em conseqüência, mais bem-sucedido do ponto de vista das realizações efetivas. Nada disso, no entanto, pode servir de base para uma mínima desvalorização daquilo que se sabe, do conteúdo, ou do conhecimento de que necessitamos para a realização de qualquer ação. Sem dúvida, a falta de conhecimento é o primeiro sintoma, e o mais efetivo, da caracterização da incompetência, e a competência consiste em combinar de modo eficaz a busca pelo conhecimento de que se necessita com as formas adequadas de mobilização do mesmo. O desvio que consiste na caracterização da competência unicamente pelo conhecimento de que se dispõe, ainda que inerte, não pode ser substituído pelo elogio de uma competência “esperta”, que se limita a explorar os parcos recursos que já temos à mão, desdenhando da necessidade, sempre crescente, de novos conhecimentos. Se a competência não pode se limitar a sua dimensão técnica, ao conhecimento efetivo, sempre carente de incremento, dos múltiplos temas associados a qualquer ação consciente que se pretenda realizar, também é verdade que sem tal dimensão técnica, sem tais conteúdos cognitivos, ela não passa de um balão retórico prestes a explodir diante do mais inocente espinho. 8 Significação É importante também mencionar que a necessidade do âmbito, inerente à idéia de competência, não significa uma subestimação da necessidade de abstração também inerente a tal idéia. Porque, sem dúvida, àquele que é capaz de realizar tarefas apenas quando estritamente vinculadas a determinado contexto, permanecendo imobilizado por uma alteração mínima no mesmo, falta, sem dúvida, competência. Quem sabe que 3 abacaxis + 4 abacaxis = 7 abacaxis, mas tem dúvidas sobre o resultado da adição de 3 bananas com 4 bananas, não aprendeu a somar 3 com 4, e é certamente incompetente. Se é o âm- 6 PERSPECTIVA MAIO | JUNHO 2006 bito/contexto que dá vida à idéia de competência, também o é a capacidade de abstrair o contexto, de transportar-se o que se sabe para outros âmbitos, conservando-se a visão ou a compreensão que possibilita um fazer consciente. É incompetente tanto quem não é capaz de contextuar o que conhece, viabilizando uma ação plena de significações, quanto quem não consegue alçar-se por sobre as peculiaridades do contexto, abstraindo os elementos irrelevantes para o fim almejado e atendo-se ao que realmente se considera fundamental. Abstrair, portanto, não é o oposto de contextuar, mas um elemento complementar do contínuo movimento contextuação/abstração; a falta de um dos elementos do par somente pode possibilitar um andar capenga, que limita a atuação de um ser humano competente. 9 Integridade Ao situar a pessoalidade como um elemento fundamental da idéia de competência, convém mencionar um ponto crítico sem cuja consideração pode-se entrar em um desvio isolacionista, que contamina tal idéia. Trata-se do fato de que ninguém se constitui como pessoa sem os outros: permanentemente, agimos e representamos papéis socialmente prefigurados, para os outros e com os outros. Como sujeitos de uma ação consciente, atuamos segundo perspectivas pessoais, absolutamente idiossincráticas, perseguimos projetos, pessoais e coletivos, orientados por um cenário de valores socialmente partilhados, e necessariamente sujeitamo-nos (ou submetemonos) aos outros, no sentido de levar em consideração seus pontos de vista, seus argumentos, seus MAIO | JUNHO 2006 valores. Assim, um elemento complementar em relação à pessoalidade na constituição da idéia de competência é a integridade pessoal, tanto no sentido da pressuposição de um quadro de valores que se professam e que são efetivamente vivenciados, quanto no que se refere a uma integração com os outros, associada essencialmente a uma permanente abertura em tal quadro de valores para o diálogo, para a argumentação racional em busca de consensos. A idéia de integridade – a de manter-se inteiro como pessoa e, ao mesmo tempo, integrado ao corpo social em que se partilham valores e crenças – é um elemento fundamental para caracterizar a competência. Sem ela, a competência pode ser associada apenas a sua dimensão técnica, sendo confundida com o mero desempenho especializado, sem a referência a um quadro de valores socialmente acordados, sem compromisso com a articulação entre o interesse público e o privado, tão necessário para a vivência da plena cidadania. Parece-nos um completo contra-senso a pertinência da utilização da palavra competência para caracterizar as ações de um terrorista, de um torturador, ou do autor de um crime hediondo qualquer, realizado de maneira tecnicamente perfeita. 10 Conhecimento Vamos resumir o que se alinhavou até aqui. Em seu uso corrente, à palavra competência associa-se quase automaticamente o qualificativo pessoal, o que constitui um indício lingüístico forte da pessoalidade como elemento fundador da idéia de competência. Competentes ou incompetentes são os agentes, são as pessoas. PERSPECTIVA 7 PERSPECTIVA O mercado não age, os computadores não agem, os animais não agem, os livros não agem, apenas as pessoas agem livremente, conscientemente, na busca da realização de seus projetos, caracterizando-se como competentes ou incompetentes. Como a noção de autoridade, a de competência traz consigo sempre a idéia de âmbito, de contexto: exerce-se uma autoridade ou uma competência sempre em determinado âmbito, não resistindo a uma análise mais densa uma suposta competência para o que der e vier. Toda competência pressupõe uma capacidade de mobilização de recursos, em busca da realização de seus desejos, de seus projetos. Quem nada deseja, nada projeta, quem vive a inapetência abre as portas para a vivência da incompetência. A competência pressupõe sempre a aderência a um contexto e, simultaneamente, a possibilidade de liberar-se dele, abstraindo suas peculiaridades não para distanciar-se de qualquer contexto, mas sim para abrir as portas para novas contextuações. Quanto maior a competência, maior a capacidade de se pôr em movimento o círculo abstração/contextuação. Embora constitua um desvio semântico grave a identificação da competência como mero domínio de conteúdos técnicos em determinada área do conhecimento, o primeiro indício da falta de competência ocorre exatamente nesse terreno, dos conteúdos. É impossível conceber-se qualquer forma de competência que possa prescindir de conhecimentos específicos, de complexidade crescente a cada dia. Não se trata necessariamente de conhecimento escolar, ou científico, ou formal em algum sistema de ensino: trata-se do conhecimento em sen- 8 PERSPECTIVA tido pleno, que pode incluir as disciplinas escolares, mas que certamente vai muito além delas, envolvendo as noções de conhecimento e de valor, e desembocando na idéia de sabedoria, ou do conhecimento relevante, do saber que tem valor. A noção de competência, finalmente, fiel a sua raiz etimológica, caracteriza-se plenamente como capacidade de pedir junto com os outros, de buscar-se coletivamente fins prefigurados, mantendo-se a integridade pessoal e a integração social. 11 Autoridade Para concluir, uma proporção analógica: assim como existe certa contaminação semântica da idéia de autoridade pelo caráter indesejável do termo autoritarismo, só ocorre contaminação análoga da idéia de competência pela associação direta com a noção de competição: uma palavra final pode contribuir para uma descontaminação em ambos os casos. O exercício da autoridade é fundamental para a criação e/ ou a manutenção da ordem legítima, construída sobre um arcabouço de normas socialmente acordadas. Toda autoridade, no entanto, tem um âmbito que lhe compete; extrapolá-lo é o passo em falso, às vezes sutil, para o ingresso no terreno minado do autoritarismo. Convém lembrar que cada pessoa constrói sua consciência na medida em que assume a responsabilidade pelos seus atos e exerce uma autoridade sobre si mesmo, controlando suas volições de primeiro nível, meras vontades ou desejos nos limites de sua condição de animal, e elaborando as bases para as volições de segundo nível, os desejos de certos desejos e não de outros. Há em cada pessoa um âmbito em que ela é a maior autoridade sobre si mesma: ninguém pode invadir tal âmbito sem que se constitua uma arbitrariedade intolerável. O exercício pleno de tal autoridade nesse âmbito íntimo pressupõe, portanto, a vivência plena de uma responsabilidade radical. A assunção das responsabilidades, inerentes ao papel que MAIO | JUNHO 2006 se desempenha nos limites da competência correspondente, é o antídoto para a descontaminação do exercício da autoridade, sem medo de parecerse autoritário. 12 Competição No caso da idéia de competência, a associação direta com a noção de competição não pode ser temida por duas razões principais. Em primeiro lugar, há, na própria idéia de competição, uma ambivalência atenuante, uma vez que ela tanto significa rivalidade como acordo: naturalmente, tal acordo refere-se à plena aceitação das regras que regulam os processos competitivos, da justeza e do equilíbrio das mesmas. Mencione-se aqui, ainda que de passagem, que tal ambivalência semântica encontra-se presente em inúmeros termos latinos, como altus, por exemplo, que tanto significa alto como também profundo. Nos esportes, nas Olimpíadas, por exemplo, as competições apresentam o sentido positivo resultante de tal aceitação: busca-se algo junto com os outros, a existência dos outros faz com que cada um cresça, supere seus próprios limites. A razão mais importante, no entanto, para a contigüidade semântica com a competição não contaminar a idéia de competência é a seguinte: buscar junto com os outros não significa necessariamente que se alguém fica com, os demais ficarão sem o objetivo pretendido; tudo depende do que se busca, do que se pretende. Se o objetivo colimado é um bem material, é um pote de ouro ou uma medalha de ouro, então é verdade que se alguém ganha, os outros têm que perder; se o que se busca, no entanto, é um bem comum, é o conhecimento, por exemplo, como ocorre na escola, então não mais ocorre tal situação. Quando se busca o conhecimento junto com os outros, todos podem ser, e em geral o são, legítimos vencedores, e a competência, ou a competição mostra sua face construtiva, sem restrições. Nílson José Machado, Professor Titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Autor de diversos livros, entre os quais As competências para ensinar no século XXI (em co-autoria com Philippe Perrenoud, Lino de Macedo e Cristina Allessandrini). PARA SABER MAIS DEMO, Pedro. Conhecer e aprender. Sabedoria dos limites e desafios. Porto Alegre: Artmed, 2000. PERRENOUD, Philippe & THURLER, Mônica Gather. As competências para ensinar no século XXI. A formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed, 2002. Referências bibliográficas D’ALLONNES, M. R. Le pouvoir des commencements. Paris: Seuil, 2006. MACHADO, N. J. Conhecimento e valor. São Paulo: Moderna, 2004. MACHADO, N. J. Sobre a idéia de competência. In: PERRENOUD, P. et alii. Competências para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002. (O texto aqui citado tem em comum com o presente texto apenas o título). ORTEGA Y GASSET, J. Obras completas vols. 1 e 2. Madrid: Alianza, 1987. RAMOS, S. Hacia un nuevo humanismo. México: Fondo de Cultura Económica, 1997. ENTREVISTA EDUCAR É DESPERTAR O DESEJO DE Há poucos anos, Álvaro Marchesi foi escolhido uma das 50 personalidades mais importantes da Espanha, por sua atuação no mundo da Educação. Não por acaso: ex-vice-ministro da Educação, foi um dos responsáveis, junto com César Coll, pela reforma da Educação espanhola, que tanta influência teve sobre os caminhos do ensino no Brasil. Pesquisador e professor da Universidade Complutense de Madrid, é autor de diversos livros, muitos traduzidos no Brasil – o mais recente, O que será de nós, os maus alunos?, publicado pela Editora ArtMed. Marchesi concedeu à Aprender juntos a seguinte entrevista. APRENDER JUNTOS O que mudou na escola para que questões como a das habilidades e competências passassem a ser tão importantes? Trata-se de uma tendência passageira ou acredita-se que a escola das próximas décadas se organizará cada vez mais em torno desses conceitos? ÁLVARO MARCHESI Creio que a mensagem de fundo sobre as competências e as habilidades tem estado nas propostas educativas há quinze anos, ao menos, pelo que se pode pensar que vão se manter por muito mais tempo. O importante é compreender que se pretende transmitir esses conceitos e não tanto conhecer uma longa lista de competências e habilidades. Trata-se de orientar a atividade educativa para que os alunos adquiram um conjunto de conhecimentos que lhes sirvam para resolver problemas e para eleger as estratégias adequadas que lhes permitam enfrentar seus problemas com maiores garantias de êxito. O mais importante, em conseqüência, no processo de ensino e de aprendizagem, não é que os alunos adquiram determinados conteúdos, mas que sejam capazes de aprender por eles mesmos, de trabalhar em equipe, de comunicar-se, ter iniciativa, comportar-se de forma socialmente responsável e de desenvolver um comportamento moral autônomo. Os conteúdos que se aprendem devem estar em função das competências que se pretende que os alunos adquiram. 10 ENTREVISTA SABER Mas desenvolver habilidades e competências parece ser mais fácil na teoria do que na prática, não é? ÁLVARO MARCHESI Creio que estas reflexões são fáceis de compreender e a maioria dos professores estará de acordo com elas. Porém, não é simples levar à prática por três razões principais. A primeira, porque nós, os professores, temos sido preparados para ensinar conteúdos e temos uma formação escassa para ensinar de outra maneira. A segunda, porque a maioria dos livros e dos materiais didáticos disponível segue insistindo em conteúdos de aprendizagem e apenas estabelece relações com as competências exigidas. E a terceira razão procede das contraditórias mensagens dos próprios responsáveis pela educação: ainda que por uma parte insistam em que as competências sejam a principal referência da ação educativa, na hora de avaliar se fixam quase exclusivamente nos dados e conceitos que os alunos aprenderam. APRENDER JUNTOS APRENDER JUNTOS De certa forma, as discussões teóricas atuais que envolvem novas metodologias ou abordagens pedagógicas não desconsideram o trabalho do educador? Ou seja, não é como dizer: “esqueça tudo o que você fez antes”? ÁLVARO MARCHESI Não creio que educar seja algo distinto do que os professores intuem. Educar é principalmente despertar o desejo de saber dos alunos, cuidar de seu desenvolvimento afetivo e social e favorecer sua autonomia moral. Não é só, nem principalmente, transmitir conhecimentos sem favorecer o desenvolvimento integral dos alunos na sociedade em que estão vivendo. O que acontece é que não é simples incorporar os três grandes objetivos, aos quais acabo de fazer referência, no ensino de cada uma das matérias. Exige reflexão, adaptação metodológica, inovação e auto-avaliação, o que por sua vez necessita tempo, trabalho em comum dos professores e projetos compartilhados. Preparar-se para responder às exigências atuais do ensino é uma obrigação profissional dos professores, mas também é uma obrigação daqueles que são responsáveis pelas condições de trabalho desses mesmos professores. MAIO | JUNHO 2006 Eliana Assunção Recentemente, um livro de sua autoria fez muito sucesso no Brasil, ao abordar a questão do fracasso escolar. Por que é tão difícil para os educadores e para a escola compreender as reais causas dos problemas de aprendizagem? ÁLVARO MARCHESI Há que se reconhecer que educar a todos os alunos é muito complicado. Quando os alunos se atrasam significativamente em sua aprendizagem, perdem também a motivação para aprender ou têm um comportamento conflitante na classe, e torna-se muito difícil ensiná-los. A reflexão principal, que a escola e os responsáveis pela educação deveriam fazer, é que a estratégia mais produtiva é a prevenção dos problemas, quer dizer, evitar que os alunos fiquem defasados em relação à idade/série, desmotivem-se e se cansem da escola. Para isso, é preciso ajudar aos mais atrasados desde as séries iniciais, organizar um ensino atrativo, favorecer o diálogo com os alunos, sua participação nas atividades e a colaboração das famílias. Tudo isso supõe que o professorado tenha vontade e preparo para essas atividades. Quer dizer: que tenha a disposição e as competências para ensinar bem, para criar um clima de respeito e de diálogo, para animar as famílias a colaborar com a educação de seus filhos. Das competências dos alunos passamos para as competências dos professores. São diferentes, sem dúvida, mas estão relacionadas. É difícil conseguir que os alunos adquiram determinadas competências se seus professores não dispõem das capacidades e competências necessárias para isto. APRENDER JUNTOS No Brasil, muitas vezes os professores se perdem enumerando listas de habilidades e competências. Ou seja, é como se “ensinar” competências fosse apenas mais uma matéria. Trata-se de uma distorção do entendimento de competências no contexto da educação? ÁLVARO MARCHESI Sim, é uma colocação equivocada. É preciso conhecer, a princípio, quais são as principais competências que os alunos devem adquirir. Mas o trabalho principal deve estar centrado em organizar o conjunto de atividades educativas para promover a aquisição dessas competências. O professor deve saber, por exemplo, que se comunicar de forma precisa é uma competência que hão de adquirir todos os alunos e que é responsabilidade de todos os professores. O que tem de fazer o professor quando planeja sua aula de Ciências, por exemplo, é incorporar atividades científicas que, além de contribuirem para a aprendizagem de Ciências, ponham em ação a competência comunicativa. APRENDER JUNTOS APRENDER JUNTOS Os professores também se queixam de que, quando fazem cursos e assistem a congressos, recebem “explicações” nos moldes tradicionais. Ou seja, têm aulas tradicionais onde lhe tentam convencer a não dar mais aulas tradicionais... Como vê essa questão? ÁLVARO MARCHESI Como disse anteriormente, o problema principal que os professores enfrentam é a falta de formação e de materiais disponíveis. Às vezes, a formação que se oferece é demasiadamente teórica e está pouco relacionada com a prática concreta do professor e com a situação da escola. Por isso, permitir que os professores possam refletir em sua instituição de ensino sobre os problemas que enfrentam e assessorá-los nos processos de mudança parece ser a melhor estratégia formativa. MAIO | JUNHO 2006 Todas essas questões são válidas para a Espanha? Ou seja, os problemas aqui tratados, o trabalho sobre competências, a formação de valores são questões universais na educação contemporânea? ÁLVARO MARCHESI Na Espanha, estão se discutindo os mesmos temas. Neste momento, o Ministério da Educação propôs novos Parâmetros Curriculares em torno de oito competências básicas: competência em comunicação lingüística, competência matemática, competência em conhecimento do mundo físico, tratamento da informação e competência digital, competência social e cidadã, competência cultural e artística, competência para aprender a aprender, e autonomia e iniciativa pessoal. Ao mesmo tempo, discute-se como se pode concretizar a educação de valores nas diferentes etapas educativas. Como se pode ver, os problemas e as alternativas são bastante similares. APRENDER JUNTOS ENTREVISTA 11 PERSPECTIVA POR LUIZ CARLOS DE MENEZES A COMPETÊNCIA PARA PROMOVER COMPETÊNCIAS 1 Quando se pensa em uma educação que não se limita a transmitir conhecimento, como propõem muitos educadores2, o trabalho do professor passa a ser entendido como uma atividade de alcance cultural e social, que deve resultar em qualificações que atribuam emancipação pessoal ao educando. 1 Baseado em texto do autor, publicado em Ciência e Arte – imaginário e descoberta. São Paulo: Terceira Margem, 2003. 2 Como John Dewey, Jean Piaget e Lev Vygotsky, Anísio Teixeira, Paulo Freire, António Nóvoa ou Philippe Perrenoud. Para poder promover, entre os jovens, competências para a cultura e para o trabalho, para o convívio e a realização pessoal, os professores precisam, antes de tudo, ter desenvolvido em si mesmos essas competências. No Brasil, ao longo da última década, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e os parâmetros educacionais e exames nacionais, como o Enem, têm enfatizado o conceito de competência na condução e na avaliação do aprendizado escolar, mas falta muito para estas idéias serem postas em prática, na realidade e na formação de professores. Há muita teoria boa disponível e há muito por aprender na prática para avançar na direção de uma formação docente que atenda às múltiplas dimensões necessárias, mas é possível ilustrar de forma singela como a questão é cíclica, no sentido de que o professor necessita das competências que, em princípio, sua escolarização deveria ter promovido. O conjunto de competências que a escola promove, em todas as suas etapas, ciclos ou níveis, pode ser classificado de muitas maneiras diferentes, e não deveria ser muito diferente do conjunto de qualificações de que o convívio pessoal, familiar, social e funcional necessita e que também desenvolve. Cada etapa da educação está mais voltada para determinados aspectos formativos, ainda que todos estejam presentes em todas as etapas. Nas etapas mais elementares da escola, na educação infantil, e no início do ensino fundamental, concentra-se o desenvolvimento de competências socioafetivas. O convívio entre as crianças, ou entre elas e as professoras, ampliando o convívio familiar e social, promove amizades, a percepção de limites e possibilidades, de direitos e responsabilidades, de disciplina de trabalho, o aprendizado de regras nas disputas e nos conflitos. Todas as demais etapas escolares devem continuar a promover estes desenvolvimentos, mas o fazem de forma mais especialmente para o professor, cujo trabalho é densamente social e afetivo. Desde os primeiros anos do ensino fundamental, e especialmente na sua etapa intermediária, até o sexto ano, digamos, a ênfase vai sendo deslocada para as competências expressivo-comunicativas, ampliando e consolidando a linguagem verbal, lado a lado com a gestual ou corporal, e com a capacidade de argumentar ou contra-argumentar, desenvolvendo o domínio de diferentes linguagens. Essa etapa enfatiza a alfabetização no idioma, a alfabetização matemática e o início da alfabetização científica, tecnológica, artística e humanística. Seria recomendável maior articulação entre as várias linguagens escritas, gráficas, matemáticas, corporais e artísticas, assim como, especialmente no que se refere à capacidade de argumentação, é lamentável que, nesta etapa escolar, já se dê um maior isolamento dos alunos, tornando mais raras as oportunidades de troca e de aprendizado efetivamente coletivo. A fragilidade no domínio dessas linguagens múltiplas enfraquece todos os demais aprendizados, especialmente para um professor, não importa que disciplina lecione, que deveria, com desenvoltura, transitar entre as diferentes linguagens. Nos últimos anos do ensino fundamental e em todo o ensino médio tradicional, as ênfases estarão na transmissão ou elaboração de conhecimentos. Especialmente no ensino médio, a ênfase sempre esteve nas competências cognitivo-interpretativas, ou seja, no conhecimento, na compreensão e na interpretação de fenômenos naturais, manifestações culturais, sistemas políticos, movimentos sociais e processos tecnológicos. Infelizmente, em função de uma recepção passiva de conteúdos disciplinares, apresentados sem contexto significativo, conhecer tem correspondido simplesmente a tomar conhecimento, estar informado, relegando-se dimensões importantes do conhecimento, como o desenvolvimento da curiosidade, do desejo de conhecer, da capacidade de aprender, de procurar e interpretar informações, da fruição cultural. As competências cognitivas são, entre todas, as mais reconhecidas e as menos questionadas como essenciais à educação escolar e, em conseqüência, à formação docente, mas isso não significa que elas estejam sendo promovidas com sucesso, tanto na formação docente quanto no aprendizado escolar. Entre outras razões, curiosamente, talvez isto se deva também a problemas socioafetivos e à falta do domínio de linguagens... Na nova educação básica brasileira, outros conjuntos de competências, as prático-propositivas e as ético-estéticas, passariam também a ocupar papel imMAIO | JUNHO 2006 portante, capacitando para a vida e para o trabalho, preparando para diagnosticar, equacionar e resolver problemas e situações reais, ao propor alternativas, compatibilizar interesses, coordenar vontades e ações. Essas competências que, enfim, têm a ver com a condução da própria vida e com a participação na vida comunitária, profissional e social, constituem uma nova dimensão do saber, ao mesmo tempo que articulam as demais competências sociais, afetivas, expressivas, comunicativas, cognitivas e interpretativas. Não deveria restar qualquer dúvida quanto ao significado dessas competências práticas e propositivas para qualquer professor, que permanentemente enfrenta situações inéditas, que precisa coordenar vontades conflitantes, além, é claro, de ter de promover o desenvolvimento dessas competências em seus alunos. Curiosamente, este é o mais frágil aspecto da formação docente entre nós, pois a tradição, na formação de nossos professores, é de um ensino teórico e propedêutico, em detrimento de maior vivência prática. A única ponte que se estabelece entre os centros formadores e as escolas são os estágios, usualmente artificiais ou insuficientes, pois sonegam aos que estão se formando a oportunidade de confirmar suas habilidades, de propor inovações e de verificar o alcance de suas proposições. As competências sociais e afetivas, expressivas e comunicativas, cognitivas e interpretativas, práticas e propositivas já fazem parte das propostas, diretrizes e parâmetros que, em princípio, norteiam a educação básica brasileira, mas falta pôr em prática essas recomendações. Luiz Carlos de Menezes, Livre Docente pela Universidade de São Paulo. Doutor (PhD) pela Universität Regensburg (RFA). Mestre (M Sc) pela Carnegie-Mellon University (EUA). Professor Associado do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Autor de livros, artigos e vídeos sobre física, educação e formação de professores. PARA SABER MAIS GIROUX, H. A. Os professores como intelectuais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. GOODSON, I. F. Vidas de professores. Porto: Porto Editora, 1997. NÓVOA, António. Os professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1991. VASCONCELOS, T. M. Sena de. Ao redor da mesa grande. A prática educativa de Ana. Porto: Porto Editora, 1997. ZEICHNER, K. M. A formação reflexiva de professores: idéias e práticas. Lisboa: Educa, 1993. REFLEXÃO&AÇÃO POR ASSESSORIA PEDAGÓGICA EDIÇÕES SM GRANDES TEMAS DA EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA Roteiros de estudos e discussão docente Os professores hoje convivem com o desafio constante de educar numa sociedade que se transforma aceleradamente, que se faz e desfaz com impressionante rapidez. Uma das exigências para a eficácia de sua prática, nesse contexto, é a reflexão. À escola, cabe oportunizar momentos de estudos em que o educador comunique, partilhe e discuta suas idéias. Ao professor cabe assumir a responsabilidade por seu próprio desenvolvimento profissional, fazendo-se protagonista na implementação de políticas educativas e de mudanças de propostas pedagógicas. Com o intuito de contribuir para esses momentos, a seção Reflexão&Ação dessa edição traz dois momentos de estudos: o primeiro aborda a temática do desenvolvimento de competências pessoais na escola, e o segundo discute, a partir da entrevista com Álvaro Marchesi, os principais desafios vividos pelos professores na implementação de uma prática educativa que desperte para o desejo de saber, forme para a autonomia moral e para uma vivência social responsável. Modo de fazer PROPOSTA DE DISCUSSÃO I Sobre a idéia de competência Tem por objetivo levar a refletir sobre a idéia, o espaço e o tempo que a formação para competências pessoais ocupa no âmbito dos processos de ensinoaprendizagem, na escola. 1 INTRODUÇÃO Anteceda o encontro, com a leitura do artigo Sobre a idéia de competência, de Nílson José Machado, publicado nesta revista. 2 RECEPÇÃO Acolha os professores: este momento é fundamental, quando nos sentimos acolhidos, valorizados, ficamos mais abertos para a relação, para o novo, mais envolvidos com o contexto em questão. 3 OBJETIVOS Fale sobre os objetivos do encontro, a importância desse momento para você, como responsável, e para a escola. 4 TEMA Apresente o tema junto com esta revista; você recebeu um cd; se quiser, use-o para a introdução do estudo. É importante que os professores estejam de posse do artigo de Nílson José Machado e o utilizem como subsídio de trabalho. 5 ORGANIZE O GRUPO Há várias dinâmicas que podem ser usadas na formação de grupos; isso dependerá do tempo de que se dispuser para este estudo. Sugerimos que sobre a mesa do professor seja colocada uma mensagem escrita em papel colorido e um bombom. Nesse momento, você deverá pedir aos professores que se reúnam em grupos de acordo com a cor do papel da mensagem que receberam. 6 DISCUTA Escolha algumas das questões abaixo e entregue-as para cada um dos grupos de discussão. A “Com freqüência, na escola, os conteúdos disciplinares são apresentados aos alunos e aprendidos por eles sem que venham efetivamente a residir neles(...). Avaliações são feitas e bons resultados são alcançados sem que o conhecimento torne-se um conhecimento pessoal do aluno. Quando isso ocorre, por mais que os alunos pareçam saber, pouca ou nenhuma competência foi desenvolvida.” (machado, n.j. – Sobre a idéia de competência. In: perrenoud, p. et alii – Competências para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002). O que o grupo pensa sobre isso? Apontem algumas sugestões para resolver essa questão. D “O desenvolvimento científico não pode ser considerado de forma desvinculada do projeto a que serve (...). As ciências precisam servir às pessoas e a organização da escola deve visar, primordialmente, ao desenvolvimento das competências pessoais.” (machado, n.j. – Sobre a idéia de competência. In: perrenoud, p. et alii – Competências para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002). “(...) Infelizmente, em função de uma recepção passiva de conteúdos disciplinares, apresentados sem contexto significativo, conhecer tem correspondido simplesmente a tomar conhecimento, estar informado.” (Luiz Carlos de Menezes, Competências para promover competências). Como o grupo avalia essas premissas? Que relações estabelece entre as proposições do autor e o projeto pedagógico que desenvolve na escola? É possível desenvolver competências pessoais na escola? Que caminhos o grupo indica? 7 COMPARTILHE Peça aos grupos que se separem e B “... a competência é um atributo das pessoas, exerce-se em um âmbito bem delimitado, está associada a uma capacidade de mobilização de recursos, realiza-se necessariamente junto com os outros, exige capacidade de abstração e pressupõe o conhecimento de conteúdos.” (machado, n.j. – Sobre a idéia de competência. In: perrenoud, p. et alii – Competências para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002). Trabalhar com competências é um imperativo no cenário social. Que idéia o grupo tem de competência? É possível criar um projeto educativo que a contemple em seus seis elementos fundamentais: pessoalidade, âmbito, mobilização, conteúdo, abstração e integridade? Justifique. C “A demanda por uma organização alternativa do trabalho escolar em seus diversos níveis, tem crescido sobremaneira. Com ela, tem crescido também um terrível mal-entendido: a idéia de que disciplinas e competências disputam os mesmos espaços e tempos escolares, contrapondo-se de modo radical.” (machado, n.j. – Sobre a idéia de competência. In: perrenoud, p. et alii – Competências para ensinar no século XXI. Porto Alegre: Artmed, 2002). O que o grupo pensa sobre isso? De que modo competências e disciplinas se solidarizam na formação escolar do aluno? MAIO | JUNHO 2006 formem novos grupos com outros participantes. O objetivo deste momento é a partilha e a ampliação da reflexão. Cada participante apresenta as questões e as reflexões feitas por seu grupo inicial. 8 INICIE UMA ASSEMBLÉIA Para concluir dos trabalhos. Este momento pode ser dirigido por meio das seguintes questões: Qual a idéia que temos de competência na escola? O modo como encaminhamos nosso trabalho dá conta da formação de competências pessoais? Que aluno queremos formar? Que escola queremos ser? Se achar necessário, inicie esse momento pela partilha dos trabalhos realizados no grupo. 9 CONCLUSÃO A idéia deste momento é que ele seja uma síntese afetiva e significativa do encontro. Peça a cada professor que, espontaneamente, expresse numa frase o que o momento de estudo significou para ele. 10 DOCUMENTAÇÃO Monte um portfólio contendo as discussões apresentadas na assembléia. REFLEXÃO&AÇÃO 15 PROPOSTA DE DISCUSSÃO II Educar é despertar o desejo de saber Tem por objetivo levar a discutir os principais desafios enfrentados pelos educadores na implementação de uma educação voltada para o trabalho com competências na escola. 4. ORGANIZE O GRUPO Proponha aos grupos que se reorganizem e façam a leitura da entrevista, procurando responder às questões: Quais os principais aspectos do texto. O grupo concorda com as idéias do autor ou discorda dele quanto: • ao Modo de fazer 1 INTRODUÇÃO Acolha os professores. 2 OBJETIVOS Fale sobre os objetivos do encontro. 3 TEMA Apresente o tema e faça um levantamento dos conhecimentos prévios: apresente Álvaro Marchesi e o tema da entrevista. Fale sobre a importância de se refletir sobre essas questões dentro da escola. Pergunte aos professores a idéia que têm do que é: um aluno autônomo; socialmente responsável; com formação moral autônoma. Para esse momento, podem-se organizar grupos e usar revistas, tesoura, cola e cartolina, para que as idéias sejam expressas por meio de imagens. É importante trabalhar com o contexto em que o professor fundamenta suas idéias e sua prática. conceito de educação que propõe; • às três principais razões que dificultam o trabalho com competências na escola. Justifique as respostas dadas às questões acima. Como o grupo acredita que deva ser uma prática pedagógica para dar conta de um aluno autônomo na busca do conhecimento cooperativo e socialmente responsável? 5 ABRA UMA ASSEMBLÉIA A assembléia é uma plenária das discussões feitas no grupo. Você poderá mediar esse momento propondo, no decorrer das apresentações, questionamentos como: Isso que vocês estão dizendo pode se aplicar a outras situações? Podemos aplicar isso ao nosso trabalho cotidiano? Como é o trabalho no dia-a-dia e como vocês gostariam que fosse? Em que vocês se baseiam para dizer que... 6 CONCLUA Lembre-se de que este é o momento de fazer uma síntese afetiva e significativa do encontro. Peça a alguns professores que expressem espontaneamente o que o encontro significou para eles. 7 DOCUMENTAÇÃO Monte um portfólio com as discussões realizadas na assembléia. Assessoria Pedagógica Edições SM Inês Calixto, Pedagoga, especialista em Gestão Colegiada. Ilaine Melo, Pedagoga, historiadora. PARA SABER MAIS Assessoria Pedagógica Edições SM Tel. 11 3847-8941 assessoriapedagó[email protected] PERRENOUD, Philippe & THURLER, Mônica Gather. As competências para ensinar no século XXI. A formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: ArtMed, 2002. ZABALA, Antoni. Como trabalhar os conteúdos procedimentais em aula. Porto Alegre: ArtMed. 16 REFLEXÃO&AÇÃO MAIO | JUNHO 2006 Trabalhamos pela dignidade das pessoas. Cremos que a diversidade enriquece. Defendemos a educação integral. Despertamos nas crianças o desejo de saber. ISTO É EDUCAÇÃO EM VALORES Acreditamos que nossa responsabilidade não se limita apenas à publicação de ótimos livros. Oferecemos um projeto educativo completo, que prevê assessoria aos professores, programas de estímulo à leitura, incentivo à pesquisa e à avaliação da qualidade do ensino. Instituímos como necessidade desenvolver e oferecer, no âmbito de nossa atuação escolar, uma ampla variedade de serviços, tais como cursos, oficinas didáticas, assessoria pedagógica para os projetos publicados, conteúdos na internet, entre outros. PROFESSOR, Visite nosso site e descubra um pouco mais sobre o Grupo SM e a trajetória de Edições SM no Brasil. Aproveite e solicite informações sobre todas as nossas novidades, cursos e lançamentos! www.edicoessm.com.br São Paulo Rua Gomes de Carvalho 1511 Mezanino Vila Olímpia 04547-005 São Paulo /SP Tel. 11 3847-8925 Fax 11 3847-8945 [email protected] Rio de Janeiro Tel. 21 2554-8844 Belo Horizonte Tel. 31 2102-9813 Recife Tel. 81 3243-5366 Outras localidades Tel. 0800 773 5530