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ETNICIDADE, NAÇÃO E CULTURAS: INTELECTUAIS NEGROS –
EDUCAÇÃO E MILITÂNCIA1.
José Antônio dos Santos
UFRGS - PROREXT
Neste trabalho, realizado basicamente a partir das páginas do jornal A Alvorada (Pelotas –
RS, 1907-1965), vamos acompanhar a trajetória e cruzar as biografias de alguns operários negros
que se ocuparam com a fundação e a manutenção deste periódico ao longo de mais de cinqüenta
anos de publicações. O hebdomadário foi a nossa porta de entrada para algumas histórias de vida,
tendo se definido o semanário como representação de uma realidade na qual poderia assumir
múltiplos sentidos. O testemunho do jornal foi analisado como um mediador que nos possibilitou
reconstruir uma realidade possível ou fragmentos de uma prática social passada, a qual buscamos
apreender por meio da análise de conteúdo e da comparação das informações fornecidas com
outras fontes de pesquisa (entrevistas, jornais diários, teses, etc.).
Ao resgatar as trajetórias de vida de alguns daqueles operários da informação, duas
questões nos interessaram: primeiro - detectar o grau de autonomia possível no processo de
ascensão social daqueles que foram saudados como “operários de si mesmos”; segundo –
identificar qual o interesse dos editores e colunistas do jornal A Alvorada na divulgação de relatos
biográficos de pessoas que, por meio da educação, conseguiram um certo respeito naquela
sociedade.
Neste sentido, começaremos com Carlos da Silva Santos que nasceu em 1904 em Rio
Grande, foi um dos fundadores e primeiro secretário do Sindicato dos Operários Metalúrgicos e
União Sindical Riograndina, foi eleito deputado estadual classista (1935-37) e suplente de
Deputado Estadual pelo PSD. Aos 35 anos de idade fez o curso ginasial em Porto Alegre e aos 45
formou-se em Direito em Pelotas, quando foi o orador da turma. No final da década de quarenta e
início de cinqüenta era diretor do Diário de Notícias e correspondente do jornal A Noite do Rio
de Janeiro e das rádios Farroupilha e Difusora de Porto Alegre.
1
Este trabalho foi originalmente desenvolvido, com ligeiras modificações, como um sub-capítulo da dissertação
“Raiou A Alvorada: intelectuais negros e imprensa, Pelotas (1907-1957)”, defendida em 2000/2 junto ao PPG de
História da Universidade Federal Fluminense.
2
Nas biografias2 resenhadas no jornal, Carlos era saudado como “expoente da
intelectualidade riograndina”, “exemplo que ilumina os seus irmãos de raça”, sua história de vida
era utilizada de forma a demonstrar aos leitores do A Alvorada que era possível aos negros,
através da educação, melhorar as condições econômicas e sociais que lhes eram adversas. As
biografias eram alinhavadas com um certo tom de heroísmo, nas quais os personagens venciam
por seus próprios méritos, de forma individual.
Neste caso, se acompanharmos mais de perto a trajetória de Carlos Santos, veremos que
ele era neto de Manoel Conceição da Silva Santos, “. . . cuja família de origem e sangue africanos
foi a mais considerada pela raça branca, dentre os de raça preta desde o tempo da Monarquia”.
Seu avô, nacionalista e abolicionista, foi um homem negro bem relacionado que circulava no
mundo dos brancos. Este retrospecto social pode ter ajudado Carlos de alguma forma, com um
apadrinhamento, condições financeiras melhores ou uma disposição interior adquirida da
experiência familiar, ao que parece, bem sucedida que lhe rendeu laços de sociabilidade que o
ajudaram a superar os limites raciais e sociais impostos à maioria daqueles que haviam nascido
negros. No início da década de trinta, Carlos assinava artigos no jornal demonstrando o que ele
esperava dos negros, uma raça altiva, raça consciente, raça nobre que se dedicasse à família e à
sociedade. Ao contrário, não era isto que ele observava nas atitudes da maioria dos seus irmãos
de raça, conforme sua opinião, estes estavam mais dedicados aos “cordões, marchas
carnavalescas, bailes, tangos, valsas e jazz-mania é nisto que se perde o negro”3 apesar dos seus
apelos e questionamentos: “Era isto que esperava de nós a falange gloriosa dos abolicionistas?”.
De certa forma, verificamos que existia em Carlos a consciência de um papel a cumprir, definido
no passado ainda durante a escravidão, no qual ele se colocava como exemplo de moralidade e
retidão.
Seu avô Manoel Conceição da Silva Santos, fez parte da diretoria do Club Abolicionista
pelotense, fundado em 1881, criado para comprar escravos e de imediato dar-lhes a alforria. O
Clube era formado por 276 integrantes, entre estes, alguns eram libertos e outras pessoas de
prestígio na sociedade pelotense. Os abolicionistas tinham “uma proposta essencialmente
conservadora e moralista”4, pois além de tutelarem a vida dos alforriados, não libertavam
2
A Alvorada. (AA) Edições de 13.01.1951 e 24.02.51 (Biblioteca Pública Pelotense)
“Negros, sociedade e família. Carlos Santos de Rio Grande”. AA. 05.05.32
4
LONER, Beatriz Ana. 1887: a revolta que oficialmente não houve ou de como abolicionistas se tornaram zeladores
da ordem escravocrata. História em Revista, Pelotas, n. 3, p. 29-52, nov. 1997.
3
3
escravos fujões, ladrões ou bêbados. Os abolicionistas, entre os quais o seu avô, esperava que a
raça conseguisse se integrar na sociedade e assumisse o modelo de comportamento proposto pela
elite pelotense que tinha a família e a sociedade como objetivos maiores e o trabalho por base
daquelas.
Carlos escrevia de Rio Grande, cidade onde havia nascido e exercia suas atividades
profissionais, mas seus laços familiares, como era comum naquela época, principalmente pela
proximidade entre as duas cidades, estendiam-se em direção à Pelotas. Segundo depoimento,
sobre os laços sociais de sua família, José Facundo Mira, primo de Carlos, o “. . . relacionamento
foi que facilitou muito... e pessoas sabiam de meu modo de vida, minha família sempre teve um
nível, não lado financeiro isso e aquilo [sic], mas o lado social sempre nós primamos”5. Tio Mira,
conforme José era conhecido em Pelotas na década de noventa, lembrava naquele depoimento
que seu filho João Manoel6 fora auxiliado duas vezes por pessoas da sociedade pelotense com as
quais sua família mantinha relações. Primeiro, João Manoel teve dificuldades para encontrar um
colégio que o aceitasse em Pelotas quando começou a estudar, pois era negro, segundo, quando
buscou tornar-se padre, foi proibido pela Igreja Católica da cidade pelo mesmo motivo. Nestas
situações em que recebeu ajuda da sociedade pelotense, segundo Tio Mira, a causa foi o racismo
vigente naquela cidade no final da década de cinqüenta. Havia se passado quase dez anos das
conquistas de Carlos enunciadas no início deste texto, mas a discriminação racial e o
apadrinhamento permaneciam naquela sociedade. Isto nos dá uma ligeira idéia da extensão no
tempo do racismo pelotense e dos laços de sociabilidade que, de certa forma, permaneceram e,
tudo indica, nos dois casos, foram além da cor da pele.
Tio Mira sentia-se orgulhoso de seu filho João Manoel que foi para Florianópolis onde se
formou em Teologia, pois “. . . ele continua a mesma luta que Manoel Conceição iniciou e que
eu, em toda vez que eu posso, eu manifesto que nós ainda não tamo [sic] livre por completo”7.
Ele fazia referência à luta empreendida por seu bisavô contra a escravidão e a favor de uma
5
Cf. DALLA VECCHIA, Agostinho M. Os filhos da escravidão: memórias de descendentes de escravos da região
meridional do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1992. Dissertação em História, PUC/RS, Anexos ex. 2 p. 204-14
(entrevistas realizadas entre jul. 90 a abril de 1991).
6
AA. 24.09.49 Esta edição do jornal traz foto de João Manoel que, naquela data, completava um ano de idade, seu
pai vinha com o nome de José Facundo Mira.
7
DALLA VECCHIA, op. cit., p. 205
4
melhor condição econômica e social dos negros pelotenses8, e estendia a continuação desta luta
ao seu filho nos dias atuais. O envolvimento de João Manoel com questões ligadas aos afrobrasileiros foi comprovado recentemente9.
José Facundo Mira ao longo de seus 74 anos tornou-se uma pessoa bastante conhecida em
Pelotas. Na década de quarenta tocou contra-baixo e cantou no conjunto musical Cruzeiro do Sul;
na década de cinqüenta foi Primeiro Orador do Fica Aí10 e componente do conjunto regional da
Rádio Cultura de Pelotas. Segundo o próprio, em referência ao semanário A Alvorada, disse que
trabalhou por “... muito tempo no jornalzinho da raça” (Id., p. 205) como tipógrafo e, algumas
vezes, escreveu artigos para o mesmo jornal11. Sobre os intelectuais negros que mantinham o
periódico disse: “... eram homens que lutavam através da pena sobre o problema do negro,
precisávamos que ressurgissem outros Rodolfo Xavier e outros Armando Vargas para que
continuassem” a luta em defesa dos negros pelotenses. Ele citava dois nomes dos principais
fundadores e mantenedores do A Alvorada, aqui definidos como intelectuais orgânicos da
comunidade negra pelotense. No acompanhamento da história do jornal percebe-se que existiram
dezenas de indivíduos que, como Tio Mira, trabalharam nas oficinas do periódico e deleitaram-se
com a sua leitura, tinham discurso articulado (linguagem) e visão de mundo, nasceram, portanto,
capazes de pensar e agir. Nesse sentido, conforme Gramsci, todos os homens nascem filósofos,
pois a natureza humana é uma só, mas, no correr das vidas tornam-se filósofos e intelectuais
orgânicos de uma comunidade apenas alguns poucos que assumem posição de liderança e atuam
em defesa dos interesses da maioria a qual respondem.
Destacaremos a seguir os nomes de quatro fundadores do jornal A Alvorada: os irmãos
Juvenal e Durval Morena Penny, Antonio Baobab e Rodolfo Xavier, definidos como intelectuais
orgânicos da comunidade negra pelotense. Todos eles se autodenominavam – negros - o que foi
amplamente atestado em depoimentos, reportagens e artigos assinados, condição também
comprovada por fotos divulgadas em primeira página nas datas de aniversário do jornal.
8
Cf. o depoimento citado de José Mira, Manuel Conceição da Silva Santos nasceu em 1831 em Pelotas e morreu em
1918. Foi “delegado negro” e um dos fundadores do Clube Abolicionista de Pelotas em 1881 e, Primeiro Tesoureiro
da Irmandade Nossa Senhora do Rosário, entidade fundada por negros para cuidar das crianças de rua.
9
Ver: Raça. São Paulo, n. 41, p. 7, jan. 2000. O padre João Manoel Lima Mira, professor de cultura afro-brasileira
na Universidade de Sofia de Tóquio – Japão, por e-mail, solicita informações sobre o Geledés, grupo de militância
dos direitos das mulheres negras brasileiras.
10
O Clube Cultural Fica Aí Pra Ir Dizendo foi fundado em 1921 pela comunidade negra pelotense. O cargo de
Primeiro Orador parecia ser muito importante, pois era ocupado por alguém que representava o clube nas atividades
sociais junto à sociedade com a função de discursar. “Anúncio de eleição no Fica Aí”. AA. 17.04.48
11
“O bar de Joe Luiz”. José Mira AA. 15.12.46
5
Devemos considerar, no entanto, que, muito embora houvesse a consciência de negritude
daqueles indivíduos, muitas vezes a caracterização fenotípica da comunidade negra em relação a
eles era variada, algumas vezes eram caracterizados como mulatos, morenos e, mesmo negros.
Todos eles, além da autodenominação de negros e o parentesco, os dois primeiros eram irmãos e
os dois últimos também, ainda tinham em comum as vidas marcadas pela busca da superação das
dificuldades sociais e raciais vividas naquela cidade12.
Ao que tudo indica Antonio Baobab foi o inspirador para a fundação do jornal e para a
luta empreendida por eles a favor da alfabetização, contra a discriminação racial e por melhores
condições de sobrevivência para os operários pelotenses. Antonio que nascera escravo, comprou
sua liberdade no início de 1880 e trocou seu segundo nome de Oliveira para Baobab no início da
década de noventa, em substituição ao antigo sobrenome que fazia referência a um passado nada
olvidável, pois, conforme sabemos, o escravo levava o nome do seu dono. Quando da troca do
nome, a referência se fez explícita ao continente de origem de sua família, onde o baobá é árvore
sagrada, gigantesca, que reina soberana nas savanas da África, denotando uma certa consciência
da sua ascendência africana e a necessidade de se voltar a ela para obter forças. A troca de nome
deu-se com o amadurecimento intelectual de Baobab, que se alfabetizou logo após ter assumido a
condição de livre, pagando professores particulares e estudando à noite no curso de instrução
primária da Biblioteca Pública Pelotense. Aos vinte e cinco anos, juntamente com seu irmão
Rodolfo Xavier, que tinha dez anos, foram considerados, em 1883, dois dos sete alunos mais
assíduos e adiantados daquela instituição de ensino, onde receberam menção honrosa13.
Xavier foi colega de aula de Juvenal e Durval Morena Penny na Biblioteca Pública
Pelotense (BPP) que, fundada em 1875, abrigou nas suas dependências cursos noturnos de
alfabetização a partir de 1877 até a década de cinqüenta do século XX. A iniciativa da elite
pelotense de criar os cursos noturnos de instrução primária, direcionada aos homens adultos e
meninos pobres, tinha “o intuito de disciplinar, de incutir normas e valores referentes à
necessidade do trabalho como forma de combater o ócio e a ‘vagabundagem’”14. Esta iniciativa
não foi um caso único na cidade de Pelotas, existiam muitos professores particulares e algumas
12
Antonio Baobab e Rodolfo Xavier, segundo memória do último, eram descendentes, por parte de mãe, de escravo
moçambique. Seu avô havia fugido da charqueada onde era cativo para lutar na Guerra dos Farrapos (1835-1845),
talvez em busca da liberdade prometida pelos rebeldes farrapos aos escravos que permanecessem nas infantarias pé
no chão até o final do armistício.
13
Correio Mercantil, Pelotas, 10.04.1884
6
iniciativas privadas, como o Club Abolicionista em 1882, em que a elite pelotense assumia o
papel de iluminar, guiar, conduzir os destinos dos alunos. Na BPP foram todos classificados,
hierarquizados, separados em grupos, “onde os brancos eram considerados melhores que os
negros, os imigrantes melhores que os nacionais e os adultos melhores que os menores”15. Apesar
da classificação e separação por idade, nacionalidade, etnia e gênero, as aulas noturnas eram um
espaço privilegiado. Por um lado, para atingir o projeto da elite de moralizar parte do povo16
(imigrantes, operários e pobres em geral), incutia-lhes o amor ao trabalho e aos estudos, buscando
atingir o progresso da cidade. Por outro, porque através do domínio do código escrito – saber ler
e escrever – possibilitou que Baobab, Xavier e os irmãos Penny pudessem decifrar as suas
histórias de vida e reconhecer nessas alguns pontos em comum, ou seja, eram operários, negros e
pobres e como tais foram hierarquizados e segregados na escola da Biblioteca reflexo das
condições econômico-sociais e étnicas verificadas na cidade. Talvez este habitus17 social comum
entre eles, definido em boa parte pela rígida hierarquia das aulas noturnas na Biblioteca,
assumisse o caráter de estruturas que, estruturadas pela elite pelotense, se tornaram estruturantes
de uma consciência étnica possível naquele momento, definindo-lhes muito do papel que
desempenhariam como líderes da comunidade negra, tendo como certo que não foram eles
receptáculos vazios de experiências anteriores. Experiências estas que, provavelmente, já haviam
possibilitado que adquirissem relativa consciência das causas da situação precária em que se
encontrava a maioria das pessoas da sua raça, bem como tornou possível assumirem posição de
liderança naquela sociedade.
Baobab era o mais velho de todos eles, com trajetória peculiar, de escravo a líder operário,
se tornaria nome respeitado na cidade. Em 1887 associou-se ao Clube Republicano, participou da
diretoria de várias associações de trabalhadores junto com seu irmão Rodolfo Xavier, como S. B.
14
PERES, Eliane T. “Templo de Luz”: os cursos noturnos masculinos de instrução primária da Biblioteca Pública
Pelotense, 1875-1915. Porto Alegre, 1995. Dissertação de mestrado em Educação, FACED/UFRGS, p. 51
15
PERES, Ibid. p. 141
16
Projeto que permanecia na década de vinte, conforme podemos ver no anúncio de palestra inaugural da série
“Palestra com o povo”, que seria proferida por Fernando Luis Osório, organizada pela BPP. Ilustração Pelotense.
16.06.1920 Ver também, anúncio da fundação em Pelotas da Associação Brasileira de Educação, cujo Presidente
do Conselho Diretor era Joaquim Luis Osório, outro membro da família Osório, representante máximo da elite
pelotense. Ilustração Pelotense. 01.12.26
17
O conceito de habitus, definido como “sistema de disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas
estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto de práticas e das ideologias
características de um grupo de agentes”, foi usado para dar conta do grupo de pessoas que se aglutinou ao redor do
jornal A Alvorada, no sentido de verificarmos quais aspectos tinham em comum. BOURDIEU, Pierre. Cap. 4 Campo
7
Feliz Esperança (1880-1917) e Fraternidade Artística (1881-1911). Além disso, foram membros
da Liga Operária no início desta entidade formada por operários e patrões em 1890, da qual saem
para fundarem a União Operária Internacional em 189518, “composta de chapeleiros,
curtumeiros, pedreiros, carpinteiros, ferreiros, calceteiros e outras classes”19. A União Operária
Internacional da qual Baobab foi presidente e Xavier secretário foi fundada para “combater a
‘Liga Operária’ que, segundo o último, era uma ‘Liga’ de patrões”20. Fundam ainda o Centro
Operário 1o. de Maio em 1899, formado só por chapeleiros, profissão que Baobab exercia na
fábrica Bammann & Maia21 e Xavier na Fábrica de Chapéus Cordeiro Viener da família
Rheingantz22. Em 1893 Baobab participou da equipe de redação do jornal operário Democracia
Social, neste mesmo ano fez parte de comissão de greve como representante dos chapeleiros. Esta
greve ajudaria a caracterizar Pelotas como o “berço do sindicalismo gaúcho”23, o que nos dá uma
idéia do intenso debate e aprendizado de política e engajamento em que viveram aquelas pessoas.
Acreditamos que Antonio Baobab, mais velho que os demais, com toda a experiência
acumulada na liderança operária, professor e líder da comunidade negra, onde ocupou cargo na
diretoria do Asilo São Benedito, foi o iniciador e principal mentor da criação do jornal A
Alvorada. Segundo Xavier no último artigo citado, era “Inteligência lúcida e trabalhada por si
própria, autodidata, bastante orientou os primeiros passos da ‘Alvorada’. A morte o arrebatou
quando dele muito se esperava”. Em maio de 1907, Baobab assumiu o cargo de auxiliar de
redação junto com Juvenal Augusto24 que era o redator do jornal, teria iniciado então, verdadeira
do poder, campo intelectual e habitus de classe. In: A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Ed. Perspectiva,
1992. p. 191
18
Cf. LONER, Beatriz Ana. Classe operária: mobilização e organização em Pelotas, 1888-1937. Porto Alegre, Tese
de doutorado em Sociologia, UFRGS, 1999. anexo B, p. 575 A fundação da União Operária Internacional foi em
12.12.1897, há que se considerar que Xavier estava com cerca de setenta anos de idade em 1949, sua memória podia
falhar.
19
“1o. de Maio”. A Alvorada, 05.05.1949 Artigo assinado por Rodolfo Xavier que faz uma retrospectiva da
participação dele e de seu irmão no movimento operário pelotense, publicado no dia do aniversário do jornal.
20
“Situação Operária III”. Rodolfo Xavier. A Alvorada, 09.09.34
21
LONER, op. cit., p. 62 A autora considera a Bammann & Maia, uma das mais importantes fábricas de chapéus de
Pelotas, naquela época tinha 30 operários.
22
A família Rheingantz é considerada pela historiografia gaúcha como os pioneiros da indústria no Estado, fundaram
em 1874 a manufatura têxtil de Rheingantz & Cia. em Rio Grande.
23
MARÇAL, João Batista. Primeiras lutas operárias no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Ed. Globo, 1985. p. 109
Segundo o autor, entre 1890 e 1893, foram realizadas em Pelotas as três primeiras greves operárias ocorridas no
Estado, mobilização trabalhista que vai se estender até 1898, ano em que acontece a quarta greve na cidade.
24
Juvenal Augusto da Silva nasceu em 22.11.1874, fez parte da Liga Operária em 1907, foi presidente da Feliz
Esperança, entidade negra beneficente, de 1911 a 1913, bem como da diretoria da Harmonia dos Artistas no ano de
1913. Em 1908 ele sai da redação do A Alvorada e funda o jornal A Vanguarda (desaparecido). Talvez por ser
tenente, escrivão, maçom, com penetração em algumas entidades brancas, não concordasse com os rumos que o
semanário estava tomando, cada vez mais em defesa dos operários negros. Ver A Alvorada, 05.05.1935 e 05.05.1955
8
campanha de alfabetização dos negros na cidade, interrompida de forma prematura em julho
deste ano, quando morreu aos 49 anos.
Durval e Juvenal Morena Penny, considerados pelos articulistas os donos do jornal, foram
alunos particulares de Baobab. No ano de fundação do hebdomadário, os irmãos trabalhavam
como gráficos nas oficinas do jornal O Arauto25, onde, após o expediente, começaram a organizar
o pequeno jornal que se chamava A Alvorada. Durval fez parte desde muito jovem de inúmeras
associações da comunidade negra pelotense, aplicado nos estudos, formou-se
por
correspondência em Medicina no Instituto Nacional de Ciências do Rio de Janeiro em 191426.
Ele possuía farmácia e consultório médico no centro da cidade de Pelotas, onde era considerado
“médico da pobreza”. Segundo seu filho27, Durval foi o primeiro negro a ter carro na cidade, o
que lhe facilitava o deslocamento até o terceiro distrito de Capão do Leão, local em que possuía
outra farmácia, pois na cidade de Pelotas os clientes brancos eram escassos. Conforme sabemos o
racismo era muito presente naquela cidade nas décadas de vinte, trinta, quarenta e cinqüenta,
desta forma, não devia ser fácil para um médico negro trabalhar em Pelotas, o que pode ajudar a
explicar a “opção” de Durval Penny pela pobreza. Ele facilitava o pagamento com gêneros
alimentícios para obter clientes, opção que o levou até Capão do Leão, distrito de Pelotas
formado por colonos alemães e negros camponeses que trocavam sua produção (galinhas, porcos
e frutas) por consultas médicas.
Seu irmão Juvenal Penny foi o dono do A Alvorada de 1907 a 1946, no correr desses
trinta e nove anos ele pagou as contas do periódico que até esta data, ao que parece, dava mais
25
O Arauto era um jornal semanal de propriedade de José Veríssimo Alves e Filho, publicado em Pelotas. Nos
parece que os donos deste jornal tinham relação direta com a comunidade negra pelotense, pois em 1906 a direção do
semanário justificava a falta: “Por motivo de força maior não podemos assistir ao festival literário e recreativo
efetuado, domingo último, pelo distinto Clube José do Patrocínio [1905-11]”. A festa foi realizada em comemoração
ao 13 de Maio na sede do clube Flores do Paraíso (1898-1911). No mesmo número comentava o baile ocorrido no
Recreio dos Operários realizado por: “esta estimada associação recreativa (...) em homenagem à gloriosa data de 13
de maio”, onde, segundo o jornal, estavam presentes muitas associações negras. (O Arauto, n. 20, ano XX,
20.05.1906) Em outro exemplar do jornal datado de 1902, também encontrado na Biblioteca Pública de Rio Grande,
vinha escrito à caneta logo acima do título: “À Redação do Exemplo Porto Alegre”. O jornal O Exemplo é
reconhecido pela historiografia como um periódico que pertenceu à comunidade negra da capital. Naquele mesmo
número trazia ainda artigos que saudavam a Lei do Ventre Livre (28.09.1871) e comunicado sobre a doação de oito
pares de calçados “às pequenas órfãos do Asylo São Benedito”. Asilo fundado por negros para abrigar as crianças
pobres da cidade.
26
Durval Morena Penny nasceu em 19.01.1883 em Pelotas, foi presidente do clube Satélites do Progresso em
1908, participou da diretoria do Asilo São Benedito e da Frente Negra Pelotense como sócio benemérito, além de ser
orador de variadas associações recreativas negras em inúmeras datas festivas. Ver artigos: “Dr. Durval M. Penny”.
AA. 05.05.1948 e “Durval Penny morreu”. AA. 04.04.1953
27
SANTOS, Edison L. N. dos. A Frente Negra Pelotense, 1933-1935. Pelotas, 2000. Monografia de Licenciatura em
História/UFPEL. p. 20 Harry Moreno Penny em entrevista no dia 05.11.1999.
9
prejuízo que lucro. Foi presidente da S. B. União Operária no ano 1933, ocasião em que esta
sociedade completava “28 anos de lutas” e do clube carnavalesco Está Tudo Certo que, naquele
mesmo ano, completava o seu terceiro aniversário. Juvenal era também dono da Fábrica de
Fogos São Veríssimo28 em nome da qual viajava constantemente pela região de Pelotas para
“armar as peças pyrotécnicas”, ocasiões em que aproveitava para rever amigos, cobrar as
mensalidades do jornal e divulgar as lutas empreendidas por meio do semanário29.
No início da década de trinta vai passar a fazer parte da redação do A Alvorada uma nova
geração de intelectuais negros preocupados com os mesmos problemas dos seus antecessores:
discriminação racial e social; elevação moral e educacional da “raça negra” e melhoria da
situação sócio-econômica do operariado pelotense. Nesse sentido, José Penny, filho de Juvenal,
lançava o que seria reconhecido posteriormente por Armando Vargas como o início da
“Campanha Pró-Educação” dos seus “irmãos de raça”30. Neste artigo José incentivava os negros
pelotenses a fundarem “em vez de sociedades de bailes e festas carnavalescas, sociedades que
sejam o templo do saber”, pois acreditava “que todos estes preconceitos que ora nos deprimem
finalizar-se-ão, como que por encanto” quando eles tivessem educação à altura das “outras
raças”.
Os preconceitos que ele se referia estavam relacionados não somente ao preconceito dos
brancos em relação aos negros, mas também aos problemas enfrentados pelos negros entre si.
Segundo Armando Vargas, José Penny, “por ser de cor morena, foi censurado por um grupo de
senhorinhas, também da nossa raça, que começaram a fazer crítica pelo simples fato de ser ele o
comandante de uma companhia composta de jovens brancos”31. Esclarecemos que José desfilava
pelo Ginásio Pelotense32, um dos colégios mais tradicionais da sociedade pelotense, em data
cívica (19.11.32) comemorativa da “revolução de outubro” (1930). A liderança, por um negro, de
“uma companhia composta de jovens brancos” filhos da elite pelotense não nos parece ser um
simples fato naquela sociedade marcada pelo preconceito social e racial, conforme citado acima.
Segundo o articulista este episódio foi causado pela “falta de cultura [que] é a mãe de todas as
28
O nome da fábrica de fogos de artifício de Juvenal – São Veríssimo – seria uma homenagem ao antigo padrinho
ou parente José Veríssimo Alves dono do jornal O Arauto ? Lembramos que nas gráficas d`O Arauto foi onde surgiu
o A Alvorada.
29
Cf. anúncio de viagem de Juvenal à cidade de Bagé. AA. 24.01.32
30
“Avante, irmãos”. José Penny. AA. 18.12.32
31
Coluna “Horas Vagas” de Armando Vargas. AA. 31.01.32
10
desarmonias sociais”, conforme os padrões sociais da época era uma inversão de hierarquia social
que, provavelmente, deve ter suscitado discussões acaloradas não só entre os negros mas também
entre os brancos de Pelotas.
Vargas colocava que José fora, “por ser de cor morena, censurado” naquela situação de
liderança, o que nos parece ser pouco para justificar a atitude das senhorinhas negras33. A falta de
educação das senhorinhas, ao que parece, se deu também por outro motivo, a saber, ser ele um
dos representantes mais visíveis de uma elite negra pelotense. José era sobrinho do Doutor Penny
e filho de Juvenal34, dono do jornal A Alvorada que possuía, na época, tipografia própria onde
produzia trabalhos para terceiros e de uma fábrica de fogos de artifício, o que não era pouco para
uma comunidade negra empobrecida. José em comentário àquele episódio, escreveu: “É por isso
que todos aqueles da raça que conseguem se elevar um pouquinho, logo tratam de se afastarem
dos seus irmãos”35, pois sabem que mais cedo ou mais tarde serão expostos a alguma tentativa de
ridículo. Aquela situação, ser ridicularizado em público por seus irmãos de raça, parece ter
despertado José para o problema da educação entre os negros e os limites sócio-econômico e
culturais que, muitas vezes, afastavam a minoria melhor colocada socialmente, da maioria da
população negra que não tinha acesso ao ensino.
Para concluir esperamos ter contribuído para o resgate da história do negro brasileiro e a
educação, bem como, apontado algumas dificuldades da ascensão social daqueles que nasceram
negros e pobres numa sociedade discriminadora, tendo como certo que os limites entre o
individual e o coletivo é uma das fronteiras em que a História sempre encontra obstáculos para a
travessia.
32
O Ginásio Pelotense era um “instituto de ensino secundário equiparado ao Colégio Pedro II” no Rio de Janeiro,
conforme informação relativa a Djalma Penny, filho de Durval, que se preparava para ingressar naquele instituto
com professores particulares. AA. 22.01.33
33
Tivemos contato, por meio do jornal, com várias fotos de José Penny, conforme estas, ele não era mulato ou
moreno mas sim preto, negro, conforme o mesmo se auto-identificava.
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No Correio Mercantil (Pelotas, 09.03.1882) temos a informação de que foi inaugurado o Hotel Penny e que tinha
como um dos proprietários José Morena Penny. Este era o mesmo nome de José, filho de Juvenal, talvez fosse uma
homenagem ao seu pai, antigo proprietário do hotel. (Informação que agradecemos à Professora Beatriz Loner,
fornecida numa tarde fria de inverno quando pesquisávamos na Biblioteca Pública Pelotense).
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“Comentários”. José Penny. AA. 28.02.32
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intelectuais negros educação e militância.