LISBOA | VALE DO TEJO #9 – Novembro 2008
Ministério do Ambiente,
Ordenamento do Território
e Desenvolvimento Regional
9
NOVEMBRO | 2008
entrevista
José António Pinto Ribeiro
Ministro da Cultura
reportagem
Caldas, cidade cultural
destaque
Berlengas
Navegando para a Sustentabilidade
Cabaret Molotov © Paulo Barata
Propriedade
CCDR‑LVT
Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional
de Lisboa e Vale do Tejo
Rua Artilharia 1, nº 33 – 1269‑145 Lisboa
Tel.: 21 383 71 00 | Fax: 21 383 12 92
www.ccdr‑lvt.pt
Director
António Fonseca Ferreira
Director executivo
Carla Gomes
Fo t o g r a f i a s : G u t o F e r r e i r a [ c a p a e c o n t r a c a p a ]
Projecto editorial, design e produção
DDLX [www.ddlx.pt]
José Teófilo Duarte [Direcção]
Eva Monteiro | Tânia Reis [Design]
Rui Cardoso [Contacto]
Cabaret Molotov
Teatro e marionetas
Colaboradores
Ana Sousa Dias
Carla Amaro
Carla Maia de Almeida
David Lopes Ramos
Eduardo Oliveira Fernandes
Fernanda Câncio
Pedro Almeida Vieira
Fotografia
Guto Ferreira
Câmara Ardente, produções fotográficas
Sábado, 08 novembro | 21h30
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
Sábado, 15 novembro | 21h30
Cine-Teatro, Sobral de Monte Agraço
Sábado, 22 novembro | 21h30
Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo
Sábado, 29 novembro | 21h30
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Duração: 75min. s/ intervalo |Faixa etária: m/12 anos
Em Cabaret Molotov, deambulam coristas apaixonadas,
trapezistas, clowns absurdos, músicos de sete instrumentos,
homens-coelho, homens-bala, ursos ciclistas, caniches
cantores, dançarinos e bailarinas que dançam ao som de
valsas, tangos, polkas, tarantelas e velhas canções de Kurt Weil.
Terá o Cabaret Molotov existido, ou tudo não passará de um
Impressão e Acabamento
Euro-Scanner
T i r a g e m 2500 exemplares
I S S N 1646‑1835
D e p ó s t i o L e g a l 224633/05
LV T # 9 – N o v e m b r o | 2 0 0 8 | Q u a d r i m e s t r a l
lugar inventado por Vladimir, o Russo, para cenário
do seu amor à trapezista Matrioska?
í n d ice
Editorial
Setúbal
As novas oportunidades de desenvolvimento.......... 2
António Fonseca Ferreira
Notícias Breves.........................................................................4
Opinião
O mérito da discussão...........................................................8
Fernanda Câncio
Entrevista
José António Pinto Ribeiro................................................ 14
Ana Sousa Dias
Reportagem
Caldas, cidade cultural ......................................................22
Carla Amaro
Territórios
Defender e projectar definitivamente
o nosso património edificado é determinante....... 32
Carla Maia de Almeida
Destaque
A Energia no ordenamento do território...................38
Eduardo Oliveira Fernandes
Património
Jardim Botânico
Seja um amigo também....................................................40
Carla Maia de Almeida
Destaque
Berlengas
Navegando para a sustentabilidade......................... 46
Pedro Almeida Vieira
Roteiro
Os Petiscos do fado................................................................ 52
David Lopes Ramos
Agenda Cultural...................................................................56
Editorial | António Fonseca Ferreira
Setúbal
As novas oportunidades de desenvolvimento
F
oi com muita satisfação que assisti, ao fim de tantos
anos, a uma conjunção de esforços sem precedentes
para reflectir sobre o futuro da Península de Setúbal,
que se estendeu inclusivamente ao litoral alentejano.
Refiro-me à Conferência «Oportunidades de Desenvol­
vimento», na qual participaram perto de três centenas de pessoas,
entre presidentes e representantes de municípios, empresas, ins-
tituições de solidariedade social e organismos da administração
central.
Reuniram-se em torno de uma mesma ideia a Comissão de Coor­
de­nação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo
(CCDR-LVT), o Governo Civil de Setúbal, a Associação de Municípios
da Região de Setúbal (AMRS), a Comissão de Coordenação e Desen­
vol­vimento Regional do Alentejo (CCDRA-A), a Associação de Muni­
cípios do Litoral Alentejano (AMLA), a Associação Empresarial da
Região de Setúbal (AERSET), a Administração dos Portos de Setúbal
e Sesimbra (APSS) e a Associação das Empresas de Cons­trução
e Obras Públicas (AECOPS).
A elevada representação do Governo, com o ministro das Obras
Públicas a fechar os trabalhos e o secretário de Estado do Orde­na­
mento do Território a encerrá-los, é prova de que o próprio executivo está confiante no renascimento da margem Sul do Tejo.
Diversos sinais têm evidenciado isso, aliás, nos últimos tempos.
O lançamento do projecto Arco Ribeirinho Sul, de que tanto se
falava há mais de uma década, ganhou agora um impulso deci­
sivo para revitalizar as áreas industriais degradadas à beira Tejo,
em Almada, Seixal e Barreiro.
Por toda esta região surge um novo ciclo de investimentos no
turismo – no novo «turismo residencial», com preocupações inédi­
tas de sustentabilidade – assim como na indústria, com o reforço
dos investimentos de empresas como a Autoeuropa e a Portucel.
A acrescentar a estes factos, temos as novas infra-estruturas de
internacionalização decididas pelo Governo – e de que Mário Lino
detalhadamente deu conta na sua intervenção na Conferência –
desde a maior plataforma logística do país no Poceirão (impulso
indispensável para o desenvolvimento portuário) ao novo aeroporto internacional e à travessia do Tejo, com ligação à rede ibérica
e europeia de alta velocidade ferroviária.
A região de Setúbal tem vivido tempos difíceis. Com o desmantelamento das tradicionais indústrias pesadas – construção e reparação naval e siderurgia - deixando sequelas ambientais e económicas, e as cíclicas crises sociais. Instalou-se o cepticismo e um
espírito negativo que têm de ser afastados de forma consequente.
Os tempos que aí vêm auguram excelentes oportunidades de
desenvolvimento. Mas estas só perdurarão, de forma sustentável,
se os agentes regionais se unirem e cooperarem, no quadro de
uma concertação estratégica de base territorial, transformando
oportunidades em projectos, obras, riqueza e coesão social.
A Região de Setúbal terá, nos próximos dez anos, o maior volume
de investimentos do país, considerando territórios equivalentes.
O eixo Sines/Porto de Setúbal/Plataforma Logística do Poceirão/
Estação de Alta Velocidade/Novo Aeroporto – com a lógica ligação
ferroviária convencional à Linha do Norte na zona Cartaxo/
Santarém – transformar-se-á num «aglomerado» virtuoso de
actividades e internacionalização.
Apostámos numa visão de futuro, ao lançar este desafio aos actores da Região de Setúbal, um desafio que agora começa a concretizar-se. É com muita satisfação que acolhemos o seu entusiasmo
e reunião cooperante. A CCDR-LVT apoiará todas as iniciativas e
medidas que tenham por desígnio transformar os recursos deste
território em progresso económico e social. ■
Os portos, em particular os de Setúbal e de Sines, revelam uma
vitalidade interessante, e têm investimentos significativos em
curso e programados para os próximos anos.
|
Novo ciclo de
oportunidades
Perto de três centenas de pessoas assis­
tiram à conferência «Oportunidades de
Desenvol­vimento», que decorreu em
Setúbal a 19 de Setembro e contou com
a participação de empresas públicas e
privadas, organismos da administração
central, universidades e autarquias.
A sessão de abertura foi pre­sidida pelo
secretário de Estado ­do Orde­namento do
Território e Cidades, João Ferrão.
Mário Lino, ministro das Obras Públicas,
Transportes e Comunicações, aproveitou
a sessão de encerramento para fazer um
ponto de situação sobre os investimentos
que vão ter lugar nos próximos anos naquele
distrito, como a rede de alta velocidade,
o novo aeroporto e nova travessia do Tejo,
e exortou os agentes da região a mobili­
zarem-se para tirarem o máximo partido
das «generosas oportunidades» que aí vêm.
A iniciativa, lançada pela CCDR-LVT, pre­
tendeu construir uma visão partilhada
sobre o desenvolvimento sustentável deste
território, congregando as principais
entidades representativas da península
de Setúbal e litoral alentejano. O objectivo
foi também discutir o futuro de Setúbal
Pedro Lemos Vieira
NOTÍCIAS BREVES
Grande Conferência
em Setúbal
numa perspectiva optimista, abrindo
caminho a um novo ciclo, numa região que
tem sido ciclicamente marcada por crises
económicas e sociais.
São promotores deste evento o Governo
Civil de Setúbal, Associação de Municípios
da Região de Setúbal (AMRS), Associação
de Municípios do Litoral Alentejano (AMLA),
Associação Empresarial da Região de
Setúbal (AERSET), Administração dos Portos
de Setúbal e Sesimbra (APSS) e Associação
das Empresas de Construção e Obras
Públicas (AECOPS). A organização esteve
a cargo do Sem Mais Jornal/Sado 2000.
O programa prolongou-se por todo o dia,
na Estalagem do Sado, tendo focado as
áreas do Turismo, Economia do Mar e Zonas
Ribeirinhas, Indústria e Grandes Infra­
‑Estruturas. O evento contou com a par­
ticipação de entidades como o instituto
Turismo de Portugal e a Estrutura de
Missão para os Assuntos do Mar, para além
da participação de empresas como
­a Portucel, a Autoeuropa e a LOGZ – que
tem a seu cargo a Plafatorma Logística
do Poceirão. ■
Pode consultar as comunicações da conferência em:
www.ccdr-lvt.pt.
Arco Ribeirinho Sul vai ser requalificado
António Fonseca Ferreira, presidente
da CCDR-LVT, foi nomeado para coordenar
o grupo de trabalho do Projecto Arco
Ribeirinho Sul, que visa a requalificação
urbanística de importantes áreas da
margem sul do estuário do Tejo e contribuir
para a valorização e competitividade da
Área Metropolitana de Lisboa. A resolução
|
do Conselho de Ministros que aprova
o plano foi publicada a 12 de Setembro.
O grupo de trabalho terá por missão
elaborar, no prazo de 90 dias, uma proposta
de Plano Estratégico, em estreita articulação
com as autarquias envolvidas e com as
empresas dos terrenos.
Com este projecto pretende-se desenvolver
de forma integrada um vasto território,
designadamente cerca de 55 hectares
na Margueira, concelho de Almada, cerca
de 536 hectares na Siderurgia Nacional,
concelho do Seixal, e cerca de 290 hectares
nos terrenos da Quimiparque, no concelho
do Barreiro. ■
Open Days 2008
Lisboa lidera regiões marítimas
inovadoras
A Região de Lisboa e Vale do Tejo liderou
pela segunda vez este ano um consórcio
de regiões no âmbito dos OPEN DAYS ­–
Semana Europeia das Regiões e dos
Municípios, que decorreram de 6 a 9 de
Outubro em Bruxelas. O tema escolhido
pelo conglomerado liderado pela CCDR-LVT
– Water-based Competitiveness Network
(WBCnet) enquadra-se na temática
«Regiões inovadoras: Promoção da inves­
tigação, desenvolvimento tecnológico
e inovação», tendo um maior enfoque
em torno da Economia Marítima.
Regiões, o evento contou este ano com
o apoio da Presidência francesa da UE
e do Parlamento Europeu, assim como com
a presença de diversas personalidades,
entre elas o Presidente da Comissão
Europeia, José Manuel Durão Barroso, e
o Primeiro-Ministro francês, François Fillon.
A CCDR-LVT organizou dois seminários
em Bruxelas. O primeiro, intitulado «Trends
in Maritime Transport Innovation: How can
the Regions take advantage?», teve lugar
a 7 de Outubro, na Representação
Permanente de Portugal junto da União
Europeia (REPER). O segundo seminário,
«Innovative Maritime Regions: Which bets
for tomorrow?» realizou-se também na
REPER, no dia 9 de Outubro.
A CCDR-LVT também esteve presente no
Café dos Investidores - plataforma de
contacto entre cidades e regiões, empresas,
sector financeiro, grupos de interesse
e instituições comunitárias, integrada na
Aldeia Temática «Inovação e Investigação»
- onde recebeu a visita da Comissária
Europeia para a Política Regional, Danuta
Hübner (na foto).
Por fim, e ainda no âmbito dos Open Days,
a CCDR-LVT organizará um evento local
dedicado aos media, subordinado ao tema
«A Região de Lisboa e Vale do Tejo e o Mar:
Projectos de desenvolvimento regional
e oportunidades de negócio».
O conglomerado liderado por Lisboa e Vale
do Tejo deste ano conta com a participação,
para além de Lisboa e Vale do Tejo, de oito
regiões costeiras europeias e portuárias:
Andaluzia (Espanha), Sicília (Itália),
Canárias (Espanha), Zelândia (Holanda),
Açores (Portugal), Macedónia Oriental
e Trácia (Grécia), Ática (Grécia) e Heraklion
(Grécia).
O mote deste ano para os Open Days
foi «Regions and Cities in a Challenging
World». Organizados pela Comissão
Europeia (DG REGIO) e pelo Comité das
Participaram 216 regiões e 32 países, um
número recorde. No âmbito deste mega­
‑evento, realizaram-se cerca de 120 sessões
em Bruxelas (workshops, seminários e
debates), contando o Café dos Investidores
com cerca de 120 expositores. Os eventos
locais serão cerca de duas centenas. ■
Mais informações em: http://ec.europa.eu/
regional_policy/conferences/od2008/index.cfm
|
Conferências
internacionais
O Futuro do
Turismo e o
Fim do Petróleo
James Howard Kunstler, que se tornou
mundialmente conhecido com o livro
«The Geography of Nowhere: The Rise and
Decline of America’s Man-made Landscape»
(1993), autor do recentemente editado
em Portugal «Fim do Petróleo» («Long
Emergency») esteve em Lisboa no dia 16
de Outubro para uma conferência no âmbito
do ciclo «Desenvolvimento Regional em
Contexto de Globalização», organizado pela
CCDR-LVT e pela Ordem dos Economistas.
Para Kunstler, o fim da energia petrolífera
barata, a base do modelo das sociedades
urbanas industrializadas em que vivemos,
irá obrigar a mudanças de carácter político,
social, industrial, comercial e económico.
Teremos de nos adaptar a novos tempos,
onde a energia já não será acessível como
hoje. A inevitabilidade do fim das sociedades
industrializadas, sustentadas pela energia
barata do petróleo, obrigará as pessoas a
deixar as cidades para viverem em pequenas
comunidades agrárias localizadas?
Kunstler acredita que sim.
«Energia e Urbanismo» é o tema da con­fe­
rência em que o autor norte-americano
reflecte sobre as consequências da ruptura
que se avizinha e sobre a forma como
deve­remos adaptar-nos às novas circunstâncias.
A sua escrita novelística e as suas capacidades enquanto comunicador ajudaram
a ganhar o destaque público que actualmente tem, tendo dado palestras no Google,
nas universidades de Yale e Harvard e no
MIT, entre outros. O próprio descreve as
suas palestras como «stand-up comedy
com alguns momentos negros».
O ciclo internacional de conferências culmina
com um tema estratégico para a região
e para o país: o Turismo. A convidada
é Muriel Muirden, consultora internacionalmente reconhecida e managing director
da ERA - Economics Research Associates
para a Europa, África e Médio Oriente, que
estará no Auditório 3 da Fundação Calouste
Gulbenkian no dia 4 de Novembro, pelas
9h30. Luís Patrão, presidente do instituto
Turismo de Portugal, será o moderador
desta conferência.
Muriel Muirden especializou-se no planeamento estratégico de resorts e virá a Lisboa
para falar do papel que o turismo residencial terá no desenvolvimento regional e da
economia nacional, assim como das novas
tendências deste tipo de turismo a nível
internacional. A ERA é líder mundial na
consultoria de lazer e entretenimento na
Europa, trabalhando para organizações
públicas e empresas privadas, como a Marks
and Spencer e a Aga Khan Development
Network.
Muriel Muirden estará na Gulbenkian a 4 de Novembro
O ciclo conta com o patrocínio da ANA,
REN, BES, Galp Energia, Turismo de Portugal
e Grupo Pluripar, para além do apoio da
Fundação Calouste Gulbenkian,
Companhia das Lezírias, Fundação Luso­
‑Americana, Associação Industrial
Portuguesa, Bom Sucesso, Associação
de Turismo de Lisboa, Hotel Sheraton
e Quintas de Óbidos.
A conferência de James Kunstler conta
também com o apoio da Fundação Vox
Populi. Poderá encontrar mais informações,
comunicações e imagens em.
www.ccdr-lvt.pt. ■
Serviços da CCDR-LVT pagos pelo Multibanco
Já é possível fazer o pagamento de qualquer
serviço da CCDR-LVT através do Multibanco.
Lisboa e Vale do Tejo é a primeira CCDR a
avançar com este sistema, uma alternativa
aos pagamentos presenciais ou por cheque.
O novo sistema de pagamentos, previsto
no QUAR (Quadro de Avaliação e Respon­
sabilização dos Serviços), está disponível
desde 25 de Agosto. Com as guias de
depósito é emitida uma referência que
|
permite o pagamento do serviço em
qualquer caixa Multibanco do país.
Pode ser efectuado desta forma o pagamento de pareceres ou de licenças emitidas pela CCDR-LVT, de acordo com as
competências previstas na legislação.
O novo sistema de pagamento abrange
todos os serviços, quer sejam prestados
pelos serviços centrais em Lisboa ou pelas
delegações sub-regionais.
Esta medida visa melhorar a relação com
o cidadão/cliente – sejam empresas,
particulares, câmaras municipais ou outros
organismos – e insere-se no projecto
de modernização dos serviços da CCDR-LVT.
O objectivo, consagrado no QUAR da
CCDR­‑LVT para este ano, foi mesmo
­superado, face aos prazos inicialmente
previstos. ■
Gentilmente cedida pela Câmara de Lisboa
CCDR-LVT e Câmara de Lisboa acordam
medidas para qualidade do ar
A CCDR-LVT e a Câmara de Lisboa celebraram a 16 de Setembro um protocolo que
visa a adopção de medidas de melhoria da
qualidade do ar no município, em particular nas principais artérias da cidade.
Este é o primeiro protocolo a ser celebrado
com uma autarquia, na sequência da
aprovação do Plano de Melhoria da
Qualidade do Ar na Região de Lisboa e Vale
do Tejo, em Agosto.
O protocolo prevê, entre outras medidas,
a redução do tráfego automóvel de atraves­
samento da cidade, assim como o estacionamento, para além da redução e renovação
da frota automóvel municipal e a promoção
do uso dos transportes públicos.
O tráfego automóvel é a principal fonte
de emissão de diversos poluentes com
impactos no ambiente e na saúde pública,
entre eles as partículas inaláveis (PM10),
onde se têm verificado as maiores ultra-
passagens face aos valores limite previstos
pela legislação nacional e comunitária.
No caso da Avenida da Liberdade, considerada
uma das mais poluídas da Europa, só em
2007 houve 149 excedências ao valor-limite
diário para as partículas, quando o máximo
pemitido é de 35 ao longo de um ano. ■
Vice-presidente da CCDR-LVT há três anos
Fernanda do Carmo na frente ribeirinha
Fernanda do Carmo cessou funções como
vice-presidente da CCDR-LVT, tendo assumido na passada semana o cargo de vogal
de administração da Sociedade de Reabi­li­
tação Urbana Frente Tejo, SA. Na CCDR-LVT,
Fernanda do Carmo era vice-presi­dente
para as áreas do Ambiente e Ordenamento
do Território desde Setembro de 2005.
Ao longo do seu percurso profissional
passou pelos Ministérios da Presidência
(2005, adjunta do ministro) e da
Administração Interna (integrada no
Gabinete do Comandante-Geral da Guarda
Nacional Republicana, 2003-2005). Foi
igualmente directora de Serviços Internos
do Centro para o Planeamento e
Coordenação do Instituto Geográfico
Português (2002-2003), assessora do
secretário de Estado ­do Ordenamento do
Território (1999-2002) e técnica superior da
CCDR-LVT e da Direcção­‑Geral do
Ordenamento do Território e
Desenvolvimento Urbano. ■
mais 30 contratos
assinados
No âmbito do Programa Operacional
Regional de Lisboa / QREN foram assinados
no passado dia 30 de Setembro contratos
de financiamento relativos a quatro
concursos. A cerimónia decorreu na
Fundação Cidade de Lisboa, com a presença
do ministro do Ambiente, Ordenamento
do Território e Desenvolvimento Regional,
Francisco Nunes Correia.
Estiveram ainda presentes o secretário
de Estado do Ordenamento do Território
e Cidades, João Ferrão, o secretário de Estado
do Desenvolvimento Regional, Rui Nuno
Baleiras, o secretário de Estado da Educação,
Valter Lemos, e o secretário de Estado da
Protecção Civil, José Miguel Medeiros, além
do presidente da CCDR-LVT, António Fonseca
Ferreira, e do presidente da Junta Metro­po­
litana de Lisboa, Carlos Humberto Carvalho.
Foram assinados com as entidades beneficiárias, na sua maior parte municípios, 30
contratos nas tipologias de: Requalificação
da Rede Escolar do 1º. Ciclo do Ensino Básico
e da Educação Pré-Escolar (14 Contratos);
Parcerias para a Regeneração Urbana
– Frentes Ribeirinhas e Marítimas (6 Con­tra­
tos); Prevenção e Gestão de Riscos Naturais
e Tecnológicos – Acções Imateriais (7 Con­­tratos)
e Mobilidade Territorial (3 Contratos).
O Programa Operacional Regional de
Lisboa conta já com 30 concursos abertos
e 23 com decisão, que correspondem a 185
candidaturas aprovadas. Dos 307 milhões
de euros programados até 2013, 111 milhões
já foram submetidos a concurso, estando
mais de 60 milhões atribuídos.
Como sublinhou o Ministro do Ambiente,
a região de Lisboa encontra-se nos 20
por cento de execução do seu programa
opera­cional, acima da média nacional
de 16 por cento. ■
|
O mérito da discussão
A denominação tem mudado. O estereótipo não. Aquilo a que se dá agora o nome de
«bairros críticos», antes «problemáticos» (como quem diz «perigosos») ou «degradados»
(como quem diz pobres) situa-se no pensar colectivo como uma espécie de nódoa na
paisagem, uma fronteira intransponível na cidade, lá onde situamos isso a que chamamos
«subúrbios», não por definição geográfica mas por deliberação de distância. Ocorrências
recentes trouxeram esses lugares de fora para dentro do olhar do público – para dentro
dos muros da cidade. Para o meio de nós.
Opinião | Fernanda Câncio
|
Fotografia | CA, produções fotográficas
E
stávamos em Julho quando as imagens de meia
dúzia de homens aos tiros numa rua de um bairro
social catapultava de novo o tema dos bairros «críticos»
para a actualidade política e jornalística. Descobriu­‑se
então, de novo como sempre se descobrem as coisas
quando se volta a falar delas, uma realidade feita de milhares de
pessoas – alguém saberá dizer quantas? – a viver em bairros de
realojamento, milhares de rendas em atraso e de fogos a precisar
de obras, milhares de beneficiários do rendimento social de inserção
que se suspeita viverem de expedientes e «não quererem trabalhar». Descobriu-se até que isso da pobreza e da destituição económica – únicos motivos pelos quais o senso comum admite a
concessão de uma habitação social – pode compaginar-se com
playstations e plasmas e casas que por dentro são, mais coisa
menos coisa, como as de toda a gente «remediada», e com uma
atitude reivindicativa e até altiva que no imaginário colectivo não
condiz com a ideia de pobrezinhos.
Depois, em Agosto, veio a «onda de criminalidade» . E vieram também as grandes operações policiais nos bairros. Imagens nocturnas de pessoas desgrenhadas e crianças ensonadas à mistura
com fardas negras, cães e armas, rusgas gigantes para mostrar ao
país que a polícia não dorme nem deixa dormir «os maus», «os
outros». Nestas coisas da criminalidade, é fundamental haver
«outros»: pessoas e territórios, lugares exteriores onde se vai
como ao estran­geiro, como a território inimigo, em incursões
punitivas e/ou preventivas que mesmo que não surtam qualquer
efeito na criminalidade visam reconfortar-nos – a nós, que não
somos «eles».
No meio de tudo isto, discutiu-se, em jornais, talk-shows e colunas
inflamadas, o critério, o motivo e o sentido dos programas de
apoio social, das prestações e dos realojamentos. Enquanto uns
retomavam, em diferentes declinações, a fórmula do Paulo Portas
de 2002 («os ciganos do rendimento mínimo») e defendiam qualquer coisa como «abandonar os malandros à sua sorte», outros,
como o historiador Rui Ramos, falavam das experiências feitas
pelos cientistas sociais «de esquerda» e seu braço armado, o Estado,
com «os pobres». Outros, claro, como o também historiador Rui
Tavares, lembravam que isso de deixar os pobres à sua sorte já
fora tentado – e não dera grande resultado. Quando a discussão
estava a ficar interessante, porém, parou. Porque apareceu outra
coisa mais excitante para discutir. Ou porque era chegada a altura
de, mais ou menos assente o que estava mal, era preciso discutir
como fazer melhor.
É pena. A discussão devia continuar. E devia trazer à colação um
pouco menos de impressões e um pouco mais de realidade vertida
em dados mensuráveis. Devia, por exemplo, comparar as conquistas na luta contra a pobreza nos diversos Estados membros da UE
e concluir que nos países onde o nível de pobreza está abaixo da
média europeia (que é de 16%) isso sucede devido a prestações
sociais eficazes. Que esses países que, como a Irlanda, são apresen­
tados sistematicamente como exemplos económicos, investem
largamente na melhoria de vida das camadas menos abonadas
da população e aplicam há décadas uma política de habitação
social e até de rendas controladas, política essa que lhes permite
evidenciar um nível de pobreza superior ao de Portugal antes das
prestações e inferior após as prestações – ou seja, as prestações
|
fazem toda a diferença. Que o problema estará não na existência
de «ajudas» mas provavelmente na sua formulação, gestão e fiscalização. Que a erradicação das favelas é obrigatória em todos os
países que querem merecer o epíteto de civilizados, e que nessa
matéria, como de resto no que à pobreza diz respeito, Portugal fez
progressos espantosos nos últimos vinte anos. A discussão devia
prosseguir até à tentativa de perceber o que corre mal nos realojamentos. Até perceber se era possível correr realmente bem. Se a
ideia de caridade, mesmo a caridade disseminada e sem rosto de
um país inteiro, de institutos e autarquias, não transporta sempre consigo o gérmen de um ressentimento qualquer, por mais
contraditório e até chocante que tal pareça. E que decerto continuar a estereotipar os bairros sociais e a sua população não é
exactamente nem inteligente nem meritório – e muito menos
eficaz se a ideia é integrar e pacificar.
O problema da descontrução de um estereótipo é que o resultado
final tende a ser, justamente, o reforço desse mesmo estereótipo.
Ou seja, como questionar e interrogar a ideia de bairros críticos
sem a reificar? Impossível: qualquer discurso sobre o tema caminha neste paradoxo. Até porque, para ter esta conversa, é preciso
admitir que há um problema. Que nestes lugares, de resto tão
diversos entre si em tantos aspectos, há algo de comum. E que
esse algo necessita de reflexão, de esforço, de soluções.
Nenhuma forma pois de fugir a isto: esse nome que queremos
desconstruir, esse estereótipo que queremos interrogar e perspectivar correspondem a algo de real. A qualquer coisa de crítico.
10 |
Nenhuma forma também de evitar que esse gesto, essa atitude, a
de isolar estes bairros como um problema a necessitar de solução,
os afaste de nós no preciso momento em que deles nos aproximamos. Fazer de algo um objecto tem essa consequência: encontrar
estranheza mesmo no que nos é comum.
O que será pois um bairro crítico? E porque é que tendemos a
identificar os bairros críticos com os subúrbios, e vice-versa?
No livro de reportagem que escrevi sobre a noção (e a realidade)
de subúrbio (Cidades sem nome/crónicas da vida suburbana –
CCDR-LVT 2005, Tinta da China 2008), constatei que ninguém ou
quase ninguém está pronto a assumir que vive num subúrbio.
«Subúrbios são os sítios onde não vivo», era uma espécie de mote
do livro. Ninguém quer viver em sítios maus. O lugar onde se vive
é o lugar que se escolheu, mal ou bem. Dizer mal é assumir um
falhanço, um erro que num país em que a mobilidade habitacional é excepcionalmente reduzida corresponderia a assumir um
falhanço sem remédio e portanto um desespero irredimível.
Parece pois claro que a ideia de subúrbio, classicamente a querer
dizer um lugar fora das muralhas (orbs) da cidade, portanto periférico e de certo modo inferior na sua distância ao centro, não é
hoje intrinsecamente má ou boa, mesmo se mantém a ideia de
uma ausência de qualificação (qualificada seria a cidade, em teoria). No livro citado escolhi de resto quatro exemplos o mais distintos possível de subúrbios – o subúrbio clássico da Brandoa,
uma zona rural que nos anos 60 foi loteada e sujeita a construção
clandestina em altura, o núcleo urbano consolidado suburbanizado pela proximidade de uma grande cidade (Vila Franca de
Xira), o condomínio de propagandeado luxo a meia hora da capital
(Belas Clube de Campo) e o subúrbio mental, social e económico
do Bairro da Bela Vista (Setúbal). Mas as únicas pessoas que
encontrei, no âmbito desta e de outras investigações, a assumir
vive­rem em «sítios maus» foram os habitantes dos chamados
bairros de realojamento – esses bairros que, mesmo se colocados
no centro de uma cidade (é aliás o caso do Bairro da Bela Vista),
são sempre encarados como «subúrbios» sociais e mentais onde
e em relação aos quais se constrói uma distância fantasmática.
É como se os habitantes desses sítios se dessem licença para rejeitar o lugar onde vivem e portanto a sua vida, num processo de
auto-condenação e de resignação que se dá a ver por exemplo na
destruição de equipamentos, no desmazelo das casas que se vão
degradando sem que haja por parte dos residentes, de um modo
geral (há muitas excepções, claro), um gesto para o evitar. Há uma
hipótese de motivo mais ou menos evidente para isso: os bairros
de realojamento são sítios para onde se foi transportado por uma
lógica exterior, a mando de, por ordem de. As pessoas podiam
naturalmente recusar – mas isso implicaria perderem a «barraca» sem nada em troca, recusarem uma casa barata/«dada» pela
qual haviam esperado muitas vezes anos a fio como pelo paraíso.
E que o desgosto que muitas delas viriam a sentir fosse prévio: na
maioria dos casos as pessoas receberam a casa nova como uma
coisa boa, uma nova oportunidade. Uma vida nova – precisamente
o que era suposto ser. Que foi, pois, que sucedeu para sobrevir o
desgosto e a revolta? A pergunta tem uma resposta ainda mais difícil por ser óbvio que,
apesar do que os seus habitantes sustentam, os bairros de realojamento não são, nem do ponto de vista urbanístico nem dos
equipamentos, piores que tantos outros «empreendimentos»
erguidos nas últimas três/quatro décadas nos arredores de Lisboa
e Porto, de arquitecturas quase sempre insalubres e «equipamentos» quase sempre reduzidos ou inexistentes. E sem aquilo a que
a socióloga Maria João Freitas, da administração do Instituto da
Habitação e da Reabilitação Urbana, chama a «cosedura territorial com o existente» – a tal conexão com o território urbano consolidado, qualificado, prestigiado. Porque será então que quando
se fala em «degradação urbana» se pensa nos chamados bairros
de realojamento ou de «habitação social»? Se, como parece óbvio
e Freitas faz questão de frisar, não existe no País, devido à proverbial deficiência de ordenamento e planeamento urbanístico,
«grande diferença entre o desenho e a localização dos bairros
sociais e os dos outros», porque será que a essa má imagem, exterior e interior, se colou só aos bairros ditos sociais, num processo
de estigmatização que, frisa a socióloga, «lhes reforça a marginalização»? Autora de uma tese de doutoramento sobre as questões
do realojamento e da integração, elaborada na perspectiva «de
que era preciso aprender com o que se passara com as políticas
francesas dos anos 60 e 70, para tentar não repetir os mesmos
erros», Freitas, como as também sociólogas Isabel Guerra (do
Centro de Estudos Territoriais do Instituto Superior de Ciências de
Trabalho e Empresas) e Dulce Moura (hoje adjunta do secretário
de Estado do Ordenamento), constatou que nos anos 90, com o PER
(Programa Especial de Realojamento), Portugal copiou fórmulas
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que se haviam já revelado penosamente erradas. A saber, «uma
aposta na densificação e na homogeneidade», essa ideia que
Isabel Guerra tão bem combateu na frase «as pessoas não são
coisas que se metam em gavetas» quando descreve o acto de
agarrar na população de um bairro de barracas e transferi-la para
um bairro de prédios. Resultado: a «promoção social» almejada
não se verifica, o estigma que pesava sobre o primeiro bairro
transfere-se para o segundo. Um estigma que, como o antropólogo
José Cavaleiro Rodrigues escreve em As lógicas sociais dos processos
de realojamento (revista Comunidades e Territórios, 2003), passa
muito pela avaliação dos próprios. Sentindo-se «roubados» da
nova identidade social sonhada, desenvolvem um «processo acusatório» em relação aos vizinhos. A «sociabilidade e a solidariedade
iniciais do bairro de barracas» são substituídas pela «generalização
de formas de interacção negativas». É o «gosto pela casa e o desgosto pelo bairro» (mais uma síntese feliz de Guerra), que se dá a
ver na destruição, pelos mais jovens, de tudo o que possa ser destruído nesse lugar maldito, das caixas de correio aos candeeiros e
aos parques infantis. Uma auto-mutilação que reforça o estigma,
num paradoxo que Maria João Freitas lê como uma forma de
comunicar «abandono e desagrado». Como quem diz, olhem para
o nojo de bairro em que vivemos. Olhem para o nojo que nos deram.
Como é que podemos querer viver aqui? Como poderemos ser aqui
felizes? «Diz-se que ‘destroem aquilo que é seu’», conclui Freitas.
«Mas se calhar não sentem aquilo como seu». A casa nova, de que
se reclamou incessantemente o direito adquirido, não é afinal a
«sua» casa, mas aquela que uma sociedade sem rosto entrega
como penhor de uma qualquer «culpa». Uma esmola que ao invés
de colmatar a exclusão a confirma e se transforma numa desculpa,
em mais um factor adverso, mais um motivo para desistir.
O problema da descontrução de um
estereótipo é que o resultado final
tende a ser, justamente, o reforço
desse mesmo estereótipo. Ou seja,
como questionar e interrogar a
ideia de bairros críticos sem a
reificar? Impossível: qualquer
discurso sobre o tema caminha
neste paradoxo. Até porque, para
ter esta conversa, é preciso admitir
que há um problema. Que nestes
lugares, de resto tão diversos entre
si em tantos aspectos, há algo de
comum. E que esse algo necessita
de reflexão, de esforço, de soluções.
12 |
Trata-se, afinal, de um processo muito simples e compreensível:
chama-se desilusão. Uma desilusão que reforça os sentimentos
pelo bairro abandonado, o sítio de onde se foi expulso. Tem de
haver sempre um paraíso – e se enquanto estavam no bairro
an­tigo os habitantes dos bairros sociais sonhavam com a casa
nova, na casa nova (agora menos nova) sonham com o bairro que
construí­ram com as suas mãos, onde não tinham luz nem água
corrente nem banheira nem esgotos mas onde se lembram de ter
sido felizes. É significativo que nos 10 documentários que, com
Abílio Leitão, fiz para a RTP2 (A vida normalmente, exibidos em
Setembro/ Outubro de 2008) e que, precisamente, tinham como
objectivo programático um olhar interior e desejavelmente desconstrutor de estereó­tipos dos bairros ditos críticos; o único bairro
em que os habitantes afirmaram um apego visceral é o da Cova
da Moura, um bairro auto-construído que tem objectivamente,
tanto do ponto de vista da tipologia das casas como dos arruamentos, muitos menos condições que a generalidade dos bairros
sociais.
Estranho, isto. Amargo, até. O bem que se quis fazer – porque foi
por bem que se destruíram os ditos bairros de barracas e se investiu
em novos alojamentos, a estrear – resultou assim. Talvez, afinal,
as pessoas tenham necessidade de sentir que o que têm se deve
a mérito seu, a trabalho seu, a escolha sua. Talvez não se possa deci­
dir-lhes a vida imperialmente, por melhores que sejam as intenções. Talvez tenhamos de pensar isto tudo melhor. Mais e melhor.
Todos, incluindo os que se comprazem nas desculpas e os que
apostam no abandono. Porque não há problemas que se resolvam
colocando-os fora da vista – não há sequer isso, fora da vista.
Estamos todos na mesma cidade. ■
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Entrevista | Ana Sousa Dias
Fotografia | CA, produções fotográficas
14 |
José António
Pinto Ribeiro
Ministro da Cultura
O gabinete está impecável, algumas pilhas de papéis sobre a mesa de trabalho, livros
alinhados nas estantes. Mas o ministro diz que não, que a desarrumação é imensa
e inaceitável. E é assim mesmo que José António Pinto Ribeiro se revela na entrevista:
com as ideias arrumadas e claras, as pontas soltas afinal bem presas.
«Fazer mais e melhor, com menos meios» – a frase do dia 30 de Janeiro último, quando
tomou posse – mantém-se inalterada mas acrescenta-lhe uma explicação. Quer optimizar
os meios disponíveis, sem desperdício e com imaginação e, sobretudo, organizar
parcerias, em envolventes redes de cooperação a todos os níveis. Com os municípios,
juntando esforços e orçamentos; com os outros ministérios, a partir de propostas muito
concretas; com os países lusófonos, na defesa da Língua; com a União Europeia, o Banco
Mundial, todos os parceiros possíveis. Trabalhar com, eis a questão.
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Recentemente reuniu-se com representantes da Associação
Nacional de Municípios Portugueses e à saída reconheceu que
o Ministério da Cultura deve 10 a 14 milhões de euros às
autarquias. Vai pagar essas dívidas agora?
A dívida foi sendo acumulada nos últimos dez anos, por ministros
que me precederam neste cargo. Não há um cêntimo de dívida
que tenha sido contraído por mim. Pago todos os compromissos
por mim assumidos e não sei viver de outra maneira. Muitas
obras foram realizadas a contar com contribuições nacionais, no
âmbito do Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC).
Por exemplo, as bibliotecas municipais. Actualmente, temos 169
bibliotecas municipais que representam muitos milhões de
euros. É uma rede essencial, uma iniciativa exemplar de Teresa
Patrício Gouveia [secretária de Estado da Cultura, 1985/89]. A Gulbenkian cessou as bibliotecas itinerantes mas entregou o acervo
de livros para continuar a ser usado. As bibliotecas iam às aldeias,
tinham um itinerário que percorriam. As bibliotecas municipais
existem na sede do concelho e é preciso organizar um esquema
para fazer irradiar a partir daí, e muitas autarquias não o têm.
Algumas têm «bibliobus», carrinhas que fazem aquele percurso,
agora, já só em torno da sede do concelho, mas há muitas que não
têm. Há mesmo algumas que resolvem isso de uma forma curiosa
– há funcionários que vivem nas aldeias e quando vão para casa
ao fim do dia levam livros e depois trazem-nos. Mas isso está
ainda muito dependente de vontades individuais.
É preciso continuar a investir?
É preciso haver mais investimento, são 308 concelhos e é preciso
fazer o que falta, onde seja necessário. Tentamos recuperar património de bibliotecas mas há sítios onde essa renovação não
é possível. Também houve investimentos em arquivos distritais
e na recuperação de cineteatros.
Muitas destas obras foram feitas com a contribuição do Programa 16 |
Operacional da Cultura (POC), no Quadro Comunitário de Apoio I,
II e III. Temos dívidas do II e do III que estão por saldar. É isso que
explica essas dívidas.
O dinheiro do POC não chegou ao Ministério da Cultura?
É dinheiro que não foi disponibilizado pelo Ministério da Cultura
para esse efeito. Se foi disponibilizado para outros fins, desconheço. Julgo que muitas vezes foi mal orçamentado, mal gerido,
mal executado, perdeu-se e não foi transferido para as autarquias.
Não sei exactamente o regime de cada uma das dívidas e por que
é que elas não foram pagas. Muitas vezes, são dívidas acordadas
politicamente, contratualmente, institucionalmente, mas que
não foram adequadamente orçamentadas. Portanto, há uma
dívida política, uma dívida moral e uma dívida jurídica que, muitas vezes, não coincidem. Quando a ministra que me antecede,
Isabel Pires de Lima, diz na rádio que vai disponibilizar 450 mil
euros para fazer as obras na Sé de Silves, ela assume um compromisso político. Mas quem está do lado de lá a ouvir considera que
ela assumiu um compromisso jurídico.
Que não chegou a ser concretizado?
Não está orçamentado, não há dinheiro, eu não posso pagar.
Apareceram-lhe muitos casos como esse?
Apareceram.
Os valores não orçamentados estão incluídos na dívida às
autarquias?
Não têm nada a ver, não é dívida nenhuma. Dívida pressupõe
que há um regime contratual definido, que há um quadro legal de
contracção de despesa. Eles incorrem na despesa deles, que vai ser
parcialmente financiada por nós, mas está tudo feito como deve ser.
Logo que tenha dinheiro, pago. Há duas coisas que para
mim são claras: não gastar o que não tenho e não fugir
à responsabilidade do que existe. É preciso fazer contas ao
milímetro, rigorosas. O apuramento está feito, ao cêntimo.
Isso vai ser pago?
Logo que tenha dinheiro, pago. Há duas coisas que para mim são
claras: não gastar o que não tenho e não fugir à responsabilidade
do que existe. É preciso fazer contas ao milímetro, rigorosas.
O apuramento está feito, ao cêntimo.
Há projectos em conjunto com os municípios, como foi
anunciado nessa reunião?
Fui reunir com a Associação Nacional de Municípios, que não
levantou o problema das dívidas. Dois presidentes de câmara disseram – «há umas dívidas, era bom pensar como é que isso se
liquida». Respondi: «Vamos tratar disso logo que seja possível».
O tempo da conversa sobre as dívidas foi só este. Estive lá duas
horas e meia.
Pelas notícias que li, parecia que esse tinha sido o tema da
reunião.
À saída, uma jornalista perguntou unicamente isso. E houve
imenso esforço, quer do presidente da ANMP quer da minha
parte, para esclarecer que ninguém estava a omitir a dívida, que
todos estávamos preocupados com o assunto. Mas que não fora
esse o objecto da reunião.
E o objecto da reunião era?
O objecto da reunião era fazer uma coisa que me interessa especialmente e para a qual os municípios estão totalmente motivados: trabalhar em coordenação, em rede, em parceria, para ver se
conseguimos ser mais eficazes. Trabalhando em rede, fazemos as
coisas com mais economia, há imensa redundância que se pode
evitar. Na lógica de uma frase que disse e que me perseguirá
até ao fim da vida, fazer mais e melhor com menos. Foi isso que
lhes fui dizer. O conjunto dos municípios portugueses tem um
orçamento que será seis ou sete vezes o meu. O que significa que
há dinheiro para fazer cultura, não é muito mas podemos utilizá-lo
de uma forma mais racional, mais competente, de modo a que
o resultado seja, do ponto de vista cultural, muito maior.
Falei com eles em torno de um conjunto de programas, desde
a itinerância de companhias de teatro, à forma de fazer cinema,
à garantia de conteúdos. Temos imensos cineteatros recuperados,
no país todo.
Hoje em dia não se pode dizer que a cultura se limita ao Porto
e a Lisboa?
Nunca se limitou. Estamos a criar uma rede de equipamentos.
O betão e o restauro foram muito importantes, mas agora é preciso garantir ocupação, utilidade, programação.
Falámos sobre um programa que neste momento está já a ser
feito, juntamente com a Fundação de Serralves e o Centro de Estudos e Formação Autárquica de Coimbra. É um curso de formação
de programadores culturais para autarcas e não autarcas, para
a programação cultural ser feita localmente, em função das
necessidades locais. Não é possível fazer programação cultural
com um mínimo de adequação e aferição se for feita a partir de
Lisboa.
Aí cabe a experiência do Artemrede?
É boa, é para manter. Mas precisamos de criar programação cultural local. O que significa qualificação das pessoas, mas também
uma adequação do programa às consciências possíveis dos públicos locais. Não é possível mandarmos uma grande peça de teatro,
de uma grande companhia, a Lamego, que tem um cineteatro
restaurado lindíssimo, e depois aparecerem 30 ou 40 pessoas,
incluindo 25 bilhetes oferecidos.
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A experiência do Teatro Viriato de Viseu pode ser reproduzida
noutros sítios?
Pode ser reproduzida ou o próprio Teatro Viriato pode ter uma itinerância muito mais contaminante. É preciso definir estratégias,
saber como se faz um festival de cinema, de música, uma bienal.
Muitas vezes essas coisas existem mas não têm comunicação.
Nem se sabe, nem eles sabem mantê-las, nem têm a capacidade
de ser reproduzidas de ano para ano e portanto aquilo faz-se uma
vez e morreu. Nasce, acontece, acaba, três anos depois a mesma
coisa, e não fica rasto. A eficácia cultural é menor.
E a ANMP ficou interessada?
um conjunto de coisas que terão de ser feitas em rede ou centralmente. Por exemplo, eu gostaria de que as lojas dos museus tivessem
uma única marca e um modelo, uma espécie de franchising com
produtos de grande qualidade e uma gestão qualificada. E o mesmo
para os cafés e restaurantes associados, de modo a que fossem
sítios onde as pessoas fossem com prazer.
É preciso ver como se faz cinema localmente. Apesar de haver
grandes resistências a isso, com os meios que nós temos, podemos tratar o cinema como obras mecanicamente reprodutíveis,
como dizia o [Walter] Benjamin. Fazemos cópias digitais? A cópia
digital não é igual, porque a cor não fica exactamente igual.
­E depois a projecção… Fazemos ou não fazemos? Eu quero instalar
equipamentos para fazer projecção digital nos cineteatros, mas
para isso tenho de falar com as autarquias para que façam a compra desses equipamentos.
A máquina tem tendência a perder vapor no dia-a-dia.
É preciso ir lentamente tapando as fugas.
Sobretudo, é preciso meter vapor na máquina,
todos os dias ir ver se está feito. O Gabinete não vai
substituir-se às direcções­‑gerais, aos ministérios,
aos serviços, aos institutos, às fundações. Está aqui
apenas para ajudar a pensar, a desenhar, mas depois
quem faz são eles.
Está de acordo, está interessada, temos pessoas que vão trabalhar
em conjunto, que vão fazer esse levantamento. Quem é que faz
a gestão dos museus? Eu quero que eles possam fazer gestão dos
museus, que se qualifiquem para isso mas que consigam envolver as populações nessa gestão.
Mas a gestão não depende do Instituto dos Museus e da Conservação?
É, nos museus que são do Instituto. Mas há museus municipais,
museus particulares, há uma rede que inclui museus de vária
natureza quanto à titularidade. É preciso ver se pode ser feita
uma gestão de proximidade. É uma espécie de princípio de subsidiariedade, se não forem capazes, nós faremos, mas em princípio
eles são mais capazes e mais competentes para fazê-lo. Haverá
18 |
De uma forma unificada?
Unificada, com o mesmo tipo de equipamento, para ser enviado
electronicamente e projectado. Se isto for possível, não vejo por
que não o havemos de fazer. Mas isto implica coordenação. Há
trabalho que, se for feito em rede, pode ter muito maior eficácia.
E não é uma rede só de municípios. Há redes locais, em função de
um conjunto de instituições, em função de uma proximidade de
interesses, às vezes puramente decorrente de um fluxo de tráfego.
Talvez fosse possível fazer, por exemplo, um itinerário cultural que
fosse Lisboa, Palmela, Setúbal, Montemor-o-Novo, Évora, Estremoz,
Elvas. Ou um arco a partir de Lisboa, para Sintra, Mafra, Óbidos,
Caldas da Rainha, Alcobaça, Batalha, Leiria, depois o Tejo – Tomar,
Vila Nova da Barquinha, Santarém. Por que não?
São «soluções imaginosas», como costuma dizer?
Exactamente. Sobretudo, é uma coisa que não se faz em Portugal,
por causa do individualismo: se ele tem um cineteatro eu também tenho de ter, se ele tem uma rotunda, eu tenho duas, se ele
tem bicos de papagaio eu tenho rebicos. Nunca percebi isto. Não
fizemos a revolução Industrial, não nos habituámos a trabalhar
em conjunto, não temos a noção de que o resultado final é mais
do que a soma das partes, temos inveja, uma compita que não
é virtuosa.
E é possível fazer isso com os outros ministérios? Estou a falar
do Ministério da Economia, da Educação, dos Negócios
Estrangeiros, por exemplo.
­itinerantemente. É preciso abrir os museus ao público – às crianças, aos adultos e à Terceira Idade. Para as crianças, é preciso haver
um projecto educativo.
Muitos museus já têm serviços educativos.
Têm, mas é preciso alargá-los. A Casa da Música, no Porto, tem 33
mil pessoas em serviço educativo – eu quero 350 mil. Quero um
sistema em que possa fazer o tracejamento, fazer a avaliação da
eficácia do trabalho educativo.
Está a partir do princípio de que as pessoas voltam?
Se não voltam, é porque não ficaram contagiadas. Podemos emitir
um cartão vantajoso para quem volta.
(…) se ele tem uma rotunda,
eu tenho duas, se ele tem
bicos de papagaio eu tenho
rebicos. Nunca percebi isto.
Não fizemos a revolução
Industrial, não nos
habituámos a trabalhar
em conjunto (…)
Acho que sim. Temos três áreas essenciais e uma quarta que é polí­
tica mas não é de conteúdo político. As de conteúdo político são
Língua, Património, e Artes e Indústrias Criativas. A quarta é abrir
o Ministério ao público, levá-lo aos palácios e museus, explicar
o que lá está dentro. Se posso dizer assim, fazer as folhas da Cinemateca generalizadamente. Melhor ainda se houver pessoas que
queiram explicar ao vivo ou contar histórias sobre aquilo. Podemos
fazer parcerias com universidades da Terceira Idade, com cursos
de História de Arte. Já fizemos um acordo para um curso de pós­
‑graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural e Criativo,
em parceria com o ISCTE. Vamos permitir e incentivar a sua frequência a oito directores nossos, que vamos escolher. Provavelmente, quase todos directores de museus, e mais dois ou três
outros que aprendessem como se ensina, para depois ensinarem
É possível contaminar o Ministério da Educação para que
no sistema de ensino haja uma atenção maior à cultura?
Estamos a conceber um projecto que é uma espécie de passaporte cultural dado à criança quando entra em qualquer estabelecimento de ensino. Tem de fazer, pelo menos, seis actividades
culturais. Por exemplo, assistir a um ensaio geral, se for mais crescido já sabe comportar-se, por que não?
Muitos alunos do ensino artístico não costumam ir a
espectáculos nem a exposições. Parece-me que isso tem de ver
com um sistema de ensino que não valoriza a parte artística.
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Eu acho que é ao contrário, tem de ver com a nossa iniciativa.
Se ninguém fizer nada, nós continuamos no tempo do D. Afonso
Henriques. Se alguém tomar a iniciativa de fazer, sugerir, talvez
se faça. Mas se ninguém sugerir, ano após ano, continua-se a fazer
a mesma coisa. Quanto é que isto custa? É possível fazer? Fala-se
com a ministra, ela diz «é uma bela ideia». Podemos fazer coisas.
O que é que fazemos com a Academia das Ciências para que haja
um conjunto de académicos que resolvam as dúvidas sobre a Língua
Portuguesa? Por que é que não temos isso? Os espanhóis têm,
os franceses têm. Somos poucos? O que é que nos leva a não fazer?
O que é?
Inércia. Não ter feito. Aquilo que leva a que o dicionário da Academia tenha sido começado há 200 anos e tantos anos depois ainda
não esteja acabado.
Existe a letra A…
Exactamente. Porquê? Por que é que não se faz a letra B?
E há dinheiro para isso?
Essas coisas vão-se resolver todas, porque é um problema de definição de objectivos e de ficar focado. Não se faz tudo num dia,
é preciso começar já. Muita coisa pode ser feita na lógica de trabalho em rede, da parceria, de fazer com os outros. No Conselho
de Ministros e nos ministros individualmente, encontrei vontade
de fazer. Podiam estar cansados, depois de três anos e meio de
Governo. Longe disso, e é mérito do Primeiro-Ministro. Ele incute
esse espírito e todos estão disponíveis.
O que é que se passa com o Museu dos Coches?
Quando cheguei ao Ministério, o Museu dos Coches estava decidido. É uma resolução do Conselho de Ministros. O Ministério da
Economia trata, aloca-se aquele dinheiro – é o dinheiro do Casino,
está decidido que é assim. Eu não teria feito assim, teria inflectido
o curso mas com o acordo dos outros ministros. Está feito, toca
a andar. Mas há aqui um problema: eu tenho de deixar vago o espaço
onde está o Instituto Português de Arqueologia. Onde é que eu
vou arranjar o sítio? Estamos a fazer um acordo.
Com o Ministério da Defesa?
O acordo ainda não está feito, é confidencial, quando estiver assinado direi a toda a gente.
Não é bizarro que ninguém tivesse resolvido essa questão?
Acho mais bizarro que não se tenha feito a Revolução Industrial
em Portugal.
Isso é voltar um bocadinho atrás…
E não se fez. Isto também é voltar atrás, voltar atrás só um ano…
mas não se fez. A ideia foi: «é para fazer, então faça-se, tratem de
arranjar uma solução». Não tenho nada a dizer sobre o passado,
faço as minhas críticas para dentro. É cá comigo. Não estava feito,
20 |
eu tenho de fazer. Quando é preciso desfazer é que é complicado.
Quando não está feito, é só atraso.
A máquina do Minstério é muito lenta?
A máquina tem tendência a perder vapor no dia-a-dia. É preciso ir
lentamente tapando as fugas. Sobretudo, é preciso meter vapor
na máquina, todos os dias ir ver se está feito. O Gabinete não vai
substituir-se às direcções-gerais, aos ministérios, aos serviços, aos
institutos, às fundações. Está aqui apenas para ajudar a pensar,
a desenhar, mas depois quem faz são eles. Perguntar se está feito:
como é, onde é que está, quando é? Vamos calendarizar. E para
isto é preciso mobilizar pessoas e pôr a casa em ordem. Isto é o mais
doloroso porque é um trabalho muito grande e eu não tenho
tempo.
Que relação tem o Ministério com as comissões de coordenação
regional?
As comissões de coordenação regional não são todas iguais e são
extraordinárias. São o que é possível ter de regionalização. Defendi
a regionalização no referendo, há dez anos, e acho que faz todo
o sentido, porque há coisas muito difíceis de coordenar, de fazer,
se não houver a devida alocação de fundos para o sítio. Nem tudo
são rosas na regionalização.
O que eu quero dizer é que é possível fazer coisas, mesmo com
o mesmo orçamento. Porquê? Porque é possível ir buscar dinheiro
às parcerias, às autarquias locais, aos outros ministérios, é possível
fazer coisas com o QREN, ir buscar dinheiro para fundos de capital
de risco, é possível fazer parcerias com empresas e com a socie-
dade civil. E isso significa que é possível gerar e gerir fundos que
normalmente estão adormecidos, e que são mal utilizados. É possível ir buscar mais dinheiro para o Ministério da Cultura, mesmo
que esse dinheiro não venha do Orçamento.
É possível avançar para a sua ideia de centrar a política em
torno da Cultura? Sente receptividade, por parte do Governo,
a essa ideia?
Eu acho que é possível. Mais do que isso, acho que é necessário.
Isso passa pela sensibilidade do Governo mas sobretudo por uma
sensibilidade social. Em momentos dramáticos como este que
estamos a viver, do mercado, da situação da globalização, da crise,
na Europa, as pessoas têm de ter uma grande capacidade para
ler o real, para perceberem os problemas e serem capazes de
enfrentá-los e resolvê-los. Isso é cultura.
É indispensável que as pessoas sejam cultas no sentido de serem
capazes de ler o real e trabalhar para transformá-lo. Mais ainda
se aprenderem a fazer isso com os outros.
Tem falado do valor económico da Língua, o que quer dizer com
essa expressão?
Isso significa pensar a mesma lógica de rede com todos aqueles
que falam português.
Dos outros países?
Sim, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, S. Tomé, Timor,
mas também as diásporas portuguesas, mas também Macau, tam­
bém Venezuela, África do Sul, Estados Unidos. E a diáspora cabo­
‑verdiana na Holanda e nos Estados Unidos, e a diáspora brasi­leira.
Há muitas diásporas e temos que usar isso para ensinar a Língua
Portuguesa.
Vai sempre dar à sua frase do dia em que tomou posse:
fazer mais com menos dinheiro?
O problema dessa frase é as pessoas a leram como «tenho dinheiro
a mais, não preciso de tanto, isto faz-se com muito menos». Não
é verdade. É possível ser mais rigoroso, mais exigente, mais minucioso, mais programado, mais articulado com os outros e fazer
mais e melhor. Fazer de uma forma multilateral, com o Banco
Mundial, com a CPLP, com a União Europeia.
Basicamente, é quebrar a inércia?
Quebrar a inércia e fazer com os outros. Acho que a Comissão
de Coordenação Regional de Lisboa e Vale do Tejo faz isso mesmo.
Há muita coisa para fazer e gosto imenso disso. Tenho pena de
que nós tenhamos grande dificuldade na utilização de alguns
regulamentos europeus, porque Lisboa aparentemente está rica.
Está a falar do facto de a região de Lisboa e Vale do Tejo ficar
fora dos objectivos prioritários do QREN?
Isso significa que não demos atenção aos aspectos culturais, quando
ainda havia fundos comunitários disponíveis. Fizemos um enrique­
cimento menos harmonioso, menos coordenado. Temos um nível
de vida, um per capita medido quantitativamente, o que faz com
que alguns programas não sejam utilizados em Lisboa apesar de
continuarmos a ter necessidades. Os programas europeus para a
cultura deviam ser relidos, devia haver níveis de pontuação regional.
Como é que se mede?
É possível medir. É como medir a saúde pública, os graus de educação. Estamos a fazer um acordo com o INE para termos dados
estatísticos nacionais e locais. Temos de ter os instrumentos que
permitam identificar os défices de natureza cultural.
Gostava de trabalhar com a União Europeia, com as ccdr, com
o Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território, no sentido de ver estes regulamentos e perceber em que medida podem
ser alterados de acordo com a especificidade cultural da região.
Pode haver regiões que são muito pobres e têm muito desenvolvi-
mento cultural, vamos admitir que é possível. Ou o contrário: regiões que são ricas, ou acima da média, e não têm os equipamentos,
a capacidade, o contágio, a intervenção cultural que é necessário ter.
A ideia é disponibilizar instrumentos económicos, através da revisão destes programas, fazer tudo o que económica e financeiramente facilita este tipo de actividade. Vamos ver o que se passa
com os PROVERE [programas de valorização económica de recursos endógenos] vamos estudar as características e saberes específicas de cada zona para tentar mobilizar recursos económicos.
Há muito a fazer. Por exemplo, fazer com que os instrumentos
musicais não paguem 20 por cento de IVA. Por que é que os cd de
música não pagam 5 por cento de IVA como os livros? Por que é que
não trabalhamos isto? Se me perguntar por que é que não está
feito, é porque ninguém quis fazer, ninguém levantou o problema. ■
As comissões de coordenação
regional não são todas
iguais e são extraordinárias.
São o que é possível ter
de regionalização.
Defendi a regionalização
no referendo, há dez anos,
e acho que faz todo o sentido,
porque há coisas muito
difíceis de coordenar,
de fazer, se não houver
a devida alocação de fundos
para o sítio. Nem tudo são
rosas na regionalização.
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Caldas,
Cidade
Cultural
Reportagem | Carla Amaro
Fotografia | Guto Ferreira
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Depois de um hiato de quase 20 anos sem um espaço digno de eventos culturais de projecção
internacional, Caldas da Rainha figura agora nos roteiros como uma cidade que não pode
deixar de ser visitada por quem gosta de bons concertos, teatro, ópera, bailado, exposições.
Desde a inauguração do Centro Cultural e de Congressos (CCC), em Abril deste ano, a terra
que se deu a conhecer ao pais pela cerâmica de Bordalo e pelas «milagrosas» águas termais,
está a mudar a imagem e a ganhar outra vida com a chegada de milhares de pessoas para
assistirem a espectáculos de grande qualidade. Até se diz, nas Caldas, que o de Lisboa,
o CCB, não o supera em matéria de oferta cultural. É o caminho certo para, daqui a dez
anos – é a expectativa da autarquia e de quem define a programação do CCC – Caldas será
uma referência também mundial. Um equipamento megalómano merece ambição à altura.
Q
uem passava pela Rua Dr. Leonel Sotto Mayor,
nas Caldas da Rainha, e olhava para o local onde
foi construído o mais recente Centro Cultural e
de Congressos (CCC) do país, não tinha motivos
para aí fixar o olhar; quanto muito, servia-se do
espaço para estacionar o carro no então parque de estacionamento ao ar livre, do ponto de vista estético e paisagístico menos
agradável de se ver. Os que vivem à volta agradecem a substituição
de um por outro, porque não deve haver ninguém no seu perfeito
juízo, não obstante o jeito que dá ter ao pé de casa um sítio para
o veículo, que prefira, quando abre a janela ou a porta de casa,
deparar-se com um cenário como o anterior. O CCC é bonito e fica
bem aqui, ou não fosse considerado por quem sabe um exemplo
de arquitectura.
Visto de fora, não se tem a percepção do espaço interior. O CCC
tem mais área do que parece.E sem visitantes, como nesta manhã
de sábado, ganha metros quadrados. Raquel Adrião não vê outra
justificação para o vazio de gente senão o facto de ser «sábado de
manhã», o que significa «a possibilidade de as pessoas ficarem a
dormir até mais tarde»: «Neste dia, a esta hora, é sempre assim,
calmo». Sem visitantes a quem dar informações, esta jovem frente
de casa (função que exerce) percorre a ritmo lento o primeiro piso
da galeria de arte, onde ainda está patente [terminou a 15 de Setem­
bro] a exposição Rosto e Identidade, com Retratos da Colecção
Berardo – nesta sala, as imagens tiradas pela inglesa que se radicou
na ilha da Madeira Bridget Jones e pelo americano Robert Willson;
no andar de baixo, pinturas e fotografias de vários artistas.
Raquel dedica-se ao trabalho de frente de casa apenas em parttime, uma forma, diz esta jovem de 18 anos, de «praticar o que
aprendo na escola profissional», a ETEO – Escola Técnica Empre­
sarial do Oeste, onde frequenta aulas de Comunicação, Relações
Públicas e Marketing. «Estou tentada a seguir Relações Públicas
em parte por causa deste trabalho. Mais logo vou ter oportunidade
de exercer, quando as pessoas começarem a chegar, um pouco
depois do almoço». Um dos visitantes não será certamente
Henrique Santos, que já viu a mostra duas vezes: a primeira «sozinho», pouco depois da inauguração, a segunda «para fazer compa­
nhia à minha mulher», que também não quis deixar de ver a expo­
sição». Henrique é um frequentador habitual do Centro Cultural
desde que abriu. Para aqui vem muitas vezes à noite, «ver os espec­
táculos que não posso perder, em especial concertos», e sempre,
invariavelmente, aos sábados e domingos de manhã, «para ler os
jornais». Um vício adquirido cedo, por influência do pai que não
admitia pequenos almoços sem na mesa, «aberto», o Diário de
Notícias. O hábito de ler jornais mantém-se, o que mudou foi
o local de leitura ao fim-de-semana; antes, num café próximo da
famosíssima praça da fruta, onde a mulher habitualmente faz
compras – «é lá que está agora» - e actualmente na esplanada do
CCC, «pelo menos nos dias em que não chove».
Na mesa ao lado da de Henrique, um casal com a filha. Clientes
habituais deste espaço, ainda têm em cima da mesa os bilhetes
que acabaram de comprar para o espectáculo de amanhã à tarde.
Margarida tem sete anos e está «ansiosa» para ver Olivia. Não faz
ideia de que neste preciso momento Olivia já está a ser preparado.
Enquanto no Grande Auditório a equipa de técnicos andam
«às voltas» com as cortinas, as luzes e o som, nas traseiras do centro cultural está a ser descarregado o camião que transporta
todos os objectos e adereços necessários ao espectáculo. A agitação nos bastidores não passa pela cabeça de Margarida. E é assim
que deve ser, para que o espectáculo seja mágico e cause nas
crianças o deslumbramento. Mas alguma coisa Margarida sabe,
que a peça de teatro «é sobre uma porca muito simpática que
gosta de dançar ballet quando não tem sono». Cristina e Álvaro
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«Somos consumidores de
cultura e gostaríamos que
a nossa filha adquirisse
esse hábito. Se a levarmos
com regularidade a eventos
culturais é natural que
vá ganhando o gosto».
Um desejo agora mais fácil
de concretizar, dada a
proximidade do centro
cultural à terra onde vivem.
Roque irão estar ao lado de Margarida no Grande Auditório e apesar
de não estarem ansiosos – talvez por se tratar de uma peça mais
direccionada a um público infantil –, estão «felizes» com o entusiasmo da filha. «Somos consumidores de cultura e gostaríamos
que a Margarida adquirisse esse hábito. Se a levarmos com regularidade a eventos culturais é natural que vá ganhando o gosto».
Um desejo agora mais fácil de concretizar, dada a proximidade
do centro cultural a A-dos-Francos, onde residem (a 15 quilómetros das Caldas da Rainha). «Já não precisamos de ir tantas vezes
a Lisboa» ver teatro, concertos e exposições. Até agora, a programação do CCC não envergonha, acho mesmo que está ao nível da
do Centro Cultural de Belém, quer em termos de qualidade, quer
de variedade».
Desde Maio que a cidade está a usufruir de uma oferta cultural
como nunca teve. A falta de um espaço como este era considerada
uma lacuna grave que prejudicava não só os habitantes das
Caldas da Rainha como toda a população da região do Oeste
(entre Lisboa e a Figueira da Foz, não há nenhum edifício de carac-
terísticas semelhantes e quem quisesse ver espectáculos tinha
que se deslocar). Havia um hiato de quase 20 anos sem um espaço
activo e de intervenção; a actividade cultural nas Caldas perdeu-se
nos escombros dos dois únicos espaços então existentes e mandados demolir pela autarquia: a Casa da Cultura, junto ao parque
e em frente ao Hospital Termal, e o cineteatro Pinheiro Chagas,
na antiga praça do peixe (leia-se Praça 5 de Outubro).
Em relação ao cineteatro, na altura ainda se pensava na sua
reconstrução, mas rapidamente, como explica Maria da Conceição
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Pereira, vice-presidente da Câmara Municipal e também vereadora
da cultura, «a autarquia chegou à conclusão de que seria sempre
um espaço limitado em termos de área»: não só os lugares sentados não eram suficientes para o número de espectadores que se
pretendia atrair como o próprio palco era demasiado pequeno
para receber as grandes companhias de espectáculos. Desapare­
cidos os únicos locais onde nas Caldas se podia ter «um cheirinho
a cultura», ficou no ar a ideia de construir «um edifício criado de
raiz para o desenvolvimento de actividades culturais, que pudesse
acolher diversos tipos de espectáculos».
Esse dia chegou em 15 de Maio de 2008, com a materialização de
um projecto de 18 milhões de euros. Um dia que os caldenses difi-
cilmente esquecerão. A pompa e circunstância com que o momento
foi festejado atraiu gente de todo o lado para assistir ao «cortar da
fita» e ao grande concerto oferecido à cidade pelo pianista António
Pinho Vargas. Este foi o espectáculo que marcou a abertura oficial
das portas do CCC, mas na véspera, numa espécie de ante-estreia,
David Fonseca, nascido nas Caldas, actuou e lotou a casa. Em apenas
algumas semanas Caldas quase recuperou o que lhe faltou em anos
com uma apresentação de espectáculos em modo «non-stop».
Por causa do CCC milhares de pessoas deslocaram-se à terra que
em tempos ficou famosa pelas suas «águas quentes» de «cheiro
intenso» e com «poderes curativos» e pela cerâmica de Rafael
Bordalo Pinheiro e, antes dele, de Manuel Mafra. Há muito que
o país deixou de associar a marca «Caldas» à louça e às termas,
sectores que deixaram de sustentar a economia da cidade – as
fábricas de cerâmica estão a fechar e a procura de tratamentos no
Hospital Termal Rainha D. Leonor tem um passado mais produtivo que o presente, apesar de ser o mais antigo do mundo (fundado
em 1485) e de se ter modernizado com a criação dos serviços de
Hidrologia e de Medicina Física de Reabilitação com o objectivo
de fidelizar clientes habituais e de seduzir novos.
Neste momento, o Centro Cultural e de Congressos é a «cabeça de
cartaz da cidade» e é através dele que Caldas da Rainha quer integrar o circuito dos grandes espectáculos e ser uma referência no
país, ao lado de equipamentos como – e porque não? – o Centro
Cultural de Belém (em Lisboa). Se disso depender a qualidade
da programação e a qualidade dos equipamentos técnicos, uma
e outra não ficam aquém da do CCB. Carlos Mota, director artístico
do Centro Cultural das Caldas da Rainha, espera isso e muito mais
se lhe derem «as condições necessárias»: «Posso garantir-lhe que
em dez anos esta cidade figurará nos principais roteiros nacionais e internacionais». Trinta e cinco anos a fazer programação
cultural sustentam-lhe a certeza de que «O CCC é o maior sucesso
cultural dos próximos anos», que avalia não apenas pela selecção
criteriosa da programação como pelo retorno do investimento
em apenas alguns meses de actividade. A cultura não é lucrativa
em país nenhum, mas «o CCC tem sido um caso excepcional, conseguindo uma rentabilização entre 20% a 40% do investimento
realizado. Se todos os espaços culturais conseguissem valores
semelhantes seria extraordinário».
Apesar de se considerar um director artístico pouco caro que consegue fazer muito e bem feito «sem muitos meios» (leia-se
dinheiro), lamenta que o apoio financeiro ao centro cultural não
tenha sido considerado nas medidas de compensação para a região
do Oeste, definidas depois de o Governo ter optado por Alcochete
para a localização do novo aeroporto de Lisboa e não pela Ota,
como inicialmente estava previsto. «Tenho pena que os autarcas
não tenham sequer ponderado essa possibilidade quando apresentaram a lista de exigências ao Governo». Oportunidade per­
dida, agora que as medidas de compensação já foram definidas.
Recorde-se que a opção por Alcochete levou o Governo a criar um
programa de acção para o Oeste com vista a compensar 17 autarquias da região Oeste e da Lezíria: Alcobaça, Alenquer, Arruda dos
Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré,
Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras, Santarém,
Cartaxo, Azambuja, Vila Franca de Xira e Rio. Depois de alguns
meses de negociações chegou-se a um consenso: além de fundos
comunitários na ordem dos 2,1 mil milhões de euros, as câmaras
municipais receberão 220 milhões de euros de privados. Entre
os principais projectos contemplados no plano de compensação
– num total de 120 com prazo de concretização até 2017 – estão
a construção do Hospital Oeste/Norte, a construção ou remode­
lação de um novo hospital de Torres Vedras-Oeste/Sul, a criação
da Agência Regional de Energia e Ambiente, a requalificação
urbana de oito municípios, a construção de cinco postos da GNR,
uma nova esquadra da PSP, a criação de parques e centros de negó­
cios em cinco municípios e a modernização da linha férrea do
Oeste (Figueira da Foz/Cacém).
Para o responsável pela programação do CCC, o «calcanhar de Aquiles»
para todos os programadores é « o aspecto financeiro»: «O orça-
mento devia ser mais assertivo, mais de acordo com a realidade».
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José Ramalho, responsável técnico do CCC.
Carlos Mota, director de programação.
O preço de um grande espectáculo ou de uma grande exposição,
de projecção internacional, pode atingir valores tão elevados que
Carlos Mota se recusa a avançar um número aproximado: «Ficaria
assustada».
A reacção do público a estes encontros mede-se pela afluência:
«sala sempre cheia», diz Isabel com cara de satisfação. É ela que
pensa nos autores que gostaria de levar aos «seus» cafés literários,
é ela que os convida, é dela que depende, no fundo, a adesão das
pessoas. «Se o autor ou a obra não interessa às pessoas, de certeza
que elas não vêm cá para conversar com ele». É em redor das mesas
de café que as pessoas conversam com o escritor, falam sobre a obra
ou um livro em particular – «muitas vezes o escritor faz a apresentação do seu novo livro nestes encontros –, colocam questões,
expõem dúvidas. Manuel Alegre está na calha mas ainda não
sabe qual será o próximo autor a beber um café literário no Centro
Cultural das Caldas da Rainha.
A falta de meios financeiros é uma queixa velha das pessoas ligadas ao meio cultural. Mais ainda das que têm de gerir o dinheiro
sem prejuízo da qualidade. É o que se passa dentro das portas do
grande auditório, do pequeno auditório e da galeria de arte que
leva as pessoas a maioria das pessoas a este espaço. Isso – as expo­
sições, os concertos, o teatro e o circo – e os cafés literários, os cafés
musicais, os cafés teatrais, os cafés convívio. Sessões que permitem a interacção do público com autores, músicos e actores. A adesão
do público a estes encontros tem sido um sucesso. Quem «dá a cara»
pelos cafés literários é Isabel Castanheira, proprietária da Loja 107.
Na cidade serão poucos a quem o nome nada diz; os que gostam
de ler e compram livros conhecem-na seguramente. O anonimato
perdeu-o, na cidade pelo menos, por causa da livraria que abriu
na Rua Heróis da Grande Guerra, justamente no número 107,
quando chegou a Portugal logo após o 25 de Abril de 1974. Até então
vivia em Angola, onde a única aproximação aos livros era através
da leitura. Uma vez em Portugal e sem emprego, e atendendo
à sua paixão por livros, também como objecto em si, rapidamente
decidiu o que fazer na vida. Um vínculo emocional que não se
fecha no interior da livraria, chega ao CCC com os cafés literários.
«Tem tudo a ver com livros. Os livros são a minha vida». A ideia
não era nova, mas faltava o espaço adequado. A oportunidade
surgiu anos mais tarde, depois da inauguração do centro cultural.
«Quando me aliciaram não hesitei um segundo. É o espaço ideal».
26 |
Defensora incondicional do CCC, é sem contenção que Isabel
Castanheira deseja ambição para o centro cultural. «Quanto mais
ambiciosos formos, mais conseguiremos fazer por esta terra e por
esta região. Fazia falta nas Caldas um equipamento destes». Mas
apesar desta convicção inabalável, Isabel também realça que
«Caldas tem mais coisas, Caldas não é só o CCC».
Não é, mas a novidade perdoa o excesso de propaganda – se é
que, no que toca a eventos culturais, falar-se ou o escrever-se
demais prejudica – e nesse processo de divulgação Isabel é uma
incansável promotora. Em cima do balcão da Loja 107 não faltam
folhetos com informação de agenda, com tudo o que vai aconte-
cer no CCC durante o mês que está a decorrer. A que junta a divulgação boca-a-boca, tantas vezes mais eficaz do que qualquer
palavra impressa. «Enquanto os meus clientes compram um livro
aproveito para os colocar a par da programação do CCC».
Maria da Conceição Pereira, vive-presidente e vereadora da cultura.
da Câmara Municipal de Caldas da Rainha.
Isabel Castanheira, proprietária da livraria “Loja 107”.
Um trunfo que atrairá mais visitantes ao centro cultural, pelo
menos é essa a expectativa do director artístico, é a criação, em
Janeiro, de um produto inovador em Portugal: um cartão de crédito
cultural. «Vamos oferecer um Visa Mundial aos utentes subscritores
do bilhete anual», que neste momento já rondam os 160. O bilhete
anual é uma ferramenta importante para «fidelizar» especta­
dores e para o espectador é um forma barata de assistir a espectáculos de qualidade (permite ver 25 espectáculos por 100 euros
– um preço de promoção em vigor até ao fim do ano). «Cerca
de 25% da plateia do Grande auditório tem ocupação garantida»,
já para não falar dos subscritores dos bilhetes semestral e trimestral e dos utentes do bilhete empresas, este último ainda sem
uma adesão satisfatória devido «à falta de pessoal na promoção
deste produto».
O serviço educativo – visa sensibilizar os mais jovens e os mais
idosos, permitindo-lhes o acesso a bilhetes mais baratos – e as
parcerias com centros de actividades complementares e de tempos livres são também mais valias apresentadas à população pelo
Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha.
Outra novidade que Carlos Mota pretende implementar no CCC
é a possibilidade de os utentes «levarem» no seu telemóvel três
minutos do espectáculo que acabaram de ver, um concerto por
exemplo. Objectivo: divulgar. «Vamos oferecer um pequeno equi-
pamento que podem introduzir nos telemóveis e enviar o respectivo conteúdo para os amigos. Às vezes não chega dizer que gostaram ou que foi muito bom, é preciso mostrar o que vimos».
A opção por este método mais agressivo de publicidade é uma
também um modo de dizer que a cultura não pode estar à margem das novas tecnologias, até porque não se lhes pode negar
eficácia na difusão. «É o efeito bola de neve aplicado aos espaços
culturais».
Para Carlos Mota, no entanto, o que distingue o CCC dos outros
«não é tanto os aspectos inovadores, mas a sua conceptuali­
zação». Um aspecto que tem levado técnicos do Centro Cultural
de Belém a visitar o Grande Auditório para, quem sabe?, «copiarem»
o modelo. O Grande Auditório é a «menina dos olhos» de José
Ramalho, director técnico do CCC. É ele que nos faz a visita guiada
e apesar de não lhe falhar a memória na descrição pormenorizada
das características mais relevantes de cada um dos espaços, é a esta
grande sala, que o dia 6 de Dezembro receberá o bailado Quebra
Nozes (a obra-prima de Tchaikovsky), que José tece os comentários
mais demorados e elogiosos. Desde a versatilidade do palco «que
de um momento para o outro se transforma numa enorme
arena», prolongando-se pelo espaço ocupado pela plateia», até
à qualidade dos equipamentos de som (já aqui foram gravados
dois CD) e de luz, sem esquecer o tamanho e tecido das cortinas.
Considerações que resultam na síntese: «Este edifício é o melhor
equipamento cultural fora de Lisboa».
Para que a classificação se mantenha, não basta a excelência da
programação. É preciso que as pessoas saibam o que lá se faz e se
vai fazer. E isso está ao alcance de todos os que acederem ao sítio
www.ccc.eu.com/ do CCC. ■
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O CCC POR DENTRO
Grande auditório
Os seus 660 lugares são distribuídos pelo fosso de orquestra, duas
plateias, tribuna e camarotes. O palco tem 600 m2.
Espaço principal do CCC, é aqui que acontecem os eventos de maior
dimensão. Sendo uma sala dinâmica e ajustável às necessidades
de cada situação, está apta a responder com qualidade às mais
exigentes produções artísticas nacionais e internacionais, bem
como cimeiras, congressos, conferências e colóquios (a promoção
destes encontros é outra das funcionalidades do CCC com que se
espera atrair milhares de visitantes; em Novembro, por exemplo,
está prevista a realização do Congresso sobre a Diabetes, para
o qual se espera a chegada de 800 pessoas, que nas caldas ou na
região vão comer e pernoitar, o que do ponto de vista do turismo
e uma mais-valia).
Pequeno auditório
Tem uma bancada telescópica de 120 lugares, que se pode comple­
mentar com mais 28 cadeiras, podendo assim receber 148 pessoas.
É um espaço que acolhe uma diversidade de projectos como
­o teatro, a música, o cinema ou mesmo um baile. As «Noites de
Estúdio», às quintas-feiras, dedicadas aos estudantes do ensino
superior, prometem ser uma referência da vida nocturna da
região.
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Sala multiusos
Com 240 m2, dá apoio a congressos, sessões de formação e reuniões.
Está também vocacinada para oficinas de produção artística.
Sendo um espaço flexível, há a possibilidade de o reorganizar em
várias salas de trabalho distintas (até quatro no total), que podem
também ser utilizadas para danças de salão, festas temáticas,
workshops ou mesmo ensaios de orquestra.
Café concerto
É o ponto de encontro por excelência do CCC e tem uma programação paralela e diversificada. Aí se realizam cafés concerto, cafés
literários, cafés teatro e cafés convívio, e quem os frequenta tem
a oportunidade de trocar impressões com o autor, actor ou músico
convidado acerca da respectiva obra. Oferece um serviço de copa
personalizado e espaço de lazer, com espectáculos de dança, teatro,
ilusionismo, projectos audiovisuais, debates, performances, mas
também tertúlias e lançamentos editoriais. O espaço tem uma
ampla vista para o exterior e para a Praça da Animação, onde os
mais pequenos irão ter o seu local de convívio. No café concerto
é possível aceder a um serviço de Internet sem fios gratuito.
Sala de ensaios
É um espaço de dimensão e capacidade técnica equivalente ao
palco do Grande Auditório. É um local privilegiado para a montagem de espectáculos sem necessidade de recorrer ao uso do palco
da sala principal. ■
(Fonte: www.ccc.eu.com/)
O QUE SE FEZ E VAI FAZER NA REGIÃO
Além do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha,
muitos outros projectos merecem referência. Alguns representam
o «empurrão» que a Região de Lisboa e Vale do Tejo precisava para
se desenvolver e dessa forma se destacar a nível nacional em matéria de investimentos.
MÉDIO TEJO
Parque Almourol
Com este projecto pretende-se dinamizar do ponto de vista patrimonial e económico a área ribeirinha entre Constância, Arripiado
e Vila Nova da Barquinha. Em 12 quilómetros de margem do rio
Tejo vai-se investir fortemente para transformar o espaço no principal centro de turismo activo e de aventura, de natureza e de
lazer do país. Em desenvolvimento desde 2001 e resultante de
uma parceria público-privada entre a Associação Empresarial da
Região de Santarém (NERSANT) e as câmaras municipais de
Constância, Vila Nova da Barquinha e Chamusca – justamente as
que apresentam os orçamentos «mais frágeis» da região, segundo o presidente da direcção da NERSANT, José Eduardo Carvalho
–, o Parque Almourol é dos projectos mais ambiciosos alguma vez
pensados para as autarquias nele envolvidas, implicando um
investimento total na ordem dos 33,6 milhões de euros. Destes,
já foram aplicados cerca de 21,3 milhões nos projectos já concretizados: os Centros Náuticos de Constância e Vila Nova da Barquinha,
o Parque Ambiental de Santa Margarida, o Centro Ciência Viva,
a Casa Horto Camões, o Parque Urbano de Vila Nova da Barquinha,
o Miradouro do Almourol, o Cais e Rampas de acesso ao rio e a
requalificação urbanística. Falta ainda concretizar, ainda no âmbito
do Projecto Parque Almourol, a Musealização do Castelo, o Parque
Aventura, os Percursos Ribeirinhos, o Hotel «Quinta do Parque
Almourol» e toda a sinalética. Prevista está ainda a criação de
uma bolsa de oportunidades de investimento privado associadas
ao Parque: o Parque Aventura, urbanizações, parcerias público­
‑priva­­das de recuperação urbana nas margens ribeirinhas, restau­
ração.
Para o empresário José Eduardo Carvalho, a optimização desta
área só foi possível graças à «conjugação de três factores: água,
ar e terra». O primeiro não levantou qualquer problema, uma vez
que ali passam o Zêzere e o Tejo, e com a vantagem de se poder
«aproveitá-lo» na sua parte mais estreita. O resto passou pela
criação de uma série de equipamentos geridos pela Sociedade
Parque Almourol. Na lista de equipamentos contam-se bungalows
com uma capaci­dade de acolhimento de 150 pessoas em simul­
tâneo, estruturas para a prática de modalidades desportivas
diversas como tiro ao arco, slide, rappel, trilhos, escalada, paintball, BTT e actividades naúticas. Os centros estarão abertos ao
público todos os dias do ano.
Duas peças fundamentais neste projecto são a Musealização do
Castelo de Almourol e o Parque Ambiental de Santa Margarida
(a que fazemos referência mais detalhada).
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Musealização do Castelo de Almourol
Foi a 6 de Junho, em Tancos, que se deu um passo decisivo para
a musealização do Castelo de Almourol. Um protocolo assinado
pela Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e o Exército
português, através da Escola Prática de Engenharia [de quem
o monumento está à guarda, como pertença do Ministério da
Defesa], desbloqueou um processo que prevê ainda a conservação
do ilhéu no rio Tejo, que será algo de uma acção de limpeza (tem
muito caniço) e de conservação, o desenvolvimento de projectos
de restauro da Capela de Nossa Senhora do Loreto, onde está previsto funcionar um centro de interpretação com uma exposição
permanente, e a criação de um estaleiro de arqueologia, «com
escavações no ilhéu e na zona envolvente do convento», segundo
informações da própria autarquia. «O acordo regula também as
intervenções para a construção de percursos ribeirinhos ao longo
das margens do Tejo que envolvem o castelo e a ilha de Almourol».
Situado no leito do rio Tejo, o castelo está classificado como
monumento nacional e é considerado um ícone da engenharia
militar portuguesa, estando afecto ao Ministério de Defesa
Nacional e à guarda do Exército. A intervenção na fortelaza será
mínima - de modo a preservar a sua simbologia como «marca
do imaginário da Reconquista e da transição e articulação entre
o Norte e o Sul» e através de uma candidatura ao QREN – Quadro
de Referência Estratégico Nacional, na sequência do Programa
Estratégico Intermunicipal Parque Almourol. É o Instituto de Gestão
do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) que vai
acompanhar as obras.
Parque Ambiental de Santa Margarida
Com mais de seis hectares de extensão, o Parque Ambiental de Santa Margarida (PASM) é um espaço lúdico-pedagógico
situado na Coutada, uma zona rural do concelho de Constância,
onde se desenvolvem actividades de lazer e de (in)formação
ambiental. É um espaço ideal para se estar sozinho ou com a
família e amigos. Tem parque de merendas, campo de jogos, parque infantil, torre de observação, jardim de plantas aromáticas e
medicinais, lagos, riachos, uma extensa área de relvado, prados de
sequeiro, sobreiral, peças escultóricas e uma ecoteca com espaço
internet, centro de documentação ambiental, galeria de exposições,
laboratório, auditório, anfiteatro ao ar live com vista para um
grande lago, e «loja da Terra». Tudo isto com um investimento de
2.198.381 euros.
30 |
PENÍNSULA DE SETÚBAL
Jardim Urbano (Costa da Caparica)
É a primeira obra do programa Polis da Costa de Caparica. São 14
hectares de lazer abertos à população. Situado na Mata de Santo
António, entre a Av. Afonso de Albuquerque e a linha de praia,
o novo Jardim Urbano está dotado de um conjunto de equipamentos de lazer e desporto, como parques infantis e juvenis, parque
de merendas, campos de ténis e edifício de apoio e restaurantes.
Conta ainda com um Centro de Monitorização e Interpretação
Am­­biental que se tornará no testemunho das preocupações
am­bien­tais que desde o início o Programa Polis procurou acautelar.
Através do Plano de Pormenor do Jardim Urbano, o Programa Polis
pretende fazer florir uma Costa de Caparica mais bonita, mais
verde, onde será melhor viver frente ao mar. O objectivo era tornar
a Mata de S.to António da Caparica num espaço urbano de ordem
paisagística, com uma função predominante de recreio e de protecção do solo, uma zona de lazer para todas as idades, em plena
Costa de Caparica. Tendo preocupações de valorização ambiental,
foi definido um conceito de protecção do território através de
opções paisagísticas que preservem um grande grau de naturalidade nos espaços verdes. Era também importante fazer destes
espaços zonas vividas pela população, ou seja, aliar o uso de recreio
com a protecção do território. Numa fase posterior será ainda
construído um campo polidesportivo.
O desenvolvimento deste projecto tornou a Mata de S.to António
da Caparica num espaço urbano de ordem paisagística, com uma
função predominante de recreio e de protecção do solo. O espaço
era anteriormente ocupado por um parque de lazer com equipamentos degradados, para além de habitação precária clandestina.
Funciona de domingo a quinta-feira das 8h00 às 22h00, sexta
e sábado das 8h00 à meia-noite.
Projecto de Execução da Frente de Praias Urbanas
e Espaços Públicos Adjacentes (Costa da Caparica)
É também um projecto do Polis da Costa da Caparica. Inclui diversos equipamentos de acordo com o estabelecido em Plano de Por­me­
nor: remodelação do paredão, estacionamentos, requalificação
e prolongamento da Av. Humberto Delgado, apoios de pesca,
zonas verdes, acessos pedonais, equipamento hoteleiro, obras
de defesa costeira e alimentação artificial das praias; campos
de jogos informais; edifício de polícia marítima, posto de socorros
e posto de turismo, Centro Internacional de Surf, recuperação
dunar. Estão ainda previstos instrumentos de requalificação
do espaço público, tais como 27 apoios de praia ao longo do
­paredão.
Projecto Praça José Afonso (Setúbal)
O projecto para a Praça José Afonso incidiu sobre uma área de
três hectares, limitada a norte pela Av. Luisa Todi, a sul pela
Travessa Oriental do Largo, a nascente pela Rua dos Trabalhadores
do Mar e a poente pela Rua João de Deus. Trata-se de um grande
terreiro no centro de Setúbal, utilizado para diferentes manifes­
tações e eventos lúdicos e recreativos. Antes do início das obras,
além de construções degradas e de um centro de juventude,
o parque servia de parque de estacionamento. A proposta para
a requalificação da Praça considerou como pressuposto fundamental a consolidação da sua imagem como Terreiro. Toda a zona
periférica foi arborizada e para preservar o carácter lúdico que,
até então, a praça assumia, o projecto incluiu a construção de um
anfiteatro ao ar livre com capacidade para 2.500 espectadores.
que tem como elemento estruturante um pórtico cénico de grande efeito plástico e estrutural. Teve um custo global de 4.120.536
euros.
Parque Urbano de Albarquel (Setúbal)
É a segunda obra pública – depois da Praça José Afonso – no âmbito
do Polis de Setúbal e um passo importante para manter a identidade de Setúbal enquanto cidade integrada numa grande área
metropolitana como a de Lisboa. Situado numa área à beira-rio,
onde anteriormente existia o parque de campismo «Toca do Pai
Lopes», teve uma intervenção exemplar, demonstrando que uma
cidade como Setúbal, integrada numa área metropolitana, pode
manter a sua identidade e assumir a sua centralidade.
Tendo custado 3,7 milhões de euros, este equipamento «religa»,
como se impunha, três elementos fundamentais e indissociáveis:
o rio, a baía e a área urbana de Setúbal, e contribui para transformar o Sado num pólo de atracção turística e de preservação dos
valores patrimoniais e naturais.
O programa de requalificação urbana, que abrange mais de duas
dezenas de municípios, na opinião de Fonseca Ferreira, presidente
da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região de
Lisboa e Vale do Tejo, figurará como «a primeira medida política
de cidades no País», tendo salientado, no entanto, no dia da inau-
guração, que na grande intervenção do Polis em Setúbal «fica
ainda um espinho atravessado entre o Parque Urbano e a zona
ribeirinha urbana», (leia-se: terrenos da Praia da Saúde contíguos
ao equipamento). Mas a requalificação da área dos estaleiros
poderá, justamente, ser uma das próximas intervenções. Inte­grando
quatro edifícios já construídos – divisão de desporto da câmara
municipal, bar-esplanada, Restaurante e espaço lúdico, as outras
valências compõem um espaço polidesportivo com bancada virada
para o rio, miradouros na zona mais elevada, caminhos pedonais,
parqueamentos, um pequeno parque infantil com um equipamento de corda para crianças com mais de oito anos.
LEZÍRIA DO TEJO
Requalificação ribeirinha do Sorraia
As margens do rio Sorraia são a nova «sala de visitas» de Benavente
e de Coruche. Em Benavente, a intervenção teve um custo de
2.101.195 euros e consistiu na construção de um extenso parque
verde com excelentes condições para o lazer e o desporto ao ar
livre. Tem uma ponte e um caminho pedonal que ligam o Parque
do Sorraia à Vala Nova, onde se encontra uma esplanada.
Em Coruche, a requalificação custou 6.253.159 euros. As margens
foram profundamente transformadas: o figurino urbanístico
e a ligação do espaço urbano com o curso de água foram comple-
tamente alterados. Criou-se um passeio pedonal ao longo de toda
amargem direita do rio e no antigo recinto de feiras foram instalados vários equipamentos lúdicos. Um skate-park e uma parede
de escalada, um bar/cafetaria com esplanada sobre o rio, jogos
de água e parque de estacionamento são alguns dos equipa­
mentos aí instalados. A jusante da ponte existem zonas de descanso e de contemplação da Lezíria. Esta intervenção permitiu
devolver toda uma faixa urbana para novos usos, promovendo
uma maior utilização da zona ribeirinha pela população. ■
As fotos são da autoria de Filipe Jorge e foram retiradas do livro
“Mudança e Desenvolvimento”, editado pela CCDR-LVT em Dezembro de 2007
| 31
Joaquim Rosa do Céu
Defender e projectar
definitivamente
o nosso património
edificado é determinante
Territórios | Carla Maia de Almeida
Fotografia | CA, produções fotográficas
32 |
O mapa da organização do turismo em
Portugal mudou radicalmente. O novo
modelo aposta em cinco grandes regiões
e seis pólos de desenvolvimento turístico.
Joaquim Rosa do Céu, licenciado em
Economia e actual Presidente da Câmara
Municipal de Alpiarça, foi eleito em Maio
para presidir à Comissão Instaladora
da Área Regional de Turismo de Lisboa
e Vale do Tejo, a maior e mais complexa
das cinco regiões. Antes das eleições para
a presidência da T-LVT, marcadas para
Novembro, falou do trabalho que
já foi feito e desvendou um pouco
do que se deverá seguir.
Quais foram as prioridades desta comissão instaladora até
agora e quais são os passos que se seguem?
O fundamental era a elaboração de uma proposta de estatutos,
para colocar à apreciação da tutela política. Isso foi feito, a portaria
foi publicada, os estatutos estão aprovados. Depois foi necessário
preparar todos os actos conducentes à instalação em definitivo
desta entidade, o que passa por um acto eleitoral, conforme os
estatutos da T-LVT (Turismo de Lisboa e Vale do Tejo). Há um conjunto de membros fundadores, que inclui os municípios da região
e uma série de associações de direito privado, que terão a oportuni­
dade de se pronunciarem relativamente à aceitação deste convite
de membros fundadores. No início de Outubro teve lugar uma
reunião da comissão instaladora que definiu o dia para a rea­li­za­ção
das eleições e, a partir daí, eleger os órgãos que estatutariamente
estão previstos em termos electivos. Falo da mesa de Assembleia­
‑Geral e da Direcção, que depois terão a incumbência de concre­
tizar os restantes órgãos, nomeadamente o Conselho Consultivo.
As antigas regiões estão formalmente extintas, e no âmbito desta
área geográfica estamos a falar de três regiões de turismo – Costa
Azul, Ribatejo e Templários – e de duas juntas de turismo – Estoril
e Ericeira. A comissão instaladora está a fazer a gestão corrente
neste espaço temporal, com as dificuldades que resultam sempre
da extinção de entidades com um passado e o seu nascimento
numa formulação completamente diferente.
Quais são, no seu entender, as vantagens desta reorganização
das regiões de turismo?
Acho que há aqui uma vantagem enorme. Esta reorganização dá
coerência a um modelo e faz corresponder esse modelo a outras
formas de desconcentração já implementadas em termos de admi­
nistração. Esta coerência, em termos territoriais e até políticos,
| 33
As antigas regiões estão formalmente extintas, e no âmbito
da área geográfica de Lisboa e Vale do Tejo estamos a falar
de três regiões de turismo – Costa Azul, Ribatejo e Templários
– e de duas juntas de turismo – Estoril e Ericeira.
A comissão instaladora está a fazer a gestão corrente neste
espaço temporal, com as dificuldades que resultam sempre
da extinção de entidades com um passado e o seu
nascimento numa formulação completamente diferente.
bem como da capacidade para prosseguir a colaboração com a auto­
ridade central de turismo no que são os desígnios da política central
para o país, é agora possibilitada. Com o mapa anterior de 19 regiões
de turismo sem qualquer unidade territorial, sem escala, sem
capacidade financeira, sem conseguirem ser interlocutores válidos em coerência com outras formas já desconcentradas perante
quem tem o poder de decisão e pode facilitar – e muito – o trabalho aos investidores, tudo isto agora vai ser possível. Qualquer
investidor, qualquer interveniente na acção turística vai saber
quem são os seus interlocutores, vai saber a quem pedir responsabilidades, passando a ter os instrumentos para operar de uma
forma completamente diferente dentro das novas dinâmicas que
se pretendem para o crescimento deste sector.
Haver 19 regiões era mau para a promoção do turismo?
Com certeza que cada região fez um trabalho extremamente
válido, não ponho isso em causa, mas tinham uma atitude promo­
cional de um determinado produto ou uma determinada marca
não integrados. O que se pretende agora é que os efeitos da complementarização sejam aproveitados pela área regional onde
esta­mos inseridos.
Surgiram muitas críticas de vários sectores, nomeadamente
a de que se estava a diminuir a identidade de marcas regionais
que tinham trabalhado tanto para se afirmarem. Concorda?
É muito difícil encontrar uma situação de mudança que não levante
polémica e interpretações díspares, mas acredito que não vai ser
difícil encontrar o entendimento. Acho que há um espaço temporal
para a crítica, mas a partir do momento em que as coisas se tornam
34 |
efectivas há que terminar o tempo da crítica e iniciar o tempo da
construção. Quero acreditar que é assim que vai acontecer.
Em que medida vai ser aproveitado o trabalho que foi feito até
agora?
Eu acho que dentro dos piores disparates que se podem fazer, em
termos de mudança, é ter o pretensiosismo de pensar que tudo o
que foi feito até ali, foi mal feito. O que é fundamental, quando se
faz planeamento turístico, é elaborar planos e implementar projectos em concreto. Esta região e as outras vão precisar de avançar
rapidamente para um plano estratégico promocional e implementar os projectos que esse plano vier a definir. É evidente que
tudo o que foi feito antes, por exemplo, na projecção de marcas de
interesse e de validade turística, com certeza que o plano a elaborar vai contemplar essas situações.
Pode ser um pouco mais concreto?
Só posso dar a minha opinião. Por exemplo, acho que é essencial
esta região ter um observatório à escala regional e não só à escala
de Lisboa, como já existe. Acho que é fundamental implementar
um plano de sinalização turística que seja coerente e eficaz, porque também não existe. Acho que é preciso fazer uma promoção
no mercado interno, concertada, de modo a que existam aqui
sinergias que possam ser aproveitadas complementarmente. Ou
seja, para que o que é hoje a oferta de Lisboa se possa estender,
em termos de aproveitamento e de venda do produto, a outras
regiões contíguas. A promoção do mercado externo é uma coisa
mais discutível e aí a autoridade central do turismo é que tem de
se pronunciar sobre isso.
Além das novas cinco grandes áreas regionais de turismo, que
critérios presidiram à criação dos pólos de desenvolvimento
turístico: Douro, Serra da Estrela, Leiria-Fátima, Oeste, Litoral
Alentejano e Alqueva?
O que posso comentar, não sendo legislador, é que isso emana
directamente do PENT (Plano Estratégico Nacional do Turismo),
e que essas excepções foram consideradas como estratégicas.
entendimento entre as partes, tendo por base um objectivo
comum. Digamos que a gestão sairá muito mais facilitada se
todas estas situações forem acordadas sabendo o que é que cada
entidade tem de fazer em determinado momento. É fundamental
que o plano estratégico absorva esta realidade, que lance e dê
a ideia de projectos específicos que complementem a acção
de cada uma destas entidades, tendo em vista a promoção de
toda a Área Regional de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo.
E como cidadão, o que é que pensa?
Porque se escolheu Santarém como sede da T-LVT?
Eu compreendo a explicação. O PENT definiu um conjunto de objec­
tivos estratégicos, centrados em algumas marcas, e o legislador
entendeu que essas marcas eram melhor defendidas numa organização menos ampla. Sinceramente, eu acho que seria desejável,
em termos de gestão territorial, que houvesse uma coincidência
total com as cinco regiões-plano. Mas compreendo também os
argumentos da outra parte, e acho que não é grave se as entidades
regionais e os pólos que aí se integram forem capazes de traba-
Porque foi entendimento da comissão instaladora que Santarém
seria o local ideal para absorver a sede da nova entidade regional,
e a tutela concordou com essa opção. Acho que faz sentido nós
acabarmos com aquela ideia um bocado bacoca do centralismo
do Terreiro do Paço. Estamos a falar de um país tão pequenino que
tem de caminhar forçosamente para atitudes de descentralização.
De qualquer modo, a existência de uma delegação em Setúbal
e outra em Tomar tem o reconhecimento de uma situação que
me colocou há pouco: então e o que se fez antes, vai ser esquecido?
É evidente que não. A Costa Azul tem hoje, em termos proporcionais,
uma vitalidade que é reconhecida e, portanto, justifica-se. Quanto
a Tomar, pelas novas políticas sobre o que deve ser a promoção do
nosso património, e também por uma razão que nos parece essencial
– fica na ponta norte da região, com uma envolvente paisagística
fantástica –, faz sentido que aí se crie uma delegação. Agora, isto
não significa de modo algum um partilhar de acções e de decisões.
Estamos a falar de delegações entendidas como front-offices, não
lhar construtivamente num clima de entendimento. Que especificidades se colocam a esta entidade, dada
a extensão e a diversidade da área?
Eu acho que a T- LVT é uma região complexa. Parte de uma situação
de uma entidade regional com um pólo completamente constituído
a Oeste, com três municípios desta região que pertencem a outro
pólo, Leiria-Fátima; com a Associação de Turismo de Lisboa e toda
a importância que tem; com a Junta de Turismo do Estoril, cuja
força e vitalidade são enormes… Portanto, é complexo, este modelo.
Agora, eu acho que se lhe pode dar coerência, em termos de
de delegações com autonomia de acção. Tem que ver com a aplicação de um conceito de proximidade que é necessário levar
à oferta e à procura, e é nesse sentido que existem delegações.
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O património edificado tem
tido uma atenção insuficiente.
Existe hoje uma procura
com significado e que pode
crescer; é uma procura que
nos interessa, porque tem
poder de aquisição. Defender
e projectar definitivamente
o nosso património
edificado é determinante.
A que tipo de turismo gostaria de dar mais atenção?
O património edificado, na minha opinião, tem tido uma atenção
insuficiente. Acho que existe hoje uma procura com significado
e que pode crescer; é uma procura que nos interessa, porque tem
poder de aquisição. Na minha opinião, defender e projectar definitivamente o nosso património edificado é determinante.
Já há ideias para isso?
As entidades regionais de turismo vão contratualizar com a autoridade central de turismo a sua participação nesta matéria. O que
lhe posso dizer é que, por exemplo, a monumentalidade do nosso
património em termos de importância mundial vai começar
a vender e o Turismo de Portugal está a anunciá-la. Estamos a falar
de Alcobaça, Aljubarrota, Tomar… Há muito património a valorizar
e a «vender». Por outro lado, vivemos muito de constatações que
existem e o «sol e praia» é uma constatação. Complementarmente, têm que nascer outras actividades. Fala-se hoje muito em
turismo náutico, e se este vier a ser considerado uma prioridade
nesta região, é desejável que complementarmente apareça a
oferta de alguns serviços próximos. Portanto, é outra oportunidade que se abre.
Pretende deixar a Câmara Municipal de Alpiarça para se
dedicar a este projecto?
36 |
O que lhe posso dizer é o seguinte: eu sou a favor da auto-limitação de mandatos. Portanto, devo ser coerente com este princípio,
e três mandatos é um prazo muito razoável. Recandidatar-me ou
não, é uma questão que se colocará no tempo próprio.
Caso saia, o que é que gostaria de deixar feito ainda durante a
sua presidência no município de Alpiarça?
Gostaria muito de lançar um concurso público nacional para a
conservação e a requalificação de um bem patrimonial que nós
temos, a Casa dos Patudos, e que eu gostaria que fosse entendido
cada vez mais como um museu do país. Aproximamo-nos do centenário da República e acho que era uma boa homenagem a José
Relvas, um homem que proclamou uma mudança de regime, que
legou a Alpiarça e ao país um espólio de valor incalculável, e que
por força do seu testamento é uma responsabilidade municipal
em termos de manutenção, com as dificuldade que um município tem para incorporar esta exigência. Temos levado o acervo da
Casa dos Patudos um pouco por todo o país; neste momento,
estamos com uma exposição na Assembleia da República que
marca o início das comemorações do centenário por parte da instituição. Toda a gente tem consciência de que a Casa dos Patudos
tem insuficiências que são conhecidas e que importa ultrapassar,
até porque a grandiosidade do acervo e da atitude altruísta de
José Relvas merecem que o país não possa justificar que 80 km de
distância relativamente à capital possam servir de argumento
para ela continuar desprezada e esquecida. ■
UM NOVO MAPA DO TURISMO
Das 19 regiões e zonas de turismo existentes no território de
Portugal continental, o Governo fez uma «limpeza» e reorganizou
o mapa em cinco grandes áreas regionais que incluem toda a área
abrangida por cada uma das NUTS II (Nomenclaturas das Unida­des
Territoriais para Fins Estatísticos de Nível II). São elas: Norte, Centro,
Lisboa, Alentejo e Algarve. Paralelamente, criou-se uma espécie
de regimes de excepção, abrangendo as regiões apontadas pelo
PENT (Plano Estratégico Nacional do Turismo), e que correspondem
ao Douro, Serra da Estrela, Leiria-Fátima, Oeste, Litoral Alentejano
e Alqueva. Com esta reorganização, o Governo pretende apostar
ainda mais forte no Turismo como frente de desenvolvimento
económico para o país, o que era dificultado com «um número
notoriamente excessivo de órgãos regionais e locais de turismo».
No decreto-lei publicado a 10 de Abril de 2008, lê-se ainda que
este novo quadro de interlocutores é «compatível com outras formas de administração desconcentrada e/ou descentralizadas»
e que «permitirá o estabelecimento de parcerias, entre outros,
como o Turismo de Portugal, I.P.»
Na região correspondente à NUT II de Lisboa e Vale do Tejo, a T-LVT
(Turismo de Lisboa e Vale do Tejo) é a entidade regional de turismo
que funciona como entidade gestora, cabendo-lhe a valorização
turística desta área. Conforme consta dos estatutos publicados
a 21 de Agosto de 2008, compete-lhe, em matéria de promoção
no mercado interno, «definir e executar uma estratégia regional
de promoção turística; definir e implementar uma estratégia
regional de comunicação e marketing turístico; criar e gerir postos
de turismo na Área Regional de Turismo – Lisboa e Vale do Tejo,
de forma autónoma ou em parceria com os municípios; conceber
edições turísticas regionais; e apoiar eventos com conteúdo turístico.»
São 51 os municípios fundadores da T-LVT, numa extensa lista de
membros que incluem, entre muitos outros, as duas principais
centrais sindicais; a Associação de Turismo de Lisboa; a ANA –
Aeroportos de Portugal; a APL – Administração do Porto de Lisboa;
a ARESP – Associação da Restauração e Similares de Portugal;
e a AHP – Associação de Hotelaria de Portugal. ■
Fonte: Diário da República, 1ª série, nº 71 e nº 161.
| 37
Destaque | Eduardo Oliveira Fernandes [Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto]
A ENERGIA
NO ORDENAMENTO
DO TERRITÓRIO
A
presença tradicional da energia nos exercícios
de ordenamento do território foi sendo encarada
no passado segundo uma perspectiva restrita de
identificação dos locais para potenciais barragens
ou outros grandes empreendimentos energéticos
e, pela expressão vestigial e quase caricatural de prevenir os im­pac­
tes da passagem de linhas de alta tensão ou de gasodutos ou olea­
dutos.
A energia continua ainda a ser vista entre nós, sobretudo, como um
produto de consumo e, algumas vezes, como factor de produção,
que alguém deverá providenciar, desejadamente, a custo baixo.
Para além disso, a experiência do quotidiano revela todos os dias
que o tema da energia não atrai muito o interesse da sociedade
civil, mesmo quando os actores têm formação académica e alguma
«cultura» e poder na gestão da coisa pública. A energia é vista
como uma «coisa» técnica desligada da sua identificação plena
com o ambiente, não já em termos dos potenciais impactos
do seu uso mas, sobretudo, enquanto recurso natural que «está»
e «vem» do próprio ambiente.
Ainda não despertámos enquanto comunidade para a percepção
da energia como, aquilo que é, um recurso natural abundante no
território a desafiar os avanços da tecnologia, a qualidade da ges-
tão da coisa pública mas, sobretudo, a nossa sensibilidade aos
valores ambientais do nosso tempo.
38 |
Por isso, a visão dominante da energia na óptica da oferta, parece
esquecer-se que, em mercado, tão importante é a procura como
a oferta. Ou seja, em termos de energia, tão importante é a necessidade de energia e a forma como é satisfeita como o tipo de
recurso disponível para tal.
A cultura do petróleo, em que ainda vivemos e que perdurará certamente por mais algumas décadas, foi a alavanca do desenvolvimento económico-social que conhecemos e que se consolidou nos
últimos 150 anos mas não escapa à responsabilidade, quase fatal,
do aquecimento global devido às emissões de CO2. Este porém, não
foi, por certo, o único «malefício» de um cultura de poderes, centra­
lizada, cartelizada e cúmplice dos sistemas fiscais, estabelecida
em torno dos combustíveis fósseis. Pior do que isso, terá sido certa-
mente, a barreira criada ao longo de décadas ao progresso do
conhecimento e ao desenvolvimento de tecnologias energéticas
relacionadas com o aproveitamento da energia solar e outras renováveis, segundo um paradigma de descentralização e de proximidade mais orgânico, mais ambiental e mais democrático.
Neste tempo de alguma perplexidade quanto ao impacto dos custos
da energia na economia e na sociedade, temos de nos libertar da
pecha cultural que varre toda sociedade portuguesa de ver como
«energia» apenas a electricidade, que representa, afinal, apenas
20% das compras de energia pelos utilizadores finais. É certo que,
mesmo para a produção de electricidade estamos longe de nos
Eolica
Zona.com.locais.de.
produtividade.elevada
Zona.com.locais.de.
produtividade.muito.elevada
Ondas
Zona.com.condições.favoráveis
Radiação.Solar
Recurso.muito.significativo
Recurso.significativo
Biocombustíveis
Zona.de.potencial.elevado
(agricultura.intensiva.de.regadio)
Biomassa
Floresta.de.produção
Floresta.multifuncional
Pontos.de.injecção.actuais
Zona.de.influência.da.central
termoeléctrica.a.biomassa.em.concurso
NUTS.III
0 5 10
20
30
40
Kilometers
podermos considerar desprovidos em recursos em termos de ener­
gias hídrica, eólica ou das ondas. De tal modo que não será difícil
de imaginar que estas poderão assegurar num futuro próximo
mais de 50% das necessidades do país. Mas tão pouco nos podemos considerar desprovidos de energia solar e de biomassa, agora,
não necessariamente apenas para electricidade, mas para uso de
energia - calor. Convém recordar que a energia usada sob a forma
de calor representa porventura duas a duas e meia vezes a energia eléctrica utilizada ou seja cerca de 50% da energia final contra
cerca de 20% para a electricidade.
Ora, se a energia hídrica, eólica e das ondas respondem aos padrões
convencionais, da perspectiva do «supply» a verdade é que a ener-
gia solar e a biomassa são, por definição, descentralizadas e oferecem
oportunidades de usos de proximidade e de interacção procura –
oferta como nenhuma outra. A própria energia fotovoltaica, que
entusiasma os portugueses atraídos pelo isco de um tão residual
quanto mesquinho interesse financeiro, e que constitui, estamos
certos, o grande futuro do aprovisionamento eléctrico até ao fim
do século, é mais parte de uma rede com gestão centralizada, e
bem, do que uma forma descentralizada de aprovisionamento de
energia final ou útil.
É costume dizer-se, num tom por demasiado habitual, que
Portugal é pobre em recursos energéticos, pensando, é claro, nos
recursos fósseis. A verdade é que, em termos de recursos energé-
ticos, Portugal tem condições para se tornar num verdadeiro caso
de estudo no aproveitamento «elegante» das fontes de energia
renováveis, isto é, mais do que inteligente, também carregado
de culto dos valores ambientais que farão do nosso território um
território particularmente aprazível para as populações locais
e visitantes. E é aqui, que nasce o desafio que, em termos de energia,
se coloca ao ordenamento do território.
A experiência vivida no quadro da elaboração do PROT do Oeste
e Vale do Tejo é um caso de estudo da nova forma de lidar com a
energia em ordenamento e de organizar a gestão dos recursos
energéticos com o sentido da responsabilidade ambiental e social,
na óptica da sustentabilidade. Por um lado, identificaram-se as
necessidades de energia para as actividades económicas e para
o bem-estar dos cidadãos apurando até onde aquelas necessi­
dades poderão ir em termos do estado da arte e das tendências
da tecnologia. E, por outro lado, inventariaram-se as potenciali­
dades dos recursos naturais disponíveis para a obtenção da energia
final ou útil localmente necessária procurando o «matching» pro-
cura – oferta mais eficiente e racional. Foi, assim, possível chegar
a um planeamento aferido por critérios de impacto ambiental
estratégico e que conduzem a uma ideia de «autonomia energética»
que, sem por em causa a solidariedade do todo nacional, visa criar
um quadro de estímulo à valorização do potencial da energia de
proximidade por parte dos promotores das próprias actividades
económicas e dos responsáveis autárquicos. ■
| 39
40 |
Jardim Botânico
Seja um amigo também
O Jardim Botânico da Universidade de Lisboa comemora 130 anos no dia 11 de Novembro.
Guarda uma colecção notável de plantas de todo o mundo, com destaque para a Nova
Zelândia, Austrália, China, Japão e América do Sul. Apesar das dificuldades, continua
a crescer em visitantes e mantém uma série de actividades, desde visitas guiadas temáticas
a programas de educação ambiental. A adopção de árvores é uma das formas de ajudar.
Quem quer ser amigo do Botânico?
Património | Carla Maia de Almeida
Fotografia | Guto Ferreira
V
amos pelo meio de duas fileiras de washingtonianas até aos jardins do Botânico. Para a maior
parte das pessoas, são apenas palmeiras. Palmeiras
gigantes, de porte imponente e esguio, que atingem os 30 metros de altura e são originárias do
México. Cabe-lhes dar as boas-vindas aos visitantes do jardim que
este ano comemora o seu 130º aniversário. Cerca de 80 mil visitantes em 2007, um número que tem vindo a aumentar de ano
para ano. Mas não será de arromba a festa que está marcada para
o próximo dia 11 de Novembro. Há muito que se sabe das dificuldades por que passa o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa,
apesar das sucessivas mudanças do poder central e local. Água,
acessos, requalificações, pessoal, manutenção – falta dinheiro
para quase tudo. O empenho e o esforço imaginativo de quem aqui
trabalha não chega para modificar o estado das coisas. A Liga dos
Amigos do Jardim Botânico tem sido uma ajuda preciosa, mas
o problema é estrutural. Por isso, em vez do financiamento para
as obras desejadas, o acontecimento deste ano de comemorações
acabou por ser o concurso de ideias lançado pela Câmara
Municipal e pela Universidade de Lisboa. De onde virá o dinheiro
para concretizar o projecto vencedor? É o que falta saber.
Maria Amélia Martins-Loução, vice-reitora da Universidade de Lisboa
e directora do Jardim Botânico desde 2003, considera-se «uma
optimista», o que pode ser uma qualidade apreciável para o exercício de cargos difíceis. «Se houver um projecto coerente, atractivo
e estruturante para todo aquele espaço, estou certa de que não só
o Governo, mas, particularmente, outras entidades – mecenas –
possam ajudar a desenvolver aquela área, que é extremamente
importante para a cidade de Lisboa.» Estamos a falar não apenas
dos quatro hectares de terreno onde se localiza o jardim, mas
também de um largo perímetro urbano que vai do Príncipe Real
à Avenida da Liberdade, passando pelo Parque Mayer e pela Praça
da Alegria. «Trata-se de um plano de renovação de toda aquela
zona, que está muito degradada. Tem de haver um pólo cultural
na zona dos Museus da Politécnica e outro no Parque Mayer. Por
isso, um dos critérios que vai pesar muitíssimo na avaliação das
propostas dos arquitectos é a viabilização financeira daquele
espaço.»
No momento em que esta edição da LVT está a ser fechada, decorre
a segunda parte do concurso de ideias, já com uma maior exigência de complexidade na elaboração dos projectos. Maria Amélia
Martins-Loução faz parte do júri e, como é natural, reserva-se
o direito de não tecer comentários aos conteúdos. Dos cinco vence­
dores da primeira fase, ficou voluntariamente de fora o projecto
de Eduardo Souto Moura, classificado em quarto lugar. Para a segunda fase, mantiveram-se a concurso as equipas de Manuel
e Francisco Aires Mateus, ARX Portugal Arquitectos, Vão Arquitectos
e Gonçalo Byrne. A entrega definitiva será feita ainda este ano,
mas a directora do Jardim Botânico dificilmente poderá anunciar,
no dia 11 de Novembro, uma nova vida para o espaço verde mais
rico de Lisboa. Uma riqueza natural e museológica que contrasta
com a falta de meios financeiros. «Tinha esperança de que houvesse mais qualquer coisa que fosse passível de ser inaugurada
no dia da festa, mas não houve nada de substancial. Fizemos
| 41
tenta­tivas de melhoramento do jardim, que não foram conseguidas porque nós não temos financiamento e a câmara também
não. Temos de ter paciência e aguardar.»
gicos, e tem consequências para este pinheiro. Vamos ter de tomar
providências. Mas primeiro temos de explicar as razões, porque
as pessoas quando vêem uma árvore destas a ser abatida têm
reacções muito emotivas.»
Entre as várias preciosidades do Jardim Botânico a necessitar
de atenção está a biblioteca herdada dos Jesuítas, uma das me­lhores
em Portugal na área da museologia. Os alunos do Colégio Jesuíta,
que recebiam formação religiosa e não só, foram os primeiros
a ter aqui o seu Horto Botânico. Corresponde à parte cimeira do
jardim e denomina-se Classe, por ser o local onde as aulas de
botânica eram ministradas. Neste patamar encontra-se também
o Observatório Astronómico, uma peça centenária de arquitectura
didáctica, construída para o ensino da Astronomia, hoje num
estado deplorável de degradação. Existem vários projectos para
a sua recuperação, mas, escusado será dizer, nunca passaram do
papel. À parte maior e mais frondosa do jardim, o Arboreto, chega-se
passando a íngreme escadaria em calçada portuguesa. Mesmo
depois de esta ter sido recuperada, o acesso não é fácil, sobretudo
para crianças e pessoas idosas. O encerramento da outra entrada
pela Rua da Alegria só veio piorar a situação.
pança na factura da EPAL, cujo total se situa entre os 45 a 55 mil
euros por ano. Por ser considerado um grande consumidor,
­o Jardim Botânico paga o dobro de um cliente normal. Tendo em
vista a melhor optimização dos recursos, a EPAL financiou um
estudo para saber o que seria necessário para tornar mais eficiente
o uso da água. A utilização das cisternas, por um lado, e a adequação
de plantas menos consumidoras no extracto herbáceo, por outro,
são duas das soluções avançadas.
A natureza não é estática e, por vezes, parece virar-se contra si.
No Arboreto há árvores com as raízes levantadas e pelo menos
um pinheiro a ameaçar tombar. Construído em socalcos, o que
o torna num espaço muito interessante e algo misterioso, o jardim
ressente-se dos terrenos extremamente friáveis e dos movimentos
naturais do subsolo. «Num mês, o chão mexeu 12 milímetros»,
diz a bióloga Alexandra Escudeiro: «Isto é brutal, em termos geoló­
Actualmente, cerca de 1500 espécies distintas criaram raízes nos
terrenos do Monte Olivete. Projectado em meados do século xix,
por iniciativa do professor de botânica Conde de Ficalho, o jardim
foi inaugurado em 1878, 110 anos depois do Jardim Botânico da
Ajuda, o primeiro do país. À época, os jardineiros tiveram como
missão fazer um périplo pela Europa, para recolher plantas
dos quatro cantos do mundo. «A escolha das espécies foi muito
42 |
Mais difícil é explicar por que motivo o Lago de Baixo se encontra
seco e em estado de abandono, causando uma impressão de
descon­forto aos visitantes. Na verdade, a causa é simples: «O lago
rachou e está sempre a perder água. Já se infiltrou no túnel da
Estação do Rossio.» As constantes perdas de água, neste e noutros
pontos, levaram a directora Maria Amélia Martins-Loução a fechar
o antigo percurso que facilita a rega, o que se traduziu em pou-
criteriosa», salienta Alexandra Escudeiro. «Não foram escolhidas
só pelo seu sentido estético ou botânico, mas também por razões
ecológicas, geográficas e simbólicas. É a nossa colecção viva.
Há plantas da mesma espécie que estão no jardim, no herbário
e no seminário.»
Entre os exemplares mais impressionantes estão as árvores de
grande porte, como as araucárias, os metrosíderos, as sequóias ou
as ficus. Outras, fascinam pelo simbolismo e pela história: as cicas,
por exemplo, descendem de um grupo primitivo de plantas que
viveram há cerca de 150 milhões de anos e pouco evoluíram nos
últimos 60 milhões, sendo consideradas verdadeiros «fósseis
vivos.» O mesmo se pode dizer da ginkgo biloba, espécie que resis-
tiu aos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, e se tornou,
por isso, símbolo de sobrevivência. Plantas de bom augúrio no
Japão são os bambus, também presentes no Jardim Botânico.
Há árvores curiosas no seu aspecto, como a barriguda paineira,
de onde se extrai a sumaúma, ou essa árvore que mais parece um
cacto gigante, o dragoeiro, cujos caules rijos e carnudos serviram
outrora para fazer barcos, gamelas e colheres. Há magnólias, canforeiras, ciprestes, nogueiras e teixos, entre tantas outras árvores
e arbustos. Muitas, foram adoptadas por pessoas singulares ou
famílias, através da Liga dos Amigos do Jardim Botânico, criada
em 1986 para promover e salvaguardar este património.
Adoptar uma árvore tem um significado simbólico único. Entre os
vários casos curiosos encontramos o daquela avó que começou
a adoptar sequóias para deixar aos netos, ou o do rapaz que quis
a árvore escolhida pela noiva, um cipreste do México, ou ainda
o da família que tem três árvores a crescer juntas, representando
pai, mãe e filho. Os Amigos do Jardim Botânico, entre os quais se
contam várias figuras públicas, têm benefícios por esta ajuda que
se traduz num contributo financeiro para manter o jardim: pagam
um euro por metro quadrado de copa, por ano, dinheiro que é
usado para a conta de água. Quanto maior a árvore, maior o valor
– mas há plantas para todos os tamanhos das carteiras. O interesse
nunca é demasiado. «Era preciso que mais pessoas contribuíssem
com a adopção», afirma Maria Amélia Martins-Loução.
Desde que foi fundado, o Jardim Botânico tem dois propósitos
essenciais: a conservação da natureza e a conservação das colecções. Raramente visto pelo público, mas fundamental, é o Banco
de Sementes, guardião de várias espécies raras e ameaçadas.
Surgiu logo em 1878 e tem como objectivo a conservação de recursos genéticos de sementes de plantas endémicas de Portugal.
Estas são sobretudo provenientes do próprio jardim, mas não só.
Há uma colecção activa para a troca com outros jardins e instituições, e outra para a conservação a longo prazo. Neste último caso,
as sementes são colhidas na natureza e, depois de limpas de
impurezas, colocadas numa câmara de secagem, onde permanecem até alcançarem o grau ideal de humidade para conservação.
Depois, são hermeticamente fechadas e remetidas para a câmara
frigorífica, permanecendo aí a uma temperatura de 18 graus
negativos. As mais antigas têm quinze anos, mas é possível que
haja sementes mais recuadas ainda capazes de germinar. A natureza tem recursos surpreendentes.
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Apesar de lamentavelmente esquecido pela agenda política,
o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa continua a ser um
lugar especial. Confirmá-lo-iam, se pudessem falar, as dezenas
de gatos que ali encontram refúgio (porque um jardim sem gatos
é um desperdício de espaço), e, com um pouco de sorte, alguém
que os queira também adoptar. No Verão, quando a cidade se ressente do calor e o ar fica ainda mais irrespirável, as árvores são
um tesouro de sombras, oxigénio e frescura. No Inverno, é o cheiro
da terra molhada e o verde extremo das plantas que seduz o visitante. Pena é que sejam, por vezes, apenas os turistas a desco­
brirem-no. Gostaríamos de ver este lugar mais habitado, que os
lisboetas cultivassem hábitos de passear ao ar livre, em família,
em vez de cumprirem os circuitos dos centros comerciais. Há um
interesse renovado por cada curso de formação para guias que
o Jardim Botânico promove, e isso são boas notícias. No último,
apareceram desde estudantes de botânica e arquitectura paisagística até estudantes de história, arqueologia e geografia.
Todo o ano é dia de Jardim Botânico, mas a 11 de Novembro sopram­
‑se as velas do bolo de aniversário. Das 9h00 às 20h00, haverá
debates, conferências, exposições e lançamentos de livros. Os alunos
da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa farão visitas guiadas
aos seus auto-retratos, um conjunto de peças escultóricas que
depois ficarão à vista no jardim. Junte-se à festa! ■
Jardim Botânico da Universidade de Lisboa
Rua da Escola Politécnica, 58
Tel. 213 921 800
Aberto aos dias úteis, das 9h00 às 20h00
Fins-de-semana e feriados, das 10h00 às 20h00
(a partir de 1 de Novembro passa a encerrar às 18h00)
MUSEU DA PRESIDÊNCIA
DA REPÚBLICA RECEBE
PRÉMIO EUROPEU
O Museu da Presidência da República foi contemplado com o Prémio
Europa Nostra, em Durham (Inglaterra), no âmbito do projecto de
investigação
Aberto de terçasobre
a domingo,
o Palácio
das 10h00
de Belém.
às 18h00. Sábados das 10h00 às 17h00 Fonte:
Museu da Presidência da República
O espaço onde se encontra instalado o Museu da Presidência da
República é o edifício recuperado das antigas garagens do Palácio
de Belém, da autoria dos arquitectos Rui Barreiros Duarte e Ana
Paula Pinheiro. A organização do museu segue um fio cronológico
e temático, com o qual se pretende apresentar a história do regime
republicano e dos seus presidentes desde a revolução republicana
de 5 de Outubro de 1910 até aos nossos dias. A República e os seus
Presidentes corresponde ao primeiro núcleo temático da expo­
sição, e visa dar a conhecer o significado do sistema político da
República, a sua história em Portugal, os símbolos nacionais e os
seus três ciclos institucionais.
Para além do visionamento de um filme que relata o período
histó­rico que decorre entre o dia 5 de Outubro de 1910 até à reeleição de Jorge Sampaio para o cargo de Chefe de Estado, o visitante
poderá ficar ainda a conhecer a personalidade e a biografia de
cada um dos Presidentes da República. Ao longo do percurso, são
apresentadas peças relacionadas com cada um dos presidentes,
quer se tratem de objectos pessoais, que suscitem leituras particulares da sua per­so­nalidade e actuação política, ou de materiais
coligidos durante o exercício do cargo, como é o caso dos presentes
de Estado.
O Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República
e sede da Presidência da República, é objecto de tratamento especial, num núcleo expositivo que tem por objectivo valorizar, dar
a conhecer e aproximar as pessoas deste património artístico
e cultural. Para além da apresentação de objectos que fazem parte
da sua colecção, alguns deles ainda hoje a uso, ao serviço da activi­
dade do Presidente, o visitante poderá desfrutar de uma visita
virtual àquele espaço, complementar da própria visita.
O Museu da Presidência da República conta na sua colecção com
mais de mil e quinhentos objectos inventariados, entre presentes
de Estado, objectos pessoais e condecorações, a que se junta um
acervo documental que reúne os arquivos particulares, políticos
e biográficos da maioria dos presidentes da República. ■
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Berlengas
navegando para a
sustentabilidade
De ilha de piratas e frades, as Berlengas chegam aos nossos dias como um santuário
ecológico, classificado como Reserva Natural, Zona de Protecção Especial para Aves
Selvagens e Reserva Biogenética do Conselho da Europa. No entanto, fruto da pressão
turística e da poluição, este pequeno arquipélago apresenta agora graves problemas
ecológicos e ambientais. Algo que um projecto multidisciplinar e internacional quer
agora alterar, tornando as Berlengas num arquipélago auto-sustentável.
Destaque | Pedro Almeida Vieira
Fotografia | Câmara Municipal de Peniche
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E
m 1978, no filme «O Rei das Berlengas», D. Lucas
Telmo de Midões, interpretado por Mário Viegas,
putativo herdeiro deste arquipélago – que fora usurpado
à sua família pelo rei D. Afonso Henriques aquando
da fundação de Portugal –, acabou num manicómio.
Mas mesmo que, nesta comédia de Artur Semedo, este tresloucado
personagem tivesse sido bem-sucedido na «independência das
ditas», o reino das Berlengas teria sempre muitas dificuldades
de se manter sustentável, de sobrevivência.
Localizado a cerca de 10 quilómetros do Cabo Carvoeiro, o arquipélago das Berlengas tem, de facto, muito pouco para ser sustentável do ponto de vista humano – ou melhor, para aguentar a presença humana. Constituído por um conjunto de ilhas graníticas
– de que se destaca a Berlenga, as Estelas e os Farilhões –, bem
como vários ilhéus, este arquipélago é feito de granito, praticamente sem solo e tem apenas cerca de 100 hectares. Portanto,
é um lugar agreste e, por isso, pouco apetecível para se viver, pois
os recursos naturais são escassos e o seu isolamento é grande,
sobretudo durante o Inverno.
Contudo, ao longo dos tempos, houve vontade humana para colonizar as Berlengas. A primeira ocupação mais sedentária haveria
de suceder no início do século xvi, quando a então muito influente
Ordem de São Jerónimo se estabeleceu na Berlenga Grande, sob
os auspícios de D. Leonor, mulher de D. João II e irmã do então rei
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D. Manuel. Os frades construiriam assim um mosteiro, como local
de retiro, mas também para oferecer auxílio à navegação e às vítimas dos naufrágios e pilhagens de corsários na costa atlântica.
No entanto, logo aí se mostrou que as Berlengas não eram mesmo
sítio para se viver: a escassez de alimentos, as doenças e os constantes assaltos de piratas e corsários, levou ao abandono do mosteiro. Cerca de um século mais tarde, ao longo do reinado de
D. João iv, as ruínas desse antigo mosteiro dos Jerónimos seriam
mesmo desmanteladas para aproveitar as pedras e edificar a Fortaleza de São João Baptista. E as Berlengas passaram assim a ser
um simples, mas importante reduto militar. Como forte teve
então um papel importante contra as investidas espanholas após
a Restauração e, já no século xix, também nas Guerras Peninsular
e Liberais. Mas depois disso, foi perdendo pujança e acabou apenas por funcionar como local de apoio à pesca e à navegação, com
a instalação de um farol. Ou seja, ficou novamente desabitada,
excepção feita ao faroleiro.
Mas se as condições sempre foram agrestes para o Homem,
a Natu­reza soube aproveitá-las. O seu isolamento fez com que,
mesmo em tão pequeno espaço, se desenvolvesse uma riqueza
ecológica bastante relevante. Nas Berlengas encontram-se
mesmo duas espécies endémicas, únicas no Mundo, de flora
(Armeria berlengensis e Herniaria berlengiana), possuindo também uma elevada quantidade de espécies aquáticas, além de
constituir uma importante zona de nidificação de aves marinhas,
com destaque para a cagarra, o roquinho, o falcão-peregrino e o
airo.
Tamanha riqueza levou que fosse classificada como Reserva
Natural em 1981, num período em que se delimitaram muitas
outras áreas protegidas em Portugal. Oito anos mais tarde, além
das ilhas, uma zona marinha envolvente foi também abrangida
por este estatuto de conservação. E mais recentemente, surgiu
o reconhecimento internacional com a classificação de Reserva
Biogenética pelo Conselho da Europa e de Zona de Protecção
Especial para Aves Selvagens (ZPE) pela União Europeia.
No entanto, estes estatutos de conservação pouco indicam em
relação ao estado de conservação. Na verdade, as Berlengas estão,
do ponto de vista da sua riqueza biológica, numa fase de declínio,
que custa a inverter. A situação da população de aio – a ave que
constitui o símbolo da Reserva Natural – é disso um caso paradigmático. Na década de 30 do século passado estavam referenciados
cerca de 12 mil indivíduos, mas em 1981, ano da classificação como
Reserva Natural, apenas foram contadas 196 aves. No mais recente registo conhecido, relativo a 2003, foram apenas encontradas
cerca de duas dezenas sem que houvesse nenhuma a nidificar.
Em grande medida, este decréscimo abrupto deveu-se à prolife­
ração de gaivotas, que invadiram a ilha, comendo os ovos de aio,
devido em certa medida à proliferação de lixeiras no continente
durante décadas. Mas também, e muito, por causa do turismo.
Com efeito, contrastando com o isolamento de Inverno, traduzido
na presença de somente dois vigilantes da Natureza, visitas eventuais, as Berlengas são invadidas por turistas ao longo do Verão,
quer vindos nas carreiras regulares quer em outras embarcações
próprias ou alugadas. Em alguns dias, mais de mil visitantes chegam à Berlenga Grande – mesmo se o Plano de Ordenamento
desta área protegida estipula uma capacidade de carga máxima
de 350 visitantes –, criando assim problemas logísticos e de infra­
‑estruturas, nomeadamente na área do saneamento básico e de
energia, para além da própria pressão sobre um ecossistema frágil. Acrescem também os problemas com a infestação por chorão
– uma planta carnuda que pode colocar em risco as espécies
endémicas.
Foi para corrigir esta insustentável situação que está em curso
o projecto «Berlenga, Laboratório de Sustentabilidade», desenvolvido sob a égide da Secretaria de Estado do Ambiente e coordenado
pelo Centro para Prevenção da Poluição (C3P). O projecto foi iniciado em Julho de 2007, tendo um prazo de execução de 18 meses
e um orçamento global que deverá atingir 1,2 milhões de euros,
dos quais 10% provenientes da autarquia de Peniche. Um aspecto
desde logo inovador deste projecto é a parceria estabelecida por
um vasto grupo de entidades públicas e privadas, agrupadas no
seio do C3P. Com efeito, a entidade coordenadora – criada em
finais de 2002 pelo Instituto de Soldadura e Qualidade e pela
International Trade Bridge (ITB), uma empresa norte-americana
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sediada em Ohio e fundada por Carlos M. Caldas, um luso-americano – conta, neste projecto, com o apoio técnico e financeiro do
Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), da
autarquia de Peniche, da Direcção de Faróis, das Águas de Portugal,
da EDP, da Efacec, da Galp Energia, da Portugal Telecom, do INESC
Porto, do INETI e da sociedade de advogados Rui Pena, Arnaut
e Associados. Além disso, tem ainda o apoio da National Aeronautics
and Space Administration (NASA).
«O nosso objectivo é dotar as Berlengas com tecnologia e equi­
pamentos que a tornem auto-sustentável, diminuindo assim
a pressão humana», sustenta Sérgio Leandro, docente da Escola
Superior de Tecnologia do Mar de Peniche e assessor da autarquia
local. Para isso, os geradores a diesel – que permitem o funciona-
mento do restaurante e das instalações de alojamento e apoio
turístico – estão já a ser substituídos por painéis solares. Além
disso, para solucionar os problemas dos resíduos sólidos, está
a ser equacionado uma solução para os poder separar e compactar,
trazendo-os depois para o continente. No caso das águas resi­
duais, Sérgio Leandro diz estar em estudo a instalação de um
tamisador e de uma pequena estação de tratamento de esgotos,
de modo a permitir melhorar a qualidade da água, um aspecto
essencial para que as praias da Berlenga Grande possam vir a hastear
a Bandeira Azul, o que nunca até agora aconteceu. «Depois de
tudo concluído, como se minimizas os impactes, eventualmente
poder-se-á alterar a capacidade de carga prevista no Plano de
Ordenamento».
50 |
A participação da NASA é sobretudo ao nível de know-how e de
intercâmbio de informação. No ano passado, quando o projecto
foi lançado, Carlos, presidente e fundador da ITB, destacava o pioneirismo desta experiência nas Berlengas, sublinhando que «esta
poderá ser aplicada a nível mundial em áreas de difícil acesso
e que não dispõem de água potável e tratamento de esgotos,
como zonas de África e do Médio Oriente», acrescentando mesmo
existirem «pequenas áreas do projecto que são aplicáveis nas
missões ao espaço». Aliás, o projecto das Berlengas tem algumas
semelhanças ao projecto que a NASA está a começar a implementar
no Novo México, numa das suas bases que testam foguetões e a
compatibilidade de materiais, pois necessitam, sendo locais remo­
tos, de serem auto-sustentáveis em termos energéticos e de sanea­
mento e limpeza de resíduos.
Em suma, depois da execução deste projecto, as Berlengas deverão
surgir de cara lavada e com melhores condições para compatibili-
zarem as prioridades da conservação da Natureza com um uso
turístico sustentável e de qualidade. E aí, conforme desejo da
autarquia de Peniche, poder ter condições para ser aceite pela
UNESCO como uma preciosa Reserva da Biosfera.
No entanto, mesmo com este trabalho bem feito, há que estar
atento ao futuro. Se outros perigos não surgirem e as Berlengas
se tornarem sustentáveis pode dar-se sempre o caso de um herdeiro de D. Lucas Telmo de Midões, como na comédia de Artur
Semedo, querer empossar-se rei das Berlengas... ■
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Os petiscos
do fado
Roteiro | David Lopes Ramos
Fotografia | CA, produções fotográficas
O fado de Lisboa não é de grandes
comedorias. Sendo «o rigoroso» exige
tinto, e do carrascão, a acompanhar.
Se for daquele mais à moda, uma sangria
estará bem. Dos sólidos escolher-se-ão
comidas que nos lembrem a pátria
marítima: bacalhau, peixes, um ou outro
marisco. Coisas da «cozinha tradicional
portuguesa». Nas carnes, e como estamos
em Lisboa, dêmos passagem aos bifes.
Bom proveito.
F
ado e comida são temas de desgarrada? São dois da
vida airada? Ou será mais prudente não misturar
uma coisa com a outra, «à cause des mouches»? Como
se sabe, mesmo que não se saiba muito sobre o assunto,
como se passa comigo, o fado, sobretudo caso se trate
de «o rigoroso», necessita de «clima», quer dizer, de «silêncio que
se vai cantar o fado!» A comida, por seu lado, se tiver aromas capi-
tosos e sabores apurados, pode suscitar um estado de quase euforia,
susceptível de fazer nascer algum ruído de fundo.
Também é verdade, no entanto, que as casas de fado mais institucionais (chamemos-lhe assim para as distinguirmos das casas de
«fado vadio») incluem na sua oferta o jantar. Não é obrigatório,
mas costuma ser um momento simpático de uma «ida aos fados».
Não se vá com altas expectativas culinárias. Não se espere um
encontro com uma comida de grande sofisticação.
A generalidade das casas de fado lisboetas colocam a sua oferta
culinária sob o chapéu da «cozinha tradicional portuguesa».
Nada a objectar, sobretudo caso se tenha em conta, como se lê no
site www.fado.com, que «o fado não é apenas uma canção acompanhada à guitarra. É a própria alma do povo português. Ouvindo
as palavras de cada fado pode sentir-se a presença do mar, a vida
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dos marinheiros e pescadores, as ruelas e becos de Lisboa, as despedidas, o infortúnio e a saudade. A grande companheira do fado
é a guitarra portuguesa. Juntos, fado e guitarra, contam a essência
de uma história ligada ao mar.
«O fado, por ser de todos os portugueses, está na taberna e no
salão aristrocrático. Surgido na primeira metade do século passado
(xix), depressa se tornou na canção popular de Lisboa. Desde então
manteve a sua característica de expressão de sentimentos associados à fatalidade do destino. O fado está marcado pelo phatos
das tragédias da Grécia clássica. A canção emblemática de Lisboa
é também indissociável dos seus bairros mais típicos. Alfama,
Bairro Alto, Madragoa e Mouraria são os seus mais autênticos
berços. Por esta razão, ouvir o fado é conhecer Lisboa. É também
conhecer os portugueses, no mais profundo da sua alma de povo
que enfrentou o mar desconhecido».
Se a pretensão fosse fazer ironia pouco inspirada, acrescentar­‑se­
‑ia que é certamente em razão desta ligação marítima que a oferta
de comida das casas de fado é maioritariamente constituída
por pratos de bacalhau, polvo, tamboril, lulas, marisco, caldeirada
e cataplanas de vários peixes. Nas carnes, saliência para alguns
bifes, para o presunto, sobretudo pata negra, cabrito assado no forno,
favas guisadas com enchidos, coelho guisado, carne de porco parente
daquela à moda das Mercês, especialidades de carne de porco
preto para grelhar, carne de vaca e de vitela assadas no forno. Uns
caldos, em particular de peixes, de mariscos e caldo verde, bem
como uns queijos, sobretudo o da Serra ou aparentado, mais uns
doces, entre eles o leite creme, o arroz doce, trouxas de ovos, seri-
com alegria, porque estava muito bom. Mais recentemente, uma
noite, na Parreirinha de Alfama, dessa grande senhora que é dona
Argentina Santos, uma das mais originais e sabedoras vozes do
fado, que transformou o que poderia ser encarado como um defeito,
a pronúncia deficiente dos erres, numa mais valia da sua forma
de cantar, comi uns excelentes linguadinhos fritos com um arroz
de legumes belíssimos. Nos começos desta casa de fados emblemática da cidade de Lisboa, dona Argentina Santos, além de cantar,
encarregava-se ela própria da confecção da petisqueira.
Uma pergunta retórica
Mas há uma gastronomia lisboeta? A avaliar pelo que está publicado
sobre o tema, pode reconhecer-se que sim. Mais, está até codificada.
Por exemplo, Alfredo Saramago, no final do século passado, dedicou-lhe uma obra em formato grande, e, depois, já no século xxi,
em 2002, publicou um ensaio sobre o mesmo tema, «Para uma
História da Alimentação em Lisboa e seu Termo». Ambos os livros
foram editados pela Assírio & Alvim.
Neste último, no capítulo «Lisboa, no controverso século xx», Alfredo
caia, encharcada, toucinho do céu ou pudim de Abade de Priscos,
entre outros.
Saramago, ao enunciar as casas de comer da capital, escreve a dado
passo: «Além de todas estas casas e de outras que ficaram de fora
desta larga enumeração, havia ainda os retiros das hortas, mais
frequentados aos domingos por amantes de petiscos e de fado,
onde se comia peixe frito, carapaus e peixe-espada, bifes avinagrados e boa salada de alface. Os vinhos era do Termo ou do
Cartaxo. Célebres ficaram os retiros «Perna de Pau», onde oficiava
a Tia Gertrudes, e o «Zé dos Patacos», mas havia outros no Areeiro,
Campo Grande, Campolide, Xabregas, Calçada de Carriche,
etc..(...)».
Não sou grande frequentador de casas de fado. Há uns anos largos,
a agora famosa Mariza dava os seus primeiros passos no Senhor
Vinho, onde a diva era (é) Maria da Fé, comi um arroz de bacalhau,
amêijoas e grelos, de que me lembro, não direi com saudade, mas
No início dos anos 90 do século passado, José Quitério, no âmbito
do «4º Concurso de Gastronomia de Lisboa», integrado nas Festas
de Lisboa 93, elaborou, sobretudo a partir das obras Culinária
Portuguesa, de António Maria de Oliveira Bello (OLLEBOMA) e
54 |
RESTAURANTES
A SEVERA
Rua das Gáveas, 55 (Bairro Alto)
Telefone: 213 428 314; www.asevera.com
A TASCA DO CHICO
Rua do Diário de Notícias, 39 (Bairro Alto)
Telefone: 213 431 040
A TAVERNA d’EL REI
Largo do Chafariz de Dentro, 14 (Alfama)
Telefone: 218 876 754; www.tavernadelrei.com
ADEGA MACHADO
Rua do Norte, 91 (Bairro Alto)
Telefone: 213 224 640
ADEGA MESQUITA
Rua Diário de Notícias, 107 (Bairro Alto)
Telefone: 213 192 280
CAFÉ LUSO
Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto,
uma lista de pratos de Lisboa. Ei-la:
Travessa da Queimada, 10 (Bairro Alto)
Petiscos: fava-rica; peixinhos da horta; pastéis de bacalhau; peixinhos
de escabeche (carapauzinhos, petinguinhas e sardinhas das mais
pequenas); pipis. Sopas: sopa de camarão; sopa de amêijoas; sopa
de ostras; sopa rica de puré de peixe; sopa à Tia Gertrudes da
«Perna de Pau». Mariscos: amêijoas à Bulhão Pato; santola recheada;
ostras recheadas à lisboeta. Bacalhau: meia-desfeita; pataniscas;
filetes de bacalhau; bacalhau à Brás; bacalhau guisado à Lisboa
Antiga; bacalhau à Batalha Reis. Outros peixes: caldeirada à fragateiro; pescada em salmão; linguados com recheio de camarão;
filetes de linguado fritos à lisboeta; salmonetes com alcaparras;
filetes de polvo fresco; canoa de pargo; canoa de pescada; pudim
de peixe com macarrão; pudim de pescada quente. Caça: lebre
à Bulhão Pato; perdizes à Convento de Alcântara. Bifes: bife à Marrare;
bife à Jansen; bife à Faustino; bife à cortador; bife enrolado à lisboeta;
bife na frigideira de barro; bife com molho de queijo. Outras carnes:
iscas com elas; favas guisadas com enchidos; ervilhas com paio
e ovos; chispalhada; mão de vaca com grão (ou feijão branco).
O CANTO DO CAMÕES
Os doces foram deixados de fora, uma vez que «a doçaria de Lisboa
é escassa». Argumenta Quitério: «Actualmente, perdida a doçaria
conventual dos antigos mosteiros da cidade – e até alguma doçaria
profana como os Cocós – os únicos doces que se podem consi­
derar verdadeiramente de Lisboa são os pastéis de nata («pastéis
de Belém» é uma marca registada) e dois tipos de broinhas de
Natal. O que é manifestamente insuficiente para que esta cate-
goria possa integrar o concurso».
Tudo visto, poderia desejar-se que, nas suas ementas, as casas
de fado reflectissem, de forma mais expressiva, o que Lisboa tem
para oferecer neste capítulo. Embora, bem vistas as coisas, os frequentadores das casas de Lisboa onde se canta o fado não vão lá
por causa da comida. Assim sendo, a oferta quase unânime de
«comida tradicional portuguesa» está bem. ■
Telefone: 213 422 281; www.cafeluso.pt
Travessa da Espera, 38 (Bairro Alto)
Telefone: 213 465 464; www.cantodocamoes.com
CASA DE LINHARES/BACALHAU DE MOLHO
Beco dos Armazéns de Linho, nº 1 (Alfama)
Telefone: 218 863 767; www.casadelinhares.com
CLUBE DE FADO
Rua de São João da Praça, 92-94 (Alfama)
Telefone: 218 852 704; www.clube-de-fado.com
FAIA
Rua da Barroca, 48 (Bairro Alto)
Telefone: 213 426 742; www.ofaia.com/
PARREIRINHA DE ALFAMA
Beco do Espírito Santo, 1 (Alfama)
Telefone: 218 868 209
SENHOR VINHO
Rua do Meio à Lapa, 18 (Madragoa)
Telefones: 213 972 681/213 977 456
TIMPANAS
Rua Gilberto Rola, 24 (Alcântara)
Telefone: 213 906 656
VELHO PÁTEO DE SANT’ANA
Rua dr. Almeida Amaral, 6 (Campo de Santana)
Telefone: 213 141 063/4
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ARTEMREDE
TEATROS ASSOCIADOS
juntos > mais fortes
Catarina Vaz Pinto*
As redes de teatros são uma realidade já
com vários anos na generalidade dos
países europeus, mas, no nosso país, este
modelo organizativo tem uma história
recente, pois só há pouco tempo o país viu
surgir, de norte a sul do terri­tório,
numerosas infra-estruturas culturais
financiadas quase sempre com recurso
aos fundos estruturais europeus.
Na Região de Lisboa e Vale do Tejo, a CCDR-LVT desde logo
se preocupou com a actividade dos equipamentos cuja
construção financiara, tendo decidido, por isso, promover,
em 2003, a realização de um estudo que identificasse os
meios e instrumentos mais adequados à dinamização,
qualificação e criação de condições de sustentabilidade dos teatros municipais.
Esse foi o início de um longo processo, ainda em curso,
de sensibilização e debate sobre o papel dos teatros municipais no desenvolvimento regional, bem como de qualificação das suas práticas de programação, de gestão, difusão
e relação com os públicos e que deu origem à constituição,
em Janeiro de 2005, da ARTEMREDE – Teatros Associados,
rede formal actualmente constituída por 15 municípios
e uma escola: Abrantes, Alcanena, Alcobaça, Almada, Almei­
rim, Barreiro, Caldas da Rainha, Cartaxo, Entroncamento,
Moita, Montijo, Palmela, Santarém, Sobral de Monte Agraço,
Torres Vedras e o Externato Cooperativo da Benedita. A partir
de Janeiro de 2009 juntar-se-á também Sesimbra.
A ARTEMREDE é uma estrutura associativa que vem complementar, reforçar e apoiar a actuação de cada um dos
seus membros relativamente aos teatros de que são proprietários. As actividades da associação são financiadas
através das quotas dos seus membros – quotas de funcionamento e de programação – e da angariação de outros
financiamentos disponíveis para projectos culturais, nomea­
damente no FEDER e no Programa Foral, angariação essa
que constitui um das principais mais-valias deste trabalho em rede.
Já com três anos e meio de vida, a ARTEMREDE tem concen­
trado a sua actuação no domínio da programação de espec­
táculos, da formação e da promoção da «cultura de rede».
A programação de espectáculos é elaborada em conjunto
pela direcção-executiva da associação e pelos responsáveis
de programação de cada um dos teatros associados.
Até Setembro de cada ano é elaborado um catálogo de
espec­táculos que integra projectos (para 2009, inclui 88)
56 |
de música, teatro, dança, multidisciplinares, artes circenses, cinema, público infantil e juvenil, seleccionados pela direc­
ção executiva da ARTEMREDE (cerca de 45%) e pelos próprios associados. Serão no ano seguinte financiadas e
apresentadas através da ARTEMREDE as propostas escolhidas por, pelo menos, quatro associados, no caso dos.
projectos nacio­nais e cinco quando estrangeiros..
A escolha deve incluir pelo menos um espectáculo de
companhias profissionais sedeadas nos municípios que
integram a associação. Este é um dos mecanismos que viabiliza o acesso das companhias locais a circuitos de difusão
mais alargados.
A elaboração deste catálogo é um processo em constante
avaliação e mudança: tem-se procurado evoluir no sentido
da qualificação dos espectáculos a apresentar, da oferta
cada vez maior de espectáculos internacionais, do desenvolvimento de projectos educativos associados aos espectáculos, através de um conjunto cada vez maior de oficinas que têm como objectivo qualificar as condições de recepção
dos espectáculos, formar e fidelizar públicos; da construção
de núcleos temáticos de programação, concentrados no
tempo, que permitem integrar um maior número de associados, atrair mais público, induzir a visibilidade acrescida
e reforço da imagem da associação. A «Festa da Marioneta», este ano já na sua 2ª edição, é o exemplo paradigmático deste tipo de iniciativa.
Para além dos espectáculos seleccionados através do catálogo, uma parte mais reduzida do orçamento de programação (cerca de 25%) é utilizada para apresentação de
espectáculos em co-produção com os teatros nacionais ou
outros organismos não pertencentes à ARTEMREDE, para
apresentação de extensões de festivais de prestígio e tradição realizados nalguns dos municípios associados (caso
do Cistermúsica, em Alcobaça, ou do Festival de Teatro
de Almada) e também para promover novas criações.
Em 2007, a ARTEMREDE convidou o coreógrafo Rui Lopes
Graça a criar uma nova obra, «A Arte da Fuga», que integrou bailarinas das companhias profissionais de dança de
Palmela, Sintra e de Almada e foi apresentada em 10 teatros associados. Em 2008, a ARTEMREDE encomendou a
criação do espectáculo de marionetas «Xerazade não está
só!», a inte­grar na «Festa da Marioneta», tendo a actriz
Carla Chambel como principal protagonista. O espectáculo vai circular, a partir de Outubro, em 14 teatros da rede.
Estas iniciativas são fundamentais para integrar a ARTEMREDE
nos circuitos nacionais e internacionais da produção e difusão de espectáculos, para legitimar a associação como
agente inquestionável no domínio das artes no nosso país
e com isso, valorizar também a actuação e a imagem das
autarquias que a integram.
No campo da formação, a ARTEMREDE iniciou em 2006 um
vasto e ambicioso projecto de qualificação dos profissionais
dos teatros associados, que abrangeu acções de formação
nas áreas técnica, de gestão e artística, e que tem procurado
responder, quer às inúmeras carências ­detectadas, quer às
necessidades permanentes de actualização nestes domínios.
O Plano de Formação, que ascende a cerca de de 380.000 ¤, inclui 14 cursos, envolvendo cerca de 328 formandos.
Mas talvez a característica mais interessante da ARTEMREDE
seja a da inovação que, através das inúmeras reuniões e en­
contros, da formação, da utilização intensiva da tecnologia
e da comunicação on line, tem vindo a introduzir nas meto­
dologias de trabalho e de organização entre todos aqueles
– artistas, responsáveis políticos, mediadores, ­ técnicos –
que estão envolvidos neste longo e complexo processo que
vai desde a criação e produção de um espectáculo até à sua
recepção pelo público. Inovação essa que radica na consciên­
cia de que só através de uma nova atitude de escuta, de espí­
rito de colaboração, de negociação, de partilha, se poderão
ultrapassar as imensas dificuldades que as circunstâncias
do mundo, das cidades e de cada um de nós continuam
a colocar ao quotidiano dos teatros municipais. ■
Saiba mais em www.artemrede.pt
* consultora
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MÚSICA
TEATRO
Kumpania Algazarra
Sábado, 05 novembro | a definir
Torres Vedras
Duração Espectáculo: 85min. s/ intervalo | Público Alvo: Geral | Faixa Etária: m/6 anos
Género Artístico: Música do Mundo
Uma animada viagem ao encontro de diferentes sonoridades que cruza influências
da música folk de leste, árabe, afro com ska, polka, swing, entre outros. A originalidade
na fusão, a energia das letras e as melodias vibrantes contribuem para o ambiente
festivo que os Kumpania Algazarra levam ao palco. Um espectáculo contagiante!
Kumpania Algazarra
Direitos Humanos
Quinteto Lusotango com Bailarinos
Direitos Humanos
Sábado, 08 novembro | 21h30
Teatro Sá da Bandeira, Santarém
Quarta, 10 dezembro | 10h10
Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita
Quinta, 27 novembro | 21h30
Cine-Teatro São Pedro, Abrantes
Sexta, 12 dezembro | 21h30
Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo
Sábado, 29 novembro | 21h30
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
Sábado, 13 dezembro | 21h30
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Quinta, 18 dezembro | 22h00
Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita
Domingo, 14 dezembro | 16h00
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
Duração espectáculo: 70min. s/ intervalo | Público alvo: geral | Faixa etária: m/3 anos
Duração espectáculo: 70min. s/ intervalo | Lotação máxima: 200 espectadores
Género artístico tango argentino [música + dança]
Público alvo: geral | Faixa etária: m/6 anos | Género artístico: mímica
Astor Piazzolla representa uma referência no tango, uma inovação, um engrandeci-
Um espectáculo de mímica que aborda alguns dos Artigos dos Direitos Humanos
mento na cultura musical Argentina e do mundo ocidental. Piazzola foi um
aprovados pela ONU em 1948. Seguindo o estilo muito próprio de Carlos Martínez,
bandeonista e compositor argentino. Segundo muitos especialistas, foi o compositor
DIREITOS HUMANOS é uma reflexão, em tom cómico, sobre a experiência humana
de tango mais notável da segunda metade do século xx. Estudou harmonia e música
e suas carências que se transporta para o mundo cénico, onde, através da sua
erudita com a compositora e directora de orquestra francesa Nadia Boulanger que foi
linguagem de compreensão universal dá vida a este tema de importância elementar.
Quinteto Lusotango
aluna de Sergei Rachmaninoff. Na sua juventude, tocou e realizou arranjos orquestrais
para o bandoneonista, compositor e director Aníbal Troilo. Quando começou a fazer
inovações no tango, no ritmo, no timbre e na harmonia, foi muito criticado pelos
tocadores de tango mais antigos. Ao voltar de Nova Iorque, Piazzolla já mostrava a
forte influência do Jazz na sua música, estabelecendo então uma nova linguagem,
seguida até hoje. Quando os mais ortodoxos, durante a década de 60, bradaram que a
música dele não era de facto tango, Piazzolla respondia-lhes que era música
contemporânea de Buenos Aires. Para os seus seguidores e apreciadores, essa música
certamente representava melhor a imagem da metrópole argentina.
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Carlos Martínez
Interieur Nuit_ © Eleonore Dumas
MULTIDISCIPLINAR
Interieur Nuit_
de Jean-Baptiste André [Association [W]]
Segunda, 01 dezembro | 17h00
Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita
Quinta, 04 dezembro | 21h30
Cine-Teatro São Pedro, Abrantes
Sábado, 06 dezembro | 21h30
Cine-Teatro de Alcobaça, Alcobaça
Segunda, 08 dezembro | 21h30
Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo
Quinta, 11 dezembro | 22h00
Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, Moita
Sábado, 13 dezembro | 21h30
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
Grão de Bico © Ângelo Fernandes
Terça, 16 dezembro | 21h30
Teatro Sá da Bandeira, Santarém
CRIANÇAS E JOVENS
Quinta, 18 dezembro | 21h30
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Grão de Bico
Sábado, 20 dezembro | 21h30
Teatro Municipal de Almada, Almada
Teatro O Bando
Duração espectáculo: 60min. s/ intervalo | Público alvo: geral | Faixa etária: m/6 anos
Sábado, 20 dezembro | 10h00
Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha
Concebido com a colaboração de Jacques Bertrand e Christophe Sechet, esta
Duração Espectáculo: 50min. s/ intervalo | Lotação máxima: 60 espectadores
Público alvo: Infantil [dos 3 aos 7 anos] | Faixa etária: m/3 anos | Género artístico: Teatro
Observações: Espectáculo realizado numa tenda, implantada no Palco ou num outro
local com as condições mínimas para a acolher [ver Rider Técnico]
Será possível contar teatralmente as peripécias de uma aventura que intrigue
meninos de três anos e homens e mulheres, mais novos e mais velhos, com idêntica
e saborosa cumplicidade?
Baseado num conto de tradição oral, que nos revela inúmeras versões, este grão
de bico é recriado num ambiente intimista, no qual o multimédia estabelece a ponte
para lá do [in]visível, entre o espectador e a sua imaginação.
Género artístico: acrobacia + dança + música + vídeo
é a primeira criação de Jean-Baptiste André, uma obra inovadora, na fronteira
de diferentes disciplinas artísticas. O artista utiliza movimentos corporais, a contorção,
a coreografia e o vídeo para nos oferecer uma bela peça, que assenta nos conceitos
de equilíbrio e de espaço. O público é levado a interrogar-se sobre a relação entre o
tempo e o espaço, o interior e o exterior, o real e o imaginário. Jean-Baptiste André
mistura, com sucesso, as artes do circo à dança, ao teatro, ao vídeo e à música
electrónica, conduzindo a uma pesquisa do corpo e das suas metamorfoses. Palhaço e
acrobata, o artista leva ao extremo os limites do corpo, não pelas proezas que executa no
palco, mas sobretudo pelas questões sugeridas pelos seus movimentos.
INTÉRIEUR NUIT_ é mais do que um simples espectáculo: é uma experiência a ser vivida
pelo espectador, um momento de intimidade e de proximidade para ser partilhada.
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Sombras Mágicas
OFICINAS
Dos Sons Nascem Histórias
Miguel Horta
Quinta, 04 dezembro | 10h30 | 14h30
Teatro Sá da Bandeira, Santarém
Duração espectáculo; 90min. s/ intervalo | Lotação máxima: 25 participantes
Público alvo: adulto | Faixa etária: m/55 anos | Género artístico: música + escrita criativa
| Observações: a lotação máxima refere-se ao número ideal de participantes.
São realizadas 2 sessões por dia.
Partindo dos sons recolhidos neste universo que habitamos, inventamos histórias,
sugeridas por ilustrações auditivas. Pequenos excertos sonoros do nosso quotidiano
que nos vão servir de inspiração para a criação de textos e das suas ilustrações.
O material base é simples. Um processador «Midi» que alberga a nossa biblioteca
de sons, matéria de onde faremos nascer os nossos contos. Numa época demasiado
povoada por imagens, um espaço de recolhimento criador através dos sons e da sua
capacidade de redesenhar o mundo.
Sombras Mágicas
[Oficina associada ao espectáculo
As Sombras de Bradshaw, de Richard Bradshaw]
Sábado, 01 novembro | 16h00
Auditório Municipal do Pinhal Novo, Palmela
Sábado, 08 novembro | 16h00
Biblioteca Municipal de Palmela, Palmela
Domingo, 09 novembro | 10h30
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Segunda, 10 novembro | 10h00
Teatro Sá da Bandeira, Santarém
Quinta, 13 novembro | 14h30
Fórum Municipal Romeu Correia, Almada
Sábado, 15 novembro | 11h00
Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo
2h | Máx. 12 participantes ou 1 turma | Dos 6 aos 8 anos ou dos 9 aos 12 anos
Monitor: Cristina do Aido, Rui Pedro Pinto
Descobrir a magia das sombras. Compreender como o objecto e a luz se relacionam
entre si e com o que está mais próximo e com o que está mais distante. A partir de
uma imagem, uma música, uma breve história, um poema ou uma palavra, criar e
construir personagens sombra que como no teatro ganham uma vida própria na luz.
Conhecer os segredos da animação e as várias técnicas de sombras animadas. Testar
as sombras construídas.
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Construção de Monstros Marinhos
Uma Serpente Bem Perigosa!
Domingo, 02 novembro | 14h00
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Sábado, 08 novembro | 16h00
Centro Cultural do Poceirão, Palmela
Sábado, 15 novembro | 16h00
Jardim José Maria dos Santos - Antigo Posto GNR do Pinhal Novo, Palmela
Domingo, 09 novembro | 16h00
CoopHanjo, Palmela
Sábado, 22 novembro | 10h00 | 14h00
Fórum Municipal Romeu Correia, Almada
Domingo, 16 novembro | 16h00
Grupo Desportivo «Leões» de Cajados, Palmela
Sábado, 06 dezembro | 16h00
Centro Cultural do Poceirão, Palmela
Sábado, 29 dezembro | 16h00
Biblioteca Municipal de Palmela, Palmela
Domingo, 07 dezembro | 10h00
Teatro-Cine de Torres Vedras, Torres Vedras
Domingo, 30 novembro | 16h00
Jardim José Maria dos Santos - Antigo Posto GNR do Pinhal Novo, Palmela
Quarta, 10 dezembro | 09h00
Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes
Sábado, 06 dezembro | 15h30
Teatro-Cine de Torres Vedras, Torres Vedras
Sábado, 13 dezembro | 15h00
Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro
Terça, 18 dezembro
Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha
Quinta, 18 dezembro
Bibilioteca Municipal de Alcobaça, Alcobaça
1h30 | 25 participantes | dos 6 aos 9 anos | Monitor: Miguel Horta [+ 1 monitor para apoio]
[Oficina associada ao espectáculo Xerazade]
4h | 30 participantes | M/6 anos
Esta oficina consiste na colocação do jovem em contacto com uma realidade criativa
distinta onde, para se alcançar a dramatização, se passa pela construção do
objecto cénico; ou seja, a marioneta. Esta marioneta, de estrutura simples, evoca
o imaginário dos monstros marinhos que povoaram e ainda estão presentes nos
mapas marítimos e na mente dos marinheiros em confronto com o desconhecido
do mar. E como a imaginação não tem fim, estes monstros podem povoar todas
[Oficina associada ao espectáculo Xerazade]
Baseada numa passagem da história, uma oficina de construção plástica de uma
personagem, uma temível serpente. Pelo meio, a leitura das partes mais arrepiantes
do encontro de Sinbad com aqueles terríveis répteis... Um trabalho colectivo com
diversos materiais que servirá de memória para um dia bem passado no Teatro.
Oficina de construção de uma das temíveis serpentes que aparecem na história. Um
trabalho colectivo em torno de uma serpente de 4 metros [pelo menos].
Uma actividade que começa com a leitura de algumas partes do livro onde se referem as
serpentes. Feita a serpente: segue para a escola bem guardada pelo público.
as mentes. Cada jovem constrói a sua própria marioneta, sendo a mesma um ponto de
[Nota: os tempos de secagem serão ocupados com leitura de algumas partes do livro]
partida para um projecto mais alargado em torno de histórias que abordem a
Monstros Marinhos
presença do monstro marinho.
[Oficina associada ao espectáculo Xerazade]
Sábado, 01 e 08 novembro
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Terça a Quinta, 04 a 06 novembro | 09h00
Cine-Teatro São Pedro, Abrantes
Domingo, 16, 23 e 30 novembro | 14h30
Fórum Municipal Romeu Correia, Almada
Terça a Quinta, 25 a 27 novembro | 16h00
Biblioteca Municipal do Sobral de Monte Agraço, Sobral de Monte Agraço
Quarta a Sexta, 17 a 19 dezembro | 14h00
Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha
12h | 20 participantes | M/6 anos | Observações: 3 sessões de 4h cada
Esta oficina é constituída por três fases distintas:
1ª fase: Consiste na construção de uma marionetas de esponja, cuja personagem
será um monstro marinho reinventado pelo seu criador, tendo por base um conjunto
de ilustrações e gravuras presentes nos mapas de navegação. 2ª fase: Consiste na
dramatização de uma cena colectiva, onde se explora a manipulação das marionetas,
o jogo teatral e o imaginário das aventuras de Sinbad o Marinheiro. 3ª fase: Apresentação
da estrutura teatral dos formandos no final das sessões aberta ao público.
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Croma Key
Técnicas de Vídeo e Animação
[Oficina associada ao espectáculo Xerazade]
Sábado, 08 novembro | 14h30 às 17h30
Sábado, 15 e 22 novembro | 10h00 às 13h00 | 14h300 às 17h30
Museu da Cidade, Almada
Segunda a Quarta, 15 a 17 dezembro
Biblioteca Municipal de Alcobaça, Alcobaça
15h | 12 participantes por grupo | Dos 9 aos 12 anos | Monitor: Raul Constante Pereira,
Fernando Silva | Observações: 5 sessões de 3h cada
Vamos fazer um mergulho no universo marinho da história de Xerazade e, em
conjunto, reinventar um novo mundo. Utilizaremos a escrita, o desenho e a pintura.
Tudo o que tivermos à mão mais uma boa dose de imaginação. Construir e animar
objectos e bonecos que vão interpretar a nossa história de encantar. Faremos uma
filmagem da aventura desenhada por cada participante de Alcobaça e Almada. No
fim, teremos um filme feito com a soma dos momentos realizados em cada local.
Vamos fazer uma apresentação para todos poderem ver.
Um Gesto é Tudo
[Oficina associada ao espectáculo Direitos Humanos,
de Carlos Martínez]
Quinta, 12 novembro | 10h00
Fórum Municipal Romeu Correia, Almada
2h | Máx. 12 participantes ou 1 turma | Dos 9 aos 12 anos
Monitor: Anabela Almeida, Natália Vieira
Nesta oficina, vamos fazer uma abordagem aos conceitos considerados na Declaração
Universal dos Direitos Humanos recorrendo a um excerto da apresentação
de Carlos Martinez e a imagens que contextualizam o assunto.
Experimentar outras formas de «dizer» os nossos Direitos e Deveres e como esses
direitos se traduzem na nossa vida quotidiana. Realizar breves exercícios de
mímica e aproximação à imagem do mimo. Gestos, expressões e sentimentos
associados aos direitos humanos. Falar sem voz. Dizer que queremos tudo a que temos
direito. Tudo com gestos. Porque o gesto é tudo.
Módulo de Teatro de Sombras
[Oficina associada ao espectáculo As Sombras de Bradshaw,
de Richard Bradshaw]
Sexta, 21 e 28 novembro | 20h00 às 23h30
Sábado, 22 novembro | 09h30 às 12h30 | 13h30 às 19h30
Sábado, 29 novembro | 09h30 às 12h30 | 13h30 às 20h30
Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha
25h | Máx. 20 participantes | Público Alvo: Professores | Monitor: Walter Ramos Almeida,
Irene Cortesão Costa | Observações: 6 sessões
Conteúdos trabalhados: Expressão motora; Expressão musical; Expressão plástica;
Conteúdos pedagógicos trabalhados transversalmente.
Mimos para Pais e Filhos
Diário de Bordo
[Oficina associada ao espectáculo Xerazade]
Quarta e Quinta, 19 e 20 novembro | 10h00
Fórum Municipal Romeu Correia, Almada
Segunda, 01 dezembro | 17h00
Cine-Teatro do Sobral de Monte Agraço, Sobral de Monte Agraço
[Oficina associada ao espectáculo Direitos Humanos,
de Carlos Martínez]
Sábado, 13 dezembro | 10h30
Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo
Domingo, 14 dezembro | 11h00
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
1h30 | 25 participantes | Dos 8 aos 9 anos | Monitor Miguel Horta [+ 1 monitor para apoio]
Domingo, 14 dezembro | 16h00
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Após o espectáculo, uma pequena oficina de ilustração a partir de trechos da obra
2h | Máx. 14 participantes [acompanhados por 1 ou 2 adultos] | Dos 3 aos 5 anos
com leitura de algumas passagens. Uma forma de cimentar e reflectir os conteúdos da
peça registando-os em desenho num pequeno caderno preparado para a ocasião.
Uma espécie de diário de bordo onde os nossos espectadores, feitos marinheiros,
registarão as maravilhas e o assustador que viveram a bordo do barco de Sinbad.
Uma actividade baseada no texto «original» da peça. Em cada página, no topo,
o trecho das «Mil e uma noites» referente a cada passagem da peça, com um grande
espaço em branco para ilustração do momento referido. Por fim, um desafio de escrita:
a carta do Rei das Índias ao Califa. Como conseguirias convencer o Califa a tornar-se
aliado e amigo do Rei das Índias. O que tens para lhe oferecer? O que podem trocar
dois países tão distantes? O que existe na Arábia que não existe na Índia?...
No final, cada participante levará consigo o diário de bordo da peça.
62 |
Monitor: Margarida Mestre
Oficina de movimento e voz, onde pais e filhos experimentam e partilham a
linguagem do corpo e do gesto e a sua condição no espaço. A partir de uma pequena
apresentação em vídeo do trabalho do artista Carlos Martínez, os participantes
serão convidados a experimentar exercícios de movimento e mímica num jogo
criativo de comunicação. Inventar sítios mágicos e representá-los tendo como
instrumento o próprio corpo e como partitura os conceitos presentes na Declaração
Universal dos Direitos do Homem. No fim, em conjunto, vamos construir uma
pequena coreografia de movimentos de pais para filhos, de filhos para pais e com
pais e filhos.
Theatrum Puparum © SAM
FESTA DA MARIONETA
Theatrum Puparum
Pedro e o lobo
Domingo, 02 novembro | 16h00
Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro
Quinta, 13 novembro | 10h30
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
Terça, 04 novembro | 10h30
Teatro Sá da Bandeira, Santarém
Sábado, 15 novembro | 16h00
Centro Cultural do Poceirão, Palmela
Domingo, 09 novembro | 17h00
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Sexta, 21 novembro | 10h30
Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes
Duração: 60min. s/ intervalo | Faixa etária: m/5 anos | Lotação máxima: 80 espectadores
Sábado, 22 novembro | 11h00
Teatro-Cine de Torres Vedras, Torres Vedras
Marionetas de varão
«Por ordem do senhor destas terras que as funções sejam feitas de acordo com
a verdade dos acontecimentos e que os bonecos representem fielmente as damas
e os senhores dessas historias. Os animadores dos bonecos durante as funções estão
proibidos de fazer graças sobre a pessoa do rei e da rainha, das damas, dos cavaleiros
e dos senhores dessas historias, ou mesmo ao senhor nosso pai, sobe pena de lhes
ser retirada a licença para animar bonecos ou receber um castigo maior citado pelo rei
ou pelo senhor destas terras.»
Teatro e marionetas
Domingo, 23 novembro | 16h00
Cine-Teatro, Sobral de Monte Agraço
Duração: 30min. s/ intervalo | Faixa etária: m/4 anos
Uma extravagante família de saltimbancos conta e vive a história de Pedro e o Lobo
por meio de música, dança, teatro e números de circo.
| 63
Quinta, 13 novembro | 15h00
Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita
Sexta, 14 novembro | 21h30
Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo
Xerazade não está Só!
Sábado, 15 novembro | 16h00
Auditório Fernando Lopes Graça, Almada
Sábado, 01 novembro
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Duração: 60min. s/ intervalo | Faixa etária: m/6 anos | Lotação máxima: 300 espectadores
Teatro e marionetas
Domingo, 09 novembro | 16h00
Teatro Sá da Bandeira, Santarém
Domingo, 16 novembro | 16h00
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
Sexta, 21 novembro | 21h30 | Domingo, 23 Novembro | 11h00
Auditório Fernando Lopes Graça, Almada
Sábado, 29 novembro | 21h30
Cine-Teatro São João, Palmela
Duração: 60min. s/ intervalo | Faixa etária: m/6 anos
Duas jovens refugiam-se num improvisado abrigo anti-aéreo, algures, numa cidade
não identificada do Médio-Oriente. São irmãs e sabem que têm a vida em perigo
pela vontade caprichosa dos que lutam pela posse da cidade. Para vencer o medo
e o tempo, Xerazade, a mais velha, conta à irmã histórias maravilhosas, quando todas
as aventuras da fantasia eram possíveis. Concentradas nas viagens de Sindbad,
o Marinheiro, esquecem onde estão. O abrigo transfigura-se. Os marionetas ganham
humanidade, tanto como os que se guerreiam, lá fora, são marionetas.
Livremente inspirado em episódios das «Mil e uma Noites», que teve por cenário
uma Bagdad deslumbrante, António Torrado escreveu esta peça para actores
e marionetas que terá como fundo musical trechos da «Xerazade» de Rimsky- Korsakov
[1844-1908], no centenário da morte do grande compositor russo.
As Sombras de Bradshaw
Teatro de Sombras
Sexta, 07 novembro | 21h30
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Sábado, 08 novembro | 21h30
Cine-Teatro São João, Palmela
Domingo, 09 novembro | 16h00
Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro
Terça, 11 novembro | 14h00
Teatro Sá da Bandeira, Santarém
64 |
Domingo, 16 novembro | 16h00
Centro Cultural e Congressos de Caldas de Rainha, Caldas da Rainha
O australiano Richard Bradshaw utiliza o seu grande génio para cativar o público com
as suas imagens elaboradas. As suas marionetas são criaturas simples e delicadas
capazes de múltiplas transformações que ajudam este genial narrador a criar um
mundo repleto de ilusões num pequeno quebra-luz. Estas maravilhosas personagens
acompanham histórias tradicionais, canções e brincadeiras com movimentos
surrealistas para agradar ao público. O espectáculo é composto por várias curtas
histórias sobre animais e personagens curiosas.
P’tit Jojo, Sac au Dos
[Pequeno Jojo de Mochila às Costas]
Teatro de Marionetas
Sábado, 08 novembro | 10h30 e 11h30
Auditório Municipal do Pinhal Novo, Palmela
Domingo, 09 novembro | 15h00 e 16h00
Sobral de Monte Agraço | Cine-Teatro
Terça, 11 novembro | 10h30 e 11h30
Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes
Quinta, 13 novembro
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Sábado, 15 novembro | 10h30 e 11h30
Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, Moita
Domingo, 16 novembro | 16h00 e 17h30
Auditório Mun. Augusto Cabrita, Barreiro
Terça, 18 novembro | 13h45 e 15h00
Cine-Teatro de Alcobaça, Alcobaça
Duração: 40min. s/ intervalo| Faixa etária: dos 2 aos 6 anos
Lotação máxima: 120 espectadores
O pequeno Jojo sonha com monstros terríveis com grandes dentes pontiagudos.
Para enfrentar os seus medos, ele parte em viagem pelo mundo, à procura de outras
pessoas e dos seus medos. Para contar esta história são precisas poucas palavras.
De realçar a qualidade visual e a riqueza musical [Mahler, Fauré, Satie, Prokofiev,
Cabaret Molotov © Paulo Barata
Propriedade
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de Lisboa e Vale do Tejo
Rua Artilharia 1, nº 33 – 1269‑145 Lisboa
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www.ccdr‑lvt.pt
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Director executivo
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Projecto editorial, design e produção
DDLX [www.ddlx.pt]
José Teófilo Duarte [Direcção]
Eva Monteiro | Tânia Reis [Design]
Rui Cardoso [Contacto]
Cabaret Molotov
Teatro e marionetas
Colaboradores
Ana Sousa Dias
Carla Amaro
Carla Maia de Almeida
David Lopes Ramos
Eduardo Oliveira Fernandes
Fernanda Câncio
Pedro Almeida Vieira
Fotografia
Guto Ferreira
Câmara Ardente, produções fotográficas
Sábado, 08 novembro | 21h30
Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo
Sábado, 15 novembro | 21h30
Cine-Teatro, Sobral de Monte Agraço
Sábado, 22 novembro | 21h30
Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo
Sábado, 29 novembro | 21h30
Cine-Teatro São Pedro, Alcanena
Duração: 75min. s/ intervalo |Faixa etária: m/12 anos
Em Cabaret Molotov, deambulam coristas apaixonadas,
trapezistas, clowns absurdos, músicos de sete instrumentos,
homens-coelho, homens-bala, ursos ciclistas, caniches
cantores, dançarinos e bailarinas que dançam ao som de
valsas, tangos, polkas, tarantelas e velhas canções de Kurt Weil.
Terá o Cabaret Molotov existido, ou tudo não passará de um
Impressão e Acabamento
Euro-Scanner
T i r a g e m 2500 exemplares
I S S N 1646‑1835
D e p ó s t i o L e g a l 224633/05
LV T # 9 – N o v e m b r o | 2 0 0 8 | Q u a d r i m e s t r a l
lugar inventado por Vladimir, o Russo, para cenário
do seu amor à trapezista Matrioska?
LISBOA | VALE DO TEJO #9 – Novembro 2008
Ministério do Ambiente,
Ordenamento do Território
e Desenvolvimento Regional
9
NOVEMBRO | 2008
entrevista
José António Pinto Ribeiro
Ministro da Cultura
reportagem
Caldas, cidade cultural
destaque
Berlengas
Navegando para a Sustentabilidade
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José António Pinto Ribeiro Caldas, cidade cultural