LISBOA | VALE DO TEJO #9 – Novembro 2008 Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional 9 NOVEMBRO | 2008 entrevista José António Pinto Ribeiro Ministro da Cultura reportagem Caldas, cidade cultural destaque Berlengas Navegando para a Sustentabilidade Cabaret Molotov © Paulo Barata Propriedade CCDR‑LVT Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo Rua Artilharia 1, nº 33 – 1269‑145 Lisboa Tel.: 21 383 71 00 | Fax: 21 383 12 92 www.ccdr‑lvt.pt Director António Fonseca Ferreira Director executivo Carla Gomes Fo t o g r a f i a s : G u t o F e r r e i r a [ c a p a e c o n t r a c a p a ] Projecto editorial, design e produção DDLX [www.ddlx.pt] José Teófilo Duarte [Direcção] Eva Monteiro | Tânia Reis [Design] Rui Cardoso [Contacto] Cabaret Molotov Teatro e marionetas Colaboradores Ana Sousa Dias Carla Amaro Carla Maia de Almeida David Lopes Ramos Eduardo Oliveira Fernandes Fernanda Câncio Pedro Almeida Vieira Fotografia Guto Ferreira Câmara Ardente, produções fotográficas Sábado, 08 novembro | 21h30 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo Sábado, 15 novembro | 21h30 Cine-Teatro, Sobral de Monte Agraço Sábado, 22 novembro | 21h30 Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo Sábado, 29 novembro | 21h30 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Duração: 75min. s/ intervalo |Faixa etária: m/12 anos Em Cabaret Molotov, deambulam coristas apaixonadas, trapezistas, clowns absurdos, músicos de sete instrumentos, homens-coelho, homens-bala, ursos ciclistas, caniches cantores, dançarinos e bailarinas que dançam ao som de valsas, tangos, polkas, tarantelas e velhas canções de Kurt Weil. Terá o Cabaret Molotov existido, ou tudo não passará de um Impressão e Acabamento Euro-Scanner T i r a g e m 2500 exemplares I S S N 1646‑1835 D e p ó s t i o L e g a l 224633/05 LV T # 9 – N o v e m b r o | 2 0 0 8 | Q u a d r i m e s t r a l lugar inventado por Vladimir, o Russo, para cenário do seu amor à trapezista Matrioska? í n d ice Editorial Setúbal As novas oportunidades de desenvolvimento.......... 2 António Fonseca Ferreira Notícias Breves.........................................................................4 Opinião O mérito da discussão...........................................................8 Fernanda Câncio Entrevista José António Pinto Ribeiro................................................ 14 Ana Sousa Dias Reportagem Caldas, cidade cultural ......................................................22 Carla Amaro Territórios Defender e projectar definitivamente o nosso património edificado é determinante....... 32 Carla Maia de Almeida Destaque A Energia no ordenamento do território...................38 Eduardo Oliveira Fernandes Património Jardim Botânico Seja um amigo também....................................................40 Carla Maia de Almeida Destaque Berlengas Navegando para a sustentabilidade......................... 46 Pedro Almeida Vieira Roteiro Os Petiscos do fado................................................................ 52 David Lopes Ramos Agenda Cultural...................................................................56 Editorial | António Fonseca Ferreira Setúbal As novas oportunidades de desenvolvimento F oi com muita satisfação que assisti, ao fim de tantos anos, a uma conjunção de esforços sem precedentes para reflectir sobre o futuro da Península de Setúbal, que se estendeu inclusivamente ao litoral alentejano. Refiro-me à Conferência «Oportunidades de Desenvol vimento», na qual participaram perto de três centenas de pessoas, entre presidentes e representantes de municípios, empresas, ins- tituições de solidariedade social e organismos da administração central. Reuniram-se em torno de uma mesma ideia a Comissão de Coor denação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT), o Governo Civil de Setúbal, a Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), a Comissão de Coordenação e Desen volvimento Regional do Alentejo (CCDRA-A), a Associação de Muni cípios do Litoral Alentejano (AMLA), a Associação Empresarial da Região de Setúbal (AERSET), a Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS) e a Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS). A elevada representação do Governo, com o ministro das Obras Públicas a fechar os trabalhos e o secretário de Estado do Ordena mento do Território a encerrá-los, é prova de que o próprio executivo está confiante no renascimento da margem Sul do Tejo. Diversos sinais têm evidenciado isso, aliás, nos últimos tempos. O lançamento do projecto Arco Ribeirinho Sul, de que tanto se falava há mais de uma década, ganhou agora um impulso deci sivo para revitalizar as áreas industriais degradadas à beira Tejo, em Almada, Seixal e Barreiro. Por toda esta região surge um novo ciclo de investimentos no turismo – no novo «turismo residencial», com preocupações inédi tas de sustentabilidade – assim como na indústria, com o reforço dos investimentos de empresas como a Autoeuropa e a Portucel. A acrescentar a estes factos, temos as novas infra-estruturas de internacionalização decididas pelo Governo – e de que Mário Lino detalhadamente deu conta na sua intervenção na Conferência – desde a maior plataforma logística do país no Poceirão (impulso indispensável para o desenvolvimento portuário) ao novo aeroporto internacional e à travessia do Tejo, com ligação à rede ibérica e europeia de alta velocidade ferroviária. A região de Setúbal tem vivido tempos difíceis. Com o desmantelamento das tradicionais indústrias pesadas – construção e reparação naval e siderurgia - deixando sequelas ambientais e económicas, e as cíclicas crises sociais. Instalou-se o cepticismo e um espírito negativo que têm de ser afastados de forma consequente. Os tempos que aí vêm auguram excelentes oportunidades de desenvolvimento. Mas estas só perdurarão, de forma sustentável, se os agentes regionais se unirem e cooperarem, no quadro de uma concertação estratégica de base territorial, transformando oportunidades em projectos, obras, riqueza e coesão social. A Região de Setúbal terá, nos próximos dez anos, o maior volume de investimentos do país, considerando territórios equivalentes. O eixo Sines/Porto de Setúbal/Plataforma Logística do Poceirão/ Estação de Alta Velocidade/Novo Aeroporto – com a lógica ligação ferroviária convencional à Linha do Norte na zona Cartaxo/ Santarém – transformar-se-á num «aglomerado» virtuoso de actividades e internacionalização. Apostámos numa visão de futuro, ao lançar este desafio aos actores da Região de Setúbal, um desafio que agora começa a concretizar-se. É com muita satisfação que acolhemos o seu entusiasmo e reunião cooperante. A CCDR-LVT apoiará todas as iniciativas e medidas que tenham por desígnio transformar os recursos deste território em progresso económico e social. ■ Os portos, em particular os de Setúbal e de Sines, revelam uma vitalidade interessante, e têm investimentos significativos em curso e programados para os próximos anos. | Novo ciclo de oportunidades Perto de três centenas de pessoas assis tiram à conferência «Oportunidades de Desenvolvimento», que decorreu em Setúbal a 19 de Setembro e contou com a participação de empresas públicas e privadas, organismos da administração central, universidades e autarquias. A sessão de abertura foi presidida pelo secretário de Estado do Ordenamento do Território e Cidades, João Ferrão. Mário Lino, ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, aproveitou a sessão de encerramento para fazer um ponto de situação sobre os investimentos que vão ter lugar nos próximos anos naquele distrito, como a rede de alta velocidade, o novo aeroporto e nova travessia do Tejo, e exortou os agentes da região a mobili zarem-se para tirarem o máximo partido das «generosas oportunidades» que aí vêm. A iniciativa, lançada pela CCDR-LVT, pre tendeu construir uma visão partilhada sobre o desenvolvimento sustentável deste território, congregando as principais entidades representativas da península de Setúbal e litoral alentejano. O objectivo foi também discutir o futuro de Setúbal Pedro Lemos Vieira NOTÍCIAS BREVES Grande Conferência em Setúbal numa perspectiva optimista, abrindo caminho a um novo ciclo, numa região que tem sido ciclicamente marcada por crises económicas e sociais. São promotores deste evento o Governo Civil de Setúbal, Associação de Municípios da Região de Setúbal (AMRS), Associação de Municípios do Litoral Alentejano (AMLA), Associação Empresarial da Região de Setúbal (AERSET), Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS) e Associação das Empresas de Construção e Obras Públicas (AECOPS). A organização esteve a cargo do Sem Mais Jornal/Sado 2000. O programa prolongou-se por todo o dia, na Estalagem do Sado, tendo focado as áreas do Turismo, Economia do Mar e Zonas Ribeirinhas, Indústria e Grandes Infra ‑Estruturas. O evento contou com a par ticipação de entidades como o instituto Turismo de Portugal e a Estrutura de Missão para os Assuntos do Mar, para além da participação de empresas como a Portucel, a Autoeuropa e a LOGZ – que tem a seu cargo a Plafatorma Logística do Poceirão. ■ Pode consultar as comunicações da conferência em: www.ccdr-lvt.pt. Arco Ribeirinho Sul vai ser requalificado António Fonseca Ferreira, presidente da CCDR-LVT, foi nomeado para coordenar o grupo de trabalho do Projecto Arco Ribeirinho Sul, que visa a requalificação urbanística de importantes áreas da margem sul do estuário do Tejo e contribuir para a valorização e competitividade da Área Metropolitana de Lisboa. A resolução | do Conselho de Ministros que aprova o plano foi publicada a 12 de Setembro. O grupo de trabalho terá por missão elaborar, no prazo de 90 dias, uma proposta de Plano Estratégico, em estreita articulação com as autarquias envolvidas e com as empresas dos terrenos. Com este projecto pretende-se desenvolver de forma integrada um vasto território, designadamente cerca de 55 hectares na Margueira, concelho de Almada, cerca de 536 hectares na Siderurgia Nacional, concelho do Seixal, e cerca de 290 hectares nos terrenos da Quimiparque, no concelho do Barreiro. ■ Open Days 2008 Lisboa lidera regiões marítimas inovadoras A Região de Lisboa e Vale do Tejo liderou pela segunda vez este ano um consórcio de regiões no âmbito dos OPEN DAYS – Semana Europeia das Regiões e dos Municípios, que decorreram de 6 a 9 de Outubro em Bruxelas. O tema escolhido pelo conglomerado liderado pela CCDR-LVT – Water-based Competitiveness Network (WBCnet) enquadra-se na temática «Regiões inovadoras: Promoção da inves tigação, desenvolvimento tecnológico e inovação», tendo um maior enfoque em torno da Economia Marítima. Regiões, o evento contou este ano com o apoio da Presidência francesa da UE e do Parlamento Europeu, assim como com a presença de diversas personalidades, entre elas o Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, e o Primeiro-Ministro francês, François Fillon. A CCDR-LVT organizou dois seminários em Bruxelas. O primeiro, intitulado «Trends in Maritime Transport Innovation: How can the Regions take advantage?», teve lugar a 7 de Outubro, na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia (REPER). O segundo seminário, «Innovative Maritime Regions: Which bets for tomorrow?» realizou-se também na REPER, no dia 9 de Outubro. A CCDR-LVT também esteve presente no Café dos Investidores - plataforma de contacto entre cidades e regiões, empresas, sector financeiro, grupos de interesse e instituições comunitárias, integrada na Aldeia Temática «Inovação e Investigação» - onde recebeu a visita da Comissária Europeia para a Política Regional, Danuta Hübner (na foto). Por fim, e ainda no âmbito dos Open Days, a CCDR-LVT organizará um evento local dedicado aos media, subordinado ao tema «A Região de Lisboa e Vale do Tejo e o Mar: Projectos de desenvolvimento regional e oportunidades de negócio». O conglomerado liderado por Lisboa e Vale do Tejo deste ano conta com a participação, para além de Lisboa e Vale do Tejo, de oito regiões costeiras europeias e portuárias: Andaluzia (Espanha), Sicília (Itália), Canárias (Espanha), Zelândia (Holanda), Açores (Portugal), Macedónia Oriental e Trácia (Grécia), Ática (Grécia) e Heraklion (Grécia). O mote deste ano para os Open Days foi «Regions and Cities in a Challenging World». Organizados pela Comissão Europeia (DG REGIO) e pelo Comité das Participaram 216 regiões e 32 países, um número recorde. No âmbito deste mega ‑evento, realizaram-se cerca de 120 sessões em Bruxelas (workshops, seminários e debates), contando o Café dos Investidores com cerca de 120 expositores. Os eventos locais serão cerca de duas centenas. ■ Mais informações em: http://ec.europa.eu/ regional_policy/conferences/od2008/index.cfm | Conferências internacionais O Futuro do Turismo e o Fim do Petróleo James Howard Kunstler, que se tornou mundialmente conhecido com o livro «The Geography of Nowhere: The Rise and Decline of America’s Man-made Landscape» (1993), autor do recentemente editado em Portugal «Fim do Petróleo» («Long Emergency») esteve em Lisboa no dia 16 de Outubro para uma conferência no âmbito do ciclo «Desenvolvimento Regional em Contexto de Globalização», organizado pela CCDR-LVT e pela Ordem dos Economistas. Para Kunstler, o fim da energia petrolífera barata, a base do modelo das sociedades urbanas industrializadas em que vivemos, irá obrigar a mudanças de carácter político, social, industrial, comercial e económico. Teremos de nos adaptar a novos tempos, onde a energia já não será acessível como hoje. A inevitabilidade do fim das sociedades industrializadas, sustentadas pela energia barata do petróleo, obrigará as pessoas a deixar as cidades para viverem em pequenas comunidades agrárias localizadas? Kunstler acredita que sim. «Energia e Urbanismo» é o tema da confe rência em que o autor norte-americano reflecte sobre as consequências da ruptura que se avizinha e sobre a forma como deveremos adaptar-nos às novas circunstâncias. A sua escrita novelística e as suas capacidades enquanto comunicador ajudaram a ganhar o destaque público que actualmente tem, tendo dado palestras no Google, nas universidades de Yale e Harvard e no MIT, entre outros. O próprio descreve as suas palestras como «stand-up comedy com alguns momentos negros». O ciclo internacional de conferências culmina com um tema estratégico para a região e para o país: o Turismo. A convidada é Muriel Muirden, consultora internacionalmente reconhecida e managing director da ERA - Economics Research Associates para a Europa, África e Médio Oriente, que estará no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian no dia 4 de Novembro, pelas 9h30. Luís Patrão, presidente do instituto Turismo de Portugal, será o moderador desta conferência. Muriel Muirden especializou-se no planeamento estratégico de resorts e virá a Lisboa para falar do papel que o turismo residencial terá no desenvolvimento regional e da economia nacional, assim como das novas tendências deste tipo de turismo a nível internacional. A ERA é líder mundial na consultoria de lazer e entretenimento na Europa, trabalhando para organizações públicas e empresas privadas, como a Marks and Spencer e a Aga Khan Development Network. Muriel Muirden estará na Gulbenkian a 4 de Novembro O ciclo conta com o patrocínio da ANA, REN, BES, Galp Energia, Turismo de Portugal e Grupo Pluripar, para além do apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Companhia das Lezírias, Fundação Luso ‑Americana, Associação Industrial Portuguesa, Bom Sucesso, Associação de Turismo de Lisboa, Hotel Sheraton e Quintas de Óbidos. A conferência de James Kunstler conta também com o apoio da Fundação Vox Populi. Poderá encontrar mais informações, comunicações e imagens em. www.ccdr-lvt.pt. ■ Serviços da CCDR-LVT pagos pelo Multibanco Já é possível fazer o pagamento de qualquer serviço da CCDR-LVT através do Multibanco. Lisboa e Vale do Tejo é a primeira CCDR a avançar com este sistema, uma alternativa aos pagamentos presenciais ou por cheque. O novo sistema de pagamentos, previsto no QUAR (Quadro de Avaliação e Respon sabilização dos Serviços), está disponível desde 25 de Agosto. Com as guias de depósito é emitida uma referência que | permite o pagamento do serviço em qualquer caixa Multibanco do país. Pode ser efectuado desta forma o pagamento de pareceres ou de licenças emitidas pela CCDR-LVT, de acordo com as competências previstas na legislação. O novo sistema de pagamento abrange todos os serviços, quer sejam prestados pelos serviços centrais em Lisboa ou pelas delegações sub-regionais. Esta medida visa melhorar a relação com o cidadão/cliente – sejam empresas, particulares, câmaras municipais ou outros organismos – e insere-se no projecto de modernização dos serviços da CCDR-LVT. O objectivo, consagrado no QUAR da CCDR‑LVT para este ano, foi mesmo superado, face aos prazos inicialmente previstos. ■ Gentilmente cedida pela Câmara de Lisboa CCDR-LVT e Câmara de Lisboa acordam medidas para qualidade do ar A CCDR-LVT e a Câmara de Lisboa celebraram a 16 de Setembro um protocolo que visa a adopção de medidas de melhoria da qualidade do ar no município, em particular nas principais artérias da cidade. Este é o primeiro protocolo a ser celebrado com uma autarquia, na sequência da aprovação do Plano de Melhoria da Qualidade do Ar na Região de Lisboa e Vale do Tejo, em Agosto. O protocolo prevê, entre outras medidas, a redução do tráfego automóvel de atraves samento da cidade, assim como o estacionamento, para além da redução e renovação da frota automóvel municipal e a promoção do uso dos transportes públicos. O tráfego automóvel é a principal fonte de emissão de diversos poluentes com impactos no ambiente e na saúde pública, entre eles as partículas inaláveis (PM10), onde se têm verificado as maiores ultra- passagens face aos valores limite previstos pela legislação nacional e comunitária. No caso da Avenida da Liberdade, considerada uma das mais poluídas da Europa, só em 2007 houve 149 excedências ao valor-limite diário para as partículas, quando o máximo pemitido é de 35 ao longo de um ano. ■ Vice-presidente da CCDR-LVT há três anos Fernanda do Carmo na frente ribeirinha Fernanda do Carmo cessou funções como vice-presidente da CCDR-LVT, tendo assumido na passada semana o cargo de vogal de administração da Sociedade de Reabili tação Urbana Frente Tejo, SA. Na CCDR-LVT, Fernanda do Carmo era vice-presidente para as áreas do Ambiente e Ordenamento do Território desde Setembro de 2005. Ao longo do seu percurso profissional passou pelos Ministérios da Presidência (2005, adjunta do ministro) e da Administração Interna (integrada no Gabinete do Comandante-Geral da Guarda Nacional Republicana, 2003-2005). Foi igualmente directora de Serviços Internos do Centro para o Planeamento e Coordenação do Instituto Geográfico Português (2002-2003), assessora do secretário de Estado do Ordenamento do Território (1999-2002) e técnica superior da CCDR-LVT e da Direcção‑Geral do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano. ■ mais 30 contratos assinados No âmbito do Programa Operacional Regional de Lisboa / QREN foram assinados no passado dia 30 de Setembro contratos de financiamento relativos a quatro concursos. A cerimónia decorreu na Fundação Cidade de Lisboa, com a presença do ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional, Francisco Nunes Correia. Estiveram ainda presentes o secretário de Estado do Ordenamento do Território e Cidades, João Ferrão, o secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Rui Nuno Baleiras, o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, e o secretário de Estado da Protecção Civil, José Miguel Medeiros, além do presidente da CCDR-LVT, António Fonseca Ferreira, e do presidente da Junta Metropo litana de Lisboa, Carlos Humberto Carvalho. Foram assinados com as entidades beneficiárias, na sua maior parte municípios, 30 contratos nas tipologias de: Requalificação da Rede Escolar do 1º. Ciclo do Ensino Básico e da Educação Pré-Escolar (14 Contratos); Parcerias para a Regeneração Urbana – Frentes Ribeirinhas e Marítimas (6 Contra tos); Prevenção e Gestão de Riscos Naturais e Tecnológicos – Acções Imateriais (7 Contratos) e Mobilidade Territorial (3 Contratos). O Programa Operacional Regional de Lisboa conta já com 30 concursos abertos e 23 com decisão, que correspondem a 185 candidaturas aprovadas. Dos 307 milhões de euros programados até 2013, 111 milhões já foram submetidos a concurso, estando mais de 60 milhões atribuídos. Como sublinhou o Ministro do Ambiente, a região de Lisboa encontra-se nos 20 por cento de execução do seu programa operacional, acima da média nacional de 16 por cento. ■ | O mérito da discussão A denominação tem mudado. O estereótipo não. Aquilo a que se dá agora o nome de «bairros críticos», antes «problemáticos» (como quem diz «perigosos») ou «degradados» (como quem diz pobres) situa-se no pensar colectivo como uma espécie de nódoa na paisagem, uma fronteira intransponível na cidade, lá onde situamos isso a que chamamos «subúrbios», não por definição geográfica mas por deliberação de distância. Ocorrências recentes trouxeram esses lugares de fora para dentro do olhar do público – para dentro dos muros da cidade. Para o meio de nós. Opinião | Fernanda Câncio | Fotografia | CA, produções fotográficas E stávamos em Julho quando as imagens de meia dúzia de homens aos tiros numa rua de um bairro social catapultava de novo o tema dos bairros «críticos» para a actualidade política e jornalística. Descobriu‑se então, de novo como sempre se descobrem as coisas quando se volta a falar delas, uma realidade feita de milhares de pessoas – alguém saberá dizer quantas? – a viver em bairros de realojamento, milhares de rendas em atraso e de fogos a precisar de obras, milhares de beneficiários do rendimento social de inserção que se suspeita viverem de expedientes e «não quererem trabalhar». Descobriu-se até que isso da pobreza e da destituição económica – únicos motivos pelos quais o senso comum admite a concessão de uma habitação social – pode compaginar-se com playstations e plasmas e casas que por dentro são, mais coisa menos coisa, como as de toda a gente «remediada», e com uma atitude reivindicativa e até altiva que no imaginário colectivo não condiz com a ideia de pobrezinhos. Depois, em Agosto, veio a «onda de criminalidade» . E vieram também as grandes operações policiais nos bairros. Imagens nocturnas de pessoas desgrenhadas e crianças ensonadas à mistura com fardas negras, cães e armas, rusgas gigantes para mostrar ao país que a polícia não dorme nem deixa dormir «os maus», «os outros». Nestas coisas da criminalidade, é fundamental haver «outros»: pessoas e territórios, lugares exteriores onde se vai como ao estrangeiro, como a território inimigo, em incursões punitivas e/ou preventivas que mesmo que não surtam qualquer efeito na criminalidade visam reconfortar-nos – a nós, que não somos «eles». No meio de tudo isto, discutiu-se, em jornais, talk-shows e colunas inflamadas, o critério, o motivo e o sentido dos programas de apoio social, das prestações e dos realojamentos. Enquanto uns retomavam, em diferentes declinações, a fórmula do Paulo Portas de 2002 («os ciganos do rendimento mínimo») e defendiam qualquer coisa como «abandonar os malandros à sua sorte», outros, como o historiador Rui Ramos, falavam das experiências feitas pelos cientistas sociais «de esquerda» e seu braço armado, o Estado, com «os pobres». Outros, claro, como o também historiador Rui Tavares, lembravam que isso de deixar os pobres à sua sorte já fora tentado – e não dera grande resultado. Quando a discussão estava a ficar interessante, porém, parou. Porque apareceu outra coisa mais excitante para discutir. Ou porque era chegada a altura de, mais ou menos assente o que estava mal, era preciso discutir como fazer melhor. É pena. A discussão devia continuar. E devia trazer à colação um pouco menos de impressões e um pouco mais de realidade vertida em dados mensuráveis. Devia, por exemplo, comparar as conquistas na luta contra a pobreza nos diversos Estados membros da UE e concluir que nos países onde o nível de pobreza está abaixo da média europeia (que é de 16%) isso sucede devido a prestações sociais eficazes. Que esses países que, como a Irlanda, são apresen tados sistematicamente como exemplos económicos, investem largamente na melhoria de vida das camadas menos abonadas da população e aplicam há décadas uma política de habitação social e até de rendas controladas, política essa que lhes permite evidenciar um nível de pobreza superior ao de Portugal antes das prestações e inferior após as prestações – ou seja, as prestações | fazem toda a diferença. Que o problema estará não na existência de «ajudas» mas provavelmente na sua formulação, gestão e fiscalização. Que a erradicação das favelas é obrigatória em todos os países que querem merecer o epíteto de civilizados, e que nessa matéria, como de resto no que à pobreza diz respeito, Portugal fez progressos espantosos nos últimos vinte anos. A discussão devia prosseguir até à tentativa de perceber o que corre mal nos realojamentos. Até perceber se era possível correr realmente bem. Se a ideia de caridade, mesmo a caridade disseminada e sem rosto de um país inteiro, de institutos e autarquias, não transporta sempre consigo o gérmen de um ressentimento qualquer, por mais contraditório e até chocante que tal pareça. E que decerto continuar a estereotipar os bairros sociais e a sua população não é exactamente nem inteligente nem meritório – e muito menos eficaz se a ideia é integrar e pacificar. O problema da descontrução de um estereótipo é que o resultado final tende a ser, justamente, o reforço desse mesmo estereótipo. Ou seja, como questionar e interrogar a ideia de bairros críticos sem a reificar? Impossível: qualquer discurso sobre o tema caminha neste paradoxo. Até porque, para ter esta conversa, é preciso admitir que há um problema. Que nestes lugares, de resto tão diversos entre si em tantos aspectos, há algo de comum. E que esse algo necessita de reflexão, de esforço, de soluções. Nenhuma forma pois de fugir a isto: esse nome que queremos desconstruir, esse estereótipo que queremos interrogar e perspectivar correspondem a algo de real. A qualquer coisa de crítico. 10 | Nenhuma forma também de evitar que esse gesto, essa atitude, a de isolar estes bairros como um problema a necessitar de solução, os afaste de nós no preciso momento em que deles nos aproximamos. Fazer de algo um objecto tem essa consequência: encontrar estranheza mesmo no que nos é comum. O que será pois um bairro crítico? E porque é que tendemos a identificar os bairros críticos com os subúrbios, e vice-versa? No livro de reportagem que escrevi sobre a noção (e a realidade) de subúrbio (Cidades sem nome/crónicas da vida suburbana – CCDR-LVT 2005, Tinta da China 2008), constatei que ninguém ou quase ninguém está pronto a assumir que vive num subúrbio. «Subúrbios são os sítios onde não vivo», era uma espécie de mote do livro. Ninguém quer viver em sítios maus. O lugar onde se vive é o lugar que se escolheu, mal ou bem. Dizer mal é assumir um falhanço, um erro que num país em que a mobilidade habitacional é excepcionalmente reduzida corresponderia a assumir um falhanço sem remédio e portanto um desespero irredimível. Parece pois claro que a ideia de subúrbio, classicamente a querer dizer um lugar fora das muralhas (orbs) da cidade, portanto periférico e de certo modo inferior na sua distância ao centro, não é hoje intrinsecamente má ou boa, mesmo se mantém a ideia de uma ausência de qualificação (qualificada seria a cidade, em teoria). No livro citado escolhi de resto quatro exemplos o mais distintos possível de subúrbios – o subúrbio clássico da Brandoa, uma zona rural que nos anos 60 foi loteada e sujeita a construção clandestina em altura, o núcleo urbano consolidado suburbanizado pela proximidade de uma grande cidade (Vila Franca de Xira), o condomínio de propagandeado luxo a meia hora da capital (Belas Clube de Campo) e o subúrbio mental, social e económico do Bairro da Bela Vista (Setúbal). Mas as únicas pessoas que encontrei, no âmbito desta e de outras investigações, a assumir viverem em «sítios maus» foram os habitantes dos chamados bairros de realojamento – esses bairros que, mesmo se colocados no centro de uma cidade (é aliás o caso do Bairro da Bela Vista), são sempre encarados como «subúrbios» sociais e mentais onde e em relação aos quais se constrói uma distância fantasmática. É como se os habitantes desses sítios se dessem licença para rejeitar o lugar onde vivem e portanto a sua vida, num processo de auto-condenação e de resignação que se dá a ver por exemplo na destruição de equipamentos, no desmazelo das casas que se vão degradando sem que haja por parte dos residentes, de um modo geral (há muitas excepções, claro), um gesto para o evitar. Há uma hipótese de motivo mais ou menos evidente para isso: os bairros de realojamento são sítios para onde se foi transportado por uma lógica exterior, a mando de, por ordem de. As pessoas podiam naturalmente recusar – mas isso implicaria perderem a «barraca» sem nada em troca, recusarem uma casa barata/«dada» pela qual haviam esperado muitas vezes anos a fio como pelo paraíso. E que o desgosto que muitas delas viriam a sentir fosse prévio: na maioria dos casos as pessoas receberam a casa nova como uma coisa boa, uma nova oportunidade. Uma vida nova – precisamente o que era suposto ser. Que foi, pois, que sucedeu para sobrevir o desgosto e a revolta? A pergunta tem uma resposta ainda mais difícil por ser óbvio que, apesar do que os seus habitantes sustentam, os bairros de realojamento não são, nem do ponto de vista urbanístico nem dos equipamentos, piores que tantos outros «empreendimentos» erguidos nas últimas três/quatro décadas nos arredores de Lisboa e Porto, de arquitecturas quase sempre insalubres e «equipamentos» quase sempre reduzidos ou inexistentes. E sem aquilo a que a socióloga Maria João Freitas, da administração do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, chama a «cosedura territorial com o existente» – a tal conexão com o território urbano consolidado, qualificado, prestigiado. Porque será então que quando se fala em «degradação urbana» se pensa nos chamados bairros de realojamento ou de «habitação social»? Se, como parece óbvio e Freitas faz questão de frisar, não existe no País, devido à proverbial deficiência de ordenamento e planeamento urbanístico, «grande diferença entre o desenho e a localização dos bairros sociais e os dos outros», porque será que a essa má imagem, exterior e interior, se colou só aos bairros ditos sociais, num processo de estigmatização que, frisa a socióloga, «lhes reforça a marginalização»? Autora de uma tese de doutoramento sobre as questões do realojamento e da integração, elaborada na perspectiva «de que era preciso aprender com o que se passara com as políticas francesas dos anos 60 e 70, para tentar não repetir os mesmos erros», Freitas, como as também sociólogas Isabel Guerra (do Centro de Estudos Territoriais do Instituto Superior de Ciências de Trabalho e Empresas) e Dulce Moura (hoje adjunta do secretário de Estado do Ordenamento), constatou que nos anos 90, com o PER (Programa Especial de Realojamento), Portugal copiou fórmulas | 11 que se haviam já revelado penosamente erradas. A saber, «uma aposta na densificação e na homogeneidade», essa ideia que Isabel Guerra tão bem combateu na frase «as pessoas não são coisas que se metam em gavetas» quando descreve o acto de agarrar na população de um bairro de barracas e transferi-la para um bairro de prédios. Resultado: a «promoção social» almejada não se verifica, o estigma que pesava sobre o primeiro bairro transfere-se para o segundo. Um estigma que, como o antropólogo José Cavaleiro Rodrigues escreve em As lógicas sociais dos processos de realojamento (revista Comunidades e Territórios, 2003), passa muito pela avaliação dos próprios. Sentindo-se «roubados» da nova identidade social sonhada, desenvolvem um «processo acusatório» em relação aos vizinhos. A «sociabilidade e a solidariedade iniciais do bairro de barracas» são substituídas pela «generalização de formas de interacção negativas». É o «gosto pela casa e o desgosto pelo bairro» (mais uma síntese feliz de Guerra), que se dá a ver na destruição, pelos mais jovens, de tudo o que possa ser destruído nesse lugar maldito, das caixas de correio aos candeeiros e aos parques infantis. Uma auto-mutilação que reforça o estigma, num paradoxo que Maria João Freitas lê como uma forma de comunicar «abandono e desagrado». Como quem diz, olhem para o nojo de bairro em que vivemos. Olhem para o nojo que nos deram. Como é que podemos querer viver aqui? Como poderemos ser aqui felizes? «Diz-se que ‘destroem aquilo que é seu’», conclui Freitas. «Mas se calhar não sentem aquilo como seu». A casa nova, de que se reclamou incessantemente o direito adquirido, não é afinal a «sua» casa, mas aquela que uma sociedade sem rosto entrega como penhor de uma qualquer «culpa». Uma esmola que ao invés de colmatar a exclusão a confirma e se transforma numa desculpa, em mais um factor adverso, mais um motivo para desistir. O problema da descontrução de um estereótipo é que o resultado final tende a ser, justamente, o reforço desse mesmo estereótipo. Ou seja, como questionar e interrogar a ideia de bairros críticos sem a reificar? Impossível: qualquer discurso sobre o tema caminha neste paradoxo. Até porque, para ter esta conversa, é preciso admitir que há um problema. Que nestes lugares, de resto tão diversos entre si em tantos aspectos, há algo de comum. E que esse algo necessita de reflexão, de esforço, de soluções. 12 | Trata-se, afinal, de um processo muito simples e compreensível: chama-se desilusão. Uma desilusão que reforça os sentimentos pelo bairro abandonado, o sítio de onde se foi expulso. Tem de haver sempre um paraíso – e se enquanto estavam no bairro antigo os habitantes dos bairros sociais sonhavam com a casa nova, na casa nova (agora menos nova) sonham com o bairro que construíram com as suas mãos, onde não tinham luz nem água corrente nem banheira nem esgotos mas onde se lembram de ter sido felizes. É significativo que nos 10 documentários que, com Abílio Leitão, fiz para a RTP2 (A vida normalmente, exibidos em Setembro/ Outubro de 2008) e que, precisamente, tinham como objectivo programático um olhar interior e desejavelmente desconstrutor de estereótipos dos bairros ditos críticos; o único bairro em que os habitantes afirmaram um apego visceral é o da Cova da Moura, um bairro auto-construído que tem objectivamente, tanto do ponto de vista da tipologia das casas como dos arruamentos, muitos menos condições que a generalidade dos bairros sociais. Estranho, isto. Amargo, até. O bem que se quis fazer – porque foi por bem que se destruíram os ditos bairros de barracas e se investiu em novos alojamentos, a estrear – resultou assim. Talvez, afinal, as pessoas tenham necessidade de sentir que o que têm se deve a mérito seu, a trabalho seu, a escolha sua. Talvez não se possa deci dir-lhes a vida imperialmente, por melhores que sejam as intenções. Talvez tenhamos de pensar isto tudo melhor. Mais e melhor. Todos, incluindo os que se comprazem nas desculpas e os que apostam no abandono. Porque não há problemas que se resolvam colocando-os fora da vista – não há sequer isso, fora da vista. Estamos todos na mesma cidade. ■ | 13 Entrevista | Ana Sousa Dias Fotografia | CA, produções fotográficas 14 | José António Pinto Ribeiro Ministro da Cultura O gabinete está impecável, algumas pilhas de papéis sobre a mesa de trabalho, livros alinhados nas estantes. Mas o ministro diz que não, que a desarrumação é imensa e inaceitável. E é assim mesmo que José António Pinto Ribeiro se revela na entrevista: com as ideias arrumadas e claras, as pontas soltas afinal bem presas. «Fazer mais e melhor, com menos meios» – a frase do dia 30 de Janeiro último, quando tomou posse – mantém-se inalterada mas acrescenta-lhe uma explicação. Quer optimizar os meios disponíveis, sem desperdício e com imaginação e, sobretudo, organizar parcerias, em envolventes redes de cooperação a todos os níveis. Com os municípios, juntando esforços e orçamentos; com os outros ministérios, a partir de propostas muito concretas; com os países lusófonos, na defesa da Língua; com a União Europeia, o Banco Mundial, todos os parceiros possíveis. Trabalhar com, eis a questão. | 15 Recentemente reuniu-se com representantes da Associação Nacional de Municípios Portugueses e à saída reconheceu que o Ministério da Cultura deve 10 a 14 milhões de euros às autarquias. Vai pagar essas dívidas agora? A dívida foi sendo acumulada nos últimos dez anos, por ministros que me precederam neste cargo. Não há um cêntimo de dívida que tenha sido contraído por mim. Pago todos os compromissos por mim assumidos e não sei viver de outra maneira. Muitas obras foram realizadas a contar com contribuições nacionais, no âmbito do Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC). Por exemplo, as bibliotecas municipais. Actualmente, temos 169 bibliotecas municipais que representam muitos milhões de euros. É uma rede essencial, uma iniciativa exemplar de Teresa Patrício Gouveia [secretária de Estado da Cultura, 1985/89]. A Gulbenkian cessou as bibliotecas itinerantes mas entregou o acervo de livros para continuar a ser usado. As bibliotecas iam às aldeias, tinham um itinerário que percorriam. As bibliotecas municipais existem na sede do concelho e é preciso organizar um esquema para fazer irradiar a partir daí, e muitas autarquias não o têm. Algumas têm «bibliobus», carrinhas que fazem aquele percurso, agora, já só em torno da sede do concelho, mas há muitas que não têm. Há mesmo algumas que resolvem isso de uma forma curiosa – há funcionários que vivem nas aldeias e quando vão para casa ao fim do dia levam livros e depois trazem-nos. Mas isso está ainda muito dependente de vontades individuais. É preciso continuar a investir? É preciso haver mais investimento, são 308 concelhos e é preciso fazer o que falta, onde seja necessário. Tentamos recuperar património de bibliotecas mas há sítios onde essa renovação não é possível. Também houve investimentos em arquivos distritais e na recuperação de cineteatros. Muitas destas obras foram feitas com a contribuição do Programa 16 | Operacional da Cultura (POC), no Quadro Comunitário de Apoio I, II e III. Temos dívidas do II e do III que estão por saldar. É isso que explica essas dívidas. O dinheiro do POC não chegou ao Ministério da Cultura? É dinheiro que não foi disponibilizado pelo Ministério da Cultura para esse efeito. Se foi disponibilizado para outros fins, desconheço. Julgo que muitas vezes foi mal orçamentado, mal gerido, mal executado, perdeu-se e não foi transferido para as autarquias. Não sei exactamente o regime de cada uma das dívidas e por que é que elas não foram pagas. Muitas vezes, são dívidas acordadas politicamente, contratualmente, institucionalmente, mas que não foram adequadamente orçamentadas. Portanto, há uma dívida política, uma dívida moral e uma dívida jurídica que, muitas vezes, não coincidem. Quando a ministra que me antecede, Isabel Pires de Lima, diz na rádio que vai disponibilizar 450 mil euros para fazer as obras na Sé de Silves, ela assume um compromisso político. Mas quem está do lado de lá a ouvir considera que ela assumiu um compromisso jurídico. Que não chegou a ser concretizado? Não está orçamentado, não há dinheiro, eu não posso pagar. Apareceram-lhe muitos casos como esse? Apareceram. Os valores não orçamentados estão incluídos na dívida às autarquias? Não têm nada a ver, não é dívida nenhuma. Dívida pressupõe que há um regime contratual definido, que há um quadro legal de contracção de despesa. Eles incorrem na despesa deles, que vai ser parcialmente financiada por nós, mas está tudo feito como deve ser. Logo que tenha dinheiro, pago. Há duas coisas que para mim são claras: não gastar o que não tenho e não fugir à responsabilidade do que existe. É preciso fazer contas ao milímetro, rigorosas. O apuramento está feito, ao cêntimo. Isso vai ser pago? Logo que tenha dinheiro, pago. Há duas coisas que para mim são claras: não gastar o que não tenho e não fugir à responsabilidade do que existe. É preciso fazer contas ao milímetro, rigorosas. O apuramento está feito, ao cêntimo. Há projectos em conjunto com os municípios, como foi anunciado nessa reunião? Fui reunir com a Associação Nacional de Municípios, que não levantou o problema das dívidas. Dois presidentes de câmara disseram – «há umas dívidas, era bom pensar como é que isso se liquida». Respondi: «Vamos tratar disso logo que seja possível». O tempo da conversa sobre as dívidas foi só este. Estive lá duas horas e meia. Pelas notícias que li, parecia que esse tinha sido o tema da reunião. À saída, uma jornalista perguntou unicamente isso. E houve imenso esforço, quer do presidente da ANMP quer da minha parte, para esclarecer que ninguém estava a omitir a dívida, que todos estávamos preocupados com o assunto. Mas que não fora esse o objecto da reunião. E o objecto da reunião era? O objecto da reunião era fazer uma coisa que me interessa especialmente e para a qual os municípios estão totalmente motivados: trabalhar em coordenação, em rede, em parceria, para ver se conseguimos ser mais eficazes. Trabalhando em rede, fazemos as coisas com mais economia, há imensa redundância que se pode evitar. Na lógica de uma frase que disse e que me perseguirá até ao fim da vida, fazer mais e melhor com menos. Foi isso que lhes fui dizer. O conjunto dos municípios portugueses tem um orçamento que será seis ou sete vezes o meu. O que significa que há dinheiro para fazer cultura, não é muito mas podemos utilizá-lo de uma forma mais racional, mais competente, de modo a que o resultado seja, do ponto de vista cultural, muito maior. Falei com eles em torno de um conjunto de programas, desde a itinerância de companhias de teatro, à forma de fazer cinema, à garantia de conteúdos. Temos imensos cineteatros recuperados, no país todo. Hoje em dia não se pode dizer que a cultura se limita ao Porto e a Lisboa? Nunca se limitou. Estamos a criar uma rede de equipamentos. O betão e o restauro foram muito importantes, mas agora é preciso garantir ocupação, utilidade, programação. Falámos sobre um programa que neste momento está já a ser feito, juntamente com a Fundação de Serralves e o Centro de Estudos e Formação Autárquica de Coimbra. É um curso de formação de programadores culturais para autarcas e não autarcas, para a programação cultural ser feita localmente, em função das necessidades locais. Não é possível fazer programação cultural com um mínimo de adequação e aferição se for feita a partir de Lisboa. Aí cabe a experiência do Artemrede? É boa, é para manter. Mas precisamos de criar programação cultural local. O que significa qualificação das pessoas, mas também uma adequação do programa às consciências possíveis dos públicos locais. Não é possível mandarmos uma grande peça de teatro, de uma grande companhia, a Lamego, que tem um cineteatro restaurado lindíssimo, e depois aparecerem 30 ou 40 pessoas, incluindo 25 bilhetes oferecidos. | 17 A experiência do Teatro Viriato de Viseu pode ser reproduzida noutros sítios? Pode ser reproduzida ou o próprio Teatro Viriato pode ter uma itinerância muito mais contaminante. É preciso definir estratégias, saber como se faz um festival de cinema, de música, uma bienal. Muitas vezes essas coisas existem mas não têm comunicação. Nem se sabe, nem eles sabem mantê-las, nem têm a capacidade de ser reproduzidas de ano para ano e portanto aquilo faz-se uma vez e morreu. Nasce, acontece, acaba, três anos depois a mesma coisa, e não fica rasto. A eficácia cultural é menor. E a ANMP ficou interessada? um conjunto de coisas que terão de ser feitas em rede ou centralmente. Por exemplo, eu gostaria de que as lojas dos museus tivessem uma única marca e um modelo, uma espécie de franchising com produtos de grande qualidade e uma gestão qualificada. E o mesmo para os cafés e restaurantes associados, de modo a que fossem sítios onde as pessoas fossem com prazer. É preciso ver como se faz cinema localmente. Apesar de haver grandes resistências a isso, com os meios que nós temos, podemos tratar o cinema como obras mecanicamente reprodutíveis, como dizia o [Walter] Benjamin. Fazemos cópias digitais? A cópia digital não é igual, porque a cor não fica exactamente igual. E depois a projecção… Fazemos ou não fazemos? Eu quero instalar equipamentos para fazer projecção digital nos cineteatros, mas para isso tenho de falar com as autarquias para que façam a compra desses equipamentos. A máquina tem tendência a perder vapor no dia-a-dia. É preciso ir lentamente tapando as fugas. Sobretudo, é preciso meter vapor na máquina, todos os dias ir ver se está feito. O Gabinete não vai substituir-se às direcções‑gerais, aos ministérios, aos serviços, aos institutos, às fundações. Está aqui apenas para ajudar a pensar, a desenhar, mas depois quem faz são eles. Está de acordo, está interessada, temos pessoas que vão trabalhar em conjunto, que vão fazer esse levantamento. Quem é que faz a gestão dos museus? Eu quero que eles possam fazer gestão dos museus, que se qualifiquem para isso mas que consigam envolver as populações nessa gestão. Mas a gestão não depende do Instituto dos Museus e da Conservação? É, nos museus que são do Instituto. Mas há museus municipais, museus particulares, há uma rede que inclui museus de vária natureza quanto à titularidade. É preciso ver se pode ser feita uma gestão de proximidade. É uma espécie de princípio de subsidiariedade, se não forem capazes, nós faremos, mas em princípio eles são mais capazes e mais competentes para fazê-lo. Haverá 18 | De uma forma unificada? Unificada, com o mesmo tipo de equipamento, para ser enviado electronicamente e projectado. Se isto for possível, não vejo por que não o havemos de fazer. Mas isto implica coordenação. Há trabalho que, se for feito em rede, pode ter muito maior eficácia. E não é uma rede só de municípios. Há redes locais, em função de um conjunto de instituições, em função de uma proximidade de interesses, às vezes puramente decorrente de um fluxo de tráfego. Talvez fosse possível fazer, por exemplo, um itinerário cultural que fosse Lisboa, Palmela, Setúbal, Montemor-o-Novo, Évora, Estremoz, Elvas. Ou um arco a partir de Lisboa, para Sintra, Mafra, Óbidos, Caldas da Rainha, Alcobaça, Batalha, Leiria, depois o Tejo – Tomar, Vila Nova da Barquinha, Santarém. Por que não? São «soluções imaginosas», como costuma dizer? Exactamente. Sobretudo, é uma coisa que não se faz em Portugal, por causa do individualismo: se ele tem um cineteatro eu também tenho de ter, se ele tem uma rotunda, eu tenho duas, se ele tem bicos de papagaio eu tenho rebicos. Nunca percebi isto. Não fizemos a revolução Industrial, não nos habituámos a trabalhar em conjunto, não temos a noção de que o resultado final é mais do que a soma das partes, temos inveja, uma compita que não é virtuosa. E é possível fazer isso com os outros ministérios? Estou a falar do Ministério da Economia, da Educação, dos Negócios Estrangeiros, por exemplo. itinerantemente. É preciso abrir os museus ao público – às crianças, aos adultos e à Terceira Idade. Para as crianças, é preciso haver um projecto educativo. Muitos museus já têm serviços educativos. Têm, mas é preciso alargá-los. A Casa da Música, no Porto, tem 33 mil pessoas em serviço educativo – eu quero 350 mil. Quero um sistema em que possa fazer o tracejamento, fazer a avaliação da eficácia do trabalho educativo. Está a partir do princípio de que as pessoas voltam? Se não voltam, é porque não ficaram contagiadas. Podemos emitir um cartão vantajoso para quem volta. (…) se ele tem uma rotunda, eu tenho duas, se ele tem bicos de papagaio eu tenho rebicos. Nunca percebi isto. Não fizemos a revolução Industrial, não nos habituámos a trabalhar em conjunto (…) Acho que sim. Temos três áreas essenciais e uma quarta que é polí tica mas não é de conteúdo político. As de conteúdo político são Língua, Património, e Artes e Indústrias Criativas. A quarta é abrir o Ministério ao público, levá-lo aos palácios e museus, explicar o que lá está dentro. Se posso dizer assim, fazer as folhas da Cinemateca generalizadamente. Melhor ainda se houver pessoas que queiram explicar ao vivo ou contar histórias sobre aquilo. Podemos fazer parcerias com universidades da Terceira Idade, com cursos de História de Arte. Já fizemos um acordo para um curso de pós ‑graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural e Criativo, em parceria com o ISCTE. Vamos permitir e incentivar a sua frequência a oito directores nossos, que vamos escolher. Provavelmente, quase todos directores de museus, e mais dois ou três outros que aprendessem como se ensina, para depois ensinarem É possível contaminar o Ministério da Educação para que no sistema de ensino haja uma atenção maior à cultura? Estamos a conceber um projecto que é uma espécie de passaporte cultural dado à criança quando entra em qualquer estabelecimento de ensino. Tem de fazer, pelo menos, seis actividades culturais. Por exemplo, assistir a um ensaio geral, se for mais crescido já sabe comportar-se, por que não? Muitos alunos do ensino artístico não costumam ir a espectáculos nem a exposições. Parece-me que isso tem de ver com um sistema de ensino que não valoriza a parte artística. | 19 Eu acho que é ao contrário, tem de ver com a nossa iniciativa. Se ninguém fizer nada, nós continuamos no tempo do D. Afonso Henriques. Se alguém tomar a iniciativa de fazer, sugerir, talvez se faça. Mas se ninguém sugerir, ano após ano, continua-se a fazer a mesma coisa. Quanto é que isto custa? É possível fazer? Fala-se com a ministra, ela diz «é uma bela ideia». Podemos fazer coisas. O que é que fazemos com a Academia das Ciências para que haja um conjunto de académicos que resolvam as dúvidas sobre a Língua Portuguesa? Por que é que não temos isso? Os espanhóis têm, os franceses têm. Somos poucos? O que é que nos leva a não fazer? O que é? Inércia. Não ter feito. Aquilo que leva a que o dicionário da Academia tenha sido começado há 200 anos e tantos anos depois ainda não esteja acabado. Existe a letra A… Exactamente. Porquê? Por que é que não se faz a letra B? E há dinheiro para isso? Essas coisas vão-se resolver todas, porque é um problema de definição de objectivos e de ficar focado. Não se faz tudo num dia, é preciso começar já. Muita coisa pode ser feita na lógica de trabalho em rede, da parceria, de fazer com os outros. No Conselho de Ministros e nos ministros individualmente, encontrei vontade de fazer. Podiam estar cansados, depois de três anos e meio de Governo. Longe disso, e é mérito do Primeiro-Ministro. Ele incute esse espírito e todos estão disponíveis. O que é que se passa com o Museu dos Coches? Quando cheguei ao Ministério, o Museu dos Coches estava decidido. É uma resolução do Conselho de Ministros. O Ministério da Economia trata, aloca-se aquele dinheiro – é o dinheiro do Casino, está decidido que é assim. Eu não teria feito assim, teria inflectido o curso mas com o acordo dos outros ministros. Está feito, toca a andar. Mas há aqui um problema: eu tenho de deixar vago o espaço onde está o Instituto Português de Arqueologia. Onde é que eu vou arranjar o sítio? Estamos a fazer um acordo. Com o Ministério da Defesa? O acordo ainda não está feito, é confidencial, quando estiver assinado direi a toda a gente. Não é bizarro que ninguém tivesse resolvido essa questão? Acho mais bizarro que não se tenha feito a Revolução Industrial em Portugal. Isso é voltar um bocadinho atrás… E não se fez. Isto também é voltar atrás, voltar atrás só um ano… mas não se fez. A ideia foi: «é para fazer, então faça-se, tratem de arranjar uma solução». Não tenho nada a dizer sobre o passado, faço as minhas críticas para dentro. É cá comigo. Não estava feito, 20 | eu tenho de fazer. Quando é preciso desfazer é que é complicado. Quando não está feito, é só atraso. A máquina do Minstério é muito lenta? A máquina tem tendência a perder vapor no dia-a-dia. É preciso ir lentamente tapando as fugas. Sobretudo, é preciso meter vapor na máquina, todos os dias ir ver se está feito. O Gabinete não vai substituir-se às direcções-gerais, aos ministérios, aos serviços, aos institutos, às fundações. Está aqui apenas para ajudar a pensar, a desenhar, mas depois quem faz são eles. Perguntar se está feito: como é, onde é que está, quando é? Vamos calendarizar. E para isto é preciso mobilizar pessoas e pôr a casa em ordem. Isto é o mais doloroso porque é um trabalho muito grande e eu não tenho tempo. Que relação tem o Ministério com as comissões de coordenação regional? As comissões de coordenação regional não são todas iguais e são extraordinárias. São o que é possível ter de regionalização. Defendi a regionalização no referendo, há dez anos, e acho que faz todo o sentido, porque há coisas muito difíceis de coordenar, de fazer, se não houver a devida alocação de fundos para o sítio. Nem tudo são rosas na regionalização. O que eu quero dizer é que é possível fazer coisas, mesmo com o mesmo orçamento. Porquê? Porque é possível ir buscar dinheiro às parcerias, às autarquias locais, aos outros ministérios, é possível fazer coisas com o QREN, ir buscar dinheiro para fundos de capital de risco, é possível fazer parcerias com empresas e com a socie- dade civil. E isso significa que é possível gerar e gerir fundos que normalmente estão adormecidos, e que são mal utilizados. É possível ir buscar mais dinheiro para o Ministério da Cultura, mesmo que esse dinheiro não venha do Orçamento. É possível avançar para a sua ideia de centrar a política em torno da Cultura? Sente receptividade, por parte do Governo, a essa ideia? Eu acho que é possível. Mais do que isso, acho que é necessário. Isso passa pela sensibilidade do Governo mas sobretudo por uma sensibilidade social. Em momentos dramáticos como este que estamos a viver, do mercado, da situação da globalização, da crise, na Europa, as pessoas têm de ter uma grande capacidade para ler o real, para perceberem os problemas e serem capazes de enfrentá-los e resolvê-los. Isso é cultura. É indispensável que as pessoas sejam cultas no sentido de serem capazes de ler o real e trabalhar para transformá-lo. Mais ainda se aprenderem a fazer isso com os outros. Tem falado do valor económico da Língua, o que quer dizer com essa expressão? Isso significa pensar a mesma lógica de rede com todos aqueles que falam português. Dos outros países? Sim, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, S. Tomé, Timor, mas também as diásporas portuguesas, mas também Macau, tam bém Venezuela, África do Sul, Estados Unidos. E a diáspora cabo ‑verdiana na Holanda e nos Estados Unidos, e a diáspora brasileira. Há muitas diásporas e temos que usar isso para ensinar a Língua Portuguesa. Vai sempre dar à sua frase do dia em que tomou posse: fazer mais com menos dinheiro? O problema dessa frase é as pessoas a leram como «tenho dinheiro a mais, não preciso de tanto, isto faz-se com muito menos». Não é verdade. É possível ser mais rigoroso, mais exigente, mais minucioso, mais programado, mais articulado com os outros e fazer mais e melhor. Fazer de uma forma multilateral, com o Banco Mundial, com a CPLP, com a União Europeia. Basicamente, é quebrar a inércia? Quebrar a inércia e fazer com os outros. Acho que a Comissão de Coordenação Regional de Lisboa e Vale do Tejo faz isso mesmo. Há muita coisa para fazer e gosto imenso disso. Tenho pena de que nós tenhamos grande dificuldade na utilização de alguns regulamentos europeus, porque Lisboa aparentemente está rica. Está a falar do facto de a região de Lisboa e Vale do Tejo ficar fora dos objectivos prioritários do QREN? Isso significa que não demos atenção aos aspectos culturais, quando ainda havia fundos comunitários disponíveis. Fizemos um enrique cimento menos harmonioso, menos coordenado. Temos um nível de vida, um per capita medido quantitativamente, o que faz com que alguns programas não sejam utilizados em Lisboa apesar de continuarmos a ter necessidades. Os programas europeus para a cultura deviam ser relidos, devia haver níveis de pontuação regional. Como é que se mede? É possível medir. É como medir a saúde pública, os graus de educação. Estamos a fazer um acordo com o INE para termos dados estatísticos nacionais e locais. Temos de ter os instrumentos que permitam identificar os défices de natureza cultural. Gostava de trabalhar com a União Europeia, com as ccdr, com o Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território, no sentido de ver estes regulamentos e perceber em que medida podem ser alterados de acordo com a especificidade cultural da região. Pode haver regiões que são muito pobres e têm muito desenvolvi- mento cultural, vamos admitir que é possível. Ou o contrário: regiões que são ricas, ou acima da média, e não têm os equipamentos, a capacidade, o contágio, a intervenção cultural que é necessário ter. A ideia é disponibilizar instrumentos económicos, através da revisão destes programas, fazer tudo o que económica e financeiramente facilita este tipo de actividade. Vamos ver o que se passa com os PROVERE [programas de valorização económica de recursos endógenos] vamos estudar as características e saberes específicas de cada zona para tentar mobilizar recursos económicos. Há muito a fazer. Por exemplo, fazer com que os instrumentos musicais não paguem 20 por cento de IVA. Por que é que os cd de música não pagam 5 por cento de IVA como os livros? Por que é que não trabalhamos isto? Se me perguntar por que é que não está feito, é porque ninguém quis fazer, ninguém levantou o problema. ■ As comissões de coordenação regional não são todas iguais e são extraordinárias. São o que é possível ter de regionalização. Defendi a regionalização no referendo, há dez anos, e acho que faz todo o sentido, porque há coisas muito difíceis de coordenar, de fazer, se não houver a devida alocação de fundos para o sítio. Nem tudo são rosas na regionalização. | 21 Caldas, Cidade Cultural Reportagem | Carla Amaro Fotografia | Guto Ferreira 22 | Depois de um hiato de quase 20 anos sem um espaço digno de eventos culturais de projecção internacional, Caldas da Rainha figura agora nos roteiros como uma cidade que não pode deixar de ser visitada por quem gosta de bons concertos, teatro, ópera, bailado, exposições. Desde a inauguração do Centro Cultural e de Congressos (CCC), em Abril deste ano, a terra que se deu a conhecer ao pais pela cerâmica de Bordalo e pelas «milagrosas» águas termais, está a mudar a imagem e a ganhar outra vida com a chegada de milhares de pessoas para assistirem a espectáculos de grande qualidade. Até se diz, nas Caldas, que o de Lisboa, o CCB, não o supera em matéria de oferta cultural. É o caminho certo para, daqui a dez anos – é a expectativa da autarquia e de quem define a programação do CCC – Caldas será uma referência também mundial. Um equipamento megalómano merece ambição à altura. Q uem passava pela Rua Dr. Leonel Sotto Mayor, nas Caldas da Rainha, e olhava para o local onde foi construído o mais recente Centro Cultural e de Congressos (CCC) do país, não tinha motivos para aí fixar o olhar; quanto muito, servia-se do espaço para estacionar o carro no então parque de estacionamento ao ar livre, do ponto de vista estético e paisagístico menos agradável de se ver. Os que vivem à volta agradecem a substituição de um por outro, porque não deve haver ninguém no seu perfeito juízo, não obstante o jeito que dá ter ao pé de casa um sítio para o veículo, que prefira, quando abre a janela ou a porta de casa, deparar-se com um cenário como o anterior. O CCC é bonito e fica bem aqui, ou não fosse considerado por quem sabe um exemplo de arquitectura. Visto de fora, não se tem a percepção do espaço interior. O CCC tem mais área do que parece.E sem visitantes, como nesta manhã de sábado, ganha metros quadrados. Raquel Adrião não vê outra justificação para o vazio de gente senão o facto de ser «sábado de manhã», o que significa «a possibilidade de as pessoas ficarem a dormir até mais tarde»: «Neste dia, a esta hora, é sempre assim, calmo». Sem visitantes a quem dar informações, esta jovem frente de casa (função que exerce) percorre a ritmo lento o primeiro piso da galeria de arte, onde ainda está patente [terminou a 15 de Setem bro] a exposição Rosto e Identidade, com Retratos da Colecção Berardo – nesta sala, as imagens tiradas pela inglesa que se radicou na ilha da Madeira Bridget Jones e pelo americano Robert Willson; no andar de baixo, pinturas e fotografias de vários artistas. Raquel dedica-se ao trabalho de frente de casa apenas em parttime, uma forma, diz esta jovem de 18 anos, de «praticar o que aprendo na escola profissional», a ETEO – Escola Técnica Empre sarial do Oeste, onde frequenta aulas de Comunicação, Relações Públicas e Marketing. «Estou tentada a seguir Relações Públicas em parte por causa deste trabalho. Mais logo vou ter oportunidade de exercer, quando as pessoas começarem a chegar, um pouco depois do almoço». Um dos visitantes não será certamente Henrique Santos, que já viu a mostra duas vezes: a primeira «sozinho», pouco depois da inauguração, a segunda «para fazer compa nhia à minha mulher», que também não quis deixar de ver a expo sição». Henrique é um frequentador habitual do Centro Cultural desde que abriu. Para aqui vem muitas vezes à noite, «ver os espec táculos que não posso perder, em especial concertos», e sempre, invariavelmente, aos sábados e domingos de manhã, «para ler os jornais». Um vício adquirido cedo, por influência do pai que não admitia pequenos almoços sem na mesa, «aberto», o Diário de Notícias. O hábito de ler jornais mantém-se, o que mudou foi o local de leitura ao fim-de-semana; antes, num café próximo da famosíssima praça da fruta, onde a mulher habitualmente faz compras – «é lá que está agora» - e actualmente na esplanada do CCC, «pelo menos nos dias em que não chove». Na mesa ao lado da de Henrique, um casal com a filha. Clientes habituais deste espaço, ainda têm em cima da mesa os bilhetes que acabaram de comprar para o espectáculo de amanhã à tarde. Margarida tem sete anos e está «ansiosa» para ver Olivia. Não faz ideia de que neste preciso momento Olivia já está a ser preparado. Enquanto no Grande Auditório a equipa de técnicos andam «às voltas» com as cortinas, as luzes e o som, nas traseiras do centro cultural está a ser descarregado o camião que transporta todos os objectos e adereços necessários ao espectáculo. A agitação nos bastidores não passa pela cabeça de Margarida. E é assim que deve ser, para que o espectáculo seja mágico e cause nas crianças o deslumbramento. Mas alguma coisa Margarida sabe, que a peça de teatro «é sobre uma porca muito simpática que gosta de dançar ballet quando não tem sono». Cristina e Álvaro | 23 «Somos consumidores de cultura e gostaríamos que a nossa filha adquirisse esse hábito. Se a levarmos com regularidade a eventos culturais é natural que vá ganhando o gosto». Um desejo agora mais fácil de concretizar, dada a proximidade do centro cultural à terra onde vivem. Roque irão estar ao lado de Margarida no Grande Auditório e apesar de não estarem ansiosos – talvez por se tratar de uma peça mais direccionada a um público infantil –, estão «felizes» com o entusiasmo da filha. «Somos consumidores de cultura e gostaríamos que a Margarida adquirisse esse hábito. Se a levarmos com regularidade a eventos culturais é natural que vá ganhando o gosto». Um desejo agora mais fácil de concretizar, dada a proximidade do centro cultural a A-dos-Francos, onde residem (a 15 quilómetros das Caldas da Rainha). «Já não precisamos de ir tantas vezes a Lisboa» ver teatro, concertos e exposições. Até agora, a programação do CCC não envergonha, acho mesmo que está ao nível da do Centro Cultural de Belém, quer em termos de qualidade, quer de variedade». Desde Maio que a cidade está a usufruir de uma oferta cultural como nunca teve. A falta de um espaço como este era considerada uma lacuna grave que prejudicava não só os habitantes das Caldas da Rainha como toda a população da região do Oeste (entre Lisboa e a Figueira da Foz, não há nenhum edifício de carac- terísticas semelhantes e quem quisesse ver espectáculos tinha que se deslocar). Havia um hiato de quase 20 anos sem um espaço activo e de intervenção; a actividade cultural nas Caldas perdeu-se nos escombros dos dois únicos espaços então existentes e mandados demolir pela autarquia: a Casa da Cultura, junto ao parque e em frente ao Hospital Termal, e o cineteatro Pinheiro Chagas, na antiga praça do peixe (leia-se Praça 5 de Outubro). Em relação ao cineteatro, na altura ainda se pensava na sua reconstrução, mas rapidamente, como explica Maria da Conceição 24 | Pereira, vice-presidente da Câmara Municipal e também vereadora da cultura, «a autarquia chegou à conclusão de que seria sempre um espaço limitado em termos de área»: não só os lugares sentados não eram suficientes para o número de espectadores que se pretendia atrair como o próprio palco era demasiado pequeno para receber as grandes companhias de espectáculos. Desapare cidos os únicos locais onde nas Caldas se podia ter «um cheirinho a cultura», ficou no ar a ideia de construir «um edifício criado de raiz para o desenvolvimento de actividades culturais, que pudesse acolher diversos tipos de espectáculos». Esse dia chegou em 15 de Maio de 2008, com a materialização de um projecto de 18 milhões de euros. Um dia que os caldenses difi- cilmente esquecerão. A pompa e circunstância com que o momento foi festejado atraiu gente de todo o lado para assistir ao «cortar da fita» e ao grande concerto oferecido à cidade pelo pianista António Pinho Vargas. Este foi o espectáculo que marcou a abertura oficial das portas do CCC, mas na véspera, numa espécie de ante-estreia, David Fonseca, nascido nas Caldas, actuou e lotou a casa. Em apenas algumas semanas Caldas quase recuperou o que lhe faltou em anos com uma apresentação de espectáculos em modo «non-stop». Por causa do CCC milhares de pessoas deslocaram-se à terra que em tempos ficou famosa pelas suas «águas quentes» de «cheiro intenso» e com «poderes curativos» e pela cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro e, antes dele, de Manuel Mafra. Há muito que o país deixou de associar a marca «Caldas» à louça e às termas, sectores que deixaram de sustentar a economia da cidade – as fábricas de cerâmica estão a fechar e a procura de tratamentos no Hospital Termal Rainha D. Leonor tem um passado mais produtivo que o presente, apesar de ser o mais antigo do mundo (fundado em 1485) e de se ter modernizado com a criação dos serviços de Hidrologia e de Medicina Física de Reabilitação com o objectivo de fidelizar clientes habituais e de seduzir novos. Neste momento, o Centro Cultural e de Congressos é a «cabeça de cartaz da cidade» e é através dele que Caldas da Rainha quer integrar o circuito dos grandes espectáculos e ser uma referência no país, ao lado de equipamentos como – e porque não? – o Centro Cultural de Belém (em Lisboa). Se disso depender a qualidade da programação e a qualidade dos equipamentos técnicos, uma e outra não ficam aquém da do CCB. Carlos Mota, director artístico do Centro Cultural das Caldas da Rainha, espera isso e muito mais se lhe derem «as condições necessárias»: «Posso garantir-lhe que em dez anos esta cidade figurará nos principais roteiros nacionais e internacionais». Trinta e cinco anos a fazer programação cultural sustentam-lhe a certeza de que «O CCC é o maior sucesso cultural dos próximos anos», que avalia não apenas pela selecção criteriosa da programação como pelo retorno do investimento em apenas alguns meses de actividade. A cultura não é lucrativa em país nenhum, mas «o CCC tem sido um caso excepcional, conseguindo uma rentabilização entre 20% a 40% do investimento realizado. Se todos os espaços culturais conseguissem valores semelhantes seria extraordinário». Apesar de se considerar um director artístico pouco caro que consegue fazer muito e bem feito «sem muitos meios» (leia-se dinheiro), lamenta que o apoio financeiro ao centro cultural não tenha sido considerado nas medidas de compensação para a região do Oeste, definidas depois de o Governo ter optado por Alcochete para a localização do novo aeroporto de Lisboa e não pela Ota, como inicialmente estava previsto. «Tenho pena que os autarcas não tenham sequer ponderado essa possibilidade quando apresentaram a lista de exigências ao Governo». Oportunidade per dida, agora que as medidas de compensação já foram definidas. Recorde-se que a opção por Alcochete levou o Governo a criar um programa de acção para o Oeste com vista a compensar 17 autarquias da região Oeste e da Lezíria: Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras, Santarém, Cartaxo, Azambuja, Vila Franca de Xira e Rio. Depois de alguns meses de negociações chegou-se a um consenso: além de fundos comunitários na ordem dos 2,1 mil milhões de euros, as câmaras municipais receberão 220 milhões de euros de privados. Entre os principais projectos contemplados no plano de compensação – num total de 120 com prazo de concretização até 2017 – estão a construção do Hospital Oeste/Norte, a construção ou remode lação de um novo hospital de Torres Vedras-Oeste/Sul, a criação da Agência Regional de Energia e Ambiente, a requalificação urbana de oito municípios, a construção de cinco postos da GNR, uma nova esquadra da PSP, a criação de parques e centros de negó cios em cinco municípios e a modernização da linha férrea do Oeste (Figueira da Foz/Cacém). Para o responsável pela programação do CCC, o «calcanhar de Aquiles» para todos os programadores é « o aspecto financeiro»: «O orça- mento devia ser mais assertivo, mais de acordo com a realidade». | 25 José Ramalho, responsável técnico do CCC. Carlos Mota, director de programação. O preço de um grande espectáculo ou de uma grande exposição, de projecção internacional, pode atingir valores tão elevados que Carlos Mota se recusa a avançar um número aproximado: «Ficaria assustada». A reacção do público a estes encontros mede-se pela afluência: «sala sempre cheia», diz Isabel com cara de satisfação. É ela que pensa nos autores que gostaria de levar aos «seus» cafés literários, é ela que os convida, é dela que depende, no fundo, a adesão das pessoas. «Se o autor ou a obra não interessa às pessoas, de certeza que elas não vêm cá para conversar com ele». É em redor das mesas de café que as pessoas conversam com o escritor, falam sobre a obra ou um livro em particular – «muitas vezes o escritor faz a apresentação do seu novo livro nestes encontros –, colocam questões, expõem dúvidas. Manuel Alegre está na calha mas ainda não sabe qual será o próximo autor a beber um café literário no Centro Cultural das Caldas da Rainha. A falta de meios financeiros é uma queixa velha das pessoas ligadas ao meio cultural. Mais ainda das que têm de gerir o dinheiro sem prejuízo da qualidade. É o que se passa dentro das portas do grande auditório, do pequeno auditório e da galeria de arte que leva as pessoas a maioria das pessoas a este espaço. Isso – as expo sições, os concertos, o teatro e o circo – e os cafés literários, os cafés musicais, os cafés teatrais, os cafés convívio. Sessões que permitem a interacção do público com autores, músicos e actores. A adesão do público a estes encontros tem sido um sucesso. Quem «dá a cara» pelos cafés literários é Isabel Castanheira, proprietária da Loja 107. Na cidade serão poucos a quem o nome nada diz; os que gostam de ler e compram livros conhecem-na seguramente. O anonimato perdeu-o, na cidade pelo menos, por causa da livraria que abriu na Rua Heróis da Grande Guerra, justamente no número 107, quando chegou a Portugal logo após o 25 de Abril de 1974. Até então vivia em Angola, onde a única aproximação aos livros era através da leitura. Uma vez em Portugal e sem emprego, e atendendo à sua paixão por livros, também como objecto em si, rapidamente decidiu o que fazer na vida. Um vínculo emocional que não se fecha no interior da livraria, chega ao CCC com os cafés literários. «Tem tudo a ver com livros. Os livros são a minha vida». A ideia não era nova, mas faltava o espaço adequado. A oportunidade surgiu anos mais tarde, depois da inauguração do centro cultural. «Quando me aliciaram não hesitei um segundo. É o espaço ideal». 26 | Defensora incondicional do CCC, é sem contenção que Isabel Castanheira deseja ambição para o centro cultural. «Quanto mais ambiciosos formos, mais conseguiremos fazer por esta terra e por esta região. Fazia falta nas Caldas um equipamento destes». Mas apesar desta convicção inabalável, Isabel também realça que «Caldas tem mais coisas, Caldas não é só o CCC». Não é, mas a novidade perdoa o excesso de propaganda – se é que, no que toca a eventos culturais, falar-se ou o escrever-se demais prejudica – e nesse processo de divulgação Isabel é uma incansável promotora. Em cima do balcão da Loja 107 não faltam folhetos com informação de agenda, com tudo o que vai aconte- cer no CCC durante o mês que está a decorrer. A que junta a divulgação boca-a-boca, tantas vezes mais eficaz do que qualquer palavra impressa. «Enquanto os meus clientes compram um livro aproveito para os colocar a par da programação do CCC». Maria da Conceição Pereira, vive-presidente e vereadora da cultura. da Câmara Municipal de Caldas da Rainha. Isabel Castanheira, proprietária da livraria “Loja 107”. Um trunfo que atrairá mais visitantes ao centro cultural, pelo menos é essa a expectativa do director artístico, é a criação, em Janeiro, de um produto inovador em Portugal: um cartão de crédito cultural. «Vamos oferecer um Visa Mundial aos utentes subscritores do bilhete anual», que neste momento já rondam os 160. O bilhete anual é uma ferramenta importante para «fidelizar» especta dores e para o espectador é um forma barata de assistir a espectáculos de qualidade (permite ver 25 espectáculos por 100 euros – um preço de promoção em vigor até ao fim do ano). «Cerca de 25% da plateia do Grande auditório tem ocupação garantida», já para não falar dos subscritores dos bilhetes semestral e trimestral e dos utentes do bilhete empresas, este último ainda sem uma adesão satisfatória devido «à falta de pessoal na promoção deste produto». O serviço educativo – visa sensibilizar os mais jovens e os mais idosos, permitindo-lhes o acesso a bilhetes mais baratos – e as parcerias com centros de actividades complementares e de tempos livres são também mais valias apresentadas à população pelo Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha. Outra novidade que Carlos Mota pretende implementar no CCC é a possibilidade de os utentes «levarem» no seu telemóvel três minutos do espectáculo que acabaram de ver, um concerto por exemplo. Objectivo: divulgar. «Vamos oferecer um pequeno equi- pamento que podem introduzir nos telemóveis e enviar o respectivo conteúdo para os amigos. Às vezes não chega dizer que gostaram ou que foi muito bom, é preciso mostrar o que vimos». A opção por este método mais agressivo de publicidade é uma também um modo de dizer que a cultura não pode estar à margem das novas tecnologias, até porque não se lhes pode negar eficácia na difusão. «É o efeito bola de neve aplicado aos espaços culturais». Para Carlos Mota, no entanto, o que distingue o CCC dos outros «não é tanto os aspectos inovadores, mas a sua conceptuali zação». Um aspecto que tem levado técnicos do Centro Cultural de Belém a visitar o Grande Auditório para, quem sabe?, «copiarem» o modelo. O Grande Auditório é a «menina dos olhos» de José Ramalho, director técnico do CCC. É ele que nos faz a visita guiada e apesar de não lhe falhar a memória na descrição pormenorizada das características mais relevantes de cada um dos espaços, é a esta grande sala, que o dia 6 de Dezembro receberá o bailado Quebra Nozes (a obra-prima de Tchaikovsky), que José tece os comentários mais demorados e elogiosos. Desde a versatilidade do palco «que de um momento para o outro se transforma numa enorme arena», prolongando-se pelo espaço ocupado pela plateia», até à qualidade dos equipamentos de som (já aqui foram gravados dois CD) e de luz, sem esquecer o tamanho e tecido das cortinas. Considerações que resultam na síntese: «Este edifício é o melhor equipamento cultural fora de Lisboa». Para que a classificação se mantenha, não basta a excelência da programação. É preciso que as pessoas saibam o que lá se faz e se vai fazer. E isso está ao alcance de todos os que acederem ao sítio www.ccc.eu.com/ do CCC. ■ | 27 O CCC POR DENTRO Grande auditório Os seus 660 lugares são distribuídos pelo fosso de orquestra, duas plateias, tribuna e camarotes. O palco tem 600 m2. Espaço principal do CCC, é aqui que acontecem os eventos de maior dimensão. Sendo uma sala dinâmica e ajustável às necessidades de cada situação, está apta a responder com qualidade às mais exigentes produções artísticas nacionais e internacionais, bem como cimeiras, congressos, conferências e colóquios (a promoção destes encontros é outra das funcionalidades do CCC com que se espera atrair milhares de visitantes; em Novembro, por exemplo, está prevista a realização do Congresso sobre a Diabetes, para o qual se espera a chegada de 800 pessoas, que nas caldas ou na região vão comer e pernoitar, o que do ponto de vista do turismo e uma mais-valia). Pequeno auditório Tem uma bancada telescópica de 120 lugares, que se pode comple mentar com mais 28 cadeiras, podendo assim receber 148 pessoas. É um espaço que acolhe uma diversidade de projectos como o teatro, a música, o cinema ou mesmo um baile. As «Noites de Estúdio», às quintas-feiras, dedicadas aos estudantes do ensino superior, prometem ser uma referência da vida nocturna da região. 28 | Sala multiusos Com 240 m2, dá apoio a congressos, sessões de formação e reuniões. Está também vocacinada para oficinas de produção artística. Sendo um espaço flexível, há a possibilidade de o reorganizar em várias salas de trabalho distintas (até quatro no total), que podem também ser utilizadas para danças de salão, festas temáticas, workshops ou mesmo ensaios de orquestra. Café concerto É o ponto de encontro por excelência do CCC e tem uma programação paralela e diversificada. Aí se realizam cafés concerto, cafés literários, cafés teatro e cafés convívio, e quem os frequenta tem a oportunidade de trocar impressões com o autor, actor ou músico convidado acerca da respectiva obra. Oferece um serviço de copa personalizado e espaço de lazer, com espectáculos de dança, teatro, ilusionismo, projectos audiovisuais, debates, performances, mas também tertúlias e lançamentos editoriais. O espaço tem uma ampla vista para o exterior e para a Praça da Animação, onde os mais pequenos irão ter o seu local de convívio. No café concerto é possível aceder a um serviço de Internet sem fios gratuito. Sala de ensaios É um espaço de dimensão e capacidade técnica equivalente ao palco do Grande Auditório. É um local privilegiado para a montagem de espectáculos sem necessidade de recorrer ao uso do palco da sala principal. ■ (Fonte: www.ccc.eu.com/) O QUE SE FEZ E VAI FAZER NA REGIÃO Além do Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, muitos outros projectos merecem referência. Alguns representam o «empurrão» que a Região de Lisboa e Vale do Tejo precisava para se desenvolver e dessa forma se destacar a nível nacional em matéria de investimentos. MÉDIO TEJO Parque Almourol Com este projecto pretende-se dinamizar do ponto de vista patrimonial e económico a área ribeirinha entre Constância, Arripiado e Vila Nova da Barquinha. Em 12 quilómetros de margem do rio Tejo vai-se investir fortemente para transformar o espaço no principal centro de turismo activo e de aventura, de natureza e de lazer do país. Em desenvolvimento desde 2001 e resultante de uma parceria público-privada entre a Associação Empresarial da Região de Santarém (NERSANT) e as câmaras municipais de Constância, Vila Nova da Barquinha e Chamusca – justamente as que apresentam os orçamentos «mais frágeis» da região, segundo o presidente da direcção da NERSANT, José Eduardo Carvalho –, o Parque Almourol é dos projectos mais ambiciosos alguma vez pensados para as autarquias nele envolvidas, implicando um investimento total na ordem dos 33,6 milhões de euros. Destes, já foram aplicados cerca de 21,3 milhões nos projectos já concretizados: os Centros Náuticos de Constância e Vila Nova da Barquinha, o Parque Ambiental de Santa Margarida, o Centro Ciência Viva, a Casa Horto Camões, o Parque Urbano de Vila Nova da Barquinha, o Miradouro do Almourol, o Cais e Rampas de acesso ao rio e a requalificação urbanística. Falta ainda concretizar, ainda no âmbito do Projecto Parque Almourol, a Musealização do Castelo, o Parque Aventura, os Percursos Ribeirinhos, o Hotel «Quinta do Parque Almourol» e toda a sinalética. Prevista está ainda a criação de uma bolsa de oportunidades de investimento privado associadas ao Parque: o Parque Aventura, urbanizações, parcerias público ‑privadas de recuperação urbana nas margens ribeirinhas, restau ração. Para o empresário José Eduardo Carvalho, a optimização desta área só foi possível graças à «conjugação de três factores: água, ar e terra». O primeiro não levantou qualquer problema, uma vez que ali passam o Zêzere e o Tejo, e com a vantagem de se poder «aproveitá-lo» na sua parte mais estreita. O resto passou pela criação de uma série de equipamentos geridos pela Sociedade Parque Almourol. Na lista de equipamentos contam-se bungalows com uma capacidade de acolhimento de 150 pessoas em simul tâneo, estruturas para a prática de modalidades desportivas diversas como tiro ao arco, slide, rappel, trilhos, escalada, paintball, BTT e actividades naúticas. Os centros estarão abertos ao público todos os dias do ano. Duas peças fundamentais neste projecto são a Musealização do Castelo de Almourol e o Parque Ambiental de Santa Margarida (a que fazemos referência mais detalhada). | 29 Musealização do Castelo de Almourol Foi a 6 de Junho, em Tancos, que se deu um passo decisivo para a musealização do Castelo de Almourol. Um protocolo assinado pela Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e o Exército português, através da Escola Prática de Engenharia [de quem o monumento está à guarda, como pertença do Ministério da Defesa], desbloqueou um processo que prevê ainda a conservação do ilhéu no rio Tejo, que será algo de uma acção de limpeza (tem muito caniço) e de conservação, o desenvolvimento de projectos de restauro da Capela de Nossa Senhora do Loreto, onde está previsto funcionar um centro de interpretação com uma exposição permanente, e a criação de um estaleiro de arqueologia, «com escavações no ilhéu e na zona envolvente do convento», segundo informações da própria autarquia. «O acordo regula também as intervenções para a construção de percursos ribeirinhos ao longo das margens do Tejo que envolvem o castelo e a ilha de Almourol». Situado no leito do rio Tejo, o castelo está classificado como monumento nacional e é considerado um ícone da engenharia militar portuguesa, estando afecto ao Ministério de Defesa Nacional e à guarda do Exército. A intervenção na fortelaza será mínima - de modo a preservar a sua simbologia como «marca do imaginário da Reconquista e da transição e articulação entre o Norte e o Sul» e através de uma candidatura ao QREN – Quadro de Referência Estratégico Nacional, na sequência do Programa Estratégico Intermunicipal Parque Almourol. É o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR) que vai acompanhar as obras. Parque Ambiental de Santa Margarida Com mais de seis hectares de extensão, o Parque Ambiental de Santa Margarida (PASM) é um espaço lúdico-pedagógico situado na Coutada, uma zona rural do concelho de Constância, onde se desenvolvem actividades de lazer e de (in)formação ambiental. É um espaço ideal para se estar sozinho ou com a família e amigos. Tem parque de merendas, campo de jogos, parque infantil, torre de observação, jardim de plantas aromáticas e medicinais, lagos, riachos, uma extensa área de relvado, prados de sequeiro, sobreiral, peças escultóricas e uma ecoteca com espaço internet, centro de documentação ambiental, galeria de exposições, laboratório, auditório, anfiteatro ao ar live com vista para um grande lago, e «loja da Terra». Tudo isto com um investimento de 2.198.381 euros. 30 | PENÍNSULA DE SETÚBAL Jardim Urbano (Costa da Caparica) É a primeira obra do programa Polis da Costa de Caparica. São 14 hectares de lazer abertos à população. Situado na Mata de Santo António, entre a Av. Afonso de Albuquerque e a linha de praia, o novo Jardim Urbano está dotado de um conjunto de equipamentos de lazer e desporto, como parques infantis e juvenis, parque de merendas, campos de ténis e edifício de apoio e restaurantes. Conta ainda com um Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental que se tornará no testemunho das preocupações ambientais que desde o início o Programa Polis procurou acautelar. Através do Plano de Pormenor do Jardim Urbano, o Programa Polis pretende fazer florir uma Costa de Caparica mais bonita, mais verde, onde será melhor viver frente ao mar. O objectivo era tornar a Mata de S.to António da Caparica num espaço urbano de ordem paisagística, com uma função predominante de recreio e de protecção do solo, uma zona de lazer para todas as idades, em plena Costa de Caparica. Tendo preocupações de valorização ambiental, foi definido um conceito de protecção do território através de opções paisagísticas que preservem um grande grau de naturalidade nos espaços verdes. Era também importante fazer destes espaços zonas vividas pela população, ou seja, aliar o uso de recreio com a protecção do território. Numa fase posterior será ainda construído um campo polidesportivo. O desenvolvimento deste projecto tornou a Mata de S.to António da Caparica num espaço urbano de ordem paisagística, com uma função predominante de recreio e de protecção do solo. O espaço era anteriormente ocupado por um parque de lazer com equipamentos degradados, para além de habitação precária clandestina. Funciona de domingo a quinta-feira das 8h00 às 22h00, sexta e sábado das 8h00 à meia-noite. Projecto de Execução da Frente de Praias Urbanas e Espaços Públicos Adjacentes (Costa da Caparica) É também um projecto do Polis da Costa da Caparica. Inclui diversos equipamentos de acordo com o estabelecido em Plano de Porme nor: remodelação do paredão, estacionamentos, requalificação e prolongamento da Av. Humberto Delgado, apoios de pesca, zonas verdes, acessos pedonais, equipamento hoteleiro, obras de defesa costeira e alimentação artificial das praias; campos de jogos informais; edifício de polícia marítima, posto de socorros e posto de turismo, Centro Internacional de Surf, recuperação dunar. Estão ainda previstos instrumentos de requalificação do espaço público, tais como 27 apoios de praia ao longo do paredão. Projecto Praça José Afonso (Setúbal) O projecto para a Praça José Afonso incidiu sobre uma área de três hectares, limitada a norte pela Av. Luisa Todi, a sul pela Travessa Oriental do Largo, a nascente pela Rua dos Trabalhadores do Mar e a poente pela Rua João de Deus. Trata-se de um grande terreiro no centro de Setúbal, utilizado para diferentes manifes tações e eventos lúdicos e recreativos. Antes do início das obras, além de construções degradas e de um centro de juventude, o parque servia de parque de estacionamento. A proposta para a requalificação da Praça considerou como pressuposto fundamental a consolidação da sua imagem como Terreiro. Toda a zona periférica foi arborizada e para preservar o carácter lúdico que, até então, a praça assumia, o projecto incluiu a construção de um anfiteatro ao ar livre com capacidade para 2.500 espectadores. que tem como elemento estruturante um pórtico cénico de grande efeito plástico e estrutural. Teve um custo global de 4.120.536 euros. Parque Urbano de Albarquel (Setúbal) É a segunda obra pública – depois da Praça José Afonso – no âmbito do Polis de Setúbal e um passo importante para manter a identidade de Setúbal enquanto cidade integrada numa grande área metropolitana como a de Lisboa. Situado numa área à beira-rio, onde anteriormente existia o parque de campismo «Toca do Pai Lopes», teve uma intervenção exemplar, demonstrando que uma cidade como Setúbal, integrada numa área metropolitana, pode manter a sua identidade e assumir a sua centralidade. Tendo custado 3,7 milhões de euros, este equipamento «religa», como se impunha, três elementos fundamentais e indissociáveis: o rio, a baía e a área urbana de Setúbal, e contribui para transformar o Sado num pólo de atracção turística e de preservação dos valores patrimoniais e naturais. O programa de requalificação urbana, que abrange mais de duas dezenas de municípios, na opinião de Fonseca Ferreira, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região de Lisboa e Vale do Tejo, figurará como «a primeira medida política de cidades no País», tendo salientado, no entanto, no dia da inau- guração, que na grande intervenção do Polis em Setúbal «fica ainda um espinho atravessado entre o Parque Urbano e a zona ribeirinha urbana», (leia-se: terrenos da Praia da Saúde contíguos ao equipamento). Mas a requalificação da área dos estaleiros poderá, justamente, ser uma das próximas intervenções. Integrando quatro edifícios já construídos – divisão de desporto da câmara municipal, bar-esplanada, Restaurante e espaço lúdico, as outras valências compõem um espaço polidesportivo com bancada virada para o rio, miradouros na zona mais elevada, caminhos pedonais, parqueamentos, um pequeno parque infantil com um equipamento de corda para crianças com mais de oito anos. LEZÍRIA DO TEJO Requalificação ribeirinha do Sorraia As margens do rio Sorraia são a nova «sala de visitas» de Benavente e de Coruche. Em Benavente, a intervenção teve um custo de 2.101.195 euros e consistiu na construção de um extenso parque verde com excelentes condições para o lazer e o desporto ao ar livre. Tem uma ponte e um caminho pedonal que ligam o Parque do Sorraia à Vala Nova, onde se encontra uma esplanada. Em Coruche, a requalificação custou 6.253.159 euros. As margens foram profundamente transformadas: o figurino urbanístico e a ligação do espaço urbano com o curso de água foram comple- tamente alterados. Criou-se um passeio pedonal ao longo de toda amargem direita do rio e no antigo recinto de feiras foram instalados vários equipamentos lúdicos. Um skate-park e uma parede de escalada, um bar/cafetaria com esplanada sobre o rio, jogos de água e parque de estacionamento são alguns dos equipa mentos aí instalados. A jusante da ponte existem zonas de descanso e de contemplação da Lezíria. Esta intervenção permitiu devolver toda uma faixa urbana para novos usos, promovendo uma maior utilização da zona ribeirinha pela população. ■ As fotos são da autoria de Filipe Jorge e foram retiradas do livro “Mudança e Desenvolvimento”, editado pela CCDR-LVT em Dezembro de 2007 | 31 Joaquim Rosa do Céu Defender e projectar definitivamente o nosso património edificado é determinante Territórios | Carla Maia de Almeida Fotografia | CA, produções fotográficas 32 | O mapa da organização do turismo em Portugal mudou radicalmente. O novo modelo aposta em cinco grandes regiões e seis pólos de desenvolvimento turístico. Joaquim Rosa do Céu, licenciado em Economia e actual Presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, foi eleito em Maio para presidir à Comissão Instaladora da Área Regional de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo, a maior e mais complexa das cinco regiões. Antes das eleições para a presidência da T-LVT, marcadas para Novembro, falou do trabalho que já foi feito e desvendou um pouco do que se deverá seguir. Quais foram as prioridades desta comissão instaladora até agora e quais são os passos que se seguem? O fundamental era a elaboração de uma proposta de estatutos, para colocar à apreciação da tutela política. Isso foi feito, a portaria foi publicada, os estatutos estão aprovados. Depois foi necessário preparar todos os actos conducentes à instalação em definitivo desta entidade, o que passa por um acto eleitoral, conforme os estatutos da T-LVT (Turismo de Lisboa e Vale do Tejo). Há um conjunto de membros fundadores, que inclui os municípios da região e uma série de associações de direito privado, que terão a oportuni dade de se pronunciarem relativamente à aceitação deste convite de membros fundadores. No início de Outubro teve lugar uma reunião da comissão instaladora que definiu o dia para a realização das eleições e, a partir daí, eleger os órgãos que estatutariamente estão previstos em termos electivos. Falo da mesa de Assembleia ‑Geral e da Direcção, que depois terão a incumbência de concre tizar os restantes órgãos, nomeadamente o Conselho Consultivo. As antigas regiões estão formalmente extintas, e no âmbito desta área geográfica estamos a falar de três regiões de turismo – Costa Azul, Ribatejo e Templários – e de duas juntas de turismo – Estoril e Ericeira. A comissão instaladora está a fazer a gestão corrente neste espaço temporal, com as dificuldades que resultam sempre da extinção de entidades com um passado e o seu nascimento numa formulação completamente diferente. Quais são, no seu entender, as vantagens desta reorganização das regiões de turismo? Acho que há aqui uma vantagem enorme. Esta reorganização dá coerência a um modelo e faz corresponder esse modelo a outras formas de desconcentração já implementadas em termos de admi nistração. Esta coerência, em termos territoriais e até políticos, | 33 As antigas regiões estão formalmente extintas, e no âmbito da área geográfica de Lisboa e Vale do Tejo estamos a falar de três regiões de turismo – Costa Azul, Ribatejo e Templários – e de duas juntas de turismo – Estoril e Ericeira. A comissão instaladora está a fazer a gestão corrente neste espaço temporal, com as dificuldades que resultam sempre da extinção de entidades com um passado e o seu nascimento numa formulação completamente diferente. bem como da capacidade para prosseguir a colaboração com a auto ridade central de turismo no que são os desígnios da política central para o país, é agora possibilitada. Com o mapa anterior de 19 regiões de turismo sem qualquer unidade territorial, sem escala, sem capacidade financeira, sem conseguirem ser interlocutores válidos em coerência com outras formas já desconcentradas perante quem tem o poder de decisão e pode facilitar – e muito – o trabalho aos investidores, tudo isto agora vai ser possível. Qualquer investidor, qualquer interveniente na acção turística vai saber quem são os seus interlocutores, vai saber a quem pedir responsabilidades, passando a ter os instrumentos para operar de uma forma completamente diferente dentro das novas dinâmicas que se pretendem para o crescimento deste sector. Haver 19 regiões era mau para a promoção do turismo? Com certeza que cada região fez um trabalho extremamente válido, não ponho isso em causa, mas tinham uma atitude promo cional de um determinado produto ou uma determinada marca não integrados. O que se pretende agora é que os efeitos da complementarização sejam aproveitados pela área regional onde estamos inseridos. Surgiram muitas críticas de vários sectores, nomeadamente a de que se estava a diminuir a identidade de marcas regionais que tinham trabalhado tanto para se afirmarem. Concorda? É muito difícil encontrar uma situação de mudança que não levante polémica e interpretações díspares, mas acredito que não vai ser difícil encontrar o entendimento. Acho que há um espaço temporal para a crítica, mas a partir do momento em que as coisas se tornam 34 | efectivas há que terminar o tempo da crítica e iniciar o tempo da construção. Quero acreditar que é assim que vai acontecer. Em que medida vai ser aproveitado o trabalho que foi feito até agora? Eu acho que dentro dos piores disparates que se podem fazer, em termos de mudança, é ter o pretensiosismo de pensar que tudo o que foi feito até ali, foi mal feito. O que é fundamental, quando se faz planeamento turístico, é elaborar planos e implementar projectos em concreto. Esta região e as outras vão precisar de avançar rapidamente para um plano estratégico promocional e implementar os projectos que esse plano vier a definir. É evidente que tudo o que foi feito antes, por exemplo, na projecção de marcas de interesse e de validade turística, com certeza que o plano a elaborar vai contemplar essas situações. Pode ser um pouco mais concreto? Só posso dar a minha opinião. Por exemplo, acho que é essencial esta região ter um observatório à escala regional e não só à escala de Lisboa, como já existe. Acho que é fundamental implementar um plano de sinalização turística que seja coerente e eficaz, porque também não existe. Acho que é preciso fazer uma promoção no mercado interno, concertada, de modo a que existam aqui sinergias que possam ser aproveitadas complementarmente. Ou seja, para que o que é hoje a oferta de Lisboa se possa estender, em termos de aproveitamento e de venda do produto, a outras regiões contíguas. A promoção do mercado externo é uma coisa mais discutível e aí a autoridade central do turismo é que tem de se pronunciar sobre isso. Além das novas cinco grandes áreas regionais de turismo, que critérios presidiram à criação dos pólos de desenvolvimento turístico: Douro, Serra da Estrela, Leiria-Fátima, Oeste, Litoral Alentejano e Alqueva? O que posso comentar, não sendo legislador, é que isso emana directamente do PENT (Plano Estratégico Nacional do Turismo), e que essas excepções foram consideradas como estratégicas. entendimento entre as partes, tendo por base um objectivo comum. Digamos que a gestão sairá muito mais facilitada se todas estas situações forem acordadas sabendo o que é que cada entidade tem de fazer em determinado momento. É fundamental que o plano estratégico absorva esta realidade, que lance e dê a ideia de projectos específicos que complementem a acção de cada uma destas entidades, tendo em vista a promoção de toda a Área Regional de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo. E como cidadão, o que é que pensa? Porque se escolheu Santarém como sede da T-LVT? Eu compreendo a explicação. O PENT definiu um conjunto de objec tivos estratégicos, centrados em algumas marcas, e o legislador entendeu que essas marcas eram melhor defendidas numa organização menos ampla. Sinceramente, eu acho que seria desejável, em termos de gestão territorial, que houvesse uma coincidência total com as cinco regiões-plano. Mas compreendo também os argumentos da outra parte, e acho que não é grave se as entidades regionais e os pólos que aí se integram forem capazes de traba- Porque foi entendimento da comissão instaladora que Santarém seria o local ideal para absorver a sede da nova entidade regional, e a tutela concordou com essa opção. Acho que faz sentido nós acabarmos com aquela ideia um bocado bacoca do centralismo do Terreiro do Paço. Estamos a falar de um país tão pequenino que tem de caminhar forçosamente para atitudes de descentralização. De qualquer modo, a existência de uma delegação em Setúbal e outra em Tomar tem o reconhecimento de uma situação que me colocou há pouco: então e o que se fez antes, vai ser esquecido? É evidente que não. A Costa Azul tem hoje, em termos proporcionais, uma vitalidade que é reconhecida e, portanto, justifica-se. Quanto a Tomar, pelas novas políticas sobre o que deve ser a promoção do nosso património, e também por uma razão que nos parece essencial – fica na ponta norte da região, com uma envolvente paisagística fantástica –, faz sentido que aí se crie uma delegação. Agora, isto não significa de modo algum um partilhar de acções e de decisões. Estamos a falar de delegações entendidas como front-offices, não lhar construtivamente num clima de entendimento. Que especificidades se colocam a esta entidade, dada a extensão e a diversidade da área? Eu acho que a T- LVT é uma região complexa. Parte de uma situação de uma entidade regional com um pólo completamente constituído a Oeste, com três municípios desta região que pertencem a outro pólo, Leiria-Fátima; com a Associação de Turismo de Lisboa e toda a importância que tem; com a Junta de Turismo do Estoril, cuja força e vitalidade são enormes… Portanto, é complexo, este modelo. Agora, eu acho que se lhe pode dar coerência, em termos de de delegações com autonomia de acção. Tem que ver com a aplicação de um conceito de proximidade que é necessário levar à oferta e à procura, e é nesse sentido que existem delegações. | 35 O património edificado tem tido uma atenção insuficiente. Existe hoje uma procura com significado e que pode crescer; é uma procura que nos interessa, porque tem poder de aquisição. Defender e projectar definitivamente o nosso património edificado é determinante. A que tipo de turismo gostaria de dar mais atenção? O património edificado, na minha opinião, tem tido uma atenção insuficiente. Acho que existe hoje uma procura com significado e que pode crescer; é uma procura que nos interessa, porque tem poder de aquisição. Na minha opinião, defender e projectar definitivamente o nosso património edificado é determinante. Já há ideias para isso? As entidades regionais de turismo vão contratualizar com a autoridade central de turismo a sua participação nesta matéria. O que lhe posso dizer é que, por exemplo, a monumentalidade do nosso património em termos de importância mundial vai começar a vender e o Turismo de Portugal está a anunciá-la. Estamos a falar de Alcobaça, Aljubarrota, Tomar… Há muito património a valorizar e a «vender». Por outro lado, vivemos muito de constatações que existem e o «sol e praia» é uma constatação. Complementarmente, têm que nascer outras actividades. Fala-se hoje muito em turismo náutico, e se este vier a ser considerado uma prioridade nesta região, é desejável que complementarmente apareça a oferta de alguns serviços próximos. Portanto, é outra oportunidade que se abre. Pretende deixar a Câmara Municipal de Alpiarça para se dedicar a este projecto? 36 | O que lhe posso dizer é o seguinte: eu sou a favor da auto-limitação de mandatos. Portanto, devo ser coerente com este princípio, e três mandatos é um prazo muito razoável. Recandidatar-me ou não, é uma questão que se colocará no tempo próprio. Caso saia, o que é que gostaria de deixar feito ainda durante a sua presidência no município de Alpiarça? Gostaria muito de lançar um concurso público nacional para a conservação e a requalificação de um bem patrimonial que nós temos, a Casa dos Patudos, e que eu gostaria que fosse entendido cada vez mais como um museu do país. Aproximamo-nos do centenário da República e acho que era uma boa homenagem a José Relvas, um homem que proclamou uma mudança de regime, que legou a Alpiarça e ao país um espólio de valor incalculável, e que por força do seu testamento é uma responsabilidade municipal em termos de manutenção, com as dificuldade que um município tem para incorporar esta exigência. Temos levado o acervo da Casa dos Patudos um pouco por todo o país; neste momento, estamos com uma exposição na Assembleia da República que marca o início das comemorações do centenário por parte da instituição. Toda a gente tem consciência de que a Casa dos Patudos tem insuficiências que são conhecidas e que importa ultrapassar, até porque a grandiosidade do acervo e da atitude altruísta de José Relvas merecem que o país não possa justificar que 80 km de distância relativamente à capital possam servir de argumento para ela continuar desprezada e esquecida. ■ UM NOVO MAPA DO TURISMO Das 19 regiões e zonas de turismo existentes no território de Portugal continental, o Governo fez uma «limpeza» e reorganizou o mapa em cinco grandes áreas regionais que incluem toda a área abrangida por cada uma das NUTS II (Nomenclaturas das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos de Nível II). São elas: Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve. Paralelamente, criou-se uma espécie de regimes de excepção, abrangendo as regiões apontadas pelo PENT (Plano Estratégico Nacional do Turismo), e que correspondem ao Douro, Serra da Estrela, Leiria-Fátima, Oeste, Litoral Alentejano e Alqueva. Com esta reorganização, o Governo pretende apostar ainda mais forte no Turismo como frente de desenvolvimento económico para o país, o que era dificultado com «um número notoriamente excessivo de órgãos regionais e locais de turismo». No decreto-lei publicado a 10 de Abril de 2008, lê-se ainda que este novo quadro de interlocutores é «compatível com outras formas de administração desconcentrada e/ou descentralizadas» e que «permitirá o estabelecimento de parcerias, entre outros, como o Turismo de Portugal, I.P.» Na região correspondente à NUT II de Lisboa e Vale do Tejo, a T-LVT (Turismo de Lisboa e Vale do Tejo) é a entidade regional de turismo que funciona como entidade gestora, cabendo-lhe a valorização turística desta área. Conforme consta dos estatutos publicados a 21 de Agosto de 2008, compete-lhe, em matéria de promoção no mercado interno, «definir e executar uma estratégia regional de promoção turística; definir e implementar uma estratégia regional de comunicação e marketing turístico; criar e gerir postos de turismo na Área Regional de Turismo – Lisboa e Vale do Tejo, de forma autónoma ou em parceria com os municípios; conceber edições turísticas regionais; e apoiar eventos com conteúdo turístico.» São 51 os municípios fundadores da T-LVT, numa extensa lista de membros que incluem, entre muitos outros, as duas principais centrais sindicais; a Associação de Turismo de Lisboa; a ANA – Aeroportos de Portugal; a APL – Administração do Porto de Lisboa; a ARESP – Associação da Restauração e Similares de Portugal; e a AHP – Associação de Hotelaria de Portugal. ■ Fonte: Diário da República, 1ª série, nº 71 e nº 161. | 37 Destaque | Eduardo Oliveira Fernandes [Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto] A ENERGIA NO ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO A presença tradicional da energia nos exercícios de ordenamento do território foi sendo encarada no passado segundo uma perspectiva restrita de identificação dos locais para potenciais barragens ou outros grandes empreendimentos energéticos e, pela expressão vestigial e quase caricatural de prevenir os impac tes da passagem de linhas de alta tensão ou de gasodutos ou olea dutos. A energia continua ainda a ser vista entre nós, sobretudo, como um produto de consumo e, algumas vezes, como factor de produção, que alguém deverá providenciar, desejadamente, a custo baixo. Para além disso, a experiência do quotidiano revela todos os dias que o tema da energia não atrai muito o interesse da sociedade civil, mesmo quando os actores têm formação académica e alguma «cultura» e poder na gestão da coisa pública. A energia é vista como uma «coisa» técnica desligada da sua identificação plena com o ambiente, não já em termos dos potenciais impactos do seu uso mas, sobretudo, enquanto recurso natural que «está» e «vem» do próprio ambiente. Ainda não despertámos enquanto comunidade para a percepção da energia como, aquilo que é, um recurso natural abundante no território a desafiar os avanços da tecnologia, a qualidade da ges- tão da coisa pública mas, sobretudo, a nossa sensibilidade aos valores ambientais do nosso tempo. 38 | Por isso, a visão dominante da energia na óptica da oferta, parece esquecer-se que, em mercado, tão importante é a procura como a oferta. Ou seja, em termos de energia, tão importante é a necessidade de energia e a forma como é satisfeita como o tipo de recurso disponível para tal. A cultura do petróleo, em que ainda vivemos e que perdurará certamente por mais algumas décadas, foi a alavanca do desenvolvimento económico-social que conhecemos e que se consolidou nos últimos 150 anos mas não escapa à responsabilidade, quase fatal, do aquecimento global devido às emissões de CO2. Este porém, não foi, por certo, o único «malefício» de um cultura de poderes, centra lizada, cartelizada e cúmplice dos sistemas fiscais, estabelecida em torno dos combustíveis fósseis. Pior do que isso, terá sido certa- mente, a barreira criada ao longo de décadas ao progresso do conhecimento e ao desenvolvimento de tecnologias energéticas relacionadas com o aproveitamento da energia solar e outras renováveis, segundo um paradigma de descentralização e de proximidade mais orgânico, mais ambiental e mais democrático. Neste tempo de alguma perplexidade quanto ao impacto dos custos da energia na economia e na sociedade, temos de nos libertar da pecha cultural que varre toda sociedade portuguesa de ver como «energia» apenas a electricidade, que representa, afinal, apenas 20% das compras de energia pelos utilizadores finais. É certo que, mesmo para a produção de electricidade estamos longe de nos Eolica Zona.com.locais.de. produtividade.elevada Zona.com.locais.de. produtividade.muito.elevada Ondas Zona.com.condições.favoráveis Radiação.Solar Recurso.muito.significativo Recurso.significativo Biocombustíveis Zona.de.potencial.elevado (agricultura.intensiva.de.regadio) Biomassa Floresta.de.produção Floresta.multifuncional Pontos.de.injecção.actuais Zona.de.influência.da.central termoeléctrica.a.biomassa.em.concurso NUTS.III 0 5 10 20 30 40 Kilometers podermos considerar desprovidos em recursos em termos de ener gias hídrica, eólica ou das ondas. De tal modo que não será difícil de imaginar que estas poderão assegurar num futuro próximo mais de 50% das necessidades do país. Mas tão pouco nos podemos considerar desprovidos de energia solar e de biomassa, agora, não necessariamente apenas para electricidade, mas para uso de energia - calor. Convém recordar que a energia usada sob a forma de calor representa porventura duas a duas e meia vezes a energia eléctrica utilizada ou seja cerca de 50% da energia final contra cerca de 20% para a electricidade. Ora, se a energia hídrica, eólica e das ondas respondem aos padrões convencionais, da perspectiva do «supply» a verdade é que a ener- gia solar e a biomassa são, por definição, descentralizadas e oferecem oportunidades de usos de proximidade e de interacção procura – oferta como nenhuma outra. A própria energia fotovoltaica, que entusiasma os portugueses atraídos pelo isco de um tão residual quanto mesquinho interesse financeiro, e que constitui, estamos certos, o grande futuro do aprovisionamento eléctrico até ao fim do século, é mais parte de uma rede com gestão centralizada, e bem, do que uma forma descentralizada de aprovisionamento de energia final ou útil. É costume dizer-se, num tom por demasiado habitual, que Portugal é pobre em recursos energéticos, pensando, é claro, nos recursos fósseis. A verdade é que, em termos de recursos energé- ticos, Portugal tem condições para se tornar num verdadeiro caso de estudo no aproveitamento «elegante» das fontes de energia renováveis, isto é, mais do que inteligente, também carregado de culto dos valores ambientais que farão do nosso território um território particularmente aprazível para as populações locais e visitantes. E é aqui, que nasce o desafio que, em termos de energia, se coloca ao ordenamento do território. A experiência vivida no quadro da elaboração do PROT do Oeste e Vale do Tejo é um caso de estudo da nova forma de lidar com a energia em ordenamento e de organizar a gestão dos recursos energéticos com o sentido da responsabilidade ambiental e social, na óptica da sustentabilidade. Por um lado, identificaram-se as necessidades de energia para as actividades económicas e para o bem-estar dos cidadãos apurando até onde aquelas necessi dades poderão ir em termos do estado da arte e das tendências da tecnologia. E, por outro lado, inventariaram-se as potenciali dades dos recursos naturais disponíveis para a obtenção da energia final ou útil localmente necessária procurando o «matching» pro- cura – oferta mais eficiente e racional. Foi, assim, possível chegar a um planeamento aferido por critérios de impacto ambiental estratégico e que conduzem a uma ideia de «autonomia energética» que, sem por em causa a solidariedade do todo nacional, visa criar um quadro de estímulo à valorização do potencial da energia de proximidade por parte dos promotores das próprias actividades económicas e dos responsáveis autárquicos. ■ | 39 40 | Jardim Botânico Seja um amigo também O Jardim Botânico da Universidade de Lisboa comemora 130 anos no dia 11 de Novembro. Guarda uma colecção notável de plantas de todo o mundo, com destaque para a Nova Zelândia, Austrália, China, Japão e América do Sul. Apesar das dificuldades, continua a crescer em visitantes e mantém uma série de actividades, desde visitas guiadas temáticas a programas de educação ambiental. A adopção de árvores é uma das formas de ajudar. Quem quer ser amigo do Botânico? Património | Carla Maia de Almeida Fotografia | Guto Ferreira V amos pelo meio de duas fileiras de washingtonianas até aos jardins do Botânico. Para a maior parte das pessoas, são apenas palmeiras. Palmeiras gigantes, de porte imponente e esguio, que atingem os 30 metros de altura e são originárias do México. Cabe-lhes dar as boas-vindas aos visitantes do jardim que este ano comemora o seu 130º aniversário. Cerca de 80 mil visitantes em 2007, um número que tem vindo a aumentar de ano para ano. Mas não será de arromba a festa que está marcada para o próximo dia 11 de Novembro. Há muito que se sabe das dificuldades por que passa o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, apesar das sucessivas mudanças do poder central e local. Água, acessos, requalificações, pessoal, manutenção – falta dinheiro para quase tudo. O empenho e o esforço imaginativo de quem aqui trabalha não chega para modificar o estado das coisas. A Liga dos Amigos do Jardim Botânico tem sido uma ajuda preciosa, mas o problema é estrutural. Por isso, em vez do financiamento para as obras desejadas, o acontecimento deste ano de comemorações acabou por ser o concurso de ideias lançado pela Câmara Municipal e pela Universidade de Lisboa. De onde virá o dinheiro para concretizar o projecto vencedor? É o que falta saber. Maria Amélia Martins-Loução, vice-reitora da Universidade de Lisboa e directora do Jardim Botânico desde 2003, considera-se «uma optimista», o que pode ser uma qualidade apreciável para o exercício de cargos difíceis. «Se houver um projecto coerente, atractivo e estruturante para todo aquele espaço, estou certa de que não só o Governo, mas, particularmente, outras entidades – mecenas – possam ajudar a desenvolver aquela área, que é extremamente importante para a cidade de Lisboa.» Estamos a falar não apenas dos quatro hectares de terreno onde se localiza o jardim, mas também de um largo perímetro urbano que vai do Príncipe Real à Avenida da Liberdade, passando pelo Parque Mayer e pela Praça da Alegria. «Trata-se de um plano de renovação de toda aquela zona, que está muito degradada. Tem de haver um pólo cultural na zona dos Museus da Politécnica e outro no Parque Mayer. Por isso, um dos critérios que vai pesar muitíssimo na avaliação das propostas dos arquitectos é a viabilização financeira daquele espaço.» No momento em que esta edição da LVT está a ser fechada, decorre a segunda parte do concurso de ideias, já com uma maior exigência de complexidade na elaboração dos projectos. Maria Amélia Martins-Loução faz parte do júri e, como é natural, reserva-se o direito de não tecer comentários aos conteúdos. Dos cinco vence dores da primeira fase, ficou voluntariamente de fora o projecto de Eduardo Souto Moura, classificado em quarto lugar. Para a segunda fase, mantiveram-se a concurso as equipas de Manuel e Francisco Aires Mateus, ARX Portugal Arquitectos, Vão Arquitectos e Gonçalo Byrne. A entrega definitiva será feita ainda este ano, mas a directora do Jardim Botânico dificilmente poderá anunciar, no dia 11 de Novembro, uma nova vida para o espaço verde mais rico de Lisboa. Uma riqueza natural e museológica que contrasta com a falta de meios financeiros. «Tinha esperança de que houvesse mais qualquer coisa que fosse passível de ser inaugurada no dia da festa, mas não houve nada de substancial. Fizemos | 41 tentativas de melhoramento do jardim, que não foram conseguidas porque nós não temos financiamento e a câmara também não. Temos de ter paciência e aguardar.» gicos, e tem consequências para este pinheiro. Vamos ter de tomar providências. Mas primeiro temos de explicar as razões, porque as pessoas quando vêem uma árvore destas a ser abatida têm reacções muito emotivas.» Entre as várias preciosidades do Jardim Botânico a necessitar de atenção está a biblioteca herdada dos Jesuítas, uma das melhores em Portugal na área da museologia. Os alunos do Colégio Jesuíta, que recebiam formação religiosa e não só, foram os primeiros a ter aqui o seu Horto Botânico. Corresponde à parte cimeira do jardim e denomina-se Classe, por ser o local onde as aulas de botânica eram ministradas. Neste patamar encontra-se também o Observatório Astronómico, uma peça centenária de arquitectura didáctica, construída para o ensino da Astronomia, hoje num estado deplorável de degradação. Existem vários projectos para a sua recuperação, mas, escusado será dizer, nunca passaram do papel. À parte maior e mais frondosa do jardim, o Arboreto, chega-se passando a íngreme escadaria em calçada portuguesa. Mesmo depois de esta ter sido recuperada, o acesso não é fácil, sobretudo para crianças e pessoas idosas. O encerramento da outra entrada pela Rua da Alegria só veio piorar a situação. pança na factura da EPAL, cujo total se situa entre os 45 a 55 mil euros por ano. Por ser considerado um grande consumidor, o Jardim Botânico paga o dobro de um cliente normal. Tendo em vista a melhor optimização dos recursos, a EPAL financiou um estudo para saber o que seria necessário para tornar mais eficiente o uso da água. A utilização das cisternas, por um lado, e a adequação de plantas menos consumidoras no extracto herbáceo, por outro, são duas das soluções avançadas. A natureza não é estática e, por vezes, parece virar-se contra si. No Arboreto há árvores com as raízes levantadas e pelo menos um pinheiro a ameaçar tombar. Construído em socalcos, o que o torna num espaço muito interessante e algo misterioso, o jardim ressente-se dos terrenos extremamente friáveis e dos movimentos naturais do subsolo. «Num mês, o chão mexeu 12 milímetros», diz a bióloga Alexandra Escudeiro: «Isto é brutal, em termos geoló Actualmente, cerca de 1500 espécies distintas criaram raízes nos terrenos do Monte Olivete. Projectado em meados do século xix, por iniciativa do professor de botânica Conde de Ficalho, o jardim foi inaugurado em 1878, 110 anos depois do Jardim Botânico da Ajuda, o primeiro do país. À época, os jardineiros tiveram como missão fazer um périplo pela Europa, para recolher plantas dos quatro cantos do mundo. «A escolha das espécies foi muito 42 | Mais difícil é explicar por que motivo o Lago de Baixo se encontra seco e em estado de abandono, causando uma impressão de desconforto aos visitantes. Na verdade, a causa é simples: «O lago rachou e está sempre a perder água. Já se infiltrou no túnel da Estação do Rossio.» As constantes perdas de água, neste e noutros pontos, levaram a directora Maria Amélia Martins-Loução a fechar o antigo percurso que facilita a rega, o que se traduziu em pou- criteriosa», salienta Alexandra Escudeiro. «Não foram escolhidas só pelo seu sentido estético ou botânico, mas também por razões ecológicas, geográficas e simbólicas. É a nossa colecção viva. Há plantas da mesma espécie que estão no jardim, no herbário e no seminário.» Entre os exemplares mais impressionantes estão as árvores de grande porte, como as araucárias, os metrosíderos, as sequóias ou as ficus. Outras, fascinam pelo simbolismo e pela história: as cicas, por exemplo, descendem de um grupo primitivo de plantas que viveram há cerca de 150 milhões de anos e pouco evoluíram nos últimos 60 milhões, sendo consideradas verdadeiros «fósseis vivos.» O mesmo se pode dizer da ginkgo biloba, espécie que resis- tiu aos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, e se tornou, por isso, símbolo de sobrevivência. Plantas de bom augúrio no Japão são os bambus, também presentes no Jardim Botânico. Há árvores curiosas no seu aspecto, como a barriguda paineira, de onde se extrai a sumaúma, ou essa árvore que mais parece um cacto gigante, o dragoeiro, cujos caules rijos e carnudos serviram outrora para fazer barcos, gamelas e colheres. Há magnólias, canforeiras, ciprestes, nogueiras e teixos, entre tantas outras árvores e arbustos. Muitas, foram adoptadas por pessoas singulares ou famílias, através da Liga dos Amigos do Jardim Botânico, criada em 1986 para promover e salvaguardar este património. Adoptar uma árvore tem um significado simbólico único. Entre os vários casos curiosos encontramos o daquela avó que começou a adoptar sequóias para deixar aos netos, ou o do rapaz que quis a árvore escolhida pela noiva, um cipreste do México, ou ainda o da família que tem três árvores a crescer juntas, representando pai, mãe e filho. Os Amigos do Jardim Botânico, entre os quais se contam várias figuras públicas, têm benefícios por esta ajuda que se traduz num contributo financeiro para manter o jardim: pagam um euro por metro quadrado de copa, por ano, dinheiro que é usado para a conta de água. Quanto maior a árvore, maior o valor – mas há plantas para todos os tamanhos das carteiras. O interesse nunca é demasiado. «Era preciso que mais pessoas contribuíssem com a adopção», afirma Maria Amélia Martins-Loução. Desde que foi fundado, o Jardim Botânico tem dois propósitos essenciais: a conservação da natureza e a conservação das colecções. Raramente visto pelo público, mas fundamental, é o Banco de Sementes, guardião de várias espécies raras e ameaçadas. Surgiu logo em 1878 e tem como objectivo a conservação de recursos genéticos de sementes de plantas endémicas de Portugal. Estas são sobretudo provenientes do próprio jardim, mas não só. Há uma colecção activa para a troca com outros jardins e instituições, e outra para a conservação a longo prazo. Neste último caso, as sementes são colhidas na natureza e, depois de limpas de impurezas, colocadas numa câmara de secagem, onde permanecem até alcançarem o grau ideal de humidade para conservação. Depois, são hermeticamente fechadas e remetidas para a câmara frigorífica, permanecendo aí a uma temperatura de 18 graus negativos. As mais antigas têm quinze anos, mas é possível que haja sementes mais recuadas ainda capazes de germinar. A natureza tem recursos surpreendentes. | 43 44 | Apesar de lamentavelmente esquecido pela agenda política, o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa continua a ser um lugar especial. Confirmá-lo-iam, se pudessem falar, as dezenas de gatos que ali encontram refúgio (porque um jardim sem gatos é um desperdício de espaço), e, com um pouco de sorte, alguém que os queira também adoptar. No Verão, quando a cidade se ressente do calor e o ar fica ainda mais irrespirável, as árvores são um tesouro de sombras, oxigénio e frescura. No Inverno, é o cheiro da terra molhada e o verde extremo das plantas que seduz o visitante. Pena é que sejam, por vezes, apenas os turistas a desco brirem-no. Gostaríamos de ver este lugar mais habitado, que os lisboetas cultivassem hábitos de passear ao ar livre, em família, em vez de cumprirem os circuitos dos centros comerciais. Há um interesse renovado por cada curso de formação para guias que o Jardim Botânico promove, e isso são boas notícias. No último, apareceram desde estudantes de botânica e arquitectura paisagística até estudantes de história, arqueologia e geografia. Todo o ano é dia de Jardim Botânico, mas a 11 de Novembro sopram ‑se as velas do bolo de aniversário. Das 9h00 às 20h00, haverá debates, conferências, exposições e lançamentos de livros. Os alunos da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa farão visitas guiadas aos seus auto-retratos, um conjunto de peças escultóricas que depois ficarão à vista no jardim. Junte-se à festa! ■ Jardim Botânico da Universidade de Lisboa Rua da Escola Politécnica, 58 Tel. 213 921 800 Aberto aos dias úteis, das 9h00 às 20h00 Fins-de-semana e feriados, das 10h00 às 20h00 (a partir de 1 de Novembro passa a encerrar às 18h00) MUSEU DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA RECEBE PRÉMIO EUROPEU O Museu da Presidência da República foi contemplado com o Prémio Europa Nostra, em Durham (Inglaterra), no âmbito do projecto de investigação Aberto de terçasobre a domingo, o Palácio das 10h00 de Belém. às 18h00. Sábados das 10h00 às 17h00 Fonte: Museu da Presidência da República O espaço onde se encontra instalado o Museu da Presidência da República é o edifício recuperado das antigas garagens do Palácio de Belém, da autoria dos arquitectos Rui Barreiros Duarte e Ana Paula Pinheiro. A organização do museu segue um fio cronológico e temático, com o qual se pretende apresentar a história do regime republicano e dos seus presidentes desde a revolução republicana de 5 de Outubro de 1910 até aos nossos dias. A República e os seus Presidentes corresponde ao primeiro núcleo temático da expo sição, e visa dar a conhecer o significado do sistema político da República, a sua história em Portugal, os símbolos nacionais e os seus três ciclos institucionais. Para além do visionamento de um filme que relata o período histórico que decorre entre o dia 5 de Outubro de 1910 até à reeleição de Jorge Sampaio para o cargo de Chefe de Estado, o visitante poderá ficar ainda a conhecer a personalidade e a biografia de cada um dos Presidentes da República. Ao longo do percurso, são apresentadas peças relacionadas com cada um dos presidentes, quer se tratem de objectos pessoais, que suscitem leituras particulares da sua personalidade e actuação política, ou de materiais coligidos durante o exercício do cargo, como é o caso dos presentes de Estado. O Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República e sede da Presidência da República, é objecto de tratamento especial, num núcleo expositivo que tem por objectivo valorizar, dar a conhecer e aproximar as pessoas deste património artístico e cultural. Para além da apresentação de objectos que fazem parte da sua colecção, alguns deles ainda hoje a uso, ao serviço da activi dade do Presidente, o visitante poderá desfrutar de uma visita virtual àquele espaço, complementar da própria visita. O Museu da Presidência da República conta na sua colecção com mais de mil e quinhentos objectos inventariados, entre presentes de Estado, objectos pessoais e condecorações, a que se junta um acervo documental que reúne os arquivos particulares, políticos e biográficos da maioria dos presidentes da República. ■ | 45 46 | Berlengas navegando para a sustentabilidade De ilha de piratas e frades, as Berlengas chegam aos nossos dias como um santuário ecológico, classificado como Reserva Natural, Zona de Protecção Especial para Aves Selvagens e Reserva Biogenética do Conselho da Europa. No entanto, fruto da pressão turística e da poluição, este pequeno arquipélago apresenta agora graves problemas ecológicos e ambientais. Algo que um projecto multidisciplinar e internacional quer agora alterar, tornando as Berlengas num arquipélago auto-sustentável. Destaque | Pedro Almeida Vieira Fotografia | Câmara Municipal de Peniche | 47 E m 1978, no filme «O Rei das Berlengas», D. Lucas Telmo de Midões, interpretado por Mário Viegas, putativo herdeiro deste arquipélago – que fora usurpado à sua família pelo rei D. Afonso Henriques aquando da fundação de Portugal –, acabou num manicómio. Mas mesmo que, nesta comédia de Artur Semedo, este tresloucado personagem tivesse sido bem-sucedido na «independência das ditas», o reino das Berlengas teria sempre muitas dificuldades de se manter sustentável, de sobrevivência. Localizado a cerca de 10 quilómetros do Cabo Carvoeiro, o arquipélago das Berlengas tem, de facto, muito pouco para ser sustentável do ponto de vista humano – ou melhor, para aguentar a presença humana. Constituído por um conjunto de ilhas graníticas – de que se destaca a Berlenga, as Estelas e os Farilhões –, bem como vários ilhéus, este arquipélago é feito de granito, praticamente sem solo e tem apenas cerca de 100 hectares. Portanto, é um lugar agreste e, por isso, pouco apetecível para se viver, pois os recursos naturais são escassos e o seu isolamento é grande, sobretudo durante o Inverno. Contudo, ao longo dos tempos, houve vontade humana para colonizar as Berlengas. A primeira ocupação mais sedentária haveria de suceder no início do século xvi, quando a então muito influente Ordem de São Jerónimo se estabeleceu na Berlenga Grande, sob os auspícios de D. Leonor, mulher de D. João II e irmã do então rei 48 | D. Manuel. Os frades construiriam assim um mosteiro, como local de retiro, mas também para oferecer auxílio à navegação e às vítimas dos naufrágios e pilhagens de corsários na costa atlântica. No entanto, logo aí se mostrou que as Berlengas não eram mesmo sítio para se viver: a escassez de alimentos, as doenças e os constantes assaltos de piratas e corsários, levou ao abandono do mosteiro. Cerca de um século mais tarde, ao longo do reinado de D. João iv, as ruínas desse antigo mosteiro dos Jerónimos seriam mesmo desmanteladas para aproveitar as pedras e edificar a Fortaleza de São João Baptista. E as Berlengas passaram assim a ser um simples, mas importante reduto militar. Como forte teve então um papel importante contra as investidas espanholas após a Restauração e, já no século xix, também nas Guerras Peninsular e Liberais. Mas depois disso, foi perdendo pujança e acabou apenas por funcionar como local de apoio à pesca e à navegação, com a instalação de um farol. Ou seja, ficou novamente desabitada, excepção feita ao faroleiro. Mas se as condições sempre foram agrestes para o Homem, a Natureza soube aproveitá-las. O seu isolamento fez com que, mesmo em tão pequeno espaço, se desenvolvesse uma riqueza ecológica bastante relevante. Nas Berlengas encontram-se mesmo duas espécies endémicas, únicas no Mundo, de flora (Armeria berlengensis e Herniaria berlengiana), possuindo também uma elevada quantidade de espécies aquáticas, além de constituir uma importante zona de nidificação de aves marinhas, com destaque para a cagarra, o roquinho, o falcão-peregrino e o airo. Tamanha riqueza levou que fosse classificada como Reserva Natural em 1981, num período em que se delimitaram muitas outras áreas protegidas em Portugal. Oito anos mais tarde, além das ilhas, uma zona marinha envolvente foi também abrangida por este estatuto de conservação. E mais recentemente, surgiu o reconhecimento internacional com a classificação de Reserva Biogenética pelo Conselho da Europa e de Zona de Protecção Especial para Aves Selvagens (ZPE) pela União Europeia. No entanto, estes estatutos de conservação pouco indicam em relação ao estado de conservação. Na verdade, as Berlengas estão, do ponto de vista da sua riqueza biológica, numa fase de declínio, que custa a inverter. A situação da população de aio – a ave que constitui o símbolo da Reserva Natural – é disso um caso paradigmático. Na década de 30 do século passado estavam referenciados cerca de 12 mil indivíduos, mas em 1981, ano da classificação como Reserva Natural, apenas foram contadas 196 aves. No mais recente registo conhecido, relativo a 2003, foram apenas encontradas cerca de duas dezenas sem que houvesse nenhuma a nidificar. Em grande medida, este decréscimo abrupto deveu-se à prolife ração de gaivotas, que invadiram a ilha, comendo os ovos de aio, devido em certa medida à proliferação de lixeiras no continente durante décadas. Mas também, e muito, por causa do turismo. Com efeito, contrastando com o isolamento de Inverno, traduzido na presença de somente dois vigilantes da Natureza, visitas eventuais, as Berlengas são invadidas por turistas ao longo do Verão, quer vindos nas carreiras regulares quer em outras embarcações próprias ou alugadas. Em alguns dias, mais de mil visitantes chegam à Berlenga Grande – mesmo se o Plano de Ordenamento desta área protegida estipula uma capacidade de carga máxima de 350 visitantes –, criando assim problemas logísticos e de infra ‑estruturas, nomeadamente na área do saneamento básico e de energia, para além da própria pressão sobre um ecossistema frágil. Acrescem também os problemas com a infestação por chorão – uma planta carnuda que pode colocar em risco as espécies endémicas. Foi para corrigir esta insustentável situação que está em curso o projecto «Berlenga, Laboratório de Sustentabilidade», desenvolvido sob a égide da Secretaria de Estado do Ambiente e coordenado pelo Centro para Prevenção da Poluição (C3P). O projecto foi iniciado em Julho de 2007, tendo um prazo de execução de 18 meses e um orçamento global que deverá atingir 1,2 milhões de euros, dos quais 10% provenientes da autarquia de Peniche. Um aspecto desde logo inovador deste projecto é a parceria estabelecida por um vasto grupo de entidades públicas e privadas, agrupadas no seio do C3P. Com efeito, a entidade coordenadora – criada em finais de 2002 pelo Instituto de Soldadura e Qualidade e pela International Trade Bridge (ITB), uma empresa norte-americana | 49 sediada em Ohio e fundada por Carlos M. Caldas, um luso-americano – conta, neste projecto, com o apoio técnico e financeiro do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), da autarquia de Peniche, da Direcção de Faróis, das Águas de Portugal, da EDP, da Efacec, da Galp Energia, da Portugal Telecom, do INESC Porto, do INETI e da sociedade de advogados Rui Pena, Arnaut e Associados. Além disso, tem ainda o apoio da National Aeronautics and Space Administration (NASA). «O nosso objectivo é dotar as Berlengas com tecnologia e equi pamentos que a tornem auto-sustentável, diminuindo assim a pressão humana», sustenta Sérgio Leandro, docente da Escola Superior de Tecnologia do Mar de Peniche e assessor da autarquia local. Para isso, os geradores a diesel – que permitem o funciona- mento do restaurante e das instalações de alojamento e apoio turístico – estão já a ser substituídos por painéis solares. Além disso, para solucionar os problemas dos resíduos sólidos, está a ser equacionado uma solução para os poder separar e compactar, trazendo-os depois para o continente. No caso das águas resi duais, Sérgio Leandro diz estar em estudo a instalação de um tamisador e de uma pequena estação de tratamento de esgotos, de modo a permitir melhorar a qualidade da água, um aspecto essencial para que as praias da Berlenga Grande possam vir a hastear a Bandeira Azul, o que nunca até agora aconteceu. «Depois de tudo concluído, como se minimizas os impactes, eventualmente poder-se-á alterar a capacidade de carga prevista no Plano de Ordenamento». 50 | A participação da NASA é sobretudo ao nível de know-how e de intercâmbio de informação. No ano passado, quando o projecto foi lançado, Carlos, presidente e fundador da ITB, destacava o pioneirismo desta experiência nas Berlengas, sublinhando que «esta poderá ser aplicada a nível mundial em áreas de difícil acesso e que não dispõem de água potável e tratamento de esgotos, como zonas de África e do Médio Oriente», acrescentando mesmo existirem «pequenas áreas do projecto que são aplicáveis nas missões ao espaço». Aliás, o projecto das Berlengas tem algumas semelhanças ao projecto que a NASA está a começar a implementar no Novo México, numa das suas bases que testam foguetões e a compatibilidade de materiais, pois necessitam, sendo locais remo tos, de serem auto-sustentáveis em termos energéticos e de sanea mento e limpeza de resíduos. Em suma, depois da execução deste projecto, as Berlengas deverão surgir de cara lavada e com melhores condições para compatibili- zarem as prioridades da conservação da Natureza com um uso turístico sustentável e de qualidade. E aí, conforme desejo da autarquia de Peniche, poder ter condições para ser aceite pela UNESCO como uma preciosa Reserva da Biosfera. No entanto, mesmo com este trabalho bem feito, há que estar atento ao futuro. Se outros perigos não surgirem e as Berlengas se tornarem sustentáveis pode dar-se sempre o caso de um herdeiro de D. Lucas Telmo de Midões, como na comédia de Artur Semedo, querer empossar-se rei das Berlengas... ■ | 51 Os petiscos do fado Roteiro | David Lopes Ramos Fotografia | CA, produções fotográficas O fado de Lisboa não é de grandes comedorias. Sendo «o rigoroso» exige tinto, e do carrascão, a acompanhar. Se for daquele mais à moda, uma sangria estará bem. Dos sólidos escolher-se-ão comidas que nos lembrem a pátria marítima: bacalhau, peixes, um ou outro marisco. Coisas da «cozinha tradicional portuguesa». Nas carnes, e como estamos em Lisboa, dêmos passagem aos bifes. Bom proveito. F ado e comida são temas de desgarrada? São dois da vida airada? Ou será mais prudente não misturar uma coisa com a outra, «à cause des mouches»? Como se sabe, mesmo que não se saiba muito sobre o assunto, como se passa comigo, o fado, sobretudo caso se trate de «o rigoroso», necessita de «clima», quer dizer, de «silêncio que se vai cantar o fado!» A comida, por seu lado, se tiver aromas capi- tosos e sabores apurados, pode suscitar um estado de quase euforia, susceptível de fazer nascer algum ruído de fundo. Também é verdade, no entanto, que as casas de fado mais institucionais (chamemos-lhe assim para as distinguirmos das casas de «fado vadio») incluem na sua oferta o jantar. Não é obrigatório, mas costuma ser um momento simpático de uma «ida aos fados». Não se vá com altas expectativas culinárias. Não se espere um encontro com uma comida de grande sofisticação. A generalidade das casas de fado lisboetas colocam a sua oferta culinária sob o chapéu da «cozinha tradicional portuguesa». Nada a objectar, sobretudo caso se tenha em conta, como se lê no site www.fado.com, que «o fado não é apenas uma canção acompanhada à guitarra. É a própria alma do povo português. Ouvindo as palavras de cada fado pode sentir-se a presença do mar, a vida | 53 dos marinheiros e pescadores, as ruelas e becos de Lisboa, as despedidas, o infortúnio e a saudade. A grande companheira do fado é a guitarra portuguesa. Juntos, fado e guitarra, contam a essência de uma história ligada ao mar. «O fado, por ser de todos os portugueses, está na taberna e no salão aristrocrático. Surgido na primeira metade do século passado (xix), depressa se tornou na canção popular de Lisboa. Desde então manteve a sua característica de expressão de sentimentos associados à fatalidade do destino. O fado está marcado pelo phatos das tragédias da Grécia clássica. A canção emblemática de Lisboa é também indissociável dos seus bairros mais típicos. Alfama, Bairro Alto, Madragoa e Mouraria são os seus mais autênticos berços. Por esta razão, ouvir o fado é conhecer Lisboa. É também conhecer os portugueses, no mais profundo da sua alma de povo que enfrentou o mar desconhecido». Se a pretensão fosse fazer ironia pouco inspirada, acrescentar‑se ‑ia que é certamente em razão desta ligação marítima que a oferta de comida das casas de fado é maioritariamente constituída por pratos de bacalhau, polvo, tamboril, lulas, marisco, caldeirada e cataplanas de vários peixes. Nas carnes, saliência para alguns bifes, para o presunto, sobretudo pata negra, cabrito assado no forno, favas guisadas com enchidos, coelho guisado, carne de porco parente daquela à moda das Mercês, especialidades de carne de porco preto para grelhar, carne de vaca e de vitela assadas no forno. Uns caldos, em particular de peixes, de mariscos e caldo verde, bem como uns queijos, sobretudo o da Serra ou aparentado, mais uns doces, entre eles o leite creme, o arroz doce, trouxas de ovos, seri- com alegria, porque estava muito bom. Mais recentemente, uma noite, na Parreirinha de Alfama, dessa grande senhora que é dona Argentina Santos, uma das mais originais e sabedoras vozes do fado, que transformou o que poderia ser encarado como um defeito, a pronúncia deficiente dos erres, numa mais valia da sua forma de cantar, comi uns excelentes linguadinhos fritos com um arroz de legumes belíssimos. Nos começos desta casa de fados emblemática da cidade de Lisboa, dona Argentina Santos, além de cantar, encarregava-se ela própria da confecção da petisqueira. Uma pergunta retórica Mas há uma gastronomia lisboeta? A avaliar pelo que está publicado sobre o tema, pode reconhecer-se que sim. Mais, está até codificada. Por exemplo, Alfredo Saramago, no final do século passado, dedicou-lhe uma obra em formato grande, e, depois, já no século xxi, em 2002, publicou um ensaio sobre o mesmo tema, «Para uma História da Alimentação em Lisboa e seu Termo». Ambos os livros foram editados pela Assírio & Alvim. Neste último, no capítulo «Lisboa, no controverso século xx», Alfredo caia, encharcada, toucinho do céu ou pudim de Abade de Priscos, entre outros. Saramago, ao enunciar as casas de comer da capital, escreve a dado passo: «Além de todas estas casas e de outras que ficaram de fora desta larga enumeração, havia ainda os retiros das hortas, mais frequentados aos domingos por amantes de petiscos e de fado, onde se comia peixe frito, carapaus e peixe-espada, bifes avinagrados e boa salada de alface. Os vinhos era do Termo ou do Cartaxo. Célebres ficaram os retiros «Perna de Pau», onde oficiava a Tia Gertrudes, e o «Zé dos Patacos», mas havia outros no Areeiro, Campo Grande, Campolide, Xabregas, Calçada de Carriche, etc..(...)». Não sou grande frequentador de casas de fado. Há uns anos largos, a agora famosa Mariza dava os seus primeiros passos no Senhor Vinho, onde a diva era (é) Maria da Fé, comi um arroz de bacalhau, amêijoas e grelos, de que me lembro, não direi com saudade, mas No início dos anos 90 do século passado, José Quitério, no âmbito do «4º Concurso de Gastronomia de Lisboa», integrado nas Festas de Lisboa 93, elaborou, sobretudo a partir das obras Culinária Portuguesa, de António Maria de Oliveira Bello (OLLEBOMA) e 54 | RESTAURANTES A SEVERA Rua das Gáveas, 55 (Bairro Alto) Telefone: 213 428 314; www.asevera.com A TASCA DO CHICO Rua do Diário de Notícias, 39 (Bairro Alto) Telefone: 213 431 040 A TAVERNA d’EL REI Largo do Chafariz de Dentro, 14 (Alfama) Telefone: 218 876 754; www.tavernadelrei.com ADEGA MACHADO Rua do Norte, 91 (Bairro Alto) Telefone: 213 224 640 ADEGA MESQUITA Rua Diário de Notícias, 107 (Bairro Alto) Telefone: 213 192 280 CAFÉ LUSO Cozinha Tradicional Portuguesa, de Maria de Lourdes Modesto, uma lista de pratos de Lisboa. Ei-la: Travessa da Queimada, 10 (Bairro Alto) Petiscos: fava-rica; peixinhos da horta; pastéis de bacalhau; peixinhos de escabeche (carapauzinhos, petinguinhas e sardinhas das mais pequenas); pipis. Sopas: sopa de camarão; sopa de amêijoas; sopa de ostras; sopa rica de puré de peixe; sopa à Tia Gertrudes da «Perna de Pau». Mariscos: amêijoas à Bulhão Pato; santola recheada; ostras recheadas à lisboeta. Bacalhau: meia-desfeita; pataniscas; filetes de bacalhau; bacalhau à Brás; bacalhau guisado à Lisboa Antiga; bacalhau à Batalha Reis. Outros peixes: caldeirada à fragateiro; pescada em salmão; linguados com recheio de camarão; filetes de linguado fritos à lisboeta; salmonetes com alcaparras; filetes de polvo fresco; canoa de pargo; canoa de pescada; pudim de peixe com macarrão; pudim de pescada quente. Caça: lebre à Bulhão Pato; perdizes à Convento de Alcântara. Bifes: bife à Marrare; bife à Jansen; bife à Faustino; bife à cortador; bife enrolado à lisboeta; bife na frigideira de barro; bife com molho de queijo. Outras carnes: iscas com elas; favas guisadas com enchidos; ervilhas com paio e ovos; chispalhada; mão de vaca com grão (ou feijão branco). O CANTO DO CAMÕES Os doces foram deixados de fora, uma vez que «a doçaria de Lisboa é escassa». Argumenta Quitério: «Actualmente, perdida a doçaria conventual dos antigos mosteiros da cidade – e até alguma doçaria profana como os Cocós – os únicos doces que se podem consi derar verdadeiramente de Lisboa são os pastéis de nata («pastéis de Belém» é uma marca registada) e dois tipos de broinhas de Natal. O que é manifestamente insuficiente para que esta cate- goria possa integrar o concurso». Tudo visto, poderia desejar-se que, nas suas ementas, as casas de fado reflectissem, de forma mais expressiva, o que Lisboa tem para oferecer neste capítulo. Embora, bem vistas as coisas, os frequentadores das casas de Lisboa onde se canta o fado não vão lá por causa da comida. Assim sendo, a oferta quase unânime de «comida tradicional portuguesa» está bem. ■ Telefone: 213 422 281; www.cafeluso.pt Travessa da Espera, 38 (Bairro Alto) Telefone: 213 465 464; www.cantodocamoes.com CASA DE LINHARES/BACALHAU DE MOLHO Beco dos Armazéns de Linho, nº 1 (Alfama) Telefone: 218 863 767; www.casadelinhares.com CLUBE DE FADO Rua de São João da Praça, 92-94 (Alfama) Telefone: 218 852 704; www.clube-de-fado.com FAIA Rua da Barroca, 48 (Bairro Alto) Telefone: 213 426 742; www.ofaia.com/ PARREIRINHA DE ALFAMA Beco do Espírito Santo, 1 (Alfama) Telefone: 218 868 209 SENHOR VINHO Rua do Meio à Lapa, 18 (Madragoa) Telefones: 213 972 681/213 977 456 TIMPANAS Rua Gilberto Rola, 24 (Alcântara) Telefone: 213 906 656 VELHO PÁTEO DE SANT’ANA Rua dr. Almeida Amaral, 6 (Campo de Santana) Telefone: 213 141 063/4 | 55 ARTEMREDE TEATROS ASSOCIADOS juntos > mais fortes Catarina Vaz Pinto* As redes de teatros são uma realidade já com vários anos na generalidade dos países europeus, mas, no nosso país, este modelo organizativo tem uma história recente, pois só há pouco tempo o país viu surgir, de norte a sul do território, numerosas infra-estruturas culturais financiadas quase sempre com recurso aos fundos estruturais europeus. Na Região de Lisboa e Vale do Tejo, a CCDR-LVT desde logo se preocupou com a actividade dos equipamentos cuja construção financiara, tendo decidido, por isso, promover, em 2003, a realização de um estudo que identificasse os meios e instrumentos mais adequados à dinamização, qualificação e criação de condições de sustentabilidade dos teatros municipais. Esse foi o início de um longo processo, ainda em curso, de sensibilização e debate sobre o papel dos teatros municipais no desenvolvimento regional, bem como de qualificação das suas práticas de programação, de gestão, difusão e relação com os públicos e que deu origem à constituição, em Janeiro de 2005, da ARTEMREDE – Teatros Associados, rede formal actualmente constituída por 15 municípios e uma escola: Abrantes, Alcanena, Alcobaça, Almada, Almei rim, Barreiro, Caldas da Rainha, Cartaxo, Entroncamento, Moita, Montijo, Palmela, Santarém, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e o Externato Cooperativo da Benedita. A partir de Janeiro de 2009 juntar-se-á também Sesimbra. A ARTEMREDE é uma estrutura associativa que vem complementar, reforçar e apoiar a actuação de cada um dos seus membros relativamente aos teatros de que são proprietários. As actividades da associação são financiadas através das quotas dos seus membros – quotas de funcionamento e de programação – e da angariação de outros financiamentos disponíveis para projectos culturais, nomea damente no FEDER e no Programa Foral, angariação essa que constitui um das principais mais-valias deste trabalho em rede. Já com três anos e meio de vida, a ARTEMREDE tem concen trado a sua actuação no domínio da programação de espec táculos, da formação e da promoção da «cultura de rede». A programação de espectáculos é elaborada em conjunto pela direcção-executiva da associação e pelos responsáveis de programação de cada um dos teatros associados. Até Setembro de cada ano é elaborado um catálogo de espectáculos que integra projectos (para 2009, inclui 88) 56 | de música, teatro, dança, multidisciplinares, artes circenses, cinema, público infantil e juvenil, seleccionados pela direc ção executiva da ARTEMREDE (cerca de 45%) e pelos próprios associados. Serão no ano seguinte financiadas e apresentadas através da ARTEMREDE as propostas escolhidas por, pelo menos, quatro associados, no caso dos. projectos nacionais e cinco quando estrangeiros.. A escolha deve incluir pelo menos um espectáculo de companhias profissionais sedeadas nos municípios que integram a associação. Este é um dos mecanismos que viabiliza o acesso das companhias locais a circuitos de difusão mais alargados. A elaboração deste catálogo é um processo em constante avaliação e mudança: tem-se procurado evoluir no sentido da qualificação dos espectáculos a apresentar, da oferta cada vez maior de espectáculos internacionais, do desenvolvimento de projectos educativos associados aos espectáculos, através de um conjunto cada vez maior de oficinas que têm como objectivo qualificar as condições de recepção dos espectáculos, formar e fidelizar públicos; da construção de núcleos temáticos de programação, concentrados no tempo, que permitem integrar um maior número de associados, atrair mais público, induzir a visibilidade acrescida e reforço da imagem da associação. A «Festa da Marioneta», este ano já na sua 2ª edição, é o exemplo paradigmático deste tipo de iniciativa. Para além dos espectáculos seleccionados através do catálogo, uma parte mais reduzida do orçamento de programação (cerca de 25%) é utilizada para apresentação de espectáculos em co-produção com os teatros nacionais ou outros organismos não pertencentes à ARTEMREDE, para apresentação de extensões de festivais de prestígio e tradição realizados nalguns dos municípios associados (caso do Cistermúsica, em Alcobaça, ou do Festival de Teatro de Almada) e também para promover novas criações. Em 2007, a ARTEMREDE convidou o coreógrafo Rui Lopes Graça a criar uma nova obra, «A Arte da Fuga», que integrou bailarinas das companhias profissionais de dança de Palmela, Sintra e de Almada e foi apresentada em 10 teatros associados. Em 2008, a ARTEMREDE encomendou a criação do espectáculo de marionetas «Xerazade não está só!», a integrar na «Festa da Marioneta», tendo a actriz Carla Chambel como principal protagonista. O espectáculo vai circular, a partir de Outubro, em 14 teatros da rede. Estas iniciativas são fundamentais para integrar a ARTEMREDE nos circuitos nacionais e internacionais da produção e difusão de espectáculos, para legitimar a associação como agente inquestionável no domínio das artes no nosso país e com isso, valorizar também a actuação e a imagem das autarquias que a integram. No campo da formação, a ARTEMREDE iniciou em 2006 um vasto e ambicioso projecto de qualificação dos profissionais dos teatros associados, que abrangeu acções de formação nas áreas técnica, de gestão e artística, e que tem procurado responder, quer às inúmeras carências detectadas, quer às necessidades permanentes de actualização nestes domínios. O Plano de Formação, que ascende a cerca de de 380.000 ¤, inclui 14 cursos, envolvendo cerca de 328 formandos. Mas talvez a característica mais interessante da ARTEMREDE seja a da inovação que, através das inúmeras reuniões e en contros, da formação, da utilização intensiva da tecnologia e da comunicação on line, tem vindo a introduzir nas meto dologias de trabalho e de organização entre todos aqueles – artistas, responsáveis políticos, mediadores, técnicos – que estão envolvidos neste longo e complexo processo que vai desde a criação e produção de um espectáculo até à sua recepção pelo público. Inovação essa que radica na consciên cia de que só através de uma nova atitude de escuta, de espí rito de colaboração, de negociação, de partilha, se poderão ultrapassar as imensas dificuldades que as circunstâncias do mundo, das cidades e de cada um de nós continuam a colocar ao quotidiano dos teatros municipais. ■ Saiba mais em www.artemrede.pt * consultora | 57 MÚSICA TEATRO Kumpania Algazarra Sábado, 05 novembro | a definir Torres Vedras Duração Espectáculo: 85min. s/ intervalo | Público Alvo: Geral | Faixa Etária: m/6 anos Género Artístico: Música do Mundo Uma animada viagem ao encontro de diferentes sonoridades que cruza influências da música folk de leste, árabe, afro com ska, polka, swing, entre outros. A originalidade na fusão, a energia das letras e as melodias vibrantes contribuem para o ambiente festivo que os Kumpania Algazarra levam ao palco. Um espectáculo contagiante! Kumpania Algazarra Direitos Humanos Quinteto Lusotango com Bailarinos Direitos Humanos Sábado, 08 novembro | 21h30 Teatro Sá da Bandeira, Santarém Quarta, 10 dezembro | 10h10 Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita Quinta, 27 novembro | 21h30 Cine-Teatro São Pedro, Abrantes Sexta, 12 dezembro | 21h30 Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo Sábado, 29 novembro | 21h30 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo Sábado, 13 dezembro | 21h30 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Quinta, 18 dezembro | 22h00 Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita Domingo, 14 dezembro | 16h00 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo Duração espectáculo: 70min. s/ intervalo | Público alvo: geral | Faixa etária: m/3 anos Duração espectáculo: 70min. s/ intervalo | Lotação máxima: 200 espectadores Género artístico tango argentino [música + dança] Público alvo: geral | Faixa etária: m/6 anos | Género artístico: mímica Astor Piazzolla representa uma referência no tango, uma inovação, um engrandeci- Um espectáculo de mímica que aborda alguns dos Artigos dos Direitos Humanos mento na cultura musical Argentina e do mundo ocidental. Piazzola foi um aprovados pela ONU em 1948. Seguindo o estilo muito próprio de Carlos Martínez, bandeonista e compositor argentino. Segundo muitos especialistas, foi o compositor DIREITOS HUMANOS é uma reflexão, em tom cómico, sobre a experiência humana de tango mais notável da segunda metade do século xx. Estudou harmonia e música e suas carências que se transporta para o mundo cénico, onde, através da sua erudita com a compositora e directora de orquestra francesa Nadia Boulanger que foi linguagem de compreensão universal dá vida a este tema de importância elementar. Quinteto Lusotango aluna de Sergei Rachmaninoff. Na sua juventude, tocou e realizou arranjos orquestrais para o bandoneonista, compositor e director Aníbal Troilo. Quando começou a fazer inovações no tango, no ritmo, no timbre e na harmonia, foi muito criticado pelos tocadores de tango mais antigos. Ao voltar de Nova Iorque, Piazzolla já mostrava a forte influência do Jazz na sua música, estabelecendo então uma nova linguagem, seguida até hoje. Quando os mais ortodoxos, durante a década de 60, bradaram que a música dele não era de facto tango, Piazzolla respondia-lhes que era música contemporânea de Buenos Aires. Para os seus seguidores e apreciadores, essa música certamente representava melhor a imagem da metrópole argentina. 58 | Carlos Martínez Interieur Nuit_ © Eleonore Dumas MULTIDISCIPLINAR Interieur Nuit_ de Jean-Baptiste André [Association [W]] Segunda, 01 dezembro | 17h00 Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita Quinta, 04 dezembro | 21h30 Cine-Teatro São Pedro, Abrantes Sábado, 06 dezembro | 21h30 Cine-Teatro de Alcobaça, Alcobaça Segunda, 08 dezembro | 21h30 Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo Quinta, 11 dezembro | 22h00 Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, Moita Sábado, 13 dezembro | 21h30 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo Grão de Bico © Ângelo Fernandes Terça, 16 dezembro | 21h30 Teatro Sá da Bandeira, Santarém CRIANÇAS E JOVENS Quinta, 18 dezembro | 21h30 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Grão de Bico Sábado, 20 dezembro | 21h30 Teatro Municipal de Almada, Almada Teatro O Bando Duração espectáculo: 60min. s/ intervalo | Público alvo: geral | Faixa etária: m/6 anos Sábado, 20 dezembro | 10h00 Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha Concebido com a colaboração de Jacques Bertrand e Christophe Sechet, esta Duração Espectáculo: 50min. s/ intervalo | Lotação máxima: 60 espectadores Público alvo: Infantil [dos 3 aos 7 anos] | Faixa etária: m/3 anos | Género artístico: Teatro Observações: Espectáculo realizado numa tenda, implantada no Palco ou num outro local com as condições mínimas para a acolher [ver Rider Técnico] Será possível contar teatralmente as peripécias de uma aventura que intrigue meninos de três anos e homens e mulheres, mais novos e mais velhos, com idêntica e saborosa cumplicidade? Baseado num conto de tradição oral, que nos revela inúmeras versões, este grão de bico é recriado num ambiente intimista, no qual o multimédia estabelece a ponte para lá do [in]visível, entre o espectador e a sua imaginação. Género artístico: acrobacia + dança + música + vídeo é a primeira criação de Jean-Baptiste André, uma obra inovadora, na fronteira de diferentes disciplinas artísticas. O artista utiliza movimentos corporais, a contorção, a coreografia e o vídeo para nos oferecer uma bela peça, que assenta nos conceitos de equilíbrio e de espaço. O público é levado a interrogar-se sobre a relação entre o tempo e o espaço, o interior e o exterior, o real e o imaginário. Jean-Baptiste André mistura, com sucesso, as artes do circo à dança, ao teatro, ao vídeo e à música electrónica, conduzindo a uma pesquisa do corpo e das suas metamorfoses. Palhaço e acrobata, o artista leva ao extremo os limites do corpo, não pelas proezas que executa no palco, mas sobretudo pelas questões sugeridas pelos seus movimentos. INTÉRIEUR NUIT_ é mais do que um simples espectáculo: é uma experiência a ser vivida pelo espectador, um momento de intimidade e de proximidade para ser partilhada. | 59 Sombras Mágicas OFICINAS Dos Sons Nascem Histórias Miguel Horta Quinta, 04 dezembro | 10h30 | 14h30 Teatro Sá da Bandeira, Santarém Duração espectáculo; 90min. s/ intervalo | Lotação máxima: 25 participantes Público alvo: adulto | Faixa etária: m/55 anos | Género artístico: música + escrita criativa | Observações: a lotação máxima refere-se ao número ideal de participantes. São realizadas 2 sessões por dia. Partindo dos sons recolhidos neste universo que habitamos, inventamos histórias, sugeridas por ilustrações auditivas. Pequenos excertos sonoros do nosso quotidiano que nos vão servir de inspiração para a criação de textos e das suas ilustrações. O material base é simples. Um processador «Midi» que alberga a nossa biblioteca de sons, matéria de onde faremos nascer os nossos contos. Numa época demasiado povoada por imagens, um espaço de recolhimento criador através dos sons e da sua capacidade de redesenhar o mundo. Sombras Mágicas [Oficina associada ao espectáculo As Sombras de Bradshaw, de Richard Bradshaw] Sábado, 01 novembro | 16h00 Auditório Municipal do Pinhal Novo, Palmela Sábado, 08 novembro | 16h00 Biblioteca Municipal de Palmela, Palmela Domingo, 09 novembro | 10h30 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Segunda, 10 novembro | 10h00 Teatro Sá da Bandeira, Santarém Quinta, 13 novembro | 14h30 Fórum Municipal Romeu Correia, Almada Sábado, 15 novembro | 11h00 Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo 2h | Máx. 12 participantes ou 1 turma | Dos 6 aos 8 anos ou dos 9 aos 12 anos Monitor: Cristina do Aido, Rui Pedro Pinto Descobrir a magia das sombras. Compreender como o objecto e a luz se relacionam entre si e com o que está mais próximo e com o que está mais distante. A partir de uma imagem, uma música, uma breve história, um poema ou uma palavra, criar e construir personagens sombra que como no teatro ganham uma vida própria na luz. Conhecer os segredos da animação e as várias técnicas de sombras animadas. Testar as sombras construídas. 60 | Construção de Monstros Marinhos Uma Serpente Bem Perigosa! Domingo, 02 novembro | 14h00 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Sábado, 08 novembro | 16h00 Centro Cultural do Poceirão, Palmela Sábado, 15 novembro | 16h00 Jardim José Maria dos Santos - Antigo Posto GNR do Pinhal Novo, Palmela Domingo, 09 novembro | 16h00 CoopHanjo, Palmela Sábado, 22 novembro | 10h00 | 14h00 Fórum Municipal Romeu Correia, Almada Domingo, 16 novembro | 16h00 Grupo Desportivo «Leões» de Cajados, Palmela Sábado, 06 dezembro | 16h00 Centro Cultural do Poceirão, Palmela Sábado, 29 dezembro | 16h00 Biblioteca Municipal de Palmela, Palmela Domingo, 07 dezembro | 10h00 Teatro-Cine de Torres Vedras, Torres Vedras Domingo, 30 novembro | 16h00 Jardim José Maria dos Santos - Antigo Posto GNR do Pinhal Novo, Palmela Quarta, 10 dezembro | 09h00 Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes Sábado, 06 dezembro | 15h30 Teatro-Cine de Torres Vedras, Torres Vedras Sábado, 13 dezembro | 15h00 Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro Terça, 18 dezembro Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha Quinta, 18 dezembro Bibilioteca Municipal de Alcobaça, Alcobaça 1h30 | 25 participantes | dos 6 aos 9 anos | Monitor: Miguel Horta [+ 1 monitor para apoio] [Oficina associada ao espectáculo Xerazade] 4h | 30 participantes | M/6 anos Esta oficina consiste na colocação do jovem em contacto com uma realidade criativa distinta onde, para se alcançar a dramatização, se passa pela construção do objecto cénico; ou seja, a marioneta. Esta marioneta, de estrutura simples, evoca o imaginário dos monstros marinhos que povoaram e ainda estão presentes nos mapas marítimos e na mente dos marinheiros em confronto com o desconhecido do mar. E como a imaginação não tem fim, estes monstros podem povoar todas [Oficina associada ao espectáculo Xerazade] Baseada numa passagem da história, uma oficina de construção plástica de uma personagem, uma temível serpente. Pelo meio, a leitura das partes mais arrepiantes do encontro de Sinbad com aqueles terríveis répteis... Um trabalho colectivo com diversos materiais que servirá de memória para um dia bem passado no Teatro. Oficina de construção de uma das temíveis serpentes que aparecem na história. Um trabalho colectivo em torno de uma serpente de 4 metros [pelo menos]. Uma actividade que começa com a leitura de algumas partes do livro onde se referem as serpentes. Feita a serpente: segue para a escola bem guardada pelo público. as mentes. Cada jovem constrói a sua própria marioneta, sendo a mesma um ponto de [Nota: os tempos de secagem serão ocupados com leitura de algumas partes do livro] partida para um projecto mais alargado em torno de histórias que abordem a Monstros Marinhos presença do monstro marinho. [Oficina associada ao espectáculo Xerazade] Sábado, 01 e 08 novembro Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Terça a Quinta, 04 a 06 novembro | 09h00 Cine-Teatro São Pedro, Abrantes Domingo, 16, 23 e 30 novembro | 14h30 Fórum Municipal Romeu Correia, Almada Terça a Quinta, 25 a 27 novembro | 16h00 Biblioteca Municipal do Sobral de Monte Agraço, Sobral de Monte Agraço Quarta a Sexta, 17 a 19 dezembro | 14h00 Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha 12h | 20 participantes | M/6 anos | Observações: 3 sessões de 4h cada Esta oficina é constituída por três fases distintas: 1ª fase: Consiste na construção de uma marionetas de esponja, cuja personagem será um monstro marinho reinventado pelo seu criador, tendo por base um conjunto de ilustrações e gravuras presentes nos mapas de navegação. 2ª fase: Consiste na dramatização de uma cena colectiva, onde se explora a manipulação das marionetas, o jogo teatral e o imaginário das aventuras de Sinbad o Marinheiro. 3ª fase: Apresentação da estrutura teatral dos formandos no final das sessões aberta ao público. | 61 Croma Key Técnicas de Vídeo e Animação [Oficina associada ao espectáculo Xerazade] Sábado, 08 novembro | 14h30 às 17h30 Sábado, 15 e 22 novembro | 10h00 às 13h00 | 14h300 às 17h30 Museu da Cidade, Almada Segunda a Quarta, 15 a 17 dezembro Biblioteca Municipal de Alcobaça, Alcobaça 15h | 12 participantes por grupo | Dos 9 aos 12 anos | Monitor: Raul Constante Pereira, Fernando Silva | Observações: 5 sessões de 3h cada Vamos fazer um mergulho no universo marinho da história de Xerazade e, em conjunto, reinventar um novo mundo. Utilizaremos a escrita, o desenho e a pintura. Tudo o que tivermos à mão mais uma boa dose de imaginação. Construir e animar objectos e bonecos que vão interpretar a nossa história de encantar. Faremos uma filmagem da aventura desenhada por cada participante de Alcobaça e Almada. No fim, teremos um filme feito com a soma dos momentos realizados em cada local. Vamos fazer uma apresentação para todos poderem ver. Um Gesto é Tudo [Oficina associada ao espectáculo Direitos Humanos, de Carlos Martínez] Quinta, 12 novembro | 10h00 Fórum Municipal Romeu Correia, Almada 2h | Máx. 12 participantes ou 1 turma | Dos 9 aos 12 anos Monitor: Anabela Almeida, Natália Vieira Nesta oficina, vamos fazer uma abordagem aos conceitos considerados na Declaração Universal dos Direitos Humanos recorrendo a um excerto da apresentação de Carlos Martinez e a imagens que contextualizam o assunto. Experimentar outras formas de «dizer» os nossos Direitos e Deveres e como esses direitos se traduzem na nossa vida quotidiana. Realizar breves exercícios de mímica e aproximação à imagem do mimo. Gestos, expressões e sentimentos associados aos direitos humanos. Falar sem voz. Dizer que queremos tudo a que temos direito. Tudo com gestos. Porque o gesto é tudo. Módulo de Teatro de Sombras [Oficina associada ao espectáculo As Sombras de Bradshaw, de Richard Bradshaw] Sexta, 21 e 28 novembro | 20h00 às 23h30 Sábado, 22 novembro | 09h30 às 12h30 | 13h30 às 19h30 Sábado, 29 novembro | 09h30 às 12h30 | 13h30 às 20h30 Centro Cultural e Congressos das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha 25h | Máx. 20 participantes | Público Alvo: Professores | Monitor: Walter Ramos Almeida, Irene Cortesão Costa | Observações: 6 sessões Conteúdos trabalhados: Expressão motora; Expressão musical; Expressão plástica; Conteúdos pedagógicos trabalhados transversalmente. Mimos para Pais e Filhos Diário de Bordo [Oficina associada ao espectáculo Xerazade] Quarta e Quinta, 19 e 20 novembro | 10h00 Fórum Municipal Romeu Correia, Almada Segunda, 01 dezembro | 17h00 Cine-Teatro do Sobral de Monte Agraço, Sobral de Monte Agraço [Oficina associada ao espectáculo Direitos Humanos, de Carlos Martínez] Sábado, 13 dezembro | 10h30 Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo Domingo, 14 dezembro | 11h00 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo 1h30 | 25 participantes | Dos 8 aos 9 anos | Monitor Miguel Horta [+ 1 monitor para apoio] Domingo, 14 dezembro | 16h00 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Após o espectáculo, uma pequena oficina de ilustração a partir de trechos da obra 2h | Máx. 14 participantes [acompanhados por 1 ou 2 adultos] | Dos 3 aos 5 anos com leitura de algumas passagens. Uma forma de cimentar e reflectir os conteúdos da peça registando-os em desenho num pequeno caderno preparado para a ocasião. Uma espécie de diário de bordo onde os nossos espectadores, feitos marinheiros, registarão as maravilhas e o assustador que viveram a bordo do barco de Sinbad. Uma actividade baseada no texto «original» da peça. Em cada página, no topo, o trecho das «Mil e uma noites» referente a cada passagem da peça, com um grande espaço em branco para ilustração do momento referido. Por fim, um desafio de escrita: a carta do Rei das Índias ao Califa. Como conseguirias convencer o Califa a tornar-se aliado e amigo do Rei das Índias. O que tens para lhe oferecer? O que podem trocar dois países tão distantes? O que existe na Arábia que não existe na Índia?... No final, cada participante levará consigo o diário de bordo da peça. 62 | Monitor: Margarida Mestre Oficina de movimento e voz, onde pais e filhos experimentam e partilham a linguagem do corpo e do gesto e a sua condição no espaço. A partir de uma pequena apresentação em vídeo do trabalho do artista Carlos Martínez, os participantes serão convidados a experimentar exercícios de movimento e mímica num jogo criativo de comunicação. Inventar sítios mágicos e representá-los tendo como instrumento o próprio corpo e como partitura os conceitos presentes na Declaração Universal dos Direitos do Homem. No fim, em conjunto, vamos construir uma pequena coreografia de movimentos de pais para filhos, de filhos para pais e com pais e filhos. Theatrum Puparum © SAM FESTA DA MARIONETA Theatrum Puparum Pedro e o lobo Domingo, 02 novembro | 16h00 Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro Quinta, 13 novembro | 10h30 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo Terça, 04 novembro | 10h30 Teatro Sá da Bandeira, Santarém Sábado, 15 novembro | 16h00 Centro Cultural do Poceirão, Palmela Domingo, 09 novembro | 17h00 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Sexta, 21 novembro | 10h30 Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes Duração: 60min. s/ intervalo | Faixa etária: m/5 anos | Lotação máxima: 80 espectadores Sábado, 22 novembro | 11h00 Teatro-Cine de Torres Vedras, Torres Vedras Marionetas de varão «Por ordem do senhor destas terras que as funções sejam feitas de acordo com a verdade dos acontecimentos e que os bonecos representem fielmente as damas e os senhores dessas historias. Os animadores dos bonecos durante as funções estão proibidos de fazer graças sobre a pessoa do rei e da rainha, das damas, dos cavaleiros e dos senhores dessas historias, ou mesmo ao senhor nosso pai, sobe pena de lhes ser retirada a licença para animar bonecos ou receber um castigo maior citado pelo rei ou pelo senhor destas terras.» Teatro e marionetas Domingo, 23 novembro | 16h00 Cine-Teatro, Sobral de Monte Agraço Duração: 30min. s/ intervalo | Faixa etária: m/4 anos Uma extravagante família de saltimbancos conta e vive a história de Pedro e o Lobo por meio de música, dança, teatro e números de circo. | 63 Quinta, 13 novembro | 15h00 Centro Cultural Gonçalves Sapinho, Externato Cooperativo da Benedita Sexta, 14 novembro | 21h30 Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo Xerazade não está Só! Sábado, 15 novembro | 16h00 Auditório Fernando Lopes Graça, Almada Sábado, 01 novembro Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Duração: 60min. s/ intervalo | Faixa etária: m/6 anos | Lotação máxima: 300 espectadores Teatro e marionetas Domingo, 09 novembro | 16h00 Teatro Sá da Bandeira, Santarém Domingo, 16 novembro | 16h00 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo Sexta, 21 novembro | 21h30 | Domingo, 23 Novembro | 11h00 Auditório Fernando Lopes Graça, Almada Sábado, 29 novembro | 21h30 Cine-Teatro São João, Palmela Duração: 60min. s/ intervalo | Faixa etária: m/6 anos Duas jovens refugiam-se num improvisado abrigo anti-aéreo, algures, numa cidade não identificada do Médio-Oriente. São irmãs e sabem que têm a vida em perigo pela vontade caprichosa dos que lutam pela posse da cidade. Para vencer o medo e o tempo, Xerazade, a mais velha, conta à irmã histórias maravilhosas, quando todas as aventuras da fantasia eram possíveis. Concentradas nas viagens de Sindbad, o Marinheiro, esquecem onde estão. O abrigo transfigura-se. Os marionetas ganham humanidade, tanto como os que se guerreiam, lá fora, são marionetas. Livremente inspirado em episódios das «Mil e uma Noites», que teve por cenário uma Bagdad deslumbrante, António Torrado escreveu esta peça para actores e marionetas que terá como fundo musical trechos da «Xerazade» de Rimsky- Korsakov [1844-1908], no centenário da morte do grande compositor russo. As Sombras de Bradshaw Teatro de Sombras Sexta, 07 novembro | 21h30 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Sábado, 08 novembro | 21h30 Cine-Teatro São João, Palmela Domingo, 09 novembro | 16h00 Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro Terça, 11 novembro | 14h00 Teatro Sá da Bandeira, Santarém 64 | Domingo, 16 novembro | 16h00 Centro Cultural e Congressos de Caldas de Rainha, Caldas da Rainha O australiano Richard Bradshaw utiliza o seu grande génio para cativar o público com as suas imagens elaboradas. As suas marionetas são criaturas simples e delicadas capazes de múltiplas transformações que ajudam este genial narrador a criar um mundo repleto de ilusões num pequeno quebra-luz. Estas maravilhosas personagens acompanham histórias tradicionais, canções e brincadeiras com movimentos surrealistas para agradar ao público. O espectáculo é composto por várias curtas histórias sobre animais e personagens curiosas. P’tit Jojo, Sac au Dos [Pequeno Jojo de Mochila às Costas] Teatro de Marionetas Sábado, 08 novembro | 10h30 e 11h30 Auditório Municipal do Pinhal Novo, Palmela Domingo, 09 novembro | 15h00 e 16h00 Sobral de Monte Agraço | Cine-Teatro Terça, 11 novembro | 10h30 e 11h30 Cine-Teatro S. Pedro, Abrantes Quinta, 13 novembro Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Sábado, 15 novembro | 10h30 e 11h30 Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, Moita Domingo, 16 novembro | 16h00 e 17h30 Auditório Mun. Augusto Cabrita, Barreiro Terça, 18 novembro | 13h45 e 15h00 Cine-Teatro de Alcobaça, Alcobaça Duração: 40min. s/ intervalo| Faixa etária: dos 2 aos 6 anos Lotação máxima: 120 espectadores O pequeno Jojo sonha com monstros terríveis com grandes dentes pontiagudos. Para enfrentar os seus medos, ele parte em viagem pelo mundo, à procura de outras pessoas e dos seus medos. Para contar esta história são precisas poucas palavras. De realçar a qualidade visual e a riqueza musical [Mahler, Fauré, Satie, Prokofiev, Cabaret Molotov © Paulo Barata Propriedade CCDR‑LVT Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo Rua Artilharia 1, nº 33 – 1269‑145 Lisboa Tel.: 21 383 71 00 | Fax: 21 383 12 92 www.ccdr‑lvt.pt Director António Fonseca Ferreira Director executivo Carla Gomes Fo t o g r a f i a s : G u t o F e r r e i r a [ c a p a e c o n t r a c a p a ] Projecto editorial, design e produção DDLX [www.ddlx.pt] José Teófilo Duarte [Direcção] Eva Monteiro | Tânia Reis [Design] Rui Cardoso [Contacto] Cabaret Molotov Teatro e marionetas Colaboradores Ana Sousa Dias Carla Amaro Carla Maia de Almeida David Lopes Ramos Eduardo Oliveira Fernandes Fernanda Câncio Pedro Almeida Vieira Fotografia Guto Ferreira Câmara Ardente, produções fotográficas Sábado, 08 novembro | 21h30 Centro Cultural Município do Cartaxo, Cartaxo Sábado, 15 novembro | 21h30 Cine-Teatro, Sobral de Monte Agraço Sábado, 22 novembro | 21h30 Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo Sábado, 29 novembro | 21h30 Cine-Teatro São Pedro, Alcanena Duração: 75min. s/ intervalo |Faixa etária: m/12 anos Em Cabaret Molotov, deambulam coristas apaixonadas, trapezistas, clowns absurdos, músicos de sete instrumentos, homens-coelho, homens-bala, ursos ciclistas, caniches cantores, dançarinos e bailarinas que dançam ao som de valsas, tangos, polkas, tarantelas e velhas canções de Kurt Weil. Terá o Cabaret Molotov existido, ou tudo não passará de um Impressão e Acabamento Euro-Scanner T i r a g e m 2500 exemplares I S S N 1646‑1835 D e p ó s t i o L e g a l 224633/05 LV T # 9 – N o v e m b r o | 2 0 0 8 | Q u a d r i m e s t r a l lugar inventado por Vladimir, o Russo, para cenário do seu amor à trapezista Matrioska? LISBOA | VALE DO TEJO #9 – Novembro 2008 Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional 9 NOVEMBRO | 2008 entrevista José António Pinto Ribeiro Ministro da Cultura reportagem Caldas, cidade cultural destaque Berlengas Navegando para a Sustentabilidade