PERFIL DAS FAMÍLIAS QUE VIVEM EM ÁREA DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL Jolana Cristina Cavalheiri1 Taís Bortolini dos Santos2 Caroline Amaral2 Simone Barea3 INTRODUÇÃO Necessidades básicas são aquelas que determinam minimamente a sobrevivência dos homens: comida, abrigo, etc. Os elementos que preenchem os critérios de livre escolha, como os estéticos, artísticos, religiosos e outros, passam a ser significativos para a definição do estilo de vida de um dado grupo. A vida humana, para Murrieta (2001, p. 2), “está mais profundamente conectada com a sobrevivência básica e, ao mesmo tempo, com elementos sociais e simbolicamente construídos do que a alimentação”. Não há dimensão da vida social humana que incorpore melhor as contradições do processo cotidiano de tomada de decisão. É exatamente esta qualidade dos hábitos e escolhas alimentares que incorpora, acomoda e intensifica os conflitos implícitos entre o que é biologicamente necessário, socialmente desejado, ecologicamente possível e historicamente assimilado. Bourdieu (1983, p. 82) afirma que o estilo de vida é a forma pela qual uma pessoa ou um grupo de pessoas vivenciam o mundo e, em conseqüência, se comportam e fazem escolhas. Os elementos que compõem o conjunto que se chama de estilo de vida são considerados por sua distância em relação às necessidades básicas dos indivíduos ou grupos. O autor expõe que “às diferentes posições que os grupos ocupam no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de diferenciação que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência”. 1 Acadêmica do 2º ano do curso de Enfermagem da Unioeste Campus Cascavel/PR. Email: [email protected]. Telefone: (46) 9971 – 0091. 2 Acadêmicas do 5º ano do curso de Enfermagem da Unioeste Campus Cascavel/PR. 3 Técnica administrativo Unioeste Campus Cascavel/PR. O conhecimento do perfil permite, segundo Rouquayrol (1999, p. 15), obter, interpretar e utilizar as informações de saúde ou doença com a finalidade de promover a saúde, prevenir e reduzir doenças que acometem o ser humano. O perfil possibilita planejar as ações conjuntas com a comunidade/famílias, as quais objetivam promover atitudes mais saudáveis e, conseqüentemente, a mudança das condições de saúde. Compreender a importância do estilo de vida para a saúde das pessoas é ampliar esta concepção de vida saudável e dar passos importantes neste caminho que nos leva à sua construção. É agir em favor de uma saúde que se faz e se melhora a cada dia. É promover a saúde adotando hábitos de vida saudáveis, contribuindo para o estabelecimento de relações mais solidárias, participando da criação de políticas públicas que incidam positivamente na saúde de todos e, sobretudo, sendo capaz de lidar com o mundo de uma forma positiva. Desenhar o perfil de saúde significa considerar os aspectos sanitários observados por uma ampla visão da realidade em que se encontra o indivíduo, a família e a comunidade. Diversas são as condições sociais que determinam os perfis de saúde das famílias. No entendimento de Carvalho; Petri e Turini (2001, p. 67), a “integração com a comunidade talvez seja o fundamento maior da saúde da família [...]”. Os autores argumentam que “um segundo termo utilizado para designar a participação da população na área da saúde é a participação comunitária”. O trabalho comunitário deve ter caráter social, de educação, de integridade e de descentralização e organização comunitária. A participação comunitária vem do termo comunidade, ou seja, um agrupamento de pessoas que vivem em um mesmo ambiente, em condições sociais e culturais homogêneas, predispostas à solidariedade coletiva e ao trabalha voluntário e de auto-ajuda. Valla (2000, 12-16) refere que o conhecimento da coletividade é organizado com base na “vivência de acordo com as experiências visualizadas de maneira diferente da vivenciada pela comunidade”. Desta forma, o conhecimento não deixa de ser oferecido pelo fato de que o nosso saber é ineficaz, mas por não atingir o saber comunitário. Objetivou-se realizar um levantamento do perfil das famílias que vivem em área de preservação ambiental. METODOLOGIA O Projeto de Extensão Vigilância Ambiental, desenvolvem atividades de ações de saúde, visando à qualidade de vida das famílias. A população que participa do projeto é composta por 21 famílias que residem nas margens do Rio Quati Chico, localizado entre as ruas Cuiabá e Rio de janeiro, na cidade de Cascavel/PR. O projeto é desenvolvido por acadêmicos do Curso de Enfermagem. No início, realizou-se o diagnóstico do perfil e das condições de saúde, meio ambiente e participação comunitária das famílias. Os acadêmicos têm o compromisso de orientar as famílias por meio de visita domiciliar. Nesta, são realizadas atividades de saúde, educação ambiental, promoção, prevenção das doenças ocasionadas pelo impacto ambiental. As informações obtidas das famílias entrevistas permitiram o diagnóstico da realidade e a análise dos resultados direcionou o desenvolvimento de ações preventivas e educativas conforme a necessidade da família. RESULTADOS As tabelas apresentam os resultados do diagnóstico realizado quando da aplicação do cadastro junto às famílias que vivem nas margens do rio Quati Chico: Tabela 1 – Distribuição do perfil das famílias pesquisadas Variável Idade Sexo Estado civil Descrição < de 11 anos 11 e 20 anos 21 e 30 anos 31 e 40 anos 41 e 50 anos 51 e 60 anos + de 60 anos Masculino Feminino Casado Solteiro Viúvo União Consensual Divorciado FA = Freqüência Absoluta / FR = Freqüência Relativa FA 18 18 11 4 10 9 1 30 41 17 40 4 9 1 FR (%) 25,4 25,4 15,5 5,6 14,1 12,7 1,4 42,3 57,7 23,9 56,3 5,6 12,7 1,4 Na variável idade, os resultados evidenciam um maior percentual para a faixa etária de 11 a 20 e de 0 a 11 anos, cada qual representando uma parcela de 25,48%. Portanto, a maioria desta população pertence ao grupo criança e adolescente jovem. Na faixa etária considerada adulta em idade produtiva, 15,5% têm entre 21 e 30 anos, 5,6 têm entre 31 e 40 anos, e 14,1% têm de 41 a 50 anos. Também dentre do percentual de adultos, estão os da faixa de 51 a 60 anos, que representam 12,7%, e os aposentados (com mais de 60 anos), que somam 1,4%. Com relação ao sexo, constatou-se que, dentre as 71 pessoas pesquisadas, a maioria (57,7%) é representante do sexo feminino, enquanto que o sexo masculino compõe uma parcela de 42,3%. Quanto ao estado civil, verifica-se que 56,3% são solteiro; 23,9% são casados; 12,7% declaram-se unidos consensualmente. Ainda observa-se que 5,6% são viúvos e 1,4% são divorciados. O alto índice de indivíduos que se declaram solteiros se justifica pela análise da faixa etária predominante, que revela um percentual de 50,8% de pessoas com idade inferior a 20 anos. Tabela 2 - Distribuição da ocupação das famílias pesquisadas Variável Ocupação Descrição Sem idade para trabalho Estudante Babá Autônomo Do lar Caixa/Garçom/Costureira Desempregado Motorista, pintor, soldador Aposentado Eletricista/Vendedor Contador/Lavador/Pedreiro Diarista/Auxiliar Não Informou FA 4 20 1 3 7 6 4 3 3 4 5 4 7 FR (%) 5,6 28,2 1,4 4,2 9,9 8,4 5,6 4,2 4,2 5,6 7 5,6 9,9 FA = Freqüência Absoluta / FR = Freqüência Relativa Com relação à ocupação, verifica-se uma grande variedade de atividades realizadas, dentre elas destaca-se que 28,2% dos pesquisados são estudante; 9,9% são do lar; 5,6% encontram-se desempregados e outros 5,6% não possuem idade pra trabalhar; 4,2% são autônomos e o mesmo percentual representa os aposentados. Há uma relação muito próxima entre a faixa etária predominante e a ocupação declarada, uma vez que 50,8% dos indivíduos possuem idade menor ou igual a 20 anos e 33,8% não possuem idade para trabalhar ou são estudantes. Estudo desenvolvido por Medeiros; Lazzarotto e Franco (2008) apontou como ocupações dos indivíduos que vivem em área de preservação ambiental: doméstica/diarista e auxiliar serviços gerais (4,4%, cada um); professor, autônomo, do lar, vigia e auxiliar administrativo (3,3%, cada um); auxiliar de produção e motorista (2,2%, cada um); um subgrupo que incluiu diversas ocupações representou 15,6% deles; e uma parcela de 5,6% abarcou os declarados desempregados. Tabela 3 – distribuição do grau de estudo das famílias pesquisadas Variável Grau de Estudo Descrição Sem idade escolar Ensino fundamental incompleto Ensino fundamental completo Ensino médio incompleto Ensino médio completo Nível superior Analfabeto Não informou FA 3 39 1 7 7 1 3 10 FR(%) 4,2 54,9 1,4 9,9 9,9 1,4 4,2 14,1 FA = Freqüência Absoluta / FR = Freqüência Relativa Observa-se que o grau de estudo da população pesquisada concentra-se, em sua maioria, no ensino fundamental incompleto, representado por 54,9% dos pesquisados, seguido pelo ensino médio incompleto e completo, que somaram 19,8% dos entrevistados. O que chama a atenção é o número de analfabetos, que corresponde a 4,2%. Com o mesmo percentual encontram-se os sem idade escolar. Em contrapartida, apenas 1,4% possuem nível superior. O mesmo índice representa aqueles que declararam ter o ensino fundamental completo. Medeiros; Lazzarotto e Franco (2008, p. 55), em pesquisa com famílias residentes em área ambientalmente incorreta, encontraram “um número significativo de pessoas analfabetas e um grande percentual de membros das famílias com ensino fundamental incompleto, o que pode representar uma dificuldade na assimilação de informações de prevenção, quer sejam práticas de prevenção e melhoria da saúde”. A educação e a saúde caminham juntas, pois é por meio de ações e programas educativos que medidas de prevenção são difundidas (MARCO, 2001). Neste sentido, Rosário (2001, p. 162) considera a educação como um “instrumento de que o Homem se serve para valorizar o seu futuro por meio do conhecimento de si próprio e de sua harmoniosa integração na sociedade”, Tabela 4 – Distribuição da renda das famílias pesquisadas Variável Renda Familiar Descrição Não possui renda < que R$ 350,00 R$ 350,00 e R$ 650,00 R$ 651,00 e R$ 1050,00 + de 1050,00 NI FA 1 1 11 3 4 1 FR (%) 4,8 4,8 52,4 14,3 19 4,8 FA = Freqüência Absoluta / FR = Freqüência Relativa A renda familiar está concentrada na faixa entre R$ 350,00 e R$ 650,00, compondo 52,4%. Uma parcela equivalente a 19% das famílias tem renda superior a 1050,00 reais; 14,3% possuem renda entre R$ 651,00 e R$ 1050,00; 4,8% recebem menos de 350,00 reais por mês; 4,8% declararam não possuir renda e 4,8% não informaram o quanto recebem mensalmente. Verifica-se que, mesmo sendo moradores de uma região de preservação ambiental, considerado fundo de vale, 19% das famílias possui um rendimento mensal superior a 1050,00 reais, o que representa uma exceção à realidade dos moradores desse tipo de local. Para Lazzarotto et al. (2007, p. 67), o salário é visualizado “como um motivador, pois as pessoas almejam não apenas satisfazer necessidades fisiológicas e de segurança, como também desejam satisfazer necessidades sociais, de estima e de auto-realização”. Segundo as autoras, “para obter recompensas satisfatórias, os recursos humanos necessitam demonstrar e procurar melhorar seu desempenho. Neste impasse, recebem a recompensa e obtêm um desenvolvimento pessoal”. Tabela 5 – Distribuição das condições de habitação das famílias pesquisadas Variável Número de moradores por casa Mora em casa Tipo de casa Iluminação da casa Descrição 1a3 4a5 6a7 Própria Alugada Madeira Tijolo Mista Luz elétrica FA 13 5 3 16 5 10 7 4 21 FR (%) 61,9 23,8 14,3 76,2 23,8 47,6 33,3 19 100 FA = Freqüência Absoluta / FR = Freqüência Relativa Com relação ao número de moradores, verificou-se que na maioria das residências existe de 1 a 3 pessoas. Quanto às características da casa, a grande maioria (76,2%) das famílias relatou ter casa própria. Somente 5 famílias pagam aluguel. Das 21 famílias pesquisadas, 10 possuem casa de madeira, 7 têm casa de alvenaria e apenas 4 habitam residência mista. Todas (100%) as famílias têm energia elétrica em sua moradia. Da Matta; citado por Lazzarotto et al. (2007, p. 79), refere que o cuidado “[...] deve estar fundado na troca igualitária de experiências humanas, porém, o respeito mútuo está pouco evidenciado no cotidiano dos serviços de saúde, os quais são caracterizados por relações hierarquizadas e pela ignorância”. Medeiros; Lazzarotto e Franco (2008, p. 77), em seu estudo, concluíram que as famílias apresentam uma desigualdade quanto ao “tamanho e relações, evidenciando uma sociedade estratificada e desigual e uma das formas para minimizar é o associativismo. Através de ações conjuntas, a comunidade busca soluções para os problemas que afetam a qualidade de vida das famílias residentes na margem do rio”. CONCLUSÃO Os moradores, em sua maioria, são adolescentes jovens, com predomínio do sexo feminino e estado civil solteiro. Como ocupação, exercem principalmente funções consideradas não profissionalizadas. A escolaridade da maior parte é o ensino fundamental incompleto. O salário de mais da metade destas famílias gira em torno de R$ 350,00 e R$ 650,00. Na maioria das residências vivem de 1 a 3 pessoas, sendo a casa própria e de madeira na maior parte dos casos. Conclui-se que nas famílias pesquisadas, em geral, a mãe não trabalha fora, e constatou-se a existência de aposentados e desempregados, os quais têm baixo grau de estudo e baixa renda familiar. Referências Bibliográficas BOURDIEU, P. Gostos de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, R. (Org.). BOURDIEU, P. Coleção Grandes Cientistas Sociais, n. 39. São Paulo: Ática, 1983. BRANCO, S. M. Água: origem, uso e preservação. São Paulo: Moderna, 1993. BRASIL. Manual de Saneamento. 5. ed. Revisada; Fundação Nacional de Saúde, Brasília, 2007. CARVALHO, B. G.; PETRIS, A. J.; TURINI, B.Controle social em saúde.In: ANDRADE, S. M.; SOARES, D. A.; CORDONI, JR, L. (Org.). Bases da saúde coletiva. Londrina: UEL, 2001. cap. 4, p. 93-109. FRACOLLI, L. A.; BERTOLOZZI, M. R. 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