Hídrias – Autora: Dora Ferreira da
Silva
A SIBILA
Nas praças, nos templos e olivais
um grito de louvor à Terra, dançai!
Vim sem o esplendor da aurora, mendiga,
não como as Musas de outrora, dadivosas Diotimas,
vim mendigar o que há muito vos ofertei, Poetas:
sopro-vos à garganta dilatada, vossos olhos ceguei
para que o fundo olhar se liberte. Sibila em agonia,
há tanto silenciada, falarei por vossas bocas,
em vossos versos arquejará minha voz embriagada, rouca sustos e soluços, gritos, silvos, neblinas de esgares,
Mares de canto e pranto. No tempo além do tempo,
meus lábios murmuram por ti e perto dos templos derruídos,
a respiração do velho Mar, seus haustos e gemidos.
Mostra-me o silêncio o lacre escarlate, verbo indigente
dos mitos que sempre me uniram às setas de Apolo.
Há tanto minha palavra foi calada, os deuses recuavam...
Mas os poetas mantiveram-me viva. O mais ínfimo
deu-me de beber e em sua hídria refresquei meu rosto.
Sensíveis a meu sopro, os maiores coroaram-me de folhas verdes.
O nascimento do Poema é o silvo que Apolo harmoniza e Orfeu faz cantar.
Rompendo as cisternas escuras eu vim, raiz coleante
por entre as pedras e a secura. Dilacerada, arquejante,
acolhe-me Apolo em seus braços de névoa.
Gemidos rasgam mil caminhos na gruta: aaaah, oooooh...
A Sibila arrasta-se no pó, soluça, seus lábios deliram,
traça no ar os gestos incertos dos agonizantes, colhe flores
na neblina. Aaaah, oooooh... Foram-se os deuses da Grécia,
só espelhos refletem espelhos, o eterno assim se dá e esconde.
Onde Afrodite, a de róseos tornozelos, ungida de óleo incorruptível,
com seus perfumes, colares e pulseiras cintilantes?
Onde Ártemis, a de doçura selvagem? Foram-se as Ninfas
e Hamadríades! Nunca mais a vida estuante dos bosques,
suas flores e clareiras, onde Zeus e Hera adormeciam ao calor do dia.
Ai, ai, neblina, o que enlaçarão agora nossos braços?
Não mais que névoa e vento. Apolo, assim te afastas, e me deixas presa
à teia indecifrável destes sons selvagens, aaaah, oooooh...
Em teu ombro dourado me apoiava, inventando poemas que ditavas
a meu secreto entendimento. Infeliz de mim! Agora
só posso tocar névoa e Memória. Dissiparam-se Mundo e Palavra.
ÓRFICA
Não me destruas, Poema,
enquanto ergo
a estrutura do teu corpo
e as lápides do mundo morto.
Não me lapidem, pedras,
se entro na tumba do passado
ou na palavra-larva.
Não caias sobre mim, que te ergo,
ferindo cordas duras,
pedindo o não-perdido
do que se foi. E tento conformar-te
à forma do buscado.
Não me tentes, Palavra,
além do que serás
num horizonte de Vésperas.
LETO
Colares desfeitos pelo Mar, as ilhas,
e eu, erradia. A cólera da deusa me açoitava,
e os ventos. Mas hoje meu coração se alegra.
Nasceu-me um filho perfeito – ditosa de mim! –
à beira do Mar tranquilo: rósea pele, cachos de negro azul.
Em cortejo, trouxeram-lhe oferendas as filhas de Possêidon,
do Mar colhendo o azul mais puro e às pupilas sem cor
doando um novo brilho. Brinca o menino com o arco de prata,
na luz mais alta se afastando, e aquém, o Mar.
Este abandono, tu o vês
nas lágrimas de Leto, transparentes...
ÁRTEMIS
Entre espadas cruzadas de ramos verdes
a nenhum olhar doada, senão às claras pupilas que a circundam,
o fogo branco do corpo queima feixes de água
e à seta alígera precede
desferida num vôo mais secreto.
Cantam ursinhas no lago
ao som da harpa que o vento cego estende
à ninfa. Em vagas se distende a música.
Rolam pérolas nas frontes, em fios de úmidos
vapores. E não seria o som – nem mesmo o sopro mais ligeiro –
companheiro da nudez velada,
se poupasse o vento aedo as fortes mãos
na harpa atirada ao colo de Cirene, a clara.
ÁRTEMIS DE ÉFESO
A bela face parece negar o corpo informe
de múltiplos seios que nutrem a multidão de seres:
leões e morcegos, pâmpanos e flores, uvas e pinhas
adornam-lhe o pescoço. Semente longa,
o talhe corpóreo, barco de nascimento e morte.
Por que temer, se as mãos se estendem, doadoras,
não por amor de um só, mas da procissão
das formas? Retraem-se seios, quando à morte entrega
e ao húmus, plantas, homens e feras.
Mãe luminosa, mãe sombria, mistério que tudo abriga,
sê propícia ao trigo do meu canto.
ÁRTEMIS NUA
Ametista rolada em negro céu
silenciosa despenhas no convés desta vigília.
Ao teu lábio abandono o vinho rubro, o mel
e o trigo da oferenda.
Corola da altura
Deusa em seu trono
tímida e esquiva
embora cingindo a tiara e a branca túnica.
Tocas meu flanco
minha cintura adornas com pérolas frias
e entre rochas pervagas na alta madrugada
trânsfuga do sol exilado nas ilhas.
E as tranças desnastradas
os cabelos desatas sobre minha nudez.
Num só corpo amoldadas de pureza tão fria
- racimos gêmeos do delírio –
as taças derramamos
e os cristais mordemos
entre risos e lírios
Quando lassas o dorso do equinócio percorremos
enlaçadas na mesma indolência e nostalgia
o alvo velame da nudez primeira
não – engendrada e sempre fugidia
rompe a muralha da Noite
rumo ao Mar que principia.
APOLO
Na ilha, sob a única palmeira, veio à luz
que se ofuscou , embora os anéis de seu cabelo
fossem negro-azulados, Cisnes, seus pássaros;
lira e flauta, brinquedos; e jovens atônitas com seu brilho divino,
fugitivos amores, em flores e arbustos transformados.
Dominou as trevas, sem que os braços se crispassem
ao desferir as setas, célere seguidos pela matilha dos presságios.
Eis que me designas, deus, para teu culto na manhã
que desdobra a túnica. Cigarras vibram à tua passagem
e pássaros cedem ao canto grácil, ouvindo-te chegar.
Porte de cipreste, olhos de azul profundo,
traças caminhos no Jônio Mar e às ilhas da Perfeição te achegas
e às claras fontes.
Alguns celebram ainda teu rastro iluminado
e outros nomes dão à beleza nascida
na ilha abraçada pelo Mar.
APOLO HIPERBÓREO
Ele ama a distância além do inverno,
onde não declinam a luz radiosa e os cantos.
Quando se afasta, pássaros silenciam e a fonte
em Delfos quase se extingue. Lobos uivam.
Imensa é a noite fria em sua ausência.
Mas ouve! O jubiloso peã de novo repercute
nas pedras brilhantes. Corpos e olivais dourados
revivem na dança: o Citaredo retorna coroado de folhas.
NARCISO (I)
Lampeja o olhar que antes a toda beleza
se esquivara. És tu, Narciso,
teu reflexo nas águas,ou a irmã
de gêmeo rosto e forma?
Não, não te afastas, porque a unidade
em duas se faria e o mundo das sombras ulula
à espera de tal luto. Permaneces inclinado
e adoras, sem saber se és tu, ou quem queres ver
no exasperado amor que as águas refletem.
A Morte veio enfim buscar-te, consternada,
vendo os olhos do estranho amante
fixos na flor nascida de teu sonho.
NARCISO (II)
Folhas incandescentes fizeram da fonte
vale de fulgores. Bebia Narciso sobre a onda
quando uma face viu de tal beleza
que a luz mais viva se tornou.
E Amor - cujas setas jamais puderam alcançar
seu coração esquivo — nele reinou e jamais do jovem
se apartava, que a seu chamado as águas acorria.
Insidiosa veio a Morte para o levar consigo,
deixando numa flor a forma de Narciso.
HYACINTHOS (I)
Apolo no alto dardeja o olhar, cabelo ao vento,
pássaro de sombrio augúrio em vôo rasante.
Vira o jovem que se olhava nas águas.
E antes que o grito deste ecoasse
às alturas ascende o deus, da posse triunfante.
Transformara o adolescente numa flor:
vive agora Hyacinthos no mais suave dos aromas.
HYACINTHOS (II)
Foi Zéfiro ou Bóreas, o pérfido,
que o disco desviou de seu percurso
quando no arremesso o belo Apolo te fitava?
Tão radiosa tua beleza, que a própria Beleza
a desejou, como se em si não a tivesse.
Foi Zéfiro ou Bóreas a desferir o golpe mortal
na clara manhã em que o ciúme o cegava?
Em lágrimas Apolo se lamenta. Empalideces,
e a nova flor, inicial rubra de teu nome,
abre as pétalas.
DIONISOS DENDRITES
Seu olhar verde penetra a Noite entre tochas acesas
Ramos nascem de seu peito
Pés percutem a pedra enegrecida
Cantos ecoam tambores gritos mantos desatados.
Acorre o vento ao círculo demente
O vinho espuma nas taças incendiadas.
Acena o deus ao bando: Mar de alvos braços
Seios rompendo as túnicas gargantas dilatadas
E o vaticínio do tumulto à Noite Chegada do inverno aos lares
Fim de guerra em campos estrangeiros.
As bocas mordem colos e flancos desnudados:
À sombra mergulham faces convulsivas
Corpos se avizinham à vida fria dos valados
Trêmulas tíades presas ao peito de Dionisos trácio,
Sussura a Noite e os risos de ébrios dançarinos
Mergulham no vórtice da festa consagrada.
E quando o Sol o ingênuo olhar acende
Um secreto murmúrio ata num só feixe
O louro trigo nascido das encostas.
DELFOS
Aquece o Sol as clareiras do ar,
atirador de dardos súbitos.
Apolo foi chamado e usurpou em Delfos o trono das Sibilas.
Sobre a mancha de trevas pousou a trípode de luz
e mais longe soprou os vaticínios.
Muitos morreram de luz tão clara, incendiando o coração.
O ar brincou na flauta abandonada pela deusa sábia
e a música invadiu águas turbulentas:
rápidas mensagens riscou o vento nas Fedríades,
pedras róseas que se chamaram as Luminosas.
À noite, dormem no bosque templos de ossatura branca,
vértebras pousadas entre oliveiras.
Três colunas se enlaçam, sobrevivas,
na antiga ronda do templo,
fechado o círculo dos ritos funerários.
As cigarras se atrevem e os jumentos
a louvar a montanha, os vales e deuses soterrados.
A Terra acorda às vezes e suplica que tanta luz
não lhe fira a carne, queimando arbustos e a pedra crua.
ESTRELA FUNERÁRIA
A jovem abre o cofre
num gesto de silêncio.
Refletem suas pupilas
centelhas que se despedem:
pássaros no poente
- peitos de branda penugem onde a vida úmida se abriga.
O cofre se oferece
como se fora um fruto
ao gesto quase pesaroso
de esvaziá-lo de seu mistério…
Mas acrescenta o quase-sorriso
às pedras,
o sopro do infinito.
À TÁLIDA
Levantem os claros olhos vagos,
reflexo do Jônio Mar. E alva suplicas o
Zéfiro: “Apartem-se os delfins das águas
do meu corpo!” Toda de luz
se esvai a carne de teus flancos,
teus seios são ariscos aos ávidos amantes.
Tálida, por que te afastas
nas amplas salas do Mar? Por que te esquivas a Hipérion,
um a um descendo os degraus da escada flamejante?
Enovelas-te em concha róseo-dourada,
os ouvidos cerrados ao lamento amoroso.
Por que a recusa em véus dissimulados?
E essa lágrima, ó tristonha,
por que suspensa nos cílios de seda iluminada?
Tua beleza é cofre oculto em profundezas,
aonde mão não chega de amado algum, nem sonho.
A taça de teus lábios é oferenda
que em nada se assemelha ao vinho destes ares,
a outro Deus vertido, Tálida, casto e invisível.
A POSSÊIDON
Dádivas colhi do Mar e a Possêidon, me canto.
S a Terra adormece e estéril é seu repouso,
avanças, poderoso! O fundamento das coisas estremece,
rochedos fendem-se, crispa-se o arvoredo. Mais que os ventos,
impões o fluxo e a mudança. Lampejos da aurora se acendem
no poente. Move meu canto, move a Terra num bramido,
Touro do Mar, e um novo reino instaura, dissolvendo
nas águas a impureza dos feitos. Acende-se o olhar humano
em chama renovada e às almas de luz os corpos se reúnam!
À GRANDE-MÃE
Última e primeira, vem. Brande as serpentes
nas mãos fortes. Abandona teus seios de apojadas luas
aos trêmulos cervos, ursos e grifos, tua prole
de garras e plumas. Aleita-os, Mãe de tudo!
Saltam leõezinhos para brincar contig,
refulge a pupila da pantera e os pombos se aninham
em teu cabelo. Acolhes, generosa, o mundo dessas formas:
as criaturas do Ar e o cálido sangue da floresta.
Atuo alimentas, branda e altiva, sem que o lampejo
de teu olhar se extinga. Vem, última e primeira!
Louvo-te com palavras da Terra e das águas que percorres,
eriçando as vagas. Entre leoas fulvas esplendem tuas espáduas,
longe, sempre mais longe, na Origem crua.
KÓRE (I)
Por que sempre voltas mendiga
com braceletes de ouro e súplices olhos
de violeta?
Tuas sandálias te trazem nos andrajos
de púrpura. É primavera.
O vento se debate
nos arbustos brilhantes.
O jardim te espelha, pétalas refletem
teu sorriso
e se ofuscam.
Voltas. Sempre de novo és tu
e me assedias:
vaso antigo, cítara,
coluna entre o arvoredo.
Queres cantar comigo na relva da manhã?
Conheço tuas pálpebras, os anéis do teu cabelo,
a curva de teu colo. Sem te ouvir
sei como cantas.
Voltaste: é primavera.
O jardim se adorna
com jóias do teu cofre
pérolas frementes.
Forças, amiga, demasiado as cordas
do meu canto.
Revela-se em mim tua fragilidade.
Demora, se puderes, e com o orvalho de teus colares claros
guarda meu pranto
quando ainda mais uma vez
te fores.
KÓRE (II)
Em ilha Bela afloraste
disfarçada em rocha:
os olhos - antros de mariscos.
Olhavas o céu, narinas frementes
a boca emitindo antiga sílaba:
início do cântico a Argíon
primeiro navegante.
Virgem das profundezas
a coma em serpes
à espera de que ouça o lamento e o devolva
à amplidão do mar.
Vieste
e navegas com o tempo escultor de lápides.
Vieste
e vigias o rumo das nuvens; face gotejante
cotovelos fincados no mar
os joelhos pedras da ilha.
Teu corpo: ânfora coroada de espumas
em núpcias com o Mar.
Em câmaras fechadas
confabula-se tua derradeira história.
Que outra serás?
Que porto o teu?
Piedosamente quisera cerrar as pálpebras
desse olhar imenso
dessa busca semelhante à febre dos tesouros,
se pudesse. Mas teu olhar me contém
aos pássaros da ilha
e ao mundo adormecido de sáurios e peixes.
Entre vivos e mortos
segues à proa de navios estranhos
no múrmure mar.
PERSÉFONE
A Lua testemunhou teu rapto, quando
colhias violetas e anêmonas. Para onde foste,
arrancada à campina pelo sombrio Amante?
Nem tu sabias do tenebrosos percurso sob a Terra,
antes tão doce, nem da dança para sempre traçada
e nela teu passo aprisionado, coroada por Hades
com grinalda de romãs pesadas, Koré Perséfone, rainha,
não dos vivos e da campina em flor, mas das sombras frias.
HADES
Da profunda cisterna da Noite
tuas pupilas perseguiam estrelas frias.
Sombras em torno de ti rondavam. Só lágrimas
e a antiga alegria, pena, a mais severa.
Tudo perdido fora do círculo de deuses
jubilosos. Tuas mãos pediam o fardo cálido,
pressentido na campina a flor do único sorriso
que te movera além da treva. E ousaste!
Contra leis e deuses. Tocara-te Amor
e tremias sob a Lua sublevada. Flores
perfumaram teu reino. Embora tristonha em seu trono,
Perséfone era o bem que te faltava.
HÉCATE
Tríplice deusa: virgínea, maternal e aquela
que em silêncio a Lua designa. O grito ouviste
e no raptor pousaste o brilho. Despojou-se a Terra
e nada mais nascia. Quem da Mãe não ouviu
o lamento? Seu passo ervagens secou e as fontes.
Com rugido de leoa a Terra abalou e à fome
homens e deuses entregou. Ela – nutriz e abrigo.
Do alto precipitou-se Hécate e, tochas nas mãos,
foi pelo caminho onde nenhum mortal seu passo
aventurou. Em fúria sacudiu árvores, feras,
homens, e a Natureza inteira num só gemido
transformou. Amor e Morte disputaram.
E triunfou quem no Hades sombras aquece,
devolvendo à Terra sua primeira flor.
A DEUSA
Anêmona mais voluptuosa que o Mar,
sorriso da luz: Afrodite. Envolta em pérolas
já se afasta, rumo a um reino distante.
Rolam cachos de uvas, despertam cânticos,
frutos amadurecem que o sol cultiva nos pomares.
Coros adolescentes perseguem Eros
- o coroado de pâmpanos – pois dos lábios da deusa
haviam provado o vinho farto e suava.
Liames atando e desatando,
Eros se esquiva e a beleza esconde
nas angras mais profundas, pois
quando emerge – flâmeo! –
o murmúrio do Mar inunda as praias,
e a embriaguez, viznha da morte,
ameaça os amantes...
CINCO HÍDRIAS
I
Elas apoiam as hídrias sobre os joelhos
e recolhem a água na casa da Fonte.
Vestidas de negro, os cabelos presos
soltam-se pesadamente
em colos e ombros.
Nem a água tem contorno tão simples.
O escuro verniz é semeado de alvuras:
em gestos graciosos elas detêm
o efêmero.
II
Das grimpas translúcidas
vislumbram guerreiras
as praias de Argos.
Dionisos o grito lança, agudo.
Nuvens galopam,
espumas coroam a enseada:
funda cratera.
Mais nítido que lâmina,
ele avança o corpo nu.
O riso o precede:
lábios na taça e as refletidas pérolas.
Austera Argos!
Um deus repeliste e as Hálias desgrenhadas
jazem vencidas. Lápides
e o rumor do Mar.
III
Macelo e Dexítea são louvadas pelo Citaredo
entre as mortais: seu timbre de voz,
os sedosos cabelos.
Zeus e Possêidon também não esquecem
a sedutora beleza das irmãs.
Os Telquines urdem tenebroso feito
contra os deuses do Olimpo
e a loura progênie das espigas:
do Styx colhem as águas lôbregas
e as terras vivas irrigam
junto ao pé dos eloendros...
Horror! Cabelos desgrenhados,
Macelo e Dexítea correm contra o vento
embora o Mar não as persiga.
A cidade submerge
mas a imóvel pupila de um deus
as preserva.
IV
Dessa clareira todo mortal se afasta –
onde dardeja a fria luz
de Artêmis.
Alcançou-a Hymnos certo dia,
ao perseguir os claros olhos
de Nicaia.
Sorria o jovem pastor
quando rápida seta
a ninfa desferiu.
Inerte agora o corpo de Hymnos
e em luto a Natureza.
Sem nada saber do amor,
a própria Ártemis
em lágrimas se desfaz.
V
Fina figura de negro
no bojo de um vaso.
O apagado perfil já se afasta
enquanto outra, gerada pela terra antiga,
grita em outras bocas,
rijas ventanias.
Aproximam-se panteras –
pêlos de máculas brilhantes –
para escolta-la como estrelas à Lua
em céu de madrugada.
Tão próxima e distante, ei-la que avança,
esfumado o fulgor da espádua nua,
donde emerge outra forma,
nos braços levando uma Criança.
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Hídrias – Autora: Dora Ferreira da Silva