ARTE, MODA E DESIGN GRÁFICO: CONEXÕES POSSÍVEIS Claudia Regina da Silva Trindade UEFS- Universidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Letras e Artes [email protected] Resumo O presente artigo discute a atuação da arte e a relevância do uso de elementos do design gráfico na concepção, produção e realização de produtos de moda. A discussão é pontuada pela experiência da artista plástica e designer Goya Lopes, empresária no segmento de moda e decoração, que desenvolve um trabalho criativo onde as três esferas se integram contribuindo para a valorização da marca e para a construção de objetos que adquirem significados que vão além das questões estruturais e funcionais. Palavras-chave: arte, moda, design. Abstract The present article discusses the role of art and the use of elements of graphic design in the design, production and realization of fashion products. The discussion is punctuated by the experience of the artist and designer Goya Lopes, manager in the segment of fashion and interior design, developing a creative work where the three spheres are helping to integrate branding and the construction of objects acquire meanings that are Apart from structural and functional issues. Keywords: art, fashion, design. 1 Introdução Atualmente, designers e criadores de moda estão investindo, de forma significativa, em pesquisas e tecnologias, para gerarem produtos de qualidade; o que se percebe é a maior inserção de elementos da arte e do design gráfico na criação e realização de produtos relacionados à moda, entre roupas, acessórios, embalagens e ambientação de lojas. Pode-se afirmar que a moda é uma forma de expressão sociocultural, mas é também produto de design e constitui um importante mercado consumidor que depende, dentre outros setores, do tecnológico e econômico. Essas relações representam a complexidade de atuação da moda no que diz respeito à sua criação, execução e comercialização. Trata-se de um segmento que movimenta inúmeros profissionais de diferentes áreas. Dentre todas as áreas de atuação, o designer gráfico permeia tanto o desenvolvimento criativo do produto, como o trabalho visual de venda. Este artigo pretende discutir através de análise teórica, como a arte e o design gráfico tornam-se mais presentes nas roupas, acessórios e material gráfico agregando valor ao produto de moda. A mensagem visual pode ser transmitida por diversos meios, dentre eles o vestuário, e na composição das peças pode-se aplicar elementos como formas, texturas, cores, volumes e imagens que carregam simbologias e significações na sua configuração. Inserido nesse contexto, o design gráfico expressa sua importância na relação com a moda através da confecção de peças criativas e com maior valor de mercado. No que se refere à arte, seu vasto campo de exploração contribui para o desenvolvimento de peças que podem fazer de determinado produto algo extremamente conceitual ou comercial, dependendo da forma como a criação artística será explorada mediante esse produto. Inicialmente serão abordados no texto conhecimentos da área de moda, arte e design e as possibilidades criadas a partir da relação entre esses três campos. Depois demonstraremos a partir de um estudo de caso como o design gráfico unido a arte pode realizar uma parceria efetiva para o mercado da moda 2 Arte, moda, design e suas conexões A definição do significado de arte, moda e design não é tão simples pelo fato dos três campos possuírem um universo particular mais ainda assim se relacionarem, fazendo com que suas fronteiras se tornem cada vez mais extensas e menos visíveis. Conforme menciona Mônica Moura (2008), essas três esferas de conhecimento podem propor ou representar contextos de questionamentos referentes aos valores e formas de pensar e agir de uma cultura num determinado momento e tanto a obra de arte como o produto de moda ou de design vão resultar num objeto aberto e sujeito às várias interpretações, releituras ou recriações do usuário/fruidor nos objetos e processos que utilizam tecnologias e sistemas digitais e virtuais, bem como de outros designers ou profissionais de criação dos mais diversos segmentos profissionais. Iniciando a abordagem pelo campo da arte, o fato de existirem inúmeras possibilidades de atuação e interpretação do que é a arte, faz com que seu entendimento seja bastante abrangente e complexo. Segundo Pareyson (1984) as definições mais conhecidas da arte, podem ser reduzidas a três: ora arte é concebida com um fazer, ora como um conhecer, ora como um exprimir. Na sua teoria da formatividade, a ênfase maior é dada ao processo e não no resultado da obra. Ao acentuar a relação entre o artista e sua arte, o autor valoriza o fato de que, no processo de produção, o artista elabora também seu modo de produzir, seu estilo, num diálogo constante com a matéria prima. A arte segundo Pareyson é reconhecida como invenção, mas de uma forma que se desenvolve no próprio ato de execução, no contato com a matéria-prima. Dessa forma, o artista produz simultaneamente, a obra e o seu modo próprio de produzir. O fato é que a arte não é somente executar, produzir, realizar e o simples „fazer‟ não basta para definir sua essência. A arte é também invenção. Ela não é execução de qualquer coisa já ideada, realização de um projeto, produção segundo regras dadas ou predispostas. Ela é um tal fazer, que enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer (PAREYSON,1984,p.32) É nesse sentido que John Dewey (1974) afirma que, em geral, a arte envolve um processo de fazer, de operar, uma intervenção sobre uma materialidade física. Conforme o autor a perfeição na execução necessita daqueles que percebem e gozam o produto executado; o produtor só concebe sua obra como finalizada quando se põe na condição de espectador. Em suas palavras: “a arte une as mesmas relações de fazer e padecer”. O padecimento nesse aspecto sendo entendido como a condição de um artista se deixar ser conduzido pela sua obra. Existe um ponto muito importante que faz com que a sociedade assimile a arte no seu vocabulário coloquial e também a entenda como erudita: trata-se do tempo. No decorrer da história, o significado da arte, assim como o ofício do artista, foi se alterando na medida das transformações sociais, criando novos conceitos e ampliando fronteiras. Pareyson (1994) afirma que a arte revela, com maior ou especial evidência, o sentimento do tempo ou o espírito de uma época. Para o filósofo cada civilização tem a sua arte, cada povo a sua poesia e cada época o seu estilo. A obra de arte como filha de seu tempo e, portanto, como expressão da alma de um determinado povo ou de uma determinada época, pode ser considerada como documento de uma nação ou de uma idade: por um lado, para ser compreendida, ela exige ser colocada no seu tempo e interpretada à luz do espírito da época; por outro lado contribui para dar a conhecer a sua época em todas as suas diversas manifestações espirituais, culturais, políticas, morais, religiosas, etc. (PAREYSON ,1984, p.99) No que diz respeito à moda, naturalmente qualquer período artístico pode servir como fonte de criação para uma coleção, mas para a compreensão das inspirações, é importante entendermos os significados da arte e os resultados adquiridos através de suas relações com a moda. A possibilidade de usufruir de uma obra de arte para criação de outra expressão artística é considerada como uma forma de inspiração, referência, influência. Mas seja qual for o nome, o uso de uma referência artística para a realização de uma nova forma de expressão ou criação sempre existiu e no caso da arte, a sua utilização, possibilita uma fonte inesgotável de inspiração. Nesse sentido, a arte vem dando uma grande contribuição para o pensamento criativo dos designers de moda. Outro ponto importante que torna complexa a discussão sobre arte é quando avaliamos que o domínio e a manipulação do objeto podem ser feitos manualmente ou através de máquinas e indústrias. Porque conforme menciona Coelho (2008), muitos acreditam que a arte é um resultado do esforço individual, enquanto que o design seria resultado de uma atividade coletiva da sociedade industrial. Considerando essa linha de pensamento, fica claro que tudo o que é feito através da colaboração de máquinas é necessariamente design e não mais poderá ser considerado arte. Nesse momento começa a intersecção dos temas, quando não sabemos mais concluir até que ponto um fazer artístico pode ou não ser realizado com a contribuição da indústria. Mas essa opinião não é unânime e é justamente a dificuldade em determinar o que é arte, o que é design e quais os seus limites de atuação, que faz com que ambas estejam tão próximas em suas concepções e realizações. Sobre a tentativa de divisão entre arte e design, Villem Flusser (1999) trata essa questão discutindo a necessidade da divisão entre arte, tecnologia e design: “A cultura burguesa moderna fez uma divisão entre o mundo das artes e da tecnologia e máquinas; assim a cultura dividiu-se em dois ramos exclusivos: um científico, quantificável e „duro‟, o outro estético, avaliável e „flexível‟. Essa divisão infeliz começou a tornar-se irreversível no final do século XIX. Na lacuna, a palavra design formou uma ponte entre os dois. Ela pôde fazer isso porque expressa a ligação interna entre a arte e tecnologia” (FLUSSER, 1999) Monica Moura (2008) afirma que nessa distinção entre o design e a arte utilizandose a divisão entre o objeto com finalidade prática e utilitária, e o objeto com finalidade estética tem-se uma visão simplista e um tanto equivocada, por deixar de levar em consideração que os objetos utilitários podem despertar sensações estéticas e a obra de arte pode ter utilidade. É possível visualizar diferentes maneiras de fazer arte, inclusive através da colaboração de máquinas e podendo utilizar diferentes suportes e materiais para a realização da mesma. Os suportes podem ser inúmeros, mas o valor da obra está na capacidade de suscitar emoções, desejos, valores, concepções a respeito do que está sendo proposto pelo artista. O segundo campo de abordagem, a moda, também possui diversos significados, e dependendo do contexto onde está inserida possibilita inúmeras interpretações. Conforme destaca Conti (2008), o termo moda, originário do latim modus, significa uma escolha com base avaliativa aos critérios de gosto. Mas a moda pode ser concebida de diferentes maneiras. Tamanha sua esfera de estudo, Gilles Lipovetsky (2009), em um de seus livros, dividiu o estudo da moda em duas partes, a primeira analisa o sentido estrito, fashion. A segunda procura entender a moda inserida em suas múltiplas redes: industrial, cultural, midiática, publicitária, ideológica, informacional e social. Embora a questão fashion seja a mais visível para a maioria das pessoas, o caráter social da moda e seus desmembramentos com as outras redes assinaladas por Lipovetsky, estão a cada dia alçando maiores proporções na sociedade, no mercado profissional e nas pesquisas acadêmicas. Segundo Roland Barthes, a moda é objeto de uma disciplina diferenciada da roupa, é também objeto tecnológico, do ornamento, estético, do costume e de pesquisa sociológicas. Há tempos a moda deixou de ser vista apenas enquanto confecção de roupas e acessórios e ganhou status de linguagem totalmente inserida nos processos sociais. O vestuário ao cobrir o corpo, também transmite informações. As roupas colocam-se como uma página em branco à disposição de elementos como: imagens, texturas e cores que são capazes de contar histórias. Com isso o diálogo com arte, fotografia, e outras formas de criação de imagens e processos tecnológicos geram interações que até hoje renovam suas formas, praticamente a cada estação. Um dos interlocutores mais freqüentes tem sido o design gráfico. Nossa terceira abordagem, o design, de origem latina designo, possui entre inúmeros significados, o sentido de designar. Mas existem outros significados, como projeto e planejamento. Como podemos ver o design também é passível de diferentes interpretações, podendo se manifestar através de várias possibilidades. Sua interpretação parece mais simples, pois basicamente o design está associado ao fazer previamente planejado. Essa prática está presente em diversas atividades, dentre elas, o design gráfico, de objetos, de jóias, de moda, entre outros. Mas vale lembrar que para a execução dessas tarefas é necessário uma multidisciplinaridade de conhecimentos técnicos, científicos e artísticos. Conforme menciona Coelho (2008), no design, as atividades consideradas no desenvolvimento projetual são a produtividade de fabricação, as questões de uso, função, produção, mercado, utilidade, qualidade formal e estética, e devem estar equacionadas a fatores sociais, culturais, antropológicos, ecológicos, ergonômicos, tecnológicos e econômicos. O que se observa é que a atuação do design gráfico, assim como a moda, prevê a necessidade de planejamento projetual levando em conta tanto os aspectos técnicos como os criativos e econômicos. Ao analisarmos algumas definições de design vamos perceber que existe uma dialética que norteia as discussões. De um lado, as que são baseadas no objeto e, de outro as que são baseadas no processo. Segundo Denis (2000), a solução para definir design não seria apenas a união entre estas duas formas de analisar suas atividades, seria necessário considerar também que os produtos desenvolvidos a partir de um determinado processo podem ser investidos de significados que não são restritos aos percebidos claramente através de sua natureza. Os seus produtos não são apenas soluções para necessidades objetivas dos usuários, já que estes também possuem necessidades subjetivas provenientes dos seus desejos, anseios, expectativas. Nesse caso se imprime num objeto significados que vão além das suas questões estruturais e funcionais cumprindo assim variadas funções inseridas num determinado tempo e espaço, onde se vão perdendo sentidos e adquirindo novos. Do funcional ao estrutural, muitas são as esferas de atuação e especialização do design, a sua prática torna-se necessária e fundamental no desenvolvimento de novos produtos, seja através da escolha da forma, cor, identidade, entre outros aspectos conceituais, que dialogam com a sociedade e o mundo. Dentre as diversas categorias do design, o design gráfico tem maior relevância nesse estudo. Pode ser definido como um processo técnico e projetual, onde são utilizadas várias aptidões, que dizem respeito à imaginação, sendo assim, a profissão é responsável por formar opiniões e conceitos para então solucionar problemas de forma criativa. Conforme Villas Boas (2007), esse campo do design refere-se à ordenação projetual estético-formal de elementos visuais, sejam elementos textuais ou não, para compor peças gráficas próprias para a reprodução e comunicação. O designer gráfico hoje conta com diversos campos de atuação: identidade corporativa, publicações institucionais, projetos editoriais, projetos de embalagem, materiais promocionais e mídia eletrônica. Nesse contexto estratégico e relacional das três atividades aqui abordadas, podemos entender que o design gráfico está intrinsecamente ligado à arte e a arte está ligada ao design gráfico como forma de referência, inspiração e influência e ao mesmo tempo o design gráfico está ligado à moda como agente contribuinte para o produto e comercialização da marca. A sua atuação pode contribuir para uma valorização do produto de moda, tornando-o competitivo e capaz de viabilizar o crescimento da indústria do vestuário. Além de se inserir na moda a partir de projetos de embalagem, merchandising entre outras áreas mercadológicas e de identidade visual, o designer gráfico pode trabalhar na área da moda a partir de seu desempenho interdisciplinar com o design de superfície. Esse profissional possui conhecimentos sobre identidade visual, composição, cores, formas, e apurada sensibilidade estética, ou seja, ele possui capacidades e habilidades para desenvolver estampas direcionadas à indústria da moda. A estamparia é a impressão no tecido, ou o ato de estampar no lado direito do tecido, pode ser modular, com a repetição do módulo ao longo da superfície do tecido, ou representar um desenho único (estampa localizada), como uma cena. Segundo Chataignier (2006) A palavra estamparia é proveniente da língua inglesa printwork (trabalho pintado). A estampa diferencia a roupa além de caracterizar a temática da coleção, concedendo exclusividade e originalidade às peças. Desperta desejo de consumo em quem se identifica com o conceito e símbolo traduzidos pelas suas composições gráficas. Simon Seivewright (2009) ressalta que muitos designers de moda fizeram de suas estamparias o principal destaque e argumento para as vendas de suas coleções. Esse reconhecimento é fundamental para a atividade do design gráfico, mas essa é somente uma dentre tantas possibilidades de atuação profissional no universo da moda. A compreensão básica inicial desses três campos de conhecimento se faz necessária para posteriormente entendermos suas relações. Por ser uma forma de expressão, que muito permeia o universo artístico, a moda acaba por criar inúmeros questionamentos a respeito dessa relação. O mesmo ocorre com o design, que como já mencionamos, constantemente é submetido a discussões calorosas sobre ser ou não ser arte. Esses questionamentos são válidos como fonte de estudo e entendimento das áreas. O fator arte está intrínseco, entre outras possibilidades, na expressão utilizada pelos estilistas e suas equipes, representando através do produto um conceito ou imagem. Mas vale lembrar que no caso de uma indústria de moda a influência da arte não pode distanciá-la do mercado e públicos a que se destina. Mesmo havendo diversas possibilidades para definirmos individualmente cada um desses campos, pode haver total interligação na construção de seus significados e discursos e na realização de seus objetos finais. A arte tem servido como fonte de pesquisa e referência para a criação e o desenvolvimento de projetos e produtos na esfera da moda ou do design. Através da apropriação de referências artísticas, os estilistas criam novas formas de expressão. Acompanhados por seus designers gráficos, essa referências tornam-se etiquetas, bordados, tags, acessórios e posteriormente podem também influenciar na confecção de embalagens, catálogos, e diversos outros materiais institucionais e promocionais. Outra forma de presentificação da arte na moda ou no design ocorre por meio das estampas e padronagens de tecidos, pelo desenvolvimento de peças ou complementos do vestuário e da casa. Conforme Mônica Moura (2008) para a construção de seu objeto, os três campos – moda, arte e design – trabalham com similares elementos básicos para suas composições visuais: formas, cores, linhas, volumes e texturas. Mas essa é somente parte das inúmeras semelhanças que podemos enxergar nas três atividades. Como já visualizamos, existem variadas formas de estabelecer as relações entre arte, moda e design e nesse estudo a discussão é mais voltada para o aspecto gráfico dessa conexão que muito tem a ver com as formas, cores, linhas volumes e texturas propostas por Moura. 3 Design gráfico na produção de Goya Lopes Segundo a ADG, Associação do Design Gráfico, design gráfico é um processo técnico e criativo utilizando-se de imagens e textos para transmitir idéias mensagens e conceitos, com objetivos comerciais ou de fundo social. A definição da ADG atende de forma abrangente o que é o design gráfico e suas possibilidades de execução. Visualizando a atividade na indústria da moda, a ação do designer gráfico é estratégica e, como tal, deve estar inserida adequadamente na organização. Trata-se de uma atividade que se relaciona tanto com o estilo, na confecção de seus produtos, como com a comunicação e marketing da empresa. Para Richard Hollis (2000), o design gráfico é a arte de criar ou escolher marcas gráficas – linhas de um desenho ou pontos de uma fotografia – combinando-as numa superfície qualquer para comunicar uma idéia. Portanto, fica claro que o design pode estar na estampa da camiseta como na produção de um catálogo da coleção. Ambas as possibilidades estão combinando marcas gráficas com intenção de transmitir uma idéia, seja ela na roupa ou no papel. No caso de uma indústria de moda, independente da superfície trabalhada, tanto no estilo como na comunicação para venda do produto, é importante que as duas atuações estejam seguindo o mesmo conceito e proporcionando o fortalecimento da identidade da marca. O trabalho realizado pela artista plástica e designer baiana Goya Lopes, retrata a saudável relação entre moda, arte e design gráfico com fruto comercial. A artista, que está no mercado há 25 anos, é criadora e empresária no segmento de moda e decoração das marcas Didara, referência afro-brasileira e Goya Lopes Resort, referência brasileira, desenvolve em Salvador estamparias em tecidos e na sua produção cria os seus contos de moda por meio de seus grafismos,Figuras 1,2 e 3. Seu trabalho é funcional, mas com uma conotação artística. Com uma criação voltada para o resgate da simbologia da cultura africana e dos referenciais afro-baianos, além de desenhos com influências indígenas e da cultura brasileira, Goya apresenta através de uma estética própria, os modos de pensar, ver e ser dos grupos étnicos representados. Em seus desenhos e grafismos, expõe elementos das tradições, ideias, valores e crenças herdados de uma ancestralidade cultuada nas várias formas de religiosidade local e explora temas africanos que remetem a afirmação dos valores da cultura afro-brasileira. Em suas peças, a artista preocupa-se em pensar e conceituar sua prática, evidenciando os modos de produção dos objetos. Figura 1: objetos de decoração Foto: Claudia Trindade Figuras 2/3: Desfile Dragão Fashion Fonte: http://www.fashionbubbles.com Goya já criou cenários e figurinos para muitos cantores como o jamaicano Jimmy Cliff, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Virgínia Rodrigues e Margareth Menezes; seu trabalho já enfeitou paredes da Fundação Palmares e do salão do palácio do Itamaraty. Em setembro de 1999 foi convidada para representar a América Latina no desfile African Mosaique no Marriott Marquis em New York e vem participando de feiras e exposições nos EUA, na Itália e no Brasil. Em agosto de 2010 lançou o livro "Imagens da Diáspora", criado em parceria com o historiador Gustavo Falcón e composto por 30 gravuras inspiradas pela diáspora africana no Brasil. As peças de Goya Lopes carregadas de grafismos são desenvolvidas associadas ao design gráfico, a designer afirma que sempre percebeu1 “o quanto é importante a memória gráfica, o registro gráfico numa coleção.” Em sua produção Goya estabelece conexões entre o material e o imaterial, escolhe elementos e símbolos da cultura africana como referência para a composição das suas estampas e as representa através da relação entre formas, cores, imagens, proporção, tons e texturas. Esses elementos são manipulados, mesclando-se técnicas de composição visual e criação. A sua preocupação artística envolve desde a concepção, passando pela produção, apresentação e venda de seus produtos. 1 Entrevista concedida à Claudia Trindade em 27/04/2011. Enquanto na produção da marca Didara predomina o uso da serigrafia manual, a Goya Lopes Resort que é a sua grife de moda praia e pós-praia, Figuras 4 e 5, voltada para um público feminino sofisticado já se utiliza das facilidades da tecnologia moderna,aplicando os recursos da estamparia digital em suas peças. O que podemos visualizar no design das peças da artista é uma combinação bem sucedida de pesquisa e desenvolvimento de produtos, com o uso de bons materiais e um intenso empenho em produzir qualidade com estilo.2O universo imaginário de Goya é composto por temas fortes com formas originais e exclusivas e uma exaltação cromática. Sua composição em design de estampa é objeto de arte que, com personalidade e inteligência, valoriza a linguagem mágica da roupa e do ambiente que é inserida. Figuras 4/5: Desfile Bahia Moda Design. Fonte: http://bahiamodadesign.blogspot.com Toda essa preocupação conceitual é resultado de um trabalho fundamentado e aplicado estrategicamente para a criação de um produto criativo sem perder seu potencial de venda. Além da preocupação artística na elaboração e produção das peças, Goya ainda procura ambientar sua loja com superfícies ilustradas e decoração acompanhando a proposta de suas estampas como também desenvolve embalagens relacionadas aos seus grafismos agregando assim maior identidade junto à marca. 4 Conclusão Através da investigação acerca da moda, arte e design percebe-se que as três esferas, apesar de complexas, constituem-se campos amplos e férteis para o 2 Adaptação feita de matéria sobre o evento Dragão Fashion 2011, enfatizando o trabalho da designer Goya Lopes, disponível em http://www.fashionbubbles.com/moda/dragao-fashiondidara-por-goya-lop. Acessado em 24/04/2011. estabelecimento de cruzamentos e rompimento de fronteiras. Existem diversos casos de sucesso que envolvem ao mesmo tempo esses três campos de conhecimento. A proposta foi demonstrar através de um exemplo do segmento de moda como o design gráfico unido a arte pode realizar uma parceria conceitual e comercial para esse mercado. Além dessa possibilidade de atuação, o design gráfico ainda permeia várias outras atividades, mas coube a esse estudo somente uma parte desse processo no que diz respeito à sua relação com a arte para criação de produtos de moda. A atuação do design gráfico vai muito além das estampas vista nas passarelas, estando muitas vezes ao olhar somente dos profissionais do mercado e distantes da visualidade exposta ao consumidor. Faz-se necessário enxergar que o design gráfico deve ser parte da ação estratégica da empresa e no design de moda deve estar inserido na criação, desenvolvimento das peças, setor de produção, planejamento das coleções e na concepção de seus suportes de venda. Esse artigo não pretende esgotar as possibilidades criadas pela relação da arte, design gráfico e moda, mas sim suscitar novas reflexões sobre o tema. Trata-se de um universo de possibilidade que ainda há muito por investigar, em todos seus aspectos, seja ele, criativo, social, econômico ou cultural. Agradecimentos Ao Mestrado em Desenho, Cultura e Interatividade do Núcleo de Desenho e Artes da Universidade Estadual de Feira de Santana. À professora Nadia Virgínia, minha orientadora. À Goya Lopes, meu objeto de estudo da dissertação. Referências BARTHES, Roland. Sistema da moda.Tradução: Lineide do Lago Salvador Mosca. São Paulo: Editora Nacional; Editora da Universidade de São Paulo, 1979. CHATAIGNIER, Gilda. Fio a fio: tecidos, moda e linguagem. São Paulo: Estação das Letras, 2006. COELHO, Luiz Antonio L. (Org.). Conceitos-chave em design. Rio de Janeiro: PUC-Rio Novas Idéias, 2008. CONTI, Giovanni Maria. Moda e cultura de projetos industrial: hibridação entre saberes complexos. 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