ARTE, MODA E DESIGN GRÁFICO:
CONEXÕES POSSÍVEIS
Claudia Regina da Silva Trindade
UEFS- Universidade Estadual de Feira de Santana,
Departamento de Letras e Artes
[email protected]
Resumo
O presente artigo discute a atuação da arte e a relevância do uso de
elementos do design gráfico na concepção, produção e realização de
produtos de moda. A discussão é pontuada pela experiência da artista
plástica e designer Goya Lopes, empresária no segmento de moda e
decoração, que desenvolve um trabalho criativo onde as três esferas se
integram contribuindo para a valorização da marca e para a construção de
objetos que adquirem significados que vão além das questões estruturais e
funcionais.
Palavras-chave: arte, moda, design.
Abstract
The present article discusses the role of art and the use of elements of
graphic design in the design, production and realization of fashion products.
The discussion is punctuated by the experience of the artist and designer
Goya Lopes, manager in the segment of fashion and interior design,
developing a creative work where the three spheres are helping to integrate
branding and the construction of objects acquire meanings that are Apart
from structural and functional issues.
Keywords: art, fashion, design.
1
Introdução
Atualmente, designers e criadores de moda estão investindo, de forma significativa,
em pesquisas e tecnologias, para gerarem produtos de qualidade; o que se percebe é
a maior inserção de elementos da arte e do design gráfico na criação e realização de
produtos relacionados à moda, entre roupas, acessórios, embalagens e ambientação
de lojas.
Pode-se afirmar que a moda é uma forma de expressão sociocultural, mas é
também produto de design e constitui um importante mercado consumidor que
depende, dentre outros setores, do tecnológico e econômico. Essas relações
representam a complexidade de atuação da moda no que diz respeito à sua criação,
execução e comercialização. Trata-se de um segmento que movimenta inúmeros
profissionais de diferentes áreas. Dentre todas as áreas de atuação, o designer gráfico
permeia tanto o desenvolvimento criativo do produto, como o trabalho visual de venda.
Este artigo pretende discutir através de análise teórica, como a arte e o design gráfico
tornam-se mais presentes nas roupas, acessórios e material gráfico agregando valor
ao produto de moda. A mensagem visual pode ser transmitida por diversos meios,
dentre eles o vestuário, e na composição das peças pode-se aplicar elementos como
formas, texturas, cores, volumes e imagens que carregam simbologias e significações
na sua configuração. Inserido nesse contexto, o design gráfico expressa sua
importância na relação com a moda através da confecção de peças criativas e com
maior valor de mercado. No que se refere à arte, seu vasto campo de exploração
contribui para o desenvolvimento de peças que podem fazer de determinado produto
algo extremamente conceitual ou comercial, dependendo da forma como a criação
artística será explorada mediante esse produto. Inicialmente serão abordados no texto
conhecimentos da área de moda, arte e design e as possibilidades criadas a partir da
relação entre esses três campos. Depois demonstraremos a partir de um estudo de
caso como o design gráfico unido a arte pode realizar uma parceria efetiva para o
mercado da moda
2
Arte, moda, design e suas conexões
A definição do significado de arte, moda e design não é tão simples pelo fato dos três
campos possuírem um universo particular mais ainda assim se relacionarem, fazendo
com que suas fronteiras se tornem cada vez mais extensas e menos visíveis.
Conforme menciona Mônica Moura (2008), essas três esferas de conhecimento
podem propor ou representar contextos de questionamentos referentes aos valores e
formas de pensar e agir de uma cultura num determinado momento e tanto a obra de
arte como o produto de moda ou de design vão resultar num objeto aberto e sujeito às
várias interpretações, releituras ou recriações do usuário/fruidor nos objetos e
processos que utilizam tecnologias e sistemas digitais e virtuais, bem como de outros
designers ou profissionais de criação dos mais diversos segmentos profissionais.
Iniciando a abordagem pelo campo da arte, o fato de existirem inúmeras
possibilidades de atuação e interpretação do que é a arte, faz com que seu
entendimento seja bastante abrangente e complexo. Segundo Pareyson (1984) as
definições mais conhecidas da arte, podem ser reduzidas a três: ora arte é concebida
com um fazer, ora como um conhecer, ora como um exprimir. Na sua teoria da
formatividade, a ênfase maior é dada ao processo e não no resultado da obra. Ao
acentuar a relação entre o artista e sua arte, o autor valoriza o fato de que, no
processo de produção, o artista elabora também seu modo de produzir, seu estilo,
num diálogo constante com a matéria prima. A arte segundo Pareyson é reconhecida
como invenção, mas de uma forma que se desenvolve no próprio ato de execução, no
contato com a matéria-prima. Dessa forma, o artista produz simultaneamente, a obra e
o seu modo próprio de produzir.
O fato é que a arte não é somente executar, produzir, realizar e o
simples „fazer‟ não basta para definir sua essência. A arte é também
invenção. Ela não é execução de qualquer coisa já ideada, realização
de um projeto, produção segundo regras dadas ou predispostas. Ela
é um tal fazer, que enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de
fazer (PAREYSON,1984,p.32)
É nesse sentido que John Dewey (1974) afirma que, em geral, a arte envolve um
processo de fazer, de operar, uma intervenção sobre uma materialidade física.
Conforme o autor a perfeição na execução necessita daqueles que percebem e gozam
o produto executado; o produtor só concebe sua obra como finalizada quando se põe
na condição de espectador. Em suas palavras: “a arte une as mesmas relações de
fazer e padecer”. O padecimento nesse aspecto sendo entendido como a condição de
um artista se deixar ser conduzido pela sua obra.
Existe um ponto muito importante que faz com que a sociedade assimile a arte no
seu vocabulário coloquial e também a entenda como erudita: trata-se do tempo. No
decorrer da história, o significado da arte, assim como o ofício do artista, foi se
alterando na medida das transformações sociais, criando novos conceitos e ampliando
fronteiras. Pareyson (1994) afirma que a arte revela, com maior ou especial evidência,
o sentimento do tempo ou o espírito de uma época. Para o filósofo cada civilização
tem a sua arte, cada povo a sua poesia e cada época o seu estilo.
A obra de arte como filha de seu tempo e, portanto, como expressão
da alma de um determinado povo ou de uma determinada época,
pode ser considerada como documento de uma nação ou de uma
idade: por um lado, para ser compreendida, ela exige ser colocada no
seu tempo e interpretada à luz do espírito da época; por outro lado
contribui para dar a conhecer a sua época em todas as suas diversas
manifestações espirituais, culturais, políticas, morais, religiosas, etc.
(PAREYSON ,1984, p.99)
No que diz respeito à moda, naturalmente qualquer período artístico pode servir
como fonte de criação para uma coleção, mas para a compreensão das inspirações, é
importante entendermos os significados da arte e os resultados adquiridos através de
suas relações com a moda. A possibilidade de usufruir de uma obra de arte para
criação de outra expressão artística é considerada como uma forma de inspiração,
referência, influência. Mas seja qual for o nome, o uso de uma referência artística para
a realização de uma nova forma de expressão ou criação sempre existiu e no caso da
arte, a sua utilização, possibilita uma fonte inesgotável de inspiração. Nesse sentido, a
arte vem dando uma grande contribuição para o pensamento criativo dos designers de
moda.
Outro ponto importante que torna complexa a discussão sobre arte é quando
avaliamos que o domínio e a manipulação do objeto podem ser feitos manualmente ou
através de máquinas e indústrias. Porque conforme menciona Coelho (2008), muitos
acreditam que a arte é um resultado do esforço individual, enquanto que o design seria
resultado de uma atividade coletiva da sociedade industrial. Considerando essa linha
de pensamento, fica claro que tudo o que é feito através da colaboração de máquinas
é necessariamente design e não mais poderá ser considerado arte. Nesse momento
começa a intersecção dos temas, quando não sabemos mais concluir até que ponto
um fazer artístico pode ou não ser realizado com a contribuição da indústria. Mas essa
opinião não é unânime e é justamente a dificuldade em determinar o que é arte, o que
é design e quais os seus limites de atuação, que faz com que ambas estejam tão
próximas em suas concepções e realizações.
Sobre a tentativa de divisão entre arte e design, Villem Flusser (1999) trata essa
questão discutindo a necessidade da divisão entre arte, tecnologia e design:
“A cultura burguesa moderna fez uma divisão entre o mundo das
artes e da tecnologia e máquinas; assim a cultura dividiu-se em dois
ramos exclusivos: um científico, quantificável e „duro‟, o outro
estético, avaliável e „flexível‟. Essa divisão infeliz começou a tornar-se
irreversível no final do século XIX. Na lacuna, a palavra design
formou uma ponte entre os dois. Ela pôde fazer isso porque expressa
a ligação interna entre a arte e tecnologia” (FLUSSER, 1999)
Monica Moura (2008) afirma que nessa distinção entre o design e a arte utilizandose a divisão entre o objeto com finalidade prática e utilitária, e o objeto com finalidade
estética tem-se uma visão simplista e um tanto equivocada, por deixar de levar em
consideração que os objetos utilitários podem despertar sensações estéticas e a obra
de arte pode ter utilidade. É possível visualizar diferentes maneiras de fazer arte,
inclusive através da colaboração de máquinas e podendo utilizar diferentes suportes e
materiais para a realização da mesma. Os suportes podem ser inúmeros, mas o valor
da obra está na capacidade de suscitar emoções, desejos, valores, concepções a
respeito do que está sendo proposto pelo artista.
O segundo campo de abordagem, a moda, também possui diversos significados,
e dependendo do contexto onde está inserida possibilita inúmeras interpretações.
Conforme destaca Conti (2008), o termo moda, originário do latim modus, significa
uma escolha com base avaliativa aos critérios de gosto. Mas a moda pode ser
concebida de diferentes maneiras. Tamanha sua esfera de estudo, Gilles Lipovetsky
(2009), em um de seus livros, dividiu o estudo da moda em duas partes, a primeira
analisa o sentido estrito, fashion. A segunda procura entender a moda inserida em
suas
múltiplas
redes:
industrial,
cultural,
midiática,
publicitária,
ideológica,
informacional e social. Embora a questão fashion seja a mais visível para a maioria
das pessoas, o caráter social da moda e seus desmembramentos com as outras redes
assinaladas por Lipovetsky, estão a cada dia alçando maiores proporções na
sociedade, no mercado profissional e nas pesquisas acadêmicas. Segundo Roland
Barthes, a moda é objeto de uma disciplina diferenciada da roupa, é também objeto
tecnológico, do ornamento, estético, do costume e de pesquisa sociológicas.
Há tempos a moda deixou de ser vista apenas enquanto confecção de roupas e
acessórios e ganhou status de linguagem totalmente inserida nos processos sociais. O
vestuário ao cobrir o corpo, também transmite informações. As roupas colocam-se
como uma página em branco à disposição de elementos como: imagens, texturas e
cores que são capazes de contar histórias. Com isso o diálogo com arte, fotografia, e
outras formas de criação de imagens e processos tecnológicos geram interações que
até hoje renovam suas formas, praticamente a cada estação. Um dos interlocutores
mais freqüentes tem sido o design gráfico.
Nossa terceira abordagem, o design, de origem latina designo, possui entre
inúmeros significados, o sentido de designar. Mas existem outros significados, como
projeto e planejamento. Como podemos ver o design também é passível de diferentes
interpretações, podendo se manifestar através de várias possibilidades. Sua
interpretação parece mais simples, pois basicamente o design está associado ao fazer
previamente planejado. Essa prática está presente em diversas atividades, dentre
elas, o design gráfico, de objetos, de jóias, de moda, entre outros. Mas vale lembrar
que para a execução dessas tarefas é necessário uma multidisciplinaridade de
conhecimentos técnicos, científicos e artísticos. Conforme menciona Coelho (2008), no
design, as atividades consideradas no desenvolvimento projetual são a produtividade
de fabricação, as questões de uso, função, produção, mercado, utilidade, qualidade
formal e estética, e devem estar equacionadas a fatores sociais, culturais,
antropológicos, ecológicos, ergonômicos, tecnológicos e econômicos. O que se
observa é que a atuação do design gráfico, assim como a moda, prevê a necessidade
de planejamento projetual levando em conta tanto os aspectos técnicos como os
criativos e econômicos.
Ao analisarmos algumas definições de design vamos perceber que existe uma
dialética que norteia as discussões. De um lado, as que são baseadas no objeto e, de
outro as que são baseadas no processo. Segundo Denis (2000), a solução para definir
design não seria apenas a união entre estas duas formas de analisar suas atividades,
seria necessário considerar também que os produtos desenvolvidos a partir de um
determinado processo podem ser investidos de significados que não são restritos aos
percebidos claramente através de sua natureza. Os seus produtos não são apenas
soluções para necessidades objetivas dos usuários, já que estes também possuem
necessidades subjetivas provenientes dos seus desejos, anseios, expectativas. Nesse
caso se imprime num objeto significados que vão além das suas questões estruturais
e funcionais cumprindo assim variadas funções inseridas num determinado tempo e
espaço, onde se vão perdendo sentidos e adquirindo novos.
Do funcional ao estrutural, muitas são as esferas de atuação e especialização do
design, a sua prática torna-se necessária e fundamental no desenvolvimento de novos
produtos, seja através da escolha da forma, cor, identidade, entre outros aspectos
conceituais, que dialogam com a sociedade e o mundo. Dentre as diversas categorias
do design, o design gráfico tem maior relevância nesse estudo. Pode ser definido
como um processo técnico e projetual, onde são utilizadas várias aptidões, que dizem
respeito à imaginação, sendo assim, a profissão é responsável por formar opiniões e
conceitos para então solucionar problemas de forma criativa. Conforme Villas Boas
(2007), esse campo do design refere-se à ordenação projetual estético-formal de
elementos visuais, sejam elementos textuais ou não, para compor peças gráficas
próprias para a reprodução e comunicação. O designer gráfico hoje conta com
diversos campos de atuação: identidade corporativa, publicações institucionais,
projetos editoriais, projetos de embalagem, materiais promocionais e mídia eletrônica.
Nesse contexto estratégico e relacional das três atividades aqui abordadas,
podemos entender que o design gráfico está intrinsecamente ligado à arte e a arte
está ligada ao design gráfico como forma de referência, inspiração e influência e ao
mesmo tempo o design gráfico está ligado à moda como agente contribuinte para o
produto e comercialização da marca. A sua atuação pode contribuir para uma
valorização do produto de moda, tornando-o competitivo e capaz de viabilizar o
crescimento da indústria do vestuário. Além de se inserir na moda a partir de projetos
de embalagem, merchandising entre outras áreas mercadológicas e de identidade
visual, o designer gráfico pode trabalhar na área da moda a partir de seu desempenho
interdisciplinar com o design de superfície. Esse profissional possui conhecimentos
sobre identidade visual, composição, cores, formas, e apurada sensibilidade estética,
ou seja, ele possui capacidades e habilidades para desenvolver estampas
direcionadas à indústria da moda.
A estamparia é a impressão no tecido, ou o ato de estampar no lado direito do
tecido, pode ser modular, com a repetição do módulo ao longo da superfície do tecido,
ou representar um desenho único (estampa localizada), como uma cena. Segundo
Chataignier (2006) A palavra estamparia é proveniente da língua inglesa printwork
(trabalho pintado). A estampa diferencia a roupa além de caracterizar a temática da
coleção, concedendo exclusividade e originalidade às peças. Desperta desejo de
consumo em quem se identifica com o conceito e símbolo traduzidos pelas suas
composições gráficas. Simon Seivewright (2009) ressalta que muitos designers de
moda fizeram de suas estamparias o principal destaque e argumento para as vendas
de suas coleções. Esse reconhecimento é fundamental para a atividade do design
gráfico, mas essa é somente uma dentre tantas possibilidades de atuação profissional
no universo da moda.
A compreensão básica inicial desses três campos de conhecimento se faz
necessária para posteriormente entendermos suas relações. Por ser uma forma de
expressão, que muito permeia o universo artístico, a moda acaba por criar inúmeros
questionamentos a respeito dessa relação. O mesmo ocorre com o design, que como
já mencionamos, constantemente é submetido a discussões calorosas sobre ser ou
não ser arte. Esses questionamentos são válidos como fonte de estudo e
entendimento das áreas. O fator arte está intrínseco, entre outras possibilidades, na
expressão utilizada pelos estilistas e suas equipes, representando através do produto
um conceito ou imagem. Mas vale lembrar que no caso de uma indústria de moda a
influência da arte não pode distanciá-la do mercado e públicos a que se destina.
Mesmo havendo diversas possibilidades para definirmos individualmente cada um
desses campos, pode haver total interligação na construção de seus significados e
discursos e na realização de seus objetos finais. A arte tem servido como fonte de
pesquisa e referência para a criação e o desenvolvimento de projetos e produtos na
esfera da moda ou do design. Através da apropriação de referências artísticas, os
estilistas criam novas formas de expressão. Acompanhados por seus designers
gráficos, essa referências tornam-se etiquetas, bordados, tags, acessórios e
posteriormente podem também influenciar na confecção de embalagens, catálogos, e
diversos outros materiais institucionais e promocionais. Outra forma de presentificação
da arte na moda ou no design ocorre por meio das estampas e padronagens de
tecidos, pelo desenvolvimento de peças ou complementos do vestuário e da casa.
Conforme Mônica Moura (2008) para a construção de seu objeto, os três campos
– moda, arte e design – trabalham com similares elementos básicos para suas
composições visuais: formas, cores, linhas, volumes e texturas. Mas essa é somente
parte das inúmeras semelhanças que podemos enxergar nas três atividades. Como já
visualizamos, existem variadas formas de estabelecer as relações entre arte, moda e
design e nesse estudo a discussão é mais voltada para o aspecto gráfico dessa
conexão que muito tem a ver com as formas, cores, linhas volumes e texturas
propostas por Moura.
3
Design gráfico na produção de Goya Lopes
Segundo a ADG, Associação do Design Gráfico, design gráfico é um processo técnico
e criativo utilizando-se de imagens e textos para transmitir idéias mensagens e
conceitos, com objetivos comerciais ou de fundo social. A definição da ADG atende de
forma abrangente o que é o design gráfico e suas possibilidades de execução.
Visualizando a atividade na indústria da moda, a ação do designer gráfico é
estratégica e, como tal, deve estar inserida adequadamente na organização. Trata-se
de uma atividade que se relaciona tanto com o estilo, na confecção de seus produtos,
como com a comunicação e marketing da empresa. Para Richard Hollis (2000), o
design gráfico é a arte de criar ou escolher marcas gráficas – linhas de um desenho ou
pontos de uma fotografia – combinando-as numa superfície qualquer para comunicar
uma idéia. Portanto, fica claro que o design pode estar na estampa da camiseta como
na produção de um catálogo da coleção. Ambas as possibilidades estão combinando
marcas gráficas com intenção de transmitir uma idéia, seja ela na roupa ou no papel.
No caso de uma indústria de moda, independente da superfície trabalhada, tanto no
estilo como na comunicação para venda do produto, é importante que as duas
atuações estejam seguindo o mesmo conceito e proporcionando o fortalecimento da
identidade da marca.
O trabalho realizado pela artista plástica e designer baiana Goya Lopes, retrata a
saudável relação entre moda, arte e design gráfico com fruto comercial. A artista, que
está no mercado há 25 anos, é criadora e empresária no segmento de moda e
decoração das marcas Didara, referência afro-brasileira e Goya Lopes Resort,
referência brasileira, desenvolve em Salvador estamparias em tecidos e na sua
produção cria os seus contos de moda por meio de seus grafismos,Figuras 1,2 e 3.
Seu trabalho é funcional, mas com uma conotação artística. Com uma criação voltada
para o resgate da simbologia da cultura africana e dos referenciais afro-baianos, além
de desenhos com influências indígenas e da cultura brasileira, Goya apresenta através
de uma estética própria, os modos de pensar, ver e ser dos grupos étnicos
representados. Em seus desenhos e grafismos, expõe elementos das tradições,
ideias, valores e crenças herdados de uma ancestralidade cultuada nas várias formas
de religiosidade local e explora temas africanos que remetem a afirmação dos valores
da cultura afro-brasileira. Em suas peças, a artista preocupa-se em pensar e
conceituar sua prática, evidenciando os modos de produção dos objetos.
Figura 1: objetos de decoração
Foto: Claudia Trindade
Figuras 2/3: Desfile Dragão Fashion
Fonte: http://www.fashionbubbles.com
Goya já criou cenários e figurinos para muitos cantores como o jamaicano Jimmy
Cliff, Moraes Moreira, Gilberto Gil, Virgínia Rodrigues e Margareth Menezes; seu
trabalho já enfeitou
paredes da Fundação Palmares e do salão do palácio do
Itamaraty. Em setembro de 1999 foi convidada para representar a América Latina no
desfile African Mosaique no Marriott Marquis em New York e vem participando de
feiras e exposições nos EUA, na Itália e no Brasil. Em agosto de 2010 lançou o livro
"Imagens da Diáspora", criado em parceria com o historiador Gustavo Falcón e
composto por 30 gravuras inspiradas pela diáspora africana no Brasil.
As peças de Goya Lopes carregadas de grafismos são desenvolvidas associadas
ao design gráfico, a designer afirma que sempre percebeu1 “o quanto é importante a
memória gráfica, o registro gráfico numa coleção.” Em sua produção Goya estabelece
conexões entre o material e o imaterial, escolhe elementos e símbolos da cultura
africana como referência para a composição das suas estampas e as representa
através da relação entre formas, cores, imagens, proporção, tons e texturas. Esses
elementos são manipulados, mesclando-se técnicas de composição visual e criação. A
sua preocupação artística envolve desde a concepção, passando pela produção,
apresentação e venda de seus produtos.
1
Entrevista concedida à Claudia Trindade em 27/04/2011.
Enquanto na produção da marca Didara predomina o uso da serigrafia manual, a
Goya Lopes Resort que é a sua grife de moda praia e pós-praia, Figuras 4 e 5, voltada
para um público feminino sofisticado já se utiliza das facilidades da tecnologia
moderna,aplicando os recursos da estamparia digital em suas peças. O que podemos
visualizar no design das peças da artista é uma combinação bem sucedida de
pesquisa e desenvolvimento de produtos, com o uso de bons materiais e um intenso
empenho em produzir qualidade com estilo.2O universo imaginário de Goya é
composto por temas fortes com formas originais e exclusivas e uma exaltação
cromática. Sua composição em design de estampa é objeto de arte que, com
personalidade e inteligência, valoriza a linguagem mágica da roupa e do ambiente que
é inserida.
Figuras 4/5: Desfile Bahia Moda Design.
Fonte: http://bahiamodadesign.blogspot.com
Toda essa preocupação conceitual é resultado de um trabalho fundamentado e
aplicado estrategicamente para a criação de um produto criativo sem perder seu
potencial de venda. Além da preocupação artística na elaboração e produção das
peças, Goya ainda procura ambientar sua loja com superfícies ilustradas e decoração
acompanhando a proposta de suas estampas como também desenvolve embalagens
relacionadas aos seus grafismos agregando assim maior identidade junto à marca.
4
Conclusão
Através da investigação acerca da moda, arte e design percebe-se que as três
esferas, apesar de complexas, constituem-se campos amplos e férteis para o
2
Adaptação feita de matéria sobre o evento Dragão Fashion 2011, enfatizando o trabalho da
designer Goya Lopes, disponível em http://www.fashionbubbles.com/moda/dragao-fashiondidara-por-goya-lop. Acessado em 24/04/2011.
estabelecimento de cruzamentos e rompimento de fronteiras. Existem diversos casos
de sucesso que envolvem ao mesmo tempo esses três campos de conhecimento. A
proposta foi demonstrar através de um exemplo do segmento de moda como o design
gráfico unido a arte pode realizar uma parceria conceitual e comercial para esse
mercado. Além dessa possibilidade de atuação, o design gráfico ainda permeia várias
outras atividades, mas coube a esse estudo somente uma parte desse processo no
que diz respeito à sua relação com a arte para criação de produtos de moda. A
atuação do design gráfico vai muito além das estampas vista nas passarelas, estando
muitas vezes ao olhar somente dos profissionais do mercado e distantes da
visualidade exposta ao consumidor. Faz-se necessário enxergar que o design gráfico
deve ser parte da ação estratégica da empresa e no design de moda deve estar
inserido na criação, desenvolvimento das peças, setor de produção, planejamento das
coleções e na concepção de seus suportes de venda.
Esse artigo não pretende esgotar as possibilidades criadas pela relação da arte,
design gráfico e moda, mas sim suscitar novas reflexões sobre o tema. Trata-se de um
universo de possibilidade que ainda há muito por investigar, em todos seus aspectos,
seja ele, criativo, social, econômico ou cultural.
Agradecimentos
Ao Mestrado em Desenho, Cultura e Interatividade do Núcleo de Desenho e Artes da
Universidade Estadual de Feira de Santana. À professora Nadia Virgínia, minha
orientadora. À Goya Lopes, meu objeto de estudo da dissertação.
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