Bibliografia comentada sobre a Idade Média Prof. João Borba Para alunos que tenham se interessado pelo estudo da Idade Média, segue uma bibliografia comentada de alguns bons livros sobre o assunto. ARIÉS, Philippe; DUBY, Georges (Orgs.). História da Vida Privada: da Europa feudal à Renascença. Vol. 2. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. ARIÉS, Philippe; DUBY, Georges (Orgs.). História da Vida Privada: do Império Romano ao ano mil. Vol. 1. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. A coleção História da vida privada é uma enorme seleção de estudos de história, escritos por muitos historiadores diferentes todos mundialmente reconhecidos, a maioria deles da França. É uma coleção famosa no mundo inteiro, e segue uma linha de pesquisa histórica conhecida como história do cotidiano. Os historiadores do cotidiano não se interessam pelas realizações de “grandes homens” famosos ou importantes, nem dão tanta atenção a explicações sobre as razões ou mecanismos que foram provocando as transformações de uma época para outra. Acham que o mais importante é entender como viviam as pessoas comuns de cada época no seu dia a dia, e deixar essas razões que levam às transformações de época para época, se essas razões realmente existirem, aparecerem sozinhas e de maneira evidente pela simples apresentação detalhada e cuidadosa dos fatos cotidianos, do modo como eram vividos normalmente pelas pessoas naquelas épocas. São historiadores que evitam colocar opiniões, interpretações ou teorias pessoais. Seguem a ideia de que os simples fatos falam por si mesmos. É uma coleção de 5 volumes grandes e grossos que no Brasil costumam ser vendidos separadamente (existe uma edição em volumes menores, talvez mais barata, mas as letras e imagens também são menores e a leitura é menos agradável). Os próprios organizadores da coleção, Philippe Ariés e Georges Duby, são provavelmente os historiadores do cotidiano mais famosos do mundo. O volume 1 vai do Imperio Romano ao Ano Mil (século X). Isso quer dizer que passa pela queda do Império Romano e pelo começo da Idade Média, e vai até o fim daquela fase muitas vezes considerada como “Era das Trevas”, em que, principalmente por causa da perseguição de estudiosos pela Igreja, haviam sido praticamente abandonados os estudos em medicina, história, política, os estudos sobre o mundo natural em geral (hoje chamados de “física”, “química” etc.) e diversas outras áreas. Na verdade, a expressão “Era das Trevas” sempre foi muito usada como uma maneira de criticar o pensamento e o modo de vida de toda a Idade Média ou “Era Cristã”, até o século XV. Antes do aparecimento dos historiadores do cotidiano, era considerado evidente e indiscutível quase unanimemente entre os historiadores que a Idade Média havia sido um período de decadência da civilização e da humanidade, e a Igreja uma força de promoção dessa decadência. Entre diversos outros preconceitos contra a Idade Média quebrados por esses historiadores, eles mostraram que as coisas na verdade não tinham sido bem assim. Que depois do ano mil (a partir do século X) a vida dos medievais foi mudando, até o aparecimento das Universidades nos últimos séculos da Idade Média, com uma enorme produção de estudos em diversas áreas nos séculos XII, XIII e XIV, e a Igreja dividida entre os que defendiam e promoviam o avanço nesses estudos e os conservadores, que se organizavam em torno da Inquisição e outras forças reacionárias, que eram violentas na perseguição aos estudiosos justamente como uma reação (talvez por medo) contra todo esse avanço. BAKHTIN, Mikhail. Cultura popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec/UnB, 1987. Mikhail Bakthtin é um caso especial na história da Idade Média. Trata-se de um filósofo russo, comunista, mas que sofreu perseguição na ditadura comunista de Stalin. Bakhtin sofreu essa perseguição política por causa de suas ideias em estudos sobre literatura, que indiretamente inspiravam as pessoas a pensarem em um comunismo sem ditadura, com maior liberdade. A filosofia da linguagem da Bakhtin, que se apóia na ideia de que tudo que se escreve ou diz no fundo é parte de um grande diálogo social, é mundialmente famosa, e acabou tendo influências em diversas outras áreas. A certa altura, Bakhtin resolveu estudar um famoso escritor e contador de histórias cômicas absolutamente escrachadas do final da Idade Média chamado François Rabelais. Rabelais era sábio o suficiente para se tornar escritor naquela época de muito analfabetismo, e escreveu histórias cômicas ao gosto do povão mais pobre, que iam sendo contadas em rodas de amigos e se espalhando por toda a França mesmo entre os que não sabiam ler (imensa maioria). Seus personagens chegaram a virar fantasias de carnaval. Além disso, Rabelais era alquimista, médico (um dos raros em toda a Europa) e suspeito de ateísmo, o que seria ainda mais raro naquela época. Há um debate mundial a respeito disso, alguns defendendo que Rabelais era ateu e materialista, que é o caso de Bakhtin, outros defendendo que não. Mas o estudo de Bakhtin é até hoje, de longe, o mais reconhecido mundialmente sobre o assunto. Rabelais sofreu perseguição da Igreja, e foi sendo sempre salvo e protegido por nobres de quem tinha salvo a vida como médico, mas acabava se desentendendo com muitos dos seus protetores por defender muito o povo mais pobre e simples do campo. Pelos estudiosos de literatura, Rabelais costuma ser considerado um dos maiores escritores de todos os tempos, principalmente no campo da comédia. Mas como seus escritos usam uma linguagem muito “suja”, recheada de palavrões, não costuma ser muito citado ou recomendado nas universidades (em muitas partes do mundo, os professores universitários de história da literatura reconhecem a importância e o valor de Rabelais, mas parecem ter certo pudor em falarem dos textos dele, ficam envergonhados e sempre evitam citar partes desses textos). O estudo de Bakhtin sobre Rabelais é o mais famoso até hoje. E como Bakhtin considera que qualquer texto no fundo está sempre dialogando com toda a sociedade de sua época, para estudar Rabelais ele estudou também toda a sociedade do final da Idade Média e início do Renascimento e do Capitalismo. O resultado foi esse belíssimo livro de história que surpreendeu os historiadores de todo o mundo e se tornou um grande clássico no assunto, mostrando um lado da mentalidade medieval que nunca havia sido visto antes. Para falar sobre a época de Rabelais (fim da Idade Média, início do Renascimento) Bakhtin acabou fazendo uma história das festas medievais até essa época, e também uma impressionante história do riso, isto é, um profundo estudo sobre aquilo que, ao longo da história da humanidade (não só na época medieval, mas inclusive desde a antiguidade e até os dias de hoje) as pessoas dessas diferentes épocas achavam “engraçado”. Ele mostrou que pessoas de épocas diferentes e de classes sócio-econômicas diferentes têm um tipo de riso diferente, porque riem de coisas diferentes. Deste modo, conseguiu mostrar com clareza como a literatura cômica escrachada e materialista de Rabelais era popular, feita especialmente para o “povão” e, em parte para os jovens e baderneiros “estudantes” das primeiras universidades da História, fundadas pela Igreja dos últimos séculos da Idade Média. BARK, William Carrol. Origens da Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. O livro de Carrol William Bark detalha cuidadosamente o processo de decadência do Império Romano que levou ao início da Idade Média. Mas mostra também como os estudos sobre o assunto ainda não podem ser considerados completos nem perfeitos, porque há muitos pontos não explicados ou ambíguos, que levam a diferentes interpretações e a um debate interminável sobre o que realmente levou à queda do Império Romano, embora haja alguns fatores gerais reconhecidos como importantes nesse processo. O ponto alto do livro, e que costuma ser mais elogiado por historiadores, é a explicação sobre o modo como a economia de Roma foi entrando em colapso, e como as mudanças econômicas acabaram ajudando a promover o fortalecimento do Cristianismo, com sua nova visão da sociedade. GIBBON, Edward. The Christians and the fall of Rome. New York: Penguin Books, 1984. GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. Edição abreviada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Edward Gibbon, historiador inglês do século XVIII ligado ao movimento Iluminista (movimento de defesa do progresso e de que as “luzes da razão” fossem espalhadas por toda a sociedade, com muita filosofia, ciência, arte e educação em geral), foi o primeiro a desenvolver um estudo realmente longo e profundo a respeito da queda do Império Romano e do início da Idade Média, tentando explicar esse processo histórico. Sua obra continua até hoje sendo considerada um dos maiores clássicos sobre o assunto, e é muito discutida. As explicações de Gibbons sobre o modo como as coisas foram acontecendo são consideradas em geral muito boas e úteis, mas nem todos os historiadores de hoje concordam plenamente com todas elas em todos os detalhes. Há correções sendo propostas, mas essas propostas de correção sempre acabam gerando debates e polêmicas com alguns historiadores que preferem continuar seguindo mais de perto a linha de Gibbon. A versão que tenho do livro Declínio e queda do Império Romano é uma edição abreviada, isto é, uma espécie de versão “resumida” com muitos detalhes excluídos, mantendo as partes mais importantes de cada capítulo. Tem 497 páginas, então se pode imaginar o tamanho da obra na versão completa — que sem dúvida, apesar do tamanho, deve ser bem mais interessante. Já o livro The christians and the fall of Rome (que se traduz “Os Cristãos e a queda de Roma”), que está inteiro, é um pequeno volume de bolso de 91 páginas. No entanto é talvez o mais interessante. Neste pequeno mas profundíssimo livro, Gibbon revê algumas das explicações feitas no outro. Neste livrinho bem mais cuidadoso, ele acaba considerando o Cristianismo, afinal, como uma das várias e diferentes forças que teriam levado à própria derrubada do Império Romano, e não apenas como uma força que emergiu no final do Império e tomou conta das coisas quando o império caiu. Infelizmente, não encontrei nenhuma tradução para o português desse pequeno e brilhante estudo pessimista de Gibbon, que tenho em casa. Na verdade o livro mostra uma imagem muito ruim do cristianismo dos primeiros tempos, e Gibbon, logo no início, se mostra bastante chocado com o resultado de suas próprias descobertas e conclusões, porque não esperava encontrar o que encontrou. O cristianismo já não tem uma imagem muito boa no outro livro, e é possível que ele tenha tentado se aprofundar justamente tentando corrigir isso. Gibbon era cristão declarado, e suas descobertas, ao contrário do que esperava, parecem tê-lo levado a uma decepção muito grande com a história de sua religião. É possível que, no século XVIII, as conclusões do famosíssimo Gibbon — já no livro maior, porque o menor e mais aprofundado é menos conhecido — tenham inclusive influenciado e reforçado a formação da opinião geral de que a Idade Média (ou Era Cristã) teria sido a “Era das Trevas” — coisa que os historiadores de hoje tendem a relativizar, como já vimos, mostrando que o período realmente ruim para as “luzes da razão” foi apenas até um pouco depois da metade da Idade Média, por volta dos séculos X-XI. Na verdade, é possível até mesmo suspeitar que o próprio fato de se ter deixado levar por essa decepção tenha acabado contaminando as conclusões de Gibbon, que apesar de ser um bom e sólido historiador, parece ter-se deixado levar em alguma medida por expectativas religiosas, isto é, por expectativas que não dizem respeito ao simples e sério estudo acadêmico e científico dos fatos e transformações históricas, que deveria procurar evitar preconceitos favoráveis ou desfavoráveis em qualquer direção. GILSON, Étienne. A filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Gilson é um famoso historiador da filosofia, interessado principalmente pelo estudo da história da razão, dos conceitos de “razão” e dos usos da razão pelos filósofos nas diferentes épocas, com especial atenção para a razão científica, que acaba sendo valorizada por muitos filósofos. Quando lemos sobre a história da Idade Média, ficamos às vezes com a impressão de que naquela época não havia estudos e não se usava a razão, porque tudo era uma questão de pura e simples fé. Mas pensar desse modo é um exagero muito grande. O que ocorre é que a imensa massa da população era analfabeta e nos primeiros séculos de todo desse período não havia “escolas” como as que conhecemos hoje. Entretanto, entre os membros da Igreja havia sim muitos estudiosos e inclusive grandes filósofos. Apenas esses estudos nunca se separavam das questões religiosas e dificilmente avançavam para alguma área que não parecesse interessante para a Igreja. Alguns filósofos medievais são bastante famosos, como Santo Agostinho, Guilherme de Ockan, Pedro Abelardo ou Thomás de Aquino. Mas houve muitos outros, e que desenvolveram filosofias extremamente refinadas, que felizmente chegaram sim até nós. Neste “livrinho” de 949 páginas, Gilson vai nos mostrando cuidadosamente inúmeros filósofos, filosofias e debates filosóficos que foram sendo desenvolvidos ao longo de toda a Idade Média, e que hoje nem sempre tem sido muito lembrados e reestudados porque são pouquíssimo conhecidos, a não ser entre os que estudam especificamente questões religiosas. No entanto, trata-se de um material interessantíssimo para, indiretamente, nos ajudar a refletir sobre diversos outros assuntos, indo muito além das questões apenas religiosas, apesar das aparências. GIORDANI, Mário Curtis. História dos reinos bárbaros. Idade Média III – Volume II – A Civilização. Rio de Janeiro: Vozes, 1972. Como a influência cristã sempre foi muito grande no nosso mundo Ocidental, mesmo depois da Idade Média, geralmente tendemos a esquecer de dar atenção à história de outros povos, diferentes dos nossos, e não tão influenciados pelo cristianismo. Durante muito tempo, e sem se darem conta do preconceito por detrás do que estavam fazendo, os historiadores trataram esses outros povos quase como se não existissem, ou fossem todos iguais uns aos outros, ou fossem apenas e simplesmente povos “não-cristãos” (ou “infiéis”, “pagãos” etc.) ou ainda como se, simplesmente, a história desses outros povos não tivesse o menor interesse. Isso acabou afetando muito a história da Idade Média. A queda do Império Romano e o início da Idade Média foram muito influenciados pela presença desses diversos povos não-cristãos, considerados apenas, de um modo geral, como “bárbaros”. E na verdade, sua presença na Europa continuou indiretamente marcante e influente na formação do nosso mundo ocidental predominantemente cristão. Neste volume sobre a História dos reinos bárbaros (aqueles reinos que invadiram o decadente Império Romano na passagem para a Idade Média), o historiador Mário Curtis Giordani nos ajuda a entender esse “outro lado” pouco conhecido (o lado “bárbaro”) da Idade Média. Por isso é um livro especialmente interessante, ajudando a comparar o ponto de vista tradicional com as coisas vistas “de um outro ângulo”, geralmente muito pouco examinado, para conseguirmos atingir uma visão mais completa da idade Média do que aquela que costumamos encontrar na maioria dos livros de História. HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1984. Leo Huberman é um dos mais famosos e conceituados estudiosos de economia política dos Estados Unidos, ligado a movimentos políticos de esquerda naquele país, mas nacional e mundialmente reconhecido por sua competência por pessoas de todos os posicionamentos. Além de economista de renome e respeitadíssimo, é um profundo conhecedor de história econômica, e tem a vantagem de ser além disso um excelente escritor: seus estudos são escritos sempre numa linguagem acessível e até gostosa, bem-humorada e inteligente. História da riqueza do homem é um de seus livros mais famosos no mundo, e o mais famoso traduzido no Brasil, recomendado sempre aos alunos em muitas universidades, e que já teve muitas reedições. Neste livro ele nos oferece uma imagem muito nítida e vida da vida na Idade Média, destacando as relações econômicas e políticas, com o exemplo de situações reais que aconteceram na época, comparações com os dias de hoje e explicações muito claras e úteis sobre o funcionamento das coisas na época. Trata-se de um texto de aceitação geral entre os estudiosos do assunto, com informações seguras e que não costuma ser considerado polêmico. No entanto, o livro, evidentemente, destaca as questões políticas e econômicas, e se aprofunda menos em outros assuntos indiretamente ligados a elas e igualmente importantes. HUIZINGA, Johan. O declínio da Idade Média: Um estudo sobre as formas de vida, pensamento e arte em França e nos Países baixos nos séculos XIV e XV. Lisboa: Ulisseia, sem data. Este autor holandês, quando ainda estava vivo, já havia atingido reconhecimento mundial e era considerado, por assim dizer, uma “lenda viva” entre os historiadores, reconhecidamente acima de qualquer crítica no seu levantamento dos fatos históricos, e por outro lado extremamente polêmico e inovador nos seus métodos e em suas conclusões a respeito do fim da Idade Média. Sua fama começou justamente com este livro. Infelizmente, meu volume não tem a data de publicação. É uma tradução feita em Portugal, e não sei se existe alguma em português brasileiro. O livro foi publicado originalmente, em sua primeira edição, na Holanda, no ano de 1924 (Huizinga faleceu em 1945, na época do fim da 2ª Guerra Mundial). A tradução mais correta do título não seria “O declínio” e sim “O outono da Idade Média”. Huizinga além de historiador, era filósofo, e no Brasil, apesar de sua principal obra ser pouco conhecida, ficou famoso principalmente por causa de um outro livro seu, de filosofia, chamado Homo ludens (que já chegou a ser tema de redações de vestibular na USP, em São Paulo). Huizinga foi o primeiro historiador a desenvolver, apoiado na filosofia de Nietzsche, uma espécie de história da vida cotidiana (no caso, da vida cotidiana no final da Idade Média). O livro O outono da Idade Média teve uma influência tão grande que, décadas mais tarde, acabou gerando toda essa nova maneira de se fazer história praticada na França por Philippe Ariés, Georges Duby e outros. Mas Huizinga fez mais do que isso. Deu um valor especial para a questão do lúdico, isto é, do jogo, da festa, da arte e da brincadeira, mostrando que essas coisas têm um papel muito mais fundamental na formação das diferentes sociedades, ao longo da História, do que se costuma imaginar. Além disso, nesse mesmo livro sobre a Idade Média (na segunda metade do livro), fez a análise filosófica mais profunda já feita, até hoje, de um conflito que ocorreu entre duas linhas de pensamento diferentes na Igreja, nos últimos séculos da era Medieval, e de como esse conflito teve consequências no desenvolvimento histórico da Europa nos séculos seguintes. E por último, foi este livro que lançou, pela primeira vez, uma nova visão da Idade Média, bastante ousada e inovadora na época, e que hoje tende a ser aceita por todos os historiadores: foi neste livro de Huizinga — O outono da Idade Média — que se mostrou pela primeira vez que a Idade Média não poderia ser considerada, de maneira nenhuma, como uma época inteira igual, do começo ao fim, como se toda ela fosse uma mesma “Era das Trevas”, promovida pela Igreja e pela fé cega contra as forças do pensamento racional. Huizinga foi o primeiro a mostrar que, ao contrário do que se costumava imaginar, a tal era do “Renascimento” dos estudos e do pensamento racional que veio depois, na verdade já estava parcialmente começada nos últimos séculos da própria Idade Média, inclusive, por exemplo, com a fundação de universidades e a reabertura — pela própria Igreja, ou pela parte menos conservadora e mais avançada dela — de muitos campos de estudo que tinham sido abandonados antes. Mais do que as atitudes da Igreja, o que ele ressalta é principalmente o modo de viver das pessoas em geral nesses últimos séculos da Idade Média, e como já viviam de maneira mais parecida com aquela do Renascimento que, supostamente, só teria vindo depois. Em outras palavras, Huizinga forçou os historiadores do mundo inteiro a reconhecerem que não é muito correto marcar uma data exata em que a Idade Média teria “acabado”, que a passagem para o Renascimento foi bem mais gradual do que parecia, misturando juntos os dois modos de vida, o medieval e o novo (que é renascentista e em certa medida também já é capitalista). Isso causou uma verdadeira revolução no campo da historiografia, isto é, no campo dos estudos sobre como estudar história. E marcou também o começo de uma nova visão, bem menos preconceituosa e mais cuidadosa, do modo como teria acontecido a passagem da Idade Média para o Renascimento. KRAMER, Heinrich; Sprenger, James. O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Record/Rosa dos Tempos, 1995. LINK, Luther. O diabo: A máscara sem rosto. São Paulo: Companhia das Letras, 1978. Estes são dois livros interessantes: falam sobre os conflitos religiosos entre a Igreja Cristã medieval (católica apostólica romana) e outras religiões, principalmente o paganismo, o conjunto das crenças mágicas e místicas da antiguidade, que valorizavam a mãe natureza como se o mundo material (natural) estivesse carregado de várias forças divinas — paganismo que, apesar de abafado pela força da fé cristã, continuava presente meio misturado com ela, na mentalidade do povo camponês (que vivia em contato com a terra e as coisas da natureza. O martelo das feiticeiras (na versão original em latim, “Malleus Maleficarum”) foi escrito em 1484 (ou seja, bem no final da Idade Média) por dois Inquisidores, dois membros da ala mais conservadora e agressiva da Igreja, responsáveis por perseguir, prender, interrogar, torturar e matar aqueles que fossem acusados de se desviarem dos “bons ensinamentos cristãos” — em geral mulheres que aprendiam a mexer com ervas e poções para fazerem remédios, e que por isso eram acusadas de “bruxaria” e de prestarem devoção a “demônios”, a “satanás” etc. Esse documento de 528 páginas em latim, escrito pela própria Inquisição na Idade Média, que chegou até nós e recebeu uma tradução para o português, mostra minuciosamente coisas que eram consideradas “sinais seguros” de que uma pessoa estava ligada à feitiçaria e a forças demoníacas — sinais apresentados pelos acusadores como “provas” definitivas de culpa, em tribunais nos quais não havia advogado de defesa. Mostra também minuciosamente as torturas recomendadas para arrancar uma confissão em cada caso ou para, depois, ir “purificando” aquela alma através da dor até a morte. Esses “sinais” são coisas como pintas, manchas ou marcas de nascença na pele, e outras coisas do gênero, e o fato de os sinais nunca serem muito claros era interpretado como parte dos “disfarces dos demônios” para se esconderem e não deixarem a Igreja perceber facilmente a ligação deles com a pessoa acusada. Dificilmente uma pessoa acusada se livraria da condenação, mesmo que tivesse sofrido uma denúncia anônima e sem nenhuma prova. Com a pessoa despida e torturada, os inquisidores acabavam encontrando alguma coisa no corpo dela que servia como “sinal” e “prova” da ligação com os demônios. Muitas vezes as pessoas presas e condenadas pela Inquisição eram membros da própria Igreja que tinham uma mentalidade mais aberta e haviam defendido a abertura dos conhecimentos e estudos para uma parte maior da população. Mas a maior parte das vítimas da Inquisição era formada por pessoas suspeitas de manterem alguma ligação com as antigas religiões pagãs, que acreditavam em várias forças divinas presentes na própria natureza ao invés de um só deus acima dela em um plano puramente espiritual. Essas forças divinas da natureza, das religiões pagãs e mágicas, eram classificadas pela Igreja cristã medieval como “demônios”, e declaradas “forças do mal”. O segundo livro, O diabo: A máscara sem rosto, é um entre muitos e muitos estudos atuais sobre como a imagem do “diabo” e dos “demônios” foi construída pela Igreja medieval como uma maneira de combater os restos ainda vivos das antigas religiões pagãs ligadas à magia. Há muitos livros como este, escritos por pesquisadores sérios e cuidadosos, que mostram como essa “guerra” entre crenças religiosas levou a Igreja medieval a espalhar na imaginação do povo a ideia de que haveria “demônios” presentes por todos os lados tentando as pessoas e procurando desviá-las do caminho do Supremo Bem, isto é, do caminho de Deus. PIRENE, Henri. História econômica e social da Idade Média. São Paulo: Mestre Jou, 1983. Pirene é um historiador muito conceituado e citado por muitos outros em diferentes livros sobre a Idade Média. Seu foco de atenção, como se pode perceber pelo título do livro, é menos voltado para as questões religiosas e de conflitos entre religiões, e mais para as questões econômicas e sociais. RIBEIRO, Darcy. O processo civilizatório: etapas da evolução sócio-cultural. Petrópolis: Vozes, 1978. Darcy Ribeiro é um estudioso brasileiro de antropologia (ou seja, um estudioso das diferentes culturas humanas, principalmente em povos primitivos, indígenas). O autor é atual e ainda está vivo, tendo inclusive participação atuante na política brasileira. A certa altura escreveu este livro, que não é exatamente sobre a Idade Média, mas sobre a história da humanidade em geral. O livro chamou muita atenção em toda a Europa e acabou tornando-o mundialmente famoso, justamente por causa de um pequeno capítulo sobre a Idade Média. Apesar de ser um antropólogo, e de os antropólogos em geral se interessarem pela cultura e pelo modo de vida das diferentes sociedades, dialogando bem com os historiadores da vida cotidiana, neste livro Darcy Ribeiro aponta completamente em outra direção. Indo para o extremo oposto dos historiadores da vida cotidiana, trata de ignorar de propósito tudo o que diga respeito a isso, para se concentrar só nos mecanismos gerais que, segundo ele, organizam e transformam as civilizações de uma época para outra. Ele coloca em primeiro lugar e acima de tudo a tecnologia e os desenvolvimentos tecnológicos de cada povo, época após época, explicando todas as outras transformações que vão acontecendo em uma sociedade a partir das tecnologias quer vão sendo abandonadas e das novas tecnologias que vão sendo descobertas e utilizadas por ela. No curto capítulo sobre a Idade Média, acaba retomando, por esse novo caminho, aquela velha visão tradicional da Idade Média inteira como sendo, no fundo, uma espécie de “Era das Trevas”. Mostra que ao longo da Idade Média todas as melhores tecnologias desenvolvidas na antiguidade — especialmente pela civilização romana — foram sendo abandonadas e substituídas por tecnologias inferiores e mais atrasadas, ou por tecnologia nenhuma, de modo que a Idade Média acabou sendo, para dizer o mínimo, um período de estagnação, de nenhum progresso, ou talvez até de regressão. De modo que a Era Cristã, no livro, acaba parecendo tão “bárbara” e incivilizada quanto aquelas sociedades do norte da Europa que no início tinham vindo invadir o império romano e desmantelá-lo, e que foram chamadas pelos romanos e cristãos de “povos bárbaros”. Há talvez exagero da parte de Darcy Ribeiro, e sem dúvida esse ponto de vista levantado por ele na verdade não nos ajuda a compreender cuidadosa e detalhadamente a Idade Média, porque faz parecer que essa época não apresenta nada de realmente importante e não chega a merecer tanto estudo. De qualquer modo, é uma obra que causou algum abalo nos debates mundiais sobre o estudo da História medieval, por isso merece ser lembrada. VILANI, Maria Cristina Seixas. Origens medievais da democracia moderna. Belo Horizonte: Inédita, 2000. Esta obra tem uma proposta interessante do ponto de vista político: mostrar de que modo estariam presentes, já na Idade Média, algumas sementes do que viria a ser a nossa democracia atual, depois de séculos de abandono da ideia de democracia durante os impérios de Alexandre da Macedônia e de Roma. Mas é um livro que, na verdade, mostra essas sementes de democracia não nas práticas políticas e cotidianas medievais, entre os camponeses, entre os senhores feudais etc., e sim nos estudos de alguns daqueles raros grandes pensadores que existiam naquele período, e que geralmente desenvolviam seus estudos em latim e sob o controle vigilante da Igreja, para não ferirem os princípios dessa fé. É um bom livro, mas estou a procura de um que examine isso um pouco mais do ponto de vista prático e menos do ponto de vista puramente teórico, apresentado nos livros de alguns sábios medievais.