doi: 10.4025/10jeam.ppeuem.03002
O MERCADOR NAS FEIRAS DA IDADE MÉDIA: A CIVILIDADE
DO ATO DE COMPRAR E VENDER
AMBONI, Vanderlei (UNESPAR/FAFIPA-GTSEAM)
1. Introdução
Neste artigo, trataremos da feira na cidade medieval, cuja atividade central se dava
no ato de comprar e vender. Atividades, portanto, comerciais, mas também produtivas,
uma vez que o artesão local tinha, na feira, a possibilidade de fazer bons negócios. Fato
primário, nesse processo, foi o aumento populacional. Frente a este aspecto, o crescimento
populacional fez crescer as cidades para além dos muros iniciais, e, com ele, o
revigoramento das funções comerciais no espaço urbano. Para tanto, analisaremos obras de
historiadores clássicos que estudaram os aspectos da vida medieval, centrado nas cidades e
no desenvolvimento das feiras na Idade Média. Este ponto é fundamental para
compreender as relações sociais nos seus aspectos econômicos e perceber as contradições
internas presente na sociedade e na forma da reprodução social. Compreender, portanto, o
mercador em sua práxis que enfrenta seus temores e seus demônios. Assim, o mercador e
as feiras na Idade Média cumprem com um objetivo, expandir os negócios e fortalecer as
relações comerciais para além das fronteiras.
Neste aspecto, alia-se o processo de produção e intensificação da circulação de
mercadorias, em níveis regionais ou internacionais, através do mercador, pelas feiras
abertas no ocidente medieval. Não obstante, Rau (1982, p. 33) afirma que:
As feiras são um dos aspectos mais importantes da organização
econômica da Idade Média. Nascidas da necessidade de promover a troca
de produtos entre o homem e o campo e o da cidade, elas representam o
ponto de contacto entre o produtor e consumidor, o ponto onde se
concentrou a vida mercantil de uma época em que a circulação das
pessoas e das mercadorias era dificultada pela falta de comunicações, pela
pouca segurança das jornadas e pelo excesso de portagens e peagens.
1
Este processo é singular na cidade medieval e provoca mudanças na sociedade e no
comportamento do homem medieval. Não é por acaso que Le Goff (1991, p.8) acentua
que:
A essas mudanças está ligado — fenômeno capital ― o nascimento ou o
renascimento das cidades. Sejam elas novas criações ou velhas
aglomerações, é o seu caráter novo e importante que determina o primado
da função econômica. Etapas de rotas comerciais, articulações entre as
vias de comunicação, portos marítimos ou fluviais, seu centro vital fica ao
lado do velho castrum feudal, do núcleo militar ou religioso, é o novo
bairro das lojas, do mercado, do trânsito das mercadorias. É o
desenvolvimento das cidades que se ligam os progressos do comércio
medieval; é no contexto urbano que cumpre situar o crescimento do
mercador medieval.
Neste aspecto, o fenômeno econômico ocorrido no Ocidente medieval, através do
mercado local e das feiras, se manifesta, segundo Rau (1982, p. 33) “quando a necessidade
de troca de produtos impõe não só um lugar determinado para se realizar mas também uma
data periódica dada” para o estabelecimento da mesma. Portanto, a cidade medieval impõe
necessidades superiores à capacidade produtiva local e, para serem supridas, necessitam do
mercador. O luxo e a riqueza nelas reaparecem e, com isso, a circulação monetária e o
fervor das atividades profanas enriquecem a vida do citadino medieval.
Para tanto, nos cabe algumas indagações. O que significaria ser mercador na Cidade
Medieval e Mercador na Idade Média nos idos do século XII? Alguns deles assumiriam
publicamente a condição de ser mercador ou de homem de negócio em uma época de
mentalidade cristã? O mercador vivia mergulhado em um mundo que negava sua ação e as
colocava como proscrito socialmente. Mesmo contrariando seus princípios religiosos, o
mercador assumia sua condição, pois o objetivo central de sua vida era “ganhar dinheiro”,
acumular riquezas e, para isso, ele deveria estar atento ao seu mundo. Nesse sentido, ele
deveria obter conhecimento prática do trato comercial e vencer os empecilhos postos à sua
atividade, que não eram poucos. Portanto, ao longo das rotas terrestres e aquáticas ele tinha
que vencer os obstáculos naturais e os atos de banditismo e da pirataria praticados por terra
e pelo mar. Transportar, portanto, as mercadorias a um porto seguro era uma tarefa
dispendiosa e cheia de obstáculos e perigos de toda ordem. O mercador é o homem da
feira, acostumado com a dureza da vida para obter ganhos reais sobre a compra e venda de
mercadoria.
2
Nesse sentido, Le Goff (1991, p. 15), ao escrever sobre o mercador nas terras da
Champagne, afirma que:
Para chegar lá, os mercadores fizeram uma longa e difícil viajem; os
italianos que transpuseram os desfiladeiros alpinos passaram cinco
semanas na estrada. Precisavam, em primeiro lugar, de alojamento. A
principio, construíam-se acampamentos provisórios nas praças ou fora
das cidades. Depois, os habitantes alugavam aposentos ou casas aos
mercadores. Por fim, foram construídas para eles casas especiais de
pedras resistentes a incêndios, com grandes subterrâneos abobadados para
armazenar as mercadorias.
Assim, no presente texto, analisaremos de forma singular os aspectos da cidade
medieval e o processo de reprodução na vida material. Além dos aspectos que envolvem o
citadino e suas relações sociais, outro aspecto de nosso estudo será o mercado e a feira na
Idade Média. Esses aspectos foram fundantes de novas relações sociais e de novas formas
de (re)produzir a vida material. Assim, buscar as conexões entre cidade, campo e o
mercador e, estabelecer correlações das diversas forças sociais em ação, se torna
imprescindível para a compreensão da história. Buscar, portanto, os aspectos dessas
relações sociais é fato capital neste processo, cuja urbanidade e sociabilidade, inerentes à
vida humana, foi constituída na cidade murada. Portanto, as relações mercantis nas cidades
muradas e o maravilho mundo das feiras medievais são os aspectos do presente estudo.
2. A cidade murada e a reprodução da vida social
A cidade da Idade Média é um espaço fechado. A muralha a define.
Penetra-se nela por portas e nela se caminha por ruas infernais que,
felizmente, desembocam em praças paradisíacas. Ela é guarnecida de
torres, torres das igrejas, das casas dos ricos e da muralha que a cerca.
Lugar de cobiça, a cidade aspira segurança. Seus habitantes fecham suas
casas à chave, cuidadosamente. E o roubo é severamente reprimido (Le
Goff, 1998, p. 71).
A cidade murada cumpre com uma finalidade na Idade Média, a de proteção aos
seus habitantes, pois apresenta uma característica de defesa em virtude da sua localização e
no desenvolvimento de seus traçados. É o que afirma Goitia (1989, p. 88), para quem a
cidade medieval “fica geralmente situada em locais dificilmente expugnáveis: colinas ou
sítios abruptos, ilhas, imediações de rios, procurando principalmente as confluências ou
3
sinuosidades, de modo a utilizar os leitos fluviais como obstáculos para o inimigo”, ou
seja, na defesa contra o banditismo senhorial. Por isso, Goitia (1989, p. 89) afirma que, “O
traçado das ruas tinha que resolver as dificuldades da localização, o que fazia com que elas
fossem irregulares e tortuosas. As ruas importantes partiam em geral do centro e dirigiamse radialmente para as portas do recinto fortificado. Outras ruas secundárias,
frequentemente em circulo a volta do centro, ligavam as primeiras entre si. Em linhas
gerais, este padrão, chamado radioconcêntrico, repete-se muito na cidade medieval”. Neste
padrão urbano, a vida social se reproduz e desenvolve forças produtivas para atender a
demanda que a vida material exige. Nela, os citadinos promovem relações de urbanidade e
de convivência mutua.
Os séculos posteriores ao XI assistem o revigoramento da sociedade urbana, na
qual os homens desenvolvem as forças produtivas e intensificam as atividades dos
mercadores, para atenderem as necessidades de reprodução social da vida material e,
consequentemente, subvertem as relações sociais e se impõe à sociedade por seu vigor
comercial. Esse fato fica evidente na leitura que Guizot faz da sociedade feudal, cujo
centro de gravidade é a posse da terra. Mas a Idade Média feudal é também a Idade Média
das cidades medievais. O desenvolvimento das forças produtivas aponta para o
estabelecimento de relações de trabalho mais complexa, como forma de atender as
necessidades presentes na vida urbana. Com a Paz de Deus, a riqueza e a população nelas
reaparecem e aquecem as atividades produtivas, complexificando as relações sociais no seu
interior. Não é por acaso que Luckás (s/d, p. 4) afirma que “a essência do trabalho humano
está no fato de que, em primeiro lugar, ele nasce em meio à luta pela existência e, em
segundo lugar, todos os seus estádios são produtos da auto-atividade do homem”. O
trabalho é, portanto, a atividade essencial para a reprodução social e ele se desenvolve de
acordo com as condições materiais existentes na sociedade. Na cidade medieval, ele se
desenvolve com a riqueza material da sociedade possibilitada com a transformação da
riqueza entesourada em riqueza monetária. É a força da produção de bens transformadas
em mercadoria. Portanto, fortalece o mercador e suas atividades profanas aos olhos da
igreja.
Viver na cidade medieval é vincular-se ao outro em um círculo de dependência
geral, pois as atividades individuais materializadas para a produção da vida, integradas ao
cotidiano dos citadinos, determina o ritmo de sociabilidade e de desenvolvimento social da
4
cidade. Essa relação de produtividade inserida na cotidianidade da vida social das cidades
muradas, criou uma sociedade onde o trabalho de todos possibilita a reprodução social da
vida citadina, pois a “cidade medieval por excelência é uma cidade de mercadores e
(geralmente em posição subordinada) de artesão” (LOPEZ, p. 14). Outro aspecto da cidade
medieval é o trabalho desenvolvido nas oficinas dos mestres artesãos. Não é por acaso que,
Lopez (1980, p. 136-37) pontuou que “o comércio e a indústria estavam estritamente
relacionados. Quase todos os artífices eram parcialmente comerciantes, uma vez que
vendiam alguns dos seus produtos diretamente ao público” e o mercador “cujo negocio
dependesse fortemente dos produtos de um ofício podia investir nele uma proporção
considerável do seu capital e mão-de-obra, tornando-se um empresário artesanal a tempo
parcial ou a tempo integral”. Há, aqui, uma dupla relação desenvolvida pelo trabalho. Por
um lado temos a unidade produtiva, desenvolvendo as forças produtivas no interior das
oficinas e, por outro lado, as habilidades de mercador do mestre artesão, pois ele vende o
produto do trabalho na própria oficina, pois a habitação é o local de produção e de venda
das mercadorias produzidas.
Aqui, cito Rolnik (1988, p. 43-45), onde afirma que,
Na cidade medieval não há segregação entre os locais de moradia e
trabalho. A oficina do artesão é sua moradia e ao mesmo tempo é a
residência dos aprendizes também. Além de ser local de produção e
habitação, é na oficina que se vende o produto do trabalho, de tal forma
que todo o espaço do burgo é simultaneamente lugar de residência,
produção, mercado e vida social. [...] Uma descrição de Troyes, cidade
medieval francesa no século XIII, mostra que a casa de um próspero
artesão ocupava os quatro andares de uma edificação - sendo a oficina no
andar térreo, a moradia familiar no primeiro e segundo pisos, a dos
empregados no sótão e estábulos e armazéns no quintal localizado nos
fundos. Artesãos mais pobres viviam em espaços bem mais modestos,
mas também trabalhavam no mesmo local onde residiam. Enquanto os
homens se envolviam no artesanato, mulheres e crianças também
participavam dá produção doméstica - fiando, tecendo, bordando,
fabricando o pão, a manteiga e as conservas, cuidando dos animais no
quintal. Assim a casa do artesão era simultaneamente uma unidade de
consumo e produção na qual engajavam os adultos, jovens e crianças que
compunham a família. Neste contexto, portanto, não há separação entre o
mundo do trabalho e o mundo da família.
Essa produção interna recria o mercado e potencializa cada vez mais o
desenvolvimento de uma economia inserida no espaço urbano e ganha contornos regionais,
que extrapolam suas regiões e se firma como mecanismo de comércio. Comprar e vender
5
passa a ditar a vida urbana medieval. Não é por acaso que Smith (1985, p. 345) pontuou
que, “as cidades ofereciam um mercado para certa parte de sua produção bruta ou para a
produção manufaturada e, consequentemente, estimularam, até certo ponto, o trabalho e o
progresso de todas essas regiões” e Pirenne constatou as relações produtivas existentes no
interior das cidades medievais e o estabelecimento de relações comerciais entre cidade e
campo. A produção do campo e da cidade integradas à vida medieval são elos
determinantes para a reprodução da sociedade medieval.
Cito Pirenne (1968: 185):
Toda cidade, grande ou pequena, possui um número e uma diversidade,
proporcionais à sua importância, de artesãos de primeira categoria, pois
nenhuma burguesia pode prescindir dos objetos fabricados que a
satisfação das suas necessidades exige. Se os ofícios de luxo existem
unicamente em aglomerações consideráveis, em compensação, encontrase por toda parte os artesãos indispensáveis à sua existência cotidiana:
padeiros, carniceiros, alfaiates, ferreiros, oleiros ou picheleiros etc. Assim
como o grande latifúndio, na época agrícola da Idade Média, se esforçava
em produzir todas as espécies de cereais, toda vila satisfazia às
necessidades usuais dos seus habitantes e da terra baixa que a rodeia.
Vende os seus produtos no território onde se abastece de víveres. Os
camponeses que a provêem de produtos agrícolas nela compram produtos
industriais. A clientela das pequenas oficinas urbanas está, pois, formada
ao mesmo tempo, pela burguesia local e pela população rural
circunvizinha.
Mas essas cidades, para poderem desenvolver plenamente suas forças produtivas e
ampliar suas relações mercantis, tinham que enfrentar os “elementos estranhos à
comunidade urbana” que eram constituídos de bispos e outros eclesiásticos ligados à
estrutura de poder da igreja e de membros de famílias condais, que aspiram obter o poder
episcopal. Neste caso, a relação com as atividades produtivas e mercantis lhes eram
estranhas e estremecidas, pois o mercador vendia o tempo e o tempo é uma exclusividade
divina. Aqui, a linha de reprodução social, nestes casos, deveria ser eterna e o mercador
vem revolucionar os costumes sociais. Não obstante, podemos dizer que o sagrado e o
profano entram em choque entre si, na defesa de seus interesses e nos seus espaços de
intervenção política.
Aqui, cito Lopez (1988, p. 14), onde argumenta que,
[...] A cidade que quer e pode desenvolver-se como um centro de trocas e
de produção, e não simplesmente como centro de consumo, ou quando
6
muito de exploração do campo, deve desembaraçar-se do bispo, abade,
conde ou soberano como de um elemento estranho; se não correndo com
ele, pelo menos enquistando-o, exautorando-o, encerrando-o física e
juridicamente no seu reduto e nas suas atribuições cada vez mais
rigorosamente limitadas. A história das comunas está recheada de
esforços como este, [...].
A conquista da autonomia das cidades frente aos poderes constituídos passa pelo
enquadramento dos mesmos aos seus interesses imediatos, que são o de vender e comprar.
As lutas de classes, nesse momento, se dá entre o profano e o sagrado, pois as atividades
mercantis desenvolvidas nas cidades muradas levam a igreja a considerá-los ilícitas, por
destruir os valores morais que a igreja definia como ideal para os citadinos.
Das necessidades de organização das atividades mercantis, nascidas nas cidades
medievais para atender as demandas sociais por produtos de luxo e outras mercadorias
essenciais à vida citadina, constitui-se, a partir de fins do século XI, as feiras, que se
caracterizam como locais de comércio devidamente regulamentadas e protegidas pelos
senhores locais. Para sua existência legal, grupos de produtores e comerciantes começam
conquistar cartas de franquias para a abertura de feiras, as quais determinam a localidade e
a duração das atividades mercantis. Regulam, portanto, a atividade desenvolvida;
estabelecem a segurança e o direito de transporte de mercadorias pela extensão das terras
do condado e expressam seu funcionamento. As cartas constituem, nesse sentido, as
liberdades necessárias ao desenvolvimento das forças produtivas e do movimento
mercantil de forma irreversível. Esse fenômeno ocorreu de certo modo e com intensidade
em várias regiões da Europa ocidental entre os séculos XII e XV.
Aqui, cito a carta do Conde Guilherme à comuna de Rue, do ano de 1210,
Eu, Guilherme, conde de Ponthieu e de Montreil, fazemos saber que meu
pai Jean vendeu, aos meus homens de Rue, por 646 libras, uma comuna
[...] Nem eu, nem qualquer outro, poderá construir fortalezas à exceção
daquela que eu autorizei a comuna construir. [...] Os juízes colocarão
onde desejarem um mercado. [...] Eles poderão conduzir, com toda
segurança, as suas mercadorias até Rue. [...] (FOSSIER apud OLIVEIRA;
MENDES, 2005, P. 121)
Na carta de Fribourg, de 1120, tem o mesmo teor,
Eu, Conrad, criei um mercado em minhas próprias terras, e, Fribourg, e
decidi a ele juntar uma comuna, formada por mercadores e pessoas vindas
7
de todas as partes. [...] Eu prometo paz e segurança de percurso a quem se
dirigir ao meu mercado. Se um burguês morrer, sua mulher herdará tudo
aquilo que ele deixou; se ele não deixar herdeiros, XXIV jurados
guardarão a herança. [...] Eu abandono o tonlieu aos mercadores. [...] Se
surgir uma disputa entre meus burgueses, ela será julgada segundo do
direito de Cologne (FOSSIER apud OLIVEIRA; MENDES, 2005, p.
122).
As cartas traduzem o desejo dos mercadores. O princípio básico de uma
organização é a garantia que se dá para sua materialização. Assim, as cartas firmavam os
compromissos senhoriais com os mercadores estabelecendo a segurança na instalação dos
mercados. E o princípio norteador da vida do mercador é comprar e vender. O mercador,
com isso, assume o risco de sua profissão. Para as cidades, que são atendidas pelas feiras,
há a riqueza material e a diversidade de mercadorias para o consumo dos citadinos e aos
que vivem em seu entorno, como os aldeãos e camponeses. Há, neste caso, um processo de
afirmação das relações mercantis e um processo que leva ao rompimento do isolacionismo
existente na sociedade medieval, pois a constância dos mercados e das feiras integra os
homens à vida social e, paralelamente, vai gestando laços de urbanidade e o
estabelecimento de regras comuns à vida urbana. Desse processo, nasce a civilização
mercantil no medievo ocidental.
3. Mercado e feira na idade média: a construção dos espaços de sociabilidade e de
relações mercantis nas cidades medievais
A palavra feira, que vem de forum, lugar público, foi, em sua origem,
sinônimo de mercado e, sob certos aspectos, ainda o é. Uma e outra
significam uma afluência de mercadores e de compradores a lugares e em
tempos determinados. […] (TURGOT, P. 109).
Dessa forma, Torgot vê nas feiras e mercados elementos que destacam a
importância desses fenômenos econômicos, posto que ela congrega a compra e venda de
mercadorias. Mas, as feiras não foram importantes somente do ponto de vista econômico.
Elas representaram um papel, também, importante do ponto de vista social e cultural. Não
é por acaso que Rau (1982, p. 53) pontua que “numa época em que quase toda a população
da Europa vivia curvada sobre a terra, o instinto de sociabilidade, inerente a todo o
homem, deve ter encontrado nessas reuniões a única oportunidade de se expandir”, pois
continua Rau (1982, p. 53) “era nas feiras que se obtinham noticias do que se passava pelo
8
‘mundo’, do resultado das colheitas das regiões circunvizinhas e de tantos outros assuntos
que, como até hoje são a base do cavaquear do povo”, pois “era nelas que o comerciante
vindo de longe contava as histórias maravilhosas ou terrificantes das suas aventuras em
países longínquos, o que vira e ouvira pelas sete partidas do mundo” (RAU, 1982, P. 53).
As feiras constituem, assim, um espaço de sociabilidade e de formação social do homem
medieval. E nela que se desenvolvem as atividades da cultura mercantil. Feira e mercado
são, portanto, elos constitutivos do desenvolvimento da vida econômica medieval, mas o
mercado antecede à própria feira. Pirenne apud Rau (1982, p. 56-57), traz uma definição
dessas atividades, como segue:
Os mercados locais são destinados a prover à alimentação corrente da
população existente no local onde eles têm lugar. Daí a sua realização
semanal, a sua esfera de influência muito limitada e a restrição da sua
actividade à venda e à compra a retalho. Neles os camponeses dos
arredores iam vender alguns ovos, algumas galinhas, 'quelques livres de
laine ou quelques aunes de drap grossier tissé à domicile'. A natureza das
operações aí efectuadas é suficientemente posta em relevo pelo facto de
elas se fazerem per deneratas, quer dizer, por quantidades não
ultrapassando o valor de alguns dinheiros.
As feiras, pelo contrário, constituem o ponto de reunião periódica de
mercadores de profissão. São os centros de troca por grosso onde se
procura atrair, fora de qualquer consideração local, o maior número de
homens e de produtos. Podem comparar-se a uma espécie de exposições
universais porque elas não excluem nada nem ninguém; todo o indivíduo,
qualquer que seja a sua nacionalidade, todo o objecto negociável,
qualquer que seja a sua natureza, têm a certeza de serem bem acolhidos.
Por isso é impossível efectuá-las mais de duas vezes por ano no mesmo
local, tal é a preparação que a sua realização necessita.
Neste processo, para o desenvolvimento das feiras (mercado), a concentração
urbana foi decisiva, posto que, dadas às circunstâncias da vida urbana concentrada, como
pontuou Lopez (1980, p. 98) “a população responde mais prontamente aos estímulos
econômicos que uma população dispersa”, para complementar depois, “a urbanização e
comercialização na cidade medieval foram fenômenos que se apoiaram reciprocamente”.
Neste sentido as formas de produzir correspondem ao desenvolvimento social em
determinadas formas societais. Esse aspecto é analisado por Guizot (s/d, p. 7), para quem,
No momento em que a feudalidade estava já bem estabelecida, quando
cada homem tomou seu lugar, fixando-se na terra, quando a vida errante
cessou, ao fim de certo tempo, as cidades recomeçaram a adquirir alguma
importância, desenvolvendo-se de novo alguma atividade nelas. Como
9
vocês sabem, dá-se com a atividade humana algo semelhante ao que
ocorre com a fecundidade da terra: cessada a desordem tudo volta a
germinar e a florir. Basta o menor clarão de ordem e paz, e o homem
retoma a esperança, e com a esperança o trabalho. É isso que ocorreu nas
cidades; desde que o regime feudal assentou-se um pouco, criaram-se
entre os possuidores do feudo novas necessidades, um certo gosto pelo
progresso, pelo melhoramento. Para satisfazê-los, um pouco de comércio
e de indústria reapareceu nas cidades de seus domínios; a riqueza, a
população, nelas reaparecem.[...].
Esse aspecto é fundante de uma nova sociabilidade no interior da cidade
amuralhada, cujo cerne é o desenvolvimento da própria vida dos citadinos medievais em
seu processo de reprodução social. Produzir para o comércio e, assim, desenvolver as
atividades de mercado foi importante para o fomento da própria cidade.
Neste aspecto, a origem das feiras pode-se buscar nos pequenos mercados locais a
partir do século IX, pois abundavam por toda a Europa. Esse mercado, de acordo com
Pirenne (1973) tinha por objetivo atender as necessidades de alimentação cotidiana da
população que vive no lugar onde elas se realizam. Por isso, continua Pirenne (1973, p.
103), “os mercados são semanais e seu raio de atração é muito limitado; sua atividade
limita-se à compra e venda a varejo”. Nesse sentido, Lipson apud Rau (1982, p. 58)
pontua também que o “mercado supria as necessidades da localidade onde se fazia e era
apenas concorrido pelos moradores da vizinhança; nele se vendiam os produtos agrícolas e
as mercadorias necessárias à vida de todos os dias”. Já, as feiras ganham vigor a partir do
século XI, e elas se constituem, segundo Rau (1982, p. 57) no “centro do grande comércio
que atrai os mercadores de países longínquos” que “corresponde a uma fase mais evoluída
e a sua importância depende da prosperidade de um país inteiro”. Nelas, suas barracas
vendem produtos que eram dispendioso e raro, vindos de áreas longínquas, portanto
mercadorias de alto valor.
Não obstante, Pirenne (1973, p. 104) afirma que elas são:
[…] lugares de reuniões periódicas dos mercadores profissionais. São
centros de intercâmbios e, principalmente, de intercâmbios em grande
escala, que se esforçam em trazer até eles, fora de toda consideração
local, o maior número possível de homens e produtos. […] Por
conseguinte, é impossível realizar as feiras mais de uma vez, ou quando
muito, mais de duas vezes por ano no mesmo lugar, visto ser preciso que
se façam preparativos consideráveis.
10
Mas, para que essas atividades pudessem ser desenvolvidas, tanto pelos produtores
locais, quanto pelos mercadores, um esforço político foi necessário para sua consolidação,
pois as feiras, segundo Rau (1982, p. 41) “não supõe só o ponto de contacto periódico
entre compradores e vendedores, onde se compro, se vende, ou escamba; supõe também
uma organização especial”. Nesse sentido, “o comércio para se desenvolver, para existir,
precisa de segurança, de garantia, de protecção jurídica”, além de atrativos fiscais e as
possibilidades reais de ganhos, afinal vender e comprar constituem elos de uma mesma
corrente, as funções comerciais para a reprodução da vida social.
Não é por acaso que Turgot (2005, p. 110) ressalta que:
É evidente que os mercadores e os compradores não podem se reunir, em
certas épocas e em certos lugares, sem um atrativo, um interesse que
compense ou mesmo ultrapasse os gastos de viagem e de transporte dos
gêneros ou das mercadorias. Sem esse atrativo cada um permaneceria em
sua casa: em compensação, quanto maior ele for, mais os gêneros
suportarão longos transportes, mais a afluência de mercadores e de
compradores será numerosa e solene, e mais o distrito, que é o centro
dessa afluência, pode se desenvolver. […].
E Lopez (1980, p. 99), afirma que,
[…] Iam dos encontros semanais ou mensais em que os habitantes do
burgo e os camponeses dos arredores trocavam grandes quantidades de
produtos locais durante algumas horas, até às aticvidades anuais, que, em
geral, duravam vários dias, em que os consumidores de uma área vasta
compravam provisões para todo o ano, vendiam os excedentes que
produzissem e adquiriam alguns objectos de outras regiões. Ao seu nível
mais baixo, os mercados diários não abriam mais que uma fenda num
muro de auto-suficiência: muitas transacções eram empreendidas
directamente entre o produtor e o consumidor, algumas vezes por meio de
permuta, e ninguém tinha de passar a noite fora de casa. Os mercados
anuais, em geral chamados feiras, da feria (festa ou feriado) a que
estavam ligados, já implicavam organizações mais complexas. Qualquer
espaço livre servia aos mercadores profissionais instalarem as suas
barracas ou armarem as tendas […], mas não viriam de longe a menos
que tivessem quaisquer garantias de acesso livre e fácil, algumas
vantagens e conveniências durante a estadia e, evidentemente, uma
possibilidade razoável de obter lucros.
Por isso, a instalação das feiras contava com uma norma jurídica expedida pela
autoridade pública (soberano ou o senhor feudal), com regras e estatutos regulamentando
o seu funcionamento. Para esse fim, as cartas de franquias expedidas, por vezes, tiveram
11
que ser conquistadas junto às autoridades constituídas, a fim de constituir e implantar as
zonas de comércio: os mercados e as feiras.
Não obstante, Le Goff (1991, p. 15-16), pontua que,
Há, inicialmente, os salvo-condutos concedidos em toda a extensão das
terras condais. Em seguida, a isenção de todas as taxas servis sobre os
terrenos onde se construíram alojamentos e estabelecimentos comerciais.
Os burgueses foram, isentados das talhas e dos foros em troca de taxas
fixas resgatáveis. Os terrádegos e as banalidades foram abolidos ou
limitados consideravelmente. Esses mercadores não estavam sujeitos nem
aos direitos de represailles e de Marque, nem ao direito de aubaine e de
épave. Os condes, sobretudo, asseguravam o policiamento das feiras,
controlavam a legalidade e a honestidade das transações, garantiam as
operações comerciais e financeiras. […].
Os interesses são gerais. Por um lado, os senhores interessados na vinda de
mercadores, para as suas feiras, foram obrigados a conceder a "paz do mercado" ou "paz
da feira", proibindo represálias, assegurando alojamento e condições de armazenamento
das mercadorias e, ao mesmo tempo, reduzindo ou isentado a mercadoria de taxas. Para
esse fim, foram oferecidos salvo-conduto, a proteção necessária aos mercadores presentes
nas feiras, asseguradas pelos guardas das feiras, responsáveis pela manutenção da ordem e
segurança dos mercadores. Esta política permitia a “paz do mercado” e fazia parte do
cotidiano do homem medieval.
Como podemos observar, as autoridades tinham um grande interesse quanto à
materialização das feiras e mercados locais em suas regiões, pois, com isso, aumentaria o
fluxo de recursos financeiros e de mercadorias na sua localidade e, ao mesmo tempo se
negociariam a produção da própria cidade. Os ganhos sociais eram enormes, tanto para os
mercadores e compradores, quanto para as cidades atendidas. Durante longos anos, o
comércio medieval foi uma atividade praticada por mercadores errante, os quais seguiam
as “rotas dos produtos”, onde as vendas eram feitas em exposições diretas dos produtos
em lojas, mercados e feiras. Sendo, portanto, o comércio, de natureza errante ou fixo, a
razão e a grandeza da importância das feiras no Ocidente medieval até ao século XIII. As
feiras e mercados eram espaços públicos e lugares de encontros e de integração entre
mercadores que vinham, em muitos casos, de diversas partes da Europa, seguindo as
“rotas dos produtos” para comprarem e venderem os seus produtos em um espaço curto de
tempo, geralmente de poucas semanas.
12
Seguindo as rotas dos produtos, a Europa medieval viu nascerem, no século XII,
ciclos de feiras regionais ou inter-regionais, que ia fortalecendo as relações comerciais e a
criação de uma rede mercantil abertas pelo comércio. Neste aspecto, o comércio foi
consolidando postos produtivos pela Europa Medieval. Na Inglaterra, nas regiões de
Winchester, Boston, Northampton, Saint-Yves e Stamford, compravam-se lã. Na Flandes,
fazia-se a redistribuição da lã em Ypres, Lille, Bruges, Malines e Thourout. Na
Champanhe, comerciava-se têxteis em Lagny, Provins, Bar-sur-Aube e Troyes, além de
mercadorias vindas de outras localidades. A realização destas feiras eram as principais
metas dos mercadores itinerantes, pois a certeza de bons negócios estava presente. Mas, a
grande meta do mercador itinerante era as feiras da Champagne, pois tinham um calendário
para sua realização.
Nesse sentido, Le Goff (1991, p. 14) traz que,
Essas feiras realizavam-se em Lagny, em Bar-sur-Aube, em Provins e em
Troyes, e sucediam-se ao longo do ano: em Lagny, elas aconteciam em
janeiro-fevereiro, em Bar, em março-abril; em Provins, realizava-se a
feira de Maio em maio-junho, em Troyes a feira de São João acontecia
em julho-agosto, em Provins, novamente, a feira de Santo Ayoul era em
setembro-novembro, e em Troyes, enfim, uma segunda vez, a feira de São
Remigio realizava-se em novembro-dezembro.
A inovação produtiva estava a serviço do mercado e Le Goff acentua a feira da
Champagne como a mais importante da Idade Média, pois ligavam cidades da Itália aos
Países Baixos e atraía mercadores de toda a Europa. Essa feira era singular nos seus
atrativos, pois mantinha um mercado quase permanente no ocidente medieval. As cidades
que fazem partes desse roteiro ganham em liberdade e diversão, pois a vida se torna
dinâmica em seu espaço interno. Sua organização permitia um funcionamento constante,
tendo mercados abertos durante todo o ano. Um mercado permanente em andamento ia se
integrando à sociedade e estabelecendo vínculos cada vez mais consistentes de uma
sociedade de mercado, o que pressupõe ganhos reais para os mercadores e para os
citadinos medievais, que, segundo Le Goff (1991, p. 15) “gozavam de privilégios
consideráveis”.
13
Conclusão
A cidade murada, o mercador e as feiras na Idade Média foram elos importantes
para o estabelecimento de novas relações sociais no ocidente medieval cristão,
fundamentadas no ato de comprar e vender. Viver na cidade murada foi, portanto, viver
sobre regras do mercado, mediado pelo dinheiro. Neste ato, a circulação monetária se
impôs sobre a sociedade e criou vínculos de dependência direta entre o mercado e o
homem medieval, no qual o mercador se tornou uma figura central.
O século XII foi, neste processo, o século das feiras, do mercador e das relações de
urbanidade estabelecida na cidade murada. Este ápice mercantil criou a civilização do
mercado através das feiras, que partilhavam interesses comuns, tanto dos mercadores,
quanto dos senhorios interessados na materialização dos negócios. O século XII foi,
portanto, o da civilidade das feiras no ocidente medieval cristão.
REFERÊNCIAS
GOITIA, Fernando Chueca. Breve Historia do Urbanismo. Coleção Dimensões. Lisboa,
Editorial Presença, 1989.
GUIZOT, François In. Formação do Terceiro Estado: as comunas – coletânea de textos
de François GUIZOT, Augustin Thierry, Prosper de Brabante. Org. Terezinha Oliveira e
Claudinei Magno Magre Mendes. Maringá: EDUEM, 2005.
LE GOFF, Jacques. O Homem Medieval. Lisboa: Ed. Estampa, 1998.
______. Mercadores e Banqueiros da Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
LOPEZ, A Revolução Comercial da Idade Média 950-1350. Lisboa (Portugal): Editora
Presença, 1980.
______. A Cidade Medieval. Lisboa: Editorial Presença, 1988.
LUCKÁS, Georg. A Reprodução. In Ontologia do ser social. Tradução Sergio Lessa.
Digitado (no prelo).
OLIVEIRA; MENDES. Formação do Terceiro Estado: as comunas. Maringá:
EDUEM,2005.
PERNOUD Régine. Luz sobre a Idade Média. Portugal. Publicações Europa-América:
1997.
PIRENNE, Henri. História Econômica e Social da Idade Média. 4ª ed. – São Paulo:
Mestre Jou, 1968.
RAU, Virginia. Feiras medievais portugueses: subsídios para seu estudo. Lisboa:
Editorial Presença, 1982.
ROLNIK, Raquel. O que é cidade. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.
14
SCHMITT, Jean-Claude. O surgimento das cidades medievais. In. IHU em revista.
Http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1159905614.4pdf.pdf, acesso em
01/10/2010.
SMITH, Adam. A riqueza das nações. V. 1. Col. Os Economistas, 2° Ed. São Paulo:
Nova Cultural, 1985.
TURGOUT, Anne-Robert Jacques, In. Formação do Terceiro Estado: as comunas –
coletânea de textos de François GUIZOT, Augustin Thierry, Prosper de Brabante. Org.
Terezinha Oliveira e Claudinei Magno Magre Mendes. Maringá: EDUEM, 2005.
15
Download

O MERCADOR NAS FEIRAS DA IDADE MÉDIA: A CIVILIDADE DO