XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão. Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 METODOLOGIA DE MAPEAMENTO DE PROCESSOS APLICADA EM SETORES ADMINISTRATIVOS DE UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA Rafael Yassushi Oki (UFSC) [email protected] Leandro Zaha (UFSC) [email protected] Rafael Pintus Pereira (UFSC) [email protected] José Antônio Felizardo Neto (UFSC) [email protected] Marina de Oliveira Silva (UFSC) [email protected] Este artigo tem como objetivo apresentar a metodologia de mapeamento de processos aplicada na instituição pública, que será fonte de informação para otimização dos processos administrativos, informatização e gestão do conhecimento. Para viiabilizar uma possível replicação em outros setores ou instituições, serão relatados as dificuldades encontradas, as lições aprendidas, as ações corretivas e o padrão consolidado. Apresenta-se um estudo de caso numa universidade pública de ensino superior federal, durante uma consultoria realizada pela Empresa Júnior de Engenharia de Produção para o Centro Tecnológico dessa instituição. Palavras-chaves: Mapeamento de processos, Universidade pública, Gestão do conhecimento, Empresa Júnior XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 1. Introdução Os cargos públicos sempre foram vistos com certa desconfiança pela sociedade. Porém, esse setor tem recebido uma pressão por produtividade e transparência nas atividades, gastos e desempenho nunca vista pelos brasileiros. No setor público a procura e implementação de melhorias nem sempre é aceita, devido à burocratização, cultura dos funcionários, recursos financeiros e outros fatores. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi criada em 1960, possui 1600 docentes, 2.800 servidores técnico-administrativos e mais de 37.000 alunos. O projeto se desenvolve na maior das 11 unidades de ensino da Universidade, o Centro Tecnológico (CTC), hoje formado por nove departamentos, oferecendo 12 cursos de graduação e 12 cursos de pós-graduação. Devido à complexidade e dimensão da instituição, os recursos humanos assumem um papel fundamental no bom andamento das atividades. No entanto, a instituição de ensino encontra a realidade de limitação em seus quadros de funcionários, enquanto o número de alunos cresce consideravelmente, não havendo previsão para aumentar o número de servidores. Foi identificado nessa instituição que muitos servidores com anos de experiência estavam para se aposentar em até cinco anos e devido à falta de uma gestão de conhecimento, verificou-se um risco muito grande na perda da inteligência administrativa. Também foi constatado que há uma grande dificuldade em tomar rápidas decisões e processar informações com agilidade, devido a um sistema administrativo burocrático e pouco informatizado na universidade. Em virtude da realidade apresentada, o desafio de melhorar essa situação foi passado pelos diretores do centro tecnológico da universidade, que apostaram em um trabalho conjunto conduzido pela Empresa Júnior de Engenharia de Produção (EJEP). A EJEP é uma entidade formada e gerida por alunos de graduação do curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal em questão, tem como missão capacitar e desenvolver seus integrantes através da realização de atividades junto ao setor empresarial e sob a tutoria dos professores do departamento de Engenharia de Produção e Sistemas (EPS) da UFSC. O projeto foi dividido em três etapas: a) Projeto Piloto, que visa consolidar uma metodologia de mapeamento de processos, adaptada as dificuldades de uma instituição pública, aplicada na direção do centro tecnológico, em um setor de coordenadoria de graduação, um setor de coordenadoria de pós-graduação e um setor de secretaria de departamento. Esta escolha foi feita devido a todos os departamentos, relacionados com o trabalho, possuírem como semelhança a divisão nesses três últimos setores citados, assim começando por colher informações desses diferentes setores, para possibilitar uma posterior replicação em setor de mesma função; b) Replicação da Metodologia, que consiste em mapear mais três de cada um dos setores, embasados com as informações contidas nos Projeto Piloto; c) Análise e Geração de Soluções, onde serão analisados os processos mapeados sob a ótica do valor agregado, a viabilidade de padronização e modernização, e a análise geral sobre a interligação entre os processos e setores. 2 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 Figura 1 - Resumo esquemático do projeto O presente estudo de caso limitar-se-á em relatar os resultados da primeira etapa do projeto, Projeto Piloto, possuindo como objetivo apresentar a metodologia de mapeamento de processos aplicada nessa instituição pública, que será fonte de informação para otimização dos processos administrativos, informatização e gestão do conhecimento. Devido a constatação da pouca abrangência dada a esse assunto em instituições públicas serão relatadas as dificuldades encontradas, as lições aprendidas, as ações corretivas e o padrão consolidado; viabilizando possíveis replicações dessa metodologia em outras instituições públicas ou até mesmo privadas. 2. Revisão Bibliográfica: 2.1. Processo: Para entender o projeto, é necessária a definição de processo, segundo Harrington (1991) “processo é qualquer atividade que recebe uma entrada (input), agrega-lhe valor e gera uma saída (output) para um cliente interno ou externo. Os processos fazem uso dos recursos da organização para gerar resultados concretos.” Sendo que esta relação dos processos e a agregação de valor deveriam estar claras, não apenas para os realizadores das entrevistas, mas também para os entrevistados. 2.2. Mapeamento de Processos: “O mapeamento de processos seria uma ferramenta gerencial analítica e de comunicação que têm a intenção de ajudar a melhorar os processos existentes ou de implantar uma nova 3 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 estrutura voltada para processos. A sua análise estruturada permite, ainda, a redução de custos no desenvolvimento de produtos e serviços, a redução nas falhas de integração entre sistemas e melhora do desempenho da organização, além de ser uma excelente ferramenta para possibilitar o melhor entendimento dos processos atuais e eliminar ou simplificar aqueles que necessitam de mudanças” (HUNT, 1996, apud VILLELA, 2000, p. 36). Para realizar o mapeamento de processos foram desenvolvidas diversas abordagens, uma das referências encontradas que se encaixava melhor para a situação proposta foi a chamada Pesquisa-Ação, por se tratar de “um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo” (THIOLLENT, 1996). Esta metodologia permite uma interação entre os executores do projeto e os executores dos processos, através de uma troca de informações com o maior detentor do conhecimento da atividade. Thiollent (1996) considera que a Pesquisa-Ação envolve: − Ampla e explícita interação entre pesquisadores e pessoas implicadas na situação investigada; − Resultando a ordem de prioridade dos problemas a serem pesquisados e das soluções a serem encaminhadas sob forma de ação concreta; − Um objeto de investigação que não é constituído pelas pessoas e sim pela situação social e pelos problemas de diferentes natureza encontrados nesta situação; − A resolução ou, pelo menos, esclarecimento dos problemas da situação observada; − Um acompanhamento das decisões, das ações e de toda a atividade intencional dos atores da situação; − O aumento do conhecimento dos pesquisadores e ou do “nível de consciência” das pessoas e grupos considerados. Foi adotada para o projeto a abordagem de baixo para cima, que consciste em mapear as atividades mais operacionais até a parte que as gerenciam, e pode ser descrita segundo as atividades porpostas por Osborn (1996): − Nos níveis mais baixos do processo, examinar o fluxo de papel ou outro recurso físico de forma a identificar sistemas de rastreamento, relatórios, orçamentos, encontros, ou outros mecanismos que pareçam estar focados na coordenação; − Examinar a estrutura organizacional através de quais processos movem-se verificando se pessoas específicas possuem responsabilidades que predominantemente representam coordenação; − Estas pessoas devem ser identificadas, suas atividade examinadas de acordo com o que contribuem e perguntar quais dependências estas atividades coordenam; − Para uma hierarquia de processo que esteja completamente especificada ao nível do fluxo de trabalho físico, é possível examinar árvores de processo de baixo para cima para identificar um pequeno número de atividades que devem ser completadas de forma a completar o processo. Estas atividades podem ser normalmente identificadas utilizando o critério de transformação ou existencialismo; − Uma vez que as atividades críticas do processo tenham sido identificadas, perguntar quais dependências as afetam. Procurar por atividades individuais que coordenam restrições e atributos destas dependências. Complementar a abordagem de baixo para cima foi adaptado a utilização de post-it® proposto por Ballé (1997), que utiliza cartões adesivos coloridos do tipo Post-it® (3M) para 4 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 trabalhar com atividades e tarefas. Nestes cartões são anotadas as operações diárias de cada indivíduo sob a forma de frases específicas e completas (contendo sujeito, verbo e complemento), de modo que representem as peças físicas do processo que possam ser reorganizadas e manipuladas de maneira prática, permitindo a reconstituição de um fluxo baseado na experiência dos participantes. Como ferramenta gráfica foi utilizada o fluxograma, “que descreve graficamente um processo existente ou um novo processo proposto, identificando cada evento da seqüência de atividades por meio de símbolos, linhas e palavras.” (HARRINGTON, 1991). 3. Metodologia: Como o setor público possui características peculiares que os diferenciam do setor privado, como ausência de uma cultura de mudança, burocratização e baixos recursos financeiros, gera a dificuldade de implementar novos sistemas e sugerir melhorias nos processos que os mesmos realizam. Assim, houve uma grande procura por referências sobre mapeamento de processos em instituições públicas e pouco foi descoberto. Devido a essa dificuldade a equipe optou por estudar algumas metodologias existentes e adaptá-las a situação encontrada. O planejamento do projeto foi inicialmente realizado sob a ótica de uma equipe formada por oito consultores, graduandos da Engenharia de Produção, dispostos em duplas, cada uma responsável por mapear um dos quatro setores administrativos escolhidos: Diretoria do Centro Tecnológico, Coordenadoria de Graduação, Coordenadoria de Pós-Graduação e Secretaria de Departamento. Para tal objetivo, o trabalho foi dividido em quatro etapas, uma de preparação da equipe, uma de sensibilização dos servidores envolvidos no trabalho, uma de pesquisa de campo e, por fim, uma de compilação das informações levantadas e apresentação dos resultados. A escolha da divisão das duplas em setores foi arbitrária, devido à falta de informações concretas sobre a quantidade de pessoas e processos envolvidos, porém esperava-se que houvesse uma carga de trabalho parecido entre as duplas. Vale ressaltar que dentro do planejamento foi identificada uma grande relevância na etapa de preparação da equipe e de sensibilização dos servidores, pois dado a ausência de cultura de mudança, dos servidores públicos, foi identificado como um risco alto a falta de conhecimento quanto à receptividade deles ao trabalho. Essa relevância seria necessária para o alinhamento da equipe frente à utilização adaptada da abordagem proposta por Thiollent (1996) chamada de Pesquisa-Ação, onde foram mapeados os processos com a participação ativa dos donos dos processos, por meio de entrevistas partindo das atividades mais operacionais até a parte que as gerenciam, que corresponde à abordagem de baixo para cima (OSBORN, 1996). Para adaptar as metodologias referenciadas foram necessários alguns ajustes que estão evidenciadas no relato do estudo de caso. Com o intuito de garantir o bom andamento do trabalho e alinhamento com a estratégia planejada, foi acordado que haveria reuniões semanais entre toda a equipe: consultores, gerente e orientador. 4. Estudo de Caso: 4.1. Preparação da Equipe Conforme planejado, a primeira atividade do projeto seria um trabalho intensificado de preparação da equipe para a realização do projeto. E devido ao fato da grande quantidade de consultores, por volta de quatro vezes maiores do que a média apresentada nos projetos realizados anteriormente, houve a preocupação em compartilhar os conhecimentos e 5 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 experiências de cada consultor com os demais, além da busca por novas informações e fontes de referência para estudo. Os consultores dividiram-se em quatro duplas que ficaram responsáveis por buscar as informações: Bibliografia sobre Mapeamento de Processos, possíveis artigos, estudos de caso sobre a aplicação em instituições públicas de ensino; ferramentas e softwares existentes para mapeamento; Informações sobre os setores da instituição que seriam mapeados, como organograma, responsáveis e quantidade de servidores; e professores e profissionais na área que pudessem auxiliar no desenvolvimento do projeto. Verificou-se que o desempenho nas entrevistas refletiria diretamente na qualidade dos dados coletados, para se prevenir a essa situação a equipe dividiu-se em dois grupos de quatro pessoas com o objetivo de que um grupo desenvolvesse um Roteiro de Abordagem e o outro um Questionário padrão. O Roteiro de Abordagem, elaborado pela equipe favorecida por conter três ex-membros da Empresa Júnior que trabalharam na área de Recursos Humanos da mesma, formularam dicas de postura, linguagem, apresentação e formas de interpretar o perfil do entrevistado, para personalizar o direcionamento das atividades e deixar os servidores mais a vontade durante as entrevistas. O Questionário Padrão foi confeccionado levando-se em consideração os diferentes perfis de servidores e os cargos ocupados pelos mesmos. O documento continha uma série de questionamentos que poderiam ser feitos aos servidores, de tal modo que orientasse os consultores a obter as informações de maneira rápida, simples e completa. A equipe também optou pela confecção de um encarte simples e direto, que explicava o que representa o mapeamento de processos, sua importância e principais termos utilizados. Este encarte seria entregue para cada servidor no início da primeira entrevista para facilitar a explanação do projeto e contextualizar o entrevistado. Ao final de toda etapa de preparação, a equipe escolheu utilizar Fluxogramas e SIPOC’s, para a documentação dos processos mapeados. 4.2 Sensibilização dos Envolvidos Para a etapa de Sensibilização, as equipes contaram com a participação de três personalidades com alta representatividade dentro do centro, os quais eram também os clientes do projeto. Para conseguir uma efetiva participação das pessoas a serem entrevistadas, os clientes ficaram responsáveis por apresentar, para os gestores e servidores de cada setor, o projeto, seus motivos, o que esperavam do resultado e a equipe de trabalho. Em cada reunião desta etapa estavam presentes pelo menos um dos três clientes da consultoria, os dois consultores responsáveis pelo mapeamento do setor, o chefe do setor e seus funcionários. Para os consultores, ter essas pessoas reunidas e envolvidas no trabalho logo no início e ter o projeto valorizado pelos superiores, foi fundamental, uma vez que foi uma forma de facilitar a obtenção de confiança, atenção e envolvimento dos funcionários. A maior lição aprendida com esta etapa foi em apostar no uso da hierarquia para valorizar o trabalho, interferindo de forma explicativa, tranqüilizadora e motivadora. 4.3 Pesquisa de campo A pesquisa de campo foi dividida em três etapas de entrevistas: a) A primeira etapa de entrevistas os consultores fariam uma breve explicação sobre o que é a 6 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 importância do mapeamento de processos, apresentaria a metodologia que seria aplicada no projeto, entregaria o encarte ilustrativo sobre mapeamento de processos, explanaria sobre alguns termos utilizados e listaria os processos que o entrevistado estaria envolvido; b) Na segunda etapa, o servidor seria questionado sobre os processos os quais estaria envolvido, quais suas atividades nos mesmos e mais detalhes sobre o processo, como partes envolvidas, recursos necessários e disponíveis, burocracias e periodicidade; c) A terceira entrevista teria como objetivo a modificação de possíveis informações levantadas ou dispostas de maneira errônea nos fluxos dos processos e posteriormente a validação dos fluxos finais com cada um dos servidores, para garantir que todos os processos estejam corretamente mapeados. O intuito desta etapa de coleta de dados era de obter todas as informações sobre os processos administrativos de cada setor. Para tanto, deu-se início às entrevistas individuais, com todos os servidores envolvidos. Em local reservado e sem atrasos, os consultores deram início às primeiras entrevistas, iniciando sempre com mais uma apresentação dos participantes e, desde já, esclarecendo que a duração do encontro seria de uma hora, só passando disso caso o entrevistado não se importasse e a conversa estivesse realmente sendo efetiva. Houve uma importante explicação do que era processo e porque o mapeamento deles é importante, entregando ao entrevistado o encarte explicativo. Partia-se então para um momento inicial, buscando descontrair os entrevistados e o entrevistador com uma conversa rápida sobre a rotina de trabalho e a aplicação de uma atividade de análise genérica do trabalho, onde os consultores auxiliavam o entrevistado a escrever quem eram seus clientes, seus fornecedores, seus parceiros, a fim de fazê-lo perceber a dimensão das pessoas e órgãos que estavam relacionados ao seu trabalho. Com a participação do entrevistado já garantida, iniciou-se então a principal parte da entrevista, auxiliar a pessoa a citar todos os processos nos quais se envolvia, tentando evitar que ela se aprofundasse muito. Vale ressaltar que ao fim de cada entrevista já se marcava a próxima e que um consultor era o responsável por conduzir a entrevista e o outro por fazer as anotações. Obter do entrevistado esse tipo de resultado, onde apenas citam os processos, como uma lista, não foi muito fácil. A pessoa acaba tendendo a se aprofundar em um único assunto e os consultores devem estar bem preparados para fazer a mediação de forma correta, sem parecerem grosseiros. Uma das equipes realizou esta primeira entrevista com todas as pessoas do setor juntas, e relatam que foi muito válido também, porque os funcionários juntos conseguiam levantar com facilidade os processos existentes. Nas primeiras entrevistas os consultores levavam um material pronto para anotarem as respostas de forma organizada, com uma tabela onde se preenchia as atividades, as entradas e as saídas dos processos. Esse material não foi viável, pois o fluxo de informações era muito rápido, então foi adotado que os consultores anotariam de forma corrida em folha sulfite. Para que isso não fosse prejudicial, todas as equipes se comprometeram em compilar aquelas informações de forma organizada em no máximo dois dias após realizarem cada entrevista, para que não esquecessem nada, já que na pressa acabava se escrevendo com siglas, abreviações, tópicos, símbolos, etc. Este documento compilado era estudado e a base para que os consultores fossem mais preparados para a próxima entrevista. Em uma das primeiras reuniões semanais que a equipe fez após as entrevistas terem começado, verificou-se que na prática não dava para manter uma regularidade de 7 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 agendamento de entrevistas entre as duplas, alguns já estavam agendando as entrevistas da terceira etapa, outros ainda não tinham feito a primeira entrevista com algumas pessoas, então, optou-se por replanejar o modelo. Em vez de toda a equipe ter o mesmo período para realizar a mesma etapa de entrevista, cada dupla fazia suas entrevistas de acordo com a sua realidade e com a disponibilidade das pessoas. Outra lição foi a não necessidade de utilizar o questionário, pois as entrevistas tornaram-se muito dinâmicas e se fez necessário a personalização das perguntas. Verificou-se também que uma entrevista para cada etapa poderia não ser suficiente em alguns casos, logo, os consultores passaram a fazer quantas entrevistas por pessoa fossem necessárias dentro de uma mesma etapa. Este número variou de uma a três e, ao fim do projeto, devido à falta de informação para dividir as duplas no começo do projeto, ficou clara a diferença de horas de trabalho entre uma equipe e outra. Enfim, aprendeu-se como lição nesta etapa que não é possível determinar um único prazo para que todos façam a mesma entrevista e que o dimensionamento da equipe deve ser feito colocando mais pessoas nos setores em que se suspeita ter maior número de processos e não dividindo a equipe igualmente entre o número de setores. Nas entrevistas da segunda etapa, cada processo listado anteriormente era descrito com detalhes. Os consultores atentavam-se em perceber se o entrevistado mencionava quais os meios que usava para realizar as atividades, se existiam documentos padronizados, se eram em papel ou pelo computador, qual o tempo de espera, quantas vezes era repetido e ele enxergava alguma melhoria na realização das atividades ou em qualquer parte do processo. Inicialmente as entrevistas de detalhamento eram feitas apenas com o relato dos processos em folhas em branco, devido à necessidade de agilidade tentou-se utilizar o post-it® para a construção dos processos durante a entrevista. Cada atividade era escrito em um post-it® diferente, à medida que o entrevistado ia falando, e colando a seqüência lógica das mesmas em cartolina, assim, a pessoa participava do processo de construção de seu próprio trabalho e verificava os erros imediatamente, sugerindo mudanças na ordem das atividades, inclusões e exclusões de tarefas, etc. O dinamismo, o aumento da participação e a rapidez, obtidos com o uso dos post-it®, foram impressionantes. É um método totalmente aconselhável. É importante levantar que durante o mapeamento dos processos era comum que os servidores mais experientes incluíssem, no fluxo do processo que participavam, as atividades que correspondem a outro setor, porém foi defino pela equipe que essas atividades não seriam mapeada devido o risco das mesmas conterem erros, por serem relatadas por pessoas que não realizam essas atividades ou mesmo mapearem algo desatualizado. Outra realidade encontrada foi que os servidores algumas vezes relatavam sobre como deveria ocorrer os processos, porém, como a equipe tinha como um dos objetivos encontrar melhorias, a equipe definiu que apenas seria mapeado o que acontece atualmente e que essas sugestões de melhorias dadas pelos entrevistados seriam alocadas no fluxograma no formato de comentários em vermelho, já as melhorias identificadas pelos consultores, assim como a identificação de processos passíveis de informatização, seriam anotadas separadamente do mapeamento. A terceira etapa, de validação dos processos, ficou mais fácil com o material que se tinha em mãos, as cartolinas com os processos já montados. Consultores e entrevistado fizeram a leitura detalhada de todos os processos construídos. Ainda neste momento houve mudanças a serem feitas para que o mapeamento estivesse realmente fiel à realidade. Uma vez validados, os processos estava autorizada a digitalização. Vale ressaltar que uma melhoria depois 8 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 identificada para essa etapa de validação é de buscar a assinatura do entrevistado em todos os fluxogramas validados, para que houve maior credibilidade das entregas do trabalho final. 4.4. Compilação dos Resultados Terminada a fase de levantamento de informações por meio de entrevistas, o passo seguinte foi a compilação de todos os dados para adequar os processos de cada setor ao formato de fluxogramas e SIPOC’s. Durante o desenvolvimento desta atividade, três das quatro duplas verificaram que os SIPOC’s não estavam ficando muito claros, principalmente em processos muito complexos que envolviam muitas tomadas de decisões ou grande fluxo de documentação entre as partes envolvidas. Verificou-se que os SIPOC’s eram válidos apenas para processos com um número pequeno de transformações, pouca movimentação e poucas tomadas de decisões, principalmente verificados na secretaria de departamento. Sendo assim, houve uma mudança do planejado e optou-se por todos os processos serem apresentados somente no formato de fluxograma devido à fácil interpretação, visualização e entendimento do mesmo. Os fluxogramas apresentavam o sequenciamento das atividades em cada processo além de contemplar informações sobre as mesmas, como responsável, documentos necessários, entre outras. Para facilitar ainda mais o manuseio dos mesmos foram desenvolvidos um cabeçalho padrão, que contém informações sobre o processo como departamento, setor envolvido, responsável pelo processo e cargo do mesmo, e também uma legenda, que explica o significado de cada símbolo utilizado no fluxograma. Para auxiliar os consultores que trabalhará na terceira etapa global do projeto, a equipe deixou comentários nos fluxogramas citando oportunidades de melhoria e pontos críticos para: facilitar a análise e geração de soluções, e aumentar o desempenho dos processos e respectivas atividades. Figura 2 - Fluxograma desenvolvido na metodologia 9 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 Para uma análise geral, foi confeccionado um Fluxo de Valor, que contempla a relação entre os setores mapeados e seus respectivos processos sob uma ótica lógica dividida em quatro tópicos: Alunos, Representantes, Recursos e Professores. Figura 3 - Fluxo de valor global Figura 4 - Fluxo de valor ramificado 10 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 Ao final do trabalho foi entregue e apresentado aos contratantes um relatório que continha um resumo das atividades realizadas, todos os fluxogramas impressos e digitalizados, e o Fluxo de Valor digitalizado. Este projeto teve como principal resultado, além do mapeamento realizado e entregue ao contratante, o desenvolvimento de uma metodologia de mapeamento de processos em uma instituição pública de ensino realizado em um dos principais projetos já realizados na história da EJEP. 5. Conclusão: No desenvolvimento do trabalho muitas realidades do sistema público de ensino transpareceram. A execução das entrevistas exigiram dos membros da equipe exímias habilidades de relações inter-pessoais, a fim de conduzi-las de modo a conseguir extrair todas as informações dos entrevistados da melhor maneira possível, em virtude muitas vezes do baixo grau de escolaridade e preparo de muitos funcionários da instituição. A equipe enfrentou uma aparente resistência inicial por parte de muitos funcionários para com esse projeto. Nesse contexto, a participação dos chefes de cada setor na etapa inicial do trabalho, apresentando os integrantes da equipe aos servidores, foi muito importante, pudemos perceber uma grande diferença de envolvimento dos servidores apresentados sob estas condições em relação aos que não foram apresentados. Torna-se também relevante a escolha da equipe para desempenhar atividades como essa de entrevistas, pois é necessário que os envolvidos tenham uma boa comunicação. Na etapa de entrevista embora o questionário não tenha sido utilizado, a preparação dele e a conscientização de toda a equipe quanto as informações que deveriam ser levantadas foi de extrema importância. Com o desenvolvimento do trabalho foi sentido satisfação por parte dos funcionários ao estarem compartilhando suas dificuldades. Como citado anteriormente, o estudo de caso abordou a metodologia aplicada na primeira das três etapas do projeto, com essa metodologia será possível levantar os dados para fazer as seguintes análises: a) Análise de benchmarking, que corresponde em identificar, entre os setores de mesmas entregas, as melhores práticas. b) Análise da informatização, que evidenciará os processos passíveis de informatização, identificará os sistemas e processos já informatizados e buscará identificar possíveis novos sistemas informatizados com processos integrados ou locais. c) Análise da gestão, que serão identificadas as melhores práticas de gestão. d) Ótica do Valor, que norteará todas as ações e abordagens do trabalho, permitindo a realização de uma análise crítica, conjunta com os entrevistados a respeito daquilo que é feito, buscando a identificação de melhorias focadas na agregação de valor, seja através da simplificação, otimização, modernização ou até mesmo eliminação de determinados procedimentos. e) Análise da inter-relação, que analisará a inter-relação entre os setores e tem como objetivo otimizar a interdependência entre os setores e suas burocracias. Além das possíveis análises que serão viabilizadas atravéz das informações levantadas com essa metodologia podemos ressaltar a questão da gestão do conhecimento dos setores administrativos da instituição. O fato de os conhecimentos sobre os processos se concentrar em uma única pessoa, consisti em um grande risco para a instituição caso perca tal colaborador e, consequentemente, todo o conhecimento do mesmo; assim esse mapeamento 11 XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009 resultaria na documentação dos processos, facilitando a execução por parte dos próximos funcionários que ocuparem esses cargos. No âmbito da sociedade podemos destacar a grande agilidade que pode ser gerado nos processos a partir desse estudo e, principalmente, na resolução do grande problema que teria se os servidores, com anos de experiência, saíssem da instituição sem repassar seus conhecimentos aos próximos. É evidente que as dificuldades encontradas por essa universidade, como a gestão do conhecimento, a agilidade na tomada de decisões, a agilidade de processamento de informações e a falta de modernização dos processos, são comuns em outras organizações, independente de ser pública ou privada, o que ressalta a relevência desse trabalho. Apesar de o projeto ter sido realizado em uma instituição pública, a equipe acredita que tal trabalho poderia ser aplicado também em instituições privadas, o que não se verifica no inverso, devido as peculiaridades já citadas anteriormente sobre a instituição pública. Essa metodologia aplicada nas instituições privadas acreditasse que favoreceria quanto ao acesso aos funcionários, envolvimento e comprometimento destes, devido a grande relevância dessa metodologia a abordagem dada nas entrevistas. Na iniciativa dos gestores da universidade em desenvolver esse projeto em conjunto com a Empresa Júnior fica evidente os benefícios gerados para ambos os envolvidos. A Empresa Júnior relacionada em projetos dessa magnitude dá oportunidades para que os graduandos vivenciem as diversas áreas da engenharia de produção, preparando-os melhor para a sua vida profissional. A universidade garante, com essa iniciativa, o seu papel de desenvolver Ensino, Pesquisa e Extensão e apresenta uma boa oportunidade de juntar a necessidade dos alunos em aprendar, a função dos professores em ensinar e o dever dos gestores em garantir o desenvolvimento contínuo da Universidade. 6. Referências bibliográficas: BALLÉ, Michael. Reorganizando sua empresa: um kit de ação para reengenharia. Rio de Janeiro: Infobook, 1997. HARRINGTON, H.J. Business Process Improvement: The breakthrough Strategy for Total Quality, Productivity and Competitiveness. New York: McGraw Hill, 1991. OSBORN, Charley. Process analysis: process representation and coordination theory. MIS 7510, Spring 1996. VILLELA, Cristiane S. S. Mapeamento de Processos como Ferramenta de Reestruturação e Aprendizado Organizacional. Tese de Mestrado, Florianópolis: UFSC, 2000. 12