Página |1 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) UNIVERSIDADE DO PORTO FACULDADE DE LETRAS A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO 1880-1909 PAULA ALEXANDRA DE FARIA FERREIRA Dissertação de Mestrado em História e Educação apresentada à FLUP sob orientação da Professora Doutora Maria José Moutinho. PORTO 2009 PAULA FERREIRA Página |2 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Ao Carlos, à Cláudia e ao João PAULA FERREIRA Página |3 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) AGRADECIMENTOS Um agradecimento especial à nossa orientadora pelo seu acompanhamento científico. Para a Ana, registamos aqui um enorme “obrigada” pelo seu companheirismo e pela sua amizade. Agradecemos a todos aqueles que trabalham na Oficina de São José, Lar de Infância e Juventude, o bom acolhimento que tivemos. Dirigimos também agradecimentos particulares aos funcionários do Arquivo Distrital do Porto e do Arquivo Histórico Municipal do Porto. PAULA FERREIRA Página |4 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) ÍNDICE INTRODUÇÃO ......................................................................................................................... 5 ORIENTAÇÃO METODOLÓGICA .................................................................................... 8 O ACESSO AOS ARQUIVOS DA OFICINA: A RECOLHA E O TRATAMENTO DOS DADOS ............................................................................................................................ 8 CAPÍTULO I – CONTEXTUALIZAÇÃO ........................................................................ 11 I.1. O APOIO AOS MENORES DESVALIDOS – BREVE RESENHA ............. 11 I.2. ALGUMAS QUESTÕES SOCIAIS NA PERSPECTIVA DE RODRIGUES DE FREITAS .................................................................................................... 13 I.3. MISÉRIA, MENDICIDADE, PREVIDÊNCIA, ENSINO TÉCNICO, “SOCORROS MÚTUOS” NA ÓPTICA DE UM CONTEMPORÂNEO ............. 18 I.4. CRIMINALIDADE E MARGINALIDADE INFANTIS, SUA PREVENÇÃO OU REMEDIAÇÃO – A VISÃO DE MENDES CORREIA ...................................... 22 I.5. OUTROS MECANISMOS DE CORRECÇÃO DE MENORES DE “MAU PROCEDER” ................................................................................................... 28 CAPÍTULO II - A OFICINA DE SÃO JOSÉ NO PORTO......................................... 32 II.1. A FUNDAÇÃO DA OFICINA .................................................................... 32 II.2. OS ESTATUTOS DA OFICINA ................................................................. 34 II.3. O PADRE SEBASTIÃO LEITE DE VASCONCELOS, FIGURA POLÉMICA ......................................................................................................................... 50 II.4. A RECEPTIVIDADE SOCIAL DA OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO ...................................................................................................... 56 CAPÍTULO III – TRATAMENTO ESTATÍSTICO ....................................................... 68 CAPÍTULO IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................. 87 FONTES E BIBLIOGRAFIA ............................................................................................. 92 PAULA FERREIRA Página |5 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) INTRODUÇÃO Quando nos propusemos fazer este trabalho, a intenção era pesquisar a actividade educativa e de inserção social de jovens em risco desenvolvida pela Oficina de São José do Porto, na actualidade. No entanto, houve razões que contribuíram para a mudança do plano de trabalho. A razão mais relevante foi a de consideramos mais oportuno e esclarecedor, começar pelo estudo dos primeiros anos de história desta instituição, beneficiando da vantagem de não efectuarmos, à época, uma abordagem aos seus jovens alunos, numa altura em que o “Caso Gisberta” ainda alimentava as “especulações” dos mass media. Sendo assim, optamos por estudar esta instituição ao longo do período que medeia entre 1880 e 1909, baseando-nos nas fontes documentais existentes no Arquivo da Oficina de São José do Porto e nos Arquivo Distrital do Porto e Arquivo Histórico Municipal do Porto. Podemos justificar a escolha deste tema pela importância humanitária e pela relevância social da instituição em estudo. Numa época marcada pela necessidade de “regeneração da juventude pelo trabalho e pela religião”, conforme foi escrito pelo padre Sebastião Leite de Vasconcelos, fundador da casa, sentiu-se a grande necessidade de criar esta Oficina na cidade do Porto. A importância do seu surgimento é atestada pelo apoio dos poderes públicos a esta instituição humanitária bem como, pelo reconhecimento da opinião pública que foi sensível a esta obra, realidade bem evidente nas impressões registadas ao longo dos anos, por centenas de pessoas, no livro dos visitantes da Oficina (inclusivamente, pelos membros da família real). Sendo assim, é oportuno reflectirmos sobre o que o escreveu acerca da Oficina de São José, o Dr. Padre Manoel Antonio Monteiro Limão, a 21 de Janeiro de 1886: “As creanças de hoje serão os homens de amanhã e por isso nada mais util do que a educação moral, civil e religiosa e os que com ella se sacrificam, prestam PAULA FERREIRA Página |6 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) grandes serviços à sociedade e à religião, e é também grande o premio que hão-de receber dos sagrados corações de Jesus, Maria e José”. A partir da nossa experiência profissional, assistimos frequentemente ao abandono escolar por parte de crianças e de adolescentes, sem que a escola dê uma resposta interna à resolução dos problemas ou pelo menos, ao seu controlo, evitando assim que cresça o número de jovens entregues a si próprios e/ou a famílias completamente desagregadas e marcadas pela violência, prostituição, alcoolismo, toxicodependência, mendicidade e outras situações geradoras de marginalidade. Não podemos ser ingénuos no sentido de pretendermos mudar o mundo ou resolver todos os males que afectam os alunos/jovens de hoje, quando já existem inúmeras pesquisas e trabalhos publicados que versam sobre esta temática, sendo que os problemas relacionados com a delinquência juvenil permanecem no nosso quotidiano. No entanto, o interesse por estas questões e o estudo particular de uma instituição centenária (neste caso, a Oficina de São José), poderá alertar-nos para problemas sociais que, com outros contornos, são perfeitamente actuais. Conhecendo o historial de “crianças problema” e a forma como os responsáveis de determinada instituição tentaram e tentam salvá-las do mundo da marginalidade, será possível orientar a actuação dos interessados nesta problemática no sentido de auxiliar aqueles que procuram um futuro mais estável e promissor para estes jovens. Mesmo correndo o risco de fracassarmos em muitas tentativas de ajuda a menores em risco, aqueles que desviarmos do mundo da marginalidade, já representarão uma forte motivação para continuarmos a nossa “missão”. Já no século XIX, o padre Sebastião Leite de Vasconcelos, na linha de São João Bosco, fundador da Sociedade de S. Francisco de Sales, enveredou por um sistema educativo orientado no sentido da preparação para a vida da população juvenil portuguesa, numa perspectiva profissionalizante. A intenção do padre Sebastião, como a de D. Bosco, era a de contribuir para a formação dos jovens portugueses, ajudando-os a tornarem-se cidadãos honestos e bons cristãos. PAULA FERREIRA Página |7 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Também estes religiosos acreditavam na prevenção ou minimização dos efeitos nefastos de contextos familiares adversos no que diz respeito aos jovens que acolhiam mas a sua acção assumiu uma vertente caritativa e evangelizadora, perfeitamente compreensíveis numa sociedade de finais do século XIX e inícios do século XX. Essa acção privilegiou uma infância desvalida e particularmente, os menores que já haviam caído nas malhas da criminalidade. D. Bosco e o padre Sebastião conseguiram obter alguns resultados positivos e ainda que estes resultados constituíssem uma ínfima contribuição num grande universo de jovens delinquentes, não os podemos ignorar. É nesta linha de pensamento que nos propomos debruçar sobre as questões que se seguem, como demonstramos nos capítulos II e III: Quais as principais razões que estiveram na origem da fundação da Oficina de São José, na cidade do Porto? Como foi interpretada a intervenção social da figura do padre Sebastião Leite de Vasconcelos no período estudado? Qual a relação entre o padre Sebastião Leite de Vasconcelos e São João Bosco? Como foi a receptividade social no Porto a esta Oficina de Artes e Ofícios? Que tipo de jovens constituíam a população maioritária da Oficina de São José? Quais as ilações que podemos retirar da análise dos casos de sucesso e/ou fracasso pessoal e profissional dos jovens acolhidos por esta instituição?... PAULA FERREIRA Página |8 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) ORIENTAÇÃO METODOLÓGICA O ACESSO AOS ARQUIVOS DA OFICINA: A RECOLHA E O TRATAMENTO DOS DADOS Da documentação a que tivemos acesso na instituição privilegiamos o Livro de Registo de Matrículas, desde o ano de 1883 até ao ano de 1933 e um Livro de Legados de benfeitores. Tendo a verdadeira noção de que os ficheiros sobre estudantes são particularmente importantes, enveredamos pela utilização do computador na introdução, classificação e tratamento de dados respeitantes aos educandos desta oficina, desde a sua fundação. Usamos um programa de uma empresa cujo software foi adaptado às necessidades da nossa pesquisa e ao tratamento dos dados recolhidos. Naturalmente que a antiguidade das fontes, o seu difícil manuseamento e a própria ausência de certos dados sobre os educandos, nos obrigaram a recorrer a todas as informações anexas (observações que incluímos em blocos de notas “encriptadas”) para podermos tirar conclusões sólidas sobre estes alunos e a organização da própria instituição. Criamos assim uma base de dados com 497 fichas de registo de matrícula com os seguintes elementos: Número do educando. Alcunha (no caso desta existir). Nome próprio. Filiação (Pai e Mãe). Data de Nascimento. Naturalidade (País estrangeiro ou Distrito de Portugal). Data de admissão. Data de saída. Comportamento (Insubordinação/Actos criminosos). Ofício. PAULA FERREIRA Página |9 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Na sequência do tratamento estatístico destes dados, teremos que salientar a impossibilidade do programa em assumir a gravação de fichas com falta de certos elementos, o que nos forçou a adoptar estratégias de superação dessas limitações, sem com isso falsear os resultados. Assim, podemos destacar os seguintes procedimentos: Quando não existe qualquer referência ao nome do pai, mãe ou de ambos, colocámos a designação de incógnito, incógnita ou incógnitos. Quando não existe registo da data de nascimento do educando, optamos por criar a data de referência 01-01-1800. No respeitante à naturalidade, decidimos privilegiar a análise das fichas dos educandos oriundos das Freguesias do Concelho do Porto, espaço principal do objecto do nosso estudo, quer pelo facto de ser o espaço de implantação da própria Oficina, quer pelo facto de grande parte dos registos de matrícula analisados dizerem respeito a jovens do Distrito do Porto. A propósito dos restantes dados: --» Os educandos naturais do “Grande Porto” foram registados como fazendo parte do Distrito do Porto mas com a expressão “Não se Aplica” relativamente às Freguesias; --» Os educandos do resto do país foram registados nos restantes Distritos de Portugal mas com a expressão “Não se Aplica” relativamente às Freguesias, com excepção dos naturais da Freguesia da Sé desses Distritos; --» Os educandos expostos ou que surgem sem qualquer referência ao local onde nasceram, foram registados com a expressão “Não se Aplica” relativamente ao Distrito e à Freguesia. --» No caso de educandos nascidos no estrangeiro, repetiu-se o procedimento anterior. No que concerne à data de saída, o algarismo 0 significa que não existe qualquer referência a essa data. PAULA FERREIRA P á g i n a | 10 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Relativamente ao comportamento, apenas destacámos os educandos com indicações sobre insubordinação, actos criminosos ou com um comportamento referido como louvável ou até premiado. O percurso do educando após a saída da Oficina também é indicador de um excelente, bom, regular, mau ou péssimo comportamento. Os casos que não apresentam qualquer referência ao comportamento antes, durante ou após a permanência na Oficina, foram registados como jovens de comportamento regular ainda que existam casos de um comportamento regular mencionado no próprio Livro de Matrículas. Relativamente aos Ofícios, nas situações em que o ofício não é referido, aparece a expressão “não mencionado”. Finalmente, com base na análise das observações das fichas de Registo de Matrícula, pudemos chegar a importantes conclusões sobre: --» A relação entre alguns educandos e os mestres, protectores e familiares. --» A actuação dos mestres e médicos para com os educandos. --» A opinião dos responsáveis da Oficina sobre as capacidades intelectuais e habilidades motoras dos educandos. --» Algumas das regras fundamentais a cumprir pelos membros da Oficina. PAULA FERREIRA P á g i n a | 11 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) CAPÍTULO I – CONTEXTUALIZAÇÃO Partindo do facto do nosso trabalho de pesquisa se circunscrever ao período decorrente entre finais do século XIX e inícios do século XX, centraremos a sua contextualização histórica e socioeconómica neste intervalo de tempo e fazendo referência às organizações com relevância social nascidas na época e aos apoios económicos provenientes, quer da cidade do Porto, quer de outras localidades. I.1. O APOIO AOS MENORES DESVALIDOS – BREVE RESENHA A Casa Pia, inaugurada a 3 de Julho de 1780, procurava regenerar os vadios adultos de ambos os sexos e internava crianças abandonadas ou desvalidas que pudessem converter-se em “perigosos malfeitores”. Após ter sofrido um processo de decadência (para o qual contribuíram a morte de Pina Manique e as Invasões Francesas), a Casa Pia foi reinaugurada no Convento do Desterro, em 31 de Agosto de 1811, mas as suas competências cingiam-se à assistência e educação de menores desamparados. Mais tarde, já no período de consolidação do liberalismo, pelos decretos de 6 de Abril de 1836 e de 14 de Abril de 1836, inaugurava-se no ex-convento de Santo António dos Capuchos, o Asilo de Mendicidade de Lisboa, consagrado à detenção e recolhimento de mendigos e indigentes, de qualquer idade e de ambos os sexos, residentes há mais de dois anos na cidade, criando-se paralelamente um Conselho Geral de Beneficência em Lisboa e comissões filiais nas capitais de distrito e ilhas, no intuito de atenuar a mendicidade. Apesar dos asilos de mendicidade se terem instalado posteriormente em várias cidades (Porto-1846), o internamento nestas instituições não era forçado ou involuntário. Paralelamente a tais instituições asilares, o século XIX caracterizou-se por um aumento do número de irmandades, de comissões de PAULA FERREIRA P á g i n a | 12 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) beneficência paroquiais e municipais, de grupos particulares em áreas circunscritas. O Asilo D. Maria Pia, criado por decreto de 14 de Março de 1867, para além de receber internados inválidos e velhos, acolhia menores para lhes dar educação nas suas aulas e oficinas. Esta tese da regeneração pelo trabalho relacionavase com a criação de uma nova instituição para menores, em 1871, a Casa de Correcção estabelecida no extinto Convento das Mónicas. Nove anos depois, o Governo instituía no Concelho de Elvas (através da lei de 22 de Junho de 1880), a Escola Agrícola. Na cidade do Porto, em finais do século XIX, existiam vários estabelecimentos que acolhiam crianças mas que deveriam ter uma maior capacidade de acolhimento. Todavia, por falta de recursos, estes estabelecimentos não conseguiram inserir todas as crianças. Além disso, eram “organismos” que beneficiavam de donativos particulares. Eles eram: “Estabelecimento Humanitário do Barão de Nova Cintra”; “Oficina de São José”; “Asilo profissional do Terço”; “O Colégio das Órfãs”; “O Asilo de São João”; “O Colégio dos Meninos Órfãos”; “O Seminário dos Meninos Desamparados”; “O Asilo Escola Municipal”; “O Recolhimento das Meninas Abandonadas”; “O Asilo de Vilar”; “O Instituto de Surdos-Mudos”; “O Recolhimento de Nossa Senhora das Dores e São José”. A intensificação da moralização da sociedade portuguesa em torno do valortrabalho dos finais do século XIX, exercia uma influência apreciável no fenómeno da repressão da mendicidade e da vadiagem. No decurso do século XIX, podemos realçar a importância da acção benfeitora de várias instituições como a Oficina de São José, o Asilo do Terço, o Asilo de São João, numa altura em que a iniciativa privada e em particular, a PAULA FERREIRA P á g i n a | 13 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) intervenção da Igreja Católica procuravam minorar os efeitos sociais nefastos provocados pelo abandono de jovens. Na verdade, a Oficina de São José na cidade do Porto, não só recolhia órfãos e desamparados como também, alguns jovens de “mau proceder” que tivessem estado na cadeia dando-lhes educação, instrução e ensino profissional. I.2. ALGUMAS QUESTÕES SOCIAIS NA PERSPECTIVA DE RODRIGUES DE FREITAS José Joaquim Rodrigues de Freitas (1840-1896) foi uma figura de grande relevo na história da ideologia republicana em Portugal. Primeiro deputado republicano (entre 1870 e 1874), pela perfeita dignidade da sua vida e pelas suas qualidades intelectuais, adquiriu um enorme prestígio entre os seus contemporâneos. Na condição de escritor e de jornalista, deixou obras de grande interesse histórico e registos dispersos que nos ajudaram a reflectir sobre os problemas sociais de finais do século XIX, na cidade do Porto. No artigo que redigiu no periódico, “O Comércio do Porto”, a 17 de Setembro de 1879, respeitante à mortalidade e à habitação, este político da oposição, atento aos problemas sociais coevos, realçou a importância da casa, sob o ponto de vista higiénico e moral, na vida quotidiana das populações de então. No seu entender havia um limite de alimento, de luz, de ar, de abrigo, e também de amor, abaixo do qual a existência humana em geral, era impossível. Nesta linha de pensamento, Rodrigues de Freitas valorizava a questão da habitação, sobretudo nos grandes centros populacionais, onde o aluguer de uma casa constituía uma das maiores despesas anuais. Os habitantes mais pobres que se refugiavam em espaços exíguos, insalubres, sujos e degradados, estavam muito perto do ponto, além do qual “só reinavam os gelos da morte”. Na realidade, as doenças pulmonares desenvolviam-se preferencialmente em aposentos estreitos e mal arejados. A propósito da situação dos habitantes de grandes cidades, como as cidades de Lisboa e do Porto, no seu artigo publicado no “Comércio do Porto”, a 7 de PAULA FERREIRA P á g i n a | 14 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Agosto de 1880, sobre a beneficência pública, Rodrigues de Freitas constatou que foram muitas as disposições legislativas acerca da beneficência pública em Portugal. Algumas destas disposições, ainda que antigas, mostraram o cuidado que merecia este importantíssimo ramo da administração. No entanto, na sua opinião e na qualidade de homem da oposição, considerava as nossas instituições públicas de caridade, praticamente inoperantes. Na realidade, elas não se notabilizaram, nem pelo número, nem pela qualidade. Rodrigues de Freitas partiu da ideia de que o país se podia dividir em duas regiões distintas: a região norte, fortemente marcada pela filantropia particular e a região sul, nitidamente assinalada pela intervenção estatal. Como político interveniente e crítico que era, ele não deixou de questionar a forma como o dinheiro público era gasto em casas de filantropia, nem sempre funcionais nem de grande utilidade. Tomando como exemplo, o Asilo de D. Maria Pia, em Lisboa, considerou aí, duas faltas essenciais: a falta de ar puro e a falta de pão para a sobrevivência humana. A seu ver, prolongar a vida pelo martírio lento da subsistência insuficiente, da alimentação má, do ar viciado, não pode ser o destino das instituições mantidas pelo Estado. Sendo assim, não poderíamos falar de beneficência mas sim, de maleficência. Para remediar estes males, procurou-se na caridade dos particulares o que faltava ao Estado. Rodrigues de Freitas considerava ser necessária e indispensável, a beneficência tornada função do Estado, embora fosse importante torná-la fecunda, empregando honradamente os fundos que lhe eram destinados. No artigo que escreveu no periódico “O Comércio do Porto” em 22 de Maio de 1884, sobre a Associação da Creche de S. Vicente de Paulo, referindo-se especificamente às instituições destinadas à recolha, educação e instrução de crianças, Rodrigues de Freitas considerava que estas não deviam ser simultaneamente recolhimento de inválidos do trabalho ou do hospital. Na verdade, variando tanto as regras de vida com as idades extremas, seria “transgredi-las”, reunir crianças e idosos no mesmo asilo. PAULA FERREIRA P á g i n a | 15 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Segundo este político, nas classes inferiores colocava-se o problema da sobrevivência das crianças. Nestes meios, as mães costumavam ter o trabalho de amamentar os filhos, pois a própria pobreza, a escassez de recursos e o hábito estimulavam-lhes esse procedimento. No entanto, situações como uma péssima alimentação da mãe ou o seu emprego numa fábrica, arrastavam as crianças para o abandono ou a sua entrega a pessoas pouco responsáveis. Neste contexto e para obviar estas dolorosas consequências, o moderno espírito filantrópico instituiu as creches. A primeira creche aberta na cidade do Porto, foi em 21 de Novembro de 1852, tendo sido seu benemérito fundador, João Vicente Martins, que na capital de França tinha estudado os efeitos salutares da obra de Marbeau.1 Em 25 de Agosto de 1854 instalou-se nesta cidade, a Associação Protectora das Creches de S. Vicente de Paulo que integrou esta primeira creche portuense. A associação portuense, que manteve e dirigiu a primeira Creche estabelecida em Portugal, construiu casa própria onde era maior o número de berços e todas as condições higiénicas eram observadas. As crianças podiam permanecer aí até aos seis anos de idade e beneficiavam da criação de uma escola onde recebiam os rudimentos da educação maternal. Partindo das informações fornecidas por Rodrigues de Freitas num artigo que integrou “O Comércio do Porto”, em Janeiro de 1881, respeitante à casa de correcção, ficamos a saber que se divulgou a ideia da necessidade urgente da fundação de asilos nocturnos na cidade do Porto, na qualidade de institutos de beneficência. No entanto, para Rodrigues de Freitas, era mais premente canalizar os esforços da beneficência particular para a criação de uma casa de correcção. Foi neste contexto de opinião, que este deputado nos relembrou a história de um cidadão que viveu na cidade do Porto, cidadão benemérito preocupado com a melhoria da situação dos desvalidos e fundador de um estabelecimento humanitário. Referimo-nos ao barão de Nova Cintra que faleceu sem ter 1 Jean Firmin Marbeau nasceu em Brive-la-Gaillard e foi advogado em Paris. Ficou particularmente conhecido pela fundação da primeira creche em Paris, a 14 de Novembro de 1844. Esta creche destinava-se a filhos de mães trabalhadoras e serviu de modelo à criação de outras creches por toda a França. Faleceu em Saint-Cloud, em 1875. PAULA FERREIRA P á g i n a | 16 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) conseguido ver completar o Estabelecimento Humanitário que fez nascer e que viria a ser dirigido pela Santa Casa da Misericórdia. Este estabelecimento humanitário era uma verdadeira casa de correcção e um asilo para rapazes e raparigas; o seu fundador pretendia que as meninas ali recolhidas se tornassem hábeis para as tarefas domésticas e para a vida independente e que os rapazes se convertessem em bons agricultores ou operários. Para este efeito, as partes características deste Estabelecimento Humanitário do Barão de Nova Cintra eram casas para aulas, um campo de trabalho, algumas oficinas, espaços para experiências agrícolas e uma fábrica de fiação de seda. A par do asilo industrial e agrícola, deveria existir uma casa de correcção destinada a jovens, cujo proceder fosse repreensível para que a educação moral e a benéfica acção do trabalho os transformassem em cidadãos honestos e úteis. Rodrigues de Freitas justificava a urgência do surgimento deste asilo/casa de correcção pela frequência das notícias diárias respeitantes a crimes praticados por menores, sem família conhecida, sem domicílio certo, sem ocupação definida! Por vezes, eram recebidos na cadeia ou deportados para África. Ora, a seu ver, a sociedade procederia melhor se corrigisse em vez de punir pois, enquanto a punição geralmente piorava o indivíduo, a correcção transformava o vício em actividade sã e fazia de um parasita, um produtor! Na perspectiva de Rodrigues de Freitas, se o norte de Portugal já possuía muitos estabelecimentos de beneficência provenientes da iniciativa particular e praticamente sustentados sem o auxílio estatal, nenhum deles era verdadeiramente uma casa correccional! A título de exemplo podemos citar o caso da Oficina de São José que recebia jovens com cadastro mas que estava longe de ser um estabelecimento correccional. A implantação de uma casa de correcção, só glorificaria a cidade do Porto que passaria a beneficiar de uma instituição capaz de contribuir para o melhoramento moral dos menores vadios, mendigos e criminosos, havendo o cuidado de não se misturarem menores e adultos num estabelecimento prisional. Além disso, na opinião de Rodrigues de Freitas, se a existência de crianças incapazes de aprender não era motivo PAULA FERREIRA P á g i n a | 17 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) contra a fundação de escolas, também a existência de incorrigíveis não poderia servir de pretexto para a não exigência de casas de correcção! Por outro lado, as investigações sobre as causas da delinquência, remetemnos geralmente para factores abordados por Rodrigues de Freitas num artigo sobre o melhoramento das classes laboriosas, elaborado para “O Comércio do Porto”, em 16 de Maio de 1884. Estes factores passavam por uma existência desgraçada, pela falta de carinho e acompanhamento, pelo desleixo ou pelo vício dos pais. Neste ensejo, o combate ao desenvolvimento do crime entre os menores e ao crescente número de crianças doentes, ignorantes e delinquentes teria que passar inevitavelmente, pela melhoria da situação económica das classes laboriosas. A partir da leitura do artigo sobre a miséria no Porto, inserido na publicação “A Folha Nova”, de 27 de Julho de 1885, constatamos que as investigações feitas pelas autoridades e pelas comissões da imprensa mostraram que na cidade do Porto existiam muitíssimas pessoas a viver na miséria, em casas sem as mais elementares condições recomendadas pela higiene. Na realidade, a par do progresso material coexistia a cidade da indigência, com as suas ilhas lôbregas, com as suas estreitas e infectadas moradas, com os seus habitantes cujos organismos se deterioravam, se atrofiavam, se depravavam num meio verdadeiramente mórbido. A fome era uma realidade, à qual não escapavam as cidades conotadas como desenvolvidas. Noutro artigo sobre casas para operários, inserido na publicação “A Folha Nova”, de 2 de Outubro de 1885, Rodrigues de Freitas fez referência a um projecto apresentado pelo governador civil do Porto, no sentido de se contribuir para a construção de mil casas para operários que custariam, em média, 300$000 reis, cada uma. Os operários, não só as arrendariam, mas poderiam gradualmente comprá-las. É de notar que, se o inquilino se pudesse converter em proprietário, mais zeloso seria relativamente à conservação do seu prédio. Além disso, destinada aos moradores paupérrimos das ilhas, que sofriam com a falta de pão e de água potável, surgiu uma proposta no sentido de se efectuarem obras de beneficiação nessas ilhas como forma de combate à degradação física e moral das classes laboriosas. PAULA FERREIRA P á g i n a | 18 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Num artigo posterior de 6 de Outubro de 1885, na mesma publicação, Rodrigues de Freitas, abordava novamente o problema dos prédios degradados e os problemas das pessoas que os habitavam. De facto, ou por falta de recursos, ou por ignorância, cerca de um sexto da população portuense de 1885 vivia em péssimas condições físicas e morais. Em 22 de Setembro de 1894, no “Comércio do Porto”, este deputado falava-nos da importância da criação de habitações limpas, livres de fumo, livres de humidade e de mau cheiro, bem iluminadas, abundantes de ar puro e divididas de modo a proporcionarem ordem e asseio àqueles que mais precisavam de recuperar forças para trabalhar. Finalmente, a 4 de Outubro de 1894, também no “Comércio do Porto”, Rodrigues de Freitas concluiu que, ainda que estes empreendimentos, apenas beneficiassem uma parte da população operária, eles serviriam de exemplo a outras propostas/ projectos similares e desviariam dos caminhos do vício, cada vez maiores somas de um trabalho penosamente produzido. I.3. MISÉRIA, MENDICIDADE, PREVIDÊNCIA, ENSINO TÉCNICO, “SOCORROS MÚTUOS” NA ÓPTICA DE UM CONTEMPORÂNEO Torna-se imprescindível, neste contexto, esclarecer o conteúdo de conceitos como miséria, mendicidade, previdência, ensino técnico e “socorros mútuos”, no sentido em que eram aplicados na época em estudo. Pareceu-nos útil colher em Forbes de Magalhães, membro do Conselho Científico do Instituto Portuense, alguns conteúdos sobre esses conceitos, uma vez que se tratou de uma figura portuense bastante interessada nas questões sociais relacionadas com a pobreza. Em 1897, no Boletim do Instituto Portuense, este contemporâneo fez uma abordagem à problemática da miséria. Na sua opinião, a palavra miséria podia ser usada com dois significados: a miséria física (fome, frio, doença) e a miséria moral (ignorância, perversão, crime). Estes dois tipos de miséria podiam coexistir quando procediam da mesma causa mas geralmente derivavam uma da outra. PAULA FERREIRA P á g i n a | 19 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Além disso, a miséria podia ser recatada ou ostensiva. Num sentido mais lato, o “pauperismo” designava a miséria colectiva, amplificada, geral, que reduzia categorias inteiras de indivíduos ao estado de indigentes socorridos. A própria Revolução Industrial produziu o aumento da riqueza por parte de alguns elementos da sociedade mas também provocou o “pauperismo” de muitos. Ainda existiam os falsos mendigos que, por vício, eram os terríveis inimigos dos verdadeiros pobres porque lhes roubavam os socorros. Forbes de Magalhães fez uma breve descrição do que se assistia no nosso país. Daquilo que observava, considerava que em Portugal, a “doença social” da mendicidade parecia endémica. Citando dados concretos referia que, no ano de 1896 haviam sido detidos pela polícia civil do Porto, por andar a mendigar, 176 homens, 361 mulheres e 29 crianças, ao todo, 566 pessoas das quais 214 eram reincidentes. Dos 566 mendigos referidos, 224 haviam sido libertos, 153 haviam sido remetidos ao asilo, 70 haviam sido entregues a familiares, 37 haviam sido enviados para as terras da sua naturalidade e 4 haviam sido internados no Hospital. Do total, 178 eram falsos mendigos. Neste número, entravam ainda os exploradores da caridade pública que recebiam crianças “alugadas” para andarem a mendigar de terra em terra, de feira em feira, de romaria em romaria. O autor denunciou situações graves como a “indústria vil” de aleijar, estropiar e até cegar crianças para as “alugar” a exploradores por quantias que rondavam os 4$800 reis e os 5$000 reis, bem como a pressão a que a polícia era sujeita quando intervinha na detenção de mendigos para irem a tribunal ou serem internados no Asilo da Mendicidade. O número de pobres inscritos nos registos do “Commercio do Porto” era de 1250 e em 1896 foram distribuídos 4: 767$050 reis em 3913 esmolas. Na opinião de Forbes de Magalhães, a “previdência” surgia como o melhor meio de evitar a miséria, ocasionada pela falta de saúde, pela ausência de ordem pública, pela invenção de novos processos industriais, pelo desvio das correntes comerciais ou pelo desaparecimento da necessidade de serviços prestados pela sua profissão. No entanto, este autor alerta-nos para o facto de PAULA FERREIRA P á g i n a | 20 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) nos podermos deparar com “o reverso da medalha” ou seja, a beneficência também poderia proporcionar situações de miséria! Na realidade, as pessoas, sabendo da existência de instituições de beneficência, poderiam não evitar cair na miséria. Segundo Forbes de Magalhães, os economistas eram avessos ao sistema de beneficência oficial ou legal uma vez que este comportava gastos excessivos com o aparelho burocrático que o sustentava, sendo que o pobre passava a exigir a esmola como um direito que convidava à preguiça. A beneficência particular ou individual tinha a grande vantagem de purificar as almas daquele que socorria e daquele que era socorrido mas também podia gerar a imprevidência. Em suma, o ideal era o recurso a associações de carácter particular espontâneo com uma certa fiscalização estatal. Como exemplo de um tipo de beneficência mais frutífera, Forbes de Magalhães referia instituições genuinamente portuguesas e seculares, as Misericórdias. Grande parte dos rapazes que adoeciam na Oficina de São José com tuberculose, acabavam por falecer no Hospital da Misericórdia. Na opinião de Forbes de Magalhães, no ano de comemoração do quarto centenário da Misericórdia do Porto (fundada em 14 de Março de 1499) seria importante a criação de um asilo para cegos com atribuições de encaminhamento profissional. Este cidadão sublinhou o seu desagrado em se atribuírem funções de beneficência às Câmaras Municipais, sobretudo relativamente a expostos, crianças desvalidas ou abandonadas Forbes de Magalhães procedeu à distinção entre os indigentes, inválidos ou doentes que deveriam beneficiar da assistência pública até se recuperarem, os mendigos ou vagabundos acidentais que deveriam ser recebidos em estabelecimentos onde o trabalho era obrigatório e os mendigos de profissão que deveriam ser severamente punidos. Outra das instituições citadas por Forbes de Magalhães era o “Seminário dos Meninos Desamparados”2, instituição essa que acolhia muitos dos jovens posteriormente encaminhados para a Oficina de São José. 2 Em 1814, uma dama portuense recolheu em sua própria casa, as crianças que ficaram órfãs depois da funesta invasão de Soult, lançando a pedra basilar de um Asilo que seria conhecido PAULA FERREIRA P á g i n a | 21 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) É importante salientar que Forbes de Magalhães frisou bem a ideia da necessidade em se dar uma instrução profissional às “classes” mais pobres ou seja, a habilitação para ganhar meios de subsistência, educação, amor ao trabalho, hábitos de economia, regras, bons costumes e amor à família. É nesta linha de pensamento que o ensino comercial e industrial será cuidadosamente tratado em alguns estabelecimentos de beneficência. A título de exemplo podemos referir o Internato Municipal e o Colégio dos Órfãos onde se administrava o ensino comercial e industrial; a Escola da Ordem Terceira do Carmo que preferia o ensino comercial; o Instituto dos Cegos; o Asilo do Terço; o Asilo do Barão de Nova Cintra e a Oficina de São José ou “Escola de artes e ofícios para crianças pobres e abandonadas” (documento de 1887) que optaram pelo ensino industrial. Todavia, no seu parecer, as Associações de Socorros Mútuos garantiriam (com poucas despesas), benefícios na doença, invalidez, acidente, velhice…Deste modo, seria a beneficência particular associada a uma fiscalização estatal, a melhor forma de “socorrer a miséria”. Forbes de Magalhães apresentou as seguintes propostas de socorro à miséria na cidade do Porto, em finais do século XIX: Criação de um Asilo e Escola Profissional para cegos como forma de comemorar a fundação da sua Misericórdia; Criação de Socorros Domiciliários pela Misericórdia; Criação de Casas de Convalescença fora do Porto (Província); Criação de Misericórdias em todas as cidades, vilas e povoações mais importantes do país; Implementação de estudos para Socorros Domiciliários; Implementação de Socorros adequados às circunstâncias/necessidades de cada caso, a partir da recolha de informações sobre os possíveis beneficiários. Numa referência final à abordagem do pensamento deste cidadão, podemos realçar que numa altura de elevada taxa de menores desvalidos na cidade do pelo “Recolhimento das Meninas Desamparadas” instituindo-se posteriormente outro Asilo com o nome de “Seminário dos Meninos Desamparados”. PAULA FERREIRA P á g i n a | 22 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Porto, a beneficência particular supervisionada pelo Estado e o encaminhamento destes jovens para a aprendizagem de uma arte ou ofício, seriam, no seu entendimento, as formas mais eficazes para se minorar o problema da miséria e da mendicidade. I.4. CRIMINALIDADE E MARGINALIDADE INFANTIS, SUA PREVENÇÃO OU REMEDIAÇÃO – A VISÃO DE MENDES CORREI A Na realidade, os menores do nosso país que eram arrastados por chefes de bandos para a prática de delitos, poderiam transformar-se em jovens honestos e dóceis quando colocados em oficinas, numa situação de liberdade vigiada. Antes do Decreto de 27 de Maio de 1911, existiam já no Porto, embora com sede fora da cidade, duas instituições destinadas à educação preventiva e reformadora das crianças delinquentes: “Casa de Detenção e Correcção” que funcionava em Vila do Conde e que fora criada por lei de 17 de Abril de 1902 e a “Colónia Agrícola de Vila Fernando” criada em 22 de Julho de 1880, aberta em 1895 e regulamentada em 17 de Agosto de 1901. Mendes Correia, nos estudos que efectuou sobre crianças delinquentes, em 1915, fornece-nos informações relevantes sobre as ideias vigentes na época. Na sua opinião, o senso moral, as noções de altruísmo, as noções de probidade e de justiça não entravam no espírito humano logo no alvorecer da existência mas o crime não era também uma manifestação habitual na criança. O adulto refreava muito dos seus ímpetos anti-sociais porque receava as consequências dos seus actos que já conhecia bem. Uma verdade incontestável a que Mendes Correia se referia era a de que a luta contra a criminalidade infantil seria a melhor profilaxia contra a criminalidade adulta. Na sua óptica, a grande maioria dos menores considerados delinquentes, criminosos e marginais, não tinham um meio familiar que lhes incutisse normas/regras salutares. Daí a importância e/ou determinismo das condições familiares e sociais na ocorrência da criminalidade. A título de exemplo, Mendes Correia referia a noção de propriedade que não era inata nas crianças mas sim, uma aquisição educativa. Os furtos em tenras idades não revelavam PAULA FERREIRA P á g i n a | 23 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) anomalias graves mas deveriam ser oportunamente combatidos no seio da família por uma educação moralizadora e vigilante. As estatísticas portuguesas da época em estudo, salvaguardando as possíveis margens de erro, dão-nos, em diferentes períodos, as seguintes médias anuais de criminosos com menos de vinte anos de idade, no continente e ilhas: De 1878 a 1880 1092 De 1891 a 1895 3384 De 1903 a 1910 3392 Além dos dados visíveis na tabela, podemos utilizar as seguintes conclusões, apuradas pelo autor: !ª A criminalidade precoce triplicou em Portugal, de 1878 a 1895. 2ª A criminalidade precoce em 1909 e 1910 apresentou uma notável tendência para descer. 3ª A média de 1903 a 1908 era de 3417 enquanto que em 1909 e 1910 era de 3317. Ainda a este propósito, subtraindo às médias do quadro anterior as quotas que correspondem aos menores de 18 a 20 anos, obtivemos as seguintes médias para a criminalidade dos menores até dezoito anos: De 1891 a 1895 1463 De 1903 a 1910 1315 Além dos dados visíveis na tabela, também aqui nos podemos servir das seguintes conclusões apuradas pelo autor: 1ª No período de 1903 a 1910, a criminalidade de indivíduos com menos de 18 anos era bastante inferior à de 1891-1895. 2ª A criminalidade de rapazes com menos de 18 anos era 5 a 6 vezes superior à das raparigas da mesma idade. 3ª A diminuição da criminalidade precoce referia-se sobretudo ao sexo masculino. PAULA FERREIRA P á g i n a | 24 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Os dados estatísticos da época, recolhidos por Mendes Correia, permitiram-lhe concluir que nos menores, a percentagem de delitos contra a propriedade era muito mais alta. Segundo este estudioso, a criminalidade infantil em Portugal (finais do século XIX e inícios do século XX) era motivada por condições de ordem social. A seu ver, os principais factores de delinquência infantil, resumiam-se aos seguintes: a) Hereditariedade Tuberculose Alcoolismo Prostituição Sífilis Neuroses Psicopatias b) Factores individuais Debilidade física e psíquica Instabilidade Mental Astenia Atraso mental ou pedagógico Epilepsia/Histeria Doenças mentais PAULA FERREIRA P á g i n a | 25 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) c) Factores “mesológicos” Educação viciosa Falta de pais (sobretudo da mãe) por falecimento, emigração, profissão ambulante, abandono ou separação… Filiação ilegítima Maus exemplos Desarmonia Maus tratos Pobreza Escola de rua (sobretudo nos meios urbanos) Propaganda do vício e crime nos meios de comunicação social da época Certas profissões (criadas de servir, costureiras, vendedores ambulantes…) Más camaradagens Antigo Regime Penal (cadeias, multas…) Na sequência da apresentação destes factores (por Mendes Correia) como propiciadores da delinquência/criminalidade/marginalidade infantil, surgiu a necessidade de investir na prevenção e na luta contra este mal social. Ainda que este autor manifeste pressupostos bastante questionados na actualidade, ele consegue sugerir propostas mais adequadas à faixa etária dos jovens com um comportamento marginal. Assim, a seu ver, ao invés de se tratar de uma vingança ou de um castigo, a pena deveria representar um meio de defesa social, de correcção do delinquente e de reparação do crime e os meios de prevenção deveriam assumir uma maior importância do que os meios correctores, reparadores ou punitivos. A partir de uma reflexão atenta sobre o objecto do nosso estudo, a Oficina de São José, verificamos que os jovens acolhidos, provenientes de famílias humildes, se inseriam numa situação de “prevenção” ao passo que, os jovens que já haviam estado presos se integravam numa situação de “reparação” de comportamentos marginais. PAULA FERREIRA P á g i n a | 26 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) O próprio Mendes Correia propôs algumas medidas preventivas da criminalidade e marginalidade infantis, tais como a luta contra a tuberculose, a luta contra o alcoolismo, a repressão da prostituição para se evitar a difusão de doenças venéreas, a proibição do casamento entre indivíduos atingidos por certas psicoses e taras transmissíveis por herança, a esterilização dos “criminosos natos” e dos “maiores degenerados”. Para Mendes Correia, eram igualmente importantes as medidas profilácticas, psíquicas e “mesológicas” das crianças pobres, desamparadas, abandonadas e em perigo moral! As medidas que poderiam ser uma tentativa de salvação destes menores deveriam passar pelo auxílio económico aos pobres, pelo estabelecimento de instituições de patronato e de serviços públicos de assistência infantil. Esta “salvação” teria que passar inevitavelmente pela proibição da permanência de crianças em certos estabelecimentos (como casas de jogo, casas de prostituição e locais de venda de bebidas alcoólicas), pela repressão da propaganda ao vício e ao crime através de jornais, teatros, cinemas e pela punição da negligência, maus exemplos e maus tratos, sobretudo por parte de pais e tutores. O favorecimento da boa organização familiar, a implementação de medidas de protecção dos filhos ilegítimos, evitando o abandono de crianças, o apoio aos serviços destinados aos menores de idade (inserção em internatos, semi-internatos e outros institutos de crianças em perigo moral, desamparados e delinquentes; entrega de crianças em perigo moral a famílias honestas; estabelecimento de institutos pedagógicos para crianças “anormais”; criação de instituições de educação correccional para menores delinquentes, vadios, gatunos, libertinos) poderiam constituir meios eficazes de protecção a menores em situação de risco. Também a criação de tribunais especiais para a infância, a proibição da presença de crianças em julgamentos criminais e em tribunais comuns, bem como a eliminação da pena de prisão para menores de dezasseis anos seriam formas de pôr fim à mistura perniciosa de menores e adultos em questões judiciais. Na realidade, a cidade do Porto possuía alguns estabelecimentos de assistência e educação para menores abandonados e delinquentes devido à PAULA FERREIRA P á g i n a | 27 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) iniciativa de particulares filantropos mas reclamava-se a sua diferenciação pedagógica, adaptando-os a funções específicas. Na verdade, em alguns destes estabelecimentos, não se distinguia entre a escola maternal, preparatória e profissional bem como se misturavam as mais distantes idades. Sendo assim, a Oficina de São José surgiria como uma instituição pioneira que acolhia alunos de uma faixa etária delimitada e que eram inseridos na aprendizagem de um ofício (ensino profissional) com vista à preparação para a vida activa. Para Mendes Correia, os meios repressivos que poderiam ser utilizados seriam as repreensões, a liberdade vigiada, a liberdade condicional, o internamento ou a detenção em estabelecimentos de educação reformadora ou convencional e até penas corporais, quando inevitáveis. Numa abordagem final ao pensamento de Mendes Correia, convém salientar a ideia por ele defendida de que a criança não poderia ser tratada como um adulto, sobretudo a nível jurídico. Na realidade, se Mendes Correia já revelava uma perspectiva educacional “avançada,” pedagogicamente falando, quando propunha um tratamento diferenciado para crianças delinquentes relativamente aos adultos, o seu pensamento ainda admitia a “agressão física” como medida correctiva. O seu contacto com países estrangeiros (nomeadamente com os E.U.A. e os países mais desenvolvidos da Europa) alertou-o para um dos graves problemas sociais em Portugal. Referimo-nos ao tratamento jurídico dos menores, sujeitos a tribunais ordinários e a cadeias civis. Somente por Decreto de 27 de Maio de 1911, foi criada no Porto uma Tutoria Central, uma tutoria da infância, regulamentando-se também a “Casa de Detenção e Correcção”, que passou a ter o nome de “Escola Industrial da Reforma do Porto”. Deste modo, Portugal, através deste decreto com força de lei de 27 de Maio de 1911 do ministro Afonso Costa, colocou-se ao lado dos países mais evoluídos, num honroso lugar. Este decreto veio retirar as crianças aos tribunais ordinários e às cadeias civis, confiando-as a tribunais especiais e a refúgios que funcionavam junto desses tribunais e substituíam as cadeias. PAULA FERREIRA P á g i n a | 28 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) I.5. OUTROS MECANISMOS DE CORRECÇ ÃO DE MENORES DE “MAU PROCEDER” Em 26 de Maio de 1880, foi apresentada na Câmara dos Deputados, uma proposta de lei para a criação no Porto, da Casa de Detenção e Correcção, tantas vezes solicitada devido àquilo que se considerava serem os “excelentes resultados” da sua congénere em Lisboa. Na criação deste estabelecimento, deveria ser gasta a verba de 4000$000 reis destinada ao Teatro Lírico da cidade (orçamento de 1879/1880). Como a solução tardava, a imprensa da cidade do Porto ia fazendo referência à miséria e ao abandono das crianças e à sua situação nas cadeias onde cumpriam penas correccionais.3 Entretanto, já se procedera à fundação da Oficina de São José, que, longe de ser uma Casa de Detenção e de Correcção, não deixou de dar entrada, desde 4 de Outubro de 1883, a menores miseráveis, abandonados e alguns cadastrados. Sabemos que em Portugal, a lei previa que o menor detido por vadiagem fosse entregue à Câmara Municipal do seu Concelho (Código Civil, artigo 284) mas por falta de verbas nos orçamentos municipais, as crianças eram postas em liberdade. Perante a incapacidade do regime liberal em resolver os problemas dos “menores delinquentes”, estes apresentavam uma elevada taxa de 3 Maria José Moutinho, na sua publicação A Sombra e a Luz, fala-nos destes menores: “Agrupados em pequenos bandos, dormindo pelos bancos dos jardins, em casas abandonadas, imundos, esfarrapados, juntavam-se à entrada do Mercado do Anjo, do Mercado do Bolhão, saídas das missas… para furtar uma carteira, um relógio, um lenço”… Actuavam em grupo como o do Bulldog, Meu Pão, Catraio, Marroquino, Velhinho ou Planeta. Na cadeia, eram “hóspedes” passageiros e “mensageiros” de chefes de quadrilha ali encarcerados que lhes encomendavam mercadorias: um “grilo” (relógio), um “tirante” (cordão de ouro), um “arco de tarrachas” (pulseira) que depois de introduzidos na cadeia, eram transaccionados. Ao lermos este “excerto”, certamente relembramos o clássico de Charles Dickens, “Oliver Twist”, adaptado ao cinema por Roman Polanski e que tem tocado a sensibilidade dos mais pequenos, nos países onde tem sido divulgado. Também este filme nos remete para uma sociedade do século XIX, a sociedade inglesa, marcada pela exploração de menores abandonados apanhados pelas “malhas” da criminalidade. PAULA FERREIRA P á g i n a | 29 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) reincidência. Além disso, as penas impostas aos menores delinquentes eram de curta duração como se pode comprovar através das fichas de matrícula da Oficina de São José que nos fornecem informações sobre o “cadastro” dos menores acolhidos nesta instituição, tendo sido estes alvo de prisões consecutivas antes de darem entrada na referida Oficina. É evidente que a situação familiar destes jovens favorecia o seu comportamento: expostos, filhos de pais incógnitos, pais falecidos, pais emigrados, pais doentes ou delinquentes… Ainda a agravar a sua situação, já por si dramática, existiam os “protectores” que exploravam os jovens e esse crime passou a ser punido por Decreto-Lei de 15 de Dezembro de 1894 que no artigo 4º determinava “Aquele que manter ou consentir que uma pessoa menor de quatorze anos, que esteja sob a sua autoridade paternal ou tutelar, ou confiada à sua educação, direcção, guarda ou vigilância, se dê habitualmente à mendicidade ou que outra pessoa a contrate ou torne o seu serviço para o efeito de mendigar, incorrerá na pena de prisão correccional até seis meses e multa correspondente”. Estas realidades levaram o magistrado Augusto Maria de Castro, Procurador Régio junto da cadeia da Relação do Porto, a insistir na criação urgente de uma “modesta” Casa de Correcção na cidade que poderia ser instalada numa parte do edifício abandonado do Convento da Serra do Pilar. A crescente criminalidade entre os menores e a falta de estabelecimentos para a sua correcção e recuperação explicam a decisão do Governo na sequência da Lei de 21 de Abril de 1892, em deportar para África menores de onze anos, apesar do parecer contrário da Procuradoria-geral da Coroa de 14 de Dezembro de 1893. Das iniciativas particulares na cidade do Porto, destacam-se a de Augusto Maria de Castro, com a criação, em 1894, do Instituto Penitenciário de Beneficência e Caridade destinado ao acolhimento dos presos pobres e suas famílias. Este instituto recolhia sobretudo os filhos menores de presos da Cadeia da Relação, evitando que estes caíssem nas malhas da delinquência. Concluindo, a falta de instituições adequadas e a ausência de meios financeiros à disposição das autoridades locais, traduziram-se num grave problema social: os pequenos delinquentes só encontravam abrigo na PAULA FERREIRA P á g i n a | 30 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) promiscuidade e corrupção das cadeias. Para termos bem a noção da situação de “impasse” que se viveu a este nível, relembremos que, depois da criação da Casa de Detenção e Correcção de Lisboa, em 1872, sem capacidade regeneradora dos menores, a Primeira Colónia Agrícola só surgiria no final do século XIX (1895- Colónia Agrícola de Vila Fernando). Foi já no século XX que se estabeleceram outros mecanismos de correcção, educação e protecção aos menores. Temos como exemplo, a Casa de Correcção e Educação do Distrito do Porto, criada por Lei de 17 de Abril de 1902 para jovens do sexo masculino e, no ano seguinte, por Lei de 27 de Abril, um estabelecimento congénere para a educação e regeneração de menores do sexo feminino, instalado no Convento das Mónicas, depois da transferência para Caxias da Casa de Detenção para menores do sexo masculino. Foi igualmente em 1902 que se criaram as Comissões de Patronato em Lisboa e no Porto, com o fim de ministrarem amparo moral aos jovens saídos daquelas instituições. Somente depois da implantação da República (período posterior ao âmbito cronológico do nosso trabalho) foram criadas Tutorias da Infância e a Federação Nacional dos Amigos e Defensores das Crianças. As Tutorias surgiram como tribunais colectivos especiais destinados a guardar, defender e proteger os menores em perigo moral, desamparados e delinquentes. Estas eram constituídas por um juiz de direito, dois juízes adjuntos, um presidente, um professor e um médico. Existiam delegados de vigilância incumbidos do policiamento e da realização de inquéritos sobre as crianças a cargo da Tutoria e formas de inibição do poder paternal ou tutelar em caso de negligência, maus tratos, especulação, crueldade, incapacidade, pobreza, crime de pais ou de tutores. Foram designadas penas para aqueles que favorecessem ou estimulassem a delinquência, a vadiagem, a mendicidade, a ociosidade ou a libertinagem de crianças e para pais e tutores que as maltratassem ou abandonassem. Junto de cada Tutoria funcionava um refúgio para menores até deliberação do tribunal sobre os seus destinos. PAULA FERREIRA P á g i n a | 31 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Todavia, nem tudo era perfeito! Estas medidas de protecção aos menores restringiam-se às cidades de Lisboa, Porto e Coimbra e a jovens do sexo masculino. PAULA FERREIRA P á g i n a | 32 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) CAPÍTULO II - A OFICINA DE SÃO JOSÉ NO PORTO II.1. A FUNDAÇÃO DA OFICINA Torna-se agora fundamental realizar uma resenha histórica da instituição que nos propusemos estudar, a Oficina de São José no Porto. Comecemos por observar o seguinte quadro: Fundador Padre Sebastião Leite de Vasconcelos Fundação: 18 de Abril de 1880 Abertura: 4 de Outubro de 1883 Aprovação dos Estatutos: 8 de Setembro de 1887 Concessão do Título Real: 8 de Maio de 1890 por El-Rei D. Carlos Inauguração do Colégio: 1 de Novembro de 1890 Reconhecimento de utilidade pública por portaria de 18 de Abril de 1993. A Oficina de São José do Porto foi fundada pelo padre Sebastião Leite de Vasconcelos, nascido a 3 de Maio de 1852, na freguesia da Sé, cidade do Porto, onde viveu até à sua ida para Beja, em Fevereiro de 1908. Na cidade de Beja desempenhou as funções de Bispo até 1910. Na pura convicção daqueles que alimentaram a sua obra, “as qualidades que exortavam o seu coração de apóstolo” levaram-no a consagrar-se totalmente aos jovens mais desprotegidos e marginalizados e, assim, esmolando de porta em porta, conseguiu dádivas que juntas aos seus parcos recursos, lhe permitiram arrendar uma casa no Monte Pedral em 18 de Abril de 1880. Estava assim fundada a Oficina de São José. Mas, pouco tempo decorrido, apercebendo-se da impossibilidade de desenvolver a sua obra longe do centro da cidade, arrendava uma casa mais ampla na Rua de Trás da Sé, cuja inauguração solene se realizou a 4 de Outubro de 1883. PAULA FERREIRA P á g i n a | 33 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Graças às muitas ajudas e à generosidade de Manuel Esteves Ribeiro, que só por si custeou todas as obras, em 19 de Março de 1889, foi possível procederse à bênção da primeira pedra das actuais instalações na Rua Alexandre Herculano, que foram inauguradas em 1 de Novembro de 1890. O pedido de aprovação da obra dirigido pelo Padre Sebastião Leite de Vasconcelos à Câmara Municipal do Porto foi efectuado em 1887. PAULA FERREIRA P á g i n a | 34 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) II.2. OS ESTATUTOS DA OFICINA O estudo da Oficina de São José tornou-se mais completo pela análise dos respectivos estatutos. Sendo assim, optamos pela sua transcrição com anotações sobre as principais ilações que retiramos da referida análise. No Governo Civil do Porto, sob o selo do mesmo, tendo ouvido o Tribunal Administrativo e usando da faculdade conferida pelo artigo 217º nº 13º do Código Administrativo, Albino Pinto de Miranda Montenegro, bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra, Governador Civil do Distrito do Porto, aprovou os estatutos da Oficina de São José no Porto, a 8 de Setembro de 1887. “Os estatutos constam de vinte e quatro artigos escriptos em quatro meias folhas de papel, devidamente selladas, e numeradas e rubricadas pelo pelo official maior, servindo de Secretario Geral deste Governo Civil”. “Não pagou direitos de mercê nem sêllos por os não dever em vista das respectivas leis”. Passemos à transcrição e à análise dos referidos estatutos: Artigo 1º- A Oficina de São José, fundada pelo presbítero Sebastião Leite de Vasconcelos, tem por fim primário o ensino profissional de artes e ofícios, juntamente com a educação moral e religiosa, de expostos e menores abandonados; e, quando haja lugar, o de filhos menores de pessoas miseráveis, precedendo autorização de seus legítimos representantes. O primeiro artigo destes estatutos remete-nos para a importância coeva do ensino profissional e religioso dos menores em risco, numa sociedade que se debatia com os problemas decorrentes de um elevado número de jovens ao abandono. Assim, só a preparação moral e laboral para a vida activa poderia funcionar como um “travão” ao crescente número de jovens marginais. Artigo 2º- Estabelecer-se-ão na Oficina as artes e ofícios que suas forças e recursos permitirem; desde já, porém, são ensinados, pela sua ordem de antiguidade, os de sapateiro, alfaiate, carpinteiro, encadernador e serralheiro. PAULA FERREIRA P á g i n a | 35 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Todos os jovens da Oficina, além de uma arte ou ofício, aprenderão desenho que lhes for apropriado e a instrução primária elementar. O segundo artigo dos estatutos especifica o tipo de instrução/preparação profissional facultada aos jovens acolhidos na oficina. As profissões para as quais eram encaminhados os jovens que estudavam na oficina eram profissões bastante usuais na época. Esta realidade pode ser explicada, quer pela não exigência de grandes investimentos em máquinas e ferramentas, quer pela não obrigatoriedade de uma aptidão específica pelos educandos, facilitando-se a própria empregabilidade. Artigo 3º- Propondo-se esta instituição educar e regenerar os menores, para que de futuro cada um deles seja homem temente a Deus, dedicado à sua família e ao trabalho, e proveitoso à sociedade e a si próprio, haverá sempre a mais assídua vigilância pela boa moral dos educandos, e o mais constante cuidado pela sua educação religiosa. O terceiro artigo dos estatutos realça a importância de um rigoroso regime disciplinar nesta instituição de modo a salvaguardarem-se os princípios morais básicos de uma educação religiosa. Artigo 4º- Todos os alunos serão internos; poderá haver externos, quando a Oficina tiver casa apropriada, de modo que uma das classes fique inteiramente isolada da outra, e em ambas se mantenha sua respectiva disciplina. O quarto artigo dos estatutos estipula o regime de internato dos alunos apontando como principal causa o espaço físico disponível para o funcionamento desta instituição, evitando-se o contacto entre alunos internos e alunos externos. Artigo 5º- Somente serão admitidos como internos, os expostos e menores abandonados, que não tenham família, nem protecção alguma; e, quando haja lugar, os filhos menores de pessoas miseráveis. 1º Na concorrência de dois menores, dos quais um seja pervertido e totalmente abandonado, e o outro filho de família muito pobre, terá o primeiro a preferência na admissão. 2º Pela mesma razão de maior necessidade moral, os jovens de mau proceder, que tenham tido a infelicidade de haver estado na cadeia, PAULA FERREIRA P á g i n a | 36 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) serão preferidos para admissão a outros quaisquer, salvo sempre o bom credito da Oficina, e sua regular disciplina e andamento. Este quinto artigo revela a preocupação prioritária com a prevenção de situações de marginalidade/criminalidade dos menores em risco pelo que se dá prioridade à admissão dos menores mais abandonados e vulneráveis a comportamentos de risco. Artigo 6º- Nunca serão admitidos alunos pensionistas, por isso que esta casa, pela sua instituição, não pertence a outrem, senão ao jovem pobre, o qual procura salvaguardar do vício, ou regenerá-lo quando infelizmente caído. O sexto artigo reporta-se aos jovens pobres, muito mais susceptíveis de cair nas malhas da marginalidade/criminalidade. Artigo 7º- A admissão dos alunos será feita mediante requerimento em papel não selado, dirigido ao Presidente, que, ouvido o parecer e informação por escrito do Visitador, deferirá como for de justiça. Artigo 8º- Para a admissão, porém, de algum, que tenha estado preso na cadeia, bastará simples proposta informada do Visitador apresentada ao Presidente. Comparando os artigos número 7 e 8, confirmamos a ideia já referida de uma preocupação prioritária com a regeneração de jovens caídos nas “teias” da delinquência, preocupação essa evidente na desburocratização das condições de admissão de jovens com cadastro (…simples proposta ao Presidente, sem requerimento em papel…). Artigo 9º- A idade para admissão é desde os 12 anos até aos 17; e a saída não deverá ser, em regra, antes dos 21 anos, guardadas as prescrições legais, e salvo o caso de despedida por incorrigibilidade, ou de emancipação legal. No respeitante ao artigo nono, foram encontradas várias excepções a este artigo no livro de registo de matrículas analisado; ou se tratava de jovens que eram admitidos precocemente pela situação de abandono total em que se encontravam, ou se tratava de jovens que permaneciam na Oficina, para além da idade limite definida pelos estatutos, uma vez que não tinham colocação no exterior para poderem trabalhar (ganhar a vida). Além destas excepções, também detectamos casos de jovens que saíam PAULA FERREIRA P á g i n a | 37 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) mais cedo para beneficiarem do surgimento de oportunidades de uma “boa colocação” (emprego) ou de jovens que ficavam na Oficina a exercer a função de monitores. A título de exemplo, podemos referir alguns educandos. Armindo Dias Baptista que se despediu para se estabelecer; José Lourenço Soares que, com o dinheiro que juntou e um modesto enxoval, saiu para contrair matrimónio com Felismina Rosa Soares, em 11 Abril de 1891; João Pinto que foi colocado numa sapataria como “gaspiador”, a 10 de Julho de 1897; o caso de Bernardino Gomes da Silva que foi enviado para o lugar de mestre sapateiro para a Oficina do Asilo do Menino Deus, em Barcelos; o percurso de Viriato da Cunha Magalhães que não tinha idade regulamentar mas foi para casa de Luíz de Azevedo, dono da “Soberania do Povo”, em Águeda, como tipógrafo habilitado, em 7 de Março de 1904. Artigo 10º- Quando a administração da Oficina julgar um educando já habilitado antes da maioridade, ou emancipação legal, poderá colocá-lo em casas, onde exerça a sua arte ou ofício, sem prejuízo dos direitos de seus legítimos representantes. O décimo artigo faculta à direcção da oficina, a possibilidade de empregar menores já habilitados para exercer a profissão para que foram preparados. Artigo 11º- O número dos educandos não é fixo; mas será regulado segundo os recursos da Oficina, a qual poderá no distrito abrir casas sucursais regidas pelos mesmos estatutos, e com igual disciplina. O décimo primeiro artigo revela uma tendência “expansionista” da Oficina pelo distrito do Porto. Artigo 12º- A oficina de São José toda se entrega à Divina Providência para sua sustentação. Consiste, pois, sua dotação: nos parcos proventos de que o seu fundador possa dispor, no “obolo” da caridade cristã voluntariamente ofertado, nos legados com que seus benfeitores em testamento ou por outra qualquer forma contemplarem esta obra de regeneração social, e no produto dos artefactos provenientes do trabalho dos educandos. PAULA FERREIRA P á g i n a | 38 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) O artigo doze revela a proveniência dos rendimentos ou fontes de sustento dos educandos desta instituição, destacando o recurso à caridade pública e particular bem como o “lucro” resultante da comercialização dos artefactos produzidos. Artigo 13º- Este Instituto será administrado por uma comissão, que servirá por tempo de dois anos, e será composta de cinco Vogais nomeados pelo Prelado Diocesano, seu Presidente honorário perpétuo. No caso de recusa ou falta de nomeação, por parte do Prelado, será devolvida esta faculdade ao Governador Civil do Distrito. Feita a nomeação, entrará a comissão em exercício no princípio do mês de Julho do respectivo biénio, e o Prelado participará ao Governador Civil o nome dos Vogais que a constituem, podendo reconduzir os mesmos ou alguns mais do que uma vez. O Prelado, como Presidente honorário, pode assistir às sessões da comissão, e nesse caso tem voto deliberativo e outro de qualidade quando necessário. Nota: Este artigo destaca a importância da Diocese e do Governo Civil do Porto na administração da Oficina. O presidente honorário perpétuo da comissão administrativa da instituição era o Prelado Diocesano que poderia ser substituído pelo Governador Civil do Distrito nas respectivas atribuições. Artigo 14º- A comissão será composta de um Director, que será Presidente efectivo, de um Visitador, e mais três Vogais, um dos quais será o Secretário e outro o Tesoureiro, e compete-lhe resolver todos os assuntos que não estejam cometidos especialmente ao seu Presidente. Artigo 15º - O Director será sempre um presbítero, e terá a seu cargo a superintendência em todo o serviço da Oficina: representá-la-á em juízo ou fora dele; assinará toda a correspondência, ordens e mandados de pagamentos ou de cobrança de receita; e pertence-lhe a escolha dos mestres e de todo o mais pessoal do estabelecimento, bem como resolver acerca da admissão ou expulsão de quaisquer menores. PAULA FERREIRA P á g i n a | 39 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Os artigos décimo quarto e décimo quinto estipulam a organização administrativa da Oficina e o último artigo mencionado reforça a ideia destacada no artigo 13º quando se reporta à obrigatoriedade do Director ser um presbítero. Artigo 16º- O Visitador terá a seu cargo fiscalizar a escrituração; verificar as contas que “hão-de” ser pagas pelo tesoureiro; informar as admissões dos alunos, e vigiar pelo seu progressivo aproveitamento e adiantamento moral, civil e religioso. Artigo 17º- Ao Secretário competirá fazer toda a escrituração, conservando-a sempre em dia, com a máxima regularidade, e conforme as instruções regulamentares. Artigo 18º- Ao Tesoureiro pertencerá cobrar toda a receita e efectuar as despesas, segundo as ordens e mandados escriturados pelo Secretário e assinados pelo Director. Artigo 19º- Enquanto Deus for servido conservar a vida e forças ao actual fundador desta Oficina, propõe-se ele a ser o seu Director, assumindo nesta qualidade toda a responsabilidade, e gozando de todos os direitos que como tal lhe possam competir de presente ou de futuro. Os artigos 16º, 17º, 18º e 19º definem as atribuições do visitador, do secretário e do tesoureiro, legitimando a atribuição do cargo de direcção desta instituição ao Padre Sebastião Leite de Vasconcelos, fundador da Oficina, que assumiu tal função enquanto viveu em Portugal, não obstante as polémicas geradas em torno da sua figura. Artigo 20º- A gerência financeira da Oficina será feita por anos económicos, e a eles serão referidos orçamentos ordinários e suplementares, e as respectivas contas. O vigésimo artigo reporta-se à gestão financeira da Oficina que era efectuada por anos económicos e através de orçamentos ordinários e suplementares. Artigo 21º- Conquanto este Instituto, para sua conservação e prosperidade, confie mais que tudo na Divina Providência movendo as almas caritativas a beneficiá-lo; todavia, se Deus permitir que a Oficina de São José obtenha mais PAULA FERREIRA P á g i n a | 40 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) meios do que os actualmente possuídos, a comissão administrativa, na aceitação de heranças ou legados, na aquisição de bens imobiliários indispensáveis e desamortização dos outros, bem como em quaisquer escrituras, empréstimos, ou alienações, conformar-se-á sempre em tudo com as leis vigentes. O artigo 21º procura legitimar a proveniência das receitas da Oficina e a compra, arrendamento ou venda de bens, de acordo com as necessidades do momento. Artigo 22º- Se nalgum tempo, por falta de recursos ou outra qualquer circunstância esta pia instituição, Oficina de São José - se não puder sustentar, passarão todos os seus haveres e legados, salvo os direitos de terceiro, para o “Asylo de Villar”, desta cidade, fundado pelo arcediago Ricardo Van-Zeller, de saudosa memoria, com os encargos pios a eles anexos. O artigo 22º refere-se à eventualidade da instituição encerrar e dos respectivos bens transitarem para o Asilo de Vilar.4 Artigo 23º- A comissão administrativa poderá organizar os regulamentos que entender necessários para o regime e desenvolvimento do estabelecimento, e para a boa disciplina, educação e conservação do espírito religioso dos menores, devendo esses regulamentos ser submetidos à aprovação do Governador Civil do distrito. Este 23º artigo reforça a importância do Governo Civil do Porto na aprovação dos regulamentos da Oficina de São José deste distrito. Artigo 24º- Sem essa aprovação não terá validade qualquer alteração que de futuro se pretendia introduzir nestes Estatutos. A 8 de Maio de 1908, Adolpho da Cunha Pimentel, bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra e Governador Civil do Distrito Administrativo do Porto, aprovou novos estatutos pelo artigo 252nº8 do código administrativo (…) 4 O Asilo de Vilar foi fundado por Ricardo Van-Zeller, tratando-se de um organismo que recolhia crianças e que beneficiava de donativos particulares. PAULA FERREIRA P á g i n a | 41 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Passaremos a transcrever os artigos mencionados, redigindo a itálico negrito, os que apresentam uma nova redacção: Artigo 1º- A Oficina de São José, fundada em 1880 pelo actual bispo de Beja, Dom Sebastião Leite de Vasconcelos, tem por fim primário o ensino profissional de artes e ofícios juntamente com a educação moral e religiosa de expostos e menores abandonados; e quando haja lugar, o de filhos menores de pessoas miseráveis, precedendo autorização de seus legítimos representantes. Artigo 2º- Estabelecer-se-ão na Oficina as artes e ofícios, que suas forças e recursos permitirem; desde já, porém, são ensinados, pela sua ordem de antiguidade os de sapateiro, alfaiate, encadernador, marceneiro, torneiro, tipógrafo e impressor. Todos os internados, além de uma arte ou ofício, aprenderão o desenho que lhes for apropriado, instrução primária e música. Artigo 3º- Propondo-se esta instituição educar e regenerar os menores, para que de futuro cada um deles seja homem temente a Deus, dedicado à sua família e ao trabalho e proveitoso à sociedade e a si próprio, haverá sempre a mais assídua vigilância pela boa moral dos educandos, e o mais constante cuidado pela sua educação religiosa. Artigo 4º- Todos os alunos serão internados; podê-los-á, porém, haver externos quando a Oficina tiver casa apropriada, de modo que uma das classes fique inteiramente isolada da outra, e em ambos se mantenham uma respectiva disciplina. Artigo 5º- Somente serão admitidos como internos os expostos e menores abandonados, que não tenham família, nem protecção alguma, e quando haja lugar, os filhos menores de pessoas miseráveis. 1º- Na concorrência de dois menores dos quais um seja pervertido e totalmente abandonado, e o outro filho de família muito pobre, terá a primeira preferência na admissão. 2º- Pela mesma razão de maior necessidade moral, os menores de mau proceder, que tenham tido a infelicidade de haver estado na cadeia, serão preferidos para admissão a outros quaisquer, salvo sempre o bom crédito da Oficina e sua regular disciplina e andamento. PAULA FERREIRA P á g i n a | 42 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Artigo 6º- Nunca serão admitidos alunos pensionistas, por isso que esta casa pela sua instituição não pertence a outrem senão ao menor pobre, ao qual procura salvaguardar do vício ou regenerá-lo, quando infelizmente caído. Artigo 7º- A admissão dos alunos será feita mediante requerimento em papel não selado, dirigido ao Presidente, acompanhado da certidão de idade, certidão de óbito de pai e mãe, ou informação de completo abandono, ou do estado miserável dos pais, atestado de um médico, que mostre não ter doença contagiosa e não sofra enfermidade mental que o torne incapaz para o trabalho. Entregue na Secretaria o requerimento será despachado, mediante informação escrita do “Vice-Presidente-Visitador”, pela comissão reunida em sessão ordinária. Os requerimentos serão numerados pelo Secretário e conservados na repartição respectiva, não havendo outra preferência para o despacho a não ser o número de ordem. As únicas excepções à admissão pelo número de ordem só podem ser motivadas pelas circunstâncias do menor já estar preso na cadeia, ficar completamente abandonado e em extrema miséria, no caso de incêndio, naufrágio, inundação, ou de ser a sua admissão indicada pelo fundador desta instituição. Artigo 8º- Os membros da Comissão Administrativa poderão afiançar nos termos legais algum menor detido, recolhendo-o na Oficina até ao julgamento, e conservando-o se for absolvido. Artigo 9º- A idade para admissão é desde os 12 até aos 16, e a saída não deverá ser em regra antes dos 18 anos; salvo o caso de despedida por incorrigibilidade, ou de emancipação legal quando exposto. 1º- Poderão ser admitidos menores antes dos 12 anos mas só depois dos 10, quando tiverem estado na Cadeia ou ficarem em extrema miséria e abandono dos seus, no caso de incêndio, naufrágio e inundação. 2º- Também poderão ser conservados além dos 19 anos os menores que não tenham obtido a necessária instrução profissional, e não sejam julgados, por informação do Director e restante pessoal, moralmente regenerados até a obter; e bem assim PAULA FERREIRA P á g i n a | 43 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) poderá demorar-se mais algum tempo aquele que ainda não tenha arranjado colocação certa. Artigo 10º- Quando a comissão administrativa da Oficina julgar um educando já habilitado antes de ter completado o tempo marcado por estes estatutos para a sua educação poderá colocá-lo em casa onde exercer a sua arte ou ofício sem prejuízo dos direitos dos seus legítimos representantes ou tutores. Artigo 11º- O número dos educandos não é fixo; mas será regulado segundo os recursos da Oficina, a qual poderá no Distrito do Porto abrir casas sucursais regidas pelos mesmos estatutos e com igual disciplina. Artigo 12º- A Oficina de São José confia na Divina Providência para mais larga e intensamente continuar ainda a exercer a sua acção. A sua dotação consiste no seguinte: 1º- Nos bens imóveis que compreendem um edifício próprio e a capela adjacente; 2º- Rendimentos provenientes do capital que possui; 3º- Produto dos artefactos manufacturados pelos educandos; 4º-As doações, legados ou heranças, com que esta obra seja contemplada pelos seus benfeitores. Artigo 13º- Este instituto será administrado por uma comissão que servirá pelo tempo de três anos e que será composta além do seu Presidente de três Vogais nomeados pelo seu fundador enquanto vivo for. Artigo 14º- A comissão será composta de um Presidente, de um VicePresidente que será Visitador, e de mais dois vogais, um dos quais será Secretário e o outro o Tesoureiro, e compete-lhe resolver todos os assuntos que não estejam especialmente cometidos ao Director do estabelecimento. Artigo 15º- O Director será sempre um presbítero e terá a seu cargo a superintendência em todo o serviço da Oficina; assinará toda a correspondência de expediente; escolherá os mestres e todo o mais pessoal, devendo informar das suas resoluções a comissão. PAULA FERREIRA P á g i n a | 44 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Artigo 16º- O Vice-Presidente como Visitador terá a seu cargo fiscalizar a escrituração; verificar as contas que “hão-de” ser pagas pelo Tesoureiro; informar as admissões dos alunos, e vigiar pelo seu progressivo aproveitamento, e adiantamento moral, civil e religioso; Artigo 17º- Ao Secretário competirá fazer toda a escrituração conservando-a sempre em dia com a máxima regularidade e conforme as instruções regulamentares. Artigo 18º- Ao Tesoureiro pertencerá cobrar toda a receita e efectuar os assinados pelo Presidente ou Vice-Presidente. Artigo 19º- Enquanto Deus for servido conservar a vida ao seu fundador propõe-se ele como Presidente efectivo nomear em sua vida os membros da comissão, passando tal atribuição depois da sua morte para o Presidente nato, que será o Prelado Diocesano. O Presidente tem voto de qualidade nos casos de empate. Artigo 20º- A gerência financeira da Oficina será feita por anos económicos e a eles serão referidos os orçamentos ordinários e suplementares e as respectivas contas. Artigo 21º- Conquanto este instituto para sua conservação e prosperidade confie mais que tudo na Divina Providência movendo as almas caritativas a beneficia-lo; todavia, se Deus permitir que a Oficina de São José obtenha mais meios do que os actualmente possuídos, a Comissão Administrativa, na aceitação das heranças ou legados, aquisição de bens imobiliários indispensáveis e desamortização de outros, bem como em quaisquer escrituras, empréstimos, ou alienações, conformar-se-á sempre em tudo com as leis regentes. Artigo 22º- Se em algum tempo por falta de recursos ou outra qualquer circunstância esta pia instituição se não puder sustentar, é verdadeiramente desejo do seu Fundador, que passem todos os seus haveres e legados, salvo os direitos de terceiro, para o Asilo de Vilar, desta cidade, fundado pelo Arcediago Ricardo Van-zeller, de saudosa memória, com os encargos pios a eles anexos. PAULA FERREIRA P á g i n a | 45 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Artigo 23º- A Comissão Administrativa poderá organizar os regulamentos que entender necessários para o regime e desenvolvimento do estabelecimento, e para a boa disciplina, educação e conservação do espírito religioso dos menores, devendo esses regulamentos ser submetidos à aprovação do Governador Civil do distrito. Em suma, comparando os estatutos de 1887 e os estatutos propostos à aprovação em 1908 (aprovados em 8 de Maio), verificamos as seguintes alterações: No artigo 2º, aos ofícios de sapateiro, alfaiate, carpinteiro, encadernador e serralheiro, acrescentam-se os ofícios de marceneiro, torneiro, tipógrafo e impressor. Além disso, todos os alunos passariam a aprender música. Este artigo procede a uma actualização dos ofícios ensinados na Oficina e acrescenta a aprendizagem da música, evidenciando a importância dada a uma formação integral do educando. O artigo 4º remete-nos para a obrigatoriedade do internamento dos alunos, salvo algumas excepções e em condições específicas. Convém salientarmos que o internamento de todos os alunos permitiria uma melhor gestão disciplinar da Oficina. No artigo 7º dos estatutos de 1908, a admissão dos alunos exige mais comprovativos da sua situação familiar e das suas reais necessidades. Este artigo manifesta uma nítida preocupação com a prioridade na aceitação de educandos, consoante o respectivo estado de abandono (a prioridade deverá pertencer aos jovens em situação de grave desamparo) e ainda uma notória atenção relativamente à preservação da saúde e integridade física dos jovens e restantes membros da instituição (o jovem admitido deveria ter feito prova de não ser portador de doença contagiosa ou de não ser portador de qualquer doença mental). Esta preocupação prende-se com as questões higienistas que estavam em voga. O problema da proliferação de doenças como a tuberculose ou a sífilis, teria estado na origem da definição destas novas regras. PAULA FERREIRA P á g i n a | 46 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) A aceitação de alunos internos seria feita por ordem do pedido de admissão, salvo casos excepcionais como menores reclusos ou menores vítimas de catástrofes naturais/acidentais ou de tragédias pessoais. No artigo 8º dos estatutos de 1910, detecta-se uma atenção dirigida a menores com problemas na justiça. Logo, o artigo revela uma profunda preocupação dos responsáveis pela oficina relativamente à reabilitação de jovens com cadastro. Pelos artigos 9º e 10º, também verificamos alterações na idade de admissão e saída dos rapazes. Estes poderão entrar com dez anos se existirem razões válidas e sair mais cedo, quando forem considerados habilitados para exercerem a profissão que aprenderam na Oficina. O artigo 9º remete-nos para preocupações já manifestadas nos estatutos de 1887 (apesar da alteração das idades de admissão e saída da instituição) que se prendem com a intenção de apenas deixar sair os jovens já devidamente reabilitados e preparados para a vida activa. A alteração respeitante à idade de admissão poderia estar relacionada com o facto de existirem outras instituições mais adaptadas à recepção de crianças com menos de dez anos, excessivamente jovens para aprender um ofício. Além disso, uma vez que só existiam alunos internos nesta instituição, seria perigoso juntar num mesmo espaço, crianças e adolescentes. No respeitante a saídas precoces, estas também se podem justificar pela doença/morte ou fuga dos educandos em causa. Os casos de morte prematura eram frequentes, nomeadamente por doença pulmonar e, em menor número, por doença cardíaca. Contabilizamos vinte e cinco casos de alunos falecidos entre os nove anos e os vinte e um anos. Encontramos trinta e dois casos de fugas, entre eles o de António da Cunha Patrício que “…fugiu pela retrete…” e José Francisco da Silva, “O Refilão”. As fugas ocorriam geralmente nas ausências do director da oficina ou durante as saídas dos educandos com a banda de música ou ainda, durante as visitas autorizadas aos educandos a familiares doentes ou em épocas festivas. Nestas PAULA FERREIRA P á g i n a | 47 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) épocas, seria mais fácil o educando misturar-se com a multidão e “simular” o seu desaparecimento. No que diz respeito às expulsões, podemos nomear Dimas de Castro Ribeiro, João Domingos Manoel, Vicente da Silva Alves, João Teixeira e Thomaz da Costa Godinho. Estas expulsões eram determinadas pelo desrespeito relativamente às normas da Oficina. Relativamente aos bens imóveis, o artigo 12º refere mais claramente a proveniência dos recursos económicos para sustento da instituição. Finalmente, os restantes artigos introduzem alterações na gestão administrativa e contabilística da Oficina. A título de exemplo, podemos referir que o artigo 19º reforça os poderes e atribuições do fundador da oficina enquanto Presidente da Comissão Administrativa da instituição. Como conclusão, podemos referir que numa época em que o Estado Português não conseguia dar uma resposta eficaz à resolução do problema social da criminalidade e marginalidade infanto-juvenil, a Oficina de São José propunhase reabilitar jovens totalmente abandonados e alguns casos de jovens de mau proceder! Era evidente a preocupação com os jovens pobres, órfãos de pai, mãe ou de ambos que eram admitidos na Oficina. A própria admissão precoce dos jovens com idades inferiores à definida pelos estatutos, ou a permanência na oficina de jovens que haviam ultrapassado a idade regulamentar, são situações que resultavam da tentativa de os “salvar” das malhas da marginalidade e de lhes garantir inserção no mercado de trabalho. Finalmente, a análise dos estatutos (artigos 21º e 23º) remete-nos para o apoio público e particular com vista à manutenção (sustento) da Oficina e a importância da Diocese e do Governo Civil do Porto na administração desta instituição. A partir das notas retiradas das observações do Livro dos Registos de Matrículas e do Livro de Memórias do Padre Sebastião Leite de Vasconcelos pudemos apurar as seguintes normas vigentes na Oficina de São José do Porto, no período tratado: 1ª A Oficina destinava-se a educar menores do sexo masculino, em regime de internato. PAULA FERREIRA P á g i n a | 48 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) 2ª Excepcionalmente, poderia ser autorizada a entrada de jovens sem atingirem a idade regulamentar mínima e a permanência de jovens com mais do que a idade regulamentar, sob proposta fundamentada à Direcção (geralmente feita por familiares ou protectores). 3ª Os estudos, vestuário, calçado e alimentação eram fornecidos pela Oficina que beneficiava de legados particulares e outros. 4ª Os educandos tinham que se vestir e cortar o cabelo de acordo com o que era “usual” para as entidades que dirigiam a instituição. 5ª Os educandos não podiam sair nem manter contactos com o exterior (incluindo familiares) sem autorização da Direcção. 6ª O educando que deixasse a Oficina, levaria consigo um enxoval (constituído por meias, lenços, calças, camisas, casacos e fatos) e uma quantia para despesas de viagem e/ou começo de vida, excepto se fosse expulso por mau/péssimo comportamento ou saísse contra a vontade da Direcção e/ou do protector. 7ª Os educandos que fossem expulsos ou saíssem contra vontade da Direcção e/ou do protector apenas levariam a roupa do corpo ou algo mais se a Direcção assim entendesse. 8ª Alguns educandos beneficiavam de apoios pecuniários por protectores com um estatuto socioeconómico superior. Nos escritos que precederam a apresentação dos estatutos da Oficina de São José, o seu fundador referiu-se às atribuições dos mestres, seus direitos e suas obrigações de que destacamos, os seguintes aspectos: a) O mestre deveria ser um homem com uma conduta exemplar e crente em Deus; b) O mestre deveria ser preferencialmente um homem solteiro e com mais de trinta anos; c) O mestre deveria recitar uma oração conjuntamente com os seus educandos, antes de iniciar e depois de terminar o trabalho. d) O mestre deveria ensinar com perfeição, mantendo o silêncio, a disciplina e incutindo o valor da assiduidade; PAULA FERREIRA P á g i n a | 49 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) e) O mestre não podia aplicar castigos corporais, mas antes recorrer ao reverendo Director no caso de qualquer situação de desobediência e/ou transgressão; f) O mestre deveria cumprir o regulamento das horas do trabalho (afixado nas salas de trabalho) e deveria acompanhar os seus alunos, em todos os actos comunitários. Ex: nos Domingos e Dias Santos (alternadamente com os outros mestres) deveria levar os alunos à missa e ao passeio ou a outros actos determinados pelo reverendo Director. g) O mestre não podia receber qualquer tipo de remuneração dos fregueses, pela obra feita; h) O mestre recebia um ordenado mensal de 13$500 reis, comida e cama, perdendo o direito à dormida na Oficina se fosse casado. Alguns mestres tinham sido alunos da Oficina e pelo seu comportamento exemplar e dedicação ao ofício, aliados a uma opção pessoal, acabaram por permanecer na instituição. É de salientar a rigidez das normas de conduta e de vida impostas a todos os que seguiam a função de ensinar, dentro da Oficina. PAULA FERREIRA P á g i n a | 50 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) II.3. O PADRE SEBASTIÃO LEITE DE VASCONCELOS, FIGURA POLÉMICA Ernesto Leite de Vasconcelos, primeiro director da Colónia Agrícola Correccional de “Vila Fernando” durante vinte anos, foi convidado pelo “Tripeiro”, em 1927, para falar do homem, padre e pedagogo, Sebastião Leite de Vasconcelos, de quem era familiar. Nesse artigo realça a influência e o elevado prestígio do fundador da Oficina de São José. Na verdade, vivendo do seu trabalho de funcionário da Câmara Eclesiástica e transitando para Escrivão do Auditório Eclesiástico, o Padre Sebastião Vasconcelos exercia uma multifacetada acção religiosa no Norte do País, pregando no púlpito, comunicando em conferências, discursando nos meios operários, dirigindo preferencialmente a sua acção para os bairros paupérrimos e recebendo frequentemente como herança os filhos dos pobres operários. Este Padre subiu inúmeras vezes as escadas da Cadeia da Relação do Porto onde a detenção em comum com os adultos “corrompia” um grande número de rapazes, acabando por despertar o interesse dos poderes públicos e da imprensa para esta triste realidade. Para demonstrar a sua influência, Ernesto Leite de Vasconcelos cita dois casos: O primeiro era o espírito de conciliação que o seu próprio nome abonava, cometendo-lhe o então Comissário Geral Adriano Acácio de Moraes Carvalho, as soluções de muitos casos disciplinares da corporação da polícia; o outro era a opinião que dele tinha o Procurador Régio junto da Relação do Porto, que era um magistrado e jurisconsulto notável, Ferreira Augusto, levando-o a escrever que o padre Sebastião, pelas suas práticas religiosas e por toda a sua acção, punha mais ordem e disciplina na cadeia que todo o seu pessoal reunido. Ernesto Leite de Vasconcelos também nos deu a conhecer o fim de vida do padre Sebastião que, “condenado” ao exílio na sequência da implantação da República, morreu em Roma como Arcebispo de Damieta, o mesmo título que, antes de ascender ao Papado, tivera Leão XIII. PAULA FERREIRA P á g i n a | 51 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) O primeiro director da Colónia Agrícola Correccional de “Vila Fernando” deunos a conhecer inúmeros comentários elogiosos à obra do padre Sebastião Leite de Vasconcelos. Se Mousinho d’Albuquerque reconheceu a obra patriótica do padre Sebastião, Miguel Bombarda enalteceu a obra social da instituição por ele fundada. O próprio escritor Camilo Castelo Branco correspondeu-se com o padre Sebastião Leite de Vasconcelos, sinal da sua admiração por esta figura religiosa e pela obra a ele associada. Para percebermos o valor da acção deste padre, Ernesto de Vasconcelos evoca a sociedade portuguesa dos últimos cinquenta anos do século XIX. No seu entender, no campo político, estes anos caracterizaram-se por uma acção estéril e comodista; no campo religioso, o clero não conseguia resistir à inércia dos grandes centros. O espectro de uma reacção das forças anti-clericais apavorava e inutilizava qualquer manifestação religiosa. No entanto, a figura do padre Sebastião nem a todos despertou simpatia. Figura polémica, o Padre Sebastião Leite de Vasconcelos foi acusado de “utópico” por admitir a ideia da regeneração moral dos delinquentes numa altura em que Cesar Lombroso e a Escola Antropológica lançavam no mundo científico de então, quase sem refutação, a sua teoria do “criminoso nato”. Outros irritavam-se com a insistência do seu Apostolado que atribuíam a um desejo de exibicionismo, mas o povo simples e muitos espíritos de elite contestavam tal ideia. Exemplo disso foi António Cândido, um grande orador na sua época, que numa conversa de intelectuais, entre os quais estava o crítico de arte, José Figueiredo, disse: “Eu tenho sido bem recompensado pelos meus trabalhos nas homenagens que de todos os lados tenho recebido, mas, ao morrer, não deixo nada e este Padre, que eu admiro, deixa uma obra que o imortalizará”. Ainda na mesma época, o decano dos cardeais, Vanuletti, sendo Nuncio em Lisboa e vindo ao Porto, disse: “ Vi que o Fundador da Oficina de São José não era um Padre qualquer mas um ministro de Deus, cheio de zêlo, conhecedor do seu tempo, animado de piedade, prudência e de verdadeiro espírito PAULA FERREIRA P á g i n a | 52 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) evangélico”. Também o Cardeal Maffi, Arcebispo de Pisa, muito indicado para suceder a Bento XV, escreveu, depois da morte do Arcebispo de Damieta: “ Recordá-lo-ei sempre como uma das almas mais belas que tenho encontrado”. Em 31 de Janeiro de 1891, a sua missão de paz foi notória quando acompanhou o levantamento dos feridos na Batalha e na Rua de Santo António e quando foi consolar os vencidos ao Hospital do Terço. Ainda no tumulto do movimento patriótico que sucedeu ao Ultimato, Reis Santos, o mais notável agitador da questão patriótica de 1890, afirmou que a adesão deste Padre à primeira manifestação (com a banda da Oficina de São José) imprimiu um importante cunho portuense ao movimento. Segundo Ernesto Leite de Vasconcelos, o padre Sebastião nunca se negou a ofícios religiosos fora de horas ou em locais infestados por epidemias. Todavia, apesar da sua obra como Bispo, Arcebispo e Diplomata, morreu no exílio depois da Implantação da República em Portugal. A este propósito, Carlos Malheiro Dias criticou no “In Memoriam” de D. Sebastião Leite de Vasconcelos, o procedimento dos republicanos portugueses relativamente a este eclesiástico. Em suma, a influência da Oficina de São José, inserida no quadro das instituições preventivas da criminalidade dos menores, contribuiria para a reabilitação desta personalidade. A recuperação de menores em risco e sua integração na vida activa era considerada por muitos contemporâneos como uma importante conquista do padre Sebastião. Ainda que referenciada em demasia pelos seus admiradores contemporâneos, a instituição fundada pelo padre Sebastião exerceu uma função mista de “quase” orfanato, “quase” Casa de Correcção, de estabelecimento de caridade e de educação, não compreendida por muitos censores. Se no início do século XX, ainda era muito difícil resolver pedagogicamente os problemas de jovens em risco, a obra do padre Sebastião serviu de exemplo para a criação de outros estabelecimentos similares em Lisboa, Braga, Funchal, Guimarães e Barcelos, inaugurados com a sua presença. Foi ele que influenciou a criação da Colónia Agrícola Correccional de Vila Fernando no PAULA FERREIRA P á g i n a | 53 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Alentejo, a criação do Asilo Profissional do Terço, a reforma da Casa de Correcção das Mónicas, a fundação da Casa de Correcção do Distrito do Porto. A Oficina de São José deu um importante contributo, pelo seu notório exemplo, para a reabilitação dos menores portugueses em risco! Porém, é evidente que todo este subcapítulo (III.1.) destaca um esforço de reabilitação e quase “endeusamento” da figura do fundador da Oficina de São José no Porto, numa altura em que muitos elementos do clero foram perseguidos e “denegridos” pela mentalidade republicana que então triunfara. Sendo assim, ele deve ser entendido neste contexto, sem se cair no exagero de pensarmos que o referido padre conseguiu, só com a sua obra, pôr cobro às vicissitudes que comprometiam o futuro de muitas crianças portuguesas! Relembremos que a grande finalidade desta Obra era a educação de rapazes órfãos e abandonados ou de famílias com fracos recursos económicos, preparando-os para a vida pelo estudo e pela aprendizagem de uma arte. Convém ainda salientar o facto do Padre Sebastião Leite de Vasconcelos ter feito inúmeras solicitações a Dom Bosco com o intuito de o convencer a beneficiar Portugal com a sua obra. A Oficina de São José, por ele fundada e por ele entregue aos cuidados dos Salesianos em 1909, veio a tornar-se uma das Obras mais significativas da presença salesiana no nosso país. Os Salesianos entraram em Portugal em 1894, pelo que não nos parece descabido um relancear de olhos sobre a vida portuguesa na última década do século XIX, cujo pano de fundo, aflorado pelo padre Pedro Cogliolo, o segundo provincial, apresentava características muito próprias. Do ponto de vista político, as lutas entre partidos políticos sobrepunham-se ao empenhamento na resolução dos problemas reais do país abrindo caminho à vitória republicana. Do ponto de vista social, dois fenómenos marcavam a sociedade portuguesa: o analfabetismo e a emigração. Em estreita ligação com o surto migratório (externo - emigração para o Brasil e interno - êxodo rural) e a falta de instrução, o “pauperismo” marcava fortemente os meios rurais e os bairros dos grandes centros urbanos ocupados por trabalhadores vindos das aldeias em busca de emprego e de melhores condições de vida. Foi nestes aglomerados urbanos que o incipiente movimento socialista (que assustou muitos católicos da época) PAULA FERREIRA P á g i n a | 54 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) e o republicanismo (com maior expressão) foram introduzindo as suas ideias com vista à criação de uma consciência de classe entre os operários capaz de reivindicar o direito a uma vida mais digna. Era nestes bairros urbanos assinalados pela miséria que se movimentavam bandos de “gaiatos” à deriva, constituindo uma grave ameaça social. Daí a importância do contributo específico dos Salesianos nestas áreas. Do ponto de vista religioso, a mentalidade anticlerical, que caracterizou o liberalismo oitocentista, manifestou-se contra as ordens e congregações religiosas, cujo espírito e impacto na sociedade portuguesa eram emblematicamente traduzidos pelo termo “jesuitismo”. Os institutos religiosos foram entrando novamente em Portugal, a partir de meados do século XIX, embora a legislação “anticlerical” continuasse em vigor sob o olhar tolerante das autoridades governativas. As medidas de compromisso tomadas por Hintze Ribeiro autorizaram, por decreto de 18 de Abril de 1901, a presença e a acção dos institutos dedicados à beneficência, educação e missões, banindo os demais. A sociedade Salesiana, abrangida pelo decreto, veria os seus estatutos aprovados pela portaria de 18 de Outubro de 1901 devido ao seu carácter beneficente e educacional. A imagem que a imprensa portuguesa de finais do século XIX e inícios do século XX transmitia sobre Dom Bosco, era a de um homem inteiramente voltado para os rapazes da rua, tal como viria a ser o padre Américo. O condicionalismo particular do meio português em que a pobreza e o abandono de crianças e jovens eram gritantes, deve ter levado o segundo provincial, padre Pedro Cogliolo a manter-se na linha do ensino das artes e ofícios e não do ensino liceal. Esta posição é perfeitamente visível numa carta de 1903 dirigida ao superior-geral, padre Miguel Rua: “Permito-me observar a V.S.Rev.ma que o governo vê com bons olhos a nossa obra [...]. Não há motivo para ter demasiado receio dos governos desde que, mesmo à custa de sacrifícios, mantenhamos bem desfraldada a bandeira da beneficência. Importa que as autoridades e o público possam dar-se conta de que as nossas casas não são pensionatos […]. Por isso, especialmente aqui, não convém ir para o PAULA FERREIRA P á g i n a | 55 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) ensino liceal. Artes e Ofícios, escolas gratuitas para os pobres e nada mais” (ASC, carta Cogliolo-Rua, 8.6.1903). A mola que lança os Salesianos na acção apostólica é a caridade, entendida, não no sentido limitado de socorrer os pobres, mas no sentido mais amplo e nobre de promover as pessoas, neste caso, os jovens trabalhadores. Por isso, as suas primeiras fundações apresentam uma feição marcadamente laboral, assumindo o nome de “Oficinas”. A primeira Oficina aberta em Portugal, a Oficina de São José no Porto (1883), de que temos estado a falar, não foi fundada pelos Salesianos. Todavia, o seu fundador, o Padre Sebastião Leite de Vasconcelos, era um homem animado pelo genuíno espírito salesiano. Foi o próprio Dom Bosco, com quem contactou perto de Turim, que o encorajou a empreender esta obra, prometendo-lhe que mais tarde enviaria os seus “filhos” para lhe darem garantia de continuidade e eficácia, o que só se concretizou em 1909. O padre Vasconcelos quis imprimir à sua Oficina de São José as características de uma verdadeira obra salesiana. Convém relembrar que a postura política de São João Bosco se caracterizou por uma atitude interventora mas isenta, por um opção pela via reformista, por uma especial preocupação com as questões sociais, nomeadamente a educação e o trabalho e, ainda, pela antecipação ecuménica operada através da síntese entre o patriotismo e o universalismo. Para reforçar a ideia da ligação do Padre Sebastião Leite de Vasconcelos a São João Bosco recorremos à opinião de Abel Andrade (Presidente da Comissão Monárquica de Coimbra) expressa em 21 de Novembro de 1891. Para este político, como para outras personalidades da época, a regeneração individual e social do Portugal moderno dependia principal e essencialmente da educação intelectual, artística e moral das classes laboriosas. Se em Itália apareceu D. Bosco, em Portugal destacou-se o Padre Sebastião Leite de Vasconcelos com a fundação da Oficina de São José: Escola de artes e ofícios para crianças pobres e abandonadas (documentos de 1887). PAULA FERREIRA P á g i n a | 56 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) II.4. A RECEPTIVIDADE SOCIAL DA OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO A Oficina de São José da cidade do Porto teve uma grande aceitação da população coeva, e como testemunhos desse facto temos os apoios de que beneficiou por parte de entidades públicas e privadas e as visitas que lhe foram feitas por importantes personalidades portuguesas e estrangeiras, bem como pelos membros da realeza. Nas suas “memórias”, o padre Sebastião Leite de Vasconcelos fez um enorme agradecimento a todas as instituições hospitalares que trataram dos educandos que, pela sua fraca compleição física, traziam certas enfermidades, cujo tratamento era demorado e muito dispendioso (como o Hospital do Carmo). Agradeceu igualmente à Direcção da Companhia Carril Americano do Porto à Foz e Matosinhos que, nos primeiros quatro anos de existência da Oficina, deu passagem gratuita nos seus carros em 840 viagens destinadas aos respectivos educandos para estes irem tomar os seus banhos. O reverendo manifestou também o seu reconhecimento ao Ministro das Obras Públicas (Emídio Navarro) pelo passe concedido nas linhas do caminho de ferro do Minho e Douro, proporcionando aos alunos desta instituição várias digressões, através das linhas férreas, aos Domingos e em feriados religiosos (“dias santificados”). Este padre fez ainda referência à admissão de um dos alunos da Oficina de São José “na classe de gratuito” no Seminário de Nossa Senhora do Rosário dos Carvalhos pelo Cardeal D. Américo, Bispo do Porto, em comemoração da aprovação legal dos Estatutos desta instituição. Finalmente, agradeceu a todos os benfeitores pelos seus donativos em géneros, peças de vestuário, dinheiro ou trabalhos que mandaram executar na Oficina. Estas informações fornecidas pelo padre Sebastião, além de nos transmitirem uma ideia da receptividade social desta instituição, também nos dão a conhecer o tipo de actuação do director da Oficina para com os respectivos educandos. Ficamos a saber que este religioso possuía manifestas preocupações relativamente à saúde dos jovens que acolhia, ministrando-lhes PAULA FERREIRA P á g i n a | 57 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) tratamentos hospitalares, preocupações no que dizia respeito ao seu bemestar, proporcionando-lhes banhos e preocupações com o preenchimento dos seus tempos livres, facultando-lhes saídas aos Domingos e nos feriados religiosos. Para além de todos estes cuidados, salvaguardava atentamente o seu sustento. Foi esta preocupação com a manutenção dos jovens que levou o director da instituição a apresentar um balancete do movimento de cada uma das oficinas (sapateiro, alfaiate, carpinteiro, encadernador, serralheiro…) e uma breve descrição das missas e sufrágios a que era obrigada a Oficina de S. José, quer por título de obrigação, quer de devoção. Todas estas informações que nos são fornecidas pelo Director da Oficina de São José convergem para a necessidade de se justificar a aplicação das verbas angariadas através de donativos particulares e públicos no sentido de se suportarem avultadas despesas com a instituição em causa. Sebastião Leite de Vasconcelos justificava tais despesas com o sustento diário de quarenta alunos, com o pagamento de salários a cinco mestres e dois criados e com a gratificação a dois professores de instrução primária e desenho. Apesar de possuir os seus próprios recursos resultantes das suas funções eclesiásticas, mencionava o facto da mãe e da irmã contribuírem para a sua alimentação diária, libertando esses proventos que auferia em benefício da instituição. Além disso, acumulava as funções de director, capelão, escriturário e até professor, sem a menor remuneração. Nestes seus apontamentos podemos ainda aceder a um quadro com o registo dos alunos e pessoal da oficina (em 1887) e respectivos vencimentos. Assim se consegue ter a noção das despesas e das verbas movimentadas por esta instituição, bem como das suas necessidades financeiras. PAULA FERREIRA P á g i n a | 58 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) PAULA FERREIRA P á g i n a | 59 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Fazendo uma análise a este quadro, podemos concluir que num total de quarenta alunos, em 1887, dezassete alunos aprendiam o ofício de sapateiro, treze seguiam o ofício de alfaiate, cinco preparavam-se para carpintaria, três foram encaminhados para o ofício de encadernador e finalmente dois optaram pela aprendizagem de serralharia. Existia um mestre por ofício (mestre sapateiro - Jacintho Monteiro Cardoso, mestre alfaiate - Antonio Maria Salgado, mestre carpinteiro - José do Couto e Silva, mestre serralheiro - Baldevinos Villela Pinto e mestre encadernador Gaspar de Souza Pinto). Nos ofícios de sapateiro, alfaiate e encadernador, existia um 1º contra-mestre. Nos ofícios de sapateiro e alfaiate, também existia um 2º contra-mestre. O quadro de pessoal da Oficina também incluía um prefeito e professor de instrução primária, reverendo Antonio Joaquim de Lemos Lobo, um professor de desenho, Antonio de Souza Nogueira Junior, um cozinheiro, Antonio de Souza, um criado, Joaquim Pinto da Affonseca e um facultativo, Dr. Manuel Carvalho de Araujo Lima. Os mestres de cada ofício, o prefeito e o professor de instrução primária ganhavam 13$500 reis mensais, com direito a alimentação. No caso dos mestres carpinteiro e serralheiro, tinham igualmente direito a casa. O prefeito e o professor de instrução primária também tinham direito a casa e roupa lavada. O professor de desenho apenas ganhava 4$500 reis mensais, quase tanto como o criado que ganhava 4$000 reis mensais, com direito a alimentação e casa. O cozinheiro ganhava 5$000 reis com direito a alimentação e casa. O facultativo ganhava 1$500 reis, com direito a alimentação. O direito a alimentação e casa estaria relacionado com as funções que ocupavam mais tempo. Os vencimentos mensais eram superiores no que diz respeito ao 1º contramestre de sapateiro, 1º contra-mestre de alfaiate e 2º contra-mestre de sapateiro (1$500 reis). O 2º contra-mestre de alfaiate apenas ganhava $900 reis mensais e o 1º contra-mestre de encadernador ainda ganhava menos ($450 reis mensais). PAULA FERREIRA P á g i n a | 60 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Alguns aprendizes de sapateiro (dois) e de carpinteiro (três) já ganhavam $600 reis mensais. Um aprendiz de sapateiro e um aprendiz de encadernador ganhavam $450 reis mensais. Apesar da escassez de dados relativos à forma de diferenciar o valor dos vencimentos mensais, os registos por nós analisados remetem-nos para uma distinção remuneratória baseada na experiência e no grau de especialização em cada ofício. Retomando a questão do prestígio da instituição fundada pelo Padre Sebastião Leite de Vasconcelos, constatamos que esta é testemunhada, não só pelos donativos angariados, como pelas observações efectuadas pelos seus visitantes. Esta Oficina foi visitada pelo rei D. Luís e Dª Maria Pia em 2 de Outubro de 1887 e pela rainha D. Amélia a 23 de Novembro de 1891 e pelo príncipe real D. Luís Filipe, a 26 de Novembro do mesmo ano. No respeitante à primeira visita, o Commercio do Porto nº238 descreveu a forma como esta se processou. Através deste periódico sabemos que o cortejo chegou ao paço da Torre da Marca e muitas das pessoas que o formavam subiram à sala da recepção do andar nobre, retirando-se após uma curta demora. O Presidente do Conselho de Ministros apresentou a Sua Majestade, o rei D. Luís, o reverendo Sebastião Leite de Vasconcelos, na qualidade de fundador e director da Oficina de São José. Este apresentou à sua Majestade dois educandos, sendo um carpinteiro e outro alfaiate. Estes educandos, em nome dos seus companheiros da Oficina, felicitaram sua Majestade e a família real pela sua feliz chegada. O rei agradeceu de forma afectuosa estes cumprimentos, mostrando quão “simpática” lhe era uma instituição como a Oficina de São José que não só educava o operário para o trabalho, como também reabilitava um homem perdido. Como podemos constatar, a visita de um membro da família real quebrava a rotina diária da instituição, obrigando a todo um cerimonial que fazia desse dia um dia de festa. Neste contexto, outras notícias se seguiram a propósito desta visita de D. Luís. PAULA FERREIRA P á g i n a | 61 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) “Cerca das 5 horas e 30 minutos da tarde apeavam-se no largo da Sé, suas Majestades e Altezas, seguindo pela rua de Traz da Sé para a Officina de S. José (…)”. Aguardavam os visitantes, o reverendo Sebastião Leite de Vasconcelos, director da Oficina, Dª Margarida de Vasconcelos, sua mãe, D.ª Francisca dos Santos, sua irmã, e seu cunhado Francisco dos Santos Pereira. Os educandos, dispostos em alas, ajoelhavam-se beijando as mãos dos membros da realeza que começaram a visita às oficinas pela seguinte ordem: Primeiro, dirigiram-se à oficina de serralheiro onde a rainha foi presenteada com um agulheiro de metal feito no torno. Seguidamente, encaminharam-se para a oficina de carpinteiro, na qual se ofereceu à família real um paliteiro de luxo cuidadosamente torneado. Num terceiro momento, foram até à oficina de alfaiate onde receberam a oferta de um par de calças de “casimira ingleza”, com forros de cetim azul e branco. Na parte interna da alça da carcela, podia ler-se o seguinte dístico: “S.M.El. Rei D. Luiz”, correctamente pespontado à máquina. A visita prosseguiu com a ida ao dormitório, bastante limpo e asseado. Os visitantes passaram pela oficina de encadernador onde receberam um exemplar dos estatutos desta Oficina. Finalmente, chegaram à oficina de sapateiro onde lhes ofereceram um par de sapatos O Rei escreveu as seguintes linhas, que deverão ter constituído para o benemérito director da Oficina, uma das melhores recompensas da sua obra generosa: Estimei muito de ter occasião de visitar este util e benefico estabelecimento, que faz grande honra ao seu instituidor. Prosiga sempre na senda do bem e do trabalho, que Deus abençoará os seus esforços – Porto, 2 de Outubro de 1887- El Rei D. Luiz”. No seguimento da intervenção régia, o Director da Oficina proferiu as seguintes palavras: “… Não pelas honras de fundador, mas pela gloria de Deus, e bem das almas d’estas pobres creanças repellidas pela sociedade e arrancadas por mim aos ferros da cadeia, e levantadas da miseria e degradação moral em que havia cahido, foi, real senhor, com este intuito que criei esta instituição que a sociedade tantas vezes tem abençoado, depositando em minhas mãos o PAULA FERREIRA P á g i n a | 62 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) generoso obolo da caridade, que junto aos meus minguados recursos tem sido sufficiente para sustentar e educar estes 40 jovens, aos quais appelido de meus filhos adoptivos…Uma cousa se faz agora necessaria, e é que antes da minha morte seja esta instituição, que vive ao abrigo da lei, e como tal reconhecida pelos poderes publicos, dotada de casa propria a fim de poder estender o seu beneficio a centenas de sêres perdidos, que vagueiam pelas ruas d’esta cidade minados pela fome e consumidos pelo vicio, e onde se extinguiu a noção de Deus e amor da patria. É só para este ponto que eu imploro o alto valimento de Vossa Magestade, e para commemorar a régia visita de tão augustos personagens, tomo a liberdade de offerecer a Vossa Magestade desde já um lugar n’esta Officina, não obstante o seu acanhamento, ao qual Vossa Magestade deseje aqui mandar educar”. É de salientar, no discurso do reverendo, a tónica colocada na função caritativa, regeneradora, católica e moralizadora da instituição, no sentido desta continuar a beneficiar do reconhecimento público. Ainda a propósito do prestígio desta instituição, podemos descrever alguns pormenores da visita da rainha D. Amélia e de D. Luís Filipe a esta Oficina, conforme notícias do Commercio do Porto, publicadas a 24 e a 26 de Novembro de 1891. Deste modo, cerca das 6 horas da tarde, a Rainha foi recebida na Oficina pelo cardeal D. Américo e pelo director da instituição, Padre Sebastião Leite de Vasconcelos e ainda por um grupo de senhoras da “alta sociedade” como a Condessa de Samodães. A entrada de Sua Majestade foi assinalada pelo Hino Nacional executado pela banda dos educandos da oficina e por uma “chuva de flores” que cobriu a rainha. Logo após os cumprimentos das pessoas presentes e, já na capela, a rainha ouviu o orfeão da oficina acompanhado de piano-órgão entoando o Domine Salvam fac Reginam Nostram Ameliam. A seguir à oração, Sua Majestade visitou os dormitórios, a aula de desenho, as oficinas, a aula de música, o refeitório, a cozinha e todas as restantes dependências do edifício, elogiando o estado dos referidos espaços. Por fim, dirigiu-se ao escriptorio, onde o Reverendo Director lhe leu um discurso que passamos a transcrever: PAULA FERREIRA P á g i n a | 63 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) «Senhora: - “ A honra que com a visita de Vossa Real Magestade acaba de ser concedida a esta instituição, da qual disse um dia o sempre saudoso monarcha o senhor D. Luiz I que não conhecia no paiz instituição mais digna de ser auxiliada vem marcar nos seus dez annos de existencia umas das suas mais brilhantes paginas, e tornar mais firme a esperança que nutre o seu fundador de ver, em antes de morrer, construido o annexo a esta Officina n’aquelles terrenos contiguos, para continuar a obra da regeneração social, recolhendo alli os jovens, quasi incorrigiveis, que um dia, mediante os factores da religião e do trabalho, serão a mais radiante corôa de quem os adoptou por filhos. Senhora: Desde a abertura da Officina de São José, á qual Sua Magestade El-Rei se dignou conceder o titulo de Real, jámais foi solicitado do publico o obolo da caridade christã, porque a sociedade, sempre solicita no bem do seu similhante, tem vindo expontaneamente socorre-la, e até com generosidade. Pensou-se na edificação de um edificio apropriado: faltavam os terrenos; veio logo o augusto rei D. Luiz, e por decreto de 30 de janeiro de 1889, a Real Officina de S. José, passa a possuir tres chãos que eram da nação. Faltavam meios para a construcção do edificio e o sempre benemerito Manoel Esteves Ribeiro, ao qual o governo de Vossa Magestade desejou agraciar com o titulo de Conde de S. José, promptificou-se a fazer a obra. Agora restam-me aquelles terrenos para completar a planta do edifício; quando os tempos corram prosperos, é então e só então que appelo para o magnanimo coração de Vossa Real Magestade a esta cidade, onde encontra em cada peito de seus filhos a mais devotada dedicação, e em todos os educandos e pessoal d’esta instituição um amor filial e respeito de subditos gratos. Se algum valor podem ter pelo que significam, estes productos dos meus jovens artistas, que ouso offerecer a Vossas Magestades, seja-me ainda permìttido, para commemorar dia tão solemne para esta casa, repetir o offerecimento que já tive occasião de fazer a Vossa Magestade – dois lugares á disposição de Vossa Magestade para dois pobresinhos orphãos de pae e mãe que se lembrem, n’esta ocasião da visita de Vossas Magestades á cidade do Porto, de implorar a sua alta protecção a fim de serem educados em qualquer das artes.” Neste discurso podemos realçar o pedido do Director da Oficina à Rainha Dona Amélia no PAULA FERREIRA P á g i n a | 64 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) sentido de conseguir mais terrenos para ampliar e completar a sua obra. De notar a forma habilidosa como este sustenta esse pedido, evocando a memória de D. Luís e o respeito que todos os membros da Oficina de São José nutriam pela família real. Também convém salientar o facto de que, era nestas alturas, que se registavam admissões de novos educandos, sob proposta da rainha, para relembrar o dia da sua visita. A partir dos registos do Livro de Matrículas, podemos identificar os dois jovens admitidos sob proposta de Sua Majestade. Foram eles: Jacome Antonio, nascido a 2 de Maio de 1880, no Porto, destinado ao ofício de encadernador e Francisco Manoel Gomes Ferreira, nascido em 23 de Fevereiro de 1879, em Beja, destinado ao ofício de alfaiate. A Rainha agradeceu todas as provas de respeito e de consideração e prometeu mandar o príncipe real visitar a Oficina de São José para que este conhecesse uma casa de regeneração. O Reverendo Sebastião de Vasconcelos ofereceu a sua Majestade um volume, luxuosamente encadernado, na respectiva oficina, do “Artista Instruído”; ofereceu, ainda, para sua Majestade El-Rei, um par de calças de pano preto, confeccionado na oficina de alfaiate e, finalmente, um par de sapatos de chevreau para o príncipe real, confeccionado na oficina de sapateiro. A Rainha agradecendo de novo, escreveu no livro dos Visitantes da Oficina de São José as seguintes palavras: “Este estabelecimento, que é uma gloria para o paiz a que pertenço, para esta cidade e para o fundador de tão sympathica Instituição, merece-me o maior interesse, porque encaminha muitos para o bem e para o trabalho. – D. Amélia, rainha – 23 de Novembro de 1891”. Seguidamente, a rainha retirou-se ao som de entusiásticas “vivas”, sendo acompanhada, durante algum tempo, pelos educandos da oficina e seu director. O edifício achava-se singelamente decorado, vendo-se alguns troféus de bandeiras com escudos, nos quais se liam as datas memoráveis da Oficina e o nome dos principais benfeitores. A 26 de Novembro de 1891, o Commercio do Porto noticiava a prometida visita do príncipe Luís Filipe, que após um percurso idêntico ao da sua mãe, chegou à varanda do edifício e foi erguido ao colo, pelo Reverendo Sebastião de Vasconcelos e acolhido pelo povo, com grande entusiasmo. O príncipe trajava vestido azul, casaco de agasalho de lã branco, PAULA FERREIRA P á g i n a | 65 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) e gorro da mesma cor, trazendo calçados os sapatinhos que lhe tinham sido oferecidos pelos educandos da Oficina de São José. A este respeito podemos sublinhar a forma delicada como os membros da família real agradeciam as ofertas. Neste caso concreto, o jovem príncipe vinha visitar a instituição, usando já os sapatos que lhe haviam sido oferecidos. A curiosidade, perspicácia e inteligência do jovem príncipe, que observou atentamente o funcionamento de várias máquinas da oficina de encadernação, provocou a admiração dos jovens da Oficina. Os marceneiros ofereceram-lhe uma pequenina cómoda que muito lhe agradou; e dois sobrinhos do Director ofereceram-lhe uma pomba branca e um pequeno gato branco de raça francesa que muito apreciou. O príncipe mostrou particular interesse pelos vários instrumentos da aula de música e entregou a um dos educandos três cartuchos de doces para repartirem entre si, deixando a quantia de 20$000 réis para melhorar a refeição do dia. A visita durou duas horas. Depois da despedida (“os recolhidos beijaram-lhe a mão”), os educandos e a banda da Oficina, tocando o hino nacional, seguiram o trem até à Batalha. O Reverendo Director da Oficina, depois de beijar a mão do príncipe, “soltou vivas” a sua Alteza e à família real. As pessoas da comitiva foram brindadas com um álbum de fotografia da casa e com o livro “O Artista Instruído”. Durante a tarde, um dos alfaiates, acompanhado do Reverendo Director, foi entregar a sua Majestade El-Rei o par de calças que lhe oferecera e agradecer à rainha a visita do príncipe! É extremamente enriquecedor para a História Cultural e das Mentalidades, conhecer todo este aparato que envolveu a visita a uma instituição de um membro da casa real. Além das visitas reais, existiram outras de personalidades ilustres da nossa sociedade, que deixaram os seus comentários registados: José Bonifácio Buleão, que visitou a Oficina a 20 de Julho de 1891, escreveu: “Muito agradável foi a impressão que tive em visitar este modesto mas também bem montado estabelecimento, onde a hygiene e todas as commodidades para os futuros representantes das artes portuguesas são encontradas…”. PAULA FERREIRA P á g i n a | 66 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) O Cónego António Maria Ferreira (vindo dos Açores) conheceu a Oficina de São José no dia 5 de Agosto de 1891, transmitindo-nos uma importante mensagem sobre a figura do Padre Sebastião Leite de Vasconcelos: “Tive a consolação immensa de visitar este Sympathico estabelecimento, e não posso abafar em meu peito um brado da mais enthusiastica admiração pelo que aqui presenciei. Esta casa é uma prova do que pôde a nossa Divina Religião para a regeneração da sociedade. Gloria a Deus que inspirou a creação d’este instituto, eterna gratidão ao benemerito fundador, ao Dom Bosco portuguez que considera esta obra como a sua empreza mais querida, que lhe absorve todos os affectos do seu coração bondoso todo inflammado em caridade pelas creanças desamparadas. As bençãos de Deus nunca lhe faltarão”. Monseñor Jasinos, no seu comentário reconhecia a importância social, benemérita e religiosa da acção do padre Sebastião relativamente aos pobres desvalidos: “He, tenido el justo y honor de visitar la casa asilo connocida com el nombre de Officina de São José fundada por el Padre Sebastião Leite de Vasconcellos y no he podido por menos que dar gracias a Dios Nuestro Sénor al celebrar el santo sacrifício en su capilla porque nos depare varones justos que inspirados en su caridade son el consuelo del pobre y del desvalido”. Pontservez, professor da Universidade de Paris, reconhecia em 29 de Setembro de 1891, o mérito do fundador da Oficina, em particular, pelo facto de “salvar” jovens “perdidos” e convertê-los em forças úteis à sociedade: “Mês voeux les plus vives pour la durée de l’ouvre excelente de l’Officina de Saint Joseph du Porto, et pour le santé de son devoué fundateur, qui de la façon la plus nobre, la plus simple et avec le plus beau courage sauve des âmes individuelles et conserve des forces utiles a la societé. Jy ajoute léxpression de mon admiration por le maitre educateur qui a conçu et appliqué le réglement de la maison de Saint Josepht”. Antonio, Bispo de Himeria, prelado de Moçambique, enaltecia a prática da caridade pelo padre Sebastião. Foi nesta linha de pensamento que nos legou as seguintes palavras: “Caridade! Seiva fecunda do Christianismo, só tu fazes prodigios como os que hoje, com o coração transbordando d’alegria me foi dado contemplar!”. PAULA FERREIRA P á g i n a | 67 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Finalmente, numa perspectiva de disseminação da obra do padre Sebastião Leite de Vasconcelos, João, Bispo de Cochim, deixou-nos as seguintes palavras: “Muito gratamente impressionado por tudo o que vi e achei n’esta Sympathica instituição faço votos, os mais ardentes e sinceros, pelo seu desenvolvimento. Oxalá seja dado ao seu benemerito fundador ve-la em breve em condições de occorrer ás necessidades de todo o paiz ramificando-se e fructificando por toda a parte á similhança da immortal obra de D. Bosco”. É com estas descrições e com estes comentários que encerramos este capítulo, para que se fique com a real percepção do impacto interno e externo da obra do reverendo Leite de Vasconcelos. PAULA FERREIRA P á g i n a | 68 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) CAPÍTULO III – TRATAMENTO ESTATÍSTICO Chegamos finalmente ao tratamento do resultado dos dados recolhidos pelas fichas de matrícula analisadas. NATURALIDADE De 498 fichas analisadas5 constatamos que 483 rapazes são de naturalidade portuguesa e os restantes 15 nascidos nas colónias portuguesas e outros países europeus. Do total, 235 rapazes são do distrito do Porto, 181 são da cidade do Porto (distribuídos por treze freguesias), 18 são dos restantes distritos do país, desconhecendo-se a proveniência de 64 jovens. Da amostra analisada, a parte mais significativa incide no distrito do Porto, razão pela qual privilegiamos o estudo do concelho do Porto. Da freguesia de Nevogilde, apenas encontramos um registo. Esta freguesia tinha uma natureza profundamente rural. 5 Uma ficha foi anulada pelo responsável pelo registo das matrículas. PAULA FERREIRA P á g i n a | 69 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Da freguesia de Lordelo do Ouro (verdadeira “terra de mareantes”) encontrámos dois registos e da freguesia de Ramalde também encontrámos dois registos. Esta freguesia, ao longo dos tempos, foi perdendo o seu carácter rural, tornando-se um importante centro de indústrias, com numerosas fábricas e bairros operários. Da freguesia da Foz do Douro encontrámos quatro registos. Esta freguesia foi crescendo, tanto em população, como em praia de banhos, tendo sido muito frequentada no Verão e tornando-se um bairro citadino preferido por muitas famílias para sua residência permanente. Da freguesia de Campanhã (arrabalde com muitas casas de campo de famílias gradas do Porto), apurámos cinco registos e da freguesia de Paranhos, apurámos, igualmente, cinco registos. Esta freguesia foi durante séculos uma freguesia rural, muito longe dos muros da cidade. Da freguesia de São Nicolau, apurámos apenas seis registos. Da freguesia de Massarelos (povoada por homens do mar que se dedicaram à extracção salineira) apurámos sete registos. Da freguesia de Vitória registámos oito matrículas e da freguesia de Miragaia apurámos nove matrículas. Assim sendo, as freguesias que nos proporcionaram mais registos foram: a freguesia do Bonfim com dezasseis registos de matrícula; a freguesia da Sé com trinta e quatro registos de matrícula e a freguesia de Santo Ildefonso com trinta e nove registos de matrícula. Santo Ildefonso era uma freguesia com bastantes espaços agrícolas mas que foi crescendo muito em termos de actividade industrial e comercial. Sobre a freguesia de Cedofeita trabalhámos em quarenta e três registos de matrícula. Também foi uma freguesia que se desenvolveu com as actividades industriais e comerciais. Pelos dados recolhidos, é possível detectarmos quais as freguesias que mais jovens “encaminhavam” para esta Oficina. A freguesia da Sé e as freguesias de Santo Ildefonso e Cedofeita eram freguesias muito populosas e com inúmeros casos de abandono/desamparo de menores pelo facto de possuírem zonas habitacionais degradadas associadas aos problemas decorrentes da situação de miséria que aí se vivia (alcoolismo, prostituição, doença, criminalidade). PAULA FERREIRA P á g i n a | 70 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Neste sentido, podemos recorrer aos estudos estatísticos da época, publicados por Mendes Correia e que nos confirmam o aumento da criminalidade de menores em Portugal, sobretudo no período que decorreu entre 1878 e 1895. Além disso, a maior incidência da criminalidade recaía nos rapazes com menos de dezoito anos o que, por si só, justificava a criação de instituições destinadas à recuperação de menores do sexo masculino, como a que estamos a estudar. Mendes Correia também não esqueceu a procura de causas ou de possíveis factores para este “fenómeno” de criminalidade e, a par de factores hereditários, individuais e “mesológicos”, evidenciou a necessidade de investir na prevenção e na luta contra este mal social. Foi nesta linha de pensamento, e de uma forma algo perspicaz, que este estudioso propôs a pena de correcção do delinquente e de reparação do castigo, como um meio de defesa social, ao invés de a encarar como uma forma de vingança ou de castigo. Para ele, os meios de prevenção deveriam assumir maior importância do que os meios correctivos, reparadores ou punitivos. Se as crianças recolhidas na Oficina de São José tivessem tido o apoio de uma família equilibrada e tivessem vivido em zonas habitacionais “limpas”, certamente teriam “escapado” a todo um conjunto de problemas decorrentes da situação de miséria que os assolava, já anteriormente mencionados. A propósito desta realidade, consideramos pertinente fazer uma abordagem ao estudo efectuado por Gaspar Martins Pereira, publicado na “História da Cidade do Porto”, respeitante à questão do alojamento. Este estudo remete-nos para as zonas mais degradadas da cidade do Porto, onde se situavam as ilhas. Na realidade, os processos de crescimento demográfico, de industrialização e de renovação urbanística acentuaram a diferenciação social dos espaços citadinos no decurso do século XIX. A par dos novos bairros e chalés que enchiam as zonas chic da cidade – Boavista, Foz, Álvares Cabral, alastrava no “miolo” de alguns quarteirões urbanos, e em zonas degradadas, a “cidade escondida” das ilhas e da pobreza, onde se percebiam comportamentos e hábitos específicos, onde uma sociabilidade intensa gerava e transmitia crenças e saberes, normas, gestos e modos de dizer. Um espaço que as elites identificavam como perigoso, não apenas fisicamente degradado, mas também imoral, associal, PAULA FERREIRA P á g i n a | 71 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) viveiro de doenças e de revoltas. No miolo da cidade antiga verificava-se uma sobre ocupação habitacional marcada pela degradação desse espaço, se bem que uma ou outra rua tenha sofrido obras de beneficiação. A demolição de várias zonas, onde se concentravam os estratos sociais mais pobres, foi também responsável pelo agravamento das condições habitacionais que se fizeram sentir, com especial incidência, no último quartel do século XIX. A supressão de muitas vielas do coração da cidade e bairros, como as que deram origem à Rua Nova de São Francisco, Alfândega, Rua de São Domingos, Mouzinho da Silveira e outras, provocou o despejo de muitas famílias operárias. Acentuou-se, assim, o processo de apropriação burguesa do solo urbano, paralelamente à centrifugação dos pobres, movimento registado nas grandes cidades europeias da época. Este movimento na cidade do Porto durou até aos nossos dias. O aumento da população e a maior procura de alojamentos baratos iriam estimular diversas formas de especulação imobiliária, fazendo alastrar a construção de novas ilhas e promovendo a maximização de outros espaços de arrendamento. Deste modo, no centro da cidade antiga acumularam-se as “colónias”, ilhas em altura, com as piores condições de salubridade e fortes concentrações humanas, sobretudo no Barredo, entre o Morro da Sé e a Ribeira. As “casas de malta” eram o alojamento preferencial dos que vinham trabalhar para a cidade, durante a semana, bem como dos aguadeiros galegos e outros serviçais. Ainda assim, eram as ilhas que constituíam a forma de alojamento popular mais vulgarizada na cidade do Porto, sobretudo nas zonas industrializadas (Montebelo, São Vítor, Campo Pequeno, Salgueiros…). Normalmente, eram grupos de casas separadas por um estreito corredor ao ar livre. Elas existiam no Porto desde 1832 mas atingiram o seu maior número em finais do último quartel do século XIX, albergando cerca de um terço da população do Porto, por volta de 1900. A partir dos anos oitenta, a opinião e os poderes públicos despertaram para a questão do alojamento. A miséria da habitação parecia preocupar mais os bem instalados do que os próprios habitantes das ilhas ou das habitações degradadas. Estes habitantes reivindicavam mais o direito ao trabalho e ao pão PAULA FERREIRA P á g i n a | 72 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) do que à casa. Os casos frequentes de despejos por falta de pagamento das rendas, a importância da assistência prestada pelos Albergues Nocturnos (desde 1882 dispensavam alguns milhares de dormidas a pobres da cidade), a degradação das “casas de malta”, fazem-nos reflectir sobre a frequência de situações bem mais miseráveis que as dos habitantes das ilhas. A habitação da ilha contrasta com os valores da ética familiar burguesa que associava a casa ao espírito doméstico e à privacidade familiar. No caso específico das ilhas, o espaço privado mal se distinguia do espaço público. A ilha era eminentemente um espaço colectivo e, simultaneamente um espaço fechado sobre si mesmo. O portal de entrada comum, bem como os espaços e equipamentos colectivos (corredor, lavadouro, poço, retretes…) facilitavam a formação de um espírito de comunidade, despertando intensas relações de vizinhança, onde o acesso a estranhos, não sendo vedado, não deixava de ser inibido ou mesmo hostilizado. A exiguidade do espaço doméstico, que raramente ultrapassava os 15-20 m2, reforçava a utilização dos espaços comuns como prolongamento do espaço da casa, intensificando as relações de sociabilidade e de entreajuda, as solidariedades e os conflitos. Na sequência de tudo o que foi dito, não seria inoportuno escrevermos um pouco sobre o crescimento populacional estreitamente ligado ao crescimento económico da época. Nesta linha de pensamento começaremos por abordar a situação da população urbana. Na realidade, a cidade integrava grupos muito diferenciados na forma de ocupação do território, desde os que aí residiam permanentemente, até aos vadios e vagabundos sem residência certa. Os Albergues Nocturnos, cuja fundação data de 1881, dispensaram anualmente alguns milhares de dormidas a pobres da cidade sem casa (3280 no ano económico de 1894-1895) e aos que temporariamente estavam na cidade, por umas horas ou dias, por uns meses ou anos. No respeitante às taxas de mortalidade, “morria-se mais na parte antiga” e em locais habitados por população operária. Daí o facto dos jovens órfãos recolhidos pela Oficina de São José, serem maioritariamente oriundos das freguesias que integravam esta “parte antiga”. A taxa de mortalidade na Sé atingiu cerca de 38% em 1895-1897, ao passo que em Aldoar e Nevogilde era PAULA FERREIRA P á g i n a | 73 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) inferior a 15%. Além disso, as freguesias com maior população operária e com maiores índices de natalidade, como o Bonfim, apresentam taxas de mortalidade elevadas. Entre 1895 e 1897, a natalidade variava entre os 24% em Miragaia e os 43,8% em Ramalde. Após meados do século XIX, a população do Porto reinicia uma fase de recuperação. Assiste-se ao adensamento das freguesias centrais que se traduzirá na degradação das condições habitacionais. Para lá do centro histórico, as freguesias de Santo Ildefonso, Miragaia, Massarelos, Cedofeita e Bonfim quase triplicam os seus moradores entre os anos quarenta do século XIX e 1911. O crescimento é particularmente intenso em Cedofeita e no Bonfim. Cedofeita passa de menos de 9000 habitantes em 1841, para mais de 30000 habitantes, em 1911. Bonfim, freguesia criada em 1841, por divisão de Campanhã e Santo Ildefonso, passaria de menos de 8000 habitantes para cerca de 32000 habitantes. Foi sobretudo esta zona “pericentral” onde se verificou o maior crescimento da actividade industrial e comercial, que atraía mais gente. Fora dela ficavam os subúrbios que conservavam uma feição rural mas que foram acompanhando o crescimento da cidade. Mais do que um crescimento tentacular, o crescimento do Porto resultou do alastramento destes núcleos, que mantinham uma identidade própria mas que permaneciam ligados à cidade. Paranhos, Ramalde, Foz, Campanhã, Lordelo, Aldoar e Nevogilde foram freguesias que integraram o Concelho do Porto no decurso do século XIX. Todavia, o desenvolvimento de cada uma delas resultou de circunstâncias específicas. A título de exemplo, podemos citar o caso de Campanhã que cresceu graças à estação de caminho-de-ferro e estruturas hoteleiras conexas, e o caso da Foz que beneficiou de uma área destinada a banhos de mar e passeios de Verão. Estes subúrbios, definitivamente “integrados” na cidade em 1895, com a estrada da Circunvalação, apresentaram um ritmo de crescimento superior a todas as outras áreas da urbe, na segunda metade do século XIX. Com a PAULA FERREIRA P á g i n a | 74 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) urbanização dos subúrbios, o Porto abriu uma nova fase da sua história: nasceu a “aglomeração contemporânea” (GUICHARD, 1992, 161-162). No entanto, e ainda a respeito destas freguesias, registei alguns casos de jovens que deram entrada na Oficina, no período em estudo, ainda que em número menos significativo. Ainda a respeito da mortalidade, o Porto era alvo de elevadas taxas. Doenças como o tifo, a varíola e disenterias provocavam 10% dos óbitos, e doenças como a tísica ou a tuberculose foram responsáveis por mais de 7% dos óbitos, em 1888. Os meios operários foram os mais atacados. Ricardo Jorge escrevia: “Vivemos ou antes, morremos a uma tarifa obituária intolerável; e isto num clima ameno e paradisíaco, num país incomparável, sobre um solo granítico e acidentado, sob um sol que nos acarinha. Há aqui os vícios da má educação e da ignorância; há as mais revoltantes práticas de tratar de crianças numa trucidação perene; há as habitações lôbregas e insalubérrimas onde se amesendra mais dum terço da população; há o desgaste das moléstias infecciosas pela licença do contágio; há enfim, uma rede de incapacíssimos esgotos, rastilhando o solo e a água de imundície ” (JORGE, 1899, 322). Apesar das advertências do médico municipal, Dr. Ricardo Jorge, a peste “bubónica” atingiu a cidade do Porto, em 1899. A casa deste médico chegou a ser apedrejada pelo facto da população ter sentido como uma verdadeira humilhação, imposta por Lisboa, o cordão sanitário de Agosto que isolou a cidade nortenha e trouxe graves consequências económicas. No que respeita à população portuense, devemos realçar uma forte natalidade, superior à média nacional (31,5 % em 1886/1896). A propósito da natalidade na cidade do Porto, podemos referir o facto desta elevada taxa de natalidade ser acompanhada por uma elevada taxa de mortalidade, características próprias do quadro demográfico do Antigo Regime. Na nossa pesquisa foram identificados casos de expostos ou de filhos ilegítimos. Todavia, nem todos os expostos seriam ilegítimos e muitos eram originários de fora da cidade. Por outro lado, o aumento da ilegitimidade que se verificou na segunda metade do século XIX, paralelamente ao abandono gradual da prática de “enjeitamento”, parece ocorrer num novo quadro de PAULA FERREIRA P á g i n a | 75 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) sexualidade. A ilegitimidade não traduziria o florescer de uma “sexualidade vagabunda”, mas a “difusão de um modelo de vida familiar em que a formação precoce do casal nos meios populares precede frequentemente o matrimónio”.6 Entre 1886 e 1897, a propagação de ilegítimos no Porto atinge cerca de um quarto dos nascimentos (25,2%). Além disso, existiam clivagens dentro da própria cidade. Em 1893-1897, as proporções de ilegítimos oscilavam entre 32% em Lordelo e 27% no Bonfim. Contudo, tais valores estão aquém da realidade por não contemplarem os nascimentos no Hospital de Santo António (8% do total de nascimentos no Porto, 80% de ilegítimos). Por todas estas razões, não nos pareceu relevante abordar a questão da ilegitimidade como factor determinante do futuro do jovem acolhido na Oficina. Na realidade, neste trabalho, só consideramos que um jovem é proveniente de uma família monoparental quando não existe qualquer referência à identidade do progenitor. Além disso, os dados apurados nos registos de matrícula não são muito esclarecedores. Mesmo em casos em que o nome do pai e/ou da mãe não constam, nas observações redigidas pelo padre Sebastião são evidentes as suspeitas sobre a identidade materna e/ou paterna (filhos de jovens prostitutas ou de jovens solteiras da alta sociedade, bem como filhos de homens casados ou de padres). 6 Maria do Carmo Serén e Gaspar Martins Pereira – “O Porto Oitocentista”, História do Porto (dir. Luís A. de Oliveira Ramos), Porto, Porto Editora, 1994, p.412. PAULA FERREIRA P á g i n a | 76 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) HABILITAÇÕES Do total de registos de matrículas, confirmamos o elevado grau de analfabetismo da época que era de cerca de 82%, mais notório ainda quando se trata de jovens provenientes de famílias “desestruturadas” ou de jovens completamente ao abandono. Na realidade, apenas 18% (89) dos rapazes que deram entrada na Oficina, durante o período estudado, sabiam ler e escrever e frequentemente com muitas deficiências. PAULA FERREIRA P á g i n a | 77 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) OUTROS DADOS PESSOAIS À ENTRADA NA OFICINA A partir da análise das fichas de registo de matrícula, no que diz respeito a outros dados pessoais como a 1ª comunhão, crisma, vacinação e proveniência de outra instituição, podemos chegar às seguintes conclusões: 1ª Não existem indicações de jovens não baptizados, porque na época todos eram baptizados, mesmo os que eram abandonados à nascença. Neste caso, o baptismo era feito dentro da primeira instituição que os recolhia (asilo, cadeia e outras…). 2ª À medida que os sacramentos exigiam maior acompanhamento religioso diminuía a percentagem dos jovens com a primeira comunhão feita ou com o crisma. Neste estudo específico 112 (cento e doze) dos rapazes tinham a primeira comunhão, mas somente 66 possuíam o crisma. 3ª Relativamente à vacinação, 193 (cento e noventa e três) dos registos que estudamos indicam a vacinação. Tratava-se da vacina contra a varíola e, pelo que pudemos constatar, esta vacina era ministrada aos jovens recomendados por personalidades influentes da cidade que já tinham sido objecto de um tratamento diferenciado (mais protegido) e passou a ser feita com maior regularidade a partir de 1895. 4ª Do total de registos analisados, 71 (setenta e um) casos dizem respeito a jovens já internados previamente noutra instituição. A maioria destes casos (quarenta e cinco) diz respeito a jovens que passaram pelo Seminário dos Meninos Desamparados. PAULA FERREIRA P á g i n a | 78 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) COMPORTAMENTO/INSUBORDINAÇÃO/ACTOS CRIMINOSOS COMPORTAMENTO OO PAULA FERREIRA P á g i n a | 79 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Com base na análise dos três gráficos respeitantes ao comportamento, insubordinação ou actos criminosos dos rapazes que deram entrada na Oficina e alicerçando os dados destes gráficos nas notas pessoais que fomos retirando das observações respeitantes a cada jovem, podemos destacar as seguintes conclusões do total de registos de matrícula analisados: 1ª Setenta e quatro por cento (74%) não contêm qualquer referência ao comportamento global e não apresentam indícios de insubordinação ou a descrição de actos criminosos, razão pela qual os incluímos no grupo dos jovens de comportamento regular. A dimensão deste grupo prende-se com o facto de muitos dos jovens admitidos na Oficina serem provenientes de famílias que se “desagregaram” pelo adoecimento e/ou falecimento de um ou de ambos os progenitores. 2ª Os dezoito por cento (18%) de jovens com mau comportamento são assim descritos nas próprias observações ou apresentam indicações da prática de alguns actos de insubordinação dentro da Oficina, ou a referência a alguns actos criminosos antes de entrarem para a Oficina ou já lá dentro. A título de exemplo podemos enumerar os seguintes casos: Armindo Dias Baptista (registo de matrícula número 20), depois de ter permanecido dois anos nos “Desamparados”, foi admitido no Asilo de Vilar e posteriormente na Oficina de São José. Fugiu a 24 de Maio de 1888, tendo PAULA FERREIRA P á g i n a | 80 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) sido preso em Aveiro a 30 de Maio do mesmo ano. Mestre sapateiro nos “Órfãos de São Caetano”, já ganhava 13500 reis em 1893. Despediu-se para se estabelecer, mas teve que pagar uma dívida de 27000 reis até 1902. Antonio José de Pinho (R.M. Nº68) perdera a mãe que fora deportada para África por ter assassinado um filho, e na Oficina demonstrou um génio orgulhoso, altivo e conflituoso. “Sentou praça” em Infantaria 18 onde foi castigado, sendo impedido de prosseguir a carreira militar. Custódio Joaquim d’Almeida Santos (R.M. Nº112) demonstrara um génio insuportável e atrevido, um espírito insubordinado e pouco honesto. António do Carmo Lobo (R.M. Nº121) fugiu da Oficina em Braga, em 1893. “Sentou praça” mas saiu como idiota. Preso por vadiagem, foi deportado para África em 29 de Agosto de 1896. António Pinto Carneiro (R.M. Nº143) revelava tendência para o furto. O próprio irmão, mestre alfaiate da Oficina, levou-o para Vila Fernando como gatuno incorrigível e de maus costumes. Tinha cúmplices como o Alcides, o Bahia, o Barnabé e o Fernando. Foi expulso da banda por desrespeito ao contramestre e castigado com repreensão. Joaquim d’Araújo (R.M. Nº153) rejeitou o castigo que lhe fora aplicado por ter esbofeteado um colega. António Napoleão Malheiro (R.M. Nº176), depois de ter estado preso no Aljube, foi recolhido na Oficina e seguidamente foi colocado na Casa “Araújo e Sobrinho”, a 26 de Outubro de 1896, como caixeiro, a ganhar 10000 reis por mês, acabando por ser despedido a 27 de Outubro de 1898. Francisco Bahia (R.M. Nº219) foi recolhido no Asilo da Mendicidade e esteve preso na Cadeia da Relação do Porto. Repreendido várias vezes, retirou-se da Oficina a 31 de Julho de 1900 com a roupa do corpo. António Ferreira Telles (R.M. Nº235) aparentava ser cândido e submisso mas revelou mau génio e desonestidade, tendo roubado 5000 reis. José Maria Porto (R.M. Nº239), triste e pouco expansivo, só depois de se ter retirado da Oficina se soube de um roubo, que ali fez, de um par de botas. Julio da Cruz (R.M. Nº241) roubara quantias no valor de 2000 reis. PAULA FERREIRA P á g i n a | 81 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) João Moreira (R.M. Nº270) foi punido por saídas não autorizadas e abusos de autoridade como monitor e contramestre da banda. António Serafim Madeira (R.M. Nº307) praticava roubos na Oficina, inclusive na caixa de esmolas. António José dos Santos (R.M. Nº308) esteve preso em Chaves. Eugénio da Conceição (R.M. Nº312) era conhecido pelas fugas e bebedeiras. Depois de se ter retirado a 2 de Fevereiro de 1904, foi preso e posteriormente enviado para Vila Fernando. Justiniano Pereira d’Almeida (R.M. Nº321) esteve encarcerado vinte e um dias na cadeia de Vila da Feira. Jorge Rodrigues da Silva (R.M. Nº322) foi preso três vezes no Calabouço em Lisboa. Permaneceu quatro anos na Escola Agrícola de Vila Fernando até 2 de Abril de 1900. Augusto Roiz (R.M. Nº325) esteve preso três vezes em Ovar. Francisco d’Assis Lopes (R.M. Nº347) deu entrada na cadeia seis vezes. Luiz Gomes (R.M. Nº 386) foi preso três vezes. António Augusto de Oliveira (R.M. Nº386) esteve preso quatro vezes. José Corrêa (R.M. Nº 399) foi preso oito vezes. Américo Moreira (R.M. Nº433) esteve preso quatro vezes. António Candido Ferreira (R.M. Nº 481) foi preso duas vezes. 3ª Os três por cento (3%) de jovens com péssimo comportamento são assim descritos nas próprias observações, ou apresentam indicações de muitos actos de insubordinação dentro da Oficina ou referência a muitos actos criminosos antes de entrarem na Oficina e até já lá dentro. Trata-se de jovens com “cadastro” na polícia, que já contavam bastantes prisões por vadiagem, furto e, num caso, por homicídio: João da Costa (R.M. Nº 48) foi encarcerado três vezes. Todavia, o seu percurso de vida evidencia uma mudança radical. A 21 de Agosto de 1887 foi admitido no Asilo de Nova Cintra como mestre sapateiro, ganhando trezentos reis diários. “Sentou praça” em Infantaria 10 e foi implicado, sem culpa própria, nos acontecimentos de 31 de Janeiro de 1891. Foi para África e depois de ter conseguido amnistia, regressou ao reino. Em 1895, casou em Santo Ildefonso. PAULA FERREIRA P á g i n a | 82 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) António de Sousa (R.M. 181) foi preso por homicídio. Já na Oficina, espetou uma faca na perna do educando Vieira. Tinha um certo desequilíbrio mental mas exercia o seu ofício regularmente e tocava cornetim. Arthur Garcia Malheiro (R.M. Nº207) esteve preso catorze vezes (dez por furto e quatro por vadiagem). Entrou na Oficina na altura da comunhão dos presos e saiu à revelia com um fato novo. João Domingos Manoel (R.M. Nº250) roubou na Casa Lipp 20000 reis. Tinha má índole e mau feitio. Muito forte, era temido por todos os colegas. Chegou a agredir o mestre Cunha e o monitor Moreira. Manoel Victorino Coelho (R.M. Nº261) foi preso por ofensas corporais e julgado por vadiagem. Saía à noite e era pouco sério com os menores. Marciano Pinto (R.M. Nº275) esteve preso sete vezes por furto. Depois de ter sido acolhido pela Oficina, saiu em 1900 e foi preso novamente em 1904. Ernesto Fernando Rosário (R.M. Nº279), condenado como vadio, esteve em Vila Fernando e já na Oficina, fugiu duas vezes. Era indolente e desonesto. António Sérgio (R.M. Nº291) havia estado preso nas Mónicas e roubava a caixa das esmolas com Serafim Madeira. Domingos Povoas (R.M. Nº295) havia fugido do Asilo de Vila Real e praticava furtos. A sua mãe esteve presa na Cadeia da Relação do Porto pela morte de dois filhos. José Francisco da Silva, “O refilão” (R.M. Nº298) foi preso nove vezes por furto e vadiagem e fugiu três vezes da Oficina de São José. Seraphin Gonçalves Moreira (R.M. Nº316), depois de sair da Oficina, “passou a vida na cadeia” por furtos. Ernesto Fernando Rosário (R.M. Nº319) esteve três meses no “Limoeiro”. Fugiu três vezes da Oficina e acabou preso nas “Carmelitas”. Foi expulso da Oficina descalço, “…em blusa e em cabelo…”. João Teixeira (R.M. Nº358) foi preso na Cadeia e no Aljube pelo roubo de 7500 reis. Na Oficina, os seus roubos na caixa de esmolas atingiram os 9000 reis tendo sido expulso da instituição com a roupa do corpo. Após a leitura destes exemplos, convém realçar a ideia, já divulgada por alguns pesquisadores, como Maria José Moutinho, de que esta reincidência de prisões PAULA FERREIRA P á g i n a | 83 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) se prende com o facto de os jovens serem detidos por um curto período de tempo em estabelecimentos desadequados à sua faixa etária. 4ª Os quatro por cento (4%) de jovens com bom comportamento são assim descritos nas observações dos registos de matrícula ou chegamos a essa conclusão pelo seu percurso de vida após a saída da Oficina. Foram exemplos de um bom comportamento, os seguintes alunos: Carlos de São José (R.M. Nº104) tratava-se de um exposto, conforme podemos verificar pelo apelido de São José. Tornou-se monitor. Adquiriu duas obrigações de 4% de 22500 reis, uma gratificação de 10000 reis, um relógio e uma corrente de ouro. Acabou por sair para casar levando um “rico” enxoval. Joaquim Soares Ribeiro (R.M. Nº120) recebeu um prémio de bom comportamento (um relógio em prata). Cypriano Gil dos Santos (R.M. Nº175) revelou uma aptidão excepcional para a música, pelo que obteve uma pensão anual de 650000 reis para estudar em Paris durante três anos. Victorino Gonçalves (R.M. Nº335), depois de ter passado pelo Colégio dos Órfãos, revelou um carácter tímido mas de boa índole, tendo sido encaminhado para uma tipografia onde passaria a ganhar 5000 reis, com direito a cama e roupa lavada (29/11/1905). Luiz da Silva (R.M. Nº431), depois de ter passado pelo Seminário dos Meninos Desamparados, recebeu dois prémios de bom comportamento e acabou por ser colocado como tipógrafo, em Braga, na “Ilustração Católica” (26/05/1914). 5ª Apenas um por cento (1%) dos jovens revelaram um excelente comportamento, facto transmitido pelo próprio responsável pelos registos de matrícula, ou constatação bem visível no sucesso profissional e na estabilidade socioeconómica atingida pelo educando, que também nos é dado a conhecer pelo percurso de vida “pós-internato”. A título de exemplo podemos referir: José Barros Nunes de Lima (R.M. Nº52), tendo revelado uma grande aptidão para os estudos, foi estudar para o Colégio da Formiga a 15 de Agosto de 1893. Frequentou o Colégio do Espírito Santo em Braga onde concluiu os estudos preparatórios. Cursou o primeiro ano de Teologia na Universidade de PAULA FERREIRA P á g i n a | 84 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Coimbra, em 1896. Concluiu a formatura em Teologia, em 1901. Em 1903 já era professor do liceu de Castelo Branco, no primeiro grupo. Joaquim Duarte (R.M. Nº151), mostrando grande vocação para a vida religiosa, conseguiu entrada na Congregação do Espírito Santo na Formiga. Em 1895 recebeu um prémio de bom comportamento e um bom enxoval. A 15 de Dezembro de 1897 recebeu o hábito, e a Oficina deu-lhe batina, barrete e cabeção. Jorge Monteiro Pinto (R.M. Nº230), depois de ter permanecido três anos nos “Desamparados”, foi para as missões de Cintra, mas regressou doente à Formiga. Nomeado monitor, recebeu o prémio d’Assis Brazil no valor de 10000 reis a 20 de Setembro de 1899, e o prémio da Lembrança das Bodas de Prata do Reverendo Director, no valor de 7000 reis. Comprou uma obrigação de 22500 reis e recebeu um anel de ouro na ida a Moncorvo, a 1901. Em 1903 recebeu um relógio. “Sentou praça” em 11 de Setembro de 1903 tendo chegado a primeiro-sargento. Finalmente, alguns alunos conotados como “mal comportados”, acabavam, depois de vários percalços, por enveredar pelo “caminho do bem”. Exemplo disso, podemos citar o de Pedro Farrixa (R.M. Nº208) que depois de ter saído do Aljube, teve um comportamento regular na Oficina de São José e acabou por tornar-se mestre sapateiro na Oficina de Barcelos (2 de Abril de 1905). PAULA FERREIRA P á g i n a | 85 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) OFÍCIOS Finalmente, no que diz respeito aos ofícios, 180 jovens (36%) seguiram o ofício de sapateiro, 135 jovens (27%) seguiram o ofício de alfaiate, 52 jovens (10%) seguiram o ofício de marceneiro, 40 jovens seguiram o ofício de encadernador e 39 jovens seguiram o ofício de tipógrafos (8% respectivamente). Apenas 8 jovens seguiram o ofício de carpinteiro e outros 8 de impressor (2% respectivamente). Três jovens tornaram-se serralheiros mecânicos (1%), um jovem tornou-se monitor e outro chegou a “sub-diácono” em França. Quando os jovens manifestavam graves dificuldades de aprendizagem ou mesmo indícios de atraso mental (os designados “idiotas”), eram encaminhados para tarefas simples como serviçais de cozinha (temos dois exemplos). Do total de 498 registos de matrícula, 28 não mencionam o ofício seguido pelo rapaz acolhido por esta instituição. É de salientar, que são frequentes os casos de uma curta permanência nesta instituição (esta permanência não chegava à duração de um ano). Em suma, podemos concluir que os ofícios com melhor “colocação no mercado de trabalho da altura” para jovens sem amparo familiar, eram os ofícios de sapateiro, alfaiate e marceneiro. Também tinham “saída profissional” os PAULA FERREIRA P á g i n a | 86 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) encadernadores e tipógrafos, tratando-se de ofícios com um certo “prestígio” social. Além disso, estes ofícios não requeriam uma mão-de-obra muito qualificada/especializada. PAULA FERREIRA P á g i n a | 87 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) CAPÍTULO IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS A Oficina de São José do Porto, na qualidade de Escola de Artes e de Ofícios, foi fundada no final do século XIX (1880), num contexto social marcado pela existência de um grande número de jovens ao abandono, que deambulavam pelas ruas da cidade, praticando furtos e outros actos ilícitos. Perante a incapacidade do Estado Português em conseguir recuperar socialmente estes jovens, foi a iniciativa particular, nomeadamente de organismos de carácter religioso, que procurou colmatar essa lacuna. Foi neste contexto que nasceu a Oficina de São José, que tal como escreveu o seu fundador, o padre Sebastião Leite de Vasconcelos, deveria impor-se como um meio de recuperação de jovens pelo ensino profissional e pela educação moral e religiosa. A partir da análise dos estatutos desta instituição, ficamos inteirados da preocupação do seu fundador relativamente à formação integral dos educandos que a frequentaram. A sua aprendizagem não se circunscrevia apenas a um ofício (sapateiro, alfaiate, carpinteiro, encadernador, serralheiro, marceneiro, torneiro, tipógrafo ou impressor) mas abrangia a área da música. Além disso, insistia-se na interiorização de regras comportamentais pautadas por uma forte componente moral e religiosa. A este nível convém destacar a figura do mestre cuja conduta teria que ser irrepreensível, pois serviria de modelo aos seus alunos. A obrigatoriedade do internamento bem como a delimitação das idades de admissão e de saída desses educandos, também funcionavam como mecanismos de preservação de um “clima” disciplinar salutar. Nunca é demais sublinhar a prioridade na aceitação de menores com cadastro e/ou mais vulneráveis à delinquência/criminalidade, no intuito de os proteger desses males sociais. Nesta linha de pensamento, a instrução, a assistência e a própria educação religiosa seriam meios primordiais de prevenção contra percursos marginais. A Oficina de São José, estreitamente ligada à Diocese e ao Governo Civil do Porto, beneficiou de um sólido apoio público e particular. PAULA FERREIRA P á g i n a | 88 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) O seu director, padre Sebastião, foi encarado de forma contraditória pelos seus contemporâneos. Ora idolatrado por aqueles que respeitavam a sua obra, ora questionado por aqueles que criticavam o seu “carácter exibicionista”, foi uma figura polémica de relevo na sociedade oitocentista. Esta controvérsia é perfeitamente compreensível numa sociedade dominada por um regime político liberal e prestes a ver implantada a República. Todos sabemos que se tratavam de contextos políticos marcadamente anticlericais. Apesar das adversidades, a instituição que Sebastião Leite de Vasconcelos dirigia conseguiu angariar todo o tipo de donativos particulares e despertou o interesse e reconhecimento da família real e de outros nomes sonantes da sociedade portuguesa de então. Nos registos de visitas à Oficina, encontramos rasgados elogios à figura do reverendo e à sua obra da parte de personalidades que desenvolviam a sua actividade em países estrangeiros. Torna-se então oportuno salientar, que o “nascimento” da Oficina de São José na cidade do Porto foi influenciado pela obra dos Salesianos em Itália, tendo havido contactos entre o padre Sebastião e São João Bosco. Na mesma linha de pensamento/actuação de D. Bosco, o fundador desta Oficina valorizou o investimento no ensino profissional em detrimento do ensino liceal. Escolas gratuitas que proporcionassem aos mais pobres a preparação para a vida activa, seriam a melhor opção. A receptividade social a esta Oficina, na cidade do Porto, tornou-se bem evidente no montante de donativos particulares e públicos com vista ao pagamento das avultadas despesas ligadas à manutenção desta instituição. Como já foi referido, esta instituição recebia jovens completamente abandonados e ainda menores oriundos de famílias paupérrimas e/ou monoparentais das zonas mais “degradadas” da cidade do Porto. Foi-nos possível verificar que os jovens de comportamento regular eram provenientes, na sua maioria, de famílias humildes que haviam sido “desagregadas” pela doença e/ou morte de um ou de ambos os progenitores. Estes menores beneficiavam da protecção de personalidades influentes na sociedade portuense de finais do século XIX, inícios do século XX. Da análise feita aos respectivos registos de matrícula, podemos concluir que apesar dos casos de sucesso detectados através das observações feitas pelo PAULA FERREIRA P á g i n a | 89 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) próprio padre Sebastião, foi notória a incapacidade desta instituição em regenerar jovens que já tinham um passado de delinquência marcado pela vadiagem, pelo furto e por prisões sucessivas. No entanto, os “casos de sucesso” no que respeita à recuperação de menores, constituíram um incentivo e um argumento para se dar continuidade à função de prevenção/recuperação de menores em risco. Não podemos deixar de pensar que, se estes jovens não tivessem sido acolhidos e encaminhados profissionalmente por esta instituição, teriam caído nas malhas da criminalidade/marginalidade. Podemos então concluir que prevenção e recuperação são conceitos que foram sendo problematizados e defendidos pelos observadores do comportamento dos jovens, desde o século XIX até aos nossos dias. Este trabalho é o testemunho da necessidade de instituições `não governamentais, similares à Oficina de São José, aptas a contribuírem para a protecção dos menores desvalidos. Sem ter seleccionado uma citação ou uma frase tocante no respeitante ao objecto do meu estudo, considerei oportuno terminar esta minha pesquisa com a transcrição da letra do hino da Oficina de São José, letra essa destinada a ser acompanhada por música tocada ao piano e que foi uma oferta de Costa Mesquita aos jovens da Oficina de São José, Escola de Artes e Ofícios. PAULA FERREIRA P á g i n a | 90 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) Guarda e Mestre da nossa Oficina, Salve, salve, bendito José, Teu exemplo real nos ensina, A seguir no trabalho com fé. O trabalho pró Céu tem valia, Não há dita nem honra maior, Desde quando a Jesus e Maria, Sustentou dum artista o suor. Não erguemos pregões odientos, Não sonhamos falaz redenção, Nossa indústria com seus instrumentos, Ergue um hino ao trabalho cristão. Há quem olhe o trabalho a um prisma, Que uma escola falseada lhe dá, Nós não vamos buscar ao sofisma, Soluções que no mundo não há. Oferta de Costa Mesquita aos artistas da Oficina de S. José. PAULA FERREIRA P á g i n a | 91 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) PAULA FERREIRA P á g i n a | 92 A OFICINA DE SÃO JOSÉ NA CIDADE DO PORTO (1880-1909) FONTES E BIBLIOGRAFIA FONTES 1. Fontes manuscritas e dactilografadas Legislação Colecção Oficial da Legislação Portuguesa entre 1750 e 1910. Lisboa: Imprensa Nacional. L. De 16/9/1886 – Código Penal Português (modifica o de 1852) L. De 21/4/1892 – Reincidentes equiparados e vadios. D. De 15/12/1894 – Vadiagem e mendicidade. L. De 3/4/1896 – Vadiagem e mendicidade. 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