TENDÊNCIA DOS ÍNDICES CLIMÁTICOS NO SETOR SEMI-ÁRIDO DO ESTADO DA BAHIA GildarteBarbosa da Silva 1 ;Ewerton Cleudson de Sousa Melo 2 ; Pedro Vieira de Azevedo 3 RESUMO Este trabalho teve como objetivo investigar a ocorrência ou ausência de mudanças climática ao longo do século passado em alguns municípios do setor semi-áriodo do estado da Bahia, através de índices climáticos obtidos da precipitação total diária. Utilizou-se dados de três postos pluviométricos espacialmente distribuídos a fim de determinar índices de detecção de mudanças climáticas sugeridos pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) calculados a partir dos dados de precipitação pluviométrica diária através do RClimdex 1.9.0. Observou-se que em todas as localidades, a tendência da precipitação total anual e de dias consecutivos com chuvas foi de um pequeno aumento. Enquanto, que os dias consecutivos secos e o número de dias consecutivos úmidos apresentaram tendência de aumento para algumas localidades e, de diminuição para outras. Possivelmente a tendência de um pequeno aumento dos totais anuais de chuva esteja relacionada com a circulação de grande escala, enquanto a intensidade pode estar relacionada diretamente a influências locais. ABSTRACT This work had as objective of investigating the occurrence or absence of climatic change throughout the last century for some locations of the semi-arid sector of the Bahia state by using climatic indexes related to the cumulative rainfall. It was used rainfall data of three, locations as representative of the state micro-region. As methodology they were used the detection indexes suggested by the Word Meteorological Organization (WMO) based in the daily rainfall data program RClimdex 1.9.0. The resulted have shown that, for all localities the trend of cumulative daily rainfall and consecutive days with rain showed a small increase annual total precipitation and consecutive days with rains was of a small increase. Meanwhile, the number consecutive of dry consecutive days and the ratio of annual rainfall to the rainy days showed a treid of increase for some localities and reduction for others. Probably a small increase of the annual rainfall is related to the large scale circulation while the rainfall intensity may have on local factors and large scales phenomenon. Palavras-chave: variabilidade climática, índices, tendência. 1 Doutorando em Recursos Naturais, UFCG, e-mail: [email protected] , fone (83) 3310-8056 Doutorando em Meteorologia, UFCG, e-mail: [email protected], fone (83) 3310-8056 3 Phd, professor de Meteorologia, DCA/CTRN/UFCG, e-mail: [email protected], fone (83) 3310-1999 2 INTRODUÇÃO O estado da Bahia tem uma área de 567.295Km2 e população de 12 milhões de habitantes dos quais 59% em áreas urbanas. Extensa porção da área do Estado está situada no semi-árido, representando cerca de 69% do seu território, onde vive quase 6 milhões de habitantes tornando-se num fator limitante do desenvolvimento econômico e social em extensa área do território estadual, explicando os baixos níveis de renda, os padrões insatisfatórios de nutrição, saúde e saneamento de parcela muito representativa de sua população (CEI, 1999;SEI, 1998). Quando falamos em mudança climática e aquecimento global, estamos nos referindo ao incremento, além do nível normal, da capacidade da atmosfera em reter calor. Isso vem acontecendo devido a um progressivo aumento na concentração dos gases do efeito estufa (GEE) na atmosfera, nos últimos 100 anos, provocado pelas atividades humanas, que poderá ter conseqüências sérias para a vida na Terra no futuro próximo. Cortez (2004). O aumento da utilização de combustíveis fósseis, as queimadas e a destruição das florestas liberam CO2 aumentando a sua concentração na atmosfera. Outros fatores que podem modificar o clima de uma região são o desflorestamento e o mau uso dos ecossistemas. Estes fatores alteram o clima regional e tem pouca influência no sistema global, exceto as grandes florestas tropicais. Entretanto, localmente eles podem ter uma importância mais relevante do que os GEE. Em áreas de ecossistemas frágeis e vulneráveis, como o semi-árido, as mudanças climáticas mais drásticas podem ocorrer através da soma das ações produzidas pelos gases de efeito estufa com o mau uso e desflorestamento dos ecossistemas locais. Portanto, o presente trabalho tem como objetivos determinar possíveis índices de detecção de mudanças climáticas no estado da Bahia, utilisando dados diários de precipitação em conformidade com a Organização Meteorológica Mundial (Zhang e Yang, 2004). As freqüentes modificações nos padrões de circulação geral da atmosfera sobre o Atlântico Sul causam variações significativas no clima de toda América do Sul. Foi observado no El Niño de 1997 um excesso de precipitação no extremo sul do Brasil durante a primavera e o verão (em média 50mm/mês de chuva acima do normal). Já em termos de temperatura, a região Sudeste do Brasil apresentou um inverno (junho-agosto 1997) ameno e um verão ligeiramente rigoroso. No verão de 1999/2000 constatou-se condições totalmente anômalas no clima de várias regiões do mundo, incluindo um inesperado verão ameno no Rio de Janeiro. Esta anomalia climática foi atribuída ao evento La Niña. Apesar de existirem inúmeros estudos relacionando a variabilidade climática às anomalias de TSM dos Oceanos Pacífico e Atlântico tropicais (Cardoso e Silva Dias, 2000; França et al, 2000; Nobre, 1996). A segurança alimentar pode se tornar um sério problema para muitos países latino-americanos, ameaçando a cultura de subsistência em algumas regiões. A previsão é de queda no rendimento de muitas safras da América Latina, mesmo quando os efeitos do CO2 forem considerados. MATERIAIS E MÉTODOS Os dados de precipitação total diário foram oriundos da antiga rede de postos pluviométricos da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e do III Distrito de Meteorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Foi elaborado um programa em FORTRAN para leitura dos dados dos postos pluviométricos de Irecê, Juazeiro e Feira de Santana, como representativos do setor semi-árido do estado da Bahia. O software RClimdex 1.9.0 foi utilizado para o processamento dos dados e obtenção dos índices climáticos dos cenários das previsões do IPCC. A homogeneização dos dados foi planejada e implementada na versão do RClimdex 1.9.0, que para sua execução utilizou-se os seguintes passos: (1) preparação de um arquivo de texto ASCII, composto de seis colunas correspondentes ao ano, mês, dia, precipitação (PRCP); (2) o formato deve ser delimitado por espaços, em geral, cada elemento separado por um ou mais espaços e; (3) os dados faltosos foram codificados como -99.9, enquanto que os registros dos dados foram apresentados em ordem cronológica (CIDA, 2004). Os índices climáticos utilizados foram apenas os que dependem da precipitação pluvial como: 1 - Quantidade máxima de precipitação em 5 dias consecutivos (RX5day); 2 - Índice simples de intensidade pluviométrica diária (SDII): SDII = (Paa/Ndu) (1) Em que Paa é a precipitação pluviométrica acumulada anual e Ndu o número de dias úmidos em um ano; 3 - R10 = NDP>10 (2) Em que R10 é o número de dias com precipitação intensa e NDP>10 o número de dias em um ano com precipitação acima de 10 mm; 4 - R25 = NDP>25 (3) Em que R10 é o número de dias com precipitação intensa e NDP>10 o número de dias em um ano com precipitação acima de 10 mm; 5 - dias secos consecutivos (DCS); 6 - dias úmidos consecutivos (DCU); 7 - precipitação pluviométrica total anual (Paa). RESULTADOS E DISCUSSÂO Os índices obtidos utilizando o RClimDex 1.9.0, em geral, não apresentaram tendências no mesmo sentido entre as localidades, o município de Juazeiro apresentou uma pequena tendência de ocorrência DCS, o municípios de Irecê e Feira de Santana apresentaram um sensível tendência de aumento na PRECIPTOT, apenas o município de Juazeiro indicou um decréscimo das precipitações anual. A maioria dos índices não demonstrou tendências estatisticamente significativas, ou seja, o valor de p< 0,05. Tabela 1 – Inclinação da reta de tendência linear, significância estatística (valor_p) Localidade Lat Irecê Juazeiro Rx5day SDII R10 R25 DCS DCU PRCPTOT -41,52° 0,019 0,226 -0,024 -0,085 0,054 -0,046 -0,697 1,382 -0,033 -0,044 2,085 -3,691 0,049 0,119 0,032 0,046 -0,046 0,075 -14,03° -42,37° 0,573 -0,306 -12,12° -36,36° -0,262 -11,18° F. de Santana Lon A Tabela 1 apresenta os valores da inclinação linear dos índices de precipitação, da sua significância estatística para os três municípios e suas respectivas microrregiões. A figura 1 mostra uma pequena declinação da reta, identificando que o número de dias consecutivos secos (DCS) decresceu ao longo da série histórica os anos de 48, 60, 62, 663, 64, 66, 72, 76, 80 e 82, que apresentaram número de dias consecutivos secos superiores aos 50. Observa-se que a partir da década de 1950, o número de dias consecutivos com chuvas apresentou uma considerável variabilidade interanual. Irecê - DCS 250 200 DCS 150 100 50 0 1982 1980 1978 1976 1974 1972 1970 1968 1966 1964 1962 1960 1958 1956 1954 1952 1950 1948 1946 1944 ANO Figura 1 - Gráfico da tendência do número de dias consecutivos secos (DCS) para o município de Irecê Observa-se na Figura 2 uma tendência de aumento de dias consecutivos secos. O município de Juazeiro apresentou alta variabilidade interanual. Isto porque, está localizado na região semi-árida propriamente dita, devido a sua localização, não recebe influência de sistemas frontais que adentram o território baiano, daí só apresenta um período chuvoso que se estende de novembro a março. Juazeiro - DCS 350 300 DCS 250 200 150 100 50 0 1981 1978 1975 1972 1969 1966 1963 1960 1957 1954 1951 1948 1945 1942 1939 1936 1933 1930 1927 1924 1921 1918 1915 1912 ANO Figura 2 - Gráfico da tendência do número de dias consecutivos úmidos (DCU) para o município de Juazeiro. A Figura 3 apresenta uma reta sem inclinação perceptível. Porém, nos anos de 1950, 1952, 1955, 1970, 1982 e 1983 houve um aumento do numero de dias consecutivos sem chuvas na ordem de 60 a 70. Demonstrando assim alta variabilidade interanual do clima local. Houve interrupção da série em alguns anos. F. de Santana - DCS 80 70 60 DCS 50 40 30 20 10 0 1988 1985 1982 1979 1976 1973 1970 1967 1964 1961 1958 1955 1952 1949 1946 1943 1940 1937 ANO Figura 3 - Gráfico da tendência do número de dias consecutivos úmidos (DCU) para o município de Feira de Santana CONCLUSÃO Conclui-se que o setor semi-árido do estado da Bahia representado pelos municípios de Irecê, Feira de Santana apresentou uma variabilidade interanual do clima, com pequena tendência de ocorrência DCS. Irecê e Feira de Santana apresentaram uma sensível tendência de aumento na PRECIPTO. Porém, em Feira de Santana houve um aumento do numero de dias consecutivos sem chuvas, demonstrando alta variabilidade interanual no agreste baiano, apesar da interrupção da série histórica. Juazeiro apresentou uma pequena tendência de ocorrência DCS. Assim como os outros, Juazeiro também apresentou alta variabilidade interanual. Isso significa que todo a região semi-arida da Bahia está suscetível à mudanças climáticas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARDOSO, A. O., & SILVA DIAS, P. L., 2000: A influência da temperatura da superfície do mar no clima de inverno na cidade de São Paulo. Anais do XI Congresso Brasileiro de Meteorologia. SBMET. Rio de Janeiro, RJ, 3685-3693. CENTRO DE ESTUDOS E INFORMAÇÕES DA BAHIA. Análise dos Atributos Climáticos do Estado da Bahia. Salvador: CEI, 1998. CORTEZ, H.: Aquecimento Global e Água. Série Consciência e Meio Ambiente, p. 95, 2004. IPCC, 2001. Impacts, Adaptation and Vulnerability. Contribution of Working Group II to the Third assessment report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. NUNES, L. H. Repercussões globais, regionais e locais do aquecimento global. 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