2009 Recife 2009 recife Introdução Nas últimas décadas as grandes e médias cidades brasileiras e suas regiões metropolitanas passaram por dinâmicas socioespaciais muito semelhantes. Houve queda generalizada das taxas de crescimento populacional e o aumento de população nessas cidades deu-se de forma bastante desigual entre os bairros e municípios de suas regiões metropolitanas. De um lado, houve perda de população nos bairros das áreas centrais, providas de infraestrutura, e, de outro, crescimento significativo nos bairros e municípios periféricos, áreas precárias e ambientalmente frágeis. Enquanto as áreas centrais perderam população, bairros afastados dos centros e municípios periféricos cresceram a taxas que superaram 10% ao ano. O poder público contribuiu para esse processo, principalmente através da construção de grandes conjuntos habitacionais em áreas com carência de infraestrutura, de onde a população tem que se deslocar por quilômetros diariamente para chegar ao trabalho. Hoje, os centros urbanos dessas cidades permanecem como regiões de grande concentração de postos de trabalho em escala metropolitana, mas apresentam número significativo de imóveis e domicílios vazios e subutilizados. Por isso, movimentos sociais ligados à temática da reforma urbana e da moradia, técnicos e estudiosos que historicamente centraram-se na luta por demandas mais relacionadas aos problemas das periferias — urbanização e regularização de favelas e loteamentos, implantação de redes de serviços e equipamentos públicos, produção de habitação em mutirão com autogestão — hoje têm como bandeira a defesa da moradia em áreas centrais. Reivindicam a implementação de uma política habitacional que reverta a lógica histórica de assentamento da população de baixa renda nas periferias e contribua para que as cidades caminhem rumo a uma configuração socioespacial mais justa e sustentável. Partindo desse contexto, o projeto “Moradia é Central — inclusão, acesso e direito à cidade”, teve como objetivo sensibilizar a opinião pública acerca da importância da efetivação de políticas públicas de promoção de habitação social nos centros urbanos, tendo como princípios a utilização de imóveis vazios e ociosos para produção habitacional e a melhoria das 4 condições de moradia da população de baixa renda que já reside nessas áreas. O projeto foi desenvolvido por organizações parceiras em cinco capitais: São Paulo (Instituto Pólis), Belém (FASE — Federação de órgãos para Assistência Social e Educacional — Amazônia), Fortaleza (Cearah Periferia), Recife (FASE/ HABITAT) e Rio de Janeiro (FASE e Fórum Nacional de Reforma Urbana — FNRU). Em cada uma dessas cidades foram estabelecidas parcerias com os Fóruns Regionais, movimentos organizados, universidades, pesquisadores e técnicos dos governos locais. A coordenação das atividades foi feita pelo Instituto Pólis com o apoio técnico e financeiro da OXFAM GB — agência internacional com sede no Reino Unido, que apoia projetos sociais nos países em desenvolvimento. As cinco capitais envolvidas no projeto têm em comum a situação de perda de população nos bairros centrais, existência de número significativo de imóveis e domicílios vazios nessas áreas e crescimento das áreas periféricas. Seus centros apresentam ótimas condições de infraestrutura urbana e de serviços e concentram postos de emprego, mas caracterizamse por situações urbanas específicas, que devem ser levadas em consideração na discussão acerca da promoção de habitação social nessas áreas. Recife, Rio de Janeiro e Belém têm áreas centrais portuárias parcialmente desativadas, com significativo patrimônio histórico edificado e abandonado, e grandes áreas públicas subutilizadas. As áreas centrais de Fortaleza e São Paulo destacam-se pela grande concentração de empregos ao mesmo tempo em que apresentam taxas acima de 20% de domicílios vazios. Na última década essa problemática vem sendo cada vez mais debatida no Brasil e, embora todas as capitais parceiras do projeto, entre outras, tenham propostas em andamento pelos três entes federativos, ainda foram poucas as ações concretas no sentido de viabilizar uma política habitacional nas áreas centrais, com prioridade para as famílias de menor renda. Houve experiências significativas de produção de habitação social nas áreas centrais em São Paulo e Rio de Janeiro, que envolveram movimentos sociais e técnicos comprometidos com a questão. Em São Paulo, a luta pela moradia social no Centro já tem mais de dez anos e tem como marcas a ocupação de edifícios vazios pelo movimento organizado e a produção de moradia através de vários tipos de programas: reforma de edifícios antigos, construção nova, intervenção em cortiços. No entanto, a escala de produção ainda é muito pequena diante da demanda e dos problemas a serem enfrentados. No Rio houve experiências de reforma de imóveis históricos para transformação em habitação. Os movimentos sociais têm se organizado, ocupando prédios e casarões abandonados, lutando para que a produção seja ampliada e atinja a população de menor renda, principalmente através da utilização de imóveis públicos vazios e subutilizados. No Recife também há acúmulo de discussão, principalmente sobre a questão da garantia de manutenção das comunidades pobres que vivem em áreas centrais através de instrumentos urbanísticos, como ZEIS — Zonas Especiais de Interesse Social — e projetos de urbanização. Houve experiência de produção através de reforma de um edifício no Centro e o debate dos movimentos junto ao poder público tem se centrado na estruturação de uma política em larga escala que envolva também a recuperação do patrimônio histórico. Em Fortaleza a discussão sobre a melhoria do Centro com promoção de habitação social está no início, envolvendo técnicos e movimentos sociais locais em torno da elaboração do “Plano Habitacional para a Reabilitação da Área Central de Fortaleza”. Em Belém a discussão também está começando e envolve a questão da reabilitação de edifícios históricos para promoção de habitação social. Alguns projetos, realizados pelo governo estadual e pelo Programa Monumenta (do IPHAN, Ministério da Cultura), estão em andamento. As experiências mostram que muitos são os desafios a serem enfrentados para a efetivação de uma política habitacional em áreas centrais. Para que os imóveis vazios e subutilizados localizados em áreas providas de infraestrutura sejam objeto de políticas habitacionais, garantindo o acesso da população de baixa renda à terra urbanizada, é necessária a aplicação dos instrumentos do Estatuto da Cidade, que de- Moradia é central recife vem estar previstos nos planos diretores municipais. Os imóveis públicos subutilizados devem ser destinados prioritariamente à produção de habitação social, especialmente nas cidades onde existem em grande quantidade. Além disso, é imprescindível a concessão de subsídios nos financiamentos, garantindo que sejam acessíveis à população de menor renda, frequentemente excluída dos programas existentes. Destacamos ainda, a importância de desenvolver programas de aluguel social e subsídio ao aluguel, que podem contribuir para a diminuição das unidades imobiliárias vagas em edifícios situados em áreas centrais. Por fim, consideramos fundamental conhecer melhor as áreas centrais das cidades, levantando usos, tipologias construtivas, imóveis de valor histórico e cultural, espaços públicos e, principalmente, a situação de seus usuários e moradores, de forma a desvendar os problemas e as potencialidades dessas áreas, que apresentam especificidades em cada cidade. A caracterização dessas áreas centrais, suas relações com a dinâmica de crescimento das metrópoles e com a questão da habitação social e das políticas públicas formuladas até hoje, foram pontuadas nesta publicação, que é composta de um caderno por cidade. Em cada caderno buscamos desenvolver os seguintes temas: a problemática habitacional e urbana; a dinâmica de crescimento nas últimas décadas; as características do Centro; os atuais moradores, trabalhadores e usuários das regiões centrais e as propostas e experiências de produção de habitação social no Centro. O objetivo é que o presente material sirva como instrumento de disseminação e aprofundamento da discussão acerca da habitação em áreas centrais entre técnicos, lideranças, movimentos, gestores públicos e entidades. Todo o material aqui sistematizado é fruto de um ano de trabalho do projeto “Moradia é Central”, durante o qual foram promovidos seminários locais e uma exposição itinerante — atividades realizadas com os parceiros do projeto nas cinco capitais — que tiveram como objetivo gerar o comprometimento de políticos, gestores públicos, entidades e atores sociais com a questão. 5 A dinâmica de crescimento urbano do Recife A problemática do recife A Região Metropolitana do Recife (RMR) é hoje a maior aglomeração urbana do Nordeste e a quinta do Brasil, com 3,6 milhões de habitantes, segundo os dados do IBGE de 2007. A cidade do Recife, dividida em seis Regiões Político-Administrativas (RPA), concentra cerca de 1,5 milhões de habitantes, abrigando 42% da população total da Região Metropolitana. O crescimento urbano da Região se caracterizou por uma ocupação inadequada nos morros e áreas de mangue na direção norte da capital e dos municípios metropolitanos, elevando progressivamente a demanda por deslocamentos entre estes e a região central da cidade do Recife, onde se concentra a maior parte dos empregos. Nas últimas décadas constata-se, à semelhança do que vem ocorrendo em outras áreas metropolitanas brasileiras, altas taxas de crescimento populacional nos municípios da periferia metropolitana e taxas negativas de crescimento em vários bairros centrais da cidade do Recife. Entre 1991 e 2000 Recife apresentou uma taxa geo métrica de crescimento populacional de 1,5% — relativamente baixa, se comparada às dos municípios mais periféricos da Região Metropolitana, que cresceram a taxas superiores a 2,5%, como Ipojuca, Moreno, Camaragibe, Araçoiaba e Ilha de Itamaracá. Figura 1. Recife cresceu de forma desigual nas áreas centrais e periféricas nas últimas décadas. Foto: Gilvan Barreto 6 As necessidades de deslocamentos e viagens cotidianas geradas por esse padrão de crescimento urbano revelam a dimensão do problema: a frota de 4,6 mil ônibus transporta diariamente 1,7 milhões de passageiros e o metrô, outros 180 mil. As intervenções públicas realizadas no Recife na segunda metade do século XX seguiram um modelo de planejamento urbano que reforçou esse processo de expansão periférica do tecido urbano, intensificando as situações de precariedade habitacional e subutilização de áreas com infraestrutura. Enquanto se consolidava a ocupação nas periferias, uma enorme área edificada cujo uso característico era o residencial, esvaziava-se. A ocupação irregular e precária de áreas alagadiças e de morros tornou-se a solução habitacional para grande parte da população. Atualmente, uma das características da cidade do Recife é seu déficit habitacional, que se contrapõe aos imóveis desocupados no Centro. Segundo dados do IBGE (2000), o déficit habitacional do município do Recife é de mais de 58 mil moradias, enquanto há 37 mil domicílios vagos na cidade. A área central do Recife, que concentra uma parcela significativa de empregos da Região Metropolitana, apresentou decréscimo populacional da ordem de 5% entre os últimos dois censos realizados pelo IGBE (1991 e 2000), processo que impactou de diversas formas os bairros que a compõem. De forma geral, houve perda de população, abandono dos imóveis de uso residencial e deterioração do patrimônio edificado na área central. Soma-se a isso a existência de inúmeras áreas públicas vazias, que reforçam o grau de subutilização dos imóveis deste território. São 18 terrenos públicos que contabilizam aproximadamente 145 hectares na orla marítima. Em contraposição, 7 núcleos de favelas com 9 mil domicílios, concentradas principalmente nos bairros de Santo Amaro, Ilha do Leite e Coelhos, se adensam com precariedade da moradia. Estas áreas necessitam de altos investimentos para suprir a falta de serviços e equipamentos públicos e serem consolidadas como bairros centrais, a exemplo de Brasília Teimosa, onde a prefeitura investiu recursos para transformá-la no bairro que existe hoje. Em 1913, o Recife possuía uma população de 182 mil habitantes. Uma década depois chegava a 313 mil — incremento populacional de mais de 58%. Ao longo do século XX, o crescimento populacional e um conjunto de intervenções urbanas criaram nova fisionomia e delimitação da cidade e de sua área central. Destaca-se a remoção de cerca de 13 mil habitantes do Bairro do Recife por ocasião da reforma do porto. A demolição dos sobrados nos anos 1910 e a erradicação dos mocambos, nos anos 1930 e 1940, que neste período abrigavam cerca de 165 mil habitantes, caracterizaram estas intervenções. A política de erradicação dos mocambos implementada pelo Interventor do Estado, Agamenon Magalhães, deu origem à Liga Social Contra o Mocambo que, na década de 1940, promoveu a remoção dos 12 mil mocambos localizados no Centro do Recife, principalmente nas áreas alagadiças entre o Derby e a Tacaruna. Tal intervenção incluiu a abertura do canal de drenagem ao longo do qual, na década de 1970, foi construída a primeira avenida perimetral, hoje, Avenida Agamenon Magalhães. Outras tentativas de expulsão das demais comunidades pobres ocorreram nos anos posteriores, mas a resistência popular garantiu a permanência de muitas delas, como a de Coelhos e a de Brasília Teimosa. Apesar da resistência, as políticas de expulsão resultaram na transferência de quase um terço das famílias que viviam nos mocambos para regiões periféricas da cidade, ocasionando o surgimento do chamado cinturão de áreas pobres do Recife. Grande parte das famílias que antes ocupava o entorno da área central migrou para municípios vizinhos e para os morros da zona norte da cidade. Ao mesmo tempo, a elite se concentrou em bairros como Casa Forte e Apipucos — historicamente marcados pela presença de população abastada — e com atrativos como a vegetação nativa e terras planas e secas. Nos anos 1960, a população atingiu contingente superior a 763 mil habitantes dos quais 59% residia em áreas com precariedade habitacional. Na década de 1970, quando se instituiu a Região Metropolitana do Recife, a cidade já possuía mais de um milhão de habitantes, ao lado de 1,8 milhões da RMR. Ainda nos anos 1970, as sistemáticas inundações Moradia é central recife do Capibaribe redirecionaram a ocupação do território, provocando seu crescimento para o sul. A partir da implantação de equipamentos e infraestrutura viária no bairro de Boa Viagem, a zona sul do Recife também passou a ser ocupada pela população de média e alta renda, atraída pela paisagem da orla marítima. Isto ocasionou um crescimento populacional progressivo na zona sul do Recife, tornando-a a região mais populosa do município. Em 1980, a população do Recife já ultrapassava um milhão de habitantes e em 1990 correspondia a 1,3 milhões, dos quais 64% continuava vivendo em condições habitacionais precárias. As políticas habitacionais historicamente não atenderam a demanda criada pelo crescimento populacional da cidade, tampouco houve políticas públicas de combate à especulação imobiliária e promoção do acesso à terra urbanizada para a população de baixa renda. Esse quadro acirrou os processos de perda de população nas áreas servidas de infraestrutra e de aumento das ocupações irregulares e precárias no território metropolitano. Em 2000 Recife atingiu 1,4 milhões, de um total de 3,2 milhões de habitantes na Região Metropolitana, representando mais de 44% da população da RMR. A dinâmica metropolitana no período de 1991 a 2000 foi marcado pela perda de população das áreas centrais e servidas de infraestrutura e pelo crescimento exacerbado das regiões periféricas e assentamentos precários. Esta dinâmica expandiu a malha urbana e gerou problemas como a concentração de imóveis vagos no Centro. O mapa e a tabela a seguir (figuras 6 e 7) ilustram o processo, mostrando que 31 bairros perderam população em diferentes regiões da cidade. O Centro, especialmente os bairros de Paissandu, São José, Cabanga, Boa Vista, Santo Amaro, Soledade, Ilha do Leite e Coelhos, concentrou as maiores perdas. Mas também houve saída de moradores em bairros do entorno do Centro, como Afogados, Ipsep, Estância, Jardim São Paulo, Mustardinha, Mangueira, Derby e Prado; e em bairros da região noroeste da cidade, como Dois Irmãos, Alto do Mandu, Casa Amarela, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Alto Santa Teresinha, Alto José Bonifácio, Morro da Conceição, Água Fria e Fundão. 7 Código Bairro População % População TGCA 1991 - 2000 1991 - 2000 4 Paissandu -213 -29% -3,68 40 Soledade -681 -24% -2,95 33 São José -2.109 -20% -2,39 32 Cabanga -335 -18% -2,17 3 Boa Vista -3.026 -18% -2,15 18 Estância -1.894 -17% -2,11 57 Dois Irmãos -503 -14% -1,68 17 Ipsep -1.672 -6% -0,70 66 Nova Descoberta -2.021 -6% -0,63 Figura 2. A região central (RPA 1) perdeu 4,9 mil moradores de 1991 Figura 3. O bairro da Boa Vista perdeu 18% de seus moradores de 23 Jardim São Paulo -1.158 -4% -0,43 a 2000. Foto: Gilvan Barreto 1991 a 2000. Foto: Gilvan Barreto 2 Santo Amaro -955 -3% -0,36 77 Água Fria -841 -2% -0,21 9 Afogados -624 -2% -0,19 31 Pina 641 2% 0,26 11 Areias 787 3% 0,29 83 Beberibe 379 5% 0,50 8 San Martin 1.277 6% 0,64 89 Campo Grande 2.447 8% 0,91 30 Boa Viagem 10.704 12% 1,26 44 Brasília Teimosa 2.236 13% 1,39 5 Ilha Joana Bezerra 2.050 19% 1,97 26 Várzea 10.747 20% 2,05 49 Iputinga 8.730 23% 2,31 Limite Municípios 41 Santo Antônio 115 27% 2,70 Hidrografia 80 Aflitos 992 29% 2,89 19 Curado 3.511 35% 3,41 13 Cohab 19.738 40% 3,81 56 Caxangá 2.031 44% 4,12 54 Guabiraba 2.378 48% 4,46 Sem dados 12 Barro 11.283 57% 5,13 até -2,00 1 Recife 360 64% 5,63 de -1,99 a 0,00 65 Macaxeira 7.977 71% 6,11 de 0,01 a 2,50 52 Passarinho 6.655 76% 6,47 de 2,51 a 5,00 16 Caçote 3.672 77% 6,56 de 5,01 a 10,00 55 Sítio dos Pintos 3.244 134% 9,92 legenda Limite bairros Figura 4. O bairro Barro cresceu 57% de 1991 a 2000, ganhando Figura 5. O bairro Caçote cresceu 77% de 1991 a 2000, ganhando 11 mil novos moradores. Foto: Gilvan Barreto 3,7 mil novos moradores. Foto: Gilvan Barreto Em processo oposto, bairros periféricos da cidade cresceram a altas taxas, destacando-se Cohab (39%), Barro (57%), Macaxeira (71%), Passarinho (76%) e Caçote (77%) — bairros que já eram bastante populosos e cresceram em média 64% de 1991 a 2000. Nas últimas décadas a criação de novas centralidades promoveu a transferência de atividades antes concentradas no Centro para outras áreas, como os bairros de Encruzilhada e Casa Amarela. Isso resultou no aumento do número de domicílios vazios na área central. Tal fato também ocorreu em outras áreas consolidadas, provavelmente devido à produção imobiliária acima da demanda real por novos imóveis. 8 Tgca - taxa geométrica de crescimento anual - 1991 a 2000 Figura 6. Mapa — Dinâmica populacional na Região Metropolitana Figura 7. Tabela — Dinâmica populacional nos bairros do Recife de do Recife de 1991 a 2000. 1991 a 2000 (destaque para alguns bairros). Fonte: IBGE Censos 1991 e 2000 (Elaboração própria) Fonte: IBGE Censos 1991 e 2000 (Elaboração própria) Moradia é central recife 9 Os dados sobre domicílios vagos apresentados no mapa e na tabela a seguir (figuras 8 e 9), mostram que a dinâmica urbana e imobiliária produziu vacância em várias regiões da cidade. No Centro, os bairros que mais concentraram domicílios vagos, segundo o Censo do IBGE de 2000, foram: São José (17%), Coelhos (15%), Boa Vista (15%) e Soledade (14%). O bairro Ilha do Retiro, no entorno do Centro, também apresentou índice alto: 17% de seu estoque imobiliário estava desocupado em 2000. Juntos, esses bairros somavam 2.246 domicílios vazios, parte dos quais poderia ser utilizada para habitação social. Destaca-se também a vacância no Bairro de Boa Viagem, onde foram construídos muitos edifícios habitacionais novos para as classes média e alta nos últimos anos. Este bairro concentrava o maior número absoluto de domicílios vazios da cidade — 4.597 unidades — o que representava 12% de seu total. É importante lembrar que a contagem do IBGE corresponde aos domicílios particulares permanentes — casas, apartamentos ou cômodos destinados à moradia — que estavam vagos no momento da pesquisa. Inclui, portanto, apartamentos vagos em prédios inteiramente ou parcialmente vazios, além de casas e cômodos residenciais desocupados. Por isso este número não contempla unidades comerciais vazias, antigos hotéis ou galpões abandonados (tipos de imóveis que podem ser transformados em habitação social a partir de reforma). Apesar da perda de população e da concentração de domicílios vazios, o Centro manteve sua dinâmica peculiar, não deixando de ter sua importância, tanto habitacional quanto como polo de comércio popular. A região continua atendendo a uma demanda de comércio e serviços da população moradora do próprio bairro, dos bairros periféricos e de municípios vizinhos. O Centro continuou, portanto, concentrando grande parte dos empregos da Região Metropolitana e da cidade do Recife. O mapa ao lado mostra a concentração de empregos da capital em relação aos demais municípios metropolitanos. DOMIcílios vagos Município Bairro Recife Domicílios Domicílios % Domicílios Vagos Vagos São José 2.949 498 16,89% Coelhos 2.296 358 15,59% Boa Vista 6.867 1.038 15,10% Boa Viagem 3.7341 4.597 12,31% Pina 8.681 875 10,08% Várzea 19.163 1.790 9,34% Nova 9.674 795 8,22% 3.644 285 7,82% 267 20 7,49% Varadouro 1.935 285 14,73% Jardim 11.272 1.502 13,33% Descoberta Ilha Joana Bezerra Santo Antônio Atlântico legenda Olinda Alto da concentração de empregos legenda 1.531 187 12,21% Conquista Município Empregos % em relação à RM de RE Recife 503.893 68,0% Jabotatão dos Guararapes 70.306 9,5% Olinda 8,3% 61.523 Limite bairros Limite bairros Limite Municípios Vila Popular 1.516 156 10,29% Limite Municípios Paulista 24.548 3,3% Hidrografia Alto da 2.227 229 10,28% Hidrografia Cabo de Santo Agostinho 21.548 2,9% Nossa Sra do Ó 4.871 813 16,69% Centro 1.094 173 15,81% Camaragibe 7.970 1,1% Janga 13.388 2.090 15,61% Abreu e Lima 7.070 1,0% Bondade % DE DOMIcílios vagos até 9% Paulista de 9,01 a 11% Nossa Sra da de 11,01 a 13% Conceição 936 116 12,39% de 13,01 a 15% acima de 15,01 Paratíbe 4.303 395 concentração de empregos Ipojuca 17.159 2,3% Igarassu 13.670 1,8% até 20 mil Moreno 4.577 0,6% de 20,1 mil a 40 mil São Lourenço da Mata 4.443 0,6% de 40,1 a 515 mil Itapissuma 3.111 0,4% Acima de 500 mil Ilha de Itamaracá 1.103 0,1% Araçoiaba 504 0,1% 9,18% Figura 8. Mapa — Concentração de domicílios vagos na Região Figura 9. Tabela — Concentração de domicílios vagos no Recife, em Figura 10. Mapa — Concentração de empregos na Região Figura 11. Tabela — Concentração de empregos na Região Metropolitana do Recife. Olinda e Paulista (destaque para alguns bairros). Metropolitana do Recife. Fonte: CEMPRE, 2006 — Referente a Metropoliatana do Recife. Fonte: CEMPRE, 2006 — Referente a Fonte: IBGE Censo 2000 (Elaboração própria) Fonte: IBGE Censo 2000 (Elaboração própria) pessoal ocupado assalariado (Elaboração própria) pessoal ocupado assalariado (Elaboração própria) 10 Moradia é central recife 11 Características do Centro do Recife Dados da população moradora do Centro (bairros da RPA 1) e Brasília Teimosa (pertencente à RPA 6) Bairro população gênero (%) faixa etária (%) Total Ate 24 anos de 25 a 59 60 ou mais Jovens idosos Mulheres Homens renda (%) adultos Ate 3 SM de 3 de 5 + de a 5 SM a 10 SM 10 SM Recife 925 50,1 49,9 53,9 40,6 5,4 93,6 4,2 2,3 0,0 Santo Amaro 29.140 54,4 45,6 46,7 42,0 11,3 65,4 9,5 13,0 12,1 Boa Vista 14.033 58,2 41,8 33,7 48,7 17,6 22,7 14,9 28,8 33,6 Soledade 2.201 59,6 40,4 32,8 49,5 17,7 22,3 13,7 27,0 37,0 Santo Antônio 539 48,2 51,8 27,5 50,3 22,3 66,3 13,9 9,4 10,4 Paissandu 531 56,7 43,3 38,2 47,8 13,9 12,4 11,8 32,3 43,5 Ilha do Leite 959 56,6 43,4 36,1 49,5 14,4 25,4 10,9 28,7 35,0 Coelhos 6.826 52,4 47,6 51,1 41,0 7,9 89,2 5,4 3,1 2,3 Ilha Joana Bezerra 12.755 52,0 48,0 58,3 36,2 5,5 93,5 4,5 1,8 0,3 Cabanga 1.536 56,1 43,9 41,3 43,4 15,3 61,5 14,3 14,7 9,5 São José 8.653 51,9 48,1 52,5 39,2 8,3 86,6 7,4 4,8 1,3 Total Área Central 78.098 54,4 45,6 46,8 42,5 10,7 65,50 9,84 12,55 12,11 Brasília Teimosa (RPA 6) 19.155 52,3 47,7 47,9 43,3 8,7 81,1 10,8 6,5 1,6 Total Recife 0,53 46,50 46,2 44,4 9,4 61,4 10,4 12,8 15,4 1.422.905 Figura 13. Tabela — Dados da população moradora do Centro (bairros da RPA 1) e Brasília Teimosa (pertencente à RPA 6). Fonte: IBGE Censo 2000 (Elaboração própria) Alfabetização, domicílios e gênero nos bairros centrais (RPA 1 e Brasília Teimosa) Bairro Figura 12. Foto aérea do Centro do Recife. Fonte: Prefeitura do Recife (Elaboração própria) A área central do Recife, com uma extensão territorial de 15,2 km2, corresponde à Região PolíticoAdministrativa 1 (RPA 1), composta pelos bairros: Boa Vista, Cabanga, Coelhos, Ilha do Leite, Ilha Joana Bezerra, Paissandu, Recife, Santo Amaro, Santo Antônio, São José e Soledade. Em 2000, residiam na área central do Recife 78 mil habitantes, ocupando 22 mil domicílios. Dentre as seis Regiões Político-Administrativas, a RPA 1 abriga o menor número de habitantes. Sua população equivale a apenas 5,5% da população total da cidade, enquanto na RPA 6, que abrange os bairros ao 12 sul do município, inclusive Brasília Teimosa, Boa Viagem e Pina, a população corresponde a aproximadamente 25% do total. As tabelas a seguir trazem os dados socioeconômicos dos moradores do Centro, com base no Censo IBGE de 2000. O Centro do Recife desempenha um papel importante na dinâmica da cidade e da Região Metropolitana, nele estão situados as sedes dos governos estadual e municipal, secretarias estaduais, órgãos federais, sede de empresas, bancos e escritórios, além de universidades, museus, hospitais, polos industriais e centros comerciais. Taxa de Alfabetização (1) Total de Domicílios Porcentagem de Mulheres Responsáveis Pelo Domicílio Recife 72.88 303 48,26 Santo Amaro 86,79 7.785 47,3 Boa Vista 97,35 5.322 51,31 Soledade 98,11 911 53,19 Santo Antônio 90,27 277 37,13 Paissandu 97,98 180 48,81 Ilha do Leite 98,15 303 49,17 Coelhos 79,86 1.868 45,42 Ilha Joana Bezerra 74,5 3.305 40,46 Cabanga 92,67 441 45,58 São José 78,33 2.415 48,1 Brasília Teimosa (RPA 6) 85,45 4.878 39,51 Total 27.988 Figura 14. Tabela — Alfabetização, domicílios e gênero nos bairros centrais (RPA 1 e Brasília Teimosa). Fonte: Prefeitura do Recife (Dados do IBGE, 2000; Elaboração própria). (1) Taxa de Alfabetização da População de 15 anos e mais Moradia é central recife 13 Figura 15. Vista da região central. Foto: Gilvan Barreto Assim, o Centro é ponto de convergência de milhares de pessoas em busca de emprego, serviços e produtos, além de atividades de cultura e lazer. A presença desta diversidade econômica (indústria, comércio, serviços etc.) dá ao Centro, hoje, uma importância significativa frente às demais regiões da cidade. Uma excelente rede de infraestrutura cobre a área central, permitindo que estas atividades comerciais e de serviços se mantenham e se desenvolvam. Um conjunto articulado de vias liga o Centro aos demais bairros do Recife, muitas utilizadas como corredores de transporte urbano. Só no Centro, existem sete destes corredores, incluindo a Avenida Norte, por onde circulam 223 linhas de transporte coletivo. A área central é atendida também pelo terminal de metrô interligado aos municípios de Jaboatão dos Guararapes e Camaragibe, além de uma linha para zona sul do Recife, que está sendo ampliada para aumentar a capacidade de transporte de passageiros. Os terminais integrados de passageiros promovem o embarque intermunicipal para outras cidades da região e do estado, complementando esta importante rede de transporte de passageiros. A potencialidade do Centro como lugar da diversidade de usos e da moradia para todas as faixas de renda é reforçada pela quantidade expressiva de imóveis e domicílios abandonados, desocupados e fechados, tanto públicos como privados. Os dados do IBGE de 2000 para a RPA 1 revelam a existência de 3.361 domicílios vagos nesta área. Uma pesquisa realizada pela Prefeitura do Recife em 2008 apontou a presença de 253 imóveis privados abandonados, desocupados ou fechados. Quanto aos imóveis públicos, os números são ainda mais expressivos, já que na área central há um conjunto pertencente à União e que perfaz 145 hectares, parte do qual poderia ser utilizado para a construção de novas moradias. Com esta potencialidade e disponibilidade de área, o Centro vem assistindo a um gradual processo 14 de substituição das suas edificações por empreendimentos imobiliários destinados à população de média e alta renda nestas áreas próximas à orla. O capital imobiliário avança sobre parcelas significativas deste território, conforme evidencia a venda dos galpões da REFESA e do Edifício JK para empreendedores privados. Nesta dinâmica, o Centro que já vem perdendo faixas consideráveis de população, pode também perder a atual população moradora, devido ao encarecimento do custo de moradia e ao efeito transformador provocado pelos novos padrões de moradia. Segundo dados do IBGE, o Centro perdeu em uma década (1991–2000) 6% da população moradora, passando de 83 mil, para 78 mil habitantes. Entretanto, para muitas dessas famílias, morar no Centro significa estar próximo do trabalho e obter renda, seja nas atividades formais ou informais. Além disso, muitas das famílias pobres que residem nas comunidades não consolidadas ou nos cortiços e palafitas têm aí a única possibilidade de moradia, o que reforça a urgente necessidade de promover a habitação popular no Centro do Recife. No intuito de urbanizar, regularizar e garantir a algumas destas famílias, o direito à moradia, o Plano Diretor definiu, no interior da RPA 1, quatro Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS): Coelhos, Coque, Santo Amaro e João de Barros. A população total abrangida por estas zonas era, em 2000, de 38 mil pessoas, o que equivalia a 49% da população total moradora da RPA1. Próxima a estas quatro ZEIS foi também delimitada a ZEIS Brasília Teimosa, que embora não esteja incluída na RPA 1, sofre forte pressão do mercado imobiliário, por conta de sua localização estratégica próxima à área da REFESA. Outras áreas pertencentes à RPA 1, também precárias, não foram delimitadas como ZEIS, correndo risco de remoção: a Favela do Rato, localizada no Bairro do Recife; Frei Casemiro; Vila do Papel e Vila dos Motoristas, no Bairro de São José; Roque Santeiro, no Bairro dos Coelhos e Vila Brasil, localizada no Bairro de Ilha Joana Bezerra. Figura 16. Construção abandonada no Centro do Recife. Figura 18. Torres residenciais de alto padrão (Pier Maurício de Foto: Gilvan Barreto Nassau e Pier Duarte Coelho) em construção na orla do Bairro do Recife. Ao fundo, vê-se Brasília Teimosa. Foto: Gilvan Barreto Figura 17. Edifício JK: abandonado há anos, foi recentemente vendido a um empreendedor privado. Foto: Gilvan Barreto Moradia é central recife 15 Brasília Teimosa e o Centro do Recife Situada em uma área de grande interesse para promoção imobiliária, a comunidade Brasília Teimosa está localizada entre o bairro de Boa Viagem e o Centro tradicional do Recife, oficialmente situada no território da RPA 6, e uma Zona Especial de Interesse Social — ZEIS (ver Figura 12). Como o próprio nome indica, Brasília Teimosa é fruto de intensa luta popular pelo direito à moradia. Surgida em meados dos anos 1950, a comunidade tem resistido às pressões do capital que tem tentado incorporar o lucro de sua localização estratégica. A Comunidade está separada fisicamente do núcleo principal do município pela Bacia do Pina, todavia o mesmo não se dá com as relações socioespaciais. A integração entre a comunidade de Brasília Teimosa e o Centro é intensa e também se dá nas propostas estratégicas do planejamento municipal. Propostas como a criação de uma ponte interligando o Centro tradicional do Recife ao território de Brasília Teimosa ou como o projeto Recife-Olinda, destaca a área de Brasília Teimosa como espaço estratégico para o desenvolvimento da cidade. Teme-se que o projeto Recife–Olinda, que interliga os centros das duas cidades, e que incorpora o território de Brasília Teimosa em sua área de intervenção, destitua o direito à moradia das famílias que ali residem, promova sua expulsão ou impacte na permanência das mesmas. Portanto, considerar Brasilia Teimosa um território do Centro do Recife é estratégico para os movimentos sociais e entidades envolvidos no projeto Moradia é Central. A proximidade com o Centro possibilita o acesso aos serviços, equipamentos e postos de trabalho oferecidos nessa área da cidade. Além disso, a pouca distância que separa as duas áreas facilita o acesso ao Centro de formas alternativas como de bicicleta ou a pé, barateando o custo de deslocamento da população local ao Centro. Por tudo isto os movimentos populares da cidade consideram Brasília Teimosa uma parte da área central do Recife. Assim, garantir a permanência da população de menor poder aquisitivo em Brasília Teimosa e impedir processos de especulação, expulsão e encarecimento do solo urbano são reivindicações trabalhadas e debatidas no âmbito deste projeto que merecem atenção. Gente que mora e trabalha no Centro O Centro do Recife continua sendo o lugar do habitar, do trabalhar, das compras e do lazer. Uma pesquisa realizada pela Prefeitura, em 2005, para avaliar a opinião dos moradores e trabalhadores, revelou alguns de seus traços característicos e permitiu visualizar o perfil de quem mora e trabalha no Centro ou freqüenta o Centro por outros motivos. Esta pesquisa abarcou um público bastante variado, com diversidade de renda, gênero, idade e níveis de escolaridade. O estrato das pessoas com renda inferior a três salários mínimos concentrou 46% dos entrevistados, maioria constituída de moradores ou trabalhadores dos bairros centrais. 16 Figura 19 Ambulantes / comércio informal no centro. Foto: Prefeitura do Recife A faixa de renda familiar de 3 a 6 salários mínimos constituiu um terço (33%) dos entrevistados e a de 7 a 10, cerca de um décimo deles (11%). Na faixa entre 10 e 20 salários mínimos, a pesquisa abarcou 5,4% dos entrevistados e 4,6% na faixa superior a vinte salários mínimos. A diversidade do Centro, com suas atividades voltadas para vários públicos e faixas de renda, transparece nas respostas dadas sobre hábitos e atividades desenvolvidas nos seus bairros. Mais de 90% dos entrevistados fazem compras e mais de 80% trabalham ou “negociam” no bairro. Do total de entrevistados, 53% utiliza os bares e restaurantes e 37,4% os cinemas e teatros, constituindo o público que comparece ao Centro em horários noturnos. Os equipamentos de saúde foram avaliados como bons e ótimos por dois quintos dos entrevistados. Do universo que utiliza os serviços, a metade (50,7%) o considerou bom e um quarto (24,8%) o avaliou como regular. Parcela pouco significativa fez avaliações negativas. A avaliação sobre os serviços de saúde ali prestados revelou-se positiva e o resultado foi semelhante em relação aos equipamentos de lazer. Também neste caso, cerca da metade (48,6%) dos entrevistados avaliaram este item positivamente. Para quase 90% dos entrevistados a facilidade do transporte público foi um fator preponderante nas avaliações positivas quanto às atividades realizadas no Centro. Destes, 60% considerou positiva a acessibilidade ao Centro pelo transporte público oferecido. Quando perguntados sobre a moradia e trabalho, 44,2% declarou gostar e desejar permanecer no bairro onde mora ou trabalha. Este percentual amplia-se vigorosamente na pesquisa realizada pela Prefeitura do Recife no bairro da Boa Vista, núcleo histórico do Centro, onde há uma presença crescente de imóveis vazios e descaracterização provocada pela substituição de usos residenciais para os comerciais em imóveis cedidos ou simplesmente ocupados, acarretando sérios problemas de conservação. O fato de 60% dos imóveis ainda permanecerem com uso residencial e da maioria dos moradores entrevistados ter nascido, continuar residindo e ainda exercer atividades profissionais no próprio bairro, pode ser uma das razões da satisfação em residir no Centro, apesar do processo de perda de população. Do total de pessoas entrevistadas, 80% declararam que gostam de morar ou trabalhar no Centro pelas seguintes razões — estar “perto de tudo”, “existência de escola” ou “facilidade do transporte”. Moradia é central recife Figura 20. Cena cotidiana do Centro. Foto: Prefeitura do Recife Figura 21. Paisagem do bairro da Boa Vista. Foto: Prefeitura do Recife Figura 22. Edifícios históricos na Boa Vista. Foto: Prefeitura do Recife 17 Figura 23. Rua de uso misto no bairro da Boa Vista. Foto: Prefeitura do Recife A promoção habitacional no Centro do Recife Figura 24. Teatro Santa Isabel. Foto: Gilvan Barreto Figura 25. Paisagem do Centro Antigo. Foto: Gilvan Barreto 18 Os pontos positivos mencionados para aqueles que gostam de morar ou trabalhar no Centro são: o transporte, o comércio, a localização/proximidade do Centro, a tranquilidade, os serviços de saúde, as opções de lazer, as igrejas, a facilidade para compras e o estar no “Recife Antigo”. Os aspectos negativos: falta de segurança/policiamento, falta de estacionamento, presença de prédios abandonados, calçadas esburacadas, prostituição, menores de rua, deficiência na iluminação pública, excesso de barulho, trânsito e poluição. Pesam para muitos destes moradores ou trabalhadores, problemas característicos das áreas centrais metropolitanas. A segurança pública e a limpeza urbana foram os dois aspectos que pior avaliação tiveram entre os entrevistados, somando 64,5% de avaliações negativas no primeiro item e 33,5% no segundo. Embora os pontos apontados sejam conhecidos, é importante ressaltar que há um público interessado em permanecer na área do “antigo Recife”. No entanto, cabe ao poder público oferecer à população, as possibilidades de acesso à moradia e garantir, nas áreas que são as mais disputadas pelo mercado, que os núcleos habitacionais em ZEIS sejam atendidos por políticas urbanas e habitacionais. As primeiras iniciativas relacionadas à política de promoção habitacional no Recife iniciaram-se na década de 1980, com a implantação do Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social (Lei Municipal 14.947/87), conhecido como PREZEIS. Foi um processo pioneiro no Brasil de urbanização de favelas com participação de seus moradores. Atualmente, são 66 ZEIS demarcadas em todo o município, representando 12% do território da cidade e 80% das favelas. Destas, quatro estão na área central da cidade (RPA1): Coque, Coelhos, João de Barros e Santo Amaro. O PREZEIS foi uma conquista e contribuiu para um avanço nas leis e ações posteriores no campo da habitação social. Movimentos e organizações se legitimaram a partir de então como interlocutores das políticas públicas. Mesmo assim, algumas urbanizações e a promoção de moradia no Centro ainda não ocorreram, devido às limitações da atuação do poder público. Desde a extinção do BNH, em 1986, a política habitacional foi descentralizada e os municípios, sem receita específica para a habitação, passaram a utilizar outras fontes de recursos para executar a sua política urbana e habitacional. No caso do Recife, muitos finan- Moradia é central recife ciamentos foram buscados junto às agências multilaterais. Entre os programas promovidos desta maneira pelo poder público na década de 1990, destacam-se: o Programa de Erradicação de Sub-habitação (PROMORAR) e o Habitar Brasil, ambos financiados pelo BID — Banco Interamericano de Desenvolvimento. As intervenções habitacionais no Centro do Recife foram realizadas no âmbito dos programas PROMORAR (na década de 1980) e Morar no Centro (2000–2005) e, atualmente, estão previstas no Programa de Requalificação de Áreas Urbanas Centrais e no Projeto do Complexo Turístico–Cultural Recife Olinda, descritos a seguir. Para os movimentos sociais e entidades que atuam na área, qualquer intervenção urbana e habitacional no Centro do Recife deve priorizar as áreas de concentração da população pobre (favelas e palafitas), que devem ser demarcadas e asseguradas como ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social), evitando a expulsão da população devido à valorização imobiliária e à atuação do mercado. Para a produção de novas unidades habitacionais devem ser utilizados prédios e terrenos, públicos e privados, que se encontram hoje abandonados na área central. 19 Desafios no Recife PROMORAR. O PROMORAR teve como objetivo promover a urbanização de favelas no Centro, com foco em Coque e Coelhos (na RPA 1) e em Brasília Teimosa (na RPA 6) — áreas que historicamente sofreram pressões para a remoção de sua população. Apesar das ações de urbanização dessas áreas, o programa foi uma ação pontual de habitação no Centro e a área do Coque permaneceu urbanisticamente segregada. Além disso, os benefícios trazidos pelo programa à população pobre dependem hoje da demarcação e manutenção dessas áreas como ZEIS. Figura 26. Favela na área central do Recife. Foto: Gilvan Barreto Morar no Centro. Em 2000, foi lançado o projeto Morar no Centro pela Prefeitura, com foco nos bairros do Recife e da Boa Vista. Foram levantados imóveis, resultando em 60 estudos para reforma pelo Programa de Arrendamento Residencial (PAR) da Caixa Econômica Federal. No entanto, a única experiência concreta foi a adequação do Edifício São José. Essa experiência, realizada no âmbito do PAR, atendeu apenas famílias com renda superior a três salários mínimos, excluindo as de mais baixa renda. Programa de Requalificação de Áreas Urbanas Centrais. Em 2005, no âmbito do Programa de Requalificação de Áreas Urbanas Centrais, do Ministério das Cidades, a Prefeitura delimitou 11 perímetros de reabilitação integrada (PRIs) no Centro: São José (leste e oeste), Guararapes, Boa Vista, Ilha do Leite, Eixo da Av. Conde da Boa Vista, Soledade Unicap, Soledade Agamenon, Santo Amaro, bairro do Recife e Imperial. No momento está em fase de projeto a requalificação de um setor da Rua Imperial, onde está previsto o re-assentamento inicial de 1050 famílias moradoras de palafitas das comunidades de Vila Brasil e Coelhos, às margens do Capibaribe. Destas, 200 unidades serão produzidas através da requalificação de imóveis abandonados, em processo de aquisição pela municipalidade. O objetivo é reassentar as famílias em situação de risco na própria área, e promover a recuperação ambiental da orla do rio. Projeto do Complexo Turístico-Cultural Recife Olinda. Entre 2005 e 2007, as prefeituras de Recife e Olinda, o Governo do Estado e o Ministério das Cidades elaboraram o “Projeto do Complexo TurísticoCultural Recife Olinda”; com o objetivo de reabilitar áreas pertencentes à União e remanescentes da atividade portuária e ferroviária. O Projeto prevê 1,5 milhão de m2 de novas construções, dos quais cerca de 10% destinados à habitação, comércio e serviço. De 7.692 novas unidades habitacionais propostas, 1.824 (23,7%) serão destinadas ao mercado popular. 20 Figura 27. Perímetros de Reabilitação no Centro do Recife. Foto: Prefeitura do Recife Figura 28. Maquete eletrônica do calçadão na Ilha do Recife após intervenções. Foto: Prefeitura do Recife Diante da realidade enfrentada pelas milhares de famílias que não têm moradia adequada nem acesso a financiamentos e em face da falta de recursos e de políticas de produção de moradia popular, principalmente em áreas centrais, muitos movimentos urbanos de luta por moradia — no Recife e em outras cidades do Brasil — reafirmam o debate sobre a moradia digna e a reforma urbana, além de evidenciarem a urgência com que devem ser implementadas ações nesse sentido. A luta pelo direito de ocupar o espaço central do Recife como local de residência para as famílias de menor renda está apenas começando e o movimento de moradia é a vanguarda nesta luta. O debate sobre a questão da moradia tem ocupado espaço de destaque tanto para os movimentos sociais quanto para as diferentes esferas governamentais. As intervenções do Poder Público nos últimos anos demonstram como a luta pela moradia no Centro já faz parte de uma agenda que tem se mostrado cada vez mais intensa. A articulação de programas de reabilitação e habitação e a aplicação dos instrumentos do Estatuto da Cidade já promulgados são algumas das possibilidades de enfrentamento da problemática. Três temas que ganham evidência são: a consolidação das ocupações na área central, a criação de novas ZEIS e a garantia do título de propriedade aos integrantes das comunidades, da forma como foi adotada em Brasília Teimosa, um dos ícones da luta pela urbanização e que hoje é alvo constante das pressões do mercado imobiliário. Em relação ao Projeto Recife-Olinda, é preciso garantir que as propostas atendam à população de renda baixa da região central e que as ações promovidas não provoquem uma expulsão dos moradores das áreas contempladas pelo projeto. Há muitos desafios a serem enfrentados por todos os agentes interessados em desenvolver uma política de acesso à terra e à moradia digna para a população de baixa renda em áreas centrais. Destacamos alguns entraves burocráticos para acesso aos financiamentos pelas famílias de menor poder aquisitivo: a falta de subsídios; o alto custo das adequações e reformas habitacionais; a falta de controle do uso e ocupação do solo e da especulação imobiliária. A especulação imobiliária é um grande impeditivo à efetivação de uma política habitacional no Centro uma vez que os proprietários de imóveis vazios e desocupados não são punidos pelo não cumprimento da função social e quando seus imóveis são adquiridos para produção pública são avaliados por seu suposto valor de mercado, encarecendo o custo final da unidade e incentivando a especulação. Moradia é central recife No caso dos imóveis de interesse do patrimônio cultural, o elevado custo de reabilitação se deve, dentre outros motivos, pela falta de mão-de-obra especializada, que onera o valor da adequação dos imóveis para estas famílias. No caso dos imóveis vazios e subutilizados que não cumprem uma função social, a prefeitura deveria induzir ao uso por meio da aplicação do IPTU progressivo, porém ainda não houve ações neste sentido. Enquanto isso o capital imobiliário avança sobre grande parcela do território central recifense, deixando cada vez menos espaço para geração de oportunidades habitacionais populares. Tal avanço busca consolidar o Centro como um espaço da classe média, produzindo imóveis destinados a este segmento. A venda do edifício JK, dos terrenos da REFESA e a construção dos edifícios Píer Maurício de Nassau e Píer Duarte Coelho (popularmente chamados de “Torres Sandy e Junior”) são exemplos claros desta tendência. No caso do Edifício JK, de propriedade do INSS e leiloado por 2,3 milhões de reais, foram divulgadas informações de que será instalada ali uma faculdade particular, reforçando, assim, a realização de empreendimentos que não atendem à população de menor renda. A venda de parte dos terrenos da REFESA, por 55,4 milhões de reais, para um consórcio composto por diferentes empresas do Recife, representa uma grande perda para a luta por habitação na área central da cidade, pois houve privatização de uma área que deveria servir ao interesse coletivo. Enquanto não se promovem novas oportunidades de habitação popular, crescem as ocupações irregulares e a precariedade habitacional da maioria da população, em favelas, palafitas e cortiços. No Centro do Recife, há uma grande concentração de cortiços que atendem à demanda específica e considerável de quem precisa estar no Centro por questão de sobrevivência. A permanência da população de menor poder aquisitivo na área central da cidade deve ser garantida pela implementação das políticas urbanas e habitacionais, assegurando a proximidade aos locais de trabalho e a manutenção dos laços afetivos e culturais. Para representantes dos movimentos que lutam por habitação, a ocupação dos imóveis vazios e subutilizados no Centro é uma estratégia de luta pela produção de habitação social. A falta de determinados serviços e a inadequação dos imóveis, nas áreas de favelas e palafitas, são outras questões que necessitam de solução para a garantia do direito à moradia no Centro. Por fim, é preciso criar novas oportunidades de habitação de interesse social na área central do Recife, além de garantir a permanência daquelas comunidades que já se encontram na região, afinal, moradia é central. 21 Projeto “Moradia é Central — inclusão, acesso e direito à cidade” Coordenação Instituto Pólis Apoio OXFAM GB Parceiros Nacionais FASE CEARAH Periferia HABITAT para a Humanidade Fórum Nacional da Reforma Urbana Parceiros em Recife FERU — Forum Estadual de Reforma Urbana Observatório de Políticas Públicas — PE Apoio em Recife Prefeitura Municipal do Recife Publicação “Moradia é Central — Recife” Coordenação e Organização Margareth Matiko Uemura, Isadora Tami Lemos Tsukumo, Natasha Mincoff Menegon, Sidney Piochi Elaboração do texto base Ailson Barbosa (Observatório de Políticas Públicas PE) Colaboração Socorro Leite (Habitat), Lívia Miranda (UFPE / FASE) Noé Sérgio e Patrícia Antonino (Prefeitura do Recife). Revisão Marilia Akamine Risi Identidade e programação visual Imageria Estúdio Produção de mapas Renato Augusto Dias Machado Fotos Gilvan Barreto e Prefeitura do Recife 22