Universo Água
Boletim Informativo FUNDESPA - Fundação de Estudos e Pesquisas Aquáticas | Ano 02 | Nº 4 | Mai/Jun de 2015
CAMPANHA DA COSTA DE PERNAMBUCO
Uma reportagem de quase dez minutos exibida
no dia 11 de abril pelo programa de televisão
Como Será?, da Rede Globo, destacou o trabalho
de coleta de dados e de amostras no litoral
pernambucano, liderado pela pesquisadora
Elisabete de Santis Braga, professora do Instituto
Oceanográfico da USP, no âmbito do projeto
Transporte de Carbono na Região Costeira
do estado de Pernambuco (CaReCos). A
reportagem acompanhou a segunda e última
campanha do projeto, realizada em março,
que visitou três regiões distintas: a foz do Rio
Capibaribe, onde há lançamento de esgoto no
mar da região metropolitana de Recife; a Ilha de
Itamaracá, a 56 quilômetros da capital, região
Equipe mista do Projeto CaReCos - USP e UFPE
dotada de bancos de algas calcárias; e também
o preservado arquipélago de Fernando de
Noronha, distante 345 quilômetros da costa. As
20 pessoas envolvidas na campanha trabalharam
em turnos ao longo de uma semana, uma vez que
parte do material coletado teve de ser analisado
num prazo máximo de oito horas. “Uma parte
da equipe entrava pela noite fazendo análises”,
lembra a professora Elisabete, que é chefe do
Departamento de Oceanografia Física, Química
e Geológica (DOF) do Instituto Oceanográfico.
Outras amostras foram levadas para São Paulo por
avião e por terra.
A organização logística da campanha foi
complexa. Os equipamentos para coleta e análise
do material foram transportados de São Paulo a
Recife dentro de um caminhão baú, numa viagem
que durou cinco dias. Também foi necessário
alugar barcos para fazer a coleta. A reportagem
do programa Como Será? flagrou a capacidade
dos pesquisadores de se adaptar rapidamente a
imprevistos. Um barco alugado teve problemas
com o motor após a partida e foi necessário
mudar todo o cronograma. Em vez de tomar o
caminho de Itamaracá, em mar aberto, optou-se
por arrumar um barco menor e realizar o trabalho
na foz do Capibaribe. No dia seguinte, alugou-se
um barco maior e mais caro – o único disponível
para fazer o trabalho com segurança. “O custo
aumentou, mas a alternativa seria abortar o
projeto, o que, àquela altura, sairia muito mais
caro e seria frustrante”, diz a
professora Elisabete.
A primeira campanha
do CaReCos havia sido
realizada em julho de 2013
na viagem inaugural do
Barco de Pesquisa Alpha
Delphini, do IO, que partiu
do estaleiro no Ceará
diretamente para a missão
em Recife – a professora
Elisabete foi escolhida
madrinha da embarcação.
Como se trata de um barco
com estrutura de laboratório, o trabalho dos
pesquisadores foi facilitado. “Conseguíamos sair
com 10 alunos da USP e foram convidados 10
alunos da Universidade Federal de Pernambuco,
de cada vez. Ao todo, 30 pessoas embarcavam”,
diz a professora. “A integração de atividades
entre as duas universidades é um dos objetivos
do projeto”. O CaReCos envolve uma parceria
com Manuel Flores Montes, professor da UFPE,
e foi aprovado por meio de edital lançado
pelas fundações de amparo à pesquisa de São
Paulo (Fapesp) e de Pernambuco (Facepe),
em parceria com o Agence Nationale de la
Recherche, da França. O foco principal do projeto
é compreender o papel da dinâmica do carbono
na região costeira do litoral de Pernambuco e na
Professora Elisabete Santis Braga - USP
região oceânica vizinha. Uma das metas é estudar
o impacto na vida marinha do esgoto urbano
lançado no oceano pelo rio Capibaribe. O risco
é de haver eutrofização, acumulação excessiva
de matéria orgânica que reduz a quantidade de
oxigênio da água, prejudicando a vida marinha.
Outro objetivo do CaReCos é verificar a presença
de áreas com processos de acidificação marinha,
processo gerado pelo excesso de gás carbônico da
atmosfera absorvido pelos oceanos. “Os oceanos
absorvem 48% do CO2. Buscamos compreender
os limites do equilíbrio desse processo”, afirma
Elisabete.
Os primeiros resultados do projeto indicam
desequilíbrio no estuário do Capiberibe, mas
situação estável na Ilha de Itamaracá, onde
os bancos de algas calcárias contribuem
naturalmente para a absorção do carbono. Em
Fernando de Noronha não foi detectada influência
da poluição lançada na costa. “Mas o que
acontece no arquipélago ainda é uma incógnita.
Vamos precisar de estudos em mais pontos do
arquipélago para compreender como acontece o
sequestro de carbono”, diz a professora.
Comunidades recompensadas
(pág. 2)
PROJETOS: Planador embaixo
d’água (pág. 3)
SUBAQUÁTICO: Os oceanos e a
mudança climática (pág. 4)
FUNDESPA
Editorial – O valor de uma boa equipe
Sandra Monteiro
A qualificação da equipe técnica
da Fundespa tem sido um requisito
fundamental para a prestação de
serviços de excelência aos professores
e pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP, e também para a
coordenação e execução de projetos
encomendados por empresas e instituições, atendendo, assim, à nossa
vocação primordial de apoiar tal
Instituto e constituindo fonte de receita importante para a Fundação, num
momento de crise econômica como o
atual. O IO, ao mesmo tempo em que
conhece e conta com o nosso corpo
técnico, sabe que tem uma responsabilidade na sua formação. Parte da equipe
da Fundespa é composta por profissionais graduados no próprio IO, o que
lhes garante, além de uma formação
bastante sólida, uma grande familiaridade com o conteúdo dos projetos,
vantagem que facilita a interação com
todos os nossos clientes.
Faz parte das estratégias da Fundespa
continuar a valorizar e qualificar sua
equipe técnica, pois acreditamos que
isso é essencial para seguir apoiando
as atividades do IO ligadas à graduação, à pesquisa, à pós-graduação e
à cultura e extensão, desde o apoio
à captação de recursos até a organização e a administração de projetos
de pesquisa.
PROJETOS
COMUNIDADES RECOMPENSADAS
Vinte e oito comunidades de pesca artesanal,
de 4 municípios do litoral norte paulista, estão
sendo beneficiadas por um inédito programa de
compensação ambiental, baseado na capacitação
profissional dos pescadores e seus familiares e
na recuperação da infraestrutura de trabalho.
Trata-se do Programa de Ação Participativa para
a Pesca (PAPP), gerenciado, em grande parte,
pela Fundespa. A iniciativa, que começou a ser
implantada em 2013, é fruto de uma exigência
do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para
licenciar a construção, pela Petrobras, de um
gasoduto marítimo, do campo de Mexilhão, na
bacia de Santos. Pescadores dos municípios de
Ilhabela, Caraguatatuba, Ubatuba e São Sebastião,
que atuam em áreas próximas ao traçado do
gasoduto, tiveram de parar de pescar durante a
construção da obra. Para compensar o prejuízo
que sofreram, o Ibama exigiu um conjunto de
ações nessas comunidades – e a Fundespa, que
tem tradição em gerenciar projetos no litoral
norte, foi contratada pela Petrobras para executar
o PAPP. Doze funcionários da Fundação estão
diretamente envolvidos com o projeto, prestando
contas todos os meses à companhia petrolífera
sobre a evolução dos trabalhos.
Barco Comandante Souza, em fase final de
reforma, em Caraguatatuba
2
Membros da comunidade de Picinguaba,
Ubatuba, em curso de corte e costura
Não se tratou simplesmente de oferecer
recompensas. O programa teve início com um
diagnóstico participativo, em que os pescadores
foram ouvidos sobre suas necessidades. Um
plano de 3 anos de duração foi detalhado
para implementar as ações, que devem estar
concluídas até janeiro de 2016. O PAPP tem três
vertentes principais. Uma delas é relacionada à
execução de 13 obras civis, como a construção de
boxes de comercialização de pescado e a reforma
de fábricas de gelo, de ranchos de pesca e de uma
sede de colônia de pescadores. A regularização
de documentos e de licenças dessas instalações
também foi providenciada.
A segunda vertente é voltada para a recuperação
de embarcações. Cinco barcos foram adquiridos
para substituir embarcações com estrutura
comprometida, e 26 estão sendo reformados. Da
mesma forma, 14 canoas estão sendo substituídas.
“O Ibama solicitou que as ações de compensação
não resultassem numa ampliação do esforço de
pesca, para consequentemente não aumentar
o impacto sobre os estoques pesqueiros”, diz o
oceanógrafo Bauer Rodarte de Figueredo Rachid,
gerente técnico-científico da Fundespa. “Por isso,
a frota de barcos e canoas não foi ampliada, mas
apenas recuperada e modernizada. Motores
foram substituídos”.
A terceira frente envolve cursos de capacitação
sobre temas variados, tais como gestão,
cooperativismo e associativismo, segurança
do trabalho, boas práticas sanitárias, mecânica,
entre outros. Mulheres de pescadores também
foram beneficiadas pelos cursos. “O Senai
levou um caminhão-escola às comunidades,
a fim de ministrar um curso de mecânica”, diz
Bauer. Segundo ele, a execução do programa
tem produzido mudanças de comportamento
e atitudes nos membros das comunidades de
pescadores artesanais, que reagem bem às
novidades. “Mais do que cumprir as especificações
solicitadas pelo órgão ambiental, o programa tem
buscado atender as demandas das comunidades,
para garantir a sustentabilidade dos projetos. Esta
postura tem produzido um grau de satisfação
elevado das comunidades com relação ao
programa”, afirma.
Participantes dos cursos recebem certificados
O relato dos participantes dos cursos atesta essa
satisfação. “Foi excelente. Devia ter tido esse
curso 10 anos atrás”, disse José Martins, pescador
e presidente da associação de pescadores de
Camaroeiro, em Caraguatatuba, sobre o curso
de gestão ministrado na comunidade. “Eu nunca
entrei numa sala de aula, e depois desse curso
estou pensando em entrar na escola”, afirmou o
pescador José Anselmo, da mesma comunidade.
A dona de casa Tamara, esposa de um pescador
de Saco do Indaiá, em Ilhabela, aproveitou o curso
para organizar a vida familiar. “Já estou colocando
o conteúdo do curso em prática lá em casa”, disse.
PLANADOR EMBAIXO D’ÁGUA
O físico e oceanógrafo Marcelo Dottori viajou
com a família nos feriados do final do ano, mas
não teve muita folga: consultava o celular ou
o computador em intervalos de cerca de seis
horas. Ele monitorava à distância a missão de
um equipamento submersível não tripulado que
percorreu mais de 1,5 mil quilômetros na costa
coletando dados sobre temperatura, salinidade,
turbidez, concentração de clorofila e de carbono
dissolvido na água. Denominado Veículo
Autônomo Submarino (AUV, na sigla em inglês),
o equipamento fabricado nos Estados Unidos e
adquirido pelo Instituto Oceanográfico (IO) da
Universidade de São Paulo (USP) fazia sua viagem
inaugural de 78 dias numa região do oceano a 100
quilômetros do porto de Santos. Com 1,80 metro
de comprimento e 50 quilos de peso, aparência
de um torpedo e dotado de um leme e duas abas,
o AUV funciona como uma espécie de planador
embaixo d’água. Desce a uma profundidade de
até 1000 metros e depois volta à tona, mesmo não
tendo um propulsor. Tais manobras são possíveis
graças a dispositivos internos que transferem ar de
uma parte para outra do equipamento e alteram
as posições de alguns elementos, mudando sua
densidade e seu centro de gravidade. Quando
isso acontece, ele se inclina e faz mergulhos
ou subidas em diagonal, orientados pelo leme
e as abas. “A melhor analogia é mesmo a de
um planador, que sobe a uma determinada
altitude e direciona o voo planando. Só que isso
acontece embaixo d’água”, diz Dottori, professor
do Departamento de Oceanografia Física do IO,
explicando por que este AUV é conhecido como
glider, planador em inglês. O glider submerge,
coleta dados por meio de sensores e os armazena.
Depois de algumas horas de mergulho, retorna à
superfície, onde permanece por curtos períodos,
em geral de 5 a 15 minutos, para evitar incidentes
com embarcações. Nesse momento, transmite
as informações recolhidas para um satélite, que
as repassa para uma estação em terra. Essa, por
sua vez, envia os dados para um computador
instalado na sala de Dottori, no IO. Dessa forma,
ele, mesmo em viagem, conseguia acessar
os dados remotamente. Cada descida e cada
subida haviam sido previamente programadas
num dos dois computadores do equipamento.
Mas o pesquisador podia dar novas ordens
para o glider quando ele voltava à superfície.
Foi preciso fazer isso quando o equipamento
não conseguiu chegar aos locais programados,
porque correntes marítimas o arrastavam. “Ele
foi pego por um sistema muito forte que o levou
para uma latitude ao norte de Santa Catarina.
Tivemos de trazê-lo para mais perto da costa para
conseguir devolvê-lo ao local programado, numa
latitude mais próxima de Santos”, diz o professor.
A missão inaugural teve início na tarde de 17 de
novembro de 2014, quando o AUV foi lançado
por uma embarcação alugada, e terminou na
madrugada de 3 de fevereiro de 2015, quando o
barco Alpha Delphini, do Instituto Oceanográfico,
resgatou o equipamento a cerca de 100 km de
Santos. O glider submersível é um equipamento
próprio para a coleta massiva de dados no mar.
Sua operação é mais barata do que se a missão
fosse feita por uma embarcação alugada e,
como não é tripulado e pode ser monitorado
remotamente, também envolve menos custos
com recursos humanos. Outra vantagem tem a
ver com a densidade das informações obtidas. Ele
consegue coletar mais informações no tempo e
no espaço do que uma missão convencional. Mas
tem aplicações precisas: só coleta informações
por meio de sensores. “Ele não serve, por
exemplo, para pesquisas que exigem recolher
e trazer para análise amostras de água”, explica
Dottori. O grupo do professor do IO mantém
uma colaboração com pesquisadores do Coastal
Ocean Observation Lab, da Universidade Rutgers,
nos Estados Unidos, que tem grande experiência
no uso científico de gliders submersíveis. A
cooperação recebe financiamento do Office of
Professor Marcelo Dottori - Físico e Oceanógrafo
Naval Research Global (ONRG), instituição ligada à
Marinha norte-americana. A Fundespa administra
a aplicação dos recursos utilizados pelo grupo
do IO no âmbito dessa parceria. A colaboração é
útil para ambas as partes. “Os pesquisadores de
Rutgers têm nosso apoio para lançar e recuperar
seus gliders no Atlântico Sul, e a gente se beneficia
da experiência e do conhecimento acumulado
por eles. Eles têm uma flotilha impressionante”,
diz o professor. Os pesquisadores de Rutgers
lançaram, em janeiro de 2013, um glider para
dar uma volta completa no Atlântico Sul. O RU
29, como foi batizado, saiu da Cidade do Cabo,
na África do Sul, fez uma parada de manutenção
nas Ilhas Ascensão, bem no meio do Atlântico, já
próximo à linha do Equador, e de lá desceu até
Ubatuba, onde foi resgatado no dia 18 de maio de
2014 por uma equipe do IO. A viagem de volta do
RU 29 estava programada para começar no final
de junho, a partir de Ubatuba. Simultaneamente,
o AUV monitorado por Marcelo Dottori deveria
partir para sua segunda missão na costa brasileira,
agora com um mês de duração.
DROPS
PARA GARANTIR A QUALIDADE DA ÁGUA
A exposição Cultivando Água Boa se encerrou no dia 26 de
junho no Museu Oceanográfico do Instituto Oceanográfico (IO) da
USP. Os painéis, imagens e infográficos da mostra apresentaram
a experiência do Cultivando Água Boa, programa socioambiental
de gestão de bacias hidrográficas criado pela Itaipu Binacional,
premiado como o projeto de Melhores Práticas de Gestão de Água
no âmbito da iniciativa Water for Life 2005 – 2015, das Nações
Unidas. Com projetos participativos realizados em 29 municípios do
oeste do Paraná, o Cultivando Água Boa envolveu 2,2 mil parceiros
e se estruturou como o primeiro grande programa de gestão por
bacias hidrográficas do Brasil. A iniciativa da exposição foi da
Itaipu Binacional e do Instituto Ecoar para a Cidadania. “Devolver
a qualidade da água doce é essencial também para proteger os
ambientes costeiros e marinhos”, ressaltou o vice-diretor do IO,
Michel Michaelovitch de Mahiques, na cerimônia de abertura da
exposição, realizada no dia 10 de abril.
PREMIADOS COM O MUNDOGEO#CONNECT
O Projeto Escolas ao Mar, desenvolvido pela equipe de extensão
e educação ambiental da Fundespa e executado com a Escola
da Vila, obteve o 3º lugar na categoria Educação do Prêmio
MundoGeo#Connect, entregue no dia 6 de maio, em São Paulo.
O projeto promove estudos do meio – excursões de caráter
científico – em cidades do litoral, com estudantes do ensino
médio. Em viagens de três dias, os alunos coletam amostras de
água e de animais e fazem análises, monitorados por técnicos
e professores. Os estudantes também produzem relatórios de
atividades e apresentam os resultados. O primeiro colocado na
categoria foi o projeto Google Earth na Sala de Aula, que busca
treinar professores e estudantes no uso do software gratuito
Google Earth. Um atlas digital produzido pelo Instituto Federal
Baiano, de Salvador, ficou em 2º lugar. O MundoGEO#Connect
premiou projetos em cinco categorias: Educação, Infraestrutura e
Utilities, Gestão Pública, Infraestrutura de Dados Espaciais e Meio
Ambiente.
3
FUNDESPA
SUBAQUÁTICO
CONTRIBUIÇÃO REGIONAL PARA O CONHECIMENTO
DO EFEITO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Duzentos e oitenta e cinco pesquisadores e
gestores ambientais de 38 países estiveram
em Santos (SP), entre os dias 23 e 27 de março,
participando do 3º Simpósio Internacional
Sobre os Efeitos da Mudança Climática nos
Oceanos Mundiais. O evento, onde foram
apresentados mais de 300 trabalhos científicos,
mostrou o estado da arte no conhecimento sobre
o efeito das mudanças climáticas nos oceanos.
“Ficou clara a importância de entender tais efeitos
de uma forma mais complexa e abrangente,
incluindo abordagens que envolvam não apenas
experimentos de curta duração”, disse Alexander
Turra, professor do Departamento de Oceanografia Biológica do Instituto Oceanográfico (IO) da
Universidade de São Paulo (USP), que ao lado de
Michel de Mahiques, vice-diretor do IO, foi um dos
responsáveis pela organização do evento. O IO foi
a instituição anfitriã do simpósio. “O Instituto teve
a oportunidade de mostrar seu trabalho como
centro de referência no tema e protagonista no
estímulo a pesquisa em mudanças climáticas”,
afirmou o professor. A Fundespa, desempenhando
sua missão de apoiar as atividades do IO, teve um
papel na organização do evento, por meio da
produção de material e de apoio à captação de
recursos e à oferta de cotas de patrocínio.
Organizado pelo International Council for the
Exploration of the Sea (Ices), a Intergovernmental
Oceanographic Commission (IOC) da Unesco e a
North Pacific Marine Science Organization (Pices),
o simpósio teve participação expressiva de
pesquisadores de países da América Latina e de
países do Atlântico Sul, em trinta e nove palestras,
seis workshops e doze sessões sobre temas
variados. As duas edições anteriores do simpósio
foram sediadas na Espanha, em 2008, e na Coreia
do Sul, em 2012, e tiveram contribuição mais
marcante das comunidades científicas da Europa
e da Ásia.
Entre as conclusões dos debates, destacou-se,
por exemplo, a necessidade de ampliar estudos
em determinados temas de pesquisa. “Há efeitos
sinérgicos das mudanças climáticas. A pesca
e a aquicultura, por exemplo, podem perder
produtividade. Animais e organismos mais
suscetíveis podem perder espaço e ficar sujeitos
a predadores, e pode acontecer uma mudança de
ocorrência geográfica de espécies e expansão de
limites de distribuição para as áreas mais quentes”,
explicou Turra. Outro efeito é a acidificação dos
oceanos, consequência da absorção pelo mar
do gás carbônico lançado na atmosfera. “Esse
processo ainda é pouco entendido. É necessário
investir mais em pesquisas sobre o assunto”, diz
Turra. Um consenso entre os participantes do
evento foi a necessidade de agregar pesquisadores
do campo das ciências sociais aos estudos sobre o
efeito das mudanças climáticas. “Essa contribuição
é necessária para que consigamos entender
como os seres humanos provocam as mudanças
climáticas e sentem seus efeitos, como percebem
o problema e de que forma ele influencia o dia a
dia das pessoas”, afirma.
Um dos pontos marcantes do simpósio foi a
apresentação do norte-americano Chris Field,
diretor do Departamento de Ecologia Global da
Carnegie Institution, que falou sobre o último
relatório de avaliação do Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – ele participou
da elaboração do documento. “O pesquisador
reforçou a necessidade de estudos nos oceanos
para compreensão do efeito das mudanças
climáticas”, diz o professor. As conclusões do
simpósio, observa, também têm um caráter
político e estratégico importante. Isso porque
seus desdobramentos irão compor base de
conhecimento que será levado para discussões
internacionais sobre o efeito das mudanças
climáticas e biodiversidade. Uma dessas
oportunidades será a 21ª Conferência das Partes
da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
a Mudança do Clima (COP 21), que acontece em
dezembro, em Paris, onde se tentará estabelecer
um novo acordo sobre o clima, para substituir o
Protocolo de Kyoto a partir de 2020. Outro fórum
relevante é o United Nations Environment Assembly,
programado para maio de 2016 em Nairóbi,
no Quênia. “Os dados compartilhados pelos
pesquisadores no simpósio serão levados a esses
fóruns de discussão. Isso é importante também
para mostrar que na América do Sul e Central há
inúmeros grupos produzindo conhecimento de
alta qualidade. Está claro que o olhar regional, e
não apenas o global, deve ser contemplado nas
tomadas de decisão”, afirma Alexander Turra.
Apresentação de Chris Field, diretor do Departamento de Ecologia Global da Carnegie Institution
EXPEDIENTE
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Endereço: Av. Afrânio Peixoto, 412 - Butantã, São Paulo, SP
Cep: 05507-000 - Tel.: (11) 3816-2737
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Jornalista Responsável: Fabrício Marques (DRT - 1626/DF)
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Fotografia: José Carlos Barretta
Tiragem: 2.000 exemplares
Periodicidade: indefinida
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