Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO Educação Infantil: uma reflexão sobre a formação
inicial de professores
-d.o.i.: 10.13115/2236-1499.2010v1n3p85
Andréa Libério 1
“Para ensinar há uma formalidadezinha a cumprir –
saber”.
Eça de Queirós
Resumo
A problematização da especificidade da educação infantil
e sua inalienável e intrínseca relação com a formação inicial dos
professores, que atuam nesse nível de ensino, chamaram-nos a
atenção no momento em que, nacionalmente, eram lançados dois
estudos produzidos por pesquisadores de renome onde esboçar-se
um quadro negativo da educação brasileira no que versa o
processo da formação profissional dos educadores da educação
básica. O que pretendemos, com o presente artigo, é suscitar a
discussão respaldada nos estudos de diversos especialistas que
tratam do tema e, neste sentido faremos um trabalho
interdisciplinar que vai da Pedagogia à Psicanálise, passando
pelas Ciências do Direito. Nesta pluralidade dialógica
consideramos autores como: Kramer; Didonet; Haddad, entre
outros, além da análise de alguns textos legais que abordam a
temática em foco.
Palavras-chave: Pedagogia da infância, desenvolvimento
infantil, educação infantil, formação de professores.
1
Psicopedagoga e Pedagoga pela UPE/Universidade de Pernambuco.
Pesquisadora e professora de educação infantil. Membro efetivo do Conselho
municipal dos direitos da criança e do adolescente no Município de
Garanhuns/PE.
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 85
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO 1.
As especificidades da educação infantil
Principiamos esta discussão na busca por esclarecer
as potencialidades referentes à primeira infância respaldando-nos
em diversos estudos que aclaram nosso entendimento sobre a
educação infantil enquanto processo de mediação para a
aprendizagem e o desenvolvimento de crianças pequenas.
Dieuzeid, citado por Fonseca (2004, p.160) já dizia em 1978,
Do ponto de vista do desenvolvimento intelectual,
as pesquisas mais recentes parecem indicar que, em
relação ao nível de inteligência geral possuído aos
17 anos, cerca de 50 por cento do acervo intelectual
acumulado já estão fixados aos 4 anos, enquanto os
30 por cento seguintes são adquiridos entre os 4 e 8
anos. A maior parte do tempo passado na escola
entre 8 e 17 anos é portanto dedicada à aquisição
dos 20 por cento restantes, o que sugere que a atual
distribuição dos recursos pelos diferentes níveis de
escolaridade merece ser revista. Alguns economistas
chegam a pensar que se as autoridades educacionais
investissem de forma sistemática e adequada na
educação pré-escolar, poder-se-ia economizar
substancialmente nos investimentos escolares
subseqüentes.
Legitimando as afirmativas deste autor, constatamos
que,
Pesquisas
sobre
desenvolvimento
humano,
formação da personalidade, construção da
inteligência e aprendizagem nos primeiros anos de
vida apontam para a importância e a necessidade do
trabalho educacional nesta faixa etária. Da mesma
forma, as pesquisas sobre produção das culturas
infantis, história da infância brasileira e pedagogia
da infância, realizadas nos últimos anos,
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 86
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO demonstram a amplitude e a complexidade desse
conhecimento. Novas temáticas provenientes do
convívio da criança, sujeito de direitos, com seus
pares, com crianças de outras idades e com adultos,
profissionais distintos da família, apontam para
outras áreas de investigação. Neste contexto, são
reconhecidos a identidade e o papel dos
profissionais da Educação Infantil, cuja ação
complementa o papel da família. A prática dos
profissionais da Educação Infantil, aliada à
pesquisa, vem construindo um conjunto de
experiências capazes de sustentar um projeto
pedagógico que atenda à especificidade da formação
humana nessa fase da vida (BRASIL, 2006, p. 7).
É em consonância com esses pressupostos que o
binômio cuidar e educar constitui-se como a base indissociável de
sustentação da educação infantil. O Referencial Curricular
Nacional para a Educação Infantil - RECNEI, documento criado
pelo Ministério da Educação para nortear as ações de educação e
cuidado nas instituições de educação de crianças pequenas
postula que,
Contemplar o cuidado na esfera da instituição da
educação infantil significa compreendê-lo como
parte integrante da educação, embora possa exigir
conhecimentos, habilidades e instrumentos que
extrapolam a dimensão pedagógica. Ou seja, cuidar
de uma criança em um contexto educativo demanda
a integração de vários campos de conhecimentos e a
cooperação de profissionais de diferentes áreas. A
base do cuidado humano é compreender como
ajudar o outro a se desenvolver como ser humano.
Cuidar significa valorizar e ajudar a desenvolver
capacidades. O cuidado é um ato em relação ao
outro e a si próprio que possui uma dimensão
expressiva e implica em procedimentos específicos
(BRASIL, 2001, p. 24).
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 87
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO Em contribuição ao disposto em tela, CAMARGO
(2005, p. 12) advoga que,
Na instituição de ensino o cuidado é essencial,
embora não baste a operacionalização de ações
voltadas à satisfação mecânica das necessidades
básicas de alimentação, repouso ou higiene. Embora
indispensáveis em si mesmas, essas situações são
também, ou sobretudo, momentos privilegiados de
contato social nos quais as crianças são chamadas a
compor os enredos de práticas que, além de as
organizarem em sua rotina individual, as solicitam
em suas possibilidades potenciais de aprendizagem.
Já o ato de educar surge, portanto, no RCNEI como a
possibilidade de,
[...] propiciar situações de cuidados, brincadeiras e
aprendizagens orientadas de forma integrada e que
possam contribuir para o desenvolvimento das
capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e
estar com os outros em uma atitude básica de
aceitação, respeito e confiança, e o acesso, pelas
crianças, aos conhecimentos mais amplos da
realidade social e cultural. Neste processo, a
educação poderá auxiliar o desenvolvimento das
capacidades de apropriação e conhecimento das
potencialidades corporais, afetivas, emocionais,
estéticas e éticas, na perspectiva de contribuir para a
formação de crianças felizes e saudáveis (BRASIL,
2001, p, 23).
Contudo, embora no processo de construção do
conhecimento educação e cuidado sejam indissociáveis,
contrariando o que é posto no campo teórico, na prática existe
uma cisão entre o cuidar e o educar visto que,
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 88
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO Tradicionalmente, na educação de crianças de 0 a 3
anos predominam os cuidados em relação à saúde, à
higiene e à alimentação, enquanto a educação das
crianças de 4 a 6 anos tem sido concebida e tratada
como antecipadora/preparatória para o Ensino
Fundamental. Esses fatos, somados ao modelo de
“educação escolar”, explicam, em parte, algumas
das dificuldades atuais em lidar com a Educação
Infantil na perspectiva da integração de cuidados e
educação em instituições de Educação Infantil e
também na continuidade com os anos iniciais do
Ensino Fundamental (BRASIL, 2006,p. 9).
Podemos
deduzir
daí
que
a
dicotomia
educação/cuidado acaba por assumir uma amplitude ameaçadora
e danosa na proporção que de maneira equivocada e
preconceituosa sugere a divisão classificatória de que na creche
cuida-se, enquanto na pré-escola educa-se. Legitimando assim a
prática do cuidado apartado do processo educativo e a prática de
educar em detrimento do cuidar. Nesse sentido Didonet, apud,
Costa (2008:98) esclarece:
Não há um conteúdo “educativo” na creche
desvinculado dos gestos de cuidar. Não há um
“ensino”, seja um conhecimento ou um hábito, que
utilize uma via diferente da atenção afetuosa, alegre,
disponível e promotora da progressiva autonomia da
criança.
Colaborando com este olhar julgamos pertinente
ressaltar que a prática de dicotomizar e sectorizar na educação de
crianças pequenas não pode ser dissociada do contexto histórico,
social e cultural de onde demanda e onde está inserida. Sendo
necessário não esquecer, sobretudo, os aspectos da educação
compensatória e da privação cultural (KRAMER, 1982;
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 89
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO HADDAD, 2002), desenvolvida a partir da década de 1970 na
política brasileira de educação pré-escolar que marcou a história
dessas instituições, como é o caso especifico da assistência
prestada pelas creches em benefício das crianças pobres
objetivando imunizá-las da condição de miséria, privação cultural
e negligência parental na qual estavam inseridas, conforme
ratifica Haddad (2002:25-6):
É nesse contexto que entendemos a fase inicial das
creches, caracterizada pelo prevalecimento da
iniciativa privada, de caráter assistencialfilantrópico, ocupando o lugar da falta econômica e
moral da família. [...] Sua marca de instituição
emergencial se evidencia na precariedade e
insuficiência de recursos; má-qualidade do
atendimento; nos quadros profissionais deficitários
sem formação específica e muitas vezes composto
por voluntariado; na baixa razão adulto-criança; na
ausência de legislação específica e normas básicas
de funcionamento.
Consideramos importante frisar que desde seus
primórdios a educação infantil traz em seu encalço o perverso
ranço da divisão de classes, esse fato histórico é confirmado no
documento legal que institui a Política Nacional de Educação
Infantil (BRASIL, 2006, p. 8-9):
Desde suas origens, as modalidades de educação das
crianças eram criadas e organizadas para atender a
objetivos e a camadas sociais diferenciadas: as
creches concentravam-se predominantemente na
educação da população de baixo poder econômico,
enquanto as pré-escolas eram organizadas,
principalmente, para os filhos das classes média e
alta. Embora as creches não atendessem
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 90
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO exclusivamente a crianças de 0 a 3 anos e as préescolas não fossem apenas para as crianças de 4 a 6
anos, é importante ressaltar que, historicamente,
essas duas faixas etárias foram também tratadas de
modo distinto.
Voltando a tratar da especificidade da infância,
podemos afirmar que esta clama por um olhar e uma prática que
atinem para essa singularidade respondendo aos seus inerentes
anseios, e é, desta maneira que chamamos a atenção para a
inalienável asseveração de que,
A qualidade do trabalho que pode vir a ser
encaminhado nesse segmento de ensino estará
sujeita a qualificação do educador que a ele se
dedique, o que inclui a sua leitura atenta sobre o seu
espaço de atuação profissional, bem como o seu
investimento no estudo e na busca de
fundamentação teórica sobre a infância, o cuidado, o
ensino e a aprendizagem (CAMARGO, 2005, p. 14).
Podemos concluir que é essa peculiaridade das
crianças pequenas que termina por determinar a especificidade
própria que caracteriza ou deve caracterizar os professores da
educação infantil. Nesse sentido, entende-se que:
De facto, o educador da criança pequena necessita
de um saber fazer que, por um lado, reconheça essa
“vulnerabilidade” social das crianças, e, por outro
lado,
reconheça
as
suas
competências
sociopsicológicas que se manifestam desde a mais
tenra idade, por exemplo, nas suas formas precoces
de comunicação. (David, apud, OliveiraFormosinho, 2008:136).
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 91
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO É sobre este imperativo que trataremos no tópico a
seguir.
2.
A formação inicial de professores da educação
infantil
No que concerne à habilitação para o exercício da
docência na educação básica a LDBEN em seu artigo 62
esclarece que a formação de professores para atuar na educação
infantil, no ensino fundamental e no ensino médio dar-se-á em
cursos superiores de licenciatura e graduação plena. O artigo em
tela assegura ainda a legitimidade da formação mínima realizada
nos cursos em nível médio na modalidade normal para atuação
em turmas de creche, pré-escola e nos anos iniciais do ensino
fundamental.
Todavia, a despeito da legitimação legal e do
reconhecimento da titulação em nível superior e médio para atuar
na educação básica a qualidade da formação desses profissionais
têm deixado a desejar. Pesquisa recente encomendada pela
Revista Nova Escola e realizada pela Fundação Carlos Chagas
(GURGEL, 2008, p. 48-53) traz alarmantes dados que dão conta
do descompasso entre o curso de Pedagogia, a formação e a
escola onde esses futuros pedagogos irão atuar.
Segundo a pesquisa a educação infantil destaca-se
como um “segmento desvalorizado” à proporção que a pouca
importância dada a mesma no currículo, enquanto disciplina
obrigatória, reflete-se no fato de que dos 11% de disciplinas que
tratam dos níveis e das modalidades de ensino em média apenas
duas preparam para o trabalho com crianças pequenas. Sendo
necessário ressaltar que na maioria das vezes, em se tratando da
educação de crianças de creche e pré-escola, a organização dos
currículos em campos disciplinares conforme assinala Kishimoto
(2008:108-9) “tem efeitos catastróficos”, pois, desconsidera que
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 92
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO “a criança pequena aprende em contato com o amplo ambiente
educativo que a cerca, que não pode ser organizado de forma
disciplinar”. Neste sentido cabe questionarmos “como levar o
profissional a compreender que a criança pequena aprende de
modo integrado, se ofereço conteúdos que não tratam da
epistemologia desses conhecimentos?
Esse olhar holístico sobre a criança é instituído pelo
artigo 29, da Lei 9394/96, que preconiza caber à educação infantil
o desenvolvimento integral das crianças em seus aspectos físico,
psicológico, intelectual e social, de forma complementar a ação
da família e da comunidade. A importância de uma ação
educativa que preserve essa integralidade infantil é defendido por
Zabalza, citado por Oliveira-Formosinho (2008:135):
O aluno da escola infantil é um sujeito não
sectorizável. É toda criança que se vai
desenvolvendo o afectivo, o social, o cognitivo, é
um todo integrado com uma dinâmica intensa em
que o eixo fundamental de vertebração das
sucessivas experiências, é o Eu e as relações que,
numa relação bipolar de ida e de volta, de
influenciar e ser influenciado, a partir dele se
estabelecem com a realidade ambiental.
Advogamos, portanto, a pertinência de uma reflexão
que nos leve a compreender a estreita ligação entre a qualidade da
formação do egresso, sobretudo dos cursos de Pedagogia com a
qualidade da escola e da conseqüente aprendizagem do educando,
conforme ratificam Christine Pascal e Anthony Bertron citados
por Sanches (2003, p. 57),
Há clara evidência de que a qualidade do professor é
um determinante central na qualidade e eficiência
dos programas de Educação Infantil [...] se
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 93
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO quisermos melhorar a qualidade da educação de
crianças pequenas devemos nos preocupar com a
qualidade de seus professores. Em toda Europa os
países estão reconhecendo isso e tomando medidas
para melhorar os cursos de formação de professor de
Educação Infantil.
Voltando a tratar na formação dos professores, outra
pesquisa, realizada dessa vez pelo Fórum em Defesa da Educação
Infantil em Pernambuco, tendo como campo empírico o olhar das
próprias professoras que atuam na educação das crianças
pequenas, prioriza a formação dos professores em nível médio
como alvo, e afirma que:
Todas foram unânimes em considerar que, para elas,
os cursos de magistério vivenciados não atendem às
necessidades de formação de professoras,
mostrando-se deficitários em relação aos
conhecimentos e teorias mais atuais sobre o
desenvolvimento da criança e, principalmente,
desconsiderando a modalidade de educação infantil
[...]. A principal conclusão sobre a visão das
professoras com relação às suas experiências com os
cursos de magistério é de que o mesmo não foi
capaz de responder às questões fundamentais
evidenciadas pela prática, ou seja, “o que ensinar” e
“como ensinar” (BANDEIRA, 2002, p. 66-67).
Voltando aos cursos de Pedagogia, esses, também,
foram objetos da análise da antropóloga Eunice Durham, 2 que
contundentemente denuncia e assegura que,
2
Disponível em: http://veja.abril.com.br/261108/entrevista.shtml acessado em
22/11/2008.
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 94
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO As faculdades de pedagogia formam professores
incapazes de fazer o básico, entrar na sala de aula e
ensinar a matéria. Mais grave ainda, muito desses
profissionais revelam limitações elementares: não
conseguem escrever sem cometer erros de ortografia
simples nem expor conceitos científicos de média
complexidade. Chegam aos cursos de pedagogia
com deficiências pedestres e saem de lá sem ter se
livrado delas.
As referidas pesquisas acabam por convergir 3 na
constatação de que a universidade parece considerar menos
importante preparar o estudante para a prática docente. A
preocupação maior redunda em dar vazão ao repasse de um
elenco de teorias sociológicas, antropológicas, psicológicas,
filosóficas, etc., com mais um agravante, esses cursos de
formação não atentam para a pertinente e inalienável relação
teoria e prática.
A preocupação com dicotomia teoria-prática no
processo de formação docente encontra eco no próprio Plano
Nacional de Educação, Lei Federal 10. 172/2001, que ao tratar da
formação inicial dos professores aponta em suas diretrizes o
desafio de romper com o divórcio teoria e prática.
Em meio a este turbilhão de indefinição e pouca
clareza sobre como de fato se forma um professor, a educação
infantil termina por carregar o estigma de ser esquecida ou
relegada pelos cursos de pedagogia à posição de menor valor
tanto no trato teórico quanto no campo da prática.
Podemos inferir daí, duas verdades: primeiramente,
que há fraturas nessa formação inicial, na forma como ela está
sendo concebida, nos cursos de formação de professores, mais
3
Evidentemente trata-se aqui de conjecturas visto que não foi possível no
universo do presente trabalho, investigar tal afirmação aqui apresentada. Tratase portanto de uma inferência elaborada a partir dos resultados advindo de
minha própria formação universitária em curso de pedagogia.
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 95
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO especificamente os cursos de Pedagogia e, em segundo lugar,
essas fraturas comprometem em muito o processo educativo. A já
citada pesquisa da Fundação Carlos Chagas, constata de forma
desanimadora que:
O curso de Pedagogia, que deveria garantir a
competência de quem leciona na Educação Infantil e
nas primeiras séries do Ensino Fundamental, forma
profissionais despreparados para planejar, ensinar e
avaliar. O resultado é a péssima qualidade da
Educação no país (GURGEL, 2008, p. 50).
Então como falar de uma especificidade de
professores para atuar na educação infantil se a própria instituição
formadora negligencia este aspecto da formação? Se a legislação
(BRASIL, 2001) reconhece a educação infantil como primeira
etapa da educação básica, afirmando inclusive que o objetivo
maior deste nível de ensino é promover o desenvolvimento
psicológico, cognitivo, afetivo e social de crianças de 0 a 6 anos 4 ,
como podem os cursos de pedagogia manterem-se alheios a
pertinência de uma formação de qualidade àqueles profissionais
que carregam ou deviam carregar consigo o compromisso de dar
conta do desenvolvimento integral das crianças pequenas?
Convém ressaltar, ainda, os questionamentos
propostos por Nascimento (In FARIA e PALHARES (Orgs.),
2003, p. 108) para os casos nos quais essa formação acontece.
Para esta pesquisadora,
[...] é possível contemplar com qualidade a
formação de pessoas que estarão em contato com
crianças em estágio de desenvolvimento físicomotor-emocional, de interação com o outro e com o
4
Com a promulgação da Lei Federal 11.114/2005 que amplia o ensino
fundamental para nove anos, as crianças atendidas pela educação infantil
passam a ser aqueles na faixa etária de 0 a 5 anos.
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 96
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO mundo significativamente diferentes? Em um curso
médio com duração de três anos, é possível dar
conta das especificidades da cada um destes níveis
de ensino – a saber; educação infantil e níveis
fundamental e médio – bem como da necessária
integração entre eles? Uma qualificação que
privilegia um perfil de professor é apropriada para a
especificidade da educação infantil que pressupõe o
educar e o cuidar?
Leite (2008:192), traz a baila outros dados a respeito
dessa formação que merece ponderação:
De um modo geral, nessas instituições, a educação
infantil aparece sob a forma de habilitação, no
último ano, desvinculada do curso como um todo, e
restrita a conteúdos relativos às crianças de 4 a 6
anos (o pré-escolar); ou como formação conjunta
para a educação infantil e para as séries iniciais,
situação na qual a primeira perde espaço para a
segunda. A prática de se formar, ao mesmo tempo,
profissionais para a educação infantil e para séries
iniciais, utilizada desde a época das escolas normais,
necessita ser imediatamente revista. Os profissionais
acabam
conhecendo
muito
pouco
do
desenvolvimento da criança entre 0 a 6 anos, o que
leva à propositura de trabalhos ineficazes, quando
forem lidar com crianças pequenas. Portanto, esse
modelo acaba não sendo muito adequado para a
formação do profissional da educação infantil.
A LDBEN de 1996 ao definir a educação infantil
como um nível de ensino termina por trazer em seu encalço uma
série de normatizações para este setor que a partir deste
documento legal passa a ter suas instituições reguladas como
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 97
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO quaisquer outras instituições escolares. Este processo também
acarreta aspectos que devem ser considerados com certa cautela,
A criança, alvo do atendimento multifacetado que
deveria ser capaz de dar conta das questões afeitas
ao cuidado e à educação, passa a ser vista como uma
aluna mesmo que tenha três meses de idade. O
profissional que passa a ser privilegiado é aquele
com perfil de professor; o cotidiano das instituições
é recodificado em conteúdos curriculares que devem
observar diretrizes que enfatizam a “difusão de
valores sociais, direitos e deveres da cidadania,
respeito à ordem e ao bem comum [...] à orientação
para o trabalho” (art. 27) (NASCIMENTO In
FARIA e PALHARES (Orgs.), 2003, p. 107).
A observação levantada por Vital Didonet (In
LIMA, (Coord.), 2005, p. 25), a respeito da concepção da
educação infantil como primeira etapa da educação básica, reflete
um problema conjuntural maior e nos fornece algumas pistas para
começarmos a desvendar o problema da valorização/nãovalorização deste seguimento. Segundo este autor,
[...] essa concepção ainda esta longe de moldar um
processo educacional seqüenciado e integrado do
nascimento até os 17 anos. O que temos,
efetivamente, são três diferentes segmentos, senão
quatro: a educação infantil, com uma divisória ainda
bastante marcada entre a creche e a pré-escola, o
ensino fundamental e o ensino médio. Dos três, o
fundamental é o rei. O médio, o príncipe. E a
educação infantil, o vassalo.
Nascimento (Op. Cit. p, 108) faz ainda outro alerta,
O que se quer enfatizar com isto é que, se há tempos
não muito remotos o caráter assistencialista,
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 98
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO especialmente da creche, dava a tônica educativa do
atendimento, o assentado na LDB corre o risco de
desconsiderar as ações de assistência e cuidado pelo
fato de privilegiar o educativo por meio do viés da
escolarização.
Diante dos argumentos até aqui apresentados, que dão
conta da incontestável importância da infância no processo de
desenvolvimento humano; como é possível descuidar da
formação do profissional responsável por mediar a socialização e
aprendizagem das crianças na primeira infância? E no que
concerne a realidade dos professores de educação infantil, que já
se encontram atuando nas instituições de educação infantil, restanos reforçar as indagações apresentadas por Fonseca, (In
MENEZES, 2004, p. 162),
Que filosofia fundamenta a prática dos profissionais
que atuam nessas instituições? A partir dessa
filosofia, que expectativas se pode ter em relação às
creches e pré-escolas? Quais os seus objetivos?
Como deve ser o cotidiano de educadores e
educandos nessas instituições? Quais os seus limites
e as suas possibilidades?
A legislação brasileira ratifica a pertinência de uma
formação que de fato contemple as reais necessidades das
crianças pequenas e a Política Nacional de Educação - PNE em
suas diretrizes para a educação infantil conclui que,
A formação dos profissionais da educação infantil
merecerá uma atenção especial, dada a relevância de
sua atenção como mediadores no processo de
desenvolvimento e aprendizagem. A qualificação
específica para atuar na faixa de zero a seis anos
inclui o conhecimento das bases científicas do
desenvolvimento da criança, da produção de
aprendizagens e a habilidade de reflexão sobre a
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 99
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO prática, de sorte que esta se torne,cada vez mais,
forte de novos conhecimentos e habilidades na
educação das crianças. Além da formação
acadêmica prévia, requer-se a formação permanente,
inserida no trabalho pedagógico, nutrido-se dele e
renovando-o constantemente (BRASIL,2002,p. 27).
A PNE objetiva a definição de um Programa Nacional
de Formação dos Profissionais de Educação Infantil, através da
cooperação entre todos os níveis administrativos. Estabelecendo
como metas (BRASIL, 2002,p. 30),
a)
b)
Que, em cinco anos, todos os dirigentes de
instituições de educação infantil possuam
formação apropriada em nível médio
(modalidade Normal) e, em dez anos, formação
de nível superior;
Que, em cinco anos, todos os professores
tenham habilitação específica de nível médio e,
em dez anos, 70% tenham formação específica
de nível superior.
A Política enfatiza ainda que,
A partir da vigência deste plano, somente admitir
novos profissionais na educação infantil que
possuam a titulação mínima em nível médio
modalidade normal, dando-se preferência à
admissão de profissionais graduados em curso
especifico de nível superior (Idem).
Objetivando contribuir, a partir de um olhar sobre a
especificidade da educação de crianças de pequenas e perfil da
formação dos educadores infantis é que este estudo buscou
analisar e a formação desses profissionais, atentando para o fato
de que estes carregam consigo a inquestionável responsabilidade
pelo desenvolvimento integral das crianças de 0 a 5 anos.
Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 100
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo surgiu no momento em que em nível
nacional eram lançados dois estudos produzidos sobre o processo
da formação inicial dos professores da educação básica. A
primeira pesquisa desenvolvida pela Fundação Carlos Chagas, 5
chama a atenção para a pouca importância dada à educação
infantil na grande maioria dos cursos de Pedagogia. Por sua vez
estudos realizados pela antropóloga Eunice Durhan, 6 dão conta
da ausência do dialogo entre teoria e prática no processo da
formação de professores nos cursos de Pedagogia, o que segundo
essa pesquisadora tem contribuído para agravar, ainda mais, o
quadro da educação brasileira.
No que se refere ao universo da educação infantil, a
prática compreende ao binômio cuidar-educar. Isso significa dizer
que perceber a ação do educador infantil é estar atento ao fato de
que nenhuma ação educativa é neutra e desta forma traz implícita
uma concepção de infância, educação e ação institucional. De
maneira breve buscamos historiar a educação de crianças
pequenas percebendo que no que diz respeito a educação infantil
no Brasil esta assenta-se em bases assistencialistas visando uma
ação compensatória dirigida as crianças das classes populares. A
especificidade do educador da infância e os aspectos teóricoprático de sua atuação também foi por nós refletida e aponta para
a necessidade de uma formação inicial que dê conta dessas
particularidades favorecendo a dialógica e a dialética entre teoria
e prática.
Este estudo não encontra aqui sua conclusão, ao
contrário, aponta-nos o percurso a ser trilhado onde finalmente
poderemos através do campo empírico traçar o perfil do educador
infantil através de sua própria fala, de nossa escuta sensível, de
5
6
Ver referência bibliografica. Ver citação anterior. Revista Diálogos N.° 3 – 2.° Semestre de 2010 101
Educação Infantil: uma reflexão... LIBÉRIO um olhar diagnóstico e de uma consistente fundamentação
teórica.
Entretanto, primamos por findar, esta primeira etapa,
com a rogeriana consciência da incompletude, a freiriana
curiosidade epistemológica.
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