Há no mundo inteiro uma,
quando muito, rua
difícil de encontrar
Metáfora viagem: palavra do poeta
Título: Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua difícil de encontrar.
Metáfora viagem: palavra do poeta.
Autor: AAVV
Antologia organizada por: Ana Castro e Jorge Roque
Coordenação editorial: Instituto Português do Livro e das Bibliotecas
Campo Grande, 83, 1º - 1700-088 Lisboa
[email protected] www.iplb.pt
Design gráfico: TVM Designers
ISBN: 972-8436-35-1
Depósito Legal: 193143/03
Tiragem: 6000 exemplares
Impressão: Gráfica Maiadouro
© IPLB, MARÇO 2003
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O título toma de empréstimo um dístico de Luiza Neto Jorge (1939-1969). Na contracapa são citados dois
versos de Bernardim Ribeiro (1482?-1552?). Para referências bibliográficas, consultar o Índice de autores
e edições citadas.
A FLOR
Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se
no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras;
umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis
tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração
para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas
dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas
com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros (1893-1970)
PRÓLOGO
SALTO EM ALTURA, V
Sente-se a variação
na atmosfera do quarto; uma corrente
de ar? com a porta,
as janelas fechadas?
o sopro vem talvez da estante:
poemas, dicionários;
como se a biblioteca desprendesse
substâncias voláteis; ou
que tentam voar; o frémito,
o pressentimento, acorda
os móveis fascinados; pouco a pouco,
no aro do abat-jour,
onde a diferença é mais sensível,
condensa-se o rumor das primeiras
palavras: afinal, são elas;
e logo que os seus voos;
anteriores à escrita; as precipitam
no papel, começa-se a escrever.
Carlos de Oliveira (1921-1981)
VIAGEM
DISCURSO AO PRÍNCIPE DE EPAMINONDAS,
MANCEBO DE GRANDE FUTURO
Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrêla
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espêlho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem
Mário Cesariny (1923-)
VIAGEM
VARIAÇÕES SOBRE “O JOGADOR DO PIÃO”, I
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo arrisca nessa roda
riscada entre parede e tronco a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada
Mão do breve pião levanta ao céu a enxada
e que esta vida extensa para sempre seja
– será? – tão bem coberta que nem Deus a veja
Ruy Belo (1933-1978)
VIAGEM
A IDEIA, III
Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe – e um alto monte
Aonde se abra à luz o nosso ninho.
Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! é largo, imenso esse horizonte...
Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,
E em toda a parte há luz, vida e carinho!
Avante! os mortos ficarão sepultos...
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!
Doce e brando era o seio de Jesus...
Que importa? havemos de passar, seguindo,
Se além do seio dele houver mais luz!
Antero de Quental (1842-1891)
VIAGEM
HE HUM NÃO QUERER MAIS QUE BEM QUERER, VII
São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.
São mortos os que nunca alevantaram
Dentre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.
Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma dum entardecer,
Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!
Florbela Espanca (1894-1930)
VIAGEM
CAMINHO, II
Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
– Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário,
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
Camilo Pessanha (1867-1926)
VIAGEM
UM ADEUS PORTUGUÊS
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
VIAGEM
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
Alexandre O’Neill (1924-1986)
VIAGEM
RECADO
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Al Berto (1948-1997)
VIAGEM
SONETO DUM POETA MORTO
Bem sei que hei-de morrer cedo e cansado,
Alguma cousa triste em mim o diz...
E vagarei no mundo, desterrado,
Como o Dante, chorando a Beatriz.
Pelos reinos, irei talvez curvado,
Como um proscrito príncipe infeliz,
Ou como o índio pálido e exilado,
Chorando o vivo azul do seu país.
Mas no entanto, ah! ninguém, ao Sol divino,
Abrasou mais as asas, derretidas
Ante as duras, ferozes multidões.
E ninguém teve a torre d’ouro fino,
Aonde, quais princesas perseguidas,
Morreram minhas doidas ilusões!
Gomes Leal (1848-1921)
VIAGEM
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
VIAGEM
Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior
Daniel Faria (1971-1999)
VIAGEM
Comigo me desavim
Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crecesse;
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho imigo de mim?
Sá de Miranda (1481?-1558)
VIAGEM
CRISE LAMENTÁVEL
Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente.
Não ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.
Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força num dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai:
– Não mandar telegramas ao meu Pai,
– Não andar por Paris, como ando, às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prà rua.
– Pôr termo a isto de viver na lua,
– Perder a “frousse” das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)
VIAGEM
O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL, IV
O tecto fundo de oxigénio, de ar
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, ringem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta,
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!
VIAGEM
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.
E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
Cesário Verde (1855-1886)
VIAGEM
EM CRETA, COM O MINOTAURO
I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.
II
O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.
VIAGEM
III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.
IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.
VIAGEM
V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.
Jorge de Sena (1919-1978)
VIAGEM
SARÇA ARDENTE, 1
... Não porque não viajasse! O mundo é vasto
Mas repete-se, e é fácil esgotá-lo...
Se uma vez viste o céu com olhar casto,
Que outro céu poderá ultrapassá-lo?
Certo é, sim, que ante mim girei de rasto,
Com sempre o mesmo giro e o mesmo embalo;
Mas não!, não porque não tenha viajado
Longe do escano em que fiquei sentado!
José Régio (1901-1969)
VIAGEM
SEXTINA I OU CANÇÃO DOS QUARENTA ANOS
O mordomo do vento é este cedro
O correio do Sol aquele pombo
Nunca mais Nunca mais vem a notícia
Sou mais novo que o escândalo em que vivo
Mas vou perdendo aos poucos a memória
De secretas paisagens me despeço
Só a esperança não Que a não despeço
E dou-lhe todo o ouro deste cedro
E dou-lhe os dividendos da memória
mais o fogo nas vísceras do pombo
mais os restos de um sonho que tão vivo
como prémio só pede uma notícia
Quantas notícias antes da notícia
De quantas dia a dia me despeço
até que o fim do escândalo em que vivo
me seja anunciado pelo cedro
Indaga Não descrevas É um pombo
que se afoga no sangue da memória
Também aquele amor hoje memória
morreu na combustão de uma notícia
Mas nasce de tais cinzas outro pombo
Não olho para trás Nem me despeço
Tudo o que se imagina aquém do cedro
converte-se em pilar de um amor vivo
Se é loucura viver o que não vivo
Se é loucura no crivo da memória
deixar que passe o pombo e fique o cedro
a ver se não censuram a notícia
direi mais uma vez Não me despeço
Há-de vir a notícia Mais o pombo
VIAGEM
Com asas novas há-de vir o pombo
Outro pombo dizer-me que estou vivo
louvar-me porque nunca me despeço
pedir-me que o recolha na memória
E no vento divulga-se a notícia
Quem primeiro a transmite é este cedro
Canção voa nas asas desse pombo
Torna com ele ao Sol E morto ou vivo
diz-lhe que nem agora me despeço
David Mourão-Ferreira (1927-1996)
VIAGEM
SUL
Era verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.
Eugénio de Andrade (1923-)
VIAGEM
Oh! como se me alonga, de ano em ano
Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.
Luís de Camões (1524?-1580)
VIAGEM
ERROS DA VIDA
Erramos, logo apenas que nascidos:
Erramos inda mais, quando crescidos;
E nossos erros, na viril idade,
São de mais pesarosa qualidade.
Quando velhos nosso erro é já tontice:
E se a razão nos luz lá na Velhice,
É só para (em mau grado) arrepender-nos.
Mas lembram-me inda certos erros ternos,
Que me afagam, enquanto a vida dura,
E atalha esse erro o eu ir-me à sepultura.
Filinto Elísio (1734-1819)
VIAGEM
Fermoso Tejo meu, quão diferente
Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.
A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente.
Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!
Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era.
Francisco Rodrigues Lobo (1580?-1622?)
VIAGEM
DEPOIMENTO
De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.
Miguel Torga (1907-1995)
VIAGEM
D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa (1888-1935)
VIAGEM
AQUELE QUE PARTIU
Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto
Intacta é a sua ausência
Como a estátua de um deus
Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo
Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento
E que ninguém repita o seu nome proibido.
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-)
EPÍLOGO
Redivivo. E basta a luz do mundo movida ao toque no interruptor
Redivivo. E basta a luz do mundo movida ao toque no interruptor,
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo –
e lunas e estelas: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
– e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura – e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre quase coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rodilhas,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria –
EPÍLOGO
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
Herberto Helder (1930-)
METÁFORA VIAGEM: PALAVRA DO POETA
A presente antologia tem por ponto de partida o tema da viagem, na amplitude metafórica do
seu sentido: antes de mais, viagem na língua, viagem na terra, no tempo e na memória, por
conseguinte, no Homem, viagem ainda na metáfora, entendida ela mesma como deslocação no
sentido.
Assim, o poema A Flor, inscrição de abertura (mas também flor poema que se destaca e oferece,
propondo-se à partilha), deve ser entendido como metáfora da antologia propriamente dita, e
poderá ser lido como prefácio que não é.
Do ponto de vista dos critérios de selecção, optou-se por excluir autores cuja obra se encontra
em aberto, o que implicou a omissão de grande parte dos autores vivos, com excepção de
Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny e Herberto Helder,
relativamente aos quais a massa crítica do tempo e da obra impõe a sua inclusão. Intentou-se um
mínimo de representatividade histórica, com incidência maioritária nos séculos XIX e XX, por
razões que se prendem com a facilitação do acesso, tendo em vista um destinatário que se visou
tão amplo quanto possível.
Aos limites decorrentes dos critérios de selecção adoptados, acrescentaram-se os limites físicos
deste pequeno livro, assim como o imperativo de respeitar a integridade do corpo poético,
recusando cortes, montagens e outras mutilações no que o autor concebeu inteiro, com excepção
da citação integral de secções de sequências, a que o autor concedeu de sua mão unidade
própria. Tudo isto determinou a estreita representatividade do corpus, não apenas do ponto de
vista histórico, mas também estilístico, forçando a exclusão de composições poéticas de grande
extensão que, em alguns autores (como não lembrar, por exemplo, A Margem da Alegria, lugar
primordial desse tão vasto continente formado a sangue e lava na poesia de Ruy Belo), seriam
mais representativas do furor criativo que rasgou o espaço da sua obra, vibrando da cintilação o
seu gume.
Uma última palavra para a arquitectónica: optou-se por não aprisionar os poemas nos estritos
limites do seu tempo (poema que não subverta a cronologia, interceptando épocas e mundos,
poder-se-á dizer que é poema?), mas antes tecer uma narrativa que pudesse também ela reflectir
a “viagem” de onde partimos – viagem que é, por fim, não apenas norte temático desta
antologia, mas também metáfora da leitura onde a palavra e o seu outro se encontram.
Jorge Roque
ÍNDICE DE AUTORES E EDIÇÕES CITADAS
AL BERTO, O Medo, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997
ANDRADE, Eugénio de, O Outro Nome da Terra, Porto,
Limiar, 1989
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética, Vol. II,
Lisboa, Caminho, 1998
BELO, Ruy, Obra Poética de Ruy Belo, vol. 1, Lisboa, Editorial
Presença, 1981
CAMÕES, Luís de, Lírica Completa II, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1980
CESARINY, Mário, Manual de Prestidigitação, Lisboa, Assírio
& Alvim, 1981
ELÍSIO, Filinto, Obras Completas de Filinto Elísio, tomo V, Braga,
APPACDM, 1999
ESPANCA, Florbela, Poesia Completa, Lisboa, Dom Quixote,
2002
FARIA, Daniel, Homens que São como Lugares Mal Situados,
Porto, Fundação Manuel Leão, 1998
HELDER, Herberto, Ou o Poema Contínuo, Lisboa, Assírio
& Alvim, 2001
JORGE, Luiza Neto, Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 1993
LEAL, Gomes, Claridades do Sul, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998
LOBO, Francisco Rodrigues, Poesias, Lisboa, Livraria Sá da Costa
Editora, 1968
MIRANDA, Sá de, Obras Completas, vol. I, Lisboa, Livraria
Sá da Costa Editora, 2002
MOURÃO-FERREIRA, David, Obra Poética, vol. II, Lisboa,
Bertrand, 1980
NEGREIROS, José de Almada, Obras Completas, vol. I, Porto,
Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985
12
23
29
6
24
5
25
8
14
30
♣
13
26
15
22
3
OLIVEIRA, Carlos de, Trabalho Poético, Lisboa, Livraria
Sá da Costa Editora, 1998
O’NEILL, Alexandre, Poesias Completas 1951/1981, Maia,
Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982
PESSANHA, Camilo, Clepsidra e Outros Poemas, Lisboa,
Lello Editores, 1997
PESSOA, Fernando, Mensagem, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002
QUENTAL, Antero de, Sonetos, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994
RÉGIO, José, As Encruzilhadas de Deus, Lisboa, Brasília Editora,
1981
RIBEIRO, Bernardim, Obras Completas, vol. II, Lisboa, Livraria
Sá da Costa Editora, 1982
SÁ-CARNEIRO, Mário de, Poemas Completos, Lisboa, Assírio
& Alvim, 2001
SENA, Jorge de, Poesia - III, Lisboa, Edições 70, 1989
TORGA, Miguel, Antologia Poética, Coimbra, Coimbra Editores,
1981
VERDE, Cesário, Obra Poética e Epistolografia, Porto,
Lello Editores, 1999
4
10
9
28
7
21
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16
19
27
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♣ Dístico tomado de empréstimo no título (retirado do poema O sítio em vista).
♣♣ Versos citados na contracapa (retirados de Écloga chamada Jano).
ÍNDICE GERAL
A Flor (Almada Negreiros)
3
Prólogo
Salto em altura, V (Carlos de Oliveira)
4
Viagem
discurso ao príncipe de epaminondas, mancebo de grande futuro
(Mário Cesariny)
5
Variações sobre “O jogador do pião”, I (Ruy Belo)
6
A Ideia, III (Antero de Quental)
7
He hum não querer mais que bem querer, VII (Florbela Espanca)
8
Caminho, II (Camilo Pessanha)
9
Um adeus português (Alexandre O’Neill)
10
Recado (Al Berto)
12
Soneto dum poeta morto (Gomes Leal)
13
[Homens que são como lugares mal situados] (Daniel Faria)
14
[Comigo me desavim] (Sá de Miranda)
15
Crise lamentável (Mário de Sá Carneiro)
16
O sentimento dum ocidental, IV (Cesário Verde)
17
Em Creta, com o Minotauro (Jorge de Sena)
19
Sarça Ardente, 1 (José Régio)
21
Sextina I ou Canção dos quarenta anos (David Mourão-Ferreira)
22
Sul (Eugénio de Andrade)
23
[Oh! como se me alonga, de ano em ano] (Luís de Camões)
24
Erros da vida (Filinto Elísio)
25
[Fermoso Tejo meu, quão diferente] (Francisco Rodrigues Lobo)
26
Depoimento (Miguel Torga)
27
D. Sebastião, Rei de Portugal (Fernando Pessoa)
28
Aquele que partiu (Sophia de Mello Breyner Andresen)
29
Epílogo
[Redivivo. E basta a luz do mundo movida ao toque do interruptor]
(Herberto Helder)
30
Metáfora viagem: palavra do poeta
31
Índice de autores e edições citadas
32
Índice geral
34
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Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua difícil de encontrar