UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC
CURSO DE PSICOLOGIA
MANOLLA GOULARTE BOFF
MORTE, PSICOLOGIA E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO
CRICIÚMA, DEZEMBRO DE 2009
1
MANOLLA GOULARTE BOFF
MORTE, PSICOLOGIA E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO
Trabalho de Conclusão de Curso,
apresentado para obtenção do grau de
Psicóloga no Curso de Psicologia, da
Universidade do Extremo Sul Catarinense
– UNESC.
Orientador: Prof. MSc. Jeverson Rogério
Costa Reichow
CRICIÚMA, DEZEMBRO DE 2009
2
MANOLLA GOULARTE BOFF
MORTE, PSICOLOGIA E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO
Trabalho de Conclusão de Curso
aprovado pela Banca Examinadora para
obtenção do Grau de Psicóloga, no Curso
de Psicologia, da Universidade do
Extremo Sul Catarinense – UNESC, com
linha de Pesquisa em Qualidade de Vida.
Criciúma, 01 de dezembro de 2009.
BANCA EXAMINADORA
Prof. Jeverson Rogério Costa Reichow – Mestre – (Unesc) - Orientador
Prof. Yara Jurema Hamen Llanos –Especialista – (Unesc)
Janir Terezinha da Silva Faraco – Especialista – (Hospital São José)
3
Este trabalho eu dedico a
minha mãe, por sempre me
incentivar na busca pelo
amadurecimento profissional
e pessoal.
4
AGRADECIMENTOS
Eu agradeço...
A “Deus”, primeiramente, por se mostrar sempre presente em minha vida,
e por sempre me dar forças nos momentos de adversidade;
Aos meus familiares por acreditar em mim, e por se mostrarem sempre
compreensivos;
Aos meus amigos pelas noites de conversa afora acerca das dificuldades
individuais e em comuns, pelas festas e alegrias compartilhadas, e pela fidelidade;
Ao meu orientador de TCC, pela compreensão, pela amizade, e
sabedoria, transmitidas a cada encontro;
A minha orientadora de estágio clínico, pela amizade, compreensão,
sabedoria, e acolhidas ao longo do ano;
A professora Regina Teixeira, em especial por ter proporcionado minha
primeira experiência profissional, e por sempre me incentivar no caminho da
pesquisa, e sempre ter acreditado em mim;
A todos os meus mestres, por serem grandes responsáveis por meu
amadurecimento profissional e pessoal, e por me incentivarem num caminho
continuo de busca;
A todos que de alguma forma colaboraram para construção deste
trabalho, seja pelas idéias, pela disponibilidade em responder a minhas dúvidas e a
facilitar meu acesso a referências bibliográficas belíssimas;
A mim mesma, por ser persistente em meus objetivos e pela dedicação;
Muito Obrigada!
5
De todas as pegadas
A do elefante é a maior;
De todas as meditações da mente
A da morte é a maior.
Buda
6
RESUMO
O presente Trabalho de Conclusão de Curso, tem como temática: Morte, Psicologia
e Estratégias de Enfrentamento. Se utilizando de uma revisão bibliográfica a cerca
dos temas morte, psicologia e estratégias de enfrentamento a fim de compreender a
relação entre estes, e abordando temas interligados tais como: as diferentes visões
de morte através das religiões e culturas; o sentido de vida e de morte para a cultura
ocidental contemporânea; a visão de morte a partir da psicologia, conforme a fases
do desenvolvimento humano; e as estratégias de enfrentamento utilizadas por
pacientes terminais, bem como as elaboradas por profissionais da saúde e
principalmente pelos profissionais da área da psicologia como o método RIME.
Concluindo-se que tal revisão pode demonstrar o quanto novas formas de
estratégias de enfrentamento colaboram para as práticas dos cuidados paliativos, ao
entender o ser humano em sua totalidade e ao integrar espiritualidade e
religiosidade às práticas tanto dos profissionais da saúde quanto nas do próprio
psicólogo hospitalar.
Palavras-chave: Morte; Psicologia; Estratégias de Enfrentamento.
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LISTA DE ABREVIATURAS
EQM – Experiências de Quase-Morte
OMS – Organização Mundial da Saúde
RIME – Relaxamento Imagens Mentais e Espiritualidade
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO..........................................................................................................9
2 DIFERENTES VISÕES DE MORTE SEGUNDO ALGUMAS RELIGIÕES E
CULTURAS................................................................................................................12
2.1 A morte para a tradição Cristã..........................................................................13
2.2 A morte para a doutrina Espírita Kardecista...................................................17
2.3 A morte para a doutrina Budista.......................................................................19
2.4 A morte para a filosofia Iogue...........................................................................25
3 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO, SENTIDO DE VIDA E DE MORTE, E
TRANSCENDÊNCIA..................................................................................................32
3.1 Sentido de vida e de morte................................................................................33
3.2 Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista da criança...........36
3.3 Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista do adolescente..39
3.4 Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista do adulto............42
3.5 Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista do idoso.............44
3.6 Morte e Transcendência....................................................................................46
4 MORTE, PSICOLOGIA E ESTRATÉGIA DE ENFRENTAMENTO........................52
4.1 Atitudes diante da morte e do morrer segundo Kubler-Ross........................53
4.2 Preparando para a morte: o método RIME.......................................................56
4.3 Espiritualidade e Religiosidade como estratégias de enfrentamento...........60
4.4 Morte e Psicologia Hospitalar...........................................................................65
5 CONCLUSÃO.........................................................................................................69
REFERÊNCIAS..........................................................................................................73
9
1 INTRODUÇÃO
Este Trabalho de Conclusão de Curso é requisito parcial para a avaliação
na disciplina de TCC, para a graduação no curso de Psicologia da Universidade do
Extremo sul Catarinense – UNESC. Com o passar dos tempos e com a mudança
que está ocorrendo em relação aos paradigmas vigentes na área da saúde até
então, se percebeu a quantidade de trabalhos realizados por profissionais da área
de cuidados paliativos em relação a utilização de estratégias de coping
(enfrentamento), considerando a espiritualidade e a religiosidade como práticas
importantes para a compreensão do ser humano como um ser integral.
Ao encontro disso, o fato da psicologia hospitalar ter se desenvolvido tanto
nos últimos tempos, estimulou a área da saúde e principalmente as instituições
hospitalares a contratarem estes profissionais a fim de comporem as equipes
multidisciplinares ou interdisciplinares existentes, apresentando-se como resultado
disso, grandes feitios em termos de desenvolvimento de estratégias de
enfrentamento.
Kubler-Ross (médica suíça, erradicada nos EUA), bem como Ana Catarina
Elias (psicóloga brasileira), dentre outros profissionais da área da saúde,
demonstram de forma brilhante o quanto o trabalho com a espiritualidade e com a
religiosidade está rendendo bons frutos quando focado ao tratamento de pacientes
que estão sofrendo com a eminência da morte.
Tal tema se apresentou de maneira relevante para autora, na medida em
que durante todo percurso acadêmico, até mesmo antes disso, a questão da morte e
do morrer, sempre causou uma grande inquietação pessoal.
10
Sendo reforçada tal escolha na disciplina de Modelos Emergentes em
Psicologia, quando a autora obteve contato com a Psicologia Hospitalar por meio de
um trabalho, o qual possibilitou o contato com pacientes terminais oncológicos,
observando-se a importância de um tratamento mais humanizado e uma visão de
ser humano mais totalizante por parte da equipe cuidadora, bem como o
desenvolvimento de estratégias de enfrentamento que compreendessem melhor o
processo terminal.
Na revisão bibliográfica foram utilizados 17 artigos e 21 livros, os quais
estão listados nas referências no final do trabalho. Sendo os artigos encontrados em
bibliotecas virtuais como a do Hospital João Evangelista Espírita, ou em bases de
dados como: Google Acadêmico, Scielo, e BVS. Os livros são do acervo da
biblioteca da Unesc, da biblioteca da própria autora, e de outras bibliotecas de
amigos e colegas.
Após o período de pesquisa do material, procedeu-se a leitura dos
mesmos. A leitura orientada, separando os temas, proporcionou a sistematização
dos conteúdos em tópicos da revisão, a saber:
• Diferentes visões de morte a partir das religiões Cristã, Espírita
Kardecista e Budista, e da filosofia Iogue;
• Sentido de vida e de morte segundo a cultura ocidental contemporânea;
• Visão da Psicologia sobre o morrer, sob o ponto de vista da criança, do
adolescente, do adulto, e do Idoso;
• A morte e a Transcendência;
• Morte, Psicologia e Estratégias de Enfrentamento;
• Atitudes diante da morte e do morrer segundo Kubler-Ross;
• Preparando para a morte: o método RIME;
11
• Espiritualidade e Religiosidade como Estratégias de Enfrentamento;
• Morte e Psicologia Hospitalar.
Estima-se com esta revisão contribuir para os estudos referentes à
psicologia, a morte e as estratégias de enfrentamento, visto que estes campos
interligados estão ainda em fase de desenvolvimento e amadurecimento nas
universidades brasileiras. Abrindo portas para futuras pesquisas empíricas que
objetivem investigar a relação entre a morte, psicologia e estratégias de coping.
12
2 DIFERENTES VISÕES DE MORTE SEGUNDO ALGUMAS CULTURAS E
RELIGIÕES
O estudo sobre a morte é sempre muito polêmico na medida em que não
se pode falar sobre ela sem citar as crenças dos indivíduos, as quais na maioria das
vezes estão relacionadas a religiões e culturas.
Dentre os questionamentos existenciais que o ser humano se faz, a
incerteza sobre o que há depois da morte, se é que há, causa muitas dúvidas e até
mesmo medo, principalmente em pessoas que estão em processos terminais da
vida.
Segundo Hellern, Notaker e Gaarder (2002), assim como as origens do
homem requerem uma explicação, a maioria das pessoas se preocupa em saber o
que acontecerá com elas quando morrerem. E então a religião aparece com o papel
de esclarecer a morte de diversas formas, cada qual conforme sua filosofia e
crenças.
Segundo Elliot, Feinstein, e Krippner, (apud, KRIPPNER, 2002, p. 9),
[...] algumas religiões não dependem de uma vida após a morte, ou da
crença em uma alma imortal. Outras, entretanto, descrevem a entrada no
infinito como, de maneiras variadas, emergindo da escuridão da luz,
matando dragões ou destruindo demônios, a gloriosa abertura dos portões
do céu, ou a revelação de entidades divinas.
Percebe-se que as religiões querem explicar questões relacionadas à vida
e a morte dos seres humanos. Seus ensinamentos e filosofias vêm enriquecidos por
ritos, festas, símbolos, normas de conduta, instituições, que exercem a função de
amarrar ou retomar o que é realmente importante na vida (HEERDT; BESEN;
COPPI, 2005).
13
“Ainda segundo Heerdt; Besen e Coppi (2005, p. 18) os mesmos autores,
a religiosidade é sem dúvida a dimensão que mais dá sentido à vida do ser humano
não o deixando virar máquina, número”. E como o sentido de vida e de morte
normalmente é pensado de forma recorrente por quem está morrendo, e para as
pessoas envolvidas em tal processo, a religião acaba servindo como um instrumento
importante ao ser humano.
Segundo Hellern, Notaker e Gaader (2002), a religião nunca é vinculada
apenas ao intelecto. Ela envolve igualmente as emoções, que são tão essenciais na
vida humana quanto o intelecto e a capacidade de pensar. Explicando talvez o
porquê, de as religiões terem tantos adeptos ainda, visto que se vive hoje em um
mundo o qual o pensamento materialista cartesiano tenta predominar.
Por dar importância a uma visão integral de ser humano, acredita-se que
tal visão também deve ser empregada ao processo da morte e do morrer, iniciando
dado trabalho por uma revisão sobre algumas religiões por acreditar que as crenças
religiosas sejam grandes aliadas na maior parte dos casos, das estratégias de
enfrentamento tanto para o cuidador, quanto para quem está sendo cuidado.
2.1 A morte para a tradição Cristã
O Cristianismo surgiu com a vida, a atuação, a morte, a ressurreição e a
ascensão de Jesus de Nazaré, que para os Cristãos é o messias prometido, o Filho
de Deus. O messias então vem para terra, concebido pela Virgem Maria, para
revelar Deus aos homens (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
14
O Cristianismo crê em um só Deus (monoteísta), tendo como um de seus
símbolos a cruz, que simboliza a Santíssima Trindade. “A Trindade1 representa o
Pai, o Filho e o Espírito Santo, sendo que estas três pessoas não surgiram num
momento específico da história, mas existem desde sempre e se revelaram ao longo
da história” (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005, p. 105).
Dentre os rituais característicos do Cristianismo um dos principais é o
Batismo, que significa um ato de iniciação para comunidade Cristã, que seria um
novo nascimento (HELLERN; NOTAKER; GAARDER, 2002). Segundo os mesmos
autores um segundo rito importante é o da Eucaristia que representa a memória do
corpo de Cristo, mas que possui algumas variações conforme a interpretação que
cada Igreja faz da Bíblia2.
Segundo Heerdt, Besen e Coppi (2005), pouco se sabe sobre a juventude
de Jesus Cristo, mas que por volta dos 30 anos de idade, deixou o trabalho e a
família e começou a pregar. Nesse tempo seu primo João Maria já fazia isso
também, e tinha um pequeno grupo de discípulos.
Os ensinamentos de Jesus Cristo segundo Hellern, Notaker e Gaarder
(2002), se davam por meio de parábolas, que nada mais eram do que comparações
ou imagens, utilizadas para exemplificar uma verdade mais profunda.
Em suas pregações, Jesus colocava o amor a Deus e ao próximo, como
prioridade, encorajando os pobres e os mais fracos e perdoando os pecadores.
“Tinha uma atenção particular pelos pecadores e sofredores: Não vim para os justos,
mas para os pecadores” (Mt 9, 13) (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005, p. 102).
1
2
O Pai é Deus, o Filho é Jesus Cristo, e o Espírito Santo é enviando pelo Pai e pelo filho, é também
Deus. O ser humano chega ao conhecimento das três pessoas pela forma como elas operam: o Pai
como criador, o Filho como salvador e o Espírito Santo como santificador (HEERDT, BESEN E
COPPI, 2005, p. 105).
Bíblia: Significa os livros. Refere-se aos livros que compõe a Bíblia, também denominados de
Escrituras Sagradas, devido ao seu caráter canônico, isto é, enquadrados em um cânon, ou
padrão, como livros sagrados, diretamente inspirados por Deus (HEERDT, BESEN E COPPI, 2005,
p. 107).
15
Com isso Jesus Cristo vem a terra com a proposta de mostrar o reino do
pai, que começa a se realizar na história, no meio das pessoas visando tirar do ser
humano a condição de oprimido, de escravo, e dignificá-lo como filho de Deus
(HEERDT; BESEN; COPPI, 2005). Anunciando também o Reino de Deus.
O Reino de Deus [...] se caracteriza pela instauração da fraternidade, da
bondade, da misericórdia, da justiça, da igualdade, da paz. Aí se entende
porque Jesus disse: “Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no
Reino do Céu. Só entrará aquele que faz a vontade do meu pai que está no
céu” (Mt 7,21) (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005, p. 103).
Segundo os mesmos autores, o reino de Deus é uma realidade presente
no tempo e no mundo, mas a sua plena realização acontecerá apenas quando a
história terminar ou se consumar. Isso quer dizer, no dia do Juízo Final, que
simboliza a volta de Jesus Cristo para terra, o qual julgará os vivos e os mortos,
designando ao Reino de Deus aqueles que forem dignos de merecimento.
O Cristianismo alimenta uma profunda convicção na ressurreição: “O
Espírito que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos também dará a vida aos vossos
corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós” (Rm 8, 11) (HEERDT; BESEN;
COPPI, 2005, p. 104). Sendo assim Jesus através de suas pregações, expiação, e
ressurreição veio reparar o dano causado ao relacionamento entre os homens, e
entre Deus e os homens.
Gerando assim a remissão dos pecados do homem, e a salvação para
quem acredita em Cristo. “Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem
de vós, é o dom de Deus”, diz Paulo à Igreja de Éfeso (Efésios 2,8) (HELLERN;
NOTAKER; GAARDER, 2002, p. 166).
Paulo falando sobre o poder de Jesus sobre a vida e a morte, conclui que
se eles acreditavam que Jesus morreu e ressuscitou, eles também deveriam crer
que Deus levaria com Jesus todos aqueles que morressem unidos a ele. E, em sua
16
epístola aos romanos, Paulo escreve que Cristo o libertou da lei do pecado e da
morte (HELLER, NOTAKER E GAARDER, 2002).
É um conceito bíblico que a vida na terra tem valor intrínseco. Portanto, em
toda a Bíblia, a morte é vista como algo negativo. Paulo (discípulo de
Cristo), chama a morte de “O Ultimo Inimigo”. E é a vitória de Jesus sobre a
morte, com sua ressurreição, que forma a base para a esperança Cristã na
vida eterna (HELLERN, NOTAKER, E GAARDER, 2002, p. 168).
Segundo Harbin (2002), cada indivíduo passa pela ressurreição e
julgamento na hora de sua morte. Portanto, com a morte a pessoa rompe com seu
corpo físico, e vai para um lugar intermediário onde teria uma segunda chance de se
arrepender dos pecados, por isso julgamento, e depois disso iria para o céu onde
ocorreria a ressurreição para a vida eterna, ou iria para o inferno se não se
arrependesse dos pecados.
Em suma o que o Cristianismo prega em relação à morte é que quem
levou uma vida de pecados, mas que se arrependa antes de morrer, encontrará a
salvação. Depois da morte é como se tivesse uma segunda chance para se
arrepender antes de ir para o céu ou para o inferno. “Já há condenação e juízo, o
homem está apenas aguardando cumprir a sentença, mas existe a possibilidade de
ser inocentado, mesmo que já tenho sido culpado e julgado” (HARBIN, 2002, p. 20).
Alves (2002) coloca que a vida na terra para o Cristianismo, não tem valor,
é o vale de lágrimas onde os banidos filhos de Eva choram, esperando o Céu, no
qual está Deus e Jesus Cristo. E o termo chorar é utilizado para referenciar a vida
disciplinada e sem pecados que somente consegue ser conquistada com renuncia e
sofrimento.
17
2.2 A morte para a doutrina Espírita Kardecista
A origem do espiritismo se deu em Nova York (EUA), quando duas irmãs
da família Fox, Katherine e Margaretha, ao estalarem seus dedos perceberam que o
som era repetido por alguém. Ao procurarem uma explicação, concluíram que se
tratava de manifestações inteligentes de espíritos (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
“A notícia logo se espalhou e atraiu inúmeras pessoas. Logo as irmãs Fox
foram levadas à Europa” (LANG, 2008, p. 174). Essa instituição se expandiu,
ocasionando o surgimento de outras como mesas girantes, que respondiam a
perguntas, copos procurando letras do alfabeto entre outras.
Tais fenômenos citados acima, atribuídos a espíritos, ocorriam através de
pessoas que tinham poder de mediunidade3; Hippotyte Lion, pedagogo, interessouse pelos mesmos. Surgindo então na França em 1857 como doutrina o Espiritismo,
a partir da publicação do Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, pseudônimo do
professor Hoppolyte Lion (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
Considerado a obra básica do espiritismo, o livro de Kardec, codifica a
doutrina espírita, resumindo-a em cinco pontos:
1) Existência de Deus, como inteligência cósmica responsável pela criação
e manutenção do universo; 2) Existência da alma ou espírito, que conserva
a memória mesmo após a morte e assegura a identidade individual de cada
pessoa; 3) Lei da reencarnação, pela qual, todas as criaturas retornam à
vida terrena e vão sucessivamente, evoluindo no plano intelectual e moral,
enquanto expiam os erros do passado; 4) Lei da pluralidade dos mundos,
isto é da existência de vários planos habitados, que oferecem um âmbito
para a evolução do espírito; 5) Lei do carma, ou da causalidade moral, pela
qual se ligam as vidas sucessivas do espírito, dando-lhe destino condizente
com os atos praticados (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005, p. 192).
3
Mediunidade: Meio de acesso a novas verdades, e de trocas de experiências entre seres
encarnados e espíritos. É uma faculdade por meio da qual o médium (pessoa dotada de elevada
capacidade de percepção extra-sensorial), manifesta os mais diversos dotes, como vidência,
clarividência, clariaudiência, levitação, telecinesia, psicografia, emissão de ectoplasma, cura e
outros. É uma prática racional, fruto da persistência e continuidade, todas as pessoas podem
desenvolver a mediunidade, mas para isso é preciso estudo e preparo (HEERDT; BESEN; COPPI,
2005, p. 193).
18
Segundo Kardec (2001), o mundo espírita é o mundo normal, primitivo,
eterno, preexistente, e sobrevivente a tudo, sendo o mundo corporal secundário, ou
seja, sua inexistência não alteraria a essência do mundo espírita. Para o espiritismo,
a figura de Jesus Cristo é considerada um referencial de comportamento moral e o
espírito mais evoluído que já passou pela terra (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
Voltando ao que foi falado anteriormente sobre mundo espiritual e mundo
corporal, é importante ressaltar que há na pessoa, segundo o espiritismo, três
elementos que o compõe: o corpo, a alma e o perispírito. O corpo é matéria o qual o
espírito entra para se purificar, a alma é o espírito encarnado no corpo, e o
períspirito é o laço que une a alma ao corpo (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
Segundo o mesmo autor, o perispírito acompanha a alma após a morte,
ele é invisível, porém, pode se tornar visível quando os espíritos se comunicam e
aparecem. Quando se torna visível tem a mesma aparência da última encarnação.
Um dos princípios básicos do espiritismo é o Livre-arbítrio o qual se refere
à liberdade de escolha dos seres humanos frente à vida, sendo cada ser
responsável por traçar seu destino e responsável por suas conseqüências. A
conseqüência dos atos dos seres humanos influencia diretamente, a uma evolução
espiritual mais lenta ou rápida, existindo por isso uma hierarquia dos espíritos
(HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
Todos os espíritos se melhoram (progridem) passando pelos diferentes
graus da hierarquia espírita, esta melhora se efetua por meio da encarnação, que é
imposta a uns, como expiação, e a outros, como missão (KARDEC, 2001). A missão
é dada somente aos espíritos mais evoluídos, enquanto aos outros menos evoluídos
pagam por erros cometidos em outras encarnações e continuam em seu processo.
19
Kardec (2001, p. 24) diz que: “a vida material é uma prova que lhes
cumpre sofrer repetidamente, até que hajam atingido a absoluta perfeição moral”.
Segundo o mesmo autor tal perfeição é caracterizada por seres chamados de anjos,
os quais são os espíritos puros.
As almas foram todas criadas por Deus em igualdades de condições, ou
seja, ignorantes. No entanto, tomam caminhos diferentes, do bem ou do mal, em
função da sua liberdade de arbítrio (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005). Tais espíritos
sendo bons ou maus influenciam também os espíritos encarnados, que se deixam
levar ou não conforme seu grau de evolução.
Por fim os espíritas acreditam que,
A finalidade da vida é aprender e evoluir como espírito, a fim de propiciar o
aperfeiçoamento, da qualidade de vida do planeta e trazer a sabedoria e o
amor do mundo espiritual para o mundo físico. Isso pode ser alcançado
quando aprendemos tudo o que pudemos sobre a vida – e sobre nós
mesmos – e também através do contato com seres (encarnados ou não),
no outro lado, a fim de receber as revelações desejadas (HEERDT;
BESEN; COPPI, 2005, p. 195).
Para o espiritismo a vida serve para a evolução da consciência, e para se
obter mais felicidade e satisfação. Portanto Kardec (2001) diz que: os espíritos
sendo eles os ministros de Deus, e os agentes de sua vontade, têm por missão
instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da
humanidade.
2.3 Morte para a doutrina Budista
O fundador do budismo foi o filho de um rajá, Sidarta Gautama (c. 560-480
a.C), que nasceu no Himalaia, em território do atual Nepal. Sua mãe faleceu logo
após seu nascimento, e foi substituída por sua irmã (SIMÕES, 1985). Segundo a
20
lenda logo depois que nasceu deu oito passos nas quatro direções, e a cada passo
nasceu uma flor (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
“O príncipe nasceu no seio da fortuna e do luxo. O rajá ouvira uma
profecia de que seu filho ou se tornaria um poderoso governante ou tomaria o
caminho oposto e abandonaria o mundo por completo” (HELLERN; NOTAKER;
GAARDER, 2002, p. 52). Segundo os mesmos autores, a última opção ocorreria
somente se o príncipe tomasse contato com as carências e sofrimentos do mundo.
Em função disso o rei acabou privando seu filho de qualquer contato com
a vida fora do palácio lhe proporcionando, prazeres e diversões. Ainda jovem
Sidarta, por meio de casamento arranjado pelo pai, casou-se com sua prima e
mantinha um harém de lindas dançarinas (HELLERN; NOTAKER; GAARDER,
2002).
“Aos 20 anos, sua esposa deu a luz a seu único filho Rahula. Neste
mesmo período apesar de viver nas mordomias, não conseguia encontrar a paz que
tanto buscava” (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005, p. 60). Um dia levado pelo desejo
de conhecer o mundo e suas realidades, abandonou o palácio e passou a
perambular pelas ruas da cidade, encontrando um ancião, um doente, um morto, e
enfim um eremita pedindo esmolas.
Após este episódio, ficou tão impressionado a ponto de abandonar tudo e
a todos e se tornar eremita para buscar a explicação e a solução para o sofrimento.
E foi ao encontro de um grupo de eremitas brâmanes4 em busca da certeza e do
absoluto que dessem um sentido à vida.
Torna-se então discípulos dos ascetas Alara Kalama e Uddaka Ramaputta,
exercitando-se nas diversas práticas da ioga. Mas tais práticas não o
satisfazem. Passa então seis anos vivendo no mais puro ascetismo
4
Brâmanes: é o nome dado aos sacerdotes que dentro do sistema de castas da Índia, ocupam o grau
mais elevado da hierarquia de classes (HELLERN, NOTAKER E GAARDER, 2002).
21
entregando-se a jejuns e penitencias mortificadores. A lenda conta que
nessa época ele se alimentava com um grão apenas de arroz por dia
(SIMOES, 1985, p. 23).
Após um período de muitas restrições às quais quase o levaram a morte,
Sidarta chega a conclusão de que a tortura em si é vã e sem saída, e que a vida de
privações não valia mais do que a vida de prazeres que levara anteriormente. Aos
35 anos, abandonou o mosteiro e percorreu seu próprio caminho, feito de solidão e
meditação (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
Aos 35 anos, sentado sob uma figueira (a árvore da sabedoria), e após ter
vencido Mara, o demônio das ilusões, caiu em profunda meditação – sendo este o
momento em que ocorreu a iluminação (SIMOES, 1985). A partir disso Sidarta
tornou-se Buda, e convencido de ter encontrado a origem da dor e o modo de
superá-la, pregou seu primeiro sermão sobre a iluminação, aceito até hoje por todo
fiel budista (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005).
O que Buda viu, foi resumido nas quatro nobres verdades. Primeira: toda
existência é dukkha, ou seja, insatisfatória e cheia de sofrimento. Segunda:
o dukkha deriva do tanha, o desejo ou apego, que significa o esforço
constante de encontrar algo permanente e estável num mundo transitório.
5
Terceira: o dukkha pode cessar totalmente, e isso é o nirvana . Quarta:
tudo pode ser alcançado pelo caminho óctuplo. Esses oito passos não
precisam ser seguidos na ordem (HEERDT; BESEN; COPPI, 2005, p. 61).
O caminho das oito vias consiste na experiência de Buda, o qual
acreditava que na vida se devia evitar os extremos, não se vivendo nem no prazer
extravagante como também na autonegação exagerada (HELLERN; NOTAKER;
GAARDER, 2002). O caminho para dar fim ao sofrimento é o caminho do meio.
5
Nirvana: é um estado em que todo o carma já foi esgotado e a lei do renascimento foi rompida.
Assim o Nirvana é uma condição que se pode experimentar no aqui-agora. Pode ser tão intensa
que o budista sente que ela esta queimando o mundo inteiro. E quando ele enfim volta ao mundo,
tudo que encontra são cinzas frias. O Nirvana final, que a pessoa atinge quando morre, é
irreversível, é a extinção última.
22
Buda o descreveu em oito partes: 1) perfeita compreensão, 2) perfeita
aspiração, 3) perfeita fala, 4) perfeita conduta, 5) perfeito meio de subsistência, 6)
perfeito esforço, 7) perfeita atenção, 8) perfeita contemplação (HELLERN;
NOTAKER; GAARDER, 2002). Levar uma vida normal segundo Buda, “é refrear
todas as tendências egoístas e todos os desejos que perturbam nossa mente; é o
caminho que abre os olhos, e dá compreensão, que leva a paz, a sabedoria e a
plena iluminação, ao Nirvana” (SIMÕES, 1985, p. 26).
Buda ao dominar seu desejo de viver, que antes o atava a existência,
parou de produzir carma e, portanto, não estava mais sujeito a lei dos renascimentos
(HELLERN; NOTAKER; GAARDER, 2002).
Segundo os mesmos autores seu
caminho estava aberto para atingir o nirvana final, mas o deus Brahma6 solicitou a
ele para que difundisse seus ensinamentos.
Segundo o budismo o carma é a escravização do ser humano por uma
série de renascimentos. “Como todas as ações tem conseqüências, o princípio
propulsor
por
trás
do
ciclo
de
renascimento-morte-renascimento
são
os
pensamentos do homem suas palavras e seus atos” (HELLERN; NOTAKER;
GAARDER, 2002, p. 54).
Assim os esforços realizados em uma vida em direção a perfeição são
herdados pela próxima existência, que pela lei do carma, acaba conduzindo o
indivíduo cada vez mais perto do fim das reencarnações (SIMOES, 1985). Quando
isso ocorre se atinge o verdadeiro conhecimento, a ausência dos desejos, o Nirvana.
O carma não é fatalista nem predeterminado. Carma significa a nossa
habilidade de criar e mudar. É criativo porque podemos determinar como e
por que agimos. Nós podemos mudar. O futuro esta em nossas mãos, e
nas mãos de nosso coração. Disse o Buda: como tudo é impermanente,
fluido e interdependente, o modo como agimos e pensamos
inevitavelmente muda o futuro (RINPOCHE, 2002, p. 133).
6
Brahma: é um deus para a cultura indiana (HELLERN, NOTAKER, E GAARDER, 2002).
23
Segundo Heerdt, Besen e Coppi, (2005), as formas de viver o budismo
são fundamentalmente duas: a pertença à ordem dos monges e monjas, e a
fraternidade dos leigos. A comunidade laica supre os monges materialmente e estes
levam ensinamentos espirituais aos leigos.
Os monges e monjas vivem sob regras mais rigorosas, em relação aos
leigos, levando uma vida de simplicidade e pobreza. Desde os dias do Buda, eles
costumam obter o pouco de que necessitam para sobreviver pedindo esmolas, o que
não é tido de forma alguma como degradante (HELLERN; NOTAKER; GAARDER,
2002).
Pode-se dizer desta forma que monges e leigos são interdependentes,
visto que mesmo que um budista não venha a se tornar um monge em sua vida
atual, se ele ajudar a sustentar um mosteiro, pode aspirar a ser um monge na
próxima encarnação (HELLERN, NOTAKER E COPPI, 2002).
Buda durante 44 anos se dedicou a pregação de sua doutrina juntamente
com seus monges; desde então o budismo é considerado religião missionária. No
ano de sua morte (483 a.C), 500 monges compilaram a Doutrina (Dharma), a
Disciplina (Vinaya) e o primeiro Sutra (coleção de sermões de Buda), chamado-os
de Tripitaka (HEERDT, BESEN E COPPI, 2005).
O Tripitaka consiste nas regras designadas aos monges (Vinaya), nos
ensinamentos morais, que contém os sermões e a vida de Buda (Sutra), e a
Doutrina da salvação, ou catecismo budista (Abhidarmha) (HEERDT; BESEN;
COPPI, 2005).
Com a morte de Buda sua doutrina continuou sendo difundida,
sofrendo algumas variações e dividindo em duas tendências: uma mais liberal e
outra mais conservadora.
24
A mais liberal recebe o nome de Mahayana (o grande veículo),
predominante no norte da Ásia, sendo característico principalmente pelo budismo
tibetano. E a linha mais conservadora (escolas dos antigos), se concentra mais ao
sul da Ásia. A visão tibetana é a qual será enfocada nos estudos posteriores.
Para o budismo tibetano a vida e a morte são vistas como um todo, onde a
morte é o começo de um novo capítulo da vida. Sendo a morte um espelho no qual o
inteiro significado da vida é refletido (RINPOCHE, 1999). O estado intermediário
entre a morte e o renascimento, é o bardo o qual tanto pode ocorrer na vida quanto
na morte.
[...] os bardos são momentos críticos em que as possibilidades de
liberação, ou iluminação são intensificadas. [...] na vida existem 4 bardos
interligados, o primeiro é o da vida, o segundo o da morte e do morrer, o
terceiro é o do pós-morte e o quarto o do renascimento (RINPOCHE, 1999,
p. 29).
Os bardos servem para mostrar que tanto durante a vida quando nos
momentos de transição (morte-renascimento), precisa se dar importância à
construção do eu, e ao bem estar dos outros e do meio, para assim segundo
Rinpoche (1999), viver e morrer sem se arrepender.
Segundo o budismo o grande problema da humanidade é o apego, visto
que para eles aprender a viver é aprender a soltar. E essa é a tragédia, e a ironia da
sociedade contemporânea em geral, a luta pela permanência. Ela não só é
impossível, como leva o ser humano exatamente a dor que tanto quer evitar.
Para o budismo o preparo para a morte se faz durante toda a vida, sendo
de extrema importância a consciência nesse momento, com um domínio mental tão
lúcido, desanuviado e sereno quanto possível (RINPOCHE, 1999).
25
Segundo o mesmo autor normalmente os monges solicitam seus mestres
na hora da morte, e recitam mantras, os quais ajudam a manter a consciência em
determinado momento.
[...] então meu mestre se sentou ao seu lado e o conduziu através de
Phowa, a prática para direcionar a consciência no momento antes da
morte. Há várias maneiras de fazer esta prática, e a que usou na ocasião
culminou com o mestre pronunciando a vogal “A” três vezes. Quando meu
mestre proferiu o primeiro “A”, ouvimos Lama Tseten acompanhá-lo de
forma bem audível. Da segunda vez sua voz era menos nítida, e da terceira
fez-se o silencio. Ele havia partido (RINPOCHE, 1999, p. 23).
O último pensamento ou emoção que se tem antes de morrer obtém um
efeito determinante e extremamente poderoso no futuro imediato de quem está
morrendo (RINPOCHE, 1999).
Ao analisar-se esta última fala, é de extrema importância que as pessoas
(sendo cuidadores ou familiares), mentalizem pensamentos e emoções positivas e
ajudem quem está em eminência de morte a ter os mesmos, auxiliando-o para que
seu momento de transição seja o mais saudável e consciente possível.
2.4 Morte para a filosofia Iogue7
Em sua mais antiga forma conhecida, o ioga parece ter sido a prática da
introspecção disciplinada, ou da concentração meditativa, associada a rituais de
sacrifício (FEUERSTEIN, 2001). O mesmo autor diz que é sob esta forma que o ioga
se nos apresenta nos quatro Vedas, os primeiros e mais sagrados livros do
Hinduísmo.
O ioga, por ser em sua forma mais antiga, intimamente ligado ao ritual dos
antigos indianos, desenvolveu no curso do tempo, um imenso conjunto de
7
Visto que na literatura iogue encontrou-se uma grande variação quanto a escrita da palavra optouse por adotar um padrão no presente trabalho.
26
documentos de práticas e elaboradas teorias induzidas por elas (FEUERSTEIN,
1977). Algo de importante a se ressaltar é que o legado iogue foi transmitido
oralmente de mestre para discípulo por muitas gerações.
“Um iogue é quem pratica uma técnica científica para entrar em contato
com Deus, seja esse iogue, casado, solteiro, um homem mundano, ou alguém que
tenha laços religiosos formais” (YOGANANDA, 2008, p. 233). O mesmo autor ainda
traz que um iogue empenha-se num procedimento definido, realizado passo-apasso, pelo qual o corpo e a mente são disciplinados e a alma libertada.
O ioga segundo Weil (1999), mais especificamente o ioga tântrico, acredita
que o ser humano contém níveis de energia sutis, ou seja, um sistema de campos
ou círculos energéticos, chamados de Chakras. Têm-se inúmeros desses pontos no
corpo os quais existem em potencial, mas podem ser ativados mediante a uma
evolução resultante em geral, de um trabalho sobre nós mesmos.
Os seres humanos podem ter sua mente voltada a cada um desses níveis,
e a evolução da consciência do homem consiste na subida progressiva da energia,
por exemplo: se uma pessoa é jogadora de futebol, este se concentrará mais em
atividade de ataque e defesa e esta energia estará mais ligada aos primeiros
chakras, a contraponto que caso esta mesma pessoa se apaixone sua consciência
se focará ao nível do coração.
“Pantânjali, o venerável rishi8, define “ioga” como controle das oscilações
da substância mental” (YOGANANDA, 2008, p. 234). Seu ioga Sutras, com
explicações breves e magistrais, formam um dos seis sistemas de filosofia hindu,
contendo ensinamentos práticos e teóricos (2001).
8
Rishi: Literalmente videntes, foram os autores dos Vedas (livros sagrados do hinduismo), numa
época remota indefinida (YOGANANDA, 2008, p. 47).
27
Segundo Barbosa (1999), e baseados nos Ioga Sutras, a prática correta
do ioga, produz em nossa mente o surgimento da inteligência corporal, e transforma
nossa vida material numa metáfora da própria criação e dos desígnios do universo.
Com isso se extingue a possibilidade do erro, da dor, e da impermanência
nas atividades de nossa mente. A iluminação de nossa consciência, pela
realização do ioga, nos traz para dentro de nossa fonte espiritual e nos faz
sentir a perfeita integração com Deus, com a humanidade e com todas as
forças naturais (BARBOSA, 1999, p. 40).
Os iogas Sutras contem os métodos mais eficazes para alcançar a
percepção direta da verdade. Pela prática das técnicas do Ioga, o homem abandona
para sempre os campos estéreis da especulação e experimenta cognitivamente a
verdadeira essência (YOGANANDA, 2008). Essa verdadeira essência nada mais é
que a consciência focada no mais alto nível energético, um nível expansivo.
A espiritualidade de Pantânjali compreende oito aspectos conhecidos
como os membros do ioga: 1) disciplina; 2) auto controle; 3) Postura; 4) controle da
respiração; 5) recolhimento dos sentidos; 6) concentração; 7) meditação; 8) Êxtase
(FEUERSTEIN, 2001).
“Esse é o caminho dos oito passos do ioga9 que conduz a meta final de
Kaivalya (o absoluto), um termo que pode ser melhor explicado como a realização
da verdade além da percepção intelectual” (YOGANANDA, 2008, p. 236). O caminho
dos oito passos é seguido pelos praticantes de Hatha ioga, uma modalidade de ioga
especializada em posturas corporais, e técnicas que promovem a saúde e
longividade, produzindo resultados físicos espetaculares, mas é pouco usada pelos
iogues interessados na libertação espiritual.
9
Não confundir com o nobre “Caminho dos Oito Passos” do budismo, um guia para a conduta da vida
humana, citado no capitulo sobre 2.3: Morte para a Doutrina Budista.
28
Com isso duas práticas de ioga direcionadas a pessoas que estão em
eminência de morte serão enfocadas, sendo uma baseada na ioga da morte, ou
morte criativa (praticada pelos budistas tibetanos), e outra, é a kriya ioga, conhecida
como uma antiga ciência.
Mas antes de explicá-las, existe um conceito primordial do ioga sem o qual
é impossível compreender a experiência de ampliação de consciência alcançada por
um iogue, e também não será possível de se compreender o processo de morte o
qual será explicado posteriormente. Segundo o conceito iogue de inconsciente,
10
[...] o caminho da realização do si-mesmo tem dois aspectos principais. O
primeiro é a impassibilidade, que consiste em desvencilhar-se da falsa
identificação com o não-si-mesmo – isto é, com o quanto pertence aos
diversos níveis da natureza. O segundo aspecto é a prática de identificação
do si-mesmo mediante a reiterada concentração meditativa e êxtase
(FEUERSTEIN 2001, p. 302).
Segundo o ioga da morte, ou ioga criativo, toda pessoa deve se preparar
para a morte o quanto antes, afinal de contas ela pode chegar a qualquer hora.
Gandhi quando levou o tiro final, sua prece da morte estava tão internalizada, que
sua última palavra instantânea foi Ram, um dos nomes de Deus (GOSWAMI, 2005).
Os tibetanos sugerem três práticas para auxiliar a abordagem criativa da
morte. São elas: a prece da morte, que é uma prática de devoção; o sacrifício
perfeito, que é uma prática de virtude ativa; e a contemplação sem esforço, que é a
prática de Jnana (sabedoria/inquirição) (GOSWAMI, 2005).
A prece da morte consiste em ter um mantra pessoal, o qual se tornará
presente na vida da pessoa mesmo inconscientemente. Significa rezar para o Buda
10
Si-mesmo: sujeito da consciencia. Vide tambem “si-mesmo individual e si-mesmo quântico.
Si-mesmo individual: o conteúdo do ego e o caráter que, juntos, definem o si-mesmo individual.
Si-mesmo quântico: Modalidade primaria do sujeito do si-mesmo situado além do ego, onde reside
a verdadeira liberdade, criatividade e não-localidade da experiência humana.
Não-localidade: influência ou comunicação instantânea sem qualquer troca de sinais através do
espaço-tempo; uma unidade indivisa, uma inseparabilidade que transcende espaço-tempo
(GOSWAMI, 2005, p. 293).
29
Amitabha, enquanto se pensa na terra das bênçãos, a versão budista do céu. Sendo
que tal prece pode ser incorporada às praticas de ioga também. A meditação pode
ser feita com um dos nomes de Deus (Maomé, Alá) (GOSWAMI, 2005).
O sacrifício perfeito baseia-se na percepção de que o sacrifício voluntário
é um modo altamente eficaz de chegarmos à natureza da verdade (GOSWAMI,
2005). Com isso a idéia é a empatia, a qual se sentirá dor e sofrimento para aliviar a
dor da humanidade. Por exemplo: Alguém que está preces a morrer passa a sentir a
dor dos outros seres e através da meditação reza por sua melhora a ponto de tentar
sentir estas sensações em si.
A prática do sacrifício pelos demais leva a descoberta da alteridade nos
outros, que é a descoberta do verdadeiro amor – um amor que não é
condicionado por a outra pessoa ou entidade ter parentesco comigo.
Quanto mais o ser humano percebe que pode amar os outros, menor o
domínio de seu ego sobre eles (GOSWAMI, 2005, p. 223).
Por fim o Caminho de Jnana, consiste em descobrir a consciência,
mantendo-se dentro de sua natureza, dentro do momento presente, sem permitir
distrações. Este é o verdadeiro significado da frase: morrer conscientemente.
Quando a contemplação se torna substancial e imponderável, e não exige esforço o
indivíduo encontra-se no fluxo natural da consciência (GOSWAMI, 2005).
“Se o praticante se mantém na natureza da mente [consciência],
conseguirá despertar plenamente, tornando-se um Buda no estagio chamado de
corpo absoluto ou clara luz no momento da morte” (GOSWAMI, 2005, p. 225).
Segundo o Senhor Krishna (apud, YOGANANDA, 2008), existe uma técnica
chamada de kriya Ioga que se sobrepõe aos ascetas que disciplinam o corpo, e ao
jnana ioga (citado anteriormente).
O Kriya Iogue usa sua técnica para impregnar e nutrir todas as células do
seu corpo com luz imperecível, e conservá-las magnetizadas. De forma científica ele
30
torna a respiração desnecessária sem, com isso entrar em estados de sono
subconsciente ou inconsciente (YOGANANDA, 2005).
O kriya Ioga é um método simples, psicofísico, pelo qual o gás carbônico é
retirado do sangue humano e substituído por oxigênio. Os átomos desse
oxigênio adicional são transmutados em energia vital para rejuvenescer o
cérebro e os centros da coluna vertebral. Ao interromper o acúmulo de
sangue venoso, o iogue é capaz de diminuir ou evitar a deterioração dos
tecidos; o iogue avançado transmuta suas células em pura energia. No
passado, Elias, Jesus, Kabir e outros profetas foram mestres no uso do
Kriya Ioga, ou alguma técnica similar, pela qual desmaterializavam seus
corpos livremente (YOGANANDA, 2008, p. 245).
Segundo o mesmo autor, num período de três anos um iogue pode
conseguir com seu próprio esforço e inteligência o mesmo resultado que a natureza
pode produzir em um milhão de anos (YOGANANDA, 2008). Não deixando de frisar
que esse caminho mais curto percorrido, somente ocorre, com iogues muito
desenvolvidos,
sob
orientação
de
um
guru,
que
os
orienta
e
prepara
cuidadosamente, corpos e cérebros para receber a energia gerada pela prática
intensiva.
Quando o iogue está em seus estados iniciais de união com Deus, a
consciência funde-se ao espírito cósmico; sua energia vital é retirada e seu corpo
parece morto, ou imóvel e rígido, num estado de animação suspensa do qual a
iogue tem plena consciência. Entretanto na medida em que avança, ele entra em
comunhão com Deus e deixa de se preocupar com o corpo, acontecendo até mesmo
nos momentos de vigília em meio às exigências de suas obrigações mundanas
(YOGANANDA, 2008).
Quando o iogue alcança o poder de desconectar de todos os sentidos, é
algo simples para ele unir-se mentalmente seja com os reinos divinos ou com o
mundo material. Ele não é mais trazido pela energia vital, à esfera mundana de
31
sensações tumultuosas e inquietudes mentais. Mestre do corpo e da mente, ele
consegue a vitória sobre seu último inimigo a morte (YOGANANDA, 2008).
32
3 PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO, SENTIDO DE VIDA E DE MORTE, E
TRANSCENDÊNCIA.
Nesse capítulo se tem por objetivo explanar assuntos acerca da visão de
morte e a compreensão cognitiva respectivas às idades do desenvolvimento
humano, baseado na psicologia do desenvolvimento, assim como verificar o que é o
sentido de vida e qual o sentido de morte na cultura ocidental contemporânea, e por
fim apresentar estudos os quais abordam uma visão emergente sobre a morte e o
morrer a partir da psicologia transpessoal.
Segundo Carneiro e Abritta, (2008), o homem durante toda a sua
existência buscou construir sentido para sua razão de ser e de estar no mundo.
Viktor Frankl (apud CARNEIRO; ABRITTA, 2008, p. 2), “afirma que a sobrevivência
do ser depende da capacidade de orientar a própria vida em direção a um “para que
coisa”, ou um “para quem”, ou seja, a capacidade do ser de transcender-se”.
Com isso o ser humano que se sente capaz e sabe da importância de
ajudar os outros, e que se envolve em projetos e causas para beneficiar um meio
social, se mantém certo de seu sentindo vital, portanto se sente importante. Com o
passar dos tempos e com a movimentação da sociedade em direção a um egoísmo
e falta de solidariedade e compaixão para com o outro se percebe um vazio
existencial em massa.
Tal vazio acaba se refletindo também por as pessoas idealizarem uma
eterna juventude, resultante da visão de sociedade capitalista, que padroniza coisas
e pessoas, ditando o que é felicidade ou não (Kovács, 2005). Essa visão materialista
acaba afastando o ser humano cada vez mais da sua essência implicando na
33
negação do envelhecimento e da morte, percebendo-se dada visão como geral em
todas as fases de desenvolvimento humano (Kovács, 2002).
Por fim se traz justamente uma visão emergente da morte e do morrer
(psicologia transpessoal), a qual quebra os padrões da visão predominante da
sociedade contemporânea, justamente para retomar a naturalidade nos processos e
transformações físico-psiquico-socio-espirituais sofridos pelo ser humano ao longo
do seu desenvolvimento, apresentando a morte como uma etapa do continuum do
qual a existência humana faz parte.
3.1 Sentido de vida e de morte
O homem com o passar dos tempos foi construindo motivos para
comprovar sua existência, os modificando, conforme a evolução da humanidade. As
conquistas foram tantas que se chegou a um tempo (contemporaneidade) o qual, os
objetivos de vida se tornaram padrões, levando as pessoas a se questionarem sobre
o sentido de vida.
Segundo Carneiro e Abritta (2008), na sociedade atual tudo está tão
pronto a ponto de ser consumido que as pessoas não estão mais construindo um
sentido para tal. Viktor Frankl, psiquiatra austríaco criador da logoterapia, nos diz
que o ser humano tem liberdade pessoal para se impor um caminho, em que agirá
com responsabilidade para com a vida sendo este seu sentido vital (apud GOMES,
1992).
“Viktor Frankl insistia que a liberdade para o homem é a forma de
expressão mais humana e é incondicionável” (apud GOMES, 1992, p. 28). O papel
das psicologias então é ajudar as pessoas que sofrem com a opressão cotidiana, a
34
descobrir que a liberdade é o seu destino, que está na sua consciência, e é privilégio
da espécie humana que sofre com o fantasma da finitude.
Rinpoche (1999), constatou que na civilização contemporânea ocidental
as pessoas são ensinadas a negar a morte, crendo que ela nada significa a não ser
aniquilação e perda. Ou então pensam que como ela chega para todos não há com
o que se preocupar, sendo uma boa teoria até que se esteja morrendo.
Todas as grandes tradições espirituais do mundo inclusive o Cristianismo,
dizem que a morte não é o fim [...] o que acaba gerando nas pessoas um
sentido sagrado para se alcançar esta vida futura. Mas não obstante a
esses ensinamentos, a sociedade atual é em larga escala um deserto
espiritual, em que a maioria das pessoas pensa que esta vida é tudo que
existe (RINPOCHE, 1999, p. 25).
Segundo Carneiro e Abritta (2008), outro elemento importante que se
perdeu ao longo dos tempos, e que ajudava o ser humano a dar sentido a sua vida,
é o ritual. A ocupação do homem com rituais e tradições o ajudava a simbolizar seus
valores, crenças, pensamentos e desejos.
Viktor Frankl durante o período que estava nos campos de concentração
observou que, os companheiros de prisão, vivenciando uma angústia intensa, se
apegavam a fé, surgindo uma esperança no futuro, a qual fazia brotar um sentido de
vida, e a crença em Deus (apud GOMES, 1992).
Frankl em sua teoria (1920), considera que o ser humano tem uma
dimensão chamada por ele de noética, ou seja, a espiritualidade imaculada, o Deus
vivo na intimidade da pessoa humana.
Segundo Rinpoche (1999), as pessoas que não crêem numa vida após a
morte, criam uma sociedade fixada em resultados à curto prazo, sem ter a menor
preocupação com as conseqüências de seus atos. Com isso, parece que a
35
sociedade em sua grande maioria está tomando esta configuração ao se considerar
que a compaixão verdadeira é quase algo inexistente.
Frankl ao considerar o ser humano como bio-psico-sócio-espiritual,
“percebe que além das dimensões somáticas, corporais e psicológicas há uma
terceira dimensão que é própria e autônoma em si” (apud GOMES, 1992, p. 45). E
essa dimensão espiritual foi recalcada pela opressão com o passar dos tempos, as
pessoas estão com seu Deus íntimo carente de expressão em várias formas, seja de
amor ao próximo, afetividade, interesse pelos outros, criatividade, etc.
Frankl constatou que se a pessoas ficarem muito presas em si mesmas e
esquecerem do que tem ao seu redor, perderão sua orientação no mundo, o sentido
de vida, e mergulharão num grande vazio existencial (apud GOMES, 1992).
Situação esta cada vez mais propensa a ocorrer a medida que as pessoas em
função da tecnologia e facilidades do mundo contemporâneo acabam diminuindo
cada vez mais o contato com o meio.
Por isso Rinpoche afirma que (1999, p. 28): “a maioria das pessoas morre
despreparada para morrer assim como, viveram despreparadas para viver”.
Segundo o mesmo autor a sociedade ocidental contemporânea perde cada vez mais
a noção do essencial da vida, se prendendo a padrões para a obtenção de um
sucesso que talvez nunca ocorra da forma esperada, ou quando acontecer, tal
pergunta surgirá: E agora, o que eu faço? O sentido de se viver foi confundido com a
quantidade de bens materiais adquiridos, com o apego as coisas e as pessoas.
36
3.2 Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista da criança
Com o passar dos tempos e principalmente com a tecnologia a disposição
de todos, inclusive das crianças, os esforços a fim de esconder a morte e o morrer
dos mais novos se tornaram em vãos, na medida em que se percebe a quantidade
de filmes, desenhos, e programas abordando este fato inerente a vida do ser
humano.
Segundo
Kovács
(2005),
as
crianças
e
adolescentes
convivem
diariamente com imagens de morte, e ao mesmo tempo, são poupados pelos pais
ou parentes próximos para não as entristecer. Ao encontro disso também existe o
fato do grande aumento de casos de câncer e AIDS em crianças e adolescentes,
que vivenciam o estar doente, se abstendo das atividades prazerosas importantes
para a sua idade e para a formação da identidade.
As crianças ao permanecerem longos períodos hospitalizadas, convivendo
constantemente com a perspectiva da morte, acabam sofrendo muito, por estarem
lidando com algo que é normalmente atribuído ao envelhecimento do ser humano.
Com isso Kubler-Ross (1998, p. 10), médica suíça, erradicada nos EUA, nos diz o
seguinte:
O fato de permitirem que as crianças continuem em casa, onde ocorreu
uma desgraça, e participem da conversa, das discussões e dos temores,
faz com que não se sintam sozinhas na dor, dando-lhes o conforto de uma
responsabilidade e luto compartilhados. É uma preparação gradual, um
incentivo para que encarem a morte como parte da vida, uma experiência
que pode ajudá-las a crescer e amadurecer.
Segundo Kovács (2005), existe um despreparo tanto dos pais quanto dos
profissionais da saúde para lidar com a questão da morte com a criança. Os pais
muitas vezes acabam ocultando a verdadeira situação, e os médicos se vêem
37
frustrados frente a uma tentativa incansável de luta pela vida, e frente aos pais e aos
familiares quanto precisam dar a notícia de um mau prognóstico.
Para que se possa instruir pais, equipe cuidadora hospitalar, professores e
todo um meio social, é interessante de se ressaltar que dependendo da idade da
criança e sua compreensão de mundo, a forma como uma notícia relacionada a
morte e o morrer deve ser dada é diferenciada.
Segundo Torres, a psicanálise ortodoxa afirma que os pensamentos acerca
da morte somente aparecem depois do período edipiano, como produto
simbólico do medo da castração; os teóricos piagetianos afirmam que a
compreensão de conceitos somente se dá quando as estruturas cognitivas
da criança atingem as operações formais, no início da adolescência (1999,
p. 25).
Tais teorias levam a entender que nos primeiros anos de vida da criança
elas nada compreendem a respeito da morte, o que ocasionou nos últimos tempos,
num interesse acerca de como as crianças conceitualizam a morte. Segundo Maurer
(apud TORRES, 1999), a criança desde a tenra idade antes dos dois anos começa a
ter seu primeiro contato com a morte, em função das experiências de dormir e
acordar, experimentando os estados de “ser” e “não ser”.
Kovács (2002), também cita as primeiras separações maternas como
representação importante da morte para a criança, na medida em que a criança se
sente desamparada percebendo que sem a mãe não consegue viver. Sem contar
que ao longo do seu desenvolvimento o contato com a morte também ocorrerá, pela
perda de um animal de estimação, ou de um parente, sendo importante deixar a
criança manifestar seus sentimentos e participar dos rituais para elaborar seu luto
assim como os adultos.
Segundo Nagy (apud TORRES, 1999), a criança até os 5 anos de idade
não vê a morte como irreversível, mas a percebe como gradual e temporária. Nesta
38
etapa do desenvolvimento, em razão do animismo infantil, a morte é percebida como
um evento impossível.
Entre as idade de 5 a 9 anos, a criança já entende a morte como
irreversível, mas não ainda como inevitável (NAGY apud TORRES, 1999). A autora
coloca que há uma tendência para personificar a morte, como se alguém viesse
buscar a pessoa. Dos 9 anos em diante a morte é vista então, como a cessação das
atividades
do
corpo
e
como
inevitável
a
todos
os
seres
humanos
independentemente de idade.
Torres (apud KOVÁCS, 2002) a partir de pesquisas realizadas ligadas aos
períodos de desenvolvimento cognitivo de Piaget, constatou que no período préoperacional (2 aos 7 anos), “a criança não nega a morte, mas é difícil separá-la da
vida; atribuído a fatores externos a impossibilidade de viver. Não percebem a morte
como definitiva e irreversível “(2002 p. 53).
Já no período das operações concretas (7 aos 12 anos), as crianças
distinguem entre seres animados e inanimados, e percebem a morte como algo
irreversível, buscando aspectos como a imobilidade para defini-la. E por fim no
período das operações formais (12 em diante), a criança já reconhece a morte como
um processo interno, implicando em cessação da atividade fisiológica.
A partir disso a criança sabe dar explicações lógico-categoriais de
causalidade, definindo a morte como parte da vida (TORRES apud KOVÁCS, 2002).
Ressaltado que o principal quando se trata de morte com a criança, mesmo que ela
seja o enfermo que corre risco de morte, é que sempre seja avisado dentro da sua
capacidade de compreensão, para assim poder também elaborar da sua forma dada
situação, e criar suas estratégias de enfrentamento.
39
Uma informação importante a respeito da morte na infância é que em
algumas situações, o elemento culpa aparece fortemente, até mais ou menos uns 9
a 10 anos, relacionado ao pensamento mágico e onipotente infantil e com os
elementos de sociabilização, que levam a desejos de morte de tal forma, que se
ocorre uma morte, é inevitável que a criança estabeleça uma relação entre esses
desejos e a morte efetiva.
Segundo Koocher (apud TORRES 1999, p. 162), “é sempre aconselhável
que se peça a criança, o que lhe foi ensinado a respeito da situação a qual ela
passa, obtendo assim a oportunidade de corrigir qualquer distorção”. E então
perguntar qual foi sua compreensão a respeito do que foi falado, e saber se a
criança está sendo atendida no que deseja saber.
Portanto, não existe uma forma padrão para lidar com a criança a respeito
da morte, porque além dela possuir uma compreensão diferenciada dependendo da
idade, também terá influência da forma como foi criada, suas crenças e valores.
Cabendo assim aos responsáveis por lidar com essa, o cuidado em passar somente
as informações as quais a criança julga importante para ela.
Segundo Kovács (2002, p.24), “a criança bem amada e cuidada se vê
forte e poderosa, com um sentimento de invulnerabilidade e apoio, que colaboram
para o estabelecimento da individualidade”. Logo o seu medo frente a morte irá
depender da natureza e vicissitudes próprias do seu processo de crescimento.
3.3 Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista do adolescente
Apesar de obter a capacidade cognitiva de perceber as características
essenciais da morte, o adolescente se encontra nessa fase num processo complexo
40
ao se perceber que emocionalmente ele se apresenta muito distante da morte,
sentindo-se como herói frente a vida.
Segundo Kovács (2002), o período da adolescência acontece como uma
das maiores transições do ser humano, caracterizando-se pela maior ocorrência de
lutos, ao se considerar que o adolescente perde seu corpo infantil, sua identidade de
criança e precisa elaborar a perda de seus pais infantis.
“Paradoxalmente o adolescente não se deixa afetar pela idéia de morte
pessoal, por projetá-la para um futuro bem distante, como se fosse uma defesa
contra a vulnerabilidade e finitude” (TORRES, 1999, p. 142). O adolescente então
frente a tantas transformações em sua vida e em seu corpo, como o
desenvolvimento da sexualidade, os relacionamentos amorosos, uma escolha
vocacional, se vê como querendo experimentar esse mundo de novidades
(KOVÁCS, 2005).
Segundo Erikson (apud TORRES, 1999), para o adolescente a grande
tarefa dessa idade é adquirir identidade, se definir como pessoa, e para isso desafia
o mundo e rompe todos os limites. Segundo Kovács (2002), de um lado a
exuberância vital do adolescente o permite ter uma percepção maior de sua
condição física, e de outro, faz com que ele não admita ver esse corpo, como um
corpo que dói, sangra, definha e morre.
Desta forma, para o adolescente, a morte ou sua simples ameaça, acaba
tendo uma significação e um sofrimento muito maior do que nas outras fases do
desenvolvimento humano. Ficando determinado tal período, como foco de muitos
estudiosos, em função do grande paradoxo em que se apresenta; uma força incrível
para viver, a contraponto de um período de altos riscos para que ocorram mortes
inesperadas.
41
Sendo tais riscos explicados, pelas extravagâncias dessa idade, ou
melhor, por não haver um respeito em relação aos limites (KOVÁCS, 2002). O que
implica na procura por atividades que desenvolvam o limite físico, como os esportes
de um modo geral, atividades como guiar carros, motos e outros tipos de
transportes, bem como o uso de drogas e entorpecentes, por acreditar que a morte é
um fenômeno que ocorre somente com o outro.
Para o adolescente mesmo quando a morte ocorre com um amigo ou com
alguém muito próximo, tal acontecimento sempre acaba sendo por ele atribuído por
descuido, por uma irresponsabilidade pessoal, ficando evidente que o adolescente
regride um pouco em termos de pensamento as fases infantis.
Outra situação em que o adolescente regride também, mas em termos de
comportamento, é quando precisa se afastar do meio social e principalmente dos
amigos em função de estarem enfermos. Segundo Torres (1999), os adolescentes
quando precisam ficar hospitalizados em função de uma doença, se tornam mais
dependentes dos pais e da equipe cuidadora.
Segundo kovács (2002), outro dado relevante sobre esse período, é que
as tentativas de suicídio são muito freqüentes, decorrentes geralmente pelos
adolescentes não teres suas expectativas concretizadas frente a relacionamentos e
realizações amorosas. Reforçando ao que já foi falado até então, quanto a
intensidade de sentimentos, e de como vivem suas vidas nessa fase.
A adolescência, portanto, segundo Kovács (2002, p. 57), “é um período do
desenvolvimento em que a vida e a morte encontram o seu auge, a vida pela sua
possibilidade de desenvolvimento pleno, e a morte como uma continuação dessa
plenitude”. Apesar de o adolescente dar a entender o tempo todo que esta não
existe.
42
3.4 A Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista do adulto
Após a adolescência, o ser humano entra na idade adulta, etapa a qual a
morte
vai além
dos
conceitos de universalidade
(ocorre com
todos) e
irreversibilidade (não tem volta, acontecimento definitivo). Segundo Papalia (2006),
no início da idade adulta, o jovem frente a recente conclusão de seus estudos, início
da carreia profissional e início de um casamento, tem a idéia de morte distante de si,
na medida em que possui muitos planos e sonhos e vontade em realizá-los.
A mesma autora, diz que o jovem adulto atingido por doenças ou por um
dano fatal, tende a ficar extremamente frustrado, podendo isso se converter em
raiva, e tornando o tratamento médico num processo muito difícil. Apesar da sede de
realização de uma vida individual que está começando, segundo Kovács (2002), o
jovem adulto diminui seus impulsos e arroubos, tornando-se mais calmo e
ponderado, pois se permanecesse no ritmo da fase anterior poderia adoecer.
Com o amadurecimento do jovem, o adulto ao longo dos seus 35 anos em
diante passa a re-significar a morte. Segundo Hohendorff e Melo (2009), a morte
passa a ter um significado social também, pois o falecimento de um idoso na família,
acarreta em mudanças de papéis e funções na mesma.
O que acorre é que sempre que um idoso da família morre, acontece uma
movimentação no sistema de gerações, refletindo na aproximação do adulto com a
sua própria morte. Jung (apud KOVÁCS, 2002), chamou esta fase de metanóia, ou
metade da vida, quando a própria pessoa faz uma avaliação do que foi a sua
existência até então.
43
Segundo Papalia (2006), na meia idade, a maioria das pessoas percebe
mais claramente que vai de fato morrer, seus corpos passam a sinalizar que já não
estão mais tão jovens, ágeis e vigorosos quanto antes. Para Kovács (2002, p. 7):
Os fatos concretos, ajudam as pessoas a avaliarem o que se alcançou em
relação à profissão, às posses, à família, aos filhos, ou a quaisquer pontos
considerados vitais. Quando se chega ao topo da montanha e admira a
paisagem à volta, a descida parece ser obrigatória [..] a descida representa
a segunda metade da vida, potencialmente tão criativa quanto a primeira,
só que de um outro ângulo.
Surge a partir daí a possibilidade da própria morte e isso traz um novo
significado para a vida. A partir disso não se tem mais todo tempo do mundo, e o
limite não aparece mais como algo a ser extrapolado, mas sim, a ser conhecido e
admitido.
Uma pesquisa realizada por DiGiulio (apud PAPALIA, 2006), constatou
que durante a idade adulta, os adultos mais velhos lidam melhor com perda do
conjugue do que os adultos jovens. Entretanto, Lundt (apud, PAPALIA, 2006), diz
que a idade não é um aspecto importante ao processo de luto, mas sim, sua
habilidade de enfrentamento.
Embora o luto muitas vezes demore a ser elaborado, a maioria dos
casados por seu fim reconstrói sua vida, sendo que solidão, tristeza e depressão,
com o passar dos tempos dão lugar a confiança na capacidade de viverem sozinhos.
Outra morte considerada por Papalia (2006), como uma das mais difíceis de
elaborar durante a idade adulta, é a dos filhos; poucos pais estão preparados para
lidar com este tipo de situação.
Por fim, percebe-se que apesar da maturidade atingida com a idade
adulta, a morte continua sendo vista como algo ameaçador, causador de medo e
sofrimento. Segundo Kovács (2002), o símbolo da foice, frequentemente usado nas
44
representações de morte, dá essa idéia de corte. Se aproximando cada vez mais do
ser humano ao longo do seu desenvolvimento, até chegar a velhice cujo fim, é
claramente a morte.
3.5 Visão da psicologia sobre o morrer sob o ponto de vista do idoso
O conceito velhice é muito discutido entre teóricos hoje em dia, em função
de essa palavra ser atribuída a algo que não tem mais utilidade, que está
ultrapassado. E apesar da conotação que a palavra “velho” possui, hoje em dia é
possível de se perceber velhos com mais sede de viver do que muitos jovens.
Segundo Goldfarb (apud SANTANA, 2008), o envelhecimento está ligado
à consciência da finitude, que se instaura ao longo da vida nas diferentes
experiências de proximidade com a morte. Se existe algo comum entre todos os
seres humanos, independente de classe social, estado civil, preferência sexual,
religião, é o envelhecimento (a não ser que não se consiga manter vivo para chegar
a esta fase do desenvolvimento), e a morte.
Segundo Santana (2008), ao levar-se em consideração a sociedade na
qual estamos (que tem medo e nega a morte), não é de se surpreender que a morte
desejada pela maioria das pessoas que chegam a velhice é aquela que ocorre
durante o sono, uma morte natural, inconsciente, sem dor.
A dor e a dependência do outro seja em função de uma condição física
e/ou mental, são as coisas mais temidas pelo idoso, evidenciando-se que em muitos
casos a pessoa prefere a morte – acabando realmente a tentar - a ficar nessa
condição, por se sentir impotente, por sua auto-estima ter praticamente se acabado,
e principalmente por achar que está causando muito incômodo a todos a sua volta.
45
Segundo Kovács (2005), as estatísticas da OMS, indicam um aumento
significativo no número da população idosa em todo o mundo. Entretanto a
preocupação que se tem por parte dos estudiosos dessa área é que apesar do
prolongamento da vida não está ocorrendo uma preocupação com qualidade de vida
da mesma.
Ainda Kovács (2005, p. 4), conclui que “do ponto de vista social, muitos
idosos são obrigados a continuar trabalhando mesmo depois de aposentados,
amargando grandes dificuldades financeiras, depois de trabalhar praticamente
durante toda a vida”. Sabe-se que o idoso paga por sérias conseqüências em
continuar mantendo um ritmo que não é mais coerente com sua condição física,
psicológica e espiritual.
Em função de uma sobrecarga o idoso pode adoecer e até mesmo morrer.
Kovács e Vaiciunas (2008), constataram que em função do grande número de
perdas sofridas nesse período, as pessoas idosas podem acabar ampliando sua
busca espiritual. Papalia (2006), reforça a colocação anterior, ao dizer que a fé, a
crença em Deus, e o apego por uma religião, são considerados pelo idoso grandes
aliados para o enfrentamento da morte.
O medo da morte assim como nas outras fases do desenvolvimento
humano, aparece fortemente nesse período a ponto que enquanto alguns se
entregam e esperam por ela, outros aproveitam a vida e principalmente alguns
privilégios que possuem por terem conquistados sua aposentadoria, por não
precisarem mais trabalhar, e pela preocupação com os filhos ter diminuído.
Segundo Erikson (apud PAPALIA, 2006), o idoso ao invés de se render ao
desespero pela incapacidade de reviver o passado de forma diferente, deve se
esforçar para obter um senso de coerência e integridade.
46
As pessoas que são bem sucedidas nessa tarefa final de integração,
adquirem um senso de ordem e significado de sua vida na ordem social
mais ampla, do passado, do presente, e do futuro. A virtude que pode
desenvolver-se durante esse estágio é a sabedoria, uma preocupação
informada e imparcial com a própria vida diante da própria morte
(ERIKSON apud PAPALIA, 2006, p. 707).
Nessa fase o ser humano frente a novas configurações de sua vida, e
tendo que admitir suas limitações e mudar sua visão frente ao mundo e as
possibilidades, algumas vezes se entrega ao desespero, e em outras tenta resignificar sua vida, através da espiritualidade.
Segundo Kovács (2002), a busca por um sentido de vida é uma busca que
se torna privilegiada a partir de um a determinada fase da vida, que é a chamada de
terceira idade. Nessa fase da vida o ser humano fica com mais possibilidades de
escolha na medida em que suas responsabilidades diminuem.
Por fim a partir de Kovács e Vaiciunas (2008) compreende-se que a maior
preocupação do idoso é a distanásia que nada mais é que o prolongamento do
processo de morrer, com muito sofrimento, envolvendo tratamentos, cujos benefícios
são significativamente menores, do que os sofrimentos que provocam.
O idoso tem medo da dor, medo de perder sua autonomia, medo de ser
reduzido a “problema para os outros”, e principalmente de ter a morte como
assombramento
permanentemente.
O
idoso
quer
ser
ouvido,
amado
e
compreendido, e respeitado assim como nas outras etapas do desenvolvimento.
3.6 Morte e transcendência
Afinal de contas o que acontece com o ser humano quanto este morre?
Esta é uma pergunta que todas as pessoas se fazem, a partir do momento que
compreendem a morte como um fenômeno irreversível.
47
Segundo Weil (1999), o ser humano por vezes durante sua existência se
questiona em relação aos seus afazeres, e se realmente compensa se sacrificar e
trabalhar, ou invés de fazer as coisas que gosta, tal pensamento se caracteriza
àqueles que acham que com a morte tudo acabará.
Segundo D’Assumpção (1991), “para se compreender a morte é
necessário se compreender a vida”. E com isso ela quis dizer que a pessoa precisa
ter um sentido na sua vida, precisa perceber em “essência” qual o sentindo de sua
existência, e destaca-se justamente a palavra essência para salientar que esta não
está ligada ao apego às pessoas e as coisas, mas sim a uma felicidade verdadeira.
Weil (1999), destaca algo importante a respeito da morte, segundo ele, o
ser humano não se dá conta que no seu processo de desenvolvimento ele sofre
várias mortes, iniciando-se no momento que deixa de ser um embrião para se tornar
um feto, depois quando deixa de ser um feto e através do nascimento se torna um
ser humano, quando deixa de ser criança e se torna um adolescente, observando
suas várias modificações corporais e mentais, etc.
Ainda segundo Weil (1999), existem três teorias as quais os seres
humanos podem crer, a primeira diz que com a morte nada mais resta, que tudo que
é vivo tem um começo e um fim, e que todas as funções organísmicas são
resultantes do funcionamento fisiológico. Ou seja, a vida começa no nascimento, e
termina com a morte.
Na segunda teoria (intermediária), a morte é vista como parcial, por se
considerar que apesar de a morte cessar qualquer atividade humana (corporal,
psíquica, e espiritual), as idéias e feitos em vida continuam influenciando sobre
outras pessoas, exemplo disso, são os livros, obras de arte e teorias.
48
E por fim a terceira teoria a qual será adotada nesse trabalho, advinda da
quarta força da psicologia, chamada transpessoal. Esta acredita que a existência é
provisória, porém a vida é eterna, como se a morte do indivíduo fosse apenas uma
metamorfose, a qual o corpo energético abandona o corpo físico, assim como uma
lagarta se transforma em borboleta.
Segundo França e Montanari (2008), “existe uma energia vital que
organiza e anima o corpo físico, cuja ausência, pelo fenômeno da morte, provoca a
desagregação celular, e a conseqüente dissipação cadavérica”. Os mesmo autores
ainda dizem que a origem desta energia ou o destino dela após a morte, é melhor
explicada pelo âmbito religioso do que cientifico.
A tese da morte como metamorfose sustenta que “o corpo físico do ser
humano serviria de laboratório ou sistema de transformação e criação de outro ser
de densidade energética mais refinada e imperceptível aos cinco sentidos, o ser
psíquico” (WEIL, 1999, p. 105).
O ser humano, portanto, transforma energia material em energia psíquica,
sendo o instrumento desta transformação. Weil (1999), explica que no universo
existe energia em forma de matéria, que é transformada pelas plantas em energia
vital. O homem a transforma em energia mental, psíquica ou de consciência. Estas
energias podem ser melhores explicadas através dos chakras11, que são níveis mais
refinados de energia.
Com isso entende-se que o grande obstáculo para se obter consciência
desses níveis mais refinados de energia, são os apegos do ego, que vive sua
existência na ilusão do espaço-tempo. Para ocorrer uma evolução para níveis mais
refinados de energia o ser humano precisa se desapegar do seu ego e mergulhar no
11
Chakras: significa roda, campo, ou círculo energético. Temos em nosso corpo inúmeros destes
centros ou níveis energéticos; eles existem em potencial mas podem ser ativados mediante uma
evolução resultante, em geral, de um trabalho sobre nós mesmos.
49
seu self individual, que não é nada mais que o self universal, representado dentro de
cada um de nós. E o self é o responsável por deixar o corpo físico na hora da morte.
Do ponto de vista da transpessoal, não há a preocupação de se ficar
evitando proposições sobrevivencialista da consciência, pelo contrário,
está-se questionando fatos e pesquisando fenômenos que evidenciem esta
sobrevivência, tanto com procedimentos científicos para o estudo da
consciência, quanto na experiência vivida das pessoas ou nos
ensinamentos das grandes tradições místicas (FRANÇA E MONTANARI,
2008, p. 94).
Portanto não há porque se evitar isso, quando se adota um modelo
holístico12 da natureza humana, estudando o ser humano de maneira totalizante e
integradora, ao invés de um modelo fragmentado como se fez até bem pouco tempo
atrás. Ao considerar o ser humano como bio-psiquico-social-espiritual, a psicologia
consegue entendê-lo de forma total.
Kubler-Ross, passou sua vida a estudar a morte e o morrer (WEIL, 1999),
e contribui imensamente para esse campo não somente por ter descoberto que o ser
humano passa por algumas etapas antes de morrer (Choque, negação, revolta,
barganha, depressão, e aceitação), as quais serão detalhadas no próximo capítulo,
como também por ter observado em centenas de entrevistas realizadas com
pacientes terminais, que a morte é apenas uma passagem para um outro modo de
viver.
Sua pesquisa baseava-se em testemunho de pessoas que tiveram
experiências chamadas de quase-morte, as quais saíram de seus corpos, ou tiveram
visões de seres em outra dimensão. Segundo Weil (1999, p. 106), “a própria KublerRoss, teve uma experiência desta que a convenceu definitivamente da inexistência
da morte”.
12
Modelo Holístico: enfoque global, interdisciplinar, em que tudo é considerado: os métodos
experimentais e experienciais, racionais e intuitivos, descritivos e especulativos.
50
D’Assumpção (1991), cita um psiquiatra norte-americano Raymond
Moody, o qual desenvolveu uma pesquisa com pacientes que tiveram a chamadas
morte clínica13, e pessoas que sofreram de acidentes gravíssimos, com perda mais
ou menos longa de consciência.
E constatou que estes, independentemente de religião e credos, tiveram
experiências as quais depois de alguns zunidos para uns, músicas para outros,
sabiam contar exatamente quais foram os procedimentos tomados pelo médico para
reanimá-los, sem contar que em algumas situações sabiam até contar parte de
conversas que ocorreu entre as pessoas que estavam ali naquele momento, e
podiam atravessar paredes, e objetos.
Weil, (1995), ressalta que o fenômeno de experiências de sair do corpo
não ocorre somente com pacientes terminais ou reanimados, mas também com
pessoas que passaram por sessões de relaxamento profundo, meditação, sono e o
sonho, em alguns casos de psicoses, sob efeito de drogas, estados estes chamados
de alterados de consciência.
Ainda segundo Weil (1995), aquilo que denominamos de morte
corresponde a uma mudança de estado de consciência, iguais àquelas observadas
nas experiências chamadas “saída do corpo”. Com a diferença de que com a morte
ocorre uma transformação de energia que forma diferentes sistemas, percebidos por
que continua vivo como inexistentes.
Assim com as experiências de saída do corpo, e a da visão de seres em
outra dimensão por pessoas ainda vivas nesse plano, é forçoso reconhecer
que os dois tipos de vivencia se completam no sentido de reforçar a
hipótese de sobrevivência e continuidade da vida emocional, mental e
espiritual, depois da transformação do corpo físico, a qual chamamos de
morte (WEIL, 1999, p. 112).
13
Morte Clínica: paralisação da função cardíaca e da função respiratória.
51
Portanto acredita-se a partir da visão transpessoal, que as pessoas que
tiveram a oportunidade que vivenciar experiências de consciência cósmica (Ex:
Nirvana, EQM), ou seja, experimentaram a morte em vida, e obtiveram a
aprendizagem dessa passagem. Quando a morte acorreu de fato, que a pessoa
precisou deixar o corpo físico, não sentiu dificuldades em dar este salto visto que já
havia dado, num processo de morte e renascimento na própria existência individual.
Por fim, tal capítulo tinha como objetivo elucidar alguns aspectos
emergentes em psicologia, relacionados à morte e ao morrer já que esses são um
dos enfoques deste trabalho, além de também querer mostrar a importância de
perceber o ser humano de uma perspectiva mais integral e totalizante.
52
4 MORTE, PSICOLOGIA E ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO
Até então se falou muito sobre morte e morrer, sobre a visão de morte da
sociedade contemporânea ocidental, sobre a visão de morte relacionada às fases do
desenvolvimento humano, sobre o sentido de vida e de morte, sobre a visão de
morte
de
algumas
religião/crenças,
sobre
a
morte
e
transcendência,
e
principalmente sobre a importância de compreender o ser humano em todas as suas
dimensões (corporal-psiquico-socio-espiritual).
Tal compreensão se faz importante tanto durante a vida como também,
quando a pessoa está sob eminência de morte. Portanto, tal capítulo falará sobre as
estratégias de enfrentamento utilizadas pelos moribundos, assim como as
estratégias desenvolvidas por profissionais da área da saúde a fim de compreender
o ser humano nesse processo de transição em sua completude, atendendo as suas
necessidades mais essenciais.
Kubler-Ross (1998), já citada em outros capítulos, assim como Ana
Catarina Elias – psicóloga brasileira – responsável por desenvolver o método de
“Relaxamento, imagens mentais, e espiritualidade” (RIME), nos elucidarão que a
muito já está ocorrendo uma preocupação com a humanização dos tratamentos nos
hospitais.
Visto que os hospitais a partir do século XX se tornaram os locais
designados
ao
atendimento
dos
moribundos,
será
apresentado
algumas
modificações em relação ao manejo da dor bem como o desenvolvimento dos
cuidados paliativos, mostrando a importância do profissional de psicologia como
integrante das equipes multiprofissionais hospitalares.
53
4.1 Atitudes diante da morte e do morrer segundo Kubler Ross
Segundo Kovács (2002), Kubler-Ross foi a grande revolucionária do
século XX, por ter demonstrado em suas práticas hospitalares a importância de ouvir
os pacientes nas suas necessidades, como seres humanos. Kubler-Ross, percebeu
que a melhor forma de compreender o processo de morrer, para poder ajudar de
uma forma mais eficaz, era pedindo que seus pacientes em fase terminal fossem
seus professores.
Com isso Kubler-Ross (1998), constatou que os pacientes terminais
dependem muito do conforto verbal ou não verbal, do médico, e sentem-se
encorajados ao saber que se fará todo o possível, se não para prolongar a vida, ao
menos para aliviar seu sofrimento. Salientando que o alívio do sofrimento está
relacionado aos cuidados humanos por parte não só do médico como também, dos
demais responsáveis por isso, e da própria veracidade do prognóstico.
Por exemplo: se uma paciente aparece com um caroço na mama, um
médico atencioso deve prepará-la para um eventual tumor maligno e dizer-lhe, que
uma biopsia irá revelar a natureza real do tumor. Segundo Kubler-Ross (apud,
KOVÁCS, 2002), o problema não está em contar ou não para um paciente sobre ele
ter uma doença grave, mas sim em como fazer isso.
Tal tarefa consiste em transmitir o diagnóstico, e ao mesmo tempo dar
acolhida e esperança, dar informação quanto aos procedimentos que serão
realizados, e principalmente garantir a presença freqüente do médico. Segundo
Kubler- Ross (1998, p. 199), “o informe sobre tempo de vida que dispõe é algo
dispensável visto que geralmente não é correto e traz angústias desnecessárias”.
54
Segundo Kubler-Ross (apud KOVÁCS, 2002), o paciente ao receber o
diagnóstico, até a sua morte, passa por cinco estágios os quais serão elucidados a
seguir, não esquecendo de frisar que tais estágios não são regras ao se considerar
que muitos moribundos acabam morrendo sem ter vivenciado todos.
No primeiro estágio ocorre o que Kubler-Ross nomeou de negação e
isolamento, que é quando o paciente recebe a notícia de uma doença terminal e
normalmente se expressa com frases do tipo: “Não pode ser comigo”. Típica da
crença ocidental de achar que a morte nunca será comigo, não encarando ela o
tempo todo.
A negação funciona como um pára-choque depois de noticias inesperadas
e chocantes, deixando que o paciente se recupere com o tempo,
mobilizando outras medidas menos radicais. Isso não significa, entretanto,
que o paciente não queira ou não se sinta feliz e aliviado em poder sentarse mais tarde com alguém e poder conversar sobre sua morte próxima
(KUBLER-ROSS, 1998, p. 44).
Comumente a negação não acontece por muito tempo, sendo substituída
logo por uma aceitação parcial. Após esta fase vem o segundo estágio chamado de
Raiva, que é quando a negação é substituída por um sentimento de raiva, de revolta,
inveja e de ressentimentos.
Segundo Kubler-Ross (apud KOVÁCS, 2002), os pacientes terminais que
passam por esta fase normalmente se questionam com perguntas do tipo: por que
eu? Nessa fase do tratamento visitas tanto da equipe cuidadora quanto da família
podem ser uma tarefa muito difícil, por despertarem nestes o sentimento de culpa.
Entender a raiva e facilitar sua expressão é a melhor forma de ajudar o paciente.
Passando a fase da raiva o paciente entra no terceiro estágio chamado de
barganha, que se caracteriza por um retrocesso a fase infantil de comportamento
quando a criança passa a se comportar bem para alcançar o que deseja. A
55
barganha normalmente está relacionada à crença em Deus, pedindo a ele que caso
se comporte melhor, será atendido em seu pedido, e determinados pedidos são
feitos geralmente em silêncio.
Kubler-Ross (1998), salienta a importância de tal estágio na e medida que
tais promessas de melhoras de comportamentos, possam estar ligadas a alguns
aspectos de culpas relacionadas ao surgimento da doença. O paciente frente a ter
de se submeter a novas cirurgias, hospitalizações, começa a apresentar novos
sintomas, e torna-se mais debilitado e magro, não podendo mais esconder a
doença.
Surge então o quarto estágio denominado por Kubler-Ross de Depressão,
o qual alheamento, estoicismo, raiva e revolta cederão lugar a um sentimento de
grande perda. Perda em relação ao corpo, as finanças, a família, ao emprego, a
capacidade de realizar certar atividades profissionais e de lazer (KUBLER-ROSS,
1998).
Segundo a autora é um estado de preparação para a perda das coisas,
que precisa ser respeitado. O papel dos cuidadores nessa situação, é deixar o
paciente se expressar em relação aos seus sentimentos e não contrapor a eles.
“Cabe diferenciar um momento de depressão, ainda ligado a uma reação contra a
doença, e este estágio, que é a elaboração de um luto de perdas que já foram
vividas” (KUBLER-ROSS apud KOVÁCS, 2002, p. 200).
Por fim, o paciente que tiver tido tempo necessário (isto é que não tiver
tido uma morte súbita e inesperada), e tiver recebido alguma ajuda para superar
todo o seu processo conforme foi visto até então, chegará ao estágio de Aceitação.
O paciente que chegou a esta fase, após ter realizado a despedida dos seus seres
queridos, por vezes se manifesta com uma grande tranqüilidade.
56
Segundo Kubler-Ross (1998), o paciente nessa fase caracteriza-se por se
parecer desligado, dorme não mais como uma fuga, mas como um repouso, antes
da grande viaje. É importante, segundo a mesma autora, que os profissionais
identifiquem quando se trata de uma desistência precoce de luta contra a doença e a
morte, porque ainda há vida, diferente de um paciente que realizou sua trajetória
tendo chegado ao fim com paz.
4.2 Preparando para a morte: o método RIME
Hoje com o início de um novo milênio, uma mudança significativa está
ocorrendo quanto aos paradigmas14 que norteiam o conhecimento científico,
evidenciando-se uma profunda modificação de idéias e percepções de mundo.
A base da ciência clássica é o pensamento racional, cartesiano, dual e
reducionista, ainda adotados por muitos. Em contraposição a um modelo que é
emergente chamado de nova ciência, que iniciou-se no século XX, decorrente de
descobertas importantes no campo da física, biologia, psicologia, e medicina,
baseando-se num pensamento circular, monista e sistêmico (ELIAS; GIGLIO, 2001).
A partir disso uma série de pesquisas começaram a ser desenvolvidas
dando abertura, a novas concepções de ser humano e aos fenômenos que o
envolvia. Com o crescimento de terapias alternativas, focadas a uma visão mais
integral de ser humano, a OMS, colocou na orientação dos princípios básicos que
devem nortear um programa de cuidados paliativos, o princípio de integrar ao
tratamento médico tradicional aspectos psíquicos e espirituais.
14
Paradigma: Segundo Kuhn, é um conjunto de crenças que são aceitas durante um determinado
período de tempo pela comunidade cientifica.
57
Segundo Elias e Giglio (2002), a partir do século XX, pesquisas abordando
a importância da inclusão da Espiritualidade nos tratamentos médicos convencionais
e dando suporte para a ampliação da visão de ser humano para uma abordagem
bio-pico-social e espiritual, começaram a ser publicadas, no cenário internacional da
área médica.
Saunders (apud ELIAS E GICLIO, 2001), formulou um conceito de Dor
Total, o qual abrange o sofrimento físico, social, espiritual, mental e financeiro do
paciente, incluindo também o sofrimento dos familiares e da equipe médicohospitalar. Elias denomina de Dor Simbólica da Morte, a Dor Psíquica e a Dor
Espiritual identificadas.
Operacionalizamos o conceito de Dor Psíquica como o medo do sofrimento
e o humor depressivo, representado por tristezas, angústias e culpas frente
às perdas, e o conceito de Dor Espiritual como o medo da morte e do pósmorte, idéias e concepções em relação à espiritualidade, sentido da vida e
da morte, e culpas perante Deus (ELIAS apud ELIAS E GIGLIO, 2001, p.
24).
Ana Catarina Elias – psicóloga brasileira - em 1998, desenvolveu a
intervenção RIME (Relaxamento, Imagens Mentais e Espiritualidade), quando
começou a trabalhar com crianças e adolescentes com câncer em fase terminal, e
observou sofrimento psicológico e espiritual importante nesses doentes.
A idéia de Espiritualidade adotada por este método de intervenção é
compreendida como a relação do indivíduo com uma área mais transcendental de
sua psique e as mudanças resultantes dessa meditação, e a vivencia do amor
incondicional, obtida por meio dos relatos das pessoas que tiveram as ditas
experiências de quase-morte (JUNG apud ELIAS; et al., 2007).
58
Elias ao buscar um método que pudesse amenizar a dor desses doentes,
por sincronicidade, descobriu relatos de Kubler-Ross e Mood Jr, que observavam
que após as pessoas passarem por EQM, haviam minimizado o seu medo da morte.
Segundo Elias, et al (2007), Elias logo teve um insight e induziu a
visualização dos elementos descritos por estes doentes que vivenciaram as EQM a
crianças e adolescentes que se encontravam na fase fora de possibilidades de cura,
começando a delinear a intervenção RIME.
Tal intervenção foi desenvolvida por Elias em sua dissertação de
mestrado, a qual teve como público alvo, mulheres adultas com câncer terminal.
Tendo por objetivo re-significar a dor simbólica da morte, se enquadrando no modelo
de psicoterapia breve, que visa a recuperação do equilíbrio homeostático, que se
expressa no alivio dos sintomas. Os sintomas são a dor psíquica, e a dor espiritual.
As técnicas de visualização foram propostas por dissociação, sugestão
direta, e sugestão indireta. Segundo Carvalho (apud, ELIAS E GIGLIO, 2002), a
dissociação permite que o paciente foque seu pensamento em outro tempo e espaço
diferente do tridimensional no qual está inserido.
Por meio da sugestão indireta, podia-se induzir o paciente a focar sua
atenção em imagens mentais, tranqüilas, prazerosas, revigorantes, a partir de suas
preferências e escolhas. Enquanto que pela sugestão direta, podia-se fazer
afirmações aos pacientes por meio de imagens ou citações as quais têm por
finalidade ajudar a acabar com a dor, o sofrimento e o medo.
Sessões de orientação familiar devem ser realizadas de forma
complementar a aplicação dessa intervenção psicoterapêutica com o
objetivo de oferecer um espaço para os familiares falarem sobre a doença
e a morte do paciente, relatarem sua visão sobre a dor simbólica da morte
deste, e receberem orientação sobre uma possível forma mais adequada
de conduta que eles, parentes, possam oferecer para o paciente, nessa
fase de cuidados paliativos (ELIAS E GIGLIO, 2002, p. 118).
59
Portanto através do método RIME, os pacientes terminais têm ainda em
vida a chance de se conscientizar de sua transformação de ser físico, em ser
espiritual de forma serena e digna. Miller (apud, ELIAS E GIGLIO, 2001), em uma
entrevista com mais de 200 sacerdotes, e líderes espirituais, constatou que a
jornada pós-morte pode ser subdividida em quatro etapas as quais serão explicadas
a seguir.
A primeira chama-se Espaço de espera, se referindo à transformação do
ser físico em espiritual. A segunda é a Fase de julgamento, na qual a vida do
indivíduo é julgada como também avaliada o destino do espírito. Na terceira,
chamada de Reino das possibilidade, o espírito desfruta de seu julgamento ou se
submete a ele, passando a existir nas paragens do pós-morte.
E por fim a quarta etapa, o Retorno ou Renascimento, momento em que o
espírito retorna a vida em um novo corpo ou então se junta ao todo universal. Cabe
salientar que tais etapas foram apresentadas com a finalidade de explicar que o
RIME, assemelha-se a primeira, ao tentar criar o cenário mental de um mundo
espiritual belo e reconfortante para a pessoa que está sobre iminência de morte
(ELIAS; GIGLIO, 2001).
Tal método de intervenção foi utilizado por Ana Catarina Elias também em
sua tese de doutorado como treinamento para profissionais da área da saúde,
percebendo-se que tanto os profissionais quanto os pacientes na maioria das vezes,
responderam positivamente a aplicação desta intervenção.
Outro dado relevante segundo (ELIAS et al., 2007), é que a re-significação
da dor espiritual acontece de forma processual, constatando-se que apesar de não
se padronizar um intervalo de tempo entre as sessões, os pacientes referem piora
60
de bem-estar quando os intervalos são maiores, sugerindo-se assim, que estes
ocorram o mais breve possível, dentro das condições e possibilidades do doente.
4.3 Espiritualidade e religiosidade como estratégias de enfrentamento
Como pode-se perceber no sub-capítulo anterior, o método RIME, é um
grande exemplo de como na atualidade já está ocorrendo uma atenção em termos
de cuidados paliativos ao se considerar o se humano em sua integridade. O Capítulo
presente, portanto, objetiva abranger esse conhecimento ao se apresentar como a
espiritualidade e a religiosidade estão sendo consideradas como grandes aliadas às
estratégias de enfrentamento, para pessoas que estão sofrendo com eminência de
morte.
A atenção ao aspecto da espiritualidade se torna cada vez mais
necessário as praticas de assistência à saúde, sendo que cada vez mais a ciência
se curva frente a grandeza e a importância que a espiritualidade tem para
compreensão do ser humano como integral. O ser humano sempre está em busca
de se completar, e a transcendência se torna a essência do ser na medida em que
este se percebe perto do fim.
Em cuidados paliativos, perguntamos ao paciente o que ele considera
importante realizar nesse momento de sua vida, e trabalhamos com o
controle dos sintomas. Buscando conferir ao paciente todas as condições
necessárias para as suas realizações nesse momento singular. E a
dimensão da espiritualidade torna-se realmente de grande importância
(PERES et al., 2007, p. 2).
Portando entende-se a espiritualidade em cuidados paliativos como o
alicerce para o movimento da transcendência, ajudando na busca pelo significado de
tal fenômeno, a morte. Segundo Lawler e Youger a espiritualidade e o envolvimento
61
em religiões organizadas podem proporcionar aumento do senso de propósito e
significado da vida, que são associados a maior resiliência e resistência ao estresse
relacionado às doenças (apud PANZINI; BANDEIRA, 2007).
Outra evidencia significativa sobre a importância da espiritualidade e da
religiosidade para o bem estar físico e psicológico, foi a inclusão da categoria
“problemas religiosos e espirituais”, como uma categoria diagnóstica inserida no
DSM-IV, reconhecendo que os temas religiosos e espirituais podem ser o foco da
consulta e do tratamento psiquiátrico/psicológico (PERES; SIMÃO; NASELLO,
2007).
Segundo Peres et al (2007), numerosos estudos apontam fatores nãobiológicos, como o suporte social e as estratégias de enfrentamento (coping), como
fundamentais na percepção de dor dos pacientes. Estes também evidenciaram, que
emoções negativas como depressão e ansiedade correlacionam-se também com
piora na percepção da dor de cada indivíduo.
Coping, segundo Stroppa e Moreira-Almeida (2008 p. 3), “pode ser melhor
definido, como o conjunto de estratégias utilizadas por uma pessoa para se adaptar
a circunstâncias de vida adversas ou estressantes”. E assim aliviar a sua dor seja
ela originada por quaisquer dimensões humanas.
As estratégias de coping pressupõem avaliação cognitiva do fenômeno
estressante, podendo ser classificadas, segundo sua função, como estratégias
focadas na emoção (dirigidas a regulação da resposta emocional), ou estratégias
focadas no problema (ações práticas dirigidas à solução do evento estressor).
Pargament (apud PANZINI; BANDEIRA, 2007), autor de referência no
tema, diz que quando as pessoas se voltam para religião para lidar com o estresse
acontece o coping religioso, que é o uso de crenças e comportamentos religiosos
62
para facilitar a resolução de problemas, e prevenir ou aliviar conseqüências
emocionais negativas de situações de vida estressantes.
Em outras definições o coping religioso descreve o modo como os
indivíduos utilizam sua fé para lidar com o estresse e os problemas da vida,
ressaltando-se que a fé pode incluir religião, espiritualidade ou crenças pessoais.
Embora os termos religião e espiritualidade em muitos estudos ainda se
apresentem como sinônimos, cabe aqui, ressaltar que Stroppa e Moreira-Almeida
fizeram uma distinção entre espiritualidade, religião e religiosidade.
Segundo Koenig, espiritualidade é uma busca pessoal pela compreensão
das questões últimas acerca da vida, do seu significado, e da relação com
o sagrado, e o transcendente, podendo ou não conduzir ou originar rituais
religiosos e formação de comunidades. Hufford [...], diz que espiritualidade
se refere ao domínio do espírito, ou seja, a dimensão não material,
extrafísica da existência que pode ser expressa por termos como: “Deus,
ou Deuses, almas, anjos e demônios”, se refere a algo invisível e intangível
que é a essência da pessoa (apud, STROPPA; MOREIRA-ALMEIDA, 2008,
p. 3).
A religião para Koenig, é a um sistema organizado de crenças, práticas,
rituais, e símbolos com a finalidade de facilitar a proximidade com o sagrado e o
transcendente. E para Hufford, é um aspecto institucional da espiritualidade, sendo
as religiões organizadas em cima da idéia de espírito (apud, STROPPA; MOREIRAALMEIDA, 2008).
E, por fim, a religiosidade que nada mais é que, o nível de envolvimento
religioso e o reflexo desse envolvimento na vida da pessoa, o quanto isso influencia
no seu cotidiano, seus hábitos, e em sua relação com o mundo (STROPPA;
MOREIRA-ALMEIDA, 2008).
Segundo os mesmos autores a religiosidade pode se manifestar de duas
formas, sendo a primeira intrínseca na qual o indivíduo tem na religião o seu bem
maior. E outras necessidades são vistas como de menor importância, e na medida
63
do possível, vão sendo colocadas em harmonia com sua orientação e crença
religiosa.
E a manifestação extrínseca que é quando a religiosidade é utilizada como
meio para obter outros fins ou interesses, para proporcionar segurança, consolo,
sociabilidade, distração, status e auto-absolvição. A primeira manifestação de
religiosidade normalmente está associada à personalidade e a um estado mental
saudável.
Com isso, apesar da religiosidade e da espiritualidade normalmente
estarem associadas a melhoria da qualidade de vida, existe alguns casos os quais
os indivíduos podem se prejudicar mais por causa principalmente de suas religiões,
como por exemplo: ao se culparem por alguma situação ou por não conseguirem dar
o perdão a si mesmos ou a outras pessoas.
Com o intuito de identificar tais questões e comprovar a eficiência da
utilização da espiritualidade e da religiosidade como estratégias de enfrentamento, já
que tantos pacientes demonstram a importância de trabalhar tais esferas (PERES et
al.,
2007).
Pargament
(apud
STROPPA;
MOREIRA-ALMEIDA,
2008)
e
colaboradores elaboraram uma escala de coping religioso e espiritual, para avaliar
os aspectos de coping positivos e de coping negativos, apresentados pelos
pacientes.
Segundo Stroppa e Moreira-Almeira, muitos dos trabalhos realizados nas
últimas décadas sugerem que religiosidade e espiritualidade podem ter um
impacto significativo sobre a saúde física. Isso se faz tanto como recurso
de prevenção em pessoas saudáveis quanto de coping por pessoas
enfermas. Por outro lado, crenças e atividades religiosas extremada podem
produzir efeitos negativos sobre a saúde de uma pessoa, como proibição
de vacinas, medicamentos, transfusões de sangue etc. (STROPPA;
MOREIRA-ALMEIDA, 2008, p. 6).
64
Segundo Peres et al (2007), em 1999 foi realizada uma pesquisa por
Steinhauser, a qual avaliou percepções do paciente, da família, dos médicos e de
outros profissionais e voluntários, questionados sobre a importância de 44 atributos
de qualidade de cuidados no final da vida.
Foram acatados somente 26 questionários os quais consideraram em
unanimidade, o controle da dor e de outros sintomas, preparação para a morte,
atingir um senso de plenitude, ser capaz de tomar decisões sobre os tratamentos
propostos, e ser tratada como uma pessoa da maneira mais completa possível,
como questões importantes ao tratamento dos pacientes enfermos.
Porém, ocorreram discrepâncias com significativa estatística sobre
espiritualidade, sendo esta considerada pelo paciente, como os aspectos mais
importantes, enquanto que para os médicos e os demais profissionais da saúde,
como algo irrelevante. O que acabou caracterizando que muitos profissionais da
saúde “perdem uma excelente oportunidade de avaliar os aspectos espirituais do
paciente, por interpretarem ou pré-julgarem essa dimensão do cuidado como muito
abstrata ou utópica” (PERES et al., 2007, p. 8).
Portanto entende-se como de suma importância que os profissionais da
saúde estejam alertas quanto às necessidades dos pacientes e quanto as suas
abordagens frente a eles e a família, ao se perceber a relevância do trabalho com
cuidados paliativos e a integração do alívio entre a dor física, emocional, e espiritual,
seja a última dimensão trabalhada por intermédio religioso ou não.
Sendo importante destacar que não somente é importante cuidar da dor
crônica e física para então poder cuidar das questões emocionais e espirituais, como
também averiguar se o agravamento de determinado quadro clínico não esteja
65
ocorrendo em função das dimensões emocionais e espirituais serem as
responsáveis por tal quadro.
Por fim, pode-se compreender por meio deste sub-capítulo que a equipe
cuidadora multiprofissional hospitalar, encontra-se frente a uma mudança de
paradigma em relação aos cuidados paliativos, ao se considerar o quanto os
trabalhos envolvendo a espiritualidade e a religiosidade é eficaz, principalmente para
os pacientes, quando são bem encaminhados pelos profissionais responsáveis.
4.4 Morte e Psicologia Hospitalar
Com o passar dos tempos e frente ao contexto atual da sociedade
contemporânea a qual em sua grande maioria ainda não sabe lidar com a morte por
ter medo, e negá-la, existe uma corrente humanista que a pouco tempo está lutando
por tratamentos o quais consideram os seres humanos como integrais, nas
instituições de saúde, e principalmente nos hospitais.
Tal corrente segundo Junqueira e Kovács (2008), objetiva a formação de
cursos que abordem o tema morte e morrer e a habilidade em lidar com pessoas
sobre eminência de morte, bem como todos os envolvidos nesse processo. E
também a inclusão do tema morte nas cadeiras universitárias dos cursos da área da
saúde (medicina, enfermagem, psicologia, nutrição, dentre outros).
Segundo Peres, Simão e Nasello, (2007, p. 10), também se faz
necessário,
[...] o reconhecimento da espiritualidade como componente essencial da
personalidade e da saúde por parte dos profissionais; esclarecer os
conceitos de religiosidade e espiritualidade com os profissionais; incluir a
espiritualidade como recurso de saída na formação dos novos
profissionais; adaptar e validar escalas de espiritualidade/religiosidade à
66
realidade brasileira e treinamentos específicos [...] para a área medica e
psicológica.
Para a psicologia se dará uma ênfase especial ao compreender o quanto
tal área tem se desenvolvido em relação a suas práticas, verificando-se que com o
passar dos tempos e principalmente hoje com esta corrente mais humanista em
termos de cuidados paliativos, e estratégias de enfrentamento, evidenciou-se o
crescimento
do
multidisciplinares
número
ou
de
psicólogos
interdisciplinares
como
nos
componentes
hospitais,
das
originando
equipes
a
nova
especialização de psicologia hospitalar.
Cabe aqui enfatizar, que apesar do crescimento do número de
profissionais da psicologia atuando nessa área, o número ainda é relativamente
inferior
à
quantidade
de
médicos
e
enfermeiros
compondo
as
equipes
multidisciplinares dos hospitais (FOSSI; GUARESCHI, 2004).
Segundo Gorayeb (2001, p. 1), o papel do psicólogo hospitalar é essencial
para “apoiar o paciente, esclarecê-lo, informá-lo, levar a equipe a se relacionar
efetivamente com ele, dar-lhe todas as informações sobre aspectos específicos de
sua patologia e de seu prognóstico”. Favorecendo a uma harmonia tanto a equipe
cuidadora, quanto a saúde do paciente.
Ainda o mesmo autor, ressalta a importância de o psicólogo lidar bem com
questões sobre a sua própria morte para então saber lidar com pacientes terminais.
Cabe aqui salientar que esta não é a única função do psicólogo hospitalar – lidar
com a terminalidade – mas que por o tema deste trabalho ser a morte, tal prática
será a enfocada.
Segundo Fossi e Guareschi (2004), a profissão da psicologia, assim como
outras que estão ganhando espaço no âmbito hospitalar, ainda sofre com um
67
processo de quebra de paradigmas, por em muitos casos o modelo biomédico
tradicional ser o vigente.
Tal modelo impede e limita o trabalho dos profissionais da psicologia, bem
como de outras áreas, sem contar o quanto ainda ocorre relações de saber poder, o
que acaba por interferir muito tanto ao tratamento do paciente quanto ao próprio
relacionamento de uma equipe profissional cuidadora que deveria trabalhar
interdisciplinarmente.
Kovács (2005), cita o quão importante se faz para as equipes
multidisciplinares dos hospitais discussões relacionadas a morte e ao morrer, a
chamada bioética, que discute temas como eutanásia, distanásia, suicídio assistido,
sedação, analgesia, bem como a falta de qualidade de vida dos doentes e pacientes
que estão sobre eminência de morte.
Os locais por excelência para este tipo de discussão são os hospitais, já
que é o cenário principal de mortes, por vezes com muito sofrimento e dor,
e profissionais que se sentem perdidos sobre como lidar com o fim da vida
e a aproximação da morte. A supervisão de casos difíceis pode servir como
base para esses encontros de bioética. Além dos hospitais, fóruns de
discussão de bioética podem ser propostos nas universidades, escolas e
demais instituições de saúde e educação (KOVÁCS, 2005, p. 7).
A educação para a morte, é uma das teclas em que a autora Kovács
(2005), insiste muito ao perceber que grande parte dos problemas que ocorrem na
atualidade relacionados a saúde e a doença, se dão pelas pessoas não saberem
lidar com a morte. Por sorte percebe-se um movimento crescente por parte de
muitos profissionais da saúde em investir em pesquisas e desenvolver métodos para
que tal questão seja tratada com mais habilidade por parte de educadores e
profissionais da saúde.
Segundo Gorayeb (2001, p. 9), “em todas as áreas do conhecimento é
imprescindível uma adequada atuação calcada no conhecimento e na eficiência”.
68
Portanto para que se possa construir uma profissão de respeito junto aos outros
profissionais da área da saúde, cabe ao psicólogo hospitalar produzir cada vez mais
e melhor, solucionar problemas, criar modelos, e produzir melhorias de qualidade de
vida.
Nesse
sentido
é
responsabilidade
intransferível
dos
hospitais
e
principalmente dos universitários, produzir conhecimentos calcados em atividades
de pesquisa que venham a revelar as melhores maneiras de atuação em cada
circunstancia (GORAYEB, 2001).
Quando os hospitais universitários brasileiros produzirem um conjunto
ordenado de conhecimentos sobre a ação dos psicólogos nos hospitais, essa classe
profissional não precisará mais disputar seu lugar nesse espaço de trabalho. E será
assim solicitada a estar sempre presente, participando ativamente na atenção
diferenciada e integral a saúde dos usuários desse serviço de saúde.
69
5 CONCLUSÃO
Esta pesquisa procurou compreender a relação entre a morte, psicologia e
estratégias de enfrentamento, verificando-se a importância da percepção do ser
humano como integral (bio-psiquico-socio-espiritual), pelos cuidadores da área da
saúde, e em especial pelo psicólogo hospitalar.
Também, observou-se o quanto a espiritualidade e a religiosidade estão
se
apresentando
positivamente,
quando
utilizadas
como
estratégias
de
enfrentamento em casos de terminalidade, tanto pelas equipes cuidadoras quanto
pelos próprios pacientes terminais.
Para a construção deste trabalho a acadêmica realizou estudos acerca de
temas como: Teologia, Filosofia Iogue, Psicologia Humanista (Logoterapia) de Viktor
Frankl, Psicologia do Desenvolvimento, Tanatologia, Psicologia Transpessoal, Física
Quântica, Religiosidade, Espiritualidade e Psicologia Hospitalar, proporcionando
uma pesquisa bibliográfica interdisciplinar, para uma melhor revisão e compreensão
do tema, e para a construção dos capítulos.
Como se pode perceber ao longo do trabalho, temas como a morte e a
transcendência sempre mobilizaram a humanidade, a qual em tempos remotos vivia
em sua busca constante, através das conquistas cotidianas, de um sentido de vida.
Tal sentido com o passar dos tempos foi se perdendo na medida em que o acesso a
tudo se facilitou em função da tecnologia, e em que os objetivos de vidas foram se
tornando padrões e confundidos até mesmo com o próprio sentido de vida.
Viktor Frankl, ao tratar brilhantemente sobre o sentido de vida, percebeu
que o ser humano possui uma dimensão noética, a qual simboliza a espiritualidade
imaculada, ou seja, o Deus vivo dentro de cada pessoa. Ficando tal dimensão
70
evidenciada em algumas situações, quando o ser humano passa por estresse
intenso, como no caso desse psiquiatra durante o holocausto.
Tal dimensão humana apresenta-se muito nas práticas religiosas, como no
Cristianismo, no Espiritismo Kardecista e no Budismo, como expressão de fé em
algo superior chamado de Deus, ou qualquer nome referenciado, representando
este ser superior que é algo onisciente e onipresente.
Esta dimensão espiritual, no entanto, é compreendida pela psicologia
transpessoal, como a capacidade que os seres humanos têm de ampliar seus
estados de consciência e transcenderem, ou seja, é a capacidade que a consciência
humana tem de ultrapassar os limites corpóreos. Sendo que tais práticas são
evidenciadas tantos nas meditações iogues, quanto nas experiências ditas como
saída do corpo.
Em tais situações, a ampliação da consciência acontece em decorrência
da formação da dimensão espiritual, a qual é mais bem explicada através da energia
vital, a qual compõe todos os seres humanos e que segundo Weil (1995), abandona
o corpo físico quando ocorre a morte. Segundo o mesmo autor, com a morte acorre
a transformação de energia que forma diferentes sistemas, percebidos por quem
continua vivo como inexistentes.
Com isso através de estudos realizados por Kubler-Ross, e Raymond
Moody, com pacientes terminais, acerca das experiência de saída do corpo, e mais
especificamente das experiências de quase morte. Novas perspectivas em termos
de cuidados paliativos e estratégias de enfrentamento foram possibilitadas ao se
perceber a gama se estudos acerca da inclusão da espiritualidade e da utilização da
religiosidade como meio para despertar a mesma, estão sendo desenvolvidos e
publicados.
71
Ana Catarina Elias, psicóloga brasileira, ao desenvolver seu método RIME,
mostrou a importância de utilizar as experiências de quase morte, a incorporação
das estratégias de enfrentamento na medida em que se utilizou dos relatos de
experiências de visualizações, percepções auditivas, e sonoras, para induzir seus
pacientes terminais a terem as mesmas percepções, podendo assim, se prepararem
para a morte e diminuir sua dor psíquica e espiritual.
O trabalho de Ana Catarina Elias, demonstra o quanto a psicologia se
mostra importante ao integrar as equipes multidisciplinares e interdisciplinares dos
hospitais, por se compreender que tais instituições são responsáveis por lidar com a
morte com maior freqüência, e ao considerar que dados profissionais, têm muito a
contribuir em relação aos cuidados paliativos e a criação de estratégias de
enfrentamento.
O Psicólogo hospitalar ao considerar-se como componente de uma área
emergente, apresenta-se como um profissional que precisa ter responsabilidade,
assim como em outras áreas de trabalho, para obter o respeito e a credibilidade
nessa nova área de atuação. Realizando não somente suas práticas com seriedade
como também, pesquisas com qualidade podendo demonstrar que suas práticas são
bem embasadas.
Por fim acredita-se que a psicologia hospitalar, bem como o trabalho com
os pacientes terminais de uma forma mais humanizadora, continuará a se
desenvolver ao se perceber o quanto os profissionais da área da saúde e em
especial da área da psicologia, então preocupados em quebrar antigos paradigmas
e buscar formações universitárias que não somente considerem relevantes a morte
e morrer, como também ensinem de forma significativa tais processos.
72
Com isso, percebe-se como de extrema importância dado trabalho, bem
como a continuação de pesquisas referentes a ele e a novas práticas que venham a
somar cada vez mais para uma corrente que humaniza o atendimento dos serviços
hospitalares, para que então um dia, a morte deixe de ser tão temida e passe a ser
enfrentada como mais uma fase da transformação vital.
73
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