O material original (2003) contido neste módulo foi fornecido pelo Dr Andrew
Butterworth da Universidade de Bristol e pela WSPA e foi, subseqüentemente,
revisado e atualizado (em 2007) pela Dra Caroline Hewson e pela WSPA.
1
O objetivo deste módulo é ilustrar alguns aspectos dos problemas potenciais de
bem-estar na hora da morte de um animal e identificar as influências sociais,
culturais, econômicas e legais que afetam a qualidade da morte de um animal. A
seção final aborda a perspectiva do cliente no processo de eutanásia.
A eutanásia é uma importante questão de bem-estar. Lidar com a morte, em
qualquer de seus aspectos, costuma ser difícil. E, no caso da eutanásia, quando se
tem que decidir ou praticar a morte, por vezes de um número grande de seres vivos
e sencientes, torna-se mais difícil ainda. É uma questão polêmica, sem dúvida,
envolvendo desde opiniões radical e absolutamente contrárias à sua utilização,
mesmo em casos de impossibilidade de reversão de sofrimento grave, até aquelas
mais pragmáticas que a percebem como um método de controle animal. Não
entrando no mérito dessa discussão, devemos ressaltar que, no mundo atual, a
eutanásia tem produzido reflexões, principalmente por parte das autoridades e dos
médicos veterinários, resultando essas reflexões em métodos mais humanitários e
numa utilização mais criteriosa. Ainda há muito o que se discutir no sentido de
garantir a metodologia “ideal”, que pressuponha o mínimo possível de sofrimento
físico e mental, tanto para aqueles que são submetidos à eutanásia quanto para
aqueles que a praticam. Mas já se avançou muito nesse sentido e acreditamos que
o continuar das discussões nos traga o benefício de apontar-nos um processo cada
vez menos árduo, para humanos e animais. Este módulo discorre sobre diferentes
métodos de eutanásia praticados em diversos países. O médico veterinário, frente
à situação de decidir pela eutanásia, além de sua opinião própria e de seu
posicionamento ético, deverá levar em conta a legislação do seu país e os
aspectos sociais, econômicos e de bem-estar envolvendo animal e cliente,
garantindo assim critérios e metodologia rigorosos.
2
Eutanásia não é o mesmo que abate. O abate é o ato de provocar a morte de
animais (geralmente animais de produção) para fins comerciais ou quando há
ocorrência de doenças, como influenza ou febre aftosa.
A palavra eutanásia deriva do grego eu “bom”+ thanatos “morte”. Eutanásia é
humanitária por definição, pois a palavra implica que o indivíduo não terá medo, dor
ou aflição ao morrer. O abate deveria ser humanitário. No entanto, os motivos para
abate ou para eutanásia são diferentes: diferente do abate, a eutanásia tem o
intuito de aliviar os animais em sofrimento de uma doença incurável ou que não
podem ser tratados ou resgatados. Por esta razão, a eutanásia também é
conhecida como “morte por misericórdia”. Por exemplo, no caso de um animal
vítima de queda com múltiplos ferimentos ou de pássaros marítimos gravemente
expostos a óleo, impossíveis de serem recuperados.
No entanto, perceba que nem toda “morte por misericórdia” é humanitária, ou seja,
nem toda morte por misericórdia é eutanásia. Por exemplo: um proprietário que não
tem condições de tratar um animal muito doente ou, para matá-lo rapidamente,
poderá afogar o animal no intuito de acabar com o sofrimento. Isto seria uma morte
por misericórdia, porém o animal não teria uma morte humanitária ou “morte boa” –
o animal não teria sofrido eutanásia, porém teria sido morto.
3
Algumas pessoas argumentam que o sofrimento faz parte da vida e que evitar o
sofrimento encurtando a vida é contra a natureza. Outros concluíram que o
sofrimento pode chegar a um ponto em que a morte, desde que induzida de forma
humanitária, resultará em um fim justificado do sofrimento. É este “fim justificado do
sofrimento” através da “morte humanitária” que é a base da “morte boa”.
A interpretação dos termos “justificado” e “humanitário” é subjetiva. Influências
pessoais, culturais e políticas podem desempenhar um papel na decisão local final
do que é justificado e através de que métodos “humanitários”. No entanto, a
definição de “morte humanitária” geralmente inclui deixar o animal inconsciente, de
modo que o animal não antecipe a morte e, portanto, não tenha medo ou estresse,
e então matar o animal imediatamente, para que o animal não recupere a
consciência antes de morrer. No caso de animais de companhia, uma injeção de
pentobarbital concentrado é geralmente utilizada para deixá-los inconscientes e,
então, matá-los. Animais de produção são atordoados utilizando um choque elétrico
ou concussão e, então, mortos com as gargantas cortadas (veja Módulo 16).
4
Existem alguns critérios comumente usados para justificar o “fim do sofrimento”
através de uma “morte humanitária” para animais individuais:
• Animais gravemente feridos – animais em estado terminal,
envolvendo provável sofrimento ou quando dor e estresse já são
evidentes e não podem ser evitados.
• Animais agressivos – cujas interações com humanos ou com
outros animais tendem a causar sofrimento desnecessário ou
animais que, devido à sua natureza agressiva, não podem ser
mantidos em condições capazes de satisfazer as suas
necessidades.
• Animais idosos – quando não há recursos para atender as suas
necessidades. Muitas vezes é difícil justificar esta categoria. A
eutanásia de um cão velho com incontinência ou de um cavalo
manco muitas vezes é decidida com base no aumento de trabalho
exigido dos humanos que cuidam destes animais – quando a
disposição das pessoas de enfrentar o problema falha, é mais
provável que se decida pela eutanásia.
5
Animais recolhidos das ruas – na inexistência de recursos suficientes para garantir
qualidade de vida razoável. Isto, no entanto, não pode ser usado como “solução
fácil” para problemas complexos como superpopulação e responsabilidade das
pessoas para com os animais que possuem ou abandonaram. (Veja módulos 26 e
27 para discutir mais este assunto.)
Animais também são mortos como meio de controle populacional planejado para o
“bem maior” da população restante. Esta decisão difícil muitas vezes é o âmago
das estratégias de controle populacional de animais, desde cães até burros
selvagens. No entanto, tal morte não é solução a longo prazo: reduz o tamanho da
população local que, por sua vez, reduz a pressão sobre as fontes de alimento;
assim, os animais remanescentes estão mais sujeitos a produzir proles que viverão
por mais tempo. Além disso, animais se movimentarão de outras áreas,
substituindo aqueles que foram mortos.
Grupos de animais também são mortos no caso de algumas doenças que
envolvem responsabilidade sanitária, normalmente para eliminar animais infectados
ou sob risco de infecção, para proteger a saúde do restante da população. Às
vezes decisões deste tipo são tomadas em nível político e são muito impopulares a
nível local. Exemplos: Peste Suína Africana e Gripe das Aves na Ásia.
Animais de experimentação: “sacrifício” ou eutanásia do animal é parte
fundamental do seu uso. Eutanásia ou é parte planejada do experimento ou é
realizada quando limites humanitários são atingidos em um experimento (Veja
módulo 22).
6
Quem decide se um animal precisa sofrer eutanásia?
O proprietário (às vezes assistido por um médico veterinário) pode decidir que seu
animal tem baixa qualidade de vida ou que ele não tem condições de satisfazer as
necessidades do animal. Muitos proprietários de animais são conscientes e têm
boa noção da condição física do seu animal ou da sua habilidade de lidar com
idade, deficiência ou lesão. Outros, no entanto, não têm esta noção e decisões
adiadas ou morosas pela eutanásia podem resultar em sofrimento desnecessário
causado por estresse, medo ou dor prolongados.
A foto mostra uma vaca com uma extensa lesão necrótica na área do olho
esquerdo. Esta não é uma condição aguda. Não está claro se o próprio olho está
envolvido ou se apenas os tecidos circunvizinhos. A lesão quase certamente
intensificou, posto que a vaca não consegue ver com o olho, e a área está
susceptível a ser ferida. Linfossarcoma pode levar a este tipo de lesão, todavia
existem outras causas possíveis.
7
Às vezes um animal pode estar sofrendo e eutanásia é ação pragmática. Na
verdade, a falta de ação prática e decisiva pode prolongar desnecessariamente o
sofrimento do animal.
Muitas ações judiciais relativas ao bem-estar animal baseiam-se na demora
“desnecessária” da decisão de terminar o sofrimento de animais doentes,
negligenciados ou feridos. Nestas ações, a parte difícil para o tribunal é decidir se o
animal sofreu sem necessidade e se o acusado era o responsável pelo aspecto
considerado “desnecessário” (prolongado, evitável ou sem tratamento) da condição
do animal.
A foto mostra uma vaca em decúbito esternal com membros posteriores abertos.
Diferentes condições podem causar isso, incluindo:
• Fratura de pelve
• Deslocamento de quadris
• Dano aos músculos adutores da coxa medial
Ela está quase que com certeza em sofrimento devido a fatores como: miopatia por
pressão dos tecidos esternais, dor, falta de controle do ambiente, acúmulo de leite
em sua glândula mamária, sede, etc.
8
Às vezes, quem decide é a autoridade estadual ou local – no caso de doenças que
invoquem a legislação, demandando o sacrifício local dos animais, ex. febre aftosa,
leishmaniose ou raiva. As ações decididas nessas circunstâncias muitas vezes
podem parecer draconianas, desconsiderando os desejos e necessidades das
pessoas e dos animais. Entretanto, em circunstâncias como estas, autoridades
locais podem entender que a suma “importância” da questão permite uma ação
direta e decisiva e que diretrizes “generalizadas” evitam tratamento tendencioso ou
parcial de determinados grupos ou áreas geográficas.
A foto mostra carcaças de gado sendo queimadas, de acordo com legislação de
abate devido a um surto de febre aftosa.
Em países em que os governos são instáveis, com poucos recursos ou muito
corruptos, ou onde não existe mão-de-obra veterinária suficiente, doenças
infecciosas graves, como peste bovina ou febre aftosa, podem dizimar a população
bovina da nação e colocar em risco sério as populações dos países vizinhos. Isto
ocorre porque animais afetados ou que tiveram contato não sofreram eutanásia (e
devido à falta de controle do movimento de animais). Se tal doença se espalha,
também podem causar sofrimento e morte entre a vida silvestre local, ex. gripe
aviária. A Organização Mundial para Saúde Animal (World Organisation for Animal
Health - OIE) traz estatísticas sobre tais questões no Website: OIE World Animal
Health Situation http://www.oie.int/eng/info/en_infold.htm?e1d5
9
Animais de rua são um problema global significativo, tanto em termos de potencial
para sofrimento animal, quanto devido às implicações na saúde pública. Isto pode
levar os animais a serem percebidos como tendo baixo status com relação ao seu
bem-estar.
Por questões de saúde pública, autoridades locais podem decidir que os números
de animais de rua devem ser reduzidos. A autoridade pode agir rigorosamente para
controlar a população visível com matança indiscriminada, porém é menos rigorosa
ao combater as causas subjacentes das populações de rua (veja módulos 26 e 27
para mais detalhes).
10
As filosofias de diferentes culturas sobre a morte animal e o valor da eutanásia
variam.
Budismo – Um dos cinco preceitos do Dhammapada – “aquele que destrói vida
está cavando as raízes de sua própria vida” .
Verso hindu – “aquele que mata uma vaca padecerá no inferno por tantos anos
quantos pêlos tiver a vaca”.
11
Islã – “Não há um animal na terra nem uma criatura voando no ar com duas asas,
mas pessoas como você”.
São Francisco de Assis – “Não ferir nossos humildes irmãos é nossa primeira
obrigação para com eles, mas não é o bastante. Temos uma missão maior – servir
a eles sempre que necessitem.” O conceito de “servir” se assemelha à visão
moderna de que, se usarmos os animais, temos a “obrigação” de satisfazer suas
necessidades básicas e dar-lhes a possibilidade de uma “morte boa”.
12
Os humanos às vezes decidem sobre eutanásia com base no conceito de que
animais são descartáveis – muitos médicos veterinários já foram pressionados a
eutanasiar animais de companhia saudáveis a pedido do proprietário.
Temos a obrigação de dar aos animais quantidade assim como qualidade razoável
de vida? Quando se trata do homem, a maioria das pessoas vê a morte de uma
pessoa jovem como se esta vida tivesse sido “interrompida” antes de alcançar a
“plenitude”. Alguns acham que a “plenitude” da vida dos animais também envolve o
tempo – a duração da vida.
Se um animal sofre eutanásia com o menor sofrimento possível, importa em que
estágio de sua vida isto acontece?
Os animais têm algumas necessidades básicas – se os homens têm o poder de
induzir uma “morte boa”, isso deve ser considerado uma necessidade dos animais
ou seria apenas uma opção da qual o homem pode fazer uso quando se sente
motivado a ser “humanitário”?
13
Alguns métodos de matar, nos quais os indivíduos são vistos apenas como
componentes de um grupo problemático, podem parecer inaceitáveis para uns mas
aceitáveis para outros – por exemplo:
Até a introdução da Lei para a Proteção Animal em Taiwan, 1998, animais
abandonados eram mortos através de “afogamento em massa”.
Alguns países instituíram “dias de atirar em cães” como meio de eliminar animais
indesejados ou soltos nas ruas. Os proprietários são avisados para que, nestes
dias, mantenham os seus animais dentro de casa ou com coleira e guia. Todos os
cães soltos serão mortos a tiro. A diferença no “valor” dado aos cães, neste caso,
está somente na indicação clara do fato do animal ter dono. Animais sem donos
claramente identificados têm menos valor e podem ser mortos a tiro.
14
O método utilizado para induzir uma “morte boa” não deve causar sofrimento
desnecessário. No decorrer dos últimos 50 anos, extensa pesquisa científica
levou a uma compreensão melhor, mas ainda imperfeita, das formas através
das quais os métodos de matança podem prover a melhor chance de uma
“morte boa”.
Uma “morte boa” é o provável resultado se os seguintes itens podem ser
atingidos:
•Imobilização do animal com um mínimo de estresse
•“Esteticamente” aceitável para o operador e o cliente
•Execução com eficiência pela equipe disponível
•Baixo risco para o operador
•Garantia de descarte seguro da carcaça
•Eficiência em relação ao custo
No entanto, se estes critérios são seguidos e ainda existe sofrimento animal,
pode ser que o próprio método de eutanásia não seja humanitário, não devendo
ser usado.
As projeções seguintes citam vantagens e desvantagens de alguns dos métodos
comumente utilizados para a eutanásia.
15
Aspectos legais:
Nos países onde são usados, os barbitúricos são agentes controlados, mas em
muitos países seu uso é ilegal. Onde os barbitúricos são aceitos como método legal
de eutanásia de animais, a solução utilizada é o pentobarbital sódico 200 mg/ml. À
solução geralmente é adicionada tintura azul para que não possa ser confundido
facilmente. No entanto, a solução utilizada na foto não foi colorida. A dose para
matar um animal é 150 mg/kg.
As carcaças dos animais eutanasiados têm de ser descartadas em condições
seguras, onde humanos ou outros animais não possam consumi-las, uma vez que
contêm barbitúricos.
Vantagens:
Evidências do uso humano sugerem que a indução com barbitúricos não seja
aversiva. Depressão dos centros cardíaco e respiratório leva à morte por anóxia.
Em animais nervosos, um sedativo administrado (através de injeção subcutânea ou
via oral), em tempo de fazer efeito antes da eutanásia, pode reduzir o estresse da
contenção.
Desvantagens:
O animal precisa ser imobilizado para se ter acesso a uma veia. Existe a
possibilidade de medo e estresse em animais não acostumados ao contato
humano. A injeção tem de ser aplicada por uma pessoa competente e a morte do
animal tem que ser verificada, uma vez que sub-dosagem pode apenas resultar em
anestesia profunda.
16
Insensibilização com pistola de lança penetrante seguida de destruição de medula
espinhal ou exanguinação.
Vantagens:
A transferência de energia através do crânio aos tecidos nervosos resulta em
rápida insensibilização. É usado em animais de grande porte como gado, ovinos e
caprinos, contidos individualmente. Após ser insensibilizado, o animal pode ser
removido do recinto de insensibilização para a matança através de exangüinação
ou destruição do tecido nervoso da cabeça e da medula espinhal através de um
bastão flexível. O local de aplicação é bastante importante, para garantir que a bala
entre na parte correta do cérebro e não se aloje nos sinos.
Desvantagens:
É importante que o procedimento seja executado por uma pessoa treinada no uso e
posicionamento correto da pistola. O intervalo entre insensibilização e matança
dever ser curto (segundos, não minutos) para assegurar que o animal não recupere
a consciência. A boa manutenção da pistola é imprescindível.
Aspectos legais:
Em alguns países, o uso rotineiro de equipamento de bala cativa é restrito a
abatedores licenciados, porém, morte por misericórdia pode ser praticada por
qualquer pessoa. Destruição da medula é ilegal em alguns países, em quaisquer
animais que estejam na cadeia alimentar devido à preocupação com transmissão
de zoonoses, como encefalopatia espongiforme bovina (BSE).
17
Insensibilização por percussão não penetrante seguida de exanguinação.
Vantagens:
A transferência de energia através do crânio aos tecidos nervosos resulta em
rápida insensibilização. É usada em animais de grande porte como gado, ovinos e
caprinos, contidos individualmente. Após ser insensibilizado, o animal pode ser
removido do recinto de insensibilização para a matança através de exanguinação.
Desvantagens:
É importante que o procedimento seja executado por uma pessoa treinada no uso e
posicionamento correto da pistola. O intervalo entre insensibilização e matança
deve ser curto (segundos, não minutos) para assegurar que o animal não recupere
a consciência.
Aspectos legais:
Em alguns países, o uso rotineiro de equipamento percussor não penetrante está
restrito a abatedores licenciados, porém, morte por misericórdia pode ser praticada
por qualquer pessoa.
18
Vantagens:
A insensibilização elétrica pode induzir inconsciência muito rapidamente
(aproximadamente 200 m/s). É geralmente usada em ovinos e suínos. Após a
insensibilização, o animal pode ser morto através de exanguinação ou destruição
do tecido nervoso da cabeça e medula. A insensibilização elétrica é o melhor
método de eutanásia para grandes números de animais em fazendas, por exemplo,
no caso de uma epidemia. No entanto, os animais devem ser mortos por
eletrocussão imediata colocando-se pinças na área do peito.
Desvantagens:
O uso de insensibilização elétrica requer equipamento que geralmente só se
encontra disponível em abatedouros. Esse equipamento pode ser transportado em
casos de eutanásia a campo. Treinamento específico para o uso do equipamento é
essencial.
Aspectos legais:
Em muitos países, o uso de insensibilização elétrica para matança rotineira está
restrito a abatedores licenciados e a eutanásia de ovinos e suínos com este
equipamento, em um caso de epidemia, deve ser executada por pessoal treinado.
19
Vantagens:
Mamíferos pequenos (< 1 kg), pequenos répteis (< 500 g), pequenas aves (< 250 g)
e peixes podem ser efetivamente insensibilizados/mortos usando um bastão curto e
pesado ou batendo a cabeça contra uma superfície dura; no entanto, este método é
cruel, não confiável e pode encorajar uma aproximação violenta aos animais,
portanto não pode ser recomendado.
A morte tem de ser verificada através da parada do coração. Peixes devem ser
exanguinados através de corte de guelras após a insensibilização.
Desvantagens:
O treinamento na utilização da percussão e na contenção do animal é importante
para assegurar a insensibilização/morte na primeira tentativa.
Aspectos legais:
O uso de matança por percussão para animais de laboratório é regulamentado - na
Grã-Bretanha, por exemplo, pelo Decreto de Procedimentos Científicos em
Animais, de 1986.
No Brasil, a Resolução CFMV Nº 714, de 20 de junho de 2002, que dispõe sobre
procedimentos e métodos de eutanásia em animais, recomenda os seguintes
métodos: a) Roedores e outros pequenos mamíferos - barbitúricos, anestésicos
inaláveis, CO², CO, cloreto de potássio com anestesia geral prévia; b) Répteis barbitúricos, anestésicos inaláveis (em algumas espécies), CO² (em algumas
espécies); c) Aves - barbitúricos, anestésicos inaláveis, CO², CO, pistola; d) Peixes
- barbitúricos, anestésicos inaláveis, CO², tricaína metano sulfonato (TMS, MS222),
hidrocloreto de benzocaína, 2-fenoxietanol.
20
Quando a aplicação de uma superdosagem de barbitúricos em cavalos ou burros
não for possível (ex. quando a carcaça é utilizada para alimentar cães), o uso de
pistola é um método esteticamente aceitável e humanitário de induzir a morte. O
método provoca insensibilidade imediata e causa dano irreversível ao tecido
nervoso resultando em morte. Muitos cavalos e burros são eutanasiados com este
método, mas é preciso que seja executado por uma pessoa competente, usando a
arma adequada, assim como ser considerada a segurança das pessoas e de outros
animais.
No Brasil, a Resolução CFMV Nº 714, de 20 de junho de 2002, recomenda, em
relação aos cavalos, o uso de barbitúricos, cloreto de potássio com anestesia geral
prévia e pistola de ar comprimido.
21
Para informações sobre a utilização correta de armas de fogo para abate ou
eutanásia, veja Guia da Associação para Abate Humanitário (Humane Slaughter
Association’s Guidance Notes) “ABATE HUMANITÁRIO DE GADO UTILIZANDO
ARMAS DE FOGO (HUMANE KILLING OF LIVESTOCK USING FIREARMS) 2ª
edição.
Vantagens:
• Adequado somente para espécies silvestres ou para espécies não contidas (ou de
contenção impossível) como cervídeos, búfalos, gado selvagem e para espécies
criadas em zoológicos
• A eutanásia pode ser praticada “a campo”, sem necessidade de transporte ou
contenção
• Rifles automáticos com silenciadores são utilizados para abate de animais de
produção em surtos de doenças
Desvantagens:
O treinamento, exatidão e escolha da arma adequada são essenciais. Tiros na
cabeça, no coração ou no alto da nuca induzem rápida inconsciência e morte, mas
ferir sem matar pode causar sofrimento sério. O uso de armas de fogo pode
representar um verdadeiro perigo a outros animais e pessoas na vizinhança.
Aspectos legais:
Em muitos países, posse e uso de armas de fogo são controlados por lei.
A recomendação, no Brasil, através da Resolução CFMV Nº 714, de 20 de junho de
2002, para animais selvagens de vida livre é o uso de barbitúricos intra-venosos
(IV) ou intra-peritonais (IP), anestésicos inaláveis, cloreto de potássio com
anestesia geral prévia. Diante da total impossibilidade do uso dos métodos
recomendados para esses animais, a Resolução admite o uso dos seguintes
métodos (“aceitos sob restrição”): CO², CO, Nitrogênio (N²), argônio, pistola de ar
comprimido, pistola, armadilhas (testadas cientificamente). Para animais de
zoológicos, os métodos recomendados são: barbitúricos, anestésicos inaláveis,
CO², CO, cloreto de potássio com anestesia geral prévia.
22
Vantagens:
• Animais de grande porte, especialmente animais de fazendas, podem precisar ser
sacrificados se, por exemplo, ficarem seriamente feridos em acidentes de trânsito
nas rodovias ou caírem em armadilhas.
• Uma espingarda usada de uma distância de 30 cm, apontada para a testa, entre
os olhos e as orelhas (ver o ponto exato para cada espécie no módulo 22), é um
método eficaz de eutanásia. Para informações sobre a utilização correta de armas
de fogo para abate ou eutanásia, veja Guia da Associação para Abate Humanitário
(Humane Slaughter Association’s Guidance Notes) “ABATE HUMANITÁRIO DE
GADO UTILIZANDO ARMAS DE FOGO (HUMANE KILLING OF LIVESTOCK
USING FIREARMS) 2ª edição.
Desvantagens:
• O uso de espingardas à distância é mais cruel que um rifle ou, por outras razões,
a não ser em caso de emergência, NÃO é recomendado. Por questão de
segurança, deve ser mantida uma distância de 30 cm do animal.
• Espingardas ou rifles não são apropriados para uso em locais fechados.
Aspectos legais:
Posse e uso de armas de fogo são controlados por lei em muitos países.
23
Para cetáceos pequenos encalhados é possível usar uma superdosagem de
etorfina ou barbitúricos. Uso de espingarda também é possível, mas deve-se
procurar a opinião de especialistas (RSPCA – Cetáceos encalhados – Guia para
médicos veterinários).
24
Para cetáceos maiores, nenhum método de eutanásia confiável está disponível.
Isto causa um dilema, porque, mesmo se baleias são recolocadas no mar depois
de terem encalhado, elas não sobreviverão por muito tempo devido a complicações
circulatórias que ocorreram enquanto estava encalhada. Essa situação é similar a
de vacas em decúbito.
A pressão da sociedade para preservar e resgatar mamíferos marinhos é grande e
a expectativa do público é que sejam protegidos de dano a qualquer custo,
inclusive evitando a eutanásia. Entretanto, como no caso de qualquer outro animal,
é necessário avaliar o seu potencial de sofrimento, evitando-se tentativas
prolongadas e fora da realidade de relançar ao mar um animal moribundo, idoso ou
severamente ferido, quando o ato mais humanitário teria sido eutanásia sem
demora desnecessária.
25
Deslocamento cervical é amplamente usado para matar aves, mas não é
considerado um método ideal. Recentes pesquisas demonstraram que, enquanto o
deslocamento cervical rompe o tecido nervoso medular, o fornecimento de sangue
para o cérebro pode continuar por um período significativo, causando sofrimento.
Uma alternativa para o deslocamento cervical para aves é um golpe desferido com
um aparelho mecânico especialmente desenhado que, além de induzir
inconsciência, leva à morte por destruição irreversível da função cerebral. Para
maiores informações, veja a Associação para Abate Humanitário no website
http://www.hsa.org.uk.
No Brasil, o deslocamento cervical para a eutanásia de aves não é método
recomendado, sendo aceito sob restrições (é permitido somente diante da total
impossibilidade do uso dos métodos recomendados) através da Resolução CFMV
Nº 714/2002. Os métodos recomendados pelo CFMV são: barbitúricos, anestésicos
inaláveis, CO², CO e pistola.
26
Os seguintes métodos de eutanásia NÃO são recomendados:
•
Congelamento (morte lenta)
•
Afogamento (medo, estresse, aversivo)
•
Inanição (morte muito lenta)
•
Imersão em etanol (medo, estresse, aversivo)
•
Sufocação (medo, estresse, aversivo)
•
Uso de equipamento de microondas não especializado (aquecimento local não
controlado)
•
Injeção intraperitonial de barbitúricos (em geral muito doloroso porque o agente irrita
os tecidos do peritônio)
•
Utilização de gás (indução de intoxicação ou anóxia, provocando medo e ansiedade
durante a indução)
•
Decapitação (em geral e, particularmente, em espécies de grande porte, o corte do
pescoço não pode ser executado dentro de um espaço de tempo que possa ser
considerado “imediato” e em animais como aves e répteis há possibilidade do animal
permanecer consciente)
Outros métodos considerados inaceitáveis quando utilizados sozinhos incluem indução de
embolia, queimar, uso de cloridrato, clorofórmio, cianeto, descompressão, formalina,
produtos químicos de uso doméstico e solventes, hipotermia, enforcamento, espancamento,
estricnina e agentes bloqueadores do sistema neuromuscular (ex. sulfato de magnésio;
agentes curariformes, como succinilcolina).
O avanço da ciência do bem-estar animal indica que os métodos aqui relacionados têm
potencial de causar dor, estresse ou uma morte lenta. Em especial, alguns médicos
veterinários utilizam succinilcolina isoladamente como agente de eutanásia; isto é muito
desumano, pois causa morte lenta por asfixia devido à paralisia dos músculos respiratórios.
A Sociedade Americana de Medicina Veterinária (American Veterinary Medical Association)
menciona que a utilização de agentes de bloqueio neuromuscular como drogas utilizadas
isoladamente para eutanásia é “inaceitável e absolutamente condenável”.
• American Veterinary Medical Association 2000 Report of the AVMA Panel on
Euthanasia. J Am Vet Med Assoc 2000; 218: 669-696. Available online at:
www.avma.org/issues/animal_welfare/euthanasia.pdf
27
Quais métodos de eutanásia podem produzir uma “morte boa”? Qualquer que seja
o método utilizado, é essencial que os equipamentos usados estejam funcionando
perfeitamente: se utilizar injeção, a agulha deve estar afiada e nova; se arma, rifle
ou pistola, deve estar bem lubrificada e em ordem para funcionar perfeitamente.
Ainda, a pessoa responsável pela eutanásia deve ter conhecimento pleno do
método utilizado.
•
Para um animal individual que pode ser contido adequadamente,
administração intravenosa de barbitúricos provavelmente é a melhor opção
para uma “morte boa”. Este método é recomendado para cães e gatos
abandonados.
•
Para cavalos e burros recomenda-se superdosagem de barbitúricos ou uso
de pistola.
Referência:
•2000 Report of the AVMA Panel on Euthanasia. J Am Vet Med Assoc
2000; 218: 669-696. Available online at:
www.avma.org/issues/animal_welfare/euthanasia.pdf
28
•Para animais de fazendas de grande porte, uso de corredor/tronco e
insensibilização com pistola de lança penetrante, seguido de exanguinação
ou destruição de tecido nervoso, garantem rápida perda de sensibilidade e
morte.
•Para animais “livres” de grande porte, tiros executados com exatidão na
cabeça, coração ou nuca são uma solução que combina eficiência com o
fato de evitar o estresse da captura.
•Para situações que envolvam grupos grandes em epidemias (aves,
suínos), devem ser consideradas a indução de inconsciência seguida de
exanguinação (para aves maiores como perus) ou insensibilização/morte
por pistolas mecânicas (galinhas, patos).
Veja também:
•2000 Report of the AVMA Panel on Euthanasia. J Am Vet Med Assoc
2000; 218: 669-696. Available online at:
www.avma.org/issues/animal_welfare/euthanasia.pdf
29
A Resolução Nº 714, de 20 de junho de 2002, do Conselho Federal de Medicina
Veterinária, dispõe sobre procedimentos e métodos de eutanásia em animais no
Brasil. Essa resolução deve ser considerada por todos os médicos veterinários, em
todas as áreas de atuação, quando da necessidade de matar um animal. São
relacionados os métodos recomendados e aqueles aceitos com restrições, que só
devem ser empregados diante da total impossibilidade do uso dos métodos
recomendados. Os métodos considerados inaceitáveis são enumerados no artigo
14.
Art. 14. São considerados métodos inaceitáveis:
I - Embolia Gasosa;
II - Traumatismo Craniano;
III - Incineração in vivo;
IV - Hidrato de Cloral (para pequenos animais);
V - Clorofórmio;
VI - Gás Cianídrico e Cianuretos;
VII - Descompressão;
VIII - Afogamento;
IX - Exanguinação (sem sedação prévia);
X - Imersão em Formol;
XI - Bloqueadores Neuromusculares (uso isolado de nicotina, sulfato de magnésio,
cloreto de potássio e todos os curarizantes);
XII - Estricnina.
Parágrafo único. A utilização dos métodos deste artigo constitui-se em infração
ética.
30
Uma avaliação detalhada de como aconselhar proprietários com relação a
eutanásia está além do escopo desta palestra, todavia os aspectos principais foram
detalhados no slide.
Decidir pôr fim à vida de um animal pode ser uma decisão difícil para um cliente.
Pode ser uma decisão difícil para o médico veterinário também, já que ele tem
responsabilidade para com o animal assim como para com o cliente (veja Módulo
10).
Às vezes o custo de manter um animal vivo é um fator decisivo quando um
proprietário opta por eutanásia.
Sejam quais forem as circunstâncias, a qualidade de vida do animal é, muitas
vezes, a preocupação principal e pode ser muito útil para o proprietário poder
discutir os motivos que levam à decisão a favor da eutanásia. Quando se utiliza
pentobarbital sódico concentrado, explica-se a experiência por Analgesia, seguido
de Anestesia, e então Eutanásia.
31
O procedimento deve ser agendado para que haja tempo para conversar e explicar
e tempo para seguir com o processo sem pressa.
Alguns clientes sentem culpa depois da eutanásia. Eles podem se sentir egoístas
ou sem compaixão por terem ajudado a tomar a decisão. A culpa pode ocorrer por
si só, mas geralmente é parte do sentimento de pesar, que também inclui:
•Raiva
•Negação
•Barganha/Reflexão
•Depressão
•Aceitação
Os estágios acima não são distintos, todavia muitas pessoas passam por eles de
uma maneira ou de outra antes que possam aceitar inteiramente a morte do seu
animal.
Pode ajudar se você explicar que tais sentimentos são normais e você deve
lembrar o cliente das razões pelas quais você teve de tomar tal decisão.
O cliente poderá sentir que a vida (e morte) de seu animal foi importante e que a
eutanásia não foi rotina para o médico veterinário.
32
33
34
Download

Módulo 20 - Eutanásia