A IMPORTÂNCIA DO “APL DO OSSO” PARA O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, SOCIAL E CULTURAL DO MUNICÍPIO DE JARDIM-MS [email protected] Apresentação Oral-Desenvolvimento Rural, Territorial e regional MILTON AUGUSTO PASQUOTTO MARIANI; CAROLINA MACHADO DE FREITAS DOBES; VANESSA SCHMIDT; DYEGO DE OLIVEIRA ARRUDA. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL - UFMS, CAMPO GRANDE MS - BRASIL. A importância do “APL do Osso” para o desenvolvimento econômico, social e cultural do Município de Jardim-MS Grupo de Pesquisa: Desenvolvimento Rural, Territorial e Regional Resumo Objetivou-se, através deste trabalho, estudar o envolvimento da comunidade do município de Jardim/MS, no arranjo produtivo local do artesanato, e desenvolver estratégias para que o envolvimento dessa comunidade na atividade do artesanato gere melhoria da qualidade de vida. O estudo foi realizado no município de Jardim em diferentes etapas, envolvendo visitas a bairros, coleta e obtenção de dados e informações por meio de pesquisas bibliográficas, em jornais, revistas, órgãos oficiais, empresas privadas e entrevistas, trabalhos de campo e de gabinete. Foram colhidos depoimentos sem a pretensão de concluir a questão do artesanato e nem do arranjo produtivo local, servindo apenas como direcionador às reflexões de interesse deste trabalho. Contudo, cabe ressaltar que esta divisão não definiu etapas estanques ou compartimentadas no decorrer da pesquisa, ocorrendo, pelo contrário, a concomitância ao realizá-las. Concluiu-se que a escala “local” é importante para estudos desta natureza porque os organizadores e responsáveis locais, consultando os seus constituintes, podem desempenhar um papel preponderante na obtenção do sucesso de um arranjo produtivo. Palavras-chaves: Artesanato. Comunidade. Inclusão social. Desenvolvimento regional. Abstract The objective is, through this work, to study the involvement of the community of the City of Jardim/MS in the local productive arrangement craft and develop strategies for the involvement of community in the craft activity generates improved quality of life. The study was conducted in the city of Jardim at different stages, involving visits to districts, and collection of data and information obtained through bibliographic searches, in newspapers, magazines, official bodies, private interviews, field work and office. Testimonies were collected without the intention to conclude the issue of craft and not the local productive arrangement, serving only as guiding ideas of interest to this work. 1 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural However, it should be noted that this division does not define clear stages or compartmentalized during the search, occurring, on the contrary, the concurrence to carry them out. It was concluded that the “local” scale is important for such studies because the organizers and the local officials, consulting their constituents, may play a role in achieving the success of a productive arrangement. Key Words: Handicraft. Community. Social inclusion. Regional development. 1. INTRODUÇÃO O presente projeto visou investigar o desenvolvimento do Arranjo Produtivo Local do município de Jardim, em Mato Grosso do Sul, que aproveita matérias primas abundantes na região, como madeira e osso, para produzir peças artesanais exclusivas da localidade, partindo de uma análise preliminar de que, nesta área, o patrimônio, natural e cultural, se torna potencialidade para o desenvolvimento local, entendendo como a realidade da atividade se inter-relaciona com a questão ambiental, as políticas públicas e as ações da iniciativa privada. Houve a preocupação com o surgimento da atividade do artesanato no município, que transformou o seu conteúdo principal, os recursos naturais e culturais, em produto de consumo. Objetivando minimizar esses impactos negativos e maximizar os positivos produzidos pelos diversos setores da economia, contamos com um aliado, um novo modelo de desenvolvimento, que vem substituir o antigo regime ligado apenas ao progresso material, crescimento de taxas e indicadores econômicos, conhecido como desenvolvimento local1. É realizado em escala humana, e atribuímos a ele a capacidade de reafirmar as potencialidades e identidades locais frente à globalização. Devemos pensá-lo como um processo de superação de problemas sociais, em que a sociedade se torna, para seus membros, mais justa e legítima, tendo o homem como sujeito e beneficiário das ações. Os indivíduos devem participar ativamente e não apenas serem favorecidos pelo desenvolvimento. Isto implica pensar na questão de responsabilidade social, em que a busca por qualidade de vida e bem-estar parte do “protagonismo real e verdadeiro de cada pessoa” (Martín, 1997, p.172). 1 Para entender o significado de “local” no contexto de desenvolvimento local, optamos pela definição dada por Lopez apud Ávila (2000) ao referir-se como sendo um espaço, uma superfície territorial de dimensões razoáveis para o desenvolvimento da vida, com uma identidade que o distingue de outros espaços e de outros territórios e no qual as pessoas conduzem sua vida cotidiana: habitam, se relacionam, trabalham, compartilham normas, valores, costumes e representações simbólicas. O turismo, esclarece Coriolano (1998), não deixa de ser uma abstração caso não haja um lugar, que além de servir como suporte é a base para o entendimento da atividade. É fato que, o que existem são os lugares e as viagens, e somente dentro de uma circunstância formam o chamado turismo. 2 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Assim, o incentivo ao artesanato, aliado ao desenvolvimento local, é visto como uma possibilidade de diversificação da economia, capaz de permitir a inclusão dos produtores artesanais urbanos no mercado doméstico e garantir a manifestação de suas especificidades, com uma propensão a receber uma nova injeção de capital, gerar empregos, tanto direto como indireto, incorporar noções de planejamento, assegurar o limite de suporte ao ecossistema, capacitar profissionais e promover melhorias em infraestrutura básica e serviços que atendam desde a comunidade local até os turistas. Sob uma perspectiva histórica, verificamos que, no Brasil, os estudos que enfocam o local começaram a ganhar destaque durante a formulação da Constituição Federal de 1988, período em que se iniciaram reflexões sobre descentralização de políticas públicas, poder da localidade, necessidade de integração de projetos sociais e econômicos que beneficiassem a maioria da população e, também, a construção de um projeto político que promovesse o verdadeiro desenvolvimento humano. Para tal, fez-se necessária uma revisão das relações entre o Estado, a sociedade civil e o setor privado. Conforme Ávila (2000), isso implica no desabrochamento das capacidades, competências e habilidades de uma comunidade, no sentido de ela mesma, com colaboração de agentes externos e internos, tornar-se apta a agenciar e gerenciar os seus potenciais, visando solucionar problemas, necessidades e aspirações. Quando se trata desse tema no Brasil, é interessante ressaltar um projeto denominado BNDES2 – Desenvolvimento Local com Cooperação técnica do PNUD3. Seu objetivo é formular e executar ações que levem em conta as vocações locais e permitam a construção de processos de desenvolvimento cujos resultados beneficiem a maioria da população, promovendo a inclusão social através de mobilização, organização, capacitação técnica e execução de projetos de natureza social e econômica. Há um cuidado com o acompanhamento do processo e avaliação permanente dos resultados obtidos no decorrer das ações. Notamos, então, que nessa nova proposta a participação popular ganha papel de destaque, não devendo se restringir a envolvimentos esporádicos ou mesmo ser vista como uma metodologia para a sensibilização popular. Talvez seja este o maior desafio a ser enfrentado. Portanto, participativo não é o processo que garante a participação, mas aquele que a promove e a ela atribui seu funcionamento, encontrando as melhores soluções para os problemas locais, afinal, as soluções macroeconômicas nacionais e internacionais são limitadas, pois não levam em conta as condições extremamente diversificadas que só são identificadas pelas pessoas que neles vivem. Conforme Benevides (1999) há cinco objetivos que permeiam as propostas de desenvolvimento local por intermédio de atividades como o turismo e o artesanato. São eles: a preservação e conservação ambiental, identidade cultural, geração de ocupações produtivas e de renda, desenvolvimento participativo e qualidade de vida. Assim sendo, vê-se no artesanato de madeira e osso do município de Jardim/MS um mecanismo efetivo para a prática de desenvolvimento local, aliado à preservação, tanto de patrimônios naturais e culturais quanto de valorização da identidade. Contudo, essa não 2 3 Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento 3 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural deve ser a única fonte de renda de uma determinada comunidade. Deve sim, ser vinculada a outras atividades econômicas já existentes para que, juntas, possam promover melhorias ao local. Por fim, podemos entender que localidades que apresentem potenciais naturais e culturais, e tenham interesse em promovê-los, devem vislumbrar, na atividade do artesanato, um importante instrumento para a implementação de estratégias de desenvolvimento local que sejam capazes de fomentar a distribuição mais justa dos benefícios gerados, garantindo qualidade de vida e bem-estar para toda a comunidade. A busca da abordagem do desenvolvimento local ao tema proposto para o município de Jardim/MS constitui uma análise do espaço geográfico para as investigações sob a visão de arranjos produtivos locais. Os resultados das pesquisas aqui apresentadas procuram valorizar a realidade da atividade desenvolvida em Mato Grosso do Sul. Um arranjo produtivo local se caracteriza pela aglomeração de várias empresas em um mesmo território e que participam do mesmo setor de atividades, com interação dos agentes políticos, econômicos e sociais locais. Em Oliveira (2008), o arranjo também pode incluir instituições públicas e privadas voltadas para a formação e capacitação de recursos humanos, políticos, de promoção e financiamento. A mão-de-obra é especializada e a matéria-prima geralmente é da própria região. Para Vale (2007), “o termo aglomeração – produtiva, científica, tecnológica e/ou inovativa – tem como aspecto central a proximidade territorial de agentes econômicos, políticos e sociais (empresas e outras organizações públicas e privadas)”. Muitas vezes os APLs surgem da necessidade de geração de subsídios que promovam o desenvolvimento local e a inserção de determinada região na economia global, aproveitando-se de suas potencialidades. A integração entre esses diversos agentes da sociedade unifica espaços e proporciona uma especialização, uma regionalização. Vale afirma que “muitos desses atributos se sobrepõem, criando ou reforçando as bases para um senso de identidade comum, compartilhado pelos atores locais, o que é de fundamental importância para a caracterização de um dado território.” A diversificação produtiva, juntamente com a redução das desigualdades sociais, culturais e setoriais são fatores importantes para que ocorra o desenvolvimento econômico de um APL. A concentração de várias empresas do mesmo setor produtivo em um mesmo território possibilita que haja especialização maior tanto da mão-de-obra quanto dos meios de produção, uma vez que os trabalhadores, para facilitar a realização de suas tarefas, passam a inventar novas ferramentas de trabalho. Essa concentração de grande classe produtiva, em torno de um único tipo de produto, dá origem às zonas especializadas de produção, unindo a atividade artesanal à tecnologia, como é o caso do APL de Jardim. Não menos importantes são os ganhos em escala proporcionados aos integrantes de um arranjo produtivo local. Uma vez que todos os empreendimentos estão reunidos em torno de um objetivo comum, torna-se mais fácil o acesso aos grandes mercados consumidores, o que facilita o estabelecimento de parcerias, não apenas entre os agentes locais, mas também com agentes externos que possam proporcionar benefícios mútuos aos cooperadores. 4 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural O estabelecimento de um APL em determinado meio leva características do local para âmbitos globais. Para Benko (1994), “as capacidades dinâmicas dos sistemas locais com ambientes inovadores os projetam naturalmente para o exterior”. No caso de Jardim, o artesanato parte de uma cidade interiorana e se dirige para os grandes centros nacionais e internacionais, carregando consigo a cultura, o trabalho e a matéria-prima jardinense, trazendo recursos para a comunidade. Neste caso, quando o APL se desenvolve do local para o global sua inserção é ativa, pois as ações partem do arranjo para a sociedade globalizada. De outro modo a inserção também pode ocorrer de forma passiva, quando as ações fazem o caminho inverso: do global para o local. Isso ocorre, por exemplo, quando um agente externo identifica potenciais em determinada região e aplica recursos neste local. A utilização de maquinários e tecnologias vindos de diferentes locais, além do emprego de conhecimento e capital social externos, também são outras formas de se identificar o desenvolvimento passivo de um APL. No caso do APL de Jardim, houve inserção passiva, tendo em vista que o potencial foi identificado pelo SEBRAE-MS e só então passou a ser dirigido pela prefeitura, que vislumbrou a possibilidade de trazer desenvolvimento e geração de renda para as famílias menos favorecidas do município, ocupando o tempo ocioso de pessoas que antes não possuíam fonte de renda nem perspectiva de crescimento profissional. O contexto de APL também traz vantagens quando se trata de competitividade, pois o poder de inserção nas grandes redes se torna maior quando há organização conjunta do setor produtivo, o que proporciona estratégias comerciais mais organizadas e com maior capacidade de concorrência frente a produtores mundiais. “O fator regional passou a ser considerado uma fonte importante de vantagens competitivas, e a dimensão local dos sistemas globais de produção tornou-se alvo de crescente interesse e preocupação. Esse renascimento da dimensão regional, introduzindo novas preocupações com as especializações territoriais exatamente num momento em que as tecnologias originárias da microeletrônica e da eletrônica digital revolucionaram os processos e sistemas produtivos, gerando, inclusive, reduções significativas nos custos de transporte e de comunicação, e em que o mundo avança em acelerado processo de globalização e integração.” (VALE, 2007 p.31,32). Para Hadad (2004), um APL potencializa os benefícios de eficiência do coletivo, aprendizado contíguo e inovação, gerados por economias dinâmicas de aglomeração. Pontualmente, um arranjo produtivo local pode ser identificado pelas seguintes características: • Dimensão territorial limitada: as instituições envolvidas geralmente possuem proximidade geográfica, contratando mão-de-obra local e utilizando matéria prima da própria região. • Diversidade de atores econômicos, políticos e sociais: favorece o surgimento de capital social, investimentos, integração e desenvolvimento. 5 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural • Governança/coordenação: estabelecimento de parcerias para compra e venda dos produtos, logística e aperfeiçoamento da mão-de-obra. • Vocação da atividade econômica: a região possui uma pré-disposição para a atividade, gerando uma possibilidade maior de apoio governamental e de investimentos externos. O estabelecimento de um APL evidencia e acirra as vantagens competitivas de um aglomerado de empresas frente ao mercado, integrando mais facilmente os produtos na economia globalizada. No território global existem três tipos de acontecer solidário segundo Milton Santos (1994), que podem ser homólogo, complementar e hierárquico. No acontecer hierárquico, há uma tendência à racionalização das atividades, o que se faz sob um comando, uma organização, que contribui com a produção de um sentido impresso à vida dos homens e do espaço. O acontecer complementar é aquele que trata das relações entre as cidades e o campo e entre cidades, consequencia de necessidades modernas de produção e do intercâmbio geograficamente próximo. Já o acontecer homólogo se caracteriza por áreas de produção agrícola ou urbana que se modernizam através de informação especializada, gerando uma contigüidade funcional em uma área. No APL do Osso é possível afirmar que ocorrem dois tipos de acontecer solidário, o hierárquico e o homólogo. A criação do APL do Osso acrescentou um novo sentido aos integrantes do projeto, pois a grande maioria dos parceiros anteriormente não possuía um emprego ou mesmo alguma forma de renda. Uma característica importante, e que insere este APL no acontecer hierárquico, é o fato de haver uma instituição coordenando as ações. Quanto à caracterização do acontecer homólogo, o APL recebe informações especializadas que modernizam seus produtos e sua forma de produção, como é o caso dos cursos de aperfeiçoamento, da supervisão do SEBRAE e também das influências deixadas pelo designer italiano Vinaccia. O APL do Osso de Jardim tem na exclusividade do produto final seu maior diferencial competitivo. O artesanato em osso dificilmente é encontrado em outras localidades e por ser uma mercadoria pouco produzida e com grande receptividade no mercado, tem alto valor agregado. Além disso, por tratar-se de material resistente, o que torna menores as restrições quanto ao transporte e também reduz significativamente os custos. Tais fatores permitem que seja um empreendimento equilibrado e sustentável. Assim, o presente trabalho tem por objetivos: (i) Compreender o envolvimento da comunidade do município de Jardim, na atividade do artesanato, ao mesmo tempo em que pretende gerar reflexões sobre a melhoria da qualidade de vida; (ii) Desenvolver estratégias para que o envolvimento dessa comunidade, na atividade do artesanato, gere melhoria da qualidade de vida. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O estudo foi realizado em diferentes etapas, no município de Jardim/MS, envolvendo visitas aos projetos, coleta e obtenção de dados e informações por meio de 6 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural pesquisas bibliográficas, em jornais, revistas, órgãos oficiais, empresas privadas, aplicação de questionários e entrevistas, trabalhos de campo e de gabinete. Contudo, cabe ressaltar que essa divisão não definiu etapas estanques ou compartimentadas no decorrer da pesquisa, havendo, pelo contrário, a concomitância ao realizá-las. Após essa etapa, foram realizadas visitas à área, por meio das quais procurou-se inventariar e registrar os fatos e aspectos vinculados direta ou indiretamente ao fenômeno turístico. Ao lado dessas atividades, iniciou-se o levantamento de material cartográfico, fotográfico, coleta de dados e informações pertinentes à cidade e à região, o que foi feito junto à Prefeitura e Câmara Municipal, órgãos estaduais e federais. A insuficiência de dados e informações referentes ao objeto de estudo, obrigaram à realização de pesquisa de campo, que consistiu na coleta de depoimentos orais, a partir de entrevistas não estruturadas. Foram entrevistadas quatro pessoas sem a pretensão de concluir a questão do artesanato ou do turismo do artesanato, servindo apenas como direcionador nas reflexões de interesse deste trabalho. Para isso refere-se a Panosso Neto (2005), quando afirma que “uma pesquisa qualitativa e humanista está interessada num aprofundamento das respostas obtidas e não no número de questionários aplicados” (Panosso Netto, 2005, p.117). A bibliografia levantada e consultada à época contém considerações sobre o município, o que é de interesse deste trabalho, principalmente os artigos de jornais, revistas especializadas ou não, de marketing, propaganda. Destacam-se artigos, trabalhos e pesquisas com caráter científico, que permanecem ao nível das instituições universitárias, órgãos e empresas de pesquisa estatal ou para-estatal. No desenrolar da pesquisa, foram utilizados recursos audiovisuais, tais como fitas de vídeo cassete, DVD’S e fotografias, produzidos ou gravados de programas das emissoras de televisão, de empresas privadas ou públicas, os quais permitiram, muitas vezes, chegar-se à elucidação de dúvidas, observar detalhes e fundamentar análises então realizadas, de forma que, através desses recursos, fossem mantidos os autores atualizados e presentes. Ao longo do trabalho, foi de grande importância a participação em seminários e simpósios, realizados por entidades científicas, públicas e mesmo privadas, em diversas localidades, durante os quais se discutiram, ao lado de assuntos próprios da pesquisa científica e do conhecimento humano, o lazer, o turismo, contribuindo sobremaneira para a pesquisa, não só elucidando dúvidas, mas também reforçando outras, incitando a busca de suas respostas. Ainda de vital importância foram as freqüentes discussões e trocas de idéias, em torno da pesquisa, realizadas com colegas, pesquisadores da Universidade ou de empresas e órgãos públicos ou privados que possuem setores voltados para a pesquisa. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO O potencial do artesanato em Jardim foi identificado em 1998, quando já havia artesãos produzindo outros tipos de peças no município, tais como crochê, tricô e bordados. Somente em 2002, devido à grande identidade regional e à quantidade razoável de turistas que eram atraídos pelas riquezas e belezas naturais do local é que materiais 7 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural provenientes do gado bovino passaram a ser utilizados para a produção de artesanato. O uso de couro, osso e também da madeira deram maior expressão para o artesanato jardinense, pois através deles tornou-se possível que os artesãos empregassem a criatividade para a produção de objetos. Assim passou a existir uma mercadoria que iria levar a cultura, o artesanato e as figuras tradicionais do local para o restante do mundo, unindo a matéria-prima rústica à tecnologia de produção. E1: “No começo a gente tinha medo se ia dar certo ou não, mas logo ninguém queria sair do grupo porque acreditava no resultado.” Na época, quase 50% da população de Jardim não possuía rendimentos enquanto a maioria dos que eram assalariados obtinham ganhos inferiores a dois salários mínimos, o que indicava uma renda baixa para os moradores do município. Para que se identificassem os potenciais da região foram realizados alguns conjuntos de ações: a primeira delas foi o fórum DLIS4, realizado em 1998, com a intenção de determinar as principais dificuldades e potencialidades do município, ocasião em que foram selecionadas três atividades principais: o turismo, o agronegócio e o artesanato; a segunda ação partiu dos próprios agentes locais que começaram, em 1999, a colocar em prática as duas primeiras potencialidades. Já em 2001, foi realizado pelo SEBRAE-MS, um diagnóstico que localizou as atividades artesanais que eram realizadas até então e colocou em pauta a inserção de um novo ramo dentro destas atividades: a utilização do osso, do couro e da madeira. Outro fato importante ocorrido neste mesmo período foi a presença, em Mato grosso do Sul, do designer italiano Giulio Vinaccia, que chegara ao Estado para desenvolver estudos sobre as imagens que poderiam ser utilizadas pelos produtores locais de artesanato de forma a tornar evidente a marca da cultura regional sul-mato-grossense. O trabalho do SEBRAE-MS evidenciou que o artesanato até então produzido na região era comercializado apenas no local, e os objetos produzidos estavam limitados a selas para cavalos com seus respectivos adereços, placas para fazendas, carros de boi e outros que tinham características de artesanato típico para utilização em fazendas ou na lida com animais. Partindo deste pressuposto e da observação de que os artesãos gostavam de criar novas peças durante o trabalho, foram propostas inovações aos produtos criados para que pudesse haver uma ligação entre o turismo, a cultura e a identidade local. Para que isso se tornasse possível foram organizadas e oferecidas aos artesãos algumas oficinas de capacitação. A primeira, realizada pelo SEBRAE, teve foco principalmente na limpeza e na preparação do osso para utilização no artesanato. A seguinte, já com a participação do designer italiano Vinaccia, incluiu nos trabalhos a iconografia, trazendo à tona as imagens representativas da natureza e da cultura da região, além de garantir originalidade às peças. Foram criados novos elementos com foco diferenciado para atingir diversos públicos e mercados. Iniciou-se então a produção de materiais para decoração e utilização doméstica, bem como móveis, descansos de mesa, bandejas, petisqueiras, luminárias, 4 Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável 8 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural dentre outros, totalizando 40 novos objetos, que passaram a ser comercializados com maior facilidade para os turistas que visitavam o local. As iniciativas receberam total apoio da Prefeitura de Jardim, que além de fornecer todo o material a ser utilizado pelos artesãos também disponibilizou, sem ônus para os participantes, o local para realização das oficinas. Ao final das ações e já com novos objetos produzidos, houve a primeira exposição dos produtos. A partir disso começaram a surgir encomendas e o novo empreendimento começou a despontar. E2: “(...) no início tivemos dúvida se daria certo, pois o grupo era muito heterogêneo (...), mas a surpresa foi grande no final da oficina e da exposição organizada pelos artesãos, pois todos se envolveram e criaram peças interessantes (...) transformando uma matéria-prima que ninguém dava valor, com muita criatividade e capricho.” Em seguida as peças foram expostas no Museu de Arte Contemporânea – MARCO, em Campo Grande, Capital de Mato Grosso do Sul, e também foram expostas no Manual Iconográfico do Estado. A partir de então passaram a ser reconhecidas em todo o Brasil. Os produtos foram levados para vários estados brasileiros e também para outros países, de onde começaram a surgir encomendas tanto dos produtos já existentes quanto de novas mercadorias. Toda essa movimentação gerou maior integração entre o artesanato em osso e o setor moveleiro. Um exemplo disso foi a aplicação de peças de osso em madeira, iniciada pelo empresário e artesão do projeto Amo Bio Design, e que teve boa receptividade no mercado, pois o produto final mostrava-se diferenciado e carregava traços locais muito marcantes. Quanto à valoração das peças, o cálculo do valor de venda foi inicialmente um fator de difícil decisão, tendo em vista que não havia no mercado outras mercadorias similares para que houvesse bases para precificação. Os artesãos perceberam que o trabalho em osso era um processo demorado considerando-se todo o caminho percorrido desde a chegada da matéria prima, seu processo de limpeza e preparo, até a transformação em peças artesanais. Para que se chegasse a um consenso sobre o preço, que ao mesmo tempo remunerasse todo o trabalho realizado e não se tornasse inacessível ao consumidor, os integrantes do projeto se reuniram e registraram a quantidade de horas de trabalho necessárias para o preparo completo de um objeto. Constatou-se que somente no preparo do osso, para que ele estivesse pronto para ser esculpido, eram despendidas dez horas de trabalho. Ficou então definido que a média do tempo utilizado para a produção de determinada peça seria usada como item de precificação. Toda a mão-de-obra indispensável para a obtenção de um produto final que atraísse os consumidores também seria somada ao custo final. Para que não houvesse equívocos, consultores do SEBRAE-MS foram chamados para supervisionar e auxiliar na precificação. Após várias reuniões os artesãos, sob olhares do SEBRAE, decidiram que quando a quantidade a ser vendida fosse menor que seis peças, os lucros seriam provenientes de preços mais elevados por peça, e quando houvesse 9 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural produção em maiores quantidades, os valores por peça seriam reduzidos e a lucratividade obtida através do volume vendido. Pesquisas realizadas pelo SEBRAE-MS, em 2002, evidenciaram que o Município de Jardim, em Mato Grosso do Sul, tem arraigado em sua cultura o artesanato manual, além de produzir, em abundância, matérias primas como o osso, a madeira e o couro. De posse das informações, a Prefeitura Municipal, aliada a alguns empresários, tomou a iniciativa de formar o APL do Osso com o intuito de fomentar a economia local e minimizar o desemprego. Dessa parceria nasceu, no mesmo ano, O Projeto Mãos à Obra. Em visita realizada ao projeto, verificou-se que a preocupação transpassava o desejo de incrementar a economia da cidade. Os organizadores do APL pensaram ainda na preservação ambiental, empregabilidade de mulheres - que até então tinham como ocupação apenas cuidar da casa -, divulgação do turismo e projeção do município no cenário nacional. A participação do SEBRAE-MS tornou-se fundamental em todo o processo. A instituição ficou responsável pelo treinamento aos artesãos e deu condições para que eles se inserissem no projeto. O SEBRAE-MS mostrou que o artesanato pode ir muito além de panos de pratos bordados ou animais esculpidos na madeira. Essa nova visão permitiu identificar que tais opções eram comuns e que, por serem pouco atrativas, mantinham o comércio local estacionado. Os integrantes do projeto aprenderam que a mistura das matérias primas era perfeitamente viável e que permitia, principalmente, agregar valor às peças produzidas. A população como um todo encampou a idéia e vislumbrou a possibilidade de um futuro mais promissor. De acordo com as entrevistas realizadas durante o desenvolvimento do presente trabalho, ficou constatado que atualmente todos os integrantes do projeto apresentam melhora significativa em suas rendas familiares, além do prazer em terem descoberto a profissão de artesãos. Outro fator que permitiu satisfação geral no município foi o fato de que o volume do acumulo de lixo, proveniente de frigoríficos e açougues, teve uma queda substancial, já que os ossos bovinos são a principal matéria prima na fabricação das peças artesanais. O sistema de funcionamento do projeto é simples. O fornecimento e manutenção de todo o maquinário necessário fica por conta da Prefeitura Municipal, que também se responsabiliza por qualquer outra despesa indispensável à manutenção das atividades. Com relação às máquinas a criatividade também é notada. Lixas e brocas de uso odontológico adaptadas fazem parte do rol de equipamentos. E3: “Tudo que vocês estão vendo aqui, brocas, lixas, nós não temos despesa com isso. Toda despesa é da prefeitura. Nós só entramos com o trabalho.” Para tornar o trabalho mais eficiente e atender melhor à crescente demanda o Projeto Mãos a obra conseguiu, junto ao Ministério de Desenvolvimento, a aprovação de uma verba de R$ 210.000,00 que será utilizada para a conclusão da nova sede e também na aquisição de brocas mais resistentes, acionadas através de ar comprimido e que reduzem o consumo de energia elétrica. 10 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural O processo de produção foi explicado com detalhes pela artesã-chefe, que participa do projeto desde o início e conhece profundamente sua história e todo o método produtivo das peças. Segundo ela, o primeiro passo é a coleta de ossos, feita nos açougues e frigoríficos da região. Em seguida esse material é levado para as instalações do projeto onde é cuidadosamente lavado. Os ossos depois de limpos passam por cozimento em um fogão simples que, por questões econômicas, utiliza pó de serra como combustível do fogo. A fervura provoca clareamento nos ossos, deixando-os brancos e sem aspecto de resto de animal. A secagem é o procedimento que encerra esta fase de preparação da matéria prima. Cumpridas todas essas etapas os ossos estão prontos para serem cortados nos mais diversos formatos, como explica a artesã-chefe. Os modelos das peças são criados pelo desenhista e cuidadosamente esculpidos pelas artesãs. A grande disponibilidade de matéria prima permite um bom estoque de peças prépreparadas, o que evita atraso nas entregas das encomendas ou a recusa das mesmas. Para cumprir a etapa de comercialização o projeto possui uma pequena loja onde expõe as peças. O destaque fica por conta da variedade de produtos como brincos com formatos de animais típicos do pantanal e do cerrado, brinquedos, porta-retratos, jogos de bozó, petisqueiras e outros. E4: “É gratificante ver como o lixo foi transformado em belos produtos e mais, que estes produtos são comercializados para todo o país e para o exterior.” A equipe do Projeto Mãos à Obra atualmente é formada por uma gestora, onze artesãos, um desenhista e um coletor de ossos. Sua capacidade produtiva é de aproximadamente 100 peças por mês e cerca de 30% da produção é destinada à exportação. É importante destacar que apesar de todo o apoio da prefeitura, não há vínculo empregatício. Por decisão do grupo, a renda da produção é dividida igualmente entre todos. Durante as pesquisas e entrevistas, constatou-se que a comercialização pode ser feita diretamente na coordenação do projeto ou através de intermediários. Os principais estados brasileiros consumidores são: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No entorno, as peças são vendidas na Fazenda Mimosa e a Jaca Pani, que são importantes pontos turísticos da região. Já com relação ao mercado externo, Itália, Venezuela e Japão são os maiores importadores. Recentemente, com intermediação do SEBRAE-MS, foram comercializados produtos para Holanda, Luxemburgo e Alemanha. Outro aspecto relevante percebido foi o fato de que a população assumiu o perfil de “cidade artesã” e eles conseguiram combinar cultura, arte e tecnologia, pontos fundamentais para que as peças se destacassem entre os demais tipos de artesanato do país. Essa singularidade permitiu que o Projeto Mãos à Obra ganhasse o Prêmio Top 100, criado pelo SEBRAE. Conseqüentemente o projeto ganhou destaque no cenário nacional e internacional. As artesãs demonstraram muito orgulho pela responsabilidade assumida ao deixarem de ser meras donas-de-casa para ter uma ocupação profissional. De acordo com elas, suas vidas melhoraram, elas passaram a ter renda própria e uma nova perspectiva para 11 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural o futuro. Quanto aos mais novos, além de terem seu próprio salário, entenderam que o conhecimento também é importante e fazem planos de ingressar em um curso universitário. O Amo Bio Design é mais um importante projeto que nasceu em 2006, a partir de outros que integram o APL do Osso em Jardim. Os artesãos utilizam osso e madeira provenientes de catástrofes climáticas, antigos postes de luz e doações; e recentemente implantaram o couro em suas peças. Produzem desde porta-copos até guarda-roupas. Seu coordenador e proprietário, relata que o sucesso das peças produzidas pelo seu grupo é tão grande que, para atender a demanda, foi preciso formar uma empresa com maior número de funcionários e diversidade de maquinários. E5: “No início eram donasde-casa, pessoas que utilizavam o artesanato como uma segunda fonte de renda, uma renda alternativa. Hoje nós temos pessoas que estão trabalhando em horário integral com o artesanato. É uma fonte lucrativa”. Atualmente o perfil dos artesãos é diferente do início do projeto, a equipe é composta exclusivamente por homens, sendo a maioria com baixo nível de escolaridade. A forma de gerenciar, trabalhar e comercializar, desenvolvida pelo Amo Bio Design, diferese dos demais integrantes do APL do Osso. A equipe investe também na criatividade para garantir a comercialização dos produtos, como é o caso de petisqueiras em formatos exclusivos, elaborados com motivos que lembram animais ou folhas de árvores típicas da região, tábuas para churrasco que podem ser personalizadas entre outros. As peças têm preços que variam de R$ 10,00 a R$ 170,00. É importante destacar que o Amo Bio Design e o Mãos à Obra são grandes parceiros, inclusive dividem o mesmo espaço físico. O Mãos à Obra tem o know-how em trabalhar com o osso, enquanto a especialidade do Amo Bio Design é a madeira, o que proporciona intercâmbio entre as peças produzidas e maior diversidade de produtos a serem oferecidos ao mercado. Como a produção de suas peças é mais complexa, leva-se mais tempo para formar um artesão, no mínimo um ano, segundo o coordenador do projeto. Para trabalhar com o couro e as diversas espécies de madeira é necessário aprender técnicas específicas o que traz, conseqüentemente, investimentos maiores. A gestão deste projeto é ousada, agressiva e inovadora, sempre buscando novidades e participando das rodas de negócios oferecidas pelo SEBRAE-MS. Isso possibilitou adquirir uma visão ampla do mercado, auxiliando a conquistar consumidores dentro e fora do Brasil. E para aumentar as possibilidades de negócio suas peças constantemente participam de exposições em São Paulo, Rio de Janeiro e Campo Grande. Tais ações surtem efeitos imediatos fazendo com que peças sejam comercializadas junto a grandes empresas no Brasil, como é o caso do Citi Private Bank, com sede em São Paulo-SP, que no início de 2009 encomendou 1.450 unidades para presentear seus clientes preferenciais. Na mesma época foram comercializadas, através de apoio do SEBRAE, 450 peças para uma empresa que atua no setor atacadista na Holanda. O MOR – Madeira e Osso Reciclados é outro importante parceiro e que tem a função de comercializar, no mercado local, os produtos provenientes do Amo Bio Design. 12 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Durante as pesquisas foi possível observar que o gestor do Amo Bio Design é ativo, possui vários contatos e preocupa-se em sempre incrementar a carteira de clientes. Seu empreendedorismo permitiu que os negócios fossem alavancadas de tal forma que, em janeiro de 2009, precisou mudar-se para um local mais amplo, ocasião em que aproveitou para iniciar a construção de instalações próprias e que deverão estar concluídas até o mês de março do mesmo ano. Um de seus principais desafios atuais é a inserção de usuários de cadeira de rodas no quadro de funcionários, o que demonstra sua preocupação com questões sociais. Para tanto a direção do projeto está viabilizando, junto à Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, incentivo financeiro para aquisição de máquinas adaptadas ao manuseio de pessoas portadoras de deficiências físicas. Mesmo em meio a adversidades e problemas mundiais que reduziram o volume de exportação de produtos brasileiros, como as crises na agropecuária e no mercado imobiliário americano, o município de Jardim tem conseguido se destacar com seu artesanato. Os projetos sociais que compõem o APL do Osso trouxeram benefícios para a região e geraram renda, sem prejudicar o meio ambiente, além de terem promovido o desenvolvimento sustentável. A cidade aproveitou outras oportunidades de divulgar seu artesanato, participando de importantes eventos, como o Salão Internacional de Turismo, Crasp Design em São Paulo, Feira das Nações em Brasília, Apup no Rio de Janeiro, Festival Internacional das Américas em Corumbá, Festival de Inverno em Bonito, Mãos de Minas em Minas Gerais e Feira de Agronegócios em Campo Grande. A perspectiva de melhoria de vida fez com que todos se envolvessem, desde donasde-casa até empresários, gerando um relacionamento sadio e pautado no espírito de cooperação. O resultado é o sucesso contínuo do artesanato em osso. As participações nas feiras e demais eventos deram grande visibilidade ao trabalho, com isso os pedidos aumentaram, cresceu o interesse do poder público pelo projeto, que deu maior apoio financeiro ao APL, que por sua vez passou a ter condições de investir em capacitação, maquinário, tecnologia e infraestrutura. Após análise minuciosa pode-se perceber que o APL do Osso de Jardim é um excelente caso para estudo, pois através dele é possível identificar todos os passos fundamentais de formação de um arranjo produtivo local, que passa agora por uma fase de crescimento e posterior maturação, mas que já traz resultados positivos para seus colaboradores. Observou-se que o primeiro passo foi dado por um agente externo, no caso o SEBRAE-MS, que identificou a potencialidade local, que por ser uma região de grande produção pecuária disponibilizava o osso bovino como matéria prima abundante. Em seguida, para garantir o sucesso do empreendimento, foi necessária a capacitação e especialização da mão-de-obra e também foram selecionados os equipamentos necessários para que o artesanato em osso pudesse ser produzido. Para minimizar os entraves que limitavam o crescimento do arranjo houve a união entre os integrantes e as autoridades locais em prol da criação de melhores condições de desenvolvimento. 13 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural O APL do Osso contribuiu, e continua contribuindo, para a caracterização do território de Jardim como potencialidade econômica e cultural, pois ao gerar renda e desenvolvimento ajuda a reduzir as desigualdades sociais, além de demonstrar ao mundo o valor cultural de suas produções. Atualmente em fase de desenvolvimento e maturação, este arranjo produtivo passa a promover a inserção do local na economia global, através da interação entre o social, o político e o econômico, proporcionando ganhos em escala para uma localidade anteriormente inexplorada. O objetivo inicial desta pesquisa foi caracterizar o APL do Osso de Jardim e identificar os potenciais e os entraves que o arranjo apresentava e que, possivelmente, reprimiam seu desenvolvimento. Durante a visita realizada em outubro de 2008, foram identificadas grandes dificuldades com a comercialização dos objetos produzidos pelos artesãos. Não havia até então um intermediário entre os produtores e os compradores em potencial. Assim, as vendas estavam limitadas à cidade de Jardim e regiões próximas, além de alguns compradores estrangeiros, que conheciam o material por intermédio de feiras ou exposições e posteriormente faziam encomendas. O mercado era limitado e consequentemente a produção era pequena. Outro fator que desacelerava o processo produtivo era o maquinário inapropriado utilizado. Para esculpir os ossos eram utilizadas brocas odontológicas elétricas adaptadas, que não suportavam o trabalho por várias horas seguidas em função da grande potência de energia necessária para que as peças fossem modeladas. Muitas máquinas estragavam frequentemente, reduzindo o volume de produção e elevando os gastos com reparação de equipamentos. O reparo das máquinas levava alguns dias, pois tinham primeiramente que ser enviadas a Campo Grande, onde então seriam consertadas. As instalações do local de produção eram improvisadas e algumas vezes inadequadas para conservação e estocagem da matéria-prima, bem como para o trabalho dos artesãos envolvidos. Visando solucionar a grande maioria destes entraves, foram realizadas algumas alterações. Entre outubro de 2008 e fevereiro de 2009, os projetos Mãos à Obra e AMO Bio Design receberam recursos advindos da prefeitura municipal de Jardim, com os quais foram modificados os locais de produção. O maquinário passou por substituição das brocas odontológicas elétricas para brocas de ar comprimido, que possuem maior resistência e reduzem os gastos com reparações dos instrumentos de trabalho, garantindo um aumento na capacidade produtiva do arranjo. Para solucionar os problemas relacionados à comercialização foram tomadas algumas medidas que aumentaram os volumes de vendas, como maior participação em feiras de caráter internacional e salões de eventos realizados em todo o País. Com isso houve um salto no número de encomendas recebidas pelas empresas integrantes do arranjo produtivo local. Os obstáculos identificados anteriormente foram solucionados através de parcerias entre o APL e a prefeitura, além de recursos advindos de outras localidades, mas este 14 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural aumento no volume de vendas acabou gerando um novo problema: a falta de mão-de-obra qualificada. Foram delineadas seis diretrizes que objetivam solucionar a questão da qualificação da mão-de-obra e gerar um aumento ainda maior no volume de comercialização: 123456- Criação de uma oficina para capacitação de mão-de-obra. Parcerias com prefeituras de cidades turísticas de todo o país. Maior participação em feiras e eventos internacionais. Criação de um site do APL do Osso. Contratação de um representante comercial. Promoção da cultura local. A execução destas diretrizes pretende ampliar o desenvolvimento do APL, aumentando o volume de vendas e de produção, divulgando a cultura local e trazendo maior volume de renda para a região. Visando atender a estes objetivos principais, foram estabelecidas ações estratégicas para cada uma das seis diretrizes: 1- Criação de uma oficina para capacitação de mão-de-obra: Para que a falta de mão-de-obra especializada não seja um entrave ao desenvolvimento do APL e tendo em vista que para alguns postos de trabalho a especialização o artesão demora cerca de um ano, propõe-se a criação de uma oficina, dirigida e patrocinada pela prefeitura municipal de Jardim, que inicie a cada bimestre um novo treinamento, tendo, cada curso, duração aproximada de doze meses. O início periódico de novas turmas possibilita que haja sempre artesãos capacitados disponíveis no mercado. Sendo turmas pequenas, de aproximadamente 10 pessoas, é possível que a mão-de-obra seja absorvida pela APL, que com o aumento progressivo da produção necessita cada vez mais de trabalhadores especializados. Outra vantagem seria a possibilidade de maior inserção da população local no arranjo produtivo, o que traria também uma redução no número de pessoas desempregadas não apenas em Jardim, mas também em municípios próximos. A pequena quantidade de pessoas em treinamento facilita ainda o estabelecimento da oficina, uma vez que o espaço físico utilizado pode ser de pequeno porte e a quantidade de máquinas utilizadas é menor. Há então uma grande possibilidade de expansão da produção e o nascimento de uma zona especializada de produção do artesanato em osso. 2- Parcerias com prefeituras de cidades turísticas de todo país: O estabelecimento de parcerias com prefeituras dos maiores pólos turísticos brasileiros poderia trazer vantagens competitivas, tanto para o APL quanto para os estabelecimentos que comercializassem o artesanato em osso, uma vez que este tipo de artesanato é exclusivamente produzido no Brasil e atrai a atenção não somente de turistas estrangeiros, mas também de turistas brasileiros. Este projeto desenvolveria também o papel social dos municípios receptores das peças, uma vez que as prefeituras associadas à de Jardim poderiam criar em suas 15 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural localidades pontos comerciais que utilizassem mão-de-obra não especializada, além da possibilidade de inserção neste mercado de trabalho de deficientes físicos e do direcionamento da renda excedente para entidades sociais. Estas parcerias acabariam por promover o desenvolvimento tanto do APL quanto da função social dos municípios envolvidos. 3- Maior participação em feiras e eventos internacionais: Esta diretriz propõe que haja um aumento da participação do APL do Osso em eventos internacionais realizados fora do território brasileiro. Primeiramente a participação ocorreria nos países da América Latina, passando a divulgar e atender a demanda em países vizinhos ao Brasil. Posteriormente haveria um avanço para feiras e eventos europeus, asiáticos, norte-americanos, dentre outros. Esta divulgação do artesanato em osso possibilita o que se define como ação endógena do APL, ou seja, se constitui na inserção do arranjo produtivo local no mercado mundial, o que possibilita tanto um aumento no volume de produção e comercialização quanto nas taxas de lucro, vez que não existem produtos similares no mercado externo. 4- Criação de um site do APL do Osso: A elaboração de um site promoveria a divulgação do APL do Osso. Sendo de fácil acesso a qualquer pessoa no mundo todo, o site deveria estar disponível em português, inglês e espanhol, assim teria ainda um maior poder de abrangência. Neste site estariam disponíveis os endereços e telefones para contato direto com o APL do Osso, além da divulgação dos objetos produzidos e da região produtora, do histórico do APL do Osso e demais novidades relacionadas ao arranjo produtivo local. Para que o enfoque comercial também fosse atingido, as peças deveriam estar disponíveis para venda pelo site, uma vez que são de fácil transporte por sua resistência natural. 5- Contratação de um representante comercial: A contratação de um representante possibilitaria a inserção das mercadorias produzidas na APL nos grandes mercados consumidores brasileiros, que se concentram nas grandes metrópoles. Uma pessoa que faça o intermédio entre o APL e os grandes centros comerciais gera a possibilidade de que os ganhos do processo de intermediação que antes se concentravam nas mãos de intermediários de outras regiões agora se concentrem no arranjo produtivo, sanando as grandes perdas de lucratividade que até então eram destinadas para fora da região produtora do artesanato em osso. 6- Promoção da cultura local: Tendo em vista que a inserção do artesanato em osso se faz em escala mundial e globalizada, a promoção da cultura e dos atrativos turísticos locais pode estar intimamente ligada. Isso poderia ser feito através da anexação em cada uma das peças de uma pequena etiqueta informativa sobre o APL e a cidade de Jardim, com seus atrativos e recursos naturais, e site com e-mail para contato. 4. Referências Bibliográficas 16 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural HADDAD, P. R. Texto de referência da Palestra sobre Cultura Local e Associativismo. Belo Horizonte: Seminário do BNDES sobre Arranjos Produtivos Locais. IBGE. 2004. MARIANI, M. A. P., BARBOZA, M. M. O ciclo de vida do destino turístico de Jardim, em Mato Grosso do Sul. Artigo. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Campo Grande, 2008. OLIVEIRA, L. D., PINHEIRO, L. E. L., MICHELS, I. L., BRUM, E. A organização da atividade turística em Corumbá, sob o enfoque dos conceitos de cadeia produtiva e arranjo produtivo local. Artigo. Uniderp. Pasos. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural. Vol. 6. N° 3, págs. 511-522. Campo Grande, 2008. 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