Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 1 – LADO A • • • • • • • • • • Nasceu no dia 18 de maio de 1913, na fazenda do pai, próximo a Sete Lagoas. Aos sete anos foi com os irmãos para Sete Lagoas para de estudar. A família é da região de Sete Lagoas, próximo a Inhaúma. Pai vendeu a fazenda e se tornou comerciante em Sete Lagoas. Infância na fazenda. Mãe católica. Estudou no Grupo Arthur Bernades. Em 1925 Monsenhor Messias fundou o Ginásio em Sete Lagoas. Foi para o Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte, em 1927. Aprendeu a tocar bandolim. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 1 – LADO B • • • • • • • • • • • • Rezava o Terço diariamente com a mãe e os dos irmãos no oratório que havia dentro da casa da fazenda. Os pais fizeram até o terceiro ano do Grupo (Primário). Mantinha diálogo normal com os pais. Ia a bailes e festas de carnaval e apenas olhava (não dançava). Primeira comunhão com sete ou oito anos em Sete Lagoas. Fala sobre namora no Grupo Arthur Bernades e no Ginásio. Fala sobre o cinema em Inhaúma, que era mudo, e sobre o de Sete Lagoas. Viagens de trem. As idas a Belo Horizonte. Em 1936 a família mudou para Belo Horizonte. Aprendeu datilografia e foi trabalhar no comércio. Rotina no Colégio Sagrado Coração de Jesus (interno). Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 2 – LADO A • • • • • • • • • • • • Pediu para usar pseudônimos para os nomes dos pais. Na fazenda havia apenas uma festa que acontecia no final da “capina”. As irmãs não continuaram estudando por terem casado. Fala da escola e das leituras que fazia. Não havia biblioteca pública em Sete Lagoas, apenas particular onde os livros eram alugados. Relacionamento com os amigos. Relacionamento com os pais. Relacionamento dos pais entre si. Forma como recebeu as primeiras orientações acerca da adolescência e da sexualidade. Namoro. Fala sobre o Colégio Sagrado Coração de Jesus. Quando conheceu Belo Horizonte, os bondes e o bar do ponto. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 2 – LADO B • • • • • • • • • • • • • Saídas mensais do Colégio Sagrado Coração de Jesus com a família para passear. Ia para Sete Lagoas de ônibus, que parava na Praça Rio Branco. Amigos do Bairro Floresta. Fala do Bairro Floresta e da Igreja São José. Fala do Colégio Sagrado Coração de Jesus. Não estudou Instituto de Educação depois do Colégio Sagrado Coração de Jesus devido aos custos financeiros. Foi professora em Sete Lagoas por um ano e meio. Pai se tornou varejista em Sete Lagoas, após a venda da fazenda. Fala sobre casamento e enxovais. Natal em Sete Lagoas. Fala do namoro em Belo Horizonte. Família mudou para Belo Horizonte em 1936. Fala do trabalho em Belo Horizonte. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 3 – LADO A • • • • • • • • • • • • • Processo de mudança de casas de Sete Lagoas para Belo Horizonte. Como era a casa da Rua Goitacazes. Falo dos empregos dela e da irmã. Como eram feitas as compras para a casa. A mãe controlava as finanças da casa. Como eram pagas as contas da casa. Compraram telefone em 1937 ou em 1938. Rotina da vida em Belo Horizonte quando moravam na rua goitacazes. As roupas que usava, a moda da época, usava chapéus. A senhora de quem ela comprava chapéus foi a primeira a fazer plástica em Belo Horizonte. Passeava na Praça Raul Soares, Parque Municipal e ia na Igreja de São Sebastião no Barro Preto. Av. Afonso Pena e as árvores. Havia alguns córregos no centro e problemas de enchente. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 3 – LADO B • • • • • • • • • • Praça Raul Soares foi construída em 1 ou 2 meses por causa de um Congresso Eucarístico. Compra de roupas e calçados. Cabelereiro. Compras para casa, telefone, mobília. Maria das Tranças. Programas de rádio. Filmes que assistia e revistas que lia. Alugava livros em uma biblioteca particular. Rotina no trabalho. Os amigos eram basicamente do interior: Itabirito, Ipatinga e Paracatu. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 4 – LADO A • • • • • • • • • • • • Empregos. Para ter assistência médica pagava o IAPI quando trabalhou na indústria e o IAPC quando trabalhou no comércio. Trabalhou numa indústria de calçados e numa de macarrão. Trabalhava aos sábados em horário integral (manhã e tarde). Almoçava em casa. Nunca fez horas extras. Aos domingos fazia o trabalho da casa, ia à missa e visitava amigos (sempre à noite). Nas férias viajava para outras cidades e Estados. Começou a trabalhar no IAPTEC por indicação de uma amiga da mãe. Havia mulheres motoristas que contribuíam ao IAPETEC. Trabalhou no IAPETEC de 47 a 67, quando os institutos se uniram ao INPS. Aposentou em 78. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 4 – LADO B • • • • • • • • • Amizades do trabalho que perduram ainda hoje. Havia mais mulheres que homens no IAPETEC. Os fiscais eram todos homens. Tinha poucas amizades masculinas. Mudança para a Rua Patrocínio. Fala da casa da Av. Augusto de Lima, 665. Vendida devido à valorização do imóvel e ao incômodo que causava o barulho dos caminhões que chegavam ao mercado central. Filmes que gostava de assistir no cinema. Passeios à Pampulha e ida ao cassino. Ida ao show de Alondo Queco. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 5 – LADO A • • • • • • • • • • • • • Aposentou-se em dezembro de 1978, aos 65 anos. Trabalhou 41 anos depois que veio para Belo Horizonte. Foi morar com a irmã aos 30 anos, depois que os pais faleceram. Convivência com os sobrinhos. Forma como ela acha importante o trabalho para a mulher. A posse de JK foi o momento político mais importante de sua vida. Fala sobre Getúlio Vargas. Não se falava de política em sua casa. A morte de Tancredo Neves foi outro momento político que ela se lembra. Se lembra da construção da Pampulha por JK. Como ela faz para identificar um bom candidato. Nunca participou de nenhum partido nem de nenhuma mobilização. Fala sobre o papel do Estado e da administração da cidade. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 5 – LADO B • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Acha que a dificuldade em se preservar as casas antigas está no fato de o Estado não dar manutenção às casas tombadas. Para ser agradável de se morar e para atrair turismo uma cidade deve, em primeiro lugar, ser limpa. Problemas urbanos: tóxicos e roubos. Os menores e mendigos existem há pelo menos vinte anos nas ruas. Espaços verdes que a cidade tinha. Fala da campanha “Doe ouro para o Brasil”. Fim da II Guerra e chegada dos pracinhas. Campanha de Jânio Quadros. Renúncia de Jânio Quadros e posse de João Goulart. Havia medo de tendências esquerdistas. A tomada de poder pelos militares foi uma coisa estúpida. Comentava-se sobre o golpe com cuidado com medo da prisão. Os funcionários tinham certeza de que havia espiões no Instituto. Como as pessoas viam os movimentos contrários à ditadura. Quando os estudantes iam para as ruas as pessoas tinham pavor porque sabiam que eles iriam ser presos. As prisões estavam sempre cheias de rapazinhos. Os padres eram proibidos de falar sobre política. Apenas pediam orações para que tudo se resolvesse. Ouviu dizer que houve marchas de mulheres mineiras mas não participou e nem viu nenhuma. Grave dos professores de 91 quando os professores pularam as janelas da Secretaria de Educação. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 6 – LADO A • • • • • • • • • Gosta de viajar. Viajar é distrair, ver coisas bonitas, mudar a rotina... Sempre procura ler colunas de jornais e revistas que falam de viagens. Ouvia as histórias de viagens do Monsenhor Messias. Viajou o nordeste todo. Foi a Manaus de navio cargueiro. Fala das viagens das pessoas que encontra nestas viagens. Viajou para conhecer a construção da estrada Belém – Brasília. Conhece todas as capitais do Brasil, com exceção de Rio Branco. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 6 – LADO B • • • • • • • • • Hotéis da Bolívia. Prefere viajar ao exterior em excursões por causa do cicerone. Foi a Moscou, Israel e Europa em excursões. Fala das excursões. Escolhe as empresas de turismo através dos jornais. Envolvimento com as demais pessoas das excursões. Fala de Vanda, senhora que conheceu durante as excursões. Nunca teve nenhum tipo de problema ao viajar ao exterior. Fala dos hotéis. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 7 – LADO A • • • • • Hotéis da Bolívia. Nunca muda o hábito alimentar nas viagens por medo de adoecer. Nos dias livres das excursões procura conhecer/visitar as lojas. Gosta de ver as lojas porque são belas. Não tira fotografias das viagens, nunca gostou de fotografias. Entrevista realizada com Isaura Maria da Mata SUMÁRIO FITA 7 – LADO B • • • • • • • • Ela mesma prepara toda a viajem. Não faz anotações durante as viagens. Na América Latina conheceu Paraguai, Argentina, Peru, Chile e Bolívia. Na Ásia foi ao Japão e à China. Nunca foi a lugares ameaçados por acidentes naturais ou políticos. Quando andou no trem da morte (Bolívia) caiu uma barreira nos trilhos e a viajem que duraria 16 horas durou 3 dias. Prefere as montanhas ao litoral. Foi no Leste Europeu antes da queda do muro de Berlim. E a Moscou antes da queda do regime. 1A- IM -1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CENTRO DE ESTUDOS MINEIROS GRUPO DE HISTÓRIA ORAL PROJETO INTEGRADO: “MINAS GERAIS: HISTÓRIA ORAL” POLÍTICA E SOCIEDADE ATRAVÉS DA ENTREVISTADORA: WALQUIRIA CAMPOS AUXILIAR: ANNY TORRES ENTREVISTADA: ISAURA MARIA DA MATTA LOCAL: BELO HORIZONTE DATA: 13/06/91 Entrevista - fita 1 - lado A WC: Bom, hoje é dia 13 de junho de 1991, nós estamos entrevistando a dona Isaura Maria da Matta. A entrevistadora é Walquiria e a auxiliar é a Anny. WC: Primeira entrevista, não é, dona Isaura [Riso]. Bom, dona Isaura, inicialmente a gente queria saber da senhora o local e a data de nascimento da senhora. E o nome dos seus pais. IM: Eu... Aliás, minha família toda nasceu na fazenda. Nós somos três irmãs. WC: Hum... IM: Eu nasci no dia 13 de maio de 1913. WC: Não. Seu aniversário foi... [...] [Riso]. IM: 18, aliás. Eu falei 13, não é? Lá nós vivemos até sete anos, depois fomos para a cidade, Sete Lagoas. Porque era época de entrar para o grupo. A outra irmã já estava maior. Eu era segunda e ela terceira. WC: Eram quanto irmãos? IM: São três irmãos. Do primeiro... a minha mãe casou duas vezes, no primeiro matrimônio teve uma só. WC: Ah! Sim. 1A- IM -2 IM: Morava em Sete Lagoas. Casou e ele morreu em 1954. Então, começar de novo. Porque quando nós viemos para Sete Lagoas, para o grupo, fomos para o grupo escolar, nós três. A mais velha já estava com... nem sei com quantos ela estava. Sei que ela é mais velha que eu, não é esta que era do primeiro matrimônio. Já estava grande. Aí nós vivemos em Sete Lagoas até 1936, quando mudamos para Belo Horizonte. WC: Agora, as três filhas são todas do segundo matrimônio? IM: //Do segundo matrimônio.// WC: Então, além das três havia uma outra, do primeiro. IM: //Uma outra, do primeiro matrimônio.// WC: Então a senhora é a segunda, filha do segundo. IM: A segunda, do segundo matrimônio. WC: Como é que é mesmo o nome dos seus pais? IM: José Correia de Araújo e Maria Joana da Matta. WC: Eles eram daquela região de Sete Lagoas? IM: É. Todos de Sete Lagoas. É um lugar que chamava Inhaúma. WC: Inhaúma. IM: É ao lado... WC: Era um município de Sete Lagoas? IM: É. Era um município de Sete Lagoas. E a fazenda pertencia a Inhaúma. WC: Hum. A fazenda era do seu pai? IM: Era. WC: E por que depois ele resolveu ir para Sete Lagoas? IM: Porque mudou tudo não é. Aquela política, aquela grande política, aquela coisa, mudou... atrapalhou a vida dele toda. Então nós viemos para Sete Lagoas. WC: Qual política? A política do Estado Novo, do Getúlio Vargas que mudou? IM: Não. Foi bem antes. Foi... parece que foi... não tenho certeza se foi de Arthur Bernardes ou de qual. Arthur Bernardes foi de 25, não é? Eu não me lembro, não. Eu sei que ele 1A- IM -3 vendeu a fazenda. WC: Ah! Sim. IM: E veio para a cidade negociar. Depois também, as coisas foram fracassando... WC: Se tornou comerciante em Sete Lagoas. IM: É. WC: E uma coisa que eu gostaria de saber, essa filha do primeiro casamento, ela não ficou morando com vocês? IM: Não. Ela ficou morando com uma prima em Sete Lagoas, minha mãe ia lá sempre. Mas ela ficou morando em Sete Lagoas. Com o pessoal dela mesmo, da família do pai dela, que tinha morrido. Era uma família mais importante, sabe, lá de Sete Lagoas. WC: A família do marido da sua mãe, desse primeiro marido, quis ficar com a neta? IM: Não. Aí ela veio para estudar. E ficou com os parentes dele, em Sete Lagoas. Até nós mudarmos para Sete Lagoas, que ela foi para a nossa companhia. WC: Ah! Certo. Então, ela só deixou a companhia de vocês para poder estudar. IM: Para poder estudar. WC: E como a escola era em Sete Lagoas, aí ela acabou ficando por lá, longe de vocês. Mas até então vocês conviviam juntos? IM: É. Mas a diferença é muito grande, oito anos. WC: Hum. Dela para a sua irmã mais velha. IM: //Dela...// É. WC: Ah! Certo. Depois, vocês se encontraram todos em Sete Lagoas. IM: Todos. Ela foi a primeira a casar. Ela casou muito nova, deve ter casado com uns dezoito anos. Casou e então foi viver por conta do marido, não é? E teve filhos. Eram oito filhos. WC: Só uma coisinha. Na hora que a senhora falou a data do nascimento da senhora, qual ano mesmo que a senhora nasceu? IM: 1913. 18 de maio. WC: E a senhora se lembra quando foi que a senhora mudou para Sete Lagoas? 1A- IM -4 IM: Não me lembro bem quando. Eu tinha sete anos. WC: Ah! Sei. IM: Quer dizer que foi 1920, mais ou menos. WC: E aí que a senhora acha que esta política estava prejudicando o seu pai, nesse sentido. [Risos] IM: Ou a política, ou falta de sorte mesmo. WC: E a fazenda tinha produção de alguma coisa? IM: Tinha. Tinha produção, tinha muito gado, não é? Naquela época que eles faziam açúcar, tinha produção de açúcar, cana-de-açúcar. Mas depois ele deu para um parente dele até que fracassou, e ainda existe a fazenda lá. Mas aí eles dividiram a fazenda numas quatro. WC: Então era bem grande. IM: É, bem grande. Era grande mesmo. WC: Ahn... Como é que era viver numa fazenda? IM: Ah, era muito bom. Como menino é muito bom, agora, depois de grande eu não sei. [Risos]. WC: Mas a senhora passou seus primeiros sete anos de vida lá, foi uma fase muito bonita, não é? Para criança. IM: É. Para brincar é. WC: O que a senhora lembra desse período? IM: Eu me lembro só que tinha uma preta, que essa preta nos acompanhou até aqui. Ficou com a mamãe quarenta anos. WC: Essa preta que a senhora diz que viajou com a senhora? IM: Não. WC: Não... IM: Não, ela já morreu. WC: A outra... IM: A outra de Sete Lagoas. Eram todas... eram quatro irmãs, pretas. Mas uma, mamãe ficou 1A- IM -5 com ela desde 10 anos. E aí ela veio. Quando nós mudamos para Sete Lagoas, ela foi, quando nós mudamos para aqui ela veio. Mamãe morreu... WC: E continua com a família até hoje. IM: Ela morreu. Morreu tem mais ou menos três anos. Mas morreu lá com a sobrinha, ela foi morar com a sobrinha. Não me lembro muito bem. Eu não sei. Os anos passam, e a gente esquece a meninice. [Risos]. WC: Mas na fazenda viviam outras famílias? IM: //Viviam. Viviam.// Tinha um córrego no meio, que até o córrego secou. WC: //Ahn...// IM: Então, viviam outros do lado de lá. Como essa preta, a família dela toda morava do lado de lá do córrego. Chamava córrego São João. Então a gente ia muito lá, passear. Ia muito em Inhaúma, nas festas em Inhaúma. Sete Lagoas mesmo a gente quase não ia. Porque não tinha parente, não dava. Mas em Inhaúma, nós tínhamos uns parentes. Então eu ia muito lá, para as festas. Festa de carnaval, festa de rua. Essas coisas, não é? WC: //Ahn.../. Festas religiosas. IM: É. Isso mamãe gostava muito, que era muito religiosa. WC: Ahn... E vocês tinham parentes em Inhaúma. IM: É. WC: E como é que vocês faziam para ir para lá? IM: Ia de carro de boi. WC: De carro de boi? IM: É. WC: Ia a família toda no carro de boi? IM: Família toda no carro de boi. [Risos]. WC: A senhora lembra... [Risos]. IM: Isso eu me lembro, do carro de boi eu me lembro muito bem. WC: //Ahn...// E vocês faziam esse tipo de passeio por outra cidade, de todo final de semana? Vocês iam para a cidade? 1A- IM -6 IM: Não. Não. Cidade de Inhaúma, é um arraial, não é? Não. É só festa. WC: Só para as festas. IM: Só para as festas. WC: Nesses momentos é que vocês aproveitavam para visitar os parentes. IM: É. WC: Vocês tinham muitos parentes lá? IM: Tinha. Tinha uma família lá que era nossa parenta. Uma porção de filhas. E as filhas depois, quando nós viemos para Sete Lagoas, elas vieram estudar, duas. Essa que mora em São Paulo e uma que mora no Rio. Moraram conosco muitos anos, sabe? WC: Vocês tinham parentes em outras cidades? IM: Não. WC: Não. IM: É uma família muito pequena. WC: Então, a senhora já começou viajando cedo para Inhaúma. Não é? [risos] Como é que era viajar, fazer esse passeio num carro de boi indo para Inhaúma? IM: //Ah! aquilo era...// levava, não sei, três horas. Levava o carro de boi andando no meio do mato, não é? Tinha até estrada, eles faziam estrada, de carro. De um lado era árvore, do outro árvore. Mas era interessante, era muito bonito. Esse pedacinho só, eu me lembro. Mas não me lembro nem das festas em Inhaúma, não me lembro. WC: Não? IM: Não. WC: Parava no meio do caminho para tomar água, como era? IM: Para tomar água, de beber. Mas mamãe levava, levava comida, já pronta. WC: Hum... hum... IM: Porque eram três horas, muito menino... [riso] WC: É... Ia sempre a família toda junta? IM: //Toda junta.// 1A- IM -7 WC: Aconteceu alguma vez, de um parente ir buscar vocês, crianças, para passar alguns dias lá com eles? IM: //Não. Não.// Porque nós sempre saíamos com a mamãe. WC: Não saíam sem ela. IM: //Não ia sem ela não.// WC: A mãe e o pai junto. IM: Não, o pai nunca ia, não. Íamos só nós. WC: Ele não gostava? IM: Não podia, não é? WC: Tinha que alguém ficar tomando conta. IM: //É, tinha que ficar tomando conta.// WC: E já aconteceu da sua mãe ficar tomando conta e o pai ir com vocês? IM: Não, nunca. Nós sempre... Nós só andamos com a mamãe. WC: A sua mãe era festeira. IM: É. [Riso]. Ela gostava de igreja, não é? Então... WC: Ela gostava de igreja... IM: Carnaval ela não gostava não. Mas aí, a gente ia para ver. Não era carnaval, não é. Aquela bobagem... WC: //E a senhora não se lembra// de como que era? Que bobagem? [Risos]. IM: Tolice de carnaval, pulava muito. Tem certas coisas que eu me lembro mais, que tinha aqueles cordões, aqueles carros alegóricos, essa coisa toda. Mas aí nós já estávamos maiores, não é? WC: É. IM: Já com uns 10 anos, 12. WC: E a senhora achava isso bobagem? IM: Carnaval é muito engraçado. WC: Mas, isso a senhora acha isso hoje ou a senhora já achava isso antes? 1A- IM -8 IM: Não, eu toda vida eu gostei só de olhar. Aliás, nós lá em casa gostávamos só de olhar, sabe? Mas brincar, não. Carnaval não. WC: Mas das festas religiosas, tal como a sua mãe, a senhora também gostava das festas. IM: //Gostava. É.// WC: Procissões, essas coisas, vocês participavam? IM: Muito mesmo. Agora, essa era católica, ficou protestante. WC: A sua irmã? IM: Essa é protestante. A outra também é protestante. Mas no tempo de mamãe nós todas éramos católicas. Freqüentava missa todo domingo. WC: E onde que vocês iam à missa todo domingo? IM: Na fazenda não, depois que mudamos para Sete Lagoas. WC: Ah! Sei. Então neste período da fazenda, o único contato que vocês tinham era quando iam para Inhaúma. IM: //Só para Inhaúma.// Tinha as tais missas. WC: Hum... E esses eram os passeios. Os passeios que vocês faziam juntas? IM: É. Que a gente fazia. WC: E dentro da fazenda, vocês saíam para fazer piquenique em família, alguma coisa assim? IM: //Não, não.// Só na casa desses que moravam do lado de lá. WC: Do córrego. IM: Do córrego. É. WC: E vocês nadavam no córrego naquela época? IM: Não, nadava não, mamãe não gostava. [Risos]. Tinha medo. Era um córrego largo, sabe, muito bonito até o córrego. E depois eles falavam que era rio. Agora, se fosse um rio... mas secou. Tinha... Falava pinguela, não é? Atravessava aquela pinguela. WC: Hum, hum. IM: Tinha uma pinguela roliça e uma pinguela de pau-a-pique. 1A- IM -9 WC: Isso dentro da própria fazenda. IM: É. Dentro da própria fazenda. WC: E no dia-a-dia de vocês dentro da fazenda. De vocês crianças, enquanto os pais estão trabalhando, a mãe cuidando da casa. O que vocês faziam? IM: Brincava. Brincava nas árvores, no morro. E essa preta, que eu estou falando, irmã dessa que era nossa empregada. WC: Hum... IM: Era menina também. Muito interessante. Vinha umas outras do outro lugar que chamava... Esqueci. Ainda tem essa fazenda lá. A Jandira vinha muito brincar, então a gente brincava. WC: As crianças das fazendas ao redor se encontravam e brincavam junto. IM: //É, vinham. É. Brincavam junto.// WC: Então a senhora tinha muitos amiguinhos ali. [Risos] A senhora lembra assim de alguém. IM: Lembro só dessa Jandira e dessa Florícia. WC: [...]. IM: É... É Jandira e Florícia, nós temos muita amizade. WC: Hum... IM: A não ser esses de Inhaúma que vinham muito, não é? WC: E na fazenda, que a senhora falou que era muito grande, a senhora se lembra se haviam colonos, camponeses que trabalhavam para o seu pai? IM: Não. Era só o... Eu lembro só de uns pretos que trabalhavam lá, só isso que eu me lembro. O João, que eles falavam, João leiteiro, que levava o leite para a cidade. Esse era muito nosso amigo. Eu me lembro é desse só. E o pessoal que trabalhava no engenho eu não me lembro deles. Não sei quem é que trabalhava no engenho. WC: A senhora costumava ir ver esses locais de trabalho? IM: Nós íamos muito lá embaixo. Porque a fazenda era mais em cima e isso era mais... WC: Já mais baixo. 1A- IM -10 IM: É mais perto desse tal córrego, pertinho mesmo. Que a água vinha do córrego. WC: Além disso, vocês tinham hortas, criavam galinha. IM: Tinha. Tinha galinheiro... WC: Tinha galinheiro, essas coisas? IM: Tinha. Galinha criava. Era boi, galinha. Eu me lembro muito de jaboticaba. WC: Tinha jaboticaba? IM: Tinha cada jaboticaba no pé, jaboticaba grande! Eu me lembro. Mas eu não me lembro se tinha outras frutas. Não me lembro bem não. Porque nunca mais... Desde que eu vim para Sete Lagoas, nunca mais voltei lá. Minhas irmãs que voltaram. Agora ainda existe a fazenda, mas eu não voltei lá, não. WC: Ah! Sei. Mesmo ela tendo passado para as mãos de um parente de vocês depois, vocês não voltaram? IM: Eu não fui. A minha irmã que voltava muito, que gostava muito de lá. WC: //Hum...// IM: Essa mais velha. Ia muito lá. WC: E por que a senhora não ia junto? IM: Eu não gostava muito de roça, não. Até hoje eu não gosto não. WC: A senhora gosta de cidade, de movimento. [Risos]. Mas quando criança era ótimo, não é? IM: É. [Riso]. WC: E depois em Sete Lagoas? IM: Ah! Em Sete Lagoas já vim paro o grupo. Nós fomos e eu já comecei com o grupo, era Grupo Escolar Arthur Bernardes. Mas também era só isso, tinha muita amizade com aquelas minhas colegas, não é? Tinha uma família que morava na rua... Agora é Doutor Pena, antigamente chamava rua Suja. Porque a rua era muito suja. [Risos]. Onde nós morávamos. Depois nós mudamos para Silva Jardim, Rua Silva Jardim, que hoje é Monsenhor Messias. Aí eu já tinha terminado o grupo. Nessa rua Doutor Pena, a gente ia para o grupo. Passava num tal... eles chamavam... eles falavam "valinho". É uma 1A- IM -11 passagem que eles fazem, assim, de... Agora é rua, Rua São Geraldo. Mas tinha essa passagem, nós passávamos por essa passagem, para não dar volta pela rua. Porque senão tinha que dar volta pela igreja, dava uma volta muito grande para ir para o grupo. Então nós passávamos nessa passagem aí, sabe? WC: Hum... Era como essa passagem? Uma pinguela? IM: Não. Era uma passagem, uma ruazinha estreitinha. WC: Ahn... Tipo um beco. IM: É. Um beco. É um beco. WC: Ah! Sei. IM: Tinha árvore de um lado, árvore do outro. De um lado tinha muita jaboticaba, e do outro lado moravam outras pessoas, tinha muito marmelo. Era engraçado que a gente, para apanhar marmelo sem eles verem, não é [Risos]? Os meninos gostavam, e era muito menino. Essa passagem. WC: Hum... IM: Mas aí terminou, Monsenhor Messias mudou para lá. Um padre muito sábio, em mil, novecentos, me parece que vinte e cinco. E aí ele fundou o ginásio, todo mundo da cidade ajudou. E nós fomos para o ginásio, eu fiquei no ginásio dois anos. WC: Então é o seguinte. Quando vocês foram para Sete Lagoas, as três filhas entraram para a escola para fazer o grupo? IM: //Entraram para a escola...// Foi. WC: Hum, hum. E aí, nesse período que esse padre, Monsenhor Messias, chegou na cidade, é que foi criado o primeiro ginásio de Sete Lagoas? IM: Foi o primeiro ginásio. Porque Sete Lagoas não tinha. WC: Então, a sua irmã que era mais velha, ela ficou um tempo sem estudar, aguardando a criação do ginásio. IM: //Ficou. // É. Ela não quis nem estudar. WC: Hum... IM: Essa mais velha não quis estudar. 1A- IM -12 WC: Ela não gostava? IM: Ela não gostava. E aí, eu e a outra é que estudamos juntas. Começamos o ginásio, depois eu vim para o Colégio Sagrado Coração de Jesus em 1927, que eu vim para o colégio. WC: E na escola? No primário. A senhora se lembra desse período? IM: Eu me lembro só das professoras. Tinha duas. Era Henriqueta Tolentino que foi a primeira. E depois a Odete Simões, foi a segunda. Ela pegou desde o segundo até o quarto. WC: Por que a senhora lembra assim? A senhora lembra até o nome dela. IM: Porque eu gostava muito delas, sabe? Ela morreu o ano passado, todas duas morreram o ano passado. WC: O que marcou mais a senhora, que a senhora lembra delas com esse carinho? IM: Elas eram muito boas, boas mesmo. Então essa Odete Simões, ela ensinava muito bem. WC: Hum... IM: Ela ensinava mesmo. Porque o grupo antigamente era diferente, era tudo. Ensinava tudo, não é? [Risos]. WC: O que a senhora chama de tudo? IM: Olha, ensinava aritmética, ensinava francês, ensinava geografia. Isso era todo dia. WC: Hum... IM: Eram cinco horas de aula, todo dia tinha. WC: A senhora estudava de manhã ou à tarde? IM: Eu estudei de manhã. WC: E a senhora pegava aula, as aulas tinham início... IM: Sete horas. WC: Sete horas. Então a senhora ficava até meio-dia. IM: É. WC: Direto? IM: Direto. 1A- IM -13 WC: Quer dizer, só o intervalo para a merenda. IM: É. [Risos]. WC: Era uma escola pública ou particular? IM: Era pública. WC: Mista? IM: Era um grupo muito bom. Mista. Mista. Tinha muitos colegas. WC: Essa escola ela era pública, mas da prefeitura ou do Estado? IM: Não, do Estado. Como ainda é do Estado. Esse grupo continua do Estado. WC: //É até hoje.// Mas não era a única escola primária da cidade, não é? IM: Não. Tinha outra escola que pagava, muito boa. Chamava de Vovozinha, muito boa. Boa mesmo. Mas nós fomos para o grupo escolar. Agora cada uma... Eu era dessa classe, a minha irmã era de outra, a outra.... Cada uma era de uma classe. WC: E o seu pai, ele chegou a pensar... Não sei se a senhora se lembra disso, a senhora era muito menina. Mas ele chegou a pensar na hipótese de pagar uma escola particular para vocês? IM: Não. Não porque nós já entramos no grupo, viemos direto para o grupo. WC: Então a senhora acha que escola pública, ela era muito boa, suficiente. IM: Muito boa. Suficiente. WC: Não era preciso uma... IM: //Não. Não.// WC: Uma escola particular. IM: Essa escolar particular era mesmo para os meninos mesmo muito ricos, sabe. E essa escola pública muita gente estava... As famílias todas estudavam nessa escola, esse Grupo Escolar Arthur Bernardes. WC: Hum... As famílias mais pobres também? IM: Mais pobre e mais rica. WC: Hum... 1A- IM -14 IM: Muito rica, sabe. Família rica. Essa família do doutor Avelar, ela era rica mesmo. Até a casa ainda conservam lá, na rua Silva Jardim. É a rua que nós fomos viver. Era uma casa muito boa, sabe. E eram... Parece que eram oito mulheres... Acho que eram oito mulheres. Duas foram nossas colegas. Maria Eugênia, que ainda mora lá e Lúcia. Tinha a Helena, que era uma das mais velhas, tinha a Titilde, que já era professora. Era dessa casa Avelar, também foi professora, mas das outras. Brava! [Risos]. WC: Agora, era uma cidade pequena. Mas apesar de ser pequena ela era maior do que Inhaúma, não é? IM: É. Bem maior. WC: //A senhora.../ A senhora já conhecia Sete Lagoas, antes de ir para lá? IM: Já tinha estado lá, não é? WC: //Já?// IM: Só para conhecer. WC: Mas o seu pai levou vocês para conhecer? IM: É. Para ver o trem de ferro, que a gente falava trem de ferro, não é? WC: Ahn... Ah! É? E como foi? [Risos]. IM: Isso aí eu não me lembro, eu me lembro muito foi depois. Muitos anos depois, que uma senhora também que não conhecia, lá de Inhaúma, queria conhecer. Então nós fomos lá e trouxemos, sabe? Mas eu já estava grande. Mas a primeira vez que eu vi o trem de ferro, eu não me lembro. WC: Hum... Mas vocês vinham da fazenda para Inhaúma, e de Inhaúma para Sete Lagoas? IM: Não, não. Sete Lagoas era mais perto. WC: //Direto.// Ah! Mais perto. IM: É. WC: E, a senhora se lembra o que a senhora achou da cidade a primeira vez que a senhora foi para lá? Ver o trem de ferro. IM: Não. Também não me lembro, viu. Isso eu não me lembro. WC: E na época que a senhora se mudou para lá? Como é que foi? 1A- IM -15 IM: Eu gostei muito, era outro ambiente, não é? WC: //É...// E a casa que vocês moraram lá. Como que era? IM: //A primeira... A casa não// era muito boa não. Mas tinha um quintal grande! Muita plantação, muita laranjeira. Era relativamente boa. Porque era grande. WC: Sei. IM: Mas naquele tempo era boa, não é? Tinha... já tinha chuveiro, mas o chuveiro era lá fora. WC: Hum... Água... IM: É... WC: Com água quente? Com aquelas// serpentinas?// IM: É, tinha... A gente saía numa porta, e o chuveiro era lá fora. O chuveiro, bidê, essas coisas todas lá fora. Era um cômodo fora da casa. WC: Certo. IM: Não era nem dentro da casa. WC: E aquela empregada que vocês tinham na fazenda, foi com vocês para Sete Lagoas? IM: Foi, foi. E depois veio para aqui. WC: Ahn... A família dela não criou nenhum empecilho. IM: //Não, não.// WC: Com relação a isso. IM: Não. Ela tinha mãe e tinha padrasto. WC: //Ahn...// IM: E a gente criava. Depois a mãe morreu, ele continuou. WC: E ela morava com vocês dentro de casa? IM: Dentro de casa. WC: Ela tinha um quarto para ela? IM: Tinha um quarto para ela. Tinha um quarto separado dela, dentro de casa. Toda vida ela teve. 1A- IM -16 WC: E ela ajudava sua mãe nos afazeres domésticos. IM: //É. Nos afazeres domésticos.// WC: Vocês filhas, as filhas também ajudavam? IM: Não. Ela não gostava que a gente ajudasse na cozinha. WC: Não? IM: Não. WC: Por quê? IM: //Tanto que eu não sei cozinhar.// Eu não sei, ela... não sei, esses pretos são meio esquisitos, não é? [Risos]. A minha irmã por exemplo, aprendeu a cozinhar depois de casada. Aprendeu com o marido dela. [Risos]. WC: Quer dizer que a empregada não gostava da ajuda? IM: Não. Que a gente fosse, não. Só a mamãe. Menina, ela dizia que menino atrapalhava, atrapalhava. WC: Ahn... Então vocês não ajudavam em nada a sua mãe, dentro de casa? IM: Dentro de casa, não. Só arrumava casa. WC: Hum... IM: Arrumava casa, essas coisas éramos nós. Varrer terreiro, mas cozinha não. WC: Fazer um almoço, vocês nunca fizeram. IM: //Não, não. // Nunca. WC: Quem fazia era a empregada? IM: Era. E mamãe. WC: E a sua mãe. IM: Quando a empregada ia para a casa dela, porque ela ia muito na casa dela, sabe? Porque a mãe dela continuou morando para lá da fazenda. E ela ia muito lá. Quando ela ia, mamãe ia para a cozinha, não é? Mamãe também não gostava que a gente ficasse mexendo muito. WC: E a sua mãe costurava? Como era? 1A- IM -17 IM: Ela só costurava à mão. A mamãe não costurava à máquina não. Tinha máquina, mas não costurava não. Nós pagávamos. Nós tínhamos uma madrinha, que fazia tudo. WC: Ah! IM: Fazia as roupas, fazia... morava perto, nessa tal rua. Eram três madrinhas. Nenhuma era minha madrinha, eram madrinhas das outras. Uma batizou essa mais nova, a outra crismou, e a madrinha mais velha era dessa minha irmã mais velha que mora na rua... na rua... WC: Patrocínio. IM: É. WC: Ela falou com a gente, semana passada que nós estivemos aqui. IM: Ela continuou lá. WC: E na educação que sua mãe deu para vocês, vocês filhas, a gente tem uma tradição das mães ensinarem uma série de coisas para as filhas, com relação aos afazeres domésticos, não é? A trabalhos manuais. A sua mãe, ela estimulou isso em vocês? IM: Estimulou. Ela queria que nós aprendêssemos a fazer croché, fazer essas coisas. Ela só fazia croché fininho. Então ela mandava, por exemplo, bordado ela mandou ensinar, nós bordávamos. Essas madrinhas que ensinavam. WC: Ah! Sei. IM: Ensinava a bordar. Costurar não. Costurar eu vim aprender aqui. Aliás, eu não sei costurar não, mas eu me viro. [Risos]. WC: A senhora quebra o galho? IM: Não. Para fazer essas roupas assim, não. Só para roupa de... Só à mão. Todo trabalho de mão é meu. WC: O trabalho era feito manualmente. IM: É. WC: Lá vocês não chegaram a aprender costura, não. IM: Não. Não. WC: As três filhas. E a mais velha? 1A- IM -18 IM: A mais velha aprendeu. WC: Já havia aprendido. IM: Já havia aprendido. Com elas mesmo. Porque ela morou... Essa, que era do primeiro matrimônio, morou com essas madrinhas, muitos anos. WC: Hum... IM: Deu para aprender, sabe. WC: Ela morou muitos anos mas... IM: Antes de nós mudarmos para lá. WC: Só até vocês chegarem lá. IM: É. WC: Hum, hum... Só uma pergunta com relação a essa primeira filha do casamento da sua mãe. Ela tem uma diferença de oito anos. IM: //Oito anos// É. WC: Então, quando ela veio para estudar, ela não voltou? Ela não quis? IM: //Não.// WC: Voltar para a família? IM: //Não. Ela ficou lá.// WC: Porque a senhora falou que não tinha ginásio. IM: Não tinha. WC: Ela podia ter voltado para a fazenda e ficar com vocês. IM: Mas ela não quis não. Porque quem é que gosta de fazenda? Ninguém. WC: Mas criança... IM: //Quem mora na cidade//, quem mora na cidade não gosta. WC: Não. [Risos]. IM: Gosta para passear, não é? Mas para morar, não. WC: O que a senhora gostava na cidade, então. Que era novo para a senhora. Principalmente 1A- IM -19 com relação a Inhaúma, que era uma cidade... IM: De igreja, de... essas coisas. De sair na rua, não é? WC: A senhora fazia o footing pela cidade, na praça? IM: É, tinha uma pracinha lá. Perto da lagoa. Porque tem uma lagoa no centro. Então tinha o footing, todo domingo, não é? WC: Hum... IM: Tinha aquelas vizinhas, todas eram nossas amigas, nessa tal rua Doutor Pena, hoje, não é? Todas eram nossas amigas. WC: O footing era no final de semana. IM: Era. Era só no sábado e domingo. WC: Durante a semana não. IM: //Não, não.// Durante a semana tinha que estudar. WC: A senhora ficava por conta da escola? IM: Por conta da escola, por conta de brincar com elas. Brincar de roda... WC: Na rua. IM: É. Na rua. Na rua, porque lá podia, não tinha automóvel, não é? [Risos]. WC: De que a senhora brincava? IM: Ah! De roda. Era sempre de roda. WC: A senhora se lembra assim, de alguma brincadeira específica, alguma canção? IM: Não. Não me lembro, mesmo. WC: Não. IM: A minha irmã que sabe as canções todas. WC: //Ahn...// IM: Porque depois ela continuou música, não é. Então, lembra daquilo tudo. WC: Hum... Lá mesmo em Sete Lagoas? IM: É. Ela começou a estudar. 1A- IM -20 WC: //[...] começou estudar.// IM: Começou a estudar piano lá. WC: Sei. IM: Ela vinha toda semana. Mamãe trazia aqui em Belo Horizonte toda semana, no Conservatório. WC: Ah! É? IM: É, ela estudou. Ela, ela é formada no Conservatório. Porque depois nós viemos para o colégio, ela não quis ficar aí no colégio, veio para o Colégio Imaculada. Esteve acho que dois anos no Colégio Imaculada. Foi para a casa e já entrou para o Instituto de... WC: //Educação.// IM: De música. Não, de música. WC: Ah! De música. IM: Aí ela é formada lá. Estudou nove anos, vinha toda semana. WC: E as outras duas irmãs não quiseram fazer música não? IM: Não. [Risos]. Eu... Eu estudei umas músicas assim, mas não gostava, não gostava. WC: Ah! Bom. A senhora estudou, aprendeu a tocar algum instrumento? IM: É. Tocava bandolim, mas eu não gostava. WC: Não? IM: Não. Nunca gostei, sabe. WC: //Onde foi que a senhora...// Onde foi que a senhora aprendeu? IM: Lá em Sete Lagoas tinha um professor, professor de música. WC: A senhoria ia na casa dele aprender? IM: //Na casa dele.// É. Tinha minha... Essa minha irmã mais velha, que mora na rua Padre Pena, tocava violino e ela piano. WC: E essa irmã que veio estudar no Conservatório, aprendeu piano. IM: Piano. É. WC: Bem diversificado em casa, não é? Cada um toca um instrumento. [Risos] 1A- IM -21 IM: Eu detestava. [Risos]. WC: É. Mas aí a senhora entrou para a aula de música por quê? Por vontade da senhora ou... IM: Não. WC: //Não.// IM: Porque a mamãe obrigava, não é? WC: Ah! É! A mãe obrigava. E a participação do pai nessas decisões? IM: Não, o pai não falava nada não. WC: O pai não falava nada não? IM: Não. WC: E se a senhora falasse para ele que não queria aprender a tocar ou tocar determinados instrumentos? IM: Não. Aí eu deixei depois. Depois eu deixei, a hora que eu não queria mais eu deixei. WC: //Hum...// IM: Quando eu cresci mais um pouquinho. Mas de menina quem mandava era a mamãe. WC: Os cursos que a senhora fez, tudo que a senhora aprendeu era porque a sua mãe determinava. IM: É. WC: A senhora não podia questionar isso, não? IM: Não. De música não. WC: E com outras coisas a senhora podia? IM: Podia falar, não é? O grupo não dava tempo. WC: Hum... IM: E ela também não tinha uma certa instrução assim não. Ela mandava a gente fazer, sabe? Mas não era instruída. WC: Hum... IM: Mas gostava que os filhos fossem. E quando eu vim para o colégio, fiquei interna, eu e a outra. Essa daqui. 1A- IM -22 WC: Mas eu estou pensando aqui com relação ao bandolim. Quando a sua mãe foi matricular, entre aspas, a senhora no curso, ela escolheu o bandolim? IM: Não, eu acho, eu tenho impressão que eu escolhi, não é? Mas não gostei. WC: Ah!... Sei. A senhora não pensou em aprender outro instrumento então. IM: Não. Porque eu não gostava. WC: Não gostava, de bandolim, IM: Gostava de ouvir música, não é? Mas de tocar não. WC: E a senhora foi obrigada a ficar estudando bandolim durante quanto tempo? IM: Ah! Eu também não me lembro. Estudei muito tempo. WC: Mais ou menos, a senhora faz uma idéia? IM: Ah! Deve ser uns quatro a cinco anos. WC: Nossa! IM: Deve ser. Porque ela aprendeu muito bem violino. Depois nós, acho que vendemos ou demos... Acho que eu dei o bandolim para alguém. E ela vendeu o violino dela. WC: Nem a senhora, nem essa irmã do violino quiseram continuar estudando. IM: Não. Só minha irmã, essa que formou, continuou o piano até uns três meses, ela deu piano para a filha dela. WC: Hum... IM: Depois que ela perdeu um filho, ela não... WC: Não tocou... IM: Não tocou mais não. Tocava uma vez ou outra que os outros insistiam. Ela deu o piano, porque está estudando agora, essa casada, filha dela. Disse que está estudando, eu não sei. WC: E a senhora, a sua formação musical se resumiu no bandolim. IM: No bandolim, só. WC: E como é que era? Vocês tocavam para os pais em casa? IM: Tocava. Tocava para os outros 1A- IM -23 WC: Visita. IM: Visita... [risos] WC: E na igreja, tocava ou não? IM: Na igreja não. Na igreja eu nunca toquei não. WC: E coral, alguma vez a senhora participou de coral, alguma coisa assim? IM: Não. De coral também não. Porque eu nunca tive voz boa, sabe? WC: Quem disse que a senhora não tinha voz boa? IM: Não tinha. Uai! Todo mundo falava e eu também via que eu era desafinada. WC: Quando a senhora cantava? IM: É... [risos] WC: Tinha jeito de... IM: Não tinha não. WC: De acompanhar... [risos]. FINAL DO LADO A DA FITA 1 1B- IM -25 Entrevista - fita 1 - lado B AT: Bom. A senhora falou para a gente da escola, falou da formação musical imposta pela família. [Riso]. Agora eu quero saber o seguinte, da sua formação religiosa. A senhora falou que vocês gostavam muito de igreja, freqüentavam. A sua mãe também freqüentava. IM: //Freqüentava. Minha mãe também freqüentava...// WC: Por exemplo, na fazenda tinha alguma capelinha, vocês rezavam terço, faziam novena? Como é que era? IM: //Olha. Eu me lembro só de um oratório. Capelinha eu não lembro de ter, não. WC: Não. IM: Não. Eu acho que não tinha não, porque se não ela continuava com eles. WC: É. Esse oratório ficava dentro de casa? IM: Dentro de casa. Era da minha mãe, um oratório pequeno. WC: Hum... Foi a sua mãe que ensinou vocês a rezar. IM: Foi. WC: Rezavam todos os dias? IM: Todos os dias rezava o terço. Todos os dias. WC: A família junta? IM: Não. Só nós três. WC: As três filhas. IM: //As três irmãs// e ela. WC: //E ela.// IM: Só. WC: Seu pai não era dado a essas coisas? 1B- IM -26 IM: Não. WC: E não havia nenhuma discussão entre ele e a sua mãe por causa disso? IM: Não. WC: Ele aceitava. IM: É. Não ligava, não é? WC: Ahn... A senhora disse que a mãe da senhora não tinha instrução. IM: Não. WC: Quer dizer ela não fez... IM: Fez só o grupo. WC: Só o grupo. IM: É. WC: E o pai da senhora? IM: Também era a mesma coisa. Porque naquele tempo não tinha, não é? WC: Ah! Sei. IM: Aquele tempo era o Caraça. WC: Ahn... IM: No tempo deles tinha que ir para o Caraça. O Dom Bosco. Tinha só, essa mesmo... Assim mesmo não era grupo completo, era só até o terceiro ano que eles faziam. Não era completo não. WC: Mas então, para a época eles eram pessoas instruídas. Já que todo mundo, a maioria das pessoas estavam nesse mesmo patamar. IM: //Quase no mesmo nível.// É. WC: Não é? IM: No mesmo nível. Falava um pouco errado, falava um pouco certo, não é. [Risos]. WC: E tinha hábito de leitura sua mãe, seu pai? Como era? IM: Não. 1B- IM -27 WC: Não... IM: Ele gostava, a mamãe não gostava muito não. WC: Jornal, ele gostava de ler? IM: //Não. Não.// Naquele tempo nós não tínhamos jornal não. Na fazenda não ia jornal. Em Sete Lagoas depois é que teve jornal. WC: //E em Sete Lagoas...// Sei. IM: Foi até quem fez foi... acho que foi esse meu cunhado. Casado com essa da rua Padre Sena. Já morreu também. Ele tinha um jornalzinho lá. Até um jornalzinho bom. WC: Hum, hum. IM: Depois acabou também, com a política. Não sei qual foi a política que acabou. Ah! Getúlio Vargas. Foi Getúlio Vargas. WC: Tem uma boa memória. [Risos]. IM: Não. Mas aí eu já estava velha. [Risos]. WC: Velha! [Risos] AT: Velha! [Risos] IM: Já era moça já. Já estava estudando aqui, quando ele tinha o jornal lá. WC: Mas em Sete Lagoas, o que tinha de informação era esse jornal. Mas a senhora se lembra se havia algum outro meio de... de comunicação? Se havia alguma revista, algum jornal até na escola, alguma coisa... AT: //Rádio já havia?// IM: Rádio já havia, mas nós não tínhamos. WC: Ahn... IM: Nós não tínhamos mas já havia. Já tinha automóvel, mas lá em casa ainda não tinha. Depois teve. WC: Hum, hum... IM: Mas a gente sabia notícia é na rua, no grupo, que os meninos sabem demais, não é? Contava, cada um contava sua história. 1B- IM -28 WC: Contava para outro... IM: É. Um contava para o outro, o outro para o outro... [Risos]. WC: Todo mundo sabia o que se passava na cidade. IM: //É, na cidade.// E de fora também, porque um que sabia, vinha, contava, que os pais contavam, não é? Então vinha, contava. WC: E o seu pai contava para vocês o que ele lia nesses jornais, o que vinha de fora? IM: Não. Não. WC: Como que era o diálogo com o seu pai? IM: Era assim, conversava naturalmente. Mas de coisa de fora, essas coisas, não. WC: O que a senhora chama de naturalmente. Conversar a respeito da escola... IM: É. Da escola, conversar a respeito da escola, do vizinho, de uma coisa assim. WC: Hum... Do dia-a-dia. IM: É. WC: Então vocês conversavam com ele normalmente. IM: É. Normalmente. WC: Ele era então uma pessoa acessível, não era aqueles pais... IM: //Não. Não.// WC: Ele não era bravo com vocês não/ IM: Ele era bravo. Mamãe também era muito brava. WC: Que momento que essa braveza, ela se revelava? Havia castigo, algum tipo de punição? IM: Punha de castigo sentada. Naquela época usava vara de marmelo nas pernas. WC: Hum... O que justificava uma varada, por exemplo? IM: Qualquer coisinha justifica uma varada. Naquela época, justificava. WC: O que, por exemplo? IM: Oh! Por exemplo, respondeu, dava uma resposta malcriada, não é? WC: Ganhava uma varada? 1B- IM -29 IM: É. [Risos] WC: Nossa! Que mais ganhava uma varada? IM: Acho que era só isso, as respostas. Porque de vez em quando a gente respondia. WC: A senhora respondia mesmo? IM: Nós todas. WC: Todas três? [Risos] IM: É. WC: A senhora ficou em Sete Lagoas até mais ou menos que idade? IM: Ah! Eu saí de lá em 37. WC: Ahn... E a senhora chegou a ir a algum baile lá em Sete Lagoas? IM: Nós freqüentamos essas coisas. WC: É... Dançava... IM: Não. Dançar não porque a gente não... WC: Não. Não. IM: Quem dançava era essa minha irmã, ela gostava. WC: É. IM: De baile, festa, sabe? WC: E tinha muito baile, festas? IM: Tinha. Por exemplo, o aniversário de uma professora, aniversário de uma colega, Tinha baile. WC: Havia festa na casa das pessoas? IM: //Na casa das pessoa.// A gente ia. WC: Na escola também havia alguma festa para os alunos? IM: Só para os alunos, mas baile não. Só aquelas festas que ainda existem hoje, não é? WC: Festas cívicas. IM: //É. Cívicas. É.// 1B- IM -30 WC: E em clubes, tinha baile? IM: Não me lembro, mas acho que Sete Lagoas tinha clube, não me lembro qual que era. Ah! Era Democrata, clube de futebol. WC: Hum... IM: Comecei a freqüentar aquele clube de futebol, então tinha. Tinha esse clube, todo mundo ia, tinha aquelas festas, festas de carnaval, mas nós não íamos. WC: Ahn... E tinha corso, desfile de carro no carnaval? IM: //Tinha. Ah, isso tinha.// Era muito interessante, até. Tinha aqueles carros. Aqueles carros enfeitados. WC: As pessoas todas enfeitadas também. IM: //Enfeitadas.// Isso nós saíamos na rua para ver. WC: É... IM: Nós íamos. É. Nesse tal... eles falavam aterro, não é? É na lagoa. Ainda existe. Tinha a lagoa, em volta da lagoa. Aí a gente ia para ver o carnaval. WC: Nessa época, a senhora já era uma moça. IM: Já era. Já. WC: E a senhora não tinha vontade de participar desses... IM: Não... Nunca gostei dessas festas não. WC: Por que a senhora não gostava? IM: Não sei. Eu achava bonito e tudo, mas não para participar. Gostava de ver os outros dançando e... WC: Mas era bom para os outros e não para a senhora? IM: É. Para mim não. Não. WC: A senhora acha que é a criação que a senhora teve? IM: Não. Não. Porque as duas minhas irmãs gostavam. WC: Ahn... IM: Essa minha irmã da rua Padre Sena, casou muito nova. E continuou, porque o marido 1B- IM -31 gostava também. Então ela continuou freqüentar festas, essas coisas. Eu não gostava. Gostava muito de olhar. Mas de dançar, essas coisas não. Nunca gostei. WC: Gostava só de ver. IM: De ver. WC: Então a senhora freqüentava os bailes, as festas e ficava só olhando. IM: Só. WC: Ahn... Que mais que as jovens, desse tempo, da sua geração, o que elas faziam mais como lazer na cidade? IM: Você acredita que eu não me lembro. Era... todo mundo era igreja. Então quando foi esse padre para lá, era uma adoração com esse padre. WC: Todo final de semana a senhora ia para a igreja? IM: É. Todo... quase todo dia. Porque nós morávamos pertinho da igreja. Quase todo dia ia na igreja. E o pessoal todo da cidade ia na igreja. WC: Independente de ir à igreja, a senhora fazia orações em casa? IM: Fazia oração em casa. WC: Vocês alguma vez tiveram o hábito de rezar antes das refeições? IM: Não. Isso não. Depois que [minha irmã] virou protestante é que eles rezam, não é. Mas em casa não rezava. WC: Cada um fazia a sua oração individualmente? IM: //Cada um fazia a sua...// É. WC: De noite? IM: É. WC: Então vocês tinham hábito de ir à igreja. Foi quando vocês foram para Sete Lagoas, que a senhora foi fazer a primeira comunhão? IM: Foi. Eu já estava com oito ou nove anos. WC: Todos esses passos dentro da igreja, primeira comunhão... IM: É... é. 1B- IM -32 WC: Tudo isso a senhora participou. IM: Isso eu ia. WC: E a senhora participava dessas promoções que a igreja fazia? Barraquinha, essas coisas. IM: Não. WC: A senhora só ia para rezar. IM: É. E tinha mesmo barraquinha de Santo Antônio, porque lá a igreja é Santo Antônio. Então tinha essas festas. Levantava mastro, não é? WC: Ahn-hã. E os namorados, dona Isaura? A época dos namoros. IM: O namoro... eu tive um namorado, mas foi uma coisa boba, sabe. WC: Foi lá em Sete Lagoas? IM: É. Lá em Sete Lagoas, não é. WC: Como que era o namoro? IM: Oh. O namoro não era igual agora, não é? WC: Sim, claro... IM: Mas era a mesma coisa. É... conversava, não é. Conversa fiada. [Risos]. WC: E pedia-se para namorar? Como era isso? IM: //Não.// Não pedia não. WC: Não. IM: Eram os meninos de grupo, um namorava... uma namorava o outro, o outro namorava, sabe. Era muito engraçado. Interessante. WC: Ahn... Mas desde o grupo, deste período, já tinha namoradinho? IM: //É.// Já. Já namorava. WC: Nessa época a senhora já tinha alguém apaixonado pela senhora? IM: Não. Não tinha não. [Risos]. WC: E a senhora era apaixonada por alguém? IM: Não. Nessa época de grupo não. Mas lá tinha um tal de Emílio Vasconcelos Costa, que 1B- IM -33 foi deputado muitos anos, ele tinha uma namorada firme. Menino de grupo. Ele era muito engraçado. Ele era meu colega. WC: E tinha namorada firme? IM: Namorada firme. De encontrar, de escrever bilhetinho, deixava uns bilhetinhos lá na árvore para a namorada, sabe? WC: Ah! É... [Risos]. Ninguém roubava os bilhetinhos dele não? [Risos]. IM: Ele era muito engraçado. De uma família muito importante, que eles eram do Norte, tinha um hotel, família Mendonça. Eram duas moças. Muito... meninas muito bonitas. Essas também tinham os namorados lá. WC: Hum... Ninguém achava estranho crianças, porque são crianças, não é? Grupo é criança até onze anos. IM: É. WC: Ninguém achava estranho elas namorarem? IM: //Não. Não achava porque// nem a família não sabia, era tudo escondido WC: Ah!... Só entre vocês. IM: Só os meninos de grupo. WC: E no colégio? O colégio também era misto. IM: É, colégio misto. WC: A senhora não se encantou por nenhum dos seus amigos, na escola? IM: //Não, de// escola não. De grupo, não, de ginásio. Eu também só estive dois anos lá. Fiz o primeiro e o segundo ano. WC: Sei. IM: E depois vim para aqui e fiquei interna. Aí interna não pode mais. Colégio Sagrado Coração. WC: E na hora do footing? Como que eram as paqueras na hora do footing, lá em Sete Lagoas? IM: //Ficava conversando, uns conversando com os outros. WC: Ahn... 1B- IM -34 IM: Encontrava uma turma. Mesma coisa que hoje. Encontrava uma turma, contava os casos, nem me lembro como que era. Mas contava aqueles casos, ia para lá, ia para cá. Andando para lá e para cá. [Risos]. WC: E em casa como que era isso? Para o pai e a mãe. Como é que eles receberam, como eles se comportaram a essas idéias das filhas começarem a namorar? IM: Ah! Mas meu pai não queria o namoro dessa primeira, não é? E essa segunda namorava mas eles não sabiam. WC: Ah! Eles não sabiam. [Risos]. IM: Depois ela veio a casar por aqui. WC: Ahn... Por que namorava escondido? Havia algum empecilho? IM: Não. Os pais que não gostavam, ninguém naquela época não podia. Era interessante mesmo. WC: Mas não podia namorar fora de casa? IM: É. WC: Eles queriam que namorasse dentro de casa. IM: É. Dentro de casa. Ninguém queria. WC: //E as moças...// Ninguém queria namorar dentro de casa? IM: //Não.// [Risos]. WC: E a senhora, não é... IM: Só ia para a igreja... [Risos]. Ia para a igreja. WC: Cinema tinha já? IM: Tinha cinema. Muito engraçado o cinema. WC: E como era? Já era... IM: //No princípio...// No princípio era cinema que não era falado. WC: Era mudo. IM: Cinema mudo. WC: Tinha alguém que tocava? 1B- IM -35 IM: Tocava e falava, não é? WC: Ahn... IM: O que elas ficavam falando. Isso é lá em Inhaúma. WC: //Falando como?// Ah! Em Inhaúma já tinha cinema. IM: //É.// Já tinha o tal cinema, sim. Passava aquela... Alguma coisa que passava... passava um cachorro... Passa outra coisa, não é. WC: Ahn... IM: Agora em Sete Lagoas tinha o cinema falado. WC: Ahn...// E vocês freqüentavam?// IM: //Passava as figuras...// Escrito... Aliás, não era falado, passava as figuras e os escritos. WC: Ah! Sei. IM: Nós íamos muito ao cinema. Chamava cinema Meridiano. WC: Ahn... O pai e a mãe também iam? IM: Iam. Mamãe, às vezes ia. Às vezes nós íamos sozinhas. WC: Sei. AT: E seu pai ia no cinema com vocês? IM: Não. Ele não ia nem mamãe. Mamãe uma vez ou outra ia. Mamãe não gostava de cinema não. Nem ele. Nós é que gostávamos. Mocinha, não é. WC: Ahn... Pelo jeito que a senhora fala, parece que seu pai era muito caseiro. IM: É. Ele não gostava muito não. Ele gostava muito de rua, mas sozinho. WC: Sozinho. IM: É. Sozinho com os amigos. Ele tinha muita amizade. WC: E a senhora não tinha vontade que seu pai fosse junto com vocês? IM: Não, porque ele era bravo. Então podia... [Risos]. WC: Sem ele era melhor. IM: É. Ele gostava muito dos amigos. Ele tinha muita amizade em Sete Lagoas. 1B- IM -36 WC: Vocês recebiam esses amigos em casa? IM: Recebia. Iam muito lá, sabe? Os parentes iam. WC: Vocês tinham parentes de fora que às vezes iam passar uns dias com vocês? IM: Só esses de Inhaúma. WC: Só esses. E nesse período a senhora chegou a ir passar alguns dias na casa desses parentes? IM: //Não. Depois de grande não.// WC: Depois de Sete Lagoas, a senhora não freqüentou. IM: //É. Não, não.// WC: Só lá com a família? IM: //Só ia lá// com a família inteira, não é. WC: Apenas para passar o dia? IM: Não. Às vezes ia para a festa. WC: Hum... Mas era passar o dia e voltar para a casa à noite. IM: É. E voltava para a casa logo. WC: Nunca dormia na casa dos parentes. IM: Não. Lá em Inhaúma nós íamos e ficávamos. Mesmo depois que moramos em Sete Lagoas, ia para ficar. WC: Ahn... Ficava a família inteira. IM: //É. A família inteira.// WC: Então essas são as primeiras viagens que a senhora fez realmente. [Risos]. IM: Depois fizemos aqui, vinha aqui. Mamãe vinha trazer essa minha irmã, então a gente às vezes vinha com ela. WC: Era o quê? Era trem? IM: Era trem de ferro. E gastava cinco horas. WC: //E como que era a viagem de trem?// 1B- IM -37 IM: Cinco horas. WC: Cinco horas, de Sete Lagoas a [...]. IM: //Agora é uma hora, não é?// [Risos]. Era de trem, cinco horas. WC: E como que era essa viagem de trem? Era bom andar na estrada de ferro? IM: //Era muito bom.// Ainda mais menino, não é? Mocinha. A gente ficava numa alegria de pegar o trem de ferro, o tal do comboio. WC: Chamava de comboio? IM: Não. Para nós era trem de ferro. Agora, o português é que falava. WC: Ah! Sim. IM: Para nós continua trem de ferro até hoje. WC: É... IM: Ele saía de madrugada, o trem de ferro, para chegar aqui às dez horas. Ela tinha aula ao meio-dia. Nós tínhamos uns amigos que eram muito amigos lá de casa. Também tinha um pessoal de Inhaúma que já morava aqui, morava lá na Floresta. A gente vinha e ficava na casa dele, sabe. WC: Pernoitavam lá. IM: É. Ficava lá. E depois também quando nós fomos para o colégio interno, eles é que buscavam. A gente saía, tinha uma vez por mês. E eles é que buscavam. WC: //Uma vez por mês?// IM: É. Uma vez por mês saía do colégio. WC: E passava o fim de semana? IM: Passava. Passava um dia lá com eles. WC: Ah! Sei. Agora essas vindas de vocês aqui, de trem, era só para trazer a sua irmã para o Conservatório? IM: Só. WC: Era uma vez por semana? IM: É. 1B- IM -38 WC: A senhora se lembra que dia? IM: Não me lembro. WC: Era no meio da semana? IM: Era no meio da semana. Parece que era quinta-feira, mas não tenho certeza. WC: Com essas cinco horas de viagem, então, isso implica que a senhora perdia aula na escola? Ou a senhora já não estava estudando? IM: Não. Aí eu já não estava estudando, já tinha saído do grupo. WC: Hum... Foi depois que a senhora fez aqueles dois anos de ginásio? IM: Foi. Aí nós ficamos um ano lá, para depois virmos para cá. WC: Ah! Sei. Lá só tinha o primeiro e o segundo ano do ginásio. Não tinha mais... IM: Não. Tinha todos. WC: Mas por que a senhora não continuou lá? IM: Porque era ginásio. Tinha que fazer o ginásio, depois tinha que sair de lá, porque não tinha o... Antigamente era científico, não é? Não tinha o científico lá. Já teria que vir para Belo Horizonte fazer o científico, para continuar. WC: Hum... IM: Então já vim, porque eu fiz foi... professora, não é. WC: Então a senhora... IM: //Mas de primeiro grau, só. Naquele tempo tinha primeiro e segundo grau.// WC: Então a senhora interrompeu o curso lá para vir direto para cá. IM: Direto para o colégio. WC: Então esse período que a senhora ficou sem estudar foi entre o grupo e o ginásio. IM: É. WC: Que vocês vinham para cá, trazer a sua irmã. IM: //Vinha trazer a minha irmã.// WC: E a aula dela começava meio-dia. Aí ela passava a tarde no Conservatório. 1B- IM -39 IM: É. Ela ficava poucas horas. E quando era cinco horas ela ia para o trem de ferro outra vez. WC: Sei. Ia todo mundo, voltava todo mundo no mesmo dia. IM: //Aí voltava todo mundo no mesmo dia.// WC: E nesse período que ela estava tendo as aulas... IM: Nós ficávamos lá na Floresta. WC: Na Floresta. E não saíam, não passeavam em Belo Horizonte? IM: Não. Lá na Floresta era muito bonito, ficava por ali mesmo. Elas moravam numa casa alta assim. Era um morro ali na rua Jacuí, perto do Colégio Santa Maria, era um morro. E as casas eram todas em cima do morro. Interessante como é que eles jogam tudo fora, não é? Era bonito mesmo, a gente avistava a cidade toda. Porque não tinha cidade, não tinha esses monumentos que tem hoje, não tinha nada. WC: Os edifícios. IM: //Belo Horizonte não tinha nada.// WC: Não tinha, como assim. Esses monumentos... IM: Não tinha esses monumentos, essas casas altas assim. WC: Ahn-hã... IM: Foi depois que nós mudamos para aqui, que começaram essas casas altas. Nós mudamos para aqui não tinha o colégio... Como é que chama aquele colégio... Santo Agostinho. Ali era uma lagoa, aquilo tudo era uma lagoa. A porta do Colégio Santo Agostinho era uma lagoa grande. Isso quando nós mudamos para aqui. Depois eles aterraram, fizeram o Colégio Santo Agostinho. WC: E a senhora se lembra quando foi a primeira vez que a senhora veio a Belo Horizonte? IM: Isso eu não me lembro. WC: Não. IM: Não me lembro mesmo. WC: Mas a senhora se lembra, vamos supor, da imagem que a cidade causou na senhora? Se era uma cidade muito grande, as diferenças dela para Sete Lagoas. 1B- IM -40 IM: Isso também eu não me lembro, sabe. WC: Não. IM: Não. [Risos] WC: A senhora só se lembra dessas vindas de vocês para cá? IM: É. WC: Para o Conservatório. IM: É. WC: Foi mais ou menos nesse período, a senhora acha que nesse período que a senhora começou a conhecer Belo Horizonte? IM: Foi. WC: A senhora devia ter uns onze anos de idade. IM: //É.// Foi daí, depois então que nós... eu vim para aqui foi em 1927. Eu já estava grande quando eu vim para o colégio, já estava mocinha. WC: A senhora nasceu em 16. IM: Não. Nasci em 13. WC: Em 13. IM: É. Já estava moça mesmo. WC: Moça. IM: É. WC: É. Quatorze anos em 27. [Risos] IM: E aí que eu fiquei conhecendo mesmo Belo Horizonte. WC: Ahn... IM: É. Porque as irmãs saíam, às vezes elas saíamos de bonde. Naquele tempo era bonde, não é? Tinha que levar uma menina ou duas com elas para buscar as outras. Porque as outras eram externas, então buscava de bonde. WC: As irmãs iam buscar. IM: Iam buscar. Como tem agora esses... 1B- IM -41 WC: Escolares. IM: Escolares. Você vê, era bonde. Elas vinham. Eram as irmãs [ ], elas eram claras alemãs. Então aí que eu fiquei conhecendo Belo Horizonte mesmo, não é? WC: Então quando a senhora vinha para cá para trazer sua irmã, o trajeto era descer na estação e de lá vocês já iam... IM: Para Floresta, é. WC: Para a Floresta. IM: É. E depois ela vinha para a aula aqui. WC: A sua mãe trazia as filhas para escola... IM: //É...// WC: A sua mãe ficava aguardando sua irmã... IM: Ficava no colégio, é. Aguardando. WC: A opção de vir para o Conservatório estudar piano foi da sua irmã? IM: Foi da minha irmã que queria. Ela queria estudar, porque ela já estudava lá em Sete Lagoas com esse [...]. Mas lá não tinha, e ela queria fazer o curso de piano. Então, teve que vir para cá. WC: Sua mãe como gostava de música, estimulou. IM: É. WC: Então nessas vindas para Belo Horizonte, a senhora não conheceu Belo Horizonte. IM: Ah! Também se eu vim foi no máximo duas vezes. Porque ficava muito caro. WC: Ah!... Eu ia perguntar... IM: Na época. WC: Foram poucas as vezes que veio a família. IM: Talvez eu tenha vindo uma vez só. Porque a outra já tinha namorado firme, já não vinha, a mais velha. WC: Só para me situar aqui. Essa irmã, com a qual a senhora mora hoje, é a mais nova? IM: É a mais nova. É a caçula. 1B- IM -42 WC: Ahn... A mais velha é a que mora na rua... IM: É a que mora na rua Padre Freitas. WC: A que faleceu é a filha do primeiro casamento? IM: É. WC: Eu estava confundindo um pouco na minha cabeça. IM: Não. Aquela que... [...]. WC: Como que era o nome mesmo delas? IM: A Dali, chama Maria da Conceição. WC: Essa com a qual a senhora mora? IM: Não. Essa daqui chama Geralda. WC: Geralda e Maria da Conceição. IM: //É.// E a outra chamava Maria Miguelita, porque nasceu no dia de São Miguel. [Risos] WC: Ahn... Ah! É! IM: //Porque [...]// de antigüidade. WC: E a senhora não é Maria Isaura? IM: Não. É Isaura Maria. WC: //Só Isaura.// Isaura Maria. IM: //É... // WC: Todo mundo tem Maria. IM: Tem Maria, é. WC: E quando foi que vocês mudaram mesmo para Belo Horizonte? IM: 36. WC: 36? IM: É. WC: A senhora já era moça. IM: Já. Já era formada, porque eu formei em 30 no colégio. 1B- IM -43 WC: //Mas antes...// Antes de mudar para Belo Horizonte, a senhora veio para cá para ficar interna. IM: //Interna.// Foi. WC: Quando foi isso? IM: De 27 a 30 eu fiquei interna no Colégio Sagrado Coração. WC: De 27 a 30. IM: //A 30.// É. WC: Três anos. IM: Em 30, eu fui para lá, eu dei aula lá em Sete Lagoas. Dei aula lá, acho que um ano e pouco. Eu dei aula lá. Mas aí já era escola, já não era do grupo do Estado, já era da prefeitura. Dei aula na prefeitura. Depois fui nomeada para uma cidade do interior que chamava Fortuna. Não é cidade não, é uma vila. Aí eu não fui. Porque para ir ficava muito dispendioso. Eu não fui. Fiquei lá até 36, quando nós mudamos para cá. WC: Então nesses primeiros três anos que a senhora viveu aqui, a senhora completou o ginásio e fez o magistério? IM: Não. Fiz só o magistério. Porque naquele tempo eram três anos. Quatro, não é. 27, 28, 29 e 30. WC: //Mas a senhora...// Mas a senhora só tinha os dois primeiros anos de ginásio. IM: //É. Só.// WC: O ginásio era só esses dois primeiros anos? IM: Só. E o ginásio não contou para esse período não. Porque agora conta, se quiser passa, não é? WC: Hum... IM: Antigamente não. Tinha o primeiro e o segundo ano. A gente tinha que sair do Colégio Sagrado Coração e ia para o Instituto de Educação. WC: Hum... IM: Para fazer o segundo grau, de professorado. Eu fiz só de primeiro... WC: Mas só com... [...]. 1B- IM -44 IM: //As minhas colegas// vieram. Vieram essas de Sete Lagoas que eu estou falando, família [Adelário], vieram três. WC: Então na verdade a senhora ficou cinco anos estudando até fazer o que seria o segundo grau? IM: É. WC: Ahn... E a senhora não chegou a ir para o Instituto de Educação fazer o Magistério. IM: Não. Aí já tinha que mudar para Belo Horizonte. Quando eu mudei para Belo Horizonte eu já empreguei, não é? Eu fui trabalhar no comércio. [...] Aprendi datilografia e trabalhei no comércio. Aí já não dava mais. WC: Mas por que, o Instituto de Educação não era uma escola interna? IM: Não era interna não. Era só externa. WC: Hum... Ah! Certo. E no Sagrado Coração a senhora ficava direto. IM: //Era interno. Ficava interna, é.// WC: A sua família vinha te visitar? IM: Ah! Uma vez ou outra. A gente ia em Sete Lagoas mas assim, época de férias, não é. Semana Santa, quando tinha um feriado grande, não é. Que às vezes dava para passar. Ia assim. WC: Mas a senhora ficava o dia inteiro... IM: //Aí já tinha ônibus, não é?// Aí nessa época já tinha ônibus que levava muitas horas também no caminho. [Risos] WC: Era ônibus jardineira. IM: Era jardineira. Isso mesmo, jardineira. [Risos] WC: Ahn... Daqui lá. IM: É. WC: Mas a estrada também era ruim, não é? IM: //Ruim, péssima.// Subia morro assim, descia. Se caía... Eu me lembro que uma vez que nós viemos de lá, caiu assim um carro que estava cheio de porco. E caiu tudo assim, aquela sujeira. 1B- IM -45 WC: Tombou na estrada. IM: Tombou na estrada. Quer dizer, os outros carros ficaram todos parados, esperando tirar. WC: O que a senhora lembra de estrada nessa época, dessas viagens que a senhora fazia daqui para casa? IM: Era estrada péssima. Só isso que eu me lembro. WC: Hum... As condições de viagem... IM: //É. As condições de viagem... As tais jardineiras eram péssimas também. WC: Por quê? Eram desconfortáveis? IM: Desconfortáveis. Era dura. Era igual esses ônibus duros que a gente assenta aqui. Assim mesmo. WC: E a senhora ia sozinha daqui para lá, ou vinha alguém buscar? IM: //Não. Vinha alguém buscar.// WC: Hum... IM: Vinha alguém buscar, esses que foram nossos colegas lá que eram muito amigos. Já eram casados, às vezes tinha família aqui. Ou a gente ia com essas, que moravam lá também. E iam. WC: Não era necessariamente seu pai ou sua mãe que vinham buscar? As suas duas outras irmãs também vieram ficar internas para completar os estudos? IM: //Não. Não. Não.// Essa primeira não quis estudar. WC: Ela não continuou. IM: Não. WC: E a mais nova? IM: A mais nova ficou lá, depois ela foi para o Imaculada, também ficou dois anos e depois não quis continuar não. No Imaculada ela começou só a estudar piano. Só estudava e foi embora para casa. E aí é que ela veio para o Conservatório. WC: No Imaculada? IM: É. 1B- IM -46 WC: Estudava piano. IM: Ela estudava também no Imaculada, piano. WC: Certo. E... estava com uma pergunta aqui que eu queria fazer para a senhora. O que a senhora fazia na escola, durante o dia? Como que era assim, a carga horária dessas disciplinas. Três anos, o dia inteiro dentro de uma escola. O que vocês aprendiam dentro da escola? IM: Lá em Sete Lagoas? WC: Não. Aqui no Sagrado Coração. IM: Aqui no Sagrado Coração, de manhã tinha aula. Tinha aula. Depois o almoço, não é. WC: //É.// IM: Não. De manhã, primeiro o café, que era um pão muito gostoso, um pão alemão. WC: A senhora lembra do pão. [Risos] IM: Ah! O pão gostoso esse! WC: Era feito na escola? IM: Eram as irmãs que faziam. WC: Sei. IM: Uma irmã que fazia, que era uma delícia. WC: Ahn... IM: Depois ia para a aula. Depois da aula, ia para o recreio, ficava no recreio até hora de terminar. Não... Até a hora do almoço. Almoçava, aí ia estudar. Punha todo mundo para estudar. WC: Hum... Fazer os exercícios. IM: É. Fazia os exercícios todos. Depois outra vez ia para o recreio. E aí tinha o jantar, porque lá era almoço e jantar. WC: //Certo.// IM: E deitava cedo. Eu me lembro que deitava cedo mesmo. WC: Como assim? Umas oito horas da noite? 1B- IM -47 IM: É. Oito, mais ou menos oito horas. Primeiro rezava, ia para a igreja. Que ainda tem a capela lá. WC: Hum... IM: Ia, rezava e de manhã ia à missa. Esqueci. De manhã, todo dia tinha missa. WC: Antes das aulas começarem? IM: É. Antes das aulas começarem. WC: Antes do café? IM: É, antes do café. Depois que ia para o café, depois ia para a aula. Depois eu tenho impressão, eu não me lembro muito bem, mas parece que tinha aula de tarde também. WC: E a senhora fazia só disciplinas como Geografia, História... IM: É. Só. WC: As irmãs ensinavam algum tipo de trabalho manual para vocês? IM: //Ensinavam.// Ensinavam. Ensinavam bordado, ensinavam croché. Mas eu nunca aprendi croché, não. Eu não gostava. Ensinava tricô. Tricô eu cheguei a fazer sapatinho, essas coisas. Lá. Depois nunca mais fiz. WC: Não era então obrigatório assistir essas aulas? IM: //Não. Não.// WC: E a disciplina na escola, como era? IM: Rigorosa! [Risos] WC: É. IM: Elas eram bravas, essas irmãs. WC: Generais. [Risos] IM: Eram generais mesmo. Agora que elas não são. Elas são mais... mais humildes. Mas elas vieram da Alemanha, não é? WC: Hum... IM: E, tinha umas brasileiras. A brasileira ainda era pior. AT: //Pior?// Por quê? 1B- IM -48 IM: Porque ela era a mais brava. Esqueci o nome dessa brasileira. Era de uma família muito importante de Paracatu. Ela era brava! Era irmã de caridade, sabe. WC: Eram muitas irmãs que controlavam o convento? IM: //Muitas.// Muitas. Devia ter umas trinta. WC: E alunas? Eram muitas alunas? IM: Muitas alunas internas, devia ter umas cem. Eram os dormitórios, tinha mais ou menos umas trinta em cada dormitório, sabe. WC: Dormiam todas ali. IM: //Dormiam...// É. WC: Cada uma tinha a sua cama e um... IM: É. Cama, de manhã levantava, estendia a cama e [...] todo coisa. Depois, naquele tempo chamava banho, mas era vestida. Tinha umas camisolas que a gente vestia assim. WC: Mas como assim? IM: Vestia uma camisolona e você tinha que passar o sabão no corpo, aquela coisa toda, mas vestida. AT: Ué! Mas como então, só por dentro? WC: //Por dentro da camisola?// IM: Tirava... tirava a camisola e vestia aquelas roupas delas. Eu me lembro que era azul. WC: Ahn... IM: Azul assim... Parecia um avental assim. Abotoava assim. Não podia... E elas olhavam, não é. WC: A hora do banho? IM: A hora do banho. De vez em quando elas abriam a cortina assim, sabe? WC: Ahn... IM: A pessoa... Era de banheira, naquele tempo era banheira. Se a pessoa estava com a roupa. Agora, depois para enxugar que era difícil, porque tinha que enxugar mesmo assim, e tirar a roupa e vestir a outra depressa. Era uniforme. 1B- IM -49 AT: Mas vocês passavam sabonete no corpo. Era sabão, não é? IM: É. AT: Ou sabonete. IM: Não. Era sabão mesmo, que elas davam. AT: Hum... E para tirar o sabão? Ia jogando uma... Era um chuveiro? IM: Não. Era dentro da banheira, enfiava na banheira e abria a torneira. AT: Então você sempre molhava a roupa inteira depois. IM: Toda. A roupa ficava ensopada. AT: Banho de roupa. [Risos] IM: Tomar banho de roupa, era como se fosse de maiô. WC: É... [Risos] IM: Só que era roupa. AT: Um maiozão, não é? WC: Era um maiô... [Risos] IM: Um maiozão. É. [Risos]. E elas, se a gente tirava... Nossa! Ela ficava. WC: Ninguém se atrevia a tomar banho sem o camisolão. IM: //Não. Sem o camisolão.// Era interessante. WC: Ahn... IM: São irmãs mesmo, não é. WC: As roupas eram padronizadas pela escola? IM: Eram. Tinha uniforme. Saia plissada. Plissada não, pregueada em azul. E blusa branca, com essas golas marinheiro. WC: Hum. IM: Branca, sabe. WC: Saia comprida? IM: É. Saia comprida com gravata. No princípio tinha chapéu. Eu não me lembro como era o 1B- IM -50 chapéu. WC: Depois não tinha mais. IM: Depois tiraram, tiraram o chapéu. WC: E todas ficavam uniformizadas o dia inteiro. IM: O dia inteirinho. WC: E vocês praticavam algum esporte na escola? IM: //Lá... // Eles ensinavam. Tinha basquete, tinha outra... o que era mais que lá tinha? Tinha uma outra coisa qualquer. WC: Tinha ginástica mesmo? IM: É. Fazia ginástica. Tinha professora de ginástica. Morreu até ano atrasado. WC: Hum... IM: Não sei se é Helena Terra. Uma professora muito boa de ginástica. Ela que era a professora. E dava mesmo ginástica. WC: Os professores de vocês eram todos... todas mulheres? IM: Todas mulheres. Não. Tinha homem também. WC: Tinha homem também. IM: Tinha. Dessa família Cristóvão Colombo daqui. FIM DO LADO B DA FITA 1 1B- IM -51 B Belo Horizonte, 1, 2, 23, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51 C cinema, 40, 41 F festas religiosas, 9 formação musical, 26, 29 S Sete Lagoas, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 12, 13, 17, 18, 23, 24, 31, 33, 34, 36, 37, 39, 41, 42, 46, 48, 50, 51, 52, 54 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CENTRO DE ESTUDOS MINEIROS GRUPO DE HISTÓRIA ORAL PROJETO INTEGRADO: “MINAS GERAIS: HISTÓRIA ORAL” POLÍTICA E SOCIEDADE ATRAVÉS DA ENTREVISTADORA: WALQUIRIA CAMPOS AUXILIAR: ANNY TORRES ENTREVISTADA: ISAURA MARIA DA MATTA LOCAL: BELO HORIZONTE DATA: 20/06/91 Entrevista - fita 2 - lado A AT: Hoje é 20 de junho de 1991, nós estamos entrevistando dona Isaura Maria da Matta. IM: A minha irmã falou para vocês mudarem o nome, quando vocês forem fazer o trabalho, para vocês mudarem os nomes. Meu nome e os nomes dos pais. Ela é muito engraçada, ela não gosta... WC: Por quê? IM: Ela não gosta dessas coisas. Não gosta mesmo. Nem ela nem meu cunhado. Então pediu para vocês mudarem. Então vocês ponham um outro... WC: Ahn... Um pseudônimo. IM: //Pode ser um nome qualquer.// É. É. WC: Um nome de pseudônimo. IM: É. E de meus pais também. AT: Ah! Sei. Para não aparecer os nomes. IM: Os nomes. É. [Risos] AT: Mas a senhora teria algum problema com relação a isso? IM: Não. Eu não tenho, mas ela é que manda, sabe. Ela é a dona da casa. [Risos] WC: A dona Geralda? IM: É. [Risos]. Ela que manda em tudo aqui. WC: Ah! É. [Risos]. Bom, dona Isaura, eu e a Anny ouvimos a entrevista anterior e fizemos algumas anotações sobre alguns itens que nós gostaríamos de retomar. Perguntas rápidas. A primeira coisa é com relação à irmã, a sua irmã mais velha. A filha do primeiro casamento da sua mãe. A senhora falou para nós que ela ficou morando em Sete Lagoas, quase não tinha muito contato com vocês, ficou lá estudando. E nós esquecemos de perguntar para a senhora se ela chegou a visitar vocês em feriados, se ela passava as férias com vocês. IM: De vez em quando ela ia lá. Ia com essa dindinha... WC: Na fazenda? IM: É. Ia com essa dindinha Zeca. Nós chamávamos dindinha Zeca porque ela ficava... Nessa época ela estava com ela. Então ia. Eles todos iam passear lá. WC: Então era comum ela freqüentar. IM: //É. Era.// WC: E outra coisa. Por que a sua irmã mais velha não fez como essa do primeiro casamento? Eu me esqueci o nome dela. IM: É Maria Miguelita. WC: Maria Miguelita, isso mesmo. Por que sua irmã mais velha não fez como Maria Miguelita de ir para Sete Lagoas e ficar estudando, e aguardando a ida das outras irmãs? IM: Ah! Minha mãe não deixava a gente separar. Essa daí porque já era grande, tinha oito anos, já podia ficar. WC: Ahn... Mas e vocês quando tiveram oito anos? Sete, oito anos. IM: Aí nós já estávamos em Sete Lagoas. WC: Aí foi quando... IM: //Eu tinha sete//, a outra que estava com oito. AT: Vocês ficaram aguardando... Seu pai ficou aguardando todas vocês terem uma idade para irem as três juntas. IM: //Menos a última, não é.// Que é essa aí. Essa última não. WC: Ela é bem mais nova. IM: //Que a última é bem mais nova.// Bem mais nova, três anos mais nova. AT: Qual é a diferença de idade de vocês irmãs. IM: Eu com essa outra é um ano e seis meses. Agora, com essa aqui são quatro anos. AT: Dela para a senhora? IM: É. AT: E da senhora para a mais velha, um ano e seis meses. IM: É. AT: E da mais velha de vocês todas... IM: //São oito anos e quatro meses.// AT: Certo. A outra pergunta que a gente tem que fazer para a senhora, é relativa a essas viagens para Inhaúma, visitar os parentes. A gente estava lembrando o seguinte: vocês comemoravam as festas de aniversário? De vocês, entre os irmãos, os filhos, na fazenda, e os parentes iam visitar quando era aniversário? IM: Não. Nessa época nós não tínhamos essa... Nem Natal, não tinha nada disso. AT: Nem Natal? IM: Não, não tinha. AT: Páscoa, por exemplo, que é uma data religiosa. IM: Também não, não tinha. Na fazenda não tinha nada. WC: Não? IM: Não. WC: Nem os colonos mesmo, não faziam festas? IM: //Não. Os colonos não.// Fazia festa só na... Como a gente diz, quando terminava uma capina, que eles falam. A palavra é capina, não é? WC: Hum... É. IM: Terminava aquilo tudo. Então tinha uma festa muito grande, com muito doce, muita coisa. Era essa festa que tinha. Mas padre lá, essas coisas, não ia não. WC: Não... IM: //Não. Não.// Na fazenda não ia ninguém. AT: //Mas só entre vocês.// Por exemplo, era seu aniversário, a senhora era criança. Havia algum tipo de comemoração familiar? IM: Não. Não. AT: Era como se não fosse aniversário? IM: Como se não fosse aniversário. Passava direto. AT: Um dia comum. IM: Um dia comum. Um dia como outro qualquer. AT: Ganhava presente? IM: Não. AT: //Nada?// IM: Também não. Não. AT: Não. O que justificava uma festa então? Era a capina... IM: Era só a capina, que tinha essa festa grande, que tinha lá. WC: Isso na fazenda. IM: //Na fazenda.// WC: E as festas religiosas que aconteciam em Inhaúma. IM: Em Inhaúma. AT: Fora isso, nada. IM: Fora isso, não tinha nada. AT: Em Inhaúma também não se comemorava o Natal naquela época? IM: Não. AT: Passagem de ano? IM: Também não. Interessante, não é? Devia. Mas aquele povo lá, a gente era muito... O pessoal era mais ignorante. E com certeza lia pouco, não é? Porque isso era no jornal, nessas coisas que davam muito. Não tinha televisão, não tinha rádio, não tinha automóvel, de modo que era difícil. WC: Hum... Mas a própria igreja não incentivava a Missa do Galo... como se tem. IM: //Não. Também não. Não.// WC: Agora... IM: Porque o padre de Inhaúma, às vezes ele ia nas Pedras. Um domingo ia na tal de Pedras, que chamava. Outro domingo era em outro lugar. Outro domingo era na Inhaúma. A não ser na época de festa. WC: Ah, sei! IM: É que ele ficava lá. Não tinha um padre permanente. WC: Ahn... Então isso talvez é que tenha dificultado, não é? IM: É. WC: A realização das festas. IM: //É. Das festas. // Essas coisas. AT: Bom, a outra pergunta é relativa ao seu período na escola. A senhora foi uma boa aluna? IM: Não fui das piores não. [Riso] AT: A senhora gostava de estudar, dona Isaura? IM: Gostava. Gostava muito. Muito mesmo. Por causa das professoras, que incentivavam. AT: É. A senhora já falou conosco. IM: //É professora.// Era uma só. No final eu fiquei com uma. Do segundo em diante eu fiquei com uma, não é? AT: É. IM: [ ]. AT: E nesse... e a senhora se lembra hoje se naquele tempo a senhora tinha algum projeto? Quando eu crescer eu quero ser isto ou aquilo. IM: Não. Não tinha projeto nenhum. AT: Não tinha. IM: Não. AT: E imaginava que poderia continuar estudando? IM: Não. Isso eu imaginava, porque lá em casa eles incentivavam. AT: //Hum... hum...// Os seus pais incentivavam? IM: É... é. AT: E quando as suas irmãs não quiseram continuar estudando? A senhora falou que sua irmã mais velha não quis continuar estudando. IM: Foi. Porque ela casou logo depois. AT: Isso. Ela casou mais ou menos com que idade? IM: Dezessete anos. AT: Ahn... IM: Todas duas. AT: Todas duas. IM: A irmã mais velha casou com dezessete anos. AT: //E nenhuma delas// quis continuar estudando. IM: Não. Não quis não. AT: Só a Geralda, estudou música. IM: Foi. AT: E os pais não deram um puxão de orelha para estudar mais não? IM: [Riso]. Não. Aí cada um foi seguir sua... como se diz, sua sina, não é? A Geralda estudou dois anos no colégio lá e um ano aqui no Colégio Imaculada, mas não terminou. WC: Dois anos no Sagrado Coração. IM: É. WC: Ela veio na mesma época que a senhora veio. IM: //[...]// 29 ela saiu e veio para o Imaculada. AT: Você e ela entraram juntas no Sagrado Coração. IM: Entramos juntas. AT: E aí a senhora continuou lá, enquanto ela... IM: //Ela veio para o Imaculada.// WC: E a senhora tinha alguma preferência na escola, por matérias, por algum tipo de assunto. IM: Não. Não gostava só de aritmética. Como não gosto até hoje. AT: Difícil, tem que fazer muita conta para fazer conversão de dinheiro nessas viagens. WC: Para o dólar, não é. IM: Mas agora tem máquina, não é. AT: //Ah!. É bem melhor.// IM: Antigamente a gente fazia era na cabeça. Tabuada, não é. [Risos] AT: É. Tinha as tabuadas. Exatamente. IM: Decorar tabuada. AT: E já que a senhora gostava das outras disciplinas, em português, a senhora tinha o hábito de leituras, não é? A escola indicava livro. IM: É. Mas mesmo da escola. A escola é que tinha biblioteca. O livro escolar de lá tinha uma biblioteca, que emprestava para os alunos. Cada semana um levava um livro. Agora, não me lembro quais eram os livros. AT: A senhora acha que toda semana, a senhora lia um livro. IM: Lia um livro. E gostava muito de romance. AT: Ah, é! IM: É. [Riso]. Tomava emprestado. Tinha lá a biblioteca que alugava, esses romancinhos de menino de... Decroli, como é que chamava aquela... É uma mulher que escrevia, escrevia muito romance... WC: Ahn... IM: Esqueci o nome dela. Eles falam que ela é homem. Mas o nome é de mulher. WC: Pseudônimo. IM: //Derli.// Derli, um nome assim. Eu não sei como é que era. Mas nós líamos muito esses livros da biblioteca. WC: Da escola. IM: É. AT: Na cidade de Sete Lagoas, nessa época também havia uma biblioteca pública? IM: Não. Pública não. Tinha biblioteca assim, particular. Eles alugavam... WC: Em relação a esse hábito de leitura, aqui no Sagrado Coração tinha biblioteca? IM: Tinha. Também tinha. WC: E as alunas tinham acesso a todo tipo de livro de literatura. IM: //Tinha. Tinha.// Tinha. Mas elas não gostavam muito não, que tirassem qualquer livro não. As irmãs... WC: Ah! As irmãs não gostavam. IM: Acho que é M. Deli que chamava a... WC: Autora... ou autor... [...] [Risos] IM: //Autora. Todo mundo gostava.// É. Ou autor ou autora. [Risos] AT: E outras leituras, a senhora lembra do que a senhora gostava de ler? As coisas que a senhora lia. IM: Só jornal. AT: Jornal a senhora já lia? IM: É. Gostava de ler muito. AT: Gostava... IM: Eu tinha a vista boa, podia ler, não é? WC: //Era o de Sete Lagoas.// IM: Hum? WC: Era o de Sete Lagoas. IM: É. Lá em Sete Lagoas. E já tinha aqui... eu não lembro como é que chamava o de Belo Horizonte e Inhaúma. WC: Vocês recebiam lá... IM: Não sei se era Estado... Não era Estado de Minas, não. Não sei quantos anos tem o Estado de Minas. WC: Sessenta anos. IM: Hein? WC: O Estado de Minas tem um pouco mais de sessenta anos. IM: É. Então eu lia esse daí. Mas aí eu já estava lá, não é. WC: Foi depois da senhora ter estudado aqui. IM: Mais ou menos. AT: A senhora lia jornal diariamente. IM: Diariamente lia jornal. Porque todo mundo gostava, lia aquele jornalzinho da cidade. Dava tudo, não é? AT: Era hábito entre as moças ler jornal? IM: Era. Era hábito. Então o Estado de Minas quando ia, tinha um Jair Silva aqui, que escrevia umas crônicas. Ele falava de todas as moças que passeavam aqui na avenida Afonso Pena. WC: Ahn... Sei. IM: Uma ia para lá. Outra ia para cá. Ele falava aquilo. A gente achava aquilo admirável. WC: [...]. Vocês lá em Sete Lagoas achavam admirável. [Risos] IM: É. Achava admirável. O Jair Silva escrevendo aquilo. O Jair é de Vila Paraopeba. WC: Sei... IM: Hoje é Paraopeba, para lá de Sete Lagoas. Ele era do “Estado de Minas”. WC: Mas era o que? Uma vontade de desfilar também, pela avenida Afonso Pena, que as moças tinham? IM: [Riso]. Não, elas gostavam daquilo. Interessante, não é? Porque falava os nomes, falava... Não falava os nomes assim. Falava um nome... Como se diz, fictício, não é? WC: Certo. IM: Mas a gente às vezes já conhecia a pessoa, e encaixava. AT: Algumas pessoas vocês já conheciam. IM: Já conhecia. É. Porque às vezes era de lá mesmo, de Sete Lagoas. AT: E nesse sentido, a senhora acha que a vida que vocês levavam em Sete Lagoas era um pouco semelhante com o que era relatado nessas crônicas, no jornal? IM: Não. Não era não. Porque ele era crítico. AT: Hum... É. IM: Ele escrevia como uma crítica. WC: Ah, é? IM: É. Era crítico mesmo. WC: //E... E a senhora...// E a senhora concordava? IM: //Mas era interessante.// Não, mas era interessante. Não é que concordava, mas achava interessante. WC: Sei. Mas esse estilo de vida que ele propunha, que ele transmitia na crônica. Era um modelo de vida para vocês, era algo que vocês gostariam de viver no cotidiano? IM: Não. Não. WC: Por que não? IM: Isso aí eu não me lembro. Mas, porque ele falava... Ele era crítico. Ele fazia aquilo como uma crítica. Era uma coisa bonita, bem escrita, mas como a gente via, não é. Era uma sátira, não é? WC: Então a senhora gostava do jeito dele de escrever. IM: É. WC: E a senhora comentava essas notícias que a senhora lia no jornal? Com seu pai, sua mãe, suas amigas. IM: Não. Nossas amigas, nós tínhamos umas quatro amigas, que a gente brincava, ia na casa delas. Umas até já morreram. Então a gente comentava, ria, achava graça. Era só isso. WC: A senhora falou agora que recebia as amigas em casa. Era comum receber as amigas em casa? IM: Era. Lá em Sete Lagoas era comum. WC: A senhora freqüentava a casa das suas amigas? IM: Freqüentava. WC: Certo. Dormia às vezes na casa de alguma amiga? IM: Não. Não dormia não. Nem elas também dormiam lá em casa. Só durante o dia. WC: E a senhora tinha amigos homens? IM: Não, tinha uns três ou quatro que eram nossos colegas. No tempo de grupo. Então eles continuaram. WC: Ah! Porque continuaram. IM: Continuaram. WC: Mas do tempo de colégio, depois, a senhora tinha algum... IM: //Não. Depois que eu vim para aqui// a gente não tinha, não é. Porque aqui as irmãs não consentiam. WC: E mesmo depois, a senhora chegou a ter alguns amigos que freqüentassem a casa? IM: É. Quer dizer, em Sete Lagoas tinha. Agora, aqui não. Aqui em Belo Horizonte já foi diferente. WC: Então, a casa estava sempre movimentada com os amigos das filhas. IM: //É. Com as amigas.// [Riso] WC: Vocês faziam festinhas em casa? IM: Não. Lá em casa não tinha festa não. WC: Por que não? IM: Não sei, acho que era hábito. [Riso] Não tinha mesmo, festa nenhuma. WC: Um hábito que vocês trouxeram da fazenda. IM: //É... É...// Não tinha festa. A gente às vezes ia à festa na casa dos outros. WC: //É.// IM: Aniversário, essas coisas ia. Mas aí já estava mocinha, não era menina mais. WC: Mas, não havia essa coisa assim de retribuir alguma festa, alguma recepção? IM: Não. WC: Não. A senhora não se lembra de alguma festinha, alguma comemoração? IM: Lá em casa não me lembro, nenhuma. WC: Aniversário de casamento de seus pais, por exemplo. IM: Também não. Nunca teve lá em casa, festinha não teve. WC: Depois de grande, os aniversários continuaram sem ser comemorados? IM: Continuaram. WC: Quando é que a senhora começou a comemorar o aniversário da senhora e dos parentes, a senhora lembra? IM: Dos parentes... Aqui em Belo Horizonte. As amigas dessa minha irmã iam lá, no aniversário dela. Mas já foi aqui. WC: Aqui? IM: //Mas meu// nunca teve nada não. WC: Aqui na capital havia esse hábito. IM: //Na capital// já tinha esse hábito. WC: De comemorar os aniversários. IM: É. WC: E onde a senhora viveu no interior, não. IM: Não. AT: Uma outra coisa que a gente também queria perguntar para a senhora, agora relativo à educação que seus pais deram para vocês. E a gente queria saber qual o peso do seu pai e da sua mãe especificamente nessa formação. Porque a senhora falou muito para nós da sua mãe. Que vocês andavam juntas, iam ao cinema, festas na igreja, alguns passeios. IM: Meu pai não gostava muito de conversar não, sabe. Conversava muito pouco. Era muito sistemático. Então a gente conversava mais com a mamãe. Ela que era mais... Ficava em casa. Mais caseira, como se diz, não é. WC: Era a ela que se pedia para sair, essas coisas. IM: //É. Era ela sim.// É. Era ela. WC: Agora, ela não podia autorizar sem que o pai autorizasse. IM: É. Aí ela falava, não é? Ou então a gente mesmo pedia. WC: Ela transmitia o recado do pai para vocês? IM: Não. Nós pedíamos um e outro, não é? Aí ela que ficava com a responsabilidade de deixar ou não. WC: Mas ela podia assumir isso? IM: Podia. WC: Seu pai não... IM: Porque ela não assumia mesmo. Então ela ficava assim... não, não pode. WC: //Ahn...// Ah! Então ela não deixava. IM: Não. Não deixava. Mas conforme o lugar não ia. WC: Hum... IM: Conforme a viagem não ia. WC: Em que situações, por exemplo, ela não permitiria isso? IM: Não me lembro. WC: Quais eram as condições então. O que que ela permitia? IM: Ir ao cinema, ela deixava a gente ir sozinha com as amigas, esses tais passeios lá na cidade, no centro. Nós morávamos mais ou menos no centro mas não era... Ela deixava ir, sabe. Esses passeios assim. Como um aniversário de outras colegas. WC: Certo. E alguma vez a sua mãe deu a entender que ela precisava da confirmação do seu pai, nesse sentido? Que era preciso que ela conversasse primeiro com o marido? IM: Não. Ela falava: pede para seu pai. WC: Ela falava. IM: É. Falava. WC: Ela não ficava transmitindo recados. IM: //Não. Não.// WC: Porque muitas mães fazem isso. IM: Não. A gente pedia um e pedia outro. Se um deixasse... WC: E a senhora acha que o relacionamento entre eles era um relacionamento bom... IM: Era bom. Era. WC: A senhora pensando, o que a senhora acha do relacionamento dos seus pais? IM: Era bom. Relativamente era bom. WC: Por que relativamente? IM: Porque ele saía muito, e ela saía muito era conosco. Ele gostava dos amigos dele. Ela gostava muito era de igreja. Ele não era muito católico, de modo que ficava... Era relativo, não é? AT: Eles não tinham muitos programas em comum. IM: Não. Assim não, não. WC: Dos dois saírem para fazer determinada coisa. IM: //Não. Não. Não.// AT: Eles saíam juntos algumas vezes? IM: //Saíam. Nós todos saíamos juntos.// WC: E só os dois? IM: Não. Só os dois não. Nós todos é que saíamos, sabe? WC: Sei. AT: E a senhora se lembra assim, de gestos de carinho, se eles expressavam carinho um com o outro. IM: //Não. Carinho eu não me lembro, viu.// Carinho eu não me lembro. Porque mamãe era assim, sistema antigo, não é? Não tinha muito assim de beijar, de abraçar não. Não tinha. AT: Era mais séria, mais reservada. IM: //É... É.// AT: Não é isso? E alguma discussão, alguma vez a senhora presenciou? IM: Não. Nenhuma. AT: Por isso que a senhora diz que era relativamente tranqüilo. IM: É... É. AT: Bom, agora a gente queria conversar com a senhora a respeito de um tema que para nós mulheres, interessa mais de perto, que é a própria formação, da educação sexual da gente. Porque a gente numa fase de idade acontece uma série de transformações no corpo da gente. Vem a primeira menstruação, isso muitas vezes deixa a gente um pouco desorientada. Porque a gente não tem uma orientação. Eu queria saber da senhora, se a senhora se sentir à vontade para falar a respeito, eu queria saber como a senhora teve essas orientações? Se foi sua mãe que te orientou. IM: Não foi ninguém. Não. [Risos] AT: Ninguém. IM: Não. Mamãe não era de conversas essas coisas não. AT: Sei. IM: Ela não... Para ela era bicho-de-sete-cabeças. WC: Ahn... Entre as irmãs se falava? IM: É... nem isso. WC: Irmã também não. IM: Não. A gente lia às vezes, não é? Lia. Porque nós líamos muito. Lá tinha uma Santa Casa, a gente ia muito na Santa Casa, sabe. Então a gente lia. Via aquelas coisas, aqueles problemas. WC: //Hum... Sei... Hum...// IM: Então eles tinham um médico muito bom lá. Então, com ele a gente conversava. Bom, muito consciencioso. AT: Ele que deu essas primeiras informações para a senhora? IM: //É. Foi, foi.// Para todas nós. Para todo mundo lá em Sete Lagoas. Essas mocinhas, sabe? É que os pais nessa época não falavam. WC: Não falavam. É. AT: Aí o pai é que levava vocês ao médico? Para ele... IM: Não. Nós íamos na Santa Casa visitar, passear. AT: Ah! Todas... era comum. IM: Era comum. Todo mundo ia na Santa Casa. [Risos]. Era um passeio como outro qualquer. [Risos]. Então tinha esse médico lá que era muito bom, era muito nosso amigo, lá de casa. AT: Mas alguma amiga disse para a senhora que ele era de confiança, que a senhora podia conversar com ele? Ou a senhora sentiu isso e conversou? IM: //Não... não...// Isso era porque ele era amigo mesmo lá de casa. Era um homem mesmo de muito respeito. AT: Ele então foi a primeira pessoa com a qual a senhora conversou? IM: É. Todo mundo. Eu conversei com as outras, no meio de todo mundo. Todas as amigas. AT: Foi um grupo de pessoas? IM: Foi um grupo assim que ele falava. AT: Ah! IM: Espécie de uma aula, que ele dava. WC: Sei. E os pais tiveram que permitir... IM: Não. Eles nem sabiam. WC: Ah!... [Riso]. Vocês foram por conta própria. IM: É. WC: [...]. Vocês estavam curiosas e conversavam umas com as outras. IM: É. E aí ele explicava. AT: Antes de procurar esse médico vocês chegaram a ler alguma coisa, em alguma revista, algum livro? Que desse alguma orientação? IM: Não. Não tinha isso na biblioteca. Era uma biblioteca muito... como se diz... Parece que ela era da igreja. Então só esses M. Derli, esses romances que tinha. Não dava mesmo. AT: E a sua irmã mais velha? Porque a mais velha é bem mais velha, existe uma diferença de idade bem grande. IM: //Não, essa daí também nunca falou nada não. Ela casou muito nova, já foi constituir família, teve muitos filhos. De modo que não... WC: Vocês não tinham muito contato com ela. IM: Tinha muito. Ela era até nossa vizinha quando nós moramos na rua [...]. WC: Sei. IM: Ela morava... Nós morávamos de um lado e ela do outro. Mas ela não tinha tempo para nada não. WC: E a senhora não se sentia a vontade para conversar com ela? IM: Para perguntar essas coisas não. WC: E com o médico a senhora sentia. IM: //É. É.// Porque estavam muitas, não é? AT: E a senhora foi procurá-lo quando, por exemplo, a senhora teve a sua primeira menstruação? Ou antes de ter, de ter algum problema, a senhora conversou com ele já? IM: Não. Também não. Porque já sabia, então... AT: Então a senhora... Quando a senhora teve sua primeira menstruação, a senhora estava sem informação nenhuma? IM: Eu já estava moça. AT: Já era moça. IM: Já. AT: Ahn... Então já sabia... [...]. IM: //Já...// AT: Porque muita gente fica insegura, não sabe o que está acontecendo. IM: Eu acho que eu já estava até aqui no colégio. WC: E aqui no colégio havia informação sobre isso? IM: //Não. Não.// WC: As irmãs davam alguma aula de ciência que tratasse... IM: //Não. Não.// WC: Sobre isso. IM: Não. Não davam nada. WC: Nada... IM: Não falavam nada. AT: As aulas de biologia não incluíam isso. IM: Não. AT: Nem na escola lá em Sete Lagoas também não? IM: Não. Também não. WC: Lá também era mais primário. IM: //É... Lá era primário.// É. AT: É, porque é estranho, porque aqui no Sagrado Coração eles estavam formando também professoras, não é? IM: É... Mas não tinha não. WC: Não. AT: Na biblioteca também não tinha nenhum manual. IM: Não. Não tinha nada, nada. WC: Vocês procuravam e não achavam? IM: Nada. [Risos] WC: Mas procuravam? [Risos] IM: Não. Porque nem dava tempo. WC: [Riso]. Nem dava tempo? IM: É porque tinha os horários muito rígidos. AT: Bom, agora ainda sobre o período que a senhora estava em Sete Lagoas. Essas perguntas são referentes a entrevista anterior. Agora, sobre a entrevista anterior tem um tópico que nós passamos e deixamos ele de lado depois. Que foi a coisa dos namorados que a senhora teve lá até vir para cá estudar no Sagrado Coração. IM: Ah! Mas foi um namoro à toa. Namoro de menino, só. AT: É. Como é que foi isso? IM: Nem me lembro, sabe? [Risos] Porque namoro de grupo, um para lá outro para cá. Achava que era namoro e não era nada. WC: Só olhava assim... IM: É. Só olhava. WC: Na hora do recreio... IM: //É...// WC: Na missa... Ele estava sentado lá do outro lado. [Risos] IM: //É...// Encontrava de longe assim. WC: Então dentro do grupo a senhora já tinha essas paquerinhas. IM: Mas de longe. WC: Só de olhar. IM: É. AT: Antes de vir estudar aqui no Sagrado Coração, a senhora chegou a ter um namorinho mais sério? IM: Não. AT: Só de olhar. IM: Só de olhar. AT: Só de olhar, a senhora teve mais de um namorado? IM: Não. Acho que tive uns dois só. AT: Só de olhar. IM: Só de olhar. [Risos] WC: E a senhora tinha alguma paixão platônica por algum rapazinho? IM: Não. Não tinha não. Eu gostava deles todos. Colegas todos lá... WC: Todos como amigos. IM: É. Como amigo. AT: Menos esses que a senhora ficava olhando, não é? IM: É. [Risos]. Eles eram colegas também, então era a mesma coisa. Às vezes eles nem sabiam. WC: Ah, é! [Risos]. A senhora estava olhando mas eles podiam não... IM: //É... Podia não entender.// WC: E a senhora chamava isso, era comum chamar isso de namoro? IM: //Era.// Ah! Para nós era. AT: [Risos] Dona Isaura, e voltando aqui. A fita da gente acabou na última entrevista, e a senhora estava falando da escola, do Sagrado Coração e que era uma escola que tinha professoras e professores também. IM: //É...// AT: Eram umas irmãs e outras pessoas de fora que davam aula no colégio. IM: É. WC: E que tinham... Esses professores, eles davam aula, a senhora se lembra mais ou menos quais eram as matérias? Que tipo de assunto? IM: //Olha, eu me lembro que esse doutor Cristóvão// ele dava aula parece que de geografia. WC: Cristóvão Colombo. IM: //Mas não me lembro bem.// É. Dos Santos. Mas não me lembro bem. Agora, o que dava História, não sei se ele era Geografia e História era o irmão dele. WC: Sei. IM: Doutor... Não é Lúcio não. Era um outro. Eu não me lembro o nome. Eram três irmãos, Doutor Lúcio, doutor Cristóvão e um outro. E esse doutor Franzen de Lima, era Português que ele dava. E as irmãs também tinham umas aulas [...]. WC: Que elas... IM: Tinha aula de Ciência, tinha de Francês, naquela época. Que elas davam Francês. WC: Hum, hum. IM: Tinha uma que era da França. WC: E tinha professoras que não fossem irmãs? IM: Não. Professoras não. Era só professores. WC: Ahn... Sei. IM: Eram só as irmãs e os professores. WC: E outra coisa que a senhora falou também é que, às vezes, vocês saíam com as irmãs, iam de bonde... IM: //De bonde...// WC: Buscar as outras meninas. IM: As meninas externas. WC: Pois é. IM: Era uma. Cada vez ela levava uma. WC: Uma das meninas... IM: //Uma das meninas.// WC: Para poder apanhar. Era na parte da manhã então, saía de bonde... IM: //Na parte da manhã.// É. WC: E ia buscar as garotas. IM: E depois ela ia levar. Aí ela ia sozinha. WC: Sozinha. AT: E eu me lembro que nós perguntamos para a senhora, do impacto que teve Belo Horizonte, da primeira vez que a senhora veio, que era a época que a sua irmã estava no Conservatório. E a senhora me disse que vocês não andavam pela cidade, que iam direto para a Floresta. IM: É. AT: E a senhora disse também que a senhora foi conhecer Belo Horizonte na época em que saía com as irmãs de bonde para buscar as meninas. IM: //É. Aí conheci o centro.// Assim, só de bonde. Não podia olhar muito para os lados, que as irmãs não gostavam, não é. AT: Não podia olhar? [Risos]. Pois é, a senhora me disse que... E o que a senhora achou de Belo Horizonte? Nesses passeios de bonde que a senhora fez? Pelo menos os lugares que a senhora passava. IM: //Eu achava muito bonito//, fora do comum. Porque Sete Lagoas era muito pequeno. AT: Sei. IM: Não tinha movimento nenhum. E aqui era grande, não é? Para nós aquilo era uma... gigantesco que fala, não é? AT: É, não é? IM: E de bonde. Bonde, era muito bom. AT: O bonde passava mais ou menos por onde, a senhora se lembra? IM: Saía lá da Professor Morais. Ele vinha, dava volta, dava volta. Eu não me lembro por onde ele entrava, eu sei que ele saía na Paraúna. Paraúna é a Getúlio Vargas. AT: Sei. IM: Ele dava volta e já entrava na Professor Morais outra vez. AT: Ahn... IM: Dava a volta por cima. AT: //Mas ele passava aqui// ele vinha pela Professor Morais, passava pela Praça de Liberdade... [...]. IM: //É. Praça da Liberdade.// AT: Ahn... IM: Passava. AT: Passava aqui próximo o... IM: //Até tem as casas de bonde, até.// Passava, muitas vezes ela descia, também ela descia... você tem... lá ainda tem essas coisas. Lá na rua Carijós. Descia, pegava a avenida lá embaixo na rua Carijós. WC: Passava aqui na Afonso Pena e ia até lá embaixo na... IM: //É. Ia até a Carijós e voltava.// Agora, como voltava é que eu não me lembro. Porque ele tinha que fazer isso, não é. AT: Fazer retorno. IM: Retorno. Não me lembro por onde. E depois eu morei, quando nós mudamos para aqui, tinha bonde, eu também não me lembro. AT: // Em 36, que a senhora mudou... IM: //É. Aqui já passava bonde aqui.// AT: Na rua da Bahia, tinha ponto. O Bar do Ponto. IM: //É... É...// É. AT: Do bonde, não é? IM: É. AT: Ali onde tem aquele mercado de flores. IM: É. Eu acho que ele... aqui na João Pinheiro ele não passava não. Não sei. Mas passava por causa da... Passava perto do... Descia a Cristóvão Colombo, descia ali. Só se tinha outro trajeto, não é? AT: É... Não localiza, não é. IM: //Eu não me lembro, viu.// Engraçado, também. E eu já morava aqui. Eu sei que ele subia a Bahia. Ah, subia a Bahia. AT: É... Isso que eu imaginei. IM: É. Tanto que eles faziam até uns versinhos. Subia a Bahia e descia... AT: //Subia a Bahia e descia pela Floresta.// IM: //É.// Floresta, não é? //Subia a Bahia.// E passava perto do Palácio aí. AT: Hum, hum. É. A hora que ele contornava a Praça da Liberdade. IM: É. AT: Justamente. IM: É. AT: E a senhora se lembra o que a senhora via nesse projeto? IM: Não. Não me lembro. Eu me lembro que eu via... Única coisa que eu me lembro muito é do Parque. O Parque Municipal, que era enorme. Eles tiraram muito dele. Era bem maior, não é? IM: Bem maior. É. AT: Vocês chegaram a ir lá? Passear? IM: Chegamos a passear. Porque o domingo que a gente saía, não é. Ia era no Parque Municipal. Saía com essa família lá da Floresta, ia no Parque. Era muito bonito. Bonito mesmo. WC: A Praça da Liberdade. A senhora se lembra? IM: Me lembro das roseiras, só. WC: É? IM: É. Naquela época, não é. E depois que nós mudamos para aqui também. Eram roseiras lindas. Muito bonitas. E tinha... Parece que tinha coreto, não é? WC: Tinha. IM: Onde eles tocavam. WC: Aqui as pessoas... Uma banda tocava música no coreto. IM: //Uma banda tocava no coreto.// WC: Certo. IM: Aos domingos. AT: No coreto do parque não havia banda tocando não? IM: Não. Não me lembro. Isso eu não me lembro. WC: No parque o que a senhora gostava? IM: Ah! Gostava até... Porque tinha muito... muitos pássaros, não é? Tinha muita coisa presa. Depois eles tiraram tudo. Levaram para o Zoológico. AT: //Um mini-zoológico.// IM: É. Tinha. Muito bonito até, sabe. WC: Tinha pontes... IM: //Tinha. É...// Ainda tem uns pedacinhos, não é? AT: Eu me lembro de ter visto um velódromo, que havia no parque. Fizeram até uma corrida. WC: //A senhora não chegou a...// IM: Era grande, aquela lagoa era bem maior, não é? WC: É. A lagoa que tem lá no parque era. Acho que sim. AT: Eu me lembro desse velódromo. Acho que era de bicicleta que eles faziam corridas. Na época nobre do parque. Eu não me lembro direito. Lembro só... IM: É. Porque depois eles tiraram aqueles dois, aqueles dois teatros que tem lá, não é? Aquele pedaço era todo do parque. Era tudo florido ali. AT: Ele ia até a Santa Casa, não é? IM: //É... É...// AT: Até a Santa Casa era tudo uma área vazia. IM: É. Uma área só. AT: De parque, com árvores. IM: Aí depois foram tirando, tirando, ficou só um pedacinho. AT: Hum, hum. E era comum... FIM DO LADO A DA FITA 2 Entrevista - fita 2 - lado B AT: A senhora saía uma vez por mês para passear? IM: É. Com essa família lá da Floresta. AT: Sempre? Todos os meses essa família buscava a senhora no Sagrado Coração? IM: //Buscava.// E levava à tarde. Buscava de manhã e levava à tarde. AT: Ah! Só passava o dia. IM: Só passava o dia. AT: Não era o final de semana não. IM: Não... não... Sábado nós saíamos quando íamos a Sete Lagoas. Saía sábado, passava o domingo, vinha segunda cedinho, não é? Já tinha aula. AT: Hum... Mas não era sempre que a senhora fazia isso? IM: Não. Sete Lagoas não era sempre não. AT: Por que não? IM: Porque ficava muito caro, não é. Na época. AT: Ahn... Certo. Então havia essa possibilidade de sair todos os finais de semana. IM: É. Não. Todos finais de semana não. Uma vez por mês... AT: //Por mês.// IM: Se eu não saía por aqui, é que eu ia lá, sabe. AT: Ah! Sei. IM: É. AT: Não podia. IM: Só uma vez por mês que tinha saída. Parece que era o primeiro domingo de cada mês. AT: Sei. E as famílias das outras meninas internas no colégio iam lá também buscá-las? IM: Iam buscar. Iam. AT: Alguma vez a senhora foi convidada por uma dessas amigas para acompanhar a família? IM: Não. AT: Não foi, ou porque não podia? IM: //Não fui não.// Também não podia e nunca fui convidada também não. AT: Certo. A senhora também nunca convidou ninguém. IM: //Tinha gente de Itabirito.// Tinha gente de Ouro Preto. Tinha de... Sete Lagoas, parece que tinha outra, sabe? AT: Sei. IM: Tinha externa e tinha interna. AT: Internas é que eram umas cem, não é? IM: É. AT: Que a senhora nos disse. IM: Foi. E... mais... Tinha as de fora, não é? AT: Era mais alunas de fora, internas. IM: É. Acho que eram dois bondes. De alunas externas. Eram dois bondes. AT: O bonde era exclusivamente para buscar as alunas? IM: //Buscar// as alunas. E tarde ele ia lá, buscava a irmã e ia entregar as meninas. AT: Não pegava mais nenhum passageiro? IM: Não. Não. Porque o bonde era delas. Exclusivo da escola. AT: //Da escola.// WC: Bonde do Sagrado. IM: É. [Risos]. Naquela hora o bonde era delas. AT: A senhora nos disse que a sua irmã mais nova, a Geralda, veio para cá e estudou durante dois anos lá no Sagrado Coração, junto com a senhora. IM: Lá. Foi 27 e 28. WC: É. Na época então, as duas passavam o domingo com a família lá da Floresta. IM: //É. Passava.// WC: Ou então as duas iam para Sete Lagoas. IM: É. WC: Ela saiu do Sagrado Coração e foi estudar no Imaculada. IM: //No Imaculada.// WC: Ela foi interna também, lá? IM: Foi interna no Imaculada. WC: Ah! Sei. E foi logo depois que ela saiu... IM: Logo depois que saiu ela veio para o Imaculada. WC: Para o Imaculada. Aí iam as duas passar novamente o fim de semana... IM: //Aí vinha aqui... É...// WC: //Certo.// E outra coisa que a senhora tinha nos dito na entrevista passada, é que quando vocês iam para Sete Lagoas, nessa época vocês já iam de ônibus. IM: É. De ônibus. WC: E onde que era a rodoviária? Onde se tomava... IM: //Naquele lugar, sabe...// Onde tem agora aquele pirulito ali. WC: //A jardineira.// IM: Era ali. WC: Na Praça Sete. IM: Na Praça Sete não, para lá. O Pirulito não. Aquilo que eles fizeram ali, o que que é? WC: Na praça Rio Branco. Que era uma praça... IM: //Na Praça Rio Branco. Era ali.// Era na Praça mesmo. Não tinha rodoviária não. Naquele tempo não. Os ônibus paravam ali. WC: Ônibus para todas as cidades. IM: //Todas cidades.// Toda cidade que tinha ônibus, parava ali. WC: Então a senhora fazia o trajeto do bonde mesmo. IM: Do bonde mesmo. WC: Da escola... IM: Da escola ia para lá e tomava... WC: Já descia na praça. Para pegar o ônibus. IM: É. Naquele tempo era jardineira que chamava, não é? WC: É... [Risos]. A senhora falou com a gente que era dura... IM: [Riso]. Dura mesmo. É. [Risos]. WC: Demorava... IM: É. [Risos]. Acho que era quatro ou cinco horas. Que tempo. WC: Falou que as estradas eram difíceis. IM: É. WC: E sempre vinha alguém para buscá-la. IM: É. Vinha. AT: E nesses finais de semana que vocês passavam aqui, e que vocês iam passear na Floresta. Quais são suas lembranças da cidade, dos lugares onde a senhora ia passear? IM: Eu me lembro, engraçado, é só da igreja São José... E do Parque. Eu acho que é porque essa família não gostava muito de sair, não é. Então, ou trazia no parque, ou ficava dentro de casa, lá na Floresta. AT: Eles eram o que de vocês? IM: Eram amigos muito íntimos. Eles moravam para lá de Sete Lagoas. AT: Sei. IM: Moravam para lá de Inhaúma. Então era amigo desde aquele tempo do meu pai, da minha mãe. A mãe era muito amiga. Era uma dona gorda. E então nós éramos muitos amigos. Então eram os únicos amigos que nós tínhamos em Belo Horizonte, que podia nos buscar. Então [Nicolau France], ou ele ou então uma filha que ele tinha. Era uma filha de criação. É que ia nos buscar, sabe? WC: Ahn... Na escola. IM: É. AT: Seu pai tinha que autorizar... IM: É. Foi autorizado. AT: Autorizar as pessoas que pudessem buscá-las na escola. IM: //É... É...// AT: Por que a igreja São José? Eles só freqüentavam a igreja de São José? IM: Não. Eles até eram espírita. Mas é porque é um lugar bonito, aquele alto, não é? Não tinha... porque do lado de lá era a igreja batista. Batista não, é metodista, não é? AT: Onde hoje é o Cine Acaiaca? IM: É. Ali era igreja metodista. E do lado de cá era... como aquela igreja era muito bonita, a hora que a gente ia tomar o bonde. Porque tinha um bonde que ia para lá também, para a Floresta, não é? Então na hora de tomar o bonde passava por ali. WC: Hum... AT: E era visível também. Por causa dos prédios que não tinha. IM: //Muito. Por causa da altura.// É. Não tinha, não é. Não tinha tanto prédio. Não tinha do lado de lá na avenida Afonso Pena, não tinha aquele prédio que é Normandi. Aquele hotel. Nem sei como é que chama aquele hotel. WC: Na frente. IM: Na frente da igreja São José assim, do lado de lá. Na Tamoios ali. WC: Acho que é Normandi. IM: Não tinha ali não. Não tinha aquele não. AT: É. Tinha poucos prédios. IM: Eram poucos prédios. AT: E da Floresta. O que a senhora se lembra? IM: Eu me lembro só disso. Que as casas eram no alto. Era morro. Agora não, tudo baixo, não é. Eles aplanaram a rua. Era duro. A gente subia escada para ir nas casas. AT: É? IM: Depois do colégio Santa Maria, passava o colégio Santa Maria. As casas eram todas no barranco. Todas, sabe? Até o final da rua. Passando a igreja, o colégio Santa Maria, todas as casas eram morro. Depois não sei porque, eles fizeram, não é. E agora é tudo no baixo. AT: E nesses finais de semana que a senhora passava lá, vocês andavam pelo bairro, iam a alguma sorveteria, uma confeitaria. IM: Não tinha sorveteria por ali não. AT: Confeitaria. IM: Também não tinha. Não tinha nada mesmo na Floresta. AT: Qualquer coisa assim vocês tinham que vir no centro da cidade. IM: //É, no centro// da cidade. AT: E vocês faziam isso? IM: Não. Não, porque elas não deixavam. AT: Mesmo em companhia deles. IM: Só em companhia deles. AT: Da família. IM: É. AT: A senhora chegou a fazer isso em alguma... IM: Não. Não ia em confeitaria, em nada. AT: Nenhuma. IM: Não. Também não. AT: Nada. IM: Nada. Eles não gostavam não, sabe. AT: Hum... Então, ou passeava pelo bairro ou... IM: //Tinha. Eles tinham...// Uma filha... todos eram meninos, não é? AT: Certo. IM: Mais ou menos da nossa idade, os mais velhos. Acho que eram quatro rapazinhos, e uma moça. Quatro ou cinco, não me lembro bem. Maria José, João, Antônio, Samuel... Esqueci. Teve um outro que nasceu depois que nós formamos, que saímos daqui. Eram cinco homens. AT: E quando vocês não passeavam pelo bairro, vocês ficavam dentro de casa? IM: Dentro de casa. Conversando. AT: Conversando? IM: É. Porque eles não tinham rádio, não tinham televisão, naquele tempo, não é. AT: Ahn... Havia algum jogo que vocês jogavam [...]. IM: //Não, ficava só conversando.// Ou então a dona gostava muito de fazer tricô, a gente ficava olhando ela fazer tricô. [Risos] AT: Aí passava o tempo. IM: //O dia passava rápido.// Porque era um dia só, não é? AT: E nesse período que a senhora estava no Sagrado Coração, pelo que a senhora nos conta, a senhora chegou a passar algum tempo sem visitar os pais. Você chegava a escrever para eles contando... IM: Ah! Escrevia. Escrevia. AT: Hum... E recebia resposta? IM: Recebia resposta, mas custava. Porque as respostas eram abertas, as cartas também eram abertas. AT: Ah! Tinha que ser lido pelas irmãs. IM: Tinha que ser lido. É. Censuradas, não é? Não podia sair nada. [Risos]. Ah!... O colégio era bom, não era dos piores não. Porque tinha muito brinquedo, muita coisa. Então, a gente passava o dia ou estudando ou brincando, conversando no terreiro. Lá falava terreiro, não é? Era um pátio grande, muito grande. AT: Tinha árvore? IM: Hein? Tinha árvores muito bonitas. Tinha jardim muito bonito. As irmãs eram muito caprichosas. AT: Tinha horta? IM: É. Porque ali era muito grande. Aquela Merci, não tem uma Merci do lado de lá? AT: Tem. IM: Na rua Ceará. Aquilo tudo era deles. Era um quarteirão inteiro assim, tudo. Era tudo do colégio, sabe. Eles faziam procissão no terreiro do colégio. AT: É mesmo? IM: É. Essa procissão do corpo de Deus. [ ] Era enorme. Era uma quadra, não é. Era como daqui, dá essa quadra inteira. Sai Aimorés, não é? Essa quadra toda era do colégio. Eles foram vendendo os pedaços. Não sei porque, foi tendo necessidade, não é? Era enorme. AT: //Valorização da região.// IM: É. Tanto que agora só ficou o colégio e a capela, não é? AT: É. Em algum momento vocês fizeram esse tipo de comemoração, algum tipo de comemoração, em que vocês abriam a porta da escola para a comunidade? IM: Não. AT: Nunca foi aberto? IM: Nunca foi aberto. Nada. Só na capela é que podia ir todo mundo. AT: //E houve...// IM: Ou então as famílias que vinham visitar. Vinha para a sala, as irmãs ficavam também sentadas lá, assistindo as conversas. [Risos] AT: Junto com as famílias? IM: É. Com as famílias. Elas eram muito rigorosas. AT: Mas com as próprias famílias? IM: É. Com as próprias famílias. AT: É. Depois do banho de camisola, não é? [Risos]. Lá também havia horta? IM: Horta. É. Tudo era mantido dentro do próprio colégio. AT: Certo. IM: Elas faziam pão. Faziam tudo. Elas cozinhavam... AT: Hum... E vocês ajudavam? IM: Não. Ninguém ajudava. AT: A manutenção das hortas. IM: Não. Eram as irmãs que faziam e tinha os empregados. AT: Sei. E a senhora falou para a gente que quando a senhora saiu de lá, a senhora foi dar aula. Nesse curso então, havia as disciplinas que preparavam as moças para lecionar? Como didática, algumas noções de psicologia? IM: Não, não. Não. Porque aí já era.... AT: //Nada.// No Instituto. IM: No Instituto de Educação. Já era no segundo grau. Formava no primeiro grau e no segundo. AT: E por que a senhora... A senhora chegou a comentar conosco porque a senhora não foi. Mas eu queria que a senhora explicasse melhor isso para nós. Por que a senhora não quis continuar os estudos no Instituto de Educação. IM: Ah, porque já era muito difícil. Porque já tinha que ficar externa aqui. AT: Sei. IM: Não... não podia mais. Depois que eu mudei para aqui eu já empreguei logo. AT: Sei. Mas então a senhora não podia porque o custo era alto? IM: Era muito alto. Muito alto, é. AT: E lá no Sagrado Coração não era tão caro assim não? IM: Não. Não era. Era caro, mas ali era interno. E cá a gente tinha que ficar externa, era muito mais caro. Ficava muito mais caro. Porque tinha que morar em pensão. Tinha, não é... WC: Cuidar de alimentação... IM: É. Eu fiquei lá. O colégio, por exemplo, você entra com um uniforme no primeiro dia do ano, e aquele uniforme dava até o fim do ano. Porque são seis blusas, duas saias azul-marinho, dava para o ano inteiro. Porque a gente morando assim, não podia obter. Não dava, sabe. AT: A senhora acha que se pudesse, a senhora teria continuado os estudos? IM: //Teria continuado.// É. O segundo grau. AT: A senhora tinha essa vontade? IM: Tinha. Tinha vontade depois de fazer... de terminar o ginásio, não é? Mas depois acabou a vontade. [Riso] WC: Mas essa vontade, ela visava a ser professora ou algum tipo de profissão? IM: //Não. Eu não gostava de ser professora, não.// WC: Não. IM: Era para continuar só, sabe. WC: //Os estudos.// IM: Porque professora, eu nunca gostei de dar aula, não. Eu dei aula um ano e seis meses, mas não gostava não. WC: É. Isso a senhora falou para a gente. Lá em Sete Lagoas. AT: E como a senhora conseguiu esse emprego de professora lá em Sete Lagoas? IM: É porque era... esse daí era da prefeitura. WC: Sei. IM: O prefeito que abriu lá uma escola. Eram duas professoras só. Era eu e uma outra, uma de manhã, a outra de tarde. AT: Mas ele pediu currículo de vocês, para ver as notas, para ver ser vocês tinham capacidade? IM: //Não. Não.// Nem viu as notas. AT: Por contatos. IM: É. AT: Das famílias? IM: É. Por amizade, não é? AT: Certo. IM: Não foi por nota, nem coisa alguma. WC: Então a senhora ficou um ano e seis meses em Sete Lagoas. IM: Foi em Sete Lagoas. Foi. AT: E aquela nomeação... IM: //Depois a escola fechou.// Sabe? Fechou. Aí, acabou. WC: E aí a senhora foi trabalhar no comércio. IM: Não. O comércio já foi aqui. WC: Ah! Então a senhora não trabalhou no comércio. IM: Não. Aí eu não trabalhei mais. AT: E o seu pai era comerciante. IM: Era. AT: Ele era comerciante de que? IM: Era varejista. Tinha de tudo. Tinha fazenda, tinha mantimento, tinha tudo. WC: E a senhora não pensou em ir trabalhar com ele na loja dele? IM: Não. Não, porque ele tinha outros empregados. Era só homem na loja. WC: Ah! Sei. IM: Não dava para mulher não. AT: A família nunca ajudou o seu pai na manutenção da loja? IM: //Não. Não.// Na manutenção da loja não. AT: E a sua mãe desenvolveu alguma atividade, para complementação da renda familiar? IM: Não. Não, era só em casa, que ela fazia as coisas. AT: Ela nunca se dedicou a nenhuma atividade. IM: Não. AT: E ela estimulava vocês a terem uma profissão? IM: Falava que devia de ter uma profissão, mas em Sete Lagoas não dava. Não dava para a gente, emprego. Tinha muita coisa para empregar e tudo, mas é muito difícil. AT: A senhora... Fazendo uma cronologia, a senhora termina o curso aqui do Sagrado Coração com uns dezoito anos mais ou menos? IM: É. AT: Não é isso? IM: É. AT: Volta para Sete Lagoas, trabalha um ano e meio e... IM: Voltei em 31, 32 eu trabalhei lá. E depois fiquei até 36. AT: //Os quatro anos...// IM: Sem trabalhar. AT: //Sem trabalhar.// A senhora não chegou a dar aula particular em casa? IM: Não. Não. AT: Não. Ficava só ajudando... IM: //Em casa.// AT: Os afazeres domésticos. IM: //Os afazeres domésticos.// É. AT: Certo. IM: Nós arrumávamos casa, nós é que fazíamos isso, sabe. A empregada era só de cozinha. AT: Ah! Sim. A senhora já falou isso. WC: Ia ao cinema... IM: É. Ia a cinema, passeava, não é? Andava... WC: Encontrava os amigos... IM: É. [Risos]. WC: Aí as irmãs começaram a namorar, nessa época. E a senhora? IM: Eu também não gostava muito não. WC: Não... [Risos]. IM: É. A outra, quando nós chegamos ela já era casada. Ela casou... no ano que nós viemos ela casou. WC: A mais velha. IM: //A mais velha.// WC: De vocês três. IM: //É.// WC: A senhora foi para assistir o casamento dela? IM: //Fui. Fomos.// Fomos e voltamos. Acho que ela casou em junho, não tenho certeza, não. Ou foi na época de férias, não é? WC: Hum... E havia festa para comemorar o casamento? IM: Não. Foi só aquela festa dentro de casa mesmo. Teve só doce, doce roceiro. [Riso]. WC: Hum... [Risos]. Os parentes de Inhaúma foram no casamento dela? IM: //Foram. É. Só os parentes// e os amigos, não é? WC: Lá de Sete Lagoas. IM: //De Sete Lagoas.// A família do rapaz. AT: Teve que pedir a mão da noiva? IM: //É... É.// [Riso]. WC: Todos esses protocolos? IM: Teve essas coisas todas. AT: E havia dama de honra naquela época? IM: Havia. Mas essa daí... nós não tivemos. Ela não teve. Havia. Nesse casamento dessa primeira... Minha primeira professora, ela teve uma dama de honra que foi uma maravilha. Foi um casamento e tanto. Ela casou com um médico. Muito bonito o casamento, lindo mesmo. AT: Todas as moças casavam no civil e no religioso. IM: É. AT: E faziam enxoval? IM: Fazia enxoval. AT: Todas as moças? IM: Todas as moças tinham que levar o enxoval. AT: Não. E mesmo de solteira. Porque muitas senhoras já colocaram não é... WC: //É. Muitas famílias// têm esse hábito de ir fazendo os enxovais das moças. AT: Às vezes as moças nem tem namorado e eles estão fazendo. IM: É. Mas lá em casa nós não fazíamos isso não. AT: Não? IM: Não. Só mesmo na época. AT: Na época mesmo de casar é que... IM: Fazia. AT: Comprava pronto o enxoval ou fazia? IM: //Não. Fazia.// Fazia, mandava fazer. AT: Os lençóis... IM: É. Os lençóis, fronha, não é? AT: //Toalha...// Hum. IM: Não. Toalha comprava pronta. AT: Já encontrava pronta. IM: Já. AT: E esse material era comprado aqui em Belo Horizonte? IM: Parece que ele vinha de São Paulo. AT: Já vinha direto de São Paulo. IM: É. Mas as lojas de Belo Horizonte... de Sete Lagoas já vendiam. AT: Ahn... já tinha tudo. IM: É. Comprava mesmo nas lojas. AT: E seu pai que era varejista, de onde ele comprava o material para abastecer a loja? IM: Tinha um senhor que era sócio dele. Esse é que abastecia, que comprava. Que comprava aqui em Belo Horizonte, comprava em São Paulo, não é? Era esses... como é que eles falavam? AT: Viajantes. IM: Viajantes. Que iam, vendiam as fazendas e depois mandava. Mandava de trem de ferro. AT: Então muita mercadoria chegava pelo trem. IM: //Chegava de trem.// AT: Seu pai saía para viajar, para fazer essas compras? IM: Não. Era o outro. AT: Sempre o outro. IM: É. Era o outro. AT: Hum... Seu pai era de viajar, dona Isaura? IM: Não. Não gostava não. AT: Ele não. IM: Não. AT: E sua mãe? IM: Mamãe gostava, mas não podia, não é? Porque com os filhos... [Riso] em casa, não podia. AT: E quando a senhora voltou para Sete Lagoas, a senhora vinha aqui em Belo Horizonte algumas vezes? Visitar essa família da Floresta ou alguma amiga que tinha ficado por aqui? IM: Não. Vinha só visitar essa família da Floresta, mas assim mesmo era de ano em ano. Morava na Floresta. Depois eles mudaram para o Barro Preto. AT: Era alguma data específica? IM: Não. Vinha um dia comum, qualquer. Vinha de manhã, voltava de noite. AT: Fora essas visitas, vocês mantinham contato com eles em por carta, com os outros parentes também que vocês tinham em Inhaúma. IM: Os outros iam muito em Sete Lagoas. AT: Aí não precisava fazer... IM: //Não precisava.// É. AT: E, vocês de Sete Lagoas, também iam visitá-los. IM: //Ia muito, é.// Lá em Inhaúma. WC: Nas viagens. IM: É. AT: Então suas viagens eram praticamente resumidas a Sete Lagoas-Inhaúma. IM: //Aí, já tinha ônibus, não é, para lá. Já tinha...// WC: Já não era mais carro de boi, não é?, dona Isaura. [Risos]. E nessa época que a senhora voltou para Sete Lagoas, depois de 30. A família já tinha rádio? Comprou rádio? IM: Não. WC: Não... IM: Eu não me lembro quando comprou rádio lá em casa. Porque não tinha rádio, não tinha nada. WC: A senhora ouvia rádio na casa de alguém? IM: Não. Também não. Eu não me lembro de rádio em Sete Lagoas. WC: Ahn... E radiola? IM: //Ah!// Radiola nós vimos uma vez na casa de um alemão, que tinha essa radiola grande, como é que chama... É microfone. Como é que chama? WC: É gramofone. IM: Gramofone. Eles tinham. Então todo mundo, toda mocinha ia para lá. [Risos]. Então no Natal, eles faziam Natal. E todo mundo ia para lá. Ela chamava Frida. Alemã. E ele eu me esqueci o nome. Era a alemã velha, com o alemão mais velho e os dois filhos. Ele fazia o Natal. Então todo mundo gostava. WC: //Tocava música...// IM: Tocava. Aquelas músicas de Natal alemãs. WC: Ahn... IM: Eles falavam mesmo a língua alemã. De modo que a gente ia para lá para assistir o... [Risos]. WC: Festa de Natal dos alemães. AT: E outras famílias lá em Sete Lagoas comemoravam o Natal também? Fora esses alemães. IM: Eu não me lembro de Natal lá em Sete Lagoas, para falar verdade. WC: //A não ser na casa// dos alemães. IM: //Esse dos alemães.// É. Não me lembro. Eu acho que, com certeza, eles comemoravam em casa, assim, é. Não tinha essas festas de árvore de Natal, não é?. Que fazem agora até na igreja. AT: Como que era comemorar o Natal? IM: Comemorava o Natal com... fazendo o presépio, não é? Lá em casa tinha presépio. Todas as casas tinham presépio lá em Sete Lagoas. WC: Era uma festas mais religiosa mesmo. IM: Mais religiosa.// Tinha na igreja, o presépio, fazia. WC: Havia troca de presentes? IM: Não, não. Era só mesmo religiosa. WC: Fazia alguma ceia à meia-noite? Algum almoço? IM: //Também não.// Não. Não. WC: Nada. IM: Nada. Era comum. Era simples. Era como um domingo qualquer. WC: E montava o presépio apenas no dia 25 ou ele ficava exposto alguns dias? IM: Não. Era dia 24 que ficava pronto, e aí ele ficava até o dia 6 de janeiro. WC: O dia de Reis. IM: //É. O dia de Reis.// É. WC: Justamente. AT: Aqui no Sagrado Coração também era o mesmo procedimento? IM: Era. Exatamente. WC: Não havia árvores de Natal, nem nada. IM: Não. WC: Apenas o presépio. IM: Era. É. Porque Natal nós estávamos em casa, não é? Talvez tivesse, mas quando a gente ia para casa já tinha feito o presépio. Porque aí eles faziam o presépio cedo, na igreja. AT: Agora, relativo ainda a esse período que a senhora estava em Sete Lagoas, a senhora vai ficar lá até seus vinte e três, vinte e quatro anos. A senhora vem para cá em 36. IM: Foi. AT: Nessa época, a senhora chegou a ter algum namorado quando a senhora voltou para lá? IM: //Não.// AT: Com seus dezoito anos. IM: Não. AT: Nada, dona Isaura! IM: Nada. AT: A senhora deve ter sido uma moça bonita, hein? IM: [Riso]. Não tinha namorado não. AT: Não tinha porque a senhora não queria. IM: Não sei. Eu era muito esquisita. [Risos]. AT: Por que a senhora fala que era esquisita? IM: É. Não gostava muito não. Andava muito, passeava muito assim, sabe. Até tinha uma amiga que era muito... Essa até mora aqui em Belo Horizonte, Filomena. Muito minha amiga. Nós passeávamos muito na rua. Ela morava perto, também. AT: Porque nesse período a senhora ficou boa parte dele sem trabalhar. IM: Desde o retorno. AT: Então, a senhora tinha um tempo para olhar para os rapazes da cidade. Ou não tinha tantos rapazes assim à sua altura. IM: Não. Não tinha. [Risos]. Não. Não é à altura não, não tinha muito não. Engraçado, toda vida teve mais mulher do que homem, não é? E cada um estava com a sua namorada. AT: Não tinha ninguém sobrando. IM: Não. AT: Acho que a senhora não procurou direito. IM: É. WC: Ou então a senhora não estava muito interessada em olhar. [Risos]. Para ver se [...]. AT: A senhora não teve nenhuma paixão platônica? IM: Não. Assim platônica não. [ ] WC: Exposta mesmo. [Risos]. AT: Quando teve foi declarada? IM: Foi. Acabou logo e passou, não é. AT: Foi nessa época mesmo. IM: Não. Já foi aqui em Belo Horizonte, mas acabou logo também. AT: A paixão é que acabou ou o namoro não deu certo? IM: //É a paixão acabou e o namoro não deu// certo. Ele casou, pronto, acabou. AT: A senhora que terminou com ele. IM: Não. Ele que terminou. AT: Ahn... Mas a senhora gostava dele. IM: É. Tinha aquela amizade. Depois acabou, passou a época. AT: Ahn... Então em Sete Lagoas não teve ninguém. E aqui em Belo Horizonte teve esse. IM: //Teve esse.// É. AT: Como que era o nome dele? IM: Ah! Não sei não. AT: Nem lembra. [Risos]. A senhora disse que passou a época, por que? IM: Porque passa uai! Fica velha, não tem mais época de namoro não. AT: Mas a moça fica velha com quantos anos? O que a senhora acha? IM: Ah! Com quarenta anos já é bem velha, não é? AT: Já é bem velha. IM: A moça já está velha. AT: É. Mas então até os quarenta é tempo não é? IM: É. AT: E esse namorado, por exemplo. A senhora devia de ter quantos anos? IM: Ah! Mas aí eu trabalhava. Aí foi logo que eu mudei para aqui. AT: Então. Então, a senhora era bem nova. IM: Mas aí, eu fui trabalhar. A gente trabalha no comércio, trabalha muito, não é? No comércio eu trabalhava no escritório. Trabalhava de oito às seis da tarde. Ia em casa para almoçar, voltava. Depois eu fui para uma fábrica de macarrão. Trabalhava no escritório. Ali na rua Carijós, não era rua Carijós... Tamoios. Trabalhei lá muitos anos. Depois que eu... Em 47 eu vim para o Instituto. AT: Ah! Para o IAPAS. IM: É. Não, INPS. AT: INPS, é. IM: Não. É. Passou para INPS, mas quando eu vim para o Instituto ele era dos Carroceiros. Era IAPETEC. Motoristas e carroceiros.// WC: Hum... Antes da gente... IM: //Antes// eu trabalhei no comércio. WC: Antes da gente chegar aqui no comércio. A família vai mudar para cá em 1936. IM: É. AT: Por que a mudança de Sete Lagoas para Belo Horizonte? IM: Porque nós não arranjávamos emprego lá. Nós todas arranjamos emprego aqui. Eu e... Aliás, nós duas, eu e a minha irmã. AT: É, porque a outra ficou lá, a casada ficou morando lá. IM: Ficou morando lá. As duas casadas. AT: //Ahn... E quem veio para Belo Horizonte?// IM: Eu, minha mãe. E meu pai veio depois. AT: Sei. IM: Ficou lá organizando as coisas e depois ele veio. AT: Mas era importante que vocês trabalhassem? IM: Era. Era, porque nessa época não tinha mais nada. Tinha acabado quase o dinheiro todo. Então a gente trabalhava, tinha que trabalhar. WC: Mas não se pensou na possibilidade de dispensar os empregados da loja e vocês ficarem ajudando? IM: //Não. Aí vendeu a loja.// Vendeu a loja, vendeu a casa, e nós mudamos para cá. WC: A decisão de mudar para cá. Vender a loja. Ela foi uma decisão tomada em família ou foi seu pai que tomou? IM: Ele que tomou, com o outro sócio. Porque o outro sócio queria, então acabou. Acabaram tudo. Acabou com tudo. WC: Até aonde a senhora sabe, parece que foi o sócio que quis dissolver essa... IM: //É.// Aí teve que terminar. Terminou, passou para outra pessoa. WC: Então seu pai sozinho não tinha como levar o negócio adiante. IM: //É. Não tinha.// WC: E ele não pensou em ficar por lá mesmo? IM: //Não.// Não dava. Sete Lagoas era muito pequeno, sabe? Não dava para comércio, outras coisas. A pessoa já está mais velha, não dá mesmo. WC: //Hum...// Ah! Então veio a senhora, a dona Geralda e a sua mãe. IM: É. WC: Mas vocês vão morar aqui aonde? IM: Na rua Goitacazes. Nós moramos ali com Mato Grosso. AT: //Numa casa?// IM: É. Numa casa. AT: E ficam as três. IM: Ficamos as três. AT: E quando o pai da senhora vem é mais ou menos que ano, a senhora se lembra quanto tempo que foi? IM: //Eu não me lembro...// Não, porque ele vinha todo sábado. AT: Sei. IM: E depois ele veio de mudança mesmo. WC: Mas foi algo que demorou? IM: Não. Demorou uns três anos, para vir. Porque aí nós já mudamos para a Augusto de Lima. Moramos ali na Augusto de Lima muitos anos. E da Augusto de Lima nós mudamos outra vez, para o Barro Preto. Do Barro Preto é que nós fomos para a Patrocínio. WC: Sei. Mas... IM: Foi lá que a minha mãe morreu e meu pai morreu. WC: Nesses três anos que vocês ficaram aqui e seu pai lá em Sete Lagoas, o seu pai continuou tendo a loja dele lá? IM: Não, ele aí tinha outro comércio. Outras coisas que ele fazia, que dava algum dinheiro, não é? Mas eu nem sei o que é que ele fazia lá. WC: Sei. Eu me lembro da senhora ter dito que fez um curso de datilografia aqui. IM: //Fiz.// Foi depois que eu vim. WC: Que a senhora veio. A senhora fez o curso depois que a senhora foi se empregar. IM: É. Eu fiz um curso de três meses, depois eu fui empregar com um tal de Seu Napoleão. Ele tinha um escritório. Tinha duas moças que trabalhavam com ele. Lá que eu aprendi. Ele aí me mandou para o cunhado dele, que ele comerciante, atacadista de fazendas. WC: Sei. IM: Mandou para o escritório dele. E aí que eu aprendi mesmo a... escritório, não é? Depois eles fecharam e eu fui para a Vasconcelos, Caetano Vasconcelos. Que era tudo ali na rua Curitiba, um era quase esquina de Tamoios, Tupinambás. Ali na Tupinambás. E o outro era quase... Ali onde é a Mesbla, ali que era o Caetano Vasconcelos. Era casa de fazenda também atacadista. WC: Caetano Vasconcelos? IM: É. O nome do proprietário. AT: Então a senhora trabalhou... IM: //Trabalhei com ele três anos.// AT: Em três escritórios. IM: É. Três escritórios. WC: A senhora ficou quanto tempo em cada emprego deste? Cada um. Mais de um ano? IM: Não me lembro... não tenho a menor idéia. Ah! Mais de um ano. Muito mais de um ano. Trabalhei talvez uns dois, três anos. Porque depois eu fui para esse Zé Costa, do Zé Costa que eu fui para o IAPETEC. Em 1947. De 36 a 47 eu trabalhei. WC: A senhora teve quatro empregos? IM: //Quatro empregos.// WC: No escritório? IM: //No escritório.// WC: E a senhora aprendeu o ofício na prática. IM: É. Tive que aprender mesmo. [Riso]. WC: E as condições de trabalho? Como é que elas eram, dona Isaura? Era com carteira assinada... IM: Era com carteira assinada. É. AT: E o salário era razoável, naquela época? IM: //Ah! Naquele tempo era muito.// Era cem cruzeiros, era muito dinheiro. Dava! Dava para comprar. Dava para fazer muita coisa. WC: O que a senhora fazia com o salário que a senhora recebia? IM: Empregava em casa, ou comprava alguma coisa. Aí nós compramos rádio, compramos outras coisas. [Riso]. AT: //Ahn...// E quais eram os lugares aqui na cidade que a senhora ia fazer compras? IM: Tinha uma casa, onde é o Edifício Acaiaca, tinha uma casa ali, Sibéria que chamava. AT: Isso. IM: É, comprava, nós compramos muito ali. Eu comprei muito à prestação, na Sibéria. WC: Tinha o Park Royal que parece que era um lugar chique da cidade. IM: //Tinha o Park Royal.// É. Aí a gente ia só para passear. WC: É. [Riso]. Para olhar as vitrines. IM: //É.// Olhar as vitrines, é. E em frente tinha um tal de Trianon, que vendia bala suíça. WC: //Isso...// IM: Também era muito bonito. WC: //Também...// IM: Era uma suíça. A gente gostava de ir muito ali ver. Olhar, não é? WC: Mas a senhora já trabalhando, a senhora podia entrar e fazer algum lanche nesses lugares. IM: Não. Não fazia não. Só fazia lanche em casa. [Riso]. WC: Não tinha por hábito fazer algum lanche na rua? IM: //Não tinha por hábito.// Não. Foi depois que eu entrei para o Instituto que eu comecei. Não trazia lanche, então fazia lanche. WC: Mas normalmente, nesse período que a senhora está aqui, na década de 30 e 40, até entrar para o Instituto, a senhora, por exemplo, ia ao cinema? Não havia por hábito parar para fazer, conversar sobre o filme? IM: Não. Não. WC: Nada. A senhora não freqüentava nenhum desses lugares da cidade? IM: Não. Era só cinema que a gente ia. AT: Quais os cinemas que a senhora ia? IM: Oh! Tinha esse cinema aqui. Era Metrópole que chamava? WC: Aqui na... IM: Na rua da Bahia. WC: Sei. IM: Nós gostávamos muito de vir aqui.// [...]// AT: //[A senhora tinha o hábito.]// IM: E o Brasil, não é. O Cine Brasil que era... AT: Ah! O Cine Brasil... IM: Que era o chique, não é? Era... naquele tempo era... AT: //Era o chique?// IM: Passava filmes ótimos. Era. Era esse e o Brasil. AT: Tinha sido inaugurado naquela época. IM: É. Tinha sido inaugurado naquela época, então a gente ia nele. AT: E que tipo de filme era? FIM DO LADO B DA ENTREVISTA 2 A aulas, 21, 25 B Bar do Ponto, 27 Belo Horizonte, 1, 10, 13, 14, 26, 35, 47, 48, 52, 53, 55 bonde, 25, 26, 27, 28, 32, 33, 34, 36 C Cine Brasil, 60 E educação sexual, 18 Estado de Minas, 10, 11 F Floresta, 26, 28, 29, 31, 33, 34, 35, 36, 37, 48 G Gramofone, 49 I Inhaúma, 3, 5, 10, 35, 45, 48, 49 N namorado, 23, 46, 52, 54 Natal, 3, 5, 49, 50, 51 P Parque Municipal, 28, 29 R Royal, 59 S Sagrado Coração, 7, 9, 22, 23, 24, 31, 33, 38, 41, 44, 51 Santa Casa, 18, 19, 30 Sete Lagoas, 2, 3, 9, 10, 11, 12, 13, 19, 21, 22, 26, 31, 32, 33, 35, 42, 43, 44, 45, 47, 48, 49, 50, 52, 53, 55, 56, 57 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CENTRO DE ESTUDOS MINEIROS GRUPO DE HISTÓRIA ORAL PROJETO INTEGRADO: “MINAS GERAIS: HISTÓRIA ORAL” POLÍTICA E SOCIEDADE ATRAVÉS DA ENTREVISTADORA: VALQUÍRIA CAMPOS AUXILIAR : ANNY TORRES ENTREVISTADA: ISAURA MARIA DA MATTA LOCAL: BELO HORIZONTE DATA: 27/06/91 Entrevista - fita 3 - lado A AT: Hoje é vinte e sete de junho de 1991, nós estamos entrevistando dona Isaura Maria da Matta. A entrevistadora é a Walquíria. WC: Bom. Nossa terceira entrevista. Hoje eu queria saber da senhora, alguma coisa que ficou faltando ainda, relativo a entrevista anterior. Primeiro, com relação a mudança da sua família de Sete Lagoas para Belo Horizonte. Eu queria saber como que foi feito essa mudança mesmo. A mudança física. Vocês venderam a casa? Vocês venderam os móveis? IM: Não. Os móveis nós trouxemos. Não são estes. Mas nós trouxemos todos os móveis, sabe? Todos não, por que a casa lá era muito grande. E aqui foi menor. Eram três quartos só e não eram quartos grandes. Era na rua Goitacazes. WC: Vocês alugaram um caminhão para fazer o transporte. IM: //Alugamos. É.// Para fazer o transporte. WC: Imediatamente vocês venderam a casa onde moravam. IM: Não. A casa lá já estava vendida. Quando nós mudamos para cá ela já estava. Nós já estávamos morando nela, mas vendida. WC: Ah! Certo. Vocês venderam para poder comprar outra aqui. IM: //É. Vendemos. Para poder...// É. WC: E a loja também já havia sido vendida? IM: //Já.// Já tinha sido vendida há mais de um ano. WC: Então a loja foi vendida... IM: Vendida. É. WC: E vocês ainda moravam em Sete Lagoas. IM: //Ainda moramos na casa.// Ainda moramos em Sete Lagoas na casa da loja. WC: A casa era junto da loja? IM: Era. Era uma casa que ainda existe lá. WC: Ah! Então, quando vocês venderam a loja, vocês automaticamente estavam vendendo a casa. IM: //Vendendo a casa.// É. AT: E o fato de ficar morando lá durante esse ano que a casa já estava vendida, foi por uma concessão ou como que foi? IM: //Foi.// Foi. Foi uma concessão que eles deram. Ficar lá mais de seis meses, até mudar. Porque nós mudamos para a minha irmã acabar os estudos no Conservatório. E eu empregar. Ela também logo em seguida empregou. Ela empregou na Secretaria de Agricultura e eu fui trabalhar no comércio. WC: Ah! Certo. Então vocês ainda ficaram lá. IM: Ficamos. WC: E quando a senhora veio para cá, a senhora nos disse que seu pai ainda ficou lá, mais... IM: Ficou. WC: Mais três anos. IM: É. Ele vinha e voltava. WC: Hum... Onde que ele ficava lá? IM: Ele ficava no hotel. WC: E o que ele fazia? Ele ficava trabalhando? IM: É. Ele trabalhava lá. Era negócio de pedreira, de mármore. Já estava terminando. WC: //Sei. Então depois que ele vendeu// a loja, a sociedade, ele entrou para trabalhar com a pedreira. IM: //É... A loja... foi... com a pedreira.// WC: Na pedreira. Aí ele ficou mais três anos... IM: //Ficou mais três anos lá.// Depois que ele veio para Belo Horizonte. WC: Mas ele trabalhava comercializando? IM: É. Ele vendia. Tinha uma pedreira que eles alugavam. Parece que é Lunardi, daqui de Belo Horizonte. Eles tiravam o mármore lá e vendia aqui para Belo Horizonte. WC: Ahn... Sei. IM: Para qualquer lugar. Aí ele continuou. WC: Vocês chegaram a vir para Belo Horizonte para escolher a nova casa? IM: Não. Foi a minha irmã, essa que estuda, que estudava piano é que arrumou essa casa, sabe. WC: Ela veio sozinha? IM: Não. Ela veio parece... Não, eu não me lembro com quem que ela veio. Eu sei que nós vínhamos para a rua Leopoldina lá em cima, mas quando chegou lá, a casa era muito pequena. Tinha o piano muito grande, não cabia o piano. WC: Ah! Vocês vieram de Sete Lagoas para... IM: //Certo para a rua Leopoldina.// Para a rua Leopoldina. Eram nossos conhecidos de Sete Lagoas. WC: A casa era dele e ele cedeu para vocês. IM: //A casa era dele.// É. E alugou. Quando chegou lá, a casa era pequenina. Parece que ainda existe essa casa lá. Eu não sei. Eu sei que é na rua Leopoldina. Lá no Santo Antônio. Mas era muito pequenininha, muito longe. WC: Naquela época, Santo Antônio era longe. IM: A gente achava Santo Antônio longe mesmo. Hoje é pertinho, não é? [Risos]. E aí eu não sei como ela arrumou essa da rua Goitacazes. Estava para alugar. Ou jornal, ou qualquer coisa, não é? WC: Hum... Então vocês vieram de Sete Lagoas já com essa casa alugada. IM: //Na rua Leopoldina.// É. WC: Simplesmente pelo contato do amigo. IM: //Foi.// É. WC: Ele facilitou isso para vocês. IM: //Foi.// WC: Vocês ficaram quanto tempo lá? IM: Onde? Aqui na rua... WC: //Na rua Leopoldina.// Vocês chegaram a morar lá? IM: Não. Lá nós não chegamos a entrar. WC: Não. Ah! Não deu nem para entrar. IM: //Não.// Não deu para entrar. A casa era muito pequena. WC: Ahn... Pensei que... IM: Não dava para o piano. Não dava, as portas não dava para o piano entrar. WC: E aí, para onde foram? IM: Aí nós fomos para a rua Goitacazes. Parece que foi que deu no jornal, qualquer coisa, que tinha uma casa na rua Goitacazes com Mato Grosso. Quase com Mato Grosso. Hoje é a Globo. WC: Ahn... Sei. IM: A Globo fez uma casa grande lá nesse lugar. Essa casa era bem maior. Então nós fomos para lá. Lá nós ficamos, parece que dois anos. WC: Era aluguel. IM: Lá foi alugado. Depois comprou uma casa na rua, na avenida Augusto de Lima. Lá pertinho do mercado. Seiscentos e pouco. Lá depois meu pai vendeu e mudamos para a rua, lá para a rua Patrocínio. Comprou essa... Ainda existe lá, mas não é nossa não. A minha irmã mora lá. A outra minha irmã mora lá, mas não é dela, é da moça que mora com ela. Que comprou, ficou com a casa. Mas nós moramos lá, acho que vinte anos, na rua Patrocínio. WC: Hum... Agora, pegando sua moradia, sua primeira moradia, de fato, aqui na rua Goitacazes. Quer dizer que no dia que vieram, vocês tiveram que ficar trançando, não é. IM: Foi. [riso]. WC: Com a mudança. IM: //É.// WC: Até arrumar uma casa para morar. No mesmo dia vocês tiveram que resolver isso. IM: //É.// A mudança já estava aí, não é? WC: Então foram vocês mulheres que tiveram que resolver isso. IM: //Fomos. É.// Não. Veio o rapaz do caminhão, o senhor do caminhão que era muito nosso amigo. Ele que resolveu tudo. WC: Mas nesse dia o seu pai não estava presente. IM: //Não.// Não. Ele não pôde vir. WC: Então vocês é que tiveram que olhar casa, jornal... IM: É. WC: E alugava diretamente com o proprietário da casa. IM: Alugava com o proprietário. WC: Hum... E como que era essa casa? IM: Essa casa, ela tinha uma... Sabe essas casas que têm um degrau assim, degrau para subir? Um alpendre, de um lado. O alpendre era de um lado. E o alpendre vinha até na frente. Era até uma casinha que não era feia não, bonitinha, sabe? E tinha... A gente entrava na sala de visita, depois tinha uma saleta que era sala de jantar. E os três quartos. E o quarto, lá dentro tinha um quarto de empregada. WC: Hum... Tinha banheiro, tinha chuveiro... IM: //Tinha.// Tinha isso tudo. Nesse tempo tinha banheira. Hoje em casa, por exemplo, já não tem, não é. É casa moderna, tem só chuveiro, o box. WC: O lugar de box, não é. IM: Mas lá não, lá tinha banheira, tinha o chuveiro em cima da banheira. WC: Ahn-hã... Eu sei como é. [riso]. Dessas casas... IM: Antigas. Dessas casas antigas, sabe? No fundo, o barracão era alugado. Ele tinha entrada independente. WC: Separado. IM: Separado. WC: Esse barracão era alugado para uma outra família. IM: Uma outra família. Morava um casal. WC: Hum... E tinha quintal na casa? IM: Não. Não, pequenininho, só aquela área, com tanque para lavar roupa. WC: A empregada de vocês é que lavava as roupas? IM: É. Toda vida foi ela. WC: Lavava e passava. IM: É... WC: Essa que veio de Sete Lagoas. IM: Ela lavava muito bem. WC: Ahn... Continuou com vocês aqui. IM: É. Continuou até a mamãe morrer. 1960. WC: E enquanto seu pai ficou lá em Sete Lagoas, o que vocês... a senhora, e sua mãe, sua irmã, fizeram aqui na cidade? Vocês desenvolveram alguma atividade? IM: Ah! Imediatamente eu empreguei. Eu empreguei numa firma, em um escritório. Ele tinha... Pegava escrita dos outros. Eu empreguei com Sr. Napoleão. Eu empreguei e a minha irmã entrou para a Secretaria de Agricultura. Nós viemos para cá em junho, parece que em agosto, julho, julho ela já foi para a Secretaria. WC: A Maria Geralda. IM: É. A Geralda. WC: A Geralda se casou com quantos anos? IM: Ah! Foi 50, ela deve estar com 70, com vinte, não é? WC: Ahn... Sei. Ela veio para cá ela estava solteira. IM: Solteira. Foi. Custou... [risos]. Custou a casar, porque já tem... Nós viemos em 36, cinqüenta e seis anos, não é? É. [...] cinqüenta e cinco. Ou sessenta e cinco? Cinqüenta e cinco. WC: É cinqüenta e cinco, agora [...]. IM: //E ela...// ficou cinco anos sem casar, trabalhando. WC: É. Casou com uns vinte e cinco anos. IM: É. WC: É porque a gente estava em dúvida não é? IM: //É.// WC: Se ela já havia casado ou não. IM: Não. Não. Ela casou muito depois. WC: Porque a senhora tinha dito que as duas irmãs tinham casado ao dezessete anos. IM: //As outras duas.// WC: A primeira e a outra mais velha. IM: //A primeira e a segunda.// WC: De vocês três. IM: //É.// Essa que é viúva. Agora, essa outra não. Ela trabalhou cinco anos antes de casar. Depois casou e saiu da Secretaria, foi ser professora de música, no grupo. Nesse tempo tinha. WC: Agora, esse emprego, aula de música no grupo escolar, esse emprego que ela conseguiu na Secretaria, foi indicação de alguém conhecido de vocês? Como foi isso? IM: Eu penso que foi... Eu não me lembro bem como ela arranjou. Mas essa Secretaria mesmo, eles arranjaram para ela. Os chefes dela arranjaram. Porque o marido dela não queria que ela trabalhasse na Secretaria mais, porque muita gente, muita... Então ela foi dar aula de música, porque nesse tempo tinha aula de música no grupo. WC: Nas escolas. IM: É, nas escolas. Aquele Azeredo, não é? Chama grupo Cristiano Azeredo não... Ainda existe este. WC: Onde? IM: Lá no Barro Preto. WC: Caetano, é... IM: Caetano Azeredo. WC: Eu não tenho certeza... IM: //Eu também não tenho certeza.// Mas existe, sabe. WC: Eu acho que sim. [riso]. IM: É. Ela foi para lá. WC: Ahn... E a senhora tinha dito para a gente, que a senhora fez um curso de datilografia. Foi depois que a senhora conseguiu esse emprego? IM: Foi depois que eu consegui esse emprego, é que eu fiz. WC: //Que a senhora// fez o curso. IM: //É. Fiz. É.// Eu fui lá só fazer a escrita. WC: Ah! Era tipo contabilidade. IM: //É Contabilidade. É.// Mandava fazer... Copiar, não é? WC: E trabalhava o dia inteiro? Como era o horário da senhora? IM: //O dia inteiro. //Eram oito horas. Mas trabalhava de manhã, ia em casa almoçar e voltava. WC: Ahn... E onde que ficava essa firma? IM: Ficava ali na... quase esquina de Tupis com Curitiba. Até não era longe não. WC: Aí a senhora ia a pé mesmo. IM: //Ia a pé,// dali, aqui. Depois eu passei, ele tinha um cunhado que tinha uma firma. [Nés] de Assis, sabe. Uma firma de comércio, comércio atacadista de fazenda. Ele me mandou para lá trabalhar no escritório. Aí já foi na rua Curitiba quase esquina de Tupinambás. WC: E a senhora também ia a pé, para o trabalho? IM: //Ia a pé. Ia a pé.// WC: A senhora ainda morava na rua Goitacazes? IM: //Aí eu já...// morava na rua Goitacazes. Era bastante longe. AT: Na Goitacazes moraram durante três anos. IM: Moramos lá três anos. AT: Hum... Esse primeiro emprego, a senhora arrumou como? Foi alguém que indicou? IM: //Não.// Eu li no jornal. AT: Ahn... A senhora estava procurando... IM: //Fui lá.// É. Estava procurando. AT: Hum... A senhora foi trabalhar fora por uma opção de trabalhar ou porque era necessário? IM: //Não. Por necessidade.// Necessidade, é. Nós trabalhamos por necessidade. AT: Então as duas filhas, uma parte da renda de vocês ficava em casa. IM: //Ficava em casa.// É. Comprava. Comprava as coisas que precisava. AT: Hum... E essas compras? Onde vocês faziam? IM: Mais no mercado não é? Porque ali tinha o mercado ali. AT: Onde é o Mercado Central? IM: É. Onde é o Mercado Central. Eram três quarteirões só. AT: Ali, vocês faziam compra de feira... IM: É. AT: Mercearia, tudo ali. IM: //É. É.// Tudo ali no mercado. AT: E eram vocês três mulheres que faziam as compras... IM: //Que faziam as compras.// Ou então a empregada mesmo ia. Era pertinho. Era só verdura, essas coisas. AT: E para ir para casa com sacolas, pagava-se alguém para levar? IM: //É.// Não. A gente mesmo levava a sacola. Não comprava tanto assim. [risos]. AT: E vocês não tinham medo de ficar... As quatro, vocês três e a empregada, à noite em casa? IM: Não. Porque tinha o vizinho no fundo. E tinha a outra vizinha. Essas casas são quase que unidas, não é? AT: São geminadas. IM: Não, não eram geminadas não. Não. WC: //Era a própria construção.// IM: //A própria construção era assim.// E quase todas iguais. AT: Ah!... Certo. IM: Tinha umas quatro iguais, na rua Goitacazes. Tinha a esquina, assim, que não tinha casa. Com Mato Grosso. E depois tinha essa casa nossa, depois tinha outra aqui, outra aqui... Todas mais ou menos iguais. Tinha a subida, aquele alpendre assim do lado. WC: //E havia iluminação pública já? IM: //Havia.// Já, já havia. WC: A rua era de paralelepípedo, nessa época. IM: //Era... Era.// Machucava os pés, não é? WC: É? IM: Pedrinha, não é? Tinha ruas que já era aquela outra... WC: Quadradinha, não é? IM: //Quadradinha.// Agora esse outro, na nossa não. Era que ainda existe ainda. Parece umas pedras assim. WC: É um cascalho, [...]. IM: //É.// Mas era.. Aquilo era... WC: //Batido no chão.// IM: Batido, é. A nossa rua era assim. WC: Que prendia o salto do sapato. IM: É. Que prendia o salto. [risos]. WC: Dona Isaura e quanto à administração da casa, como que era feito? Quem que cuidava das despesas, assim, de controlar o dinheiro. Era a mãe? IM: A mãe. Mamãe sempre tinha... Ela controlava muito bem. Dinheiro, essas coisas todas. WC: Vocês entregavam o dinheiro para ela. IM: //É... Aí ela...// WC: //Parte do salário para ela.// IM: Quando tinha que pagar luz ela dava o dinheiro, a gente pagava. Ela pagava o aluguel. Aliás, o homem, ele ia sempre lá, todo mês. Dia primeiro. Até eu esqueci, era espanhol. WC: Era? IM: Era. Todo dia primeiro ele estava lá. WC: Estava lá esperando. [riso]. E as outras contas da casa. Pagava no banco uma conta de luz, uma conta de água, como que era isso? IM: Não era no banco não. Era na... WC: Na Companhia. IM: //Na companhia.// É. O telefone também era na companhia. WC: Já tinha... IM: //E depois...// E depois... em 47 nós pusemos o telefone. Um ano depois Foi essa minha irmã que comprou, a da Secretaria. WC: Em 37. IM: É, 37. Não é esse que nos acompanhou não. Esse é do meu cunhado. WC: Certo. E essa questão de deixar parte do dinheiro em casa. Vocês determinavam: Ah, deixa que eu pago a conta tal, eu pago a outra. Ou vocês já tiravam uma parte mesmo do salário? IM: Deixava as contas certas. É. E meu pai também trazia. Ele ainda trazia... WC: // A senhora pagava determinada conta.// IM: É. WC: Sua mãe indicava. Ah! Paga isso. E você paga aquilo. IM: //Não, nós mesmo íamos. Chegava a conta, ia pagar. WC: E seu pai. Como ficava a vida dentro de casa com a presença dele nos finais de semana? IM: Ah! Muito boa, não é. Ele conversava muito pouco. WC: É? IM: É. [Riso]. WC: Mesmo depois dessa distância. IM: //É... É.// WC: De ficar a semana toda fora. IM: //É.// WC: Voltava no fim de semana e conversava pouco. IM: //Pouco.// É. Gostava muito de ler. WC: É? IM: É. Lia jornal, essas coisas. WC: Ahn... //E passeava?// IM: Passeava. Nós íamos para a rua... Mas só na praça, não é? WC: Na Praça da Liberdade. IM: Não. Na Praça Raul Soares. WC: //Raul Soares.// Ah! Na Praça Raul Soares. Com o pai no fim de semana, saía. IM: //É... É.// Papai, mamãe, nós todos saíamos para passear. Era a nossa distração. WC: Ahn... Recebiam visita da irmã casada lá, que ficou em Sete Lagoas? IM: //De Sete Lagoas.// De vez em quando ela vinha. Vinha com o marido, vinha com o filho, que ela tinha um filho. WC: E ficava aonde? IM: E ficava lá em casa. Ficavam todos lá. WC: Eram freqüentes essas visitas? IM: //É. Ela vinha sempre. É.// WC: Hum, hum. E as amizades ali na rua Goitacazes? IM: Lá na rua Goitacazes tinha o vizinho da frente que era muito educado. Não me lembro o nome dele. E a minha irmã tinha muita amizade na Secretaria, aquelas moças, aquela coisa, ela tinha muita amizade. WC: E elas iam na sua casa? IM: É. Iam. Então tinha uma Cora que ia muito lá. Morava na rua Guajajaras. Guajajaras quase esquina com Santa Catarina. Essa morreu já. E nós continuamos as amizades lá de Sete Lagoas que tinha. De Sete Lagoas que já moravam aqui. Uns moravam na rua Padre Eustáquio, outros moravam lá na Lagoinha. WC: Hum. IM: Que hoje é São Cristóvão, não é? Então essas daí a gente ia lá na casa delas, elas iam lá em casa. Essas amizades mesmo. WC: //E vocês passeavam?// Saíam as moças, iam ao cinema? IM: //Com elas.// WC: O que era? Que tipo de passeio vocês faziam? IM: //Cinema.// O cinema nós íamos muito pouco. Não era muito que ia ao cinema não. WC: Por que não? IM: Porque... O dinheiro não dava assim para ir em, não é? WC: Era uma coisa que pesava para a família de vocês? IM: //É, pesa. É.// Cinema era muito caro naquela época. Muito barato, mas era... [Riso]. Barato para agora, não é? Mas era caro. Como é agora, o cinema é muito caro. WC: Para ir toda semana... IM: //É.// Não dava. WC: Iam passear então lá na praça... IM: Raul Soares. WC: //Raul Soares.// IM: //É.// WC: E onde mais que iam passear, andar, ver as modas? IM: //Ou então passear// de bonde. WC: Ah! É. Ficava passeando de bonde pela cidade. IM: É. De bonde. [Riso]. WC: E tinha essa história de ir ver a moda. Vamos supor, ver o que as pessoas estão usando... IM: Não. Às vezes nós íamos no centro, que tinha essa rua onde tinha umas casas muito bonitas, não é? Na Avenida Afonso Pena. WC: //É. A senhora se lembra como eram as casas?// IM: Tinha a Guanabara. Tinha essa Sibéria, era dessa época, a Sibéria era dessa época. WC: //Eles expunham// na vitrine. IM: Punham na vitrine. Eles punham. Muito bonito, sabe. A Sibéria então era muito bonita. WC: É... IM: Era. WC: Que tipo de produto ela vendia? IM: Tudo. Ela vendia roupa, vendia perfume. Era só roupa de mulher. Muito bonita. WC: //Hum.// Nessa época a senhora comprava roupa pronta? IM: Não. Depois que eu já estava no comércio, trabalhando, é que eu comprava. WC: A senhora não chegou a mandar fazer roupa? IM: Não. Aqui em Belo Horizonte não. WC: Comprava diretamente da loja. IM: É. Comprava assim pronto, uma vez ou outra. WC: Ahn... Era... IM: Gastava pouca roupa, não é? WC: É? IM: É. Não gastava muita roupa não. WC: Que tipo de roupa a senhora gostava de usar? IM: Ah! Roupa simples. WC: O que era uma roupa simples na época? Porque hoje nós usamos uma calça jeans, uma blusa de malha. IM: //Ah!// Nessa época não usava. Usava vestido. E parece que... Eu não sei se 36 era vestido comprido. Eu não me lembro. Mas era mais comprido. Depois veio a moda mais curto. Aí já foi... Acho que foi 60 que veio, a moda bem curta. WC: É, 60 foi a mini-saia que veio. Mas teve uma época que usava-se abaixo do joelho e depois chegou no joelho. Teve uma época intermediária, não é? [Risos]. Antes do [...]. IM: //Mas eu nunca usei não.// Sempre usava aqueles mesmos que eu tinha. WC: Chapéu. Usava chapéu? IM: Usava chapéu. WC: Gostava de usar chapéu? IM: Eu não gostava não. WC: Não? [Risos]. As pessoas falam que a mulher ficava charmosa de chapéu. IM: Eram até uns chapéus muito bonitos, feitos aqui na rua da Bahia. WC: É? IM: Esqueci como que chamava a dona. Fazia chapéus lindos! Rua da Bahia... WC: Hum.// Ela mesmo fazia os chapéus? IM: Ela mesmo fazia os chapéus. Muito bonitos. É a primeira dona que fez plástica aqui em Belo Horizonte. WC: Ah é? IM: Ela ficou tão feia depois da plástica. O médico, acho que não fez direito, ela ficou com aquelas marcas, no rosto. Esqueci como que ela chamava. Era ali... hoje tem o... Era o Cine Metrópole, logo depois tinha a casa dela. Casa de chapéus. Tinha uma vitrine com exposição de chapéus. Muito bonitos até. WC: Essa questão dela ter feito plástica, a senhora ficou sabendo através dela mesmo? IM: //Não. Não.// É o povo que contava. WC: Todo mundo ficou sabendo. [Risos]. IM: //Todo mundo ficou sabendo...// Todo mundo ficou sabendo, não é? WC: Isso é mais recente, a plástica dela? IM: Não. A plástica dela é antiga. WC: É? IM: É. A plástica dela deve ser dos 50, 1950. WC: É? IM: É. WC: Na cidade então comentava... IM: Contava, é. Porque via, conhecia, não é? E depois via ela toda cheia de... WC: Cicatrizes. IM: //Cicatrizes.// WC: Diferente, não é. [Riso]. Pele esticada. IM: Diferente. Cheia de cicatrizes no rosto. Porque, agora eles levam para a cabeça, não é? WC: É. Para trás da orelha. IM: É, atrás da orelha. É. Uma coisa assim. WC: É. IM: E naquele tempo eu não sei, como que foi, que ficou aquela cicatriz no rosto dela. WC: O que a senhora pensou de ver uma mulher fazendo plástica? Para ficar mais nova. IM: Isso eu não me lembro, o que nós pensamos. Já era mocinha, não é? Não era tão mocinha não, mas pelo menos não tinha ruga. [Risos]. Então a gente não julgava os outros. AT: Agora, sobre esses lugares que a senhora está percorrendo pela cidade. A senhora falou da Praça Raul Soares, dos passeios de bonde, falou aqui do centro. IM: //Aqui tinha Parque Municipal, também.// A gente vinha. AT: O que a senhora lembra desses lugares? Por exemplo, a sua casa, Goitacazes com Mato Grosso é muito próxima de onde hoje é o Barro Preto. IM: É. Barro Preto lá. AT: É Barro Preto. IM: Lá é Barro Preto. AT: Ali ainda viviam muitos italianos? IM: Vivia. Viviam os italianos, esses que têm fábrica de [ ]. Aquele na padaria... Ainda tem essa padaria, não é? A padaria na Goitacazes, quase esquina de Amazonas. Ali tem uma padaria grande. Ali era só italianos. WC: Era. Boschi. IM: Não. A Boschi já era aqui. A Boschi toda vida foi na Guajajaras. É... Costa, não é? Eles eram Costa. O José Costa tinha fábrica de macarrão, o irmão dele tinha fábrica de macarrão. Era Domingos Costa. Era ali na rua... na avenida Olegário Maciel com Tupinambás. Até poucos anos tinha essa fábrica ali. Depois eles mudaram para a Cidade Industrial. WC: E eles também eram italianos? IM: Eram italianos. Costa deveria ser, não é? WC: //É, português.// IM: //Era italiano. Mas vieram mesmo//, parece que de Roma. Eles vieram. Então eles eram... Tinha um que era mais moreno até. Tinha outro que tinha padaria ali em frente a igreja do Barro Preto. Igreja São Sebastião. Também era italiano. WC: A senhora andou por essa região ali do Barro Preto, na época? IM: Andava muito. Porque ia na igreja. WC: Ah! A senhora freqüentava a igreja... IM: A igreja do Barro Preto. Mamãe era muito religiosa, então a gente ia ali. Igreja São Sebastião. Era pequenina a igreja. Tinha um cinema agarrado nela. WC: É? IM: É. Hoje é a casa dos padres. WC: Mas não dava confusão não. IM: Não. Interessante, não é? [Risos]. Eles alugaram por dez anos. WC: Ah! A própria igreja que alugou... IM: A própria igreja alugou. E depois quando terminou os dez anos o cinema entregou. E aí eles fizeram uma construção que tem lá de padres. Parece que padres velhos, que vieram do interior, ficam lá. É da própria igreja São Sebastião. WC: E o que mais que a senhora se lembra desse bairro? Das famílias que moravam no bairro. A senhora se lembra de mais alguma coisa? IM: Não me lembro. Eu sei que as ruas não eram bonitas igual são hoje. WC: A senhora acha que hoje são mais bonitas? IM: Mais bonita. É. WC: E a Afonso Pena era bonita? IM: Era. A Afonso Pena era linda! Era uma beleza, com as árvores. Vocês não pegaram. WC: Não. IM: Nem retrato, não é? WC: Retrato eu já vi. IM: Ah! Pois é. As árvores uniam umas nas outras, porque eram redondas, sabe? Beleza mesmo. A avenida Afonso Pena era linda. Mas a avenida Afonso Pena quem acabou foi aquele... Foi um prefeito que teve aí. WC: Carone? IM: //Não. Não.// WC: Tem um nome... Eu esqueci... Eu já vi o nome... IM: //Um nome pequeno.// WC: É. Porque eu me lembro sempre desse nome. Carone. IM: //Um nome pequeno.// Não. O Carone foi depois desse, bem depois. O Carone tem pouco tempo, que entrou na política. WC: Eu não atino agora. IM: Esqueci o nome. Ele é que mandou cortar porque estava dando aquela... WC: Lagartinha? IM: É. Uma lagartinha. Mas isso tinha meios, não é? Só pulverizar, e tudo. Não, ele mandou cortar tudo. Cortou tudo. AT: Como que foi a reação da população? IM: Hi!... Todo mundo ficou revoltado, mas não adiantava, ele era o prefeito. AT: E ele era um prefeito eleito pela população? IM: //Eleito pela população.// AT: E mesmo ele tendo sido eleito ninguém fez nada para cobrar dele? IM: //Não.// Não. AT: A senhora não se lembra disso. IM: Não me lembro de revolta nenhuma. AT: Então a senhora acha que o que deixa, hoje, a avenida Afonso Pena mais feia é a perda dessas árvores? IM: Ah! Muito mais feia. Era no meio. As árvores eram lindas. Lindas mesmo! AT: No meio da avenida. IM: //Era no meio da avenida.// Era. AT: Naquela divisória. IM: Hoje acho que tem umas arvorezinhas pequenas, não é? Umas flores. AT: É. Hoje tem um canteiro central, tem algumas árvores ali. IM: //É, aquele canteiro central.// Era as árvores. WC: Mas tinham duas colunas de árvores, não era? IM: //Duas colunas de árvores.// É. Duas. WC: No meio da avenida. IM: É, no meio. Era uma beleza! Eram lindas mesmo. Ia até lá em cima. Aliás, a avenida não ia até lá em cima, conforme hoje, não. WC: Ela ia até onde? A senhora lembra? IM: Até onde... era depois... Pouco depois de onde tem a Praça Tiradentes. Nessa época. WC: //É.// Ela não ia até a Praça ABC, não. IM: //Não, não.// WC: [...]. Tem o bairro dos Funcionários, ali. IM: //Aí depois foi abrindo.// Aí, foi abrindo. Depois é que foram abrindo. WC: //Hum...// IM: Ali. Funcionários era do lado de cá. WC: É. Mas do lado de cá também tem a continuação. IM: //Que hoje é a Savassi.// Não é não? WC: Não. A Savassi hoje é onde era o Funcionários. [Risos]. IM: Pois é. [Risos]. WC: Do lado de lá... AT: À direita de quem sobe a avenida. IM: À direita. WC: //É... do lado esquerdo...// AT: É o Funcionários. WC: É. Do lado esquerdo de quem sobe a avenida ainda tem algumas ruas. IM: É. WC: Que dão ali no Funcionários. IM: //Que cortam... que cortam...// Eu sei que era pouco depois da avenida. WC: //Maranhão.// IM: //É.// WC: É Ceará, Pernambuco. Ainda são bem grandes do lado de cá. IM: //Mas ela não ia até lá não.// WC: Não, não é. IM: //Não.// Não. Mas foram abrindo.// WC: Até no Sagrado Coração, na Professor Morais, já não havia mais Afonso Pena? IM: Não. Eu não me lembro. Eu não me lembro, se ia até a Professor Morais ou se era bem para cá. WC: E a senhora falou agora há pouco que as ruas do Barro Preto é que não eram tão bonitas como são hoje. IM: //Não.// Não eram não. WC: Por quê? IM: Por causa do calçamento. WC: Desse calçamento de pedrinhas? IM: É. Esse calçamento de pedrinhas era muito feio. WC: A senhora acha que hoje com o asfalto ficou mais bonito? IM: Ficou. Parece que abaixou Porque tinha umas subidinhas, sabe? A Goitacazes por exemplo, quando a gente saía de... é Bias Fortes que tem ali, não é? Descia... Tinha uma descidinha, sabe? Então tinha aquelas enxurradas, que dava na rua, ali na rua Mato Grosso. Dava ali. Enchia de água. WC: Em época de chuva? IM: Em época de chuva. É. Enchia mesmo. Ficava difícil da gente vir da cidade para lá, para casa. WC: Ah, é? IM: É. Enchia mesmo. Não sei como é que não tinha esses bueiros, essas coisas direito. WC: Não tinha, na cidade? IM: //Não. Não.// AT: A água escorria para onde? WC: Para os córregos. IM: //Para os córregos.// Tinha um córrego ali... agora eu não lembro o nome... Na rua São Paulo tinha um enorme. WC: Onde, na rua São Paulo? IM: Olha. Depois da Bias Fortes, era um córrego enorme ali. Era cercado, de um lado e do outro. Descia ali... Tinha um nome o córrego. Depois eles drenaram ele todo. Quando chovia ali na rua São Paulo, enchia de água, as casas todas precisavam ficar fechando, eles punham... WC: Umas barreiras, não é? IM: É. Umas coisas segurando os portões. WC: Sei. IM: Para não encher as casas de água. WC: Já havia esse problema de inundação? Já tinha? IM: //Já, já.// WC: E eram vários que atravessavam a cidade? Eram vários córregos? IM: É. Tinha esse córrego. Tinha esse Arrudas, já tinha. Ele transbordava mesmo. Tinha ali na avenida Contorno. Aí que... eu não me lembro quando... Foi o Juscelino que abriu a avenida Contorno. Não tinha a avenida Contorno não. Nessa época não tinha. Tinha, mas só um pedaço. Então ele contornou a cidade toda. Mas já foi em mil, novecentos... parece... Eu não sei se foi sessenta. WC: Hum... Acho que foi na década de 50 ainda. IM: Foi de 55. Depois 60, ele era presidente, não é? WC: Isso. De 55, que ele era governador. IM: É. Ele fez a avenida... fez a avenida... Tenho até um livro dele... Ele falou que fez em três dias. Isso eu não me lembro não. [Risos]. Você conhece o livro dele? AT: Não. IM: Aí tem, depois eu te mostro. WC: Eu acho que eu sei qual é. Tem uns dois ou três livros, não é? IM: É. Nós temos um aqui que falou que ele fez a avenida em três dias. AT: Acabou. FIM DO LADO A DA FITA 3 Entrevista - fita 3 - lado B AT: "A história de Belo Horizonte." IM: A história de Belo Horizonte. É, nesse livro fala. WC: Fazer a avenida em três dias, é força de expressão. IM: //Em três dias, não é?// Eu fui lendo assim, folheando assim, achei. Que o Juscelino que fez em três dias a avenida. WC: A senhora acha que durou mais. IM: Deve ter durado, não [risos] é possível. [risos]. WC: A cidade inteira ia para trabalhar para fazer a avenida. [riso]. IM: Uai! Não é? Para fazer a avenida. WC: Porque senão... [riso]. IM: É muita coisa. Eu não sei para que ele fez a avenida. Foi muito rápido mesmo, sabe? Uma festa qualquer que teve aí. WC: Na cidade? IM: Na cidade. Eu esqueci. Essas coisas eu não me lembro, não. Mas andei lendo esse livro dele. Aí que eu vi que ele falou que em três dias ele fez a avenida. Mas eu não sei se foi em 55 ou se foi em 50. Não me lembro bem não. AT: Ainda sobre esses lugares, sobre a Praça Raul Soares, a senhora comentou conosco, me parece que foi um momento que nós não estávamos gravando. Parece que a senhora viu a Praça Raul Soares surgir. Ela ser construída. IM: //Foi.// Foi. Ela foi... Aquela foi construída em pouco... Acho que não levou um mês ou dois. Já com... já com o jardim muito verde. Eles já plantaram, já dando flor, sabe. Tudo. Foi para o Congresso. WC: Eucarístico. IM: //Eucarístico.// Parece que foi em setembro. 1936. O primeiro Congresso Eucarístico, que teve aqui. WC: Quando vocês estavam se instalando em Belo Horizonte. IM: //É.// Nós instalamos em junho, e o Congresso foi em setembro. Foi rápido. Foi depois que nós instalamos que eles fizeram a avenida. AT: E vocês chegaram a ir no Congresso? IM: Fomos. Ah! Pertinho, não é? AT: Sei. IM: É. Muito bonito. Bonito mesmo. WC: E quais eram as atividades que tinham nesse Congresso? Reuniões, tinha reuniões? IM: //É. Tinha reuniões.// Tinha reuniões, tinha a prática dos padres, dos bispos, do arcebispos de fora. Veio muita gente de fora, muita mesmo. WC: Procissão. IM: É. Tinha procissão. Eu acho que era para a igreja São José. Ali dá uma subidinha, não é? A avenida Amazonas tem uma subida. WC: Eu cheguei a ver uma foto da procissão do Congresso, eu acho que passando na rua Pernambuco. IM: É. Aí ela já subia, não é? Por lá, indo para a Pernambuco ia sair na Igreja da Boa Viagem. Eu não sei, porque o Congresso não era todo lá não. Tinha aqui na casa dos padres. WC: Na casa dos padres? IM: //É.// É porque tem uma casa... Aquela onde o arcebispo mora, em frente ao Palácio. Tem o Palácio, não é? WC: Sei. Aqui na Praça da Liberdade. IM: É. Ali que ficavam os bispos, arcebispos, tinha muita festa ali. WC: Então os eventos eram espalhados pela cidade. IM: //Eram espalhados.// WC: E a senhora se lembra de mais algum evento do qual a senhora tenha participado nessa época? Político, comício? IM: //Não. Não.// WC: Ou alguma coisa assim que a senhora tenha ido assistir? IM: Não. Também não. WC: Não? IM: Não. E tinha, viu? Tinha. Mas eu não me lembro não. Parece que teve do... Parece que o Raul Soares, ele se candidatou a qualquer coisa. Presidente da República. Eu não me lembro bem. Ele perdeu. Perdeu não sei para qual. Acho que foi o Bernardes, com o Raul Soares. WC: Não. Não. IM: Não. Acho que o Arthur Bernardes foi 25. Ou 30. Acho que foi. WC: Eu sou péssima com as datas. IM: Ah! Não sei. Também não sei. Essa data eu não sei. AT: Difícil de guardar todas. IM: //É..// [risos]. AT: Tantos nomes para guardar. Mas, a senhora falou conosco agora há pouco, a respeito das lojas onde a senhora comprava roupas. A senhora também fazia compras na Sibéria? IM: Comprava na Sibéria, mas aí eu já estava trabalhando. Comprava à prestação. Pagava pouquinho... WC: Era carnezinho ou era caderneta lá na... IM: //Era carnê.// Carnê. WC: Ah! Era carnê. IM: Era um carnezinho assim... WC: Ahn... E calçados... IM: //Comprei lá muito.// Carnezinho. Lá vendia também calçados. WC: E naquela época as moças já tinham o hábito de ir ao cabelereiro, arrumar o cabelo e fazer as unhas? IM: //Já tinha.// Aqui tinha muito cabelereiro bom. WC: É. A senhora se lembra? IM: Não, eu me lembro de um na rua Espírito Santo. Era muito... parecia assim... parecia uma dama, sabe? [riso]. WC: O cabelereiro? IM: É. O cabelereiro. WC: Ahn... Ele parecia uma dama. [risos]. IM: //Ele andava todo cheio de...// Naquele tempo não usava falar, não é? WC: //É. Hoje eles falam.// IM: O que eles falam. WC: É hoje chamam. Hoje eles chamam de diversos nomes. Antigamente falava que parecia uma dama. IM: É. Que parecia uma dama. [risos]. Muito gentil, muito agradável. Eram cabeleireiros mesmo. WC: Ahn... E já tinha o hábito de pintar as unhas também? IM: Já tinha o hábito de pintar as unhas, os cabelos, pintava os cabelos. [...]. WC: //Pintar também.// Eu lembro que frisava. IM: Estava querendo fazer permanente, não é? WC: É... IM: O permanente ficava agarrado no cabelo. WC: Era comum mesmo, as pessoas fazerem isso? IM: //Era comum... Comum...// WC: Era moda. IM: Era moda, mesmo. Cabelo anelado, não é. WC: A senhora também chegou a fazer isso? Ou a senhora já tinha o cabelo anelado? IM: Não. Eu tinha cabelo... Meu cabelo era muito escorrido. Eu tinha cabelo até grande. Eu cheguei a fazer já depois... Já foi lá, depois que nós mudamos, acho que para a rua Patrocínio, que eu fiz permanente. Aí eu fiz permanente. AT: Hum... Mas até então a senhora usava o cabelo longo e liso. IM: É. É agarrado, fazia trança. WC: Ah é? Usava trança. IM: Depois cortei, cortei e fiz permanente. AT: Ah! Não podia fazer permanente com ele comprido não. IM: Comprido dava muito trabalho. AT: Ahn... A moda era cortar o cabelo mais curto. IM: //É. Cabelo mais curto. //É. Nessa época// tinha uma Maria das Tranças, aqui. Uma beleza as tranças dela. AT: É? IM: Lindíssima. AT: Maria das Tranças? IM: Chamava Maria das Tranças. Ela chamava Maria. Ela era de Nova Lima, mas morava aqui na rua Tamóios. Mas ela tinha umas tranças que vinha cá embaixo. Uma beleza! AT: Mas era porque ela tinha trança ou porque ela fazia tranças, que ficou conhecida por Maria das Tranças? IM: Não. É porque ela tinha o cabelo muito grande, então ela fazia aquelas tranças grossas. Mas eram lindas as tranças da Maria. //Todo mundo// apreciava a Maria das Tranças. AT: Como que a senhora chegou a conhecer a Maria das tranças? IM: Na rua. Ela morava na rua Tamóios, ali perto do Cine Tamóios. Ela morava ali, por ali. AT: A senhora chegou a ter contato pessoal com ela. IM: //Não. Não.// Só na rua. WC: De ver passar e depois que eles falarem... IM: //De ver passar, achar bonito. Todo mundo comentava. WC: Tinha algum outro tipo assim na cidade, que as pessoas comentavam? IM: Não. Tipo assim, não. De... de coisa? WC: É. De alguma pessoa que tivesse algum traço característico. IM: //Bonito? WC: É. Não só bonito. De repente, não é? IM: Pode ser feio. Um traço feio não é? WC: Também, não é. IM: //É...// WC: Porque na cidade tem alguns tipos diferentes. IM: Tem uma dona que gostava de jogar pedra nos outros não é. Na rua. AT: Jogar pedra? IM: É. Você bulia com ela, ela jogava pedra. Andava com um pau na mão, corria atrás dos moleques, sabe? Corria mesmo. AT: Ahn... [riso]. IM: Ela ficava ali perto da igreja São José. Por ali. Tinha essa mulher. Muito interessante. WC: Ela tinha algum apelido? IM: Tinha um apelido. E os meninos chamavam do apelido. Nossa! Ela corria! WC: Como é que ela era chamada? IM: Não me lembro. Isso eu não me lembro. AT: A senhora se lembra de mais alguma outra pessoa? IM: //Não.// Não me lembro. AT: Bom. Agora, dentro da sua casa, a senhora falou que chegaram a comprar telefone... IM: Compramos. AT: Chegaram a comprar rádio, também? IM: Foi. Aí comprou o rádio. Essa minha irmã que trabalhava na Secretaria era mais fácil para ela. WC: Mais fácil por quê? IM: Porque ela tinha crédito. Porque trabalhava na Secretaria, era funcionária pública. WC: //Era funcionária pública.// Ahn... AT: Funcionário público tinha algum tipo de privilégio. IM: É. Ela comprou o telefone. A gente comprou à prestação. Porque comprava como compra agora, pagando por mês. Eles instalavam o telefone e você continuava pagando, na conta. WC: Hoje você paga o telefone e eles não instalam. [riso]. Eles entregam uns dois anos depois. [risos]. IM: //E eles não instalam, é isso mesmo.// WC: E que outras coisas vocês chegaram a comprar? IM: Não. Depois parece que ela comprou a mobília de sala. WC: Radiola... Alguma... IM: Não. WC: Não? IM: Não. Nunca compramos não. WC: E o rádio, o que vocês gostavam de ouvir no rádio? IM: É... Eu não me lembro também. Mas era música. Tocava muita música nesse tempo, parece que era Guarani, não é? WC: Não sei. Tinha Programas de Auditório nessa época, aqui. IM: //De auditório. Pois é. Tinha, tinha.// WC: Tinha a rádio Inconfidência... IM: Tinha a Rádio Inconfidência e parece que a Guarani. WC: Eu não sei o nome. IM: Que trabalhava aquela Branca... Uma Branca, chamava Branca Tolentini. Ela era dessa tal... WC: Ela era o quê? Cantora? IM: Cantora. Ela cantava. WC: Ahn... Daqui, não é? IM: //Ela tinha uma irmã... É. Cantava.// Cantava muito bonito. E tinha novelas também, no rádio. AT: Vocês acompanhavam as novelas? IM: Nós acompanhávamos as novelas, no rádio. AT: Novela diária? IM: É. Diária. Todo dia, naquela hora certa, como é agora na televisão. AT: Certo. E as novelas eram feitas aqui mesmo? IM: Era. Em Belo Horizonte. Era da Inconfidência. AT: Sobre o que falavam essas novelas? IM: Não lembro. Mas acho que a mesma coisa. [risos]. Tem uma... Até aquela... Uma que agora é da Globo. Ela trabalhava aqui na Inconfidência. Como que ela chama... Ela trabalha na Globo. Parece que ela é até de Itabirito. Trabalha na Globo. AT: Mas, já mais idosa? IM: Já mais idosa. Mas ela fez muita plástica, de modo que não parece. WC: Ahn... [risos]. IM: Não me lembro o nome dela. É bonita. Ela trabalhou aí na Inconfidência. Daí que ela foi. Parece que não era a Globo no Rio não, era outra. Era outra empresa não sei se era Atlântida. WC: Não se lembra. AT: Por falar em Atlântida, a senhora também assistia filmes brasileiros nos cinemas daqui? IM: Assistia... Não. Não tinha filme brasileiro não. AT: Ainda não é dessa época, não. IM: //Não.// Era só estrangeiro. E era... No princípio era escrito só, não era falado. Depois é que começou falado. AT: E aí tinha legenda? IM: É. AT: Quando é que a senhora começou a assistir filme brasileiro no cinema? IM: Tem pouco tempo que eu comecei. [riso]. Foi depois que nós moramos aqui na rua Espírito Santo acho, que eu comecei a assistir filme brasileiro. Porque eu não gostava de filme brasileiro. Naquele tempo filme brasileiro falava mais asneiras, essas coisas assim. O outro mostrava muita paisagem bonita. Que eu tinha muita vontade de conhecer, não é? WC: É? IM: Então ia ver, as paisagens. Porque todo filme trazia aquelas casas bonitas. Aquela... AT: A senhora poderia dizer, no início, a senhora acabou de dizer. A senhora poderia afirmar que foram esses filmes que trouxeram desejo de conhecer outros lugares? IM: Foi. E também por causa que nós líamos, a gente via. Via aquelas coisas, que tem aquelas vistas bonitas, que vinham nos livros. Aí dá vontade de conhecer mesmo. WC: Aqui vocês compravam muitos livros, quando vieram para cá? IM: É. Comprava esses livros... Esses folhetozinhos, não é? Livro mesmo a gente não comprava não. WC: Não. AT: Revistas? IM: Revistas. Trazia muita, muita paisagem. Muita... AT: De onde? IM: Do Brasil mesmo. WC: Ahn... E a senhora já tinha vontade de conhecer os lugares? IM: Já tinha vontade. É. [riso]. AT: Ficava vendo a fotografia e viajava com ela. IM: //É. // A gente olhava e viajava. Andava pelo mundo, não é? [risos]. Mesmo pelo Brasil. O Brasil tem muita coisa bonita, muita coisa bonita. AT: Onde vocês compravam livros, revistas, aqui em Belo Horizonte? IM: //Tinha// uma na avenida Afonso Pena. Acho que ela até fechou. Oscar Nicolai. WC: É, fechou. IM: Fechou. Era enorme. AT: Só se mudou de nome. IM: É. Ela deve ter mudado de nome, porque fechou. Muito grande, sabe? Eles vendiam muitos livros, muitas revistas. E já tinha essas bancas de jornal. WC: Pelas ruas. IM: Pelas ruas. Não eram tantas assim não. Ou uma ou outra. WC: Ahn... E jornal? Comprava-se já aqui? IM: Não. Nós lá em casa não comprávamos não. WC: Não? IM: Não. No princípio não. Depois é que foi comprando. Mas logo que nós mudamos não compramos não. AT: E uma outra pergunta. Vocês chegavam a freqüentar biblioteca pública na cidade? IM: //Não. Havia// uma biblioteca lá na rua Goitacazes, era particular. Então lá que a gente buscava os livros. Eles alugavam, era muito barato. Então a gente buscava os livros lá. AT: Era de propriedade de uma família ou de alguma... IM: //Era de uma família// uma família que tinha uma biblioteca. Ali alugava. Para todo mundo. AT: Certo. Aí vocês também alugavam livro. IM: //Alugava livro.// É. Alugava por quinze dias. WC: Ah é? Que bom. IM: Podia ficar até quinze dias. AT: Havia outras bibliotecas assim na cidade? IM: Que eu saiba, não. Porque nós sabemos... Eu sei só dessa da rua Goitacazes. AT: Sei. IM: Era até muito boa. AT: E outras bibliotecas... IM: //Tinha muitos livros.// Muito romance. Mas já tinha biblioteca pública. Mas não era grande igual a essa não. AT: Sei. IM: Mas nós não íamos. WC: Freqüentou só essa particular perto da sua casa. IM: É. Foi. Porque não dava tempo. Porque quem trabalha no comércio, trabalha dois horários, não é? AT: E o movimento no comércio. Como que era? IM: Olha, no comércio eu trabalhava em casa de atacadista, de modo que eram só os viajantes que vendiam. AT: Ah! Certo. IM: Era só... A gente... Eu trabalhava no escritório. Era só fazer aquelas faturas, para mandar para fora. Porque eles vendiam para fora. Não era... AT: Ia muita gente do interior comprar mercadoria. IM: Não. O viajante é que ia e vendia. AT: Ele vinha aqui, comprava o material para... IM: //Não. O viajante era deles.// WC: Era da própria... IM: Da própria. Levava amostra. AT: Ah! Certo. IM: Levava as amostras e eles escolhiam lá no interior. E aí eles faziam aquelas... Como é que a gente fala. Não é mala não. É... aquele papel... aquele... WC: Malotes. IM: Malotes. Aquelas coisas e mandava. Ou mandava de ônibus, ou mandava de caminhão. AT: Mandava para as lojas que iam revender. IM: É. Para revender. AT: E nessa época aí... Isso foi nessas empresas que a senhora trabalhou? IM: É. Nas duas empresas que eu trabalhei. AT: Na primeira não, porque a senhora só mexia com escritório. IM: Não. Primeira só escritório. Foi na segunda e na terceira. AT: Nessa época desse primeiro emprego, a senhora trabalhou no escritório. Eram muitos os funcionários que trabalhavam lá? IM: Não. Duas só. Eu e uma moça. E o dono. Era mesmo na casa dele. AT: Sei IM: Tinha uma sala grande que ele tinha o escritório. Ele pegava escrita dos outros. Ele era contador. AT: Ah! Então era só isso. IM: Só isso. Só isso que fazia. AT: E mesmo assim a senhora tinha horário determinado. IM: Tinha. AT: Era com carteira assinada? IM: Não. Com ele eu não assinei não. Eu já fui assinar nessa outra que eu fui. AT: Mas ele te pagava o salário correto? IM: //Pagava por mês.// Pagava correto. AT: O salário era salário mínimo? IM: Não tinha salário mínimo, não. AT: Não tinha. IM: Não tinha não. Pagava o tanto que ele queria. WC: É? IM: //É.// WC: E férias tinha? IM: Férias tinha. Férias. Eram, parece que vinte dias de férias. WC: É? IM: Depois é que passou para trinta. AT: //Hum...// E nesse segundo emprego. Aliás, com relação ao primeiro emprego. Foi nessa época que a senhora fez o curso de datilografia. IM: Foi. Foi esse senhor mesmo que falou que eu fizesse. Esse que está... Napoleão. AT: Seu Napoleão, seu primeiro patrão. Esse curso de datilografia, a senhora se lembra o nome dele? Onde que ele era? IM: Não me lembro. Eu sei que era na rua Curitiba. AT: E havia muitas outras... IM: //Por ali, pelos seiscentos e pouco...// Havia outras. AT: Rapazes também? IM: Tinha... No curso? AT: É. IM: Tinha muita, muita gente. WC: //Muita gente.// IM: É como é hoje. Mesma coisa. AT: E depois que a senhora fez esse curso de datilografia, a senhora chegou a pensar em fazer algum outro curso, na área de escritório, que pudesse te facilitar um emprego melhor? IM: Não. Não fiz curso nenhum. Aprendi lá dentro do escritório. Que eu aprendi tudo. AT: Sei. IM: Livro caixa, livro rascunho. AT: E no seu segundo emprego dona Isaura, foi o próprio Sr. Napoleão que indicou a senhora para o parente dele. IM: //Foi. Que era cunhado dele. É.// AT: Por que ele fez isso? IM: Para melhorar a situação. Porque ele... WC: Da senhora. IM: É. Porque ele já ia ficar só com uma moça. Aí, melhorava para mim e para ele. AT: Ah! Certo. Ele queria... Ele ia dispensar um dos funcionários. IM: //É... É.// E a outra trabalhava melhor, porque a outra trabalhava com ele há muitos anos. AT: Ele que indicou outro emprego para a senhora? IM: Foi. AT: Nesse outro emprego a senhora fazia exatamente o quê? IM: Fazia escrita do caixa. Mas tinha muitos... aí já tinha outros, até rapaz muito bem educado, muito distinto. Quando a gente não sabia uma coisa, perguntava. WC: Sei. Tinha outras mulheres que trabalhavam lá? IM: Tinha. Mais uma, eu. Quer dizer, eram duas mulheres e quatro homens. Tinha o guarda-livros e mais três homens. Eles trabalhavam embaixo na... despachando a mercadoria para fora. WC: //E eles.../ Hum... IM: E nós fazíamos as faturas, lá em cima. Eles puseram assim. Ainda bem que eles aproveitaram. [Risos] WC: //Puseram uma sobreloja.// IM: É... uma sobreloja Era... AT: Lá também a senhora teve a carteira assinada? IM: Tive carteira assinada. Depois fui para o Caetano. Caetano Vasconcelos, com carteira assinada. AT: Lá, onde que ficava? IM: Na mesma rua. É onde é a Mesbla hoje. AT: //Na rua Curitiba?// Certo. IM: Ali eu trabalhei, não me lembro bem, mas parece que uns três ou quatro anos. AT: Lá a senhora também fez um serviço parecido com esse? IM: Foi o mesmo serviço. Só que lá eu... de mulher eu era sozinha. Era eu e o Guardalivro, só. AT: Lá também era atacadista. IM: //Atacadista.// É. E de lá, quando eles fecharam eu fui para uma fábrica de macarrão desse José Costa. Ali na rua... ainda tem essa fábrica. Na rua Carijós. Não. Tamoios, quinhentos e pouco. É lá no princípio. AT: Ah! Sei. WC: E a senhora trabalhava ali em que? IM: No escritório da agência. WC: No escritório também. IM: No escritório, também. WC: E eram muitos. IM: Não. Eram duas só. WC: No escritório. IM: Eram dois senhores e eu. WC: E na fábrica era muita gente? IM: Ah! Na fábrica era. Era muita gente. WC: Tinha muita mulher? IM: Muita mulher. WC: É? IM: Muita mulher, rapazinho, meninote que eles aproveitavam, não é? WC: Era comum ver crianças trabalhando? IM: Era. Dentro das fábricas. WC: //Nas lojas, nas fábricas...// IM: É. WC: Mais nas fábricas do que nas lojas, não é? IM: //Nas fábricas do que nas lojas.// Nas lojas já eram mais senhores, não é? WC: Ahn-hã. Então era comum ver... IM: //Era...// WC: A senhora via no seu dia-a-dia? IM: É. WC: Era comum. E mulher trabalhando fora? IM: Tinha mulher também trabalhando. WC: Onde que a senhora se lembra, num determinado lugar eu só via homem trabalhando. Em outro, já tinha muita mulher? A senhora consegue se lembrar. IM: //Balcão, balcão// eu não me lembro de mulher, lembro só de homem. Era aquela Casa da Sogra, já existia. Casa... Uma outra perto da Casa da Sogra, também. Eu não me lembro. Depois que vieram essas lojas grandes, Americanas, essas lojas aí que já deram emprego para... WC: Para mulheres trabalharem. IM: //Para mulheres trabalharem.// WC: No balcão. IM: //No balcão.// AT: Mas numa loja de roupas por exemplo, aí já era mulheres? IM: Era mulher. Nessa que eu falo, por exemplo, na Guanabara, não é? Tinha mulher e tinha homem. Na parte de homem era homem. Na parte de mulher era mulher. AT: É. Agora, de modo geral quem trabalhava assim, no comércio, era homem? IM: Era homem. Que vendiam, para vender era homem. AT: E nessa época havia muita indústria ou algum tipo de empresa maior aqui na cidade. IM: Não. Não. AT: Então era mais ser funcionário público ou trabalhar no comércio. IM: //Ser funcionário público ou trabalhar... ou...// Tinha essas fábricas Essas fábricas. Fábricas de macarrão. E qual é a outra fábrica, hein... WC: De tecidos já tinha? No bairro... AT: Cachoeirinha. IM: Ah! Tinha. Cachoeirinha, já tinha. Essa fábrica de tecidos é antiga. É, mas lá a gente não ia, porque é muito longe. AT: A senhora não conheceu? IM: //Não. Não conheci não.// Conheci depois, muitos anos depois que eu conheci. Tinha uma outra fábrica também que era do Juventino Dias. Eu não sei... Era na Renascença. AT: Juventino Dias também era estrangeiro? IM: //Não. Não.// AT: //Imigrante?// IM: //Não.// Ele era... Parece que ele era de Sabará. Ele começou em Sabará, depois ele ficou rico. Tinha uma fábrica, parece que essa fábrica era dele. Era dele. Essa que tinha na Renascença. Eu lembro que na Renascença, naquele tempo era rua Jacuí, por ali. Tinha uma fábrica grande ali. AT: Em quais espaços era comum ver a mulher trabalhando? IM: Só nessas fábricas. AT: Nas fábricas. IM: É. AT: E também ser professora? IM: //É. Professora era.// Professora era só mulher. E também secretarias também. Quase que era só mulher. AT: Nas secretarias do Estado? IM: Do Estado. Essa secretaria aqui da... Porque essas são antigas. AT: Educação... IM: //Educação.// AT: Agricultura. IM: É. Tudo isso tinha muita mulher. Os chefes eram homens. AT: Não haviam chefes mulheres. IM: Não. Não. AT: Nessas lojas, nessas fábricas também não haviam chefes mulheres? A senhora percebeu isso alguma vez? IM: Não. Pelo que eu me lembro não. Ah! Tinha uma fábrica também lá na... Fábrica de toalhas, essa fábrica acabou. Ali na Rua dos Pampas, por ali. Lá na... como é que chama mesmo? Como é que chama aquele bairro na rua dos Pampas. AT: Eu não sei onde fica a rua dos Pampas IM: Na rua Platina. AT: Ah! Calafate. IM: Calafate. Então era ali... Eu acho. Eu não sei se era na rua Pampas ou se era na Platina. Ali tinha uma fábrica, comecinho da Platina, ali tinha uma fábrica, fábrica de toalhas. Lá era só mulher. Tinha homens que tomavam conta. AT: A senhora lendo o jornal, a senhora via oferta de emprego para mulher e para homem? IM: É. No jornal. AT: //Havia// mais oferta para homens do que para mulheres. IM: //Do que para mulheres.// Eram secretários, não é? AT: E como a senhora se sentia então? Já que o mercado de trabalho era tão restrito. Uma coisa até que a gente falou com a senhora, antes de começar a entrevista. Como a senhora se sentia numa época, em que sair de casa, uma mulher sair de casa para trabalhar era uma coisa um pouco difícil. Como a senhora se sentia sendo uma mulher trabalhando fora e ganhando a própria vida? IM: Eu não sentia nada. Para falar verdade. [riso]. AT: Não se sentia diferente? IM: Não. Não sentia nada. AT: Mais importante? IM: //Não. Não.// Não, porque era profissão de... [riso]. AT: E o seu relacionamento com os homens, companheiros de trabalho. Eles... IM: Era muito bom. Eles eram muito bons, sabe? Muito delicados. Em todos esses lugares que eu trabalhei. AT: Hum... IM: Inclusive os patrões também, sabe. AT: A senhora acha que existia uma igualdade de tratamento? IM: //Existia.// De tratamento existia. AT: E o relacionamento com o patrão. IM: Também. AT: //De autoridade//, por exemplo. IM: Eles não mandavam muito não. Ficavam mais ou menos... Tinha. Porque a gente era... Por exemplo, eu era subalterna ao guarda-livros. Ele é que mandava, o patrão não. AT: A senhora tinha contatos, assim, mais freqüentes com os patrões? IM: Não. Com os patrões não. Mas com os guarda-livros e com os colegas, que trabalhavam. Com os patrões não. AT: Não havia relação de amizade. IM: //Não havia Uma vez ou outra, bom dia, boa tarde. AT: Havia uma distância, preservava-se essa distância. IM: //É.// Menos do Caetano Vasconcelos. Esse daí era muito alegre, contava muitos casos. Esse terceiro emprego que eu tive. Ele era muito companheiro. Pessoal todo reunia em volta dele. Os viajantes e tudo. Para ele contar os casos. Ele era de Ponte Nova, dessa família de Ponte Nova. AT: Caetano Vasconcelos. IM: //Vasconcelos.// É. Ele morava na rua Rio Grande do Norte. Mesmo no princípio, era cento e sessenta, mais ou menos. AT: A senhora falou que o relacionamento com o pessoal de trabalho era bom. Vocês chegavam a sair depois do expediente para fazer algum programa? IM: Não. Porque todo mundo ia para a casa correndo. [riso]. AT: Era? IM: Era. Saía tarde, cinco e meia. AT: Era tarde? IM: Ah! Para nós era tarde. [risos]. Para quem trabalhou o dia inteiro, não é? WC: Estava querendo descansar. IM: É. Estava querendo ir embora. AT: E era comum vocês fazerem visitas a eles nos finais de semana. IM: Não. Não. AT: Ou combinar algum programa no centro da cidade? IM: Também não. AT: Quer dizer que o relacionamento era só no trabalho... IM: //Era só no serviço.// AT: Era só ali. IM: //É... É...// Era só ali. AT: A amizade não chegou a se estender tanto. IM: //Não. Não.// Anos depois é que fiquei, por exemplo, dois. Até morreram. É Rui e Geraldo. Foram meus colegas. Anos depois é que eu entrando para o Instituto, que eu trabalhei com a irmã deles. Essa foi muito minha amiga. AT: Aí que a senhora teve uma proximidade maior com eles. IM: //É, uma proximidade maior com eles.// É. AT: Enquanto trabalhavam... IM: Não. Mais só na rua. Bom dia, boa tarde, não é? AT: As suas amizades daqui. A senhora teve alguma amizade do tempo do Sagrado Coração, que a senhora viesse a retomar depois, quando a senhora voltou para cá? IM: Não. Porque minhas amizades eram as internas, eram todas do interior. AT: Sei. Então... IM: //Era de Itabirito.// Era de Patos de Minas, de Paracatu. AT: Hum... Então a senhora não chegou a manter nenhum... IM: //Não.// Manter relações, essas coisas, não. AT: De Sete Lagoas. A senhora chegou a escrever para alguma amiga, receber visita? Chegou a fazer visita para eles. IM: Não. Também não. V: Hum... Os parentes vinham visitá-los aqui. IM: //Vinham visitar. É. // E a gente também ia lá, também, em Lagoa Santa. Essa minha irmã que era casada lá, tinha muitos filhos, a gente ia muito lá. V: Sei. A sua irmã casada lá de Sete Lagoas. As duas, aliás. Elas vão ficar lá muito tempo, depois elas vêm para cá? Como que era? IM: Não. A outra ficou lá toda vida. V: A mais velha. IM: //É. A que era casada.// O marido dela tinha uma fábrica de fazer tijolos. V: Hum... IM: Matadouro, que chamava o lugar. [...] Então ela tinha uma casa muito boa. Era até distante de Sete Lagoas. Agora é no centro quase. Mas a casa era distante do centro. Ela morava lá. Agora, essa outra não, essa outra mudou para cá em mil... Eu não me lembro quando. Acho que foi em 1950. Ela mudou para a rua São Paulo. Essa que mora agora na rua Patrocínio, mudou com o marido e a filha. AT: Ela só teve um filha essa sua irmã? IM: Só teve duas. Uma morreu. A primeira morreu e teve a segunda. Só tem a segunda. AT: Então quando eles faziam visitas para vocês eram apenas os três? IM: É. Eram os três. É. AT: E a irmã mais velha também fazia visita a vocês? IM: Fazia. AT: E ela tinha muito filhos? IM: Tinha. Tinha nove. AT: Nossa! Vinham todos? IM: Não. Vinha ela com uma, duas, só. Só as mais velhas. AT: Hum... IM: As pequenas ficavam lá. Com a cunhada dela. AT: Ahn... E fora esses contatos com parentes, com os amigos. Aqui na cidade, no bairro, algum amigo da sua irmã, das suas irmãs. A senhora chegou a estabelecer alguma amizade? IM: Não. Só amizade, assim mesmo, de serviço. Tinha uns vizinhos lá muito bons, muito delicados. AT: E nessa época que a senhora está trabalhando nessas empresas, até sua ida para o IAPETEC. A senhora chegou a participar ou assistir algum movimento, alguma mobilização de funcionários, por melhores salários, por melhores condições de trabalho. IM: //Não.// AT: A senhora não se lembra de nenhum movimento? IM: //Não.// Lá, por exemplo na fábrica, ninguém pedia aumento. Eles é que aumentavam. WC: //Era espontâneo?// IM: Era espontâneo, sabe? No fim do ano eles davam gratificação. WC: Era grande a fábrica? IM: Era grande. Era enorme, grande mesmo. AT: A senhora acha que ela tinha quantos operários, mais ou menos, trabalhando? IM: Ah! Devia de ter uns trinta. AT: É? IM: É. AT: Essa gratificação que a senhora falou que era dada, era um presente de Natal? IM: Não. Era dinheiro mesmo. Porque os empregados deles eram todos pobres. AT: Hum... IM: Então era dinheiro. Dava mantimentos também, mas dava... Eles davam muito macarrão, para eles, para os empregados. WC: No final do ano? IM: É. Não. Mesmo durante a semana. WC: Durante a semana, não é? [FIM DO LADO B DA FITA 3] A Afonso Pena, 23, 24, 26, 42 aula de música, 9 avenida Contorno, 28 B Barro Preto, 9, 21, 22, 26 Belo Horizonte, 1, 3, 18, 19, 31, 32, 37, 40, 42 C cinema, 16, 17, 23, 41 F fábricas, 50, 51, 52, 53 filme, 41 Funcionários, 25, 26 L livros, 29, 42, 43, 44 M Maria das tranças, 37 moda, 17, 19, 35, 36 mulher, 18, 19, 21, 38, 49, 50, 51, 52, 53, 54 P plástica, 19, 20, 21, 40 Praça Raul Soares, 15, 21, 31 R rádio, 38, 39, 40 S Sete Lagoas, 1, 2, 4, 7, 8, 15, 16, 57, 58 T telefone, 14, 38, 39 4A-IM -1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CENTRO DE ESTUDOS MINEIROS GRUPO DE HISTÓRIA ORAL PROJETO INTEGRADO: “MINAS GERAIS: HISTÓRIA ORAL” POLÍTICA E SOCIEDADE ATRAVÉS DA ENTREVISTADORES: WALQUÍRIA CAMPOS ANNY TORRES ENTREVISTADA: ISAURA MARIA DA MATTA LOCAL: BELO HORIZONTE DATA: 11/07/91 Entrevista - fita 4 - lado A AT: Hoje é 11 de julho de 1991, nós estamos entrevistando dona Isaura da Matta. A entrevistadora é a Valquíria. WC: É. Nós já estamos na nossa quarta entrevista. Bom. Dona Isaura, continuando alguns aspectos que a gente conversou na semana anterior, na nossa última entrevista aqui, há quinze dias atrás. Nós gostaríamos de saber ainda a respeito dos seus primeiros empregos aqui em Belo Horizonte, quando a senhora trabalhou no comércio. Os empregos anteriores ao IAPETEC. Como eram as funções de trabalho no que se refere a trabalho no sábado, se havia algum tipo de assistência médica... IM: Não. Assistência médica a gente pagava o IAPI. Uma vez eu paguei o IAPC, não é? Quando eu trabalhava no comércio. Quando eu trabalhava na Vasconcelos. Caetano Vasconcelos. Quando eu fui para a fábrica, já era indústria, começou pelo IAPI, aí eles transferiram para o IAPI, sabe? WC: Sei. IM: Eu trabalhei numa indústria de calçados e numa indústria de macarrão. A de calçado eu 4A-IM -2 nem me lembro o nome. Você acredita? [risos]. Era lá na Santa Tereza. Eu esqueci completamente o nome. WC: É... [risos]. AT: É fábrica de calçados? IM: //É fábrica de calçados.// Pequenina, sabe. WC: Ahn... A senhora trabalhou lá pouco tempo? IM: É. Trabalhei pouco tempo. Trabalhei poucos meses. Depois fui lá para a fábrica de macarrão. WC: Ah! Sei. Antes da fábrica. IM: Foi antes da fábrica. AT: Nesses empregos que a senhora teve, a senhora trabalhava aos sábados? IM: Trabalhava. Todo sábado trabalhava. AT: Só a parte da manhã ou era o dia inteiro? IM: Era o dia inteiro. AT: O dia inteiro? IM: É. AT: Ia almoçar em casa? IM: Almoçava e voltava. AT: Trabalhar aos sábados não implicava em aumento de salário. IM: Não. AT: E havia o cumprimento de horas extras? Durante a semana, durante o sábado? IM: Também não, porque não tinha. Nós não fazíamos horas extras. Fazia assim, aquele horário, aquelas oito horas e vinha embora. WC: Em nenhum momento a senhora fez... IM: //Não.// Horas extras não. WC: Certo. Agora, com relação ao tempo livre que a senhora tinha, dentro desses empregos. Por exemplo, domingo era um dia livre. Feriado, as suas férias. Como a senhora 4A-IM -3 aproveitava esse tempo? IM: Ah! Fazendo... Todo domingo aproveitava fazendo as coisas em casa, não é? [risos]. Afazeres de casa, roupa e tudo, sabe. A gente fazia no domingo, ia à missa, porque a mamãe era muito religiosa. Ia à missa, ia à igreja. Se tivesse uns amigos... Uns amigos de Sete Lagoas que moravam aqui, a gente ia, fazia visita. Ou então à noite, não é. Nós fazíamos visita sempre à noite. Sabe. Essas famílias assim, que ela gostava. Uma morava na Lagoinha, que hoje não é Lagoinha mais, é São Cristóvão. Outra morava lá em cima no Padre Eustáquio. Ela tinha uma amizade lá muito antiga, lá de Sete Lagoas. Até continuou até ela morrer, e eles quase todos já morreram. AT: Hum... IM: Acho que dois ou três estão vivos, só. Os outros mesmos, que eram mesmo nossos amigos, morreram. AT: Então nas noites de domingos, com freqüência vocês visitavam os amigos. IM: //É. Visitava os amigos.// É. AT: Eles também visitavam vocês? IM: //Visitavam, é.// WC: E as irmãs que estavam em Sete Lagoas. Elas também vinham fazer visita? IM: Vinham. Não era todo sábado não, uma vez ou outra. WC: E as férias, esse período de férias. A senhora viajava, a senhora saía de Belo Horizonte? IM: É. Eu sempre viajava com a mamãe. Eu ia à São Paulo, que nós temos... Tínhamos uma prima em São Paulo. WC: Hum... IM: Fomos a Curitiba, também nessa época. Era só isso. Esses passeios por perto mesmo, sabe? WC: Ahn... Não é tão perto. Hoje já não é perto. IM: É. Já não é tão perto. Mas agora que é perto, não é? Porque ia de trem. [risos]. WC: Antes de vir para Belo Horizonte, antes de ter esses empregos, a senhora não tinha isso. IM: Não. 4A-IM -4 AT: Então a senhora só começou a fazer essas viagens... IM: Foi depois que moramos aqui. WC: Por que era mais fácil? IM: Era mais fácil. Nós já tínhamos emprego, tinha dinheiro, não é? Cada uma já tinha dinheiro, era mais fácil. Ia no Rio. No Rio a gente ficava em hotel. AT: Vocês não tinham parentes no Rio, não? IM: Não. Tínhamos essa prima, mas foi depois que ela foi. Era uma prima [...] foi depois. Uns anos depois é que ela mudou para o Rio. WC: Em Curitiba vocês tinham parentes? IM: Não. Também ficava no hotel. WC: E em São Paulo? IM: Em São Paulo tinha essa prima, que já era casada. WC: Todas as férias, uma vez por ano, dava para fazer isso? IM: //Não. Não. Não.// Aí não. Não era sempre não. Era de três em três anos. Quando pudesse, não é? WC: E ia sempre a senhora e a sua mãe. IM: É. Eu e mamãe. WC: E o pai? IM: Ele ficava. WC: É? IM: É. Essa minha irmã estava estudando ainda, dando aula, aliás. Ela dava aula. WC: Sei. IM: Minhas férias não coincidiam com as férias dela, não. WC: A senhora tirava férias em períodos... IM: É... Separados, não é? WC: Não são esses períodos assim de grande procura, não é? 4A-IM -5 IM: //Não. Não. Não.// Era apenas a época que eles podiam dar, que eles davam. Não davam férias coletivas, na fabrica principalmente não davam férias coletivas, eles iam intercalando, para não ficar sem funcionários. AT: E a mãe da senhora, na época que a irmã tirava férias ela viajava com a irmã também? IM: Não. Aí sempre ela... ou ficava ou ia... Ela ia muito em Sete Lagoas, muito mesmo. AT: A Geralda? IM: É. A minha mãe também gostava muito de Sete Lagoas. Ia muito lá, na casa da outra que morava lá. AT: E a mãe da senhora era animada para viajar também? IM: Hi!... Demais. Se pudesse, se tivesse dinheiro, viajava sempre. [risos]. WC: É?... IM: É. AT: Era uma boa companhia. IM: É. AT: As viagens que vocês faziam eram longas? De duração. IM: Não. Não era muito longa. AT: Uma, duas semanas. IM: É. No máximo dez dias. AT: No máximo. IM: Ou ia na cidade do interior. Diamantina, lugares assim. Essas cidades... Ouro Preto. Mas ia e voltava não é? Diamantina que nós fomos acho que duas vezes, mas também só dois dias. Porque Diamantina não dá mais do que dois dias, não. WC: A senhora ia guardando dinheiro todos os meses para poder viajar? IM: //É.// Para poder viajar. Era. Tinha que guardar, porque se não, não dava não. [risos]. AT: Ah! Então a senhora já tinha essa vontade de... IM: //Ganhava pouco. É...// AT: De fazer... 4A-IM -6 IM: Ganhava pouco, quer dizer, ganhava muito naquela época. Porque naquela época dava. Cem cruzeiros naquela época era... Primeiro não era cruzeiro não. Agora que é. Era um outro dinheiro antes do cruzeiro. Depois é que passou para cruzeiro. AT: Réis? IM: É. Teve mil réis, não é? Mas isso foi muito antes. AT: Bem antes. IM: É. Parece que foi em 30. O tal réis. [risos]. AT: Isso não vem ao caso. IM: Um conto de réis [risos]. Dinheiro não vem ao caso. WC: O que vale é... O que vale hoje é o dólar, não é? IM: É. É o dólar. É o dólar. [risos]. WC: Os contos de réis, esses cruzeiros, cruzados, não. [risos]. AT: E como é que a senhora escolhia esses lugares para onde a senhora ia? A senhora via em alguma revista? IM: Não. Às vezes alguém falava que era bom, bonito, não é? AT: A senhora ia mais por indicação? IM: É. AT: Inclusive os lugares onde a senhora ficava? IM: Ou então, a gente quando estudou no grupo escolar, falava muito nessas cidades antigas. Muito mesmo. WC: Essas cidades históricas? IM: //Históricas, é.// É. WC: Então a senhora começou fazendo passeios aqui por perto? IM: É. Começou assim. Depois é que foi ampliando. WC: Bom. Nós vamos deixar para aprofundar nesse assunto numa entrevista especificamente sobre turismo. Nós vamos anotar para não esquecer. Está bom? Agora, a gente gostaria de saber como que deu a entrada da senhora, como que foi o seu ingresso no IAPETEC? 4A-IM -7 IM: O IAPETEC, a minha irmã tinha uma amiga lá dentro há muitos anos. Chamava Conceição. Então ela falou: "Oh! O Instituto está procurando funcionárias. Ela já era da Secretaria da Agricultura. Depois passou para o grupo. Então ela falou: "Então vai lá." Então eu fui. E pedi o próprio delegado. Fui com ela, a Conceição. Então para pedir, ele que me pôs. WC: Que delegado era esse? IM: Como é que chama esse homem da Rádio Globo? WC: Rádio Globo? IM: Rádio não, TV Globo. Marinho, não é? AT: Roberto Marinho. IM: É... AT: O dono, não é? IM: É... O Roberto Marinho que arranjava. Agora, esse era sobrinho do Roberto Marinho. WC: Roberto Mayrink ou Roberto Marinho? IM: É Mayrink. Mayrink. WC: Mayrink? IM: //Mayrink//. É. WC: Então é outra família. IM: //É outra família.// É Mayrink, sabe. AT: Sei. IM: Então ele é que me arranjou. WC: Era por indicação? IM: Por indicação. Nessa época era por indicação. Depois é que entrou concurso. WC: Concurso. IM: //Concurso//, lá. WC: Ahn... IM: Mil novecentos e... Eu entrei em 47, em 1950, teve um concurso. Mas concurso interno. 4A-IM -8 Não foi concurso externo, não. WC: Sei. IM: Foi só para continuar aqueles pessoas que estavam. Aí já foi outro delegado. Foi... Eu não sei se 52 foi o Wilson. Foi na época do seu Wilson Modesto, ele foi deputado. Depois que ele saiu do Instituto foi ser deputado. Eu não me lembro bem se foi nessa época que teve o concurso interno. Então, todos que estavam continuaram. WC: Não era comum nessa época em que a senhora viveu aqui, até a década de 50, então. Não era comum ver no jornal, edital convocando concurso público? IM: Não. Convocando para os outros Institutos. O IAPC tinha concurso externo, tinha concurso. AT: //Sei.// IM: O IAPI tinha concurso público. O IAPB tinha. Menos os do IAPETEC. WC: O IAPETEC até então não. IM: Não. Era cargo de... AT: Confiança? IM: Não... Era de política. AT: Ah! Sei. IM: Tinha que arranjar um político para poder ingressar. AT: E esse delegado que a senhora está falando é uma espécie de supervisor, diretor? IM: Não. Ele tomava conta de todo o Instituto. Tinha benefício, tinha a arrecadação, tinha a sessão de pessoal. Todo, era ele que tomava conta de tudo. Quer dizer, tinha os chefes e os chefes levavam para ele. AT: O que quer dizer IAPETEC? IM: Instituto Nacional de Transporte, não é? I... A... Aposentadoria, Transporte, Cargas. É, cargas é carroceiro, não é? WC: Então era um Instituto de Previdência dessa classe somente. IM: //Dessa classe.// Só dessa classe. Só de chofers e carroceiros. WC: Sei... 4A-IM -9 IM: Era Instituto. Como o IAPI era só da indústria. WC: Da indústria e o IAPC era só do comércio. IM: //Era só do comércio.// WC: Não havia um instituto único para toda classe trabalhadora. IM: É. Não. Cada um tinha o seu, não é? WC: Certo. IM: IAPB era dos bancários, não é? WC: Certo. IM: E esse daí era de Transporte. WC: Hum... Então... IM: //Transporte e Cargas.// AT: Transporte e Cargas. A senhora falou de carroceiro. IM: É. Pois é. Tem o carroceiro, tinha o motorista. Tinha... AT: Motorista de táxi, estava incluído? IM: De táxi. Tudo... Quer dizer, de táxi e de... AT: Ônibus, bonde. IM: //De ônibus.// AT: Em 50 ainda tem bonde, não tem? IM: Não. AT: Trolebus. Ou ainda não. IM: Trolebus pertencia à prefeitura, não é. E o bonde pertencia à prefeitura. AT: //Então esses...// IM: Esses, eles pagavam a prefeitura. AT: Ah! Certo. IM: Descontava na prefeitura. Tinha uma previdência na prefeitura. WC: E era carroceiro de aluguel, que havia na cidade? 4A-IM -10 IM: //É. Tinha.// Carroceiro de aluguel. WC: Ah! Isso aí andava... IM: //[ ] transportadores.// Fazia aluguel. AT: //Fazia transporte mesmo.// IM: Ia para transportadora e fazer transporte mesmo. AT: Tinha transporte de mudança? IM: É. Fazia mudanças. AT: Entrega em loja? IM: É. AT: Essas coisas... IM: Tudo era eles. Os carroceiros. AT: Eram muitos? Na cidade. IM: //Muitos mesmo.// É. Era muita carroça. Depois eles foram tirando. AT: E que tipo de pessoa trabalhava com isso? Homens mais velhos, jovens... IM: Ah! Tinha... Sempre eram homens idosos, de cinqüenta e tantos anos, sabe. AT: Que já tinham trabalhado em outras profissões? IM: É. Não. Aí eles já... Parece que desde menino eles já tinham a próprio carroça. Agora, aqui em Belo Horizonte não tem nenhuma carroça mais. WC: É... De vez em quando a gente vê uma. Lá em Santa Efigênia, perto do quartel, costuma ficar umas paradas. [riso]. AT: Lá perto do quartel. [riso]. Mas, que tipo de prestação de serviço, que tipo de assistência era feito pelo IAPETEC. IM: Era tudo. Tinha hospital, tinha dentista. Por exemplo, adoecia, tinha os médicos, tinha os médicos. Eram todos examinados lá. Era na rua Carijós, 528, ali. Tudo era lá. Era um prédio bem grande, sabe. Ali na loja Americana. Lá eles davam tudo... Toda assistência que dão agora, eles já davam naquela época. AT: Assistência odontológica também? 4A-IM -11 IM: Também dava. AT: Exames laboratoriais. IM: Tudo isso era feito lá. Eles mandavam. AT: //Eles já tinham médicos deles? IM: //Radiografia.// Tinha os médicos deles, nomeados deles. WC: Cooperativa tinha? IM: Tinha uma cooperativa. AT: //Alimento, roupa.// IM: //Tinha uma cooperativa, mas...// Não, só de alimentos. Mas era particular, eram os próprios funcionários que tinham essa cooperativa. AT: Ahn... Funcionários do IAPETEC. IM: Do IAPETEC. Tinha uma cooperativa, depois fechou. WC: //E a senhora//, enquanto funcionária do IAPETEC, a senhora pagava ao IAPETEC ou a senhora pagava um outro instituto. IM: //Ao IAPETEC.// Ao IAPETEC. Porque o IAPETEC descontava. WC: E, vamos supor, seus familiares tinham direito de... IM: Tinha só a mãe. WC: Só a mãe. IM: Tinha direito a médico. WC: Sei. IM: Minhas irmãs já não tinham direito não. Porque já eram maiores. Só menores, ou filhos. Ou irmã viúva, não é? WC: Hum... Como que era paga essa contribuição dos trabalhadores ao IAPETEC? Já era descontado na folha de pagamento pelas empresas? IM: Pelas empresas, descontavam. E esses outros, por exemplo, os carroceiros que não tinham, eles mesmos pagavam o carnê. AT: Como autônomo? 4A-IM -12 IM: Como autônomo. AT: E no caso, o direito de assistência se estendia a toda família. IM: Toda família. Ele, estendia à toda família, menor, não é? AT: Menores de idade. IM: É... AT: Filhos menores de idade era homem até os dezoito e mulher até vinte e um? IM: Era. Também quando morresse, tinha pensão até vinte e um anos AT: É. E no caso de morte da pessoa, a mulher recebia uma pensão? IM: Recebia uma pensão. De acordo com o que ele pagava, não é? AT: É. IM: Tem agora, ainda, não é? AT: É. IM: Parece que é 60% do ordenado. É muito pouco, não é? WC: E isso também dava direito a uma espécie de aposentadoria? IM: Dava. Depois de... O homem trinta e cinco anos, a mulher trinta. WC: Mas, isso na época existia? IM: Na época já existia. WC: Mas não tinha nenhuma mulher filiada a instituto, tinha? AT: Tinha? Eu queria saber. IM: Hein? AT: Mas no caso, tinha alguma mulher que trabalhava como carroceira ou como chofer? IM: //Tinha. Já tinha.// Tinha até chofer. Uma chofer aqui. WC: //Tinha?// AT: //Tinha?// IM: Tinha. Motorista. Tinha uma motorista de táxi. WC: //Ahn...// De táxi. 4A-IM -13 IM: É. Nessa época. Ela pagava. AT: Mas, deviam ser bem poucas na cidade. IM: Ah! É. Não existiam muitas não. AT: Porque ainda hoje... IM: São poucas, uai. Acho que eu vi duas só. AT: Bem poucas. E... IM: Acho que uma ou duas. Eu já vi na rua, não é? AT: Certo. Eu também já vi bem poucas. E eu noto também um certo preconceito das pessoas. IM: É. Elas não gostam não. É. AT: Como que era isso na época. A senhora lembra de algum comentário? IM: Não. Ninguém lá comentava não. AT: A senhora. A senhora lembra do que a senhora pensava na época, de uma mulher como motorista de táxi? IM: Não. Eu não me lembro. AT: Porque é uma pessoa que lida com o público, não é? IM: É. Elas são sempre muito gentis. WC: É... AT: Na época a senhora chegou a pegar táxi com mulher? IM: Não. Táxi com mulher não. AT: Não. IM: Não. AT: Não soube de ninguém que... IM: Não soube de ninguém que tomou. [risos]. AT: Certo. Lá no IAPETEC, o que a senhora fazia? Quais eram as tarefas? IM: Eu, trabalhei... trabalhei muito tempo no guichê. Depois, eu batia à máquina. Fazia as 4A-IM -14 correspondências no benefício. Quando eu trabalhava no benefício. Depois eu fui para o setor... setor médico. Também a mesma coisa, o mesmo serviço que tem no benefício tem no setor médico. Atende segurado, faz as cartas chamando os segurados para qualquer problema que tem, não é. AT: É. IM: Qualquer comunicação. Eu só fazia a carta, batia a máquina, não é? AT: Ahn... hã... IM: Pelo que eu lembro, só. Quando faltava alguma no guichê, a gente ia, sabe. A gente tinha que atender. AT: A senhora ficou lá de quando até quando? WC: De 47... IM: De 47 até 67, que eles uniram, não é? AT: Fundiram com... IM: Fundiram os institutos. Eu trabalhei um pouco na arrecadação, também. Uns tempos. Aí foi na rua Guarani. A arrecadação foi na rua Guarani. AT: A senhora trabalhava então na rua Carijós. IM: //É. Na rua Carijós.// Depois foi que a arrecadação na Guarani e aí eles fizeram a... AT: Fusão. IM: A fusão. Aí nós todas viemos para aqui. Quer dizer, a minha parte toda veio para a Amazonas, 266. WC: Que é o INPS? IM: Que é o INPS. Agora não é mais é... INSS... WC: INSS. AT: //INSS.// IM: É. Mudou tudo. WC: É. Só muda a sigla, não é? [risos]. IM: Lá... É onde é o INAMPS, não é. Era o INAMPS. 4A-IM -15 WC: Isso. IM: Era no serviço médico ali que nós trabalhávamos. AT: Lá a senhora trabalhou de 67, até quando? IM: É de 67 até depois eu fui para a rua Espirito Santo. Quando eles fizeram no INAMPS, INPS... Não me lembro se foi 67 a 78. Não, 78 eu aposentei, já estava lá há oito anos. Quer dizer, é de 67 a 72, mais ou menos. Eu fui para a rua Espírito Santo 500. Quer dizer, foi a minha sessão toda. A perícia médica foi toda para lá. WC: A senhora aposentou quando? IM: Em 78. WC: Puxa! Tem pouco tempo. IM: Dezembro de 78. [risos]. Doze anos. AT: Está fazendo treze. IM: É. Dezembro faz treze. AT: E quais eram as condições de trabalho da senhora? Na época trabalhava só oito horas por dia? IM: Só oito. Mas na época de Jânio Quadros [...]. De manhã e de tarde, não é? WC: Certo. IM: E... No princípio não. Começava às doze horas, das doze às seis. WC: Quando a senhora começou lá? IM: Quando comecei lá, é. Era das doze às seis. Depois que veio o Jânio Quadros, começou de manhã e de tarde. Como é agora, não é? AT: Ah! Então a senhora passou a trabalhar o dia inteiro? IM: É. Aí... Não. Trabalhava das oito ao meio-dia. WC: //Meio-dia.// IM: E das duas às seis. WC: //Às seis.// IM: Dava na mesma, não é? 4A-IM -16 AT: E até aposentar a senhora ficou trabalhando dois horários por dia? IM: Dois horários. Quer dizer, depois eles tiraram. Voltaram outra vez. Depois tornaram a... AT: É. E há pouco tempo também, aconteceu a mesma coisa. IM: //É... A mesma coisa.// [riso]. Eles tiraram e colocaram outra vez. WC: Isso. [risos]. Agora, qual a diferença que a senhora sentiu que, nos outros empregos do comércio, a senhora trabalhou na iniciativa privada. E no IAPETEC, a senhora vai para um serviço público. Qual a diferenças desses dois, dessas duas esferas? A senhora sentiu? IM: Quase que não senti diferença nenhuma. Porque me parece que no comércio eles são mais amigos, sabe? E no Instituto eles tem só aquela... Conhece todo mundo, mas amizade é umas quatro ou cinco só. Só o setor que está dentro. Mas não tem aquela amizade, mesmo não. No IAPETEC tinha muita amizade, eram todas amigas. [...]. Setor de... Setor de benefício, setor dos que trabalhavam, porque a arrecadação trabalhava lá na Guarani. Então a gente conhecia todo mundo, sabe? WC: Hum... IM: Conhecia, tinha amizade, amizade lá dentro. Porque nunca a gente freqüentou casa, essas casas. A não ser quando adoecia uma pessoa, ou morria. WC: Aí, vocês faziam visita... IM: Então, todo mundo ia no enterro. Mas quando passou para INPS, aí foi diferente. Porque nós pegamos a turma do IAPI. Do [...] e do IAPI. E elas eram muito bravas. [...] Muito brava. Achava que trabalhava muito bem. E elas é que implantaram o serviço, por isso é que atrapalhou o serviço todo do Instituto. WC: Ahn... IM: Porque o IAPI, não dava mesmo. Você vê agora, esses roubos, essas coisas, deve a isso tudo. Porque um Instituto só, não é? Porque quando eram cinco institutos, cada um cuidava. WC: Do seu... IM: Do seu Instituto. E depois que englobou foi só o IAPI comandando, sabe. WC: Hum... Que era da indústria. 4A-IM -17 IM: //Da indústria.// É. Porque eles é que encamparam, não é? É o que estava pior de sorte, encampou os outros todos e ficou mandando. WC: Ah é! Eles estavam numa situação mais... IM: //É... A situação deles era pior// do que a nossa. WC: Ah é? IM: É. E aí... E de fato eles trabalhavam muito bem. Trabalhavam muito bem. E lá era melhor. Porque lá elas tinham... O qüinqüênio deles era melhor. Eles tinham, além do qüinqüênio, de dois em dois anos eles tinham um aumento. Tinha essa tal de Patronal que nós temos, que é muito boa. WC: Hum... IM: Por exemplo, em vez de enfrentar fila, você vai no médico da Patronal. Tem tudo. WC: Hum... IM: Tem radiografia, tem tudo. Tem internamento. A Patronal paga tudo. Depois eles descontam um tanto no ordenado da gente. Isso tudo eles tinham. Mas quando implantou, só ficou a Patronal. Elas ficaram. Tanto que os funcionários do IAPI, ganham mais que os outros funcionários. Porque eles ficaram com esse, de dois em dois anos. WC: Quando a senhora diz, quando implantou é quando fundiu todas essas caixas de benefício, não é? IM: //Quando implantou... Quando fundiu... É... É...// WC: Esses institutos. IM: //Esses institutos.// E elas ficaram mandando. WC: A senhora disse que foram eles que fizeram movimento para poder unificar. IM: //Foi, é.// AT: Mas por que isso? IM: Oh! Porque eles achavam que era bom. AT: Mas a senhora disse agora há pouco, que eles estavam numa situação mais frágil. IM: //Quer dizer, era o que o povo dizia, não é.// Estava numa situação frágil. Porque a indústria não estava muito. O comércio era muito... O comércio, os bancários, por 4A-IM -18 exemplo, tinha médicos ótimos. E tudo fundiu. AT: A senhora acha que em termos da qualidade do trabalho prestado pelo Instituto, o da Indústria que não era tão bom. IM: //Tão bom.// É. Não era não. Principalmente para... AT: //Principalmente aqui em Belo Horizonte.// IM: Para o pessoal da indústria, não tinha tantos benefícios. WC: Filiados. IM: //Os filiados.// É. O IAPB tinha muito mais. WC: Certo. IM: Tinha tudo. O IAPB tinha tudo. AT: E a senhora acha que isso se atribui ao fato de que na época, o nível de industrialização ainda era muito pequeno? IM: Não. Até que tinha bastante fábrica aqui. Não sei porquê. Eles lá é que... [riso]. AT: Agora, outra questão. Essa questão da unificação dos Institutos. Isso partiu de uma reivindicação dos funcionários do Instituto da Indústria ou dos filiados ao Instituto da Indústria. IM: Isso é que eu não me lembro. Isso já veio do Rio. Porque tudo era no Rio. WC: Que se definia. IM: No Rio é que se definia. WC: E isso era uma definição que englobava também uma decisão do presidente? IM: É. Do presidente. IM: É. Do presidente. AT: Ministro da Saúde. IM: É. Eles todos, não é? Não, o mineiro da Saúde nessa época não era. Porque depois ele passou para o INAMPS. WC: Sei... IM: Tem poucos anos que passou para o INAMPS. 4A-IM -19 AT: Mas, na época havia um ministério da Previdência Social. IM: //É. Da Previdência Social.// É. AT: E ele que coordenou esse processo de unificação dos Institutos. IM: //É. Foi.// E com certeza, com o Presidente da República. WC: Certo... WC: E outra coisa que a senhora disse, que o pessoal do IAPI tinha aumento de dois em dois anos. E como era definido o aumento para vocês, que eram funcionários do IAPETEC. IM: Não. O nosso era só qüinqüênio. De cinco em cinco anos a gente tinha um qüinqüênio. O qüinqüênio era 5% sobre o ordenado. Só. AT: Mas não havia então aumento durante esse período? IM: Não, não. Tanto que a gente tem só seis qüinqüênios, não é? O homem tem sete qüinqüênios. Porque ele trabalha trinta e cinco anos. AT: Sei. IM: Não. Aumento vinha. Vinha, mas aí era o governo que dava o aumento. WC: Era definido pelo próprio Governo. IM: Definido pelo próprio Governo. Os aumentos. AT: Esses aumentos visavam acompanhar a taxa de inflação. IM: Não, eles davam assim. Um aumentozinho. [riso]. AT: Na época fazia diferença esse aumentozinho? IM: Ah! Fazia uma diferença grande na época, não é? A gente ganhava 100, passava para 200. WC: Aumentão. Aumentozinho. [riso]. Hoje, se tivesse um aumento desse! [riso]. Bom, ainda sobre o trabalho da senhora no IAPETEC. A senhora percebeu, a Anny perguntou para a senhora sobre as diferenças de trabalhar na esfera pública e na privada. Sobre as condições de trabalho, sobre o aspecto, por exemplo, de não ter um padrão especificamente. Isso também não interferia não? IM: Não. Porque aí tinha a chefia que mandava. WC: Hum... Certo. 4A-IM -20 IM: A gente só obedecia o chefe, não é? Cartão de ponto, marcava o ponto, subia para a sessão. Tinha meia hora de lanche. Aí podia sair para a rua. Todos os dias tinha meia hora do lanche. WC: Durante a tarde? IM: Durante a tarde. Era três horas, de 3 às 3:30. WC: Isso não era descontado na jornada de oito horas? IM: //Não. Não.// Isso era contado direto. WC: Ahn... Na verdade trabalhava sete horas e meia. IM: //É... É...// WC: O horário do almoço não é computado. IM: É. WC: E sobre as condições de trabalho, carteira registrada, essas coisas continuavam na mesma situação? IM: Mesma coisa. Aí não tinha carteira assinada. Lá não tinha carteira assinada não. No Instituto não tinha carteira assinada. WC: Não? IM: Não. A gente tem o... O cartão de ponto é que eles, com aquele cartão de ponto, eles davam um cartãozinho com retrato, isso tudo. Era só isso que tinha. WC: //Hum...// Era uma carteirinha do Instituto? IM: Era. E o próprio Instituto descontava no ordenado. Era descontado automático. Porque já recebia com desconto. WC: Para ter direito aos benefícios. IM: Para ter direito. WC: E era difícil na época, por exemplo, conseguir uma consulta? IM: Não. Tinha muito médico. WC: Não tinha que ir de madrugada para a fila não? [risos]. IM: Não. Funcionário não. Agora, os outros tinham que ir. 4A-IM -21 WC: Já era mais difícil. IM: Já era mais difícil. WC: Então essas filas sempre houveram? IM: //Sempre.// Sempre. [risos]. WC: Bom. Numa entrevista anterior a senhora falou para a gente que a sua irmã trabalhando na Secretária de Agricultura, o crédito para ela comprar alguma coisa na praça era muito mais facilitado. IM: É. Ela tinha crédito. WC: Porque ela era funcionária pública. IM: É. WC: Quando a senhora se tornou funcionária pública, a senhora se sentiu assim, numa posição melhor por isso? Pelas facilidades que davam. IM: Não, aí eu já não comprava mais à prestação, então... [riso]. WC: Não? IM: Não. Depois, muitos anos depois é que eu fui comprar uma coisa. Até hoje eu não gosto de prestação, porque põe a pessoa muito nervosa. Porque de repente não pode pagar, não é? Fica devendo. WC: Mas naquela época era possível ir guardando um dinheirinho para juntar e poder comprar as coisas? IM: //Era. Poder comprar.// Aí, comprava de acordo com o dinheiro que tinha. WC: Sei. O dinheiro então não desvalorizava muito. IM: //Não. Não. Não.// Como agora não. [risos]. WC: Bom, sobre ainda o Instituto, a senhora falou que fez muitas amizades. Que amizades eram essas, a senhora lembra de alguém que tenha marcado, tenha sido importante para a senhora, das amizades que a senhora fez? IM: Não, essas todas eram... Quase todas continuam assim, me telefonam. De vez em quando, tem uma Isabel que me telefona muito. Ela é servente, sabe? Muito boazinha, muito delicada. Tem essas lá do Santa Tereza, são duas. Aliás, são três. Uma era do IAPC e as 4A-IM -22 outras duas do IAPETEC. Essas daí a gente continua as amizades. Agora, depois que eu fui para o IAPI... Ah! Tem uma, Elvira, lá de Diamantina, Elvira Porto. WC: Que trabalhava aqui. IM: Que trabalhava no IAPETEC. As do IAPETEC, a gente continua umas, muito... FIM DO LADO A DA FITA 4 4B-IM -23 Entrevista - fita 4 - lado B WC: Bom. A senhora estava dizendo que de vez em quando encontra... IM: É. Encontro com uma na igreja, não é? Tem essa Elvira, ela vai a missa aqui na... WC: Boa Viagem? IM: Não, do Padre... Ali do Arcebispo, no palácio do Arcebispo ali. WC: Sei. IM: Em frente ao outro Palácio. WC: Palácio Episcopal. IM: Todo sábado às cinco horas tem uma missa ali. De vez em quando eu vou lá, encontro com ela. Encontro com uma outra, Aída. Também lá, na igreja. WC: No IAPETEC a maioria das funcionárias eram mulheres? IM: Tinha mais mulher do que homem. A não ser os fiscais. Os fiscais eram... uns cinqüenta fiscais lá. WC: Esses fiscais eles tinham postos... IM: Trabalhavam na rua sabe. WC: Eles fiscalizam as condições de trabalho? IM: //É.// WC: Dos filiados? IM: Dos filiados. É. WC: Certo. IM: Ou então viajavam também para o interior. WC: É. Porque este Instituto aqui, ele coordenava o trabalho em todo o Estado? IM: É. Coordenava em todo... Não, só em Minas Gerais. 4B-IM -24 WC: É. IM: É. Coordenava Minas, as cidades de Minas. WC: Hum... Então, amizades masculinas então, quase não teve... IM: Teve poucas, poucas mesmo. WC: Fora do ambiente de trabalho... A senhora quer falar alguma coisa? IM: Não, porque eram poucos os rapazes que trabalhavam lá, sabe? WC: //Hum...// Sei. Mas, e fora a amizade que acontecia no ambiente de trabalho era comum depois do trabalho vocês saírem, fazerem um lanche, ir ao cinema? IM: Não. Só o lanche das três horas a gente saía. Saía aquela porção juntos, comia ali por perto mesmo, na rua Carijós. Ali tinha uns restaurantes, como ainda tem até hoje. WC: Tem? Isso não sei. [risos]. Restaurante, como era? IM: Não lembra não? WC: Lanchonete?... IM: É... Lanchonetezinha. Tomava... Tinha a loja... Depois veio a Loja Americana, não é? Tinha a Loja Americana. AT: Aí vocês lanchavam na Loja Americana? IM: É. [riso] WC: //É...// Lanchava de pé... IM: //Era unida//. Era unida. Ela... Porque ela é unidinha, não é? WC: Ahn... Ao IAPETEC. IM: É. WC: E vocês lanchavam de pé no balcão? IM: É. De pé. WC: //Não tinha mesinha, não.// IM: Não. Não tinha nada. WC: Tinha algum lugar de preferência de vocês ali por perto? 4B-IM -25 IM: Não. Era só mesmo... Ou então saía, a gente levava merenda. Comia lá dentro. Depois saía dando uma volta. Só nós. WC: Ahn... [risos]. IM: No quarteirão. AT: Para descansar um pouquinho. IM: É. Meia hora só. Ou fazer uma compra, qualquer coisa. WC: Hum... Esse era o horário de funcionamento também do comércio? IM: Era. O comércio era a mesma coisa. WC: Então... IM: Só que agora abre às nove. Era às oito. Abria era às oito. WC: Então para a senhora era difícil realmente fazer compras no comércio, não é? A senhora estava trabalhando. IM: //É...// É. WC: Como que a senhora fazia para poder comprar alguma coisa? IM: Nessa meia hora. Nessa meia hora a gente já sabia o que queria, não é. WC: Hum... Já sabia onde ir. IM: É. WC: Se a senhora precisasse de um creme dental a senhora ia aonde? IM: Ah! Sempre a gente comprava na loja Americana mesmo. Era ali pertinho. WC: Mas a loja Americana surgiu quando? IM: Eu não me lembro. Mas é o do tempo do IAPETEC. WC: Na década de 50? IM: //Parece...// Parece que é 50, mais ou menos, que ela surgiu. Porque... Eu me lembro que tinha até... O Instituto tinha uma espécie de uma rua assim, pedaço assim, cedeu para a loja Americana. WC: Tinha um espaço vago. IM: Vago assim. Como daqui ali, assim. Comprido, sabe. 4B-IM -26 WC: Hum... Um corredor. IM: //Cedeu.// Um corredor. E guardava até... Guardava ambulância, guardava lá. Eles cederam para as lojas Americanas. WC: Cedeu? Não houve nenhuma compra? IM: //Nada.// Nada. WC: Cedeu um pedaço de terreno. IM: É. Para a loja. WC: Na época ninguém comentou o fato. IM: Não. Ninguém importou, ninguém falou... AT: Às vezes também não era tão importante. [risos] IM: //Não era tão importante.// Um pedaço de terra que não vale nada. Hoje é que vale. Um pedaço assim, na rua Carijós, não é? WC: É. IM: Comprido, que cabia uma ambulância. WC: É. IM: Às vezes cabe até mais. Mas era porque só tinha uma ambulância. WC: Ficava lá. IM: //Ficava lá.// WC: Bom. A gente, caímos na ambulância, justamente para falar da hora do lanche. [risos]. Mas além do horário de trabalho, então, a senhora não tinha por hábito sair com essas amigas da senhora? IM: Não. AT: Não gostava de um cineminha. IM: Não. Cinema eu... A gente ia nos domingos, não é? Mas não com elas. Sozinha, ou com as irmãs. WC: No caso, a senhora só tinha uma irmã. Então sempre que ia ao cinema, a senhora ia com ela. 4B-IM -27 IM: //É... É...// Com ela. WC: Quando ela casou a senhora passou a ir sozinha? IM: Aí eu ia sozinha. Muito sozinha. Porque tinha um cinema perto, porque aí eu já morava na rua Patrocínio. Tinha um cinema ali, até pegou fogo agora. E lá a gente podia ir sozinha. WC: A senhora não se incomodava de ir no cinema sozinha? IM: //Não. Não.// [RISO]. WC: Era comum ver mulheres... IM: //Era comum.// Comum. Muito mesmo. WC: E no cinema a senhora não encontrava com nenhum conhecido, pessoas conhecidas? IM: //Não.// Como agora não encontra. A gente sai na rua não encontra uma pessoa conhecida, não é? AT: É. Até assusta quando vê uma. IM: //Assusta quando vê uma.// [riso] Leva... [risos] AT: [Susto]. [risos]. É isso mesmo. WC: Mas a senhora estava falando que mudou para a rua Patrocínio. Essa é uma outra questão que a gente queria olhar com a senhora. Como foi essa mudança de sair do centro da cidade? IM: Não. Porque da rua... Outro dia eu até nem falei, porque nós morávamos na... WC: Goitacazes. IM: Augusto de Lima. Da Goitacazes fomos para a Augusto de Lima. WC: Mudou... É. Isso. IM: Da Augusto de Lima nós fomos para a Contorno com Paracatu, ali. E a senhora queria a casa. A dona da casa pediu a casa. Então nós compramos essa lá em cima, na rua Patrocínio. Ainda tem lá. Fomos para lá. Meu cunhado, esse daí, construiu a casa dele unida. Era um lote grande. Tinha a casa com o lote. Ele comprou o lote, nós compramos a casa. WC: Hum... 4B-IM -28 IM: Ele construiu logo em seguida. Ele construiu, foi para lá e nós ficamos lá. Foi em... Eu não me lembro se foi 50, ou 52 que nós mudamos para lá. WC: Início da década de 50. IM: Hein? WC: Início da década de 50. IM: É. Eu tenho impressão que foi. WC: Mas pegando essa trajetória da senhora até chegar lá. A senhora ficou, acho que três anos, três anos morando no Barro Preto. IM: Foi. WC: De lá a senhora foi para a Augusto de Lima. A senhora se lembra onde que foi na Augusto de Lima. IM: Augusto de Lima, 665. É entre Curitiba e... Jogaram no chão essa casa. Eram três casas iguais que tinha ali. Era descendo, do lado direito. É entre Curitiba e São Paulo. WC: Sei. IM: No meio certinho. WC: Próximo ao mercado central? IM: Era. É, próximo ali. WC: Certo. IM: //Mas// depois ficou barulhento demais. Muito barulhento. WC: Ahn... Vocês moraram lá quanto tempo? IM: Ah! Nós moramos lá só uns dois anos. WC: O que a senhora achou de morar lá? Além do barulho. IM: Não. Lá era bonito. Porque era no centro, não é? E a casa era boa, muito boa. Tinha no fundo um barracão de dois pavimentos. Na frente não. Na frente era uma casa. E no fundo era um... Era interessante. Tinha uma casa no fundo, de dois pavimentos. Tinha os dois quartos em cima e embaixo tinha um salão grande. WC: Hum... 4B-IM -29 IM: Pertencia à casa. WC: Mas estava alugado para outra família? IM: //Não.// Não... Era tudo da casa. WC: //Sei.// IM: Todas as construções dali eram todas iguais. WC: Hum... Mas no caso, vocês alugaram apenas a casa? IM: Não. Aí era nossa a casa. Meu pai tinha comprado. Depois vendeu. WC: //Ah! Sei.// IM: Vendeu quando nós fomos outra vez para o Barro Preto. WC: Isso que a senhora está falando aí que o pai da senhora comprou. Nessa época o pai da senhora já estava morando aqui com vocês. IM: Já. Aí ele veio. WC: //É.// E aqui, em que ele trabalhou? IM: Não. Aí ele já estava só com o pouquinho de dinheiro que ele tinha, não é? [riso]. WC: Ahn... Da venda... IM: //É.// Da pedreira, não é. WC: Das coisas de Sete Lagoas, junto com o dinheiro da... IM: //Aí depois continuou//, não é. Com a pedreira, ele continuava, mas tinha... Tinha um Boschi, dessa família Boschi, dessa padaria, que tinha aqui. WC: Sei. IM: Na Guajajaras. Um dos irmãos dele é que tomava conta lá. Trazia as pedras. Aí que o negócio não sei como que eles faziam, mas faziam. [risos]. WC: Ahn... IM: Dava para viver, não é? Modestamente, mas dava. WC: Então foi seu pai mesmo que juntou dinheiro para comprar uma nova casa aqui. IM: É. 4B-IM -30 WC: E vocês filhas não contribuíram com... IM: Não. Aí nós quando passamos lá para Patrocínio, nós contribuímos. WC: Sei. IM: Nós demos um tanto. WC: Hum... Por que vocês mudaram do centro da cidade? IM: Porque vendeu. Porque vendeu. Achou um negócio bom. Ah! Quando a gente acha um negócio bom, não é? WC: //Hum... É.// IM: Vendeu. WC: Mas ele já estava pensando em vender a casa? IM: Já. Estava. WC: Como foi encontrar esse negócio bom? Ele colocou um anúncio... IM: Não. Essas corretoras, que vendem. WC: Hum... A região estava valorizada. IM: É. Estava muito valorizada, naquela época. WC: Já estava construindo os prédios? IM: É. Já. WC: E a barulheira que a senhora falou, a senhora estava se referindo a quê? IM: Ali é barulho, por causa dos caminhões que chegavam no mercado. Então tinha muito barulho. Muito mesmo. Porque os caminhões todos paravam ali. Não tinha tanto ônibus passando ali não. Mas tinha os caminhões que chegavam no mercado. Como ainda tem hoje, não é? WC: É. Tem bastante. IM: //É...// E agora eu acho que quase ali, residência mesmo, não tem quase nenhuma. A não ser apartamento. WC: É. O que a senhora acha disso? Dessas casas antigas serem destruídas para a construção de prédios? 4B-IM -31 IM: Uma pena, uma pena! Porque eram lindas as casas, muito bonitas. Então na rua Guajajaras tinha uma linda mesmo, ali no Barro Preto. Uma beleza. Era de uns turcos. Não sei se era Sabba que eles chamavam. Não me lembro, não. Mas eram bonitas. Agora jogaram tudo no chão, não é? WC: Então vocês foram para o Carlos Prates? IM: É. WC: Agora, voltando a pergunta que a Anny fez para a senhora. Qual é a diferença, como foi sair do centro da cidade e morar no bairro? IM: //Ah! Horrível. Ah! Eu não gostei.// Principalmente o Carlos Prates. O Carlos Prates não tem... Não tinha vida, não tem até hoje, não é? O Carlos Prates não tem vida. WC: Por quê? O que a senhora chama de vida? IM: Vida, quer dizer, movimento, uma coisa bonita, as coisas bonitas. Comércio. O Carlos Prates não melhorou nunca. Nunca. Nunca o Carlos Prates melhorou. Tinha uma escola na esquina, nós morávamos numa casa e tinha uma escola na esquina. Uma escola. Depois a prefeitura mandou desapropriar, jogou no chão. Para passar aquela avenida... Avenida Bias Fortes, que passa embaixo do... E sobe ali... A avenida Bias Fortes segue toda vida. WC: Onde tem o viaduto? IM: É. Tem o viaduto embaixo, não é? WC: Certo. IM: Ali... Segue ali, tem a... Como é que a gente diz? Morava ali o doutor Luciano. WC: //Sei.// IM: Uma chácara muito bonita! Era toda... A chácara do doutor Luciano ia até no fundo lá de casa. Ele tirou das casas todas, ele tinha, sabe? WC: Hum... IM: Tirou. As casas todas não tinham quintal. Tinha um quintalzinho assim nessas casa todas, tudo era dele. Mas depois que a prefeitura desapropriou, piorou. Porque fez aquilo... Como é que eles falam? É... planalto, não. É mais alto. Como é que chama aquele trecho ali do Carlos Prates. 4B-IM -32 WC: A senhora diz próximo onde passa a linha do trem? IM: A linha do trem é cá embaixo. WC: É. IM: É em cima. WC: Fizeram um aterro? IM: É... Ali é. Ali tem. AT://Eu não conheço.// IM: Você não conhece o Carlos... Você nunca foi por aqueles lados não? WC: //Não.// Nem sei onde fica. (.riso). IM: Ah! Que pena! Fizeram ali uma avenida larga. Muito larga. WC: Aí fizeram um aterro na região. IM: É. Aí fizeram tudo e a chácara dele diminuiu muito, do doutor Luciano. E para lá ficou... Piorou, sabe? Tinha um morro grande assim... WC: Hum... IM: Que tem até uma passagem. Porque os ônibus passam embaixo. Para ir a pé não dá. Então você tem que subir. E a Bias Fortes vai, essa Bias Fortes vai até lá na rua Peçanha. Peçanha, porque a hora que termina a rua Patrocínio, começa a Peçanha. A rua Patrocínio deve ter uns quatro quarteirões só. Aí tem a Peçanha também, com uns quatro ou cinco quarteirões. E a Bias Fortes termina lá em cima. Ela sobe o morro, não é? Não tem casa, não tem nada. AT: Então a senhora achou que a mudança não foi assim muito boa não? IM: Não foi grandes coisas não. WC: Ahn... IM: Mas foi bom. A vizinhança lá era muito boa. WC: É? IM: É. [ ]. WC: //Prestativa...// 4B-IM -33 IM: É... Bom dia. Como vai? Assim. WC: Só isso? IM: Só. WC: Era diferente dos que moravam no Barro Preto? Onde tinha muito italianos. IM: Ah! Era diferente. Barro Preto também a gente não tinha amizade, a não ser com uma vizinha. No Barro Preto tinha uma vizinha, não é? WC: Hum... IM: Quer dizer, na rua Goitacazes tinha os vizinhos, uma vizinha. E na rua... na Contorno, tinha uma vizinha também com muita moça. Uma mulata. WC: Hum... IM: Era... Até jogaram no chão agora. Outro dia eu passei lá, jogaram a casa no chão. estão fazendo apartamento. Só tem essa casinha, que nós moramos. Ela está imprensada. Tem apartamento desse lado, apartamento do lado de cá... WC: Resistindo... IM: Resistindo. Não sei porque. É de uma espanhola. Não sei se ela já morreu, com certeza é de herdeiros. Ainda não venderam, está lá a casa. WC: Essa casa da Contorno com a Paracatu também era de vocês ou alugada? IM: Não, alugada. Essa era alugada. Foi quando eles pediram que nós compramos. WC: É... Mas vocês venderam a casa da Augusto de Lima... IM: É. WC: E compraram a casa da... IM: Não aí foi depois. Foi bem depois. WC: Depois da Augusto de Lima, vocês foram para Contorno com Paracatu. IM: É. WC: Alugaram uma casa. IM: //E depois da Contorno// com Paracatu é que nós fomos para aqui. WC: Certo. Quanto era [...] 4B-IM -34 IM: //[...]// No meio. Entre Paracatu e Juiz de Fora. No meio certinho. WC: Sei. IM: Tinha uma, duas, três casas, para lá da Juiz de Fora, não é? E três para Paracatu. Agora não tem mais nenhuma. Tem só essa casa agora que nós moramos. WC: Sei. IM: Não tem mais nenhuma das casas. Interessante, não é? [risos]. Acabou tudo. AT: //É... É...// WC: Bom, com relação a casa, era uma casa grande essa onde vocês foram morar, lá no... IM: Não. WC: Essa na Patrocínio? IM: É. Não era pequena não. Era sala, um, dois, três quartos, dava bem. Não era casa assim muito boa como ainda é lá. Não era, porque não era assim coberto de telha. WC: De laje. IM: //De laje.// AT: Mas naquela época... IM: Servia, não é? AT: Era bem mais de telha mesmo. IM: //É. É.// Mas já tinha umas de laje. Bem de laje. AT: É, não é? IM: As casas da rua... da Augusto de Lima eram todas de laje. WC: De laje? IM: É... WC: Ahn... E a mudança de hábitos. Porque essa mudança do centro da cidade, ela vai provocar também uma mudança de hábitos, não é? Você, vamos supor, porque se morava lá perto do mercado central, vocês iam fazer feira ali. IM: //Não precisava de tomar condução, não é.// É, não. Aí não é... WC: Ou mesmo morava aqui no centro da cidade, compras que poderiam ser feitas indo a pé 4B-IM -35 mesmo. Ou gastando um período pequeno de tempo no deslocamento da casa até o lugar onde se quer ir. E morando... E indo morar num bairro mais distante, começa a haver uma mudança de hábito IM: Ficou mais difícil, porque o mercado era bem mais longe. Mas no final da rua Peçanha tinha uma... espécie de mercado. WC: Feira de Produtores? IM: É. Mais ou menos por ali tinha uma feira grande! Muito boa! Que ela... Ela durou até poucos anos. Tinha ali, não é? WC: Próximo à rodoviária. IM: É. Próximo à rodoviária. Do lado de cá, a entrada. A rodoviária é do lado de lá. Então a gente ia ali. Mas ia a pé, não é? Porque a gente descia, pegava a Peçanha... Pegava a Patrocínio, pegava a Peçanha e já saía lá. WC: Hum... Hum... IM: Lá embaixo. Ali é que fazia compra. O mais tinha um armazém na esquina, mesmo na esquina. Como ainda... Agora já não é armazém mais. Parece que... Tinha um armazém muito bom, na esquina. Na rua Padre Eustáquio. Então a gente comprava lá. WC: No bairro tinha outras lojas comerciais que atendessem as necessidades diárias de vocês? IM: Tinha. Tinha sim. Tinha essa da esquina, depois para cima tinha uma loja de... Tinha padaria, não é? Na rua Padre Eustáquio sempre teve muita coisa. Muita. Tinha padaria, tinha loja de roupa, tinha uma farmácia muito boa, Farmácia Stela. Farmácia muito boa! Ainda tem essa farmácia lá, mas parece que a dona Stela que era farmacêutica, morreu. Era bem velha essa Stela. Os filhos dela até que trabalhavam na farmácia. Qualquer coisa que precisasse era só telefonar, eles traziam em casa. WC: Hum... IM: Nessa época. WC: E os passeios. Porque aqui no centro você ia passear lá na praça Raul Soares, ver o fim da tarde no domingo. IM: É... [riso]. 4B-IM -36 WC: E como é que foi essa mudança lá para a rua Patrocínio. Para onde que você ia passear? Ficava andando na rua? Como era? IM: Não. Aí era na igreja, não é? O passeio era na igreja. Nós íamos no Barro Preto, que era mais longe. Aí a gente descia a Confins, e pegava... logo em seguida pegava a Alípio de Melo, estava na igreja. AT: Continuou indo na... IM: Continuei indo na igreja do Barro Preto. Ou então ia... Mamãe ia muito na do Carlos Prates, também. A gente subia. WC: Na igreja São Francisco. IM: É. Na igreja São Francisco. Ia muito ali. Mas a gente ia a pé. Porque não é longe. Tomar ônibus só para aquilo, não é? Subir. Então ia a pé. Ou na de São Francisco ou no Barro Preto. WC: Para vir trabalhar, vinha de ônibus. IM: De ônibus. WC: E era fácil o transporte? Para acesso aos outros bairros, para o centro da cidade? IM: Não. Não era muito fácil não. Tinha horário, tinha muito horário. WC: E o intervalo... IM: Se perder um, ficava... Custava vir o outro. O ônibus. WC: Este intervalo entre um ônibus e outro era demorado? IM: Era. Tinha dia que demorava muito. Saía sempre mais cedo. WC: Hum... No caso da... IM: Muitas vezes eu ia a pé. Porque tinha umas colegas que moravam na Bias Fortes, esquina com Peçanha, então elas vinham a pé. Era um pedaço bem... Porque tinha uma subida. Vinha pela Paraíso. Da parte do Paraíso para Peçanha, da Peçanha para Patrocínio, sabe. Vinha a pé. Quando elas vinham a pé, eu vinha com elas. Caso contrário eu não vinha. WC: Não animava? IM: Não. Não animava não. Vir sozinha, não é? [risos]. WC: O tempo custa a passar. 4B-IM -37 IM: //Era tarde, não é?// É. Porque seis horas. WC: Ah! Para voltar para a casa. IM: É. WC: Para ir para o serviço também fazia isso? IM: Hein?... Aí não. Para ir não. Aí elas tomavam condução. WC: E no caso da senhora. Ali onde a senhora morava era a entrada do bairro. E, portanto, quando o ônibus ia para o Centro... IM: Passava... WC: Era um dos últimos, não é. Os passageiros ali, já eram os últimos. IM: Já vinha cheio, não é? Quando passava lá em casa, já passava cheio. Porque ele vinha lá do Carlos Prates, lá de cima. Como ainda vem hoje. WC: O ônibus. IM: //O ônibus// passava na porta. WC: Ele ligava o Carlos Prates ao Centro. IM: É. O Carlos Prates ao Centro. WC: Parava no Carlos Prates. IM: //Parava.// É... WC: Não ia até o Padre Eustáquio. IM: Não. Era perto ali, na rua Pomba, ali. WC: Certo. IM: Agora ele vai, parece que ele vai até pertinho lá do Padre Eustáquio. Da igreja Padre Eustáquio. WC: Vai. IM: Não vai? WC: Vai. IM: É. Mas naquele tempo não. 4B-IM -38 WC: //E hoje já [...]. IM: Ele dava a volta ali para Perdões, não sei. Eu sei que ele subia assim, dava uma volta e já voltava. WC: E na avenida Pedro II, já existia a avenida Pedro II? IM: Uma parte já existia. WC: Até onde? IM: Até mais ou menos [...], por ali, sabe. Depois eles foram abrindo. WC: //Só até ali?// IM: É. Depois eles foram abrindo. Abrindo e construindo. WC: Até a região ali do Bonfim? Mais ou menos, na altura do Bonfim. IM: É. Por ali, mais ou menos. WC: Ali também tinha ônibus? IM: Também tinha ônibus. Tinha ônibus Bonfim, como ainda tem hoje, não é? WC: E a senhora podia pegar vários ônibus. A senhora tinha essa opção? IM: Não. WC: Só esse. IM: Era só esse. Agora que tem aquele D. Pedro, já pode pegar. Quem mora ali é só descer um quarteirão. Tem o... como é que eles falam? Esse que passa aqui, o Anchieta. Ele vai... ele tem Dom Cabral, não é. Então ele passa por lá. WC: //Tem...// IM: Lá passam muitos até. WC: Mas antigamente era difícil. IM: É. Difícil. WC: Tinham poucos bairros, além do Padre Eustáquio na época? A senhora se lembra? IM: Para lá? WC: É. 4B-IM -39 IM: Não. Era só Padre Eustáquio. Aquilo tudo era Padre Eustáquio. Depois é que foi tomando outros nomes. E agora tem uma porção de nomes. WC: Porque hoje, além do Padre Eustáquio, não tem um final ali onde é a pracinha São Vicente. Não sei se a senhora conhece. IM: É... é. WC: Ali já começa a região do Alípio de Melo, tem Pindorama, uma série de bairros distantes. IM: É... Não. Uns já tinham. WC: Uns já tinha? IM: Já tinha o Glória, tinha. Depois eles foram... só não tinha rua asfaltada. WC: Sei. IM: Depois que eles foram abrindo as ruas, asfaltando. O Glória, por exemplo, não tinha... não era asfalto não. WC: Mas havia transporte que passava... IM: //Passava lá.// Passava. É. Ele seguia. WC: Com relação a transporte. Agora a Anny fez uma pergunta para a senhora com relação a passeios pelo bairro e a senhora comentou, um pouco antes, conosco, do cinema. IM: //É.// WC: Do cinema no bairro. IM: É. Eu ia. De vez em quando eu ia. Passava um filme bom, não é? E era mais barato, porque o cinema do bairro era bem mais barato. WC: Ahn. Sei. IM: É. WC: Era comum o cinema nos bairros? IM: Era. Tinha lá, tinha o São Sebastião, aquele da igreja, o São Sebastião. WC: O da igreja do Barro Preto? IM: É. Do Barro Preto. Era o São Sebastião. Esse lá do Carlos Prates, que não me lembro. 4B-IM -40 WC: São Geraldo. IM: São Geraldo. Ainda tem outro na Augusto de Lima que era desse tempo. É Roxy. WC: Roxy. Isso. IM: Não é? Era desse tempo. Ele até era um cinema bom. o cinema, naquela época. Tinha esses todos que eram cinemas. Às vezes a gente ia lá também. Mas muito pouco. WC: Dependia de que? De tempo? IM: Não... Dependia era saber se o filme era bom, não é? WC: Hum... IM: Ia pouco no cinema. Não ia muito não. WC: O que era para a senhora um filme bom? IM: Ah! Eu gostava de paisagem, de filme assim... ou então com [comics], não é. Naquele tempo já tinha [comics], ainda. [Riso]. WC: É? IM: É. [Risos]. Uma coisa assim. Que fala, vai, cai, como é que eles dizem? Até nem sei. WC: [Riso]. O quê? IM: Cai da pirambeira assim. WC: Dublê. IM: //É... É...// Dublê. Tinha muito isso. Eram bons filmes, viu? Como ainda tem hoje, não é? Mas na televisão. WC: Então a senhora gostava de filme de aventura? IM: É. [Risos]. Era muito bom. [Risos]. WC: Outro dia, na última entrevista, depois que nós encerramos a entrevista propriamente, a senhora falou com a gente de outros passeios que a senhora fez, inclusive em alguns shows, bailes, cassino. A senhora estava conversando a respeito. O que a senhora lembra sobre isso? IM: Não. O cassino nós fomos duas vezes só. Quando foi... o Juscelino era prefeito, não é? Acho que era prefeito. 4B-IM -41 WC: Isso. IM: Nós fomos uma noite. Chegamos era mais de meia-noite, porque lá começava nove horas. WC: Hum... IM: Até muito bonito. O cassino era uma beleza, eu nunca tinha visto, uma beleza. WC: Hum... É. IM: E depois voltamos, com essa minha prima de São Paulo. Que veio para ver. Para conhecer. E voltamos com ela lá, também. E na Pampulha, de vez em quando a gente ia. Era um passeio muito bonito o da Pampulha. WC: É? IM: Tomava o ônibus. Era uma beleza. A lagoa era lindíssima, não é? WC: O ônibus pegava sempre a Antônio Carlos. Até na avenida Antônio Carlos. IM: //É... É...// Antônio Carlos. Ia direto. Era uma beleza mesmo. A lagoa era linda! Depois, vai acabando tudo. WC: Mas era longe, não é? IM: Era longe. Muito longe. Eram horas, que ia. Ia para fazer o passeio mesmo. WC: Era realmente sair de Belo Horizonte [...] [Risos]. IM: É. [Riso]. WC: A senhora se lembra como é que foi que a população reagiu à construção lá da Pampulha, e de todo aquele [aterro]... IM: //Não... Não// Também não me lembro, também. Isso eu não me lembro. Eu sei que todo mundo comprou lote, construiu na época. Ainda tem boas construções lá, não é? WC: Tem. IM: Daquela época, não é? E agora eles estão continuando. Não são construções, são até chácaras, não é? Que eles têm lá. WC: Isso. IM: Por volta daquela época. 4B-IM -42 WC: Em volta da lagoa. IM: É O Juscelino mesmo tinha uma casa muito boa lá. Em volta da lagoa. Pertinho do cassino. Depois eu não sei se vendeu. Vai tudo acabando, não é? WC: Hum... Eu me lembro de ter escutado uma vez um comentário de que, na época da construção da lagoa, houve um rompimento da barragem. Que eles estavam construindo a lagoa, aí houve um rompimento da barragem. A água que estava, foi toda embora. A senhora se lembra de ter visto alguma coisa? IM: //Não. Não me lembro.// Eu ouvi falando, mas também não me lembro. A gente ouve os outros falando, lê no jornal, mas não lembra. WC: //É... Mas não...// IM: É. Porque aquela água, eu não sei de onde ela vem. Ela vem encanada, não é? WC: Eu não sei. Eu acho que tem córregos ali na região. IM: //É. Tem córregos, é...// WC: Para lá mesmo. IM: É. De vez em quando ela seca, não é? Seca não muito, mas seca. Agora, por exemplo ela não está muito cheia não. AT: //Cheia.// É. E a senhora estava contando para a gente, como a Valquíria até falou anteriormente, que a senhora foi assistir um show da [Luz del Fuego]. IM: Fui. Muito bonito. AT: //Eu queria// que a senhora falasse para a gente desse show. Como é que foi. Como a população reagiu. Porque ela era bastante falada naquela época, não é. IM: //É. Não. Mas demais...//Mas... AT: Era um escândalo, não é. IM: Mas o povo... o povo adorou. AT: É? IM: Uma beleza. E foram palmas, mas palmas mesmo... aquela... dançando, não é? [Riso]. AT: Como que era o show? IM: Eu não... eu não me lembro como é que era. Eu sei que ela dançou muito. Dançava com 4B-IM -43 aquelas... fazia aquelas coisas assim. Que ela era muito escandalosa, não é? AT: Movimento com os braços? IM: Com os braços, com as pernas. Com a roupa toda cheia de continhas, assim, que ficava toda... Muito bonito até, sabe? AT: Ahn... WC: Com ou sem cobra? IM: Hein? WC: Com ou sem cobra? IM: //Não. Ela estava// sem cobra. Esse dia ela estava sem cobra. [Risos]. Ela gostava de cobra, não é? AT: É... [Risos]. WC: E comentários da imprensa, havia? Sobre o show dela. IM: //Havia.// Havia, mas eu não me lembro de ter lido. Porque era jornal, não é? AT: Ahn... E nessa época a senhora trabalhava no IAPETEC? IM: Não. Ainda não trabalhava não. AT: Não era... IM: Não. AT: Mas a senhora se lembra de ter ouvido comentários no ambiente de trabalho sobre o show? IM: Não. Não. AT: Não? IM: //Não.// Não, porque eu trabalhava... eu tenho a impressão que eu trabalhava, nesse época, foi com... foi na fábrica. E fábrica lá, eram pessoas mais humildes, não é? AT: Ahn... IM: Eram moças muito distintas. Muito coisa. São senhores que trabalhavam fazendo macarrão. Mas não comentavam nada dessas coisas não. AT: Hum... E a senhora foi... 4B-IM -44 IM: //[...]// AT: A senhora foi, nessa época, foi quando veio a prima de São Paulo. Ou foi da primeira vez? IM: Foi da primeira vez. AT: E quem foi com a senhora? IM: Foi... Foi um senhor que chamava... Até, ele era jornalista aqui na José Costa, sabe? Ele que nos levou. WC: Foi a senhora... IM: //E essa minha irmã.// E uma outra minha prima que morava lá em casa. Nós fomos lá, só nós três. A primeira vez. WC: Ah! Sei. IM: A segunda também, nós fomos as três, eu não me lembro com quem. Acho que foi com o irmão dela. Com o João. O outro irmão dela que morava aqui. Depois ele mudou... mudou para Araguari. Acho que ele ainda mora lá. Com essa moça de São Paulo. WC: Mas vocês foram especificamente para ver o show? IM: Fomos para ver o show. WC: Não era para conhecer o cassino não? IM: Para conhecer o cassino e ver o show. [Risos]. WC: Foi a primeira vez que a senhora viu um show assim? IM: Foi. Desse, acho que foi. Primeira vez. No mais, eu via cinema, não é? Isso a gente via. WC: A senhora já tinha visto outros shows na cidade? IM: Não. Porque aqui não tinha... Tinha teatro, o que tinha era teatro. Não. Não tinha teatro não. Porque esse cinema que jogaram no chão foi um teatro, mas nunca vim nele. Esse aqui da rua da Bahia. WC: Metrópole. IM: Metrópole. Lá ele era teatro. WC: Era o Teatro Municipal. 4B-IM -45 IM: //Era, mas nunca vim.// Era. Mas eu nunca vi, dizem que era muito bom até. WC: Concertos de piano, essas coisas tinham na cidade? A senhora chegou a ver algum... IM: Não. Tinha um concerto na... WC: Conservatório. IM: Conservatório tinha concerto. WC: Ahn... IM: Pessoas de fora, não é? Tinha de piano, de violino. Tinha, mas também eu não ia. WC: Quem ia mais era a sua irmã. IM: É. Ela é que gostava. [Risos]. AT: Eu estou com medo de acabar a fita. WC: A fita? WC: Então vamos dar um intervalo hoje, nós prosseguimos na próxima... IM: Esta daqui está querendo ver lá em cima o coisa: [Riso]. WC: É, hoje tem é cinco. IM: É 3002, não é. Não, é 3001... FIM DO LADO B DA FITA 4 B Barro Preto, 33, 34, 36, 39, 42, 43, 47 barulho, 33, 36 C Carlos Prates, 36, 37, 43, 44, 47 cinema, 28, 31, 32, 47, 53 concerto, 53 F férias, 3, 4, 5 I IAPETEC, 8, 9, 10 IAPI, 1, 2, 9, 10, 19, 20, 22, 25 IAPETEC, 12, 13, 16, 18, 19, 22, 23, 25, 27, 29, 30, 52 J Juscelino, 48, 50 P Padre Eustáquio, 3, 42, 44, 45, 46 Pampulha, 49 4B-IM -47 5A- IM -1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CENTRO DE ESTUDOS MINEIROS GRUPO DE HISTÓRIA ORAL PROJETO INTEGRADO: “MINAS GERAIS: HISTÓRIA ORAL” POLÍTICA E SOCIEDADE ATRAVÉS DA ENTREVISTADORES: WALQUÍRIA CAMPOS ANNY TORRES ENTREVISTADA: ISAURA MARIA DA MATTA LOCAL: BELO HORIZONTE DATA: 18/07/91 Entrevista - fita 5 - lado A AT: Hoje é 18 de julho de 1991, nós estamos entrevistando dona Isaura Maria da Matta. E a entrevistadora é Walquíria. WC: E nós já vamos para a nossa 5ª entrevista. Está passando. Bom. Apenas uma pergunta, dona Isaura, que nós gostaríamos de fazer para a senhora com relação a sua vida profissional. E depois a gente gostaria de tomar outros aspectos. AT: //Outros rumos...// WC: Dona Isaura, que é a coisa da sua aposentadoria. Nós, eu e a Anny, nós ouvimos a fita novamente e a gente queria certificar com a senhora a data, o ano que a senhora se aposentou. IM: Dezembro de 78. WC: 78? IM: É. WC: Porque a senhora veio para Belo Horizonte em 37. IM: 37. WC: E trabalhou até 78? 5A- IM -2 IM: Foi. Porque eu trabalhei no comércio primeiro, depois que eu fui para o Instituto. Eu trabalhei de 47 a 78, no Instituto. WC: Uê! Porque eu fiz até os cálculos. A senhora trabalhou até os 65 anos? IM: É. Quase que eu ia [ ]. Porque com 70, já é automático, não é? AT: Ahn... IM: Aposentadoria 60%. É só o que a gente ganha. Não ganha integral não. Quando inteira setenta. WC: Então a senhora precisou ficar até 78 no IAPETEC, para poder ter direito a receber aposentadoria integral. IM: //Integral.// Foi. Porque antes não contava o tempo do comércio. No ano que eu aposentei, começou a contar. WC: Ahn... IM: O do comércio, do Estado. De outros... de outras repartições. WC: Hum, hum. IM: Não contava não. Era só... era só do Instituo, não é? WC: Porque eu fiz os cálculos. Gente! Ela trabalhou quarenta e um anos. AT: Foi. WC: Desde que veio para cá. IM: É. Eu trabalhei no comércio, não é? Tanto que a contagem do comércio deu dez anos e um pouco. WC: Isso mesmo. Que absurdo. A senhora trabalhou para mais. Devia ter pedido indenização. [Risos]. E quando a senhora aposentou, a senhora achou bom? IM: Achei bom. Melhor que... toda hora indo e voltando, indo e voltando, não é? [Risos]. Bem melhor. WC: Recompensou? A senhora recebeu algum tipo de benefício do IAPETEC? IM: //Não. Não.// Lá não tem. WC: Mas tem o fundo de garantia? 5A- IM -3 IM: Não. Também não tem o fundo de garantia. Tem o Pasep. Mas o Pasep naquela época era muito pouco. Recebia de uma vez, no Banco do Brasil. WC: Sei. IM: O tal do Pasep. Só. Só isso. Mais não. O fundo de garantia, porque nós éramos funcionária pública federal. WC: Hum... Funcionário público não tem fundo de garantia. IM: //Não tem fundo de garantia.// Só as que estão lá e que não são estatutárias. Porque agora elas passaram para estatutária, que tem direito a fundo de garantia. Elas são diaristas. Não podia. AT:Ahn...E a senhora achou bom aposentar porque não ia precisar... IM: //Achei...// Sair de casa todo dia. AT:E a senhora já tinha planos do que a senhora ia fazer com a seu tempo livre? IM: Não. Aí não tinha plano nenhum. AT: A senhora só não queria ter que sair todo dia para o trabalho. IM: //É. Todo dia...// AT: Para o trabalho. WC: E nessa época onde que a senhora morava? A senhora já estava morando aqui na casa da irmã da senhora. IM: Aqui mesmo.// Já... já... nós morávamos na rua Espírito Santo. WC: Sei. IM: Ali. Esquina com Goitacazes. Num apartamento. WC: E a senhora não pensou em desenvolver nenhum outro tipo de atividade? IM: Não. Até elas me convidaram até tem uma colega que tem um escritório, mas não valia a pena não. Eu já estou velha. Já estava velha... já não... [Riso]. WC: Ahn...E fazer cursos. De participar de algum tipo de grupo. A senhora não pensou em nada disso. IM: Não. Também não. Também tive um convite para o hospital, mas, lá... vai assim... são essas voluntárias. 5A- IM -4 WC: Certo. IM: Tenho duas colegas que trabalham lá assim como voluntárias. Me chamaram. Mas tudo de horário muito certo. Não vale a pena não. WC: A senhora queria ficar livre desses horários. IM: //Queria ficar livre de horários.// Sair, por exemplo, posso fazer uma visita, mas sem horário. Certo, não é? E hospital, essas coisas todas, eu posso ir, mas não aquela hora certa, todo dia. WC: Sei. A senhora queria se ver livre dos... IM: //Não. Quero viver livre de tudo.// De horário. WC: Porque o salário a senhora ia continuar recebendo, não é? IM: A mesma coisa. WC: Nisso a senhora não foi lesada não. IM: Não. O funcionário aposentado não. Até porque que ele ganha... tem uma parte que tem uns que ganham mais, do que o que não é aposentado. Até esse ano, não é? Agora diz que foi cortado. É um artigo 184. Nós recebemos, sabe? E o que está trabalhando não recebe, só o que está aposentado. Agora, eu soube que foi cortado. Eu não vi esse decreto não. WC: Tudo que é benefício vão tirando. IM: //Vão... vão.../ É. [Risos]. WC: Agora dona Isaura, a gente queria fazer algumas perguntas já relativas a sua vida com sua família, já aqui. E chegar até hoje, o tempo que a senhora quiser falar para a gente. Na última semana que nós viemos aqui entrevistá-la, nós chegamos a conversar sobre a sua vida lá no Carlos Prates. Nós inclusive acabamos a discussão, a entrevista. Mas a senhora falou dos passeios que a senhora fez e tudo mais. A gente agora já queria retomar, mas em um outro aspecto, que era a vida mesmo dentro de casa. Seu relacionamento com seus pais e com sua irmã. IM: Quando eu fui para a casa da minha irmã, trinta anos, a minha mãe já tinha morrido, eles dois já tinham morrido. WC: Quando isso? 5A- IM -5 IM: Em 1960. WC: Mas antes disso vocês vão morar lá no... IM: No Carlos Prates. WC: //No Carlos Prates.// IM: É. Depois então, em sessenta e... parece que 67, é que nós mudamos para a rua Espírito Santo. Meu cunhado comprou o apartamento...porque a minha irmã perdeu um filho. Então, ficou muito apaixonada lá na casa, vendeu a casa. E viemos aqui para a rua Espírito Santo. Aí, nós moramos, parece que seis ou sete anos. Depois ele comprou aqui. Tem quinze anos que nós moramos aqui. WC: Lá no Carlos Prates vocês viviam no mesmo lote, não é? IM: //É...// Foi. Ele tinha a casa dele, que até é uma casa muito boa, dois pavimentos. E a nossa. WC: E a senhora morou lá com seus pais e a irmã... IM: //Foi. E a irmã// perto, não é? WC: A Geralda, quando vocês mudaram para o Carlos Prates ela já veio casada? IM: //Já.// Já. Ela morava na rua Tupis. WC: Ah! Sei. Como que a senhora sentiu quando a Geralda casou? Porque ela era a única irmã que tinha ficado com a senhora. IM: //É.// É, a gente sentiu... nós sentimos muito, mas foi bom, porque aí tinha mais uma pessoa, para... [Riso] dar apoio. Ele é muito bom. Meu cunhado é muito trabalhador. De modo que deu muito apoio à família, não é? Não teve... [Riso]... ressentimento. WC: Quer dizer, que a senhora não sentiu falta da irmã. IM: Senti... Sentimos muito. Tanto eu como mamãe. Mas nós morávamos perto. Porque nós morávamos na Contorno, ela morava na Tupis. Era um quarteirão só. WC: Ah! Foi quando vocês estavam morando na Contorno. IM: É. WC: A intenção de morar no Carlos Prates e dividir o lote, já foi pensado para vocês ficarem morando perto. 5A- IM -6 IM: Foi. WC: E lá no Carlos Prates que a senhora perdeu seus pais? IM: Foi. Todos morreram lá. Morreu meu pai, morreu minha mãe. Morreu esse meu sobrinho. Morreram todos lá no Carlos Prates. Então nós mudamos para o Centro. AT: Teve uma diferença muito grande entre a época, o ano que o pai da senhora morreu e o ano que a mãe morreu? IM: Não. Teve cinco anos só. AT: Sei. Primeiro morreu o pai? IM: É... Depois morreu minha mãe, depois morreu meu cunhado, lá também, no Carlos Prates. Morreu em cinqüenta e... em 64. AT: O cunhado da senhora? IM: É, marido dessa que mora lá, no Carlos Prates. AT: Ah! A mais velha. IM: //A mais velha.// É. AT: Que casou lá em Sete Lagoas. IM: //Ele morreu// quatro anos depois de mamãe. E meu sobrinho acho que morreu em 65. AT: Mas aí, quando o pai da senhora faleceu, a senhora ficou morando com a mãe da senhora, na casa que vocês tinham. IM: //Fiquei, na casa lá do Carlos Prates...// É. AT: E o que vocês faziam nessa época. A senhora e a mãe da senhora? IM: Eu trabalhava o dia inteiro. AT: //E ela ficava em casa?// IM: //E ela ficava em casa//, cuidava... tinha a moça, a empregada. AT: Ahn...Aquela antiga? IM: //É. Aquela antiga.// É. AT: De Juiz de Fora. IM: Não. Ela era de Sete Lagoas. 5A- IM -7 AT: Oh! É, Sete Lagoas. Estou confundindo as cidades. IM: Ela morava com a mamãe, então tomava conta, cuidava... AT: Ahn-hã... IM: Ela também era muito religiosa, sabe. Ia muito na igreja com a mamãe. De modo que a vida continuou, não é? AT: Ahn-hã... E a senhora viajava com a mãe da senhora, nessa época? IM: Viajava. Mas, mais por aqui mesmo. Para as cidades do interior. São Paulo, Rio. Só. AT: Aquelas viagens que a senhora falou. IM: //É.// Que eu falei, é. AT: Em uma outra entrevista. E no momento que a mãe da senhora morreu, a senhora continuou morando na casa e só depois de... IM: //Continuei morando na casa// um ano. Um ano depois a empregada foi embora. A moça que morou conosco quarenta anos foi embora. AT: Aí a senhora resolveu... IM: Aí eu tive que deixar a casa. E essa minha irmã foi morar lá. Eu morava na rua São Paulo. Foi com o marido, o filho, sabe. Ela foi morar na minha casa e eu fui para casa dessa outra minha irmã. Que é unido, as casas eram unidas. Passava... tinha um portão no fundo, a gente passava pelo fundo. AT: Qual irmã foi morar na casa da senhora? IM: Esta que ainda mora lá. AT: Certo. WC: Que ainda mora lá. E a senhora foi morar com quem? IM: Com essa minha... com essa que eu moro. AT: Ah! Então não foi a Geralda que foi morar com vocês lá no Carlos Prates. IM: //Não. Eu é que fui morar com ela.// Não... quando ela foi para o Carlos Prates, ela construiu lá. AT: Certo. 5A- IM -8 IM: O marido dela construiu e ela foi para lá. AT: Depois eles mudaram de lá. IM: Mudaram de lá. Aí também eu mudei. AT: //Aí a senhora continuou.// IM: É. Continuei com eles. Não. Quando ela mudou eu já vim com ela. WC: Ah! Sei. Na época a senhora não chegou a pensar em ficar sozinha, dividir apartamento com alguém? IM: Não, porque não dava. Meu ordenado não dava. Podia se eu... dividisse, pudesse uma pensão, uma coisa dava. Mas ia dar dor de cabeça, sem empregada, não é? A empregada de confiança. Ela tinha ido embora, não quis ficar. WC: E a senhora tinha um bom relacionamento com o cunhado, mas e com o sobrinho? IM: Com o sobrinho mais ainda. É. Nós é que ajudamos a criar, mamãe e eu. Porque a mamãe é que ficava mais com ele. Porque ela trabalhava, dava aula no grupo. Nessa época ela dava aula. Então os meninos eram pequenos... Então ajudava a olhar... [Riso]. WC: Hum... Eram quantos sobrinhos? IM: Nessa época eram três. WC: Aí depois que perdeu um deles. IM: É... nessa época eram quatro. Depois perdeu mais um, não é? Foram dois que ela perdeu. Mas o outro que ela perdeu foi aqui, já estava até rapaz. WC: E a senhora levava os sobrinhos para passear? IM: Levava. Passeava muito. Os meninos gostavam muito de passear, sabe? WC: Onde que a senhora levava as crianças? IM: Ah! Era no parque. Porque criança é só parque. [Risos]. Parque, Pampulha. Pampulha tinha. WC: E circo? IM: Circo não. WC: Não? Não tinha. 5A- IM -9 IM: Tinha circo na Pampulha. Uma vez teve um circo grande lá na Pampulha. Mas nós não fomos não, porque era muito longe. Ia só assim, quando ia o pessoal todo, meu cunhado ia de automóvel. Então a gente ia, com os meninos e ele. WC: Passar o dia. IM: É. Passar o dia. É. Porque tinha brinquedo. A Pampulha era muito boa. Muito brinquedo. WC: É? IM: É... Tinha roda gigante. Tinha essas coisas todas, sabe. Depois, acabou tudo. AT: //O parque...// IM: //É...// AT: De diversão. IM: De diversão, é. WC: Ainda tem um parque lá. Eu só não sei se ele é tão antigo. IM: É. Perto... perto do Mineirinho, por ali. WC: Isso. IM: É. Nesse tempo lá tinha. Não sei se eles ampliaram. Também nunca mais fui lá. Vou lá assim, quando tem qualquer festa no Mineirinho. Festa de formatura. Teve um casamento lá dessa minha... filha da minha colega, então eu fui. Mas nem futebol. [Risos]. Vocês gostam de futebol? WC: Não. [Risos]. IM: Eu também não. Eu não conheço nem aquele campo grande. AT: O Mineirão. IM: Não. Ele eu não conheço não. WC: Ahn... Por esporte a senhora não se interessava. IM: Não. Mas lá de vez em quando tem coisa da igreja? Mas também não vou porque é muita confusão, muita gente. Então não dá para a gente ir. WC: É isso que desanima a senhora? IM: Desanima. É. É muita gente assim. Ônibus, esperar ônibus, essa coisa toda. Quem tem 5A- IM -10 carro, é fácil, mas quem não tem, é muito difícil. AT: Dona Isaura, eu acho que é uma pergunta até assim mais íntima. A gente faz. Se a senhora se sentir à vontade para responder. É a coisa de como a senhora foi vendo... A senhora vai perdendo algumas pessoas que a senhora gosta. Até porque está se afastando para morar longe. Ficar longe dos pais. E a senhora fica um pouco sozinha, não é. Como a senhora se sentiu? A senhora queria ter a companhia de alguém? Da irmã? IM: Ah! Isso seria muito bom, sabe. Mas era muito difícil, porque essa minha irmã trabalhava. A vantagem é que eu trabalhava, com isso a gente distrai. Tem aquele... tem aquele ambiente de serviço. Eu trabalhava no benefício essa época. De modo que o pessoal tinha necessidade das coisas, não é? E eu trabalhava... nessa época eu trabalhava no guichê. De modo que conversava muito. [Riso]. WC: Ahn...Porque a senhora falou para a gente que eram muitas mulheres, não é? IM: Muita mesmo. Ainda tem mais mulher do que homem. Eu não sei porque. [riso]. Até agora, na rua que a gente vê filas. Você vê essas filas de INPS, de INAMPS. Tem muito mais mulher do que homem. Não sei se são os filhos que vem, não é? E... WC: Talvez porque os homens estejam trabalhando. A mulher [...]. IM: //É. É isso mesmo.// E a mulher vai resolver o caso, não é. WC: É. Pode ser também, não é. A proporção não deve ser muito discrepante não. IM: É. Porque sempre o homem trabalha, não é. Para enfrentar uma fila, o homem não vai poder. Ele estando trabalhando. WC: Ahn... Nesse sentido, a mulher... geralmente o homem trabalha e a senhora foi uma mulher que sempre trabalhou. Seus pais admiravam a senhora por isso? IM: Ah! Eles gostavam. Porque... Pelo menos dava conforto, não é. WC: E a senhora se sentia independente? Sentia melhor por isso? IM: Ah! Muito mesmo. Porque pedir dinheiro todo dia, todo dia, é horrível. Precisar de ônibus ou de uma coisa qualquer. Uma viagem, não é. Não ter dinheiro, é horrível. WC: [Riso]. A senhora acha que nesse sentido o trabalho é importante para a mulher? IM: //É importante.// Para mulher é importante. Tem pessoas que não acham. Mas só quem tem... As pessoas às vezes já tem rendimento próprio. Os pais já dão o rendimento... aí, 5A- IM -11 não precisa de trabalhar. Até que é bom, ficar à toa. [Risos]. WC: Aí!... Bem, dona Isaura, agora a gente gostaria de fazer umas perguntas para a senhora relativas à política. Dá para fazer um salto agora. Primeiro, a gente não está interessada de saber o que a senhora viveu disso ou daquilo, não. Mas o que a senhora se lembra, o que marcou a senhora. E a senhora foi vendo acontecer. A senhora se lembra assim de algum momento, algum evento algum acontecimento político que tenha marcado a sua vida? IM: Não. Isso eu não me lembro mesmo. Não me lembro. Política não. A não ser da gente na posse do Juscelino não é? Todo mundo foi. Eu também fui. Foi a única vez que eu entrei no Palácio. WC: É?... IM: É. WC: O que a senhora achou? IM: Achei uma beleza, não é? Uma coisa fora do comum. Ele também estava muito bonito. Ela também, a mulher, esposa, dona Sara. Foi muito bonito, sabe? Eu me lembro é só disso. Mas aí já foi em 54, acho. Ou 55. WC: Foi antes. Foi em 50. IM: Foi em 50? WC: É. Porque já em 55 ele vai para presidente. IM: //Ele foi... Não estou lembrando direito.// Terminou, não é. WC: É. 60 ele termina. IM: É. Então é. Deve ter sido 50, mais ou menos. WC: E a senhora foi lá justamente para ver o Juscelino. IM: Não. Justamente para ver o Palácio, o Juscelino e tudo. WC: Ahn... A senhora tinha votado nele? IM: E a festa. Tinha votado nele. Ah não! Não teve eleição não. WC: Não foi eleição. IM: //Não.// Não foi eleição não. 5A- IM -12 WC: Como era? IM: Isso que foi a Câmara dos Deputados, que fazia. Porque a gente escolhia o deputado, e o deputado é que escolhia o presidente. WC: Desde menina a senhora se lembra de votar, nas eleições? IM: Não. Eu comecei a votar... Eu não lembro do Getúlio. Eu não me lembro se eu votei em Getúlio. Ele foi 37, não é? WC: Quando ele... IM: Voltou, não é. Teve aquela... WC: Não. Depois em 50. IM: Mas 50 não foi acho que voto não. Acho que... WC: Ah! Em 50 já foi por voto. IM: 37, então que não foi por voto? WC: É. IM: Não. Acho que 50 não era voto. Não, 50 já devo ter votado. Mas não me lembro não. Eu devo ter o título aí, de eleitor. Porque Getúlio eu acho que foi, foi o povo que elegeu. Uma grande votação, não é? WC: Isso. IM: A primeira vez eu nem me lembro. Eu sei que ele fez, fechou o Senado, fechou tudo. WC: A senhora se lembra disso? A senhora acompanhava pelos rádios? Jornal? IM: //É. Pelo rádio.// Aí já é rádio. WC: Isso. IM: É. Porque a televisão já veio em mil, para que em 1960 ou 59, que veio a televisão. WC: A senhora ouvia o Getúlio falando no rádio? IM: Ouvia. Ele falava bonito! WC: É? IM: Eu me lembro que ele tinha a voz muito bonita, o Getúlio. WC: //Ahn...// 5A- IM -13 IM: E falava bem, porque ele é um homem instruído, não é? Capacidade fora do comum. WC: A senhora ligava o rádio para ouvir o Getúlio. IM: É. WC: Que tipo de mensagem ele passava para o povo? IM: Era sempre para o trabalhador, porque ele gostava muito era do trabalhador. Ou se não gostava ele fingia, não é? [Risos]. Tanto que as leis trabalhistas foram dele. Toda lei trabalhista é dele. WC: Na época a senhora ficou empolgada com isso? IM: Ah! Fiquei não é? WC: E a senhora como trabalhadora, também. IM: //É. É.// Nessa época eu era do comércio. WC: A senhora se sentiu beneficiada... IM: //É. Foi.// WC: Por isso. IM: É. Porque foi criando os Institutos, aquelas coisas todas, não é? Foi na época dele. WC: É. Nós já estamos vendo que a senhora se lembra de algumas passagens aí. [Riso] AT: Não só a posse do Juscelino. [Risos] WC: Bom. O que a senhora achou de votar. Do voto ser estendido para as mulheres. Porque, acontece mais cedo aqui. E... A importância para a senhora de votar. IM: Oh! Para mim não teve valor nenhum, sabe? Porque a gente vai lá, vota numa pessoa que às vezes não vai fazer coisa alguma. É obrigado a votar, não é? Eu sempre voto em quem me pede o voto, sabe? Não voto assim, porque o candidato é muito bom Sempre é uma pessoa que vem e pede. Uma colega que pede. WC: Ah! Pede para alguém conhecido. IM: //Conhecido.// Irmão ou qualquer coisa dele, sabe? WC: No caso de ser vereador ou candidato a deputado. IM: //Vereador... Candidato... É...// 5A- IM -14 WC: Mas se for no caso de um presidente. A senhora também vai por indicação de pessoas do seu círculo, também? IM: //Não. Não.// Aí a gente vê qual é o melhor. Mas eu não votei no Collor, não. WC: Ahn...[Risos]. WC: E a senhora costumava, já da época anterior e agora, ver a propaganda política? IM: Eu gosto de ver. WC: Gosta? IM: Acho interessante. Porque tudo é mentira, não é? [Risos]. Todos são bons. Na época da... AT: Eleição. IM: //Eleição.// Todo mundo é bom. AT: Mas, como é que a senhora fica sabendo se um candidato é bom ou não? Qual é o critério que a senhora tem para observar isso? Como é que a senhora observa isso? IM: //Ah! O que ela já fez, não é.// IM: A gente tem que ver mais ou menos o que ela já fez de bom. Se ele já foi, por exemplo, esse, que ele entrou agora, se ele foi bom na época que ele foi presidente. Tanto que eu votei nele agora. Porque eu não achei que ele foi... Talvez foi um dos melhores. WC: Quem a senhora diz? O Hélio Garcia? IM: //O Hélio Garcia.// É. Esse. Pelo menos ele não fez nada de bom, mas também não fez nada que chamava muita atenção. AT: //Chamasse muita atenção.// IM: É. [Riso]. Apesar de que, eu votei no Newton Cardoso, também. Mas ele foi péssimo, não é? [Riso]. AT: A senhora não conhecia, depois desistiu... IM: É... Me pediram... Nem sei... Foi em Sete Lagoas, um sobrinho me pediu o voto. Porque ele ia criar uma agência lá em Sete Lagoas. Então, não custava. Mas depois ele não criou a agência não. [Risos]. AT: Só promessa... IM: Só promessa. É. Aliás, tudo dele é promessa, não é? 5A- IM -15 WC: É. Realmente. Passar para realização mesmo da promessa... Fica pendente. IM: É. WC: E outros políticos? IM: Não. Lá em casa falava muito era no Raul Soares. Mas eles que falavam. A gente ouvia. Naquele tempo de Arthur Bernardes, não é? WC: A senhora conversava com seu pai sobre política? IM: Não. Conversava não. WC: Quando adulta, também não? IM: Não. Porque tinha... Não tinha graça de política, sabe? Não tinha... Como se diz... Não tinha graça mesmo falar em política. Tinha outros assuntos. Então política ficava de lado. [Riso]. WC: Por que desinteressava? Por que era sem graça? IM: Porque... Não sei... [Riso]. É uma coisa que eu não entendo. Lá em casa não falava em política não. Cada um tinha seu candidato e... WC: Hum... Dentro da casa, havia consenso em relação aos candidatos? Ah! Vamos votar no fulano, ele parece ser um bom candidato. IM: Não. Também não. WC: Família às vezes dividia? IM: Não. Depois que nós já moramos aqui foi que começou. Esse meu sobrinho gostava. Ele gosta do PTB. E a gente conversa, mas com ele, sabe? Esse que é professor na escola. Marido daquela, que foi sua professora. WC: Ah! Sei. IM: Da Thaís. Ele nós começamos a conversar. Mas agora nem conversamos de política mais não. Aqui em casa agora, a gente não conversa mais não, para não entrar em choque. WC: É. IM: Uns são do Collor, ele do PTB. Então... [Risos]. Então não conversa, para não... WC: Evitar atrito. IM: //Evitar atrito.// 5A- IM -16 IM: A mulher dele também é. Eu não sei se é do PT ou do PTB. WC: Acho que é PT. IM: Não é? É. Eu sei que os dois são. Então a gente não conversa não. Assunto... [Riso]. WC: Agora, pensando aqui, a senhora falou de momentos políticos. A senhora lembrou da posse do Juscelino, a senhora se lembrou um pouquinho do Getúlio. A senhora se lembra de mais algum momento, de alguma agitação que estivesse ocorrendo na cidade. De algum momento, assim, que tenha, vamos dizer, entrado para a história? IM: Não. Não me lembro não. A não ser do Tancredo quando morreu, não é? Esse daí nem preciso falar. [Riso]. É muito recente. [Riso]. WC: E com relação à administração. A senhora se lembra de alguma que a senhora tenha achado boa. Ou que a senhora tenha achado que foi muito ruim. A senhora se lembra de alguma, aqui em Belo Horizonte, por exemplo. IM: Também não, porque... Aliás, quase todas administrações não terminam muito boas, não é?? Então... WC: Mas a senhora se lembra da construção da Pampulha no governo J.K. IM: Ah! Me lembro. Isso foi bom, foi um progresso. Mas aí ele era da prefeitura, não é? Não era presidente não. Acho que não. Parece que era da prefeitura. Na época da prefeitura. WC: A senhora acompanhava esses acontecimentos pelo jornal todos os dias? IM: É. Pelo jornal. Nessa época já tinha o “Estado de Minas”, então a gente gostava de ler, reler. WC: Então a senhora ia acompanhando. IM: É. WC: Tinha interesse. IM: Tinha. As coisas boas da capital eu tinha interesse, sabe. [Riso]. WC: Ahn... E a senhora tinha preferência por algum partido? Nas épocas de eleição. IM: //Não.// Também não. WC: Nunca teve. IM: Não. 5A- IM -17 WC: Não chegou a participar de nenhuma mobilização? IM: Não. Nunca. WC: Que teve aqui... IM: É, tinha UDN, tinha PSD, PTB, tudo isso. Mas não participei não. WC: E dentro da família tinha alguém que participava? IM: //Também não.// Não. Ninguém. Porque meu cunhado também não gosta. A minha irmã também não gosta. Então... WC: Hum... E no IAPETEC? IM: No IAPETEC eles conversavam pouco de política, sabe? WC: Ah é! IM: É. Eles não conversavam muito não. Conversava mais era o serviço ou assunto particular. Cada um contava o seu caso... [Riso]. E o dia passava não é? [Risos]. WC: Agora, a senhora falou para a gente das administrações, que na maioria das vezes não terminavam bem. A senhora falou da sua desconfiança com relação aos políticos de modo geral. Agora, dentro disso, como que a senhora vê o papel do Estado frente à sociedade, frente à cidade? Qual deveria ser o papel do Estado? O que a senhora acha? A senhora dá a impressão de que ele não cumpre o papel. IM: Eu... Ultimamente nenhum governador não tem... Aliás, esse prefeito tem cumprido bem. Esse último que está lá agora. Esse... WC: Ah! Eduardo Azeredo. IM: //É... É...// Esse já tem feito alguma coisa, não é? Pelo menos tirar aquela coisa da praça... da praça... A feira... WC: A feira da Praça da Liberdade. IM: Aquilo já foi uma grande coisa. Quantos anos eles estão falando em tirar aquilo da Praça da Liberdade. Ele conseguiu. E ele está fazendo umas outras coisinhas também, abrindo ruas, calçando. Parece que ele não está dos piores não. Também acho que é o único. Porque esses outros que têm passado na prefeitura. [Riso]. WC: O que a senhora acha que um prefeito, por exemplo, pegando mais próximo a nós. O 5A- IM -18 que ele devia fazer para cumprir o papel dele, a função dele e tornar a cidade melhor, para a gente viver? IM: Limpeza, não é? WC: Limpeza, manutenção?... IM: //Limpeza, manutenção// da limpeza, porque a cidade está muito suja. Muito suja, muito cheia de mendigo na rua. É o que você não vê em cidade do interior. Você vai em Poços de Caldas, você não vê um mendigo. Você vai em Sete Lagoas, você não vê um mendigo na rua. Nessas cidades todas, Caxambu, você não vê ninguém. Agora aqui, você vê na porta da igreja São José, que é no centro dessa cidade, não é? Horrível isso. Outra coisa também. É... Esses ônibus, todos trafegam na avenida Afonso Pena. É a única avenida bonita que nós temos, não é? Todo ônibus trafega ali. Devia mudar o trânsito. Porque antigamente não tinha tanto trânsito na avenida não. WC: É. IM: Eles passavam por fora. Eles passavam. Mas isso foi o prefeito mesmo que pôs, com a Metrobel, não é? WC: É. E também, fica a necessidade das pessoas que vem dos bairros... IM: //Vem dos bairros...// É. WC: Para vir para a cidade. IM: É. WC: Acho que aí entra um conflito. Que eu queria até saber a opinião da senhora sobre isso. Porque de um lado, a gente tem um desejo do que a cidade poderia... IM: //Que poderia fazer.// WC: De como a cidade deveria ser. E por outro lado, tem a questão do progresso, do desenvolvimento... IM: É. WC: E do crescimento da cidade. IM: E a cidade foi feita pequena, não é? Porque, Belo Horizonte é pequena já. Tanta gente não é? Tanto que eles já estão fazendo nos morros, as casas no morro, porque nós não temos espaço. Belo Horizonte não tem espaço. 5A- IM -19 WC: E como é que a senhora vê a coisa do crescimento e do progresso numa cidade como a nossa? Na semana passada, a senhora lamentou a destruição das casas antigas. IM: É, isso é horrível, isso é triste. WC: Como é que a senhora vê isso? A senhora que está aqui, vem acompanhando a cidade. Já... IM: Olha. Eu vejo isso com tristeza mesmo. Porque aqui há uns dez anos, já não vai ter nenhuma casa dessas antigas. Eles vão mesmo derrubando. Mas quem manda é o prefeito e o governador. A gente não pode fazer nada. [Riso]. Não adianta você dar opinião. WC: Ahn... Nesse sentido, a senhora acha que o único papel da população, de modo geral, é votar. Depois que vota é impossível fazer alguma coisa. IM: Impossível. Porque não adianta. Não adianta você ir lá no deputado e pedir qualquer coisa, porque ele não faz mesmo. Já está ganhando os seus três milhões, o que vai fazer. Não há necessidade dele fazer qualquer coisa. Você vê, os deputados daqui não fazem nada, nem os vereadores. Eu não... Eu não vejo mesmo. AT: É... Sai muito pouca notícia, não é? IM: Muito pouca notícia. AT: É... IM: Se eles fazem lá dentro nós não sabemos. Pelo tanto que eles ganham, deviam fazer melhor. Ou, por exemplo, eles não deixarem, quando... FIM DO LADO A DA FITA 5 5B- IM -21 Entrevista - fita 5 - lado B IM: Foi uma escola italiana, não é? AT: Casa de Itália. IM: É, Casa de Itália. WC: Era bonito o prédio? IM: Era. Era muito bonito. Bonito mesmo. Antigo, não é? Prédio antigo mesmo. Depois eles fizeram uma reforma, mas mesmo assim conservaram a estrutura. AT: Um prédio baixinho. IM: //É... É.// Mas eles deixaram, vendeu aquilo tudo. Vendeu Usiminas, vendeu tudo não é? [Risos]. Tudo que ele quis vender ele vendeu. WC: A senhora acha que é possível conciliar a tradição, a preservação desses monumentos, casas antigas. A senhora acha que é possível manter isso com o crescimento da cidade? IM: Não. Eu acho que não é possível porque eles... baixam não é? Mas não limpam a casa. Baixam esses decretos, falando que não pode mudar. AT: //Tombar e tal.// IM: //De tombar e tudo.// E depois não limpam mais. Fica tudo sujo, tudo caindo aos pedaços. O que adianta? Não pode. WC: A senhora acha que... Como que resolveria um problema desse por exemplo? IM: Eles tinham de tomar cuidado. Se o prédio é tombado, o Estado é que tem que pelo menos tomar conta. Porque muitas vezes o prédio é tombado, mas o proprietário é que toma conta. IM: Toma conta. Aí não adianta. AT: E acaba que o proprietário fica desgostoso. [Risos]. Não pode mexer no prédio. IM: Não pode mexer, é triste. Quer vender para fazer, um apartamento e tudo. Não pode. AT: Não pode. [Riso]. 5B- IM -22 IM: E aí o Estado não limpa. Eles também não limpam não é? WC: O Estado não ajuda esse proprietário. IM: //É. Não conserva.// Não conserva. WC: A senhora acha que o ideal então é manter. IM: É. Eu acho que o ideal é manter. WC: Ter o crescimento sem... IM: É. E ter esses prédios. Na Europa eles conservam. WC: É. Porque eu fico imaginando assim, a senhora falou da Europa. A senhora já conheceu tantos outros lugares, tantas outras cidades... IM: //Roma. Roma// é muito... muita casa antiga e tem casas também modernas, não é? Mas não é em prédio assim, tombado, nem nada não. WC: Hum... Mas a senhora diz que as casas antigas ainda são habitadas normalmente. IM: São. São habitadas. Outras coisas de governo, não é? Repartições do governo. WC: A senhora lamenta que isso não ocorra aqui em Belo Horizonte. IM: É. Lamento. Não é só aqui não. No Rio de Janeiro, São Paulo, também. São Paulo já destruíram uma avenida inteira de casas boas, bonitas. De casas maravilhosas. Mas jogaram todas no chão. Para ampliar a avenida. Aquela avenida. Parece que é avenida Paulista. WC: //Paulista. É...// AT: Até a última casa que tinha era a mansão dos Matarazzo, não é? Que está. IM: //É... É...// Era uma coisa. Estavam brigando... Não sei se já jogaram no chão. AT: Não. Mas estão quase. IM: É? AT: É. Que a mansão está largada, praticamente. IM: Pois é. Ninguém limpa, ninguém toma conta, ninguém olha, não é? Vai indo... [Riso]. Joga tudo no chão. WC: Dona Isaura, acho que a última pergunta que eu gostaria de fazer. Não sei se a Anny 5B- IM -23 também tem. Eu gostaria de perguntar, com relação a este aspecto da cidade, o seguinte. A senhora viveu em Sete Lagoas, você morou aqui muitos anos, mas conheceu muito lugares. Tanto dentro do próprio Brasil como fora do Brasil. Então eu queria saber da senhora o seguinte. O que uma cidade precisa para ela ser agradável de se morar e para atrair até turismo também? O que ela precisa ser? IM: Olha, o que eu acho, primeiro é a limpeza da cidade. Todos os lugares que a gente vai, a cidade é limpa. Menos Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Isso aí é destruição. [Risos]. E... E... também ter, como se diz, coisas para turismo. Que Belo Horizonte tinha a Pampulha era um turismo, não é? Acabaram com a Pampulha. Porque a Pampulha, hoje em dia, você vai lá, não tem nada. Não tem... Mesmo lá onde vocês estudaram, ali era uma beleza quando fez, não é? Bem mais... Bem mais bonito. Agora já estão desprezando os jardins, aquela coisa... Hoje até... Você viu, teve um incêndio lá. WC: No campus? IM: É. WC: Ah! Eu não cheguei a ver não. IM: Ah! Você não chegou a ver. Deu na televisão. Estava pegando fogo lá naquelas árvores. Eles estavam lá, apagando. De modo que falta o verde em Belo Horizonte. Porque precisa de verde. WC: A senhora acha que é preciso conciliar o progresso com o... IM: Com o verde. É. É uma coisa que falta e que quase toda cidade tem. Nas cidades do interior, essas cidades turísticas, elas têm. WC: A senhora acha que isso que atrai também, turismo? IM: É. Acho que atrai. WC: Porque a senhora se sente atraída. IM: Eu me sinto. [Risos]. Acho um encanto. Os jardins bonitos, não é? WC: //Embeleza.// IM: Uma coisa que embeleza a cidade. Aqui não. Fizeram esse jardim aqui, o jardim acabou. No Carlos Prates, quando eles fizeram onde nós moramos, quer dizer, depois que eu mudei de lá muitos anos, fizeram um jardim muito bonito em frente ao grupo. Ali em 5B- IM -24 frente ao grupo. Uma beleza. O jardim acabou. Em dois anos acabou o jardim. Quer dizer, não conservam. Como a gente vê em todo lugar. Eles conservam os jardins, ninguém apanha uma flor, ninguém... Aqui não. Arranca assim, levam muda, não é? Não sei por que o mineiro faz uma coisa dessa, não é? Agora eu vejo também na televisão eles falando que eles estão destruindo muito lá em São Paulo, as cabines de telefone, eles estão destruindo. Quer dizer, está igual aqui. Eles destroem tudo. Riscam, não é. WC: A senhora acha que às vezes existe uma... Existe uma preocupação do governo de realizar obras, mas a população não preserva. IM: //Não. Não.// Não preserva. Eles fazem, não é? Mas a população não preserva não. WC: A senhora tem uma justificativa para isso? IM: Não sei menina. Eu acho que é tóxico. Toda criança, hoje em dia, começa desde menino. Esses grupos, não é? Então atrapalha tudo. Hoje, por exemplo, você não assistiu a televisão não. Eu vi na televisão que os meninos lá em São Paulo, de uns sete, oito anos, com tóxico. É triste isso não é? Belo Horizonte também tem muito, esses meninos de favela. Não é só menino de favela não. Esses meninos ricos também fazem muito. [Risos]. WC: São problemas hoje bem diferentes daqueles que a senhora conheceu no seu tempo, não é. IM: //É. É... Bem diferente.// WC: A senhora fica assustada com essas inovações? Vamos dizer, inovações... IM: É... Não... WC: É... Com tanta coisa acontecendo... [...] IM: //Tanta. Que acabou mudando tudo.// Ladrão, não é? [Riso]. Você não pode andar com relógio. Não pode andar com relógio, não pode andar com pulseira, não pode andar com coisa alguma. Ladrão de todo lado. E são meninos, são pivetes. Não sei se eles são mandados por alguém, mas são pivetes que roubam. Isso é que precisava de acabar. Hoje em dia não pode prender mais menino, não é? WC: A senhora acha que prendendo resolveria? IM: Não. Prendendo não. Tinha que ter uma fazenda para ensinar ler, escrever e trabalhar. Uma fazenda do governo, isso que tinha que ter. Mas eles acabaram. Aqui mesmo tinha 5B- IM -25 esse Instituto João Pinheiro, não é? WC: É. IM: Era uma maravilha, uma maravilha! Um encanto! Muito menino, sabe? Tudo uniformizado, eles trabalhavam na horta, trabalhavam... Estudavam. Tinha uma casa muito boa que morava lá... Que tomava conta. era uma beleza. Tinha muita criança mesmo, lá. WC: A partir de quando a senhora acha que começou a ter esse problema desses menores abandonados na rua? IM: Ah! Isso já tem uns vinte anos. WC: A senhora acha que já tem isso tudo. IM: É. WC: Mendigo na rua. IM: Mendigo na rua também tem. Tem uns vinte anos. WC: //Ou mais tempo.// IM: Ou mais tempo. WC: A senhora acha que de vinte anos para cá é que essa coisa se intensificou? IM: //Foi piorando// cada vez mais. Foi piorando, não é? Não é que o governo não queria tomar conta. Também não pode tomar conta. Não dá conta, não é? WC: É... IM: Tem tanta... Tem tanta coisa. WC: Tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de colocar para a gente? IM: Não. Nada... [Riso]. WC: Eu queria voltar um pouquinho com a senhora. [Riso]. Em duas coisas. A senhora falou da questão dos jardins. E nós falamos numa outra entrevista a respeito das árvores da avenida Afonso Pena. E tem toda essa história também, de se falar, de se chamar Belo Horizonte, como a "cidade jardim." IM: Sei. WC: A senhora chegou a conhecer a "Cidade Jardim", ou Belo Horizonte como a "Cidade 5B- IM -26 Jardim"? IM: Ah! Conheci. Tinha a cidade... Por exemplo, a Cidade Jardim... Tem aquele bairro Cidade Jardim. WC: //Também. É.// IM: Ali era uma maravilha! Quando foi construído aquilo, as casas não tinham muro, era só jardim na frente. E uma casa unindo a outra, era jardim. Era uma beleza. Hoje é só prédio, não tem mais casa quase nenhum. WC://E o resto da cidade.// Porque a gente sempre tem a imagem da avenida Afonso Pena cheia de árvore, não é. IM: É, tem. WC://E o resto da cidade também tinha esse verde? IM: //Não. Tanto jardim assim não.// Tinha o jardim da Praça ali, não é? AT: Praça da Liberdade. IM: Praça da Liberdade. Depois fizeram o jardim da... AT: Raul Soares.. IM: E da Pampulha. Tinha muito jardim, muito mesmo. AT: A Praça Rio Branco, a da Rodoviária. IM: A Praça da Rodoviária ali, não era rodoviária. Ali era uma... Parece que era uma Secretaria. AT: Era Feira de Amostra. IM: Feira de Amostra. Só que ali... Ali tinha um jardim. Onde que fizeram aquela... uma subida assim, aquele monumento. AT: //Um monumento. IM: //Que é uma feiúra, não é?// Ali tinha um jardim também. AT: Também. IM: É. AT: E as outras ruas da cidade, elas eram arborizadas? 5B- IM -27 IM: Não. Todas não. AT: Todas não. IM: Não eram arborizadas não. E era dessa pedrinha não é? AT: Paralelepípedo. IM: É. Ou então daquele... paralelepípedo é aquele quadrado, não é? AT: //Quadrado.// Pé-de-moleque é a outra, toda quebradinha. IM: //É aquela quebradinha.// A Patrocínio era assim. Agora, essa paralelepípedo era na avenida Afonso Pena. Eles tiraram tudo e... AT: Asfaltaram... IM: Puseram asfalto. Arrancaram aquilo. [Riso]. É uma fortuna aquilo. Uma pedra... AT: É... IM: Uma beleza. WC: E outra coisa que eu queria perguntar dona Isaura, seria a respeito, voltando mais um pouquinho. A respeito da questão de política. A senhora falou alguma coisa sobre a Revolução de 30 para a gente, sobre a época do Getúlio e tal. A senhora se lembra, por acaso, da época da Segunda Guerra Mundial, aqui em Belo Horizonte? Como foi... IM: Em 45, não é? WC: Isso. É. IM: //45 eles queimaram,// muita coisa. WC: De 40 a 45, 42 a 45. IM: Os italianos todos, aquela... Essa... Ali na Goitacazes que tinha o Demétrio, a padaria dele foi destruída. WC: Ah é! Aqui em Belo Horizonte? IM: É, aqui em Belo Horizonte. Em 45. Parece que foi 45, porque eu saí lá do José Costa em 47. WC: Sei. IM: Para ir para o Instituto. 5B- IM -28 WC: A população... IM: É que quebrou. A população. WC: Da cidade. IM: Da cidade. Por causa daquele... WC: Mussolini. IM: É... Teve uma... Aquela coisa que teve lá na Itália. AT: Fascismo. IM: Não. Que nós mandamos os nossos... AT: //Ah! Pracinhas. // IM: Pracinhas. AT: //Para a batalha que eles participaram.// IM: Então por isso. Então eles morreram. Os primeiros morreram. Os segundos não morreram porque não subiram. Ficaram embaixo, não é? WC: Ah! Sei. IM: Mas os primeiros morreram. Morreram. Por causa daquilo, os italianos todos daqui sofreram. WC: É mesmo? IM: É. Sofreram mesmo. WC: E os alemães. Tinha alguma colônia alemã, ou teve algum ataque? IM: //Não. Aqui em Belo Horizonte//, não tinha não. WC: Não? IM: Não. WC: E nessa época a senhora morava, em 47 a senhora estava morando aqui no Centro. IM: Morava na Contorno. WC: Na Contorno. IM: É. 5B- IM -29 WC: Próximo do Barro Preto. IM: É. WC: E o Barro Preto, inicialmente era um bairro formado quase exclusivamente por italiano. IM: É. WC: E depois tinha muito italiano, também no Carlos Prates. IM: É. WC: Como que a senhora acha que foi a reação deles diante disso? A senhora... IM: Ah! Eles ficavam caladinhos, ninguém dava palpite. Eu mesmo trabalhava com o Zé Costa, ele não falava nada. Eles não abriam a boca. Com medo, não é? WC: Mas no início do movimento fascista, lá na Europa, no início da subida do Mussolini, que até circulava que o Vargas, e o Mussolini tinham algumas coisas em comum. Os italianos não... Como eles reagiam? Eles apoiavam o Mussolini, no início? Havia algum tipo... IM: O italiano apóia até hoje. [...] A Itália. AT: Ahn... A Itália. IM: Eles apoiavam a Itália. Tanto que quando tem um jogo... Quando teve um jogo de futebol, há muitos anos atrás, foi a Itália com o Brasil, eles todos eram italianos. Não eram brasileiros, não é? Estavam no Brasil mas queriam que a Itália ganhasse. Foram os primeiros jogos. WC: Certo. E nesse período da Guerra, aqui em Belo Horizonte faltou algum tipo de... como é que se diz... IM: Mantimento. WC: É. Ou algum tipo de produto, não só mantimento, mas de roupa, ou qualquer outra coisa. IM: Não. Mantimento é que faltou. Faltava farinha-de-trigo. Quer dizer, a gente comprava, mas com dificuldade. AT: É? IM: Tecido, açúcar... Mas com dificuldade. Mas faltou mesmo. Para o pobre então, que não 5B- IM -30 tinha dinheiro para comprar essas coisas. Era tudo mais caro, não é? Comprava na... Como é que a gente diz... Essas mercearias, não é? Era mais caro. Nesse tempo não falava mercearia não. AT: Armazém. IM: //Armazém,// padaria. A farinha-de-trigo a gente podia comprar na padaria. WC: Sei. IM: Mas não era para todo mundo que eles vendiam. WC: Ah não! IM: Não. Era para freguês muito conhecido. Porque faltava. A farinha-de-trigo faltando para eles não podia fazer o pão. WC: Hum... hum... E, eu me lembro de ter visto há um tempo atrás no jornal, uma campanha chamada: "Doe ouro para o Brasil". Acho que foi, inclusive na época da Guerra. IM: //Ah! Foi.// Foi aquele... Aquele que morreu. Assis Chateaubriand, que fez essa campanha. E foi muita gente que deu. WC://Ah é!// IM: Ali na Praça Sete, tinha uma... fizeram uma coisa parecendo... parecia uma bacia grande, todo mundo levava o ouro lá. Eu não levei, não. Mas... [Risos]. Foi muito ouro mesmo. E esse ouro ninguém nunca mais soube dele. AT: É? IM: //É.// WC: E a campanha era especificamente para que? Qual era o motivo que eles alegavam para as pessoas doarem? IM: Uai. Penso que é para mandar... mandar mantimentos para o pessoal que estava na guerra. Mas eles não falavam não. Era aquela campanha do Assis Chateaubriand, que todo mundo caiu no conto do vigário. WC: Ah é! [Risos]. WC: E a senhora não caiu. IM: Não. Porque eu nem tinha ouro. 5B- IM -31 WC: Ahn... Se tivesse... IM: //Nunca gostei.// Era capaz de dar, não é? WC: É? IM: É... [Risos]. AT: Na época eles falavam que era a campanha do conto do vigário? IM: Não. Depois, não é? AT: Depois? IM: É... AT: A população da cidade. IM: //É, [...]// que deu aquilo. Porque ninguém sabe para onde foi aquele ouro. No Brasil inteiro, não é. AT: É. Eu acho que houve campanha no Brasil inteiro. IM: É. No Brasil inteiro. WC: E outra coisa. Mudando um pouco, existe alguma outra coisa nesse período da Guerra que a senhora se lembre, que a senhora queira comentar? IM: Não. Que eu me lembre não. WC: Assim não. O final da Guerra foi comemorado em Belo Horizonte? IM: Foi. Foi muito comemorado! WC: É mesmo? O que teve? IM: Quando os pracinhas chegaram, porque vieram muitos, não é? Os que foram na segunda. WC: Sei... IM: Segunda. Porque foi de duas vezes. Eles saíram para a rua gritando, como as professoras fazem agora. WC: É... [Risos]. IM: Dando Viva! Sabe. [Riso]. WC: Ahn... A população da cidade. 5B- IM -32 IM: A população da cidade. É. WC: Ahn... E na chegada dos pracinhas aqui em Belo Horizonte, também, houve manifestação popular... IM: //Dos pracinhas aqui em Belo Horizonte. É... É porque ninguém estava esperando voltar nenhum, não é? Voltaram muitos. [Risos]. WC: Então disso a senhora se lembra. IM: É. Disso eu me lembro. WC: E andando mais para frente um pouquinho. A época do Jânio Quadros, do João Goulart, e do movimento de 64. O que a senhora se lembra nesse período? A campanha do Jânio Quadros. IM: A campanha do Jânio Quadros era uma coisa louca! WC: É? IM: É... WC: Aqui em Belo Horizonte? IM: É. Em toda parte, no Brasil inteiro. Foi uma campanha que ainda não teve para ninguém. Tanto que ele teve a maior votação. Não existe igual a dele, não é? A votação do Jânio. E ele ficar lá só dois meses, não é? [Risos]. Uma loucura. WC: O que tinha nessa campanha que a senhora fala que foi uma movimentação grande? IM: Não. Eles pregavam que ele era um homem muito bom, fazia isso, fazia aquilo. WC: Ahn... Tinha muitos... IM: //Tinha gente que achava// que ele era louco. WC: Tinha muitos partidários na rua, fazendo campanha para ele. IM: //Tinha. Fazendo campanha...// É. WC: Ele fez algum comício aqui? IM: Não. WC: Não? E tinha muito broche da vassourinha circulando na cidade? [Risos]. Que as pessoas usavam o broche. 5B- IM -33 IM: É. Gostava. Porque todo mundo achava que ele ia ser o tal, não é? Ia ser um presidente ótimo. AT: A senhora chegou a votar nele também. IM: Votei nele. É. [Riso] Porque todo mundo estava votando, então ele devia ser bom mesmo. WC: Mas a senhora chegou a ler ou a participar de algum comício dele, para saber o programa dele? IM: //Não. Não.// Não. A gente lia só. O programa dele era bom. Ele é porque era meio maluco, meio doido, não é? [Risos]. Até hoje coitado. WC: A senhora viu, não é... IM: Você viu, não é? Eles já estão até querendo processar o médico dele. WC: É. Isso mesmo. IM: Não é? Disseram que ele errou. Errou nada. Um homem velho daquele, errou para... [Riso]. Dando remédio. WC: Hum... hum... Uma medicação, que eles dizem. IM: É. WC: Vamos... Belo Horizonte ajudou a eleger o Jânio Quadros. E quando ele renuncia? IM: Eu não me lembro se aqui em Belo Horizonte ele ganhou, em Belo Horizonte. WC: Se ele ganhou... Ahn... IM: //É. Isso eu não me lembro.// Se foi ele ou se foi o outro que ganhou em Minas. WC: Mas houve uma grande movimentação e muitas pessoas acreditavam e punham fé nele. IM: //É... É... Acreditavam... // WC: E na época da renúncia? IM: Ah! Isso foi uma desilusão. Dois meses depois, foi uma desilusão para todo mundo. Porque ninguém esperava aquilo. WC: A senhora, como eleitora dele, como é que a senhora ficou? IM: Não... Como funcionária, eu gostei. 5B- IM -34 WC: Por quê? IM: Porque ele tinha dado dois horários. E depois cortou outra vez. Nós voltamos outra vez, de meio dia às seis e meia. Aí foi muito melhor. Aí já foi o... WC: João Goulart. IM: João Goulart. WC: E a senhora se sentiu ameaçada pelos comentários que se faziam acerca do João Goulart? IM: Não. João Goulart não teve assim muita propaganda, nada muito não, contra nem a favor dele não. Ele entrou assim, como se diz, de fininho, não é? Porque não era para ser. WC: E mas teve toda discussão, de pessoas com medo de... de tendências esquerdistas... IM: //Teve... Teve... É... Do PTB, não é?// WC: É... Que ele tivesse... IM: Porque quem mandava muito nele era esse outro, esse político. WC: Brizola. IM: Brizola, mandava muito nele. WC: Falavam isso. IM: É. Falavam muito. Porque o Brizola é cunhado dele. WC: Isso. E a senhora se lembra. Vamos supor, quando o Jânio renunciou, o João Goulart estava fora do país, fazendo uma visita a um país na Ásia. E teve uma... IM: //Eu não me lembro quem ficou no lugar dele.// WC: Teve aquela discussão se ele poderia ou não tomar posse. Como foi isso aqui em Belo Horizonte? A senhora se lembra disso? IM: //Não... // Não me lembro não. WC: De algum comentário. IM: Não me lembro mesmo. WC: E do movimento de 64, da tomada do poder pelos militares. A senhora lembra como que foi a repercussão aqui em Belo Horizonte? 5B- IM -35 IM: Hi! Nossa! Foi horrível. Todo mundo ficou horrorizado. Porque os militares tomando posse, não é? E foi uma coisa estúpida. Ele teve que fugir. WC: Na época a senhora ouviu esse tipo de comentário? IM: //Ouvi... Ouvi.// Ouvia muito. Lá no Instituto mesmo, comentava muito. WC: Vocês como funcionários públicos, não é? IM: //Comentava caladinha.// WC: Vocês se sentiram ameaçadas? IM: Não. WC: Porque o novo patrão já seria um militar, vamos dizer assim. [Risos] IM: Não. Aí nós já sentimos não. Porque já era uma coisa... O Instituto já era independente, então já não... Eles não mexiam mesmo, eles não mexiam com os institutos não. Ainda não tinha tido a união não. WC: //A união.// IM: Foi em 64. WC: Mas tinha que comentar baixinho por quê? IM: Ah! Baixinho porque senão o militar, sabendo da história... Você sabe, a gente podia ser presa. WC: É? IM: Qualquer hora. WC: E tinha esse medo disso então. As pessoas tinham medo de... IM: //Tinha medo. Tinha.// Todo mundo tinha medo de militar. Porque nos próprios Institutos, tinha pessoas ligadas. AT: //Ligadas.// IM: Ligadas a eles. AT: E vocês sabiam quem era? IM: Não. Não sabia. Aí que é a história, não sabia. AT: Hum... Mas vocês tinham certeza que havia... 5B- IM -36 IM: Que tinha. É. AT: De onde vinha essa certeza? IM: Oh! Porque um falava. Não é certeza mesmo, mas um falava: Toma cuidado. Cuidado. Ficava tudo com cuidado, não é? AT: Hum... E a senhora estava insatisfeita a ponto de poder comentar a situação? IM: //Não. Aí é...// A gente não podia muito comentar. Se comentasse, comentava baixinho. Não podia ter greve nessa época. Funcionário público não podia ter greve. AT: Antes já havia tido? IM: //Não...// Não. Não podia. AT: Não? IM: Não. Nunca pôde. Funcionário público agora é que pode. Depois dessa constituição. Antes não, a gente não podia entrar em greve. Se entrasse em greve era demitido, automático. AT: Isso inibia qualquer movimento? IM: É. Qualquer movimento dentro do Instituto. AT: Às vezes a pessoa estava insatisfeita mas ficava calada. IM: //Mas não podia...// Ficava calada. AT: Muitas vezes isso aconteceu lá dentro? IM: [Riso]. Se aconteceu! [Risos]. WC: E as pessoas esperavam que o Regime Militar fosse durar tanto tempo? IM: //Não. Eles achavam que era que...// WC: Ou se achava que o golpe... IM: Eles achavam que aquilo acabava, logo, não é? WC: Ahn... Era só para dar um... IM: Era só para dar um...// Para ver se aquilo melhorava. WC: Sei. IM: Eles tomaram para ver se melhorava. 5B- IM -37 AT: Hum... E vocês achavam naquela época que era preciso parar, mudar os donos da casa, vamos dizer, para pôr ordem na casa? IM: Não. Ninguém esperava. Aquilo foi uma... foi... Foi muito violento, não é? Ninguém esperava. AT: Mas a senhora achava que havia desordem na casa? IM: Não, não... Não achava não. AT: Porque há algumas pessoas que dizem isso. Realmente... IM: Não. Eu não notava não porque lá no Instituto não tinha desordem. Em casa a gente não tinha. AT: E na sociedade de modo geral? IM: Ah! A sociedade, de modo geral, também não comentava. AT: Porque naquele momento... IM: Porque naquele tempo era PTB, PTB, PTB, não é? Que estava mandando mesmo. AT: //Hum...// Nós também, um pouco antes a gente ainda tinha o Partido Comunista. IM: //É.// AT: E nesse período que antecede ao golpe, nós temos uma série de movimentos de trabalhadores e trabalhadores rurais também. Movimentos de estudantes. Buscando uma série de reformas na sociedade. IM: //É.// AT: Como era visto essas campanhas? Como elas eram vistas? IM: Primeiro, todo mundo tinha pavor quando os estudantes saíram para a rua gritando. Todo mundo. Porque via que eles iam ser presos, não é? WC: Isso foi antes ou depois de 64? IM: Tinha antes e teve depois. Foi sessenta e... Antes no tempo do... AT: Do Jango? IM: Do Jango. Teve prisão, não é? E depois de 64, foram muitas prisões. Qualquer pessoa que gritasse na rua era preso assim, na mesma hora. As prisões viviam cheias de rapazinhos, de tudo. 5B- IM -38 AT: A senhora lia isso nos jornais, dona Isaura? IM: Lia no jornal. E escutava não é? As prisões. Mas não falava... muitas vezes não falava nome nem nada. Para não atrapalhar o movimento, não é? [Risos] AT: A senhora se sentia ameaçada? Por membro da sua família, por algum amigo. Que pudesse estar envolvido com qualquer situação assim ? IM: Não. Essa época não. Essa época não conhecia ninguém que mexia com política. 64 não tem mesmo. Meu cunhado não gostava de política, minha irmã não gostava, eu não gostava de modo que não tinha. O outro meu cunhado que tinha até um jornal em Sete Lagoas, é que morreu. Ele morreu em 64. WC: Ah! Faleceu. IM: É. Já tinha falecido, de modo que não tinha ninguém mesmo. Os meus sobrinhos todos eram pequenos. AT: Hum... Então nesse sentido a senhora... IM: Nesse sentido não dava. [Riso]. AT: E a senhora chegou a ver algum movimento de mulher na cidade, apoiando o Regime Militar? IM: Não. AT: Algum movimento ligado à Igreja. IM: Dizem que teve, que na Igreja, eles faziam. Mas não era público assim, não. Porque até os padres eram proibidos de falar qualquer coisa de política. AT: Hum... Mas de falar a favor da política, do que estava acontecendo? IM: Nem a favor, nem contra. Eles pediam orações e tudo, sabe. AT: A senhora não chegou a ver nenhuma marcha das mulheres mineiras não? IM: //Não... Não...// Mas diz que teve. Mas eu não cheguei a ver não. AT: [Riso]. A senhora não foi convidada para essa marcha não. [Risos]. IM: A mineira sempre gosta de exibir, não é? [Riso]. AT: A senhora acha? IM: //É...// Gosta. Gosta sim. Nesse ponto, gostam. 5B- IM -39 WC: Nesse ponto que a senhora diz de tomar partido para determinadas situações... IM: //É... Tomar partido...// Situações, não é? Não vê essas professoras aí na rua, coitadas. Dá até pena. E não são todas não. AT: É... IM: São poucas. São... Deve ser até muito... Até tenho impressão que não são professoras não, para eles pularem a Secretaria, pularem a janela, não é? Uma professora pulou uma janela e entrou na Secretaria. Não é possível que seja uma professora. Deve ser... Eu tenho impressão que são esses moleques de rua, essas moças, não é? Que fazem mais um movimento. WC: Para agitar? IM: //Para agitar.// Para agitar. AT: A senhora acha que só as professoras não dariam conta disso? IM: //Não... Não...// Não é só as professoras não, porque elas têm uma certa educação, tem um certo berço. Para fazer... Para dormir na porta da igreja São José, dormir na porta lá do Senado. Senado, não, da... AT: Da Assembléia. IM: Da Assembléia. Não é possível. AT: A senhora acha que deveria existir outro mecanismo de luta? IM: É. Devia. Devia ser assim. Ia direto no Governador, uma turma. Reunir uma turma. Porque não adianta. Para esse governador já vi que não adianta elas ficarem em casa. Porque elas já perderam dois meses. AT: Mas enquanto elas estavam trabalhando também não adiantou. IM: Não adiantou. Porque... AT: Como é que será uma solução para adiantar? IM: Não sei. Está difícil, não é? WC: Porque a senhora também foi funcionária pública. Hoje a senhora está como aposentada e... IM: Porque a professora ganha mesmo muito pouco. Mas acontece que isso devia ter sido 5B- IM -40 feito com o outro. Porque o outro é que estava com dinheiro. AT: O outro governador? IM: O outro governador, que tinha dinheiro. Esse daí está sem dinheiro nenhum. Ele achou os cofres mesmo arrebentados. AT: A senhora acha que o funcionalismo, a classe trabalhadora de modo geral, ele deve lutar, reivindicar salário, reivindicar melhor condição de trabalho? IM: Deve. Mas não com greve. Porque greve prejudica. Agora está prejudicando as crianças. Prejudica o serviço, não é? E depois eles prejudicam eles mesmo. Porque tem professores aí, que esses dois meses não receberam. É muito!... Quer dizer, elas vão receber em janeiro se elas derem as aulas. São sessenta dias de aulas que elas tem que dar. São cinqüenta, porque tem os domingos. AT: Como é que fica a importância da educação em um momento como esse? IM: A educação parou, não é? AT: Quer dizer, a senhora falou há pouco, quando nós discutimos sobre a cidade, a senhora falou da sua preocupação com a má formação de pessoas que destroem a cidade. Com o problemas das crianças viciadas, dos menores abandonados, não é? E agora a gente cai nesse tema da educação. E vejamos bem, as escolas estão paradas há dois meses. IM: //É.// As crianças estão jogadas, não é? AT: Como é que fica o papel do Estado numa situação dessa? IM: O Estado fica deplorável. AT: A senhora acha... FIM DO LADO B DA FITA 5 " "Cidade Jardim", 33 C Carlos Prates, 5, 6, 7, 9, 30, 37 6 64, 7, 41, 45, 48, 49 Getúlio, 14, 15, 16, 20, 35 Guerra, 35, 38, 39, 40 A aposentadoria, 1, 2 G 5B- IM -41 I IAPETEC, 2, 3, 21 italianos, 35, 36, 37 J Jânio Quadros, 41, 43 Juscelino, 13, 14, 16, 20 M mulher, 12, 13, 14, 20, 49 Mussolini, 36, 37 P PTB, 19, 20, 21, 44, 48 5B- IM -43 6A-IM-1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CENTRO DE ESTUDOS MINEIROS GRUPO DE HISTÓRIA ORAL PROJETO INTEGRADO: “MINAS GERAIS: HISTÓRIA ORAL” POLÍTICA E SOCIEDADE ATRAVÉS DA ENTREVISTADORES: WALQUIRIA COSTA ANNY TORRES ENTREVISTADA: ISAURA MARIA DA MATTA LOCAL: BELO HORIZONTE DATA: 05/08/91 Entrevista 6 - Fita 06 lado A AT: Hoje é 5 de agosto de 1991, nós estamos entrevistando dona Maria Isaura..., Isaura Maria da Matta [riso]. WC: Já é a nossa sexta entrevista. A gente estava conversando agora, antes de ligar o gravador, e a senhora comentou conosco que a senhora é a única das irmãs que gosta de viajar. IM: É. WC: Por quê? IM: [Completamente] É porque eu puxei mamãe. Mamãe gostava muito de viajar, então deve ter sido isso. Eu... [risos] São coisas que vêm de família, não é? WC: O que é viajar para a senhora, dona Isaura? IM: Distrair, ver coisa bonita, ver outro ambiente que não é esse do lar. Porque o lar é todo dia a mesma coisa, não é? Você levanta, deita, come, almoça, janta. O dia inteirinho. E já quando viaja muda, o ambiente muda completamente. WC: Muda a sua rotina. IM: Rotina. Muda, muda. WC: Como rotina a senhora entende não só os hábitos que a senhora tem durante o dia... 6A-IM-2 IM: É. WC: Mas como a //paisagem, as pessoas...// IM: //É, é sim. Completamente// diferente. WC: Então, quando a senhora viaja, a senhora busca justamente essa mudança. IM: É. WC: E a senhora costuma ler relatos de viagem, histórias de pessoas que viajaram, que conheceram... IM: Lia muito. Ultimamente não, que minha vista não está dando mais para ler, sabe? WC: Quando? IM: Agora tem mais de um ano que a catarata está aumentando, de modo que não dá para ler muito, não. WC: É? Mas até pouco tempo //atrás...// IM: //Até... É.// Eu gostava muito de ler. Ler jornal, não é? "Estado de Minas" ou "Jornal do Brasil", que traz muito essas viagens todas, não é? Fulana viajou, beltrano viajou. Gostava muito de ler. WC: A senhora sempre procurou //essas colunas que contam a respeito.// IM: //Procurei. É.// Sempre procurei. WC: Desde que a senhora se entende por gente? IM: Desde que eu me entendo por gente. Desde que eu comecei assim, a ler jornal, não é? Ler... "Quatro Rodas", assinava a "Quatro Rodas", de modo que traz todos... Primeiro trazia o Brasil. Depois começou a trazer a Europa. A "Quatro Rodas" trouxe a Europa toda. De modo que a gente ia conhecendo aquilo, só de ler, não é? E depois vendo já é outro ambiente. WC: A senhora consegue se lembrar mais ou menos a partir de quando foi que a senhora começou a fazer esse tipo de leitura? IM: Ah, foi depois que eu mudei para Belo Horizonte. Porque em Sete Lagoas, eu tinha muita vontade de viajar porque lá tinha o monsenhor Messias, ele fez essa... É Terra Santa, não é?, que ele foi à Terra Santa e trouxe muito retrato, e ali em cima do camelo. E aquilo, a gente era menina, ficava louca! 6A-IM-3 WC: [riso] IM: Sabe? Ia na casa dele para escutar as histórias dele, não é? Lia as vidas de santo, que tinha também nesses lugares, feito a vida de Santa Terezinha, tem lá na França, em Bordeaux, que parece que ela nasceu. A gente lia essas coisas, não é? E esse monsenhor contava muita viagem, ele viajava..., tinha viajado muito. Ele veio aqui de Ipiranga, Lafaiete, e quando ele chegou em Sete Lagoas, então ele sempre contava as viagens todas do Brasil, que ele viajou no Brasil como padre. E nós gostávamos muito, tudo menino, não é? WC: As crianças ficavam em volta dele. IM: Ficavam em volta dele para ele contar história. [riso] WC: Mas das crianças, que hoje a senhora se lembra, a senhora foi uma das poucas ou talvez a única que tenha conseguido levar esses sonhos adiante? IM: Não. Deve ter..., outros devem ter tido. Mas a gente... não convive mais. Outros morreram, tem muitos colegas que morreram. Lá de Sete Lagoas tem muitos. Tem um que foi prefeito, foi deputado muitos anos aqui, morreu. Esse gostava muito de leitura. E tinha facilidade, porque ele lia e decorava, sabe? Ele lia, qualquer coisa que ele lesse, ele repetia tudo em seguida. Era uma facilidade enorme que tinha esse... Ele chamava Nilo Vasconcelos Costa. Muito... um rapaz muito... WC: Mas a senhora também tem uma boa memória, porque a senhora se lembra de cada coisa, de todos os nomes. Eu fico boba com a senhora. [risos] IM: Nada, eu já esqueci muito. [risos] Muita coisa a gente esquece. Esqueço nome, nome de colega e tudo, a gente esquece. Vê a fisionomia, mas não sabe o nome. WC: É. Agora, com relação a essas viagens, a gente já conversou um pouco sobre como a senhora, como e quando a senhora começou as suas primeiras viagens. Primeiro, quando a senhora morava na fazenda, aquelas //viagens no carro...// IM: //É. Aquelas viagenzinhas...// de carro de boi. [risos] WC: Depois, quando... da cidade próxima quando vocês iam para Sete Lagoas já de trem. IM: É. Já era diferente. Já vinha para aqui de trem. WC: Vinha para cá. IM: É. Depois, muitos anos depois é que teve ônibus. Era só o trem que fazia Sete Lagoas, 6A-IM-4 Belo Horizonte, Rio de Janeiro, não é? Não tinha ônibus. WC: Hum. Mas naquela época a senhora só conhecia Belo Horizonte. IM: É. Só conhecia Belo Horizonte. WC: A senhora lembra desses trajetos, não é? IM: É. WC: Da fazenda para aquela cidadezinha lá, próxima. Como é o nome? IM: Inhaúma. É. WC: E de Inhaúma para Sete Lagoas. Sete Lagoas, Belo Horizonte. IM: É. Só. Aquelas redondezas ali só. [riso] WC: Hum. E o que motiva, o que motivou a senhora a começar a viajar? IM: Não, porque antes eu viajava com mamãe. Mas viagens, que eu..., conforme eu falei com você, só nas cidades daqui, cidade, Poços de Caldas. Rio de Janeiro nós fomos umas três vezes. Mas depois que morava aqui. Depois que ela morreu, a gente fica muito desambientada. Então comecei a entrar em excursões, sabe? Aí, eu comecei excursão. Fiz umas excursões no Brasil todo. Antes não, antes eu fui sozinha. Manaus, eu fui sozinha. Belém do Pará, eu fui sozinha. WC: Sem excursão. IM: Sem excursão. Depois voltei com excursão. Nos mesmos lugares voltei com excursão, porque eles iam de navio e eu tinha ido de avião. E de navio de Belém do Pará, de navio para Manaus é muito bonito, sabe? É uma viagem lindíssima. O navio vai subindo, sabe? Muito bonito. Navio cargueiro que nós fomos. Não foi navio bom mesmo, não. Eles fazem o trajeto de levar mercadoria nas cidades todas, vai parando. Apita, o... [riso] o navio pára. Pára uma hora, mais ou menos, em cada cidadezinha, sabe? Desce a mercadoria, aí torna, retorna a subir, torna a... E aí nós gastamos sete dias para ir e quatro dias para voltar. Porque para voltar é mais rápido. Isso quando eu fui e foi... Mas dessa vez, nós fomos até o Nordeste todo. De lá, eles passaram pelo Nordeste. Eu fui ao Nordeste duas vezes só. Não deu para... [risos] //As capitais.// WC: Com a sua mãe, a senhora conheceu que lugares? A senhora se lembra? 6A-IM-5 IM: Pois é. Mas só, são só essas cidades... WC: Rio de Janeiro... IM: Rio de Janeiro, Poços de Caldas, Curitiba, que nós fomos até Curitiba, teve um congresso em Curitiba, nós fomos, eu fui com ela. Mas fomos de avião, porque os ônibus iam, gastavam muitos dias. Agora não, a gente vai em 16 horas. Mas naquela época gastava dois dias e duas noites, sabe? Porque a estrada..., não tinha estrada [...]. Uma excursão foi. Nós fomos pela igreja de São Francisco, do Carlos Prates. Umas foram de avião. Nós fomos de avião e outras foram de ônibus. Nós chegamos primeiro lá, não é? Nós fomos a São Lourenço, Cambuquira, Caxambu. WC: Essas estâncias hidrominerais. IM: É. É. Nós fizemos com ela. WC: E as cidades históricas também. IM: //É, cidade histórica, é.// WC: //A senhora foi com ela, não é?// IM: Foi. Ouro Preto, Sabará. AT: Isso. A senhora falou. Nas cidades históricas, eu lembro que a senhora comentou conosco que o que motivou essas viagens tinha sido o próprio estudo que a senhora havia feito no tempo de escola mesmo. IM: Foi, é. Tinha aquele..., tem aqueles livros que ensinam, tem cada um, cada Estado, não é? Vocês não conhecem esse livro? Até tenho esses aí. Eles têm Estado de Minas, têm Estado de Goiás, têm Estado... Tem os Estados todos, sabe? E aí dá todas as cidades, sabe? AT: Hum. E a senhora lia todos os livros. IM: Lia todos os livros. //Esses aí eu lia.// WC: //São livros de escola?// IM: É uma coleção de escola. WC: Eram dados em aula mesmo? IM: É. Aí eles faziam... É. 6A-IM-6 WC: Como aula de geografia, de história, desses lugares, seria mais ou menos isso. IM: É. Isso mesmo. Então, eles davam cada... Cada mês dava um, um Estado. Só para conhecer mais ou menos, não era para conhecer todo não, porque não dava. Grupo não dá conta, não. Isso foi no grupo ainda. E o grupo escolar antigamente era muito bom, sabe? Agora é que está mais deficiente, não é? [riso] AT: [riso] É. Bem mais. Nessa época, uma curiosidade minha, quando a senhora lia esses livros, a senhora chegava, por exemplo, a marcar um X, assim, grifar alguma cidadezinha que a senhora visse: puxa, esse lugar eu queria conhecer. Alguma coisa assim. Isso, por acaso, aconteceu com a senhora? IM: Não. Eu gostava muito, mas não marcava cidade, não. WC: Mas a //senhora ficava com ela na cabeça?// IM: //Ficava.// [risos] Juiz de Fora, por exemplo, eu tinha uma vontade! Porque a gente, quando ia para o Rio, o trem passava. E me dava aquela vontade de ir a Juiz de Fora, que só vendo, achava aquilo uma beleza. WC: É? IM: E de fato, Juiz de Fora é muito bonito, sabe? Bonito mesmo. Você não conhece, não? WC: Eu, não. AT: Eu já passei por lá. IM: É uma cidade muito bonita, muito grande. E tinha muita fábrica. Depois fecharam as fábricas, não é? Fábrica de tecido. Uma fábrica enorme, naquela época. AT: Dessas cidades que a senhora teve curiosidade de conhecer quando a senhora era criança, a senhora procurou conhecê-las, depois de adulta? IM: Procurei. É. E fui, não é? AT: São essas cidades históricas... IM: São essas cidades históricas e essas cidades de... AT: Estância. IM: De estância, Araxá, eu não gostei muito não. WC: Por quê? 6A-IM-7 IM: Não sei. Tem as termas, são muito bonitas, mas eu acho interessante, a cidade não é muito interessante, não. Não é muito bonita. Quer dizer, para o meu gosto, não é? //Porque muita gente gosta.// AT: //O que a senhora acha que faltava nela?// IM: Ah, acho que lá tem umas subidas também, sabe? Como Belo Horizonte. Belo Horizonte é muito bonito, mas tem muita subida, não é? Muito difícil a gente andar aqui. AT: Então a senhora não gosta de Ouro Preto também. IM: Não, Ouro Preto, eu acho bonito também. Mas é muito acidentada. AT: Muita ladeira para subir. [risos] Das cidades históricas que a senhora conheceu, qual que a senhora mais gostou? IM: Foi mesmo Ouro Preto, não é? AT: Foi? IM: Mais, é. AT: O que a senhora viu de especial em Ouro preto? IM: As igrejas. As igrejas são lindas, muito bonitas mesmo. Tem uma cidade, eu não sei se foi na França que nós vimos ou onde, que parece muito com Ouro Preto. Mas não sei..., isso eu não lembro, aonde que foi, não. Foi uma excursão, uma excursão que eu fiz em 86, nós passamos numa cidade muito parecida com Ouro Preto. AT: E das estâncias hidrominerais, quais que a senhora gostou mais? IM: Poços de Caldas. Gosto demais de Poços de Caldas. AT: É? O que a senhora gosta lá? IM: É. Oh, tem as termas, que são muito bonitas, não é? Tem o povo, também é muito atraente, sabe? E lá tem mais passeios. Você tem mais..., tem mais coisa bonita para ver. Você pode ir em outras cidades, assim, toma um ônibus, vai numa cidade perto. De modo que..., a que eu gostei mais foi lá. AT: A senhora ia nas estâncias hidrominerais para fazer uso das termas ou para conhecer realmente a cidade? IM: Não, só para conhecer. Só em Poços de Caldas que eu fui numa terma. Nas outras, eu não fui. Fui lá só para olhar. E beber água. 6A-IM-8 WC: Dona Isaura, a senhora está falando que o povo é mais atraente em Poços de Caldas. O que é uma população de cidade mais atraente? IM: É uma cidade que você chega, eles..., eles cumprimentam, conversam, perguntam de onde a pessoa é. Lá tem isso, sabe? Você chega no hotel, eles perguntam, gostam de conversar mesmo. Já ao passo que..., já Araxá, o povo é mais assim, é como... o belorizontino não gosta muito de //conversa, não.// WC: Contido. IM: Não, não. Não gosta, não. WC: [risos] É mineiro mesmo, não é? IM: É, porque o carioca é muito atraente. WC: A senhora acha? IM: É. Carioca é. O carioca conversa, pergunta... Onde é que é essa rua aí, eles mostram, contam, falam, escrevem no papel, sabe? É diferente. Já o paulista, não. Porque paulista não tem paulista. Lá é tudo estrangeiro, não é? São quase todos estrangeiros. WC: Imigrantes... IM: Ou então do Nordeste, não é? AT: A senhora acha que em São Paulo tem pouco paulista. IM: Tenho a impressão que não tem paulista nenhum. WC: [risos] IM: Você não vê. É assim, o povo correndo, você pergunta uma coisa, eles saem correndo, não te dão resposta, sabe? Assim. AT: A senhora acha que isso se atribui ao ritmo de vida //que eles levam?//. IM: //É o ritmo de vida// que eles levam. AT: Então a senhora gosta de conhecer cidades que são mais pacatas. IM: É, que a gente possa ver as coisas, não é? AT: Hum. Quando a senhora vai num lugar, a senhora também, além de procurar conhecer o lugar, as coisas bonitas que ele possui, a senhora também procura estabelecer contatos com a população da cidade. 6A-IM-9 IM: Ah, procuro. Mas com as pessoas mais humildes, porque esses é que gostam de conversar, não é? WC: É? IM: É. Gostam, gostam de contar como é que é, onde é que vai, como é que foi. Mostram os passeios, sabe? Também, esses lugares grandes, as pessoas mais chiques andam só de automóvel, não andam de ônibus, não andam de outra condução. [riso] AT: Hum. Fica mais fácil entrar em contato... IM: É. Com o mais humilde. AT: E quando a senhora entra em contato com eles, o que a senhora procura saber deles? IM: Procuro saber sempre as coisas bonitas do lugar, porque eu fui para ali para ver essas coisas. As compras que tem, o comércio, não é? AT: O que tem. IM: O que vende muito, não é? AT: Onde tem. IM: É. AT:Hum. No caso de Minas, por exemplo, Minas e outros lugares também, a senhora procura saber coisas relativas à cultura dessas pessoas, as tradições? IM: Ah, procuro saber se tem, por exemplo, se lá tem alguns colégios, se os colégios são bons. Muitas vezes, eles não sabem nem responder, não é? WC: É? IM: Porque conforme, não sabe. [riso]. Conforme a pessoa que você pergunta, só estudante mesmo é que... WC: É? IM: É. AT: E quando a senhora está nesses passeios, a senhora costuma freqüentar o teatro da cidade, os cinemas da cidade, ou visitar alguma exposição que estiver ocorrendo... IM: Não, exposição, eu sempre vou. Nessas. Mas cinema, não. Também, teatro, a gente vai só para conhecer o teatro. Não é para assistir peça, não. É só para conhecer. 6A-IM-10 AT: E isso quando é uma excursão programada? IM: É. É, excursão programada. AT: Mas quando a senhora está por sua própria conta... IM: Mesmo sozinha. Ou dia livre, também não vou. AT: Não vai. Por que a senhora não vai? IM: Eu não vou à cinema porque eu acho que a gente perde tempo. Indo ao cinema, você perde quatro horas ali dentro e não vê muita coisa. Deixa de ver. Deixa de andar. AT: No caso do teatro, a mesma coisa. IM: É, a mesma coisa. O teatro lá de Manaus é muito bonito. Lindo. AT: Bom, como que a senhora escolhe uma viagem para a senhora fazer? Que critérios a senhora usa para escolher, viajar para lugar X, Y. IM: Eu tenho que ver os programas, os prospectos. Eu vou nessas companhias aí, vejo aquela porção de prospectos, olho um, olho outro, e de acordo com o dinheiro e de acordo com o roteiro, eu vou naquela, sabe? AT: Hum. Em Minas, a senhora se guiava pelo que a senhora já tinha lido sobre a história e pela curiosidade de conhecer as estâncias. IM: É, é. AT: Fora de Minas, a senhora também usou desses recursos? IM: Fora de Minas não, porque eu fui em excursão, não é? Eu fui em excursão. É..., a não ser... Brasília, eu fui sozinha. Goiânia, Anápolis, Belém do Pará e Manaus, não é? Essas daí eu fui sozinha, depois voltei outra vez em excursão. Duas vezes em excursão. WC: //Agora, a senhora...// IM: //E o Nordeste// fui em excursão. WC: A senhora foi sozinha porque não conseguiu nenhuma excursão ou porque deu vontade de conhecer e vou assim mesmo. IM: Não, porque... Eu... Foi. Aí, eu fui sozinha por isso. Eu tinha muita vontade de conhecer, porque eles estavam fazendo a estrada Belém do Pará. E a estrada era horrível, Nossa Senhora! E o ônibus atolou no meio do caminho, ônibus cheio, sabe? Ia levando... A Mendes Júnior que estava construindo uma parte lá, sabe? Uma porção de funcionários 6A-IM-11 deles no ônibus, quando o ônibus atolou. Uma dificuldade. Nós tivemos que passar a pé. WC: Essa estrada é a Belém-Brasília, que a senhora está falando? IM: A Belém-Brasília. É. WC: E a senhora, deu vontade de ir justamente porque a estrada //estava em construção.// IM: //Justamente para...// Para ver como é que era a construção da estrada. WC: Ah, é mesmo. [riso] IM: //Na segunda vez//, na segunda vez já tinha estrada, já tinha inaugurado. E essa primeira vez, só tinha até Imperatriz. De Imperatriz para lá era toda... estava abrindo, sabe? WC: Estrada de chão. IM: É. Estrada de terra e chovendo, não é? Estava chovendo. WC: E foi quanto tempo mais ou menos de viagem nessa estrada? IM: Nessa, quando eu fui essa primeira vez, nós gastamos seis dias na estrada. AT:E a senhora sozinha. IM: É. De vez em quando, quer dizer, eles têm os lugares de parar, o ônibus já tem o lugar de dormida, não é? Tem aquele lugar que dorme aquela porção de gente, todo mundo junto, todos do ônibus, não é? Entram as mulheres todas para um quarto, os homens para outro. Eram paradas horríveis. Agora, não. Agora..., a última vez que eu fui, não. Já estava muito melhor, já tinha hotéis, sabe? Completamente diferente. AT: Quando a senhora fez a primeira viagem sozinha, a senhora imaginou que a viagem podia ser tão difícil? IM: Não, achei que não era tão, //tanto assim, não é?// AT: //Achou que ia ser difícil.// IM: É. Achei que ia ser difícil, mas não tanto. Tanto que eu voltei de avião. Voltei Manaus, Manaus-Brasília, Brasília-Belo Horizonte. AT: Mas o fato dela ser difícil não desestimulava a senhora de jeito nenhum. [risos] IM: Não, não, não. [riso] É porque eu fui até Belém para de lá ir de navio, mas o navio..., esse navio que faz lá... 6A-IM-12 AT: Cargueiro... IM: É, aqueles navios cargueiros, ele já estava lotado. Tinha uma vaga, mas era uma vaga com um padre, sabe? Quer dizer, tinha que ir um homem com ele, não é? Então não fui. Então, de lá eu fui de avião, para Manaus eu fui de avião. WC: Agora, essa estrada, ela tem alguma parte na floresta? IM: Não, eles derrubaram, derrubaram as árvores e passaram no meio certinho. WC: Pois é. IM: De um lado, floresta. De outro lado, floresta. WC: E o fato de ter, da estrada passar pela floresta, ajudou a decisão da senhora de ir viajar de ir, e tomar essa estrada? IM: Não, porque eu não sabia que era na floresta. WC: Ah, não? [risos] IM: Não, não. [riso] Porque era Juscelino que estava fazendo, começou, não é? Depois, outros foram fazendo. WC: Isso. IM: Continuaram. Até que terminou. Foi até..., quando chegou em Tocantins, eles até começaram outra estrada e pararam. Tocantins, o rio é muito bonito, era muito bonito. Agora me falaram que ele está quase seco. É onde também a gente dormia, em Tocantins. Atravessava a ponte, do lado de lá tinha umas casas, eram casas, não eram hotéis, não. WC: Um alojamento mesmo. IM: É, alojamento mesmo. É. Para os ônibus. Mesmo quando eu fui em excursão, foi a mesma coisa. Nós ficamos em Tocantins foi em alojamento. WC: E o que foi, qual foi a vontade..., por que essa vontade de repetir essa viagem? IM: Para ir de navio. WC: //Ah, de navio, de Belém para Manaus.// IM: //Aí, já saiu de navio para aqui.// É, é. AT: Mas daqui lá, a senhora tornou a percorrer a estrada. IM: As mesmas coisas. É, mas a estrada já boa, não é? 6A-IM-13 AT: Mas eu fico pensando o seguinte: se a senhora desconhecia o fato de que a estrada cortava a mata, o desejo da senhora era realmente ver a abertura da estrada, //construção da estrada?// IM: //É, ver tudo.// Construção da estrada, as cidades. AT: A senhora já tinha ouvido falar delas e ficou empolgada. IM: Já. Já, no tempo do Juscelino, ele falava muito, não é? AT: O que a senhora ouviu falar que tanto motivou a senhora nessa decisão de fazer essa viagem sozinha. IM: Que era muito bonita, era uma beleza a estrada. [risos] WC: [risos] As paisagens. IM: As paisagens eram muito bonitas. De fato eram bonitas mesmo. WC: A senhora //só não esperava os buracos.// [risos] IM: É. Porque agora não, eles devastaram tudo. Já é estrada mesmo, como daqui para o Rio. AT: Quando a senhora foi //era realmente mata dos lados.// IM: //É. É.// AT: E a senhora achou que isso foi tornou a viagem mais bonita? IM: [...] [Risos] Foi diferente. AT: Não apareceu nenhum animal no meio da estrada? IM: Não, não. Eles falavam que tinha onça, mas nós não vimos não. AT: Ahn. Agora, a senhora também falou o seguinte: primeiro, a senhora viajou com sua mãe. E depois, a senhora começou a viajar sozinha. IM: Sozinha. Depois foi com excursão. É. Aí, primeiro, eu fui conhecer as capitais todas do Brasil. WC: É. Sozinha. IM: Não. Agora já foi em excursão, que eu comecei a conhecer. A não ser Rondônia. Rondônia, eu fui com uma senhora, sabe? Fui até Porto Velho. Uma senhora que tinha um filho na mata, era uma mata enorme, então ele morava lá para tirar madeira. Então, essa senhora de Porto Alegre, nossa amiga, eu fui com ela. Ela ficou lá e eu fui... e eu fui 6A-IM-14 para... para Porto Velho. Porto Velho eu fiquei quatro dias, depois voltei direto, sabe? Já não passei mais, e ela ficou lá. Nessa mata virgem. Era uma mata muito bonita. Mas nunca vi tanto rato. Nossa! [riso] WC: Rato? IM: Menina! De noite era uma rataria que vinha... Precisava de pôr pedra atrás das portas da casa. Porque eles moravam em..., fazia aquelas casas de... AT: Madeira. IM: De madeira, toda, sabe? E precisava de vir o rapaz, o filho dela, com a esposa, pôr as pedras segurando as portas. Mas, menina! Uma rataria, nunca vi na vida! Eram milhões. Se você chegava, assim, na janela, você via o terreiro. WC: Nossa! IM: E vinha... eles vinham buscar comida nas casas. Aquelas casas de madeira. AT: Nessa época, a senhora procurou conhecer todas as capitais do país? IM: Todas as capitais. Menos o Rio Branco, o Rio Branco, eu não conheço. Do Acre, não é? Essa, eu não conheço, não. Mas eu conheço todas as capitais. Eu fui em todas. WC: Ao longo desses anos, a senhora procurou fazer isso. IM: É. Antes de ir na Europa. AT: Antes de fazer viagens para o exterior, a senhora //procurou...// IM: //É. Para o exterior, procurei// conhecer o Brasil. Quer dizer, o Brasil, não, as capitais. Porque as cidades todas, a gente não podia ir. WC: Aí é difícil, não é? [risos] IM: É difícil, não é? Só umas cidades. AT: Então, a senhora, quando vai numa capital, a senhora também costuma visitar algumas cidades próximas a ela. IM: É. AT: E tem as cidades que também são ao longo do trajeto, não é? IM: Aí, a gente fica conhecendo, porque pára às vezes, pára na cidade. WC: E já era uma coisa determinada, isso, para a senhora? Conhecer primeiro o Brasil para 6A-IM-15 depois conhecer //algum lugar do exterior?// IM: //Ah, isso era.// É, também era. É, aliás... WC: //Por que isso?// IM: //... antes de conhecer// todas as capitais, a... Argentina, nós duas, fui com uma amiga, morava até na Lagoinha, nós fomos. Fomos até Curitiba, Curitiba-Florianópolis, a... AT: Porto Alegre. IM: Porto Alegre. De Porto Alegre, nós fomos a Montevidéo, de Montevidéo, Argentina. Buenos Aires. Fui com ela. Nós fomos duas vezes. Fui com ela duas vezes. Isso antes..., antes de fazer..., conhecer todo o Brasil. Porque aí já é... Mas depois que eu conheci todo o Brasil que nós fomos, fui com minha sobrinha, minhas sobrinhas. Voltei outra vez na Argentina. Da Argentina nós fomos de ônibus ao Chile, Santiago do Chile. Santiago do Chile, a gente vai naquelas cidades ali por perto. E voltamos de avião. Voltamos outra vez para Buenos Aires. Buenos Aires-Porto Alegre. Voltamos de avião, que nós tínhamos ido de avião. Mas de ônibus é muito mais bonito. AT: Claro. Dá para ver mais coisas, não é? IM: Aí eu voltei com a minha sobrinha e com essas minhas amigas, essa amiga que é professora, e a mãe dela, que é vizinha também. Nós voltamos de ônibus. Santiago do Chile. Mas na época de frio, isso é que foi feio. WC: [risos] IM: Muito bonito. Aí, de ônibus foi muito bonito. É a Cordilheira. Cheia de neve, sabe? Cordilheira [...] AT: Cheia de curva... IM: É. Cheia..., toda cheia de curva. Mas muito bonita mesmo. E tem uns bondinhos que fazem, é o... WC: Um teleférico. IM: É. Tem, sabe? Em cima, assim. WC: Para esqui, será? IM: É para esqui. É de esqui. Muito bonito. É lindíssima a viagem. Vale a pena ir na época de frio. Nos Andes, nesses Andes, porque é lindíssimo. 6A-IM-16 WC: Mas essa decisão de primeiro conhecer o Brasil, tinha um motivo especial para isso? IM: Não, era... Ou por falta de dinheiro. Porque o dinheiro era mais curto, então... [risos] não dava, não é? AT: Ainda sobre essas viagens aqui no Brasil, eu queria saber duas coisas, aliás, mais de duas. Primeiro, por que a senhora não chegou ainda a conhecer a última capital que falta, capital do Acre? IM: Porque quando eu cheguei em Porto Velho, a estrada tinha sido interrompida. A estrada era toda de terra, choveu, e alaga. Toda... As duas vezes que nós fomos, todas duas vezes, ela estava alagada. AT: Quer dizer que a senhora já tentou chegar lá duas vezes //e não conseguiu.// [riso] IM: //Já... É.// E de avião, nós não fomos para ir de avião. Não levamos dinheiro para ir de avião, íamos mesmo de... essa última que nós estivemos lá, era para ir até Manaus de ônibus, quando chegou em Porto Velho também, a estrada não deu. É aquela vez que deu aquela enchente, os rios, jogava muitas árvores na estrada. Então não deu para ir. Nem lá nem em Manaus de ônibus. Manaus, eu não fui de ônibus. Nós saímos daqui para ir de ônibus na excursão. AT: Agora, essas excursões das quais a senhora participou, todas elas eram excursões programadas por companhias de turismo? IM: Não. Por pessoas que faziam, sabe? Era um senhor lá de Santa Tereza que fazia essas excursões. AT: Ah, eram pessoas mesmo não ligadas... IM: É. Não. Não é ligada a turismo, não. Eles alugavam um ônibus e levava..., sempre levava muita empregada, muita gente, assim, mais humilde, sabe? De modo que eram excursões baratas até. AT: Uma coisa mais familiar. IM: Mais familiar. Mais familiar. É. Ele..., ele e a esposa é que organizavam. Agora, eles deixaram de organizar, porque disse que estava dando muito trabalho. Dá mesmo. WC: A senhora fez muitas viagens com ele? IM: Fiz. Fiz umas cinco viagens. E nós fomos ao Nordeste duas vezes, fui... fui por cá, no Norte uma vez, com ele. Depois fui à Brasília outra vez com ele. Ele era muito distinto. 6A-IM-17 Uma gente assim... Ele era marceneiro. Então ele fazia isso mesmo para as pessoas mais humildes poderem ter..., pelo menos conhecer o Brasil. AT: O objetivo dele era esse. IM: //O objetivo dele era esse.// WC: //Facilitar para as pessoas//, mais humildes. IM: É. AT: E a senhora já conhecia essa família? IM: Não, eu conheci, eu fiquei conhecendo por intermédio dessas que eu viajo com elas, essas pretas. AT: Santa Teresa. IM: É. Santa Teresa. Que eram minhas colegas de Instituto. AT: Então foi por //indicação delas?// IM: //Foi. Por indicação// delas é que eu fui. E fui com elas, não é? AT: A senhora chegou... IM: De modo que tinha uma companhia, não é? AT: E a senhora chegou a participar de alguma excursão promovida, assim, por igreja, ou que tivesse algum objetivo de visitar lugares santos? Como hoje acontece muito, dessas romarias, esse tipo de coisas. IM: É. Só Aparecida do Norte, que eu fui. AT: Só. Aí a senhora foi numa excursão... IM: Mas já conhecia. Aparecida do Norte, eu já tinha ido lá duas vezes com mamãe. E aí foi com excursão. AT: E Aparecida do Norte, a senhora foi para visitar igreja? IM: Foi, para visitar igreja, porque eles estavam... A primeira vez que eu fui não tinha essa igreja enorme. AT: Sei. IM: Enorme, uma basílica. E depois, a segunda vez, estava construindo. E agora que eu fui lá, ano atrasado, ela está completamente pronta. Mas eles ainda estão construindo dos lados. 6A-IM-18 AT: O fato de ser um lugar, assim, nos finais de semana muito movimentado, muito cheio de gente, às vezes acontece uma série de acidentes -, isso não assusta a senhora, não? IM: Não. [risos] É muita gente mesmo. Lá é uma... É acompanhar mesmo a religião, não é? O povo gosta mesmo. Então, agora em outubro, dia 12 de outubro é dia da padroeira. Aí enche mesmo. Essas excursões vão sempre antes. FINAL DO LADO A DA FITA 6 - PARTE I 6B-IM-19 Entrevista - fita 6 - lado B Parte I AT: Então, excursões, realmente com objetivo de visitar lugares santos, ou programadas por igreja, essa foi a única excursão. IM: Foi a única, foi. AT: Apesar de ser muito ligada à igreja, o pessoal da igreja que a senhora freqüentava não promovia esse tipo de... IM: Não. Aqui, depois que eu mudei para aqui, que aqui tem muita. AT: Na Igreja da Boa Viagem? IM: Igreja da Boa Viagem tem muita mesmo. Se eu fosse vocês até ia lá e fazia com eles. WC: Ahn. [riso] IM: Até que não são caras, não. Eles vão, por exemplo, agora, dia 15 e 16, 17... Não, 13, 14 e 15, eles vão a Poços de Caldas. Vão, não sei que dia vão a Aparecida do Norte. Eles têm a programação na porta da igreja, escrito. Mas nunca fui com eles, não. WC: A senhora procura ficar atenta a todas essas pessoas, entidades que promovem esse tipo de excursão para a senhora poder se inserir numa delas? IM: Eu procuro saber, não é? Aí na Boa Viagem, por exemplo, teve uma ano atrasado muito boa. Eu até fui lá. Fui lá, busquei os prospectos. Muito boa mesmo, mas era muito cara, caríssimo, ia ficar muito cara, então não fui com eles. Eu fui depois com a [Meliá]. Não, essa daí foi em 87. WC: Então, uma coisa que //regula as suas viagens é a questão financeira.// IM: //É, porque... É.// Não tendo dinheiro, como a gente faz, não é? [risos] WC: Bom, qual é a duração dessas viagens pelo Brasil, qual é a duração em média delas? IM: Ah, são sempre... são sempre, conforme... O Nordeste, nós fizemos em 22 dias. Em cada 6B-IM-20 lugar fica dois dias em cada Estado. Maceió, nós ficamos dois dias; Aracajú, dois dias; dois dias... Fora a estrada, porque só viaja de dia, não é? Porque de noite o chofer pode dormir. Então perde muito na viagem, sabe? WC: Sei. IM: Perde, às vezes, dez dias de viagem, não é? WC: Hum. Por causa da noite, não é? IM: É. WC: A senhora não ligaria de ficar viajando de noite, não? IM: //Eu não importo de viajar de noite, não.// WC: //A senhora dorme// tranqüila. IM: Durmo tranqüila. Quer dizer, quando eu vou a São Paulo, vou é de noite. Rio de Janeiro também, eu saio daqui de noite. WC: A senhora procura ganhar esse tempo. IM: Ganhar o tempo, ganhar o dia, não é? A excursão, não. Nem a excursão da Europa nem a excursão do Brasil, eles não fazem à noite, não. É porque as estradas não são muito boas, não. Não sei. Na Europa, as estradas são muito boas, mas lá não faz, não. Chegou seis horas, eles já estão na cidade, na cidade que você vai dormir. WC: Hum. Todo mundo merece um descanso. [riso] IM: É. Por causa do chofer. Vão dois, mas mesmo assim são muitas horas, não é? AT: Prende muita atenção, //direção muito cansativa.// IM: //Prende muita atenção. É. Isso.// WC: Fazer um revezamento. IM: É. E no Brasil, as estradas não são boas. WC: É. O problema aqui é mais esse [risos]. IM: O problema é esse. Então, para viajar de noite... Apesar de que tem muita viagem, eles fazem de noite. Uma senhora, agora, que vai à [Ipitinga]... Você conhece [Ipitinga], já ouviu falar? WC: Já. 6B-IM-21 IM: Dos bordados? WC: Já. IM: Ela vai agora, dia 14. Ela fica lá dia 15. Até que vale a pena ir com ela, sabe? Eles vão para fazer compra. Mas são lindos os bordados. E vai a Barra Bonita também. Eu já fui com ela e já fui sozinha. Barra Bonita. Uma beleza Barra Bonita. É uma cidadezinha pequenininha, bonitinha, que tem o rio Tietê. Lá que tem o tal navio que a gente passa, ele levanta, sabe? Eles fecham a represa e o navio sobe. WC: Ah, na hidrovia, não é? IM: É, é. WC: Para poder regular... WC: O nível da água. IM: //O nível da água.// Eles fecham aquilo e o navio fica no alto. Depois, ele vai... //abre as comportas...// AT: //Aqui no Brasil,// a senhora viaja tanto de ônibus como de avião? Pelo Brasil. IM: Pelo Brasil, raramente eu viajo de avião. AT: Para economizar. IM: É, porque, só quando vou para a Europa que eu viajo de avião, que eu vou para o Rio de Janeiro. Vou e volto de avião. Porque a gente já pára no Galeão, sai daqui para o Galeão. O mais é só de ônibus. //Não viajo de avião, não.// AT: //Mesmo... Por quê?// IM: //Excursão, não.// É muito caro. AT: Muito caro. Mesmo ganhando uns dias... //fica difícil.// IM: //É. é.// AT: E qual foi a sensação da senhora quando viajou pela primeira vez de avião? A senhora gostou? IM: Eu não me lembro, ouviu? Não me lembro se eu tive alguma sensação. Parece que foi quando nós fomos, eu mais mamãe fomos à Curitiba. WC: Deve ser. 6B-IM-22 IM: Que foi a primeira vez. Mas eu não senti, mamãe não sentiu nada, então eu não senti nada. Não senti, assim, eram aqueles aviões menores, não eram esses aviões grandões, não. Esses que saem da Pampulha agora. Sai acho que com 80 pessoas só. É que faziam o trajeto. Agora são aviões maiores. Mas mesmo assim, daqui para o Rio não são aviões muito bons, são aqueles aviões que fazem outro tipo de... AT: Agora, estou pensando aqui numa coisa. Na Europa, é muito freqüente essas viagens de trem, não é? WC: É. AT: E aqui, no Brasil, não. O que a senhora acha disso, no Brasil? IM: Eu acho atraso, não é? AT: A senhora acha? IM: É. Porque lá... Eu não viajei de trem, não, só de Madri para Portugal, para Lisboa, que nós fomos de trem. Lá, eles falam comboio. E, no mais, não. O mais..., o mais a gente faz todo é de ônibus. As excursões da Europa são todas de ônibus. Vai de ônibus, depois chega no lugar, vem o cicerone daquele lugar, já está tratado o cicerone, vem para mostrar o lugar todo, toda de ônibus. Mas o meu sobrinho, que faz, o marido daquela que está aí, ele, quando viaja, viaja sozinho. Então ele viaja muito de trem. Eles viajam muito de trem, sabe? Diz que é uma beleza, que vale a pena. Fica muito mais barato, não é? Mas isso, a pessoa tem que saber inglês. Ou inglês ou uma língua... O francês não é muito falado, não. AT: Mais o inglês. IM: É. É o inglês que é falado no mundo inteiro. Todos os países que eu fui era o inglês. Que predomina. AT: E com esse tempo todo de viagem, a senhora nunca se interessou em aprender uma língua estrangeira? IM: Não, uma vez, eu comecei francês. Depois, eu achei aquilo tão antipático... Que o francês é muito enjoado. [Risos] Então, eu deixei. AT: [risos] Não pensou em aprender outra língua //que a senhora achasse melhor?// IM: //Não, porque// achei difícil o inglês. AT: A senhora também tentou estudar inglês? 6B-IM-23 IM: Eu tentei. Tentei uma vez estudar e achei difícil, porque é diferente, não é? Você tem que ter uma... [riso] É completamente diferente da nossa. AT: Para expressar é difícil. IM: É, para expressar é difícil. Precisa que seja a pessoa muito nova, começar de novo, para poder. AT: Hum. E o fato, pegando agora essas viagens para fora, o fato da senhora ir para um lugar onde eles falam uma língua diferente, isso não desestimula a senhora? IM: Não. Não, porque tem sempre uma pessoa na excursão que sabe falar inglês. Ou então o cicerone, ele sabe falar inglês, espanhol... Português é que raramente um sabe. Nessas excursões da Europa. Mas eles falam em espanhol, para a gente compreender. E compreende muito bem. E fala, se tem algum inglês, alguma coisa, eles falam, uma hora fala de um jeito outra hora fala de outro para a pessoa entender. AT: Então, quando a senhora vai fazer viagens para o exterior, a senhora prefere pegar as excursões, por causa do cicerone? IM: É, os cicerones são muito bons. WC: //E essas excursões...// IM: //Todas as excursões.// WC: Essas excursões, a senhora já sai daqui? IM: Daqui. WC: Com o grupo montado? IM: Não. Só... Só uma vez que foi com grupo montado. WC: Aqui no Brasil. IM: É, que nós fomos a Israel, Jerusalém. Aí é que foi. Foram dez pessoas, a excursão já saía daqui. Nós fizemos pela Nacional. Mas o mais, não. Eu vou conhecer as pessoas... em 86, eu fui conhecer no Rio, aonde se tomou o avião é que eu fiquei conhecendo a moça, a senhora que ia dormir comigo no quarto. WC: Mas essa viagem para Israel? IM: É. Para Israel, não. Essa outra foi para Moscou. Para Israel, nós saímos daqui. WC: De Belo Horizonte mesmo? 6B-IM-24 IM: De Belo Horizonte. Foi. Essa saiu daqui. WC: //Dez pessoas.// IM: //Dez pessoas só.// Foi uma viagem até toda de avião. Essa foi toda de avião. WC: A senhora procurou conhecer as pessoas que iam junto, a senhora já conhecia essas pessoas? IM: Não, a gente... era um senhor ali da avenida Afonso Pena, ele pegou, reuniu o grupo, e apresentou o grupo. Então, nós já saímos daqui. WC: Eram pessoas que já haviam comprado a sua vaga, vamos dizer assim. [riso] IM: É, cada um comprou a sua. E saímos daqui. E chegamos lá, já tinha o cicerone esperando. Que nós fomos direto para a Suíça, lá tinha o cicerone esperando. Mas esse cicerone falava espanhol. Teve lugar que falava inglês. De modo que tinha uma moça que falava muito bem inglês, uma que era da... não sei se era da Usiminas, acho que era da Usiminas. Falava muito, ela é professora de inglês. Então, essa traduzia para nós, para os que não sabiam falar... WC: Ahn. [riso] IM: Tinha um médico que sabia também falar. Foi um médico com a senhora dele, um bancário, do Banco do Brasil, com a sua esposa. Três moças... Não, foram duas moças, foi eu e uma outra, e essa senhora que falava inglês foi sem o marido. WC: Com relação a essas viagens de excursão, só uma já saiu direto do Brasil. IM: Só. O mais, não. WC: A senhora, //aqui, no caso dessa...// AT: //Não, uma segunda// saiu direto do Brasil também, mas do Rio de Janeiro. IM: Saiu, mas do Rio de Janeiro. //E viajando do Brasil, de Minas Gerais, só eu.// AT: //Foram duas que saíram daqui.// IM: Fui encontrar com a minha companheira no Rio. AT: Certo. IM: Essa excursão, ela saiu do Rio. Mas quando ela chegou em Amsterdã, tinha mais dois argentinos, já esperando também para entrar na excursão, no grupo. Mas só brasileiros, foram trinta brasileiros. 6B-IM-25 WC: Hum. Mas essa excursão, da qual a senhora e a sua companheira saíram do Rio, essa excursão já havia sido programada na Europa, não por uma agência brasileira. IM: Não, agência brasileira programa, e lá telefona ou... Eles têm telex, avisa as chegadas, como que deve ser feito e tudo. A gente já vai com o programa. WC: Então, eles fazem um intercâmbio com uma agência na Europa e lá já reúnem um grupo maior que compra aquele pacote de turismo. IM: É, é. WC: Então é como se a agência daqui fosse uma intermediária... IM: Eles são intermediários. Essa Meliá é intermediária. A Meliá é de Madri. Já a segunda vez, eu já fui eu e Vanda só. E fomos para... AT: Compraram já lá... IM: Já lá. Lá nós fomos encontrar lá. Nós compramos aqui no Brasil, mas eles foram nos encontrar no aeroporto. Foi o cicerone nos encontrar, levou para o hotel. E lá foram só argentinos. Só argentinos. Argentinos e chilenos. WC: E a senhora prefere essas excursões que a senhora compra lá, que a senhora vai conhecer as pessoas lá na Europa, de uma vez, ou as que saem... IM: Mas as que saem daqui..., a excursão que sai daqui é da Abreu, não é? Essa excursão da Abreu sai daqui. Só brasileiro. E às vezes leva pessoas de Portugal, Lisboa, eles passam primeiro em Lisboa, levam pessoas. Mas a Abreu, ela é muito mais careira. WC: Ah, sei. IM: Ela faz o mesmo trajeto, mas fica muito mais caro, porque ela já vai com comida. WC: A senhora faz um orçamento primeiro para ver... IM: Primeiro, para ver qual é a que dá... o dinheiro, não é? É o dinheiro e para a gente levar também dinheiro, não é? Senão... WC: E a senhora descobre essas agências através do jornal ou indicação de amigos? IM: De jornal. Todo jornal dá. O "Estado de Minas", por exemplo, de quinta-feira, dá. Tem uma parte de turismo, e aquele jornalzinho também, que sai domingo, todo domingo tem um jornalzinho... WC: "Jornal de Casa". 6B-IM-26 IM: É. Esse também dá, para as viagens, não é? WC: Isso. IM: Da Albino, da Primus. Essa Primus, de vez em quando me escreve convidando... [risos] Essa é até muito boa. Com a Primus, eu já viajei. WC: Já? IM: Já. Porque eu fui com a Meliá, mas por intermédio da Primus, sabe? WC: Ah, sei. IM: Fui até com uma doutora daqui, que nós fomos. WC: Então, o meio pelo qual a senhora vai entrar em contato com as agências no exterior é sempre através de uma //empresa brasileira.// IM: //Empresa brasileira.// A empresa não é de Belo Horizonte, ela é do Rio. Então, daqui pergunta, telex para o Rio. E fazem intercâmbio, fazem intercâmbio com eles lá. A gente já vai... WC: Existe toda uma hierarquia dentro dessas agências de turismo. IM: É. Engraçado, não é? Essa última, por exemplo, que eu fui com essa minha colega, essa preta lá de Santa Teresa, foram só as meninas de Tucumã, da Argentina. Só mocinhas. Só nós duas brasileiras. Não tinha mais ninguém. WC: E o que a senhora achou dessa situação? IM: Ótima. Ótima porque eram umas moças muito educadas. Elas procuravam nos compreender, procurava querer falar, sabe? No final, elas já falavam alguma coisa de brasileiro. WC: [risos] IM: No outro dia, ela escreveu para a Lourdes, Lourdes escreveu para ela. Ela respondeu um pedaço em espanhol, um pedaço em português. [risos] Achei tão interessante a cartinha que ela escreveu. Uma delas. Muito delicada, muito... Aliás, eram todas muito delicadas. WC: A senhora acaba fazendo amizade com todo mundo. IM: Uai, tem que fazer, porque... [risos] dentro, ali dentro do ônibus, o dia inteirinho, a gente viaja o dia inteirinho. Porque eles falam que é pertinho uma cidade da outra, a gente viaja um dia inteirinho às vezes. De uma capital para a outra. Para poder chegar naquela... ou 6B-IM-27 na capital ou na cidade. Eles saem sempre às oito horas e chegam sempre às seis horas. O dia inteiro. WC: De oito da manhã às seis da tarde. IM: Na estrada, dez horas na estrada. WC: E a senhora gosta dessa oportunidade de conhecer pessoas tão diferentes? IM: Eu gosto. Eu acho interessante, sabe? [risos] WC: A senhora é de ficar observando as pessoas? IM: Ah, tem umas muito interessantes. As chilenas então são interessantíssimas, sabe? Quando a gente viaja com as chilenas. AT: Por quê? IM: Porque elas falam, falam, falam, você..., a gente, é o que a gente não entende. WC: Não entende? [risos] IM: Raramente você entende. Elas falam espanhol, mas você não entende. Já a argentina, você entende bem. Elas falando devagar, entende muito bem. Não dá para a gente sentir pavor. WC: [risos] Nessas viagens que a senhora faz para o exterior é comum, então, a senhora encontrar muito latino-americano indo junto? IM: Muito. WC: E costuma também envolver pessoas da própria Europa, os próprios europeus em excursões? IM: Raramente. WC: Raramente. IM: Raramente entra algum do lugar. Interessante, não é? AT: //É coisa mais para gente que está vindo de outros continentes.// IM //É. De outros continentes.// É. Agora, de Lisboa, quando a gente entra na excursão de Lisboa, que eu não entrei, a minha irmã que entrou, lá vão as portuguesas. Só portugueses, sabe? WC: Essas excursões, elas não têm limitação de idade. 6B-IM-28 IM: Não, não tem nada. WC: Sexo, nada. IM: Nada. Vai homem, vai mulher, vai tudo. Rapazinho, mocinha, menino. Essa última excursão, por exemplo, foi um mocinho, um que... ele deve ter feito, os retratos que ele tirava eram lindos. Ele mandava ampliar mesmo na cidade. E ele foi fazendo filmes, de todos os lugares, de todos os lugares bonitos, aquelas igrejas maravilhosas. Tudo isso ele fez o filme. O filme dele deve ser lindíssimo, porque ele tem muito jeito. Tanto ele... O pai dava muito apoio. Foi ele, o pai e a mãe. Os três [...]. De velho tinha eu, esse casal que não era velho, mas era mais ou menos cinquentão. E uma senhora já bem velha, que até, bengala. Ela usa bengala. WC: [risos] IM: Mas é tão vaidosa, tão engraçadinha. Belezinha. Ela usa bengala, parece que ela tem um defeito no pé, então ela usa uma bengala. Mas anda depressa, só você vendo. Muito engraçadinha ela. WC: Qual que a senhora acha que é o público mais freqüente nessas viagens? Assim, é mais mulher do que homem... IM: Mais mulher. WC: Mais mulheres. IM: Raramente vai um homem, sabe? WC: E mais mulher mais jovem ou mulher mais velha? IM: É sempre mais jovem. WC: Mais jovem, tipo //solteira...// IM: //É. Vai muito// solteira, assim, quarentona, não é? Essa última, que eu fiz agora, 17, foram 17 pessoas. Essa que eu fui ao Japão. Um casal, mais ou menos de uns 60 anos, um casal mais novo, de São Paulo, uma cidadezinha lá de São Paulo. Foram dois casais. Esses aí eram casais mais novos. Dois casais. Eram quatro... eram oito de São Paulo, mas quatro eram mais velhos. Eu acho que mora na capital mesmo. E esses outros, numa cidade do interior, perto..., me parece que é perto de Campinas. Eram dois mais jovens. E eu, essa senhora do Rio que ficou comigo, uma outra senhora também, que acho que tem uns 65 anos, é que completava. Fazia os 17, as 17 pessoas. Dezoito com o cicerone, 6B-IM-29 porque o cicerone saiu do Brasil. WC: Sei. IM: É o dono da excursão, saiu do Brasil com a gente. Essa daí foi mesmo saindo do Brasil. Eu até fui por causa dessa moça do Rio, que eu tinha prometido para ela que iria quando ela fosse, então... WC: Essa moça, a senhora conheceu também em viagem? IM: Em viagem. Foi quando eu fui a Moscou, e ela estava precisando de uma companheira, e eu aqui precisando de uma, não é? AT: Para ir para onde? IM: Para Moscou. AT: Ah, para Moscou. IM: É. Quando nós fomos a Moscou, que começa por Amsterdã. WC: E como foi o contato entre as duas? IM: O seguinte: eu cheguei, elas estavam todas reunidas, já no Galeão, já para entrar. Porque nós todas entramos. Entrei sozinha, porque estava sozinha. E elas estavam todas esperando a chamada, porque eles chamam. WC: //No painel, não é?// IM: //No painel, a// chamada para Lisboa, para Madri, para aquelas cidades. E então, essa... Então chegou uma moça perto de mim, uma delas, não sei nem o nome mais, e disse: olha, a Vanda está louca para te conhecer, você não é a mineira que vem, ela está louca para te conhecer [risos]. WC: [riso] Ahn. IM: E aí então que eu fui apresentada a ela. Não sei se ela gostou ou não gostou. Ela sabia que era velha, porque a dona Vânia, da Meliá, já tinha avisado que era uma mais velha, se ela queria. E ela também não era muito nova, não, ela estava com 60, não era muito nova. [risos] WC: Claro. IM: Agora está com 65. Outra vez... Já fui três vezes com ela. Nós já viajamos três vezes. WC: Vocês acabaram fazendo amizade. 6B-IM-30 IM: Fazendo amizade mesmo. De vez em quando ela me telefona. WC: Das outras vezes que vocês viajaram juntas, vocês combinaram isso antes. IM: Foi. Quando ela fosse fazer alguma viagem, que ela me telefonava para ver se eu podia ir ou ela podia ir, não é? WC: E a companhia de uma pessoa, você acaba animando? IM: Acaba animando. E ela é muito animada, gosta de contar muito caso, muita anedota. Então, nessa última vez, foi cada anedota... [riso] Porque o português também, que era o dono da excursão, gostava demais de anedota. Não sei se esses dois... Porque esses dois casais de São Paulo, eles são mais... WC: Retraídos. IM: Retraídos, não. Eles são mais assim, chiques, sabe? WC: [risos] IM: Então, talvez não tenham gostado. Não sei se gostou ou não gostou. Porque os outros dois casais eram muito alegres, muito assim, expansivos. Esses outros não, eram muito alegres, muito assim, amáveis, mas eram mais... Eram os quatro, eram duas irmãs e parece que os homens eram muito amigos. Até porque... interessante que um... elas saíram e um dos maridos falou: ah, você é de Belo Horizonte, eu conheço muito Belo Horizonte, eu ia muito lá no tempo da Pan Air, aquela... o avião, não é? Nesse tempo, eu era noivo da filha de um dos diretores e não saía de Belo Horizonte. Eu falei: nossa Senhora, se a mulher dele escuta... [risos]. Era... eu gostava demais dela, sabe? E eu com medo da dona, não é? Falei: gente, depois esse homem fica me contando esses casos. [risos] Interessante, que ele deve gostar dessa moça, porque depois a Vanda, essa que eu viajo com ela, ele contou a mesma coisa para ela. Falei: ele ficou com isso, não é? Com aquele noivado, gostou, casou com outra, vive muito bem, mas parece que gosta dela, sabe? Dessa moça. Falou que era por causa dos gênios, os gênios eram completamente... Ela era muito mandona, então que ele acabou o noivado por isso. WC: É, não é? [riso] Deixa estar que a esposa também está inibindo o marido de contar alguns casos, não é? [risos] IM: [riso] É. Ela não sabe que ele contou. [risos] WC: É bom que a senhora faz amizade //com homens, com mulheres...// 6B-IM-31 IM: //É. Homem, com mulher, é.// WC: Da idade deles não é? IM: Muito delicados. Esse aí deve ter uns 60. O outro também, o outro era mais caladinho, o marido da outra, da outra irmã. São duas irmãs. Eram mais assim, retraídos. Não sei se é porque... dizem que a moça, acho que sofre do coração, a esposa dele, essa moça. Então, ela era mais calada. Essa outra, a esposa desse que gostava da noiva [riso] era mais assim, gostava de conversar, sabe? Mas contar caso, não. Caso, ela não... Contar caso era só a Vanda e o... [riso] o cicerone, seu Alberto. Mas cada caso! WC: Vocês ficavam rindo o tempo todo. IM: O tempo todo, a viagem toda. É bom porque diverte. WC: É. IM: Passam as horas. WC: Para não ficar muito pesado. IM: É. Cansativo, é. Quando chega no lugar é para dormir. Não, ele não. Com ele é diferente, quando ele chega num lugar, ele fala: olha, nós vamos sair à noite. Chegava seis horas, sete e meia eu espero na portaria. Esperava na portaria para andar a pé, andar pela cidade toda para conhecer aquela parte das cidades, a cidade toda, sabe? Toda, não, porque não dava. Mas... WC: Hum, hum. E a senhora ia? IM: Ia. Eu e a Vanda, é. Tinha que ir. Todo mundo, ele animava todo mundo, sabe? Não faltava um. Todos iam. Andar de metrô. Lá em... coisa, nós andamos muito de metrô, no Japão. Porque os metrôs de lá são lindíssimos. Porque são as galerias, aquelas galerias com comércio, um comércio maravilhoso. É na estação, na estação do metrô. WC: Do metrô. IM: Tem as galerias muito bonitas. Então todo mundo faz compra, vai de noite, é muita gente. E aí, a gente andava de metrô, ia para outra galeria, não é? [riso] WC: Hum. Mas esse é o cicerone que saía aqui do Brasil. IM: É. Saía do Brasil. É, esse daí é o dono da excursão. WC: Hum. //Foram poucas...// 6B-IM-32 IM: //Ele é dono.// WC:...viagens com ele, não é? IM: Só a primeira, foi a única viagem que eu fiz com ele. Foi essa última. WC: Que pena, não é? IM: É, uma pena. [riso] Descobrir assim. Mas ele é careiro, sabe? Ele não pode fazer... WC: Sempre não, não é? IM:...sempre, não. Não. A viagem dele é cara. WC: E os outros cicerones, são sempre pessoas, assim, agradáveis, brincalhões? IM: //São muito agradáveis.// São. Essa última foi uma mulher. E ela falava muito bem português. Ela falava espanhol por causa... A turma toda era de espanhola, não é? Era da Argentina, então falava espanhol. Mas quando a gente conversava com ela, ela respondia em português, sabe? Falava muito bem, a dona Maria Teresa. WC: E a senhora nunca teve nenhum problema assim, dentro da turma de viagem, não? IM: Não, //nunca tive.// WC: //Nunca houve.// IM: É. Nunca... nunca teve problema nessas viagens que eu fiz, não. Exterior, nunca teve não. WC: No Brasil também não? IM: Não, no Brasil de vez em quando tinha umas discussões lá, entre um e outro. WC: [risos] IM: Um queria uma coisa, outro queria outra. WC: É? IM: É. Porque as excursões do Brasil, que eu fiz, a não ser com a São José, a São José faz muito bem feito. WC: A de São José... IM: Essa empresa que tem de turismo, São José. Eu já fui a Brasília com eles, fui a Poços... a Porto Velho, fui também uma vez com eles. De modo que... Foz do Iguaçu, já fui duas vezes. É mais... é programada, não é? Eles têm aqui. Agora, já com esse [Benedito] não era programada, ele ia. Ia, quando chegava no lugar, ele arranjava uma pessoa para 6B-IM-33 explicar. Então... WC: Que ia decidir para onde ia. IM: É, para onde ia. E já ia sem hotel, até achar hotel, não é? As últimas vezes é que ele já ia com hotel, mas as primeiras, não. E tem //que encontrar hotel...// WC: //[...].// IM: É. Para 38 pessoas, 40, não é? Difícil. AT: É. Na última hora. IM: Às vezes ficava em dois hotéis. Em Fortaleza, nós ficamos em dois hotéis. De acordo, assim. Ele perguntava: esse hotel é X, paga tanto, esse paga tanto. Então, a pessoa escolhia, ou esse melhor, outro pior. Era escolha. WC: A escolha de um hotel também, ela influencia a sua decisão de conhecer determinado lugar? A coisa do alojamento, essa questão... IM: Não. Para mim, hotel não tem..., não importa, não, sabe? Pode ficar... WC: O que a senhora procura num hotel? IM: Procuro no hotel uma cama limpa para dormir. Só. Ao passo que esse último que nós fizemos, essa última viagem, era riquíssimo, uma coisa... Por isso é que é cara. É deslumbrante. É uma cidade o hotel. Tinha de tudo dentro do hotel. Tem mercearia, tem comércio de fazenda, tem comércio de louça, tem de tudo dentro do hotel. Aquele hotel maravilhoso. De modo que fica caro, não é? Ao passo que essas outras, não, vai em hotel mais humilde, quer dizer, não é mais humilde, é um hotel que aqui no Brasil talvez seja de primeira, de cinco estrelas. Mas para eles lá, é de duas estrelas. Na Europa. WC: Comparando com os hotéis daqui, dona Isaura, que tipo de hotel a senhora costuma ficar quando a senhora está fora do Brasil? Seria um hotel que a senhora chamaria aqui de cinco estrelas? Seria isso? IM: É. Lá, para nós, aqui é de cinco estrelas, esses que a gente vai. Uns, não. Uns são piores. Mas outros, não. Esses que essas empresas de lá fazem, lá são de duas estrelas. A gente vai para hotel de duas estrelas para ficar mais barato. Mas são hotéis muito bons, bons mesmo. São hotéis... WC: Agora, tem hotéis que são mais chiques, não é? IM: São. É. 6B-IM-34 WC: Como esse do Japão. IM: Do Japão. Esse daí é muito chique. E da Abreu também, fica em hotéis chiques. Hotéis de cinco, às vezes quatro estrelas, cinco estrelas, na Europa. Por isso que a viagem dele é mais cara. WC: Sei. IM: Eu acho que é bobagem, pois a gente quase chega no hotel só para dormir! AT: É. Tomar um banho. IM: Tomar um banho correndo. Tem hora que você toma banho correndo para você poder... Marca hora de sair. WC: E as suas refeições? A sua faz no próprio hotel ou vocês procuram conhecer os restaurantes. IM: Não, nós procuramos conhecer restaurantes. Nós vamos a restaurantes, mais de acordo. WC: Como assim? IM: De acordo com o dólar. Se você tem muito dólar, você vai num mais caro, se tem pouco... [risos] É de acordo com o dólar. WC: Ahn. De acordo com o seu dólar. [risos] IM: É. Com o meu..., com o nosso dólar, não é? WC: E aí, no caso, a senhora chega e a senhora procura conhecer a comida típica da região? IM: Não, não gosto, porque a comida típica, eu tenho medo de fazer mal. WC: Então, a senhora sempre procura comer coisas //que a senhora gosta.// IM: //Que eu já conheço. É.// Sempre nesses lugares, você encontra é macarrão, é peixe que eu não gosto de peixe. E carnes, tem sempre carne. Carne é sempre mais caro. Em todos os hotéis, em todos os restaurantes. WC: No Brasil, o seu procedimento também é o mesmo? IM: A mesma coisa, é. Procura... No Brasil, quando nós viajamos sozinhas, que nós fomos a Bolívia, já três vezes, fui a Bolívia com ela três ou quatro, já nem sei mais, nós procuramos hotéis mais humildes. Para elas não gastarem muito, não é? Não vai assim, senão gasta muito... Então, a gente procura. Mas são hotéis bons, muito limpos, as camas muito boas, sabe? Não são hotéis de primeiríssima, não. 6B-IM-35 WC: //Nesse caso...// IM: Hotéis já de terceira categoria. WC: É? IM: É. Não são hotéis bons, não. WC: Nesse caso, que vocês foram sozinhas, como que vocês escolheram hotel? Vocês já programaram daqui, chegaram lá e [...]? IM: Não, nós chegamos e perguntamos na rodoviária. Nós fomos de ônibus. WC: Vocês foram por //indicação dessa pessoa.// IM: //Por indicação// dessas pessoas. Esse hotel Avenida, por exemplo, nós fomos com indicação de uma outra moça que tinha ido. Ela estava lá. WC: Na Bolívia? IM: É. Na Bolívia. É. Ela falou que estava nesse Hotel Avenida. Até que é um hotel bom, tinha uma escadaria... FIM DO LADO B DA FITA 6 - PARTE I B Belo Horizonte, 1, 2, 4, 7, 12, 24, 26, 31 J Juscelino, 12, 13 P Pan Air, 31 V viagens, 2, 3, 4, 5, 14, 15, 16, 17, 19, 22, 23, 24, 26, 27, 28, 32, 33 6B-IM-36 7A-IM-1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS CENTRO DE ESTUDOS MINEIROS GRUPO DE HISTÓRIA ORAL PROJETO INTEGRADO: “MINAS GERAIS: HISTÓRIA ORAL” POLÍTICA E SOCIEDADE ATRAVÉS DA ENTREVISTADORES: WALQUIRIA COSTA ANNY TORRES ENTREVISTADA: ISAURA MARIA DA MATTA LOCAL: BELO HORIZONTE DATA: 05/08/91 Entrevista 06 - fita 7 - lado A PARTE II WC: Bom, a gente estava falando do hotel da Bolívia. A senhora falou que foi por indicação. A senhora falou também que o hotel era de terceira categoria. IM: É. WC: O que é um hotel de terceira categoria? IM: O que não tem nada, no quarto tem as camas, só. Não tem o lavatório, não tem... WC: Não tem banheiro no quarto. IM: Banheiro dentro do quarto, não. Não, o de lá não tinha banheiro dentro do quarto. Esse daí não. A segunda, que nós fomos, o segundo hotel, quando nós voltamos fomos para outro hotel. Porque aí, nós fomos para Cuzco, de Cuzco, nós tivemos que voltar para Bolívia, para La Paz, para voltar para o Brasil. E nós fomos para Cochabamba. E aí nós já fomos para outro hotel. Esse hotel era pertinho da rodoviária. Foi, nós vimos por indicação, e fomos para ele. Muito bom. Bonzinho mesmo. Esse tinha de tudo. Tinha... Era apartamento mesmo, não é? WC: E no caso desse primeiro hotel que a senhora falou, a senhora não se incomodou de ter um quarto que o banheiro fosse coletivo? 7A-IM-2 IM: Não, nós não importamos, não. WC: Porque a senhora viu que era limpinho. IM: Limpinho, muito limpo. WC: E isso que a senhora prioriza. IM: É. É. WC: E como a senhora chega a... A senhora já chegou a viajar sozinha, numa situação dessa, de ter procurar um hotel sozinha num lugar? Já aconteceu isso? IM: Não, foi só no Brasil. WC: Só no Brasil. IM: No Brasil, é. Mas nesses outros lugares, não. Porque eu nunca viajei nesses outros lugares sozinha, não é? WC: Sei. Por isso que //a senhora sempre procura uma excursão.// IM: //É. É.// WC: No caso do Brasil, a senhora chegou a procurar hotel sozinha? IM: No Brasil, cheguei. Em Belém, em Brasília, Belém do Pará. Belém do Pará fui até para um hotel bom, muito bom. WC: Sempre por //indicação das pessoas.// IM: //Indicação das pessoas.// É, a gente pergunta ao carregador. Ao carregador, ou então toma um táxi e o táxi leva no hotel. Você fala mais ou menos o quanto que pode pagar, ele leva. Não tendo naquele, você tem de ir para outro. Em Belém do Pará, foi em dois. WC: Eram quartos com duas camas? A senhora tinha que dividir o quarto com outra pessoa? IM: Não. WC: Ou a senhora sempre procurou ficar sozinha? IM: Sempre procurei ficar sozinha. Quando eu viajo sozinha, é sozinha. E lá em Manaus, eu fui para um hotel, hotelzinho simples, mas na rua principal. Esse daí também era um hotel enorme, tinha um lá na rua Sete, eu fui para esse, também com indicação. Eles me indicaram, sabe? O chofer, porque a gente desce longe, então tem que tomar um táxi. Então, ele que indicou. 7A-IM-3 WC: A senhora procura se informar, aqui no Brasil, antes de viajar, a senhora procura se informar sobre esses lugares para onde a senhora vai? Não só pela cidade, pelo país, como também pelo hotel? Alguém que foi para lá... A senhora procura se informar? IM: Não, porque eu nunca conheço ninguém que foi. [riso] WC: A senhora foi então uma pioneira. [risos] IM: Nunca, porque todo mundo já vai com excursão, não é? E a gente nunca conhece essas pessoas de excursão, que vão em excursão. WC: É. Aí a senhora confia. IM: É. WC: Agora, a senhora falou conosco das refeições, que a senhora não muda os seus hábitos alimentares. IM: Não. Eu tenho muito medo de adoecer. Porque na Europa, a gente adoece muito. WC: Por quê? IM: Dá muita... muita dor de barriga. [riso] WC: É? IM: Ih. WC: Por causa da alimentação? IM: Alimentação. Você muda... Agora, no Japão também, essa que foi comigo ficou, ah, não sei quantas vezes o médico teve que medicar. [risos] Ficou ruim. WC: E viajar e ficar ruim... IM: É. Coitada. Depois, no final, ela ainda gripou. Mas tinha esse médico, ele levou muito remédio, sabe? De modo que ela foi bem medicada. Já chegou no Brasil boa. WC: Agora, se a senhora chega num restaurante, eles dão o cardápio para a senhora, o cardápio está numa língua que a senhora não entende. Pode até estar escrito lá arroz, feijão, bife, batata frita... IM: A gente não entende mesmo, não, mas... WC: A senhora não entende. IM: Vê o prato do outro e mostra. 7A-IM-4 WC: Ah, então a senhora sempre fica atenta... IM: Atenta a um prato ali, para ver se aquele é que é o melhor mesmo. WC: A senhora espera alguém pedir para poder fazer o seu pedido. [risos] IM: É. Porque senão nós estamos perdendo, eu e ela, não sabemos falar, eu e a Vanda. Não sabemos. WC: Se não tiver o cicerone por perto... IM: Cicerone por perto. No Japão, ele foi. Todos que nós fomos, ele estava, sabe? Ele acompanha as pessoas aos restaurantes. De modo que... a gente fala o que quer, porque tem na vitrine, de fora. Você vê os pratos todos. Muito bem feito. De uma coisa que eles fazem, não é comida mesmo, não, não sei do que é feito aquilo. WC: Artificial? IM: Artificial. Mas tão perfeito que você acha que é. É uma coisa muito perfeita. Então, a gente mostra para eles o que quer, então ele fala na língua deles lá, que ele sabe, o que a gente quer. Então já vem só aquele prato. WC: Já vem o prato pronto... IM: Vem o prato pronto. WC: A senhora nunca teve problemas com relação, por exemplo, a refeição na rua, assim? IM: Não, não porque eu mostro. Lá na Inglaterra, por exemplo, que eu saí, quando eu fui a primeira vez, que eu saí, cada uma saiu para um lado. Porque dia livre, cada uma sai para um lado. Se a gente está sozinha, sai sozinha. Quando eu vou com essa moça do Rio, essa senhora do Rio, ando com ela. Dia livre. Eu saí, mostrei, eu queria tomar chá, mostrei, não é? Puseram na mesa... WC: E se fosse um chá que a senhora não gosta? IM: Ah, mas aí eu bebia sem gostar. [risos] Era o chá e o bolo, tinha um bolo. Falei: é aquele ali. E aí, você dá o dinheiro. O dinheiro é deles, eles recebem. WC: A senhora entende como dar o dinheiro, pagar todas as suas contas, suas despesas fora? IM: Aí, a gente entende. Não, porque tem que trocar o dólar pelo dinheiro deles. WC: Pela moeda local. IM: Moeda deles. Aí você inverte para você saber o preço que é aquilo. Quanto que deu, o 7A-IM-5 dólar que deu. WC: A senhora já sabe. IM: Já sabe mais ou menos quanto que é no Brasil. Aquilo custaria no Brasil, não é? WC: A senhora nunca saiu lesada, não. IM: Não. [risos]. Saí lesada porque o dólar é muito caro. Você viu hoje? Quatrocentos já. WC: É. A senhora todo dia acompanha a evolução do dólar. [risos] IM: É. WC: Agora, a senhora falou com a gente, agora há pouco, sobre dia de folga. Essas viagens de excursão que a senhora fez, elas têm uma duração X, mas nesse intervalo há dias livres para vocês? IM: Livre, livre, livre. Tem tardes livres... WC: //Em toda excursão.// IM: //...todas as excursões.// Por exemplo, Roma. Roma teve um dia inteirinho. O primeiro dia foi no Vaticano, foi na... correu toda a cidade, não é? Não é a cidade, não, os pontos principais. Depois foi para o Vaticano. Ficou no Vaticano até duas horas. Duas horas, aí ficou livre. Essa moça comigo, eu fui para o hotel com a cicerone, que ela ia para o hotel e ela foi com a outra cicerone andar com as moças, as moças da Argentina. Ela saiu, passearam, chegaram lá acho que eram nove horas da noite. WC: Esse é o dia de folga. IM: É o dia de folga. E no outro dia, folga também. A gente então sai, sai sozinha, sabe? Ela explica. WC: O cicerone pode ou não ir junto. IM: Não, o cicerone não vai. Nunca vai. Ele explica, onde é que você quer ir, onde é que tem comida, mostra onde tem a comida mais barata. E explica, explica as ruas, explica o ônibus que você vai tomar para voltar para o hotel. WC: Quando a senhora está numa situação dessa, é sempre fornecido um mapinha para vocês? IM: É, fornece. O hotel mesmo, o coisa do hotel já tem. O cartão do hotel já tem o... WC: O mapa da região. 7A-IM-6 IM: O mapa, é. WC: Central. E aí a senhora se orienta por ele. IM: Por ele. Porque se sair dali pode perder, não é? WC: Ficar perdida. IM: Se perder, então tem que tomar um táxi. Tomar um táxi para voltar. WC: A senhora nunca se perdeu? IM: Não. Na Inglaterra, por exemplo, tomei um táxi, porque senão, para voltar para o hotel de ônibus, eu não sabia. WC: Mas a senhora... IM: Peguei o táxi sozinha. Fui de táxi, fui sozinha para o hotel. WC: Então, a senhora ousa ir além do que o mapa expõe. IM: É. [risos] É, porque cada uma sai para um lado. Você estando sozinha, você sai para o comércio, porque elas querem comprar uma coisa, você não quer, não vai ficar atrapalhando os outros. WC: Nesses dias de folga, a senhora costuma andar é mais sozinha mesmo? IM: Não. Quando eu vou com acompanhante de quarto, é com acompanhante de quarto. Mas quando eu vou sozinha, tem que andar sozinha. WC: //Porque senão pode atrapalhar... IM: //É. WC: ...aqueles programas que a senhora quer fazer. IM: Não. Não, ninguém, a gente não pode também atrapalhar, não é? Por exemplo, um casal, como é que você vai andar com um casal? Não vai. Também foi só acho que essa vez, na primeira vez que eu fui à Europa que eu não tive companheira. No mais, tem companheira de quarto. WC: Agora, nos seu dia de folga, o que a senhora procura conhecer na cidade onde a senhora está? O que mais chama a sua atenção, mais interessa para a senhora? IM: São as lojas maravilhosas. Lojas lindas mesmo. Isso, para mim, não tem nada tão bom quanto isso. Ou, então, tem os museus também, que a gente vai, sabe? Mas aí eu fui com 7A-IM-7 ela. Isso, sozinha, eu não me atrevo a ir nos lugares assim, não. [riso] WC: Por que não? IM: Sozinha não dá. Eu não sei falar, como que eu vou entrar no museu, não é? WC: Não dá para entrar só para apreciar as obras? IM: Não dá. Não dá, porque eles te dão logo o papel e se você perder ali dentro... WC: São muito grandes. IM: É. WC: O seu maior receio é de se perder lá dentro? IM: É, perder lá dentro. Como é que você vai voltar? Porque você perdendo na rua, você tem o hotel, que tem tudo do hotel. Então toma um táxi. Está com dinheiro, toma táxi. Mas dentro de uma galeria é muito difícil você sair, voltar. WC: Então há passeios que a senhora só faz quando a senhora está em //grupo e outros que a senhora faz quando está sozinha.// IM: //Em grupo, é.// WC: O que a senhora faz quando a senhora está em grupo? Que tipo de passeios vocês fazem? IM: Ah, aí elas vão naqueles jardins bonitos, naquelas, por exemplo, em Roma tem a fonte, não é? Tem a fonte muito bonita, uma beleza. Então, nós fomos nisso. WC: São os pontos turísticos. IM: Os pontos turísticos do lugar. Você já passou com eles, porque eles passam, aí é aquilo, ali é isso, mostrando, não é? WC: De ônibus. IM: É, de ônibus. E depois, volta, a gente volta para ver, como turista. WC: Quer dizer, durante o dia, o ônibus circula uma região, aí depois vocês descem para ver aquilo de perto. IM: É. WC: Hum. IM: Aí eles dão tantos minutos, por exemplo, aqui tem meia hora. Mas quando..., tem que 7A-IM-8 voltar naquele lugar que ele marcou, porque senão o ônibus vai embora e você fica. WC: Sei. E em grupo, vocês visitam todos os locais turísticos? IM: É. WC: Mais tradicionais, como museus... IM: Tudo isso é em grupo. WC: Tudo em grupo. IM: É o grupo, é. Eles é que levam. WC: E sozinha, além... IM: Igrejas também, eles é que levam. WC: Igrejas, museus... IM: É. WC: Algum monumento, não é? IM: Tudo é com eles. WC: E o que a senhora faz, quando a senhora está sozinha, além de visitar as lojas? IM: Nada. [risos] Porque os passeios são longe, de modo que eu, estando sozinha, não posso mesmo. WC: A senhora fica mais na região central. IM: É, é. Na região central. WC: Andando pelas ruas. IM: É, andando pela rua. Olhando. WC: A senhora tem prazer em andar pelas ruas, //olhar as lojas, as pessoas.// IM: //É.// É ótimo. [risos] WC: Por quê? IM: Porque... porque é outro... completamente... ambiente completamente diferente do nosso. Principalmente do mineiro, que é mais pacato. Eles lá são mais ágeis, não sei. É uma diferença mesmo. Em Portugal, não. Lisboa, não. Lisboa, qualquer cidade que a gente vá, que nós fomos, é a nossa língua, a gente fala, uns lugares maravilhosos. Mas nós também 7A-IM-9 fomos de carro. O cicerone foi o rapaz mesmo, o chofer, ele foi mostrando, as maravilhas que tem. Tem Cascais, que é muito bonito, tem a praia, não é? Muito bonita, uma praia linda, o cassino. Muito bonito, o cassino lá do Estoril. Mas esses outros lugares, se a gente vai em cassino, ele leva e fala: às tantas horas aqui na porta. O cicerone. Então a gente tem que andar por ali tudo, rodar tudo, aquele passeio bonito, e voltar ali. Se perdeu... Por isso que você não pode ir sozinha. Lá, não contei para vocês que lá em... Foi naquele lugar que pertence até a Portugal. Esqueci agora. Nós perdemos dentro do cassino, três. WC: Ah, é? IM: Nós três perdemos dentro do cassino, custamos a chegar lá fora. Ai, meu Deus. WC: E aí, foi muito desesperador [riso] se perder? IM: Aí, uma falava assim: é por aqui, outra falava assim: não, gente, vamos por aqui. Aí, você entrava no corredor. Aquele corredor não tinha saída, não é? Então você voltava o corredor. Foi uma dificuldade mesmo. Foi num lugar que pertence a Hong Kong... WC: Nassau? IM: É. Não, não é Nassau, não. Um nome... Macau. WC: Macau. IM: Macau. É. Nós perdemos ali no cassino. Nós três. [risos] Eu, a minha coisa, e essa outra senhora, de 65 anos. Georgina que ela chamava. WC: [risos] IM: Custamos, aí nós saímos num ponto completamente separado, sabe? Lá na outra rua. Aí nós tivemos que ir voltando até chegar na porta do cassino. [risos] Por isso, se eu tivesse sozinha ficava doida, não é? WC: É. [risos] IM: Essa senhora ainda falava um pouquinho de inglês. Muito pouco, sabe? Georgina. Ela é dentista, foi dentista do INPS, sabe? Foi dentista, não é? Ela sabia umas palavrinhas e ainda decifrava. [riso] Mas mesmo assim nós fomos sem perguntar, fomos andando. E ia para um corredor, não era, entrava em outro corredor, não era, voltava outra vez aonde eles estavam jogando e não achava a saída. [risos] WC: Ninguém percebeu que vocês estavam perdidas, não? 7A-IM-10 IM: Não, ninguém percebeu. Nós estávamos dentro do cassino, [risos] que era muito bonito. E os candelabros maravilhosos, coisa riquíssima. Eu nem sei como é que faz uns cassinos assim, coisa linda. Todos jogando, as mulheres, as chinesas jogando, sabe? Nunca vi tanta chinesa jogando. Jogam mesmo, crianças, menino jogando. Porque no Brasil não podia, não é? E lá pode. Rapazinho pode jogar. WC: Não tem limite, não? IM: Não tem limite de idade. Tem limite de dinheiro, não é? [risos] WC: É, quem tem dinheiro não joga mesmo. [riso] WC: Bom, uma série de problemas aí com relação a isso. Mas o que a senhora gosta de ver? Que programas que a senhora gosta de fazer? Independente de estar em grupo ou não, o que a senhora gosta de ver numa cidade que a senhora está conhecendo? IM: Os jardins, que são muito bonitos. Todo lugar tem jardins maravilhosos. Mesmo passar na frente de cinema para ver se é bonito. Não para ir, porque não adianta, porque não sabe, mesmo que tivesse que ir, não sabia a língua, não é? [...]. Os teatros mesmo, tem muito teatro, muita coisa bonita, muita... São lojas mesmo, bonitas, não é? Você está andando na rua, você vê de tudo, do bom e do melhor. E no Brasil tem também, mas eles não ligam, nós não ligamos para o Brasil. WC: A senhora acha que o maior problema é esse? IM: É, acho que nós mesmos que não... que não ligamos, não é? WC: A senhora acha que em muitos aspectos, alguns pontos do Brasil, não vamos generalizar também, mas alguns pontos do Brasil se igualariam à Europa. IM: É, Europa. A Savassi, por exemplo, é muito bonita. Os shoppings centers bonitos. Tanto esse aqui quanto o outro de lá. Esse outro, eu não conheço, não. Disse que o que vai ficar mais bonito é o da Pampulha, que vai ficar muito bonito. Esse aí lá na Catalão. Não sei se vai ficar mais bonito. Aquele de cá, eu acho ele muito bonito. WC: A senhora gosta de visitar as lojas. IM: Gosto, muito mesmo. WC: E a senhora procura comprar um presentinho para seus parentes... IM: Só uma coisinha. WC: Hum. Qual que é o seu critério para escolher esse presente? 7A-IM-11 IM: Ah, eu... tem que escolher ou blusas ou... Porque todo mundo gosta de umas blusinhas diferentes, completamente diferente. Ou luvas. Para minha sobrinha, eu trouxe umas luvas. Até não sei se serviram. De Florença, muito bonitas. Essas coisinhas, coisinhas simples, sabe? Sempre procuro coisa muito... Já essa minha amiga, já compra tudo caro, ela não importa, compra mesmo de tudo. WC: A senhora já vai com os pedidos? IM: Não. WC: De seus amigos e parentes? Já sabem o que que eles querem? IM: Não, não. Não. Ninguém me faz encomendas. WC: Não? IM: Não. WC: A senhora é que imagina //o que cada um vai gostar.// IM: //É.// Pode ser que goste, pode ser que não goste, não é? WC: Mas a //senhora pensa em agradar...// IM: //Uma toalha...// É. Agradar aquele, não é? WC: A senhora nunca dá presente que retrate alguma coisa daquela cidade, alguma miniatura, alguma pintura? IM: Não, eu trazia. Antigamente, eu trazia esses quadrinhos muito bonitos, não é? Mas eles quebram às vezes, sabe? Então, ultimamente eu não trouxe desses, não. Do Japão, eu não trouxe nenhum. São lindos, lindos mesmo. Mas eu percebo o seguinte: aqui na Foz tem, então por que eu vou trazer de tão longe, não é? [risos] Compro com meu dinheiro, com o dinheiro, em vez de comprar com o dólar. Com o nosso dinheiro. E na Foz tem igualzinho. WC: Onde? IM: Na Foz do Iguaçu. Na parte que pertence... a gente chamava..., agora eu não sei como é que chama lá. WC: Paraguai. IM: Paraguai, mas não sei como é que chama a cidade, que era //um nome....// WC: //Ahn. Porto Stroessner, não é?// 7A-IM-12 IM: É. Agora mudou. Mudou o nome. WC: Eu não sei. IM: Mudou mesmo o nome. Lá tem de tudo. Tudo que eu vi no Japão, eu vi lá. Assim, de quadros, de couro, de toalhas de mesa bordada, de blusa bordada. Só que aqui é mais caro, lá é mais barato. Mas lá é dólar, mais barato mas lá é no dólar. WC: Então, a senhora procura dar presente que seja mais útil. IM: É, mais útil. WC: E quem que a senhora costuma presentear? IM: Não, é só a família. WC: Assim, a família mais restrita. IM: É, é. WC: //Aos elementos dessa casa.// IM: //É. Aqui// é só minha irmã e meu cunhado. Depois, a outra minha irmã, a outra minha irmã não gosta muito de nada, então... Ela gosta muito é desses chinelos para frio, porque ela sente frio nos pés. Então sempre eu trago um chinelo para ela. De frio. Minha sobrinha, qualquer coisa que traga ela gosta. São três lá, [ ] e dois filhos. Um filho e uma filha. Para meu sobrinho, eu nunca trago, porque toda vez que eu trago, trago uma camisa para ele, umas camisas bonitas, e não serve. Porque ele é grandão, sabe? Então, eu nunca trago. Eu trago para ele é o dólar. Falo: oh, você gosta de dólar, então é seu. WC: [risos] Então a senhora traz presentes mais para as mulheres da família. IM: É. É. Para homem, eu trago para Fernando. WC: Seu sobrinho. IM: É meu sobrinho. IM: É, uma coisa qualquer, assim. WC: A senhora já leva um dinheirinho reservado para comprar //esses presentes?// IM: //Já, já// levo. Tudo separado. WC: Hum. Às vezes sobra desse dinheiro ou... IM: Não, nessa vez não sobrou porque eu tive que pagar uma diferença, porque a viagem 7A-IM-13 aumentou. Depois que nós estávamos lá, ela aumentou. Porque os hotéis encareceram. Então, ele aumentou. Aumentou 760 dólares. De modo que já tirou do que eu tinha que comprar. Tive que pagar os 760 dólares a ele. WC: Mas a senhora... IM: Ele queria até que eu pagasse... quando chegar no Brasil, você manda em dinheiro. Eu falei, não. Dever os outros não é agradável, não. WC: Pegou a senhora de surpresa. IM: É. A Vanda levou bastante dólar. Mas mesmo assim ela teve que pagar. WC: Mas a senhora sempre leva essa quantia reservada para comprar os presentes. IM: É. E levo sempre mais, que a minha irmã sempre tem dólar, sempre ela me empresta, mas nunca eu gasto o dinheiro dela. Só o que ela me dá. Ela me deu 500 dólares. Esse aí, eu gastei. Mas os dela, os mil que eu levei dela, não gastei, não. WC: Como que a senhora faz para juntar esse dinheiro para fazer essas viagens? IM: É o que eu recebo da... WC: Da aposentadoria. IM: Do Instituto da Aposentadoria. Porque que não tenho despesa nenhuma aqui. Nenhuma despesa. A não ser esses presentes que a gente compra, que é... Quer dizer, uma coisa qualquer, uma fruta, que às vezes eu vejo uma fruta bonita, compro. Mas no mais, não tenho despesa nenhuma, nenhuma, nenhuma. WC: Então, todo mês a senhora coloca o seu dinheiro na caderneta de poupança? IM: Não, eu ponho... WC: Quê isso! Dólar, não é não? [risos] IM: Eu agora estou comprando dólar. Esse mês ainda não comprei, que até nem fui no banco ainda não. Mas eu até perguntei uma senhora aí, o sobrinho dela, veio para ele de lá dos Estados Unidos e tinha. Eu agora estou andando com medo de dólar falso. WC: É. Tem que tomar cuidado. IM: Tem que tomar cuidado, não é? WC: Mas antes a senhora punha na caderneta? 7A-IM-14 IM: É. Agora, eu tirei da caderneta, não, eu tiro da caderneta, aquela vez que ele barrou, depois entregou. Foi essa última, penúltima //viagem que eu fiz...// WC: //O Plano Collor.// IM: É. Eu fiz com esse dinheiro, sabe? WC: //E foi liberado?// IM: //Foi// liberado para mim, que tinha mais de 65 anos. Então foi liberado. Então eu tirei. WC: Depois disso, //adeus poupança.// IM: //É. Depois disso// não, não quero mais poupança. [risos da entrevistadora] Eu ponho na conta ouro. WC: Ah, sei. IM: Do Banco do Brasil. Porque eu deixo lá um pouco, porque às vezes uma doença, uma coisa qualquer, apesar de que com doença eu tenho a patronal, tenho o INPS também, [problema] que der vai para a geral e pronto. Não tem problema. Mas no mais, não. Só isso que a gente vai juntando, ajunta e gasta ele todo. WC: [risos] A senhora compra esses dólares de doleiros aqui mesmo na cidade. IM: É. WC: Pessoas que... IM: É desse da avenida Amazonas, eu comprei a última vez foi na avenida Amazonas. WC: Mas são pessoas indicadas... IM: Indicadas. E uma senhora também que vende, Dona... Mas essa aí sempre vende o dólar mais caro. Então, eu sempre... Esse daí, não. Esse daí vende o dólar do dia. WC: Pelo preço. IM: Pelo preço do dia. WC: Por isso a senhora acompanha o //preço todos os dias.// IM: //É. O preço do dia.// É. [riso] Mas agora não tenho comprado, não. [riso] Não está dando, não. AT: Está difícil. IM: Está difícil, não é? É. 7A-IM-15 WC: Além desses presentes que a senhora traz para as pessoas, a senhora costuma comprar alguma coisa para a senhora, para a casa, quando a senhora faz essas viagens? IM: Não, para casa só uns forros uma coisa assim, bonitinha. Mas mesmo assim, agora não comprei, não. Porque minha irmã falou: ah, não vai comprar essas coisas, não, porque nós vamos morrer, vai ficar aí, não é? Então deixei de forro, sabe? [riso] E ela comprou uma toalha de mesa, uma beleza, bordada. Mas é tolice essas toalhas bordadas, porque nós não temos lavadeira assim, passadeira, não é? Nós temos uma muito boa, mas já... uma coisa louca para lavar uma toalha bordada. Essas da Ilha da Madeira ou do Japão. São lindas, maravilhosas. Mas para passar aquilo... Não vale a pena. WC: Não vale a pena. E a senhora compra coisas para a senhora? IM: Não. Para mim, eu compro só umas blusinhas, umas coisas assim. WC: É? IM: É. //Meia, eu gosto muito de meia.// WC: //E no dia-a-dia...// IM: Hein? WC: E no dia-a-dia lá, a senhora chega a comprar alguma coisa? Chocolate, fruta, alguma coisa assim? IM: Ah, isso de vez em quando nós compramos, compramos para levar para o quarto. WC: E a senhora compra postais para mostrar para as pessoas? IM: Não. Ultimamente eu não comprei. Nessas últimas viagens, eu não comprei postal nenhum. WC: Mas a senhora tinha o hábito de comprar? IM: Tinha. Gostava de comprar. WC: //A senhora colecionava?// IM: //Não, gostava de comprar porque quem colecionava era essa minha sobrinha de Sete Lagoas, colecionava. Depois ela deixou também, acabou. WC: Ah, a senhora trazia para ela. IM: Trazia para ela, é. 7A-IM-16 WC: //Que ela colecionava.// IM: //Ela gostava, é.// WC: De todos os lugares que a senhora ia, a senhora sempre... IM: Todo lugar, é. Ela gostava demais. Mas isso é enquanto está estudando, não é? Depois... WC: Mas a senhora trazia esses postais, primeiro a senhora mostrava para toda a família? IM: Não, porque em casa não precisa mostrar, porque eles todos já foram nos mesmos lugares que eu já fui, todo mundo já foi. WC: Ah, certo. Então não existe muita curiosidade. IM: Não existe muita curiosidade, não. É. WC: E a senhora não tem desejo de guardar? IM: Não, não. Vou morrer, fica aí jogado fora. WC: [risos] Mas, por exemplo, se chega alguém aqui, como nós, aí a senhora mostra... IM: [risos] Eu até vou separar uns, depois eu dou a vocês. Eu não sei, eu não sei onde eu guardei. A gente guarda demais, não é? WC: Já tem um monte de postais para mostrar para nós. IM: É, mas eu tenho uma porção mesmo ainda, sabe? WC: A senhora não manda postal para ninguém, nenhum amigo? IM: Não. Eu escrevo só aqui para casa, assim mesmo muito pouco. Eu podendo telefonar, eu telefono. Eu acho melhor telefone. WC: Sei. A senhora constantemente dá notícias para a família. IM: Para a família, é. Mas muitas vezes a carta não chega. AT: Por isso é melhor ligar, não é? IM: É. Mas eu liguei dessa vez, foi só uma vez. Na última viagem, só uma vez. WC: Mas no meio da viagem, durante a viagem, a senhora sempre liga. IM: É. Só uma vez. WC: Só uma vez. IM: Só. 7A-IM-17 WC: //A senhora não tem hábito de ligar com freqüência, não.// IM: //Não, não.// Esse pessoal de São Paulo ligava quase todo dia. WC: É mesmo? [riso] IM: É. WC: Estavam com um bom dinheiro, não é? [risos] IM: Acho que eles estavam com muito mesmo, porque eu nunca vi compras como eles fizeram, esses dois casais mais novos. São duas amigas e eles são... Ele é reformado do Exército e trabalha numa firma, tem uma firma. Eles compraram mas muita coisa mesmo. De modo que aí podia. [risos] Deve ter levado muito mesmo. O cálculo que nós fizemos, pelo tanto que estavam comprando. [risos] Tudo que via comprava. WC: Então o grupo é heterogêneo, não é? IM: É. WC: Tem algumas pessoas que têm menor poder aquisitivo, //outras têm maior.// IM: //É, uns têm mais. É.// E que gosta mesmo de comprar. Eu não gosto muito de muita compra, não. Ah, fica enchendo casa de coisa. WC: A senhora gosta mais de ver as lojas... IM: De ver do que comprar. Gosto muito de ver, olhar, pegar. WC: A senhora gosta de ver porque as coisas são diferentes daqui? IM: São diferentes. Tem muita coisa diferente. Mas tem muita coisa igual também. WC: A senhora gosta de ver simplesmente porque é belo. IM: É. Só. Porque é belo mesmo. WC: E, falando dos postais, com relação a fotografias. A senhora tira fotografias? IM: //Não, não gosto de fotografia.// WC: //Para guardar de lembrança?// Não? IM: Não. WC: Não mesmo? IM: Detesto fotografia. 7A-IM-18 WC: Desde quando? IM: Toda a vida. WC: Toda a vida? IM: É. Detesto. WC: A senhora nunca gostou de fotografar esses momentos importantes, bonitos? IM: Não. Não. Raramente, eu tenho fotografia, a pessoa me pega, assim, tira. Mas eu não gosto. Não gosto de fotografia, não. Coisa que..., depois vai ter que jogar fora. WC: Não, ué. Passa para frente. AT: É, mas pode fazer um álbum. IM: Faz o álbum, e depois? AT: Ué, fica guardado. IM: //Fica guardando...// AT: //[Vai passando para a família...]// IM: //Não vai passando, não.// Os outros jogam fora. WC: Joga nada. IM: A mocidade de hoje... WC: Joga nada. IM: Se joga. WC: A senhora acha que eles não se importam. IM: Não, não se importam. De jeito nenhum. Hoje a a mocidade tem outra mentalidade. //[...].// WC: //A senhora, no seu tempo,// a senhora gostava de guardar as fotos dos seus antepassados, seus parentes, avós? Gostava de saber quem eles eram? IM: Não, também... WC: //A senhora não tinha...// IM: //Eu nunca gostei de retrato.// WC: Não só da senhora como das outras pessoas. 7A-IM-19 IM: De ninguém, de ninguém. WC: E a senhora falou dos jovens, hoje, com relação a essa preservação da tradição, dos valores. IM: É. Eu sei por causa dessas minhas sobrinhas, não gostam muito, não. Não vejo... WC: Agora, se elas gostassem, a senhora procuraria tirar para que elas guardassem esse material para elas? IM: Eu podia tirar de outras pessoas, minha, não. WC: Ahn. Por que tanta resistência //em tirar a sua foto?// [risos] IM: //Eu não gosto. Detesto.// [risos] A gente ri tanto das fotografias antigas. WC: É? Ri da moda, ah, eu usava isso, eu era assim. IM: Não é? WC: É. IM: Eu mesmo, essas fotografias que a gente tira para passaporte, que eu já tirei uns cinco passaportes, porque ele vence, não é? Então, na outra viagem tem que fazer. Cada uma mais horrorosa do que a outra. Não dá. WC: Então, a senhora não tira fotografia de jeito nenhum. IM: Não. A turma toda tira, quando eu viajo. Todos tiram. Menos eu. WC: A senhora sempre sai fora? IM: Não. Sempre dou adeus para eles e... WC: [Risos] A senhora não tem medo deles: ô, gente, queria tanto que ela tivesse aparecido na foto. IM: [risos] WC: A senhora não tira. IM: Não. WC: Deixa eu... FIM DO LADO A DA FITA 7 - PARTE II 7B-IM-20 Entrevista - fita 7 - lado B Parte II WC: Bom, falamos das fotografias. Então, nós não vamos ter nenhuma fotografia para ver, não é? IM: É. WC: Infelizmente, é uma pena. Agora, dona Isaura, eu queria saber da senhora o seguinte: a senhora falou dessas fotografias para passaporte. Eu fiquei perguntando o seguinte: essa documentação necessária para a senhora viajar, é a senhora mesma que providencia? IM: É. WC: Como que é o procedimento normal? IM: É só levar a fotografia, carteira de identidade e ir onde faz o passaporte, que é lá em cima, no morro. Sabe onde é que é a Madre Teresa? O Hospital Madre Teresa? WC: Sei. IM: Você sobe ali, é lá em cima. Ali você tira passaporte. Antigamente era aqui na avenida... qual foi o primeiro que eu tirei.... Rio Grande do Norte, por ali, sabe? Foi para os primeiros, não é? WC: A senhora mesmo que prepara //toda a sua viagem.// IM: //É, toda.// Toda a viagem. WC: Desde a documentação, a compra do dólar. IM: É, é. A compra do dólar. Agora, menos os vistos. Os vistos, a gente tem que levar em... WC: No Rio de Janeiro. IM: Ou no Rio ou então aqui tem as pessoas que fazem, não é? WC: Sei. IM: Pessoas próprias que fazem isso. 7B-IM-21 AT: Despachante. IM: É, despachante, é. Tem os despachantes. WC: Aí a senhora //procura um despachante.// IM: //Procuro despachante.// Quando eu fui na Rússia, ele é que procurou. WC: Mas é sempre a senhora que... IM: É, que levo. Levo tudo lá. WC: Faz tudo sozinha. IM: É, tudo sozinha. WC: Agora, eu queria saber da senhora o seguinte: durante a viagem, a senhora não tem muito hábito de comprar postal, fotografia, a senhora chega a fazer algum tipo de anotação? IM: Também não. WC: Não. Fica tudo na memória. IM: Só na memória. Se perdeu da memória, acabou. [risos] WC: Ahn. E essas pessoas com as quais a senhora viaja? IM: Elas anotam. WC: Aí a senhora pega o endereço delas? IM: Tem muitas que eu tenho endereço, outras não. WC: Depois que chega de uma viagem, a senhora procura manter contato com essas pessoas que a senhora fez amizade? IM: Poucas. Poucas. Porque depois, também, vai... vai... WC: Distanciando. IM: Distanciando. Uma outra, a Ení, é do Rio. É muito... mimosa, muito delicada. Essa me telefonava sempre. Agora, ela deixou de telefonar, não sei se teve algum problema na casa dela, eu fico com medo de telefonar e ter tido qualquer coisa, sabe? O mais é só com essa Vanda mesmo é que eu continuo a amizade, sabe? WC: Essa do Rio. IM: Essa do Rio. É. De vez em quando ela me escreve, conta que vai numa viagem, vai na... 7B-IM-22 Agora, por exemplo, ela vai a Miami, em setembro. Mas Miami, eu estive lá ano atrasado, não quero ir mais não. WC: Ela convidou a senhora para ir com ela, mas //a senhora...// IM: //É, convidou.// Não, ela vai com uma outra do Rio, agora. WC: A senhora não quis ir. IM: Não. Ano atrasado eu fiquei lá quatro dias, não quero mais, não. Fui com esse casal do Rio, um outro casal, quando eu fui ao Canadá. Passamos primeiro por Miami. WC: Como o procedimento das suas viagens é sempre através de excursão, poucas vezes a senhora reencontra essas pessoas. IM: Ah, olha, só... WC: //[...]// IM: //Só em uma.// Só do Rio. WC: Porque vocês programaram de ir. IM: Cada... É. Cada vez são outros, é outro ambiente. São outras companheiras, sabe? Nenhuma repetiu. WC: E agora a senhora falou que não quis ir para Miami, a senhora já esteve lá. Então, a senhora sempre procura ir, fazer viagens para locais onde a senhora não conhece. IM: Não fui. É. WC: Onde a senhora //ainda não...// IM: //É. Porque Miami// já fui duas vezes, não é? WC: Ah, então até duas vezes a senhora ainda vai, não é? IM: Não, porque a primeira vez eu fui com esses filhos da minha sobrinha. Em 1980, eu fui levar. WC: A senhora sozinha com as crianças? IM: É. Não, nós fomos em excursão. Excursão. Lá nós andamos sozinhas. Porque Miami eles deixam, tem um dia folgado, andamos sozinhas. Mas esses outros... A segunda vez foi com esse casal do Rio, nós íamos ao Canadá, passamos primeiro por lá. Por Miami, de Miami que nós fomos a Nova Iorque. Nova Iorque tomamos a excursão para o Canadá. E 7B-IM-23 voltou para Nova Iorque, Nova Iorque-Brasil. WC: Agora, com relação a... A senhora foi duas vezes aos Estados Unidos. IM: É. WC: Quais os lugares que a senhora gostou e voltou novamente a ir? Muitos? IM: Olha, só na Europa. Não, porque Miami, eu voltei porque foi excursão. Duas excursões, que eu voltei. Não é porque eu queria ir, não, mas é porque esse casal do Rio, que eu já tinha feito uma viagem com eles, então convidaram e eu fui com eles. Europa voltei já três vezes, os mesmos lugares. Três ou quatro vezes. Portugal, Lisboa, Madri já fui umas quatro vezes. França também. Porque as excursões todas passam nos mesmos lugares. WC: Sei. IM: Qualquer excursão que você entra, elas vão... A não ser essa da Rússia. Porque a da Rússia é a outra parte do... WC: Da Europa. IM: Da Europa. É. Que vai por Copenhagen, não é? Copenhagen, Oslo, Estocolmo. Aí já é outro trajeto. A Finlândia. WC: Com relação..., a primeira coisa que a senhora falou, com relação às excursões. A senhora foi quatro vezes à Europa. Nesses passeios, os pontos turísticos continuam sendo os mesmos que a senhora visitava? IM: Os mesmos pontos turísticos. WC: E a senhora não enjoa? A senhora gosta. IM: Não, não. Gosto, porque aí você vê umas coisas que não viu da primeira. Ou da segunda, não é? WC: E no seu dia livre, de folga, a senhora já conhece melhor a cidade, a senhora se aventura por outras regiões? IM: Aí a gente aventura. Pode andar. Nós podemos andar. Quer dizer, eu e ela, não é? Porque na Europa só tenho ido com companhias. A não ser em Lisboa, que já fui duas vezes sozinha. Quer dizer, a hora que termina a excursão, eu vou para Lisboa. E volto... Uma vez eu fui para Lisboa e voltei para Amsterdã para tomar o avião, tive que voltar a Amsterdã. 7B-IM-24 WC: A senhora falou para a gente, a primeira vez que a gente veio aqui, falou que a senhora voltou sozinha. IM: É. Sozinha. Foi. Sem falar, sem saber falar e... [risos] WC: [risos] E como é que foi isso? IM: Aí a gente roda, roda lá, aquele aeroporto de lá é enorme, Amsterdã. A gente roda, roda, vê um táxi, entra no táxi e mostra o hotel. Que eu já tinha deixado o hotel, não é? WC: Ah, o endereço. IM: Que eu já tinha deixado as malas lá. Eu fui só com uma maleta pequena para... WC: Lisboa. IM: Para Lisboa. WC: A senhora se desviou do grupo da excursão? IM: É, aí o grupo veio embora, veio para o Brasil. WC: E a senhora quis ficar mais tempo. IM: Eu fiquei em Portugal, que eu sabia conversar, falar, não é? Eu queria ir à Ilha da Madeira. A primeira vez fui à Ilha da Madeira. A segunda vez, para conhecer as praias, que as praias de lá são lindíssimas. Então fui nas praias, fiquei lá, de lá entrei numa excursão, nas praias. WC: Dentro da própria... de Portugal, o próprio país, a senhora fez outra excursão. IM: É, é. Outra excursão. E fui também a Marrocos, com excursão. Eu encontrei duas... WC: De Portugal. IM: ... brasileiras. Também que iam, estavam lá em Lisboa e que iam, estavam saindo para Marrocos. Aí fomos as três brasileiras. WC: Quer dizer que a senhora se separou do grupo de excursão em Amsterdã. IM: Amsterdã. WC: //O pessoal voltou...// IM: //Da primeira vez, é.// WC: A senhora resolveu sair de Amsterdã e ir para Portugal. IM: É, Portugal. A segunda vez, eu fui para Portugal. Aí a excursão terminou em Portugal. 7B-IM-25 Aí, eu fiquei lá e elas vieram embora. Eu fiquei no próprio hotel que nós ficamos. WC: A senhora tem autonomia para adiar a sua volta, //ficar por conta própria//. IM: //Aí por conta própria.// Aí já vai..., a gente já vai com dia marcado. Porque a gente não vai sem marcar não. WC: Ah, sei. IM: Vai com o dia marcado de ir e voltar. WC: Mas é possível adiar. IM: É possível adiar. Ou então antecipar. Minha irmã, por exemplo, antecipou a dela, ela ia ficar até dia 2 de janeiro, ela voltou dia 28 de dezembro. Pode antecipar. Tendo vaga no avião eles antecipam. WC: Sei. Agora, a senhora falou de tudo quanto é região aqui para nós, a Ásia até Marrocos, Europa. O que a senhora conheceu? No continente americano, a senhora fez muitos passeios aqui, mais para o sul da América do Sul. Mas o que a senhora conheceu na América Latina? Quais os países que a senhora chegou a conhecer? Já falou para a gente do Paraguai, Argentina... IM: Paraguai, Argentina, Chile... WC: Bolívia. IM: Bolívia, Peru. Só. Porque Peru tem aqueles lugares, tem Cuzco, tem Macchupicho, mas já pertence a Peru. Foi Lima que nós fomos. Mas aí nós fomos de avião. Porque eu fui lá a primeira vez de avião e a segunda também fui de avião. Já fui a Lima duas vezes. Eu fui a Lima com esse meu sobrinho, e depois fui a Lima com essa senhora e a filha dela, Dona Efigênia WC: Então, a senhora chegou a fazer viagem com outros parentes sem ser sua mãe, não é? IM: Com... Ah, foi. WC: Seus sobrinhos, para a Disneylândia, esses sobrinhos agora. Para Disneylândia. IM: É. Disneylândia, eu fui com os dois. WC: Só essas viagens. IM: É, só. Essa viagenzinha. WC: A Europa, a senhora conhece tudo. 7B-IM-26 IM: Quer dizer, os países que eu passei, assim, que às vezes só vão quase que nas capitais e nas cidades maiores, que a gente conhece. Que é... essa excursão agora, por exemplo, não foi em Lourdes, todo mundo adora Lourdes. Eu já fui duas vezes em Lourdes, mas nas outras excursões. Essa última, não. Nós fomos à parte, por nossa conta. Duas vezes à parte. E teve um outro lugar também, de santidade, onde foi que eles foram também. Na França. Não sei onde, foi num passeio, teve um passeio na França que [...] em Paris. A outra excursão foi. E aí a excursão que faz, você não estando dentro da excursão, não vai. Porque não dá tempo, o dia de folga não dá. WC: Sei. Na Ásia, a senhora falou para a gente que conheceu o Japão. O que mais a senhora conheceu? IM: Uma cidade do Japão. Não sei se é [Guilin], fala [Guilin]. Não, [Guilin] parece que é chinesa, porque tudo anda de bicicleta. WC: Ah, a senhora foi para a China também. IM: É. [risos] É, a China. Foram três lugares na China que nós fomos. Foi [Guilin] e um outro. [Guilin], Pequim, que é a capital, não é? Até agora está muito bonito, diz eles que não era bonito, não. Agora tem umas avenidas largas, é bonita, florida. E uma outra cidade, que eu esqueci, eu fui lá na China. E do Japão, nós fomos em umas três cidades, fora Tóquio. A que demorou mais, foi Tóquio. WC: Então, na Ásia são os dois países que a senhora conhece. IM: É. São os dois. É. WC: Na África, a senhora conhece? IM: Não, a África, eu não conheço nada. WC: Não conheceu Marrocos? IM: A não ser Marrocos, não é? WC: Tem vontade? IM: Que nós ficamos conhecendo. Não, tenho vontade de ir a Joinvile, mas eles estão falando tanto do pobre de Joinvile, que é ladrão, que não sei..., lá tem muito ladrão. WC: Onde? IM: Joinvile. Joinvile, não. 7B-IM-27 WC: Johannesburg. IM: Johannesburg, é. Joinvile é aqui. Até não conheço. WC: É. [risos] Deve ter ladrão também, não é? IM: É. Em toda parte tem, nós temos tanto, não é? Você viu lá em São Paulo como é que está dando ladrão? Quinze assaltos por dia. WC: Quando..., por exemplo, a senhora foi para cidades, para países que são muito populosos. Os Estados Unidos é muito movimentado. E Hong Kong, uma das maiores cidades do mundo. IM: É. //Verdade. Coisa louca Hong Kong.// WC: //A senhora não fica assustada// com isso, não? IM: Não, porque a gente sai em grupo. WC: Então a senhora não tem medo de assalto, essas coisas? IM: Não, por causa de grupo. WC: Sei. E a senhora já foi para lugares que estivessem ameaçados por algum problema, algum acidente físico, da própria natureza, ou político, algum atentado terrorista ou alguma coisa assim? IM: Não, uma vez, quando nós fomos, a primeira vez que nós fomos a Veneza, lá eles estavam fazendo aqueles comícios grandes. Mas o turista nem vê, não é? Aquele comício na rua, aquela coisa, mas para nós... Eles passam por outros caminhos, sabe? Não é o caminho... WC: Eles desviam. IM: É, desviam. O próprio sujeito que está fazendo o turismo do lugar desvia. E só mostra mesmo os lugares bonitos. WC: Os lugares bonitos, limpos... IM: É, só. Limpos. Não é feito o Brasil, que quando veio aquela Anne aí, aquela princesa, eles mostraram aquela favela, foram com ela na favela. WC: [risos] IM: Lá, não. Você não conhece favela, você não vê favela. 7B-IM-28 WC: É. IM: E todo lugar deve ter favela, não é? Não sei se não tem. Nós não vimos. Só lugar bonito que eles levam. WC: Aí a pessoa fica encantada com o lugar. IM: Por isso, uai, tem que achar bonito. Só o centro, não é? WC: Nesses lugares aonde a senhora foi, a senhora não tinha ninguém, nenhum parente, um amigo que morasse no lugar, não? IM: Não. Só em Roma que nós procuramos uma senhora, para resolver um caso de avião que estava eu e essa moça, essa penúltima viagem que nós fizemos, o avião estava marcado errado, então nós procuramos..., eu procurei lá. Ela não era minha amiga, não, mas ela é de São Paulo. Então é amiga dessa minha sobrinha. WC: Ah, sei. IM: Então, nós procuramos. Ela resolveu o caso todo para nós, sabe? Foi lá na casa onde vendia as passagens, resolveu tudo. Porque também se não fosse ela, nós estávamos perdidas. Perdia a passagem. Que a passagem estava marcada errada, sabe? WC: Ah, e a senhora não chega a encontrar com algum amigo que esteja morando no lugar? IM: Não. WC: Nunca... Sempre por conta própria, com o pessoal da excursão. IM: É. Só pessoas da excursão. Não encontra... Interessante que tem uma porção de excursões, e a gente não encontra um brasileiro. A não ser na Bolívia, que nós encontramos uma porção de brasileiros lá. WC: Todo mundo fala sempre que a Europa é cheia de brasileiros... IM: //Cheia... Por isso que eu te falo.// Cheia de brasileiros, mas você não encontra um. WC: [risos] A senhora acha difícil. IM: Foi na Suíça, a primeira viagem que nós fizemos, nós encontramos com um rapaz que estava fazendo um serviço de jornal lá. WC: É? IM: É. Como é que ele chama? Ele escreve até no jornal "O Estado...", ele escrevia no "Estado de Minas". 7B-IM-29 WC: Ah, que interessante. IM: Ele é desembargador, estava com a esposa dele. Não sei, nós estávamos olhando uma igreja muito bonita, e uma falou português. Ele olhou para trás e falou: uai, são brasileiras? Eu falei: sou de Belo Horizonte. Aí entabolou a conversa. WC: Ah. Fez amizade. IM: É. Mas só ali dentro... [risos] Despedimos. Foi a única vez que nós encontramos. WC: Mas encontra muito latino-americano. IM: É. Isso encontra. Muito, mas a gente fica sem saber se eles são de Madri, porque a língua é igual, ou se são da Argentina. Apesar de que o Argentino fala mais... o castelhano argentino é mais... não sei, é diferente do de Madri, sabe? Um pouquinho diferente. WC: Agora, se a gente pegar esses roteiros de viagem da senhora, a gente vê, de cara já acha a diferença. A senhora viaja, a senhora nasce num país de terceiro mundo, conhece esses países aqui da América Latina, que são países pobres, não é? E... IM: //Eu vou arranjar uns roteiros e dou// para vocês que eu não preciso dos roteiros mais não. WC: [risos] Mas olha só o contraste. Depois a senhora conhece países muito ricos, com culturas avançadas, histórias milenares. A senhora chega a acompanhar, a senhora chega a comparar as cidades? IM: Ah, chego. WC: Quando a senhora está lá, a senhora //fala, a cidade está mais bonita, outra mais assim?// IM: //É. Então// essa Vanda fala muito, sabe? Nossa, ela ficou encantada com o Japão. WC: E a senhora? Dos lugares que a senhora conheceu, quais os que a senhora mais gostou? IM: Eu gostei mais da China do que do Japão. Interessante... WC: É? IM: Tem gente mais humilde, as cidades são mais humildes, sabe? Mas o povo é mais acessível, assim, não conversa com a gente, porque eles não sabem a língua. Mas o povo é mais... WC: A senhora sente isso? IM: É. Sente. A gente sente. Eu gostei mais da China do que do Japão. 7B-IM-30 WC: Mas por causa da população? IM: É. O japonês é mais... Acho que é porque são riquíssimos, não é? WC: Eles devem ser mais imponentes. IM: //Mais imponentes. É.// WC: //E o outro...// IM: E o outro, não, o outro é //humilde, não é?// WC: //Mais agradável.// IM: E é mandado, não é? Porque o outro tem..., é só quem manda lá, é o... só uma pessoa manda, não é? WC: É, na China, não é? IM: Na China inteira. WC: Por causa do comunismo que a senhora diz. IM: É. Inteirinha. Todos obedecem. Interessante, não é? WC: A senhora percebeu isso. IM: É, percebemos isso lá. WC: E lá tem aquelas coisas que a senhora sempre procura na cidade, os jardins... IM: Tem. Muito bonito. WC: Quer dizer que além do povo tem esse aspecto da cidade. IM: //Tem. É.// Tem aqueles monumentos muito bonitos, sabe? Monumentos lindos. //Na China tem.// WC: //E de modo...// IM: No Japão também tem. WC: E de modo geral, de todos esses lugares que a senhora já conheceu, inclusive no Brasil e tudo, qual foi a cidade que a senhora mais gostou? Achou mais bonita. IM: Eu acho que todas tão bonitas que eu não sei explicar. Não dá. WC: Não dá. //Cada uma tem sua beleza própria.// IM: //Cada uma tem sua... É.// Tem sua coisinha, não é? 7B-IM-31 WC: E teve algum lugar que a senhora foi conhecer que a senhora não tenha gostado? IM: Não, todos os lugares, eu gosto. Todos eles, sabe? Tanto no Canadá. Canadá foi uma gracinha. Quebec é uma gracinha. Porque a cidade subterrânea, sabe? Uma cidade toda subterrânea. Tem a cidade em cima, não é? E tem a cidade subterrânea. Tem banco, tem colégio, tem tudo. WC: É. Quando a senhora vai para essas regiões que são muito frias, Europa, o norte da América, a senhora procura ir na época de verão para não pegar um inverno muito rigoroso? IM: Não, agora nós pegamos inverno rigorosíssimo. WC: É? IM: É, neve, foi fevereiro, não é? Estava... Muito mesmo, muito. Já agora, no Japão e coisa, não. Já estava quente, eu já fui em abril, em maio WC: E nessas viagens, houve, assim, algum momento que tenha sido engraçado, tenha dado alguma coisa assim, extrapolado o roteiro, sendo engraçado? IM: Não. Não. WC: E trágico? Momentos difíceis para vocês? IM: Também não. Não teve nenhum momento assim. WC: Agora, eu estou lembrando de um caso. Aquele trem, o Trem da Morte. IM: Ah, Trem da Morte, é. Aquele é de cá, da Bolívia, que nós fomos sozinhas, não é? É, mas aquele foi engraçado, aquilo foi engraçado. [risos] WC: //Não é engraçado, é trágico.// IM: //É.// [Risos] Trágico, mas interessante. Interessante porque é uma coisa que a gente nunca ia ver isso, não é? Nunca. WC: A senhora já conhecia a fama do trem. IM: Já conhecia. WC: E quis ir sozinha. IM: Não, não fui sozinha, fui com elas duas, aquelas duas... WC: Essas amigas de Santa Teresa. 7B-IM-32 IM: É, Helena e Lourdes. E Lourdes, toda viagem que eu faço, ela vai. Nessas aqui. AT: Pois é, mas nós não gravamos o que foi que aconteceu. Nós sabemos. WC: Quem ouvir a fita não vai saber. AT: É, não vai saber. Então conta para a gente o que foi que aconteceu nessa viagem que foi interessante. [risos] IM: Não, essa viagem, interessante é porque a gente tinha que descer. O trem parou no meio do caminho, caiu uma barreira e o trem parou. E para descer era a coisa mais difícil que tinha. Acho que a moça tem isso escrito, eu vou ver se ela ainda tem. Porque ela fez o... WC: O diário. IM: O diário, fez de uma outra viagem. Aí é interessante, porque eles tinham que carregar a gente e descer, não é? A gente descia... WC: Rapazes. IM: Aí, os rapazes, os que eram de São Paulo, estudantes de São Paulo. Devia ter uns 30 ou 40. Porque o vagão foi cheio. WC: Foram três dias, não é? IM: É. Três dias assim. Que a viagem levou acho que quatro dias. Porque ela era..., eram só 16 horas de viagem. Nós ficamos acho que três ou quatro dias, não me lembro. Eu sei que descia. E a pobre da Helena, que é muito gorda, então era difícil descer. Fazia assim [...] [risos da entrevistadora] e andava por ali, não é? E [risos] ia procurar uma coisa qualquer, não é? Naqueles três dias que ficou parado. WC: A senhora falou conosco que não tinha nem banco, que //vocês ficaram no vagão// IM: //Sentados, todos sentados// no chão. WC: Que o lugar era até fechado. IM: É. //Fechado. Deixavam...// WC: Não tinham alimentação. IM: Deixava um abertinho assim. Eles deixavam. Não, tinha alimentação, nós tínhamos levado, que era para passar os dias. E eles tinham fogareiro, tinham tudo. Esse pessoal de São Paulo tinha tudo. Tinha levado cobertor, porque faz muito frio. Eles também tinham levado. Aí punha assim e deitava no vagão. Dormia no vagão. Dormia deitado. 7B-IM-33 WC: A senhora não sentiu..., não ficou com medo, não? IM: Não, porque tinha muita gente, então não dá medo. Todo mundo estava esperando vir... pelo menos um auxílio. Da estação, que vinha. Depois, acho que três ou quatro dias, aí o trem andou. Mesmo assim ainda foi parando, parando, porque a estrada estava muito ruim, a estrada. Chegamos lá todas, com os pés todos enlameados, tudo... Foi chuva, não é? Choveu no caminho. Então... Mas foi engraçado, foi. [risos] WC: Hoje, não é? Lá, naquela // dificuldade toda, sem banheiro, sem...// IM: //Lá era horrível.// Sem nada. Tinha que ser lá, um corria para cá, outro corria para o outro lado. [risos] WC: [...] devia ser até difícil descer do próprio vagão, porque até senhora, não é? IM: É, é. Dificílimo. WC: Os rapazes que ajudavam. IM: E para subir era mais difícil, porque era no alto assim, ó. Dessa altura assim. WC: Um metro mais ou menos. IM: Mais de um metro. Mais de um metro. Mas não é... WC: Se não fossem os rapazes, estava perdida. IM: Estava perdida. Se não fossem eles, porque se não fosse também, a gente não teria ido. Teria ido, esperado um dia lá, ficava estação. Tinha um hotelzinho, ficava lá e esperava. A burrice foi essa, não é? WC: Mas mesmo conhecendo a fama do Trem da Morte, a senhora quis ir. //Por que isso?// IM: //Trem da Morte.// É. É porque, não, é para andar mais depressa. Nós achamos que aquele trem era rápido, com 16 horas nós estávamos lá. Ninguém... WC: A senhora não se incomodou com as condições de viagem. IM: Não, não, porque era rápido. WC: //A senhora queria ir...// IM: //Eram 16 horas só.// Nós íamos sair às duas horas e chegar lá no dia seguinte. Às quatro horas. Então... [riso] Mas qualquer trem que tomasse demorava, porque caiu uma barreira no caminho. O trem que estava na frente... 7B-IM-34 WC: Também... IM: Também ficou parado. WC: Dessas viagens que a senhora fez, a senhora procurou ou gostou mais das regiões litorâneas ou das regiões de montanha mesmo? //O que que a senhora gosta mais?// IM: //A de montanha é muito bonita.// WC: A senhora é mineira mesmo? IM: Muito bonito, os Andes... Porque aí nós fomos de trem. De Puno para Cuzco nós fomos de trem. Foi o último trem que saiu, porque lá também eles entraram em greve, todo mundo, os ônibus, todos, tudo entrou em greve. Então foi o último trem que saiu para Cuzco. E nós fomos para Cuzco, então foi de trem por onde passa os Andes, aquela beleza. Lindo. WC: Na Europa também, a senhora gostou mais de montanha? IM: É, é. Montanha. WC: Do que da praia. IM: É. Praia, a gente não vai. WC: Quase não vai. IM: Não, as praias, essas excursões não fazem praia. WC: A senhora nunca procurou uma excursão que se voltasse mais para o litoral. IM: Não, para o litoral, não. WC: A senhora já gosta mesmo é de região mais interiorana. IM: É, é. Mas... [riso] WC: E seus planos agora, para o futuro? Para as próximas viagens? IM: O futuro, eu queria ir, como eu te falei, à Austrália. Mas não dá, não. Porque eu queria ir com ele, porque esse senhor faz a viagem maravilhosa. Mas com ele não dá, são sete mil e tantos dólares, muito dinheiro. Fora o que você tem que levar. AT: É, é pesado. IM: Não é pesado? WC: É. 7B-IM-35 IM: A gente tem que levar no mínimo dois mil para viagem. Os dois mil a gente arranja, mas os sete mil... WC: Os sete... [risos] Pesado. IM: Fica, fica porque o ordenado não é grande coisa. Se fosse ordenado dessas técnicas, por exemplo, do Instituto pode, elas já estão com quase 500 mil, quer dizer, pode. Comprava, cada mês comprava mil dólares, dava certinho, não é? WC: Mas e se a senhora não conseguir juntar esse dinheiro para ir para a Austrália? IM: //Aí, eu não vou.// WC: //Mas aparecer uma outra viagem//, a senhora vai? IM: Aí eu vou numa outra. Lourdes me pediu para ir com ela a Jerusalém outra vez. Aí já vou a segunda vez. Porque Jerusalém, eu tenho vontade de voltar. Eu não conheço Estambul, que é Turquia. Então, essa excursão que ela quer ir em abril, então, se eu não for nessa eu vou com ela na de abril. Porque até abril, o dinheiro eu tenho, porque essa excursão é barata, não é cara, não, sabe? Essa excursão para Jerusalém, ela não é cara, não. O que encarece mais é o avião. Mas a terrestre é mais barata. Esse ano, por exemplo, ela fez assim Roma, dois dias, Atenas, dois dias, Estambul, três dias, Egito, três dias. Atenas já falei? Acho que falei. WC: Falou. IM: Falei, três dias, não é? E Jerusalém, nove dias. E volta, ela volta, Estambul, e volta direto a... a Roma, sabe? E fica mais dois dias em Roma. Ela ficava em três mil dólares esse ano, até abril. Quer dizer, não é cara. WC: É. Quando a senhora visita esses lugares tão antigos, que tem toda uma história, todo um passado aí, que a gente vê nos livros, revistas, estão aí por isso, Jerusalém, Veneza, ou //em outros lugares...// IM: Sente uma coisa diferente, viu? Veneza, por exemplo, a gente sente, sente mesmo. WC: O que que é isso? IM: Diferente assim, aquelas ruazinhas estreitinhas, a gente sente, não sei, parece que fica abafado. Umas igrejas bonitas, sabe? WC: E essa coisa do passado que a cidade representa, isso comove a senhora? IM: Ah, comove. Comove. E faz pena, porque Veneza está baixando, não é? Veneza, é capaz 7B-IM-36 dessas últimas crianças já não verem Veneza mais. Que ela está... baixando, sabe? AT: O nível da água subiu. IM: É. A água, parece que não drenaram bem. Com certeza, não é? WC: Quando a senhora vai para um lugar assim, a senhora procura ler a respeito dele? Do passado dessa cidade? IM: Eu li. Em Veneza, eu já tinha lido. WC: //E dos outros onde a senhora vai, a senhora...// IM: //Veneza tinha lido. Conforme o lugar// já tinha lido. Conforme, não. A gente vai assim, meio... WC: De supetão. IM: Supetão, como diz [vocês]. [riso] Não dá para ler, não, sabe? WC: O que continua motivando a senhora a fazer viagem é o desejo de conhecer outros lugares? IM: É, tenho vontade de conhecer. Mas agora eu já não tenho, já não dá para ir, porque teria que ir à África, a África eu não conheço nada, a não ser Marrocos, que é a parte de lá. WC: [...] O Egito... IM: O Egito, eu conheço. Porque quando eu fui a Israel, foi... WC: A senhora passou por lá. IM: É. Fui a Atenas, Egito. Egito, nós ficamos lá três dias. Fomos nas pirâmides, trouxe até... Ah, você está falando em coisa, teve muito bonito, mas eu não fui, não. É o teatro. Dentro das pirâmides, dizem que é uma beleza. As outras foram, eu não fui, não. Eu fiquei com um casal que não ia, fiquei com eles. E a outra, a senhora com o marido e as outras duas moças acharam lindo, muito bonito. E em Paris também, que eu já fui três vezes, eu nunca fui no cassino lá. Lá nunca fui. WC: E o leste europeu é tão diferente do resto da Europa? IM: É diferente, é. Muito bonito também. Muito bonito... //Muito florido, sabe?// WC: //O que que motivou a senhora...// Por que a senhora se sentiu motivada a conhecer o leste europeu? Uma fase que está todo mundo falando que é o fim do comunismo, que ele não deu certo, que lá é uma ditadura... 7B-IM-37 IM: É. Quando eu fui era, Moscou era. Era Moscou, Praga. Passamos na Alemanha Oriental que era, nós fomos lá para visitar. Na Ocidental, que não era. Mas a Oriental é. Comunista. Mas a gente não via nada, são coisas que eles fazem tudo assim, na surdina. Comunista é... E eles obedecem muito. Lá em Moscou, por exemplo, qualquer coisa é crime. Não pode ninguém fazer nada. Eles bebiam, mas bebiam escondido, porque se fosse preso, ia para Sibéria. Disse que a Sibéria é horrível. Na Sibéria, nós não fomos, não. Fomos só mesmo... WC: Mas a senhora sentia medo do comunismo, mas mesmo assim quis conhecer o Leste Europeu. IM: É. Mas não, lá a gente não sente medo, não. WC: Mas para tomar a decisão de viajar, a senhora não... IM: Não, não tinha medo, não. Porque aqui, nós já tivemos esse comunismo, muito falado lá no Rio, foi Júlio Prestes, que foi preso, aquela [...]. Acho que foi em 60, não é? Não me lembro bem quando é que ele foi preso. De modo que não tinha muito medo não. WC: O comunismo que a senhora conhecia estava associado ao comunismo Júlio Prestes? IM: É. Que eu conhecia era só do Júlio Prestes. WC: Que foi governador no Rio? Não, o da Coluna Prestes. IM: Júlio Prestes, não. Não é Júlio Prestes, não? Que é aquele... É Júlio Prestes? WC: Aquele da Coluna?... FIM DO LADO B DA FITA 7 - PARTE II FIM DA ENTREVISTA F fotos, 19 ruas, 6, 8, 9 M mocidade, 19 R