XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
A Engenharia de Produção e o Desenvolvimento Sustentável: Integrando Tecnologia e Gestão.
Salvador, BA, Brasil, 06 a 09 de outubro de 2009
ANÁLISE ERGONÔMICA DO
TRABALHO NO SETOR DE
TREFILAÇÃO DE UMA SIDERÚRGICA
DE GRANDE PORTE
Suzana Dantas Hecksher (UFF)
[email protected]
Philippe Martins Franco Brito (CEFET/NI)
[email protected]
Ludmila Tomaz Mariano (CEFET/NI)
[email protected]
Tendo como base a metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho,
o presente trabalho buscou compreender as causas do absenteísmo por
DORT dos trabalhadores da célula produtiva denominada Dobra Off
Line, inserida no setor de trefilação de maateriais de uma siderúrgica
de grande porte localizada no Rio de Janeiro. Foi aplicado o sistema
OWAS para avaliação de comprometimento postural. Dessa reflexão
surgiram proposições de transformações técnicas e organizacionais
com o objetivo de reduzir a probabilidade de fadiga e adoecimento dos
trabalhadores, bem como as quedas de produtividade.
Palavras-chaves: ergonomia, Análise ergonômica do trabalho, DORT,
sistema OWAS
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1. Introdução
O presente trabalho foi realizado em uma siderúrgica multinacional de grande porte, no setor
de trefilação de materiais de uma unidade localizada no Rio de Janeiro. A empresa é
reconhecida pela excelência em gestão de qualidade, saúde, segurança e meio ambiente.
Sendo assim prevalece como orientação a busca continuada por oportunidades de melhoria
em todos estes aspectos.
A motivação para o trabalho foi a aplicação dos conceitos e métodos aprendidos na disciplina
de ergonomia, no curso de graduação em engenharia de produção. Falzon in Falzon (2007)
descreve a ergonomia como uma ciência que, em oposição às diversas disciplinas da
administração, enfoca não só nas organizações e em seus desempenhos, mas também nas
pessoas que compõem essas organizações, objetivando soluções que priorizem a saúde,
segurança, conforto e satisfação dos trabalhadores.
De acordo com a IEA (Associação Internacional de Ergonomia), a Ergonomia é uma
disciplina científica relacionada ao entendimento das interações entre os seres humanos e
outros elementos ou sistemas e à aplicação de teorias, princípios, dados e métodos a projetos a
fim de otimizar o bem estar humano e o desempenho global do sistema (www.abergo.org.br).
A ergonomia centrada na análise da atividade contribui para a renovação dos enfoques em
segurança do trabalho. A compreensão de como o trabalho é realizado permite que as
interpretações dos resultados sejam mais representativas da exposição real dos trabalhadores a
condições de trabalho indesejáveis (GUÉRIN et alii, 2001).
Um dos autores do presente artigo trabalhava na empresa e o grupo de autores pode contar
com total apoio e interesse do pessoal do SESMT (Serviços Especializados em Engenharia de
Segurança e em Medicina do Trabalho). O grupo teve acesso a documentos e explicações
sobre o PPRA (Programas de Prevenção de Riscos Ambientais) e o PCMSO (Programas de
Controle Médico de Saúde Ocupacional).
A empresa possui informações sistematizadas sobre problemas de segurança e saúde
ocupacional, tais como: acidentes, doenças, consumo de remédios etc. Os indicadores de
saúde são acompanhados sistematicamente e por setor, e revelam, entre outros, ocorrência de
dorsalgias e dores musculares em trabalhadores de diferentes setores da empresa. O
aparecimento mais freqüente de problemas deste tipo em alguns setores costuma sinalizar a
existência de nexo causal entre a doença e a inadequação das condições de trabalho, sendo
então caracterizados como DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho).
O trabalho iniciou com análise de informações, entrevistas com pessoal do SESMT, da CIPA
(Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e operadores, observações livres em vários
setores, permitindo identificar nível perceptível de esforço físico e a adoção de posturas
inadequadas. Foi então identificada uma demanda real para aplicação de conceitos e métodos
de ergonomia na célula produtiva denominada Dobra Off Line, inserida no setor de trefilação
de materiais.
Tendo como base a metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho, o presente artigo visa
identificar causas do absenteísmo por DORT dos trabalhadores da célula produtiva
denominada Dobra Off Line. Como será descrito ao longo do trabalho, foi aplicado o sistema
OWAS (Ovako Working Posture Analysing System) para avaliação de comprometimento
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postural. A partir das investigações, este trabalho pretendeu contribuir com proposições de
transformações técnicas e organizacionais com o objetivo de reduzir a probabilidade de fadiga
e adoecimento dos trabalhadores, bem como minimizar os períodos de queda de
produtividade.
Outro objetivo do trabalho foi incentivar, tanto no nível da liderança quanto no nível
operacional, a prática da ergonomia em suas três dimensões: física, cognitiva e
organizacional, como uma medida preventiva visando à redução da quantidade de
afastamentos, à melhoria da saúde e moral dos operadores e à maximização da produtividade.
Ao final do artigo, são discutidos os resultados alcançados, os limites de realização do
trabalho e oportunidades de ampliação da aplicação da análise ergonômica do trabalho na
empresa.
2. Metodologia
A NR 17 (Norma Regulamentadora 17 – Ergonomia) define, no item 17.1.2., “Para avaliar a
adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores,
cabe ao empregador realizar a análise ergonômica do trabalho, devendo a mesma abordar,
no mínimo, as condições de trabalho conforme estabelecido nesta NR.”
A análise ergonômica visa evidenciar os fatores que possam levar a uma sub ou sobrecarga de
trabalho (física ou cognitiva) e suas conseqüentes repercussões sobre a saúde, estabelecendo
quais são os pontos críticos que devem ser modificados. A análise deve levar em conta a
expressão dos trabalhadores sobre suas condições de trabalho. Para melhorar tais condições
quase sempre é preciso agir sobre a organização do trabalho (MTE, 2002).
A Análise Ergonômica do Trabalho (AET) visa elaborar medidas de transformação através da
compreensão das atividades dos trabalhadores, com foco na resolução de um problema
específico. A AET deve resultar em um diagnóstico que relacione os diversos determinantes
das atividades e suas conseqüências (para os trabalhadores e para o sistema). Dessa forma,
não é possível conceber a AET para toda uma fábrica ou empresa, pois sua realização é
“localizada”, ou seja, pressupõe um problema “situado” que a justifique (DUARTE et alii,
2003).
Além de estar em consonância com um caráter regulamentar, a aplicação da metodologia de
análise ergonômica do trabalho foi considerada adequada aos objetivos deste trabalho e à
natureza localizada do problema: ocorrência de DORT em trabalhadores da célula Dobra Off
Line.
O termo “Análise Ergonômica do Trabalho” (AET) trata da metodologia de análise do
trabalho que foi proposta inicialmente por FAVERGE e OMBREDANE (L’analyse du
Travail, Paris, PUF, 1955) e que deu origem à escola franco-belga de ergonomia. Soares
(2004) indica que a AET teve como maiores divulgadores no Brasil os pesquisadores ligados
ao laboratório de ergonomia do Conservatire National des Arts et Métiers em Paris (CNAM) .
AET é a abordagem da ergonomia centrada na atividade, que confronta o trabalho projetado
pela engenharia de métodos e as condições de sua execução com o trabalho realmente
desenvolvido pelos trabalhadores. É um meio de revelar novas questões sobre o
funcionamento do homem no trabalho, mas também uma abordagem original para a
transformação e a concepção dos meios técnicos e organizacionais de trabalho (GUÉRIN et
alii, 2001).
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O Manual de aplicação da NR17 define análise ergonômica do trabalho como “um processo
construtivo e participativo para a resolução de um problema complexo que exige o
conhecimento das tarefas, da atividade desenvolvida para realizá-las e das dificuldades
enfrentadas para se atingirem o desempenho e a produtividade exigidos”. O mesmo manual
define ainda 12 fases privilegiadas que vão estruturar a construção da ação ergonômica (MTE,
2002).
O resumo a seguir procurar destacar algumas orientações sobre cada uma das 12 etapas,
lembrando que esta intervenção procurou seguir referências mais detalhadas como o próprio
manual de aplicação da NR17 (MTE, 2002) e Guérin et alii (2001).
1. Explicitação, análise e reformulação da demanda - É o ponto de partida de toda análise
ergonômica do trabalho. Possibilita a delimitação do(s) problema(s) a ser(em) abordado(s), a
definição de um contrato incluindo prazos, custos, condições de acesso às diversas áreas da
empresa, informações e pessoas.
2. Análise global da empresa - Levantamento de informações da empresa que podem incluir:
sua história, produtos/serviços, grau de evolução técnica, sua posição no mercado, sua
situação econômico-financeira etc.
3. A análise da população de trabalhadores – Inclui a caracterização da população de
trabalhadores (faixa etária, sexo, rotatividade, escolaridade etc.) e o levantamento de
informações relacionadas à saúde coletiva (acidentes, doenças, afastamentos, consumos de
medicamentos na enfermaria etc.),
4. Definição das situações de trabalho a analisar - essa escolha parte necessariamente da
demanda dos primeiros contatos com os operadores e das hipóteses iniciais que já começam a
ser formuladas.
5. Descrição das tarefas prescritas, das tarefas reais e das atividades desenvolvidas para
executá-las - Através de observações livres, entrevistas, análise de documentos, entre outras
técnicas deve ser construído um entendimento dos processos, da divisão do trabalho, das
regras, controles etc. De acordo com (MTE, 2002), a tarefa prescrita pode ser minimamente
definida como o objetivo fixado pela empresa. A tarefa real é o objetivo que o trabalhador se
dá, caso ele tenha possibilidade de alterar o objetivo fixado pela empresa. A atividade é tudo
aquilo que o trabalhador faz para executar a tarefa: gestos, palavras, raciocínios etc.
6. Estabelecimento de um pré-diagnóstico – O pré-diagnóstico deve relacionar causas, ao
problema estudado e aos resultados obtidos. Deve ser explicitado às várias partes envolvidas,
após o que será validado ou abandonado como hipótese explicativa para o problema.
7. Observação sistemática da atividade, bem como dos meios disponíveis para realizar a tarefa
- Esta fase inclui o planejamento e execução de levantamento de informações relevantes sobre
as pessoas, processos, equipamentos, exigências sensoriais, registros, comunicação,
informações, carga de trabalho, modos operatórios, metas, controles etc. Devem ser definidas
as variáveis observáveis (postura, comunicação etc.) e podem ser utilizados diferentes
métodos e técnicas de levantamento, registro e análise de informações (entrevistas, filmagem,
cronometragem, gravação de verbalizações, análises comparativas, uso de softwares,
entrevista de confrontação etc.)
8. Diagnóstico - Partindo das situações analisadas em detalhe na fase anterior, o resultado
desta fase deve relacionar contexto, variáveis e resultados. Possibilitando um melhor
entendimento da situação de trabalho e das causas associadas (condições relacionadas) aos
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problemas estudados (resultados indesejáveis). Além do diagnóstico, o relatório produzido
nesta fase deve ainda descrever os métodos e técnicas que o sustentam.
9. Validação do diagnóstico – O diagnóstico produzido deve ser validado, ou seja,
apresentado a todos os atores envolvidos que poderão confirmá-lo, rejeitá-lo ou sugerir
maiores detalhes que escaparam à percepção do analista.
10. Projeto das modificações - Nesta fase, o analista deve propor melhorias das condições de
trabalho tanto no aspecto da produção como no da saúde. As proposições devem estar
orientadas à transformação e melhoria efetiva das condições de trabalho, ao desenvolvimento
pessoal dos trabalhadores e à melhoria dos resultados do trabalho.
11. O cronograma de implementação das modificações - Os prazos devem ser compatíveis
com as transformações propostas, incluindo a implementação de testes, criação de protótipos
e processos de modelagem, dentre outras coisas.
12. Acompanhamento das transformações - Nesta fase, além da verificação da implementação
das modificações previstas, é preciso avaliar a adequação das mesmas em função do impacto
sobre os trabalhadores e sobre o desempenho do sistema, pois qualquer modificação acarreta
alterações das tarefas e atividades.
Na presente aplicação da AET, diversos instrumentos e técnicas foram usados para compreensão
das atividades, incluindo análise de documentos, entrevistas abertas com os operários e técnicos de
segurança do trabalho, observações livres e observações sistemáticas na célula de trabalho a fim de
avaliar atividade durante diversos horários do dia, levantamento de informações sobre o ambiente de
trabalho, fotografia, filmagem. As filmagens permitiram ainda a realização de entrevista de
confrontação, discutindo e validando com os operadores algumas percepções a partir da análise das
imagens.
Na etapa 7, de observação sistemática da atividade, considerou-se adequada a utilização do
sistema OWAS (Ovako Working Posture Analysing System). De acordo com Iida (2005), este
sistema foi desenvolvido em 1977 por três pesquisadores finlandeses, com o objetivo de
analisar posturas de trabalho na indústria siderúrgica. Os pesquisadores identificaram posições
de dorso, braço e pernas que combinadas geravam uma série de posturas características. Estas
posturas foram avaliadas junto a trabalhadores experientes e escalonadas em quatro classes de
criticidade progressiva variando desde “postura normal sem desconforto e sem efeito danoso à
saúde” até “postura extremamente ruim, provoca desconforto em pouco tempo e pode causar
doenças”.
O sistema OWAS propõe análise cruzada entre as posturas, a faixa de carga (ou força
aplicada) e o tempo de duração (medido como percentual da jornada de trabalho). O sistema
oferece duas tabelas simples cujas entradas são as condições de postura e carga ou tempo. A
saída das tabelas é a classificação da criticidade da situação de trabalho. A classe 1 indica
“postura normal, que dispensa cuidados a não ser em casos excepcionais” e a classe 4
“postura que deve merecer atenção imediata (IIDA, 2005).
3. Análise ergonômica do trabalho no setor de Dobra Off Line
A etapa inicial de explicitação, análise e reformulação da demanda foi realizada a partir dos
primeiros contatos com o engenheiro de segurança. Como dito na introdução deste texto, a
análise de informações de SST (saúde e segurança no trabalho), entrevistas com pessoal do
SESMT, CIPA e alguns operadores foram suficientes para identificar uma demanda real:
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absenteísmo de trabalhadores por DORT.
Na definição das situações de trabalho a analisar, a escolha da célula de Dobra Off Line como
foco prioritário de ação ergonômica foi validada junto a gerência, técnicos de segurança do
trabalho e os próprios operadores. Todos concordaram que este é um dos postos de trabalho
mais críticos para saúde do trabalhador na área de trefilação. Isto porque ainda existem
condições de trabalho desfavoráveis, o esforço físico exigido é excessivo e o número de
trabalhadores com problemas de saúde e até mesmo afastamento é o maior da área.
Partiu-se então para entendimento do processo técnico, da organização do trabalho e das
tarefas na célula produtiva em questão. O processo da Dobra Off Line é um dos mais antigos,
sendo o maquinário antiquado em relação a outros de mesma função na mesma área. Há cerca
de 5 anos, o efetivo de trabalhadores por turno foi reduzido 7 para 5 operadores, episódio este
justificado pela automatização de algumas atividades da máquina.
Neste setor trabalham 11 operadores, sendo cinco em cada turno e um de férias. No mês em
que nenhum dos operadores está de férias, um deles é emprestado a outra área. A operação
funciona em dois turnos, o 1º de 22:00 até as 8:00 e o 2º de 8:00 até 18:00 durante a semana e
no final de semana eles não trabalham. Aqueles que trabalharam na semana anterior no 1º
turno trabalharão na posterior no 2º e reciprocamente. No caso em questão uma turma tem um
operador mais experiente e a outra tem dois, para o caso de um deles entrar de férias não
prejudicar a equipe. A experiência no caso é determinada pelo tempo de trabalho e o
conhecimento técnico do processo. É permitido rodízio dos operadores entre as etapas do
processo. Este rodízio não é estruturado, não existe regra e nem todos os operadores passam
por todas as funções. O rodízio é acordado entre eles.
Inicialmente foi mapeado o perfil dos trabalhadores, abrangendo dados como tempo de
serviço na atividade, idade do funcionário e nível de escolaridade. Foram entrevistados todos
os onze operadores resultando no seguinte perfil. Todos são do sexo masculino. O nível
mínimo de escolaridade dos trabalhadores é o segundo grau completo (nível médio). Sendo
que um trabalhador possui nível superior e quatro são formados em nível técnico. A maioria
(73%) tem menos de 35 anos de idade. Foi encontrada a seguinte distribuição de faixa etária:
27% entre 18 e 24 anos, 46% entre 25 e 34 anos, 18% entre 35 e 44 anos, 9% com mais de 44
anos. Há predominância de operadores experientes, exemplificada pelo longo tempo de
trabalho na célula de Dobra Off Line: 18% com mais de 16 anos, 46% entre 6 e 15 anos e
36% com menos de 6 anos.
Os operadores da Dobra Off Line participam de reuniões diárias, onde são priorizadas as
tarefas e definidos os materiais a serem dobrados, além do que são relembrados os
procedimentos de segurança. Também são responsáveis pela limpeza da área dos postos de
trabalho. Os operadores precisam realizar todas as tarefas com concentração e atenção
quantos aos riscos de acidentes consigo e com colegas.
A partir de observações, entrevistas e análise dos mapas de risco e medições já realizadas,
foram identificados alguns problemas nas condições de trabalho:
• Temperaturas elevadas, ou seja, acima do indicado pela Norma Regulamentadora NR 17
(entre 20°C e 23°C)
• Ruído intenso, também em desacordo com a NBR 10152. Sendo assim é necessário o uso
de abafadores, que, no entanto, prejudicam a comunicação necessária entre os funcionários
durante a execução da tarefa, por exemplo, de separação dos feixes (Figura 1);
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• Má iluminação do local, também em desacordo com a NR 17/NBR 5413. O que prejudica
na execução da tarefa e até mesmo na visão de objetos no chão, ou em certos locais da
máquina, por exemplo, que possam vir a causar algum tipo de acidente.
• Piso sujo e escorregadio, com grande risco de acidente, seja perto da máquina, seja nas
outras dependências da fábrica.
• Problemas de sinalização das áreas mais críticas para os pedestres.
• Botão de parada de emergência em local de difícil visualização
Para melhor entendimento do processo técnico e tarefas todo o processo de produção da
célula de Dobra Off Line foi filmado. Posteriormente, através da análise do vídeo, foram
separadas as principais tarefas realizadas pela operação, como descritas abaixo:
a. Cortar amarras dos materiais;
b. Separar as barras e vergalhões entrelaçados e subdividir o material em subfeixes;
c. Cortar arame para as amarras;
d. Amarrar os subfeixes;
e. Acionar a esteira;
f. Empurrar subfeixe para esteira em plano inclinado;
g. Receber subfeixes da rampa;
h. Acomodar os subfeixes de quatro em quatro para formar um feixe maior;
i. Emitir e colocar a etiqueta no feixe;
j. Empurrar o feixe para a baia e pesá-lo.
A análise do processo técnico e das tarefas possibilitou a construção do seguinte prédiagnóstico. Os distúrbios osteomusculares podem estar relacionados à exigência de posturas
inadequadas, assumidas principalmente na realização das seguintes tarefas: (b) Separar as
barras e vergalhões entrelaçados e subdividir o material em subfeixes; (f) Empurrar subfeixe
para esteira em plano inclinado; (h) Acomodar os subfeixes de quatro em quatro para formar
um feixe maior e (j) Empurrar o feixe para a baia e pesá-lo.
As etapas críticas de operação foram validadas com os operadores. Outras situações típicas de
trabalho (reuniões, troca de turno, set up das máquinas etc.) não foram acompanhadas nem
avaliadas. A escolha foi feita em função da demanda de DORT e com base nas observações e
entrevistas com os operadores. Nas tarefas escolhidas, foi percebido maior esforço e adoção
de posturas mais desconfortáveis.
Na etapa de observação sistemática da atividade, considerou-se adequada a utilização do
sistema OWAS em função do pré-diagnóstico que relacionava os problemas de DORT à
adoção de posturas inadequadas durante a realização de algumas tarefas. Os textos a seguir
procuram carcterizar as atividades através de breves descrições e fotos. Foram realizadas
filmagens de aproximadamente vinte minutos de cada uma das atividades, duas vezes, em dias
distintos. Não houve possibilidade de medir a força exercida pelos operadores em cada fase
das tarefas. Por isso, foi usada apenas a tabela do sistema OWAS de Classificação de posturas
de acordo com a duração das posturas. O tempo de duração foi estimado a partir dos
aproximadamente 40 min de filmagem de cada tarefa.
Tarefa b. Separar as barras e vergalhões entrelaçados e subdividir o material em subfeixes
(Figura 1): Esta atividade consiste em destacar manualmente as barras na mesa de separação.
O operador que fica posicionado no meio da plataforma segura em uma das mãos o gancho e
com a outra mão, apoiando as barras, levanta o gancho com uma determinada quantidade de
barras até a altura da cintura. Os outros dois operadores o auxiliam na separação, um em cada
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extremidade. A quantidade de material separado de cada subfeixe depende da bitola a ser
separada, aquelas que têm pesos maiores são separadas de cinco em cinco e as menores de dez
em dez. São realizadas amarrações colocando uma amarra a mais ou menos 1 metro de cada
extremidade do subfeixe, e fazendo uma terceira amarra no centro do mesmo. Foi identificado
que ao realizar tarefas repetitivas vezes o operador adota constantes posturas inadequadas,
com sobrecarga principalmente para a coluna cervical e lombar, e membros superiores.
Figura 1 – Tarefa b: Separar as barras e vergalhões entrelaçados e subdividir o material em subfeixes.
Análise pelo sistema OWAS – % da jornada de trabalho na postura: Pernas retas e braços para
baixo (100% do tempo); dorso inclinado (cerca de 90% do tempo). Em função da postura de
dorso, a postura é classificada como 3: “Postura que deve merecer atenção a curto prazo”.
Tarefa f. Empurrar subfeixe para esteira em plano inclinado (Figura 2): Após ter sido criado o
subfeixe, os três operadores derrubam a montante de barras na estrutura em sua frente,
posteriormente elevam sua perna direita por cima do subfeixe e os empurram com a perna
esquerda, utilizando um dos pés empurrando para trás, conjuntamente com mais dois
operadores. Os operadores adotam posturas inadequadas, tais como: postura de pé, flexão de
uma das pernas e apoio sobre outra, flexão do tronco e da região cervical.
Figura 2 – Tarefa f: Empurrar subfeixe para esteira em plano inclinado.
Análise pelo sistema OWAS – % da jornada de trabalho na postura: Braços para baixo (100%
do tempo); dorso inclinado (cerca de 50% do tempo) e uma perna flexionada (cerca de 70%
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do tempo). Em função da posição de perna, a postura classificada como 3: “Postura que deve
merecer atenção a curto prazo”.
Tarefa h. Acomodar os subfeixes de quatro em quatro para formar um feixe maior (Figura 3):
Posteriormente à dobra dos subfeixes, o mesmo desce pela rampa, onde é acomodado por dois
operadores que ficam na parte de trás do equipamento. Os operadores realizam amarrações
em suas extremidades e após terem sido preparados quatros subfeixes, os mesmos operadores
ajeitam os quatros, um em cima do outro, e realizam a amarração em um feixe completo
Dobrando ao meio as espiras de fio-máquina, cortadas anteriormente, ficando as mesmas em
forma de arco, atravessando uma amarra em cada lateral da “cabeça” do feixe. Passando uma
amarra de fio-máquina aproximadamente 50 cm do “rabo” do feixe e uma amarra o mais
próximo possível do pescoço do feixe, com auxílio do torniquete. Nesta operação observa-se
que o operador trabalha de pé com movimento ritmado, com posturas inadequadas realizando
atividades repetitivas, com esforço físico em ritmo não controlado por ele, mas definido pela
velocidade da rampa.
Figura 3 - Tarefa h. Acomodar os subfeixes de quatro em quatro para formar um feixe maior.
Análise pelo sistema OWAS – % da jornada de trabalho na postura: Braços para baixo e
pernas retas (100% do tempo); dorso inclinado (cerca de 70% do tempo). Em função da
posição de dorso, a postura classificada como 2 : “Postura que deve verivicada na próxima
revisão rotineira dos métodos de trabalho”.
Tarefa j. Empurrar o feixe para a baia e pesá-lo (Figura 4): Após a amarração os operadores,
cada um em uma extremidade do feixe, empurra o mesmo para a baia de descarga utilizando a
força deslocando seu corpo para frente, o feixe é pesado e etiquetado. É visto que, ao
empurrar o feixe para a baia, o operador adota postura de pé, flexão do tronco apoio em uma
das pernas e esforço excessivo na outra perna flexionada.
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Figura 4 - Tarefa j. Empurrar o feixe para a baia e pesá-lo.
Análise pelo sistema OWAS – % da jornada de trabalho na postura: Braços para cima (cerca
de 30% do tempo); dorso inclinado (cerca de 60% do tempo); uma perna flexionada (cerca de
40% do tempo). Em função da posição de perna, a postura classificada como 3: “Postura que
deve merecer atenção a curto prazo”.
4. Recomendações
As recomendações a seguir não contemplam seus respectivos custos, são apenas sugestões de
como amenizar as situações de risco identificadas. Elas foram baseadas na análise ergonômica
do trabalho e foram vailadas (e/ou construidas em conjunto) com os operadores e pessoal do
SESMT.
4.1 – Recomendações gerais
Criar sistemas de comunicação entre os trabalhadores da célula através do próprio abafador e
a utilização de um microfone. Assim o que fosse dito por um trabalhador seria escutado pelos
demais, facilitando a sincronia da atividade e evitando a constante retirada dos abafadores.
Reprojetar o sistema de ventilação (reposicionando ventiladores e comprando mais caso seja
necessário). Reprojetar a iluminação com a adoção de lâmpadas mais potentes e alguns pontos
de iluminação direta.
Colocar funcionários responsáveis pela limpeza constante dos locais de trabalho. Melhorar a
sinalização de áreas restritas com placas e marcações no piso. Colocar o botão de emergência
em um local visível e de fácil acesso.
Pode-se observar que durante a realização de algumas tarefas, os operadores assumem
posturas críticas e estão submetidos a esforços que podem vir a causar lesões músculosesqueletais, fadiga e até mesmo afastamentos. Objetivando minimizar os efeitos nocivos,
podem ser adotados as seguintes medidas: pausas regulares; assentos no local; programa de
ginástica laboral preparatória (antes do início do expediente) e compensatória (durante a
jornada); programas de orientação sobre postura, levantamento e movimentação de cargas de
forma segura; introdução de rodízios planejados, visando relaxar determinados grupos
musculares mais utilizados em umas tarefas do que em outras.
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4.2 - Separar as barras e vergalhões entrelaçados e subdividir o material em subfeixes
Aumentar a altura da mesa em relação a base de apoio para que os operadores não fiquem
com o dorso tão inclinado. A adoção de uma mesa vibratória, tal como existe em outros
equipamentos na mesma unidade, facilitaria a separação dos feixes para formar os subfeixes.
Esse tipo de mesa vibratória tem o incoveniente de elevar o nível de ruído.
4.3 - Empurrar subfeixe para esteira em plano inclinado
Projetar modernização tecnológica no equipamento de forma que o transporte dos subfeixes
ocorra por baixo dos operadores, em um sistema mecanizado, sem necessidade de empurrar
com o pé.
4.4 – Acomodar subfeixes de quatro em quatro para formar um feixe maior
É perceptível um grande esforço no momento da amarração do feixe, pela necessidade do
material ficar tencionado para que não tenha o risco de soltar a amarra. Uma recomendação
para esta atividade novamente passaria por modernização tecnológica, passando a adotar um
sistema de amarração automática, como existente em outros processos similares ao da Dobra
Off Line, na mesma unidade fabril.
4.5 - Empurrar o feixe para a baia e pesá-lo
Na realização desta, fica claro o esforço intenso principalmente da musculatura dos membros
superiores. Ao realizar esta tarefa o operário está submetido a esforço intenso com
movimentação de carga acima dos limites recomendados. A movimentação provoca
novamente o surgimento de posturas inadequadas. Sendo assim, recomendamos que seja
colocado na máquina um dispositivo que elimine a necessidade do esforço físico do operador,
como um cilindro pneumático que teria a função de aparar o feixe e tomba-lo após a pesagem.
Essa recomendação foi aceita pela gerência e já está em fase de desenvolvimento.
5. Conclusões
Os limites de tempo e recurso para o trabalho realizado, impediram alguns aprofundamentos
importantes para compreensão mais ampla e profunda das atividades e das condições de
trabalho dos operadores da dobra off line. Notadamente é preciso avaliar se os limites de
carga em algumas atividades excedem o que seria recomendado, por exemplo, através da
aplicação da equação de NIOSH, conforme sugerido no Manual de aplicação da norma NR17.
Outro limite desta intervenção foi analisar apenas a situação de operação normal para
avaliação de esforços repetitivos. Sabendo que a DORT pode ser multicausal (esforços
repetitivos, esforço excessivo, pressão por resultado etc.) é preciso eleger outras situações
típicas de trabalho (trocas de turno, setup de máquina, manutenção, operação com equipe
desfalcada etc.).
Além disso, podemos dizer que a AET não foi concluída, uma vez que foram geradas e
validadas apenas sugestões. Para passar de recomendações a projeto de soluções, muitas
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XXIX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO
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informações terão que ser levantadas e muitas consequências avaliadas, inclusive para
priorizar a implementação de melhorias. Tais recomendações terão que ser avaliadas em
termos de viabilidade técnica e econômica e em função do seu impacto na atividade e suas
conseqüências (para os trabalhadores e para o desempenho do sistema produtivo).
Podemos considerar que o sucesso desta intervenção foi contribuir para identificação de riscos
ambientais e de causas do aparecimento de DORT e gerar, em conjunto com os trabalhadores,
várias recomendações consideradas pertinentes pelo pessoal da empresa. Uma das melhorias
proposta já está em processo de desenvolvimento (colocação de dispositivo automático que
elimine a necessidade do operador empurrar o feixe para baia), uma medida que acelera o
processo produtivo e reduz a fadiga do operador.
Outro objetivo do trabalho era incentivar, tanto no nível da liderança quanto no nível
operacional, a prática da ergonomia. O trabalho realizado também parece ter contribuído neste
sentido. Isto porque a AET, como uma intervenção participativa e focalizada, permitiu uma
percepção mais aprofundada do problema e a elaboração de novas propostas de melhoria que
não haviam sido pensadas a partir de outros métodos quantitativos e mais abrangentes. Como
colocado por Guérin et alii (2001), a AET contribui para a renovação dos enfoques em
segurança do trabalho.
Para satisfação dos autores, fica ainda a experiência de que o conhecimento adquirido na
graduação em engenharia de produção quando aplicado, mesmo em grandes empresas
multinacionais, pode contribuir para melhoria do desempenho da empresa e da qualidade de
vida dos trabalhadores.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Padrões e normas para iluminação em ambiente
de trabalho, NBR 5413/82, Rio de Janeiro: ABNT, 1982.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Níveis de ruído para conforto acústico. NBR
10152, Rio de Janeiro: ABNT, 1987.
DUARTE, F.J.C.M.; JACKSON, J.M.; SANTOS, P.; DUARTE, A.. XXIII. Da avaliação à transformação
das condições de trabalho: a intervenção ergonômica numa indústria gráfica; Anais do XXIII Encontro
Nacional de Engenharia de Produção; Ouro Preto, 2003.
ENEGEP 2003 ABEPRO 1IIDA, I. Ergonomia: Projeto e produção. 2. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 2005.
FALZON, P. “Natureza, objetivos e conhecimentos da ergonomia”, in FALZON, P. Ergonomia. Editora
Blucher, 2007.
GUÉRIN, F.; LAVILLE, A.; DANIELLOU, F.; DURAFFOURG, J. & KERGUELEN, A. Compreender o
trabalho para transformá-lo: A prática da Ergonomia. São Paulo: Edgard Blücher: Fundação Vanzolini, 2001.
IIDA, I. Ergonomia – Projeto e Produção, Ed. Edgard Blucher, 2005.
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO.; Manual de aplicação da Norma Regulamentadora NR 17. –
2 ed. – Brasília : MTE, SIT, 2002. (disponível em http://www.mte.gov.br/seg_sau/pub_cne_manual_nr17.pdf/).
Arquivo consultado em 2008.
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Norma Regulamentadora - Ergonomia; Portaria nº 3.751,
1990. (disponível em http://www.mte.gov.br/legislacao/normas_regulamentadoras/nr_17.asp). Arquivo
consultado em 2008
SOARES, M. M. 21 anos da ABERGO: a Ergonomia brasileira atinge a sua maioridade. Anais do ABERGO
2004. XIII Congresso Brasileiro de Ergonomia, II Fórum Brasileiro de Ergonomia e I Congresso de Iniciação
Científica em Ergonomia. Fortaleza, 2004
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ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO NO SETOR DE