A SENSITIVA
E
A MULHER MACACO
Esquetes cômicos
de
Luís Alberto de Abreu
CENA ÚNICA
A AÇÃO SE PASSA NO INTERIOR DE UM ÔNIBUS. ENTRA UM APRESENTADOR.
APRESENTADOR
Silêncio. Um momento de silêncio por favor. Essa é uma
atração vinda diretamente do milenar e centenário oriente
que tem décadas e mais décadas de existência. De lá de,
um vetusto, antigo e velho mosteiro de artes mágicas
desconhecidas, Xantra, a sensitiva. (APRESENTA-SE
XANTRA) Capaz de decifrar os mais íntimos segredos
dos homens e as mais pérfidas intenções das mulheres!
Todo mundo aqui, de agora em diante é um livro aberto.
Não existem segredos para essa mulher! Concentre-se,
Xantra! Concentre-se! Que é que eu tenho nas mãos,
Xantra!
XANTRA
Dedos!
APRESENTADOR
Sim, é óbvio! Mas o que tenho nos dedos, Xantra! Concentre-se!
XANTRA
Unhas!
APRESENTADOR
É claro, Xantra. No frio o cérebro dela demora a pegar!
Concentre-se mais. O que tenho entre os dedos?
XANTRA
Uma caneta.
APRESENTADOR
Maravilhoso, Xantra! (APRESENTADOR PÕE A MÃO NA
CABEÇA DE UM HOMEM) E agora, Xantra, o que você
vê em minha mão.
XANTRA
Uma cabeça.
APRESENTADOR
Que mais?
XANTRA
Uma cabeça grande... Nunca senti uma cabeça assim!
Um cabeção! O homem é bem provido de cabeça! Espere, deixe-me ter certeza! Vejo também pelos, muitos pelos
encaracolados...
APRESENTADOR
Cabelos, Xantra, cabelos!
XANTRA
Ah, é? É dessa cabeça que estamos falando?
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APRESENTADOR
Venha até mim, Xantra. Sinta, leia os pensamentos desse
homem e nos diga. (XANTRA PÕE A MÃO SOBRE O
HOMEM ) O que vê, Xantra?
XANTRA
Vejo um homem bonito, inteligente, charmoso... Espere...
a imagem está clareando...
APRESENTADOR
Esse homem bonito, inteligente, charmoso que você está
vendo é este homem? (REFERE-SE AO QUE XANTRA
TEM A MÃO SOBRE A CABEÇA)
XANTRA
Não.
APRESENTADOR
Que homem é este, então?
XANTRA
Não consigo saber. Problemas de recepção...
APRESENTADOR
Fale-me sobre este homem. (REFERE-SE AO PASSAGEIRO QUE XANTRA TEM A MÃO SOBRE A CABEÇA)
XANTRA
Sim, vejo. Este homem está caído...
APRESENTADOR
Onde?
XANTRA
Não consigo?
APRESENTADOR
Um acidente, talvez? Esse nosso amigo está ferido? Se
estiver morto... não diga! (XANTRA TAPA A PRÓPRIA
BOCA) Está? Onde? Em que circunstâncias? Diga, Xantra, diga!
XANTRA
Não!
APRESENTADOR
Diga, estou mandando!
XANTRA
Não, não está morto, pô! Respira mas geme!
APRESENTADOR
Gravemente ferido? Em que estrada, Xantra? Diga para
que este homem possa se precaver.
XANTRA
Não é uma estrada.
APRESENTADOR
Um parque, uma praça. Foi assalto?
XANTRA
Não.
APRESENTADOR
Um estádio de futebol depois de briga da Gaviões e Mancha Verde?
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XANTRA
Espera! Está ficando claro. O homem! Aquele homem bonito, inteligente e charmoso está aparecendo!
APRESENTADOR
Diga, diga mais, Xantra!
XANTRA
Está se aproximando deste homem. Se curva.
APRESENTADOR
É um médico? É a salvação que chega, graças a Deus!
Ele presta os primeiro socorros? Este nosso amigo retorna à vida? Diga, Xantra!
XANTRA
Este homem sorri agradecido!
APRESENTADOR
Está salvo, meu amigo. Escapou de boa. Diga mais, Xantra! Diga mais do futuro desse nosso amigo para que ele
possa se precaver!
XANTRA
As imagens estão um pouco embaçadas... O homem
charmoso...
APRESENTADOR
O médico! Sim, Xantra, o que tem ele...
XANTRA
Levanta-se um pouco e abaixa-se novamente... levantase e abaixa-se...
APRESENTADOR
Não entendo... Estão na cirurgia? Esse médico tem um
crachá? Consegue ver o nome dele, o nome do hospital?
XANTRA
Abaixa, levanta... O nosso amigo aqui, deitado, sorri.
APRESENTADOR
O médico faz exame? Está vestido de branco ou com uniforme verde de cirurgia. Diga, Xantra, por favor.
XANTRA
Está nu!
APRESENTADOR
Tem um bisturi nas mãos? (CAI EM SI) Nu? (XANTRA E
APRESENTADOR CONGELAM O MOVIMENTO. REAGEM, TROCANDO OLHARES UM TANTO DIVERTIDOS
E CONSTRANGIDOS) O que é que um médico faz nu...
(CAINDO EM SI) Não era médico? Nem o nosso amigo
está num leito de hospital? Quem sabe hoje falhou...
XANTRA
(OFENDIDA) Você me ofende. Eu nunca errei em minhas
previsões! (AFASTA-SE)
APRESENTADOR
Espera, Xantra! Não vá embora, não se desconcentre!
(PERGUNTA AO HOMEM) O amigo quer saber alguma
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coisa mais? Xantra, consegue descobrir o nome, endereço, telefone do outro? Assim você não pede tanto tempo
na procura! Alguém mais quer provar o futuro? Muito obrigado, Xantra. Muito reveladoras as suas visões de hoje! (XANTRA SAI) Quanto a você meu amigo, assuma e
seja feliz! E, agora, mais uma grande atração de nosso
ônibus circense. Crianças, retirem-se da sala! As mulheres grávidas saiam para parir antes de assistirem às próximas cenas. Cardíacos, pessoas impressionáveis e cabras frouxos abandonem o recinto porque, diretamente
das florestas de Bornéus, que de tão longe nem imagino
onde fica, ela, Monga, a mulher-macaco! (APARECE
MULHER VESTIDA DE MAIÔ) Vejam, assim Monga parece uma degustável fêmea do gênero feminino da espécie humana mas não, não se aproximem, tirem a mão,
não se enganem. Monga não é o que aparenta. Monga é
um símio perigosíssimo da espécie dos macacos. Lá na
selva, de dia Monga tem essa agradável aparência, à noite se transforma no mais terrível fêmea-gorila. Gastamos
meses para capturá-la. De noite tentávamos atraí-la com
cachos de bananas e de dia com garotos de programa.
Tomem cuidado porque aqui, no Largo 13, Monga se
transforma a qualquer hora do dia e da noite. Quem acreditaria que uma mulher tão apreciável pudesse se
transformar em algo tão terrível! Vejam, está começando!
Começa a se encher de pelos. Os pelos se multiplicam no
alto da cabeça e sob a parte de baixo do biquini! Vejam,
agora também debaixo do braço! Não, não é a moda dos
anos setenta que está de volta! Esta mulher realmente
começa a se transformar em Monga, a mulher-macaco.
Vejam, ela inteira vai se transformando! Vejam a fúria, vejam como se transforma em algo pior do que a patroa com
TPM, em algo pior do que quando vê mancha de batom
em sua camisa, e perfume diferente em seu pescoço,
meu amigo! (FAZ-SE A TROCA COLOCANDO-SE AGORA UM ATOR COM AS ROUPAS DE MONGA) Agora, num patrocínio de ladishave, o depilador da mulher
moderna, da cera quente barba-azul, Monga! Veja, agora
a transformação está completa. Mas fiquem tranquilos!
Essas correntes que prendem seus pés são feitas de uma
liga metálica de especial resistência! (MONGA TENTA SE
SOLTAR) Calma, Monga! Calma, gente! Não há motivo
prá pânico porque eu vou sair para chamar ajuda! (MON5
GA SE SOLTA, LUZES DE APAGAM. QUANDO AS LUZES SE ACENDEM MONGA ESTÁ SENTADA NO COLO DE ALGUM PASSAGEIRO. AO PASSAGEIRO) Calma, meu senhor, muita calma. Monga se lembra de seu
companheiro ainda na selva de Bornéus, ela está solitária
e só precisa de carinho. Faz um carinho nela, faz. Faz ou
vai ser pior! Monga só quer amor, Monga só precisa de
uma noite de amor! O senhor é um privilegiado porque,
observe, já começa a transformação! Logo ela será gente
novamente, solitária, carente e calma, pronta para uma
noite de amor. Transforme-se, Monga! Transforme-se, já!
(ATOR REVELA-SE) Monga só tem uma exigência: o hotel, meu amigo, é por sua conta! (MUSICA CIRCENSE) E
assim meus amigos, encerra-se o nosso espetáculo de
agora. Não aceitamos reclamações, não fazemos devoluções de ingressos, nem referências caluniosas às nossas
progenitoras! Boa noite e até mais!
FIM
Qualquer utilização deste texto, parcial ou total,
deve ter a autorização do autor:
Luis Alberto de Abreu
Telefone: (0xx11) 48287230
e-mail: [email protected]
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A SENSITIVA - Encontros de Dramaturgia