OPINIÃO OPINIÃO Animação vocacional D entro das propostas do 2° Congresso Vocacional do Brasil, o pano de fundo é o “serviço de animação vocacional”, entendido como alma de toda a Ação Evangelizadora da Igreja. O que pode acontecer é que ainda mantenhamos um trabalho evangelizador em gavetas, onde uma ação não tem nada a ver com a outra. A dimensão vocacional, entendida como despertar da consciência do ser Igreja, do primeiro chamado à vida de santidade, é a raiz de onde brotará os mais variados ministérios na e para a Igreja. É preciso criar um clima vocacional. A realização deste 2° Congresso quer ser uma retomada das conclusões do primeiro, aquele de 1999. Além disso, deseja ser uma grande comunhão de experiências, no rumo de uma animação vocacional de todos os ministérios, principalmente do ministério de especial consagração. No dinamismo evangelizador, o trabalho vocacional - nas etapas do despertar, discernir, acompanhar e formar - deve se tornar uma preocupação de toda a comunidade eclesial. Que haja pessoas envolvidas diretamente ou responsáveis de programas, até que se entende. O que não dá mais é confiar a uns poucos iluminados, por mais competentes que sejam, toda a responsabilidade do trabalho vocacional nas suas várias etapas. A comunidade eclesial precisa sentir que as vocações não nascem das nuvens. A grande geradora das mais variadas vocações é a comunidade. Alguns anos atrás a fonte das vocações era a família, mas hoje a situação é outra. Não nego que ainda há famílias gerando vocações, mas é necessário que a comunidade esteja aberta para acolher e proporcionar uma experiência de fé. Na medida que as pessoas chamadas crescem na sua experiência de fé, sentirão os verdadeiros sinais do chamamento e poderão responder com maior liberdade e certeza. A perseverança será muito maior e a eficácia do processo formativo será muito mais eficiente. No entanto, logo que o jovem ou a jovem manifesta sinais de um chamado, lhe são colocadas grandes responsabilidades na comunidade ou é levado para a casa de formação, sem nenhuma preparação e sem qualquer respeito pela sua caminhada de fé. Enquanto não soubermos respeitar o processo de amadurecimento da experiência divina, tendo a paciência de Deus para discernir os verdadeiros sinais do chamamento, para depois levar a pessoa a um compromisso maior na comunidade ou inseri-la em uma comunidade formativa, continuaremos cometendo os mesmos erros de sempre. Antes de formar ministros leigos e leigas ou ministros consagrados e consagradas, é necessário formar o cristão, fazer discípulos, como o Mestre mandou. Isto é, seguidores de uma disciplina, de um estilo de vida, segundo o Mestre. Somente fazendo a experiência do discipulado é que se poderá ser apóstolo ou apóstola, consagrado ou consagrada. O serviço de animação vocacional passa necessariamente pelo caminho de discipulado de Jesus. D. Anuar Battisti Presidente da CMOVC-CNBB 1 EDITORIAL S NESTA EDIÇÃO e na edição passada falou-se que estava tudo pronto para a realização do 2º Congresso Vocacional do Brasil, agora já estamos vivendo o dia a dia do evento. Três seções da Rogate - “Opinião”, “Entrevista” e “Pastoral Vocacional” - tratam do assunto. Em termos de conteúdo, isto representa quase metade da revista, e não poderia ser diferente. A expectativa em torno das reflexões, das oficinas de trabalho, da elaboração do documento final... É um marco histórico, como foram tantos outros congressos vocacionais (ver “Pastoral Vocacional”). Mas não podemos nos esquecer que setembro é o mês da Bíblia. O teólogo Mário Bandeira nos apresenta um estudo sobre a Palavra de Deus, em chave vocacional, aprofundando três conceitos intimamente relacionados, sinais expoentes da comunicação: Palavra, Vocação e Missão. A Palavra gera, salva e santifica a Vida; a Palavra se corporifica pelo chamado à missão. Vale a pena conferir! Por fim, dois eventos recentes mereceram destaque: o Mutirão Brasileiro de Comunicação (em “Atualidades”) e o Intereclesial das CEBs (em “Especial”). Entrevista Vamos à praça, à vinha do Senhor Pastoral Vocacional E chegamos ao 2º Congresso Vocacional do Brasil Fundada em abril de 1982 e registrada no Livro de Matrículas de Jomais do 1º Cartório de Registros de Títulos e Documentos, sob o nº 98.906, nos termos dos artigos 8º e 9º da Lei Federal nº 5.259/67, São Paulo (SP), em 1º de outubro de 1987. A revista é de propriedade dos Rogacionistas do Coração de Jesus, em colaboração com as revistas: Rogate Ergo e MondoVoc (ltália), Vocations and Prayer (EUA) e Rogate Ergo (Filipinas). Os artigos assinados não expressam, necessariamente, a opinião da Revista 2 07 Atualidades Mutirão Brasileiro de Comunicação 14 Especial 11º Encontro das CEBs 16 Estudo Chamados à Palavra 17 Informação 22 Leitor 23 Mística da Vocação Santo Agostinho, um convertido 24 ENCARTES A Turma do Triguito Celebração Vocacional Enviados em missão Capa: A Vila Kostka, em Itaici, Indaiatuba (SP), palco do 2º Congresso Vocacional do Brasil (foto da missa de encerramento do 1º Congresso, em 1999). DIRETOR DE REDAÇÃO SEDE CENTRAL/CONTATOS Juarez Albino Destro Direção, Editoria, Secretaria e Administração: Tel.: (11) 3932-1434 Fax: (11) 3931-3162 E-mail: [email protected] Http://www.rogate.org.br Rua Comandante Ferreira Carneiro, 99 02926-090 São Paulo SP Brasil EDITOR Ano XXIV - nº 235 Setembro de 2005 03 Jefferson Silveira COLABORADORES Armando del Mercato Jr. (capa), Geraldo Tadeu Furtado, Patrício Sciadini; Fábio Mattos e Vanderlei Mendes (encarte do Triguito) CONSELHO EDITORIAL Cinzia Giacinti, Írio e Neide Brogni, José Lisboa Moreira de Oliveira, Juçara dos Santos, Lédio Milanez, Rogério e Regiane Darabas JORNALISTA RESPONSÁVEL Ângelo Ademir Mezzari - Mtb 21.175 DRT/SP IMPRESSÃO Gráfica e Editora Linarth Ltda - Curitiba (PR) ASSINATURA ANUAL Normal: R$ 30,00 (10 edições ao ano) Colaborador: R$ 50,00 Exterior: US$ 25,00 (serviço prioritário) O pagamento poderá ser feito por: -Cheque Nominal -Vale Postal (agência 72.300.159-SP) -Depósito Bancário: Bradesco, agência 1171, conta 92.423-7, Colégio Rogacionista Pio XII (CNPJ 83.660.225/0004-44). Neste caso, enviar comprovante por fax ou correio, com nome e endereço completos. ENTREVISTA ENTREVISTA Vamos à praça, à vinha do Senhor Ana Besel, Irmã da Divina Providência e coordenadora da Pastoral Vocacional de Santa Catarina, ajudou na preparação do 2º Congresso Vocacional do Brasil, fazendo parte da Comissão Executiva I Fotos: arquivo pessoal rmã Ana Aparecida Besel nasceu na cidade de Brusque, em Santa Catarina, no dia 06 de agosto de 1966. Seus pais tiveram sete filhas. Ana é a primogênita e a única que fez a opção pela vida consagrada. Aos 14 anos entrou no mundo do trabalho, numa indústria de tecidos, onde aprendeu a arte da costura. Participou do Grupo de Jovens em sua comunidade e, aos 19 anos, entrou na Congregação das Irmãs da Divina Providência, em Florianópolis (SC). O instituto tem como carisma a fé, o abandono e a confiança na Divina Providência. As Irmãs atuam nas áreas da educação, saúde, assistência social e pastorais diversas. Após os primeiros votos, freqüentou o curso de Magistério no Colégio São Luís, em Jaraguá do Sul (SC). No início de 1993 foi transferida para o Colégio Coração de Jesus, de Florianópolis, assumindo aulas de Educação Religiosa. Neste ano foi convidada a fazer a Escola Vocacional, em Curitiba, integrando, logo após, a equipe de Pastoral Vocacional da Arquidiocese de Florianópolis, onde está até hoje. Formou- se em Ciências Religiosas e Pedagogia, com Pós-graduação em Educação. Em 05 de outubro de 1996 professou os votos perpétuos. É co-fundadora da Escola Vocacional para agentes da Animação Vocacional da Arquidiocese de Florianópolis. Ir. Ana coordena a Pastoral Vocacional no Regional Sul 4 (Santa Catarina) desde setembro de 2003. Ela é também diretora do Colégio Sagrada Família, em Blumenau (SC). Nas horas vagas “diverte-se” como uma autêntica webdesigner, atualizando e criando algumas páginas na Rede Mundial de Computadores (exemplo: www.sagrada.net). Ir. Ana ajudou na preparação do 2º Congresso Vocacional do Brasil, fazendo parte da Comissão Executiva. E é sobre isto que ela falou à Rogate. Rogate: A realização deste 2° Congresso Vocacional do Brasil demonstra que o tema vocações tem conquistado seu espaço na Igreja ou ainda há uma longa caminhada pela frente? Ir. Ana: A partir do Concílio Ecumêni3 ENTREVISTA co Vaticano II, e principalmente agora com coordenadores regionais da área vocacioa realização deste 2º Congresso Vocacional nal, e mesmo ouvindo o assessor nacional do Brasil - que está fazendo um resgate do - Pe. Tarcísio Rech -, a proposta do trabapróprio Concílio -, percebo que nós, como lho de base foi bem assumida por todos, Igreja, estamos num processo de avanço, com dinamismo, novo ardor, interesse e um pouco mais conscientes que ainda teenvolvimento. Percebe-se abertura de oumos um grande caminho a percorrer. O tras pastorais e ministérios em se trabatema deste nosso 2º Congresso Vocacional lhar em conjunto, envolvendo os regionais é bastante pertinente, pois somos um povo e as dioceses. O congresso, de fato, realia serviço da vida e devemos za-se quando os animadores caminhar nesta direção. E ou os coordenadores vocacioDeus tem um projeto resernais fazem chegar a semente a Nós, enquanto vado a cada um de nós. cada um. animadores vocacionais, Rogate: Que paralelo faz Rogate: O Concílio Vaticadevemos anientre o 1° Congresso, realizano II celebra 40 anos de condo em 1999, e esta segunda ediclusão em 2005 e merecerá esmar os leigos a ção? pecial destaque no Congresso. sempre mais Ir. Ana: O 1º Congresso O que está sendo programado assumirem a Vocacional do Brasil abordou neste sentido? sua vocação e aprofundou a questão da TeIr. Ana: Um dos objetivos específica, ologia da Vocação e apresendeste 2º Congresso Vocaciotou os cenários da Igreja, renal do Brasil é realmente cea partir do fletindo sobre o tipo de Igreja lebrar os 40 anos da conclubatismo. que somos na atualidade ou são do Concílio Vaticano II, qual Igreja estamos construestando em sintonia com este indo. Este 2º Congresso regrande evento eclesial. O presenta um avanço. Se a primeira edição Congresso vai resgatar o que aconteceu nos deu clareza do que é ser Igreja, agora no Concílio, vai revigorar nossa identidavem o aprofundamento ou a conseqüência de enquanto Igreja, povo de Deus. disto: a missão. “Ide também vós para a minha vinha” (Mt 20,4) é o lema desta seRogate: Qual a importância do Concígunda edição. Deus nos chama e envia em lio Vaticano II para a caminhada vocaciomissão, respeitando e caminhando confornal, especialmente no que se refere ao papel me o itinerário vocacional de cada um - o dos cristãos leigos e leigas? despertar, o cultivar, o acompanhar e o disIr. Ana: O Concílio Vaticano II foi chacernir. mado de Concílio da Igreja. Pela primeira vez em sua história, a Igreja fez em concíRogate: Como avalia a preparação relio uma extensa e intensa reflexão sobre alizada pelos Regionais da CNBB em vista si mesma. Os seus 16 documentos têm do Congresso Vocacional? Foi possível encomo núcleo de referência a Igreja, sua volver os 17 Regionais? identidade e sua importância. O Concílio Ir. Ana: Segundo o que ouço de outros tem um significado muito especial a todos 4 ENTREVISTA nós, pois vem resgatar o que estava adormecido, o que estava esquecido nos concílios anteriores, que é justamente a vocação dos cristãos leigos e leigas. Hoje não se concebe uma Igreja sem a presença e o engajamento dos leigos e leigas. Para o Vaticano II, o leigo é sim uma vocação. Os cristãos leigos e leigas são fermento e luz das nações, fazem o Reino de Deus acontecer. Nós, enquanto animadores vocacionais, devemos animar os leigos a sempre mais assumirem a sua vocação dentro da Igreja a partir do batismo. O princípio da totalidade da Igreja exige que não se considere somente a hierarquia, mas também - a igual título e em base à mesma motivação - o laicato, na sua relação com o todo do Povo de Deus. Isto quer dizer que, mantida a distinção das funções, os leigos são tão importantes para a Igreja quanto a hierarquia. Sem hierarquia não há Igreja, mas também sem leigos, como diz o Decreto Conciliar Ad Gentes (n. 21), a Igreja não se acha consolidada, não vive plenamente, não é um perfeito sinal de Cristo entre os homens. O evangelho não pode ser fixado na índole, na vida e no trabalho de um povo sem a ativa presença dos cristãos leigos. Por isso mesmo, desde a fundação de uma Igreja, tenha-se o máximo cuidado para constituir um laicato cristão maduro. Rogate: O que é possível esperar da atuação do papa Bento XVI no que se refere às vocações? Ir. Ana: Vejo que o novo papa vai dar continuidade ao que o anterior vinha fa- zendo. Percebo que Bento XVI vai deixar o Espírito Santo conduzir a Igreja, demonstrando uma certa abertura, diálogo e trabalho em grupo. Concordo com o teólogo Ênio Brito, quando afirmou - nesta mesma revista Rogate (n. 233, jun-jul/2005) que o papa João Paulo II teve um olhar carinhoso para com os jovens, sendo referência, homem da paz, arrojado. Bento XVI poderá repetir este “olhar”, mas não será meramente por seus discursos que os jovens serão atraídos, mas pelos seus gestos proféticos. Rogate: Em uma sociedade neoliberal, como a nossa, onde são valorizados aspectos como individualismo, produção, consumismo, prazer, o serviço de animação vocacional tem um grande desafio pela frente. Neste contexto, como trabalhar ou animar as vocações específicas à vida consagrada e ao ministério ordenado? Ir. Ana: Tanto a vida consagrada quanto a vocação ao ministério ordenado exigem um estilo de vida que o mundo neoliberal não consegue entender. Os Conselhos Evangélicos (Pobreza, Castidade e Obediência) nos fazem dar testemunho de uma vida comunitária, simples, de doação, na gratuidade e espontaneidade, vivendo o compromisso com o “sim” dado a Deus, renovado a cada dia. Isto vai na contra-mão do que a sociedade neoliberal prega hoje. O testemunho, a alegria em defesa da vida, a solidariedade com os pobres e excluídos é a melhor forma de se fazer animação vocacional. 5 ENTREVISTA Rogate: Ainda em relação a este munserviço dos outros. Continuemos unidos do globalizado, com seu ritmo veloz, no qual em oração e no trabalho da vinha do Seo novo logo se torna obsoleto, o que o serviço nhor, cultivando nossa vocação específica, de animação vocacional deveria oferecer ao de cristãos leigos e leigas, de consagrajovem para que ele possa discernir sua vodos e consagradas, de ministros ordenacação? dos. Afinal, temos a grande Ir. Ana: A animação vocaresponsabilidade de divulgar Devemos ser cional deve se preocupar em a Boa Nova de Jesus, sendo apresentar o projeto de Jesus homens e mulheres de espehomens e Cristo e os seus valores, que rança, entusiasmados pelo mulheres de não são ilusórios, mas dão seprojeto de Deus. Vamos à praesperança, gurança. Enquanto os projetos ça, à vinha do Senhor, cultientusiasmados da sociedade são transitórios vando nossa vocação, não deie descartáveis, a proposta de pelo projeto de xando morrer o ideal de um Cristo é alicerce. A juventude novo mundo. A pastoral vocaDeus. é um terreno fértil para lançar cional, ou o serviço de animaVamos à praça, ção vocacional, engloba todas as sementes deste projeto. A à vinha do boa semente poderá dar bons as vocações. Por isso mesmo frutos e satisfazer o coração de Senhor... a Igreja deve ser vista em sua qualquer ser humano. totalidade de povo de Deus. Enquanto não tivermos crisRogate: Para terminar, que mensagem tãos leigos e leigas engajados, assumindo deixaria aos leitores da Rogate e aos anide forma missionária o seu batismo, lamadores e animadoras vocacionais de todo mentaremos a escassez de vocações. Peso Brasil? soas dispostas a assumir uma radicalidade Ir. Ana: Sejamos gratos a Deus, por na consagração ou no ministério ordenado nos ter vocacionado à vida. Estejamos surgem de comunidades engajadas, com o sempre atentos, disponíveis ao Espírito espírito missionário aflorando. Estejamos, Santo que, de maneira exeburante, distriportanto, preparados a sempre orientar as bui a toda a humanidade, à Igreja, dons, vocações que nascem em nossas famílias carismas, para que possamos colocá-los a e comunidades. ANÚNCIO CATTONI 6 PASTORAL VOCACIONAL VOCACIONAL E chegamos ao 2º Congresso Vocacional do Brasil O resgate da história permite uma melhor visualização do atual contexto, possibilitando fazer novos projetos para o futuro S cando a oração vocacional como o princierá que alguém acreditaria se dissespal meio de obtê-las: “Todos devem se sem que a idéia de se realizar este esforçar para que se multipliquem os vi2º Congresso Vocacional do Brasil gorosos e diligentes operários da vinha do nasceu há uns 70 anos? Afinal, todos sabeSenhor. Dentre todos os meios que se pomos que o projeto foi aprovado na 39ª Asdem empregar para se sembléia da Conferência Fotos: Arquivo Rogate/IPV conseguir tão nobre finaNacional dos Bispos do lidade, o mais fácil e, por Brasil (CNBB), no resua vez, o mais eficaz e cente 2001, com o objeo mais exeqüível a todos tivo de realizar uma ex(e que, portanto, todos periência semelhante a devem empregar) é a de 1999, quando tiveoração, segundo o manmos o 1º Congresso. E damento do próprio Jese resolvêssemos analisus Cristo: A messe é sar de onde surgiu a Participantes do 1º Congresso Vocacional grande, mas os operários idéia desse primeiro do Brasil, realizado em 1999 são poucos: rogai, pois, congresso nacional? Aí ao Senhor da messe que envie trabalhadonão teríamos escolha: uma sucessão de res para a sua messe (Mt 9,37-38). Que oraeventos significativos nos levaria ao lonção pode ser mais agradável ao Coração gínquo 1935, ou mais além... Santíssimo do Redentor? Qual outra pode nos dar esperança de ser ouvida mais ra1. Ad catholici sacerdotii pidamente e nos conceder mais frutos do Esta Carta Encíclica de Pio XI (1922que esta, tão conforme os ardentes dese1939), sobre o sacerdócio católico, de 20 jos daquele divino Coração?” (Ad catholici de dezembro de 1935, no 56º aniversário sacerdotii, 61). de sua ordenação sacerdotal, pode ser conSe esta Encíclica pode ser considerada siderada o início de uma lenta gestação o germe da moderna pastoral vocacional, rumo aos atuais conceitos que se tem de não podemos omitir uma certa preparação pastoral vocacional, por acentuar a necesbastante próxima a este momento histórisidade de se ter vocações na Igreja, destaco. Trata-se da obra de Santo Aníbal Maria 7 PASTORAL VOCACIONAL Di Francia (1851-1927), considerado por muitas destas Congregações e institutos João Paulo II - na época de sua beatificareúnem-se e formam o Instituto de Pastoção, em 1990 - o “autêntico antecipador e ral Vocacional (IPV), tão conhecido em mestre da moderna pastoral vocacional”. nosso País por seu serviço vocacional, nas Após intuir o grande valor vocacional do áreas da formação, pesquisa e produção. convite evangélico da oração pelas vocações (“Rogai ao Senhor da messe...” = 2. Pontifícia Obra das Vocações “ Rogate Dominum messis...”), Santo Se Pio XI contribuiu para o nascimento Aníbal o traduziu em carisma específico da moderna pastoral vocacional com a En(Rogate) dos institutos por ele fundados cíclica Ad catholici sacerdotii, Pio XII (os Rogacionistas e as Filhas do Divino (1939-1958) o fez com a insZelo). Os contatos de Pe. tituição da Pontifícia Obra das Aníbal com os papas da époVocações Sacerdotais, em ca, seja por cartas ou pessoal1941. A Pontifícia Obra, no mente, eram constantes. Ele aspecto canônico, tinha a finatinha convicção de que se toda lidade de promover as vocaa Igreja entendesse a dinâmições sacerdotais em toda a ca do Rogate e trabalhasse Igreja. No aspecto pastoral, para tal, as vocações não faldevia animar a criação e o intariam na Igreja e na sociedacremento - nas Igrejas locais de, os operários e as operári- de institutos vocacionais. Aníbal Di Francia, as na messe não seriam pouhoje santo, tinha Através destes, a Pontifícia cos. Bento XV (1914-1922), convicção de que se Obra das Vocações poderia por exemplo, no dia 10 de toda a Igreja entendesse produzir subsídios, convocar maio de 1921, recomendou a dinâmica do Rogate congressos ordinários e soleuma indulgência plenária a e trabalhasse para tal, nes, manter contato com os quem, por uma hora, rezasse as vocações não organismos associados, obter diante de Jesus Sacramentarelatórios de suas atividades do para obter santas vocações, desenvolvidas, ajudar financeiramente em escrevendo e publicando uma oração esalguns projetos. pecífica para tal, com destaque ao divino O Concílio Vaticano II (concluído em mandamento do Rogate. Pio XI, certamen1965) acabaria renovando os objetivos da te sob os pedidos insistentes de Pe. Aníbal, Pontifícia Obra das Vocações Sacerdotais, promoveu um dia anual de oração, em tornando-a mais abrangente, responsável Roma e em todas as dioceses do mundo, por animar toda a atividade pastoral para pelas vocações. as vocações, trabalhando em vários níveis Não podemos nos esquecer que a esta de circunscrição eclesiástica - diocese, reobra de Santo Aníbal vem associada a do gião, país -, sob a coordenação dos pastovenerável Justino Maria Russolillo (1891res locais, com a colaboração de todos os 1955), fundador da Congregação dos Vocaresponsáveis, a serviço de todas as vocacionistas, a do bem-aventurado Tiago Alções, para o bem de toda a Igreja. Talvez berione (1884-1971), fundador da Família por isso que o organismo passou a ser dePaulina, e tantas outras. Hoje, no Brasil, 8 PASTORAL VOCACIONAL signado de Pontifícia Obra das Vocações Eclesiásticas, entendendo, aí, todas as vocações da Igreja (Cristãos Leigos e Leigas, Consagrados e Consagradas, Ministros Ordenados). A Pontifícia Obra das Vocações pertence à Congregação para a Educação Católica (dos Seminários e dos Institutos de Estudo). Em 2002, o papa João Paulo II, em seu discurso aos participantes da Assembléia da Congregação para a Educação Católica, recordou a importante missão deste organismo: “No setor vocacional é precioso o trabalho da Pontifícia Obra das Vocações Eclesiásticas, que desde o distante ano de 1941 acompanha e anima a pastoral vocacional. Nela, a ação principal é a oração, em obediência ao mandamento de Cristo: Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe (Mt 9,38; Lc 10,2). Por isso, tem grande valor o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, a fim de envolver todas as comunidades cristãs numa geral e intensa oração, para que não faltem numerosas e santas vocações sacerdotais e religiosas” (n. 06). 3. O Vaticano II e os Congressos Vocacionais Pode-se dizer que, pela primeira vez na história, um Concílio Ecumênico ocupouse do tema “vocacional”. A matéria, ao final, resultou distribuída em vários documentos. O Concílio “representou uma verdadeira reviravolta para toda a comunidade cristã”, segundo o teólogo vocacionista, Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira. Em seu livro “Evangelho da Vocação” (IPVLoyola, 2003), o teólogo resume em poucas linhas todo o avanço na consciência vocacional de que a Igreja era chamada: “O mérito do Vaticano II foi pensar a Igre- ja a partir de uma nova eclesiologia, dando assim suporte a uma ação de maior comunhão e de maior participação de todas as pessoas batizadas” (p. 19-20). Após o Concílio Vaticano II, a Pontifícia Obra das Vocações desenvolveu um amplo programa de eventos, que poderíamos dividi-lo em quatro fases ou momentos intimamente coligados entre si, num processo contínuo: internacional, nacional, diocesano e continental. 3.1. Fase Internacional Corresponde aos primeiros anos logo após a conclusão do Concílio Vaticano II. Esta fase foi caracterizada por diversos congressos promovidos com o objetivo de sensibilizar os responsáveis pelas vocações dos diversos países, a fim de trocar experiências e iniciar uma caminhada em comum. Foram realizados quatro congressos internacionais dos diretores nacionais, nos anos de 1966, 1967, 1969 e 1971. No primeiro, apenas os coordenadores vocacionais da Europa foram convidados, por motivos práticos. No terceiro, em 1969, representando a América Latina, participou o secretário do então DEVOC (Departamento de Vocações) - hoje DEVYM (Departamento de Vocações e Ministérios) do CELAM (Conselho Episcopal Latinoamericano). Por fim, o congresso de 1971 ofereceu uma valiosa contribuição às Igrejas nacionais, na elaboração de seus “Planos de Ação” para as vocações. O trabalho de aplicação do Concílio Vaticano II entrava, assim, em uma nova fase. 3.2. Fase Nacional A Pontifícia Obra das Vocações, nesta fase, convidou as Conferências Episcopais a elaborarem e publicarem os seus Planos 9 PASTORAL VOCACIONAL de Ação Nacional para as Vocações. Muitos países responderam positivamente, entre eles o Brasil. No 1º Congresso Internacional dos Bispos delegados das Conferências Episcopais, de 20 a 24 de novembro de 1973, em Roma, estes Planos de Ação foram objeto de reflexão e debate. O documento final (cf. CNBB, A Pastoral Vocacional; realidade, reflexões e pistas, Estudos da CNBB 05, 1974) apresenta a necessidade de uma reflexão teológica segura e adaptada, com um plano de ação que possa ajudar as pessoas a descobrirem seu chamado na Igreja e no mundo, e a assumirem - a partir desta descoberta - sua missão, seu compromisso (cf. n. 07). O documento apresenta, ainda, alguns princípios da pedagogia e da organização da pastoral vocacional. 3.3. Fase diocesana Nesta fase, o convite era para que os bispos preparassem os seus Planos de Ação Diocesanos para as Vocações. Não seria suficiente, de fato, um Plano de Ação nacional sem um Plano de Ação diocesano. Afinal, em última instância, é na Igreja local que se desenvolve um autêntico serviço de animação vocacional, sob a responsabilidade direta dos pastores locais. Na fase de preparação ao 2º Congresso Internacional dos Bispos e de outros representantes das Vocações Eclesiásticas (ou simplesmente Congresso Internacional das Vocações), chegaram mais de 700 planos diocesanos, de todas as partes do mundo. Com este rico material, foi organizado o Congresso, realizado de 10 a 16 de maio de 1981, também em Roma. O tema geral: “Desenvolvimento da Pastoral Vocacional nas Igrejas Particulares”. O documento final foi muito bem acolhido pelas diversas nações. 10 3.4. Fase continental Após o conhecimento e o estudo do documento conclusivo do 2º Congresso Internacional das Vocações por parte das Igrejas particulares, iniciou-se, em 1986, uma nova fase. Trata-se do momento de verificar, atualizar e desenvolver a pastoral vocacional em nível de continente, através da realização de Congressos Continentais ou por áreas culturais afins, em vista de uma animação vocacional que melhor correspondesse às necessidades reais dos vários países. Dentro desta perspectiva, depois de 10 anos da realização do 2º Congresso Internacional das Vocações, em 1991, a Congregação para a Educação Católica e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica fizeram uma consulta às Conferências Episcopais a fim de verificarem o caminho percorrido no último decênio, com relação à aplicabilidade do documento final daquele congresso. A síntese das respostas pode ser encontrada num livro editado, em 1992, pela própria Pontifícia Obra das Vocações (ver quadro da página 11). Logotipo dos dois primeiros congressos continentais de vocações: América Latina, em 1994, e Europa, em 1997 PASTORAL VOCACIONAL Os Congressos Continentais O 1º Congresso Continental de Vocações aconteceu na América Latina, por ser o continente com o maior número de católicos. Foi realizado no Brasil, em Itaici, Indaiatuba (SP), de 23 a 27 de maio de 1994, com o tema: “A Pastoral Vocacional no continente da esperança”. O evento, embora promovido pela Santa Sé, teve a organização do CELAM e da CLAR (Conferência Latino-americana de Religiosos), juntamente com as Congregações para a Educação Católica - onde está a Pontifícia Obra das Vocações - e para os Institutos Religiosos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Vários motivos levaram a Santa Sé a escolher a Europa para a realização do 2º Congresso Continental de Vocações, de 05 a 10 de maio de 1997, em Roma, Itália, com o tema: “Novas vocações para uma nova Europa”. Dentre as motivações, indicouse a busca de unidade entre as diferentes e importantes culturas do continente: Greco-Latina, Anglo-saxônica e Eslava. O continente já se esforçava para construir uma “Comunidade Européia”, incluindo a partilha de valores humanos, morais e religiosos. Na organização do evento, além das duas Congregações que prepararam o 1º Congresso Continental (ver acima), participou a Congregação para as Igrejas Orientais. O 3º Congresso Continental de Vocações foi realizado na América do Norte, Canadá, de 18 a 21 de abril de 2002, com o tema: “Vocação: dom de Deus, ao povo de Deus”. Dentre as razões para a realização de um novo congresso continental na América estava a possibilidade de se ter uma visão completa do serviço de animação vocacional no continente americano inteiro. Além disso, seria um ótimo momento Documento de 1992 traz pontos ainda bastante atuais E m 1991, 10 anos após a realização do 2º Congresso Internacional das Vocações, a Congregação para a Educação Católica e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica fizeram uma consulta às Conferências Episcopais a fim de verificarem o caminho percorrido de 1981 a 1991, com relação à aplicabilidade do documento final daquele congresso. Hoje, olhando a conclusão da síntese das respostas daquela consulta, percebe-se que muitos pontos são ainda bastante atuais: - A pastoral vocacional vai assumindo o seu lugar nas comunidades cristãs. O mandamento de Jesus, “rogai ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe”, é considerado valor primário e essencial no que se refere às vocações. Cresce, portanto, a convicção de que a pastoral vocacional será ineficaz se não for sustentada pela oração e se não for acompanhada do testemunho de vida. - Entre os frutos que vão se manifestando nas Igrejas particulares, vêm sublinhados mais freqüentemente os seguintes: consciência cada vez mais clara da pastoral vocacional; teologia da vocação mais bem sistematizada; maior preocupação pela formação dos candidatos; número crescente de pessoas dedicadas à pastoral juvenilvocacional; criação de estruturas mais ativas e idôneas para a animação; consciência da co-responsabilidade comunitária em suscitar e acompanhar as novas vocações; crescimento da qualidade das vocações nos países que sofrem diminuições no número. - Aumenta a convicção de que a pastoral vocacional não é um simples âmbito ou um setor da pastoral da comunidade cristã, mas sim a perspectiva unificante de toda a pastoral, que é essencialmente vocacional. Cf. Pontifícia Obra das Vocações. Desenvolvimento da Pastoral Vocacional nas Igrejas Particulares, 1992, p. 50-52. 11 PASTORAL VOCACIONAL para relembrar aos bispos (primeiros animadores vocacionais) e aos responsáveis dos diferentes organismos, os problemas fundamentais da Igreja na América, uma vez que todos estavam ainda respirando os ares do Sínodo dos Bispos da América (cf. Ecclesia in America, 40). Os próximos Congressos Continentais deverão ocorrer, dentro desta fase, nos três continentes que ainda faltam: África, Ásia e Oceania (não necessariamente nesta seqüência). 4. O Brasil A história da moderna pastoral vocacional de nosso País situa-se dentro deste contexto mundial. É uma história bonita e cheia de iniciativas, desafios e conquistas, como já tivemos oportunidade de estudar nos documentos mais recentes, tanto no Texto-base preparatório ao 1º Congresso Vocacional do Brasil (n. 08-32), quanto no Texto-base do 2º Ano Vocacional do Brasil (n. 17- Alguns momentos que marcaram o 1º Congresso Vocacional do Brasil, realizado em 1999: o Texto-base preparatório, a foto oficial dos participantes (acima), o hino sendo cantado (ao lado) Missa conclusiva do 1º Congresso Vocacional, realizada no pátio da Vila Kostka, presidida pelo então bispo responsável do antigo Setor Vocações e Ministérios da CNBB, D. Angélico Sândalo Bernardino 12 C Foto: Douglas Mansur PASTORAL VOCACIONAL A home nage a D. Joe m l Iv Catapa n, o “bis o po das voc aç falecido ões”, no dia 1º de m aio de 1999 Os assessores do 1º Congresso Vocacional: Frei Clodovis Boff, Pe. João Batista Libânio e Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira 28) e, mais recente ainda, no Texto-base preparatório ao 2º Congresso Vocacional do Brasil (n. 12-43). O 1° Ano Vocacional do País, por exemplo, realizado em 1983, foi aprovado na 19ª Assembléia da CNBB, em 1981, mesmo ano da realização do 2º Congresso Internacional de Vocações. Esta assembléia também aprovou que o mês vocacional (agosto) fosse realizado em nível nacional. O 2º Ano Vocacional surgiria 20 anos depois (2003), sendo aprovado pelos bispos na 39ª Assembléia da CNBB, realizada em 2001, a mesma que aprovou a realização do 2º Congresso Vocacional do Brasil, em 2005. E o 1º Congresso Vocacional do Brasil, realizado em 1999, foi motivado - direta ou indiretamente - pelo 1º Congresso Continental de Vocações (Brasil, 1994). De fato, a idéia surgiu dentro do IPV, em 1997, e logo foi encaminhada ao então Setor Vocações e Ministérios da CNBB (cf. Texto-base do 2º Ano Vocacional do Brasil, n. 28). E assim chegamos ao 2º Congresso Vocacional do Brasil! Cf. SACCO Raffaele, Congressi Internazionali sulle vocazioni di ‘speciale’ consagrazione (Dizionario di Pastorale Vocazionale, Roma, Rogate, 2002, p. 279311); MAGNO Vito, Pastorale delle Vocazioni (Idem, p. 815-825). Pe. Juarez Albino Destro, RCJ 13 ATUALIDADES ATUALIDADES Mutirão Brasileiro de Comunicação Em sua 4ª edição, o mutirão debateu sobre Comunicação e Responsabilidade Social e reuniu cerca de 500 pessoas, que participaram de palestras, grupos de trabalho e oficinas E ntre os dias 10 e 15 de julho, na cidade de Guarapari (ES), foi realizado o 4° Mutirão Brasileiro de Comunicação, uma iniciativa da União Cristã Brasileira de Comunicação (UCBC), em parceria com Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e as organizações de comunicação da Igreja Católica: UNDA/ Brasil, Rede Católica de Rádio (RCR) e OCIC/Brasil. Cerca de 500 comunicadores se reuniram no Centro de Convenções do SESC de Guarapari para acompanhar as palestras e participar das diversas oficinas oferecidas nos dias do evento. A cerimônia de abertura do Mutirão contou com as presenças do arcebispo de Vitória (ES), D. Luiz Mancilha; da presidente da UCBC, Desirée Rabelo; do arcebispo de Belém (PA) e Presidente da Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação Social da CNBB, D. Orani Tempesta; do assessor nacional da CNBB, Pe. Roberto Preczevski; e do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias. Após acolher os congressistas, D. Luiz falou sobre a importância do comunicador cristão dar a boa notícia, e Desirée apresentou um perfil da UCBC e argumentou sobre o papel do Mutirão. Ao final dos pronunciamentos das autoridades que compunham a mesa, as atenções se concentraram na conferência do 14 ministro Patrus Ananias sobre Comunicação e Responsabilidade Social, tema do Mutirão. O ministro saudou a todos, lembrou D. Hélder Câmara e ressaltou que a responsabilidade dos meios de comunicação não deve se limitar à cobrança de que as leis e os direitos dos cidadãos sejam respeitados, mas cabe à mídia também respeitar as pessoas e não banalizar os valores éticos. Na oportunidade, Patrus Ananias fez um panorama do Governo Lula e comentou sobre os últimos acontecimentos envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT). A noite se encerrou com um coquetel. Durante os dias que se seguiram, ocorreram conferências e seminários no período da manhã, oficinas e grupos de trabalho à tarde, além de atividades culturais e Feira de Negócios no período noturno. A manhã de 15 de julho, último dia do Mutirão, foi marcada pela conferência ministrada por Plínio de Arruda Sampaio, com o tema: Fé e Compromisso Social. Candidato à presidência nacional do PT, ex-deputado estadual (SP) e militante cristão desde os 15 anos, o economista Plínio Sampaio advertiu, em sua apresentação, que o cristão e a sociedade brasileira não podem se deixar enganar pela mídia. Segundo ele, os meios de comunicação deveriam atuar de forma responsável, não ATUALIDADES veiculando isoladamente os fatos, mas inserindo-os em um contexto histórico, político e social. Plínio Sampaio destacou, também, que todos os avanços sociais são conquistados pela movimentação e pressão popular. Quanto à crise política, ele argumentou que um dos erros do PT foi que “o partido começou a ir para o poder com os mesmos métodos tradicionais da política brasileira”, mas acredita que não será perdida a experiência do PT, “um partido que foge à criação elitista”, afirmou. Na tarde do último dia, além de oficinas e grupos de trabalho, o Mutirão contou com a Assembléia Extraordinária da UCBC (ver quadro) e com o Encontro dos Bispos e Assessores Regionais da Comissão Episcopal para a Cultura Educação e Comunicação Social, da CNBB. Na cerimônia de encerramento, Porto Alegre (RS) foi oficialmente lançada como a cidade sede do 5° Mutirão, a se realizar em 2007. À noite, uma festa marcou o final do 4° Mutirão. As edições anteriores aconteceram em Belo Horizonte-MG (de 14 a 24 de julho de 1998), São Paulo-SP (de 23 a 28 de julho Foto: UCBC de 2000) e SalDesirré Cipriano Rabelo, vador-BA (de presidente da UCBC, 13 a 19 de julho e Elson Faxina, de 2003). As ex-presidente, no memórias deslançamento do livro do tes eventos es3º Mutirão Brasileiro tão registradas de Comunicação em livros (veja no quadro). A Redação UCBC realiza assembléia durante o Mutirão N a tarde do dia 15 de julho, último dia do 4º Mutirão Brasileiro de Comunicação, a UCBC (União Cristã Brasileira de Comunicação) realizou sua 40ª Assembléia Extraordinária, que contou com a presença de 40 sócios da entidade. Durante o evento, foram apresentados os balanços parciais de projetos e debateu-se a realização de Mutirões Regionais de Comunicação e o trabalho a ser desenvolvido pela entidade junto a esses Mutirões. Dentre os temas da assembléia, destaque para a exposição dos resultados preliminares da pesquisa institucional, desenvolvida pelo consultor Eduardo Baptista. Além de entrevistas com sócios, o consultor estudou documentos da UCBC para traçar o perfil a ser seguido pela entidade, que está completando 35 anos. O assunto foi debatido e será aprofundado na 41ª Assembléia Ordinária, que acontecerá em São Paulo (SP), de 12 a 15 de novembro deste ano. Além de refletir e definir o futuro da UCBC, esta próxima assembléia, cujo tema é “Celebrar o passado semeando o futuro”, promoverá a eleição da nova diretoria para o triênio 2005-2008. UCBC lança livro sobre 3° Mutirão A UCBC lançou na noite de 12 de julho, durante o 4° Mutirão Brasileiro de Comunicação, o livro com os anais do 3º Mutirão, realizado de 13 a 19 de julho de 2003, na cidade de Salvador (BA). A obra é um registro das discussões em torno do tema: “Uma outra comunicação é possível”. O livro pode ser adquirido junto à secretaria da UCBC, ao preço de R$ 15,00. Há, também, o livro contendo a memória dos dois primeiros mutirões, por R$ 10,00 (não estão incluídas as despesas postais). Pedidos: Tel.: (11) 5589-2050 E-mail: [email protected] 15 ESPECIAL ESPECIAL 11º Encontro das CEBs Com o tema “Espiritualidade Libertadora” e o lema “Seguir Jesus Cristo no compromisso com os excluídos”, perto de quatro mil pessoas se reuniram no encontro das CEBs O 11º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) foi realizado na cidade de Ipatinga, diocese de Itabira-Fabriciano (MG), entre os dias 19 e 23 de julho. Participaram aproximadamente dois mil cristãos leigos e leigas, 420 consagrados e consagradas, 430 ministros ordenados, além de representantes de Igrejas cristãs, bem como de outras religiões e culturas, e convidados de outros países. Cerca de 250 membros da Pastoral da Juventude do Regional Leste 2 (MG e ES) marcaram presença, acampados próximo ao local do encontro. Acolhidos nas casas das famílias das cidades do Vale do Aço - Coronel Fabriciano, Ipaba, Ipatinga, Santana do Paraíso e Timóteo - os militantes das CEBs tomavam o café da manhã nas próprias famílias em que estavam hospedados, enquanto os lanches, o almoço e o jantar eram servidos no local do encontro. Este trabalho envolveu cerca de dois mil voluntários e quase duas mil famílias. Dentre os delegados presentes, 75,2% participaram pela primeira vez de um Intereclesial, sinalizando uma intensa renovação de lideranças. O tema da 11ª edição do encontro - “Espiritualidade Libertadora” - e o lema - “Seguir Jesus Cristo no compromisso com os excluídos” - ajudaram os participantes a 16 cumprir o objetivo do mesmo, ou seja, pautar uma agenda de atuação evangelizadora na Igreja do Brasil. Na oportunidade, definiu-se que Porto Velho (RO) será a sede do 12º Intereclesial das CEBs, em 2009. Ao final do encontro foi divulgada uma mensagem, com o título: “A paz de Cristo”. O texto, na íntegra, está disponível na Internet (www.cebs11.org.br). Alguns trechos: “Aqui viemos representando nossas comunidades no anseio de colocar em comum a fé em Jesus Ressuscitado; partilhar nossas experiências; refletir sobre as situações de exclusão vividas pelo povo; caminhar à luz da Palavra e do testemunho de Jesus, pobre entre os pobres, porque cremos, resistimos e sonhamos viver num mundo sem exclusões. (...) Orientounos o método Ver, Julgar, Agir e Celebrar. (...) Reafirmamos uma espiritualidade inserida na vida dos pobres, marcada pela experiência de Deus, buscando a libertação da pessoa, da história e de toda criação! (...) É urgente o esclarecimento dos fatos de corrupção política ocorridos no atual governo e nos anteriores, punindose exemplarmente os responsáveis. (...) No seguimento de Jesus Cristo, somos enviados pelo Espírito para servir a todos homens e mulheres, irmãos e irmãs”. A Redação ESTUDO ESTUDO Chamados à Palavra Palavra, Vocação e Missão são sinais expoentes da Comunicação, três conceitos básicos da Sagrada Escritura. E Comunicação é essencialmente Vida! O objetivo deste estudo é trabalhar os conceitos Palavra, Vocação e Missão, apontando algumas correspondências e estreitas ligações entre eles, de maneira que a tríade esteja em constante harmonia na vida das pessoas que se deixam conduzir e orientar por um bem maior. A palavra é um símbolo privilegiado na arte de comunicar, que as pessoas dispõem no seu cotidiano. Por sua vez, a vocação e, conseqüentemente, a missão, também expressam uma comunicação muito viva e eficaz, pois nada mais são do que a própria palavra que deitou raízes e se concretizou na vida e na história humana. Evidentemente trataremos da Palavra de Deus, ou seja, a Sagrada Escritura, um dos instrumentos privilegiados no qual Deus se comunica e se revela ao ser humano com o intuito de salvá-lo. E cabe a todo aquele que é chamado, responder-lhe. Palavra que gera, salva e santifica a Vida “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Esta é a profissão de fé proferida por Simão Pedro a Jesus em nome dos Doze, quando muitos dos seus discípulos fizeram uma marcha à ré no seguimento de Jesus (cf. Jo 6,66). Para entendermos essa profissão de Simão em relação a Jesus, devemos recordar o hino de entrada do evangelho joanino, o denominado Prólogo, no qual fala da preexistência da Palavra (ou Verbo) desde o princípio (cf. Jo Fotos: Arquivo Rogate 1,1), bem antes 1 da criação. A Palavra é o “Logos” de Deus, o ato da comunicação do Pai que precede toda a criação (1,3). É a sabedoria de Deus. É o próprio Deus (1,1) e a Vida desde a criação (1,4), que agora se revela como Luz dos humanos, embora as trevas queiram dissipá-la. Não resta dúvida nenhuma que nestes primeiros versículos estão expressas a grande comunicação de Deus, ou melhor, o desejo de Deus de se comunicar com seu povo. A Palavra - que estava junto de Deus 17 ESTUDO humana (1,4). Jesus, ao longo do quarto e voltada para Deus - está pronta como um evangelho, assume assim todos os aspecanjo a ser enviado. Deus tinha perto de si tos desta Palavra. Jesus é o projeto realia sua Palavra, toda pronta a seu serviço zado, que possui a plenitude da vida. Ele é (cf. Is 55,8-10; Sb 18,14-16).2 A Palavra a expressão do projeto de Deus sobre o agora é uma comunicação direta de Deus homem. É Palavra criadora e eficaz, que mesmo que se revela à humanidade. Outrora, Deus criou por sua palavra (criação) dispõe da vida e a comunica (5,26). É Pae dirigiu sua palavra, não “seu verbo”, aos lavra que manifesta o ser de Deus, é a exprofetas e a nós. A Lei, mais especificapressão de sua intimidade que quer se comente os mandamentos, eram “palavras” municar: a manifestação da glória-amor do Pai que leva à unidade e comunhão com de Deus. Hoje, Jesus é a Palavra única.3 A mesma Palavra que gera ele (17,22; 1,18).4 a vida, ela a salva e a santifiVoltando à passagem Desde a ca. A Palavra estava na prejoanina em que Simão confirsença de Deus como sua automa sua adesão a Jesus, notaexperiência expressão. Ela já estava junse que realmente Jesus é a de Israel, a to de Deus quando este tomou Palavra Viva enviada do Pai. palavra de a iniciativa de sua atuação. Diz Senão vejamos: quando Jesus Deus tornouno livro dos Provérbios: “Desinterroga os Doze numa forde a eternidade fui designada, ma quase que indignada e se palavradesde os tempos antigos, anprovocativa por causa da saífato, evento tes que a terra fosse feita. da dos demais - “Vós também que brota da Ainda não havia os abismos, quereis ir embora?” (Jo 6,67) comunicação e eu já fora concebida, quan-, Simão responde em nome do ainda não havia os manandos demais: “A quem iremos, verbal. ciais das águas; antes que fosSenhor? Tu tens palavras de sem plantadas as montanhas, vida eterna...” (Jo 6,68 - griantes das colinas, eu fui dada à luz. Ele ainfo nosso). Aqui, palavras não é mais o terda não havia feito a terra e os campos, nem mo logos como no prólogo. Trata-se de os primeiros elementos do orbe terrestre” “rhema”, que tem dois significados funda(Pr 8,23-26). mentais: palavra e coisa. Corresponde, O sentido bíblico de Logos, inclusive no assim, ao termo hebraico “dabar”, traducorpo do evangelho joanino, é de palavra zido freqüentemente na Septuaginta. ou dito (caráter oral). Mas no prólogo “Rhema” pode designar a idéia de fato e joanino tem sentido complexo que abarca acontecimento, conceitos bastante usados os diversos aspectos do termo grego: Pano Segundo Testamento e mais especifilavra-projeto formulado (1,1c.17.24); Palacamente em Lucas.5 E a expressão “vida vra eficaz, criadora (1,3s); Palavra expreseterna” (no grego, zôê aiônios) denota uma siva, pois o projeto formulado em Palavra qualidade de vida que é definitiva. É a vida manifesta o ser de Deus, o seu amor para que corresponde ao homem - espírito com o homem; Palavra comunicativa (pneuma).6 No quarto evangelho encontra(1,4.5.9-12) e Palavra normativa (13,34). mos “rhema” sempre no plural para se reÉ essa a Palavra que se torna realidade ferir às palavras de Jesus, fazendo-nos com18 ESTUDO preender que Jesus pronuncia as palavras de Deus (3,34; 8,47), que ele recebe e transmite (17,8). As palavras de Jesus são também suas obras (14,10; 17,4.8).7 Palavra de Deus é uma fórmula recorrente na tradição judaico-cristã. O Segundo Testamento herda do Primeiro a “palavra de Deus” (dabar Ihwh). Desde a experiência de Israel, a “palavra de Deus” tornou-se “palavra-fato”, evento que brota da comunicação verbal. “Palavra de Deus” indica que Deus é o autor de uma comunicação. Embora a idéia de uma palavra de origem divina não seja exclusiva de Israel, no Primeiro Testamento o que a caracteriza é o fato de ser dita, ou seja, ela se torna um evento histórico: da palavra da criação à palavra da libertação e da aliança; da palavra profética à palavra da sabedoria. Em todos esses momentos da história da salvação há sempre um “fazer-se presente” de Deus, que age e entra em comunhão dialógica com a pessoa. Não é palavra sobre Deus, mas de Deus e da sua irresistível eficácia (cf. Is 55,10-11).8 Vocação é Palavra! E a Palavra se corporifica pelo Chamado à Missão “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14a). A grande comunicação de Deus se faz presente agora, e para sempre, de uma forma viva e eficaz, encarnada na história da humanidade. Mais do que no passado, em que Javé habitava por alguns momentos na tenda ou no santuário para manifestar a sua glória ao povo através de seus mediadores,9 hoje, “na plenitude dos tempos”, ele vem de uma vez por todas para ficar no meio dos seus. A Palavra se corporifica, de maneira que toma forma humana. A divindade tornou- se presença humana ao vir ela mesma ao encontro direto com a humanidade para divinizá-la. A Palavra de Deus, portanto, se historiciza, assumindo a figura e a linguagem humana dentro de uma cultura com toda a sua contextualização. Teologicamente falando, assume enfim toda uma condição humana revestida de fragilidade, pecado e morte. E será que tudo isso não tem nada a ver com vocação e missão? Qual a relação que existe entre Palavra-Chamado-Missão? Em primeiro lugar, procuraremos sinteticamente falar da origem dos termos vocação e missão. O termo em si “vocação” não existe em hebraico, embora podemos encontrar muitos relatos vocacionais de grande importância no Primeiro Testamento. Em seus relatos, os redatores bíblicos usam os verbos “enviar” (shalah, em hebraico) e “ir” (halak, em hebraico),10 e usam raramente o verbo “chamar” (qara, em hebraico),11 bem como o “escolher”.12 Nos relatos vocacionais do Segundo Testamento encontramos o verbo “chamar” (kaleô, em grego) e o adjetivo do grego klêtos, que significa “chamado, vocacionado e convidado”.13 O termo é bastante conhecido por todos nós como “vocare”, na língua latina. Quanto ao termo missão, provém do latim “mittere”. No grego bíblico encontramos “apostellô” (enviar) e “pempô” (enviar, mandar). Ele “ocupa lugar importante na reflexão teológica por exprimir, na doutrina trinitária, a relação que liga o Pai ao Filho e ao Espírito Santo”.14 A noção de “vocação” ou “chamamento” põe em relevância a iniciativa divina. Se no Primeiro Testamento a iniciativa divina é salvar Israel, o Segundo Testamento se concentra na vocação para a fé em Cristo. A base da vocação é um livre e insondável 19 ESTUDO clarear e nortear a nossa mente e o nosso decreto divino; não o merecimento humacoração. Ela é a nossa bússola. O espírito no.15 O chamamento de Deus perpassa toda a história da humanidade abrangendo a tonela presente inspirou a muitos vocaciodas as raças, nações e culturas. Ele atinge, nados no passado e nos quer também insenfim, a todas as categorias de tempo e espirados e sensibilizados à sua Palavra e aos paço. Deus nos chama sempre para poderdesafios atuais da história. mos atuar no tempo presente da nossa hisA nossa resposta de fé ao chamado divitória. Deus se aproxima do ser humano para no vai depender muito da maneira como convidá-lo a entrar na sua felicidade e a tonós nos posicionamos diante da Palavra, mar posse no reino de sua glória. que é eterna e veio para fecundar e Muitos relatos ou narrações bíblicas potencializar o dom da vida. A vocação ou de teor vocacional - que encontramos em o chamado de Deus acontece quando na gragrande escala no “livro da tuidade somos solícitos à Pavida” são verdadeiras pistas lavra,16 sentindo-nos “portaNós, vocaciode indicações que nos desperdores” da mesma e concretitam sempre a consciência de zando-a em forma de missão. nados e vocaque somos convocados a ser O tripé (tríade) - Palavra, cionadas do “assembléia dos chamados”. Chamado, Missão - está em Senhor, somos Essas narrações foram escriprofunda sintonia, entrelaçachamados a tas com a finalidade de consdo. Não dá para evocar uma cientizar o leitor atento que a delas sem ao menos, indirenos deixar sua vida também está inserida tamente, referir-se à outra. modelar e a nas Sagradas Escrituras. Os Apesar de cada termo ter o nos edificar nossos “heróis” ou personaseu significado próprio, há pela Palavra gens bíblicos que encontrauma complementação entre mos nos vários episódios voeles, formando uma bela unide Deus. cacionais, através de narradade nos relatos do início ao ções nos vários contextos hisfim da Sagrada Escritura. tóricos na História da Salvação, nada mais Dessa forma entendemos que só se comusão do que o nosso retrato fiel, daquilo que nica aquele que ouve atentamente o que o somos ou ainda não somos e desejamos ser outro diz, ou seja, acolhe bem a palavra, e, (ideal de vida) no hoje vocacional da histópor sua vez, a transmite o mais fiel possíria. Diz o poeta, o filósofo, que a vida se vel aos outros interlocutores. repete. Em termos, é verdade! Mas, soNa tradição judaico-cristã somos portadores e anunciadores da Palavra da Alimos também chamados a não fazer da vida uma mera sucessão de fatos ou aconteciança. A exemplo dos grandes profetas do Primeiro Testamento somos chamados a mentos repetidos. Somos chamados a pincomunicar os oráculos do Senhor, que semtar o verdadeiro rosto de Deus em nossa pre sai em defesa da vida de seu povo. Na vida nas páginas principais da nossa histótradição cristã, sustentados pela doutrina ria. Somos chamados e advertidos a codos santos apóstolos e evangelistas, nós mandar a carruagem da vida. Para isso, associamos e confirmamos, pela fé, ser urge presteza e constante discernimento. esta Palavra, Jesus Cristo, a boa notícia E a Palavra de Deus tem essa função de 20 ESTUDO viva do Pai, que nos oferece na sua gratuidade o dom salvífico da redenção. No relato joanino, Jesus tem as palavras de vida eterna. Ele é a via de acesso ao Pai. Assim como desceu do Pai, irá subir ao Pai, quando chegar a sua “hora” de ser glorificado na morte de cruz (cf. Jo 3,1416). Jesus tem as palavras, e segundo a tradição da fé petrina, também presente no quarto evangelho, ele é reconhecido como sendo o santo de Deus.17 O vocacionado é portador das palavras de Deus e não de suas próprias. Por isso, Jesus vai dizer que aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, e o veículo que opera entre os dois agentes é o espírito que age sem medida (cf. Jo 3,34). Jesus é a Palavra perfeita e verdadeira do Pai. Foi por ele enviado para salvar e não para condenar (cf. Jo 12,48-50). As palavras do Pai, testemunha- das e ditas pelo Filho, são espírito e vida (cf. Jo 6,63). E somente consegue ouvi-las quem é de Deus e se o Pai lhe dá a conhecê-las através do Filho (cf. Jo 8,47). Somos chamados à Palavra. Mais do que um som expressando algum significado, uma palavra faz realmente as coisas. A Palavra de Deus não é apenas som e nem somente uma letra lida do púlpito. Ela é uma causa eficaz, pois cria, renova, santifica nossas ações e se concretiza na vida real das pessoas. Nós, vocacionados e vocacionadas do Senhor, somos chamados a nos deixar modelar e a nos edificar por essa Palavra, que é o canal da graça, o espírito vivificante que age bem acima de todas as potencialidades humanas. O homem da plenitude humana, Jesus Cristo, a Palavra Eterna do Pai, oxalá, seja a nossa única via de acesso a Deus, que nos chama à Palavra. Referências Bibliográficas: 1 Jo 1,1-5: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Ela existia, no princípio, junto de Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la” (Tradução da CNBB). 2 Cf. KONINGS, J.; Evangelho Segundo João - amor e fidelidade; p. 84; (Vozes: Petrópolis, 2000). 3 Cf. KONINGS; Evangelho...; p. 85. 4 Cf. MATEOS, J & BARRETO, J.; Vocabulário Teológico do Evangelho de São João; p. 225-6; (Paulinas: São Paulo, 1989). 5 Cf. Lc 1,38.65; 2,15.17.19.29.50.51... Um exemplo típico (Lc 2,19): “Maria, contudo, conservava cuidadosamente todos esses acontecimentos...” 6 Cf. MATEOS & BARRETO; Vocabulário...; p. 285. 7 Cf. BALZ, H.; & Schneider, G.; Diccionario Exegético Del Nuevo Testamento II; p. 1310; (Ediciones Sigueme: Salamanca, 1998). 8 LEXICON - Dizionario Teológico Enciclopédico; p. 563-4; (Edizioni Piemme Spa: Casale Monferrato Al Italia, 1993). 9 Cf. Ex 40,34-35; 1Rs 8,1; Ez 44,4. 10 Cf. Jz 6,14; Is 6,8. 11 Cf. Ex 3,4. 12 Cf. Is 42,6; 45,3. 13 BAUER, J. B.; Dicionário Bíblico-Teológico; p. 448-9; (Loyola: São Paulo, 2000). 14 LEXICON - Dizionario...; p. 496. 15 BAUER...: Dicionário... ; p. 450. 16 Cf. Mt 10,8b: “De graça recebestes, de graça deveis dar!” 17 A expressão “santo de Deus”, segundo a nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém, quer significar: o enviado e eleito de Deus, consagrado e unido a ele de modo eminente, o Messias. Pe. Mário Alves Bandeira, RCJ 21 IN FORMAÇÃO IN FORMAÇÃO Conferência Episcopal Latino-americana O papa Bento XVI aprovou a realização da próxima Conferência Episcopal Latinoamericana. Será a 5ª edição. O tema: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos nele tenham vida”, e o lema: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). A 30ª Assembléia Ordinária do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), celebrada em Lima, Peru, de 17 a 20 de maio de 2005, indicou a Argentina como país sede desta 5ª Conferência, e a data: fevereiro de 2007. Até o final do ano o papa deverá dar seu parecer sobre esta indicação. Segundo os participantes da assembléia, a 5ª Conferência Episcopal será um importante momento de estudo e de motivação para a Igreja proclamar a defesa da vida e se colocar em estado de missão. A assembléia comemorou, ainda, os 50 anos de fundação do CELAM. ao longo da história, muitas provas de energia e capacidade de superar crises. Alicerçados nos valores do evangelho, proclamamos com todo vigor: não vamos desistir do projeto de construir uma Nação justa, pacífica e democrática”. O 2° Congresso Vocacional do Brasil também esteve na pauta de discussão. IPV tem nova diretoria O Instituto de Pastoral Vocacional (IPV) realizou, no último dia 16 de agosto, sua assembléia eletiva, escolhendo a nova diretoria executiva para o triênio 2005-2008. Na oportunidade também se elegeu a nova diretoria do Conselho Superior e os novos membros do Conselho para Assuntos Econômicos. Pe. Ângelo Ademir Mezzari, religioso rogacionista, foi escolhido para ser o novo Presidente do Conselho Superior. E Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, religioso vocacionista, foi reeleito no cargo de Diretor-presidente. Assembléia Geral da CNBB Em Itaici, na cidade de Indaiatuba (SP), foi a realizada a 43ª Assembléia Geral da CNBB. A reunião ocorreu entre os dias 09 e 17 de agosto, com o tema: “Evangelização e Profetismo: novos desafios para a missão da Igreja”. No dia 12 os bispos divulgaram nota sobre a atual crise política do Brasil. Na mensagem eles reafirmaram a “confiança no povo brasileiro, cuja cultura, apesar de alguns aspectos ambíguos, guarda valores de grande significação ética, como a solidariedade, a cordialidade e o senso de justiça”. E mais: “O povo já deu, 22 PV-PJ No próximo dia 08 de outubro, na sede do Instituto de Pastoral Vocacional, em São Paulo (SP), será realizado o curso “Pastoral Vocacional e Pastoral da Juventude: desafios e propostas de interação”, com assessoria do Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, diretor-presidente do IPV. O curso vai das 08 às 18 horas. As inscrições poderão ser feitas até o dia 1º de outubro (R$ 65,00 - incluindo almoço). Mais informações pelo site do IPV (www.ipv.org.br) ou pelo telefone: (11) 3931-5365. LEITOR LEITOR Contribuindo na pastoral Agradecemos a valiosa contribuição que a revista Rogate vem dando para o trabalho na Igreja e na sociedade nos dias de hoje. Os votos de um trabalho cada vez mais fecundo e promissor. Ir. Teresinha de Barros Afuá (PA) Uma grande riqueza Ter a assinatura da revista Rogate é, para nós que trabalhamos na Equipe Vocacional Diocesana, uma grande riqueza, pois nos ajuda bastante neste maravilhoso trabalho e, sobretudo, num momento tão significativo que é o nosso 2º Congresso Vocacional do Brasil. Em preparação a este evento, realizamos - em nossa diocese de Petrolina (PE) - o 1º Seminário Vocacional, nos dias 08 a 10 de julho. Um dos objetivos do encontro foi a elaboração do Projeto Vocacional Diocesano. Ir. Lucinha, MP Petrolina (PE) Assinatura Preciso fazer a assinatura da revista Rogate e/ou algo que possa me ajudar no trabalho de pastoral vocacional. Ir. Luzia Godoi São João Del Rei (MG) Gostaria de saber sobre a assinatura da revista Rogate de animação vocacional e se é possível eu comprar as revistas que já saíram esse ano. Simone Regina por e-mail Desejo fazer a assinatura da revista Rogate. Na primeira vez que receber terei que realizar o pagamento? De que forma? Abraços fraternos. Marcos Santos Salvador (BA) Nota: Para assinar a revista Rogate (dez números ao ano) basta enviar os dados completos do assinante - nome e endereço - e o comprovante do pagamento, por fax ou Internet. Alguns números atrasados ainda podem ser adquiridos, dependendo de verificação prévia no arquivo (cada revista tem o valor de R$ 3,00). Algumas Celebrações Vocacionais de edições anteriores também podem ser adquiridas pelo valor atual, ou seja, R$ 0,20 a unidade (pedido mínimo de 10). Na ficha central há mais informações. As mensagens enviadas poderão ser editadas pela equipe, favorecendo um melhor entendimento de seu conteúdo. A Revista Rogate já está na Rede Mundial de Computadores. Visite: www.rogate.org.br 23 MÍSTICA DA VOCAÇÃO MÍSTICA Santo Agostinho, um convertido A vida nos reserva surpresas que não podemos imaginar e nem prever. É necessário caminhar com o coração aberto, inquieto, na busca da verdade. Mais cedo ou mais tarde a verdade, como uma luz que não pode ser esquecida, aparecerá à nossa frente. Assim podemos compreender o grito de uma mulher corajosa e profetisa, como Edith Stein, que diz: “Por muito tempo a minha única oração foi a busca da verdade”. Ela a buscou nos livros da fenomenologia e não encontrou, na escola dos grandes filósofos e não encontrou. Buscou-a por caminhos longos e difíceis, e sempre percebia o vazio interior. Buscou sem saber na leitura de uma mulher desconhecida para ela, na autobiografia de Teresa de Ávila, e, terminando a leitura, pôde exclamar: “Aqui está a verdade!”. Mais tarde, busca no livro sempre aberto, e com páginas ensangüentadas do crucifixo, e encontrará para sempre a verdade que não mais será uma idéia, mas sim uma pessoa viva: Jesus. Agostinho de Hipona, que viveu no século IV, buscou também a verdade pela filosofia e não a encontrou. Tentou sufocar a voz do amor e da verdade que gritava dentro dele e não conseguiu. Pelas orações e o exemplo de sua mãe, Mônica, encontra a verdade na beleza eterna de Deus, sempre amado. Ele sabe bem que não se pode experimentar a verdadeira paz quando no coração não temos vivo o Senhor que nos criou. Agostinho percorreu o caminho da interioridade e viu que dentro dele estava a fonte da vida, da paz. E não conseguiu guardar para si o grande segredo: “Eu 24 te procurava fora de mim e não te encontrava; longe de mim e não te encontrava, porque tu estavas dentro de mim. Fizeste o nosso coração inquieto e não descansará até que te encontre”. É o segredo da vocação de Agostinho. Ele passou sua juventude de escola filosófica em escola filosófica. Tentou beber nos riachos dos prazeres e da sexualidade, mas viu que este caminho não levaria a nada. Sentiu todo o vazio interior e a revolta contra si mesmo, mas soube ver a realidade com os olhos iluminados pela fé. Deixou que a verdade lhe penetrasse até o miolo e percorreu caminhos novos, feitos de amor e de meditação da Palavra de Deus. Santo Agostinho não carrega o complexo de culpa e nem amaldiçoa o seu passado, como tantos de nós fazemos diante dos erros. Com coragem, de olhos abertos, assume o seu passado e canta as maravilhas do Senhor, que o encheu com toda sua misericórdia e amor. Eu estou convencido de que há muitos jovens que têm gasto a sua juventude em fontes e riachos do prazer, da sexualidade, da droga, do desperdício, e que teriam agora o desejo imenso de dedicar sua vida ao serviço da evangelização, mas têm medo... Medo de quê? Quem decide se converter não deve ter medo de nada e de ninguém. “Deus é amor!” (1Jo 4,8). É só tomar decisões, como Agostinho ou Edith Stein, e ir em frente. Por que tanto medo? “No amor não há medo, o amor verdadeiro afugenta o medo” (cf. 1Jo 4,18). Frei Patrício Sciadini, OCD