OPINIÃO
OPINIÃO
Animação vocacional
D
entro das propostas do 2° Congresso Vocacional do Brasil, o pano de
fundo é o “serviço de animação vocacional”, entendido como alma de toda a
Ação Evangelizadora da Igreja. O que pode
acontecer é que ainda mantenhamos um
trabalho evangelizador em gavetas, onde
uma ação não tem nada a ver com a outra.
A dimensão vocacional, entendida como
despertar da consciência do ser Igreja, do
primeiro chamado à vida de santidade, é a
raiz de onde brotará os mais variados ministérios na e para a Igreja. É preciso criar um clima vocacional.
A realização deste 2° Congresso quer ser
uma retomada das conclusões do primeiro,
aquele de 1999. Além disso, deseja ser uma
grande comunhão de experiências, no rumo
de uma animação vocacional de todos os ministérios, principalmente do ministério de
especial consagração. No dinamismo evangelizador, o trabalho vocacional - nas etapas do despertar, discernir, acompanhar e
formar - deve se tornar uma preocupação
de toda a comunidade eclesial. Que haja
pessoas envolvidas diretamente ou responsáveis de programas, até que se entende.
O que não dá mais é confiar a uns poucos
iluminados, por mais competentes que sejam, toda a responsabilidade do trabalho vocacional nas suas várias etapas.
A comunidade eclesial precisa sentir que
as vocações não nascem das nuvens. A
grande geradora das mais variadas vocações
é a comunidade. Alguns anos atrás a fonte
das vocações era a família, mas hoje a situação é outra. Não nego que ainda há famílias gerando vocações, mas é necessário que
a comunidade esteja aberta para acolher e
proporcionar uma experiência de fé.
Na medida que as pessoas chamadas
crescem na sua experiência de fé, sentirão
os verdadeiros sinais do chamamento e poderão responder com maior liberdade e certeza. A perseverança será muito maior e a
eficácia do processo formativo será muito
mais eficiente. No entanto, logo que o jovem ou a jovem manifesta sinais de um chamado, lhe são colocadas grandes responsabilidades na comunidade ou é levado para a
casa de formação, sem nenhuma preparação e sem qualquer respeito pela sua caminhada de fé.
Enquanto não soubermos respeitar o
processo de amadurecimento da experiência divina, tendo a paciência de Deus para
discernir os verdadeiros sinais do chamamento, para depois levar a pessoa a um
compromisso maior na comunidade ou inseri-la em uma comunidade formativa, continuaremos cometendo os mesmos erros
de sempre.
Antes de formar ministros leigos e leigas ou ministros consagrados e consagradas, é necessário formar o cristão, fazer
discípulos, como o Mestre mandou. Isto é,
seguidores de uma disciplina, de um estilo de vida, segundo o Mestre. Somente fazendo a experiência do discipulado é que
se poderá ser apóstolo ou apóstola, consagrado ou consagrada. O serviço de animação vocacional passa necessariamente pelo
caminho de discipulado de Jesus.
D. Anuar Battisti
Presidente da CMOVC-CNBB
1
EDITORIAL
S
NESTA EDIÇÃO
e na edição passada falou-se que estava tudo pronto para a realização
do 2º Congresso Vocacional do Brasil, agora já estamos vivendo o dia a dia
do evento. Três seções da Rogate - “Opinião”, “Entrevista” e “Pastoral Vocacional” - tratam do assunto. Em termos de
conteúdo, isto representa quase metade da
revista, e não poderia ser diferente. A expectativa em torno das reflexões, das oficinas de trabalho, da elaboração do documento final... É um marco histórico, como
foram tantos outros congressos vocacionais
(ver “Pastoral Vocacional”).
Mas não podemos nos esquecer que setembro é o mês da Bíblia. O teólogo Mário
Bandeira nos apresenta um estudo sobre
a Palavra de Deus, em chave vocacional,
aprofundando três conceitos intimamente
relacionados, sinais expoentes da comunicação: Palavra, Vocação e Missão. A Palavra gera, salva e santifica a Vida; a Palavra se corporifica pelo chamado à missão.
Vale a pena conferir!
Por fim, dois eventos recentes mereceram destaque: o Mutirão Brasileiro de Comunicação (em “Atualidades”) e o Intereclesial das CEBs (em “Especial”).
Entrevista
Vamos à praça, à vinha do Senhor
Pastoral Vocacional
E chegamos ao 2º Congresso
Vocacional do Brasil
Fundada em abril de 1982 e registrada no Livro de Matrículas de Jomais do 1º Cartório de
Registros de Títulos e Documentos, sob o nº
98.906, nos termos dos artigos 8º e 9º da Lei
Federal nº 5.259/67, São Paulo (SP), em 1º de
outubro de 1987. A revista é de propriedade
dos Rogacionistas do Coração de Jesus, em
colaboração com as revistas: Rogate Ergo e
MondoVoc (ltália), Vocations and Prayer
(EUA) e Rogate Ergo (Filipinas).
Os artigos assinados não expressam,
necessariamente, a opinião da Revista
2
07
Atualidades
Mutirão Brasileiro de Comunicação
14
Especial
11º Encontro das CEBs
16
Estudo
Chamados à Palavra
17
Informação
22
Leitor
23
Mística da Vocação
Santo Agostinho, um convertido
24
ENCARTES
A Turma do Triguito
Celebração Vocacional
Enviados em missão
Capa: A Vila Kostka, em Itaici, Indaiatuba (SP), palco
do 2º Congresso Vocacional do Brasil (foto da missa
de encerramento do 1º Congresso, em 1999).
DIRETOR DE REDAÇÃO
SEDE CENTRAL/CONTATOS
Juarez Albino Destro
Direção, Editoria, Secretaria e Administração:
Tel.: (11) 3932-1434 Fax: (11) 3931-3162
E-mail: [email protected]
Http://www.rogate.org.br
Rua Comandante Ferreira Carneiro, 99
02926-090 São Paulo SP Brasil
EDITOR
Ano XXIV - nº 235
Setembro de 2005
03
Jefferson Silveira
COLABORADORES
Armando del Mercato Jr. (capa), Geraldo
Tadeu Furtado, Patrício Sciadini; Fábio Mattos
e Vanderlei Mendes (encarte do Triguito)
CONSELHO EDITORIAL
Cinzia Giacinti, Írio e Neide Brogni, José
Lisboa Moreira de Oliveira, Juçara dos Santos,
Lédio Milanez, Rogério e Regiane Darabas
JORNALISTA RESPONSÁVEL
Ângelo Ademir Mezzari - Mtb 21.175 DRT/SP
IMPRESSÃO
Gráfica e Editora Linarth Ltda - Curitiba (PR)
ASSINATURA ANUAL
Normal:
R$ 30,00 (10 edições ao ano)
Colaborador: R$ 50,00
Exterior:
US$ 25,00 (serviço prioritário)
O pagamento poderá ser feito por:
-Cheque Nominal
-Vale Postal (agência 72.300.159-SP)
-Depósito Bancário: Bradesco, agência 1171, conta 92.423-7, Colégio Rogacionista Pio
XII (CNPJ 83.660.225/0004-44).
Neste caso, enviar comprovante por fax ou
correio, com nome e endereço completos.
ENTREVISTA
ENTREVISTA
Vamos à praça,
à vinha do Senhor
Ana Besel, Irmã da Divina Providência e coordenadora
da Pastoral Vocacional de Santa Catarina, ajudou na
preparação do 2º Congresso Vocacional do Brasil,
fazendo parte da Comissão Executiva
I
Fotos: arquivo pessoal
rmã Ana Aparecida Besel nasceu na cidade de Brusque, em Santa Catarina,
no dia 06 de agosto de 1966. Seus pais
tiveram sete filhas. Ana é a primogênita e a única que fez a opção
pela vida consagrada. Aos 14 anos
entrou no mundo do trabalho,
numa indústria de tecidos, onde
aprendeu a arte da costura. Participou do Grupo de Jovens em
sua comunidade e, aos 19
anos, entrou na Congregação das Irmãs da Divina Providência, em Florianópolis (SC). O instituto tem como carisma a
fé, o abandono e a confiança na Divina Providência. As Irmãs atuam nas áreas da educação, saúde, assistência social e pastorais
diversas.
Após os primeiros votos, freqüentou o
curso de Magistério no Colégio São Luís,
em Jaraguá do Sul (SC). No início de 1993
foi transferida para o Colégio Coração de
Jesus, de Florianópolis, assumindo aulas
de Educação Religiosa. Neste ano foi convidada a fazer a Escola Vocacional, em Curitiba, integrando, logo após, a equipe de
Pastoral Vocacional da Arquidiocese de
Florianópolis, onde está até hoje. Formou-
se em Ciências Religiosas e Pedagogia,
com Pós-graduação em Educação. Em 05
de outubro de 1996 professou os votos
perpétuos. É co-fundadora da Escola
Vocacional para agentes da Animação Vocacional da Arquidiocese de
Florianópolis.
Ir. Ana coordena a Pastoral
Vocacional no Regional Sul 4
(Santa Catarina) desde setembro de 2003. Ela é também diretora do Colégio Sagrada Família, em Blumenau
(SC). Nas horas vagas
“diverte-se” como uma
autêntica webdesigner,
atualizando e criando algumas páginas na
Rede Mundial de Computadores (exemplo:
www.sagrada.net).
Ir. Ana ajudou na preparação do 2º Congresso Vocacional do Brasil, fazendo parte
da Comissão Executiva. E é sobre isto que
ela falou à Rogate.
Rogate: A realização deste 2° Congresso Vocacional do Brasil demonstra que o
tema vocações tem conquistado seu espaço
na Igreja ou ainda há uma longa caminhada pela frente?
Ir. Ana: A partir do Concílio Ecumêni3
ENTREVISTA
co Vaticano II, e principalmente agora com
coordenadores regionais da área vocacioa realização deste 2º Congresso Vocacional
nal, e mesmo ouvindo o assessor nacional
do Brasil - que está fazendo um resgate do
- Pe. Tarcísio Rech -, a proposta do trabapróprio Concílio -, percebo que nós, como
lho de base foi bem assumida por todos,
Igreja, estamos num processo de avanço,
com dinamismo, novo ardor, interesse e
um pouco mais conscientes que ainda teenvolvimento. Percebe-se abertura de oumos um grande caminho a percorrer. O
tras pastorais e ministérios em se trabatema deste nosso 2º Congresso Vocacional
lhar em conjunto, envolvendo os regionais
é bastante pertinente, pois somos um povo
e as dioceses. O congresso, de fato, realia serviço da vida e devemos
za-se quando os animadores
caminhar nesta direção. E
ou os coordenadores vocacioDeus tem um projeto resernais fazem chegar a semente a
Nós, enquanto
vado a cada um de nós.
cada um.
animadores
vocacionais,
Rogate: Que paralelo faz
Rogate: O Concílio Vaticadevemos anientre o 1° Congresso, realizano II celebra 40 anos de condo em 1999, e esta segunda ediclusão em 2005 e merecerá esmar os leigos a
ção?
pecial destaque no Congresso.
sempre mais
Ir. Ana: O 1º Congresso
O que está sendo programado
assumirem a
Vocacional do Brasil abordou
neste sentido?
sua vocação
e aprofundou a questão da TeIr. Ana: Um dos objetivos
específica,
ologia da Vocação e apresendeste 2º Congresso Vocaciotou os cenários da Igreja, renal do Brasil é realmente cea partir do
fletindo sobre o tipo de Igreja
lebrar os 40 anos da conclubatismo.
que somos na atualidade ou
são do Concílio Vaticano II,
qual Igreja estamos construestando em sintonia com este
indo. Este 2º Congresso regrande evento eclesial. O
presenta um avanço. Se a primeira edição
Congresso vai resgatar o que aconteceu
nos deu clareza do que é ser Igreja, agora
no Concílio, vai revigorar nossa identidavem o aprofundamento ou a conseqüência
de enquanto Igreja, povo de Deus.
disto: a missão. “Ide também vós para a
minha vinha” (Mt 20,4) é o lema desta seRogate: Qual a importância do Concígunda edição. Deus nos chama e envia em
lio Vaticano II para a caminhada vocaciomissão, respeitando e caminhando confornal, especialmente no que se refere ao papel
me o itinerário vocacional de cada um - o
dos cristãos leigos e leigas?
despertar, o cultivar, o acompanhar e o disIr. Ana: O Concílio Vaticano II foi chacernir.
mado de Concílio da Igreja. Pela primeira
vez em sua história, a Igreja fez em concíRogate: Como avalia a preparação relio uma extensa e intensa reflexão sobre
alizada pelos Regionais da CNBB em vista
si mesma. Os seus 16 documentos têm
do Congresso Vocacional? Foi possível encomo núcleo de referência a Igreja, sua
volver os 17 Regionais?
identidade e sua importância. O Concílio
Ir. Ana: Segundo o que ouço de outros
tem um significado muito especial a todos
4
ENTREVISTA
nós, pois vem resgatar o que estava adormecido, o que estava esquecido nos concílios anteriores, que é justamente a vocação dos cristãos leigos e leigas. Hoje não
se concebe uma Igreja sem a presença e o
engajamento dos leigos e leigas. Para o Vaticano II, o leigo é sim uma vocação. Os
cristãos leigos e leigas são fermento e luz
das nações, fazem o Reino de Deus acontecer. Nós, enquanto animadores vocacionais, devemos animar os leigos a
sempre mais assumirem a sua
vocação dentro da Igreja a
partir do batismo. O princípio da totalidade da Igreja
exige que não se considere
somente a hierarquia, mas
também - a igual título e
em base à mesma motivação - o laicato, na sua relação com o todo do Povo de
Deus. Isto quer dizer que,
mantida a distinção das funções, os leigos são tão importantes para a Igreja
quanto a hierarquia. Sem
hierarquia não há Igreja, mas também sem
leigos, como diz o Decreto Conciliar Ad
Gentes (n. 21), a Igreja não se acha consolidada, não vive plenamente, não é um perfeito sinal de Cristo entre os homens. O
evangelho não pode ser fixado na índole,
na vida e no trabalho de um povo sem a
ativa presença dos cristãos leigos. Por isso
mesmo, desde a fundação de uma Igreja,
tenha-se o máximo cuidado para constituir
um laicato cristão maduro.
Rogate: O que é possível esperar da atuação do papa Bento XVI no que se refere às
vocações?
Ir. Ana: Vejo que o novo papa vai dar
continuidade ao que o anterior vinha fa-
zendo. Percebo que Bento XVI vai deixar
o Espírito Santo conduzir a Igreja, demonstrando uma certa abertura, diálogo e trabalho em grupo. Concordo com o teólogo
Ênio Brito, quando afirmou - nesta mesma revista Rogate (n. 233, jun-jul/2005) que o papa João Paulo II teve um olhar carinhoso para com os jovens, sendo referência, homem da paz, arrojado. Bento XVI
poderá repetir este “olhar”, mas não será
meramente por seus discursos
que os jovens serão atraídos,
mas pelos seus gestos proféticos.
Rogate: Em uma sociedade neoliberal, como a
nossa, onde são valorizados aspectos como individualismo, produção, consumismo, prazer, o serviço
de animação vocacional
tem um grande desafio
pela frente. Neste contexto, como trabalhar ou
animar as vocações específicas à vida consagrada e ao ministério
ordenado?
Ir. Ana: Tanto a vida consagrada quanto a vocação ao ministério ordenado exigem um estilo de vida que o mundo neoliberal não consegue entender. Os Conselhos Evangélicos (Pobreza, Castidade e
Obediência) nos fazem dar testemunho de
uma vida comunitária, simples, de doação,
na gratuidade e espontaneidade, vivendo
o compromisso com o “sim” dado a Deus,
renovado a cada dia. Isto vai na contra-mão
do que a sociedade neoliberal prega hoje.
O testemunho, a alegria em defesa da vida,
a solidariedade com os pobres e excluídos
é a melhor forma de se fazer animação vocacional.
5
ENTREVISTA
Rogate: Ainda em relação a este munserviço dos outros. Continuemos unidos
do globalizado, com seu ritmo veloz, no qual
em oração e no trabalho da vinha do Seo novo logo se torna obsoleto, o que o serviço
nhor, cultivando nossa vocação específica,
de animação vocacional deveria oferecer ao
de cristãos leigos e leigas, de consagrajovem para que ele possa discernir sua vodos e consagradas, de ministros ordenacação?
dos. Afinal, temos a grande
Ir. Ana: A animação vocaresponsabilidade de divulgar
Devemos ser
cional deve se preocupar em
a Boa Nova de Jesus, sendo
apresentar o projeto de Jesus
homens e mulheres de espehomens e
Cristo e os seus valores, que
rança, entusiasmados pelo
mulheres de
não são ilusórios, mas dão seprojeto de Deus. Vamos à praesperança,
gurança. Enquanto os projetos
ça, à vinha do Senhor, cultientusiasmados
da sociedade são transitórios
vando nossa vocação, não deie descartáveis, a proposta de
pelo projeto de xando morrer o ideal de um
Cristo é alicerce. A juventude
novo mundo. A pastoral vocaDeus.
é um terreno fértil para lançar
cional, ou o serviço de animaVamos à praça, ção vocacional, engloba todas
as sementes deste projeto. A
à vinha do
boa semente poderá dar bons
as vocações. Por isso mesmo
frutos e satisfazer o coração de
Senhor...
a Igreja deve ser vista em sua
qualquer ser humano.
totalidade de povo de Deus.
Enquanto não tivermos crisRogate: Para terminar, que mensagem
tãos leigos e leigas engajados, assumindo
deixaria aos leitores da Rogate e aos anide forma missionária o seu batismo, lamadores e animadoras vocacionais de todo
mentaremos a escassez de vocações. Peso Brasil?
soas dispostas a assumir uma radicalidade
Ir. Ana: Sejamos gratos a Deus, por
na consagração ou no ministério ordenado
nos ter vocacionado à vida. Estejamos
surgem de comunidades engajadas, com o
sempre atentos, disponíveis ao Espírito
espírito missionário aflorando. Estejamos,
Santo que, de maneira exeburante, distriportanto, preparados a sempre orientar as
bui a toda a humanidade, à Igreja, dons,
vocações que nascem em nossas famílias
carismas, para que possamos colocá-los a
e comunidades.
ANÚNCIO CATTONI
6
PASTORAL VOCACIONAL
VOCACIONAL
E chegamos ao 2º Congresso
Vocacional do Brasil
O resgate da história permite uma melhor visualização
do atual contexto, possibilitando fazer
novos projetos para o futuro
S
cando a oração vocacional como o princierá que alguém acreditaria se dissespal meio de obtê-las: “Todos devem se
sem que a idéia de se realizar este
esforçar para que se multipliquem os vi2º Congresso Vocacional do Brasil
gorosos e diligentes operários da vinha do
nasceu há uns 70 anos? Afinal, todos sabeSenhor. Dentre todos os meios que se pomos que o projeto foi aprovado na 39ª Asdem empregar para se
sembléia da Conferência Fotos: Arquivo Rogate/IPV
conseguir tão nobre finaNacional dos Bispos do
lidade, o mais fácil e, por
Brasil (CNBB), no resua vez, o mais eficaz e
cente 2001, com o objeo mais exeqüível a todos
tivo de realizar uma ex(e que, portanto, todos
periência semelhante a
devem empregar) é a
de 1999, quando tiveoração, segundo o manmos o 1º Congresso. E
damento do próprio Jese resolvêssemos analisus Cristo: A messe é
sar de onde surgiu a
Participantes do 1º Congresso Vocacional
grande, mas os operários
idéia desse primeiro
do Brasil, realizado em 1999
são poucos: rogai, pois,
congresso nacional? Aí
ao Senhor da messe que envie trabalhadonão teríamos escolha: uma sucessão de
res para a sua messe (Mt 9,37-38). Que oraeventos significativos nos levaria ao lonção pode ser mais agradável ao Coração
gínquo 1935, ou mais além...
Santíssimo do Redentor? Qual outra pode
nos dar esperança de ser ouvida mais ra1. Ad catholici sacerdotii
pidamente e nos conceder mais frutos do
Esta Carta Encíclica de Pio XI (1922que esta, tão conforme os ardentes dese1939), sobre o sacerdócio católico, de 20
jos daquele divino Coração?” (Ad catholici
de dezembro de 1935, no 56º aniversário
sacerdotii, 61).
de sua ordenação sacerdotal, pode ser conSe esta Encíclica pode ser considerada
siderada o início de uma lenta gestação
o germe da moderna pastoral vocacional,
rumo aos atuais conceitos que se tem de
não podemos omitir uma certa preparação
pastoral vocacional, por acentuar a necesbastante próxima a este momento histórisidade de se ter vocações na Igreja, destaco. Trata-se da obra de Santo Aníbal Maria
7
PASTORAL VOCACIONAL
Di Francia (1851-1927), considerado por
muitas destas Congregações e institutos
João Paulo II - na época de sua beatificareúnem-se e formam o Instituto de Pastoção, em 1990 - o “autêntico antecipador e
ral Vocacional (IPV), tão conhecido em
mestre da moderna pastoral vocacional”.
nosso País por seu serviço vocacional, nas
Após intuir o grande valor vocacional do
áreas da formação, pesquisa e produção.
convite evangélico da oração pelas vocações (“Rogai ao Senhor da messe...” =
2. Pontifícia Obra das Vocações
“ Rogate Dominum messis...”), Santo
Se Pio XI contribuiu para o nascimento
Aníbal o traduziu em carisma específico
da moderna pastoral vocacional com a En(Rogate) dos institutos por ele fundados
cíclica Ad catholici sacerdotii, Pio XII
(os Rogacionistas e as Filhas do Divino
(1939-1958) o fez com a insZelo). Os contatos de Pe.
tituição da Pontifícia Obra das
Aníbal com os papas da époVocações Sacerdotais, em
ca, seja por cartas ou pessoal1941. A Pontifícia Obra, no
mente, eram constantes. Ele
aspecto canônico, tinha a finatinha convicção de que se toda
lidade de promover as vocaa Igreja entendesse a dinâmições sacerdotais em toda a
ca do Rogate e trabalhasse
Igreja. No aspecto pastoral,
para tal, as vocações não faldevia animar a criação e o intariam na Igreja e na sociedacremento - nas Igrejas locais
de, os operários e as operári- de institutos vocacionais.
Aníbal Di Francia,
as na messe não seriam pouhoje santo, tinha
Através destes, a Pontifícia
cos. Bento XV (1914-1922),
convicção de que se
Obra das Vocações poderia
por exemplo, no dia 10 de
toda a Igreja entendesse
produzir subsídios, convocar
maio de 1921, recomendou
a dinâmica do Rogate
congressos ordinários e soleuma indulgência plenária a
e trabalhasse para tal,
nes, manter contato com os
quem, por uma hora, rezasse
as vocações não
organismos associados, obter
diante de Jesus Sacramentarelatórios de suas atividades
do para obter santas vocações,
desenvolvidas, ajudar financeiramente em
escrevendo e publicando uma oração esalguns projetos.
pecífica para tal, com destaque ao divino
O Concílio Vaticano II (concluído em
mandamento do Rogate. Pio XI, certamen1965) acabaria renovando os objetivos da
te sob os pedidos insistentes de Pe. Aníbal,
Pontifícia Obra das Vocações Sacerdotais,
promoveu um dia anual de oração, em
tornando-a mais abrangente, responsável
Roma e em todas as dioceses do mundo,
por animar toda a atividade pastoral para
pelas vocações.
as vocações, trabalhando em vários níveis
Não podemos nos esquecer que a esta
de circunscrição eclesiástica - diocese, reobra de Santo Aníbal vem associada a do
gião, país -, sob a coordenação dos pastovenerável Justino Maria Russolillo (1891res locais, com a colaboração de todos os
1955), fundador da Congregação dos Vocaresponsáveis, a serviço de todas as vocacionistas, a do bem-aventurado Tiago Alções, para o bem de toda a Igreja. Talvez
berione (1884-1971), fundador da Família
por isso que o organismo passou a ser dePaulina, e tantas outras. Hoje, no Brasil,
8
PASTORAL VOCACIONAL
signado de Pontifícia Obra das Vocações
Eclesiásticas, entendendo, aí, todas as vocações da Igreja (Cristãos Leigos e Leigas, Consagrados e Consagradas, Ministros Ordenados). A Pontifícia Obra das
Vocações pertence à Congregação para a
Educação Católica (dos Seminários e dos
Institutos de Estudo).
Em 2002, o papa João Paulo II, em seu
discurso aos participantes da Assembléia
da Congregação para a Educação Católica,
recordou a importante missão deste organismo: “No setor vocacional é precioso o
trabalho da Pontifícia Obra das Vocações
Eclesiásticas, que desde o distante ano de
1941 acompanha e anima a pastoral vocacional. Nela, a ação principal é a oração,
em obediência ao mandamento de Cristo:
Rogai, pois, ao Senhor da messe que envie
trabalhadores para a sua messe (Mt 9,38;
Lc 10,2). Por isso, tem grande valor o Dia
Mundial de Oração pelas Vocações, a fim
de envolver todas as comunidades cristãs
numa geral e intensa oração, para que não
faltem numerosas e santas vocações sacerdotais e religiosas” (n. 06).
3. O Vaticano II e os
Congressos Vocacionais
Pode-se dizer que, pela primeira vez na
história, um Concílio Ecumênico ocupouse do tema “vocacional”. A matéria, ao final, resultou distribuída em vários documentos. O Concílio “representou uma verdadeira reviravolta para toda a comunidade cristã”, segundo o teólogo vocacionista, Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira. Em
seu livro “Evangelho da Vocação” (IPVLoyola, 2003), o teólogo resume em poucas linhas todo o avanço na consciência
vocacional de que a Igreja era chamada:
“O mérito do Vaticano II foi pensar a Igre-
ja a partir de uma nova eclesiologia, dando
assim suporte a uma ação de maior comunhão e de maior participação de todas as
pessoas batizadas” (p. 19-20).
Após o Concílio Vaticano II, a Pontifícia
Obra das Vocações desenvolveu um amplo programa de eventos, que poderíamos
dividi-lo em quatro fases ou momentos
intimamente coligados entre si, num processo contínuo: internacional, nacional,
diocesano e continental.
3.1. Fase Internacional
Corresponde aos primeiros anos logo
após a conclusão do Concílio Vaticano II.
Esta fase foi caracterizada por diversos
congressos promovidos com o objetivo de
sensibilizar os responsáveis pelas vocações dos diversos países, a fim de trocar
experiências e iniciar uma caminhada em
comum. Foram realizados quatro congressos internacionais dos diretores nacionais,
nos anos de 1966, 1967, 1969 e 1971. No
primeiro, apenas os coordenadores vocacionais da Europa foram convidados, por
motivos práticos. No terceiro, em 1969,
representando a América Latina, participou o secretário do então DEVOC (Departamento de Vocações) - hoje DEVYM (Departamento de Vocações e Ministérios) do CELAM (Conselho Episcopal Latinoamericano). Por fim, o congresso de 1971
ofereceu uma valiosa contribuição às Igrejas nacionais, na elaboração de seus “Planos de Ação” para as vocações. O trabalho
de aplicação do Concílio Vaticano II entrava, assim, em uma nova fase.
3.2. Fase Nacional
A Pontifícia Obra das Vocações, nesta
fase, convidou as Conferências Episcopais
a elaborarem e publicarem os seus Planos
9
PASTORAL VOCACIONAL
de Ação Nacional para as Vocações. Muitos
países responderam positivamente, entre
eles o Brasil. No 1º Congresso Internacional dos Bispos delegados das Conferências Episcopais, de 20 a 24 de novembro de
1973, em Roma, estes Planos de Ação foram objeto de reflexão e debate. O documento final (cf. CNBB, A Pastoral Vocacional; realidade, reflexões e pistas, Estudos
da CNBB 05, 1974) apresenta a necessidade de uma reflexão teológica segura e
adaptada, com um plano de ação que possa
ajudar as pessoas a descobrirem seu chamado na Igreja e no mundo, e a assumirem - a partir desta descoberta - sua missão, seu compromisso (cf. n. 07). O documento apresenta, ainda, alguns princípios
da pedagogia e da organização da pastoral
vocacional.
3.3. Fase diocesana
Nesta fase, o convite era para que os
bispos preparassem os seus Planos de Ação
Diocesanos para as Vocações. Não seria suficiente, de fato, um Plano de Ação nacional sem um Plano de Ação diocesano. Afinal, em última instância, é na Igreja local
que se desenvolve um autêntico serviço
de animação vocacional, sob a responsabilidade direta dos pastores locais. Na fase
de preparação ao 2º Congresso Internacional dos Bispos e de outros representantes das Vocações Eclesiásticas (ou simplesmente Congresso Internacional das Vocações), chegaram mais de 700 planos diocesanos, de todas as partes do mundo. Com
este rico material, foi organizado o Congresso, realizado de 10 a 16 de maio de
1981, também em Roma. O tema geral:
“Desenvolvimento da Pastoral Vocacional
nas Igrejas Particulares”. O documento final foi muito bem acolhido pelas diversas
nações.
10
3.4. Fase continental
Após o conhecimento e o estudo do
documento conclusivo do 2º Congresso Internacional das Vocações por parte das
Igrejas particulares, iniciou-se, em 1986,
uma nova fase. Trata-se do momento de
verificar, atualizar e desenvolver a pastoral vocacional em nível de continente, através da realização de Congressos Continentais ou por áreas culturais afins, em vista
de uma animação vocacional que melhor
correspondesse às necessidades reais dos
vários países.
Dentro desta perspectiva, depois de 10
anos da realização do 2º Congresso Internacional das Vocações, em 1991, a Congregação para a Educação Católica e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica
fizeram uma consulta às Conferências
Episcopais a fim de verificarem o caminho
percorrido no último decênio, com relação
à aplicabilidade do documento final daquele congresso. A síntese das respostas pode ser encontrada num
livro editado, em 1992, pela
própria Pontifícia Obra
das Vocações (ver quadro
da página 11).
Logotipo dos dois primeiros congressos
continentais de vocações: América Latina, em
1994, e Europa, em 1997
PASTORAL VOCACIONAL
Os Congressos Continentais
O 1º Congresso Continental de Vocações aconteceu na América Latina, por ser
o continente com o maior número de católicos. Foi realizado no Brasil, em Itaici, Indaiatuba (SP), de 23 a 27 de maio de 1994,
com o tema: “A Pastoral Vocacional no continente da esperança”. O evento, embora
promovido pela Santa Sé, teve a organização do CELAM e da CLAR (Conferência
Latino-americana de Religiosos), juntamente com as Congregações para a Educação Católica - onde está a Pontifícia Obra
das Vocações - e para os Institutos Religiosos de Vida Consagrada e Sociedades de
Vida Apostólica.
Vários motivos levaram a Santa Sé a
escolher a Europa para a realização do 2º
Congresso Continental de Vocações, de 05
a 10 de maio de 1997, em Roma, Itália, com
o tema: “Novas vocações para uma nova
Europa”. Dentre as motivações, indicouse a busca de unidade entre as diferentes
e importantes culturas do continente:
Greco-Latina, Anglo-saxônica e Eslava. O
continente já se esforçava para construir
uma “Comunidade Européia”, incluindo a
partilha de valores humanos, morais e religiosos. Na organização do evento, além
das duas Congregações que prepararam o
1º Congresso Continental (ver acima), participou a Congregação para as Igrejas Orientais.
O 3º Congresso Continental de Vocações foi realizado na América do Norte,
Canadá, de 18 a 21 de abril de 2002, com o
tema: “Vocação: dom de Deus, ao povo de
Deus”. Dentre as razões para a realização
de um novo congresso continental na América estava a possibilidade de se ter uma
visão completa do serviço de animação
vocacional no continente americano inteiro. Além disso, seria um ótimo momento
Documento de 1992 traz
pontos ainda bastante atuais
E
m 1991, 10 anos após a realização do
2º Congresso Internacional das Vocações, a Congregação para a Educação Católica e a Congregação para os Institutos
de Vida Consagrada e as Sociedades de
Vida Apostólica fizeram uma consulta às
Conferências Episcopais a fim de verificarem o caminho percorrido de 1981 a 1991,
com relação à aplicabilidade do documento
final daquele congresso. Hoje, olhando a
conclusão da síntese das respostas daquela consulta, percebe-se que muitos pontos
são ainda bastante atuais:
- A pastoral vocacional vai assumindo o
seu lugar nas comunidades cristãs. O mandamento de Jesus, “rogai ao Senhor da
messe que envie trabalhadores para a sua
messe”, é considerado valor primário e essencial no que se refere às vocações. Cresce, portanto, a convicção de que a pastoral
vocacional será ineficaz se não for sustentada pela oração e se não for acompanhada do testemunho de vida.
- Entre os frutos que vão se manifestando nas Igrejas particulares, vêm sublinhados mais freqüentemente os seguintes:
consciência cada vez mais clara da pastoral vocacional; teologia da vocação mais
bem sistematizada; maior preocupação pela
formação dos candidatos; número crescente de pessoas dedicadas à pastoral juvenilvocacional; criação de estruturas mais ativas e idôneas para a animação; consciência da co-responsabilidade comunitária em
suscitar e acompanhar as novas vocações;
crescimento da qualidade das vocações nos
países que sofrem diminuições no número.
- Aumenta a convicção de que a pastoral vocacional não é um simples âmbito ou
um setor da pastoral da comunidade cristã,
mas sim a perspectiva unificante de toda a
pastoral, que é essencialmente vocacional.
Cf. Pontifícia Obra das Vocações. Desenvolvimento da Pastoral Vocacional nas Igrejas
Particulares, 1992, p. 50-52.
11
PASTORAL VOCACIONAL
para relembrar aos bispos (primeiros animadores vocacionais) e aos responsáveis dos diferentes organismos, os problemas fundamentais da Igreja na América, uma vez que todos
estavam ainda respirando os ares do Sínodo
dos Bispos da América (cf. Ecclesia
in America, 40).
Os próximos Congressos Continentais deverão ocorrer, dentro desta fase, nos três continentes que ainda faltam: África, Ásia e Oceania (não
necessariamente nesta seqüência).
4. O Brasil
A história da moderna pastoral vocacional de nosso País
situa-se dentro deste
contexto mundial. É
uma história bonita e
cheia de iniciativas, desafios e conquistas,
como já tivemos oportunidade de estudar nos
documentos mais recentes, tanto no Texto-base
preparatório ao 1º Congresso Vocacional do Brasil (n. 08-32), quanto no
Texto-base do 2º Ano Vocacional do Brasil (n. 17-
Alguns momentos que marcaram o
1º Congresso Vocacional do Brasil,
realizado em 1999: o Texto-base
preparatório, a foto oficial dos
participantes (acima),
o hino sendo cantado (ao lado)
Missa conclusiva do
1º Congresso Vocacional,
realizada no pátio da Vila
Kostka, presidida pelo então
bispo responsável do antigo
Setor Vocações e Ministérios
da CNBB, D. Angélico
Sândalo Bernardino
12
C
Foto: Douglas Mansur
PASTORAL VOCACIONAL
A home
nage
a D. Joe m
l Iv
Catapa
n, o “bis o
po
das voc
aç
falecido ões”,
no dia
1º de m
aio
de 1999
Os assessores do
1º Congresso
Vocacional:
Frei Clodovis Boff,
Pe. João Batista Libânio
e Pe. José Lisboa
Moreira de Oliveira
28) e, mais recente ainda, no Texto-base preparatório ao 2º Congresso Vocacional do Brasil (n. 12-43).
O 1° Ano Vocacional do País, por exemplo,
realizado em 1983, foi aprovado na 19ª Assembléia da CNBB, em 1981, mesmo ano da realização do 2º Congresso Internacional de Vocações. Esta assembléia também
aprovou que o mês vocacional (agosto) fosse realizado
em nível
nacional.
O 2º Ano
Vocacional
surgiria 20
anos depois
(2003), sendo aprovado pelos bispos
na 39ª Assembléia da
CNBB, realizada em
2001, a mesma que aprovou a realização do 2º
Congresso Vocacional do
Brasil, em 2005.
E o 1º Congresso Vocacional do
Brasil, realizado em 1999, foi motivado - direta ou indiretamente - pelo 1º
Congresso Continental de Vocações
(Brasil, 1994). De fato, a idéia surgiu
dentro do IPV, em 1997, e logo foi encaminhada ao então Setor Vocações e Ministérios da CNBB (cf. Texto-base do 2º
Ano Vocacional do Brasil, n. 28).
E assim chegamos ao 2º Congresso Vocacional do Brasil!
Cf. SACCO Raffaele, Congressi Internazionali sulle
vocazioni di ‘speciale’ consagrazione (Dizionario di
Pastorale Vocazionale, Roma, Rogate, 2002, p. 279311); MAGNO Vito, Pastorale delle Vocazioni (Idem,
p. 815-825).
Pe. Juarez Albino Destro, RCJ
13
ATUALIDADES
ATUALIDADES
Mutirão Brasileiro de Comunicação
Em sua 4ª edição, o mutirão debateu sobre Comunicação e
Responsabilidade Social e reuniu cerca de 500 pessoas, que
participaram de palestras, grupos de trabalho e oficinas
E
ntre os dias 10 e 15 de julho, na cidade de Guarapari (ES), foi realizado o 4° Mutirão Brasileiro de Comunicação, uma iniciativa da União Cristã
Brasileira de Comunicação (UCBC), em
parceria com Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB) e as organizações
de comunicação da Igreja Católica: UNDA/
Brasil, Rede Católica de Rádio (RCR) e
OCIC/Brasil. Cerca de 500 comunicadores
se reuniram no Centro de Convenções do
SESC de Guarapari para acompanhar as palestras e participar das diversas oficinas
oferecidas nos dias do evento.
A cerimônia de abertura do Mutirão
contou com as presenças do arcebispo de
Vitória (ES), D. Luiz Mancilha; da presidente da UCBC, Desirée Rabelo; do arcebispo de Belém (PA) e Presidente da Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação Social da CNBB, D.
Orani Tempesta; do assessor nacional da
CNBB, Pe. Roberto Preczevski; e do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus
Ananias. Após acolher os congressistas, D.
Luiz falou sobre a importância do comunicador cristão dar a boa notícia, e Desirée
apresentou um perfil da UCBC e argumentou sobre o papel do Mutirão.
Ao final dos pronunciamentos das autoridades que compunham a mesa, as atenções se concentraram na conferência do
14
ministro Patrus Ananias sobre Comunicação e Responsabilidade Social, tema do Mutirão. O ministro saudou a todos, lembrou
D. Hélder Câmara e ressaltou que a responsabilidade dos meios de comunicação
não deve se limitar à cobrança de que as
leis e os direitos dos cidadãos sejam respeitados, mas cabe à mídia também respeitar as pessoas e não banalizar os valores éticos. Na oportunidade, Patrus
Ananias fez um panorama do Governo Lula
e comentou sobre os últimos acontecimentos envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT). A noite se encerrou com um coquetel.
Durante os dias que se seguiram, ocorreram conferências e seminários no período da manhã, oficinas e grupos de trabalho à tarde, além de atividades culturais e
Feira de Negócios no período noturno. A
manhã de 15 de julho, último dia do Mutirão, foi marcada pela conferência ministrada por Plínio de Arruda Sampaio, com o
tema: Fé e Compromisso Social.
Candidato à presidência nacional do PT,
ex-deputado estadual (SP) e militante cristão desde os 15 anos, o economista Plínio
Sampaio advertiu, em sua apresentação,
que o cristão e a sociedade brasileira não
podem se deixar enganar pela mídia. Segundo ele, os meios de comunicação deveriam atuar de forma responsável, não
ATUALIDADES
veiculando isoladamente os fatos, mas inserindo-os em um contexto histórico, político e social. Plínio Sampaio destacou,
também, que todos os avanços sociais são
conquistados pela movimentação e pressão popular. Quanto à crise política, ele argumentou que um dos erros do PT foi que
“o partido começou a ir para o poder com
os mesmos métodos tradicionais da política brasileira”, mas acredita que não será
perdida a experiência do PT, “um partido
que foge à criação elitista”, afirmou.
Na tarde do último dia, além de oficinas
e grupos de trabalho, o Mutirão contou com
a Assembléia Extraordinária da UCBC (ver
quadro) e com o Encontro dos Bispos e
Assessores Regionais da Comissão Episcopal para a Cultura Educação e Comunicação Social, da CNBB. Na cerimônia de
encerramento, Porto Alegre (RS) foi oficialmente lançada como a cidade sede do 5°
Mutirão, a se realizar em 2007. À noite, uma
festa marcou o
final do 4° Mutirão.
As edições
anteriores
aconteceram
em Belo Horizonte-MG (de
14 a 24 de julho
de 1998), São
Paulo-SP (de
23 a 28 de julho
Foto: UCBC
de 2000) e SalDesirré Cipriano Rabelo,
vador-BA (de
presidente da UCBC,
13 a 19 de julho
e Elson Faxina,
de 2003). As
ex-presidente, no
memórias deslançamento do livro do
tes eventos es3º Mutirão Brasileiro
tão registradas
de Comunicação
em livros (veja
no quadro).
A Redação
UCBC realiza assembléia
durante o Mutirão
N
a tarde do dia 15 de julho, último dia do
4º Mutirão Brasileiro de Comunicação,
a UCBC (União Cristã Brasileira de Comunicação) realizou sua 40ª Assembléia Extraordinária, que contou com a presença de
40 sócios da entidade. Durante o evento,
foram apresentados os balanços parciais de
projetos e debateu-se a realização de
Mutirões Regionais de Comunicação e o trabalho a ser desenvolvido pela entidade junto a esses Mutirões.
Dentre os temas da assembléia, destaque para a exposição dos resultados preliminares da pesquisa institucional, desenvolvida pelo consultor Eduardo Baptista. Além
de entrevistas com sócios, o consultor estudou documentos da UCBC para traçar o
perfil a ser seguido pela entidade, que está
completando 35 anos. O assunto foi debatido e será aprofundado na 41ª Assembléia
Ordinária, que acontecerá em São Paulo
(SP), de 12 a 15 de novembro deste ano.
Além de refletir e definir o futuro da UCBC,
esta próxima assembléia, cujo tema é “Celebrar o passado semeando o futuro”, promoverá a eleição da nova diretoria para o
triênio 2005-2008.
UCBC lança livro sobre
3° Mutirão
A
UCBC lançou na noite de 12 de julho,
durante o 4° Mutirão Brasileiro de Comunicação, o livro com os anais do 3º Mutirão, realizado de 13 a 19 de julho de 2003,
na cidade de Salvador (BA). A obra é um
registro das discussões em torno do tema:
“Uma outra comunicação é possível”.
O livro pode ser adquirido junto à secretaria da UCBC, ao preço de R$ 15,00. Há,
também, o livro contendo a memória dos
dois primeiros mutirões, por R$ 10,00 (não
estão incluídas as despesas postais).
Pedidos:
Tel.: (11) 5589-2050
E-mail: [email protected]
15
ESPECIAL
ESPECIAL
11º Encontro das CEBs
Com o tema “Espiritualidade Libertadora” e o lema “Seguir
Jesus Cristo no compromisso com os excluídos”, perto de
quatro mil pessoas se reuniram no encontro das CEBs
O
11º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base
(CEBs) foi realizado na cidade de
Ipatinga, diocese de Itabira-Fabriciano
(MG), entre os dias 19 e 23 de julho. Participaram aproximadamente dois mil cristãos leigos e leigas, 420 consagrados e consagradas, 430 ministros ordenados, além
de representantes de Igrejas cristãs, bem
como de outras religiões e culturas, e convidados de outros países. Cerca de 250
membros da Pastoral da Juventude do Regional Leste 2 (MG e ES) marcaram presença, acampados próximo ao local do encontro.
Acolhidos nas casas das famílias das
cidades do Vale do Aço - Coronel Fabriciano, Ipaba, Ipatinga, Santana do Paraíso e
Timóteo - os militantes das CEBs tomavam o café da manhã nas próprias famílias
em que estavam hospedados, enquanto os
lanches, o almoço e o jantar eram servidos no local do encontro. Este trabalho envolveu cerca de dois mil voluntários e quase duas mil famílias. Dentre os delegados
presentes, 75,2% participaram pela primeira vez de um Intereclesial, sinalizando
uma intensa renovação de lideranças.
O tema da 11ª edição do encontro - “Espiritualidade Libertadora” - e o lema - “Seguir Jesus Cristo no compromisso com os
excluídos” - ajudaram os participantes a
16
cumprir o objetivo do mesmo, ou seja, pautar uma agenda de atuação evangelizadora
na Igreja do Brasil. Na oportunidade, definiu-se que Porto Velho (RO) será a sede
do 12º Intereclesial das CEBs, em 2009.
Ao final do encontro foi divulgada uma
mensagem, com o título: “A paz de Cristo”. O texto, na íntegra, está disponível na
Internet (www.cebs11.org.br). Alguns trechos:
“Aqui viemos representando nossas comunidades no anseio de colocar em comum a fé em Jesus Ressuscitado; partilhar nossas experiências; refletir sobre as
situações de exclusão vividas pelo povo;
caminhar à luz da Palavra e do testemunho de Jesus, pobre entre os pobres, porque cremos, resistimos e sonhamos viver
num mundo sem exclusões. (...) Orientounos o método Ver, Julgar, Agir e Celebrar.
(...) Reafirmamos uma espiritualidade
inserida na vida dos pobres, marcada pela
experiência de Deus, buscando a libertação da pessoa, da história e de toda criação! (...) É urgente o esclarecimento dos
fatos de corrupção política ocorridos no
atual governo e nos anteriores, punindose exemplarmente os responsáveis. (...)
No seguimento de Jesus Cristo, somos
enviados pelo Espírito para servir a todos
homens e mulheres, irmãos e irmãs”.
A Redação
ESTUDO
ESTUDO
Chamados à Palavra
Palavra, Vocação e Missão são sinais expoentes da
Comunicação, três conceitos básicos da Sagrada Escritura. E
Comunicação é essencialmente Vida!
O
objetivo deste estudo é trabalhar
os conceitos Palavra, Vocação e
Missão, apontando algumas correspondências e estreitas ligações entre eles,
de maneira que a tríade esteja em constante harmonia na vida das pessoas que se
deixam conduzir e orientar por um bem
maior.
A palavra é um símbolo privilegiado na
arte de comunicar, que as pessoas dispõem
no seu cotidiano. Por sua vez, a vocação e,
conseqüentemente, a missão, também expressam uma comunicação muito viva e
eficaz, pois nada mais são do que a própria
palavra que deitou raízes e se concretizou
na vida e na história humana.
Evidentemente trataremos da Palavra
de Deus, ou seja, a Sagrada Escritura, um
dos instrumentos privilegiados no qual
Deus se comunica e se revela ao ser humano com o intuito de salvá-lo. E cabe a
todo aquele que é chamado, responder-lhe.
Palavra que gera, salva e
santifica a Vida
“A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo
de Deus” (Jo 6,68-69). Esta é a profissão
de fé proferida por Simão Pedro a Jesus
em nome dos Doze, quando muitos dos
seus discípulos fizeram uma marcha à ré no seguimento de Jesus
(cf. Jo 6,66).
Para entendermos essa profissão de Simão
em relação a Jesus, devemos recordar o hino de
entrada do evangelho joanino, o
denominado Prólogo, no qual fala
da preexistência
da Palavra (ou
Verbo) desde o
princípio (cf. Jo
Fotos: Arquivo Rogate
1,1), bem antes
1
da criação. A Palavra é o “Logos” de Deus, o ato da comunicação do Pai que precede toda a criação
(1,3). É a sabedoria de Deus. É o próprio
Deus (1,1) e a Vida desde a criação (1,4),
que agora se revela como Luz dos humanos, embora as trevas queiram dissipá-la.
Não resta dúvida nenhuma que nestes
primeiros versículos estão expressas a
grande comunicação de Deus, ou melhor,
o desejo de Deus de se comunicar com seu
povo. A Palavra - que estava junto de Deus
17
ESTUDO
humana (1,4). Jesus, ao longo do quarto
e voltada para Deus - está pronta como um
evangelho, assume assim todos os aspecanjo a ser enviado. Deus tinha perto de si
tos desta Palavra. Jesus é o projeto realia sua Palavra, toda pronta a seu serviço
zado, que possui a plenitude da vida. Ele é
(cf. Is 55,8-10; Sb 18,14-16).2 A Palavra
a expressão do projeto de Deus sobre o
agora é uma comunicação direta de Deus
homem. É Palavra criadora e eficaz, que
mesmo que se revela à humanidade. Outrora, Deus criou por sua palavra (criação)
dispõe da vida e a comunica (5,26). É Pae dirigiu sua palavra, não “seu verbo”, aos
lavra que manifesta o ser de Deus, é a exprofetas e a nós. A Lei, mais especificapressão de sua intimidade que quer se comente os mandamentos, eram “palavras”
municar: a manifestação da glória-amor do
Pai que leva à unidade e comunhão com
de Deus. Hoje, Jesus é a Palavra única.3
A mesma Palavra que gera
ele (17,22; 1,18).4
a vida, ela a salva e a santifiVoltando à passagem
Desde a
ca. A Palavra estava na prejoanina em que Simão confirsença de Deus como sua automa sua adesão a Jesus, notaexperiência
expressão. Ela já estava junse que realmente Jesus é a
de Israel, a
to de Deus quando este tomou
Palavra Viva enviada do Pai.
palavra
de
a iniciativa de sua atuação. Diz
Senão vejamos: quando Jesus
Deus tornouno livro dos Provérbios: “Desinterroga os Doze numa forde a eternidade fui designada,
ma quase que indignada e
se palavradesde os tempos antigos, anprovocativa por causa da saífato, evento
tes que a terra fosse feita.
da dos demais - “Vós também
que brota da
Ainda não havia os abismos,
quereis ir embora?” (Jo 6,67)
comunicação
e eu já fora concebida, quan-, Simão responde em nome
do ainda não havia os manandos demais: “A quem iremos,
verbal.
ciais das águas; antes que fosSenhor? Tu tens palavras de
sem plantadas as montanhas,
vida eterna...” (Jo 6,68 - griantes das colinas, eu fui dada à luz. Ele ainfo nosso). Aqui, palavras não é mais o terda não havia feito a terra e os campos, nem
mo logos como no prólogo. Trata-se de
os primeiros elementos do orbe terrestre”
“rhema”, que tem dois significados funda(Pr 8,23-26).
mentais: palavra e coisa. Corresponde,
O sentido bíblico de Logos, inclusive no
assim, ao termo hebraico “dabar”, traducorpo do evangelho joanino, é de palavra
zido freqüentemente na Septuaginta.
ou dito (caráter oral). Mas no prólogo
“Rhema” pode designar a idéia de fato e
joanino tem sentido complexo que abarca
acontecimento, conceitos bastante usados
os diversos aspectos do termo grego: Pano Segundo Testamento e mais especifilavra-projeto formulado (1,1c.17.24); Palacamente em Lucas.5 E a expressão “vida
vra eficaz, criadora (1,3s); Palavra expreseterna” (no grego, zôê aiônios) denota uma
siva, pois o projeto formulado em Palavra
qualidade de vida que é definitiva. É a vida
manifesta o ser de Deus, o seu amor para
que corresponde ao homem - espírito
com o homem; Palavra comunicativa
(pneuma).6 No quarto evangelho encontra(1,4.5.9-12) e Palavra normativa (13,34).
mos “rhema” sempre no plural para se reÉ essa a Palavra que se torna realidade
ferir às palavras de Jesus, fazendo-nos com18
ESTUDO
preender que Jesus pronuncia as palavras
de Deus (3,34; 8,47), que ele recebe e transmite (17,8). As palavras de Jesus são também suas obras (14,10; 17,4.8).7
Palavra de Deus é uma fórmula recorrente na tradição judaico-cristã. O Segundo Testamento herda do Primeiro a “palavra de Deus” (dabar Ihwh). Desde a experiência de Israel, a “palavra de Deus” tornou-se “palavra-fato”, evento que brota da
comunicação verbal. “Palavra de Deus”
indica que Deus é o autor de uma comunicação. Embora a idéia de uma palavra de
origem divina não seja exclusiva de Israel, no Primeiro Testamento o que a caracteriza é o fato de ser dita, ou seja, ela se
torna um evento histórico: da palavra da
criação à palavra da libertação e da aliança; da palavra profética à palavra da sabedoria. Em todos esses momentos da história da salvação há sempre um “fazer-se
presente” de Deus, que age e entra em comunhão dialógica com a pessoa. Não é palavra sobre Deus, mas de Deus e da sua
irresistível eficácia (cf. Is 55,10-11).8
Vocação é Palavra!
E a Palavra se corporifica
pelo Chamado à Missão
“E a Palavra se fez carne e veio morar
entre nós” (Jo 1,14a). A grande comunicação de Deus se faz presente agora, e para
sempre, de uma forma viva e eficaz, encarnada na história da humanidade. Mais
do que no passado, em que Javé habitava
por alguns momentos na tenda ou no santuário para manifestar a sua glória ao povo
através de seus mediadores,9 hoje, “na plenitude dos tempos”, ele vem de uma vez
por todas para ficar no meio dos seus. A
Palavra se corporifica, de maneira que
toma forma humana. A divindade tornou-
se presença humana ao vir ela mesma ao
encontro direto com a humanidade para
divinizá-la. A Palavra de Deus, portanto, se
historiciza, assumindo a figura e a linguagem humana dentro de uma cultura com
toda a sua contextualização. Teologicamente falando, assume enfim toda uma condição humana revestida de fragilidade, pecado e morte.
E será que tudo isso não tem nada a ver
com vocação e missão? Qual a relação que
existe entre Palavra-Chamado-Missão? Em
primeiro lugar, procuraremos sinteticamente falar da origem dos termos vocação e missão.
O termo em si “vocação” não existe em
hebraico, embora podemos encontrar muitos relatos vocacionais de grande importância no Primeiro Testamento. Em seus
relatos, os redatores bíblicos usam os verbos “enviar” (shalah, em hebraico) e “ir”
(halak, em hebraico),10 e usam raramente
o verbo “chamar” (qara, em hebraico),11
bem como o “escolher”.12 Nos relatos vocacionais do Segundo Testamento encontramos o verbo “chamar” (kaleô, em grego) e o adjetivo do grego klêtos, que significa “chamado, vocacionado e convidado”.13
O termo é bastante conhecido por todos
nós como “vocare”, na língua latina.
Quanto ao termo missão, provém do
latim “mittere”. No grego bíblico encontramos “apostellô” (enviar) e “pempô” (enviar, mandar). Ele “ocupa lugar importante
na reflexão teológica por exprimir, na doutrina trinitária, a relação que liga o Pai ao
Filho e ao Espírito Santo”.14
A noção de “vocação” ou “chamamento”
põe em relevância a iniciativa divina. Se
no Primeiro Testamento a iniciativa divina
é salvar Israel, o Segundo Testamento se
concentra na vocação para a fé em Cristo. A
base da vocação é um livre e insondável
19
ESTUDO
clarear e nortear a nossa mente e o nosso
decreto divino; não o merecimento humacoração. Ela é a nossa bússola. O espírito
no.15 O chamamento de Deus perpassa toda
a história da humanidade abrangendo a tonela presente inspirou a muitos vocaciodas as raças, nações e culturas. Ele atinge,
nados no passado e nos quer também insenfim, a todas as categorias de tempo e espirados e sensibilizados à sua Palavra e aos
paço. Deus nos chama sempre para poderdesafios atuais da história.
mos atuar no tempo presente da nossa hisA nossa resposta de fé ao chamado divitória. Deus se aproxima do ser humano para
no vai depender muito da maneira como
convidá-lo a entrar na sua felicidade e a tonós nos posicionamos diante da Palavra,
mar posse no reino de sua glória.
que é eterna e veio para fecundar e
Muitos relatos ou narrações bíblicas potencializar o dom da vida. A vocação ou
de teor vocacional - que encontramos em
o chamado de Deus acontece quando na gragrande escala no “livro da
tuidade somos solícitos à Pavida” são verdadeiras pistas
lavra,16 sentindo-nos “portaNós, vocaciode indicações que nos desperdores” da mesma e concretitam sempre a consciência de
zando-a em forma de missão.
nados e vocaque somos convocados a ser
O tripé (tríade) - Palavra,
cionadas do
“assembléia dos chamados”.
Chamado, Missão - está em
Senhor, somos
Essas narrações foram escriprofunda sintonia, entrelaçachamados a
tas com a finalidade de consdo. Não dá para evocar uma
cientizar o leitor atento que a
delas sem ao menos, indirenos deixar
sua vida também está inserida
tamente, referir-se à outra.
modelar e a
nas Sagradas Escrituras. Os
Apesar de cada termo ter o
nos edificar
nossos “heróis” ou personaseu significado próprio, há
pela
Palavra
gens bíblicos que encontrauma complementação entre
mos nos vários episódios voeles, formando uma bela unide Deus.
cacionais, através de narradade nos relatos do início ao
ções nos vários contextos hisfim da Sagrada Escritura.
tóricos na História da Salvação, nada mais
Dessa forma entendemos que só se comusão do que o nosso retrato fiel, daquilo que
nica aquele que ouve atentamente o que o
somos ou ainda não somos e desejamos ser
outro diz, ou seja, acolhe bem a palavra, e,
(ideal de vida) no hoje vocacional da histópor sua vez, a transmite o mais fiel possíria. Diz o poeta, o filósofo, que a vida se
vel aos outros interlocutores.
repete. Em termos, é verdade! Mas, soNa tradição judaico-cristã somos portadores e anunciadores da Palavra da Alimos também chamados a não fazer da vida
uma mera sucessão de fatos ou aconteciança. A exemplo dos grandes profetas do
Primeiro Testamento somos chamados a
mentos repetidos. Somos chamados a pincomunicar os oráculos do Senhor, que semtar o verdadeiro rosto de Deus em nossa
pre sai em defesa da vida de seu povo. Na
vida nas páginas principais da nossa histótradição cristã, sustentados pela doutrina
ria. Somos chamados e advertidos a codos santos apóstolos e evangelistas, nós
mandar a carruagem da vida. Para isso,
associamos e confirmamos, pela fé, ser
urge presteza e constante discernimento.
esta Palavra, Jesus Cristo, a boa notícia
E a Palavra de Deus tem essa função de
20
ESTUDO
viva do Pai, que nos oferece na sua gratuidade o dom salvífico da redenção.
No relato joanino, Jesus tem as palavras de vida eterna. Ele é a via de acesso
ao Pai. Assim como desceu do Pai, irá subir ao Pai, quando chegar a sua “hora” de
ser glorificado na morte de cruz (cf. Jo 3,1416). Jesus tem as palavras, e segundo a tradição da fé petrina, também presente no
quarto evangelho, ele é reconhecido como
sendo o santo de Deus.17 O vocacionado é
portador das palavras de Deus e não de suas
próprias. Por isso, Jesus vai dizer que
aquele que Deus enviou fala as palavras
de Deus, e o veículo que opera entre os
dois agentes é o espírito que age sem medida (cf. Jo 3,34). Jesus é a Palavra perfeita
e verdadeira do Pai. Foi por ele enviado
para salvar e não para condenar (cf. Jo
12,48-50). As palavras do Pai, testemunha-
das e ditas pelo Filho, são espírito e vida
(cf. Jo 6,63). E somente consegue ouvi-las
quem é de Deus e se o Pai lhe dá a
conhecê-las através do Filho (cf. Jo 8,47).
Somos chamados à Palavra. Mais do que
um som expressando algum significado,
uma palavra faz realmente as coisas. A Palavra de Deus não é apenas som e nem somente uma letra lida do púlpito. Ela é uma
causa eficaz, pois cria, renova, santifica nossas ações e se concretiza na vida real das
pessoas. Nós, vocacionados e vocacionadas
do Senhor, somos chamados a nos deixar
modelar e a nos edificar por essa Palavra,
que é o canal da graça, o espírito vivificante
que age bem acima de todas as potencialidades humanas. O homem da plenitude humana, Jesus Cristo, a Palavra Eterna do Pai,
oxalá, seja a nossa única via de acesso a
Deus, que nos chama à Palavra.
Referências Bibliográficas:
1 Jo 1,1-5: “No princípio era a Palavra, e a Palavra
estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Ela
existia, no princípio, junto de Deus. Tudo foi feito
por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o
que existe. Nela estava a vida, e a vida era a luz
dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas
não conseguiram dominá-la” (Tradução da CNBB).
2 Cf. KONINGS, J.; Evangelho Segundo João - amor
e fidelidade; p. 84; (Vozes: Petrópolis, 2000).
3 Cf. KONINGS; Evangelho...; p. 85.
4 Cf. MATEOS, J & BARRETO, J.; Vocabulário Teológico do Evangelho de São João; p. 225-6; (Paulinas: São Paulo, 1989).
5 Cf. Lc 1,38.65; 2,15.17.19.29.50.51... Um exemplo típico (Lc 2,19): “Maria, contudo, conservava
cuidadosamente todos esses acontecimentos...”
6 Cf. MATEOS & BARRETO; Vocabulário...; p. 285.
7 Cf. BALZ, H.; & Schneider, G.; Diccionario
Exegético Del Nuevo Testamento II; p. 1310;
(Ediciones Sigueme: Salamanca, 1998).
8 LEXICON - Dizionario Teológico Enciclopédico;
p. 563-4; (Edizioni Piemme Spa: Casale
Monferrato Al Italia, 1993).
9 Cf. Ex 40,34-35;
1Rs 8,1; Ez 44,4.
10 Cf. Jz 6,14; Is 6,8.
11 Cf. Ex 3,4.
12 Cf. Is 42,6; 45,3.
13 BAUER, J. B.; Dicionário Bíblico-Teológico; p. 448-9;
(Loyola: São Paulo,
2000).
14 LEXICON - Dizionario...; p. 496.
15 BAUER...: Dicionário... ; p. 450.
16 Cf. Mt 10,8b: “De graça recebestes, de graça
deveis dar!”
17 A expressão “santo de Deus”, segundo a nota
de rodapé da Bíblia de Jerusalém, quer significar: o enviado e eleito de Deus, consagrado e
unido a ele de modo eminente, o Messias.
Pe. Mário Alves Bandeira, RCJ
21
IN FORMAÇÃO
IN FORMAÇÃO
Conferência Episcopal
Latino-americana
O papa Bento XVI aprovou a realização
da próxima Conferência Episcopal Latinoamericana. Será a 5ª edição. O tema: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo para
que nossos povos nele tenham vida”, e o
lema: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a
Vida” (Jo 14, 6). A 30ª Assembléia Ordinária do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), celebrada em Lima, Peru,
de 17 a 20 de maio de 2005, indicou a Argentina como país sede desta 5ª Conferência, e a data: fevereiro de 2007. Até o final
do ano o papa deverá dar seu parecer sobre esta indicação. Segundo os participantes da assembléia, a 5ª Conferência Episcopal será um importante momento de estudo e de motivação para a Igreja proclamar a defesa da vida e se colocar em estado de missão. A assembléia comemorou,
ainda, os 50 anos de fundação do CELAM.
ao longo da história, muitas provas de energia e capacidade de superar crises.
Alicerçados nos valores do evangelho, proclamamos com todo vigor: não vamos desistir do projeto de construir uma Nação
justa, pacífica e democrática”. O 2° Congresso Vocacional do Brasil também esteve na pauta de discussão.
IPV tem nova diretoria
O Instituto de Pastoral Vocacional (IPV)
realizou, no último dia 16 de agosto, sua
assembléia eletiva, escolhendo a nova diretoria executiva para o triênio 2005-2008.
Na oportunidade também se elegeu a nova
diretoria do Conselho Superior e os novos
membros do Conselho para Assuntos Econômicos. Pe. Ângelo Ademir Mezzari, religioso rogacionista, foi escolhido para ser
o novo Presidente do Conselho Superior.
E Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, religioso vocacionista, foi reeleito no cargo
de Diretor-presidente.
Assembléia Geral da CNBB
Em Itaici, na cidade de Indaiatuba (SP),
foi a realizada a 43ª Assembléia Geral da
CNBB. A reunião ocorreu entre os dias 09
e 17 de agosto, com o tema: “Evangelização e Profetismo: novos desafios para a
missão da Igreja”. No dia 12 os bispos divulgaram nota sobre a atual crise política
do Brasil. Na mensagem eles reafirmaram
a “confiança no povo brasileiro, cuja cultura, apesar de alguns aspectos ambíguos,
guarda valores de grande significação ética, como a solidariedade, a cordialidade e
o senso de justiça”. E mais: “O povo já deu,
22
PV-PJ
No próximo dia 08 de outubro, na sede
do Instituto de Pastoral Vocacional, em São
Paulo (SP), será realizado o curso “Pastoral Vocacional e Pastoral da Juventude:
desafios e propostas de interação”, com assessoria do Pe. José Lisboa Moreira de
Oliveira, diretor-presidente do IPV. O curso vai das 08 às 18 horas. As inscrições
poderão ser feitas até o dia 1º de outubro
(R$ 65,00 - incluindo almoço). Mais informações pelo site do IPV (www.ipv.org.br)
ou pelo telefone: (11) 3931-5365.
LEITOR
LEITOR
Contribuindo na pastoral
Agradecemos a valiosa contribuição
que a revista Rogate vem dando para o
trabalho na Igreja e na sociedade nos dias
de hoje. Os votos de um trabalho cada vez
mais fecundo e promissor.
Ir. Teresinha de Barros
Afuá (PA)
Uma grande riqueza
Ter a assinatura da revista Rogate é,
para nós que trabalhamos na Equipe Vocacional Diocesana, uma grande riqueza, pois
nos ajuda bastante neste maravilhoso trabalho e, sobretudo, num momento tão significativo que é o nosso 2º Congresso Vocacional do Brasil. Em preparação a este
evento, realizamos - em nossa diocese de
Petrolina (PE) - o 1º Seminário Vocacional, nos dias 08 a 10 de julho. Um dos objetivos do encontro foi a elaboração do Projeto Vocacional Diocesano.
Ir. Lucinha, MP
Petrolina (PE)
Assinatura
Preciso fazer a assinatura da revista
Rogate e/ou algo que possa me ajudar no
trabalho de pastoral vocacional.
Ir. Luzia Godoi
São João Del Rei (MG)
Gostaria de saber sobre a assinatura da
revista Rogate de animação vocacional e
se é possível eu comprar as revistas que
já saíram esse ano.
Simone Regina
por e-mail
Desejo fazer a assinatura da revista
Rogate. Na primeira vez que receber terei que realizar o pagamento? De que forma? Abraços fraternos.
Marcos Santos
Salvador (BA)
Nota:
Para assinar a revista Rogate (dez números ao ano) basta enviar os dados completos do assinante - nome e endereço - e o
comprovante do pagamento, por fax ou
Internet. Alguns números atrasados ainda
podem ser adquiridos, dependendo de verificação prévia no arquivo (cada revista tem
o valor de R$ 3,00). Algumas Celebrações
Vocacionais de edições anteriores também
podem ser adquiridas pelo valor atual, ou
seja, R$ 0,20 a unidade (pedido mínimo de
10). Na ficha central há mais informações.
As mensagens enviadas poderão ser
editadas pela equipe, favorecendo um
melhor entendimento de seu conteúdo.
A Revista Rogate já está na Rede Mundial de
Computadores. Visite:
www.rogate.org.br
23
MÍSTICA DA VOCAÇÃO
MÍSTICA
Santo Agostinho, um convertido
A
vida nos reserva surpresas que não
podemos imaginar e nem prever. É
necessário caminhar com o coração
aberto, inquieto, na busca da verdade. Mais
cedo ou mais tarde a verdade, como uma
luz que não pode ser esquecida, aparecerá
à nossa frente. Assim podemos compreender o grito de uma mulher corajosa e
profetisa, como Edith Stein, que diz: “Por
muito tempo a minha única oração foi a
busca da verdade”. Ela a buscou nos livros
da fenomenologia e não encontrou, na escola dos grandes filósofos e não encontrou.
Buscou-a por caminhos longos e difíceis,
e sempre percebia o vazio interior. Buscou sem saber na leitura de uma mulher
desconhecida para ela, na autobiografia de
Teresa de Ávila, e, terminando a leitura,
pôde exclamar: “Aqui está a verdade!”.
Mais tarde, busca no livro sempre aberto,
e com páginas ensangüentadas do crucifixo, e encontrará para sempre a verdade
que não mais será uma idéia, mas sim uma
pessoa viva: Jesus.
Agostinho de Hipona, que viveu no século IV, buscou também a verdade pela filosofia e não a encontrou. Tentou sufocar
a voz do amor e da verdade que gritava
dentro dele e não conseguiu. Pelas orações
e o exemplo de sua mãe, Mônica, encontra a verdade na beleza eterna de Deus,
sempre amado. Ele sabe bem que não se
pode experimentar a verdadeira paz quando no coração não temos vivo o Senhor que
nos criou. Agostinho percorreu o caminho
da interioridade e viu que dentro dele estava a fonte da vida, da paz. E não conseguiu guardar para si o grande segredo: “Eu
24
te procurava fora de mim e não te encontrava; longe de mim e não te encontrava,
porque tu estavas dentro de mim. Fizeste
o nosso coração inquieto e não descansará
até que te encontre”.
É o segredo da vocação de Agostinho.
Ele passou sua juventude de escola filosófica em escola filosófica. Tentou beber nos
riachos dos prazeres e da sexualidade, mas
viu que este caminho não levaria a nada.
Sentiu todo o vazio interior e a revolta contra si mesmo, mas soube ver a realidade
com os olhos iluminados pela fé. Deixou
que a verdade lhe penetrasse até o miolo
e percorreu caminhos novos, feitos de
amor e de meditação da Palavra de Deus.
Santo Agostinho não carrega o complexo de culpa e nem amaldiçoa o seu passado, como tantos de nós fazemos diante dos
erros. Com coragem, de olhos abertos,
assume o seu passado e canta as maravilhas do Senhor, que o encheu com toda sua
misericórdia e amor.
Eu estou convencido de que há muitos
jovens que têm gasto a sua juventude em
fontes e riachos do prazer, da sexualidade,
da droga, do desperdício, e que teriam agora o desejo imenso de dedicar sua vida ao
serviço da evangelização, mas têm medo...
Medo de quê? Quem decide se converter
não deve ter medo de nada e de ninguém.
“Deus é amor!” (1Jo 4,8). É só tomar decisões, como Agostinho ou Edith Stein, e
ir em frente. Por que tanto medo? “No
amor não há medo, o amor verdadeiro afugenta o medo” (cf. 1Jo 4,18).
Frei Patrício Sciadini, OCD
Download

OPINIÃO - Revista Rogate