VICE-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO E CORPO DISCENTE
CENTRO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA I
Conteudista
Rachel de Almeida Moura
Rio de Janeiro / 2011
Todos
os direitos reservados à
Universidade Castelo Branco
UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO
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Un3h Universidade Castelo Branco
História Contemporânea I / Universidade Castelo Branco. – Rio de Janeiro: UCB, 2011. - 48 p.: il.
ISBN
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Apresentação
Prezado(a) Aluno(a):
É com grande satisfação que o(a) recebemos como integrante do corpo discente de nossos cursos de graduação, na certeza de estarmos contribuindo para sua formação acadêmica e, consequentemente, propiciando
oportunidade para melhoria de seu desempenho profissional. Nossos funcionários e nosso corpo docente esperam retribuir a sua escolha, reafirmando o compromisso desta Instituição com a qualidade, por meio de uma
estrutura aberta e criativa, centrada nos princípios de melhoria contínua.
Esperamos que este instrucional seja-lhe de grande ajuda e contribua para ampliar o horizonte do seu conhecimento teórico e para o aperfeiçoamento da sua prática pedagógica.
Seja bem-vindo(a)!
Paulo Alcantara Gomes
Reitor
Orientações para o Autoestudo
O presente instrucional está dividido em três unidades programáticas, cada uma com objetivos definidos e
conteúdos selecionados criteriosamente pelos Professores Conteudistas para que os referidos objetivos sejam
atingidos com êxito.
Os conteúdos programáticos das unidades são apresentados sob a forma de leituras, tarefas e atividades complementares.
As Unidades 1e 2 correspondem aos conteúdos que serão avaliados em A1.
Na A2 poderão ser objeto de avaliação os conteúdos das três unidades.
Havendo a necessidade de uma avaliação extra (A3 ou A4), esta obrigatoriamente será composta por todo o
conteúdo de todas as Unidades Programáticas.
A carga horária do material instrucional para o autoestudo que você está recebendo agora, juntamente com
os horários destinados aos encontros com o Professor Orientador da disciplina, equivale a 60 horas-aula, que
você administrará de acordo com a sua disponibilidade, respeitando-se, naturalmente, as datas dos encontros
presenciais programados pelo Professor Orientador e as datas das avaliações do seu curso.
Bons Estudos!
Dicas para o Autoestudo
1 - Você terá total autonomia para escolher a melhor hora para estudar. Porém, seja disciplinado. Procure reservar sempre os mesmos horários para o estudo.
2 - Organize seu ambiente de estudo. Reserve todo o material necessário. Evite interrupções.
3 - Não deixe para estudar na última hora.
4 - Não acumule dúvidas. Anote-as e entre em contato com seu monitor.
5 - Não pule etapas.
6 - Faça todas as tarefas propostas.
7 - Não falte aos encontros presenciais. Eles são importantes para o melhor aproveitamento
da disciplina.
8 - Não relegue a um segundo plano as atividades complementares e a autoavaliação.
9 - Não hesite em começar de novo.
SUMÁRIO
Quadro-síntese do conteúdo programático ..................................................................................................
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Contextualização da disciplina.....................................................................................................................
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UNIDADE I
ANTIGO REGIME E REVOLUÇÃO FRANCESA
1.1 - Antigo regime e Iluminismo: privilégios e perspectivas de mudança.................................................. 13
1.2 - A Revolução Francesa: processos, cronologia, alianças e conflitos..................................................... 14
1.3 - Pensando a Revolução Francesa: interpretações e historiografia......................................................... 17
1.4 - A era das revoluções: limites e alcances em perspectiva...................................................................... 18
UNIDADE II
O LONGO SÉCULO XIX
2.1 - Resultados humanos da Revolução Industrial: a formação da classe trabalhadora inglesa.............. 21
2.2 - As ondas revolucionárias de 1830 e 1848: conjunturas, atores, conquistas......................................... 22
2.3 - O movimento operário europeu: o ludismo, a internacional dos trabalhadores, o socialismo............. 23
UNIDADE III
ESTADO E NAÇÃO EM FINS DO SÉCULO XIX
3.1 - A ideia de progresso na construção das nações....................................................................................
3.2 - O movimento das nacionalidades: os casos de França e Alemanha.....................................................
3.3 - O popular em questão: culturas de elite, culturas do povo e as massas no século XIX.......................
3.4 - Romantismo, positivismo e darwinismo social....................................................................................
3.5 - O imperialismo europeu e suas interpretações ....................................................................................
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34
36
36
37
Glossário....................................................................................................................................................... 41
Gabarito......................................................................................................................................................... 43
Referências bibliográficas.............................................................................................................................
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Quadro-síntese do conteúdo
programático
UNIDADES DO PROGRAMA
OBJETIVOS
I- O ANTIGO REGIME E A REVOLUÇÃO FRANCESA
1.1. Antigo regime e Iluminismo: privilégios e pers- • Compreender os principais fatores que desencadepectivas de mudança
aram a Revolução Francesa;
1.2. A Revolução Francesa: processos, cronologia, • Conhecer o fato histórico da Revolução Francesa;
alianças e conflitos
• Analisar as consequências da Revolução Francesa
1.3. Pensando a Revolução Francesa: interpretações para a história moderna do ocidente.
e historiografia
1.4. A era das revoluções: limites e alcances em perspectiva
II- O LONGO SÉCULO XIX
• Identificar o século XIX como um período de lutas
2.1. Resultados humanos da Revolução Industrial: a
e conquistas;
formação da classe trabalhadora inglesa
• Compreender a ação do movimento operário no
2.2. As ondas revolucionárias de 1830 e 1848: conséculo XIX.
junturas, atores, conquistas
2.3. Climas e a distribuição das formações vegetais
III- ESTADO E NAÇÃO EM FINS DO SÉCULO
XIX
• Identificar o ideário necessário para a construção
3.1. A ideia de progresso na construção das nações de nação;
3.2. O movimento das nacionalidades: os casos de • Compreender o processo de formação de alguns
França e Alemanha
estados nacionais europeus;
3.3. O popular em questão: culturas de elite, culturas • Relacionar a formação dos estados nacionais com
do povo e as massas no século XIX
as ações imperialistas.
3.4. Romantismo, positivismo e darwinismo social
3.5. O imperialismo europeu e suas interpretações
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Contextualização da Disciplina
Situando-se entre o século XVIII e XIX, o conteúdo desta disciplina aborda a memória do mundo contemporâneo, sendo de extrema importância para a construção do conhecimento e análise dos fenômenos mundiais e
nacionais, uma vez que ambos estão conectados.
A abordagens de temas nas três unidades deste instrucional tem por objetivo geral o estudo dos processos
econômicos, políticos e culturais da história europeia nos séculos XVIII e XIX.
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UNIDADE I
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ANTIGO REGIME E A REVOLUÇÃO FRANCESA
1.1 - Antigo Regime e Iluminismo: Privilégios e
Perspectivas de Mudança
O Antigo Regime pode ser definido como um sistema de governo que vigorou na Europa, principalmente, entre os séculos XVI e XVIII, tendo como
destaque a França e a Inglaterra, destacando-se como
principais características o absolutismo1, governo
centralizado nas mãos do rei, e o mercantilismo, prática do estado de obtenção de metais preciosos (para
fabricação de moedas e manutenção da balança comercial favorável).
O termo Antigo Regime tornou-se popular pelo célebre livro de Alexis de Tocqueville2 O Antigo Regime e a Revolução, editado pela primeira vez em 1856.
Este historiador analisa a sociedade francesa antes da
Revolução Francesa, sendo um dos primeiros trabalhos históricos sobre esse acontecimento.
A ideia principal de seu livro é que embora o antigo
regime não fosse algo único na França é somente lá
que há a reunião das condições necessárias para o seu
fim que, por sua vez, irá culminar com a Revolução
Francesa. A principal explicação, segundo o autor, é
que na França havia uma forte �����������������������
centralização e uniformização administrativa na qual não permetia o acesso
ao poder da burguesia incipiente. Em outras palavras,
era uma sociedade hierarquizada e estratificada, onde
no topo estava o rei, o clero e a nobreza. Abaixo destes ficavam trabalhadores urbanos, camponeses e a
pequena burguesia comercial. Os impostos eram pagos somente por este último segmento, a base de toda
a sociedade.
Assim, se por um lado havia uma França, sendo
governada pelo poder autoritário do monarca (havia
a falta de democracia, pois os trabalhadores não podiam votar e os oposicionistas eram presos na Bastilha, a prisão política da monarquia, ou condenados à
guilhotina); por outro lado havia em Paris um franco
crescimento a partir de um intenso processo de industrialização. Neste sentido, o autor demonstra a for-
ça de Paris através de diversos números, entre eles,
a grande presença de operários que havia dobrado o
quantitativo nos 50 anos antes da revolução (lembremos que os operários foram as peças fundamentais da
Revoluçao Francesa).
Em suma, o livro de Alexis de Tocqueville O Antigo
Regime e a Revolução é a primeira grande obra esclarecedora dos fatos que antecederam a Revolução
Francesa. O autor contextualiza muito bem a sociedade da época e explica o porquê da necessidade de
mudança de um regime monárquico autoritário, para
outro democrático e liberal, pois, se inicialmente o
mercantilismo, base do antigo regime, auxiliou o
processo de desenvolvimento do capitalismo em sua
primeira fase (capitalismo comercial), agora estava
atrapalhando o desenvolvimento do capitalismo na
sua segunda fase (capitalismo industrial).
Mas recentemente, temos o historiador inglês Eric
Hobsbawn3 com o livro “A Era das Revoluções”,
onde o autor traça a transformação do mundo entre
1789 e 1848, desmembrando os acontecimentos da
revolução francesa e industrial, e assim considerando
esse período histórico como uma "dupla revolução".
Desta forma, o autor irá caracterizar a Europa e mais
especificamente a Inglaterra e a França e explicar porque foi exatamente nesses dois pontos da superfície
terrestre o lócus para a revolução industrial e burguesa.
A partir desses dois autores podemos dizer que o
contexto histórico na Europa pode ser resumido da
seguinte maneira:
O absolutismo impedia o desenvolvimento de uma
burguesia que se via lesada pelo fato de que, junto
com os camponeses, formava o chamado terceiro estado, sendo responsável por sustentar, por meio dos
impostos, todos os privilégios da nobreza e do clero,
O Estado absolutista típico é a França de Luís XIV (1638-1715). Conhecido como o Rei Sol, a ele é atribuída a frase que se torna o
emblema do poder absoluto: "O Estado sou eu". Luís XIV atrai a nobreza para o Palácio de Versalhes, perto de Paris, onde vive em clima
de luxo inédito na história do Ocidente. Na Inglaterra, no início do século XVI, Henrique VIII, segundo rei da dinastia Tudor, consegue
impor sua autoridade aos nobres com o apoio da burguesia e assume também o poder religioso. O processo de centralização completa-se
no reinado de sua filha Elizabeth I.
2
A sua obra mais célebre, baseada nas suas viagens para os Estados Unidos, foi traduzida para o Português com o nome de “A democracia
na América”, disponível na internet.
3
Talvez um dos historiadores atuais mais traduzidos no mundo. Conta com vasta coleção (disponível na Internet) na qual podemos destacar:
HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções: 1789/1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Cia Letras, 1995.
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Impérios 1875-1914. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1989.
1
14
sem que com isso fosse possível ter acesso ao poder;
ou seja, segundo Franco e Silva4 (2009), a burguesia,
apesar de ter muito capital para aplicar na economia,
não tinha liberdade para decidir o que ela mesma produziria e por quanto venderia seu produtos.
Ao invés disso, a burguesia precisava entregar boa
parte de seus lucros para o Estado, através do pagamento de altos impostos que não eram usados para
ampliar as indústrias e aumentar a produção – o que
traria mais riqueza para os burgueses – e sim, empregados para pagar as mordomias da nobreza e do
clero. Enfim, a burguesia não podia administrar seus
negócios como queria; ela dependia das decisões do
governo absolutista.
comercial entre a colônia e metrópole, isto é, a colônia só podia comprar e vender para a metrópole.
Essa característica essencial do antigo regime era
um entrave para os negócios da burguesia, pois, por
exemplo: já que o Brasil só podia comercializar com
Portugal, era impossível para a burguesia francesa e
inglesa obter matérias-primas para a indústria, sobretudo o algodão, do Brasil.
Ademais, o mercantilismo defendia o monopólio
1.2 - A Revolução Francesa: Processos, Cronologia,
Alianças e Conflitos
A partir da Revolução Francesa, fortemente
influenciada pelo iluminismo, temos o início da Idade
Contemporânea. Seu período insere-se entre 5 de
maio de 1789 e 9 de novembro de 1799 tendo iniciado
com a convocação dos Estados Gerais da Bastilha e
se encerrado com o golpe de estado do 18 Brumário
de Napoleão Bonaparte.
Os Estados Gerais nada mais foi do que a convocação
feita pelo rei Luis XVI para tentar resolver a situação
socioeconômica na França, que passava por uma
crise econômica de total calamidade. Esta assembleia
reunia os representantes políticos do 1º, 2º e 3º
Estados; os quais não se reuniam desde o século
XVII. O 1º Estado era formado pelo alto clero, o
2º Estado pela alta nobreza e o 3º Estado, pelos
deputados que representavam a maioria da população
(assalariados, camponeses e pequena burguesia) –
era o grupo maior, pois continha um número maior
de representantes. Observe a imagem dos Estados
Gerais reunidos em 1789, convocados por Luis XVI:
Estados Gerais, 1789 - Disponível em <http://www.algosobre.com.br/historia/revolucao-francesa-1789-1799.html> Acesso em 02/11/2010.
FRANCO, Aléxia Pádua e SILVA, Maria Lúcia. O surgimento das ideias liberais e o fortalecimento do capitalismo e da burguesia. Eseba/
UFU, Uberlândia, 1994. Disponível em: http://gephiseseba.blogspot.com/2009/08/crise-do-antigo-regime.html. Acesso em 08 de outubro
de 2010.
4
A discussão central estava no sistema de votação da
assembleia. Embora o terceiro estado fosse maioria
quantitativa, a votação era por estado e não por indivíduo. Assim, se cada estado tinha direito há apenas
um voto, o primeiro e segundo estados sempre votavam pelos mesmos interesses, deixando o terceiro
estado a mercê e sem real representação política.
Esse modelo de votação gerou revolta por parte dos
deputados do 3º Estado que reagiram prontamente,
exigindo a qualquer custo que as reuniões fossem
conjuntas e não separadamente por Estados. Diante
da negação, o 3º Estado proclama-se em Assembleia
Geral Nacional. Os deputados que fundaram a Assembleia Nacional nela juraram igualdade jurídica e
direitos políticos para todos os homens comuns o que
torna-se-á o lema da Revolução: liberdade, igualdade
e fraternidade.
No dia 9 de julho de 1789, reúne-se uma Assembleia Nacional Constituinte, incumbida de elaborar
uma Constituição para a França. Isso significava que
o Rei deixaria de ser o senhor absoluto do reino. A
burguesia francesa, por sua vez, apelou para o povo e,
no dia 14 de julho de 1789, toda a população parisiense avançou em direção a Bastilha, a prisão política da
época. A queda da bastilha torna-se o grande símbolo
do fim do antigo regime. Veja a imagem desse fato
histórico.
Queda da Bastilha. Disponível em: <http://www.algosobre.com.br/images/stories/historia/revolucao_francesa_04.jpg>. Acesso 02/11/2010.
Esse é o momento em que os camponeses serão os
protagonistas da revolução. São eles que, percebendo a fraqueza da nobreza, invadem os castelos, executando famílias inteiras de nobres numa espécie de
vingança ou de uma raiva acumulada durante séculos.
aprovar, no dia 26 de agosto do mesmo ano (1789),
um documento que se tornou mundialmente famoso:
a Declaração dos Direitos do homem e do Cidadão
(veja na Leitura Complementar).
Durante a ação, avançam sobre a propriedade feudal
e exigem reformas, sobretudo a Reforma Agrária. A
movimentação dos camponeses é tão grande que deixa a burguesia temerosa de que as exigências chegassem também às suas propriedades. A fim de conter a
fúria dos camponeses, a burguesia propõe que sejam
extintos os direitos feudais.
Sabemos, de maneira crítica, que esse documento
foi uma forma de legitimar a burguesia no poder político do Estado sendo ela a classe dominante. Portanto, para a burguesia a revolução estava dada por
encerrada; uma vez que seus interesses já haviam
sido conquistados através dela. Era necessário impedir a radicalização do movimento revolucionário; ou seja, era necessário impedir que a revolução se
tornasse popular, o que não interessava à burguesia.
Porém, os impostos continuaram altos, o custo
de vida pouco se alterou e a França continuava em
guerras externas, significando despesas altas para o
Estado, agora burguês. A burguesia, preocupada em
estabelecer as bases teóricas de sua revolução, fez
Vejamos agora as fases da Revolução Francesa
baseada no texto do professor Durval A. da Costa Neto (disponível na Internet no endereço http://
www.algosobre.com.br/historia/revolucao-francesa-1789-1799.html)
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1ª Fase da Revolução: A Assembleia
Nacional Constituinte – 1789-1792
Nesta primeira fase ocorre a instauração da Monarquia Parlamentarista, ou Constitucional, em que
todos os bens do clero francês foram confiscados na
tentativa de superar a crise financeira. É claro que
parte do clero reagirá a tal ato, mas Assembleia Nacional decreta a Constituição Civil do Clero; isto é,
o clero passa a ser funcionário do Estado, e qualquer
gesto de rebeldia levaria a prisão.
Nesse primeiro momento da revolução há um quadro confuso e instável. O rei ainda tenta voltar ao poder. Para isso, ele entra em contato com os emigrados
no exterior (principalmente na Prússia e na Áustria)
para invadir a França e assim derrubar o governo revolucionário, restaurando o absolutismo. Seus planos
não darão certo, pois, ao tentar fugir da França (indo
para a Prússia) para organizar o contra-movimento, é
reconhecido por camponeses, sendo preso e enviado
de volta a Paris. Na capital, os setores mais moderados da Assembleia conseguiram que o Rei permanecesse em seu posto. A partir daí uma grande agitação
tem início, pois seria votada e aprovada a Constituição de 1791. Esta constituição estabelecia, na França,
a Monarquia Parlamentar, ou seja, o Rei ficaria limitado pela atuação do poder legislativo (Parlamento),
escolhido pelo voto censitário. Em outras palavras, o
poder continuava nas mãos de uma minoria, de uma
parte privilegiada da burguesia.
Nessa primeira fase não há atuação do povo, portanto, a Monarquia Parlamentar é dominada pela aristocracia liberal. No recinto da Assembleia, sentava-se
à esquerda o partido liderado por Robespierre, que
se aproximava do povo: eram os Jacobinos. Daí, o
termo de hoje para os partidos políticos de esquerda, mais próximos aos interesses do povo. No centro, sentavam-se os constitucionalistas, defensores
da alta burguesia e a nobreza. À direita, ficava um
grupo que mais tarde ficará conhecido como Girondinos, defensores dos interesses da burguesia francesa
e que temiam a radicalização da revolução; na extrema direita, encontram-se alguns remanescentes da
aristocracia que ainda não emigrara, conhecidos por
aristocratas, que pretendiam a restauração do poder
absoluto.
2ª Fase da Revolução: A Convenção
Nacional – 1792-1794/95
Foi a fase mais radical do movimento revolucionário, porque foi a etapa em que os Jacobinos, liderados
por Robespierre, assumiram o comando da revolução,
(foi a etapa mais popular do movimento). Sob o comando de Danton, Robespierre e Marat, foram dis-
tribuídas armas ao povo, organizando-se a Comuna
Insurrecional de Paris. Essa fase também ficou conhecida como era do terror.
Porém, percebendo que o povo poderia tomar as rédeas da revolução, a burguesia, tentando garantir o
seu poder, decreta a queda da Monarquia Parlamentar
e proclama a República Girondina em setembro de
1792.
Em 21 de janeiro de 1793, Luis-XVI foi condenado
e guilhotinado na “praça da revolução” – atual Praça
da Concórdia em Paris, e a rainha Maria Antonieta foi
decapitada no mesmo ano, em setembro.
A República Girondina caiu e os Jacobinos assumiram a direção política do Estado proclamando uma
nova República: a República Jacobina e com ela a
Constituição de 1793. A Constituição Jacobina continha princípios que satisfaziam a população porque
garantiam direitos e poder de decisão. Vejamos os
mais importantes pontos da nova Constituição:
Voto Universal ou Sufrágio Universal – todos os
cidadãos homens maiores de idade votam.
Lei do Máximo ou Lei do Preço Máximo – estabeleceu um teto máximo para preços e salários.
Venda de bens públicos e dos emigrados para recompor as finanças públicas.
Reforma Agrária – confisco de terras da nobreza
emigrada e da Igreja Católica, que foram divididas
em lotes menores e vendida a preços baixos para os
camponeses pobres que puderam pagar num prazo de
até 10 anos.
Extinção da Escravidão Negra nas Colônias
Francesas – que acabou por motivar a Revolução
Haitiana em 1794 e que durou até 1804 quando no
Haiti aboliu-se a escravidão.
Organização dos seguintes comitês: o Comitê de
Salvação Pública, formado por nove (mais tarde
doze) membros e encarregado do poder executivo,
e o Comité de Segurança Pública, encarregado de
descobrir os suspeitos de traição.
Criação do Tribunal Revolucionário, que julgava
os opositores da Revolução e geralmente os condenavam à Guilhotina.
Obs.: Para que os Jacobinos pudessem alcançar o
poder político do Estado foi preciso contar com um
apoio fundamental: os sans-culottes – indivíduos populares – normalmente desempregados e assalariados, considerados a plebe urbana.
Porém, mesmo com o apoio dos sans-culottes, os
girondinos articulam um golpe de estado; o chamado
Golpe 9 do Termidor e derrubam a República Jacobina, guilhotinando inclusive Robespierre.
3ª Fase da Revolução: o Diretório – 17951799 / A Era Napoleônica-1799-1815
Conhecido como Reação Termidoriana, o golpe de
Estado armado pela alta burguesia financeira marcou
o fim da participação popular no movimento revolucionário.
O novo governo, denominado Diretório (17951799), autoritário e fundamentado numa aliança com
o exército (então restabelecido após vitórias realizadas em guerras externas), foi o responsável por elaborar a nova Constituição, que manteria a burguesia
livre de duas grandes ameaças: a República Democrática Jacobina e o Antigo Regime.
Contudo, o governo não era respeitado pelas outras
camadas sociais. Os burgueses mais lúcidos e in-
fluentes perceberam que com o Diretório não teriam
condição de resistir aos inimigos externos e internos
e assim se manter no poder. Eles acreditavam na necessidade de uma ditadura militar, daí, a entrada de
Napoleão Bonaparte, o general francês mais popular
e famoso da época.
Napoleão suprimiu o Diretório e instaurou o Consulado, dando início ao período napoleônico com o golpe de Estado conhecido por “18 de Brumário”. Com o
golpe, Napoleão foi adquirindo poderes políticos até
que em 6 de maio de 1804 foi consagrado Imperador
com o título de Napoleão Bonaparte-I governando a
França até 1814, quando caiu do poder e foi exilado.
Durante seu governo, Napoleão não só estendeu as
fronteiras francesas por meio de guerras, como realizou diversas reformas políticas e sociais, sempre em
nome dos interesses burgueses, instituindo o código
civil, reformando o sistema educacional e adotando
o estilo artístico neoclássico como modelo arquitetônico no qual servia de veículo de propaganda para as
dimensões de seu poder político e para a alta burguesia em seu estilo de vida.
1.3 - Pensando a Revolução Francesa:
Interpretações e Historiografia
De Heródoto, o "pai da História", ao século XX,
diversas foram as formas encontradas de pensar e
escrever a História. No caso da Revolução Francesa,
considerada o marco na idade contemporânea, existe um conjunto de escritos de inúmeros historiadores
que compreende a historiografia da Revolução com
suas diversas interpretações. No início desta apostila
apresentamos dois autores importantes que pensaram
a Revolução Francesa a partir de uma caracterização
de seu período anterior. Mas eles não foram os únicos. Vejamos
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as principais interpretações sobre a Revolução Francesa.
1. A Interpretação Conservadora
É a mais antiga, e trata da visão dos conservadores monárquicos. Esta interpretação foi iniciada por
Edmund Burke, em 1791, na Inglaterra, que, em sua
obra Reflexões sobre a revolução na França, não
aceitou os excessos da Revolução Francesa, expondo
diversas críticas.
Segundo esta interpretação, a monarquia francesa
possuía uma constituição íntegra e um parlamento do
que eram guardiães a nobreza e o clero e, nesse sentido, a revolução foi algo de homens ambiciosos e sem
escrúpulos que conspiraram para arrebatar o poder a
seus legítimos donos. Esta interpretação é a visão do
pensamento católico, do conservadorismo inglês e de
todos os conservadores monárquicos.
2. Interpretação Liberal
Realizada pela burguesia liberal, esta interpretação mitifica o período da Monarquia Constitucional
e faz um repúdio absoluto da época da Convenção.
Mas esta rejeição deve-se não tanto à violência do
momento (na fase do terror), e sim pelo socialismo
incipiente que supõe posturas mais radicais. Para os
liberais, o iluminismo é um elemento condicionante
da revolução, o substrato ideológico sem o qual não
teria sido possível. Jules Michelet é o grande teórico
que defende esta postura. Para ele, com a revolução, o
povo da França rompeu suas correntes, conseguindo a
Liberdade. Esta é uma das interpretações mais estendidas na atualidade.
3. Interpretação Marxista
Essa corrente dedica-se ao estudo das forças econômicas que se encontram no processo revolucionário.
Albert Mathiez, nos anos vinte do século passado, redescobre a figura de Robespierre, comparando com
Lenin. A partir disso, relaciona as revoluções francesa
e russa e considera a ditadura jacobina como a primeira ditadura do proletariado. Já Louis Blanc, em
1847, fez a primeira exposição socialista da questão.
Blanc viu no Terror o primeiro passo para o futuro Estado da fraternidade, e em Robespierre um socialista
adiantado a seu tempo.
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Outro autor de destaque é Lefebvre. Em seu trabalho ressalta o campesinado nos acontecimentos. Já
Labrousse proporciona dados históricos e estatísticos,
principalmente econômicos, e defende a tese de que o
motivo que desencadeou a revolução foi o alto preço
do pão, portanto, questões sociais e econômicas fomentaram a movimentação do terceiro estado.
revolução que se caracteriza por promover o individualismo extremo do cidadão privado.
Nesta interpretação temos ainda autores como Soboul, Godechot e Furet que fazem uma integração dos
aspectos políticos, econômicos e sociais da revolução. Dentre eles, Albert
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Soboul se preocupou em estudar as classes mais baixas da Revolução e publicou
a obra mais famosa, Sans-Culottes, em 1968. Em seu
trabalho vemos claramente as premissas do marxismo
explicando a Revolução.
Vale destacar que, na interpretação marxista-leninista, não se identifica a Revolução Francesa com a
russa, já que uma é uma revolução burguesa e a outra
uma revolução socialista.
Desta forma, pode-se resumir que o ponto em comum para os socialistas franceses é aquele que trata a
revolução como o resultado da luta de classes, da burguesia contra a nobreza, tendo como grande vitorioso
o sistema capitalista.
4. A Interpretação Marxista-Leninista
Difere-se da anterior por ser uma análise que se fundamenta no materialismo histórico. Concebe a Revolução Francesa como a primeira revolução burguesa,
à que temporariamente se uniram o campesinado e o
proletariado, bem como os pequenos burgueses, para
derrotar ao sistema feudal absolutista. A revolução
foi, assim, resultado da luta de classes.
Karl Marx vê na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão a concretização das aspirações da
É chamada de lenista, porque Lenin interessou-se
pelo ativismo revolucionário da etapa da Convenção,
e pela dinâmica da participação popular e seguiu as
reflexões de Marx.
5. A Interpretação Estruturalista
Pretende uma interpretação do conjunto dos fatos da
revolução e com múltiplos pontos de vista. Os principais autores são Godechot, Furet e Richet que chegam a defender que não houve uma revolução, mas
sim três.
Para a interpretação estruturalista, a Revolução
Francesa foi de caráter burgues que tentou estabelecer a igualdade e a segurança pessoal na legislação,
daí o constitucionalismo e o liberalismo econômico
como grandes conquistas durante a mesma. O fator
decisivo em seu sucesso foi posto em marcha com a
reestruturação constitucional do Estado, por meio de
uma Assembleia Nacional.
A principal crítica a essa interpretação e que, influenciada pelo estruturalismo, centra-se tanto na
evolução das instituições que frequentemente esquece os movimentos sociais que se produziram.
1.4 - A Era das Revoluções: Limites e Alcances em
Perspectiva
A obra do historiador inglês Eric J. Hobsbawm intitulada A Era das Revoluções está dividida em duas
partes. Na primeira, o autor aborda os principais desenvolvimentos históricos do século XVIII. Na segunda, esboça o tipo de sociedade produzida pelas
"revoluções" industrial e francesa.
Hobsbawm (1996) inicia sua obra apresentando a
Revolução Industrial como o�����������������������
mais importante acontecimento na história do mundo, pelo menos desde a
invenção da agricultura e das cidades. Fato este iniciado pela Grã-Bretanha, e evidentemente que isto
não foi acidental. Desta forma, o autor explica porque
a Revolução Industrial ocorreu nesse momento da
história, porque foi na Inglaterra, através da máquina
a vapor e do desenvolvimento da industria têxtil e não
outras maneiras quaisquer.
Diante disso, Hobsbawm (1982, p.57) defende a
ideia de que:
se a economia do mundo do século XIX foi formada
principalmente sob a influência da revolução industrial britânica, sua política e ideologia foram formadas fundamentalmente pela Revolução Francesa. A
Grã-Bretanha forneceu o modelo para as ferrovias e
fábricas, o explosivo econômico que rompeu com as
estruturas sócio-econômicas tradicionais do mundo
não europeu; mas foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas ideias [...]. A França forneceu
o vocabulário e os temas da política liberal e radicaldemocrática para a maior parte do mundo. A França
deu o primeiro grande exemplo, [...] e o vocabulário
do nacionalismo. A França forneceu os códigos legais, o modelo de organização técnica e científica e o
sistema métrico de medidas para a maioria dos países
(HOBSBAWM, 1982, 57).
econômico perpassava pelo fortalecimento dos Estados Nacionais.
Nesse sentido, o autor entende a Era das Revoluções
como o período histórico que se inicia em 1789 e termina em 1848, em que tanto a revolução industrial
quanto a francesa não são antagônicas; mas se complementam. Segundo Hobsbawm (1982), a Era das
Revoluções deixou uma grande herança para o século
XX. No âmbito da política, as mudanças foram contundentes: predominou o ideário nacionalista; a separação entre Clero e Estado ganhou força; aumentou
a demanda pela criação de regimes democráticos e
o fortalecimento da nação, pois o desenvolvimento
Eric Hobsbawm destaca ainda os reflexos da “dupla
revolução” nas ciências, onde a racionalização impulsionou descobertas que propiciaram as revoluções
industriais, selando o destino das sociedades agrárias
da Europa, e no campo cultural, especialmente a literatura, música clássica e pintura viveram um verdadeiro boom. Foi, enfim, um momento único, em que
revoluções de fundo político, cultural e industrial se
combinaram e se sobrepuseram, de forma que nunca
mais a Europa e, consequentemente, o resto do planeta, seriam os mesmos.
Leitura Complementar
Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_dos_Direitos_do_Homem_e_do_
Cidad%C3%A3o>. Acesso em 02/11/2010.
A Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão
Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na
utilidade comum.
Art. 2.º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.
Art. 3.º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhum corpo, nenhum indivíduo
pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.
Art. 4.º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos
naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o
gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei.
Art. 5.º A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.
Art. 6.º A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou
através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para
punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e
empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus
talentos.
Art. 7.º Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as
formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem
ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso
contrário torna-se culpado de resistência.
Art. 8.º A lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido
senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.
Art. 9.º Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se se julgar indispensável prendê-lo,
todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei.
Art. 10.º Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.
19
20
Art. 11.º A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade
nos termos previstos na lei.
Art. 12.º A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública; esta força é, pois,
instituída para fruição por todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada.
Art. 13.º Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração é indispensável uma contribuição comum que deve ser dividida entre os cidadãos de acordo com suas possibilidades.
Art. 14.º Todos os cidadãos têm direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, da necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar a repartição, a colecta, a
cobrança e a duração.
Art. 15.º A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração.
Art. 16.º A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a separação dos
poderes não tem Constituição.
Art. 17.º Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser
quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia indenização.
Material Complementar
GRESPAN, Jorge. Revolução Francesa e Iluminismo. São Paulo: Contexto, 2003.
HOBSBAWM, Eric J. A Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
Atividades
1. Denomina-se Antigo Regime o período da história europeia compreendida entre o Renascimento e as grandes revoluções liberais. Faça uma pesquisa sobre o Antigo Regime e escreva um texto caracterizando a Europa
nesse período.
2. Compare a importância de Robespierre e dos sans-culottes para a Revolução Francesa.
3. Após o Golpe do 18 Brumário de 1799, foi elaborada uma nova constituição e a forma de governo Consulado, que inaugurou a era Napoleônica. Pesquise sobre essa era e faça um texto apresentando as principais
ações de Napoleão.
4. Leia o texto complementar e explique por que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi um
instrumento para consolidar o poder da burguesia na França.
UNIDADE II
21
O LONGO SÉCULO XIX
2.1 - Resultados Humanos da Revolução Industrial:
A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa
Fraga5 (2008) apresenta as duas principais reflexões
sobre a formação da classe trabalhadora através dos
trabalhos de Thompson6 e Hobsbawm7 que definem
essa transformação como um fenômeno histórico
ocorrido na sociedade inglesa. Contudo, enquanto
para Thompson a classe operária se formou de 1780
a 1832, para Hobsbawm isso ocorreu bem mais tarde,
no período de 1870 a 1914. Dessa forma, há entre
eles uma discordância no aspecto temporal que, como
será aqui retratado, tem por detrás uma interessante
diferença teórica. Para Thompson, em A Formação da Classe Operária Inglesa, os trabalhadores antes de serem operários reagiram para se manterem artesãos. Os tecelões
e artesãos aproximaram-se por meio dos costumes,
das tradições e dos valores que tinham em comum e
reagiram coletivamente contra o trabalho assalariado
(FRAGA, 2008).
Thompson discute que foram os operários que formaram o verdadeiro núcleo do qual o movimento trabalhista retirou suas ideias, organização e liderança.
Em outras palavras, tal organização teve sua origem
com sapateiros, tecelões, seleiros, livreiros, impressores, pedreiros e pequenos comerciantes que resistiram aos novos padrões de consumo, antes mesmo do
movimento ludista. "No princípio da década de 1830,
os tecelões manuais do algodão superavam todos os
homens e mulheres empregados nas fiações e tecelagens industriais de algodão, lã e seda somados"
(THOMPSON, 1987b, p. 15 apud Fraga, 2008).
Assim, Fraga (2008) nos lembra que as formas de
luta se deram através, por exemplo, dos movimentos
do ludismo e do cartismo. Foi através desses movimentos que os artesãos reagiram à implementação
do industrialismo. Por trás desses movimentos havia
uma ação que refletia os valores de uma coletivida-
de. Esse tipo de reação já era uma luta de classes.
Por essa razão, para Thompson já em 1832 é possível
constatar a formação da classe operária inglesa, pois
seu enfoque é dado pela maneira pela qual a classe
se vê, já que, para ele, a classe acontece quando os
trabalhadores se agregam para lutar contra o estabelecimento de uma prática de trabalho inovadora, o
trabalho assalariado.
Diferentemente, para Eric J. Hobsbawm, em O fazer-se da classe operária, 1870-1914, a época em que
as classes trabalhadoras transformaram-se na classe
operária compreende entre os anos de 1870 e 1914.
Isto porque Hobsbawm está preocupado não somente
com a forma como a classe operária se vê, mas também com a forma como ela é vista pelos demais atores sociais.
Segundo Hobsbawm (1988), a percepção de uma
classe operária única, singular, foi possível por uma
série de fatores relacionados às condições de vida e
as práticas políticas, tais como: o uso de boné chato
pelos proletários britânicos, o ambiente físico no qual
viviam, o estilo de vida e de lazer que apresentavam,
e a consciência de classe expressa na afiliação a sindicatos de proletários e na identificação com um partido
de classe, o Partido Trabalhista.
Para o autor, a formação da classe operária ocorreu
devido a quatro fatores. Primeiro, a classe operária
aumentou muito em tamanho absoluto e em concentração. Segundo, a composição ocupacional das classes trabalhadoras mudou substantivamente, aumentando o número de ferroviários e de mineiros. Mudou
também a sua composição etária e por sexo, com a
diminuição do emprego de crianças em idade escolar
e a introdução modesta, porém inovadora, das mulheres em indústrias fabris que não as do ramo têxtil.
FRAGA, Alexandre Barbosa. De substantivo plural a singular: a transformação das classes trabalhadoras em classe operária. In: Revista Espaço Acadêmico, n. 82 março 2008. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/082/82fraga.
htm
6
THOMPSON, Edward P. A Formação da Classe Operária Inglesa, “A árvore da liberdade”, vol. I, Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1987a. __________. A Formação da Classe Operária Inglesa, “A maldição de Adão”, vol. II, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987b.
__________. A Formação da Classe Operária Inglesa, “A força dos trabalhadores”, vol. III, Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987c.
8
HOBSBAWM, Eric J. “O Fazer-se da Classe Operária, 1870-1914”. In: Mundos do Trabalho. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1987.
5
22
Depois, houve a integração nacional e o crescente
papel do Estado tanto nessa integração quanto na concentração cada vez maior da economia nacional e de
seus setores. Por último, houve a ampliação do direito
de voto que abriu a possibilidade de que alguns operários fossem para o Parlamento, podendo falar diretamente em favor dos interesses dos trabalhadores.
A década de 1880 é um marco para a formação da
classe operária, porque a partir dela há transformações substanciais nas suas condições materiais de
vida, bem como transformações do seu padrão de lazer e de férias e a ascensão do futebol como esporte
para proletários.
Dessa forma, Hobsbawm deixa claro que entre 1880
e 1914 a soma de todos esses fatores citados é uma
percepção crescente de uma classe operária única
com consciência de classe. Embora ainda houvesse
algumas diferenças internas, a classe operária estava
aglutinada através de um destino comum. Fazia cada
vez menos sentido falar em "classe dos mineiros" ou
em "classe dos ferroviários", porque o que estava formada era a classe operária inglesa (FRAGA, 2008).
Hobsbawm acredita que, em certo sentido, Thompson acertou ao datar o surgimento da classe trabalhadora na sociedade britânica do início do século XIX,
mas, segundo ele, é entre 1870 e 1914 que a classe
operária emerge enquanto grupo social, uma vez que
somente nessa época ela se reconhece e é reconhecida
como um coletivo institucional (FRAGA, 2008).
Esses dois autores, portanto, partindo de premissas
diferentes divergem quanto ao período histórico da
formação da classe operária. Se pensarmos no sentimento interno que os trabalhadores artesãos tinham
sobre si, seguimos as considerações de Thompson,
mas, se considerarmos a relação dos trabalhadores
com o mundo, temos em Hobsbawm a fundamentação teórica necessária.
2.2 - As Ondas Revolucionárias de 1830 e 1848:
Conjunturas, Atores, Conquistas
Hobsbawm (1982, p.15), ao falar sobre as ondas revolucionárias, inicia seu texto expondo que, “nunca
na história da Europa e poucas vezes em qualquer
outro lugar, o revolucionarismo foi tão endêmico, tão
geral, tão capaz de se espalhar por propaganda deliberada como por contágio espontâneo”.
mordialmente burguesas, ainda não ameaçada pelo
sufrágio universal, embora molestada por agitações
externas causadas por negociantes insatisfeitos ou de
menor importância, pela pequena burguesia e pelos
primeiros movimentos trabalhistas (HOBSBAWM,
1982, p.165).
Para Hobsbawm, o período entre 1829-348 caracteriza uma onda revolucionária que afetou toda a Europa a oeste da Rússia e o continente norte-americano.
Em especial, na Europa, a derrubada dos Bourbon
na França estimulou várias outras insurreições. Em
1830, a Bélgica conquistou sua independência da Holanda; em 1830-1, a Polônia foi subjugada, somente
após consideráveis operações militares e havia ainda várias partes da Itália e da Alemanha em grande agitação. O liberalismo prevalecia na Suíça e na
Grã-Bretanha, e temos ainda a Irlanda, que garantiu
a Emancipação Católica em 1829 e o reinicio da agitação reformista.
O historiador inglês demonstra que as revoluções de
1830 foram produtos de um período geral de aguda
e disseminada intranquilidade econômica e social e
de rápidas transformações. Baseadas no modelo da
Revolução Francesa, na própria França, após a queda
de Napoleão e a restauração dos Bourbon em 1815,
na pessoa de Luís XVIII, monarquistas ultrarrealistas
passaram a conduzir a política interna da França. Eles
instauraram o “Terror Branco”, perseguindo bonapartistas e revolucionários.
A onda revolucionária de 1830, nas palavras do autor:
marca a derrota definitiva dos aristocratas pelo poder
burguês na Europa Ocidental. A classe governante
dos próximos 50 anos seria a "grande burguesia"
de banqueiros, grandes industriais e, às vezes, altos
funcionários civis, aceita por uma aristocracia que se
apagou ou que concordou em promover políticas pri-
Desta forma, tivemos os Bourbon derrubados em
Paris por uma típica combinação de crise do que se
considerava a política da monarquia Restaurada e de
intranquilidade popular devida à depressão econômica, uma vez que temos uma subprodução agrícola
(acarretando alta de preços de gêneros alimentícios)
e o subconsumo da indústria (provocando falência de
fábricas e o desemprego do proletariado), que, por sua
vez, irá resultar no descontentamento do proletariado
urbano, devido ao desemprego, a salários baixos e à
alta do custo de vida; e também no descontentamento da burguesia, excluída do poder político e atingida
pela crise econômica.
Para esse mesmo autor esta corresponde a segunda onda revolucionária, sendo a primeira iniciada em 1815.
8
O contexto francês indicava com a morte, em 1824,
de Luis XVIII, um novo rei, Carlos X, muito mais
conservador que passou a fomentar medidas que restaurassem o absolutismo do Antigo Regime. Contudo,
em 1830, a vitória liberal nas eleições para deputado
manifestou a imediata reação contra o desenvolvimento de um governo tão conservador. Entretanto,
Carlos X não recuou; pelo contrário por decreto retirou o cargo de todos os deputados eleitos. Assim, sob
a liderança do duque Luís Felipe, jornais, estudantes,
burgueses e trabalhadores iniciaram manifestações e
levantes que conduziriam a Revolução de 1830.
Organizaram as chamadas “jornadas gloriosas” de
caráter popular e o rei Carlos X abdicou o trono assumido em seguida pelo duque Luís Felipe com o indelével apoio da burguesia francesa. É, portanto, uma
Revolução Liberal que ocorreu com o propósito de
por fim ao absolutismo.
A Revolução de 1830 na França repercutiu por toda
a Europa. A Bélgica, apoiada pela Inglaterra, libertou-se da Holanda, à qual estava submetida desde o
Congresso de Viena. Na Polônia, os russos tiveram
de abafar uma revolta nacionalista. Na Itália, a sociedade secreta Carbonária promoveu agitações liberais
que resultaram numa Constituição imposta ao rei das
Duas Sicílias. Agitações semelhantes ocorreram em
Portugal e Espanha. Na Alemanha, houve movimentos liberais constitucionalistas.
Por fim, a terceira onda revolucionária data de 1848,
quando, para Hobsbawm (1988), os movimentos
eclodiram em função de regimes governamentais autocráticos, de crises econômicas (entre 1846 e 1848,
a Europa teve péssimas colheitas, a indústria entrou
em crise de superprodução e aumentou a pobreza), e
ainda, pela falta de representação política das classes
médias, o crescimento do nacionalismo e das ideias
socialistas.
Também chamada de Primavera dos Povos, marcou o despertar das nacionalidades tais como poloneses, dinamarqueses, alemães, italianos, thecos, húngaros, croatas e romenos, que exigiram dos impérios
a concessão de suas autonomias. Segundo Hobsbawm, a Primavera dos Povos foi a primeira revolução
potencialmente global, tornando-se um paradigma de
"revolução mundial" que alimentou rebeldes de várias gerações. Este conjunto de revoluções, de caráter
liberal, democrático e nacionalista, foi iniciado por
membros da burguesia que exigiam governos constitucionais, e por trabalhadores e camponeses que se
rebelaram contra os excessos e a difusão das práticas
capitalistas.
Na França, até
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1836, houve numerosas manifestações de instabilidade do regime: agitações republicanas, legitimistas, bonapartistas e, acima de tudo,
agitações sociais. Em 1834, os operários de Lyon se
rebelaram e as tendências republicanas ganharam ainda mais adeptos.
Em 1848, a oposição ficou forte, ajudada pela crise
econômica. O partido socialista propunha reformas
radicais e expunha suas ideias em banquetes. No dia
22 de fevereiro, eclodiu a revolta, quando o ministro
Guizot proibiu um banquete em Paris. No dia seguinte, manifestantes enfrentaram as tropas; a multidão
carregou pelas ruas os 16 mortos resultantes durante
toda a noite. No dia 24, Paris estava coberta de barricadas e o rei, abandonado pela Guarda Nacional, abdicou. O governo provisório de burgueses liberais e
socialistas proclamou a II República da França.
2.3 - O Movimento Operário Europeu: o Ludismo, a
Internacional dos Trabalhadores, o Socialismo
Para Engels9 (1986), a revolta dos operários contra a
burguesia começou pouco depois do início do desenvolvimento da indústria e atravessou diversas fases.
Nesta obra, caracterizou alguns fatos que ajudaram
a entender a situação do proletariado inglês. Assim
expõe o autor:
A primeira forma, a mais brutal e a mais estéril, que
esta revolta assumiu foi o crime. O operário vivia na
miséria e na indigência e via outros que gozavam de
situação melhor. A sua razão não conseguia compreender por que era precisamente ele que tinha que sofrer nestas condições, ele que fazia bem mais pela
sociedade do que um rico ocioso. Por outro lado, a
necessidade venceu o respeito inato pela propriedade
- começou a roubar (ENGLES, 1986, p.242).
Mas, em breve, os operários tiveram de constatar a
ineficácia deste método que não servia em nada para
alterar a realidade social, e, já que não tinha nenhum
caráter de protesto, nunca foi a expressão geral da
opinião pública dos operários. Desta forma, a classe
operária começou a se opor à burguesia quando resistiu violentamente à introdução das máquinas, como
aconteceu logo no início do movimento industrial.
Máquinas foram destruídas e seus inventores perseguidos.
Contudo, para Engels (1986) esta forma de oposição, existia de maneira isolada, limitada a certas localidades. Atingindo o fim imediato, o poder da sociedade recaía com toda a sua violência sobre operários
destruidores sem defesa e castigava-os como queria,
Engels, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. SP, Global, 1986., pp. 242-3.
9
23
24
enquanto continuava-se a introduzir as máquinas. Era
preciso encontrar uma nova forma de oposição que
para Engles será um novo modelo sociedade.
Neste sentido, de acordo com Henderson10 (1979,
p.178), o movimento luddite em Inglaterra, que atingiu o auge em 1811-1812, começou como um levantamento dos fabricantes de meias no condado de Nottingham.
Em 1811, os operários das meias queixaram-se de
que os patrões estavam lançando no mercado quantidades excessivas de produto ao mesmo tempo barato
e vistoso, e, para se manterem em concorrência, diminuíam os salários, tornando mais dura a vida dos
operários. Estes pediam o regresso aos métodos tradicionais de produção e venda e às tabelas anteriores de
pagamento (HENDERSON, 1979, p.179).
Os luddites agiam em grupos de cerca de cinquenta
e invadiam de maneira rápida uma aldeia após a outra
para destruir as máquinas de malhas, desaparecendo
tão silenciosamente como tinham chegado, sem que
as autoridades os conseguissem apanhar. Em 1812, o
movimento luddite espalhou-se até a região de lã de
West Riding e as cidades algodoeiras do Lancashire
e do Cheshire.
O Parlamento organizou comissões secretas para
acompanhar a situação e foi informado de que os
insurretos dos distritos revoltados possuíam uma organização de tipo militar. Foram enviados reforços
que lhes permitissem lutar contra os destruidores de
máquinas e, em janeiro de 1813, foram enforcados
17 em Iorque: três pelo assassinato de Horsfall e os
outros pelo ataque à fábrica de Cartwright. Estas medidas ajudaram a restaurar a lei e a ordem, embora
houvesse novas revoltas e destruição de máquinas em
Midlands em junho de 1816, quando 53 máquinas foram partidas na fábrica de Heathcote Boden, em Loughborough (HENDERSON, 1979).
Seguindo o movimento ludista temos movimento
cartista, na Inglaterra – a Associação de Operários
elaborou uma petição de direitos (Carta do Povo),
apresentada ao Parlamento que reivindicava: sufrágio
universal restrito aos homens; votação secreta; representação igual para todas as classes no Parlamento. O
movimento cartista representou um confronto entre
a classe operária e a burguesia, resultando disto uma
necessidade; por parte da classe operária de melhor
conhecer o funcionamento da sociedade capitalista.
Contudo, com a rejeição das reivindicações contidas
na “Carta do Povo” em 1842, pelo Parlamento in-
glês, os trabalhadores compreenderam que o caminho
para as melhorias não seria através do apelo às autoridades parlamentares. Os trabalhadores iniciaram sua
organização para conduzir melhor o movimento operário, surgindo as trade unions11, as uniões operárias.
Segundo Falcon12 (1986), o movimento operário europeu contou ainda com a Associação Internacional
dos Trabalhadores, cuja sigla é AIT, criada em 1864
para organizar as reivindicações trabalhistas de maneira mundial através de congressos influenciados
pelas diversas tendências teóricas de contestação ao
capitalismo.
Assim ocorre a I Internacional (1864-1876), responsável por atrair os trabalhadores europeus, promovendo debates de temas importantes para a consolidação
do movimento operário internacional, tais como: temas relacionados à luta pela redução das jornadas de
trabalho, à exploração do trabalho do menor e da mulher e à luta contra o desemprego e seus efeitos sobre
os trabalhadores; o papel dos sindicatos, das associações operárias na unificação das lutas dos trabalhadores e da cooperação internacional operária contra
o capital; o efeito da manutenção de exércitos permanentes sobre as formas de organização da classe
operária; o papel da mulher na sociedade capitalista; a
reivindicação da liberdade de imprensa e de reunião;
o problema da coletivização da terra e da indústria; os
problemas da educação e doa acesso à escolha pública pela classe trabalhadora.
A I Internacional contou na verdade com três vertentes do pensamento político o proudhonismo, através
de autores franceses como Pierre-Joseph Proudhon,
o marxismo com Marx e Bakunin e o anarquismo,
sobretudo com Elissé Reclus.
A primeira vertente defendia um programa associacionista e educativo para a população; já o marxismo
buscava uma ação política para conquistar o poder; e
o anarquismo buscava a destruição do poder do Estado.
Falcon (1986) destaca que houve uma violenta ação
repressiva à I Internacional, a partir principalmente
da Comuna de Paris de 1871, aliada aos conflitos
ideológicos entre as diversas facções que compõem
a AIT faz com que a I Internacional seja dissolvida
em 1876.
Entretanto, a principal contribuição da I Internacional foi a conscientização dos operários de que pertencem a uma comunidade internacional, como é confirmado por Trastenberg13 (1986, p.21):
HENDERSON, W. O. A Revolução Industrial. São Paulo: Verbo/Edusp, 1979.
Os sindicatos, surgidos no final do século XIX, foram as evoluções destas trade unions, que passaram a organizar as lutas da classe trabalhadora.
12
FALCON, Francisco J.C. & MOURA, Gerson. A Formação do Mundo Contemporâneo. Rio de Janeiro: Ed.Campus, 1986
13
TRASTENBERG, Maurício. Reflexões sobre o Socialismo. 3 ed. São Paulo: Moderna, 1986.
10
11
Acima de tudo, foi mérito da AIT a afirmação do
internacionalismo proletário como um valor positivo e a vinculação da luta pela libertação da classe
trabalhadora da exploração econômica e da opressão
política como sinônimo da libertação da humanidade
(TRASTENBERG, 1986, 21).
- Robert Owen (1771/1859) - funda nos Estados
Unidos uma organização chamada de New Harmony,
onde tenta, sem êxito, colocar suas ideias: menores
jornadas de trabalho, assistência social ao trabalhador
e sua família, e participação do trabalhador nos lucros
da empresa.
A dissolução da AIT, em 1876, não implica, em si,
o desaparecimento das aspirações internacionalistas.
Ainda em Paris, ocorrerá em 1889 a II Internacional,
que, diferente da primeira, não possui uma organização permanente, mantendo-se privada de um estatuto,
de uma direção central e até mesmo de um secretariado organizativo. Sendo assim, pode ser definida
como uma livre federação de grupos autônomos internacionais, partidos ou sindicatos, onde são discutidos os principais problemas do movimento operário
europeu.
- Proudhon (1809/1865) - acreditava que a melhoria
no sistema capitalista, possibilitando a ascensão socioeconômica das classes inferiores que é o sistema
ideal. Propôs a substituição dos mecanismos tradicionais de produção e distribuição por cooperativas onde
o “bônus de trabalho” substitui o dinheiro.
Essa sua falta de organização central determina
mais uma relação com o movimento operário em cada
um dos países do que pela influência teórica e política irradiada da central internacional como ocorreu
com a primeira. Isto, por sua vez, favorece o desmoronamento da II Internacional quando da eclosão da
I Guerra em 1914, sendo para Falcon (1986, p.123)
“uma linguagem revolucionária de uma atuação moderada”.
As péssimas condições de vida dos operários, provocadas pela industrialização, levaram alguns pensadores a buscar soluções para os problemas que
haviam na sociedade. Surgiram então ideias reformistas, procurando construir uma nova sociedade, onde
houvesse igualdade social, portanto, eliminando a exploração do homem sobre o homem.
O conjunto desta ideias fundamentou o pensamento socialista, que pode ser dividido em, basicamente,
duas correntes: a dos socialistas utópicos e a dos socialistas científicos.
A corrente do socialismo utópico idealizava uma
nova sociedade de tal forma que acreditava atingir
esta nova sociedade sem a luta de classes; ou seja,
mediante reformas pacíficas. Os principais socialistas
utópicos foram:
- Saint-Simon (1760/1825) - apesar de defender a
propriedade privada, pode ser considerado um socialista, na medida em que sugere uma planificação rígida na economia, através da participação do Estado;
- Charles Fourier (1772/1837) propõe a criação de
“Falanstérios”, nos quais representantes das diversas
classes se reúnem, fazendo doações e contribuições
e recebendo proporcionalmente ao que entregou. O
trabalho no falanstério é, sobretudo, agrícola.
Entre os precursores do socialismo utópico, pode-se
identificar a obra de Thomas Morus, Utopia, publicada em 1506 na qual idealizava uma sociedade igualitária, atacando a propriedade privada. Além desta
referência, no século XVII, durante a Revolução Puritana, tem-se a ação dos niveladores; grupo de artesãos e dos escavadores – proletários urbanos e rurais
sem terras, que defendiam a igualdade social. Por fim,
durante a Revolução Francesa destaca-se a ação de
Graco Babeuf que pregava uma República igualitária.
A outra corrente, chamada socialismo científico ou
marxista14, tem como principais teóricos Karl Marx
(1818/1883) e Friedrich Engels (1820/1895). O socialismo científico critica a visão idealista do socialismo utópico e entende a classe operária como uma
classe revolucionária. O pensamento desta corrente é
baseado nos seguintes aspectos:
- a História é resultado da luta de classes;
- a classe operária deve construir a nova sociedade,
que seria alicerçada na igualdade social, impondo a
ditadura do proletariado - transição para a construção
de uma sociedade socialista;
- Demonstrou que as sociedades humanas baseavam-se na exploração do homem pelo homem. O
principal conceito que exemplificou tal ideia é chamado de mais-valia (diferença entre o trabalho produzido e o trabalho remunerado). Desta forma, a
mais-valia é a base da desigualdade social na qual o
socialismo deveria se opor.
- A partir do materialismo histórico dialético, entende-se no marxismo que, em todas as formas de organização sociais, a exploração do homem pelo homem
está fundada num determinado nível de desenvolvimento dos meios materiais de reprodução da vida humana em sociedade, as chamadas forças produtivas.
Em cada momento da História, as forças produtivas
são desenvolvidas por uma organização social baseada num tipo específico de propriedade privada. Marx
chamou esta situação de relações sociais de produção.
O termo comunismo refere-se a uma estrutura socioeconômica e uma ideologia política que pretende promover o estabelecimento de
uma sociedade igualitária e sem classes, baseada na propriedade coletiva ou propriedade comum e no controle dos meios de produção.
Karl Marx postulou que o comunismo seria a fase final da sociedade, o que seria alcançado através de uma revolulção do proletariado. O
"comunismo puro", no sentido marxista, refere-se a uma sociedade sem classes e sem estado, o que, portanto, efetivamente nunca ocorreu.
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Uma sociedade humana "vive" suas relações sociais
de produção até o ponto em que novas forças produtivas não mais podem ser introduzidas. Esta situação caracteriza uma crise estrutural (que coloca em
choque as forças produtivas com as relações sociais
de produção estabelecidas). Isto, por sua vez, desemboca numa nova forma de organização social, um
novo modo de produção. Assim, o Capitalismo é o
resultado da crise do Feudalismo e o Socialismo seria
produto da crise do Capitalismo. Da mesma forma, a
burguesia foi o agente da transição do Feudalismo
para o Capitalismo e a Classe Operária deveria ser o
agente da transformação do Capitalismo em Socialismo. Esta é a luta de classes, que levaria ao fim da
exploração do homem pelo homem.
A partir dos inúmeros autores marxistas, ou seja,
que seguiram as ideias principais do socialismo científico, tem-se o marxismo dividido em vários grupos.
Por exemplo, o autor Althusser é indicado como referência para as concepções estruturalistas do marxismo, enquanto Thompson faz parte do grupo que
enfoca concepções culturalistas. Por fim, Gramsci é a
principal referência para se entender a política através
do marxismo.
No site Arquivo Marxista na Internet (http://marxists.org/portugues/) é possível encontrar uma biblioteca com os textos de diversos autores marxistas,
inclusive os três citados anteriormente.
Apesar dessas serem as principais manifestações do
socialismo, h����������������������������������������
á ainda outras correntes, nas quais destacam-se o socialismo cristão e socialismo libertário.
Na primeira, sua origem está na p��������������������
ostura da Igreja Católica que criticava a exploração do capitalismo. Porém, essa vertente também critica a teoria da luta de
classes, defendida pelo socialismo, pois para a Igreja
Católica, deveria haver uma harmonia entre os interesses da classe trabalhadora com os patrões. A Igreja
procurou conciliar capital e trabalho através da encíclica Rerum Novarum (que ainda hoje o documento
base para as ações da igreja no âmbito social).
A segunda corrente é chamada por três nomes diferentes: socialismo libertário, anarquismo ou anarcocomunismo.���������������������������������������
Nela, acredita-se que num regime comunista libertário, tanto a propriedade privada quanto o
Estado seriam abolidos e a sociedade seria organizada através de federações de trabalhadores, que gerenciariam a produção e todas as esferas de decisão por
meio da democracia direta. O dinheiro seria abolido,
e valeria a máxima de "cada um de acordo com suas
capacidades, a cada um de acordo com suas necessidades".
Entre seus principais representantes temos Bakunin
e Kroptkin. Na história do mundo houveram duas
tentativas de implantar esse tipo de socialismo, na revolução espanhola, na Guerra Civil Espanhola (19361939) e na Revolução Ucraniana em 1920.
Leitura Complementar
Disponível em:
<http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/manifestocomunista.pdf> Acesso em 02 de Novembro de 2010.
Fragmento do Manifesto Comunista
Publicado em alemão, em 1848, por Karl Marx e Friedrick Engels, teóricos fundadores do socialismo científico é um dos tratados políticos de maior infuência mundial que teve o objetivo de expressar as intenções da
Liga Comunista. Vejamos alguns fragmentos.
Parte 1 - Burgueses e Proletários
A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas das classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e oficial, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ore franca, ora disfarçada, uma
guerra que termino sempre, ou por uma transformação evolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição
das suar classes em luta.
Nas primeiras épocas históricas, verificamos quase por toda parte, uma completa divisão da sociedade em
classes distintas, uma escala graduada de condições sociais. Na Roma antiga encontramos patrícios, cavaleiros,
plebeus, escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres, oficiais e servos, e, em cada uma destas
classes, gradações especiais.
A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de
classes. Não fez senão substituir velhas classes, velhas condições de opressão, velhas formas de luta por outras
novas.
Entretanto, a nossa época, a época da burguesia, caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classes. A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado.
Dos servos da Idade Média nasceram os plebeus livres das primeiras cidades; desta população municipal,
saíram os primeiros elementos da burguesia.
A descoberta da América, a circunavegação da África ofereceram à burguesia ascendente um novo campo
de ação. Os mercados da Índia e da China, a colonização da América, o comércio colonial, o incremento dos
meios de troca e, em geral, das mercadorias imprimiram um impulso, desconhecido até então, ao comércio, à
indústria, à navegação e, por conseguinte, desenvolveram rapidamente o elemento revolucionário da sociedade
feudal em decomposição.
[...]
A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário. Onde quer que tenha conquistado o Poder, a burguesia destruiu as relações feudais, patriarcais e idílicas. Ela despedaçou sem piedade
todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus "superiores naturais", para só deixar
subsistir, entre os homens, o laço do frio interesse, as cruéis exigências do "pagamento à vista". Afogou os
fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas
águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu as numerosas
liberdades, conquistadas com tanto esforço, pela única e implacável liberdade de comércio. Em uma palavra,
em lugar da exploração velada por ilusões religiosas e políticas, a burguesia colocou uma exploração aberta,
cínica, direta e brutal.
[...]
A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção,
por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. A conservação inalterada do
antigo modo de produção constituía, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. Essa subversão continua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa
agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. [...]
Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para desespero dos reacionários, ela retirou da indústria sua base nacional. As velhas
indústrias nacionais foram destruídas e continuam a sê-lo diariamente. São suplantadas por novas indústrias,
cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, indústrias que não empregam mais
matérias primas nacionais, mais sim matérias primas vindas das regiões mais distantes, cujos produtos se consomem não somente no próprio país, mas em todas as partes do globo. [...]
A burguesia submeteu o campo à cidade. Criou grandes centros urbanos; aumentou prodigiosamente a população das cidades em relação à dos campos e, com isso, arrancou uma grande parte da população do embrutecimento da vida rural.
[... ]
A burguesia, durante seu domínio de classe, apenas secular, criou forças produtivas mais numerosas e mais
colossais que todas as gerações passadas em conjunto. A subjugação das forças da natureza, as máquinas, a
aplicação da química à indústria e à agricultura, a navegação à vapor, as estradas de ferro, o telégrafo elétrico,
a exploração de continentes inteiros, a canalização dos rios, populações inteiras brotando na terra como por
encanto que século anterior teria suspeitado que semelhantes forças produtivas estivessem adormecidas no seio
do trabalho social?
Vemos, pois: os meios de produção e de troca, sobre cuja base se ergue a burguesia, foram gerados no seio da
sociedade feudal. Esses meios de produção e de troca, as condições em que a sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da agricultura e da manufatura, em suma, o regime feudal de propriedade, deixaram
de corresponder às forças produtivas já desenvolvidas, ao alcançarem estas um certo grau de desenvolvimento.
Entravavam a produção em lugar de impulsioná-la. Transformaram-se em outras tantas cadeias que era preciso
despedaçar e foram despedaçadas. Em seu lugar, estabeleceu-se a livre concorrência, com uma organização
social e política correspondente, com a supremacia econômica e política da classe burguesa.
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Assistimos hoje a um processo semelhante. As relações burguesas de produção e de troca, o regime burguês
de propriedade, a sociedade burguesa moderna, que fez surgir gigantescos meios de produção e de troca, assemelha-se ao feiticeiro que já não pode controlar as forças internas que pôs em movimento com suas palavras
mágicas. Há dezenas de anos, a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças
produtivas modernas contra as atuais relações de produção e de propriedade que condicionam a existência da
burguesa e seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam
cada vez mais a existência da sociedade burguesia. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa
de produtos já fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já desenvolvidas. Uma
epidemia, que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba sobre .a sociedade - a epidemia da
superprodução. Subitamente, a sociedade vê-se, reconduzida a um estado de barbaria momentânea, dir-se-ia
que a fome ou uma guerra de extermínio cortaram-lhe todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio
parecem aniquilados. E por quê? Porque a sociedade possui demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas de quê dispõe não mais favorecem
o desenvolvimento das relações de propriedade burguesa; pelo contrário, tornaram-se por demais poderosas
para essas condições, que passam a entravá-las; e todas as vezes que as forças produtivas sociais se libertam
desses entraves, precipitam na desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da propriedade burguesa.
O sistema burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio. De que maneira
consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade de forças
produtivas; de outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que
leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las.
As armas que a burguesia utilizou para abater o feudalismo voltam-se hoje contra a própria burguesia. A burguesia, porém, não forjou somente as armas que lhe darão morte; produziu também os homens que manejarão
essas armas - os operários modernos, os proletários.
Com o desenvolvimento da burguesia, isto é, do capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos
operários modernos, que só podem viver se encontrarem trabalho e que só o encontram na medida em que este
aumenta o capital. Esses operários, constrangidos a vender-se diariamente, são mercadoria, artigo de comércio
como qualquer outro; em consequência, estão sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado.
O crescente emprego de máquinas e a divisão do trabalho, despojando o trabalho do operário de seu caráter
autônomo, tiraram-lhe todo atrativo. O produtor passa a um simples apêndice da máquina e só se requer dele
a operação mais simples, mais monótona; mais fácil de apreender. Desse modo, o custo do operário se reduz,
quase exclusivamente, aos meios de manutenção que lhe são necessários para viver e procriar. Ora, o preço
do trabalho, como de toda mercadoria, é igual ao custo de sua produção. Portanto, à medida que aumenta o
caráter enfadonho do trabalho, decrescem os salários. Quanto mais se desenvolvem o maquinismo e a divisão
do trabalho, mais aumenta a quantidade de trabalho, quer pelo prolongamento das horas, quer pelo aumento
do trabalho exigido em um tempo determinado, pela aceleração do movimento das máquinas etc. A indústria
moderna transformou a pequena oficina do antigo mestre da corporação patriarcal na grande fábrica do industrial capitalista. Massas de operários, amontoadas na fábrica, são organizadas militarmente. Como soldados da
indústria, estão sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais e suboficiais. Não são somente escravos
da classe burguesa, do Estado burguês, mas também diariamente, a cada hora, escravos da máquina, do contramestre e, sobretudo, do dono da fábrica. Esse despotismo é tanto mais mesquinho, odioso e exasperador quanto
maior é a franqueza com que proclama ter no lucro seu objetivo exclusivo.
Quanto menos habilidade e força o trabalho exige, isto é, quanto mais a indústria moderna progride, tanto
mais o trabalho dos homens é suplantado pelo das mulheres e crianças. As diferenças de idade e de sexo não
tem mais importância social para a classe operária. Não há senão instrumentos de trabalho, cujo preço varia
segundo a idade e o sexo. [...]
O proletariado passa por diferentes fases de desenvolvimento. Logo que nasce começa sua luta contra a burguesia. Em princípio, empenham-se na luta operários isolados, mais tarde, operários de uma mesma fábrica,
finalmente operários do mesmo ramo de indústria, de uma mesma localidade, contra o burguês que os explora
diretamente. Não se limitam a atacar as relações burguesas de produção, atacam os instrumentos de produção:
destroem as mercadorias estrangeiras que lhes fazem concorrência, quebram as máquinas, queimam as fábricas
e esforçam-se para reconquistar a posição perdida do artesão da Idade Média.
[...]
Ora, a indústria, desenvolvendo-se, não somente aumenta o número dos proletários, mas concentrados em
massas cada vez mais consideráveis; sua força cresce e eles adquirem maior consciência dela. Os interesses e
as condições de existência dos proletários se igualam cada vez mais, à medida que a máquina extingue toda
diferença do trabalho e quase por toda parte reduz o salário a um nível igualmente baixo. Em virtude da concorrência crescente dos burgueses entre si e devido às crises comerciais que disso resultam os salários se tornam
cada vez mais instáveis: o aperfeiçoamento constante e cada vez mais rápido das máquinas torna a condição
de vida do operário cada vez mais precária; os choques individuais entre o operário e o burguês tomam cada
vez mais o caráter de choques entre duas classes. Os operários começam a formar uniões contra os burgueses e
atuam em comum na defesa de seus salários, chegam a fundar associações permanentes a fim de se prepararem,
na previsão daqueles choques eventuais. Aqui e ali a luta se transforma em rebelião.
Os operários triunfam às vezes; mas é um triunfo efêmero. O verdadeiro resultado de suas lutas não é o êxito
imediato, mas a união cada vez mais ampla dos trabalhadores. Esta união é facilitada pelo crescimento dos
meios de comunicação criados pela grande indústria e que permitem o contato entre operários de localidades
diferentes. Ora, basta esse contato para concentrar as numerosas lutas locais que têm o mesmo caráter em toda
parte, em uma luta nacional, em uma luta de classes. Mas toda luta de classes é uma luta política. E a união que
os burgueses da Idade Média levavam século a realizar, com seus caminhos vicinais, os proletários modernos
realizam em poucos anos por meio das vias férreas.
A organização do proletariado em classe e, portanto, em partido político, é incessantemente destruída pela
concorrência que fazem entre si os próprios operários. Mas renasce sempre e cada vez mais forte, mais firme,
mais poderosa. Aproveita-se das divisões intestinas da burguesia para obrigá-la ao reconhecimento legal de
certos interesses da classe operária, como, por exemplo, a lei da jornada de dez horas de trabalho na Inglaterra.
[...]
Finalmente, nos períodos em que a luta de classe se aproxima da hora decisiva, o processo de dissolução da
classe dominante, de toda a velha sociedade, adquire um caráter tão violento e agudo que uma pequena fração
da classe dominante se desliga desta, ligando-se à classe revolucionária, a classe que traz em si o futuro. Do
mesmo modo que outrora uma parte da nobreza passou-se para a burguesia, em nossos dias, uma parte da burguesia passa-se para o proletariado, especialmente a parte dos ideólogos burgueses que chegaram à compreensão teórica do movimento histórico em seu conjunto.
De todas as classes que ora enfrentam a burguesia, só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária. As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria; o proletariado, pelo
contrário, é seu produto mais autêntico.
[...]
Todas as classes que no passado conquistaram o Poder, trataram de consolidar a situação adquirida submetendo a sociedade às suas condições de apropriação. Os proletários não podem apoderar-se das forças produtivas
sociais senão abolindo o modo e apropriação que era próprio a estas e, por conseguinte, todo modo de apropriação em vigor até hoje. Os proletários nada têm de seu a salvaguardar; sua missão é destruir todas as garantias
e segurança da propriedade privada até aqui existentes.
Todos os movimentos históricos têm sido, até hoje, movimentos de minorias ou em proveito de minorias. O
movimento proletário é o movimento espontâneo da imensa maioria em proveito da imensa maioria. O proletário, a camada inferior da sociedade atual, não pode erguer-se, por-se de pé, sem fazer saltar todos os estratos
superpostos que constituem a sociedade oficial.
[...] Parte 2 - Proletários e Comunistas
Qual a posição dos comunistas diante dos proletários em geral? Os comunistas não formam um partido à
parte, oposto aos outros partidos operários. Não têm interesses que os separem do proletariado em geral. Não
proclamam princípios particulares, segundo os quais pretenderiam modelar o movimento operário. Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários em dois pontos:
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1) Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do
proletariado, independentemente da nacionalidade.
2) Nas diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre e em toda
parte, os interesses do movimento em seu conjunto.
[...]
As concepções teóricas dos comunistas não se baseiam, de modo algum, em ideias ou princípios inventados
ou descobertos por este ou aquele reformador do mundo. São apenas a expressão geral das condições reais de
uma luta de classes existente, de um movimento histórico que se desenvolve sob os nossos olhos. A abolição
das relações de propriedade que têm existido até hoje não é uma característica peculiar exclusiva do comunismo. Todas as relações de propriedade têm passado por modificações constantes em consequência das continuas
transformações das condições históricas.
A Revolução Francesa, por exemplo, aboliu a propriedade feudal em proveito da propriedade burguesa. O que
caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Ora,
a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de produção
e de apropriação baseado nos antagonismos de classes, na exploração de uns pelos outros. [...]
Ser capitalista significa ocupar não somente uma posição pessoal, mas também uma posição social na produção. O capital é um produto coletivo: só pode ser posto em movimento pelos esforços combinados de muitos
membros da sociedade, e mesmo, em última instância, pelos esforços combinados de todos os membros da
sociedade. O capital não é, pois, uma força pessoal; é uma força social. Assim, quando o capital é transformado
em propriedade comum, pertencente a todos os membros da sociedade, não é uma propriedade pessoal que se
transforma em propriedade social. O que se transformou foi apenas o caráter social da propriedade. Esta perde
seu caráter de classe.
Passemos ao trabalho assalariado. O preço médio que se paga pelo trabalho assalariado é o mínimo de salário,
isto é, a soma dos meios de subsistência necessária para que o operário viva como operário. Por conseguinte,
o que o operário obtém com o seu trabalho é o estritamente necessário para mera conservação e reprodução de
sua vida. Não queremos nenhum modo abolir essa apropriação pessoal dos produtos do trabalho, indispensável à manutenção e à reprodução da vida humana, pois essa apropriação não deixa nenhum lucro líquido que
confira poder sobre o trabalho alheio. O que queremos é suprimir o caráter miserável desta apropriação que faz
com que o operário só viva para aumentar o capital e só viva na medida em que o exigem os interesses da classe
dominante. Na sociedade burguesa, o trabalho vivo é sempre um meio de aumentar o trabalho acumulado. Na
sociedade comunista, o trabalho acumulado é sempre um meio de ampliar, enriquecer e melhora, cada vez mais
a existência dos trabalhadores. Na sociedade burguesa, o passado domina o presente; na sociedade comunista,
é o presente que domina o passado. Na sociedade burguesa, o capital é independente e pessoal, ao passo que o
indivíduo que trabalha não tem nem independência nem personalidade.
[...]
Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada
está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos
que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir
com a condição de privar a imensa maioria da sociedade de toda propriedade.
[...]
O comunismo não retira a ninguém o poder de apropriar-se de sua parte dos produtos sociais, apenas suprime
o poder de escravizar o trabalho de outrem por meio dessa apropriação. Alega-se ainda que, com a abolição
da propriedade privada, toda a atividade cessaria, uma inércia geral apoderar-se-ia do mundo. Se isso fosse
verdade, há muito que a sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade, pois que os que no regime burguês
trabalham não lucram e os que lucram não trabalham. Toda a objeção se reduz a essa tautologia: não haverá
mais trabalho assalariado quando não mais existir capital.
[...]
O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para
centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe
dominante e para aumentar, o mais rapidamente possível, o total das forças produtivas.
Isto naturalmente só poderá realizar-se, em princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade
e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão
indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção. Essas medidas, é claro, serão diferentes nos vários países. Todavia, nos países mais adiantados, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas:
1. Expropriação da propriedade latifundiária e emprego da renda da terra em proveito do Estado;
2. Imposto fortemente progressivo;
3. Abolição do direito de herança;
4. Confiscação da propriedade de todos os emigrados e sediciosos;
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e
com o monopólio exclusivo;
6. Centralizarão, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte;
7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das
terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral;
8. Trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura;
9. Combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a
distinção entre a cidade e o campo;
l0. Educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho das crianças nas fábricas, tal
como é praticado hoje. Combinação da educação com a produção material etc.
Uma vez desaparecidos os antagonismos de classes no curso do desenvolvimento e sendo concentrada toda
a produção propriamente falando nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter
político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em
sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe; se converte-se, por uma revolução, em classe
dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói juntamente com essas relações de produção, as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com
isso, sua própria dominação como classe.
Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação
onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos.
[...]
Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas opiniões e seus fins. Proclamam abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder a não ser suas algemas.
Têm um mundo a ganhar. PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!
Material Complementar
http://vestibular.uol.com.br/ultnot/resumos/primavera-dos-povos.jhtm
http://educacao.uol.com.br/historia/ult1704u54.jhtm
ANDERSON, Pery. Considerações sobre o Marxismo Ocidental. Porto: Afrontamento, 1976.
FAVRE, Pierre, FAVRE, Monique. Os Marxismos depois de Marx. São Paulo: Ática, 1991.
WOODCOCK, George. Anarquismo uma história das ideias e movimentos libertários. Porto Alegre : L&PM,
1983.
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Atividades
1. Apresente as principais ideias de Thompson e Hobsbawm no que diz respeito à formação da classe operária
inglesa.
2. Qual a importância do Ludismo e do Cartismo para a história das lutas dos trabalhadores no mundo?
3. Leia o texto complementar e faça um texto apresentando as principais características do socialismo científico de Marx, justificando com fragmentos do texto.
UNIDADE III
33
ESTADO E NAÇÃO EM FINS DO SÉCULO XIX
3.1 - A Ideia de Progresso na Construção das
Nações
Segundo Moura15 (2009), a concepção de progresso
está intimamente relacionada à ideia de modernidade
que pode ser resumida na mudança de consciência de
um novo tempo questionador da tradição iniciada no
Renascimento, tendo seu marco inicial na Revolução
Francesa.
Na modernidade, houve a substituição do conceito
de razão da metafísica para uma razão tripartide na
esfera da ciência e da técnica, na esfera da moral e
do direito e por fim, na esfera da arte. Assim, “[...]
o homem apossa-se do mundo (deixando de contemplar), transforma-o através de uma razão laica
e experimental” (CAVALCANTE, 2001, p.59, apud
Moura, 2009).
Nesse sentido, a modernidade compreende um projeto emancipatório, relacionado ao conhecimento técnico e prático. Isto, por sua vez, nos leva diretamente
à discussão do sentido do progresso como causa final
para uma sociedade moderna.
Moura ainda apresenta em seu trabalho as contribuições de Le Goff16 (2003). Para esse autor a ideia
de progresso foi desenvolvida entre o nascimento da
imprensa no século XV e a Revolução Francesa. Afirmando-se através do domínio científico, sobretudo
com as descobertas do sistema coperniano e newtoniano, a ideia de progresso generaliza-se e difunde-se
nos domínios da história, filosofia e economia.
Assim, temos, para a história, a explicação de que
a humanidade caminha em direção ao progresso ao
longo dos séculos, como se estivesse em constante evolução. Esta concepção de evolução implícita
no progresso ficou ainda mais forte no século XIX
com as teorias científicas de Darwin. Já a Filosofia,
inspirando-se em Herder e Kant, tratará o progresso
geral subordinando-o ao progresso moral. Por fim,
para a economia, o pensamento dos fisiocratas chamou a atenção pelo valor econômico fundamental da
natureza, construindo um ideal produtivista a partir
dela. Particularmente, depois de Quesnay passou-se a
considerar a agricultura fonte de riqueza e progresso
e, com Adam Smith, tem-se a concepção histórica de
um gradual progresso econômico, pautado na liberdade de comércio (MOURA, 2009).
Contudo, foi no século das luzes que a ideia de progresso tornou-se mais consistente. Posteriormente,
no século XIX, novas concepções sobre o progresso
associam-se a definições anteriores. Nesse período,
encontraremos a significação da palavra progresso
também associada às palavras como conforto, segurança, alfabetização e democracia (op.cit.).
Segundo Le Goff (2003), foi somente no século
XIX que se assimilou a noção de civilização à de progresso. A base dessa noção apresenta a existência de
uma natureza econômica e social em que a civilização
precisa encontrar o seu auge ao conseguir desenvolver-se em uma produção crescente. Essa noção, portanto, liga o boom econômico e industrial do século
XIX, pautando-se numa ciência que leve também ao
desenvolvimento social.
Em outras palavras, o progresso técnico foi considerado a base de uma prosperidade econômica que
ajudaria também a um progresso do homem. A filosofia de Auguste Comte contribuiu enormemente para a
mentalidade desse período. Uma concepção otimista
que levou o homem à busca pela modernidade (LE
GOFF, 2003).
Para Moura (2009), o conceito de progresso relacionado com a evolução permitida pelo desenvolvimento tecnológico acaba por privilegiar o moderno.
Nesse sentido, a partir do século XIX, o que se viu
foi uma tentativa de se criar um discurso que unisse
identidade nacional e cidadania/civilidade/civilização, ou seja, ser uma civilização, com direitos e deveres estabelecidos por um pacto social somaria-se a um
sentimento de pertencimento a uma cultura particular
ou nacional.
Moura, Rachel de Almeida. Ações e Olhares: a paisagem da cidade do Rio de Janeiro nos cartões-postais (1900-1930). Dissertação de
Mestrado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Geografia. 143f, 2009.
16
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Ed. Unicamp, 2003.
15
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3.2 - O Movimento das Nacionalidades: os Casos de França
e Alemanha
Seguindo a divisão cronológica de René Remond17
e de Eric Hobsbawm18, temos três períodos dos movimentos nacionalistas: o primeiro, de 1830 a 1848/50;
o segundo, de 1850 a 1870 e, finalmente, o terceiro,
de 1870 a 1914.
1830-1848/50: A Génese do Nacionalismo
Segundo Hobsbawm19 (1988), o nacionalismo pode
ser considerado como um subproduto da democratização, dando a causa nacional uma forte conotação
política. ������������������������������������������
Vale destacar que esta conjunção entre democracia e o nacionalismo alarga-se com as revoluções de 1848, que representam simultaneamente
a emancipação nacional e a afirmação da soberania
do povo. Desta
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forma, o sentimento de nacionalismo ganhou expressão na França durante as invasões
napoleônicas, quando os povos dos países invadidos
uniram-se contra o invasor.
Além disso, a política do Congresso de Viena de
1815, em procurar repor a situação política e geográfica existente antes de 1789, passou por cima das aspirações à independência e da unidade que havia levado
os povos a unirem-se contra Napoleão e a pôr-se ao
lado dos seus soberanos. Assim, a supressão tanto do
sentimento nacional como dos princípios do liberalismo (duas grandes marcas da Revolução Francesa)
levou à ação conjunta dos Movimentos Nacionalistas.
1850-75: A Criação de Nações
O princípio das nacionalidades passa a ser considerado como um elemento fundamental do direito internacional – é um dos critérios para o reconhecimento
de governos (a emancipação das nacionalidades submetidas e a reunião dos diferentes fragmentos de uma
nacionalidade).
É neste período que o princípio das nacionalidades
(ou nacionalismo) se torna um objetivo geral de
Europa. De fato, a partir da Revolução de 1848, a
opinião pública europeia já não concebia outra perspectiva legítima se não o Estado Nacional”, e toda a
política internacional gira à volta da constituição de
uma Europa composta por Estados-nação” (HOBSBAWM, 2007, p.105).
De 1830-48 para agora, 1850-75, podemos verificar uma evolução do nacionalismo, que passa de uma
fase sentimental e folclorística para uma crescente
politização, por se terem criado sociedades, jornais
e literatura nacionais e instituições de educativas e
culturais.
1875-1914: A Virada à Direita
A marca característica deste período é a transformação do conteúdo político e ideológico do nacionalismo. É por esta altura que aparece a palavra nacionalismo, identificada com grupos da ala direita em
França e Itália, decididos a “desfraldar a bandeira
nacional contra estrangeiros”, segundo Hobsbawm
(2003, p.204), favorecendo uma expansão agressiva
do seu próprio estado, característica destes movimentos.
Os movimentos nacionalistas reclamam o direito à
autodeterminação, isto é, o direito a formar um Estado independente destinado a um determinado grupo
nacionalmente definido. A base destes nacionalismos
era o apoio pronto do povo, que se identificava emocionalmente com a sua nação e que se mobilizava na
sua qualidade de checos, alemães, austríacos etc. Esta
mobilização voluntária era facilmente explorada pela
política (HOBSBAWM, 1988).
Para Hobsbawm (1988, p.211), “o Estado faz a nação e é obrigado a tal”. Os governos chegavam agora
diretamente à população, a cada cidadão, no respectivo território e no quotidiano, através de elementos
como o carteiro, professores, polícias e até mesmo
ferroviários, dos quais o estado exigia patriotismo. A
nação era a nova religião dos estados: unia os cidadãos e levava o estado a cada um deles. Nos estados
nacionais, o alcance do poder do estado aumentava
à medida que as massas se politizavam, através das
eleições.
Nesse sentido, o����������������������������������
que tornava essencial no nacionalismo de estado era a exigência de educação de massas, requisitada tanto por uma economia cada vez
mais tecnológica como pela natureza da administração pública e privada. Do ponto de vista do serviço
ao estado, a escola tinha a função de ensinar todas as
crianças a serem bons súbditos e bons cidadãos (HOBSBAWM, 1988).
Em suma, segundo Hobsbawm (2007), f�����������
oi no período que vai de 1830 a 1914 que nasceu, cresceu e se
solidificou na Europa o movimento dos nacionalismos. Tendo origem na Revolução Francesa, provocou
o aparecimento de Estados que se tornaram grandes
potências: Bélgica, Alemanha, Itália.
As consequências do nacionalismo europeu são amplas. Não foi só a criação de uma nova Europa, mas
foi principalmente o despertar da resistência à opressão, o levantamento dos pequenos que conseguiram
REMOND, René. O Movimento das Nacionalidades, “Introdução à História do Nosso Tempo – do Antigo Regime aos nossos dias”.
HOBSBAWM. Eric J. A Era do Capital (1848-1975). 13 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.
19
HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios 1875-1914. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1988.
17
18
chegar a grandes. E depois, o nacionalismo está na
origem da Primeira Guerra Mundial, e irá ser com as
bases do nacionalismo conservador de finais do século XIX que irão nascer os regimes autoritários e
fascistas do pós-guerra.
No caso da Alemanha, um dos últimos Estados Nacionais a se constituírem, podemos entender a importância do Nacionalismo enquanto forma de criação
dos Estados.
O fragmento abaixo é do filósofo alemão Hegel20
(1770-1831) sobre a nação alemã:
[...] o espírito de um povo [volkgeist]: é um espírito
de características muito bem definidas, que se constrói em um mundo objetivo. Este mundo existe e
permanece em sua religião, seu culto, seus costumes,
sua constituição e suas leis políticas em toda a esfera de suas instituições, seus acontecimentos e seus
feitos. Esta é o seu trabalho: um povo, é isso que é
uma nação! Os povos são o que são os seus feitos.
[...] A função do indivíduo é apossar-se de sua existência material, tornando-a parte de seu caráter e de
sua capacidade, fazendo com que dessa maneira ele
tenha um lugar no mundo. Ele descobre a existência
do povo a que pertence como um mundo já estabelecido, um mundo estável, a que deve adaptar-se.
Desta forma, o nacionalismo foi fundamental para a
integração nacional da Alemanha, pois introduziu no
povo os ideários da época que fortificaram o Estado.
No mapa abaixo, você pode observar o império alemão II Reich, de 1871 a 1918.
Mapa Unificação da Alemanha - Disponível em <http://novahistorianet.blogspot.com/2009/01/
as-unificaes-e-o-imperialismo-no-sculo.htm> Acesso em 15 de novembro de 2010
A unificação alemã não ocorreu por via revolucionária. As pré-condições para sua unificação foram:
- desenvolvimento do capitalismo do reino da Prússia (norte da Alemanha).
- forte controle político da Áustria na região (Confederação Germânica). A Áustria havia impedido a
tentativa de unificação da Prússia em 1850, mas não
conseguia impedir o crescimento dos estados.
- existência de uma espécie de união aduaneira (práticas econômicas comuns) adota em 1834, entre os
estados, chamada de Zollverein.
Para evitar que os republicanos e os socialistas elaborassem uma Constituição liberal para a Confede-
ração Germânica, ofereceram o poder executivo ao
rei da Prússia, mas ele recusou, pois temia a reação
da Áustria.
Influenciados pela unificação italiana, príncipes alemães e a burguesia apoiados pelo primeiro-ministro
Otto Von Bismarck, iniciaram o processo de unificação alemã.
Finalmente, em 1871, por meio do tratado de Frankfurt, a França entregava os territórios de Alsácia e
Lorena à Alemanha. A partir daí, a Alemanha entrou
num processo de grande industrialização. Disputou
mercados consumidores, anteriormente dominados
pela Inglaterra e França. No final do século XIX, a
Alemanha já era uma grande potência industrial.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. “O curso da história do mundo: A dialética dos princípios nacionais”. In: HARTMAN, Robert S.
(org.). A razão na história. São Paulo: Editora Moraes Ltda, 1990.
20
35
36
3.3 - O Popular em Questão: Culturas de Elite,
Culturas do Povo e as Massas no Século XIX
De acordo com Hobsbawm (1988), o mesmo período dos grandes impérios será também o momento
em que o mundo irá se democratizar. Pautando-se em
Aristóteles, refere-se à democracia como o governo
das massas populares, que em geral, são pobres.
O mundo caminhava para uma organização política
eleitoral, baseada no direito ao voto, sendo o eleitorado cada vez mais amplo e dominado pelo povo comum. A consequência disto foi:
[...] a mobilização política das massas para as eleições e através destas, ou seja, no sentido de pressionar os governos nacionais. Isso envolvia a organização de movimentos e partidos de massas, a política
da propaganda de massas e o desenvolvimento da mídia de massas [..] (HOBSBAWM, 1988, p.129-130).
Na verdade, para o autor (op. cit., 137-138), “a religião, o nacionalismo, a democracia, o socialismo, as
ideologias precursoras do fascismo de entre guerras:
tudo isso mantinha unidas as massas recém-mobilizadas”, quaisquer que fossem os interesses materiais
também representados por seus movimentos.
Mas do que isto, assisti-se ao surgimento da modernidade e com ela um modelo de civilização marcado
pela importância crescente do relógio e pela distinção
entre tempo do trabalho e tempo livre. Desta forma,
Hobsbawm (1988) identifica o surgimento da cultura
de massas, referindo-se �����������������������������
educação e cultura das classes mais baixas em oposição à cultura de elite, representada pela burguesia. Sendo assim, a burguesia que
ascendia economicamente reformulava o estilo vida
definindo, por exemplo, esportes para elite e esportes
para a classe operária, bem como moradias diferenciadas, formas de se vestir e a vivência diferenciada
entre o público e o privado.
3.4 - Romantismo, Positivismo e Darwinismo Social
Três correntes de pensamento se manifestaram na
Europa e foram importantes na explicação científica
ou para a inspiração de determinados acontecimentos. São elas: o romantismo, o positivismo e o darwinismo social.
O Romantismo surgiu no final do seculo XVII na
Europa, numa epóca de profundas transformações e
se extendeu para além do campo artístico, tendo reflexo na política e na filosofia. Foi, na verdade, uma
visão de mundo caracterizada oposição ao racionalismo, pelo nacionalismo (por vezes considerado um
nacionalismo exarcebado), individualismo e pela
subjetividade. Temos na literatura alemã, principal
expressão do romantismo, autores como: Schiller,
Goethe e Schegel e na França: Vitor Hugo.
O positivismo21 tem seu início com Augusto Comte22
no século XIX. Para Comte, o positivismo é uma doutrina filosófica e sociológica, mas ele acabou por definir um método científico que consiste na observação
dos fenômenos. Assim, através da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência, sem qualquer
atributo teológico ou metafísico, é possível explicar
o mundo físico ou material. Por essa razão, o positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro,
pois como Comte mesmo definiu a palavra "positivo"
com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo,
orgânico e simpático.
No contexto do mundo moderno, o positivismo foi
fundamental para o desenvolvimento científico e, por
extensão, do capitalismo. A ciência tão amplamente
valorizada no século das luzes é a mola propulsora
para a segunda e terceira revoluções industriais.
Já o darwinismo social surge a partir da obra de
Darwin, notoriamente um trabalho que se tornou um
marco na história das ciências biológicas. Desta forma, tentou-se fazer uma leitura das ciências sociais a
partir das concepções da teoria da seleção natural das
espécies. De acordo com esse pensamento, existiriam
características biológicas e sociais que determinariam
que uma pessoa é superior à outra e que as pessoas
que se enquadrassem nesses critérios seriam as mais
aptas.
Foi empregado para tentar explicar a pobreza, sugerindo que os pobres eram os menos aptos e os
mais ricos eram aqueles que evoluíram economicamente, portanto, seriam os mais aptos a sobreviver.
Em outras palavras, a luta pela sobrevivência entre
os animais correspondia à concorrência capitalista; a
sobrevivência do mais capaz, do mais forte era de-
Para saber mais leia HABERMAS, Jurgen. Conhecimento e interesse. Rio de Janeiro. Zahar, 1982.
COMTE, Augusto. Discurso preliminar sobre o espírito positivo. Versão para ebook. Disponível em http://www.ebooksbrasil.org/
eLibris/comte.html
21
22
monstrada pela forma criativa com que os gigantes da
indústria engoliam os competidores mais fracos em
seu caminho para o enriquecimento. Se a luta pela
existência resultava na sobrevivência e no predomínio dos animais e das plantas mais capazes, uma
luta semelhante se produzia entre as raças humanas
e as nações, com idênticos resultados. Essa dura concorrência em âmbito internacional, que justificava a
conquista e a destruição de sociedades inferiores, era
feita em nome do progresso.
3.5 - O Imperialismo Europeu e suas Interpretações
O conceito de imperialismo traz muitas controvérsias. Desta forma, o termo é empregado para caracterizar a expansão ou a tendência de ampliação política
e econômica de uma nação. O mesmo conceito também pode-se referir a uma relação internacional23, e
para outros refere-se não só às formas de dominação,
mas também à força ou forças que ocasionam e mantêm determinada relação. Assim, as relações que se
estabelecem entre o país imperialista e os países dominados assumem diferentes formas, mas sempre sua
base se assentará sobre a desigualdade seja ela nos
planos político, econômico, cultural ou tecnológico.
Tanto na primeira definição quanto na segunda temse como traços fundamentais do imperialismo: a) aparecimento dos monopólios; b) aparecimento do capital financeiro; c) exportação de capitais; d) formação
dos monopólios internacionais; e) luta constante pela
partilha do mundo entre as grandes potências.
Nas palavras de Hobsbawm:
Era muito provável que uma economia mundial cujo
ritmo era determinado por seu núcleo capitalista desenvolvido ou em desenvolvimento se transformasse num mundo onde os “avançados” dominariam os
“atrasados”; em suma, num mundo de império. [...] O
período entre 1875 e 1914 pode ser chamado de a Era
dos Impérios [...] (HOBSBAWM, 1988, p. 87-88).
Na historiografia do imperialismo pode-se destacar
duas grandes interpretações sobre o fenômeno do
imperialismo. Na primeira, a partir da influência da
obra “Antropogeografia” do alemão Ratzel, na qual,
em sua politização exagerada do discurso geográfico, fundamenta o expansionismo alemão ao cunhar
o conceito de espaço vital, com qual enfatizando o
meio físico, defende que todo povo necessita de um
espaço capaz de suprir suas necessidades, portanto, o
espaço vital viabiliza a sua expansão territorial.
Temos, assim, a defesa de políticas imperialistas
atrelada à necessidade da construção do estado-nação, ou seja, ter posse coloniais significava um status
de potência necessário para o desenvolvimento do
nacionalismo. Além disso, considerando as ideias do
darwinismo social, para a Europa, a obra civilizatória
legitimava a dominação. Em congruência com esses
pensamentos há ainda o positivismo científico considerado a chave necessária na valorização da razão e
por extensão, da ciência, que seria a responsável por
trazer o progresso às nações.
A segunda interpretação sobre o imperialismo advém do grupo dos teóricos marxistas, que estudaram
todos os aspectos econômicos do imperialismo e interpretaram, segundo Lênin (1917), na obra intulada
“Imperializm, kak vixaia stadia kapitalisma” (em
português significa: Imperialismo: fase suprema do
Capitalismo), que o imperialismo é a última etapa do
capitalismo, na qual o excesso de capital resultante
do sistema de produção é obrigado a procurar, no
estrangeiro, novos campos de investimento, em face
da diminuição dos lucros no país de origem e explica
ainda que a primeira guerra mundial foi consequência
do capitalismo monopolista e expansionista no mundo (HOBSBAWM, 1988).
Assim, para Hobsbawm (1988), a partir de 1870
uma nova24 onda de expansão europeia que levou à
febre colonial (neocolonialismo) realizada por GrãBretanha, França, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica, Estados Unidos e Japão25 na África no Pacífico.
O autor distingue a Ásia do Pacífico porque apresenta que na Ásia a maioria dos grandes impérios
tradicionais (China, Japão, Turquia) permaneceu nominalmente independente, embora as potências ocidentais tenham delimitado ali “zonas de influência”.
Após a segunda guerra mundial atrelou-se o conceito de imperialismo a política externa americana. Para saber mais a respeito desse tema
veja HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2005.
24
Ligada à expansão marítima europeia, a primeira fase do colonialismo africano surge da necessidade de encontrar rotas alternativas para o
Oriente e novos mercados produtores e consumidores, que foi iniciada pelos portugueses na primeira metade do século XV, estabelecendo
feitorias, portos e enclaves no litoral oeste africano. Já no final do século XVIII e meados do século XIX, os ingleses, com enorme poder
naval e econômico, assumem a liderança da colonização africana. Combatem a escravidão, já menos lucrativa, direcionando o comércio
africano para a exportação de ouro, marfim e animais.
25
O imperialismo japonês teve algumas particularidades que merecem serem destacadas. Vejamos: até o século XIX, o Japão permaneceu
isolado, porém, em 1853, os capitalistas norte-americanos enviaram a Esquadra Negra para forçar a abertura dos portos japoneses aos seus
produtos. O governo japonês viu-se obrigado a assinar o Tratado de Kanagawa, onde concordava com as exigências da presença americana. Somente em 1867, com a ascensão do imperador Mutsu-Hito, essa situação se alterou. Teve início a era Meiji, que levou o país as
profundas transformações.
No final do século XIX, as indústrias japonesas funcionavam plenamente e, na falta de matéria- prima e fontes energéticas, o Japão fez
guerra contra China, contra os russos, ocupando a Coreia, e contra os franceses, dominando a Indochina.
23
37
38
Exemplo: a Grã-bretanha anexou a Birmânia ao seu
império indiano e implementou zonas de influencia
do Tibete, da Pérsia e do golfo Pérsico; a Rússia avançou sobre a Ásia Central e sobre a Sibéria e a Manchúria e a Holanda controlou a Indonésia, entre outros. Hobsbawm nos lembra ainda que a América não
se tornou uma área de influência dos países europeus
devido à existência da doutrina Monroe.
Nesse sentido, os Estados Unidos também fizeram
parte do imperialismo. O conflito armado entre os
Estados Unidos e a Espanha que acontece em abril
e maio de 1898 é um grande exemplo da estratégia
norte-americana de expansão imperialista no mar do
Caribe e no oceano Pacífico, regiões sob domínio espanhol.
Em busca de um pretexto para a guerra, desde 1895,
os EUA acompanham a luta de Cuba, então colônia
espanhola, pela independência. A chance surge em
fevereiro de 1898, quando o encouraçado norte-americano USS Maine, aportado em Havana, sofre uma
explosão de autoria nunca esclarecida. Em abril, o governo norte-americano declara guerra à Espanha, que
se rende em 1º de maio. A derrota espanhola marca o
fim de seu domínio sobre Cuba e Porto Rico e o iní-
cio do imperialismo norte-americano pelo mundo. Os
EUA anexam Porto Rico, Filipinas e a ilha de Guam
e incorporam formalmente o Havaí, seu protetorado
desde 1875. Cuba também é cedida aos EUA, tornando-se independente em 1902.
Segundo o mesmo autor, em 1875 apenas 11% da
África estava sob domínio europeu; enquanto que,
em 1902, os europeus já haviam dominado 90% do
continente. Desta forma, no fim do século XIX e início do século XX, com a expansão do capitalismo
industrial, começa o neocolonialismo no continente
africano. Entre outras características, é marcado pelo
aparecimento de novas potências concorrentes, como
a Alemanha, a Bélgica e a Itália. A partir de 1880,
a competição entre as metrópoles pelo domínio dos
territórios africanos intensifica-se. A partilha da África tem início, de fato, com a Conferência de Berlim
(1884), que estabelece normas para a sua ocupação.
Vale destacar que a partilha é feita de maneira arbitrária, não respeitando as características étnicas e culturais de cada povo, o que contribui para muitos dos
conflitos atuais no continente africano.
Observe o mapa da partilha da África:
Mapa Partilha da África. Mapa elaborado pela própria autora.
Após a partilha, ocorrem movimentos de resistência. Muitas manifestações são reprimidas com violência pelos colonizadores. Também são exploradas
as rivalidades entre os próprios grupos africanos
para facilitar a dominação. A colonização, à medida
que representa a ocidentalização do mundo africano,
suprime as estruturas tradicionais locais e deixa um
vazio cultural de difícil reversão. O processo de independência das colônias europeias do continente africano tem início a partir da II Guerra Mundial.
Por fim, as principais consequências da divisão imperialista do mundo são: a���������������������������
“queda” dos antigos impé-
rios pré-industriais de Portugal e Espanha, incapazes
de resistir à máquina industrial moderna dos seus vizinhos europeus; o fato da criação de uma economia
global única, onde Hobsbawm (1988) chama atenção
através de dados sobre as exportações europeias, bem
como o crescimento da rede ferroviária e da navegação, ou seja, a intensificação do processo de globalização; bem como o fenômeno de ocidentalização do
mundo.
Intensificou-se ainda as desigualdades entre as metrópoles e os países dependentes e as as rivalidades
político-económicas, que deram a base para o militarismo europeu e para a I Grande Guerra.
Material Complementar
BRUIT, Héctor H. O imperialismo. Atual: São Paulo, 1999.
HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2005.
LENIN, V. Imperialismo, fase superior do capitalismo. Centauro, 2005. SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. São Paulo, Cia das Letras, 1995. http://www.culturabrasil.pro.br/neocolonialismo.htm
http://educacao.uol.com.br/historia/unificacao-alema.jhtm
Atividades
1. Como o progresso e o nacionalismo foram fundamentais para a formação dos Estados Nacionais?
2. Diferencie colonialismo de neocolonialismo.
3. Explique por que, segundo Hobsbawm, a América não se tornou uma área de influência dos países europeus.
4. Por que pode-se afirmar que a Primeira Guerra Mundial foi uma consequência do imperialismo?
39
40
Se você:
1)
2)
3)
4)
concluiu o estudo deste guia;
participou dos encontros;
fez contato com seu tutor;
realizou as atividades previstas;
Então, você está preparado para as
avaliações.
Parabéns!
Glossário
Cartismo: movimento social inglês que se iniciou na década de 30 do século XIX. Inicialmente fundou-se na
luta pela inclusão política da classe operária, representada pela associação Geral dos Operários de Londres.
Comuna de Paris: foi o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular frente à invasão alemã.
Congresso de Viena: conferência entre embaixadores das grandes potências europeias que ocorreu entre 2 de
maio de 1814 e 9 de junho de 1815, cuja intenção era a de redesenhar o mapa político do continente europeu
após a derrota da França napoleônica.
Doutrina Monroe: foi
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anunciada pelo presidente estadunidense James Monroe (1817 a 1825) em sua mensagem ao Congresso em 1824. Seu sentido pode ser resumido na frase “América para os Americanos”, indicando
que a Europa não deveria intervir nos interesses dos norte-americanos.
Endêmico: natural ou específico de um determinado povo ou lugar; que pertence exclusivamente a um determinado lugar.
Estruturalismo: é uma corrente de pensamento nas ciências humanas que se inspirou do modelo da linguística
e que apreende a realidade social como um conjunto formal de relações.
Gerondino: grupo político moderado. Seus integrantes faziam parte da burguesia francesa. Liderados por
Jacques Pierre Brissot, os Girondinos compunham o Terceiro Estado, junto com os Jacobinos e os Cordeliers.
Os Girondinos defenderam, durante o processo da Revolução Francesa, a instalação de uma monarquia constitucional na França, após a queda do absolutismo. Portanto eram contrários ao radicalismo defendido pelos
jacobinos. Globalização: processo histórico de interdependência entre os países através do desenvolvimento do sistema
de transportes e de comunicações.
Guerra Civil Espanhola: conflito que durou de 1936 a 1939, teve origem na crise econômica espanhola, que,
entre 1929 e 1936, impulsiona grande número de greves, manifestações e levantes de direita e de esquerda,
ou seja, foi ocasionado pela oposição entre as forças do nacionalismo e do fascismo, aliadas as classes e instituições tradicionais da Espanha (O Exército, a Igreja e o Latifúndio) e do outro a Frente Popular que formava
o Governo Republicano, representando os sindicatos, os partidos de esquerda e os partidários da democracia.
Historiografia: palavra polissêmica que designa não apenas o registro escrito da História, a memória estabelecida pela própria humanidade através da escrita do seu próprio passado, mas também a ciência da História.
Jacobino: originalmente, um jacobino era um membro do clube maçônico francês com representação nos
Três Estados e, depois, na Assembleia Nacional Francesa. No seu início, nos finais do século XVIII na França,
a expressão era geralmente aplicada de forma pejorativa a qualquer corrente de pensamento que, para quem
aplicava o termo, fosse defensora de opiniões revolucionárias extremistas! Na atualidade, a expressão jacobino
designa os defensores do centralismo político e econômico do Estado.
Ludismo: é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho trazida pela Revolução Industrial.
Mercantilismo: mercantilismo é o nome dado a um conjunto de práticas econômicas desenvolvido na Europa
na Idade Moderna, entre o século XV e o final do século XVIII.
Modernidade: costuma ser entendida como um ideário ou visão de mundo que está relacionada ao projeto de
mundo moderno, empreendido em diversos momentos ao longo da Idade Moderna e consolidado com a Revolução Industrial. Está normalmente relacionada com o desenvolvimento do capitalismo.
Nacionalismo: um sentimento de valorização marcado pela aproximação e identificação com uma nação. Do
ponto de vista ideológico foi fundamental na historia da humanidade em sua fase idustrial, pois, nesse momento os estados-nação se tornam a forma de organização político cultural que substitui o império.
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Neoclássico: movimento cultural do fim do século XVIII, o Neoclassicismo está identificado com a retomada
da cultura clássica por parte da Europa Ocidental em reação ao estilo Barroco.
Otto Von Bismarck: foi um nobre, diplomata e político da Prússia. Quando se tornou primeiro-ministro da
Prússia, entre 1862 e 1890, foi o grande responsável pela unificação da Alemanha, depois de uma série de
guerras.
Parlamento: Parlamento é a assembleia dos representantes eleitos pelos cidadãos nos regimes democráticos e
exerce normalmente o poder legislativo.
Primavera dos Povos: é o nome dado as Revoluções de 1848 que ocorreram na Europa central e oriental,
eclodindo em função de regimes governamentais autocráticos, de crises econômicas, de falta de representação política das classes médias e do nacionalismo despertado nas minorias da Europa central e oriental, que
abalaram as monarquias da Europa, onde tinham fracassado as tentativas de reformas políticas e econômicas.
Revolução Ucraniana: foi a tentativa de implantação do Comunismo Libertário pela guerrilha liderada por
Nestor Makhno, na Ucrânia, durante o período de guerra civil entre 1917 e 1921.
Revolução Russa: Revolução de 1917 foi uma série de eventos políticos na Rússia, que, após a eliminação
da autocracia russa que resultou no estabelecimento do poder soviético sob o controle do partido bolchevique.
Gabarito
Unidade I
1- O aluno deve dissertar a respeito do antigo regime, indicando que a Europa era caracterizada pelo absolutismo, um estado autoritário; pelo feudalismo, regime econômico pautado na propriedade de terra e por
sociedade estamental.
2- Nesta questão o aluno deve destacar que Robespierre era o principal líder do governo revolucionário. As
suas posições radicais em relação às questões de ordem política, moral, religiosa e, principalmente, em relação às questões acerca do direito da subsistência do povo levaram à fase do terror da Revolução Francesa. O
Terror foi um instrumento de defesa nacional e revolucionária. Restaurou a autoridade do Estado e, ao impor
a economia dirigida, permitiu alimentar os exércitos da República, sendo um fator fundamental para a vitória
contra a coligação externa e a contra-revolução interna.
Já os sans-culottes foram importantes para os jacobinos, pois constituíam a plebe urbana, um grande número
da população, exausta por carregar o primeiro e o segundo estado, pagando altos impostos. Foram eles que
derrubaram a prisão absolutista e na fase do terror controlaram a França.
3- Na dissertação do aluno, devem conter alguns desses feitos de Napoleão:
• reorganizou o sistema de arrecadação de tributos;
• fundou o Banco da França, que controlava a emissão de moedas;
• criou instituições que fomentavam a manufatura, tornando-a competitiva no mercado;
• reorganizou o ensino para formação de cidadãos aptos ao Estado;
• confirmou a distribuição de terra dos nobres emigrados aos camponeses;
• adotou uma política conciliatória com a nobreza e a Igreja;
• assinou com a Inglaterra a Paz de Amiens;
• promoveu a reforma do direito francês elaborando o Código Civil Napoleônico, defendendo as conquistas
da burguesia ocorridas durante a revolução;
• com total apoio da burguesia e em plebiscito Napoleão tornou-se Imperador. As reformas continuaram e
centralizava mais ainda o poder em suas mãos. Napoleão ainda incentivou a agricultura, a manufatura, obras do
Estado, proporcionou trabalho. E instaurou uma política de repressão contra os possíveis inimigos do governo,
e as fronteiras territoriais foram estendias pelas guerras.
4- Redação livre que deve demonstrar a partir da declaração seu viés burguês, ou seja, uma preocupação com
uma igualdade jurídica e não social.
Unidade II
1- O aluno deve mostrar a contradição existente entre os dois autores.
2- Deve-se indicar como movimentos os primeiros movimentos operários que são o cerne dos sindicatos e
da consciência de classe. Além disso, são fonte de análise para Marx e Engles que pouco depois irão publicar
o Manifesto Comunista.
3- Alguns exemplos:
“A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas das classes”. –
Indica o antagonismo entre burgueses e proletariado.
“O crescente emprego de máquinas e a divisão do trabalho, despojando o trabalho do operário de seu caráter
autônomo, tiraram-lhe todo atrativo.
Ora, o preço do trabalho, como de toda mercadoria, é igual ao custo de sua produção. Portanto, à medida que
aumenta o caráter enfadonho do trabalho, decrescem os salários”. – Indica a mais-valia.
“O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia”. –
Indica a ditadura do proletariado.
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Unidade III
1- O aluno deve explicitar que o nacionalismo foi fundamental para a formação de uma identidade nacional
que será a inspiração para os movimentos que deram origem aos Estados Nacionais.
2- Deve-se destacar que o colonialismo data do século XV e sua lógica se fundamenta na expansão marítima
europeia e no desenvolvimento do capitalismo comercial. Já o neocolonialismo data do século XIX e início do
século XX, com a expansão do capitalismo industrial. Entre outras características, é marcado pelo aparecimento de novas potências concorrentes, como a Alemanha, a Bélgica e a Itália.
3- Para Hobsbawm a América fazia parte territorialmente do plano de expansão norte-americano, sendo sua
área de influencia devido a aproximidade geográfica.
4- Em sua dissertação o aluno deve incluir que o imperialismo estimulou uma corrida armamentista e acirrou
algumas diferenças entre os países que irá culminar na primeira guerra mundial.
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HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA I - Universidade Castelo Branco