UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO CONRADO FAUST DE AGUIAR ROSIANE VIEIRA ANÁLISE DA INCIDÊNCIA DE DORT: UM ESTUDO DE CASO EM UM POSTO DE TRABALHO DE UMA RECEPCIONISTA TELEFONISTA CRICIÚMA, ABRIL DE 2007 UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE – UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA DO TRABALHO CONRADO FAUST DE AGUIAR ROSIANE VIEIRA ANÁLISE DA INCIDÊNCIA DE DORT: UM ESTUDO DE CASO EM UM POSTO DE TRABALHO DE UMA RECEPCIONISTA TELEFONISTA Monografia apresentada à Diretoria de Pósgraduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense- UNESC, para a obtenção do título de especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. Orientadora: Profª Drª Vera Lúcia Duarte do Valle Pereira Co-orientadora: Profª. M. Sc. Simone Teresinha Falchetti Lopes da Costa CRICIÚMA, ABRIL DE 2007 CONRADO FAUST DE AGUIAR ROSIANE VIEIRA ANÁLISE DA INCIDÊNCIA DE DORT: UM ESTUDO DE CASO EM UM POSTO DE TRABALHO DE UMA RECEPCIONISTA TELEFONISTA Monografia apresentada com pré-requisito para obtenção do título de especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho. UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC Criciúma, 27 de abril de 2007. BANCA EXAMINADORA _________________________________________________ Profª. Vera Lúcia Duarte do Valle Pereira, Dra. _________________________________________________ Profª. Simone Teresinha Falchetti Lopes da Costa, M. Sc. _________________________________________________ Profº. Hyppólito do Valle Pereira Filho, Ph. D. RESUMO A DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) vem acometendo um número maior de trabalhadores a cada ano. As causas desta doença, relacionadas ao sistema músculo-esquelético, tem origem devido ao mau projeto e a má utilização de equipamentos, sistemas e tarefas. Os operadores de centrais de atendimento telefônico e as telefonistas são uma das profissões com o maior número de casos de DORT registrados no Brasil. O contato dos pesquisadores, com uma recepcionista telefonista que se queixava frequentemente de dores nos membros superiores, fez surgir o interesse em realizar esta pesquisa. Este estudo caracteriza-se por ser de natureza qualitativa, do tipo exploratório. Assim, foi realizado este estudo de caso, que busca verificar se o posto de trabalho da recepcionista telefonista é, sob o ponto de vista ergonômico, compatível com a prevenção de danos ao sistema músculo-esquelético. Esta verificação realizou-se através de pesquisa bibliográfica, visitas ao local de trabalho, aplicação de questionário para levantamento dos sintomas e aplicação do método RULA (Rapid Upper Limb Assessment) para a investigação da exposição ao risco de doenças do sistema músculo-esquelético. PALAVRAS CHAVE: DORT, ergonomia, sistema músculo-esquelético, recepcionista telefonista. ABSTRACT WRMD (Work-Related Musculoskeletal Disorders) has reached a major number of works every year. The cause of this illness related with the musculoskeletal system is originated in poor design workstation and misuse of system and tasks. Call center operators workers and telephone operators workers are among the professions that register a large number of WRMD causes in Brazil. The contact of the researches with a telephone operator that has often complained about pains and aches on the upper limbs of her body has arose the interest of developing this research. This study points out an exploratory type qualitative nature. So, this case study has been accomplished, it seeks to verify whether the telephone operator workstation is, according to the ergonomic point of view, compatible to the prevention of musculoskeletal disorders. This evidence has been accomplished through bibliographic research, workstations visits, symptoms survey interview and RULA (Rapid Upper Limb Assessment) method applying in order to investigate the exposure to the risk factors of the musculoskeletal system. KEY WORDS: WRMD, ergonomics, musculoskeletal system, telephone operator. LISTA DE TABELAS Tabela 1 - LER/DORT x Ramos de atividades econômica - 1993-1996 ..................29 Tabela 2 - Características dos operadores de centrais telefônicas de acordo com a idade, estado civil, filhos, escolaridade, altura e tempo no emprego.......31 LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Secretaria Municipal de Obras, Transportes e Serviços Urbanos, Jaguaruna - SC ........................................................................................53 Figura 2 - Macrofluxograma do processo produtivo da telefonista ............................55 Figura 3 - Macrofluxograma do estudo de caso ........................................................58 Figura 4 - Qualificação da posição do braço, segundo o ângulo do ombro...............61 Figura 5 - Fazendo ligação........................................................................................61 Figura 6 - Qualificação da posição do antebraço, segundo o ângulo do cotovelo.....62 Figura 7 - Anotando recado durante ligação .............................................................62 Figura 8 - Qualificação da posição do punho ............................................................63 Figura 9 - Qualificação da posição do pescoço.........................................................65 Figura 10 - Consultando agende de telefones...........................................................65 Figura 11 - Qualificação da posição do tronco ..........................................................66 Figura 12 - Posição do tronco durante ligação telefônica..........................................66 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Pontuação da postura: extremidades superiores ...................................64 Quadro 2 - Pontuação do tronco ...............................................................................67 Quadro 3 - Pontuação final........................................................................................68 Quadro 4 - Interpretação dos resultados ...................................................................68 LISTA DE ABREVIATURAS ABERGO – Associação Brasileira de Ergonomia ANATEL – Agência Nacional de Telecomunicações ANSI – American National Standards Institute ATP – Trifosfato de Adenosina BSI – British Standards Institution CEN – Comitê Européen de Normalisation CID – Código Internacional de Doenças CLT – Consolidação das Leis do Trabalho DORT – Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho DTP – Difosfato de Adenosina IEA – Associação Internacional de Ergonomia INSS – Instituto Nacional do Seguro Social ISO – International Standardization Organization LER – Lesões por Esforços Repetitivos NUSAT-MG – Núcleo de Saúde do Trabalhador de Minas Gerais NR – Norma Regulamentadora OCD – Occupational Cervicobrachial Disorder PGMQ – Plano Geral de Metas de Qualidade RULA – Rapid Upper Limb Assessment SC – Santa Catarina SINTTEL-MG – Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações do Estado de Minas Gerais SINTTEL-DF – Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações do Distrito Federal UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais WRMD – Work-Related Musculoskeletal Disorders SUMÁRIO 1 BASE DA PESQUISA............................................................................................12 1.1 Introdução..........................................................................................................12 1.2 Tema ...................................................................................................................13 1.3 Reconhecimento e Formulação do Problema.................................................13 1.3.1 Fenômeno (contextualização teórica) ..........................................................13 1.3.2 Problemática da Pesquisa .............................................................................14 1.4 Objetivos ............................................................................................................14 1.4.1 Objetivo Geral.................................................................................................14 1.4.2 Objetivos Específicos ....................................................................................14 1.5 Metodologia .......................................................................................................15 1.5.1 Base Filosófica ...............................................................................................15 1.5.2 Caracterização da Pesquisa ..........................................................................16 1.5.2.1 Natureza da Pesquisa .................................................................................16 1.5.2.2 Tipo de Pesquisa .........................................................................................17 1.5.2.3 Profundidade e Amplitude da Pesquisa ....................................................19 1.5.3 Métodos de Pesquisa.....................................................................................19 1.5.4 Técnicas de Pesquisa ....................................................................................20 1.6 Justificativa e Importância da Pesquisa..........................................................21 1.7 Limitações..........................................................................................................23 1.8 Organização do Trabalho .................................................................................24 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .............................................................................26 2.1 Panorama Geral do Setor .................................................................................26 2.2 Estatísticas do Setor .........................................................................................29 2.3 Legislação..........................................................................................................32 2.3.1 NR-17 ...............................................................................................................32 2.3.2 Jornada de Trabalho ......................................................................................34 2.4 Ergonomia..........................................................................................................35 2.4.1 Ergonomia do Posto de Telefonista .............................................................37 2.5 Sistema Músculo-Esquelético..........................................................................38 2.6 Coluna Vertebral................................................................................................40 2.7 DORT ..................................................................................................................42 2.7.1 Breve Histórico...............................................................................................42 2.7.2 Conceituação..................................................................................................44 2.7.3 Tipos de DORT ...............................................................................................45 2.7.3.1 Tendinites e Tenossinovites ......................................................................45 2.7.3.2 Bursites ........................................................................................................44 2.7.3.3 Fasciites .......................................................................................................47 2.7.3.4 Cistos Sinoviais...........................................................................................47 2.7.3.5 Neuropatias Compressivas Periféricas .....................................................47 2.7.3.6 Sídrome Miofascial e Fibromialgia.............................................................49 2.7.3.7 Distrofia Simpática Reflexa ........................................................................50 2.7.4 Graus de Sintomas de DORT ........................................................................50 3 ESTUDO DE CASO ...............................................................................................53 3.1 Descrição da Empresa ......................................................................................53 3.2 Descrição do Processo Produtivo ...................................................................54 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS...............................................................56 4.1 Metodologia Empregada...................................................................................56 4.1.1 Questionário ...................................................................................................56 4.1.2 Método RULA..................................................................................................57 4.2 Macrofluxograma do Estudo Realizado ..........................................................57 4.3 Seleção do Tema de Estudo.............................................................................58 4.4 Seleção do Local ...............................................................................................59 4.5 Visita e Observação do Local...........................................................................59 4.6 Aplicação de Questionário a Recepcionista Telefonista ...............................59 4.7 Aplicação do Método RULA .............................................................................60 5 ANÁLISE DOS RESULTADOS E MEDIDAS PREVENTIVAS ..............................69 5.1 Análise dos Resultados Obtidos .....................................................................69 5.2 Medidas preventivas .........................................................................................70 6 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES PARA FUTUROS TRABALHOS ...........72 6.1 Conclusões ........................................................................................................72 6.2 Recomendações................................................................................................74 6.3 Importância para a Engenharia de Segurança do Trabalho ..........................74 REFERÊNCIAS.........................................................................................................76 ANEXOS ...................................................................................................................80 12 1 BASE DA PESQUISA 1.1 Introdução O estudo da saúde dos trabalhadores teve seu marco em 1700, pela obra de Bernardo Ramazzini intitulada De Morbis Artificum Diatriba, com título em português “As doenças dos Trabalhadores”. A partir desta obra, os estudos relacionados à saúde dos trabalhadores progrediram muito. Atualmente, as legislações trabalhistas de cada país, a atuação dos sindicatos e organizações e as normas internacionais de padronização vem contribuindo para a diminuição dos acidentes e doenças do trabalho, porém, mesmo com a evolução das técnicas e operações relacionadas ao trabalho, os acidentes e doenças ainda ocorrem, causando prejuízos para os trabalhadores, os empregadores e os governos (PACHECO JR., 1995, p. 13). Um dos grandes problemas de saúde pública, em vários países, são os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho ou DORT. Esses distúrbios podem evoluir para doenças severas e incapacitantes. Vários grupos nacionais e internacionais de estudo e pesquisas buscam a melhor compreensão destas doenças, que atingem principalmente, o sistema músculo-esquelético (CHEREM, 2001, p. 9 e15). Tendo conhecimento de queixas de dores nos ombros de uma funcionária da Secretaria de Obras, Transportes e Serviços Urbanos do Município de Jaguaruna, que desenvolve a função de recepcionista telefonista, evidenciou-se neste caso, a oportunidade de realização de um estudo, sabendo que a DORT atinge o sistema 13 músculo-esquelético e que existe relação do desenvolvimento destas doenças com o mobiliário do posto de trabalho. Assim, este estudo busca verificar se o posto de trabalho de recepcionista telefonista é sob o ponto de vista ergonômico, compatível a prevenir danos à estrutura músculo-esquelético, descrevendo a atividade da recepcionista telefonista e avaliando os riscos à estrutura músculo-esquelético em posto de trabalho fixo. 1.2 Tema Ergonomia e segurança do trabalho no posto de trabalho de recepcionista telefonista. 1.3 Reconhecimento e Formulação do Problema 1.3.1 Fenômeno (contextualização teórica) Na Secretaria de Obras, Transportes e Serviços Urbanos do Município de Jaguaruna, uma funcionária que exerce a função de recepcionista telefonista, e trabalha desde março de 2005 nesta função, há alguns meses vem queixando-se de dores nos ombros. Conforme a própria funcionária, as dores não são diárias, ocorrem em períodos não determinados, há dias que os ombros doem muito e em outros dias, não doem. Sabe-se que muitas situações de trabalho são prejudiciais a saúde. Uma das grandes causas de absenteísmo e incapacitação para o trabalho são as doenças do sistema músculo-esquelético, e um dos fatores que tem grande influência no 14 desenvolvimento destes problemas é o mau projeto dos postos de trabalho (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 3). Partindo dessa premissa, supõe-se que uma das possíveis causas das dores sentidas pela recepcionista telefonista é o mobiliário do seu posto de trabalho. 1.3.2 Problemática da Pesquisa O posto de trabalho da recepcionista telefonista é sob o ponto de vista ergonômico, compatível com a prevenção de danos ao sistema músculoesquelético? 1.4 Objetivos 1.4.1 Objetivo Geral Verificar se o posto de trabalho de recepcionista telefonista é sob o ponto de vista ergonômico, compatível com a prevenção de danos ao sistema músculoesquelético. 1.4.2 Objetivos Específicos Para alcançar o objetivo geral, algumas etapas foram definidas através do objetivo específico: - Descrever o posto de trabalho de recepcionista telefonista; 15 - Identificar os riscos ao sistema músculo-esquelético em posto de trabalho de telefonista; - Propor medidas que visam a diminuição ou eliminação das causas que possam afetar o sistema músculo-esquelético. 1.5 Metodologia 1.5.1 Base Filosófica A base filosófica é necessária para a identificação da visão do pesquisador, em relação ao mundo que o rodeia. Ao identificar-se a base filosófica é possível saber a perspectiva epistemiológica do pesquisador, e é esta perspectiva que norteará o trabalho científico na escolha do método, metodologia e técnica (RICHARDSON, 1999, p. 32). Segundo Rauen (1999, p. 39), Utilizando-se o método estruturalista, não se analisa mais os elementos em si, mas as relações que entre eles ocorrem, pois somente estas são constantes, ao passo que os elementos podem variar; dessa forma, não existem fatos isolados passíveis de conhecimento, pois a verdadeira significação resulta da relação deles. De acordo com Richardson (1999, p. 42), para um modelo científico ser considerado estruturado, deve satisfazer algumas condições, que seguem: 1. Deve oferecer características de sistema, isto é, consistir em elementos tais que uma modificação de um dos elementos produza modificações nos outros. 2. Todo modelo deve pertencer a um grupo de transformações. Em outras palavras, como os elementos de um modelo estão ligados de maneira sistemática, a modificação de um deles arrasta consigo uma variação dos outros, e, como conseqüência, uma transformação do modelo. Um modelo 16 dado, porém, apenas pode sofrer as transformações que provêm de uma mesma matriz. 3. As condições anteriores devem permitir prever as reações do modelo a modificações em algum de seus elementos. 4. O modelo deve dar conta de todos os elementos. Seu funcionamento deve explicar todos os casos observados. “A preocupação fundamental da investigação estruturalista é a descrição do sistema em termos relacionais, independente de sua evolução e de relações externas” (RICHARDSON, 1999, p. 42). Em conformidade com as citações acima, e porque, como afirma Pacheco Jr. & Pereira (2003), o estruturalismo “busca estudar o processo em que as variáveis estão envolvidas e, desse modo, maior importância se dá ao conhecimento do próprio processo, em detrimento da relação entre variáveis [...]”. Este estudo tem como base filosófica, o estruturalismo. 1.5.2 Caracterização da Pesquisa 1.5.2.1 Natureza da Pesquisa Para Richardson (1999, p. 79), “há autores que não distinguem com clareza métodos, quantitativos e qualitativos, por entenderem que a pesquisa quantitativa é também, de certo modo qualitativa”. Como afirmam W. Goode e P. K. Hatt (1973, p. 398 apud RICHARDSON, 1999), a pesquisa moderna deve rejeitar como uma falsa dicotomia a separação entre estudos ‘qualitativos’ e ‘quantitativos’, ou entre ponto de vista ‘estatístico’ e ‘não estatístico’. Além disso, não importa quão precisas sejam as medidas, o que é medido continua a ser uma qualidade. 17 Entretanto, a forma como se vai analisar um dado problema é que exige uma metodologia qualitativa ou quantitativa. A determinação da natureza da pesquisa se dá pela análise do problema. O modo de análise qualitativo de um problema é opção do investigador, mas justifica-se por ser o caminho para se analisar um fenômeno social (RICHARDSON, 1999, p. 79). De acordo com Richardson (1999, p. 80), [...] em geral, as investigações que se voltam para uma análise qualitativa têm como objetivo situações complexas ou estritamente particulares. Os estudos que empregam uma metodologia qualitativa podem descrever a complexidade de determinado problema, analisar a interação de certas variáveis [...]. Segundo Godoy (1995a, p. 62 apud NEVES, 1996), as pesquisas qualitativas se diferem quanto a métodos, forma e objetivos, mas algumas características são essenciais e auxiliam na identificação desse tipo de pesquisa. São eles: (1) o ambiente como fonte direta de dados e o pesquisador como o instrumento fundamental; (2) o caráter descritivo; (3) o significado que as pessoas dão as coisas e a vida como preocupação do investigador; e (4) enfoque indutivo. A pesquisa realizada neste estudo, é de natureza qualitativa, por seu caráter particular, tendo o ambiente como forma direta do levantamento de dados, por analisar um fenômeno social e por utilizar o caráter descritivo, como afirma Manning (1979, p. 668 apud NEVES, 1996), “o trabalho de descrição tem caráter fundamental em um estudo qualitativo, pois é por meio dele que os dados são coletados”. 1.5.2.2 Tipo de Pesquisa 18 Barros & Lehfeld (1990, p. 13 apud RAUEN, 1999, p. 24) definem pesquisa como sendo o “esforço dirigido para aquisição de um determinado conhecimento, que propicia a solução de problemas teóricos, práticos e/ou operativos mesmo quando situados no contexto do dia-a-dia do homem”. Para Rauen (1999, p. 25), a pesquisa trata “de atos sistemáticos e intensivos que visam à descoberta e à interpretação de fenômenos da realidade”. E, divide-se em três tipos: a pesquisa exploratória, a pesquisa descritiva e a pesquisa experimental. Conforme Rauen (1999, p. 25), “a pesquisa exploratória visa proporcionar maior familiaridade com o problema. Este esforço tem como meta tornar um problema complexo mais explícito ou mesmo construir hipóteses mais adequadas”. De acordo com Lakatos & Marconi (1995, p. 188), as pesquisas exploratórias são investigações de pesquisa empírica cujo objetivo é a formulação de questões ou de um problema, com tripla finalidade: desenvolver hipóteses, aumentar a familiaridade do pesquisador com o ambiente, fato ou fenômeno, para a realização de uma pesquisa futura mais precisa ou modificar e clarificar conceitos. Empregam-se geralmente procedimentos sistemáticos ou para a obtenção de observações empíricas ou para as análises de dados (ou ambas, simultaneamente). Obtém-se frequentemente descrições tanto quantitativas quanto qualitativas do objeto de estudo, e o investigador deve conceituar as inter-relações entre as propriedades do fenômeno, fato ou ambiente observado. Uma variedade de procedimentos de coleta de dados pode ser utilizada, como entrevista, observação participante, análise de conteúdo etc., para o estudo relativamente intensivo de um pequeno número de unidades, mas geralmente sem o emprego de técnicas probabilísticas de amostragem. Muitas vezes ocorre a manipulação de uma variável independente com a finalidade de descobrir seus efeitos potenciais. Gil (1991, p. 45 apud RAUEN, 1999, p. 25) afirma que a pesquisa exploratória, “[...] envolve o levantamento bibliográfico, as entrevistas com o pessoal envolvido, a análise de exemplos, entre outros. Tais tarefas se conformam, em geral, nas formatações das pesquisas bibliográficas e nos estudos de caso”. 19 Desta forma, considerando as definições citadas, classifica-se para o presente estudo a pesquisa exploratória. Esta classificação baseia-se nos procedimentos que serão utilizados neste estudo, como pesquisa bibliográfica, o estudo, a observação, e a descrição do fenômeno, e coleta de dados. 1.5.2.3 Profundidade e Amplitude da Pesquisa Este estudo classifica-se como estudo de caso, como pode ser observado nas palavras de Rauen (1999, p. 30), “um estudo de caso é uma análise profunda e exaustiva de um ou de poucos objetos de modo a permitir o seu amplo e detalhado conhecimento”. A execução de estudos de casos é essencial, em técnicas psicoterápicas, como métodos didáticos e como pesquisa, devido a sua flexibilidade. É também muito utilizado para inícios de estudos complexos, para a confecção de hipóteses e reformulação de problemas (RAUEN, 1999, p. 30). Segundo com Fonseca (2002), Um estudo de caso pode ser caracterizado de acordo como um estudo de uma entidade bem definida como um programa, uma instituição, um sistema educativo, uma pessoa, ou uma unidade social. Visa conhecer em profundidade o seu “como” e os seus “porquês”, evidenciando a sua unidade e identidade próprias. É uma investigação que se assume particularística, isto é, que se debruça deliberadamente sobre uma situação específica que se supõe ser única em muitos aspectos, procurando descobrir a que há nela de mais essencial e característico. 1.5.3 Métodos de Pesquisa A ciência caracteriza-se pela utilização de métodos científicos, estes métodos são fundamentais para diferenciar a atividade científica. Nem todos os ramos de 20 estudos que utilizam estes métodos são ciências, portanto a utilização de métodos científicos não é somente exclusividade da ciência. Entretanto, não é possível existir ciência sem a aplicação de métodos científicos. Segundo Lakatos e Marconi (1988 apud RAUEN, 1999, p. 10), “a finalidade da atividade científica é a obtenção da verdade, através da comprovação de hipóteses, que, por sua vez, são pontes entre a observação da realidade e a teoria científica que explica a realidade”. Segundo Pacheco Jr. & Pereira (2003), “os métodos de pesquisa se referem ao modo de raciocínio que levam ao conhecimento do fenômeno em estudo [...]”. Como afirma Fonseca (2002), no estudo de caso “o pesquisador não pretende intervir sobre o objeto, mas revelá-lo tal como ele o percebe. O estudo de caso apresenta deste modo uma forte tendência descritiva”. Para Rauen (1999, p. 25), “a pesquisa descritiva objetiva conhecer e interpretar a realidade sem nela interferir para modificá-la. Ela está interessada em descobrir e observar fenômenos, procurando descrevê-los, classificá-los e interpretálos”. Segundo Rauen (1999, p. 12), a dedução, é um processo mental por meio do qual, parte-se de um argumento geral, universal, que funciona como uma premissa maior, e de uma premissa menor, para chegar-se a uma conclusão em nível particular, cujo conteúdo semântico já estava incluso pelo menos implicitamente nas premissas. Com base nas observações acima, o desenvolvimento deste estudo utilizará o método descritivo e o dedutivo. 1.5.4 Técnicas de Pesquisa 21 “Técnica é um conjunto de preceitos ou processos de que se serve uma ciência ou arte; é a habilidade para usar esses preceitos ou normas, a parte prática. Toda ciência utiliza inúmeras técnicas na obtenção de seus propósitos” (LAKATOS & MARCONI, 1995, p. 174). Com base nos objetivos deste estudo, serão utilizadas as seguintes técnicas: a) Pesquisa bibliográfica: levantamento de dados referentes ao tema de pesquisa e ao objeto de estudo. A pesquisa bibliográfica “consiste na busca de dados a partir do acervo bibliográfico existente, isto é, em toda espécie de informação registrada em bibliografias e que pode, em tese, ser arquivada em uma biblioteca” (RAUEN, 1999, p. 25). b) Observação sistemática: é utilizada para a busca de respostas de propósitos preestabelecidos. Deve ser sistematizada e planejada, no entanto, não deve ser rígida demais. Neste caso o observador sabe o que procura e quais pontos são de maior importância em determinadas situações, deve reconhecer possíveis erros e não influenciar a observação e os dados recolhidos. Alguns instrumentos que podem ser utilizados são: anotações, escalas, dispositivos mecânicos etc. (LAKATOS & MARCONI, 1995, p. 193). 1.6 Justificativa e Importância da Pesquisa Muitas condições de trabalho e situações do cotidiano são prejudiciais à saúde. As doenças que atingem o sistema músculo-esquelético e doenças psicológicas são a causa principal de faltas ao trabalho e de afastamentos por incapacitação. Esses casos podem ter origem devido ao mau projeto e a má utilização de equipamentos, sistemas e tarefas, devido a esses fatores, em muitos 22 países é obrigatório a contratação de ergonomistas nos serviços de saúde (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 3). No Brasil, as doenças que atingem o sistema músculo-esquelético, também denominadas LER/DORT (Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) têm destaque nas estatísticas de doenças do trabalho. De acordo com o Ministério da Saúde do Brasil (2001): No Brasil, o aumento na incidência de LER/DORT pode ser observado nas estatísticas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) de concessão de benefícios por doenças profissionais. Segundo os dados disponíveis, respondem por mais de 80% dos diagnósticos que resultaram em concessão do auxílio-acidente e aposentadoria por invalidez pela Previdência Social em 1998. [...] Segundo Cláudia Vargas em reportagem para revista Proteção, entre 2002 e 2004, a Previdência Social registrou um aumento de 15,6% nas doenças do trabalho, de 23.311 para 27.587 casos. Já a alta de casos de LER/DORT é bem superior a média geral, no caso de lesões de músculo e tendões da parte inferior das costas (dorsalgias). Neste mesmo período, o aumento foi de 75%, passando de 1.214 para 2.126 casos. Outro exemplo são as mononeuropatias de membros superiores – alterações decorrentes de compressão de um dos nervos desses membros – que teve um aumento de 34,2%, de 1.097 para 1.742 casos. Estes dados demonstram que a média de surgimento das doenças relacionadas ao sistema músculo-esquelético é maior que a média geral de doenças relacionadas ao trabalho. Estes valores são apenas para o aumento das doenças, pois não foram considerados o aumento do número de trabalhadores entre os anos de 2002 a 2004. Os casos de doenças do sistema músculo-esquelético vêm sendo registrados no Brasil, desde 1987. No momento estes casos representam os registros mais freqüentes no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Uma das profissões 23 com maior número de casos de DORT é a de operadores de centrais de atendimento telefônico (ROCHA et al, p. 637, 2005). O estudo da DORT é de grande importância. Como pode ser observado nos parágrafos anteriores a DORT vem crescendo a cada ano, e numa média maior que as outras doenças relacionadas ao trabalho. Além deste crescimento, o setor de telefonistas e operadores de centrais de atendimento telefônico são uma das profissões com maior número de ocorrências de DORT. Estes fatos demonstram a necessidade de serem realizados estudos nestes profissionais, pois é através dos estudos que se pode conhecer melhor os fatores de risco e conseqüências deste tipo de trabalho e assim tomar decisões que auxiliem na prevenção destas doenças. 1.7 Limitações Este estudo apresenta limitações quanto aos critérios de análise e quanto à amostra da população. Limitações quanto os critérios de análise A compatibilidade quanto à prevenção de riscos ao sistema músculoesquelético irá ser observada a partir destes elementos: a) mobiliário; b) levantamento de sintomas relacionados ao sistema músculo-esquelético; c) jornada de trabalho. Limitações quanto à amostra 24 Alguns elementos não serão analisados neste trabalho, são eles: a) fatores psicossociais; b) metas de produção; c) capacitação; d) estresse; e) conforto térmico; d) número de ligações; e) organização e disposição dos equipamentos de trabalho. 1.8 Organização do Trabalho A presente monografia se divide em: Capítulo I: Base da pesquisa – neste capítulo são apresentadas as bases científicas da pesquisa. Constam neste capítulo a introdução, tema, reconhecimento e formulação do problema, problemática da pesquisa, objetivos, metodologia, justificativa e importância da pesquisa, limitações e organização do trabalho. Capítulo II: Fundamentação teórica – neste capítulo é apresentada a revisão bibliográfica da pesquisa. Constam neste capítulo panorama geral do setor, estatísticas do setor, legislação, ergonomia, ergonomia do posto de trabalho de telefonista, sistema músculo-esquelético, coluna vertebral e DORT. Capítulo III: Estudo de caso – neste capítulo são apresentados a descrição da empresa, a descrição do processo produtivo e o macrofluxograma do processo produtivo. Capítulo IV: Procedimentos metodológicos – constam neste capítulo a metodologia empregada, o objetivo do questionário aplicado, o objetivo da aplicação do método 25 RULA, o macrofluxograma do estudo realizado, seleção do tema de estudo, seleção do local, visita e observação do local, aplicação do questionário a recepcionista telefonista, aplicação do método RULA. Capítulo V: Análise dos resultados e medidas preventivas – neste capítulo são apresentados, a análise dos resultados obtidos e medidas preventivas. Capítulo VI: Conclusões e recomendações para futuros trabalhos – neste capítulo são apresentados, a conclusão do estudo realizado e recomendações para futuros trabalhos. 26 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Panorama Geral do Setor Com o surgimento nas últimas três décadas, de legislações que protegem o consumidor, e de empresas a procura da qualidade total, criou-se uma demanda de atendimentos aos compradores e usuários de bens e serviços, além disso, começaram a surgir às vendas através da telefonia. Essas vendas evoluíram de passivas, onde o consumidor ligava para determinado número de telefone buscando um produto, para também vendas ativas, onde as empresas que oferecem produtos ligam para os consumidores. Assim, na década de 1990, surgem os grandes call centers ou centrais de teleatendimento (SILVA, 2004, p. 15). Conforme Vilela e Assunção (2004, p. 1069), “call center é o nome que se dá a uma estrutura organizacional que compreende postos de trabalho para atendimento ao cliente por meio da utilização de um terminal de computador e um aparelho telefônico”. Em 1998, o mercado mundial de call centers arrecadou aproximadamente 23 bilhões de Euros, empregando nos Estados Unidos da América cerca de 5 milhões de pessoas e 1,5 milhões na Europa (TOOMINGAS, 2002 apud SILVA, 2004, p. 15). No Brasil, nos últimos 20 anos, o número de trabalhadores em call centers ou operadores de centrais de atendimento telefônico cresceu aproximadamente 30% (ROCHA et al, 2005, p. 637). A expectativa para 2006, conforme a Associação 27 Brasileira de Telesserviços1, era da criação de mais 60 mil novos empregos no setor, totalizando aproximadamente 675 mil operadores trabalhando no Brasil. A forma atual de teleatendimento no Brasil, como um grande ramo empresarial, é decorrente ao processo de privatizações na última década e das mudanças na política de telecomunicação. Anteriormente, grandes empresas estatais, sem objetivo evidente de lucratividade, eram responsáveis pela operação do sistema de telecomunicação, suas atuações iam da instalação física de fios e equipamentos, distribuição de chamadas, comercialização de linhas e serviços e atendimento ao cliente. Com a privatização o cenário mudou, os lucros eram predeterminados por políticas tarifárias, gerando medidas rígidas das empresas para atingirem margens de lucros maiores, assim ocorrendo rigidez dos mecanismos gerenciais, cortes de custos, aumento de produtividade, entre outras medidas. Desta forma, as empresas de teleatendimento, criadas neste cenário, dividem as mesmas práticas gerenciais (SILVA, 2004, p. 17). Com a privatização da área telefônica do Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), em 1998, criou um regulamento para o serviço de telefonia fixa. Este regulamento influenciou nas condições de trabalho dos call centers da área telefônica. Com um Plano Geral de Metas de Qualidade (PGMQ), a ANATEL exige das prestadoras de serviços telefônicos que o acesso dos clientes de telefonia aos call centers deve ser, contínuo, rápido e gratuito a central de informações e atendimento (SILVA, 2004, p. 18). Os trabalhadores do setor de call centers, em sua maioria possuem o 2º grau completo, ou ensino superior completo, são na maioria mulheres, jovens, em seu primeiro emprego. Quanto a saúde dos trabalhadores, apresentam doenças do Conforme resultados preliminares da pesquisa Global Call Center Industry Project, comandada no Brasil pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da PUC-SP e pela Associação Brasileira de Telesserviços (ABT). Disponível em:<http://www.abt.org.br/>. Acesso em: 22 fev. 2007. 1 28 sistema músculo-esquelético, distúrbios mentais e alterações no aparelho de fonação (SINTTEL-MG, 2006, p. 4). Esta pesquisa tem como objeto de estudo uma recepcionista telefonista, a analogia feita com os call centers se dá, devido ao fato de muitas pesquisas fazerem referencia a estes trabalhadores. Isso ocorre, como já foi descrito nos parágrafos anteriores, pelo fato de um crescimento considerável, do número de trabalhadores neste setor nas últimas décadas. A analogia entre telefonistas e trabalhadores de call centers não se dá apenas neste estudo, outros estudos também consideram similaridades nestas atividades. Segundo o Sinttel-MG (2006, p. 4), “o que este sindicado tem apontado é que na realidade a antiga telefonista hoje trabalha em um call center sob a mesma lógica de trabalho fazendo uso de uma nova tecnologia [...]”. Conforme Silva (2004, p.35), “apesar da similiaridade estrita da atividade de operador de teleatendimento (ou de “telemarketing”), sob diversas denominações, com o antigo cargo de “telefonista”, a interpretação da legislação ainda não é unânime [...]”. Rocha et al. (2005, p. 644), também encontrou similaridades entre os telefonistas e os trabalhadores de call centers. Esse estudo mostrou que os operadores de centrais telefônicas apresentam semelhança com telefonistas. Telefonistas fornecem recursos humanos para uma comunicação eletromecânica chamada sistema telefônico. Eles cumprem essa tarefa através da escuta de cada cliente, identificando necessidades, e traduzindo essas necessidades para sinais elétricos através de um tipo de console eletrônico. Muitas vezes, as tarefas de telefonistas hoje em dia estão associadas à provisão de assistência direta e transferência dos clientes para os serviços especializados. O trabalho é sedentário e as tarefas são comumente padronizadas. Os operadores devem ser capazes de lidar com o estresse, caso os clientes sejam rudes e quando o número de chamadas é grande. Simultaneamente esse estudo mostrou que operadores de centrais telefônicas apresentam diferenças dos telefonistas. Mais que receber e transmitir simples dados, o trabalho em call centers demanda tratamento de informações, resolução dos problemas e ação de decisão. Nesse sentido, as atividades dos operadores apresentam uma nova configuração determinada pela necessidade de lidar com um novo instrumento 29 tecnológico (o computador), da mesma forma, pela exigência dos clientes que exigem do operador um nível de interação muito mais complexa que a exigida dos telefonistas (tradução nossa). 2.2 Estatísticas do Setor Os dados a seguir são de trabalhadores portadores de LER/DORT, que foram atendidos no Núcleo de Saúde do Trabalhador de Minas Gerais (Nusat-MG), serviço que faz parte da estrutura do INSS (OLIVEIRA, 1998, p. 73). Tabela 1 – LER/DORT x Ramos de atividade econômica – 1993-1996 RAMOS DE ATIVIDADE Instituição financeira Ind. mat. elet. eletrônico Comércio varejista Serv. aux. diversos (P.D.) Serv. comunicação Ind. mat. transporte Ser. adm. loc. bens móveis Serv. saúde Serv. utilid. pública Outros ramos TOTAL 1993(%) 1994(%) 1995(%) 1996(%) 26,73 35,38 20,52 16,74 10,54 5,23 9,22 4,29 8,00 5,41 5,26 13,04 7,27 5,78 1,90 1,76 6,73 5,51 8,97 6,52 6,00 3,25 6,72 3,05 5,64 10,29 7,41 7,52 4,73 5,95 11,9 10,22 4,00 4,15 4,91 7,05 24,36 22,2 28,1 29,81 100 100 100 100 Fonte: Nusat/INSS-MG (Oliveira, 1998, p.81) Como pode ser observado na tabela 1, a LER/DORT está presente nos diversos ramos de atividades. Pode-se concluir que a profissão de telefonista esteja presente em todos esses ramos. No ano de 1991, a ocupação de telefonista foi responsável por 11,82% dos casos de LER/DORT registrados pelo Nusat-MG, ficando atrás apenas dos digitadores, profissão com maior número de casos, que representaram 26,06%. No ano de 1992, o percentual de casos de DORT registrados em telefonistas foi 9,76%. Em 1993, o percentual de casos de DORT em telefonistas foi de aproximadamente 5,1% do total de registros. No ano de 1994, as telefonistas, os digitadores, os caixas 30 bancários, os auxiliares de escritórios e escriturários de banco foram responsáveis por 60% dos casos de DORT, ficando as telefonistas com aproximadamente 5,2%. Em 1995, 5,3% dos casos de DORT são registrados em telefonistas e em 1996 este número foi de 4,9% (OLIVEIRA, 1998, p.88-93). Gubert (2001, p. 78), em estudo realizado em uma central do disque-saúde do Ministério da Saúde, onde são prestados serviços de teleatendimento para usuários de diversas regiões do Brasil, constatou ao analisar documentação referente a afastamentos durante o ano de 1999, que 92 operadores ficaram afastados durante 483 dias. Destes, 23 operadores que ficaram afastados 167 dias, ausentaram-se do trabalho por problemas relacionados a especialidade de ortopedia, representando 25% do total de operadores, e 34,5% do total de dias de afastamento. Dos operadores com atestados relativos a ortopedia, 13, representando 56,5%, foram afastados por doença, classificada no Código Internacional de Doenças (CID), como sinovite e tenossinovite. Estes 13 operadores ficaram afastados do trabalho por 102 dias, que representam 61,7%, dos dias de afastamento dos trabalhadores com problemas relacionados a área de ortopedia. Os outros operadores ficaram afastados devido aos seguintes diagnósticos: neurite ou radiculite torácica ou lombossacra, lumbago, fratura na falange das mãos, estenose da coluna vertebral, entorse ou distensão do punho, dor lombar baixa, desarranjos externos do joelho, cirurgia na mão e cervicalgia. Em um estudo realizado por Rocha et al (2005, p. 638), em uma central de atendimento de um banco de São Paulo, dos 181 operadores que trabalhavam na central 50 estavam ausentes, destes, 28 estavam ausentes devido a problemas no sistema músculo-esquelético. Neste mesmo estudo, 108 operadores responderam a um questionário, sendo 95 mulheres e 13 homens. Os dados levantados pelos 31 pesquisadores demonstram a predominância de jovens, como pode ser observado na tabela 2. Tabela 2 – Características dos operadores de centrais telefônicas de acordo com a idade, estado civil, filhos, escolaridade, altura e tempo no emprego Feminino Características N Idade (%) Masculino N N=94 (%) N=13 18 – 20 22 (23) 9 (69) 21 – 23 41 (44) 3 (23) 24 – 29 15 (16) 1 (8) > 29 16 (17) - - Estado civil N=92 N=13 Solteiro 64 (70) 13 (100) Casado 28 (30) - - Filhos N=93 N=13 Sim 21 (23) - - Não 72 (77) 13 (100) Escolaridade N=94 N=13 2º grau completo 20 (21) - - Graduação incompleto 60 (64) 13 (100) Graduação 14 (15) - - Altura N=90 N=12 > ou = 1,60 metros 67 (74) 12 (100) < 1,60 metors 23 (26) - - Tempo no emprego N=92 N=12 1 – 12 meses 20 (22) 12 (100) Mais de 13 meses 72 (78) - - Fonte: Rocha et al, 2005, p.639 Conforme Rocha et al (2005, p. 641), a prevalência de sintomas no sistema músculo-esquelético entre as operadoras mulheres que participaram do estudo, de 32 acordo com a região foram: 41 casos no pescoço/ombro, sendo 43% e 37 casos no punho/mão, sendo 39%. Entre os operadores do sexo masculino, foi registrado 1 caso, com sintomas no pescoço/ombro, sendo 8%. 2.3 Legislação 2.3.1 NR-17 A ergonomia contribui para a melhora do desempenho dos trabalhadores. Em centrais de controle, a ergonomia é uma das características mais importantes para a redução dos erros operacionais, conseqüentemente reduzindo os acidentes. Em alguns países, determinados conhecimentos da ergonomia transformaram-se em normas, essa transformação se dá para estimular sua utilização. Alguns exemplos da aplicação dos preceitos ergonômicos podem ser observados em algumas normas, como por exemplo, nas normas internacionais ISO (International Standardization Organization), nas normas européias do Comitê Europeu de Normalização (CEN – Comitê Européen de Normalisation), em normas nacionais, como exemplo a ANSI (American National Standards Institute – Estados Unidos) e BSI (British Standards Institution – Inglaterra). Além destas normas, algumas normas são específicas para empresas e setores da indústria. E, no Brasil, a Norma Regulamentadora NR-17 – Ergonomia, estabelecida pela Portaria 3.214 de 8 de junho de 1978 do Ministério do Trabalho (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 3). A NR-17 – Ergonomia2, como descreve no item 17.1, e subitens 17.1.1 e 17.1.2, tem como objetivo. 2 Disponível em: <http://www.mte.gov.br/legislacao/normas_regulamentadoras/nr_17.asp>. 33 17.1. Esta Norma Regulamentadora visa a estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente. 17.1.1. As condições de trabalho incluem aspectos relacionados ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às condições ambientais do posto de trabalho, e à própria organização do trabalho. 17.1.2. Para avaliar a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, cabe ao empregador realizar a análise ergonômica do trabalho, devendo a mesma abordar, no mínimo, as condições de trabalho, conforme estabelecido nesta Norma Regulamentadora. Com relação ao posto de trabalho, a NR-17 faz referência em seu item 17.3 Mobiliário dos postos de trabalho. 17.3.1. Sempre que o trabalho puder ser executado na posição sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para esta posição. 17.3.2. Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito em pé, as bancadas, mesas, escrivaninhas e os painéis devem proporcionar ao trabalhador condições de boa postura, visualização e operação e devem atender aos seguintes requisitos mínimos: a) ter altura e características da superfície de trabalho compatíveis com o tipo de atividade, com a distância requerida dos olhos ao campo de trabalho e com a altura do assento; b) ter área de trabalho de fácil alcance e visualização pelo trabalhador; c) ter características dimensionais que possibilitem posicionamento e movimentação adequados dos segmentos corporais. 17.3.2.1. Para trabalho que necessite também da utilização dos pés, além dos requisitos estabelecidos no subitem 17.3.2, os pedais e demais comandos para acionamento pelos pés devem ter posicionamento e dimensões que possibilitem fácil alcance, bem como ângulos adequados entre as diversas partes do corpo do trabalhador, em função das características e peculiaridades do trabalho a ser executado. 17.3.3. Os assentos utilizados nos postos de trabalho devem atender aos seguintes requisitos mínimos de conforto: a) altura ajustável à estatura do trabalhador e à natureza da função exercida; b) características de pouca ou nenhuma conformação na base do assento; c) borda frontal arredondada; d) encosto com forma levemente adaptada ao corpo para proteção da região lombar. 17.3.4. Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados sentados, a partir da análise ergonômica do trabalho, poderá ser exigido suporte para os pés, que se adapte ao comprimento da perna do trabalhador. 17.3.5. Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados de pé, devem ser colocados assentos para descanso em locais em que possam ser utilizados por todos os trabalhadores durante as pausas. 34 Outros itens da NR-17 que apresentam relevância com o objeto do presente estudo destacam-se: • 17.4. Equipamentos dos postos de trabalho • 17.5. Condições ambientais de trabalho • 17.6. Organização do trabalho 2.3.2 Jornada de trabalho Atualmente, a jornada de trabalho das telefonistas é de 6 horas diárias ou 36 horas semanais, como pode ser observado na Consolidação das Leis do Trabalho – CLT em seu artigo 227. Art. 227 - Nas empresas que explorem o serviço de telefonia, telegrafia submarina ou subfluvial, de radiotelegrafia ou de radiotelefonia, fica estabelecida para os respectivos operadores a duração máxima de 6 (seis) horas contínuas de trabalho por dia ou 36 (trinta e seis) horas semanais. Mesmo que estabelecida em lei a jornada de trabalho das telefonistas, e os trabalhadores de centrais de teleatendimento apresentarem similaridades significativas com estes profissionais. A falta de uma normatização específica para os teleatendentes ocasiona em interpretações diferenciadas na esfera jurídica. Isso permite jornadas diferenciadas para estes trabalhadores, estas jornadas variam de 6 a 8 horas diárias ou 36 a 44 horas semanais. Os trabalhadores vinculados aos sindicatos da antiga telefonia pública trabalham com jornadas de 6 horas, porém operadores de outros setores econômicos, com atividade em empresas que dão variadas denominações a seus funcionários, acabam trabalhando por 8 horas diárias, inclusive em domingos e feriados (SILVA, 2004, p. 35-36). 35 2.4 Ergonomia A ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho ao homem. Não somente o trabalho que é executado com o auxílio de máquinas e equipamentos, onde ocorre a transformação de materiais. O trabalho aqui é toda situação de relacionamento entre o homem e uma atividade produtiva (IIDA, 2005, p. 2). De acordo com Dul & Weerdmeester (2004, p. 1), a Associação Internacional de Ergonomia (IEA), que atualmente representa associações de ergonomia de 40 países, define ergonomia como: Ergonomia (ou fatores humanos) é uma disciplina científica que estuda as interações dos homens com os outros elementos do sistema, fazendo aplicações da teoria, princípios e métodos de projeto, com o objetivo de melhorar o bem estar humano e o desempenho global do sistema. A Associação Brasileira de Ergonomia (Abergo), de acordo com Iida (2005, p. 2), adota a seguinte definição: Entende-se por Ergonomia o estudo das interações das pessoas com tecnologia, a organização e o ambiente, objetivando interações e projetos que visem melhorar, de forma integrada e não-dissociada, a segurança, o conforto, o bem-estar e a eficácia das atividades humanas. A ergonomia é uma ciência com características interdisciplinares. Buscando a adaptação do posto de trabalho e do ambiente as características e necessidades do trabalhador, apóia-se em várias áreas científicas, são elas, a antropometria, biomecânica, fisiologia, psicologia, toxicologia, engenharia mecânica, desenho industrial, eletrônica, informática e gerência industrial. Utilizando-se dos conhecimentos relevantes dessas áreas para a sua aplicação, foram desenvolvidos métodos e técnicas específicas. Atualmente, os conhecimentos desenvolvidos pela 36 ergonomia são aplicados para melhorar, não só as condições de trabalho, mas também as condições de vida do homem (DUL & WEERDMEESTER, 2004, p. 2). Os ergonomistas com freqüência trabalham em áreas especializadas, utilizando-se de características específicas do sistema. Segundo Iida (2005, p. 3), essas características são as seguintes: Ergonomia Física – Ocupa-se das características da anatomia humana, antropometria, fisiologia e biomecânica, relacionados com a atividade física. Os tópicos relevantes incluem a postura no trabalho, manuseio de materiais, movimentos repetitivos, distúrbios músculo-esqueléticos relacionados ao trabalho, projeto de postos de trabalho, segurança e saúde do trabalhador. Ergonomia Cognitiva – Ocupa-se dos processos mentais, como a percepção, memória, raciocínio e resposta motora, relacionados com interações entre pessoas e outros elementos de um sistema. Os tópicos relevantes incluem a carga mental, tomada de decisões, interação homemcomputador, estresse e treinamento. Ergonomia Organizacional – Ocupa-se da otimização dos sistemas sóciotécnicos, abrangendo as estruturas organizacionais, políticas e processos. Os tópicos relevantes incluem comunicações, projeto de trabalho, programação do trabalho em grupo, projeto participativo, trabalho cooperativo, cultura organizacional, organizações em rede, teletrabalho e gestão de qualidade (grifo do autor). Como pode ser observado, a ergonomia estuda inúmeros fatores que influenciam na interação entre o homem e o trabalho. E é aplicada de várias formas, porém sempre em busca dos mesmos objetivos, proporcionar saúde, segurança e satisfação aos trabalhadores (IIDA, 2005, p. 3). Conforme o Prof. Mario César Vidal3, a ergonomia brasileira como disciplina científica, conquistou seu espaço no cenário mundial, e em especial na America Latina, porém o Brasil ainda enfrenta algumas dificuldades nos aspectos da aplicação prática da ergonomia, dificuldades na obtenção de recursos, ausência de uma preocupação social etc. Infelizmente, por essas dificuldades, dentro das empresas, organizações sociais, serviços públicos e privados há carência de 3 Membro Brasileiro da missão IDC/IEA (International Ergonomics Association). Ex-presidente da ABERGO 1997-2001. Membro do Conselho Científico da ABERGO. 37 desenvolvimento e aplicação da ergonomia. Esta carência demonstra a necessidade de uma política pública que alavanque a aplicação da ergonomia, pois sua eficácia já é comprovada, para cada real investido obtem-se um retorno de 4 reais, ou seja, as ações ergonômicas geram retornos na economia além de serem um bem social. 2.4.1 Ergonomia do Posto de Telefonista “Posto de trabalho é a configuração física do sistema homem-máquinaambiente. É uma unidade produtiva envolvendo um homem e o equipamento que ele utiliza para realizar o trabalho, bem como o ambiente que o circunda” (IIDA, 2005, p. 189). Um posto de trabalho com enfoque ergonômico tende a colocar o trabalhador em boa postura, reduzindo as exigências biomecânicas e cognitivas. Os objetos são colocados dentro da área de alcance do trabalhador e as informações necessárias para o desenvolvimento do trabalho são organizadas de forma a facilitar sua percepção, ou seja, o posto de trabalho é confeccionado para que o trabalhador realize suas tarefas com conforto, eficiência e segurança (IIDA, 2005, p. 192). Conforme Iida (2005, p. 192), No enfoque ergonômico, às máquinas, equipamentos, ferramentas e materiais são adaptados às características do trabalho e capacidade do trabalhador, visando promover o equilíbrio biomecânico, reduzir as contrações estáticas da musculatura e o estresse geral. Assim, pode-se garantir a satisfação e segurança do trabalhador e a produtividade do sistema. Procura-se também eliminar tarefas altamente repetitivas, principalmente aquelas de ciclo menores a 1,5 minuto (grifo do autor). Uma das dificuldades ao se projetar um posto de trabalho é a variabilidade das dimensões antropométricas da população. Essas variações levam a 38 dimensionamentos inadequados que podem provocar esforços musculares estáticos, movimentos exagerados dos braços, ombros, tronco e pernas, posturas inadequadas. Sabe-se que posturas inadequadas e alcances forçados provocam dores musculares e queda de produtividade (IIDA, 2005, p. 194). 2.5 Sistema Músculo-esquelético A movimentação do corpo humano depende do sistema muscular. Este sistema é distribuído pelo corpo todo e representa cerca de 40% do seu peso. Os músculos são formados por fibras musculares, que variam de tamanho conforme o músculo, essas fibras podem variar de 0,5 a 14 cm de comprimento, e podem ter espessuras de aproximadamente 0,1mm. Cada músculo conta com um número de 100.000 a 1.000.000 de fibras musculares, cada ponta dessas fibras unem-se nas fibras dos tendões. Nas extremidades dos músculos encontram-se os tendões, conjunto de fibras tendinosas com pouca elesticidade, que estão fixados no sistema ósseo (GRANDJEAN, 1998, p. 13). A capacidade de contração dos músculos é a sua mais importante característica, um músculo pode contrair-se até metade de seu comprimento, consequentemente quanto maior o músculo maior o seu trabalho de contração. As fibras musculares contêm substâncias protéicas, destacam-se a actina e a miosina, que são responsáveis pela capacidade de contração do músculo. Isto é possível porque a actina e a miosina possuem forma de filamentos, assim deslizam um sobre o outro (GRANDJEAN, 1998, p. 13). A força muscular é resultante da quantidade de fibras musculares contraídas. A força máxima de um músculo é em torno de 3 a 4 kg/cm², ou seja, para um 39 músculo com 1 cm² a força resultante é de 3 a 4 kg, durante a contração. As mulheres podem desempenhar 70% da força muscular do homem, isto ocorre porque a musculatura da mulher é mais fina que a do homem (IIDA, 2005, p. 71). Basicamente, a contração muscular é resultante da transformação de energia química em energia mecânica. Como visto anteriormente, a contração muscular depende das substâncias protéicas actina e miosina. Uma das fontes imediatas de energia para as substâncias protéicas são as ligações de fosfato, a forma de energia mais encontrada no corpo humano é o trifosfato de adenosina (ATP), estado rico de energia, que ao ser utilizado, transforma-se em difosfato de adenosina (DTP), que ainda libera uma considerável quantidade de energia para o músculo. A regeneração das ligações fosfatídicas depende de liberação de energia, que é fornecida pela glicose, reservas de gordura e proteínas e oxigênio. A glicose, presente na circulação sanguínea, durante trabalhos físicos intensos é o principal fornecedor de energia. Já as reservas de gorduras e proteínas tornam-se principais fornecedoras de energia em trabalhos físicos moderados ou repouso. Essas substâncias são importantes, pois são fontes indiretas de energia para os depósitos de ATP. Quando há oxigênio, o ácido pirúvico é degradado com consumo de oxigênio, essa degradação resultará em grande quantidade de energia que se armazenará na forma de ATP. Quando não há oxigênio, a degradação do ácido pirúvico não acontece, mas ele se reduz a ácido láctico, que é importante na fadiga muscular, apesar de este processo gerar menor quantidade de energia para as reservas ATP, permite, por curto espaço de tempo, grande desempenho muscular (GRANDJEAN, 1998, p. 15). É através do sangue que os músculos recebem a glicose e o oxigênio, estas substâncias encontram-se em quantidades limitadas nos músculos, devido a isto, o 40 sangue é muito importante para o funcionamento da musculatura. O sistema circulatório é formado por artérias que se ramificam em vasos capilares. Estes vasos distribuem-se no interior da musculatura, por possuírem paredes extremamente finas as substâncias trazidas pelo sangue são facilmente transferidas para os músculos. Quando ocorre a contração de um músculo, ele encontra-se em estado de tensão, consequentemente, os vasos capilares são comprimidos pelas fibras musculares, ocasionando a falta de circulação sanguínea que causa a fadiga muscular. Para que ocorra uma boa irrigação sanguínea da musculatura, é necessário que o músculo seja contraído e relaxado com freqüência (GRANDJEAN, 1998, p. 13; IIDA, 2005, p. 71). A fadiga muscular é um processo reversível e ocorre quando há deficiência na irrigação sangüínea do músculo. Quanto maior a força, ou seja, maior a contração muscular, menos sangue chegará às fibras musculares, devido ao estrangulamento dos vasos capilares. Ao ocorrer a contração máxima do músculo, esta só poderá ser mantida por alguns segundos. Já a metade da contração máxima pode ser mantida por 1 minuto e quando a contração for por longos períodos a força não pode ser superior a 20% da contração máxima do músculo. Caso esses tempos sejam ultrapassados podem ocorrer dores intensas e será necessário o relaxamento para a circulação sangüínea se restabelecer (IIDA, 2005, p. 72). 2.6 Coluna Vertebral Iida (2005, p. 75) descreve a coluna vertebral como sendo [...] uma estrutura óssea constituída de 33 vértebras empilhadas, uma sobre as outras. Classificam-se em cinco grupos. De cima para baixo: 7 vértebras se localizam no pescoço e se chamam cervicais; 12 estão na região do 41 tórax e se chamam torácicas ou dorsais; 5 estão na região no abdômen e se chamam lombares; abaixo, 5 estão fundidas e formam o sacro e as 4 da extremidade inferior são pouco desenvolvidas e constituem o cóccix. Estas 9 últimas vértebras fixas situam-se na região da bacia e se chamam também de sacrococcigeanas. Das 33 vértebras que formam a coluna vertebral 24 são flexíveis, sendo que as vértebras com maior mobilidade são as situadas no pescoço chamadas de cervicais e as situadas na região abdominal chamadas de lombares. As vértebras situadas na região do tórax, chamadas de torácicas, são unidas a 12 pares de costelas, devido a isso seu movimento é limitado e essa união forma a caixa torácica. Para manter-se em equilíbrio a coluna manifesta três tipos de curvatura, a lordose cervical ou concavidade, a cifose torácica ou convexidade e a lordose lombar (IIDA, 2005, p. 75-76). Cada vértebra sustenta o peso das partes do corpo localizadas acima dela. Consequentemente, as vértebras inferiores são maiores, pois sustentam maior peso. A coluna vertebral mantém o corpo ereto, graças a sua propriedade de rigidez que garante a sustentação do corpo. A coluna também nos garante mobilidade, com movimentos de rotação para os lados, para frente e para trás, possibilitando assim movimentação dos membros superiores e da cabeça (IIDA, 2005, p. 76). Entre as vértebras da coluna encontram-se os discos intervertebrais, a compressão e deformação destes discos tornam possível os movimentos realizados com a coluna. De acordo com Grandjean (1998, p. 62), “o disco intervertebral pode ser comparado com um travesseiro, que fica entre os ossos das vértebras [...].” A constituição interna destes discos é uma massa viscosa, e externamente os discos são envoltos por um anel fibroso de alta resistência (GRANDJEAN, 1998, p. 62). “Por motivos hoje desconhecidos, os discos intervertebrais podem degenerar e perder sua rigidez: acontece um achatamento dos mesmos e em casos mais 42 avançados, um extravasamento da massa viscosa interna do disco intervertebral” (GRANDJEAN, 1998, p. 62). “A coluna vertebral contém um canal formado pela superposição das vértebras, por onde passa a medula espinhal, que se liga ao encéfalo [...]” (IIDA, 2005, p. 76, grifo do autor). A medula funciona como um canal de transmissão, onde as informações sensitivas são transmitidas da periferia para o cérebro, que retorna ordens de movimentos para os membros. A ruptura da medula ocasiona a interrupção dessas comunicações, ocasionando a paralisia (IIDA, 2005, p. 76). Até este momento dissertou-se sobre coluna vertebral. Como foi visto anteriormente, a coluna vertebral se divide em 5 grupos, sendo que um dos grupos da coluna vertebral que é de grande relevância neste estudo é o situado na região do pescoço, a coluna cervical. A coluna cervical é formada por 7 vértebras, estas vértebras são muito movimentadas e quando o corpo está ereto apresentam lordose, que é o aumento da concavidade posterior da curvatura na região cervical. Câimbras musculares e irradiações dos nervos nas regiões da nuca, ombros e braços são efeitos de alterações degenerativas dos discos intervertebrais. A rigidez da nuca, conhecida popularmente como torcicolo, é a manifestação mais freqüente dessas patologias que são agrupadas no nome de síndrome cervical. Esta síndrome foi observada em telefonistas, datilógrafas, operadores de máquinas de calcular e trabalhadores em linhas de montagem (GRANDJEAN, 1998, p. 67). 2.7 DORT 2.7.1 Breve Histórico 43 Os distúrbios relacionados ao trabalho vêm sendo relatados há algum tempo, como o caso de Bernardino Ramazzini em seu livro Doenças dos Trabalhadores publicado no início do século XVIII. Nesta obra são descritas doenças que tem relação com mais de 50 atividades de trabalho, como o caso da doença dos escribas, estes trabalhadores dedicavam-se a escrita com penas, tinham de manter a atenção e repetiam constantemente os movimentos (CHEREM, 2001, p. 15; RUIZ, 1999, RIBEIRO, 1997 apud REIS, 2001, p. 10). Em 1895, Fritz De Quervain, descreve um tipo de doença nos punhos que atingia lavadeiras. Hoje conhecida como tenossinovite ou síndrome de Quervain, é conhecido que esta doença atinge os tendões abdutor longo e extensor curto do polegar. Na Suíça, em 1918, datilógrafos, mecanógrafos e telefonistas apresentam sintomas parecidos com os descritos por De Quervain. Esses profissionais tiveram reconhecidas a origem das doenças devido a suas atividades de trabalho (PRZYSIEZNY, 2000, p. 2; CHEREM, 2001, p. 15). Nas décadas de 1950 e 1960, o pós guerra altera as características do mercado de trabalho japonês. Em 1974, o Japan Association of Industrial Health, estabelece para as doenças relacionadas ao trabalho, resultantes de movimentos repetitivos do membro superior, o nome de Occupational Cervicobrachial Disorder (O.C.D). Ainda na década de 1970, é acentuado o número de digitadores que recebem benefícios devido a doenças relacionadas ao trabalho (PRZYSIEZNY, 2000, p. 2-3). Em 1973, no Brasil, as LER/DORT foram descritas como tenossinovite ocupacional, em casos de trabalhadores que usavam muito as mãos como lavadeiras, limpadoras e engomadeiras. Em 1984, começam a ser descritos os primeiros casos de LER em digitadores. Em 1987 é oficializada a LER, pela portaria 44 4062 de 06 de agosto de 1987 do INSS, como doença relacionada ao trabalho. Na década de 1990 é introduzido no Brasil, o termo DORT (REIS, 2001, p. 11; INSTRUÇÃO NORMATIVA INSS/DC nº 98). 2.7.2 Conceituação Segundo Instrução Normativa INSS/DC nº 98 – de 05 de Dezembro de 2003, do Ministério da Previdência Social, o conceito adotado de LER/DORT é: Entende-se LER/DORT como uma síndrome relacionada ao trabalho, caracterizada pela ocorrência de vários sintomas concomitantes ou não, tais como: dor, parestesia, sensação de peso, fadiga, de aparecimento insidioso, geralmente nos membros superiores, mas podendo acometer membros inferiores. Entidades neuro-ortopédicas definidas como tenossinovites, sinovites, compressões de nervos periféricos, síndromes miofaciais, que podem ser identificadas ou não. Freqüentemente são causa de incapacidade laboral temporária ou permanente. São resultado da combinação da sobrecarga das estruturas anatômicas do sistema osteomuscular com a falta de tempo para sua recuperação. A sobrecarga pode ocorrer seja pela utilização excessiva de determinados grupos musculares em movimentos repetitivos com ou sem exigência de esforço localizado, seja pela permanência de segmentos do corpo em determinadas posições por tempo prolongado, particularmente quando essas posições exigem esforço ou resistência das estruturas músculoesqueléticas contra a gravidade. A necessidade de concentração e atenção do trabalhador para realizar suas atividades e a tensão imposta pela organização do trabalho, são fatores que interferem de forma significativa para a ocorrência das LER/DORT (grifo dos autores). De acordo com Couto (1998, p. 20 apud REIS, 2001, p. 12), a definição de DORT é Transtornos funcionais, transtornos mecânicos e lesões de músculos e/ou de tendões e/ou de fáscias e/ou de nervos e/ou de bolsas articulares e pontas ósseas nos membros superiores, que resultam em dor, fadiga, queda da performance no trabalho, incapacidade temporária e, conforme o caso, podem evoluir para uma síndrome dolorosa crônica. 45 2.7.3 Tipos de DORT De acordo com Oliveira (1998, p. 214-218), os sintomas nas principais formas clínicas de LER/DORT são tendinites e tenossinovites, bursites, fasciites, cistos sinoviais, neuropatias compressivas periféricas, síndrome miofascial e fibromialgia e distrofia simpática reflexa. 2.7.3.1 Tendinites e Tenossinovites Decorrem de processo inflamatório das bainhas tendíneas e dos tendões. São mais freqüentes na população de risco, em atividades que exigem grande repetitividade juntamente com força. O sintoma mais característico é a dor. Enfermidade ou doença de De Quervain: é também conhecida como tenossinovite estenosante estilorradial. Ocorre devido inflamação da bainha dos tendões do abdutor longo e extensor curto do polegar. O sintoma pode ser dor na região dorsal do polegar, podendo apresentar-se de forma aguda. É comum a irradiação da dor para o antebraço, cotovelo e ombro. Ao evoluir o indivíduo afetado pode ter dificuldades para segurar objetos. Dedo em gatilho: é uma forma de tenossinovite estenosante causada pela inflamação dos tendões flexores dos dedos, levando ao bloqueio mecânico da extensão dos dedos. Incide mais em atividades onde ocorre uso de força com compressão palma, geralmente devido ao uso de objetos como alicates, tesouras e gatilho de bombas de gasolina. 46 Tenossinovite dos flexores dos dedos e dos flexores do carpo: processo inflamatório nos tendões da face ventral do antebraço e punho decorre geralmente da flexão dos dedos e das mãos. Tenossinovite dos extensores dos dedos: é semelhante a forma anterior, mas ocorre na face dorsal do antebraço e punho. Epicondilite lateral: processo inflamatório dos músculos responsáveis pela supinação e extensão do punho. O principal sintoma é a dor na região do epicôndilo lateral, em caso de não tratamento pode irradiar-se para ombros e mãos. A dor é muito forte durante a movimentação e extensão de mãos e punhos. Epicondilite medial: é conhecida também como epitrocleite, é resultante do processo inflamatório dos músculos flexores do carpo no borda medial do cotovelo. É menos comum que a epicondilite lateral. Tendinite bicipital: é ocasionada pela inflamação da bainha sinovial do tendão da porção longa do bíceps. Tendinite do supra-espinhoso: também conhecida como síndrome do impacto. Ocorre devido a compressão das fibras do supra-espinhoso pelo acrômio ao realizar abdução do braço em ângulo superior a 45º. 2.7.3.2 Bursites Ocorrem com mais freqüência nos ombros, associadas a tendinite do supraespinhoso, porém também ocorrem em outra regiões, como nas bursas olecranianas, por conseqüência de apoiar o cotovelo durante realização do trabalho. As dores são freqüentes em movimentos de abdução, rotação externa e elevação do membro superior. 47 2.7.3.3 Fasciites Decorrem do processo fibrosante palmar que impede a extensão normal dos dedos acometidos. Ocorrem principalmente em trabalhos braçais com vibrações constantes. 2.7.3.4 Cistos Sinoviais São tumorações esféricas em sua maioria macias e indolores que ocorrem por degeneração mixóide do tecido sinovial periarticular ou peritendíneo. São mais comuns na face extensora do carpo, são favorecidas por trabalhos manuais que exijam força. 2.7.3.5 Neuropatias Compressivas Periféricas As raízes nervosas que formam o plexo braquial, que é o conjunto de nervos que partem da medula espinhal e ramificam-se inervando os membros superiores, estruturas delicadas. Esses nervos trafegam por áreas estreitas, tornando-se passíveis de compressões. Nestes casos, os principais sintomas são as sensações de formigamento. A seguir são citadas as principais síndromes que compõe as neuropatias compressivas periféricas. Síndrome do desfiladeiro torácico: ocorre devido à compressão do feixe vásculonervoso no triângulo estreito formado pelos músculos escaleno anterior e médio, a primeira costela e a clavícula. Seu aparecimento é relacionado a prolongado períodos de elevação do braço associados à compressão do ombro. Como, por 48 exemplo, o uso prolongado e diário de telefone apoiado entre a orelha e o ombro. Seus sintomas são neurológicos, com dores e sensibilidade excessiva a estímulos que se irradiam da coluna cervical para o braço, antebraço e mão. Síndrome do supinador: ocorre quando o músculo supinador hipertrofiado comprime o nervo interósseo, que passa no seu interior. A síndrome do supinador, é a compressão do ramo motor do nervo radial no cotovelo. Apesar de seus sintomas serem parecidos com os da epicondilite lateral, deve ser distinguida desta. É geralmente causada por movimentos repetitivos de pronossupinação, como apertar parafusos e prática de musculação. Síndrome do pronador redondo: ocorre devido à compressão do nervo mediano localizado abaixo da prega do cotovelo, entre os dois ramos musculares do pronador redondo. Ocasiona alterações na sensibilidade na área distal dos três primeiros de dos e região tênar, além de dor no antebraço e enfraquecimento da oponência do polegar, que geralmente altera a escrita. Ocorre em tarefas que exigem pronossupinação repetitiva e uso da força. Síndrome do interósseo anterior: o nervo interósseo anterior, ramo exclusivamente motor do nervo mediano, ocorre com a compressão do nervo na borda de origem dos músculos flexores superficiais dos dedos, Acomete geralmente aqueles que carregam objetos pesados. O diagnóstico é realizado com a flexão do terceiro dedo contra resistência, que produz dor no cotovelo. Síndrome do túnel do carpo: ocorre devido à compressão do nervo mediano no nível do punho, ocorrendo uma desproporção continente/conteúdo no túnel do carpo. É a mais comum das síndromes compressivas e acomete indivíduos que desenvolvem tarefas manuais repetitivas, principalmente se houver força ou desvio 49 do carpo, quando os tendões hipertrofiados ou edemaciados comprimem o nervo mediano. Síndrome do canal de Guyon: é mais rara que a síndrome do túnel do carpo, e equivale a mesma, contudo atinge o nervo ulnar ao nível do chamado canal de Guyon no punho. Causa distúrbio de sensibilidade no quarto e quinto dedos, bem como distúrbios motores na face palmar. A utilização excessiva da borda ulnar do punho, traumas, fraturas de ossos do carpo e do metacarpo, variações anatômicas, tumores de partes moles, comprometimento da artéria ulnar e cistos sinoviais são os elementos predisponentes mais comuns. Acomete com muita freqüência nos carimbadores, escrivães e aramistas. Síndrome cervicobraquial: a combinação de fator hereditário constitucional com o fator laboral são os dois mecanismos que geralmente desencadeiam o desenvolvimento desta síndrome. Ocorre devido a compressão e irritação das raízes nervosas da coluna vertebral, ocasionando hipoestesias, fraqueza muscular e limitação dolorosa à movimentação do membro superior. 2.7.3.6 Síndrome Miofascial e Fibromialgia Caracteriza-se pela existência de um ponto doloroso, que ao ser estimulado dói à distância. Mais de 2/3 dos pontos que doem correspondem aos pontos da acupuntura. A dor ao se estimular tais pontos é imprecisa e esta relacionada aos distúrbios do sono, fadiga e rigidez matinal, sendo agravada em períodos de tensão, ansiedade e depressão, e é mais comum no sexo feminino. É também encontrada na literatura médica como: fibrosite, síndrome de tensão do pescoço, reumatismo psicogênico, fibromalgia e síndrome de fadiga crônica. 50 2.7.3.7 Distrofia Simpática Reflexa Indivíduos com LER/DORT, que tiveram diagnóstico tardio, e ainda mantiveram-se em suas funções ou foram mal conduzidos terapeuticamente podem evoluir para está síndrome, considerada grave, em que a dor, a hiperestesia, os distúrbios vasomotores e as alterações disfróficas são características. 2.7.4 Graus de Sintomas de DORT A DORT é uma doença evolutiva que se diferencia em diversas fases clínicas. A revisão da literatura demonstra várias tentativas de sua classificação. A uma tendência em dividir os quadros de DORT em dois grupos, os quadros iniciais e os avançados. Porém, uma classificação mais aprofundada dos graus da doença auxilia no planejamento terapêutico, na avaliação da incapacidade laborativa e no seu prognóstico (OLIVEIRA, 1998, p. 222). A classificação apresentada a seguir, conforme descreve Oliveira (1998, p. 223), é baseada nas experiências do Ambulatório de Doenças Profissionais do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a partir de 1987 e do Núcleo de Referência em Doenças Ocupacionais da Previdência Social (Nusat), a partir de 1989, órgão do INSS, que é detentor da maior estatística nacional sobre o tema. Grau ou Fase 0: um dos indícios de risco de DORT em trabalhadores, são as queixas ao final ou em picos de produção durante o expediente de trabalho, onde o indivíduo relata sensação de peso nos membros superiores ou desconforto, de 51 forma localizada ou não, que cessa imediatamente com o repouso ou com a diminuição do ritmo de trabalho. Nestes casos os trabalhadores raramente procuram o serviço médico, e quando o procuram não há sinais ao realizarem exames clínicos. Porém é um alerta para que ocorram investigações e intervenções no ambiente de trabalho. Grau ou Fase 1: as sensações de desconforto ou peso persistem a um mês e não desaparecem, porém melhoram com o repouso. Nesta fase as queixas não são somente nos picos de produção e no final do expediente, elas se dão, de maneira aleatória, as sensações são leves e rápidas, não interferindo na produtividade de maneira que possa ser mensurável. Na realização de exame físico, o resultado será normal, entretanto ao comprimir a musculatura envolvido o indivíduo pode manifestar sensação de dor. Neste caso a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) deve ser emitida, o trabalhador deve ser afastado, receber tratamento, e o ambiente de trabalho deve ser modificado, caso isso não ocorra, o indivíduo deverá ser submetido a programa de readaptação ou reabilitação profissional. Caso retorne a mesma função, sem modificações, o quadro se agravará e a doença passará para fases mais avançadas. Grau ou Fase 2: a dor se torna mais intensa e persistente, apesar de ser tolerável e permitir o desenvolvimento da atividade laboral, porém já observa-se redução da produtividade. A dor torna-se mais localizada e acompanha sensações de formigamento e calor. A recuperação é mais demorada, e não se dá com o repouso ou uso de analgésicos e antiinflamatórios. Nesta fase a dor agrava-se mesmo fora do trabalho e acaba por comprometer atividades domésticas e de higiene pessoal. O exame físico ainda pode apresentar resultados normais, mas com freqüência se observa nodulações acompanhando as bainhas tendinosas, presença de hipertonia 52 e dor muscular, e em alguns casos, sinais de compressão de nervos periféricos, o que torna a evolução do processo mais arrastada. O prognóstico é variável. Grau ou Fase 3: a dor torna-se mais forte, mais persistente e com irradiação bem definida. O repousa já não influi na intensidade da dor e há paroxismos noturnos, impedindo o sono. É freqüente a perda de força muscular, associada a sensações de queimação, formigamento e calor. A produtividade no trabalho é mínima. As tarefas domésticas são limitadas chegando a não ser realizadas. Nesta fase o exame clínico é rico, apresentando edema, hipertonia muscular e todo cortejo de manifestações de lesões neurológicas compressivas, diminuição da força muscular, alteração de reflexos, alterações de sensibilidade tátil. Devido ao medo relacionado ao futuro profissional o trabalhador pode apresentar quadros de angústia e depressão profundas. O prognóstico é reservado e é raro o retorno a atividade produtiva. Grau ou Fase 4: nesta caso o indivíduo desenvolve um quadro de distrofia simpática reflexa, com sintomas como, dor, hiperestesia, distúrbios vasomotores e distrofias. É comum a limitação dos movimentos, o edema, com nítido componente linfático associado a atrofias, principalmente dos dedos, devido ao desuso. Não existe mais capacidade para o trabalho e a invalidez é caracterizada pela impossibilidade de um trabalho produtivo regular. O cotidiano fica altamente prejudicado, originando comumente alterações psicológicas. Prognóstico sombrio e resposta terapêutica desapontadora. 53 3 ESTUDO DE CASO 3.1 Descrição da Empresa A Secretaria Municipal de Obras, Transporte e Serviços Urbanos, figura 1, onde trabalha a funcionária em estudo, pertence à Prefeitura Municipal de Jaguaruna, com sede na Avenida Duque de Caxias 290, centro, Jaguaruna, SC. Trata-se de uma secretaria com 50 funcionários, dentre eles com várias funções, sendo diretores, engenheiros, motoristas, pedreiros, mecânicos e 1 telefonista que também é recepcionista. A secretaria do orgão localiza-se na Rua João José Vieira, bairro centro, aproximadamente 1 km da sede, e funciona com atendimento ao público das 7 h. às 12 h. e das 13 h e 30 min. às 17 h. Figura 1: Secretaria Municipal de Obras, Transportes e Serviços Urbanos. Jaguaruna – SC. Fonte: Dados dos pesquisadores 54 3.2 Descrição do Processo Produtivo A telefonista em estudo, da Secretaria de Obras, exerce também função de recepcionista. Seu trabalho consiste em atender as pessoas que chegam a Secretaria a procura dos funcionários da Prefeitura que exercem os cargos de Secretário, diretor e os funcionários do setor de engenharia. Além desta função, ela é responsável pelo atendimento de ligações telefônicas externas e internas, transferindo as ligações externas para os devidos ramais e realizando e transferindo ligações para os funcionários que as solicitam. Na secretaria existem três ramais de telefone, dos quais a telefonista direciona as ligações. Um ramal encontra-se na sala do departamento de engenharia onde exercem suas funções, os engenheiros e a diretora de obras. Outro ramal encontra-se na sala do secretário de obras e o último na cozinha da Secretaria, ramal esse utilizado pela maioria dos funcionários para solicitarem ligações, porém, muitos dos funcionários dirigem-se até o hall de entrada, onde encontra-se a telefonista e ali solicitam as ligações. Além das tarefas descritas acima, a telefonista exerce a função de central de informações, pois as pessoas que ligam para a Secretaria muitas vezes querem fazer solicitações, denúncias, reclamações e ao atender a chamada, a telefonista já é questionada, às vezes até agredida por usuários descontentes com os serviços realizados pela prefeitura. Os mobiliários e objetos utilizados pela telefonista para realizar o seu trabalho são: ● uma mesa de escritório; ● uma cadeira de escritório; 55 ● um telefone com fio; e ● dois blocos de notas. Um dos blocos é utilizado para anotar as ligações efetuadas, e o outro bloco é utilizado para anotar recados etc. O macrofluxograma representado na figura 2 apresenta as principais fases do processo de atendimento de chamadas exercido pela telefonista. Atende ligação Usuário solicita com quem deseja falar Funcionário solicita ligação Liga para ramal solicitado Telefonista faz ligação Telefonista identifica ao funcionário o usuário Sim Passa ligação Não Pede que usuário ligue depois Identifica ao destino quem solicitou ligação Desliga telefone Passa ligação para funcionário que a solicitou Desliga telefone Desliga telefone Figura 2 – Macrofluxograma do processo produtivo da telefonista Fonte: Dados dos pesquisadores 56 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 4.1 Metodologia Empregada No presente estudo foram adotados como procedimentos metodológicos, a aplicação do método RULA (Rapid Upper Limb Assessment) e a aplicação de um questionário para identificação dos sintomas da recepcionista telefonista. Foram realizadas duas visitas na Secretaria Municipal de Obras, Transporte e Serviços Urbanos. Na primeira visita foram realizados pelos pesquisadores a aplicação do questionário e observação da situação de trabalho. Na segunda visita, foi aplicado o método RULA e tiradas algumas fotografias da recepcionista telefonista durante a situação de trabalho. 4.1.1 Questionário A aplicação do questionário (Anexo – 1) a recepcionista telefonista tem como objetivo a identificação dos sintomas e das áreas em que ela vem sentindo dores e das possíveis causas dessas dores. Este questionário foi retirado de um artigo de um pesquisador dos Estados Unidos da América, e traduzido pelos pesquisadores. Este questionário foi aplicado por Lind (2002, p.20-21), em diversos trabalhadores do serviço público do Condado de Anne Arundel, localizado em Maryland, nos Estados Unidos da América, buscando levantar os sintomas, identificar os indivíduos que sentiam dores e as áreas de suas dores. 57 4.1.2 Método RULA O método RULA (Rapid Upper Limb Assessment) foi desenvolvido por Lynn McAtamney e Nigel Corlett. Este método permite investigar a exposição de trabalhadores aos riscos de doenças do sistema músculo-esquelético dos membros superiores, através da análise da postura, e dos movimentos dos membros superiores, pescoço, tronco e pernas (SILVA, 2001, p. 34). Este método não exige equipamentos especiais para sua execução. A avaliação do trabalhador se dá por meio de observação direta, sem interferências no processo de trabalho. O método divide o corpo em dois grupos de análise, o primeiro grupo é composto pelo braço, antebraço e pulso, o segundo grupo é composto pelo pescoço, tronco e pernas. Esta divisão permitirá uma avaliação de todas as posturas corporais, não só as dos membros superiores, possibilitando assim a avaliação de movimentos ou posturas das outras partes do corpo que influenciarão nos membros superiores (SILVA, 2001, p. 35). Cada parte do corpo é avaliada por uma pontuação, que se refere à postura adotada na execução da atividade, a postura com menor fator de risco recebe como pontuação mínima o valor 1. Os valores são então lançados na planilha (Anexo – 2), que fornecerá um valor final. Esta pontuação final indicará a avaliação do posto de trabalho. 4.2 Macrofluxograma do Estudo Realizado O macrofluxograma demonstra as etapas realizadas no presente estudo (figura 3). 58 Seleção do tema de estudo Seleção do local Visita e observação do local Aplicação de questionário a recepcionista telefonista Aplicação do método RULA Proposição de medidas preventivas Figura 3 – Macrofluxograma do estudo de caso Fonte: Dados dos pesquisadores 4.3 Seleção do Tema de Estudo O tema “ergonomia e segurança do trabalho no posto de trabalho de recepcionista telefonista”, foi escolhido em razão de um dos pesquisadores ter contato direto, com a recepcionista telefonista. No decorrer do ano de 2006, ao ouvir 59 constantes queixas de dores da recepcionista telefonista, ocorreu por parte dos pesquisadores interesse por uma pesquisa no tema. 4.4 Seleção do Local O local selecionado, a Secretaria Municipal de Obras, Transporte e Serviços Urbanos, ocorreu em virtude de ser o local onde a recepcionista telefonista desenvolve suas atividades laborais. 4.5 Visita e observação do Local Os pesquisadores realizaram 3 (três) visitas ao local de trabalho da recepcionista telefonista. A primeira visita foi realizada no mês de setembro de 2006, nesta visita os pesquisadores conversaram com a recepcionista telefonista para saber da possibilidade de fazer o estudo com ela. A segunda visita ocorreu no mês de fevereiro de 2007, nesta visita foi aplicado o questionário a recepcionista telefonista e foram feitas observações quando aos procedimentos realizados na execução de suas tarefas laborais. A terceira e última visita foi realizada em março de 2007, após a telefonista ter retornado de período de férias no mês de fevereiro. Nesta visita foi aplicado o método RULA, e foram tiradas fotografias da recepcionista telefonista durante a execução de suas tarefas. 4.6 Aplicação de Questionário a Recepcionista Telefonista 60 Buscando saber quais sintomas e as áreas que estes sintomas atingiam, aplicou-se um questionário a recepcionista telefonista. O questionário (Anexo – 1) resultou nas seguintes informações: • Tempo nesta função: 2 anos; • Horas trabalhadas por dia: 8,5 horas; • Horas trabalhadas por semana: 42,5 horas; • Áreas que incomodam a recepcionista telefonista: Pescoço, dedos, coluna lombar, ombros, coluna cervical e tornozelo/pé; • Descrição do problema: dor, inchaço, formigamento; • Quando percebeu o problema: a aproximadamente 12 meses; • Freqüência das dores: semanal; • Classificação da dor, pela recepcionista telefonista, em uma escala de 1 a 10 (10 representando a dor mais grave): 6; • Nunca recebeu ou procurou tratamento médico; • Quanto a perder o horário ou ter sido colocada numa tarefa restrita por conta do problema: respondeu que não; • Quando perguntada sobre o que contribuiu para o aumento dos sintomas: respondeu que o alto número de ligações e a cadeira que utiliza. 4.7 Aplicação do Método RULA A avaliação pelo método RULA, neste estudo, foi realizada através da observação das tarefas que são desenvolvidas pela recepcionista telefonista no decorrer de toda a jornada de trabalho. Deste modo, ao serem observadas as tarefas realizadas, a seleção da postura foi sempre a da pior postura adotada. 61 A aplicação do método RULA inicia com a avaliação da posição do braço, segundo o ângulo do ombro, como pode ser observado na figura 4. Figura 4 – Qualificação da posição do braço, segundo o ângulo do ombro Fonte: Hedge (2000) No primeiro passo da aplicação do método RULA, a pontuação da recepcionista telefonista foi de valor 3, pois seu braço, como pode ser observado na figura 5, está em um ângulo entre 45º e 90º. Figura 5 – Fazendo ligação Fonte: Dados dos pesquisadores Além da posição do braço, segundo o ângulo do ombro, neste primeiro passo deve ser acrescido o valor 1 se, o ombro estiver levantado ou estiver em abdução e deve subtrair 1 se o ombro estiver apoiado. No caso da recepcionista telefonista o 62 ombro está levantado, consequentemente acrescenta-se o valor 1. Para o primeiro passo a pontuação da recepcionista telefonista foi o valor 4. No segundo passo, será avaliada a posição do antebraço, segundo o ângulo do cotovelo. A pontuação para cada situação pode ser observada na figura 6. Figura 6 – Qualificação da posição do antebraço, segundo o ângulo do cotovelo Fonte: Hedge (2000) Neste passo a pontuação da recepcionista telefonista foi o valor 2, após esta análise, deve-se acrescentar o valor 1, quando o braço cruza a linha do corpo ou situar-se fora da linha de 45º. Como pode ser observado na figura 7, este valor foi acrescentado, totalizando a pontuação 3 para esta etapa da avaliação. Figura 7 – Anotando recado durante ligação Fonte: Dados dos pesquisadores 63 No terceiro passo é avaliada a posição do punho. A pontuação para cada posição pode ser observada na figura 8. Figura 8 – Qualificação da posição do punho Fonte: Hedge (2000) Neste passo a pontuação da recepcionista telefonista foi o valor 2, ou seja os movimentos do punho não ultrapassam o ângulo de 15º. Além deste valor, deve ser acrescentado o valor 1 caso aja movimentos para os lados. A pontuação final nesta etapa foi o valor 3, pois a recepcionista telefonista no decorrer da execução de suas tarefas, faz movimentos do punho para o lado esquerdo ou direito. O quarto passo é a qualificação dos movimentos de giro do punho. Nesta etapa o valor 1 é dado quando o giro do punho é principalmente na metade da amplitude de giro do punho. O valor 2 é dado no início ou final da amplitude de giro do punho. Para este caso o valor dado é o 1. No quinto passo, os valores encontrados até o momento são inseridos no quadro 1, que fornecerá a pontuação para a postura. O resultado é obtido através do cruzamento dados. O valor final encontrado pode ser observado no quadro 1, onde encontra-se destacados em cinza, os valores até o momento encontrados e o resultado final, pontuação 5. 64 Quadro 1 – Pontuação da postura: extremidades superiores Ombro Cotovelo 1 2 3 4 5 6 1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 Giro 1 2 1 2 2 2 2 3 2 2 2 2 2 3 2 3 2 3 2 3 3 4 3 4 3 4 5 5 5 6 6 6 7 7 7 8 9 9 Punho 2 3 Giro Giro 1 2 1 2 2 2 2 3 2 2 3 3 2 3 3 3 2 3 3 3 2 3 3 3 3 3 3 4 3 3 4 4 3 3 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 5 5 5 5 5 5 6 6 6 6 7 6 7 7 7 7 7 7 8 8 8 8 9 9 9 9 9 4 Giro 1 2 3 3 3 3 4 4 4 4 4 4 4 5 5 5 5 5 5 5 5 5 5 5 6 6 6 7 7 7 7 8 8 8 9 9 9 9 Fonte: Hedge (2000) O sexto passo é a avaliação do uso da musculatura na execução das tarefas. Caso a postura seja principalmente estática, ou seja, uma mesma postura mantida por mais de 10 minutos, ou se existe atividade repetitiva, ou seja, execução de movimento mais de 4 vezes em um minuto, deve ser pontuado com o valor 1. Neste caso a recepcionista telefonista recebe a pontuação 1, por se tratar de um trabalho estático. O sétimo passo é a avaliação da carga ou força envolvida na execução das tarefas. Nesta etapa, não é pontuado caso a carga seja menor que 2 kg e intermitente, receberá pontuação 1 se a carga estiver entre 2 kg a 10 kg e intermitente, receberá pontuação 2 caso a carga esteja entre 2 kg a 10 kg e seja estática ou repetitiva e receberá pontuação 3 caso a carga seja maior que 10 kg e seja repetitiva ou de impacto. Neste passo a telefonista não recebeu pontuação. 65 O oitavo passo é a soma dos passos 5, 6 e 7, este valor será inserido no quadro 3, porém ainda deve ser analisada outras posturas, para fim ser utilizado o quadro 3. O nono passo é a avaliação da posição do pescoço. A pontuação para esta avaliação pode ser observada na figura 9. Figura 9 – Qualificação da posição do pescoço Fonte: Hedge (2000) Nesta etapa a pontuação da recepcionista telefonista foi o valor 3. Como pode ser observado na figura 9 este valor corresponde a inclinação do pescoço a mais de 20º para frente. Este movimento pode ser observado na figura 10, momento em que a telefonista consulta a agenda de telefones. Figura 10 – Consultando a agenda de telefones Fonte: Dados dos pesquisadores 66 O décimo passo avalia a posição do tronco. A pontuação para esta etapa pode ser observada na figura 11. Figura 11 – Qualificação da posição do tronco Fonte: Hedge (2000) Nesta etapa a pontuação foi de valor 1, durante as observações a recepcionista telefonista manteve-se sempre com as costas apoiadas no encosto da cadeira, esta posição pode ser observada na figura 12. Figura 12 – Posição do tronco durante ligação telefônica Fonte: Dados dos pesquisadores O décimo primeiro passo qualifica a posição das pernas. Nesta etapa a pontuação 1 é dada se as pernas e os pés estão bem apoiados e equilibrados, e a pontuação 2 quando as pernas e os pés não estão corretamente apoiados e 67 equilibrados. Neste passo a pontuação da recepcionista telefonista foi o valor 2, pois para seus pés estarem bem apoiados há necessidade de um apoio para pés. No décimo segundo passo, os valores encontrados nos passos 9, 10 e 11 são inseridos no quadro 2, que fornecerá a pontuação final para as respectivas posturas avaliadas. O resultado é obtido através do cruzamento dados. O valor final encontrado pode ser observado no quadro 2, em cinza. Os valores em cinza são os obtidos nos passos anteriores. O resultado final foi a pontuação 3. Quadro 2 – Pontuação do tronco Pescoço 1 2 3 4 5 6 1 Pernas 1 2 1 3 2 3 3 3 5 5 7 7 8 8 2 Pernas 1 2 2 3 2 3 3 4 5 6 7 7 8 8 3 Pernas 1 2 3 4 4 5 4 5 6 7 7 8 8 8 4 Pernas 1 2 5 5 5 5 5 6 7 7 8 8 8 9 5 Pernas 1 2 6 6 6 7 6 7 7 7 8 8 9 9 6 Pernas 1 2 7 7 7 7 7 7 8 8 8 8 9 9 Fonte: Hedge (2000) O décimo terceiro passo é igual ao sexto passo. Nesta etapa é avaliado o uso da musculatura, quando a postura é estática a pontuação é igual a 1 e quando a atividade é repetitiva a pontuação é igual a 2. Para o caso da recepcionista telefonista, como já pontuado antes, por se tratar de tarefa estática a posntuação é de valor 1. O décimo quarto passo e semelhante ao sétimo passo, onde é avaliada a carga ou força envolvida na execução da tarefa. Para este passo a recepcionista telefonista não recebeu pontuação, pois quando a carga é menor que 2 kg e intermitente não há pontuação. 68 No décimo quinto passo são somados os valores obtidos no passo12, 13 e 14. O resultado desta soma será inserido no quadro 3, juntamente com o valor encontrado no passo 8. Quadro 3 – Pontuação final 1 2 3 4 5 6 7+ 1 1 2 3 3 4 5 5 2 2 2 3 4 4 5 5 3 3 3 3 4 4 5 6 4 3 3 3 4 5 6 6 5 4 4 4 5 6 7 7 6 4 4 5 6 6 7 7 7 5 5 6 6 7 7 7 8+ 5 5 6 7 7 7 7 Fonte: Hedge (2000) Como pode ser observado no quadro 3, a pontuação final encontrada na aplicação do método RULA foi o valor 6. A interpretação do resultado pode ser realizada observando o quadro 4. Quadro 4 – Interpretação dos resultados Pontuação 1a2 Aceitável 3a4 Promover investigação 5a6 Promover investigação e realizar mudanças logo 7 Investigar e mudar imediatamente Fonte: Adaptado de Hedge (2000) 69 5 ANÁLISE DOS RESULTADOS E MEDIDAS PREVENTIVAS 5.1 Análise dos Resultados Obtidos Conforme visto no capítulo anterior, com o auxílio do questionário foi possível identificar o tempo que a recepcionista telefonista vem desenvolvendo esta função, que é de 2 anos. Além do tempo foi possível identificar os sintomas e ás áreas aonde ela vem sentindo dores. Os sintomas descritos foram: dor, inchaço e formigamento. As áreas onde ocorrem estes sintomas foram: pescoço, ombros, dedos, coluna lombar, coluna cervical, tornozelo e pé. Outro ponto importante do questionário é a identificação de quando ela percebeu alguns dos sintomas relatados, conforme a recepcionista telefonista ela percebeu os sintomas há aproximadamente 12 meses. Os sintomas relatados pela recepcionista telefonista são freqüentes, com pode ser observado no questionário (Anexo – A), estes sintomas são semanais. Analisando o questionário comprova-se que a recepcionista telefonista está com sintomas relacionados à DORT, pois o questionário foi elaborado para levantamento dos sintomas, das áreas dos sintomas e das possíveis causas, uma vez que as regiões atingidas são identificadas. Com a aplicação do método RULA fica comprovada a inadequação do mobiliário, como pode ser observado no resultado obtido pela aplicação do referido método. A pontuação final, de valor 6, comprova através da interpretação do resultado, como demonstrado no quadro 4 que é necessário uma investigação para a realização de mudanças rapidamente. 70 5.2 Medidas Preventivas A NR-17 é uma norma, que pode auxiliar na prevenção da DORT, apesar de não ser especificamente para este fim, pode contribuir para a prevenção, pois estabelece parâmetros para a avaliação e correção de situações e condições de trabalho, do ponto de vista ergonômico. Atualmente é consenso que a DORT é causada por diversos fatores, entretanto o foco principal da prevenção deve ser direcionado para as mudanças na organização do trabalho, principalmente nas características que limitam a autonomia do trabalhador ou das equipes de trabalhadores na organização de suas próprias atividades (BRASIL, 2001, p. 437438). Adequar os postos de trabalho, com relação ao mobiliário, ferramentas e máquinas utilizadas, as características físicas do trabalhador é uma das principais ferramentas na prevenção da DORT. Outros tipos de prevenção são formas de controlar e avaliar o ambiente de trabalho quanto a temperatura, ruído, iluminação, lay-out, etc. Realização de exercícios de alongamento, pausas de 5 a 10 minutos a cada hora trabalhada, treinamento, exame médico periódico, procurar encontrar o ritmo de trabalho de cada trabalhador, metas de produção reais e tempo para adaptação quanto ocorrem mudanças tecnológicas (PACHECO JR., 1998). Especificamente para o caso da recepcionista telefonista deste estudo, são sugeridas as seguintes medidas preventivas: 1. Troca do mobiliário atual, por um que possibilite regulagens de altura; 2. Treinamento que oriente a recepcionista telefonista quanto a utilização do mobiliário e seus equipamentos e quanto a conscientização da postura correta no posto de trabalho; 71 3. Apoio para os pés; 4. Pausas de 5 a 10 minutos de duração, a cada 1 hora de trabalho; 5. Diminuição da carga horária da telefonista de 8 horas para 6 horas diárias; 6. Ginástica laboral; 7. Prática de atividade física regular. 72 6 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES PARA FUTUROS TRABALHOS 6.1 Conclusões De acordo com os dados levantados por Oliveira (1998, p. 88-93) constata-se que a DORT atingiu as telefonistas e esta é uma das profissões com maior número de casos de DORT. E, além das telefonistas, os call centers, que hoje empregam mais de 600.000 operadores no Brasil, conforme Rocha et al. (2005, p. 637), são uma das ocupações com maior número de casos de DORT, registrados no Brasil. Pode-se constatar que a recepcionista telefonista, objeto deste estudo, possui sintomas relacionados a problemas do sistema músculo-esquelético, ou seja, DORT. Esta comprovação pode ser observada através do questionário aplicado, com o objetivo de levantar os sintomas. Um fator observado neste estudo, que pode ter grande influência na prevalência de sintomas do sistema músculo-esquelético é o número de horas trabalhadas. Conforme a CLT, a jornada de trabalho das telefonistas deve ser de no máximo 6 (seis) horas diárias. A recepcionista telefonista em estudo, trabalha 8,5 horas diárias. De acordo com Hoekstra et al. (1995 apud ROCHA et al., 2005, p. 645), em estudo realizado em 2 (duas) centrais telefônicas de uma empresa de seguros, onde as operadoras trabalhavam 8 (oito) horas diárias, a prevalência de sintomas do sistema músculo-esquelético foi de 68%. Já no estudo realizado por Rocha et al. (2005, p. 645), em uma central telefônica de um banco, onde as operadoras trabalham 6 (seis) horas diárias, a prevalência de sintomas do sistema músculo-esquelético foi de 43% para sintomas no pescoço/ombro e de 39% para 73 sintomas no punho/mão. Porém, Hales et al. (1994 apud ROCHA et al., 2005, p. 645), em estudo realizado com telefonistas de uma companhia de telefone, verificou a prevalência de sintomas do sistema músculo-esquelético em 22% das telefonistas. A diferença entre os percentuais encontrados por Hoekstra (22%) e Rocha (43% e 39%), para sintomas relacionados ao sistema músculo-esquelético, ocorre pelo fato de existir diferenças entre as tarefas executadas por operadores de call centers e telefonistas. Neste estudo observou-se que o posto de trabalho da recepcionista telefonista não é compatível à prevenção de DORT, a comprovação pode ser observada na aplicação do método RULA, que teve como resultado a indicação da necessidade de desenvolvimento de estudos no posto de trabalho e a realização de mudanças imediatamente, indicando assim a exposição do trabalhador ao risco de desenvolver doenças relacionadas ao sistema músculo-esquelético. O posto de trabalho da recepcionista telefonista estudada é composto por uma mesa, uma cadeira, um telefone e dois blocos de nota, um para a anotação de chamadas realizadas e outro para anotação dos recados. A mesa e a cadeira não possuem regulagens de altura, como pode ser observado na figura 12. Impossibilitando o ajuste do mobiliário, consequentemente prejudicando a postura adotada pela telefonista. Os riscos identificados ao sistema músculo-esquelético, com relação ao posto de trabalho, de acordo com Rocha et al. (2005, p. 645), são: postura estática, conseqüência do posto de trabalho que requer a postura sentada constantemente, mobiliário inadequado, ou seja, altura inadequada da mesa e cadeira. Halford e Cohen (2003 apud ROCHA et al., 2005, p. 645), também associaram fatores de risco ao sistema músculo-esquelético a características do posto de trabalho. 74 Conclui-se, portanto, que o mobiliário é fator importante para o desenvolvimento de riscos ao sistema músculo-esquelético, porém, não é o único fator. Vários são os fatores que influenciam no desenvolvimento da DORT, sabe-se que o indivíduo é um ser biopsicossocial, e sofre influências físicas, psicológicas e sociais, assim inúmeros fatores podem influenciá-lo, e contribuir para desenvolvimento da DORT. Os riscos ao sistema músculo-esquelético, além dos já citados anteriormente, podem estar associados, a ausência de pausas durante a jornada de trabalho, ao conforto térmico, a iluminação, aos ruídos do ambiente de trabalho, ao estresse, a metas de produção, a trabalhos repetitivos etc. 6.2 Recomendações Para futuros trabalhos, recomenda-se a realização de estudos com uma população maior, podendo assim chegar-se a um percentual de telefonistas atingidas por sintomas da DORT. Além do aumento no número da população estudada é interessante, juntamente com o levantamento dos sintomas, a inclusão de exames médicos dos trabalhadores. Outra recomendação é a realização de estudos em call centers, nos diversos ramos de atividades. 6.3 Importância para a Engenharia de Segurança do Trabalho O presente estudo demonstra a importância da aplicação da Engenharia de Segurança do Trabalho na atividade de telefonista. Identificando os riscos ao sistema músculo-esquelético, e a necessidade de atuação na prevenção da DORT, 75 que, além de causar danos ao trabalhador, acarreta custos as empresas e a sociedade. 76 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde do Brasil. Doenças relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde. Organização PanAmericana da Saúde no Brasil: organizado por Elizabeth Costa Dias; colaboradores Idelberto Muniz Almeida et al. Brasília: Ministério da Saúde do Brasil, 2001. 580 p. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/partes/doencas_trabalho 1.pdf#search=%22inss%20doen%C3%A7as%20relacionadas%20ao%20trabalho%2 2>. Acesso em: 06 set. 2006. BRASIL. Instituto Nacional do Seguro Social. Instrução normativa INSS/DC nº 98 – de 05 de Dezembro de 2003 – DOU de 10/12/2003. Seção I – Atualização clínica das lesões por esforços repetitivos (LER) distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). 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SINDICATO DOS TRABALHADORES EM TELECOMUNICAÇÕES DO DISTRITO FEDERAL (SINTTEL-DF). Saúde é o que interessa. Dicas de prevenção e direitos do trabalhador em teleatendimento. Brasília: Sinttel-DF, 2007, 12 p. Disponível em:<http://www.sinttel.org.br/imprensa/cartilha_saude_07.pdf>. Acesso em: 12 mar. 2007. 80 ANEXOS 81 ANEXO 1: QUESTIONÁRIO APLICADO A RECEPCIONISTA TELEFONISTA Informações Gerais Funcionário: Rosana Terezinha Luiz Data: 28/02/2007 Departamento: Secretaria de Obras Divisão: Função: Recepcionista telefonista Horas trabalhadas por: Tempo nesta função: 2 anos dia 8,5 h. semana 42,5 h. 1. Você realizou trabalhos em outros empregos no ano passado? Sim_____ Não__X___ 2. Se sim, qual sua função e por quanto tempo você trabalhou? Função:_________________________________________________ Meses:_______________ Semanas_________________________ 3. Durante esta função, você sentiu dores, ou desconforto durante o último ano? Sim__X___ Não_____ 4. Se sim, assinale as áreas que incomodaram você. Pescoço__X__ Ombros__X___ Cotovelo/Antebraço_____ Mão/Pulso_____ Dedos__X__ Coluna cervical__X___ Coluna Lombar__X__ Coxa/Joelhos_____ Panturrilha_____ Tornozelo/Pé__X___ 5. Assinale as palavras que descrevam melhor o seu problema. Dor__X__ Dormência_____ Formigamento__X__ Queimação_____ Fraqueza_____ Inflexibilidade_____ Cãibras_____ Inchaço__X__ Perda de cor_____ Outro_____ 6. Quando você percebeu o problema pela primeira vez? Meses:___12 meses_________ Semanas_________________________ 7. Com qual frequência você senti dores? Diariamente_____ Semanalmente__X__ Mensalmente_____ 8. Você sentiu alguma dor nos últimos 7 dias? Sim_____ Não_____ 9. Em uma escala de 1 a 10 (o 10 represente mais grave), como você classificaria sua dor? _____________5 a 6__________________________________________________ 10. Você já fez algum tratamento médico para este problema? Sim_____ Não__X__ 11. Se sim, qual foi o diagnóstico? ___________________________________________________________________ 12. O tratamento o ajudou? Sim_____ Não_____ 13. Você tem perdido horário ou tem sido colocado numa tarefa restrita por conta do seu problema? Sim_____ Não__X__ 14. Por favor, comente o que você acha que contribuiu para aumentar os seus sintomas. _____o número de ligações_____________________________________________ _____a cadeira_______________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ 82 ANEXO 2: PLANILHA DE APLICAÇÃO DO MÉTODO RULA