Fernando Lanhas: Fragmentos Algumas Obras na Coleção de Serralves 05.09 – 1 1. 10’14 Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira Fernando Lanhas: Fragmentos Algumas Obras na Coleção de Serralves O16–53, 1953 Fernando Lanhas (Porto, 1923–2012) sempre quis, como todos os arquitetos, compreender a geometria do mundo. A sua formação académica contribuiu tanto para esse objetivo como o ser pintor, desenhador, arqueólogo, paleontólogo, astrónomo, etnólogo e poeta. A obra pictórica de Lanhas, que deve ajudar a compreender como pode a pintura concorrer para o conhecimento do mundo, não pode, como veremos, ser separada das muitas outras atividades que o ocuparam durante mais de 50 anos. Enquanto pintor, Fernando Lanhas ocupa um lugar destacado na história da arte portuguesa, que varia entre ser apontado como pioneiro do abstracionismo geométrico em Portugal ou como o introdutor da abstração no nosso país. Chegou à abstração enquanto estudante de arquitetura da Faculdade de Belas-Artes do Porto, nos anos de 1940, e frequentador assíduo, na mesma década, do Centro de Cultura Musical do Porto. Por isso, os vários comentadores da sua obra apontam para essas duas circunstâncias —académica e cultural—como as duas condições que melhor explicam a depuração geométrica traduzida por Fernando Lanhas nos seus desenhos, aguarelas e pinturas sobre tela e seixos. A escola artística do Porto, conhecida na altura pelas inovações implementadas pelo seu diretor, Carlos Ramos (Porto, 1897–1969), no ensino da arquitetura, é comummente apontada como o ambiente ideal para fomentar num jovem curioso como Lanhas a vontade de experimentar noutros suportes que não desenhos e projetos arquitetónicos, as noções de geometria que aspirantes a arquitetos deveriam dominar para compreender e transformar o mundo circundante. O percurso de Fernando Lanhas enquanto estudante demonstra ainda a forma como as discussões culturais eram à época independentes de espartilhos disciplinares, com jovens oriundos de várias práticas artísticas e correntes estéticas—Júlio Pomar (Lisboa, 1926), Júlio Resende (Porto, 1917–Gondomar, 2011), entre muitos outros—a organizarem as célebres Exposições Independentes (realizadas entre 1943 e 1950), nas quais Lanhas trabalhou como organizador e onde apresentou alguns dos seus primeiros trabalhos abstratos. Estas obras são absolutamente pioneiras no panorama nacional, ainda mais se atendermos ao isolamento cultural do contexto português, que impedia Lanhas de conhecer as experiências abstracionistas internacionais da década de 1910. De facto, apenas 3 anos depois das suas primeiras experiências abstratas—nomeadamente numa viagem a Paris em 1947—Fernando Lanhas se vai confrontar com a existência de um contexto internacional no qual os seus trabalhos se poderiam integrar. A pulsão subtrativa de Lanhas tem assim origem, mais do que numa lógica de diálogo com a arte do seu tempo (que chegava a Portugal com um considerável desfasamento), na convicção, alicerçada pelo seu precoce interesse pela astronomia e pela arqueologia, assim como pelos seus estudos em arquitetura e pela sua convivência com a música clássica, de que subjaz ao Universo uma lógica geométrica comum a todas as eras e a todas as disciplinas que tentam compreender o seu funcionamento. Digamos que Fernando Lanhas aproxima os mundos tradicionalmente afastados das ciências e das artes. Para ele, ambos se podem socorrer de ferramentas similares na sua interrogação do Cosmos. Prova desta contaminação é a forma científica como cataloga numericamente as suas pinturas, exatamente como se fossem obras musicais, museográficas ou bibliográficas. A primeira letra indica o suporte utilizado—“C” para colagens, “D” para desenho, “O” para óleo e “P” para pedras. Acoplado a esta letra encontra-se o algarismo que indica a ordem com que os trabalhos foram realizados. Separados por um hífen, temos depois dois algarismos que assinalam o ano de realização. As transfusões entre os saberes científico e artístico também se refletem em decisões aparentemente formais, como a escolha das cores. As suas expedições arqueológicas, nas quais procura fósseis e estuda vestígios das Idades da Pedra e do Bronze, e que às tantas o transformam num colecionador dos seixos que vai encontrando, levá-lo-ão a fabricar cores com pós de pedra moída; como o conduzirão, embora numa lógica diferente do ready-made, a pintar diretamente sobre pedras, que assim adquirem o estatuto de arte: “A realização plástica que vai dar-se num seixo rolado, escolhido na cascalheira da orla do mar, inicia-se com a própria escolha desse calhau. O seu rolamento perfeito, a igualdade da cor em toda a superfície da pedra (…), os seus eixos simétricos são elementos que se conjugam e conluiam para determinar a escolha. (…) A pedra assim seleccionada surge então a Fernando Lanhas como um ‘pequeno deserto’ onde haverão de ser desenhadas formas, em traços ou manchas, ‘num critério que antecipadamente não pode ser tido’; quer dizer, é o próprio seixo que irá comandar a mão do artista.”¹ 4 P74–84, 1984 P95–99, 1999 1. Fernando Guedes, Fernando Lanhas: Os sete rostos, Lisboa: Imprensa Nacional—Casa da Moeda, 1988, p. 31. 5 O cromatismo essencial, depurado, com variações mínimas, que encontramos nas pinturas não é mais do que as tonalidades dos seixos rolados que Fernando Lanhas encontra nas praias e que, a partir de 1944, vão constituir a sua paleta. Entre estas cores, destaca-se o cinzento azulado: 2. Egídio Álvaro, “Fernando Lanhas na origem da pintura abstracta em Portugal”, Artes Plásticas, n.º 5 (Setembro), Porto, 1974, pp. 13–18, p. 16. O5–48, 1948 “Não é por acaso que a pintura de Fernando Lanhas se acantona nos cinzentos azulados. (…) Para Lanhas, o cinzento azulado é uma cor última, cor final, que já não está a querer ser nada. Cor atingida, para a qual tendem todas as outras cores. O cinzento azulado é o equivalente do desbotado e, para Lanhas, o desbotado tem uma permanência e um significado que se ajustam com o equilíbrio e com a continuidade.”² Independentemente das cores, e concentrando-nos apenas nas formas, na composição das suas pinturas, encontramos, mesmo em trabalhos muito afastados cronologicamente, exatamente os mesmos elementos: linhas e formas geométricas muito simples (destacam-se o círculo e o triângulo), que servem a Fernando Lanhas para nos fazer experimentar valores tão essenciais como o alto e baixo, e o equilíbrio e o desequilíbrio; para, em última análise, contrapor instável e estável. Não por acaso estes jogos dinâmicos de ortogonais e de oblíquas evocam cartas celestes. Já foi destacado no seu trabalho o desejo de atingir as coisas simples, de localizar-se na região das coisas essenciais e óbvias; que talvez as suas pinturas plasmem a imagem de figuras que possuímos, imagens de um saber que nos escapa e ultrapassa. Este saber acompanha-nos e foge-nos, foi isso que Lanhas aprendeu com a arqueologia e com os seus estudos em museologia, desde tempos imemoriais. Para Fernando Lanhas, a arte é por isso intemporal, simultaneidade de todos os tempos e de todos os espaços. Os artefactos deixados nas grutas pelos homens pré-históricos são para ele modelos reduzidos do universo, exactamente como edifícios, pinturas, mapas astrais, peças musicais. Talvez esta crença na permanência, ao longo dos tempos, das mesmas interrogações explique porque a pintura de Lanhas não evolui. Ao contrário da maioria dos pintores, cuja obra podemos classificar em períodos e na qual podemos detetar evoluções, tergiversares, os seus trabalhos invalidam qualquer tentativa de periodização. Isso é evidente quando reparamos que as telas dos anos 2000 apresentadas nesta exposição se aproximam, em termos composicionais e cromáticos, dos trabalhos, também integrados na 7 mostra, realizados entre as décadas de 1940 e 1970. Consciente e premeditadamente alheado das evoluções, revoluções, polémicas e ruturas que marcaram a produção artística do século XX, a obra de Fernando Lanhas nunca quis ser contemporânea. Dela podemos dizer que escapa ao seu próprio tempo. Embora possamos aproximar a sua prática artística do conceptualismo, da land art, da earth art, do minimalismo, temos de admitir que a irredutível singularidade da obra de Fernando Lanhas se encontra na sua constante interrogação de questões que supostamente ultrapassam o âmbito da arte, e que pertencem ao conhecimento do Mundo e do Universo que habitamos. A presente exposição propicia uma ocasião única para a compreensão das compatíveis diversidade e coerência da sua obra. “E agora podemos reafirmar, tranquilamente, que a arte abstracta em Portugal nasceu em 44, no Porto, com um jovem estudante de arquitectura chamado Fernando Lanhas. Já lá vão trinta anos.”³ 3. Ibid., p. 18. Já lá vão setenta anos. O69–57–04, 2004 Páginas seguintes: Informação sobre a obra de Fernando Lanhas 1940–92, 1992 8 Informação sobre a obra de Fernando Lanhas 1940–92, 1992 Papel fotográfico sobre platex 120 x 168 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O5–48, 1948 Óleo sobre platex 48,5 x 34,5 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O16–53, 1953 Óleo sobre platex 71 x 63,5 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 12 O18–53, 1953 Óleo sobre platex 40,5 x 32,5 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O25–59, 1959 Óleo sobre aglomerado 94 x 124 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005. O27–59, 1959 Óleo sobre platex 134,5 x 92 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O36–C–61, 1961 Óleo sobre aglomerado 155,5 x 231 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O37–66, 1966 Óleo sobre contraplacado de madeira 77,5 x 131 cm Col. Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2004 P68–84, 1984 Seixo pintado 2 x 5 x 3,5 cm Col. Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2011 O47–72, 1972 Óleo sobre aglomerado 98 x 127 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 P75–84, 1984 Seixo pintado 4 x 5,5 x 10,5 cm Col. Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2011 D16–65–88 Rapaz com o Mundo, 1988 Desenho sobre papel 100 x 210 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2013 P77–84, 1984 Seixo pintado 2,5 x 9,5 x 7 cm Col. Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2011 P73–84, 1984 Seixo pintado 3 x 7,5 x 10 cm Col. Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2011 P74–84, 1984 Seixo pintado 2 x 5 x 9,5 cm Col. Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2011 13 P95–99, 1999 Seixo pintado 3,5 x 12 x 5 cm Col. Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Doação do artista em 2011 O65–03, 2003 Óleo sobre tela 184,4 x 134,5 x 7 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O69–57–04, 2004 Óleo sobre tela 140 x 100 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 14 O76–05, 2005 Óleo sobre tela 140 x 70 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 S42, Sonho de 13–14 de Novembro de 1973 Papel fotográfico sobre platex 85 x 85 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O86–07, Tempo, 2007 Óleo sobre tela (tríptico) 80 x 200 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2008 23/78, 1978 Papel fotográfico sobre platex 72,5 x 84,5 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 O88–07, 2007 Óleo sobre tela 130 x 97 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2008 Sonho de 25–26 de Junho de 1987 Papel fotográfico sobre platex 85 x 85 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 59/88, 1988 Papel fotográfico sobre platex 72,5 x 84,5 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 Sonho de 21–22 de Julho de 2003 Papel fotográfico sobre platex (díptico) 104,6 x 245,5 cm Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto. Depósito em 2005 15 Fernando Lanhas: Fragments Some Works in the Serralves Collection O86–07, Tempo, 2007 16 Fernando Lanhas (Porto, 1923–2012), like all architects, always wanted to understand the geometry of the world. His academic training helped him in this aim as much as the fact of being a painter, designer, archaeologist, palaeontologist, astronomer, ethnologist and poet. His pictorial work, which aids understanding of how painting can contribute to the knowledge of the world, cannot, as we shall see, be separated from the many other activities that occupied him for over 50 years. As a painter, Lanhas holds a privileged position in the history of Portuguese art, being seen as the pioneer of geometric abstraction in Portugal. He came to abstraction when he was an architecture student at the Porto School of Fine Arts in the 1940s, and a frequent visitor, in the same decade, at the Porto Centre for Musical Culture. Various commentators on his work have pointed to these two circumstances—academic and cultural—as the two influences that best explain the geometrical sparseness Lanhas brought into his drawings, watercolours and paintings on canvas and pebbles. The Porto School of Fine Arts, known at the time for innovations in the teaching of architecture introduced by its director, Carlos Ramos (Porto, 1897–1969), is also seen as the ideal environment to stimulate an inquiring young mind such as Lanhas’ into trying out media other than drawing and architectural models to translate the notions of geometry that aspiring architects had to master in order to understand and change the world around them. Lanhas’ career as a student also shows how discussions about culture were, at the time, independent of disciplinary constraints, with young people from various artistic practices and aesthetic currents—Júlio Pomar (Lisbon, 1926), Júlio Resende (Porto, 1917 –Gondomar, 2011), among many others —organising the celebrated Exposições Independentes [Independent Exhibitions], held between 1943 and 1950. Lanhas helped to organise these events and exhibited some of his first abstract works at them. These were considered pioneering pieces in Portugal, especially in the light of the country’s cultural isolation, which prevented Lanhas from coming into contact with the abstract art of early modernism. In fact, it was only years after his first attempts at making abstract works —when on a trip to Paris in 1947—that Lanhas would come face to face with an international context into which his work could fit. More than coming from a dialogue with contemporary art movements (whose arrival in Portugal was considerably delayed), Lanhas’ reductive forms lay in the conviction (supported by his early interest in astronomy and archaeology, as well as his architectural studies and familiarity with classical music) that there was a geometrical logic common to all ages and all disciplines underlying the universe and trying to understand how it functions. We could say that Lanhas brought the traditionally separated worlds of science and the arts closer together. For him, both can make use of similar tools in their interrogation of the Cosmos. Proof of this mixture of influences is the scientific way in which he numerically catalogued his paintings, exactly as if they were musical, museographic or bibliographical works. The first letter indicates the media used—‘C’ for collages, ‘D’ for drawing, ‘O’ for oil and ‘P’ for pebbles. Attached to this letter is the number that indicates the order in which the works were undertaken. Separated by a hyphen, we then have two numbers giving the year the work was completed. The blending of scientific and artistic knowledge is also reflected in seemingly formal decisions, like the choice of colour. His archaeological expeditions, when he looked for fossils and studied Stone and Bronze Age remains and that gradually turned him into a collector of the pebbles he found, led him to grind stones into powder to make colours. They also led him, albeit through a different logic of the ready-made, to paint directly on the stones, which thus acquired artistic status: ‘The aesthetic achievement that is going to happen on a smooth pebble, chosen from the stones along the shore, begins with the 17 very choice of the pebble. Its perfect smoothness, the uniformity of colour across the whole surface of the stone (...), its symmetrical axes are features that combine and collude in determining the choice. (...) The selected stone then appears to Fernando Lanhas like a “small desert” where there will be forms to be designed in lines or patches, ‘according to a criterion which cannot be anticipated’; in that it’s the pebble itself that will command the hand of the artist.’¹ The essential chromatism, sparse with minimal variations, which we find in the paintings is no more than the tones of the smoothed pebbles that Lanhas found on the beaches and, from 1944 onwards, would make up his palette. Among these colours, bluish grey is prominent: ‘It is no coincidence that Fernando Lanhas’ painting focuses on bluish grey. (...) For Lanhas, bluish grey is an ultimate colour, a final colour, which no longer wants to be anything. An achieved colour, to which all other colours tend. Bluish grey is the equivalent of the faded, and for Lanhas, the faded has permanence and a meaning that matches balance and continuity.’² Moving away from colour and concentrating only on form, in the composition of his paintings we find, even in works done at very different times, exactly the same features: very simple lines and geometrical shapes (with particular emphasis on the circle and triangle), that serve Lanhas in making us experience such core values as high and low, balance and imbalance; to counterpoint, ultimately, unstable and stable. It is not by chance that these dynamic orthogonal and oblique games evoke astral charts. The desire in his work to achieve simple things and focus on the region of the essential and obvious has already been emphasised. Furthermore, his paintings perhaps mould the images of figures that we possess, images of a knowledge that flees and is beyond us. 18 Such knowledge both accompanies and escapes us. This is what Lanhas learned from his study of immemorial times through archaeology and museology. For him, this is why art is atemporal, being simultaneously of all times and all spaces. The artefacts left in caves by pre-historic man were, for him, reduced models of the universe, exactly like buildings, paintings, astral charts and musical pieces. Perhaps this belief in the permanence, throughout the ages, of the same questions explains why Lanhas’ painting did not change considerably over time. In contrast to most painters, whose work we can divide into periods and in which we can detect developments and new directions, his works reject any attempt at temporal categorisation. This is clear when we see that the canvases from the 2000s in this exhibition are very similar, in terms of composition and colour, to works also on show here that were produced between the 1940s and 1970s. Knowingly and wilfully oblivious of the developments, revolutions, controversies and ruptures that marked twentiethcentury artistic production, Fernando Lanhas’ work was never intended to be contemporary. It could be said that it escaped its own time. Although we might associate his artistic practice with conceptualism, land art, earth art and minimalism, the irreducible uniqueness of Fernando Lanhas’ work lies in its constant questioning of subjects that are supposedly beyond the scope of art, and pertain to knowledge of the world and the universe we inhabit. The current exhibition provides a unique opportunity for understanding the compatible diversity and consistency of his work. ‘And now we can calmly restate that abstract art in Portugal was born in 44, in Porto, with a young architecture student called Fernando Lanhas. That was thirty years ago.’³ 1. Fernando Guedes, Fernando Lanhas: Os sete rostos, Lisbon: Imprensa Nacional—Casa da Moeda, 1988, p. 31. 2. Egídio Álvaro, “Fernando Lanhas na origem da pintura abstracta em Portugal”, Artes Plásticas, no. 5 (September), Porto, 1974, pp. 13–18, p. 16. 3. Ibid., p. 18. That was seventy years ago. O18–53, 1953 Ler/Read Helena P. Blavatsky, A chave para a Teosofia / The Key to Theosophy (ed. orig. 1889). Wassily Kandinsky, Do espiritual na arte, Lisboa: Dom Quixote, 2010 / On the Spiritual in Art, New York: Dover Publications, 1977 (ed. orig. 1912). Maurice Merleau-Ponty, O olho e o espírito, Lisboa: Gradiva, 1992; Eye and Mind, Evanston: Northwestern University Press, 1964 (ed. orig. 1960). Carl Sagan, Cosmos, Lisboa: Gradiva, 1996; Cosmos, New York: Random House, 1980. Fernando Guedes, Fernando Lanhas: Os sete rostos, Lisboa: Imprensa Nacional—Casa da Moeda, 1988. Fernando Guedes, Bernardo Pinto de Almeida, João Lima Pinharanda, Fernando Lanhas, cat. exp., Porto: Galeria Quadrado Azul, 1994. João Fernandes, Fernando Guedes, et al., Fernando Lanhas, cat. exp., Porto: Fundação de Serralves e Edições Asa, 2001. Brian Greene, The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality, New York: Alfred A. Knopf, 2004 / O Tecido do Cosmos: Espaço, tempo e textura da realidade, Lisboa: Gradiva, 2006. Filomena Serra, A experimentação abstracta de Fernando Lanhas, Lisboa: Editorial Caminho, 2007. Lígia Martins (coord.), Estrelas de papel: Livros de astronomia dos séculos XIV a XVIII, Lisboa: BPN, 2009. Ver/See Fritz Lang, Metropolis, 1927 King Vidor, The Fountainhead / Vontade Indómita, 1949 Jean-Luc Godard, Alphaville, 1965 Jacques Tati, Playtime / Vida moderna, 1967 Stanley Kubrik, 2001: A Space Odissey / 2001: Odisseia no espaço, 1968 Alfredo Tropa, Povo que canta, 1970 Margarida Cordeiro e António Reis, Jaime, 1974 Nicolas Roeg, The Man Who Fell to Earth / O homem que veio do espaço, 1976 Margarida Cordeiro e António Reis, Trás-os-Montes, 1976 Ann Druyen, Carl Sagan, Steven Soter, Cosmos: A Personal Voyage, 1980 Glauber Rocha, A idade da terra, 1980 Ridley Scott, Blade Runner, 1982 António de Macedo, Fernando Lanhas: Os sete rostos, 1988 João Trabulo, Fernando Lanhas: Saber ver demora, 2002 Richard Linklater, A Scanner Darkly / O homem duplo, 2006 Exposição Conceção do programa de itinerâncias: Marta Moreira de Almeida e Ricardo Nicolau Curadoria: Marta Moreira de Almeida Organização: Fundação de Serralves— Museu de Arte Contemporânea, Porto Publicação Texto: Ricardo Nicolau Conceção gráfica: Maria João Macedo Coordenação: Cláudia Gonçalves Tradução: Michael Greer Edição: Cláudia Gonçalves, Paul Buck Créditos fotográficos: Filipe Braga, © Fundação de Serralves, Porto Impressão: Empresa Diário do Porto Apoio institucional Projeto “Serralves—Património Classificado” cofinanciado por Fundação de Serralves Rua D. 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