Fernando
Lanhas:
Fragmentos
Algumas Obras na Coleção de Serralves
05.09 –
1 1. 10’14
Biblioteca Municipal
de Santa Maria da Feira
Fernando Lanhas: Fragmentos
Algumas Obras na Coleção de Serralves
O16–53, 1953
Fernando Lanhas (Porto, 1923–2012) sempre quis, como todos os
arquitetos, compreender a geometria do mundo. A sua formação
académica contribuiu tanto para esse objetivo como o ser pintor,
desenhador, arqueólogo, paleontólogo, astrónomo, etnólogo e
poeta. A obra pictórica de Lanhas, que deve ajudar a compreender
como pode a pintura concorrer para o conhecimento do mundo,
não pode, como veremos, ser separada das muitas outras atividades
que o ocuparam durante mais de 50 anos.
Enquanto pintor, Fernando Lanhas ocupa um lugar destacado
na história da arte portuguesa, que varia entre ser apontado como
pioneiro do abstracionismo geométrico em Portugal ou como
o introdutor da abstração no nosso país. Chegou à abstração
enquanto estudante de arquitetura da Faculdade de Belas-Artes
do Porto, nos anos de 1940, e frequentador assíduo, na mesma
década, do Centro de Cultura Musical do Porto. Por isso, os vários
comentadores da sua obra apontam para essas duas circunstâncias
—académica e cultural—como as duas condições que melhor
explicam a depuração geométrica traduzida por Fernando Lanhas
nos seus desenhos, aguarelas e pinturas sobre tela e seixos.
A escola artística do Porto, conhecida na altura pelas inovações
implementadas pelo seu diretor, Carlos Ramos (Porto, 1897–1969), no
ensino da arquitetura, é comummente apontada como o ambiente
ideal para fomentar num jovem curioso como Lanhas a vontade
de experimentar noutros suportes que não desenhos e projetos
arquitetónicos, as noções de geometria que aspirantes a arquitetos
deveriam dominar para compreender e transformar o mundo
circundante. O percurso de Fernando Lanhas enquanto estudante
demonstra ainda a forma como as discussões culturais eram à época
independentes de espartilhos disciplinares, com jovens oriundos de
várias práticas artísticas e correntes estéticas—Júlio Pomar (Lisboa,
1926), Júlio Resende (Porto, 1917–Gondomar, 2011), entre muitos
outros—a organizarem as célebres Exposições Independentes
(realizadas entre 1943 e 1950), nas quais Lanhas trabalhou como
organizador e onde apresentou alguns dos seus primeiros trabalhos
abstratos. Estas obras são absolutamente pioneiras no panorama
nacional, ainda mais se atendermos ao isolamento cultural do
contexto português, que impedia Lanhas de conhecer as experiências
abstracionistas internacionais da década de 1910. De facto, apenas
3
anos depois das suas primeiras experiências abstratas—nomeadamente
numa viagem a Paris em 1947—Fernando Lanhas se vai confrontar
com a existência de um contexto internacional no qual os seus
trabalhos se poderiam integrar.
A pulsão subtrativa de Lanhas tem assim origem, mais do que
numa lógica de diálogo com a arte do seu tempo (que chegava
a Portugal com um considerável desfasamento), na convicção,
alicerçada pelo seu precoce interesse pela astronomia e pela
arqueologia, assim como pelos seus estudos em arquitetura e pela
sua convivência com a música clássica, de que subjaz ao Universo
uma lógica geométrica comum a todas as eras e a todas as disciplinas que tentam compreender o seu funcionamento. Digamos que
Fernando Lanhas aproxima os mundos tradicionalmente afastados
das ciências e das artes. Para ele, ambos se podem socorrer de ferramentas similares na sua interrogação do Cosmos.
Prova desta contaminação é a forma científica como cataloga
numericamente as suas pinturas, exatamente como se fossem
obras musicais, museográficas ou bibliográficas. A primeira letra
indica o suporte utilizado—“C” para colagens, “D” para desenho,
“O” para óleo e “P” para pedras. Acoplado a esta letra encontra-se
o algarismo que indica a ordem com que os trabalhos foram realizados. Separados por um hífen, temos depois dois algarismos que
assinalam o ano de realização.
As transfusões entre os saberes científico e artístico também
se refletem em decisões aparentemente formais, como a escolha
das cores. As suas expedições arqueológicas, nas quais procura
fósseis e estuda vestígios das Idades da Pedra e do Bronze, e que às
tantas o transformam num colecionador dos seixos que vai encontrando, levá-lo-ão a fabricar cores com pós de pedra moída; como o
conduzirão, embora numa lógica diferente do ready-made, a pintar
diretamente sobre pedras, que assim adquirem o estatuto de arte:
“A realização plástica que vai dar-se num seixo rolado, escolhido
na cascalheira da orla do mar, inicia-se com a própria escolha
desse calhau. O seu rolamento perfeito, a igualdade da cor
em toda a superfície da pedra (…), os seus eixos simétricos são
elementos que se conjugam e conluiam para determinar a
escolha. (…) A pedra assim seleccionada surge então a Fernando
Lanhas como um ‘pequeno deserto’ onde haverão de ser
desenhadas formas, em traços ou manchas, ‘num critério que
antecipadamente não pode ser tido’; quer dizer, é o próprio
seixo que irá comandar a mão do artista.”¹
4
P74–84, 1984
P95–99, 1999
1. Fernando Guedes,
Fernando Lanhas:
Os sete rostos,
Lisboa: Imprensa
Nacional—Casa da
Moeda, 1988, p. 31.
5
O cromatismo essencial, depurado, com variações mínimas, que
encontramos nas pinturas não é mais do que as tonalidades dos
seixos rolados que Fernando Lanhas encontra nas praias e que, a
partir de 1944, vão constituir a sua paleta. Entre estas cores, destaca-se o cinzento azulado:
2. Egídio Álvaro,
“Fernando Lanhas
na origem da pintura
abstracta em Portugal”,
Artes Plásticas, n.º 5
(Setembro), Porto,
1974, pp. 13–18, p. 16.
O5–48, 1948
“Não é por acaso que a pintura de Fernando Lanhas se acantona
nos cinzentos azulados. (…) Para Lanhas, o cinzento azulado
é uma cor última, cor final, que já não está a querer ser nada.
Cor atingida, para a qual tendem todas as outras cores. O
cinzento azulado é o equivalente do desbotado e, para Lanhas,
o desbotado tem uma permanência e um significado que se
ajustam com o equilíbrio e com a continuidade.”²
Independentemente das cores, e concentrando-nos apenas nas
formas, na composição das suas pinturas, encontramos, mesmo
em trabalhos muito afastados cronologicamente, exatamente os
mesmos elementos: linhas e formas geométricas muito simples
(destacam-se o círculo e o triângulo), que servem a Fernando Lanhas
para nos fazer experimentar valores tão essenciais como o alto e
baixo, e o equilíbrio e o desequilíbrio; para, em última análise,
contrapor instável e estável. Não por acaso estes jogos dinâmicos
de ortogonais e de oblíquas evocam cartas celestes.
Já foi destacado no seu trabalho o desejo de atingir as coisas
simples, de localizar-se na região das coisas essenciais e óbvias; que
talvez as suas pinturas plasmem a imagem de figuras que possuímos,
imagens de um saber que nos escapa e ultrapassa.
Este saber acompanha-nos e foge-nos, foi isso que Lanhas
aprendeu com a arqueologia e com os seus estudos em museologia,
desde tempos imemoriais. Para Fernando Lanhas, a arte é por isso
intemporal, simultaneidade de todos os tempos e de todos os espaços.
Os artefactos deixados nas grutas pelos homens pré-históricos são
para ele modelos reduzidos do universo, exactamente como edifícios,
pinturas, mapas astrais, peças musicais.
Talvez esta crença na permanência, ao longo dos tempos, das
mesmas interrogações explique porque a pintura de Lanhas não
evolui. Ao contrário da maioria dos pintores, cuja obra podemos
classificar em períodos e na qual podemos detetar evoluções,
tergiversares, os seus trabalhos invalidam qualquer tentativa de
periodização. Isso é evidente quando reparamos que as telas dos
anos 2000 apresentadas nesta exposição se aproximam, em termos
composicionais e cromáticos, dos trabalhos, também integrados na
7
mostra, realizados entre as décadas de 1940 e 1970. Consciente e
premeditadamente alheado das evoluções, revoluções, polémicas
e ruturas que marcaram a produção artística do século XX, a obra
de Fernando Lanhas nunca quis ser contemporânea. Dela podemos
dizer que escapa ao seu próprio tempo.
Embora possamos aproximar a sua prática artística do conceptualismo, da land art, da earth art, do minimalismo, temos de admitir
que a irredutível singularidade da obra de Fernando Lanhas se encontra na sua constante interrogação de questões que supostamente
ultrapassam o âmbito da arte, e que pertencem ao conhecimento
do Mundo e do Universo que habitamos.
A presente exposição propicia uma ocasião única para a
compreensão das compatíveis diversidade e coerência da sua obra.
“E agora podemos reafirmar, tranquilamente, que a arte
abstracta em Portugal nasceu em 44, no Porto, com um jovem
estudante de arquitectura chamado Fernando Lanhas. Já lá
vão trinta anos.”³
3. Ibid., p. 18.
Já lá vão setenta anos.
O69–57–04, 2004
Páginas seguintes:
Informação sobre
a obra de Fernando
Lanhas 1940–92,
1992
8
Informação sobre a obra de
Fernando Lanhas 1940–92, 1992
Papel fotográfico sobre platex
120 x 168 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O5–48, 1948
Óleo sobre platex
48,5 x 34,5 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O16–53, 1953
Óleo sobre platex
71 x 63,5 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
12
O18–53, 1953
Óleo sobre platex
40,5 x 32,5 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O25–59, 1959
Óleo sobre aglomerado
94 x 124 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005.
O27–59, 1959
Óleo sobre platex
134,5 x 92 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O36–C–61, 1961
Óleo sobre aglomerado
155,5 x 231 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O37–66, 1966
Óleo sobre contraplacado
de madeira
77,5 x 131 cm
Col. Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Doação do artista em 2004
P68–84, 1984
Seixo pintado
2 x 5 x 3,5 cm
Col. Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Doação do artista em 2011
O47–72, 1972
Óleo sobre aglomerado
98 x 127 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
P75–84, 1984
Seixo pintado
4 x 5,5 x 10,5 cm
Col. Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Doação do artista em 2011
D16–65–88 Rapaz com o
Mundo, 1988
Desenho sobre papel
100 x 210 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2013
P77–84, 1984
Seixo pintado
2,5 x 9,5 x 7 cm
Col. Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Doação do artista em 2011
P73–84, 1984
Seixo pintado
3 x 7,5 x 10 cm
Col. Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Doação do artista em 2011
P74–84, 1984
Seixo pintado
2 x 5 x 9,5 cm
Col. Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Doação do artista em 2011
13
P95–99, 1999
Seixo pintado
3,5 x 12 x 5 cm
Col. Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Doação do artista em 2011
O65–03, 2003
Óleo sobre tela
184,4 x 134,5 x 7 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O69–57–04, 2004
Óleo sobre tela
140 x 100 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
14
O76–05, 2005
Óleo sobre tela
140 x 70 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
S42, Sonho de 13–14 de
Novembro de 1973
Papel fotográfico sobre platex
85 x 85 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O86–07, Tempo, 2007
Óleo sobre tela (tríptico)
80 x 200 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2008
23/78, 1978
Papel fotográfico sobre platex
72,5 x 84,5 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
O88–07, 2007
Óleo sobre tela
130 x 97 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2008
Sonho de 25–26 de Junho
de 1987
Papel fotográfico sobre platex
85 x 85 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
59/88, 1988
Papel fotográfico sobre platex
72,5 x 84,5 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
Sonho de 21–22 de Julho
de 2003
Papel fotográfico sobre platex
(díptico)
104,6 x 245,5 cm
Col. Fernando Lanhas, em depósito na Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea,
Porto. Depósito em 2005
15
Fernando Lanhas: Fragments
Some Works in the Serralves Collection
O86–07, Tempo,
2007
16
Fernando Lanhas (Porto, 1923–2012), like
all architects, always wanted to understand the geometry of the world. His
academic training helped him in this aim
as much as the fact of being a painter,
designer, archaeologist, palaeontologist,
astronomer, ethnologist and poet. His
pictorial work, which aids understanding
of how painting can contribute to the
knowledge of the world, cannot, as we
shall see, be separated from the many
other activities that occupied him for
over 50 years.
As a painter, Lanhas holds a
privileged position in the history of
Portuguese art, being seen as the pioneer
of geometric abstraction in Portugal.
He came to abstraction when he was an
architecture student at the Porto School
of Fine Arts in the 1940s, and a frequent
visitor, in the same decade, at the Porto
Centre for Musical Culture. Various commentators on his work have pointed to
these two circumstances—academic and
cultural—as the two influences that best
explain the geometrical sparseness Lanhas
brought into his drawings, watercolours
and paintings on canvas and pebbles.
The Porto School of Fine Arts,
known at the time for innovations in the
teaching of architecture introduced by its
director, Carlos Ramos (Porto, 1897–1969),
is also seen as the ideal environment to
stimulate an inquiring young mind such
as Lanhas’ into trying out media other
than drawing and architectural models to
translate the notions of geometry that
aspiring architects had to master in order
to understand and change the world
around them. Lanhas’ career as a student
also shows how discussions about culture
were, at the time, independent of
disciplinary constraints, with young
people from various artistic practices
and aesthetic currents—Júlio Pomar
(Lisbon, 1926), Júlio Resende (Porto, 1917
–Gondomar, 2011), among many others
—organising the celebrated Exposições
Independentes [Independent Exhibitions],
held between 1943 and 1950. Lanhas
helped to organise these events and
exhibited some of his first abstract works
at them. These were considered pioneering pieces in Portugal, especially in the
light of the country’s cultural isolation,
which prevented Lanhas from coming
into contact with the abstract art of early
modernism. In fact, it was only years after
his first attempts at making abstract works
—when on a trip to Paris in 1947—that
Lanhas would come face to face with an
international context into which his work
could fit.
More than coming from a dialogue
with contemporary art movements
(whose arrival in Portugal was considerably delayed), Lanhas’ reductive forms lay
in the conviction (supported by his early
interest in astronomy and archaeology, as
well as his architectural studies and familiarity with classical music) that there was a
geometrical logic common to all ages and
all disciplines underlying the universe and
trying to understand how it functions. We
could say that Lanhas brought the traditionally separated worlds of science and
the arts closer together. For him, both can
make use of similar tools in their interrogation of the Cosmos.
Proof of this mixture of influences is
the scientific way in which he numerically
catalogued his paintings, exactly as if they
were musical, museographic or bibliographical works. The first letter indicates
the media used—‘C’ for collages, ‘D’ for
drawing, ‘O’ for oil and ‘P’ for pebbles.
Attached to this letter is the number that
indicates the order in which the works
were undertaken. Separated by a hyphen,
we then have two numbers giving the
year the work was completed.
The blending of scientific and artistic
knowledge is also reflected in seemingly
formal decisions, like the choice of colour.
His archaeological expeditions, when he
looked for fossils and studied Stone and
Bronze Age remains and that gradually
turned him into a collector of the pebbles
he found, led him to grind stones into
powder to make colours. They also led
him, albeit through a different logic of
the ready-made, to paint directly on the
stones, which thus acquired artistic status:
‘The aesthetic achievement that
is going to happen on a smooth
pebble, chosen from the stones
along the shore, begins with the
17
very choice of the pebble. Its
perfect smoothness, the uniformity
of colour across the whole surface
of the stone (...), its symmetrical
axes are features that combine and
collude in determining the choice.
(...) The selected stone then appears
to Fernando Lanhas like a “small
desert” where there will be forms
to be designed in lines or patches,
‘according to a criterion which
cannot be anticipated’; in that it’s
the pebble itself that will command
the hand of the artist.’¹
The essential chromatism, sparse with
minimal variations, which we find in the
paintings is no more than the tones of
the smoothed pebbles that Lanhas found
on the beaches and, from 1944 onwards,
would make up his palette. Among these
colours, bluish grey is prominent:
‘It is no coincidence that Fernando
Lanhas’ painting focuses on bluish
grey. (...) For Lanhas, bluish grey is an
ultimate colour, a final colour, which
no longer wants to be anything.
An achieved colour, to which all
other colours tend. Bluish grey is
the equivalent of the faded, and for
Lanhas, the faded has permanence
and a meaning that matches balance
and continuity.’²
Moving away from colour and concentrating only on form, in the composition
of his paintings we find, even in works
done at very different times, exactly
the same features: very simple lines
and geometrical shapes (with particular
emphasis on the circle and triangle), that
serve Lanhas in making us experience
such core values as high and low, balance
and imbalance; to counterpoint, ultimately, unstable and stable. It is not by
chance that these dynamic orthogonal
and oblique games evoke astral charts.
The desire in his work to achieve
simple things and focus on the region
of the essential and obvious has already
been emphasised. Furthermore, his
paintings perhaps mould the images
of figures that we possess, images of a
knowledge that flees and is beyond us.
18
Such knowledge both accompanies and escapes us. This is what Lanhas
learned from his study of immemorial
times through archaeology and museology.
For him, this is why art is atemporal, being
simultaneously of all times and all spaces.
The artefacts left in caves by pre-historic
man were, for him, reduced models of the
universe, exactly like buildings, paintings,
astral charts and musical pieces.
Perhaps this belief in the permanence, throughout the ages, of the same
questions explains why Lanhas’ painting
did not change considerably over time.
In contrast to most painters, whose work
we can divide into periods and in which
we can detect developments and new
directions, his works reject any attempt
at temporal categorisation. This is clear
when we see that the canvases from the
2000s in this exhibition are very similar,
in terms of composition and colour,
to works also on show here that were
produced between the 1940s and 1970s.
Knowingly and wilfully oblivious of the
developments, revolutions, controversies
and ruptures that marked twentiethcentury artistic production, Fernando
Lanhas’ work was never intended to be
contemporary. It could be said that it
escaped its own time.
Although we might associate his
artistic practice with conceptualism, land
art, earth art and minimalism, the irreducible uniqueness of Fernando Lanhas’ work
lies in its constant questioning of subjects
that are supposedly beyond the scope
of art, and pertain to knowledge of the
world and the universe we inhabit.
The current exhibition provides a
unique opportunity for understanding
the compatible diversity and consistency
of his work.
‘And now we can calmly restate that
abstract art in Portugal was born in
44, in Porto, with a young architecture student called Fernando Lanhas.
That was thirty years ago.’³
1. Fernando Guedes,
Fernando Lanhas: Os sete
rostos, Lisbon: Imprensa
Nacional—Casa da
Moeda, 1988, p. 31.
2. Egídio Álvaro,
“Fernando Lanhas
na origem da pintura
abstracta em Portugal”,
Artes Plásticas, no. 5
(September), Porto, 1974,
pp. 13–18, p. 16.
3. Ibid., p. 18.
That was seventy years ago.
O18–53, 1953
Ler/Read
Helena P. Blavatsky, A chave para a Teosofia / The Key to Theosophy
(ed. orig. 1889).
Wassily Kandinsky, Do espiritual na arte, Lisboa: Dom Quixote, 2010 /
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Carl Sagan, Cosmos, Lisboa: Gradiva, 1996; Cosmos, New York: Random
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Fernando Guedes, Fernando Lanhas: Os sete rostos, Lisboa: Imprensa
Nacional—Casa da Moeda, 1988.
Fernando Guedes, Bernardo Pinto de Almeida, João Lima Pinharanda,
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João Fernandes, Fernando Guedes, et al., Fernando Lanhas, cat. exp.,
Porto: Fundação de Serralves e Edições Asa, 2001.
Brian Greene, The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture
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Espaço, tempo e textura da realidade, Lisboa: Gradiva, 2006.
Filomena Serra, A experimentação abstracta de Fernando Lanhas, Lisboa:
Editorial Caminho, 2007.
Lígia Martins (coord.), Estrelas de papel: Livros de astronomia dos
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Ver/See
Fritz Lang, Metropolis, 1927
King Vidor, The Fountainhead / Vontade Indómita, 1949
Jean-Luc Godard, Alphaville, 1965
Jacques Tati, Playtime / Vida moderna, 1967
Stanley Kubrik, 2001: A Space Odissey / 2001: Odisseia no espaço, 1968
Alfredo Tropa, Povo que canta, 1970
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Nicolas Roeg, The Man Who Fell to Earth / O homem que veio do espaço, 1976
Margarida Cordeiro e António Reis, Trás-os-Montes, 1976
Ann Druyen, Carl Sagan, Steven Soter, Cosmos: A Personal Voyage, 1980
Glauber Rocha, A idade da terra, 1980
Ridley Scott, Blade Runner, 1982
António de Macedo, Fernando Lanhas: Os sete rostos, 1988
João Trabulo, Fernando Lanhas: Saber ver demora, 2002
Richard Linklater, A Scanner Darkly / O homem duplo, 2006
Exposição
Conceção do programa de itinerâncias:
Marta Moreira de Almeida
e Ricardo Nicolau
Curadoria: Marta Moreira de Almeida
Organização: Fundação de Serralves—
Museu de Arte Contemporânea, Porto
Publicação
Texto: Ricardo Nicolau
Conceção gráfica: Maria João Macedo
Coordenação: Cláudia Gonçalves
Tradução: Michael Greer
Edição: Cláudia Gonçalves, Paul Buck
Créditos fotográficos: Filipe Braga,
© Fundação de Serralves, Porto
Impressão: Empresa Diário do Porto
Apoio institucional
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Classificado” cofinanciado por
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Ouvir/Listen
Arnold Schoenberg, Pierrot Lunaire, 1912
Michel Giacometti, Trás-os-Montes, 1960
Michel Giacometti, Oito cantos transmontanos, 1961
The Byrds, Mr. Spaceman, 1966
The Byrds, Fifth Dimension, 1966
Guy Rebel/Pierre Schaeffer, Solfège de l’objet sonore, 1967
David Bowie, Space Oddity, 1969
Elton John, Rocket Man, 1972
Pierre Schaeffer & Pierre Henry, Symphonie pour un homme seul:
Concerto des ambigüités, 1972
David Bowie, Heroes, 1977
Aimee Mann, Lost in Space, 2002
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