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©2015 Tânia Regina Zimmermann; Márcia Maria de Medeiros (orgs.).
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permissão da editora e/ou autor.
Z73 Zimmermann, Tânia Regina; Medeiros, Márcia Maria de
Ensaios Sobre Literatura, Cultura e História II/Tânia Regina Zimmermann;
Márcia Maria de Medeiros (Orgs.). Jundiaí, Paco Editorial: 2015.
100 p. Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-462-0109-9
1. Literatura 2. Cultura 3. História 4. Gênero. I. Zimmermann, Tânia Regina.
II. Medeiros, Márcia Maria de.
CDD: 800
Índices para catálogo sistemático:
Ensaios
Mulheres
864
155.633
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Foi feito Depósito Legal
Sumário
Apresentação
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Prefácio
7
Gênero e Violência na obra “No Tempo das Borboletas”
de Julia Alvarez
11
As mulheres brasileiras no século XIX e XX
31
Metalinguagem: um recorte na Babel de Borges
51
Humor e Ironia em Geoffrey Chaucer: O Conto do
Moleiro X O Conto do Feitor
67
Caçando no Deserto – A Propósito da Interação entre
Escrita e Arte no Egito Faraônico
85
Posfácio
99
Apresentação
Gênero, literatura e poder
Ana Maria Colling1
As relações entre as mulheres e a literatura foram marcadas
por relações de poder. Daquele poder que nos fala Michel Foucault, que produz coisas e verdades, que produz silêncios, que
silencia inclusive sujeitos.
As mulheres somente puderam usar sua assinatura, no bojo
das revoluções maiores, como foi o caso do movimento feminista. No caso brasileiro, somente na década de 1970 elas ousaram reivindicar reconhecimento. Até então, somente Raquel de
Queiroz, Cecília Meireles e Clarice Lispector eram reconhecidas
como escritoras.
O silêncio é muito antigo e difícil de romper. A tradição
androcêntrica da literatura que sempre confundiu a experiência
masculina com experiência humana, dificultava o ato político da
escrita feminina.
Michele Perrot, historiadora francesa, nos conta que na esteira do movimento feminista, as mulheres procuraram visibilidade e contar sua história. Olharam para trás, para a passado a
ser narrado, e só avistaram as manchas da representação. Elas
até então haviam sido contadas por eles, os donos do discurso.
Como contar a si mesmas, como contar seu olhar, como dizer que julgamentos de valor não são neutros, que alguém dá
valor ao valor, como nos ensinou Nietzsche? Como dizer que a
1. Doutora em História. Professora Visitante Nacional Sênior (Capes) junto ao
Programa de Pós-graduação em História da UFGD (Universidade Federal da
Grande Dourados).
E-mail: [email protected]
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Tânia Regina Zimmermann | Márcia Maria de Medeiros (Orgs.)
vida social, que as relações sociais, as relações de gênero, não são
produto da natureza mas da cultura?
Virginia Woolf em Profissões para Mulheres, nos mostrou que
monstros teve que combater para poder escrever. Acenou para o
embate entre o público e o privado, funções e lugares destinados
aos dois sexos. Teve que matar a marteladas violentas, uma figura construída como essência feminina, para se tornar escritora.
O “anjo do lar” que se colocava entre ela e a folha do papel a ser
preenchido por sua escrita, era muito resistente em sua docilidade e abnegação e demorou a morrer.
A literatura sempre recolheu do social, as intrincadas relações humanas e as devolveu, cristalizando-as. As mulheres sempre foram objetos estéticos, transformadas em objetos políticos.
Anna Karenina e Madame Bovary, que tentaram sair do lugar
historicamente designado ao feminino, são exemplos paradigmáticos dessas questões.
Se pela via da linguagem também se configuram os sexos,
se nos mostra a realidade histórica em que vivemos, assistimos
na atualidade uma explosão de pesquisas sobre estas relações
assimétricas de poder entre os sexos. Apresentar um livro que
trata destas questões – das relações de gênero, da literatura e do
poder, transforma-se de uma certa maneira, em uma forma de
empoderamento das mulheres.
Se escrever é mostrar-se como diz Foucault em A Escrita de
Si, se é uma maneira de cada um manifestar a si próprio e aos
outros, de desvelar sua alma, vamos escrever, escrever e escrever. Se a literatura é um poder transgressor, vamos usá-la para
quebrar preconceitos, essências, verdades, identidades. Parabéns
pela iniciativa da obra e boa leitura!
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PREFÁCIO
Ao propor uma diversidade de debates, as autoras oportunizam em conjunto a documentação e descoberta de inúmeras
vivências/experiências de mulheres e homens em práticas inventivas e criativas do humano inclusive em vidas improvisadas no
passado. Com isso, propõe-se também uma reflexão sobre as
continuidades do passado em nosso cotidiano cujas representações povoam as práticas discursivas circundantes. Também queremos que os temas de discussão aqui apresentados revelem um
campo de possibilidades de estudos, os quais se desdobram em
inúmeras categorias analíticas como relações de gênero, práticas
culturais, questões identitárias, a experiência, a disseminação do
sujeito e da pluralidade.
Além disso, como historiadoras e escritoras entendemos que
a tarefa do discurso crítico é opor-se as visões totalizantes e simplistas e, por isso, buscamos as contradições, as heterogeneidades e rupturas nas teias da representação de nosso passado. Teias
estas construídas com refino para que não pudéssemos perceber
as fissuras, os excessos, a divisão, a diferença, as práticas de escrita e de leitura, experiência e a resistência.
Este livro reúne olhares sobre as configurações do humano e
em seu primeiro texto, a autora Tânia Regina Zimmermann atenta para a relação entre a literatura latino-americana e a história
com foco na violação de corpos femininos. A obra de Julia Alvarez “No tempo das borboletas” remete a memória das irmãs Mirabal, das quais três foram brutalmente assassinadas pelo ditador
Trujillo na República Dominicana. O ato repercutiu mundo afora
e com ele institui-se o Dia Internacional da não Violência Contra a Mulher em 25 de novembro, data do assassinato delas. Os
sentimentos na história afloraram um universo novo na pesquisa
histórica bem como ampliaram a noção de direitos humanos.
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Tânia Regina Zimmermann | Márcia Maria de Medeiros (Orgs.)
Juliana Bezerra de Oliveira Sachinski, nos apresenta um ensaio sobre “As mulheres brasileiras no século XIX e XX” com
foco na construção do gênero tradicional no nordeste brasileiro.
A dominação masculina constitui-se através do sujeito masculino e sua expressão fálica no pênis. Assim, as assimetrias de
gênero eram reforçadas no cotidiano independente da classe
social no Nordeste, mas não exclusivamente naquele contexto
e região. A autora também insere a literatura feminina (Rachel
de Queiroz) como fonte para a construção da análise sobre as
configurações de gênero.
“Metalinguagem: um recorte na babel de Borges” é o título do texto de Genival Mota e Danglei de Castro Pereira, no
qual os dois autores primam pela análise do lugar dos livros e da
leitura na obra de Jorge Luís Borges, mais especificamente, no
conto “A biblioteca de Babel”. Intencionam também abordar o
papel do leitor como agente organizador dos signos linguísticos
na obra de Jorge Luís Borges. Ambos buscam ainda na obra de
Jorge Luiz Borges a presença de uma consciência estética diante
do papel do livro e da leitura como elementos constitutivos da
construção do literário e em que medida sua produção ficcional
dialoga com a metalinguagem.
Márcia Maria de Medeiros e Vladimir de Medeiros nos brindam com a análise comparada sobre o “Humor e Ironia em Geoffrey Chaucer: o conto do Moleiro X o conto do Feitor”. O autor
dos contos ambienta-se no século XIV e estes fazem parte da obra
The Canterbury Tales. A poesia de Chaucer tinha como destino o
espaço da corte e dos membros de classe média que estavam próximos a ela, grupos estes familiarizados com literaturas em língua
latina e francesa. Para as autoras, uma das marcas prementes no
texto do autor britânico diz respeito ao humor e a ironia a partir
dos quais algumas das histórias do livro se desenrolam como nos
poemas do Moleiro e o Feitor. Chaucer tece nos poemas certo
ar de rebaixamento, o qual de acordo com Bakhtin é o princípio essencial do realismo grotesco onde todas as coisas sagradas
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Ensaios Sobre Literatura, Cultura e História II
(como a instituição sacramentada do casamento, por exemplo) são
reinterpretadas em outros planos como o material e o corporal.
Assim, concluem que a arte inventiva de Chaucer possibilita a inversão de atributos consagrados entre seu público leitor.
Maurício Elvis Schneider nos propõe uma reflexão em seu
texto: “Caçando no deserto – a propósito da interação entre escrita e arte no Egito faraônico” sobre a relação entre mentalidade e arte na composição da escrita. No texto, o autor prima
pela historicidade da escrita no Egito faraônico com expressiva
literatura na composição de sua análise. Schneider observa que
a iconografia funcionava como parte do texto que lhe era associado. Assim, as imagens eram conjuntamente representação
artística e sinal de escrita, figuração e linguagem, iconografia e
enunciação. Naquele contexto, a utilização de imagens em figurações e esculturas, era frequente no Antigo Reino, perdurando
por determinado recorte temporal. O autor aponta ainda que
artifícios nos demonstram que a interação entre escrita e arte
nunca perdeu importância naquele contexto histórico.
O conjunto de textos aqui reunidos incumbiu-se de inquietar temas, abordagens, sujeitos e processos de subjetivação com diferentes fontes, recortes espaciais e processos históricos. Mas todos eles
se amarram ao tecer suas narrativas através da literatura e da escrita.
9
Gênero e Violência na obra “No
Tempo das Borboletas” de Julia
Alvarez
Tânia Regina Zimmermann2
A obra “No Tempo das Borboletas” da escritora dominicana e estadunidense Julia Alvarez desvela uma narrativa sobre
algumas configurações de gênero e de subjetividades imbricadas
na luta por direitos humanos. Esta obra também revela as oposições binárias de gênero pautadas em dados biológicos reforçando as desigualdades entre mulheres e homens em um contexto
ditatorial na República Dominicana. Com uma escrita engajada,
a autora redirecionou o foco para o que caracterizou e justificou
as diferenças de gênero em relação à violação dos corpos femininos pelos militares. A partir da luta das irmãs Mirabal e em
memória ao assassinato brutal delas pelo ditador Trujillo institui-se o dia 25 de novembro como o Dia Internacional da Não
Violência contra as Mulheres.
Na narrativa também foram explorados diversos discursos
de resistência, sobretudo, em relação a sentimentos, maternidade, honra, noção de dignidade, evocação religiosa, solidariedade
e amizade. Tais elementos compuseram uma retórica que foi efetiva, pois denunciou as agruras da ditadura que se transformou
em instrumento de luta na República Dominicana.
As emoções e os sentimentos são matérias-primas da literatura e que por vezes mobilizaram os seus leitores muito mais que
outras Ciências Humanas. Assim, esse romance de Alvarez nos
possibilita recuperar formas de ver, sentir e agir em relação a um
2. Doutora em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-Doutora pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora da pós-graduação e graduação da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).
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Tânia Regina Zimmermann | Márcia Maria de Medeiros (Orgs.)
contexto ditatorial sangrento e vai de encontro a leitores ávidos
por novas sensibilidades e direitos humanos.
A historiadora Lynn Hunt (2009) observou que os romances
do século XVIII e XIX tiveram grande influência na invenção
dos direitos humanos. O romance aqui analisado pode ser pensado neste prisma uma vez que colabora na busca de informações
sobre a situação de muitas mulheres, filhos e filhas separados ou
desaparecidos e mortos pela ditadura de Trujillo.
Hunt advoga que os romances do século XVIII estão nos
primórdios da disseminação dos direitos humanos naquele período, pois propiciaram a capacidade de sentir empatia nos seus
leitores. Os romances epistolares, como Julia de Jean Jacques
Rousseau, Pamela e Clarissa do inglês Samuel Richardson foram
criticados pelo clero e por outros setores conservadores da sociedade porque apresentavam a ideia de que todas as pessoas são
semelhantes por causa de seus sentimentos.
Hunt advoga que as pessoas, ao lerem os romances, sentiam empatia além de fronteiras sociais como as de classe e de
pertencimento étnico, passando a ver os outros como seus semelhantes. Isso acontecia porque estes romances provocavam os
mesmos tipos de emoções internas nos seus leitores. Este processo teria colaborado na transformação da natureza interior do
indivíduo e na produção de uma sociedade moral, fornecendo
a base para a autoridade social e política dos direitos humanos.
Por isso, colocamos os sentimentos narrados no romance
como constitutivas de discursos, os quais, por sua vez, foram
práticas políticas de confrontação com o regime militar, e que
tiveram efetividade política na medida em que criaram empatias
e auxiliaram na redemocratização do país.
A literatura contemporânea, em especial a obra “No Tempo
da Borboletas” de Julia Alvarez parece estabelecer uma memória
muito mais efetiva da violência exercida por essa ditadura seja
contra mulheres, crianças e homens. Essa narrativa ocorre também com constantes reinterpretações e assim nós, historiadores,
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Ensaios Sobre Literatura, Cultura e História II
retiramos das páginas literárias a ampliação das análises em torno de sensibilidades, de vivências pessoais e coletivas que dificilmente de outro modo nos chegariam à compreensão da história.
Ao nos referirmos às relações de gênero partimos primeiramente das diferenças culturais entre mulheres e homens. Por
isso, seguimos o trabalho de Joan Scott (1990), no qual o gênero
se refere a uma construção histórica das relações de poder entre
homens e mulheres, e deve contemplar definições plurais de gênero, assim como de masculinidade e feminilidade. Logo, os estudos de gênero e os conceitos correlatos variaram ao longo da
história. Por isso, Scott acentua que gênero se refere às relações
sociais nas quais indivíduos e grupos atuam (1990).
Em alguns estudos de gênero as distinções e a interação entre sexo e gênero ou entre biologia e cultura não são claras. Tentativas neste sentido foram feitas por Thomas Laqueur (2001) e
Judith Butler (2003). Ambos não definem os limites da biologia
e da cultura, mas apontam que estes limites também podem variar nos processos históricos para construir as desigualdades de
gênero. Diante destes limites leva-se em consideração que gênero será uma questão inconstante e contextual porque denota
segundo Butler “(...) mas um ponto relativo de convergência entre conjuntos específicos de relações, cultural e historicamente
convergentes” (2003, p. 29).
Estas discussões conceituais e seus processos históricos são
reveladores de que o corpo molda e é moldado pela identidade
de gênero e é marcado pelas noções dominantes de feminilidade
e de masculinidade. Ao nominar estas construções nosso enredo
pauta-se novamente naquilo que a linguagem comum considera
o gênero, ou seja, o domínio da natureza. Talvez por isso, as feministas insistem em desnaturalizar estas construções, nas quais
as oposições também foram construídas sobre o privado e o
público. Talvez por isso, Julia Alvarez partilhe com as feministas
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Tânia Regina Zimmermann | Márcia Maria de Medeiros (Orgs.)
da Segunda Onda3 de que o privado é político e assim narra o
cotidiano de mulheres, homens e de suas lutas pela liberdade
democrática e pela ampliação dos direitos de gênero.
No contexto histórico de criação da categoria gênero despontam muitas mulheres escritoras vindas de uma trajetória de lutas
e resistências4 para a inserção de sua autoria no mundo das letras.
Antes domínio masculino, universo no qual elas deviam figurar
apenas como leitoras, agora elas deixam o silêncio para emergir
como novas vozes na literatura. Neste sentido, o contexto dominicano não difere do brasileiro em relação ao silenciamento de
muitas mulheres nas letras até meados do século passado.
No início do século XIX, os romances de mulheres eram
em grande parte autobiográficos. Uma das razões que as impulsionava era o desejo de descrever seu próprio sofrimento, de
defender uma causa própria. Agora que este desejo não é mais
tão imperioso, as mulheres começam a explorar o mundo das
mulheres, a escrever sobre as mulheres como nunca se escreveu
antes, pois até época recente, as mulheres na literatura eram, certamente, uma criação dos homens.
Embora as mulheres há muito tempo tornassem públicos
seus textos, quer seja com pseudônimos masculinos ou sob autoria própria é com o despontar de novos sujeitos no século XX
que elas emblemam e marcam a diferença com sua participação
na vida literária. Há que salientar que, inicialmente, sua trajetória
no contexto da literatura e da criação literária foi truncado, dado
o fato de que este território pertencia aos homens os quais ditavam o que era digno de publicação, geralmente enquadrando
3. A Segunda Onda aqui faz referência às questões relativas às novas articulações
do pensamento feminista relacionadas às lutas pelo direito ao corpo, ao prazer, e
contra o patriarcado. Veja-se Pedro, Joana M. Traduzindo o debate. In: História.
São Paulo, vol. 24, n. 1, p. 77-98, 2005.
4. Em relação à resistência em relação a ditadura brasileira veja-se Colling, Ana
Maria. A resistência da Mulher à ditadura militar no Brasil. Rio d Janeiro: Rosa dos
Tempos, 1997.
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Ensaios Sobre Literatura, Cultura e História II
escritos femininos como nulidade, devaneio ou sonho. Assim,
muitas mulheres foram excluídas do cânone literário não devido
à relevância de seus escritos, mas pelo preconceito advindo da
dominação masculina.
Logo, a literatura de autoria feminina, no processo de lutas
e resistências pela visibilidade, se fez através da liberdade e autonomia do trabalho das mulheres enquanto escritoras. Após a
década de 1950 muitas vozes tornaram-se mais intensas expressando suas sensibilidades e realidades evitando repetir o estilo
masculino. (Lobo, 2000, p. 5).
Na trajetória profissional de muitas escritoras os empecilhos
foram muitos para suas publicações, pois a constante instabilidade vivida na década de 1960 em países latino-americanos e
caribenhos se tornou um motivo para descontentamento e assim
muitas escritoras desejaram o exílio ou optaram em sair do país.
A autora do romance “No Tempo das Borboletas”, Julia Alvarez nasceu em 1950 em Nova Iorque. Aos 3 meses de idade ela
e sua família foram para a República Dominicana, onde viveram
durante 10 anos. Em 1960, a família voltou para os Estados Unidos depois que seu pai participou de uma fracassada conspiração
para derrubar o ditador militar da ilha, Rafael Trujillo. Antes da
escritura deste romance já havia várias obras sobre o trujillato e
sobre as irmãs Mirabal, mas todas escritas por homens.5
Este romance é o segundo de Alvarez lançado em 1994 na
língua inglesa e tem como premissa histórica a morte brutal das
irmãs Mirabal ocorrida durante a ditadura de Trujillo na República
Dominicana. Em 1960, os corpos de 3 irmãs foram encontrados
no fundo de um penhasco na costa norte da ilha. As irmãs eram
conhecidas como “Las Mariposas” ou “As Borboletas”. A narrativa do romance retrata as subjetividades e agenciamentos das três
5. Veja-se Aquino García, Miguel. Três heroínas y um tirano. La historia verídica de
las Hermanas Mirabal y su asesinato por Rafael Leônidas Trujjilo. Santo Domingo: Editora Corripio, 1996 e também Larsen, Neil. Como narrar el Trujjilato? In:
Revista Iberoamericana, Pittsburg, vol. LIV, n. 142, p. 89-98, 1988.
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