FATORES ASSOCIADOS À INFECÇÃO PELO HIV EM TRABALHADORAS DO SEXO (TS) EM SANTOS-SP∗ Neide Gravato da Silva♣ Maria Graciela G. Morell♦ Kelsy N. Areco♦ Clóvis de Araújo Peres♦ Palavras Chaves: HIV; Aids,sífilis;trabalhadoras do sexo; vulnerabilidade. Resumo A epidemia do HIV tem sido um importante desafio para a saúde por estar se disseminando na população heterossexual com predominância na população feminina, em especial nas trabalhadoras do sexo (TS). No Brasil, poucos estudos de soroprevalência têm sido conduzidos com este segmento, embora constitua um dos grupos mais vulneráveis para infecção por HIV e outras IST. Este trabalho se propôs caracterizar as trabalhadoras do sexo de Santos – cidade portuária que durante oito anos apresentou a mais alta taxa de incidência de Aids no país –, segundo variáveis relativas à vulnerabilidade ao HIV e estabelecer as associações desses fatores com a infecção por HIV.No período de 1995 a 1998 foi realizado um estudo transversal envolvendo o universo das T.S que trabalhavam na cidade, incluindo todos os lugares de prostituição de alta e baixa renda. Foram entrevistadas e submetidas a teste sorológico para HIV, 1047 mulheres. O questionário incluía questões sócio demográficas, condições de trabalho, IST anterior, práticas sexuais, uso de drogas e conhecimento sobre IST e Aids. A utilização de um consultório ginecológico móvel possibilitou o acesso de mulheres com alta vulnerabilidade que tradicionalmente não tinham acesso aos serviços de saúde. 7% das mulheres eram portadoras do HIV. Fatores sócio-demográficos tiveram alta associação com HIV tais como : entre as TS analfabetas encontrou-se uma prevalência de HIV de 23%, de 18% nas moradoras de barracos, de 17% nas que trabalham nas ruas e de 14% nas negras e nas de baixa renda. O uso de drogas injetáveis elevava a sorologia do HIV para 37% das entrevistadas. O conhecimento sobre IST/Aids era elevado na população e 60% da amostra já tinham realizado exame para HIV anteriormente. Apesar da heterossexualização da epidemia do HIV os grupos primários para infecção do vírus HIV continuam necessitando de atenção especial da saúde pública, sendo necessário garantir o acesso à projetos de prevenção continuada, aconselhamento, diagnóstico e tratamento das IST/Aids, insumos de prevenção na própria comunidade, além de capacitar os profissionais de saúde a dar um melhor acolhimento a esta população. ∗ Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em CaxambúMG – Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004. ♣ Associação Santista de Pesquisa, Prevenção e Educação em IST/AIDS (ASPPE). ♦ Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). ♦ Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). ♦ Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). 1 FATORES ASSOCIADOS À INFECÇÃO PELO HIV EM TRABALHADORAS DO SEXO (TS) EM SANTOS-SP∗ Neide Gravato da Silva♣ Maria Graciela G. Morell♦ Kelsy N. Areco♦ Clóvis de Araújo Peres♦ 1. Introdução Historicamente, as trabalhadoras do sexo (TS), por terem vários parceiros, tem sido responsabilizadas pela disseminação do HIV em nível nacional e internacional (grupo primário da infecção).Estudos realizados por Mann et al. (1992), estimaram que a infecção pelo HIV nas trabalhadoras do sexo era 300 vezes maior que nas gestantes. Cameron et al. (1989), estudando trabalhadoras do sexo em Nairobi, Quênia, encontraram uma soroprevalência de aids de 85%. Van Den Hoek et al. (1989), desenvolveram estudo em Amsterdã, Holanda, entre trabalhadoras do sexo usuárias de drogas, que apesar de referirem uso de preservativo tinham uma prevalência de HIV de 30%, e 81% haviam tido DST nos últimos dois anos. Em Addis Abeba, Etiópia, a prevalência de HIV aumentou, na referida população de 0,6% em 1985 para 54,2% em 1990 (Bureau of the Census, 1994) e 73,7% em 2001 (Mathias, 2001). No Brasil, foram realizados vários estudos de soroprevalência entre trabalhadoras do sexo. No Rio de Janeiro, encontrou-se resultados de 3% de soropositividade em 1987 e 10,3% em 1988, mantendo-se neste patamar até 1993 (De Lorenzi et al., 1994). Lurie et al. (1995), em estudo realizado em três cidades do Estado de São Paulo com 600 trabalhadoras do sexo, estratificadas por renda encontraram, na capital, 4% de soropositividade em trabalhadoras do sexo de alta renda e 12% nas de baixa renda da região central; em Campinas 6% para alta renda e 12% para baixa renda; e em Santos 1% para as de alta renda e 28% para as de baixa renda. Importante destacar que os estudos tiveram diferentes desenhos e trabalharam com amostras de conveniência, em diferentes períodos, com uma população altamente flutuante. Observa-se a relação entre uso de drogas e prostituição, no estudo de Lurie, onde 48% da amostra eram usuárias de drogas. Num total de 954 trabalhadoras do sexo de Santos entrevistadas nos anos 1987, 1988 e 1990, Granato (1991), encontrou 19,1% ∗ Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em CaxambúMG – Brasil, de 20- 24 de Setembro de 2004. ♣ Associação Santista de Pesquisa, Prevenção e Educação em IST/AIDS (ASPPE). ♦ Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). ♦ Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). ♦ Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). 2 de trabalhadoras soropositivas entre as usuárias de drogas e 3,2 % entre as não usuárias, e Bueno et al (1992) encontraram 35% de soroprevalencia de HIV entre TS usuárias de drogas injetáveis. No final da década de 80, Santos ganhou destaque na imprensa nacional e internacional, recebendo o título de "Capital da AIDS", por apresentar a maior incidência de casos de AIDS por 100 mil habitantes : 37,6 em 1989 e 68,4 em 1994, enquanto no Brasil era de 11 e 22, respectivamente (Brasil, Ministério da Saúde, 1996) Santos é uma cidade de veraneio, que recebe turistas do estado e da capital, chegando a triplicar sua população de 417.000 habitantes, durante os feriados prolongados e temporada de verão, somado ao contingente de população jovem que procura a cidade para estudar em suas diversas universidades privadas. Outro traço marcante, é que o porto de Santos encontra-se na rota internacional do tráfico de cocaína (Mesquita, 1992), o que facilita o consumo de drogas, aumentando o risco da infecção pelo HIV. O compromisso político da administração municipal de Santos no controle epidemiológico, municipalizando a vigilância, controlando os bancos de sangue, comunicantes e portadores assintomáticos de HIV, além do pioneirismo das ações de assistência e prevenção, também contribuíram para a situação de destaque na epidemia da AIDS (Campos e Henriques, 1996). Com este perfil, a região portuária caracteriza-se como um grande atrativo para o comércio do sexo, organizado em diferentes formas, nas ruas, boates, bordéis, hotéis, residências, casas de programas, etc. Esta região, desde 1989, começa a ser estigmatizada pelo número de casas de prostituição e uma das conseqüências deste fenômeno, foi a expansão da prostituição mais organizada para outros bairros da cidade. Em 1993 foi iniciado o Projeto Intervenção Educativa com Trabalhadores do Sexo e seus clientes, com duração de três anos. Este Projeto através de encontros semanais de profissionais de saúde (psicólogos e assistentes sociais) com as trabalhadores do sexo, possibilitou a realização de grupos de discussão, oficinas de sexo protegido, sessões de vídeo e encaminhamentos para o serviço de saúde, dando acesso ao preservativo.(Gravato et al., 1996). Na fase inicial do projeto, em 1993, realizou-se um mapeamento dos locais de prostituição e um censo (contagem de rua)1, que estimou existirem entre 1.200 e 1.400 trabalhadoras em atividade, naquele ano. Além da contagem, foi aplicado um questionário para construção da linha de base da intervenção educativa com 300 trabalhadoras do sexo, que revelou um alto nível de conhecimento sobre HIV/AIDS e a referência expontânea da prática do sexo protegido nas relações comerciais (Martin et al., 1996). 1 Este censo baseou-se no modelo Sentinel Site desenvolvido pela Dr ª Fúlvia Rosemberguer para contar meninos de rua em São Paulo, Capital. 3 Além do Projeto Intervenção um outro convênio assinado em 1995, entre a ASPPE DST/AIDS em parceria com o Programa Municipal de DST/AIDS de Santos e o Ministério da Saúde, permitiu desenvolver no período 1995/98 o projeto “Saúde da mulher na Prostituição". A partir das informações nele coletadas é que se realizou um estudo de fatores associados à infecção por HIV, em trabalhadoras do sexo em Santos. 2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Foi utilizado o modelo transversal de prevalência de HIV e Sífilis (Kelsey et al.,1996) e um estudo demográfico e comportamental dos fatores associados a estas infecções no período de 1995 a 1998. Envolvendo 1047 trabalhadoras do sexo feminino, maiores de 18 anos, que trocavam sexo por dinheiro, não incluindo as que trocavam sexo por favores ou drogas na cidade de Santos. As trabalhadoras do sexo menores de 18 anos, não foram incluídas por questões éticas e legais. Este procedimento não prejudicou o estudo, uma vez que este segmento representava cerca de 2% das mulheres que trabalhavam na cidade no período da pesquisa, segundo listas de campo do projeto de intervenção educativa, desenvolvido nos três anos anteriores a pesquisa (Gravato et al., 1996). No estudo original, os agentes de saúde do Projeto Intervenção realizavam visitas diárias aos locais de prostituição da cidade, sensibilizando e encaminhando as trabalhadoras do sexo a comparecerem ao Centro de Saúde Martins Fontes, unidade básica de saúde, próxima à área de prostituição, junto a faixa portuária, em um horário especial (das 15:00 às 18:00 horas), onde uma equipe de profissionais de saúde (2 ginecologistas, 2 auxiliares de enfermagem, 3 psicólogos e 1 recepcionista), atendiam as trabalhadoras do sexo. Após apresentação da proposta do estudo e leitura do consentimento, a trabalhadora do sexo que aceitasse participar do estudo, além de ser submetida à avaliação ginecológica com coleta de sangue e secreção vaginal, respondia um questionário (modelo de Comportamento, Atitudes e Práticas), o qual contava com uma identificação geral, questões sobre sexualidade, questões sobre saúde, conhecimento de DST, conhecimento sobre AIDS, uso de drogas e uso de preservativo. Não houve recusas para participar do estudo, porque o trabalho educativo que vinha sendo realizado nos três anos anteriores, garantiu a credibilidade da equipe. As usuárias de drogas, tiveram mais dificuldades de acesso ao ambulatório, devido ao medo de serem identificadas, deixarem o local de uso de drogas, organizar-se e priorizar o cuidado pessoal. Porém, estas dificuldades foram superadas pela aquisição de um consultório ginecológico móvel, que oferecia o mesmo tipo de atendimento, nas portas de hotéis, bordeis, motéis e boates, em horários vespertino e noturno. A entrevista e o aconselhamento para realização do teste sorológico (pré teste – conduta normatizada pelo Ministério da Saúde que objetiva preparar as pessoas para realizar o teste de HIV), foram 4 realizados em local isolado, conforme norma técnica do Manual de Aconselhamento do Ministério da Saúde (Brasil, Ministério da Saúde, 1989). O sangue coletado na Unidade Móvel do Projeto, nos locais de prostituição e no Centro de Saúde Martins Fontes, era enviado ao laboratório do Centro de Referência em AIDS da Secretaria de Saúde de Santos, onde era centrifugado e armazenado para posterior processamento. As informações coletadas na pesquisa, arquivadas na ASPPE incluíam dois tipos de arquivos, um referente aos dados coletados por meio de entrevistas e preenchimento de questionário e o outro proveniente dos resultados de exames laboratoriais, de sorologia para HIV e Sífilis. Para a realização da análise estatística em sistema SPSS, foi necessário juntar estes arquivos em novo banco de dados, em planilha do sistema Excel. A análise estatística dos registros correspondentes a 1047 trabalhadoras do sexo, envolveu a seleção de variáveis - levando em conta sua forma de preenchimento, sua fidedignidade e sua coerência com achados anteriores e com a literatura, assim como sua relação com o teste de sorologia para HIV-, análise descritiva e inferêncial, verificando a existência de associações entre as variáveis selecionadas e o resultado para HIV e identificação no conjunto das variáveis explicativas quais as melhores predictoras de infecção por HIV. 3. RESULTADOS 3.1 CARACTERÍSTICAS SÓCIO-DEMOGRÁFICAS A Tabela 1 apresenta os principais resultados das variáveis selecionadas para representar as características demográficas e as condições de vida das trabalhadoras do sexo objeto deste trabalho, e as associações entre estas variáveis e a infecção por HIV. Como se observa, metade das trabalhadoras do sexo exerce sua profissão nas melhores condições, em agências (32%) e em boates (18%), 25% delas trabalha em locais fixos de menor categoria, hotel ou bar, correspondendo às piores condições de trabalho, Corpo de bombeiros, residência ou rua, 22% dos casos. Ao discriminar estas porcentagens por resultado de sorologia de HIV, vê-se que das 72 mulheres soropositivas, 53% fazem programa no Corpo de bombeiros, residência ou rua, enquanto das 972 negativas apenas 19%. Em termos de risco, para as que trabalham nos piores locais, a proporção de HIV positivo é 17%, caindo para 9% para as que declararam hotel ou bar, 3% para boate e nenhum caso para agência, sendo as diferenças entre estas proporções estatisticamente significantes. Como na população em geral, a maioria das profissionais do sexo é de raça branca (61%), seguida do contingente de pardas (29%), e a menor porcentagem 5 corresponde às negras (10%). Das mulheres soropositivas, 21% são negras, enquanto das negativas, apenas 10%. A prevalência de HIV positivo descreve um gradienteestatisticamente significante-, é maior nas mulheres negras, 14%, seguido pelas pardas, 7,4%, e por último as brancas com 5,7% . A escolaridade é baixa, representando as analfabetas 6%, as que declararam 1º grau incompleto 58%, completo 15%, 2º grau, 19% e superior, 2%. Das positivas, 19% são analfabetas, enquanto das negativas, apenas 5%. Para as TS sem alfabetização, a proporção de HIV positivo é 23%, caindo para 7% para as que declararam 1º grau incompleto, 5% para as que completaram o 1º grau, 3% para as que alcançaram o 2º grau e nenhum caso para as que chegaram ao nível superior. Mais da metade das trabalhadoras do sexo mora em boas condições, casa ou apartamento (55%), outro importante contingente um pouco pior, em quarto ou cômodo (40%), 3% em outras moradias e 2% muito mal, em barracos. Das positivas, 4,2% habitam nestas condições, enquanto das negativas apenas 1,5%. Para as que residem nos piores locais, a proporção de HIV positivo é 18%, caindo para 12% para as que declararam quarto ou cômodo, 9% para outras moradias, e 3% para casa ou apartamento. A maioria das mulheres tem idades entre 20 e 29 anos (57%), seguida de um contingente importante de 30 a 39 (22%), as menores porcentagens correspondem as mais novas, 18 e 19 (12%) e as mais velhas, 40 e mais (9%). Das positivas, 32% tem 35 ou mais anos de idade, enquanto das negativas, apenas 16%. Para as mulheres mais velhas, a proporção de HIV positivo é 13%, caindo para 10% para as de 30 a 34, 8% para as de 25 a 29, 5 para as de 20 a 24 e 0,8% para as menores de 20 anos. Estes resultados se refletem nas respectivas idades médias, associadas com a infecção por HIV, no sentido de ser maior para as mulheres positivas, 31 anos, que para as negativas, 27. Outra variável associada com a infecção por HIV foi a idade de início da vida sexual, com média de idade menor para as mulheres soropositivas (14,2 anos) que para as negativas (15,6). A maioria das mulheres iniciou sua atividade sexual na adolescência, 87% das entrevistadas referiu a primeira relação sexual entre 12 e 18 anos, 9% com 19 ou mais e 4% antes dos 12, porcentagem que aumenta para 7% nas mulheres positivas. As trabalhadoras do sexo que começaram mais precocemente sua vida sexual tem a maior proporção de HIV, 13%, contra 7% e 3% das que se iniciaram, respectivamente, entre 12 e 18 e 19 anos ou mais. Como já foi esclarecido, a variável tempo de exposição à vida sexual criou-se diminuindo da idade referida a idade do início da vida sexual, sendo estimada a idade média de exposição para todas as mulheres em 12 anos. Com diferença significante por infecção por HIV, nas positivas o tempo médio de exposição é maior, 17 anos, que nas negativas, que é de 11 anos, resultado condizente com os das variáveis de origem - idade e idade de início da vida sexual-, como era de se esperar, pela sua condição de dependência. 6 A maioria das mulheres (42%) recebe por programa entre 21 e 50 reais, 33% mais de 50 reais, e 25% até 20 reais. Das soropositivas, 51% estão nesta categoria de preço, enquanto das negativas, apenas 23%. O risco para as mulheres que ganham menos é maior, a proporção de HIV positivo é 14%, caindo para 7% para as de ganho intermediário e 1,4% para as de melhor renda. O preço médio do programa cobrado pelas trabalhadoras do sexo não infectadas pelo HIV, de 54 reais, é muito maior (80%) que o cobrado pelas infectadas, 30 reais. Uma alta proporção de mulheres, 75%, faz, no máximo, 3 programas por dia, restando 25% que declaram 4 ou mais. Das positivas, 41% declararam fazer 4 ou mais programas, sendo nesta categoria a prevalência de HIV positivo 12%, caindo para 6% para as mulheres que fazem até 3 programas. O número médio de programas por dia, associado com a infecção por HIV, é maior para as positivas, 3,4, que para as negativas, 2,7. O número de gestações referidas mostrou que 18% das mulheres nunca tinham engravidado, 41% até duas vezes e outros 41% três ou mais vezes. No caso das soropositivas, a proporção com 3 ou mais gravidezes alcançava 53%. A presença do vírus variou de 3% para as mulheres que nunca engravidaram a 7% para as que engravidaram até 2 vezes e 9% para as que tiveram três ou mais gestações. O número médio de gestações é diferencial por presença de HIV, 3,5 para as mulheres positivas e 2,5 para as negativas. 7 Tabela 1 - CARACTERÍSTICAS SÓCIO-DEMOGRÁFICAS DAS TRABALHADORAS DO SEXO. SANTOS, 1995-1998. VARIÁVEIS TOTAL Local de trabalho* Agência Boate Hotel, bar Bombeiros, rua, residência Orla, outros Total Raça* Branca Parda Negra Total Escolaridade* Analfabeta 1º Grau incompleto 1º Grau completo 2º Grau Superior Total Tipo de moradia* Casa, apartamento Barraco Quarto ou cômodo Outros Total Idade (anos)* Média Idade de Início da vida sexual (anos)* Média Tempo de exposição à vida sexual* Média Preço do Programa (reais)* Média Número de Programas* Média Número de gestações* Média *p <0,0001 **P <0,0005 8 RESULTADOS (%) HIV+ HIV- 17,8 31,9 25,1 21,9 3,3 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 13,9 33,3 52,8 100,0 3,0 9,2 16,7 6,9 19,2 33,2 24,5 19,6 3,5 100,0 100,0 97,0 90,8 83,3 100,0 93,1 61,0 28,6 10,4 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 49,3 30,1 20,6 100,0 5,7 7,4 13,8 6,9 61,8 28,5 9,7 100,0 94,3 92,6 86,2 93,1 5,8 57,6 15,6 19,5 1,5 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 19,5 61,1 11,1 8,3 100,0 23,0 7,3 4,9 3,0 6,9 4,8 57,3 16,0 20,3 1,6 100,0 77,0 92,7 95,1 97,0 100,0 93,1 55,6 1,6 39,5 3,3 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 23,6 4,2 68,0 4,2 100,0 3,0 17,6 12,0 8,8 6,9 57,9 1,5 37,4 3,2 100,0 97,0 82,4 88,0 91,2 93,1 27,32 31,01 27,04 15,48 14,16 15,58 11,83 16,85 11,45 51,99 30,10 53,63 2,77 3,38 2,73 2,57 1,90 3,47 2,25 2,51 1,87 3.2 CONDIÇÕES DE SAÚDE DAS TRABALHADORAS DO SEXO A seguir se apresentam os resultados das associações da infecção por HIV com as variáveis selecionadas para caracterizar as condições de saúde das trabalhadoras do sexo (Tabela 2). Em relação à percepção das trabalhadoras do sexo da sua saúde no ano anterior à entrevista, observa-se que 62% a consideraram excelente ou boa, enquanto 38% regular ou ruim. No primeiro grupo, a presença do HIV foi de apenas 4,8%, ao passo que no segundo, 10,5% revelaram-se soropositivas, fato que pode indicar que algumas das mulheres que consideravam a sua saúde regular ou ruim poderiam estar desenvolvendo algum tipo de infecção associada ao HIV. O tempo transcorrido desde o último exame ginecológico que objetivava conhecer o auto cuidado da mulher com seu corpo foi referido no ano anterior à entrevista por 65% das trabalhadoras, outras 35% disseram ter realizado exame ginecológico há mais de dois anos (26%) ou nunca (9%). Quando verificadas estas proporções por HIV, encontrou-se, no último ano, 51% entre as soropositivas e 66% entre as negativas. Em termos de prevalência do HIV, para as que realizaram exame no último ano foi 5% e 10% para quem realizou exame ginecológico há mais de 2 anos ou nunca. Outra situação de risco investigada foi a transfusão de sangue sendo referida por 12% das entrevistadas e por 19% das infectadas por HIV. Em relação a presença do vírus HIV, observou-se que entre as que receberam transfusão a sorologia foi 11% enquanto que para as que não receberam transfusão foi 6%. Cerca de 25% das entrevistadas tiveram alguma DST no ano anterior a entrevista. Entre elas, a sífilis foi referida por 7% das trabalhadoras do sexo, sendo esta proporção de 31% nas soropositivas. Quando observa-se a prevalência do HIV, comprovase que nas mulheres que referiram ter tido sífilis no último ano, esta alcança 28%, enquanto nas que não tiveram sífilis é de 4%. Esta situação já era esperada considerando que a forma de transmissão de ambas infecções é semelhante, além da literatura já citada na introdução deste trabalho, referir que a presença de sífilis pode aumentar em até 18 vezes o risco para o HIV. A presença de sífilis foi considerada a partir do exame VDRL positivo independente de sua titulação, sendo encontrada uma soroprevalência de 13% de VDRL positivos, que no caso das mulheres portadoras de HIV vá a cifra de 39%. das positivas e 4,8 % das negativas. Quando observa-se a prevalência do HIV, os resultados são similares aos obtidos na indagação da presença de sífilis no ano anterior à entrevista; nas mulheres com sorologia positiva para sífilis, a correspondente para HIV alcança 21%, enquanto que nas negativas para sífilis a de HIV é 5%. O exame específico para verificação de presença ou cicatriz de sífilis utilizado foi o TPHA, que indicou que 27% das trabalhadoras do sexo e 61% das 9 soropositivas para HIV, apresentavam cicatriz para sífilis, indicando um alto índice de exposição anterior a sífilis nesta população. Ao analisar a exposição ao HIV, observa-se que a soropositividade entre as mulheres que tiveram sífilis no passado, é de 16% e entre as que não tiveram sífilis, é de 4%. A maioria das trabalhadoras do sexo, 60% referiram ter realizado o teste para detecção de HIV anteriormente à pesquisa, sendo que destas 4% já sabiam ser portadoras do vírus e 9% ignoravam o resultado do teste. Em relação as mulheres que tinham obtido resultados positivos no teste anterior, 82% confirmaram a sorologia positiva, entre as que referiram ignorar o resultado do teste e as que tinham resultados negativos soroconverteram, tornando-se positivas para o HIV, 22% e 3%, respectivamente. 10 Tabela 2 – CONDIÇÕES DE SAÚDE DAS TRABALHADORAS DO SEXO. SANTOS, 1995-1998. VARIÁVEIS TOTAL Opinião sobre saúde* Excelente, boa Regular, ruim Tempo exame ginecológico* Último ano Mais de 2 anos ou Nunca Total Transfusão de sangue Sim Não Total Sífilis no último ano* Sim Não Total Sorologia para Sífilis* Positiva Negativa Total Cicatriz Sorológica* Positiva Negativa Total Teste para HIV Sim Não Total Resultado do Teste* Positivo Negativo Não sabe Total *p <0,0001 **P <0,0005 11 RESULTADOS (%) HIV+ HIV- 61,7 38,3 100,0 100,0 42,5 57,5 4,8 10,5 63,1 36,9 95,2 89,5 65,2 34,8 100,0 100,0 100,0 100,0 50,7 49,3 100,0 5,4 9,9 7,0 66,3 33,7 100,0 94,6 90,1 93,0 12,1 87,9 100,0 100,0 100,0 100,0 19,2 80,8 100,0 11,0 6,4 7,0 11,6 88,4 100,0 89,0 93,6 93,0 6,7 93,3 100,0 100,0 100,0 100,0 31,3 68,7 100,0 27,8 4,4 6,0 5,2 94,8 100,0 72,2 95,6 94,0 12,7 87,3 100,0 100,0 100,0 100,0 38,9 61,1 100,0 21,1 4,8 6,9 10,8 89,2 100,0 78,9 95,2 93,1 26,9 73,1 100,0 100,0 100,0 100,0 61,1 38,9 100,0 15,7 3,7 6,9 24,4 75,6 100,0 84,3 96,3 93,1 59,5 40,5 100,0 100,0 100,0 100,0 67,1 32,9 100,0 7,9 5,7 7,0 58,9 41,1 100,0 92,1 94,3 93,0 3,6 87,4 9,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 38,3 81,8 36,2 3,2 25,5 22,2 100,0 7,8 0,7 91,8 7,5 100,0 18,2 96,8 77,8 92,2 3.3 CONHECIMENTOS SOBRE DST/AIDS DAS TRABALHORAS DO SEXO O terceiro recorte da análise tem um enfoque mais subjetivo que os anteriores, ao abordar questões referentes aos conhecimentos que as trabalhadoras do sexo têm sobre as formas de transmissão de DST, em geral, e de Aids, em particular. Os resultados estão consubstanciados na Tabela 3. Das entrevistadas que responderam à pergunta sobre o tempo de residência em Santos, a maior parte (42%) reside na cidade há menos de um ano, 21% entre 1 e 5 anos e 37% há mais de 5 anos. Das mulheres positivas, 58% pertencem a esta última categoria, enquanto das negativas, 35%. Em termos de prevalência de HIV, para as mulheres mais antigas no município, a proporção de HIV positivo é 11,5%, caindo para valores em torno de 5% para as outras categorias de tempo. Uma importantíssima quantidade de trabalhadoras do sexo, representando 97% do total, acreditavam ser possível contrair uma DST por relação sexual, não havendo diferenças entre soropositivas e soronegativas. De fato, quando se analisa as mulheres com HIV, a prevalência é de 7,0% para as que conheciam o risco de transmissão por via sexual e de 7,4% para as que o ignoravam. Em relação ao risco de contrair DST por via sanguínea o conhecimento foi menor, 64%, embora tampouco diferencial por presença de HIV, semelhança que reflete-se nos similares valores dos riscos de estar infectada, 6,7% para as que declararam conhecer a transmissão pelo sangue e 7,4% para as que não sabiam. 0 conhecimento do risco de contrair o HIV através de agulhas contaminadas é universal, alcançando 98% das mulheres, novamente sem diferenças por soropositividade. As proporções de contaminação foram de 7% para as que conheciam o risco e 5% para as que o desconheciam, sendo a aparentemente contraditória, menor prevalência de HIV para as mulheres menos informadas - uma vez que estas trabalhadoras são provavelmente as que têm as piores condições de vida, que como já se viu, são as que apresentam as maiores taxas de infecção por HIV -, explicada pelo fato de que apenas uma mulher soropositiva respondeu não saber, dando uma enorme variabilidade à estimativa. Quanto ao risco de transmitir o vírus da mulher para o homem a proporção de conhecimento foi 98%, sem diferencial por HIV. Quando analisada a prevalência, observa-se 7% para as que sabem do risco e 4,3% para as que não sabem. Todas as considerações tecidas na questão anterior em termos de ambigüidade dos resultados são aplicáveis a esta pergunta, pelas mesmas razões. A transmissão vertical do vírus da Aids também foi reconhecida pela maioria das mulheres, 94% do total de entrevistadas, positivas ou negativas, sabiam do 12 risco de uma mulher soropositiva transmitir o vírus para seu bebê. As prevalências foram praticamente iguais para as cientes e não cientes do risco, 7%. Em relação à esta colocação, o conhecimento foi menor que nas indagações anteriores, 71% das entrevistadas concordou, e das positivas 66%. Apesar da diferença de prevalência de HIV por esta variável não ser significante, foi no sentido esperado, para as que desconheciam a demora em aparecer os sintomas da Aids foi maior, 8,3%, que para as que a conheciam, 6,5%. A afirmação de que se a mulher exige que todos seus parceiros sexuais usem camisinha diminui o perigo de contrair Aids teve ampla concordância, 97%, sem diferenças por presença de HIV. Pelas mesmas razões já explicadas, é que as prevalências de HIV, de 7% para as que concordam e 3% para as que discordam dão no sentido oposto ao esperado (só 1 mulher soropositiva discordou). A maioria das mulheres, 80% não acreditava que o amor fosse uma forma de proteção contra a Aids. No entanto, 20% delas ainda considerava que a paixão podia protegê-las do vírus, que no caso das soropositivas aumentava para 27%. Coincidentemente, a infecção por HIV para este grupo foi de 10% enquanto para as mulheres que discordam desse comportamento foi de 6%. 13 Tabela 3 : Conhecimentos sobre dst/aids das trabalhadoras do sexo. Santos, 19951998. VARIÁVEIS TOTAL Tempo de residência em Santos* Menos de 1 ano De 1 a 5 anos Mais de 5 anos Total Pode-se pegar DST através de relações Sexuais Sim Não Total Pode-se pegar DST através de sangue Sim Não Total Pode-se pegar Aids através de agulhas compartilhadas Concordo Discordo Total Concordo Discordo Total A aids pode ser transmitida da mãe para o bebê Concordo Discordo Total Os sintomas da aids podem demorar até 10 anos em aparecer Concordo Discordo Total Concordo Discordo Total Amando não precisa usar camisinha para evitar doenças Discordo Concordo TOTAL *p <0,0001 **P <0,0005 14 RESULTADOS (%) HIV+ HIV- 41,8 21,5 36,7 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 29,0 12,9 58,1 100,0 5,0 4,3 11,5 7,2 42,8 22,2 35,0 100,0 95,0 95,7 88,5 92,8 97,4 2,6 100,0 100,0 100,0 100,0 97,3 2,7 100,0 7,0 7,4 7,0 97,4 2,6 100,0 93,0 92,6 93,0 63,9 36,1 100,0 100,0 100,0 100,0 61,6 38,4 100,0 6,7 7,4 7,0 64,1 35,9 100,0 93,3 92,6 93,0 98,2 1,8 100,0 97,8 2,2 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 98,6 1,4 100,0 98,6 1,4 100,0 7,0 5,3 7,0 7,0 4,3 7,0 98,2 1,8 100,0 97,7 2,3 100,0 93,0 94,7 93,0 93,0 95,7 93,0 94,4 5,6 100,0 100,0 100,0 100,0 94,5 5,5 100,0 7,0 6,8 7,0 94,4 5,6 100,0 93,0 93,2 93,0 71,1 28,9 100,0 96,8 3,2 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 65,8 34,2 100,0 98,6 1,4 100,0 6,5 8,3 7,0 7,1 2,9 7,0 71,5 28,5 100,0 96,6 3,4 100,0 93,5 91,7 93,0 92,9 97,1 93,0 80,5 19,5 100,0 100,0 72,6 27,4 6,3 9,8 81,1 18,9 93,7 90,2 100,0 100,0 100,0 7,0 100,0 93,0 3.4 PRÁTICAS DESENVOLVIDAS PELAS TRABALHORAS DO SEXO Este último bloco de questões é o que focaliza os considerados pela literatura como os maiores fatores de risco para à infecção por HIV. Refere-se as práticas sexuais e ao uso de drogas e inclui o que se convencionou denominar conceitos sobre uso de camisinha, uma série de afirmações que visavam, no fundo, também descobrir, de forma indireta, práticas sexuais. Um percentual de 21% respondeu que tem relações anais com clientes. Dos três tipos de relação sexual, somente este se mostrou significativo para a prevalência de HIV, sendo que das positivas, 34% praticam sexo anal, enquanto das negativas, apenas 20%. Em termos de risco, para as mulheres que praticam sexo anal, a proporção de HIV positivo é 12%, caindo para 6% para as que não praticam. Das mulheres que responderam ter relações anais com clientes, 83% afirmaram usar camisinha sempre. Entretanto, a prevalência de HIV é maior, para as mulheres que praticam sexo anal e sempre usam camisinha, que para as que não usam (13% versus 8%), mostrando que perguntas diretas sobre o uso da camisinha não foram adequadamente respondidas, e talvez por essa razão não seja possível detectar associações. Praticamente todas as mulheres declararam fazer sexo vaginal com os clientes, apenas 2 responderam que não. Como foi colocado, esta variável não mostrou associação com HIV, uma vez que estas duas mulheres eram negativas. Das mulheres que responderam ter relações vaginais com clientes, 87% afirmaram usar camisinha sempre. Em termos de risco, a proporção de HIV positivo é maior, embora não significante, para as mulheres que não usam camisinha (9% versus 7%). Um percentual de 30% respondeu que tem relações anais com seu parceiro regular. Em forma análoga as respostas quanto aos clientes, dos três tipos de relação sexual, somente este se mostrou significativo para a prevalência de HIV, sendo que das mulheres positivas, 44% praticam sexo anal, enquanto das negativas, apenas 29%. A prevalência de HIV nas trabalhadoras que praticam sexo anal com os parceiros é 10%, caindo para 6% para as que não praticam.Um percentual altíssimo (87%) das mulheres que responderam ter relações anais com os parceiros, afirmaram nunca usar camisinha. E como no caso do uso da camisinha no sexo anal com clientes, em termos de risco, este é maior para as mulheres que o praticam com parceiro e sempre usam camisinha que para as que não usam (14,3% versus 9,5%) corroborando a dificuldade de obter informações confiáveis através de perguntas diretas sobre o uso da camisinha. Como no caso dos clientes, também aqui a grande maioria das mulheres declararam fazer sexo vaginal com seus parceiros, somente 24 responderam que não, e tampouco revelou-se associação com HIV, devido ao fato de todas as mulheres não praticantes serem negativas. Novamente, um alto percentual (82%) das mulheres que responderam ter relações vaginais com parceiros, afirmaram nunca usar camisinha, 15 repetindo-se o modelo da prevalência de HIV ser maior para as mulheres que usam sempre camisinha (9,6% versus 6,5%). O uso de álcool no trabalho foi referido por 54% das mulheres entrevistadas, sem diferenças por presença de HIV. Tampouco verificam-se diferenciais de prevalência de HIV por uso de álcool, 7%, tanto para as que bebem como para as que não bebem. O uso de cocaína, sempre freqüente nos locais de prostituição, foi referido por 45% das entrevistadas, sendo nas soropositivas de 70%. Este uso diferencial reflete-se na presença do HIV, entre as mulheres usuárias de cocaína 11,0% são portadoras do HIV, enquanto que nas não usuárias a prevalência para o HIV é de 4%. Em forma análoga ao uso de cocaína, o uso de crack associa-se a contaminação por HIV. Assim observa-se que o seu uso foi referido por 16% das mulheres entrevistadas e por 40% das infectadas. Quando analisada a prevalência do vírus HIV, comprova-se que entre o grupo de usuárias de crack esta é de 17% e entre aquelas que não usam o crack é de 5%. No período da pesquisa já se verificava uma diminuição no uso de drogas injetáveis, devido a sua substituição pelo crack, que apresenta resultados semelhantes com menos necessidade de equipamentos para uso da droga, fato que estaria determinando que apenas 3,4% das mulheres entrevistadas tivessem referido uso de drogas injetáveis. No entanto, apesar do número reduzido, foi neste grupo que se encontrou a mais alta sorologia para o HIV sendo de 37% para as que usavam drogas injetáveis e de 11% entre as que negaram uso de drogas injetáveis. Para se avaliar a presença ou ausência de proteção na relação sexual, foi questionado a necessidade de uso da camisinha com parceiro regular e observou-se que 71% das entrevistadas referiram ser necessário o uso do preservativo nas relações com parceiros regulares. Em relação a presença de HIV não há diferenças, observa-se uma soroprevalencia em torno de 7% tanto entre as mulheres que identificavam o risco do sexo desprotegido com parceiro regular como entre as que não o consideravam. A confiança no cliente também pode se constituir num fator de relaxamento no uso da proteção. Mas neste caso, 91% das mulheres entrevistadas conheciam a necessidade de usar camisinha com clientes fixos e de confiança. Quanto ao HIV, das mulheres que consideravam não ser necessário o uso da camisinha com clientes fixos, 12% eram soropositivas, ao passo que das que discordavam da afirmativa, 7%. O receio de perder o cliente ao solicitar que o mesmo use camisinha foi referido por 7% das entrevistadas, a grande maioria, 93%, não concordou com a afirmação. Quando observa-se a soropositividade para o vírus HIV, vê-se que os valores vão no sentido esperado, são de 6,7% para as mulheres que não tinham receio de solicitar o preservativo e 9,5% entre as que tinham. 16 A dificuldade de convencer o cliente a utilizar o preservativo também foi questionada e referida por 46% das entrevistadas. Ao analisarmos esta dificuldade com a presença de HIV observa-se que entre as que consideraram ser difícil convencer os clientes a usar a camisinha a soroprevalencia foi 9% enquanto que entre as que não consideravam difícil de convencer os clientes foi 5,0%. Em resposta a questão acerca de aceitar fazer programa sem preservativo quando necessita de dinheiro, 12% do total das entrevistadas disseram que concordavam, sendo esta proporção de mais do dobro, 29%, para as infectadas por HIV. Assim, observase que nas mulheres que praticariam sexo comercial sem preservativo quando precisassem de dinheiro a soroprevalencia de HIV foi de 17%, enquanto nas que não aceitariam foi de 6%. Na questão em que se perguntava se existiam garotas que aceitavam fazer programa sem preservativo, apesar de subjetiva e enigmática em termos de interpretação da sua resposta, considerou-se correta quando a entrevistada discordava e como se aprecia 93% das entrevistadas concordaram na existência de trabalhadoras que se expunham ao risco, ou seja, erraram. Mas seu objetivo de tentar captar um comportamento, através da discordância com uma afirmação de aparente consenso foi obtido, uma vez que encontrouse uma prevalência de HIV de 7,4% para as que concordaram e de 1,3% para essa minoria de mulheres que discordaram, mostrando que elas se diferenciavam do resto. 17 Tabela 4: PRÁTICAS DESENVOLVIDAS PELAS TRABALHADORAS DO SEXO. SANTOS, 19951998. VARIÁVEIS TOTAL Relação anal com clientes* Sim Não Total Uso de camisinha na relação anal Com clientes Sim Não Total Relação vaginal com clientes Sim Não Total Uso de camisinha na relação vaginal com clientes Sim Não Total Relação anal com parceiros* Sim Não Total Uso de camisinha na relação anal com parceiros Sim Não Total Relação vaginal com parceiros Sim Não Total Uso de camisinha na relação vaginal com parceiros Sim Não Total Uso de álcool no trabalho Sim Não Total Uso de cocaína* 18 RESULTADOS (%) HIV+ HIV- 20,6 79,4 100,0 100,0 100,0 100,0 34,2 65,8 100,0 11.6 5,8 7,0 19,6 80,4 100,0 88,4 94,2 93,0 83,0 17,0 100,0 100,0 100,0 100,0 88,9 11,1 100,0 13,0 7,9 12,2 82,1 17,9 100.0 87,0 92,1 87,8 99,9 0,1 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 7,0 7,0 99,8 0,2 100,0 93,0 100,0 93,0 87,0 13,0 100,0 100,0 100,0 100,0 83,6 16,4 100,0 6,8 9,0 7,0 87,3 12,7 100,0 93,2 91,0 93,0 30,2 69,8 100,0 100,0 100,0 100,0 43,8 56,2 100,0 5,6 10,2 7,0 29,2 70,8 100,0 94,4 89,8 93,0 13,3 86,7 100,0 100,0 100,0 100,0 12,7 87,3 100,0 14,3 9,5 10,1 18,7 81,3 100,0 85,7 90,5 89,9 98,0 2,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 7,2 7,0 97,5 2,5 100,0 92,8 100,0 93,0 82,0 18,0 100,0 100,0 100,0 100,0 76,1 23,9 100,0 9,6 6,5 7,0 82,9 17,1 100,0 90,4 93,5 93,0 53,9 46,1 100,0 100,0 100,0 100,0 53,4 46,6 100,0 6,9 7,0 7,0 53,9 46,1 100,0 93,1 93,0 93,0 Sim Não Total Uso de crack* Sim Não Total Uso de droga injetável* Sim Não Total Não é necessário usar camisinha com parceiro regular Discordo Concordo Total Receio de pedir ao cliente usar camisinha por medo de perdê-lo Discordo Concordo Total Quando precisa de dinheiro aceita fazer programa sem camisinha* Discordo Concordo Total Não é necessário usar camisinha com clientes fixos Discordo Concordo Total É difícil convencer os clientes a usar camisinha* Discordo Concordo Total Apesar do risco, muitas garotas fazem programas sem camisinha* Discordo Concordo Total *p <0,0001 **P <0,0005 19 44,5 55,5 100,0 100,0 100,0 100,0 69,9 30,1 100,0 11,0 3,8 7,0 42,5 57,5 100,0 89,0 96,2 93,0 16,2 83,8 100,0 100,0 100,0 100,0 40,3 59,7 100,0 17,2 4,9 7,0 14,4 85,6 100,0 82,8 95,1 93,0 3,4 96,6 100,0 100,0 100,0 100,0 17,8 82,2 100,0 37,1 6,0 7,0 2,3 97,7 100,0 62,9 94,0 93,0 70,7 29,3 100,0 100,0 100,0 100,0 69,9 30,1 100,0 6,9 7,2 7,0 70,8 29,2 100,0 93,1 92,8 93,0 93,1 6,9 100,0 100,0 100,0 100,0 90,3 9,7 100,0 6,7 9,5 7,0 93,1 6,9 100,0 93,3 90,8 93,0 87,6 12,4 100,0 100,0 100,0 100,0 71,2 28,8 100,0 5,7 16,2 7,0 88,8 11,2 100,0 94,3 83,8 93,0 90,9 9,1 100,0 100,0 100,0 100,0 84,9 15,1 100,0 6,5 11,1 7,0 91,4 8,6 100,0 93,5 88,4 93,0 46,4 53,3 100,0 100,0 100,0 100,0 38,4 61,6 100,0 9,2 5,0 7,0 54,4 45,6 100,0 90,8 95,0 93,0 7,5 92,5 100,0 100,0 100,0 100,0 1,4 98,6 100,0 1,3 7,4 7,0 7,9 92,1 100,0 98,7 92,6 93,0 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os resultados deste estudo confirmam a pauperização da epidemia do HIV/Aids, as mulheres com menor escolaridade, negras ,que recebem menos pelo programa e moram em piores condições de habitação apresentam uma prevalência maior que as mulheres que apresentam melhores condições de trabalho, renda e habitação variando a soroprevalencia de 0 % a 27%. Os aspectos sócio-demográficos contribuem significativamente neste estudo para o aumento da soroprevalência. Segundo Fonseca et al. (2000), a escolaridade constitui-se uma das mais importantes variáveis para mensurar o nível sócio-econômico associado à saúde da população, juntamente com a renda e a ocupação, por terem em comum o fato de evidenciarem a estratificação social : os indivíduos ocupam uma posição na hierarquia social de acordo com a sua ocupação, renda e nível educacional, sendo que cada um desses indicadores cobre um aspecto diferente da estratificação social. O nível educacional expressa diferenças entre pessoas em termos de acesso à informação e perspectivas e possibilidades de se beneficiar de novos conhecimentos; a renda representa antes de tudo o acesso aos bens materiais, inclusive aos serviços de saúde; e o status ocupacional inclui esses dois aspectos, além dos benefícios adquiridos em algumas profissões, tais como prestígio, privilégios e poder. Outro aspecto importante é o uso de drogas, que também contribuiu para um aumento da prevalência no grupo estudado, podendo-se observar que entre as usuárias de cocaína a prevalência foi 11,0%, no entanto se a forma de uso for o crack este percentual sobe para 17% e nas mulheres que referiram o uso da droga por injeção encontrou-se uma prevalência de 37%. Em relação ao conhecimento prévio sobre IST/HIV e Aids, observa-se que o grupo tem um bom nível de informação sobre as referidas doenças provavelmente por se tratar de um grupo que apesar da mobilidade, vinha recebendo informações sistemáticas sobre estas doenças, o que coloca o desafio de se pensar em estratégias de prevenção que forneçam além de informação, elementos que possam despertar nestas mulheres a importância da auto proteção em todas as relações quer estas sejam comerciais ou não. Um resultado não esperado neste estudo foi uma prevalência maior de HIV entre as mulheres que usam preservativo no sexo anal,com clientes ou parceiros, que poderia ser decorrente da auto percepção da saúde, as mulheres ao se sentirem doentes passariam a utilizar o preservativo. Outra explicação possível é decorrente de problemas na ordem em que esta questão aparece no questionário original, próxima ao bloco de questões sobre conhecimento, o que poderia influenciar respostas politicamente corretas. Ainda pode-se pensar que o uso do preservativo, apesar de ser referido como sistemático pode ter sido relaxado em algum momento do passado ou do presente possibilitando a infeção. 20 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Brasil, Ministério da Saúde Boletim Epidemiológico. AIDS, Ano IX, nº. 01 Semana Epidemiológicas 49 A -05 dezembro de 95 a fevereiro de 1996. Brasil, Ministério da Saúde Manual de Aconselhamento em AIDS CNDST\AIDS - 1989. BUENO, R.C.; MESQUITA, F.C; PAES, G.L, CARVALHO, H.B.; MAGALHÃES, G.P. A Comparison of IVDU And Heterosexual Transmission In Sex Workers Of Low Socio Economics Situation In Santos -Brazil. In International Conference On Aids, 8 Std World Congress Amsterdam, 1992. Abstracts Poc 4187. BUREAU OF THE CENSUS. Health Studies Branch, International Programs Center Population Division. U.S Washington, Dc 20233. Trends and Patterns of HIV/Aids. Infection in Selected Developing Countries. Country Profiles, V16, 1994. 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