IZILDA DA SILVA ALVES BALDIM VULNERABILIDADE INDIVIDUAL DOS PRESOS JOVENS À INFECÇÃO PELO HIV/AIDS NA PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE MARINGÁ MARINGÁ 2006 IZILDA DA SILVA ALVES BALDIM VULNERABILIDADE INDIVIDUAL DOS PRESOS JOVENS À INFECÇÃO PELO HIV/AIDS NA PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE MARINGÁ Monografia apresentada a Universidade Estadual de Maringá, como requisito parcial à obtenção do titulo de Especialista no Curso de Pós-Graduação em Políticas Sociais: Infância e Adolescência. Orientador: Prof. Ms. Ailton José Morelli MARINGÁ 2006 IZILDA DA SILVA ALVES BALDIM VULNERABILIDADE INDIVIDUAL DOS PRESOS JOVENS À INFECÇÃO PELO HIV/AIDS NA PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE MARINGÁ Monografia apresentada à Universidade Estadual de Maringá, como requisito parcial à obtenção do titulo de Especialista no Curso de Pós-Graduação em Políticas Sociais: Infância e Adolescência. Aprovada em 21 de fevereiro de 2006. BANCA EXAMINADORA Prof. Ms. Ailton José Morelli Profa. Dra. Deise Serafim Profa. Dra. Verônica Regina Müller AGRADECIMENTOS Deixo aqui consignados reconhecidos agradecimentos a todos que me apoiaram na jornada que agora concluo, principalmente: • Ao meu marido Carlos, companheiro de todas as horas, pelo carinho, incentivo e compreensão, e aos meus filhos Gabriel e Fernanda, razões de minha vida; • Aos meus pais que sempre estiveram ao meu lado e me incentivaram a perseguir meus objetivos; • Ao Ms. Ailton José Morelli, meu orientador, pela paciência, disposição e motivação durante as etapas deste trabalho; • Ao diretor da Penitenciária Estadual de Maringá, coronel Antônio Tadeu Rodrigues, aos estagiários e aos demais colegas de trabalho que motivaram e entenderam este momento especial de aprendizagem; • Aos funcionários do Centro de Testagem e Aconselhamento, pela colaboração e carinho que sempre me acolheram; • À Ms. Norico Miyagui Misuta, responsável pelo setor de epidemiologia da 15ª Regional de Saúde de Maringá, pela prestatividade, colaboração e confiança; • A todos aqueles que participaram de minha história ajudando-me a olhar diferente e lutar pelo que se acredita. T ODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI, SEM DISTINÇÃO DE QUALQUER NATUREZA, GARANTINDO-SE AOS BRASILEIROS E AOS ESTRANGEIROS RESIDENTES NO PAÍS A INVIOLABILIDADE DO DIREITO À VIDA, À LIBERDADE, À IGUALDADE, À SEGURANÇA E À PROPRIEDADE [...] (CONSTITUIÇÃO, ART. 5º, 1989, P.5). RESUMO O presente trabalho visa conhecer a vulnerabilidade individual dos presos jovens, à infecção pelo HIV/AIDS, na Penitenciária Estadual de Maringá (PEM). Trata-se de uma pesquisa exploratória, que investiga variáveis quantitativas e qualitativas, de forma crítica e reflexiva, na busca da construção do sujeito sexual e cidadão. A pesquisa é resultado de uma parceria da PEM com o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Maringá, iniciada em dezembro de 2004, com o aconselhamento pré-teste e testagem sorológica para o HIV e finalizada entre janeiro e maio de 2005 com o aconselhamento pós-teste. No pós-teste foram entregues resultados de exames do HIV e preenchido um formulário padrão do CTA, o Sistema de Informação do CTA (SI-CTA). Através do SI-CTA, coletaram-se os dados para a pesquisa. Os 360 presos, do sexo masculino, da PEM fizeram o aconselhamento pré-teste e 230 fizeram a testagem sorológica para o HIV e pósteste. A amostra foi definida pela faixa etária compreendida entre 20-24 anos, o que totalizou 51 formulários, ou seja, 14,16% da população carcerária da PEM. Utilizouse o termo preso jovem para designar a população de estudo. Analisando-se as características sociais e demográficas constatou-se o seguinte perfil dos presos jovens: são de procedência urbana, oriundos de diversos municípios da jurisdição da Vara de Execuções Penais (VEP) de Maringá, solteiros, com ocupação de trabalho autônoma, na profissão de serviços gerais e trabalhador rural, com escolaridade do ensino fundamental incompleto. A análise das características relacionadas à vulnerabilidade individual evidenciou os seguintes dados: a fonte de comunicação mais expressiva para informação sobre o HIV, inclusive para a testagem, foi o serviço e profissionais de saúde (82,35%); 100% dos entrevistados citam a relação sexual como principal categoria de exposição ao vírus, seguida por outras, a tatuagem foi apontada como risco por 82,35%; cerca de 25,10% contraíram doenças sexualmente transmissíveis (DST) na vida; 98,04% dos entrevistados estavam sexualmente ativos quando presos, sendo que 37,25% tiveram de 2 a 4 parceiros sexuais no último ano antes da prisão; a orientação sexual predominante foi a heterossexual com 94,11%, e nenhum preso jovem se declarou homossexual; o uso do preservativo é maior com parceiros(as) eventuais (23,58%) do que com parceiros(as) estáveis (5,89%); os motivos, do não uso do preservativo para o parceiro(a) estável, são: não gostar, com 49,01%, e confiança no parceiro com 43,13%; e com parceiros eventuais prevalece o não gostar com 41,17%. Após todo processo de aconselhamento, apenas 13,73% dos entrevistados aceitaram portar o preservativo na prisão. Evidenciou-se com o estudo que os presos jovens, embora tenham a percepção do risco da contaminação pelo HIV, ainda não se conscientizaram sobre a necessidade da prevenção. Projetos de educação popular em que ocorra a construção coletiva de conhecimento com presos e funcionários é um dos possíveis caminhos na construção do sujeito sexual na prisão. Palavras-chave: HIV/AIDS; vulnerabilidade; presos jovens; Penitenciária. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................10 2 CONTEXTUALIZAÇÃO.........................................................................................13 2.1 O HIV E A AIDS..................................................................................................13 2.1.1 História ...........................................................................................................13 2.1.2 Epidemiologia ................................................................................................15 2.1.3 Vulnerabilidade e Prevenção ........................................................................17 2.1.4 Jovens e a Vulnerabilidade ao HIV/AIDS .....................................................21 3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA.............................................................................24 3.1 CONSTRUÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL...........................................24 3.2 POLÍTICAS PÚBLICAS EM HIV/AIDS................................................................32 3.2.1 O Centro de Testagem e Aconselhamento..................................................40 3.3 A PRISÃO...........................................................................................................43 3.3.1 Panorama Nacional .......................................................................................45 3.3.2 Panorama do Paraná .....................................................................................45 3.3.3 Panorama de Maringá....................................................................................47 4 METODOLOGIA....................................................................................................49 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO.............................................................................51 5.1 CARACTERÍSTICAS SOCIAIS E DEMOGRÁFICAS..........................................51 5.2 CARACTERÍSTICAS RELACIONADAS À VULNERABILIDADE INDIVIDUAL ...54 6 CONCLUSÃO........................................................................................................68 REFERÊNCIAS ........................................................................................................70 APÊNDICE ...............................................................................................................78 LISTA DE TABELA Tabela 1: Distribuição dos presos jovens segundo a procedência ..........................51 Tabela 2: Distribuição dos presos jovens segundo a cidade de origem ..................51 Tabela 3: Distribuição dos presos jovens segundo o estado civil ............................52 Tabela 4: Distribuição dos presos jovens segundo a escolaridade .........................53 Tabela 5: Distribuição dos presos jovens segundo situação profissional antes da prisão .......................................................................................................53 Tabela 6: Distribuição dos presos jovens segundo as atividades profissionais antes da prisão ...................................................................................................54 Tabela 7: Distribuição dos presos jovens segundo a procura, pelo serviço, no CTA55 Tabela 8: Distribuição dos presos jovens segundo a procura do banco de sangue para se fazer o teste HIV ..........................................................................55 Tabela 9: Distribuição de presos jovens segundo os motivos que levam a realização da testagem ..............................................................................................56 Tabela 10: Distribuição de presos segundo o tipo de informação recebida na prisão que influenciou na testagem...................................................................57 Tabela 11: Distribuição dos presos jovens segundo tipo de exposição passível de contrair o HIV..........................................................................................58 Tabela 12: Distribuição de presos jovens segundo o contágio das DSTs ...............58 Tabela 13: Distribuição de presos jovens segundo o número de parceiros(as) no último ano antes da prisão......................................................................59 Tabela 14: Distribuição de presos jovens segundo a orientação sexual..................60 Tabela 15: Distribuição dos presos jovens segundo o uso de preservativo com parceiro(a) fixo........................................................................................61 Tabela 16: Distribuição dos presos jovens segundo a última relação sexual com o parceiro(a) fixo........................................................................................61 Tabela 17: Distribuição dos presos jovens segundo motivo de não usar preservativo com o parceiro(a) fixo .............................................................................62 Tabela 18: Distribuição dos presos jovens segundo os riscos do parceiro(a) fixo...63 Tabela 19: Distribuição dos presos jovens segundo o uso do preservativo com parceiros(as) não fixos (eventuais) ........................................................64 Tabela 20: Distribuição dos presos jovens segundo o uso de preservativo na última relação sexual com o parceiro(a) não fixo (eventual).............................64 Tabela 21: Distribuição dos presos segundo o motivo de não usar o preservativo com o parceiro(a) não fixo (eventual) .....................................................65 Tabela 22: Distribuição de presos jovens segundo a entrega de preservativos durante o pós-teste.................................................................................66 LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS ABIA AIDS AIS CAPS CDC CEBRAP CEME CMP CNAIDS CNPCP CNS COAS CONASP COT CPA CTA DAPE DATAPREV - DEPEN DST ECA ENONG FUNABEM GAPA/SP HIV HsH IAPAS - IAPS INAMPS - INPS INSS - Associação Brasileira Interdisciplinar da AIDS Acquired Immunodeficiência Syndrome Ações Integradas de Saúde Caixas de Aposentadoria e Pensões Centers for Disease Control Centro Brasileiro de Análise e Planejamento Central de Medicamentos. Complexo Médico Penal Comissão Nacional de AIDS Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária Conferência Nacional de Saúde Centros de Orientação e Apoio Sorológico Conselho Consultivo de Administração Previdenciária Centro de Observação e Triagem Colônia Penal Agrícola Centro de Testagem e Aconselhamento Ações Programáticas Estratégicas Empresa de Processamentos de Dados da Previdência Social Departamento Penitenciário Nacional Doença Sexualmente Transmissível Estatuto da Criança e do Adolescente Encontro Nacional de ONGs/AIDS Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS de São Paulo Vírus da Imunodeficiência Humana Homens que fazem sexo com homens Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social Institutos de Aposentadoria Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social Instituto Nacional de Previdência Social Instituto Nacional de Seguro Social LAV - Limphadenopathy Associated Vírus LBA - Legião Brasileira de Assistência LEP - Lei de Execuções Penais LEPAC - Laboratório de Ensino e Pesquisa em Análises Clínicas MPAS - Ministério da Previdência e Assistência Social MsM - Mulheres que fazem sexo com mulheres MTPS - Ministério do Trabalho e Previdência Social NOASs - Normas Operacionais da Assistência à Saúde NOBs - Normas Operacionais Básicas OG - Organização Governamental OMS - Organização Mundial da Saúde ONGs - Organização Não Governamental(s) PEM - Penitenciária Estadual de Maringá PPC - Pneumoria por Pneumocys carini PN-DST/AIDS - Programa acional de DST/AIDS SEJU - Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania SESP - Serviço Especial de Saúde Pública SI-CTA - Sistema de Informação do CTA SIDA - Síndrome da Imunodeficiência Adquirida SINAN - Sistema Nacional de Agravos de Notificação SIV - Síndrome da Imunodeficiência Símia SK - Sarcoma de Kaposi SUDS - Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde SUS - Sistema Único de Saúde UDIs - Usuários de Drogas Injetáveis UNAIDS - Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS UNDCP - Agência Mundial de Combate de Drogas e Prevenção ao Crime UNDP - Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas UNESCO - Organização Mundial pela Educação, Ciência e Cultura UNFPA - Fundo de População das Nações Unidas UNICEF - Fundação de Apoio à Criança VIDDA - Grupo de Valorização, Integração e Dignidade do Doente de AIDS 1 INTRODUÇÃO A AIDS é um problema da humanidade. Ela não é um problema individual, mas de todos, influenciando comportamentos, opiniões e respostas coletivas. A doença remete à intimidade de cada pessoa; ela evidencia as contradições sociais, econômicas e culturais, exigindo uma resposta do poder público, respostas muitas vezes, obtidas pela pressão dos segmentos sociais organizados, que lutam pelo direito à vida. A doença mexe com a estrutura de um sistema de saúde, limitando o modelo médico-sanitário hegemônico, com conteúdos racionais, e aponta para uma elaboração coletiva de propostas educativas, considerando os conteúdos subjetivos, emocionais, relacionais e culturais do ser humano. O ambiente prisional é favorável à disseminação de doenças transmissíveis. A restrição espacial e a mobilidade dos presos entre diferentes sistemas prisionais – mudanças de regime, progressão de penas, transferências – o contato com a população externa quer seja por cumprimento de pequenas penas, reincidências, por meio de funcionários ou parentes – visitas íntimas ou sociais – aproxima esta população na sua interação com a epidemia da AIDS. Falar de AIDS na Penitenciária Estadual de Maringá (PEM) é contribuir com a consolidação da Lei de Execução Penal que prevê uma política de assistência à saúde voltada para os aspectos curativos e preventivos. A unidade penal tem procurado cumprir com sua proposta quanto à saúde e mantém um trabalho preventivo para o HIV/AIDS, porém com pouca efetividade nas ações. Práticas de risco ainda são feitas de forma clandestina, sem cuidado preventivo. Há resistência, dos presos, em aceitar e portar preservativo, as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo se mantêm em segredo, há compartilhamento de objetos cortantes e a “droga” está presente, apesar da punição severa quando esta é encontrada. 11 Pensando na saúde como um direito e condição primária do resgate humano e cidadão, evidenciou-se a necessidade de oportunizar o acesso dos presos ao diagnóstico da infecção do HIV. Firmou-se então uma parceria entre a PEM e o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Maringá. O serviço ofertado pelo CTA é anônimo e obedece à demanda espontânea. O trabalho é pautado no aconselhamento pré e pós-teste. Esse último inclui o preenchimento, pelo aconselhador, de um formulário, o Sistema de Informações do CTA (SI-CTA). O SI-CTA coleta dados em todo país, o que vem facilitando o conhecimento do perfil do usuário dos serviços, além de contribuir para a avaliação e propiciar estudos na área da saúde coletiva. Os 360 presos, de sexo masculino, da PEM fizeram o pré-teste, em dezembro de 2004. Destes, 230 realizaram a testagem no mesmo mês e pós-teste de janeiro a maio de 2005. Após o término do serviço ofertado e com os formulários do CTA preenchidos a aconselhadora decidiu conhecer melhor os usuários do serviço, realizando a presente pesquisa. Foram selecionados todos os formulários dos presos com idade entre 20 e 24 anos, totalizando 51 formulários. No Brasil não há definição legal de população jovem. Tem-se o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que define como criança a pessoa que tenha até 12 anos incompletos e adolescente, aquela entre 12 e 18 anos. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a adolescência vai dos 10 aos 19 anos e a juventude dos 15 aos 24 anos. Este período apresenta desdobramentos, identificando-se adolescentes jovens de 15 a 19 anos de idade e adultos jovens de 20 a 24 anos. Para identificar a população de estudo usaremos a terminologia “preso jovem”. O motivo da escolha desta faixa etária deu-se pelo fato de ser esta a geração que nasceu convivendo com a AIDS. Assim como os jovens que vivem em liberdade, os jovens presos estão em busca de formação de identidade. A sensação de onipotência, insegurança, a influência dos meios de comunicação e as fantasias acompanham os primeiros anos de prática sexual, associados com a pouca percepção de riscos e a limitada informação que têm sobre sexualidade, doenças sexualmente transmissíveis, dentre as quais a AIDS e drogas, o que os tornam vulneráveis à infecção do HIV. 12 O presente trabalho se propõe a estudar a vulnerabilidade individual dos presos jovens à infecção pelo HIV/AIDS, na PEM, a partir de dados extraídos de um formulário do Sistema Único de Saúde (SUS), o SI-CTA. Têm como objetivo principal conhecer as vulnerabilidades individuais dos presos jovens ao HIV/AIDS e como objetivos específicos: identificar práticas de exposição de risco; conhecer os meios de comunicação para informação da doença; identificar motivos que interferem no uso do preservativo com parceiros(as) estáveis e eventuais e colaborar para a autoconstrução do sujeito sexual e do cidadão. Trata-se de pesquisa exploratória, que investigará variáveis quantitativas e qualitativas, utilizando-se de levantamento bibliográfico, contatos com profissionais da área e dados do formulário SI-CTA. Inicialmente, no trabalho, estão contextualizados o HIV e a AIDS, a descoberta do vírus, formas de transmissão do vírus HIV, o processo para se chegar à doença, os dados epidemiológicos e a evolução de conceito de vulnerabilidade, como modo de construir a epidemia e perceber a relação do jovem com ela. Ao utilizar o conceito de “vulnerabilidade” estamos considerando sua articulação em três planos: o individual, o social e o programático. A vulnerabilidade programática nos remete a questões diretamente relacionadas aos programas de AIDS, no município ou na própria instituição. A vulnerabilidade social considera questões de cunho sócioeconômico-político e cultural. A vulnerabilidade individual está ligada aos aspectos subjetivos: a auto-estima e o grau de consciência da pessoa quanto à conseqüência de comportamentos. Discutida a questão da doença, buscou-se fundamentação teórica do tema no processo de construção e implementação das políticas públicas na saúde, inclusive as que marcaram a história do HIV/AIDS. Conheceu-se o papel do estado, sua responsabilização social antes e após o período de democratização do país. Caracterizou-se, a prisão, como local que constitui o campo de estudo. Serão apresentados os procedimentos adotados na coleta de dados, os resultados e discussão da pesquisa. Finalizou-se o trabalho com uma resposta ao objetivo proposto, apontando caminhos possíveis a se seguir para alcançar medidas mais efetivas na prevenção e controle do HIV/AIDS na PEM. 13 2 CONTEXTUALIZAÇÃO 2.1 O HIV E A AIDS 2.1.1 História Em 1981, o Centers for Disease Control (CDC), um órgão governamental americano, que tem funções de vigilância epidemiológica, divulgou uma patologia que, a princípio, atacava homens saudáveis que tinham em comum a homossexualidade. Haviam sido notificados, primeiramente, cinco casos de pneumonia por pneumocystis carinii (PPC) em Los Angeles e, posteriormente, 26 casos de Sarcoma de Kaposi (SK), alguns também com PPC, em Nova York e na Califórnia. Também foram detectados 159 casos dessas e de outras infecções oportunistas. A ausência de doença básica imunodepressora e o grupo etário jovem dos pacientes acrescido de um número inusitado de casos registrados em pouco tempo levaram as autoridades específicas a pensar em uma nova doença (CAMARGO JÚNIOR, 1993). Essa doença passou a se chamar, algum tempo depois, de AIDS que é uma abreviatura da expressão inglesa Acquired Immunodeficiency Syndrome, que equivale em português à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA). “Síndrome” diz respeito a um conjunto de sinais e sintomas que podem ser produzidos por mais de uma causa. “Imunodeficiência” se traduz pela incapacidade do organismo, através de seu sistema imunológico, de se defender dos diversos agentes causadores de doenças. “Adquirida” nos remete a algo que se contrai ao longo da vida (BRASIL, 1987). Após a identificação da doença entre os homossexuais foram identificados outros grupos populacionais atingidos: os usuários de drogas intravenosas, heterossexuais com história de transfusão de sangue, bem como seus parceiros – heterossexuais ou não –, caracterizando assim de modo inequívoco a 14 transmissão heterossexual, a transmissão vertical, de mãe para filho, e a transmissão ocupacional em profissionais da área de saúde, através de ferimentos perfurocortantes contaminados com sangue de pacientes com o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) (BRASIL, 1987). Em 1983, Luc Montagnier e colaboradores do Instituto Pasteur de Paris isolaram o agente causal, ao qual denominaram de Limphadenopathy Associated Vírus (LAV). Ao mesmo tempo, Roberto Gallo e colaboradores do Instituto Nacional do Câncer de Bethesda (EUA) também isolaram o agente causal, o Human T-Cell Lymphotropic Vírus HTLV-III. Também no período Jay Levi, de São Francisco, isolava o vírus o AIDS-Associated Retrovirus, chamado de ARV. A descoberta gerou controvérsias, mas todos tinham a mesma semelhança. A Organização Mundial de Saúde (OMS) unificou e universalizou o nome do vírus para HIV (BRASIL, 1987). O vírus HIV é muito semelhante a um vírus que causa a Síndrome da Imunodeficiência Símia (SIV), encontrado em macacos verdes africanos. Por esse fato, supõe-se que o HIV tenha origem geográfica africana e que sua disseminação se deva às características da sociedade contemporânea (BUCHALLA, 1995). Os meios de transmissão do HIV são o sangue, o esperma, a secreção uretral e vaginal e o leite materno, e se manifestam das seguintes formas: durante a relação sexual com penetração anal, vaginal ou oral, sem preservativo, com pessoas infectadas; através do sangue, por transfusões ou pelo uso de seringas e agulhas compartilhadas ou materiais perfurocortantes contaminados; e da mulher grávida para seu filho, durante a gestação, parto ou aleitamento, caso a mãe esteja infectada (MARINGÁ, 2003). A manifestação da AIDS usualmente segue a seguinte evolução. O período de soroconversão ou fase aguda, inicia-se entre 5 dias e 3 meses a partir do momento da infecção. Neste momento há intensa replicação viral e ocorre a soroconversão, isto é, o teste sorológico, no sangue, passa de negativo para positivo. Posteriormente, no período de portador do HIV, de duração de 2 a 10 anos, na média 5 anos, a pessoa não manifesta sintoma físico evidente e o organismo pode perder, pouco a pouco, a capacidade de se defender contra os agentes causadores das diversas doenças. No último período inicia-se a doença: é quando surgem os primeiros sintomas que sugerem falência do sistema imunológico e há a manifestação do conjunto de doenças que ocorrem em decorrência do processo da 15 AIDS. A AIDS não se transmite, e sim, se desenvolve; o que se transmite é o vírus causador da imunodeficiência que desencadeia a AIDS (MARINGÁ, 2003). Só é possível detectar a infecção pelo HIV no exame de sangue, após 60 dias da última exposição de risco, período que é chamado de “janela imunológica”. A pessoa que tiver o HIV pode contaminar outras pessoas no período, mesmo que seu resultado for negativo. O exame mais comum para a detectar o vírus HIV é o Elisa, sendo os exames de Imunoflorescência Indireta e Wersten Bloot utilizados como confirmatórios (BRASIL, 1988; BRASIL, 2005). Até o presente momento não se descobriu uma vacina contra o HIV/AIDS. A AIDS não tem cura, mas tem tratamento. O objetivo do tratamento é reduzir a replicação do vírus HIV e possibilitar a recuperação do sistema imunológico. Os medicamentos utilizados no tratamento são os anti-retrovirais, também conhecido como “coquetel”. O coquetel elevou a sobrevida dos doentes de AIDS de 5 para 58 meses de vida em média (LOPES, 2005). 2.1.2 Epidemiologia A AIDS matou no mundo mais de 3 milhões de pessoas em 2002. Estima-se que 5 milhões contraem o HIV a cada ano. Em 2003 a previsão era de existir 42 milhões de pessoas convivendo com o HIV/AIDS. Desse total, 91,9% são pessoas na faixa de 15 a 49 anos sendo que mais de 24 milhões encontram-se na África e 13 milhões são adolescentes ou crianças. Cerca de 6 milhões de pessoas no mundo, precisariam tomar os medicamentos anti-retrovirais, apenas 300 mil pessoas têm acesso ao tratamento, sendo que 100% das pessoas com AIDS no Brasil - 135 mil pessoas - recebem medicação gratuita (BRASIL, 2003a). Os primeiros casos de AIDS no Brasil, segundo o Sistema de Vigilância Epidemiológica, foram detectados em 1982, quando sete pacientes homo/bissexuais foram notificados. Um caso foi reconhecido retrospectivamente no estado de São Paulo como ocorrência em 1980. O não-registro de pacientes em 1981 pode ser 16 devido à subnotificação, ao não diagnóstico ou mesmo não ocorrência de casos (CASTILHO; CHEQUER, 1997). Do início da epidemia no país até junho de 2004 foram diagnosticados 362.364 casos, sendo que 44,38% dos atingidos faleceram. Desse total a região sudeste encontra-se com o maior número de casos, 64,78%, seguida pela região sul com 17,53%. No Paraná foram registrados 17.903 casos (BRASIL, 2004e). Em 1992 o Banco Mundial estimava que na virada do século haveria 1,2 milhões de pessoas infectadas pelo HIV no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2003a), o Brasil virou o século com menos da metade estimada, 600 mil casos, incluídas pessoas que já desenvolveram AIDS e excluídos os óbitos, que caíram 50%. Ocorrem no país 10.000 óbitos ao ano, sendo a AIDS a segunda causa de óbitos entre homens jovens. O perfil epidemiológico da AIDS passa por três etapas no Brasil. A primeira, de 1980 a 1986, caracterizou-se por predominância da transmissão homo/bissexual masculina de alta escolaridade1, em áreas metropolitanas do sudeste e sul do país. Na segunda, de 1987 a 1991, houve um aumento de casos de transmissão sanguínea e a participação de usuários de drogas injetáveis, iniciandose o processo de juvenização, pauperização e interiorização da AIDS. A terceira etapa abrange o período de 1992 em diante, com o aumento da transmissão heterossexual, a feminilização, pauperização e interiorização da doença (CASTILHO, CHEQUER, 1997; BRASIL, 2003a). Com relação à faixa etária masculina, percebe-se um aumento no números de casos notificados entre 20-49 anos, sendo que a faixa mais atingida está entre 30-34 anos com 55.759 casos. Estes dados chamam a atenção devido ao tempo necessário para manifestação da AIDS, ou seja, um grande número de pessoas está se infectando na juventude (BRASIL, 2004e). Analisando-se os casos notificados do sexo masculino segundo a categoria de exposição-sexual (homossexual, bissexual e heterossexual); sangüínea (refere a usuários de drogas injetáveis (UDIs), hemofilia e transfusão) e transmissão 1 O instrumento de coleta de dados adotado pelo Ministério da Saúde não dispõe de variáveis que mensurem diretamente o nível sócioeconômico dos pacientes, entretanto a escolaridade é uma informação disponível e será tomada, aqui, como indicador do estrato social ao qual se encontra vinculado o caso diagnosticado 17 vertical – constata-se que houve aumento no número de casos relacionados aos heterossexuais, com 56.082 casos, seguidos pelos UDIs com 49.277 casos e homossexuais com 45.861 casos. Verifica-se uma redução da infecção pelo HIV em grupos vulneráveis como os usuários de drogas injetáveis que passaram de 29,5% em 1993 para 13,1% em 2004 e dos homossexuais que passaram de 22,3% em 1993 para 14,9% em 2004 (BRASIL, 2004e). Uma das tendências da AIDS é a pauperização, aproximando-se do perfil sócioeconômico da população do país. A totalidade dos casos diagnosticados até 1982 era de nível superior ou segundo grau. Em 2004, 30,1% dos homens tinham o ensino médio ou superior e 46,4% estavam no ensino fundamental (CASTILHO; CHEQUER, 1997; BRASIL, 2004e). A AIDS não é uma doença dos grandes centros urbanos. Até 2003, 3.702 dos municípios do país notificaram casos de AIDS, ou seja, 66% dos municípios. A incidência é de 15 casos por 100 mil/habitantes, representando, em média 21 mil casos/ano (BRASIL, 2003a). O primeiro caso de doente de AIDS em Maringá foi o de um homem com orientação sexual bissexual e usuário de droga injetável, no ano de 1985. Estão diagnosticados, até agosto de 2005, 609 casos no município, destes 42% faleceram. A faixa etária predominante é a de 30 a 39 anos, seguida das de 20 a 29 anos e de 40 a 49 anos, com proporções de 40,72%, 26,92% e 19,04% respectivamente. A categoria de exposição em evidência é a heterossexual, seguida pelas de UDIs e homossexuais. Tem sido observado um decréscimo dos óbitos a partir da introdução dos medicamentos anti-retrovirais (coquetel), em 19962. 2.1.3 Vulnerabilidade e Prevenção No período da descoberta da AIDS – 1981 a 1984 – o uso do instrumental epidemiológico mostrou ter importância fundamental frente à epidemia, de modo que estudos buscavam os fatores de risco associados à doença. 2 Fonte: Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN) – Vigilância Epidemiológica. 15ª Regional de Saúde, agosto/2004. 18 Utilizando-se do raciocínio causal em epidemiologia, criou-se o conceito de “grupo de risco”. As categorias populacionais atingidas com este conceito, principalmente pela mídia norte-americana, foram os quatro Hs (Homossexuals, hemophiliacs, haitians e heroin-adicts- usuário de drogas injetáveis) Além dos grupos de risco, a prevenção centrou-se na abstinência e no isolamento: não ter relações sexuais, não doar sangue, não usar drogas injetáveis. Ser portador do vírus HIV trazia consigo a doença a discriminação, o preconceito, a rejeição, individualismo, insucesso e a exclusão social (AYRES, 1999; FIGUEIREDO, 2002). Entre 1985 e 1988, a epidemia não respeitava mais limites geográficos, etnia, orientação sexual, aspectos culturais. O caráter transmissível já estava delimitado e seu agente etiológico isolado. O conceito de grupo de risco, bastante criticado pelo movimento gay, cai em desuso, pelo inegável crescimento da doença entre as pessoas não integrantes aos grupos de risco, como homens heterossexuais, mulheres e adolescentes. Foi então desenvolvida a noção de “comportamento de risco”, que procurou associar a doença e sua manifestação não a pessoas de determinados grupos, mas às condutas adotadas por elas, como o uso de drogas, a prática de sexo com vários parceiros(as), a prática de sexo anal. A recomendação para prevenção novamente impunha padrões baseados numa moral que supunha relações heterossexuais, monogâmicas e, de preferência, vaginais. Esta era a prescrição de comportamentos (FIGUEIREDO, 2002). Para Ayres et al. (1999) houve superioridade desse novo conceito com relação a seu predecessor. As estratégias de abstinência e exclusão cedem lugar às estratégias de redução de risco, através da informação, do início de controle nos bancos de sangue, do estímulo e adestramento do uso de preservativo e outras práticas mais seguras, da testagem e aconselhamento e estratégias de redução de danos3 para usuários de drogas injetáveis. A noção de comportamento de risco universaliza a preocupação com o problema e estimula o envolvimento individual na prevenção, porém possui uma tendência à culpabilização individual. A partir de 1989, a epidemia reitera sua tendência à pauperização e os avanços tecnológicos progridem, principalmente no campo da terapêutica, com o 3 As ações de redução de danos se constituem num conjunto de medidas de saúde pública voltadas a minimizar as conseqüências adversas do uso de drogas. O princípio fundamental é o respeito à liberdade de escolha (BRASIL, 2001). 19 chamado “coquetel”. O período é marcado, no campo da prevenção, pela emergência de um novo conceito. A mudança para um comportamento protetor na prevenção da AIDS não é só resultante de “informação e vontade”, mas passa por questões de natureza cultural, econômica, política, jurídica, desigualmente distribuídas entre gêneros, países, segmentos sociais, grupos étnicos, faixas etárias. Nasce então o conceito de “vulnerabilidade”, que pode ser definida como: [...] o esforço de produção e difusão de conhecimento, debate e ação sobre os diferentes graus e naturezas da suscetibilidade de indivíduos e coletividades à infecção, adoecimento ou morte pelo HIV, segundo a particularidade de sua situação quanto ao conjunto integrado dos aspectos sociais, programáticos e individuais que os põem em relação com o problema e com recursos para seu enfrentamento (AYRES et al., 1999, p.50). Com o conceito, os autores visam fornecer elementos para avaliar objetivamente as diferentes chances de se contaminar que todo e qualquer indivíduo tem, dado o conjunto formado por certas características individuais e sociais de seu cotidiano julgadas relevantes para a maior exposição ou menor chance de proteção diante do problema. A noção de vulnerabilidade procura particularizar as diferentes situações dos sujeitos individuais ou coletivos diante da epidemia da AIDS em três planos: o individual ou comportamento pessoal, o programático ou institucional e o social ou contexto social (AYRES, 1997). Para Mann e Tarantola (1996) e Ayres et al. (1999) o comportamento individual é o determinante final da vulnerabilidade à infecção pelo HIV. É necessário um enfoque especial no indivíduo, lembrando-se que o comportamento individual é tanto mutável quanto conectado socialmente, variando durante a vida da pessoa de acordo com sua idade, sua história e experiência pessoal, sob a influência de amigos, comunidades, religiões, fatores nacionais e internacionais. Para os autores, a prevenção do HIV requer indivíduos investidos da responsabilidade de aprender e responder e sofre interferências de um conjunto de fatores; acesso à informação, educação; serviços de saúde e sociais; e um ambiente social de apoio. Assim, a vulnerabilidade pessoal aumenta com a falta de 20 informações precisas sobre a infecção do HIV, ou quando o indivíduo não está preocupado ou suficientemente motivado com relação ao perigo da infecção pelo HIV. Aumenta ainda quando ele carece de habilidades – na colocação dos preservativos, na negociação do sexo seguro ou no não compartilhamento de agulhas e seringas –, de acesso aos serviços necessários, de suprimentos ou equipamentos e do poder ou confiança para sustentar ou implementar mudanças comportamentais. No segundo plano está o desenvolvimento de ações institucionais especialmente voltadas para o problema da AIDS. A vulnerabilidade aqui é objeto de tomada de consciência por aspectos como: pronunciamentos oficiais demonstrando compromisso com a solução do problema expresso por autoridades locais; ações efetivamente propostas pelo Estado; coalizão interinstitucional – parcerias entre estado (Organização Governamental – OG) e organizações não governamentais (ONGs)4 entre as diversas áreas – para atuação, planejamento e coordenação de ações, qualidade do gerenciamento destas; capacidade de resposta das instituições envolvidas; tipo de financiamento previsto para programas; continuidade dos programas; utilização de mecanismos de avaliação e retroalimentação dos programas,avaliação de impacto (MANN; TARANTOLA, 1996). Ayres et al. (1999) referem que a vulnerabilidade social leva em conta as condições sociais da população, como acesso à informação e aos serviços de saúde, porcentagem do produto nacional bruto destinada a investimento na saúde, indicadores epidemiológicos como o coeficiente de mortalidade infantil, aspectos sóciopolíticos e culturais, grau de liberdade de pensamento e expressão dos diferentes sujeitos, relação entre gastos militares e gastos com saúde condições de bem-estar social ou índice de desenvolvimento humano, com condições de moradia, nível de escolarização, oferta de trabalho, distribuição de renda. Compreender a vulnerabilidade de um indivíduo ou grupo social é fruto da articulação destes três planos, num modelo tridimensional, em que a cada momento algum fator pode pesar mais do que outros (AYRES, 1997). 4 As ONGs serão abordadas no referencial teórico. 21 2.1.4 Os Jovens e a Vulnerabilidade ao HIV/AIDS Em 2000, o Brasil tinha uma população de 34.092.224 jovens entre 15 e 24 anos, o que representa uma porcentagem de 20,07% da população geral do país. Em 1970 o país contava com 18,5 milhões de jovens de 15 a 24 anos, e em 1980 este segmento da população era de 25 milhões. Este aumento populacional ocorrido nas últimas três décadas resulta de uma transformação na estrutura etária da população brasileira em função da queda da fecundidade, do crescente declínio da mortalidade infantil e da expectativa de vida ao nascer. É importante ressaltar que esse aumento tem implicações no campo das políticas sociais, principalmente porque essa mudança se dá em uma conjuntura marcada por ajustes estruturais com severas repercussões no campo do mercado de trabalho, com aumento do desemprego e do trabalho informal, penalizando um número significativo de jovens (BRASIL, 2000a; PIMENTA et al., 2001). Quanto à distribuição de renda, percebe-se que os jovens entre 15 e 17 anos mais pobres tem taxa de escolarização em torno de 70%, enquanto que com os mais ricos esta taxa se eleva para 94,6%. Entre aqueles que tem 18 anos, apenas 34% dos jovens atingem os 11 anos de estudo. Os jovens pobres se encontram em desvantagens em termos das oportunidades de ascensão social. Em geral, os jovens começam a trabalhar mais cedo para aumentar a composição da renda familiar e, freqüentemente, abandonam a escola ainda em sua fase de formação no ensino fundamental (BRASIL, 2002; PIMENTA et al., 2001). Essas estatísticas chamam a atenção da sociedade, colocando os jovens como vítimas ou protagonistas de ”problemas sociais”. Emergem então questões relativas: as dificuldades de interações sociais do jovem, na família, na escola e trabalho; o comprometimento na formação do caráter e da identidade juvenil, pela inserção precoce no mercado de trabalho e também o uso de drogas; a violência; desemprego e; saúde, através da gravidez ou paternidade precoce, a infecção das DST, HIV e AIDS. Essas questões acabam entrando na agenda governamental, transformando-se em políticas públicas direcionadas a sanar “problemas políticos” do mundo dos adultos e podem se sobrepor a demanda dos jovens na busca de direitos (SPOSITO, 2003). 22 O jovem é à força de toda sociedade para a mudança. Ele encontra-se numa etapa da vida de experimentação, podendo aprender com mais facilidade do que os adultos a tornar seguro o seu comportamento, ou adotar práticas seguras desde o início dos relacionamentos afetivos. Não obstante, nem sempre este potencial para transformação é aproveitado em benefício individual e coletivo. Há razões especiais que fazem com que os jovens estejam particularmente expostos e mais vulneráveis à infecção pelo vírus HIV (FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2003). Como é uma fase de descobertas de sentimentos novos, muitos relacionamentos são estimulados pelas drogas. O relacionamento sexual com envolvimento de experimentação de drogas legais ou ilegais diminui as inibições e compromete a capacidade de uso efetivo de informações que se tenham obtido sobre a prevenção da AIDS e de tomada de decisões quanto à proteção (BRASIL, 1998a). Outra razão deve-se ao fato do jovem receber mensagens confusas no seu cotidiano. É comum que jovens enfrentem valores duplos e incoerentes como a valorização da postergação da iniciação sexual e virgindade para as meninas e da experiência precoce para os meninos. Confrontam-se também imagens da mídia que promovem e estimulam a atividade sexual e o uso de algumas drogas com omissões ou informações incompletas nas orientações dos pais e educadores. Em nome da cultura, da moralidade ou da religião, com freqüência nega-se aos jovens o direito que ele tem quanto à prevenção de riscos à saúde pelo comportamento sexual e outras situações de risco, além do acesso a importantes instrumentos e serviços de proteção (PIMENTA et al., 2001, UNAIDS, 1998). Os jovens são mais relutantes em procurar tratamento por medo de serem descobertos, pelo fato de os serviços de saúde serem pouco acolhedores, por não terem condições de custear e principalmente pelo risco de serem tratados com desdém ou serem rejeitados por completo. Mesmo quando existem os serviços de saúde, os jovens se sentem constrangidos em falar de suas dificuldades. Eles se preocupam com a possibilidade da confidencialidade não ser respeitada. Jovens homossexuais são desfavorecidos pela falta de informação e de serviços voltados para suas necessidades, pelo fato desse tipo de sexualidade ser mal entendida e estigmatizada (BRANCO, 2004; UNAIDS, 1998). 23 Na cidade de Maringá, até 2000, existiam 54.145 jovens entre 15 a 24 anos, ou seja, 18,75% da população total do município (288.653 habitantes) (BRASIL, 2000b). Conforme dados constatados no SINAN (2004), percebe-se predominância do número de casos de AIDS na faixa etária de 20 a 39 anos, ou seja, dos 609 casos registrados no município, 410 casos encontram-se nesta faixa etária, o que demonstra que os jovens da cidade ainda não se previnem adequadamente. 3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 3.1 CONSTRUÇÃO DA SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL Segundo Mendes (1995) existem no Brasil três modelos hegemônicos de saúde pública no século XX: o primeiro – no início do século – foi determinado pelo ideário sanitarista-campanhista; o segundo, que começou com a decadência da economia agroexportadora, foi o modelo médico-assistencial-privativista; o terceiro a partir de 1980, com os ideais democráticos e mudanças do cenário político brasileiro, onde se instalou o modelo predominante neoliberal de assistência à saúde. A constituição de 1891 formalizou o modo pelo qual se realizou a prática sanitária no Brasil durante a República Velha, determinando que os estados fossem responsáveis pela saúde pública. O Estado, a serviço das oligarquias dirigentes, com seu caráter autocrático, assumiu o papel organizador e controlador nas relações que se estabeleceram entre o capital e o trabalho e conciliou interesses das frações da classe hegemônica, excluindo os setores explorados do bloco do poder (MERHY, 1985). O mesmo autor pontuou que, no início do século, a saúde esteve inserida na economia agroexportadora, sendo a doença relacionada às condições de vida de trabalho da população. As medidas, executadas pelo modelo campanhista, ganharam apoio no Ministério de Justiça e Negócios Interiores. Esse modelo tinha caráter emergencial de “polícia médica”, para a proteção da economia, ameaçada por restrições internacionais impostas ao mercado. O foco da atenção pautou-se no combate a endemias, no saneamento dos portos e núcleos urbanos, visando criar condições sanitárias mínimas capazes de garantir o comércio exterior e de atrair e reter mão-de-obra necessária à formação do mercado de trabalho capitalista, propício à reprodução da força de trabalho. 25 Na década de 20, a economia cafeeira contribuiu para o crescimento do capitalismo, da industrialização e urbanização. Neste período, o cenário político foi influenciado pelos imigrantes europeus, que trouxeram do Velho Mundo ideologias trabalhistas de um proletariado organizado e consciente. Os serviços de saúde pública até então institucionalizados tornam-se insuficientes e não respondiam aos novos anseios e interesses sociais, diante da ascensão da assistência médica individual. A reforma Carlos Chagas – Decreto n.15.003 de 1921 – iniciou a organização de atenção médica curativa, sendo a saúde tratada como uma questão nacional no então criado Departamento Nacional de Saúde Pública. Com a reforma expandiu-se o serviço de saúde, e ao mesmo tempo se ampliou o grau de decisão e interferência do Estado nas questões de saúde, que passou a atuar nas áreas de saneamento urbano e rural da higiene industrial, nos serviços de higiene materno-infantil e no combate às endemias rurais (LUZ, 1984; SILVEIRA, 1990). O modelo assistencial-privatista originou-se a partir da Lei Eloy Chaves, Lei n.4.682 de 1923, que regulamentou as Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPS), gerenciadas pelo trabalhador, com representação da empresa. Estas caixas previdenciárias foram organizadas a partir de contribuições do trabalhador e do empregador e previam assistência médica ao trabalhador e dependente, aposentadoria e pensões aos familiares. O período configurou-se por uma oferta de assistência médica desigual, na medida em que grande parte da população, não vinculada às empresas, continuava excluída, continuando a depender dos programas sanitários esporádicos, centralizados no Estado (MARQUES, 2003). Com a revolução de 1930, Getúlio Vargas reforçou o processo de centralização federal, criou o Ministério de Educação e Saúde e as questões relacionadas à saúde foram vistas de forma setorizada: a pública e a previdenciária. No período, as CAPS deram lugar aos Institutos de Aposentadoria (IAPS) que pretendiam integrar categorias de trabalhadores em âmbito nacional, agora com contribuições tripartite: trabalhador, empregador e Estado. Foi o início do corporativismo no Brasil e uma perda significativa do poder de pressão dos trabalhadores. O período foi caracterizado por uma ditadura populista, devido aos interesses econômicos e políticos da classe hegemônica, que privilegiou diferentes 26 espaços urbanos e diferentes categorias profissionais. A população sem vínculo com o IAPS deveria pagar por uma assistência médica especializada ou depender da assistência médica local (LUZ, 1979; SILVEIRA, 1990). Em 1938, foram criados os Departamentos Estaduais de Saúde Pública, com intervenção direta e normativa do nível federal. Técnicos procedentes dos Estados Unidos, com formação de uma medicina curativa, sofisticada e privatizante, passaram a organizar a política de saúde no território nacional. Tem início a interiorização da atenção a saúde e as discussões sobre a problemática da doença começaram a ser discutidas por representantes do Estado e autoridades públicas na I Conferência Nacional de Saúde (CNS), realizada em 1941. No período, foi criado o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) com recursos da Fundação Rockefeller, interessada na produção da borracha e manganês. A visão foi a de que, a industrialização do país, traria mais dinheiro e, conseqüentemente, mais saúde. Vargas favoreceu a manutenção das classes hegemônicas reprimindo as massas populares com o discurso de manutenção da ordem, de combate ao comunismo e ao integralismo com medidas assistenciais e corporativistas, favorecedoras da iniciativa privada e da entrada de capital estrangeiro (SILVEIRA, 1990). O período de 1946 a 1964 caracterizou-se por predomínio da democracia e do crescimento econômico, com uma política desenvolvimentista e uma ação de modernização e internacionalização da economia. Buscou-se a integração do Estado com as massas populares, incentivou-se a participação da comunidade em estratégias de preservação da saúde, com critérios higienistas e assistencialistas. As secretarias estaduais de saúde tornaram-se meras executoras das políticas nacionais, o que facilitou ainda mais a entrada de capital estrangeiro. Em 1953 o Ministério da Saúde foi desmembrado do Ministério da Educação (NICZ, 1989). No governo de Jânio Quadros, as boas relações entre o Brasil e o bloco comunista desagradaram os Estados Unidos e as classes hegemônicas do país. A Fundação Rockefeller deixou de patrocinar a SESP, que se transformou em fundação sob o controle do Ministério da Saúde. Aspirações democráticas invadiram o país com ideais de uma reforma sanitária. No governo Goulart, durante a III Conferência Nacional de Saúde, foram abordados temas de situação sanitária, municipalização e da política nacional de saúde. Esta foi a primeira conferência a 27 discutir uma política setorial e um sistema único de saúde. Entretanto, seus resultados só foram publicados em 1982, devido à repressão do regime político. Com o golpe militar em 1964, as aspirações democráticas de saúde no país são destruídas (SILVEIRA, 1990; BRASIL, 2003b). O regime militar, autoritário e tecnocrático, durou até 1985, com a eleição, embora indireta, de um presidente civil; mas somente foi substituído por uma nova ordem institucional em 1988, pela promulgação da nova Constituição Federativa do Brasil. Durante o período, o Estado operou com repressão baseada no discurso de manutenção da ordem, desprezou aspectos humanos e sociais em busca de soluções técnicas e racionais e também se articulou com as multinacionais facilitando a medicina de grupo para os operários, em função do aumento da produtividade (SILVEIRA, 1990). De 1945 a 1967 existiu uma atenção especial de verbas do governo para a saúde pública e menos para a medicina individual. Os trabalhadores ainda tiveram relativa gerência sobre os serviços de saúde através da CAPS e IAPS. Em 1967 o IAPS se integrou a um novo órgão criado, o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) terminando com qualquer participação do trabalhador na organização do sistema, a não ser como pagador através de impostos e descontos em folha de pagamento. Seguindo a lógica do capital, a medicina se elitizou, especializou-se, privatizou e estimulou o consumo de equipamentos e medicamentos estrangeiros. A participação do Estado na saúde aumentou, na medida em que o INPS tornou-se um órgão repassador de dinheiro para o setor privado, protegendo o empresariado. A saúde pública passou a atender o exército industrial de reserva, ou seja, a massa indigente sem direitos ao INPS. Neste momento é importante considerar; [...] o fato de que a dicotomia entre saúde coletiva e individual era assumida pelo governo e que desta dicotomia resultava a responsabilidade do Ministério da Saúde pelas medidas de caráter coletivo, cabendo ao setor privado conveniado com o governo a atenção médica curativa (LUZ, 1979, p.58). A partir da década de 70 as responsabilidades pela saúde coletiva e individual passaram a ser assumidas pelo Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) que, reorganizando os serviços, criou o Instituto Nacional de 28 Assistência Médica e Previdência Social (INAMPS). O MPAS foi assim constituído: pelo INPS, INAMPS, Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (IAPAS), Empresa de Processamentos de Dados da Previdência Social (DATAPREV), Legião Brasileira de Assistência (LBA), Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) e a Central de Medicamentos (CEME). Em 1975, institucionalizou-se o modelo médico de assistência privada, que definiu as competências das instituições privadas e públicas. A saúde pública, não rentável, foi entregue à responsabilidade do governo, enquanto que a atenção médica foi confiada ao setor particular, sob intervenção e suporte do Sistema Nacional de Saúde. O novo cenário fortificou a medicina estatal privatista, direta ou indiretamente financiada pela previdência social, tendo o Estado como seu principal incentivador (LUZ, 1984; COHN, 2003). Na V Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1975, consagrouse a proposta de “medicina integral e comunitária”, mediante a aplicação das ações preventivas e curativas do meio ambiente com a participação ativa da comunidade organizada. A medicina comunitária articulou-se com os departamentos de medicina preventiva das universidades na tentativa de incorporar, na prática, as idéias de medicina integral, encontrando contradições na produção dos serviços público e privado. Foi o início de uma consciência crítica para os problemas da saúde. Nesse período, se abriu um ciclo regular de conferências com intervalo de dois anos, até 1979 (SILVEIRA, 1990; NICZ, 1989). A dificuldade financeira do sistema previdenciário obrigou o governo federal a criar o Conselho Consultivo de Administração Previdenciária (CONASP), que propôs medidas racionalizadoras na assistência médica previdenciária. O seu principal objetivo foi obter maior participação na organização e coordenação dos serviços de saúde por parte das secretarias estaduais de saúde e de prefeituras municipais, bem como melhorar a utilização da rede pública de serviços básicos de saúde. Os instrumentos para atingir tal objetivo foram os convênios com órgãos estaduais e municipais de saúde, firmados através das Ações Integradas de Saúde (AIS). Esse processo evoluiu para o Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS), agora envolvendo transferências financeiras para a rede física, hospitais e ambulatórios do ex-INAMPS, da União para os estados (ELIAS, 2003; NICZ, 1989). 29 Souza (2003) registrou que as sete primeiras CNSs, ocorridas de 1941 a 1979, não contaram com a participação popular, e sim, das autoridades públicas representando os governos instituídos. Essa situação sofreu mudança a partir da realização da VIII CNS em 1986, com a reforma sanitária brasileira, quando o sistema nacional de saúde foi criticado pelas distorções e os limites das propostas racionalizadoras. A nova reforma teve como atores principais os representantes das forças de renovação, ou seja, profissionais de saúde, universitários, lideranças políticas, sindicais e populares. Para Souza (2003, p.69): A reforma sanitária não pode ser compreendida apenas como sinônimo de reforma administrativa do setor de saúde e nem tampouco limitada ao processo de descentralização políticoadministrativo. Neste sentido, o forte desafio é compreendê-la como reforma do modelo assistencial, como concepção de saúde efetivada através de mudanças relacionadas às mais diferentes matrizes: administrativa e político-operacional, dentre outras. Partindo do princípio de que a defesa da saúde é a defesa da própria vida, o Movimento pela Reforma Sanitária Brasileira insistiu em que era preciso reformular o sistema de saúde para torná-lo mais eficaz e disponível a toda população, com propostas de um sistema de saúde participativo, igualitário, descentralizado, integral e universalizado (BRASIL, 1998b). As diretrizes principais propostas na VIII CNS foram incorporados, depois de muita luta, na Constituição Federal de 1988 que criou o Sistema Único de Saúde (SUS), coordenado pelo Ministério de Saúde. O texto constitucional afirma que a saúde é um direito a ser assegurado pelo Estado, resultante de políticas públicas que elevem a qualidade de vida. O SUS tem princípios de acesso universal, cobertura integral, gratuidade, financiamento público, participação social e descentralização da gestão para estados e municípios. Na estrutura do SUS encontra-se o conjunto de ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais. A iniciativa privada participa do SUS como prestadora de serviços, mediante contratos (BRASIL, 1998b; BRASIL, 2003b). A partir da Constituição, criou-se um arcabouço jurídico-legal para organizar os serviços de saúde, destacando-se: A Lei Orgânica da Saúde (Lei 30 8080/90), que dispõe sobre as condições da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes; a Lei 8142/90, que dispõe sobre o controle social, ou seja, sobre a participação da comunidade na gestão do SUS; as Normas Operacionais Básicas (NOBs) e as Normas Operacionais da Assistência à Saúde (NOASs), que são portarias ministeriais que define competências e responsabilidades para cada esfera de governo, bem como condições de assumir responsabilidades dentro do SUS (BRASIL, 2003b). Segundo a Lei Orgânica da Saúde, as ações e serviços de saúde passam a ser organizadas de forma regionalizada, hierarquizada em níveis de complexidade crescente (art. 8º). É, portanto, de responsabilidade do Ministério da Saúde dispor de todas as condições para promoção, proteção e recuperação da saúde, reduzindo as enfermidades, controlando as doenças endêmicas e parasitárias, melhorando a vigilância à saúde e dando qualidade de vida ao povo brasileiro. Subordinadas ao Ministério de Saúde, visando agilidade de respostas aos agravos em saúde, foram criadas algumas secretarias de suporte técnicooperacional: Secretaria de Atenção à Saúde, Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Secretaria de Gestão Participativa, Secretaria de Vigilância em Saúde e Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. A Secretaria de Atenção à Saúde tem como um dos departamentos, o de Ações Programáticas Estratégicas (DAPE), competindo a este órgão, dentre os seus programas, articular programas e assistência ao jovem e adolescente e também ao sistema penitenciário. É na Secretaria de Vigilância em Saúde, criada em junho de 2003, que encontramse os programas nacionais de combate as doenças, dentre os quais os de DST e AIDS (BRASIL, 2003c). A Constituição determina que a seguridade social seria formada de um conjunto integrado de ações, assegurando os direitos relativos a saúde, assistência e previdência social; porém, mesmo após as reformas constitucionais, os princípios neoliberalistas ganharam força nos governos brasileiros. A ingovernabilidade passa a ser vista como um dos principais desafios e as reformas institucionais caminhavam ao inverso do conceito de seguridade proposto na Constituição. O primeiro governo pós-constituinte, governo Collor de Mello, demonstrou esta ingovernabilidade, com algumas ações neoliberais: extinção do Ministério da Previdência e Assistência Social que era constituído das seguintes instituições: INPS, INAMPS, IAPAS, 31 FUNABEM, LBA, CEME e DATAPREV, e a criação do Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS). Retirou-se do Ministério da Previdência Social as instituições ligadas à Saúde e Assistência Social. Criou-se o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) mediante a fusão do INPS com o IAPAS. Buscou-se voltar a concepção de seguridade social para a configuração de seguro social, quebrando a concepção de seguridade social construída com base no tripé previdência, assistência e saúde (DUARTE, 2003; COHN, 2003). As políticas de saúde dos anos 80 e início dos anos 90 desenvolveramse durante profunda crise econômica e em paralelo ao processo de democratização brasileira. O país passava por um lento e gradual processo de liberação do controle exercido pelo Estado sobre a sociedade. Duas propostas políticas emergiram das discussões e movimentos para a mudança de saúde pública e de assistência à população. A primeira foi assumida pelo movimento em prol da reforma sanitária, modelo este mais democrático; e a segunda denominada de modelo neoliberal de saúde, com propostas conservadoras de ajuste do modelo privado de saúde. Embora seja reconhecida a importância do movimento da reforma sanitária, o modelo neoliberal foi o que se consolidou na prática (MENDES, 1995). Rizzotto e Conterno (2001) defendem os princípios do SUS na forma como foram preconizados no projeto da reforma sanitária e na própria Constituição, alegando que o governo tem definido suas políticas na direção conservadora e regressiva da contra-reforma, descaracterizando a proposta inicial do sistema. O discurso neoliberalista pode ser sentido, no campo da gestão e na área da assistência. No campo da gestão, o governo assumiu como estratégia modernizante, a administração gerencial e a utilização de instrumentos de informatização para a avaliação e o controle dos resultados. Já na área da assistência, o pressuposto parece ser, de um lado, a implementação de programas de baixo custo que atinjam o maior número de pessoas, focalizando a assistência nos mais pobres; e de outro, o fortalecimento e a expansão do setor privado para prestar assistência restante da população, que de alguma forma deve arcar com os custos de sua saúde (RIZZOTTO; CONTERNO, 2001 p.94). 32 Cohn (2003), aponta poucas mudanças com a implantação do SUS na organização dos serviços. Segundo a autora, o SUS: encontra-se altamente centralizado no governo federal; tem características privatizantes, a medida que crescem os recursos à assistência médica individual do setor privado; as reais necessidades da população não são contempladas em razão da atenção primária trazer pouca lucratividade e os serviços mais complexos, com alta tecnologia, não terem integração e hierarquização; não define claramente o trabalho do público e privado, ficando as ações de caráter coletivo para o público e o atendimento individual mais para o setor privado; é discriminatório e injusto a medida que o sistema de serviços impõe seletividade na clientela atendida por cada instituição; apresenta distorções em seu financiamento, cabendo à previdência social o ônus financeiro, eximindo-se o Estado de suas responsabilidades. O neoliberalismo disseminou-se pelo mundo capitalista, e “[...] a temática saúde é universalizada, agora, porém por meio de uma vertente predominantemente economista e inserida nas mudanças por uma nova ordem econômica mundial” (ELIAS, 2003, p.61). Com apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Banco Mundial vem investindo em saúde, principalmente em “países desenvolvidos e em desenvolvimento”, entre os quais está o Brasil. O objetivo “[...] é influenciar o Estado na formulação e na implementação de políticas, sobretudo as da área de saúde” (ELIAS, 2003, p.60). Um dos campos priorizados, para investimento dos organismos internacionais foi a “AIDS”. 3.2 POLÍTICAS PÚBLICAS EM HIV/AIDS O Brasil tem uma posição destacada dentro da política da dívida internacional e segue as políticas neoliberais advindas da acumulação do capital dos países desenvolvidos. Essas políticas criam severas restrições para os programas de saúde, educação e bem-estar social, exigindo uma variedade de soluções específicas para garantir o financiamento necessário ao desenvolvimento de iniciativas de prevenção e controle da AIDS. É impossível, portanto, desvincular a 33 influência dos mecanismos internacionais nas propostas das políticas públicas em HIV/AIDS (PARKER; GALVÂO; BESSA, 1999). Para Teixeira (1997, p.43), as políticas públicas em HIV/AIDS emanam do setor saúde e seguem o “conjunto das diretrizes e referenciais ético-legais adotados pelo Estado para fazer frente a um problema que a sociedade apresenta”. Nessa concepção, política pública “é a resposta que o Estado oferece diante de uma necessidade vivida ou manifestada pela sociedade”. Considerando que a resposta ao HIV/AIDS, tanto no Brasil como em outras sociedades, só pode ser compreendida mediante a influência local, nacional e global no contexto social, político e histórico, Parker, Galvão e Bessa (1999), apresentam as respostas políticas frente à epidemia de HIV/AIDS segundo os seguintes períodos: o primeiro vai aproximadamente de 1982 até 1985, quando os primeiros casos de AIDS foram oficialmente notificados e uma mobilização muito gradual começou a ter lugar na maioria das áreas afetadas, como a cidade de São Paulo; o segundo período vai de 1986 a 1990, quando a dimensão da epidemia começou a expandir-se rapidamente e um programa nacional de AIDS foi iniciado e um número crescente de organizações não governamentais de serviço e pressão política voltadas para a AIDS começou a se estabelecer em todo país; o terceiro período vai de 1990 a 1992, quando uma grave crise institucional no governo federal praticamente paralisou os programas de AIDS; de 1992 a 1993, período de reorganização do programa nacional de AIDS, onde foram estabelecidas parcerias com os ativistas não governamentais; e de 1994 até o presente, quando o acordo do Banco Mundial forneceu recursos maciços para o programa de prevenção em todos os níveis, mediante um compromisso do governo federal em garantir acesso à assistência e tratamento da AIDS. Segundo Galvão, (2000) a primeira resposta brasileira em relação a AIDS veio da mídia. A AIDS ficou conhecida no Brasil antes de sua chegada oficial, ou seja, dos primeiros casos oficialmente identificados. Ao mesmo tempo em que serviu como um alerta à população, que passou a reivindicar respostas dos órgãos públicos, através das pressões sociais, serviu também para difundir informações sensacionalistas e preconceituosas, provenientes das agências de notícias norteamericanas. Nesse período, o Brasil inicia o processo de redemocratização, e a AIDS, então denominada como “doença dos homossexuais” e “câncer gay”, era a 34 perfeita notícia para a abertura política do país: ela remetia a população à década de 1970, no que havia de mais escandaloso – sexo, drogas –, sem fazer menção ao contexto político. As matérias referiam-se à doença como advinda de fora do país através de brasileiros, da classe média alta, que haviam viajado para o exterior, sobretudo para os Estados Unidos. Em 1982, nas eleições diretas para governador, políticos de oposição conquistaram os principais estados do país, e no desenrolar do movimento, as cúpulas das secretarias estaduais de saúde desses estados passam a ser ocupadas por pessoas que se identificavam com a reforma sanitária, o que facilitou a articulação de políticas públicas de prevenção ao HIV/AIDS nos estados, em especial no estado de São Paulo. Desde o início da resposta governamental à AIDS, a atuação de movimentos organizados da sociedade civil teve um papel marcante para impulsionar o poder público na determinação de suas respostas (CAMARGO JÚNIOR, 1999). Em julho de 1982 surgiram os primeiros casos de AIDS no Estado de São Paulo. No ano seguinte, a Secretaria de Saúde de São Paulo organizou um grupo de trabalho a fim de estudar medidas para enfrentar o problema em âmbito estadual. O grupo, coordenado pela Divisão de Hanseníase e Dermatologia Sanitária do Instituto de Saúde, era composto por profissionais de saúde e militantes envolvidos com o atendimento. Esses militantes num primeiro momento pertenciam a grupos que lutavam pelos direitos dos homossexuais, e alguns dos seus integrantes anteriormente já haviam procurado respostas para a doença na secretaria de saúde e; posteriormente ganharam força com a participação dos hemofílicos, talassêmicos e usuário de drogas injetáveis. Com a repercussão das discussões sobre a AIDS e com a ascensão de um pensamento comprometido com o ideário do movimento sanitário, aconteceram muitas mudanças no setor de saúde no período, entre elas o início do Programa Estadual da AIDS (MARQUES, 2003; TEIXEIRA, 1997). O espaço viabilizado no interior da Secretaria de Saúde tornou-se restrito com o envolvimento de novos atores no cenário. A participação de grupos organizados e de pessoas de classe social diferenciada – professores, artistas, advogados, profissionais de saúde, intelectuais – propiciou um avanço nas idéias em torno da doença, e essas idéias ganharam outras dimensões no pensamento e nas 35 articulações. Essas pessoas, que num primeiro momento tinham a preocupação individual ou social, passaram a compartilhar outros anseios e iniciativas: à vontade de participar, o resgate da cidadania, a inconformidade com a exclusão e o enfrentamento com o poder. Criou-se a necessidade de um novo espaço, onde a sociedade civil pudesse assumir seu papel no enfrentamento efetivo da epidemia e de todos os sentidos que vinham atrelados a ela (MARQUES, 2003). A primeira Organização não Governamental (ONG)1, foi o Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS de São Paulo (GAPA/SP), fundada em 1985, posteriormente em 1986, no Rio de Janeiro fundou-se, por Herbert de Souza (Betinho) a Associação Brasileira Interdisciplinar da AIDS (ABIA). Outras ONGs/AIDS, surgiram em todo país, merecendo destaque o grupo Pela VIDDA (Valorização, Integração e Dignidade do Doente de AIDS), fundado por Herbert Daniel (VILLELA, 1999; GALVÃO, 2000; TEIXEIRA, 1997). A falta de infra-estrutura governamental para os portadores e doentes de AIDS sem recursos financeiros, sem apoio direto dos familiares, trouxe uma nova abordagem para a epidemia, a criação de Casas de Apoio. A estrutura das casas de apoio variam, em geral, elas prestam acolhimento, encaminhamento e moradia. Destacam-se: a Casa de Apoio Brenda Lee, de São Paulo e a Sociedade Viva Cazuza, no Rio de Janeiro. Segundo a autora o momento: [...] envolveu uma diversidade de iniciativas, muitas delas estruturadas na atuação mais pessoal que institucional, e com boa parte das organizações trabalhando em base voluntária. Foi também um período em que, com raras exceções, as entidades tiveram restrito acesso a recursos financeiros, tanto nacionais como internacionais. Era um momento de trocas intensas entre as poucas organizações, e as pessoas, então dedicadas ao tema, e de um grande antagonismo entre as ações, ou falta de ação, governamentais (GALVÃO, 2000, p.61). A dimensão epidemiológica da AIDS, a pressão das ONGs e os princípios da reforma sanitária contribuem para a primeira resposta do Ministério da 1 A origem das ONGs está nos movimentos sociais que se fortaleceram na maioria dos países na década de 70-80. Scherer-Warren (1996) as define como organizações formais, privadas, porém com fins públicos e sem fins lucrativos, autogovernadas, com parte de seus membros voluntários, visando desencadear transformações em nível micro e macro. 36 Saúde frente a AIDS. A Portaria do Ministério da Saúde n.236, de 02 de maio de 1985, estabelece as diretrizes para “o programa de controle da Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (SIDA ou AIDS)” sob a coordenação da Divisão Nacional de Dermatologia Sanitária (GALVÃO, 2002). Apesar de o Ministério da Saúde ter reconhecido publicamente a epidemia, as ações frente a AIDS, não foram efetivadas, o Ministério de Saúde delega aos Estados sua responsabilidade estabelecendo o serviço de São Paulo como referência nacional. Para o ministro da saúde da época, a AIDS não era prioritária diante de problemas como chagas, esquistossomose, tuberculose, lepra e malária; essa postura foi flexibilizada com o cenário imposto pela doença (MARQUES, 2003; TEIXEIRA, 1997). Camargo Júnior (1999) confirma que as primeiras articulações em nível federal datam de 1985, com a edição da Portaria Ministerial com diretrizes para um programa de controle da AIDS, seguida da criação da Comissão Nacional de AIDS (CNAIDS); porém salienta que o Programa Nacional de Controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS só foi estabelecido em 1988. Villela (1999) concorda com Camargo Júnior, e pontua a importância do momento, refletida nos encontros macroregionais visando à implantação de ações programáticas para o controle da epidemia, na instalação de novos programas nos estados e na notificação compulsória da AIDS, estabelecida pela Portaria Ministerial n.542 de 22 de dezembro de 1996. As primeiras respostas à epidemia nos Estados brasileiros envolveram de forma direta ou indireta toda a sociedade e, também, atrelaram os programas de DSTs/AIDS às Divisões de Hanseníase e Dermatologia Sanitária. As iniciativas dos estados ocorreram em função da ocorrência de casos, tendo cada estado diferente postura na discussão e articulação com os segmentos da sociedade. No Paraná e em Minas Gerais as respectivas Secretarias Estaduais de Saúde tiveram a iniciativa, contando com os recursos humanos das universidades, principalmente com o pessoal da área clínica, de atendimento. Até o final de 1985 outros programas foram sendo instalados: Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco, Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro – este último, à época, o segundo Estado em número de casos (MARQUES, 2003). Para implementar as políticas públicas em HIV/AIDS, foram estruturados, encontros anuais de referência nacional: o Encontro Nacional de 37 ONGs/AIDS do Brasil (ENONG), cujo objetivo foi discutir a formação da rede brasileira de ONGs/AIDS e, posteriormente, o Encontro Nacional de Pessoas vivendo com HIV/AIDS, com o objetivo de aprofundar a discussão a respeito de “viver com AIDS” (VILLELA, 1990). Outros eventos merecem importância para o cenário nacional: as conferências internacionais de AIDS, onde são traçadas as políticas mundiais determinantes para o HIV/AIDS, e as Assembléias Mundiais de Saúde, em especial a de 1996, que substituiu o Programa Global da AIDS, pela Joint United Nations Programme on HIV/AIDS (UNAIDS) (GALVÃO, 2000). Com a criação da UNAIDS, a AIDS deixa de ser um problema só para a área de saúde e passa a integrar mais sete agências das Nações Unidas: Fundação de Apoio à Criança (UNICEF), Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP), Fundo de População das Nações Unidas (FNFPA), Agência Mundial de Combate de Drogas e Prevenção ao Crime (UNDCP), Organização Mundial pela Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), Banco Mundial (World Bank) e Organização Mundial de Saúde (OMS). A UNAIDS existe para: [...] reforçar e apoiar ações eficazes de prevenção da transmissão do HIV, prestar assistência aos países mais atingidos, reduzir a vulnerabilidade dos indivíduos infectados e diminuir o impacto sócioeconômico da epidemia. Sendo suas áreas prioritárias de atuação: grupos de jovens sexualmente ativos e pessoas vulneráveis ao vírus; prevenção da transmissão do vírus da mãe para o filho e; apoio e atenção às pessoas com AIDS (NORONHA, 2001, p.12). Os primeiros anos do governo Collor, de 1990-1992, foram marcados por retrocessos do ponto de vista da reforma sanitária em curso desde o governo anterior, com reflexos desastrosos na área do HIV/AIDS. O coordenador do Programa Nacional teve confronto com as ONGs e passou por incidentes internacionais. Com as ONGs os desentendimentos se deram em virtude de as campanhas publicitárias serem intimidatórias, discriminatórias e excludentes, sendo ignorada a importância do preservativo. Usava-se o medo como forma de proteção na prevenção à população não infectada. A campanha adotada ia à contramão das recomendações internacionais e nacionais, que apregoavam solidariedade, e não a exclusão. Temáticas como “Se você não se cuidar, a AIDS vai te pegar” e “Eu tenho AIDS e vou morrer” concorreram para a desinformação e o preconceito quanto à 38 forma de contágio pelo HIV. Os desentendimentos com a Organização Mundial da Saúde se deram pela recusa do Brasil ser incluído no projeto para testes de vacinas anti-HIV (CAMARGO JÚNIOR, 1999; MARQUES, 2003; VILLELA, 1999). Foi um período contraditório, pois ao mesmo tempo em que aconteceram as campanhas discriminatórias, medicamentos anti-retroviral e inibidores de protease, começavam a ser distribuídos pelo SUS, medida inicialmente tomada como forma de garantir a notificação de casos de AIDS, uma vez que a distribuição era necessariamente vinculada à notificação do caso às autoridades sanitárias (CAMARGO JÚNIOR, 1999). Com a mudança de governo em 1992, o país volta a fazer parte da lista da OMS, de países onde vacinas anti-HIV são testadas. Várias transformações marcaram o Programa Nacional, inclusive a criação de um setor específico para articulações com as ONGs. Um elemento relevante para consolidar as novas reformulações do programa nacional foi o empréstimo firmado entre o Brasil e o Banco Mundial, para o “Projeto de Controle da AIDS e DST”, também conhecido com AIDS I, que foi iniciado em 1993. Pela primeira vez em sua história, o programa brasileiro de AIDS contou com recursos financeiros significativos para desenvolver ações, sobretudo de prevenção da epidemia. Teve início um período marcado por formas diversas de cooperação entre ONGs e o programa nacional, que vão desde a formalização de convênios para a implementação de atividades mediante concorrência de projetos até a prestação de consultorias pontuais para os programas diversos e a participação em comitês ou ocupação de cargos de chefia. Para Galvão (2000 p.152): O ‘Projeto de Controle da AIDS e DST’ está estruturado em um tripé, no qual se tem o programa nacional de DST/AIDS, encarregado da gerência em nível central; as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde; e a sociedade civil, que pode englobar as ONG(s), sindicatos, universidades, movimentos sociais, centros de pesquisa, hospitais, fundações e sociedades beneficentes. O Projeto AIDS I, com vigência de 1994 a 1998, teve a atuação do governo federal na prevenção se ocupando de atividades ligadas à difusão de informação e à educação, bem como campanhas de orientação e distribuição de 39 preservativos, principalmente através de parcerias com as ONGs, “[...] obrigatoriamente incluídas no programa pelas exigências do próprio Banco Mundial“ (CAMARGO JÚNIOR, 1999, p.235). O AIDS I teve como objetivos principais: “reduzir a incidência e a transmissão do HIV e outras DST e fortalecer as instituições públicas e privadas envolvidas na prevenção e controle das DST e AIDS”. O AIDS II tinha vigência proposta de 1998 a julho de 2003, porém sua vigência foi prorrogada. Os objetivos desse projeto eram: “reduzir a incidência da infecção pelo HIV/AIDS e outras DSTs e ampliar o acesso e melhorar a qualidade do diagnóstico, tratamento e assistência aos portadores do HIV/AIDS e outras DST”. O AIDS III tinha previsão para vigorar a partir do segundo semestre de 2003, por um período de três anos; porém, data a prorrogação do AIDS II, esta data foi alterada para grande parte dos municípios brasileiros; os objetivos do AIDS III são: “reduzir a incidência do HIV, AIDS e DSTs; melhorar a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV e AIDS e; promover a sustentabilidade da resposta nacional” (BRASIL, 2003b, p.45). É mister saber que ao longo de sua história, o programa nacional de AIDS foi fortemente integrado às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e passou por diversas designações, sendo difícil relacioná-lo a períodos específicos e entender o porquê das mudanças dos nomes e das instâncias às quais o programa ficou subordinado. Com o Decreto n.4.726 de 9 de junho de 2003, o Ministério da Saúde, reformulou sua estrutura regimental básica sendo que o Programa Nacional de DST e AIDS, ficou subordinado à Secretaria de Vigilância em Saúde. A secretaria está estruturada em unidades técnicas e assessorias. Nessas instâncias são formuladas as políticas, diretrizes e estratégias que orientam as ações de promoção da saúde e prevenção e assistência ás DSTs e AIDS (BRASIL, 2003c). A política de tratamento e controle do HIV no Brasil é elogiada internacionalmente. Um dos fatos marcantes que contribuíram para esta visão, além do envolvimento com a sociedade civil na articulação das políticas, foi à aprovação da Lei nº 9.313, de 13 de novembro de 1996, que garante a distribuição gratuita, pelo sistema público de saúde, de medicamentos para as pessoas com HIV/AIDS (GALVÃO, 2002). Dos quinze medicamentos que formam o coquetel utilizado no tratamento da AIDS, sete são protegidos por patentes, o que eleva os custos brasileiros do tratamento da AIDS. Em janeiro de 2005, o Brasil foi sede do primeiro 40 encontro da Rede Internacional de Cooperação Tecnológica em HIV/AIDS. Nesse encontro Brasil, China, Cuba, Nigéria, Rússia, Tailândia e Ucrânia, buscam unir esforços para compartilhar tecnologias já existentes e desenvolver novas tecnologias para a prevenção e controle da AIDS (XAVIER, 2005, p.8). A complexidade e a diversidade dos problemas que a epidemia da AIDS desencadeou, colocaram a oferta de testes sorológicos para a detecção da infecção pelo HIV acompanhada de aconselhamento, como uma estratégia de prevenção e controle para a população. Nasceram os Centros de Orientação e Apoio Sorológico (COAS), com apoio do Programa Nacional DST/AIDS, que a partir de 1997 passou a chamar-se Centro de Testagem e Aconselhamento. 3.2.1 O Centro de Testagem e Aconselhamento O CTA tem suas origens na reforma sanitária. Ele nasce da elaboração coletiva de propostas educativas para prevenção do HIV/AIDS, dentro de um conceito de saúde integral, que inclui o direito à saúde, os direitos reprodutivos, os direitos de uma vida digna como constituintes da conquista da cidadania. A nova proposta trás em seu cerne um serviço que considera as dimensões subjetivas, emocionais, relacionais e culturais da vida humana, incluindo sexualidade e as relações amorosas, o que pressupõe a reflexão sobre questões como diálogo, confiança, fidelidade e companheirismo (VERMELHO; BARBOSA, 2004). O primeiro Centro de Orientação e Apoio Sorológico (COAS) foi fundado em 1988, na cidade de Porto Alegre-RS. A partir desta experiência outros estados e alguns municípios, principalmente os municípios importantes do ponto de vista epidemiológico, implantam o COAS, segundo orientação do PN-DST/AIDS que estimulou parceria com as secretarias estaduais e municipais de saúde. Em 1997, o PN-DST/AIDS, propôs a mudança da nomenclatura COAS para Centro de Testagem e Aconselhamento (SILVA; BARROS, 2004). Os CTAs são unidades de saúde que oferecem o diagnóstico sorológico da infecção pelo HIV de forma gratuita e confidencial, atendendo a 41 demanda espontânea. O serviço realiza em parceria com outras instituições (ONGs e OGs) locais, atividades extramuros, procurando atingir grupos mais vulneráveis à infecção pelo HIV ou comunidades de difícil acesso. São objetivos do CTA: a expansão ao acesso do diagnóstico à infecção do HIV; a contribuição para a redução de riscos de transmissão do HIV; o estímulo à adoção de práticas seguras; o encaminhamento das pessoas infectadas pelo HIV para os serviços de referência; o auxílio às pessoas vivendo com HIV e AIDS no processo de adesão ao tratamento anti-retroviral; a absorção pela demanda por testes sorológicos dos bancos de sangue; o estímulo ao diagnóstico de parceiros(as) sexuais; o auxílio nos serviços de pré-natal na testagem sorológica de gestante; e o fornecimento de informações sobre a prevenção das DSTs, da AIDS e do uso indevido de drogas para populações específicas (BRASIL, 2003f). O aconselhamento é a marca deste serviço, transcendendo o âmbito da testagem. Ele “é um diálogo baseado em uma relação de confiança que visa proporcionar à pessoa condições para que avalie seus próprios riscos, tome decisões e encontre maneiras realistas de enfrentar seus problemas relacionados ás DST/HIV/AIDS”. Para auxiliar o profissional durante o aconselhamento foram sistematizados procedimentos chamados de pré e pós-teste; entretanto eles não devem ser utilizados como uma prescrição ou mero instrumento de coleta de dados e repasse de informações, substituindo o vínculo com o usuário do serviço (BRASIL, 2003d, p.7). O pré-teste pode ser coletivo ou individual e é um momento preparatório sobre os possíveis resultados do teste e o impacto na vida do usuário. Trocam-se saberes, explora-se o apoio emocional e social disponível do usuário, avaliam-se riscos e medidas de prevenção específicas e reafirma-se o caráter confidencial e o sigilo das informações (BRASIL, 2003d). O pós-teste como envolve a entrega do resultado, deve ser necessariamente realizado por aconselhamento individual, sempre reafirmando o caráter confidencial e o sigilo das informações. Em caso do resultado ser negativo é lembrado que negativo não significa ser imune da janela imunológica, da adesão ao preservativo e não compartilhamento de objetos perfurocortantes. É também definido um plano viável de redução de riscos que leve em consideração as questões de gênero, vulnerabilidades ao HIV, diversidade sexual, uso de drogas e planejamento 42 familiar. No caso de o resultado ser positivo é permitido o tempo necessário para assimilação do impacto do diagnóstico e expressão de sentimentos. Ressalta-se que a infecção é tratável, reforça-se a questão da prevenção lembrando os riscos de reinfecção e transmissão para outros, orienta-se a pessoa sobre a necessidade de o resultado ser comunicado ao parceiro(a) e a necessidade de este realizar o teste anti-HIV. Contribui-se para definir um plano viável de redução de riscos que leve em consideração as questões de gênero, vulnerabilidades, planejamento familiar, diversidade sexual e uso de drogas. Referencia-se o usuário para os serviços de assistência e apoio da comunidade, reforçando a necessidade de acompanhamento médico e psicossocial, e agenda-se retorno. Em caso de resultado indeterminado, orienta-se sobre a coleta de uma nova amostra, reforça-se a adoção de práticas seguras para a redução de riscos e consideram-se as reações emocionais que possam ocorrer no período de espera do resultado do teste (BRASIL, 2003d). No final de 2000, o PN-DST/AIDS desenvolveu a partir de uma experiência bem-sucedida de sistematização e informatização dos dados no CTA de Curitiba, um sistema informatizado, chamado de Sistema de Informatização dos CTAs, o SI-CTA, que permite a vigilância epidemiológica do HIV, em nível nacional. O SI-CTA colhe dados através de um formulário preenchido pelo aconselhador, no momento do aconselhamento pós-teste (ALMEIDA; EVANGELISTA; FERREIRA, 2004). A partir de 2003, com vistas à descentralização, tem havido iniciativas por parte dos gestores federais, estaduais e municipais, de forma a articular o CTA com a atenção básica de saúde, no sentido de ampliar o diagnóstico as DSTs/HIV/AIDS. Esta articulação com a rede básica é um processo recente na cidade de Maringá. O atendimento dos casos de AIDS em Maringá se iniciou em 1987, sob responsabilidade do governo estadual, com um ambulatório de DST/AIDS, seguida pela criação do Centro de Orientação e Apoio Sorológico (COAS), viabilizado em 1º de abril de 1995, tendo posteriormente a nomenclatura alterada para Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). Com a municipalização da saúde em 2000, os serviços ligados as DSTs/HIV/AIDS passaram a ser implementados pela Coordenação Municipal de DST e AIDS, vinculada a Assessoria de Planejamento da Secretaria Municipal de Saúde de Maringá. 43 O CTA municipal atua em parcerias com outras OGs e ONGs dentre as quais: Casa de Emaús, Casa Emílio de Menezes, Grupo Voz Pela Vida, Universidade Estadual de Maringá, Laboratório de Ensino e Pesquisa em Análises Clínicas (LEPAC) e Penitenciária Estadual de Maringá. 3.3 A PRISÃO A prisão é o local de execução da pena; é um recurso adotado para punição que não forma cidadãos. Nela, modificam-se pessoas através de técnicas de correção, que as tornam “corpos dóceis” moldados e adaptados para “os modos de produção” que a sociedade necessita. A finalidade de “ressocialização” proposta pelos detentores do poder não é cumprida, por falta de estrutura do Estado. Cumprise apenas o papel de “vigilância” (FOUCAULT, 1984, p.208-209). Neste sentido, a prisão tem servido para retirar do convívio pessoas excluídas do processo produtivo, que erram e não tem oportunidade de reparar o malefício causado. A prisão é uma forma encontrada para garantir uma falsa segurança à população e [...] longe de transformar gente honesta, seve apenas para fabricar novos criminosos ou para afundá-los na criminalidade (FOUCAULT, 1995, p.131-132). Para Siqueira (2001, p.54) a prisão está associada à criminalidade. Assim, deve ser percebida como “instrumento de coerção” e “mecanismos do controle social da violência” e a criminalidade como “manifestação da reprodução das relações sociais de produção da sociedade burguesa”, onde “o capital se sobrepõe à força de trabalho tornando-a mercadoria”. Nesta visão, a prisão desempenha um papel econômico dentro da sociedade, protegendo bens da classe privilegiada. Ela pune a pessoa pelo seu delito, e funciona como um desestímulo a atos criminosos para aqueles que, por temê-la, nunca virão a praticar delito algum. Este é um modo que a sociedade capitalista encontrou para controlar as massas e garantir sua segurança e patrimônio. As ações dentro da prisão não são isoladas, elas são articuladas por um conjunto de leis, portarias, decretos, medidas provisórias, estudos e princípios 44 filosóficos que acabam originando os regulamentos disciplinares que garantem a ordem estabelecida pela sociedade. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, dedicou parte expressiva de seu texto aos direitos, garantias individuais e coletivas dos cidadãos brasileiros. Nela é proibido tortura, penas cruéis e degradantes, inclusive para efeitos de investigação, punição ou manutenção da ordem. Dispõe que toda pessoa deverá ser julgada por um tribunal regular, onde lhe seja assegurada ampla defesa com a presença de advogado. Assegura integridade física e moral dos presos em qualquer circunstância (BRASIL, 1989). O Brasil, através da Rresolução n.14, de 11 de novembro de 1994, fixa as “Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil”, considerando a recomendação do Comitê Permanente de Prevenção do Crime e Justiça Penal das Nações Unidas, do qual o Brasil é membro. Estas regras, compostas por 65 artigos, estão em concordância com a Lei de Execuções Penais (LEP) e “foram [...] oficialmente descritas como um guia essencial para aqueles que militam nas administrações das prisões” (LIMA, 2003, p.55). O sistema penitenciário brasileiro está regulamentado pela LEP, lei n.7.210 de 11 de julho de 1984. A LEP determina como deve ser executada e cumprida a pena de privação de liberdade e restrição de direitos. Contempla os direitos tradicionais da justa reparação, satisfação pelo crime que foi cometido, o caráter social preventivo da pena e a idéia de reabilitação. Dotando os agentes públicos de instrumentos para a individualização da execução da pena, aponta deveres, garante direitos, dispõe sobre o trabalho dos reclusos, disciplina e sanções; determina a organização e competência jurisdicional das autoridades; regula a progressão de regimes e as restrições de direito (TORRES, 2001; BRASIL, 1996). Segundo a LEP, a pena de prisão obedece a um sistema progressivo. Inicialmente o condenado é colocado em condições mais severas, para depois ir merecendo méritos gradativos de amenizações dos rigores carcerários. Assim, até sair a sentença judicial o preso fica em prisão comum; posteriormente cumprirá pena em penitenciária de segurança média ou máxima ou em penitenciária semi-aberta. Nestas penitenciárias o preso terá progressões de regime de livramento condicional ou regime aberto. A aplicação e a supervisão do cumprimento das penas é realizada 45 por Varas de Execuções Penais e Cartórios coordenadas por juízes e acompanhadas e fiscalizadas pelo Ministério Público. 3.3.1 Panorama Nacional No Brasil, até 2003, encontravam-se privados de liberdade 308.304 pessoas, sendo que o Estado de São Paulo detém o maior contingente, 123.932 presos. Existiam aproximadamente 1283 estabelecimentos prisionais para o cumprimento de penas, distribuídos em unidades estaduais, tais como: cadeia pública, penitenciárias, casa do albergado, central de penas alternativas, centrais de observação, hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, colônia penal agrícola, industrial ou similar e patronato. A organização do sistema prisional sofre variações nos estados da federação, porém está sob a jurisdição do Ministério da Justiça (BRASIL, 2004b; BRASIL 2004c). No Ministério da Justiça existe um órgão soberano na Execução Penal, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP). Cada unidade da federação possui o Conselho Penitenciário, com deliberação coletiva, constituindo a ligação entre os poderes Executivo e Judiciário com relação à execução penal (BRASIL, 2004a). O órgão executivo da Política Penitenciária Nacional no âmbito federal é o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), que tem sua existência fundamentada no art.71 da LEP. O DEPEN é o órgão superior de controle, destinado a acompanhar e zelar pela aplicação da LEP e diretrizes da política criminal emanadas do CNPCP. Sua finalidade é viabilizar condições para implantar um ordenamento administrativo e técnico convergente ao desenvolvimento da política penitenciária (BRASIL, 2004a). 3.3.2 Panorama do Paraná 46 O Departamento Penitenciário do Estado do Paraná (DEPEN), nos termos do decreto n.609, de 23 de julho de 1991, e através da resolução n.121/95, constitui unidade de execução programática da Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania (SEJU). Os estabelecimentos penais e órgãos do Sistema Penitenciário do Paraná estão estruturados através de regimentos internos, aprovados por resolução da Secretária da Justiça e da Cidadania, mediante proposta do Coordenador Geral do Departamento Penitenciário do Estado do Paraná (PARANÁ, 2002a). O Decreto n.1276 de 31 de outubro de 1995 publica o Estatuto Penitenciário do Estado do Paraná, onde estão contidas as adaptações sofridas: pela LEP e pelo CNPCP e a inclusão das “Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil”. O Paraná foi o primeiro estado do Brasil, a adaptar as novas regras exigidas pela Organização das Nações Unidas (PARANÁ, 1995a). O DEPEN do Paraná, até dezembro de 2004, contava com uma população prisional de 7.747 presos, sendo que 33,39% estão na faixa etária de 18 a 25 anos. O cumprimento da pena é viabilizado no Complexo Penal do Estado, assim distribuído: 01 CENTRO DE OBSERVAÇÃO E TRIAGEM (COT); 01 COMPLEXO MÉDICO PENAL (CMP); duas unidades de regime semi-aberto, o REGIME SEMI-ABERTO de PONTA GROSSA (RAPG) e o REGIME SEMIABERTO-FEMININO DO PARANÁ (PFA), com sede em Curitiba; 02 casas de Custódia, CASA DE CUSTÓDIA DE CURITIBA (CCC) e CASA DE CUSTÓDIA DE LONDRINA (CCL); 01 COLÔNIA PENAL AGRÍCOLA (CPA); dois Patronatos, PATRONATO DE CURITIBA (PCTA) e PATRONATO DE LONDRINA (PLTA) e; 10 unidades prisionais de segurança máxima, sendo PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE LONDRINA (PEL), PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE MARINGÁ (PEM), PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE FOZ DO IGUAÇU (PEF), PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE PONTA GROSSA (PEPG). PENITENCIÁRIA ESTADUAL DE PIRAQUARA (PEP), PENITENCIÁRIA PENITENCIÁRIA INDUSTRIAL DE FEMININA CASCAVEL DO (PIC), PARANÁ (PFP), PENITENCIÁRIA INDUSTRIAL DE GUARAPUAVA (PIG), PENITENCIÁRIA PROVISÓRIA DE CURITIBA (PPC). Dentre estas, quatro são terceirizadas: PEF, PEP, PIC e PIG (PARANÁ, 2004a). 47 3.3.3 Panorama de Maringá A PEM, localizada na área agrícola do município de Maringá, foi inaugurada em 10 de abril de 1996, e destina-se ao atendimento de 360 presos do sexo masculino que cumpre pena em regime fechado. Considerada como uma penitenciária de segurança máxima, possui uma infra-estrutura com: 60 celas – com seis presos em cada cela, guaritas, galerias, pátio de visitas, solários, refeitórios, salas de aula, lavanderia, consultório médico e odontológico, enfermaria, área reservada para visitas íntimas, área de atendimento técnico – serviço social, psicologia, direito e pedagogia - e área destinada para setor administrativo, almoxarifado e direção. Instituída pelo decreto n.744 de 16 de maio de 1995, e pela resolução n.120/95, a PEM constitui-se unidade administrativa do DEPEN-PR, a ela compete: a segurança e a custodia dos presos, a “reintegração social” dos internos e o zelo pelo seu bem-estar, através da profissionalização, educação, prestação de assistência jurídica, psicológica, social, médica, odontológica, religiosa e material e a prestação de assistência social aos familiares dos internos (PARANÁ, 1995b). A PEM atende a demanda de presos condenados da Vara de Execuções Penais de Maringá, que compreende os seguintes municípios: Alto Paraná, Alto Piquiri, Altônia, Astorga, Barbosa Ferraz, Campo Mourão, Cianorte, Cidade Gaúcha, Colorado, Cruzeiro do Oeste, Engenheiro Beltrão, Goioerê, Guaira, Icaraima, Iporã, Jandaia do Sul, Loanda, Mamborê, Mandaguaçu, Mandaguari, Marialva, Maringá, Nova Esperança, Nova Londrina, Paraíso do Norte, Paranacity, Paranavaí, Peabirú, Pérola, Santa Izabel do Ivaí, São João do Ivaí, Sarandi, Terra Boa, Terra Rica, Terra Roxa, Umuarama e Xambré. Com relação ao perfil dos presos da PEM. A faixa etária predominante está entre 26 a 30 anos com 29,41%, seguida pela faixa etária de 21 a 25 anos, com 19,94%, de 31 a 35 anos, com 18,28%, de 36 a 40 anos, com 11,35%, de 41 a 45 48 anos, com 10,80%, e acima de quarenta e cinco anos, com 10,22%. A procedência dos presos é, em maioria, da zona urbana, com 55,96%, seguida das zonas rural, com 41,27% e semi-urbana, com 2,77%. No nível de instrução há predominância pelo ensino de 1º Grau Incompleto, com 60,43%, seguido pelo número de analfabetos, com 9,69%, e primário incompleto, com 7,75%. Na situação conjugal, são solteiros 48%, seguidos pelos amasiados, com 31,02% e pelos casados, com 13%. Quanto ao tempo de prisão, cumprirá pena de 2 a 4 anos (32,17%), seguido pela pena de 4 a 8 anos (31,02%), de 1 a 2 anos (13,57%) e de 8 a 12 anos (10,24%). Com relação a condenação, a maioria dos presos são primários, com 59,29%; como condenados reincidentes temos 40,44%, e preso provisório primário 0,27%. As profissões evidenciadas são, “outras profissões” com 51,90%, seguida da profissão de pedreiro com 7,20%, servente de pedreiro com 6,92%, marceneiro com 4,43% e vendedor com 3,87% (PARANÀ, 2004b). Desde da criação, a PEM, desenvolveu atividades assistenciais e preventivas na área das DST/HIV/AIDS, através de uma comissão formada por funcionários do setor técnico (nível superior), administrativo e agentes penitenciários. Dentro das atividades realizadas estão: o atendimento individualizado para o aconselhamento pré-teste e pós-teste; oficinas de sensibilização com os presos e familiares; cursos para funcionários e; apoio e participação nos eventos e campanhas municipais com relação as DSTs/AIDS. A partir de 2000 a PEM, integra-se a Comissão Municipal de Saúde e estabelece parcerias com: a Coordenação Municipal DSTs/AIDS, a ONG “Voz Pela Vida”, que luta contra a disseminação das DSTs/HIV/AIDS e em defesa dos direitos humanos; a UNIVERSIDAIDS, programa multidisciplinar de estudo, prevenção, e assistência das DSTs/HIV/AIDS da Universidade Estadual de Maringá; a 15ª Regional de Saúde de Maringá, que assessora, supervisiona e avalia ações e projetos financiados pelo MS e Secretaria Estadual de Saúde do Paraná relativo as DSTs/HIV/AIDS; o LEPAC de Maringá, que realiza exames de triagem e confirmatório para diagnóstico de HIV, atendendo a rede pública e o CTA. 4 METODOLOGIA Em comemoração ao 1º de dezembro, dia mundial de luta contra AIDS, a PEM, no mês de dezembro de 2004, desenvolveu parceria junto a Coordenação Municipal DST/AIDS de Maringá para juntos viabilizarem o CTA itinerante. O aconselhamento pré-teste foi realizado mediante doze oficinas grupais, por quatro dias consecutivos, numa média de trinta participantes por oficina, totalizando 360 presos, do sexo masculino, ou seja, toda a população carcerária da PEM. No quinto dia, mediante demanda espontânea, técnicos do CTA realizaram coleta de sangue em 230 presos, para o exame anti-HIV I e II e sífilis1. Para se garantir o sigilo e anonimato, cada pessoa recebeu uma senha com a data de nascimento. O aconselhamento pós-teste, realizado individualmente, ocorreu de 15 de janeiro a 30 de maio de 2005, mediante a apresentação da senha e confirmação da data de nascimento, com todos os presos que fizeram a testagem. Durante esse aconselhamento foi aplicado o formulário de atendimento do SI-CTA (APÊNDICE A). O aconselhamento pré e pós-teste e o preenchimento do formulário foram executados pela autora do estudo, que é capacitada para aconselhamento. A profissional se motivou a estudar as vulnerabilidades individuais á infecção pelo HIV, analisando os dados do formulário do SI-CTA, dos presos jovens da faixa etária de 20 a 24 anos, totalizando 51 formulários. Assim, a amostra do estudo ficou em 51 formulários respondidos por presos jovens, ou seja, 22,17% dos presos que fizeram a testagem ou 14,16% de toda a população carcerária da PEM. Para o estudo pretendido, sempre que possível, utilizar-se-ão durante as discussões os dados comparativos de três pesquisas nacionais. A primeira pesquisa comparativa teve por objeto o “comportamento sexual da população brasileira e percepções do HIV/AIDS”, e foi realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) com apoio do PN-DST/AIDS do MS, entre 1 A partir de maio/2005 o CTA de Maringá passou a incluir as hepatites nos exames. 50 dezembro de 1997 e dezembro de 1998, com amostra de 3.600 pessoas, referindose a pessoas sexualmente ativas nos últimos 12 meses entre 16 e 65 anos e residentes nas áreas urbanas (BRASIL, 2000c). A segunda pesquisa teve como objeto o “comportamento da população brasileira sexualmente ativa”, e foi realizada pelo IBOPE entre 26 e 29 de janeiro de 2003, por solicitação do PN-DST/AIDS do MS, em amostra representativa da população brasileira (1.882 pessoas) sexualmente ativa nos últimos 6 meses, com 14 anos e mais (BRASIL, 2003e). A última fonte de referência é a “pesquisa de conhecimento, atitudes e práticas na população brasileira de 15 a 54 anos” (PCAP-BR), desenvolvida pelo PN-DST/AIDS do MS, pelo Departamento de Informações em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz e pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos entre julho e agosto de 2004, em amostra representativa de 6.000 pessoas, da população brasileira (BRASIL, 2004d). Os resultados e discussão do estudo serão dispostos segundo as características sociais e demográficas e as características relacionadas à vulnerabilidade individual. Ao analisar as características relacionadas a vulnerabilidade individual, procurou-se conhecer o comportamento individual dos entrevistados quanto ao uso do preservativo, relacionando-se as atitudes tomadas diante de duas situações distintas: quando utilizados nas relações sexuais com parceiros(as) fixos (estáveis) e com parceiros(as) não fixo (eventuais). Embora o estudo tenha se pautado nas vulnerabilidades individuais, não se pode deixar de considerar o conjunto integrado dos planos sociais e programáticos que permeiam o campo de atuação. Assim, ao utilizar o termo “vulnerabilidade” se considera todos os planos com relação ao assunto abordado. O referencial teórico-metodológico do estudo está embasado na bibliografia levantada sobre o assunto e nos contatos verbais com profissionais da área, sempre na busca de estimular e colaborar para a autoconstrução do sujeito sexual e do cidadão. Mais que mudar comportamentos procura-se gerar sujeitos conscientes, capazes de articular práticas sexuais seguras. Os dados estatísticos foram tabulados e processados na planilha eletrônica Excel. Os resultados são apresentados em forma de tabelas. 5 RESULTADOS E DISCUSSÂO 5.1 CARACTERÍSTICAS SOCIAIS E DEMOGRÁFICAS. Cerca de 94,12% da população entrevistada é de procedência urbana (Tabela 1) oriunda de Maringá (11,77%); outras cidades do estado (86,28%) ou outro estado (1,96%) (Tabela 2). Tabela 1: Distribuição dos presos jovens segundo a procedência – Maringá, 2005. Procedência Rural Urbana Total Nº 3 48 51 % 5,88 94,12 100,00 Tabela 2: Distribuição dos presos jovens segundo a cidade de origem – Maringá, 2005. Cidades de Origem Maringá Santa Izabel do Ivaí Campo Mourão Umuarama Nova Esperança Guairá Cruzeiro do Oeste Paranavaí Iporã Sarandi Paranacity Outro Estado (S.P.) Outras Cidades Total Nº 6 4 2 4 2 2 2 7 3 2 2 1 14 51 % 11,77 7,84 3,92 7,84 3,92 3,92 3,92 13,73 5,88 3,92 3,92 1,96 27,46 100,00 52 Em relação a situação conjugal (Tabela 3), 37,35% possuem união estável, são casados ou amigados (amasiados); 49,01% são solteiros e 13,64% são separados, ou seja, romperam vínculo afetivo com o companheiro(a) após ingresso na prisão. Nenhum preso jovem se declarou viúvo. Tabela 3: Distribuição dos presos jovens segundo a situação conjugal – Maringá, 2005. Situação Conjugal Casado – Amigado Solteiro Separado Total Nº 19 25 7 51 % 37,35 49,01 13,64 100,00 Na Tabela 4, observa-se que apenas 5,89% não tinham nenhum estudo, 23,60% haviam estudado entre 1 a 3 anos e 56,70% – a maioria – tinham de 4 a 7 anos de estudo. Apenas 13,81% tinham de 8 a 11 anos de estudo, sendo que nenhum dos entrevistados tinha doze anos ou mais de estudo, ou seja, havia concluído curso superior. É importante perceber que há um elevado percentual de jovens que ainda não tinham completado o ensino fundamental, cerca de 86,19%, o que é expressivo e pode ser explicado pela evasão escolar e/ou entrada tardia na escola. Para o jovem, estar prematuramente fora da escola significa diminuir a possibilidade de competitividade no mercado de trabalho e a expectativa futura, de mobilidade social. Segundo pesquisa do MS/IBOPE (BRASIL, 2003e), quanto maior o grau de instrução, menor a proporção de pessoas sexualmente ativas. Enquanto 36,1% das pessoas sexualmente ativas têm até a 4ª série, 29,4% têm estudos entre 5ª e 8ª série e 34,5% delas têm mais do que nível médio. Na mesma pesquisa os entrevistados que chegaram ao ensino superior apresentam a maior taxa de uso consistente de preservativo (30,6%), contra 12,5% que estudaram de 5ª à 8ª série e 7,5% de quem tem até a 4ª série. Cabe mencionar que entre aqueles de menor escolaridade têm mais peso as crenças que dão menos legitimidade ao “saber científico”, que se somam ao fato de terem menos acesso a informações corretas; ou ainda, que entre os menos escolarizados e mais pobres, determinados lugares onde se faz sexo – cômodos 53 compartilhados, nas ruas escuras, pátios, praias, lugares públicos – comprometem o uso consistente do preservativo (PAIVA, 2000). Tabela 4: Distribuição dos presos jovens segundo a escolaridade - Maringá, 2005. Escolaridade Nenhum 1a3 4a7 8 a 11 Total Nº 3 12 29 7 51 % 5,89 23,60 56,70 13,81 100,00 A ocupação de trabalho no momento da prisão (Tabela 5) revela que 52,95% trabalhavam como autônomo e 27,45% estavam desempregados. Apenas 19,60% estavam empregados (vínculo com a empresa através da carteira de trabalho), sendo que nenhum se encontrava estudando. Dos empregados e autônomos (Tabela 6) as profissões evidenciadas são a de serviços gerais, trabalhador rural e servente de pedreiro. Na pesquisa do MS/CEBRAP (BRASIL, 2000c) a maioria das pessoas pesquisadas se encontrava trabalhando de forma autônoma. Tabela 5: Distribuição dos presos jovens segundo ocupação de trabalho antes da prisão – Maringá, 2005. Ocupação de trabalho Autônomo (bicos, prestação de serviços esporádicos) Empregado Desempregado Total Nº % 27 10 14 51 52,95 19,60 27,45 100,00 54 Tabela 6: Distribuição dos presos jovens segundo as atividades profissionais antes da prisão – Maringá, 2005. Atividades Profissionais Serviços Gerais Servente de Pedreiro Tapeceiro Trabalhador Rural Vendedor Pintor Outros Total Nº 9 4 2 8 3 3 8 37 % 24,32 10,82 5,40 21,63 8,10 8,10 21,63 100,00 A população estudada, pertence a um grupo discriminado e marginalizado, o que reduz a capacidade individual de aprender e responder aos riscos que correm, tornando-as mais vulneráveis a contaminação pelo HIV/AIDS. Esta condição social tem suas raízes na desigualdade social e na péssima distribuição de renda que a política neoliberalista impõe, fato este confirmado pelo fato da maioria dos presos não ter concluído o ensino fundamental, ou por nenhum jovem estar estudando quando detido, ou ainda, pelo alto índice de profissionais trabalhando como autônomos – fazendo bicos – e desempregados. 5.2 CARACTERÍSTICAS RELACIONADAS À VULNERABILIDADE INDIVIDUAL Com relação à testagem, chama a atenção que apenas um entrevistado conhecia o CTA (Tabela 7), o que pontua a necessidade de maior divulgação dos serviços perante a comunidade - incluindo a prisão. Apenas um entrevistado procurou o banco de sangue como referência para realização de exames laboratoriais, inclusive o HIV (Tabela 8). Segundo pesquisa do MS/CEBRAP (BRASIL, 2000c), 20,2% da população estudada haviam feito o teste do HIV, sendo que a razão mais apontada para esta iniciativa foi à doação de sangue, com 40,8%, seguida por iniciativa própria, 26,0% e 15,2% por motivo de necessidade no trabalho. 55 A Portaria Interministerial n.869, de 11 de agosto de 1992, proíbe no âmbito do serviço federal, a exigência de teste para detecção do vírus de imunodeficiência adquirida, tanto nos exames pré-admissionais quanto nos exames periódicos de saúde. O princípio da confidencialidade tem como objetivo evitar danos que certamente se farão presentes a partir da notícia do resultado do exame que enuncie sorologia positiva e a conseqüente exclusão do pretendente do posto de trabalho. Assim não há suporte legal para a pretensão do empregador no sentido de realizar compulsoriamente estes exames ou ter acesso aos seus resultados (PARANÁ, 2003). Outra Portaria a mencionar neste contexto, é a Portaria n.236 de 02 de maio de 1985, que estabelece diretrizes para o programa de controle da AIDS e define sobre as instituições públicas que atuarão como centros de referências para o programa, sendo que os bancos de sangue não são referência para testagem. Um dos grandes problemas em utilizar os bancos de sangue para sorologia é a “janela imunológica” (PARANÁ, 2003). Tabela 7: Distribuição dos presos jovens segundo a procura, pelo serviço, no CTA – Maringá, 2005. Primeiro Teste – CTA Sim Não Total Nº 50 1 51 % 98,03 1,97 100,00 Tabela 8: Distribuição dos presos jovens segundo a procura do banco de sangue para se fazer o teste HIV – Maringá, 2005. Procura de Banco de Sangue para Teste HIV Sim Não Total Nº % 1 50 51 1,97 98,03 100,00 Comparados com os dados da pesquisa do MS/CEBRAP (BRASIL, 2000c), citados anteriormente durante comentários da tabela 7 e 8, os motivos que levam as pessoas a fazerem a testagem estão mudando, sendo que a maioria dos entrevistados fez o teste por prevenção (54,90%), seguida da exposição a situação 56 de risco (41,17%) e da decisão, ter conhecimento sobre o status sorológico (13,72%) (Tabela 9). Tabela 9: Distribuição de presos jovens segundo os motivos que levam a realização da testagem – Maringá, 2005. Motivo da Procura 1- Exposição e Situação de Risco 2- Sintomas Relacionados ao HIV 3- Conhecimento de Status Sorológico 4- Prevenção 5- Outros Nº 21 1 7 28 1 % 51 51 51 51 51 41,17 1,96 13,72 54,9 1,96 100 100 100 100 100 Nota: Cada entrevistado pôde optar por escolher mais de uma alternativa; por isso, cada motivo de procura foi analisado separadamente. Sete presos jovens, num universo de 51, escolheram mais de uma alternativa. A Tabela 10, quando questionados os entrevistados sobre as fontes de comunicação que mais influenciaram a fazer a testagem do HIV/AIDS, a maioria menciona a indicação de profissionais de saúde/serviço (82,35%), seguida pela influência da mídia (7,84%). Apenas (3,93%) decidiram fazer a testagem após conversa com amigos e ninguém mencionou o aspecto de materiais de divulgação. Ao mencionar serviço/profissionais de saúde, considera-se relevante todas as ações de DSTs/HIV/AIDS já desenvolvidas na PEM, inclusive o CTA itinerante, onde a equipe multidisciplinar de técnicos da saúde, da própria unidade ou não, tenham possibilitado o processo de informação/reflexão. Nenhum preso mencionou o item materiais de divulgação como fonte de informação sobre o HIV/AIDS o que leva a repensar a entrega do material informativo fornecido na PEM, geralmente durante campanhas, pois estes podem ser insuficientes e não atingir o público alvo. Folhetos normativos não criam sujeitos, não melhoram a auto-estima de quem está privado de liberdade e decida evitar mais riscos, não impõem práticas seguras de sexo como prioridade. Para ser efetivo, o material de divulgação deve ser específico para a população carcerária. Cada grupo populacional tem valores próprios, preferências sexuais singulares, linguagens diferentes na vida privada e obstáculos de ordens diferentes para se proteger do vírus. Outra questão a pontuar foi a pouca comunicação entre amigos. Percebeu-se a existência de pouco diálogo na discussão da temática HIV/AIDS e 57 com relação a testagem. O fato nos leva a questionar duas possibilidades: a falta de liberdade de expressão, pelo próprio clima hostil que a prisão apresenta, ou a falta de trabalho mais intensivo, para sensibilizar e formar multiplicadores de informações – alguns presos capacitados para desenvolver trabalho educativo/preventivo. Tabela 10: Distribuição de presos segundo o tipo de informação recebida na prisão que influenciou na testagem – Maringá, 2005. Origem da Clientela-informação Amigos/Usuários Jornais/Rádio/Televisão Serviço/Profissionais de Saúde Outros Total Nº 2 4 42 3 51 % 3,93 7,84 82,35 5,88 100,00 Conforme a Tabela 11, segundo a categoria de exposição; 100% dos entrevistados citam a relação sexual como a principal forma de se pegar o HIV e um número significativo 82,35% aponta, entre outros fatores, a questão da tatuagem como um fator preocupante de possível contaminação. Apenas 3,92% admitem envolvimento com drogas injetáveis antes de serem detidos. Ninguém mencionou risco de contaminação por ser hemofílico ou por questões ocupacionais. Dados coletados na PCAP/BR (BRASIL, 2004d) concluem que um percentual elevado da população brasileira, cerca de 91%, cita espontaneamente a relação sexual como forma de transmissão pelo HIV, sendo que entre indivíduos com ensino fundamental completo o percentual alcança 97%. A contaminação do HIV através de objeto perfurocortante pode motivar a infecção por meio de sangue presente em agulha, seringa ou outros materiais capazes de causar solução de continuidade na pele ou diferentes tecidos. A possibilidade de contaminação, por tatuagem é ínfima, entretanto devem-se adotar medidas preventivas que tornem nulo o risco de contaminação (BRASIL, 1988). O uso de drogas e a dependência de substâncias psicoativas estão atrelados ao julgamento moral; envolver-se com drogas significa ir contra o que se tem como “certo” perante a sociedade. Outro ponto a se considerar é que os efeitos das drogas estão relacionados às práticas sexuais inseguras e também que o compartilhamento de agulhas, seringas e recipientes para a diluição da droga 58 (cocaína) é prática de altíssimo risco para a infecção do HIV e hepatites B e C (BRASIL, 2003d). Segundo Cardoso Júnior (2001, p.7), médico sanitarista, o uso de drogas injetáveis “é responsável por aproximadamente 1/4 da epidemia de AIDS no Brasil”, sendo que entre os “usuários de drogas injetáveis, a soroprevalência do HIV está em torno de 52%” e o “uso compartilhado de agulhas e seringas gira em torno de 60%”. Tabela 11: Distribuição dos presos jovens segundo tipo de exposição passível de contrair o HIV – Maringá, 2005. Tipos de Exposição Relação Sexual Transfusão de Sangue UDI Outros (tatuagem) Nº 51 4 2 42 % 51 51 51 51 100 7,84 3,92 82,35 100 100 100 100 Nota: Cada entrevistado pôde optar por escolher mais de uma alternativa; por isso, cada tipo de exposição foi analisado separadamente. Quarenta e oito presos jovens, num universo de 51, escolheram mais de uma alternativa de exposição passível de contrair o HIV. Pela Tabela 12, percebe-se que 25,49% dos entrevistados pegaram DSTs durante relações sexuais, dado que chama a atenção, pois ter tido uma DST significa que a pessoa não está usando o preservativo, portanto está se expondo ao HIV. Dados semelhantes foram constatados na pesquisa MS/IBOPE (BRASIL, 2003e), onde 40% das pessoas sexualmente ativas haviam apresentado sinais e sintomas compatíveis com DST alguma vez na vida; destes, 27,5% eram homens e 72,5% eram em mulheres. Tabela 12: Distribuição de presos jovens segundo o contágio das DSTs – Maringá, 2005. Teve DSTs Menos de 1 ano Na Vida Nunca Total Nº 2 11 38 51 % 3,93 21,56 74,51 100,00 59 Em sua maioria (98,04%), os entrevistados tiveram parceiros(as) sexuais no último ano antes da prisão, ou seja, estavam sexualmente ativos quando presos (Tabela 13). Em relação ao número de parceiros(as) sexuais no último ano antes da prisão, observa-se que 37,25% tiveram de 2 a 4 parceiros(as) sexuais e 27,45% tiveram de 5 a 10 parceiros(as). Apenas 15,69% relataram ter um único parceiro(a) no último ano. Segundo a PCAP/BR (BRASIL, 2004d), quase 20% do total de participantes relataram mais de 10 parceiros na vida e 7% dos mais jovens (15-24 anos) mais de 5 parceiros(as) eventuais no último ano. Na pesquisa do MS/IBOPE (BRASIL, 2003e), cerca de 69,2% da população brasileira de 14 anos ou mais teve relação sexual nos últimos seis meses. Dentre os sexualmente ativos, 53,1% são do sexo masculino e 46,9% do sexo feminino. Entre todas as pessoas sexualmente ativas, 6,7% têm entre 14 e 19 anos, 28,5% têm entre 20 e 29 anos, 27,2% têm entre 30 e 39 anos e 20,2% têm entre 40 e 49 anos. Tabela 13: Distribuição de presos jovens segundo o número de parceiros(as) no último ano antes da prisão – Maringá, 2005. Número de Parceiros(as)/No Último Ano Antes da Prisão Nº % Nenhum 1 2a4 5 a 10 11 a 50 51 a 100 1 8 19 14 7 2 1,96 15,69 37,25 27,45 13,73 3,92 Total 51 100,00 O fato de se referir aos tipos de parceiros(as) na vida direciona a refletir sobre a orientação sexual dos entrevistados (tabela 14). Assim, 94,11% dos entrevistados afirmaram o comportamento heterossexual, sendo que apenas, 5,89% admitem a bissexualidade e nenhum assumiu o comportamento homossexual. 60 Na pesquisa MS/IBOPE (BRASIL, 2003e), 97,0% dos entrevistados fazem sexo com parceiros diferentes do entrevistado (heterossexual), 1,7 são homens que fazem sexo com homens (HsH), 0,9% são mulheres que fazem sexo com mulheres (MsM) e 0,4% fazem sexo com ambos os sexos (bissexuais). As orientações sexuais homossexual e bissexual trazem fortes seqüelas para quem está preso. Nenhum preso assumiu a homossexualidade no presente estudo. Assumir ser homossexual na prisão significa passar por humilhações impostas pela massa carcerária e muitas vezes por parte de funcionários. Muitos presos chegam a ter uma marca tatuada, feita pelos próprios presos, como forma de identificar “a marca do puto”. Mas a discriminação também está fora dos muros, na volta para o convívio social. Basta lembrar sobre a rápida passagem da transmissão predominantemente homossexual e bissexual, na primeira década da AIDS, onde a realidade epidemiológica trouxe difíceis estigmas a apagar na sociedade, pois, mais que números, permeou as representações do imaginário social, excluindo esses grupos sociais. Embora se saiba que a tendência da AIDS caminha para heterossexualidade e que todas as pessoas são vulneráveis ao HIV, é difícil desconstruir distorções de gênero e orientação sexual; é difícil entender que os diferentes cenários sociais de desigualdade e opressão é que colocam os excluídos dos excluídos em situações de maior vulnerabilidade ao HIV. Assumir a orientação sexual baseado no respeito pelas diferenças é difícil num lugar com tantas diversidades, marcado pelas injustiças sociais. Tabela 14: Distribuição de presos jovens segundo a orientação sexual – Maringá, 2005. Tipos de Parceiros na Vida Mulheres Homens e Mulheres Total Nº 48 3 51 % 94,11 5,89 100,00 Quando se analisa a utilização do preservativo com parceiro(a) fixo, observa-se que 45,09% dos entrevistados referiram nunca utilizarem o preservativo nas relações sexuais (Tabela 15), taxa que se eleva para 88,25% quando se 61 pergunta sobre o uso do preservativo na última relação com o parceiro(a) (Tabela 16). Destaca-se que apenas 5,89% usam sempre o preservativo com parceiro(a) fixo, inclusive em sua última relação sexual. Na pesquisa do MS/IBOPE (BRASIL, 2003e), entre as pessoas sexualmente ativas que tinham parceiros(as) fixo, 20,2% usaram preservativo na última relação sexual. Considerando o uso em todas as relações dos últimos 6 meses, essa proporção cai para 11,4%. Em 1998, 21,0% das pessoas sexualmente ativas usaram preservativo com parceiro(a) fixo na última relação (BRASIL, 2000c). Tabela 15: Distribuição dos presos jovens segundo o uso de preservativo com parceiro(a) fixo – Maringá, 2005. Uso do Preservativo com Parceiro(a) Fixo Sempre Nunca As Vezes Não se Aplica Total Nº % 3 23 23 2 51 5,89 45,09 45,09 3,93 100,00 Tabela 16: Distribuição dos presos jovens segundo a última relação sexual com o parceiro(a) fixo – Maringá, 2005. Uso do Preservativo na Última Relação – Parceiro(a) Fixo Sim Não Não Lembra Não se Aplica Total Nº % 3 45 1 2 51 5,89 88,25 1,93 3,93 100,00 A Tabela 17 mostra os principais motivos do não uso do preservativo durante as relações sexuais com o parceiro(a) fixo: “não gostar” com 49,01%; “confiança no parceiro(a)”, com 43,13%; “não tinha no momento e não ter dado tempo devido ao tesão”, ambos com proporções de 7,84%. Nenhum preso jovem mencionou o “uso de drogas” e o “tamanho do preservativo” como interferência para o não uso do preservativo com parceiro fixo. 62 A pesquisa do MS/IBOPE (BRASIL, 2003e) mostra que 53,0% das pessoas que não usam preservativo com parceiro(a) fixo não o fizeram por ter confiança no parceiro(a) ou serem casados, 11,0% por terem usado outro método anticoncepcional e 5,0% relataram não ter usado por não gostar. Dentre os motivos que levam os presos jovens a não usar o preservativo com o parceiro(a) fixo se destacam “não gostar” e “confiança no parceiro(a)”. “Não gostar”, no campo objetivo das ações, está ligado ao desconforto físico, que pode interferir no desempenho sexual; mas no campo da subjetividade propor o uso da camisinha equivale a uma confissão de infidelidade; é declarar que não se confia no parceiro(a), portanto que ele é infiel. Pode levá-lo(a) a pensar que não é único, e, no caso, o parceiro(a) é que se expõe ao risco, ou ainda – o que é pior para quem está preso – é reconhecer que o parceiro(a) é infiel, ter ciência do fato e aceitá-lo. Tabela 17: Distribuição dos presos jovens segundo motivo de não usar preservativo com o parceiro(a) fixo – Maringá, 2005. Motivo de Não Usar Preservativo com Parceiro(a) Fixo Não Gostar Parceiro não Aceita Não Dispunha no Momento Confiança no Parceiro Não Consegue Negociar Acha que não Vai Pegar Não Tinha Consciência Não deu Tempo/Tesão Desejo de Ter Filho Não se Aplica Nº 25 1 4 22 2 1 3 4 2 3 % 51 51 51 51 51 51 51 51 51 51 49,01 1,92 7,84 43,13 3,92 1,92 5,89 7,84 3,92 5,89 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 Nota: Cada entrevistado pôde optar por escolher mais de uma alternativa; por isso, cada motivo de não uso do preservativo com parceiro(a) fixo foi avaliado separadamente. Dezesseis presos jovens, num universo de 51, escolheram mais de uma alternativa. Quando se pergunta sobre o risco que o parceiro(a) fixo apresenta (Tabela 18), alguns entrevistados possuem dúvida, devido ao passado sexual do parceiro(a) (15,69%); outros desconfiam do parceiro(a) e acham que ele possa ter outro relacionamento (13,73%), mas a maioria coloca que o parceiro(a) não atribui risco, ou seja, confia no parceiro(a) estável (50,98%). 63 Os presos jovens em geral têm dificuldade de se aceitar na posição de estar incluídos entre os que possam adquirir o vírus HIV; eles rejeitam a si próprios a possibilidade de pegarem uma doença associada à morte e acabam criando uma imagem auto-imune. Assim, é o outro que pode pegar o vírus. É difícil admitir que o parceiro(a) é o outro, pois admitir isso o colocaria muito próximo a este outro, os colocaria na posição de iguais. São os mecanismos de defesa psicológica que transferem os riscos para fora da pessoa e do seu grupo de referência. Tabela 18: Distribuição dos presos jovens segundo os riscos do parceiro(a) fixo – Maringá, 2005. Risco do Parceiro(a) Fixo Relação Extra-Conjugal Uso de Drogas Desconfia - Relação Extra-Conjugal Passado Sexual Não Atribui Risco Não se Aplica Nº 2 3 7 8 26 9 % 51 51 51 51 51 51 3,92 5,89 13,73 15,69 50,98 17,64 100 100 100 100 100 100 Nota: Cada entrevistado pôde optar por escolher mais de uma alternativa; por isso, cada possibilidade de risco com o parceiro(a) fixo foi analisada separadamente. Quatro presos jovens, num universo de 51, escolheram mais de uma alternativa. Os resultados evidenciam uma proporção maior de entrevistados que afirmam sempre fazer uso do preservativo (Tabela 19) quando se relacionam com parceiros(as) não fixos (23,58%) do que com parceiros(as) fixos (5,89%). Os entrevistados que admitem nunca terem usado o preservativo correspondem a 35,30%, porém, ao se perguntar sobre o uso na última relação sexual com o parceiro(a) não fixo, esta taxa se eleva para 76,50% (Tabela 20). Segundo pesquisa do MS/IBOPE (BRASIL, 2003e), entre as pessoas sexualmente ativas que tiveram parceiros(as) eventuais 79,5% usaram preservativo na última relação, enquanto 57,8% tiveram uso consistente, em todas as relações sexuais, nos últimos seis meses. Em 1998, 64,0% das pessoas sexualmente ativas tinham usado preservativo com parceiros(as) eventuais na última relação (BRASIL, 2000c). Ao longo do tempo incorporou-se a noção de que a vulnerabilidade é maior em situações de sexo não conjugal. Provavelmente, devido a este fato a taxa 64 de uso consistente de preservativo é especialmente baixa nas relações estáveis, com parceiros(as) fixos. A visão que afirma que “sexo conjugal” é mais protegido é uma inverdade e mascara situações de maior vulnerabilidade. O uso de preservativos com parceiros(as) não fixos ou eventuais continua mais freqüente que com parceiros(as) fixos. É importante lembrar que a redução do número de parceiros(as), não tem sido o eixo dos programas de prevenção no Brasil. A recomendação é que seja usado o preservativo em todas as relações sexuais. Tabela 19: Distribuição dos presos jovens segundo o uso do preservativo com parceiros(as) não fixos (eventuais) – Maringá, 2005. Uso de Preservativo com Parceiro(a) não Fixo Sempre Nunca As Vezes Total Nº % 12 18 21 51 23,53 35,30 41,17 100,00 Tabela 20: Distribuição dos presos jovens segundo o uso de preservativo na última relação sexual com o parceiro(a) não fixo (eventual) – Maringá, 2005. Uso de Preservativo na Última Relação com Parceiro(a) não Fixo Sim Não Não Lembra Total Nº % 11 39 1 51 21,58 76,50 1,92 100,00% Na Tabela 21, observa-se o motivo do não uso do preservativo quando o relacionamento refere-se a parceiros(as) eventuais: “não gostar”, com 41,17%; “não ter no momento”, com 19,60%; e “não ter dado tempo devido ao tesão”, com 7,84%. Nenhum dos entrevistados atribuíram o “desejo de ter um filho” e o fato do “parceiro não aceitar” a responsabilidade pelo parceiro eventual. não uso do preservativo com o O “não-gostar” é o principal motivo para o não uso do preservativo, tanto nos relacionamentos afetivos com parceiros(as) fixos ou eventuais. 65 Tabela 21: Distribuição dos presos segundo o motivo de não usar o preservativo com o parceiro(a) não fixo (eventual) Maringá, 2005. Motivo de Não Usar Preservativo com Parceiro(a) não Fixo Não Gostar Não Dispunha no Momento Confiança no Parceiro Não Consegue Negociar Acha que não Vai Pegar Não Tinha Consciência Não deu Tempo/Tesão Não se Aplica Uso de Drogas Tamanho do Preservativo pq/gr Outros Nº 21 10 1 1 2 3 4 11 2 1 2 % 51 51 51 51 51 51 51 51 51 51 51 41,17 19,6 1,92 1,92 3,92 5,89 7,84 21,58 3,92 1,92 3,92 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 Nota: Cada entrevistado pôde optar por escolher mais de uma alternativa; por isso, cada motivo de não uso do preservativo com o parceiro(a) eventual foi analisado separadamente. Sete presos jovens, num universo de 51, escolheram mais de uma alternativa. No final do aconselhamento pós-teste e do preenchimento do formulário foram oferecidos preservativos aos entrevistados (Tabela 22). Apenas 13,73% aceitaram o preservativo, sendo que todos justificaram o uso: 5 por receber visita íntima nos finais de semana e 2 para uso durante a “masturbação”, Segundo os presos jovens é mais higiênico e dispensa o uso do tradicional “paninho” na prisão. Na pesquisa MS/IBOPE (BRASIL, 2003e) com relação ao uso de preservativo entre jovens que têm entre 14 e 25 anos, a proporção dos que declararam usá-lo consistentemente, independentemente do tipo de parceiro(a) é 28,3%, e na primeira relação sexual, 54,6%. As proporções são pelo menos duas vezes maiores que as encontradas em adultos de 26 e 40 anos. O preservativo é sempre disponibilizado durante o conselhamento. Sua colocação também é orientada. Poucos presos jovens após o pós-teste pegaram o preservativo, e os que pegaram se justificaram. Portar preservativo, durante a revista corporal, que é feita várias vezes ao dia pelos agentes penitenciários, dependendo do fluxo de cada preso, traz constrangimentos a quem é revistado, e assumir a culpa de fazer “sexo proibido”, no caso, é assumir a homossexualidade. 66 Na prisão, mesmo para quem tem parceiro(a) fixo, e às vezes o uso do preservativo se torna necessário – quando a mulher está menstruada, ou se esqueceu ou parou de tomar anticoncepcional –, ele representa uma “entidade” que presentifica a existência de um terceiro indivíduo, mesmo no imaginário da relação que acontece a dois. O preservativo é a comprovação da fragilidade individual e coletiva sobre a doença. Tabela 22: Distribuição de presos jovens segundo a entrega de preservativos durante o pós-teste – Maringá, 2005. Entrega de Preservativo Sim Não Total Nº 7 44 51 % 13,73 86,27 100,00 Após a campanha feita na PEM, alguns presos voltaram a procurar o serviço com as mesmas práticas de risco. Situação esta justificada, pois muitas vezes durante o aconselhamento não se consegue mudar a conduta sexual, e sim, a percepção que a pessoa faz a respeito de sua situação de risco. Ou seja, naquele momento do aconselhamento, alguns presos podem não ter se identificado com o discurso e não ter assimilado em suas ações o compromisso individual e coletivo da prevenção, fazendo-se necessário novos aconselhamentos. Quando se trabalha com a subjetividade cada pessoa tem seu tempo. É importante lembrar que o fato de ser informado faz com que muitas vezes a pessoa se sinta mais protegida mesmo que sua situação não seja alterada. Com a testagem oferecida foi possível detectar: dois presos com sorologia positiva para o HIV e três presos com sorologia positiva para sífilis. Os casos confirmados não estavam na faixa etária do estudo, porém, podem ter se contaminado durante a juventude, principalmente os casos soropositivos para o HIV, em que será necessário exame específico (contagem de CD4) para detectar tempo provável de contágio. Os presos com sorologia positiva, após receberem aconselhamento, foram encaminhados para tratamento médico da unidade prisional, onde serão 67 notificados1 e receberão orientações médicas, acompanhamento psicossocial e tratamento. 1 Paraná e São Paulo são os únicos estados do país, a notificarem os casos de HIV positivo (Fonte 15ª Regional de Saúde de Maringá). 6 CONCLUSÃO O resultado obtido com o presente estudo permitiu conhecer, aprender e refletir sobre as vulnerabilidades individuais ao HIV/AIDS dos presos jovens. Os presos jovens sabem genericamente que fazer sexo desprotegido pode transmitir AIDS, mas não usam o preservativo. É pequena a percepção da própria vulnerabilidade, de que eles correm risco de se contaminar com o vírus HIV. O uso de preservativo por presos jovens está em níveis inferiores à média nacional, com parceiros(as) estáveis ou eventuais. Por serem jovens, constituem um dos grupos mais expostos ao HIV, sendo esta a faixa etária que mantém o maior número de parceiros(as) eventuais, sem o uso do preservativo. Os presos jovens possuem dificuldade em manter um compromisso com o sexo seguro por tempo prolongado, o grau de consciência quanto aos danos causados pela doença é limitado. Eles ainda não se identificam com o discurso da prevenção, pois têm dificuldades na mudança de atitudes. Contribuem para o aumento desta vulnerabilidade sua história pessoal, a dificuldade ao acesso à informação, educação dialogada, os serviços sociais e de saúde ofertados, o interesse e motivação na adoção de práticas seguras e a negociação de sexo seguro com seus pares. Campanhas de estímulo e acesso ao teste anti-HIV voluntário e acompanhado de aconselhamento, podem representar um caminho importante no sentido de aumentar a proteção aos presos jovens, pois muitos acabam se conscientizando e buscam se proteger. Outra opção seria estimular os parceiros sexuais a procurarem as unidades de aconselhamento para dialogar sobre os resultados, definindo o uso do preservativo em um contexto de prevenção partilhada. Outro caminho seria o de desenvolver projeto de educação popular, através oficinas grupais, num processo de construção coletiva do conhecimento sobre o corpo, o 69 sexo e a doença, capacitando continuadamente agentes multiplicadores de informações entre os presos. Cumpre considerar o papel opressivo da prisão e as funções conflituosas dos funcionários entre o vigiar e o assistir, situações que dificultam qualquer proposta de trabalho educativo com a massa carcerária. É imprescindível no processo coletivo de construção proposto, a inserção dos funcionários da unidade prisional; eles precisam estar sensibilizados e conscientizados da importância do seu papel na prevenção do HIV/AIDS. Esta sensibilização deve ser coerente com o discurso mencionado, ou seja, deverá ser conduzida mediante ação dialogada, pois se trata de desconstruir valores, concepções, sentimentos e condutas que envolvem mudanças na relação de poder. É preciso lembrar que por mais abrangente que seja a prevenção na área das DSTs/HIV/AIDS, dificilmente ela se desenvolverá de forma efetiva se não houver vontade político-institucional e recursos humanos. REFERÊNCIAS ALMEIDA, M. R. C. B.; EVANGELISTA, M. C. F.; FERREIRA, M. H. A inserção do SI-CTA no processo de trabalho de um CTA: resgate histórico. In: SZAPIRO, Ana Maria (Org.). Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA): integrando prevenção e Assistência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Programa Nacional de DST/AIDS, 2004. p.68-73. AYRES, J. R. C. M. Vulnerabilidade e AIDS: para uma resposta social à epidemia. Boletim Epidemiológico, São Paulo: CRT-DST/AIDS-CVE, ano 15, n.3, p.2-4, dez. 1997. AYRES, J. R. C. M. et al. Vulnerabilidade e prevenção em tempos de AIDS. In: BARBOSA, R. M.; PARKER, R. (Orgs.). Sexualidades pelo avesso: direitos, identidade e poder. São Paulo: Ed.34, 1999. p.49-72. BRANCO, Viviane Manso Castello. Os adolescentes nos serviços de saúde. Revista Saber Viver – Adolescência e AIDS: Experiências e Reflexões sobre o Tema, Brasília, DF: Edição Especial para Profissionais de Saúde, jan. 2004, p.10 -11. BRASIL. Ministério da Saúde. Revista Tema: medo e realidade o que é AIDS? Número Especial “AIDS”. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, out. 1987. ______ . ______ . AIDS: recomendações técnicas e aspectos éticos. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Programas Especiais de Saúde. Divisão Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis, 1988. BRASIL. Ministério da Educação. Constituição Federativa do Brasil: 1988. Brasília, DF, 1989. BRASIL. Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Regras Mínimas para o Tratamento do Preso no Brasil. Brasília: DF, 1995. BRASIL. Lei de Execução Penal: organização dos textos, notas, remissivas e índices por Juarez de Oliveira. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 1996a. 71 BRASIL. Ministério da Saúde. Manual do Multiplicador: ambiente prisional. Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis/AIDS. Brasília, DF: Secretaria de Assistência á Saúde, 1996b. ______ . ______ . Prevenir é sempre melhor. Brasília, DF: Coordenação Nacional de DST e AIDS. 1998a. ______ . ______ . SUS e o Controle Social: guia de referência para conselheiros Municipais. Brasília, DF, 1998b. BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dados Demográficos. 2000a. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/>. Acesso em: 3 set. 2005. ______ . ______ . Censo Demográfico de Maringá. 2000b. Disponível em: <http://www. assistenciasocial.gov.br/censo2000/scripts50/ netdestaque.exe>. Acesso em: 27 set. 2003. BRASIL. Ministério da Saúde. Relatório de Pesquisa do Comportamento Sexual da População. São Paulo: Programa Nacional de DST e AIDS. Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), 2000c. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/cebrap/relatório_04pesq_ CEBRAP.pdf.>. Acesso em: 17 set. 2005. ______ . ______ . Manual de Redução de Danos. Brasília, DF: Coordenação Nacional de DST e AIDS, 2001. BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Situação da população brasileira: níveis de desigualdades (UNFPA). Brasília, DF: Charbel Gráfica e Editora Ltda, 2002. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei n.8.069 de 13 de julho de 1990 e Lei n.8.242, de 12 de outubro de 1991. 4.ed. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2003. BRASIL. Ministério da Saúde. O perfil da AIDS no Brasil e metas de governo para o controle da epidemia. Brasília, DF: Secretaria de Vigilância em Saúde. Coordenação Nacional de DST e AIDS, 2003a. ______ . ______ . Seminário Nacional ativismo em AIDS: controle Social do SUS. Coleção DST/AIDS – Série Parceiros e Mobilização Social, Brasília, DF, n.3, ano 2003b. ______ . ______ . Organograma do Ministério da Saúde. Brasília, DF: Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS, 2003c. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/prtal/arquivox/gif/organogramanovogif>. Acesso em: 18 jul. 2005. 72 BRASIL. Ministério da Saúde. Aconselhamento em DST/HIV/AIDS para a atenção básica: fique sabendo. Brasília, DF: Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS, 2003d. ______ . ______ . Comportamento da população brasileira sexualmente ativa. Brasília, DF: Programa Nacional de DST e AIDS, 2003e. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/final/ biblioteca/ibope_2003/ibope_2003htm>. Acesso em: 17 set. 2005. ______ . ______ . Faça o teste da AIDS. Brasília, DF: Programa Nacional DST e AIDS, 2003f. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/final/prevenção/serviços.htm>. Acesso em: 8 nov. 2005. BRASIL. Ministério da Justiça. Sistema Penitenciário-DEPEN. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Justiça. Departamento Penitenciário Nacional, 2004a. Disponível em: <http://www2.mj.gov. br/infopen>. Acesso em: 25 nov. 2004. ______. ______. Distribuição do estabelecimento por tipo de unidade e UF. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Justiça. Departamento Penitenciário Nacional, 2004b. Disponível em: <http://www2.mj.gov.br/infopen>. Acesso em: 07 dez. 2004. ______ . ______ . Número de indivíduos privados de liberdade por grande região, unidade da federação. DATASUS. Brasília, DF: Secretaria Nacional de Justiça. Departamento Penitenciário Nacional, 2004c. Disponível em: <http://www.aids.gov. br/monitoraids/>. Acesso em: 18 maio 2005. BRASIL. Ministério da Saúde. Pesquisa de conhecimento, atitudes e práticas na população brasileira de 15 a 54 anos. Brasília, DF, 2004d. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/ final/dados/boletim2pdf>. Acesso em: 17 set. 2005. ______ . ______ . Boletim Epidemiológico AIDS, Brasília, DF: Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS, ano 1, n.1, 01 à 26ª Semanas Epidemiológicas, jan./jun. 2004e. Disponível em: <http:www.aids.gov.br /final/dados/boletim2pdf>. Acesso em: 17 set. 2005. BUCHALLA, C. M. AIDS: o surgimento e a evolução da doença. In: MONTEIRO, C. A. (Org.). Velhos e novos males da saúde no Brasil: a evolução do país e de suas doenças. São Paulo: Hucitec: Nupens/USP, 1995. p.331-345. CAMARGO JÚNIOR, Kenneth Rochel de. A construção da AIDS: racionalidade médica e estruturação das doenças. 1993. 228f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social, Rio de Janeiro. 73 CAMARGO JÚNIOR, Kenneth Rochel de. Políticas públicas e prevenção em HIV/AIDS. In: PARKER, R.; GALVÃO, J.; BESSA, M. Saúde desenvolvimento e política: respostas frente à AIDS no Brasil. Rio de Janeiro: ABIA, São Paulo: Ed 34, 1999. p.227-262. CARDOSO JÚNIOR, Ranulfo. Prevalência do HIV nos presídios. Boletim da Rede de Direitos Humanos em HIV/AIDS, Brasília, DF: Ministério da Saúde. Coordenação Nacional DST/AIDS, ano 5, n.1, p.6-9, 2001. CASTILHO, E. A.; CHEQUER, P.Epidemiologia do HIV/AIDS no Brasil. In: PARKER, R. (Org.). Políticas, instituições e AIDS: enfrentando a epidemia no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: ABIA, 1997. p.17-42. COHN, Amélia. Saúde no Brasil: políticas e organização de serviços. 5.ed. São Paulo: Cortez, 2003. DUARTE, Adriana. O processo de reforma da previdência social pública brasileira: um novo padrão de regulação social do estado. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo: Cortez, n.73, p.120-141, 2003. ELIAS, Paulo Eduardo. Estrutura e organização da atenção a saúde no Brasil. In: Cohn, Amélia. Saúde no Brasil: políticas e organização de serviços. 5.ed. São Paulo: Cortez, 2003. p.59-119. FIGUEIREDO, Regina. Evolução das designações atribuídas aos grupos visados pela epidemia de AIDS no Brasil. Maringá, 2002. Apostila fornecida no Curso de Sensibilização para Funcionários do Sistema Prisional. FOUCAULT, Michel. Microfisica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1995. ______ . Vigiar e Punir: nascimento da Prisão. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1984. FREITAS, Maria Virgínia; PAPA, Fernanda de Carvalho (Orgs.). Introdução. In:FREITAS, Maria Virgínia; PAPA, Fernanda de Carvalho. Políticas Públicas: juventude em pauta. São Paulo: Cortez, 2003. p.6-9. FUNDO DE POPULAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (UNFPA). Direitos da População Jovem: um marco para o desenvolvimento. Brasília, DF, 2003. GALVÃO, J. AIDS no Brasil: a agenda de construção de uma epidemia. Rio de Janeiro: ABIA, São Paulo: Ed 34, 2000. 74 GALVÃO, J. Uma cronologia da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no Mundo. Políticas Públicas, Rio de Janeiro: ABIA, n.20, 2002. LIMA, Regina Campos. A sociedade prisional e suas facções criminosas. Londrina: Edições Humanidades, 2003. LOPES, Cláudia Rabelo. A epidemia mudou e o mundo também: 25 anos de AIDS. Revista Radis, Rio de Janeiro: Manguinhos, Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública, n.40. p.10-16, dez.2005. LUZ, Madel Therezinha. A saúde e as instituições médicas no Brasil. In: GUIMARÃES, Reinaldo (Org.). Saúde e medicina no Brasil: contribuição para um debate. 4 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984. p.157-171. ______ . As instituições médicas no Brasil: instituição e estratégia de hegemonia. 2.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979. MANN, J.; TARANTOLA, D. J. M. (eds.). AIDS in the World II. New York: Oxford University Press, 1996. MARINGÁ. Secretaria de Saúde. Cartilha cidadania e Saúde: a vida com dignidade. Série entenda mais sobre DST e AIDS Coordenação Municipal de DST e AIDS. Maringá, 2003. MARQUES, Maria Cristina da Costa. A história de uma epidemia moderna: a emergência política da AIDS/HIV no Brasil. São Carlos: RiMa, Maringá: EDUEM, 2003. MENDES, E. V. Distrito sanitário: o processo social de mudança das práticas sanitárias do Sistema Único de Saúde. São Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec/Abrasco, 1995. MERHY, Emerson Elias. O capitalismo e a saúde pública: a emergência das práticas sanitárias no estado de São Paulo: Papirus, 1985. MISUTA, Norico Miyagui. Cobertura e fatores associados à realização do teste HIV/AIDS durante a assistência pré-natal na 15ª Regional de Saúde de Maringá-Pr. 2004. 132 f. Tese (Mestrado em Saúde Coletiva). Universidade Estadual de Londrina, Londrina- Paraná. NICZ, Luiz Fernando. Apostila “Políticas em Saúde”. Seminário DUDS. Curitiba: Fundação Caetano Munhoz da Rocha, 1989. 75 NORONHA, Ana Beatriz. A missão da OMS e os objetivos da Assembléia Mundial da Saúde. Revista Tema, Rio de Janeiro: Manguinhos, Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública, n.22. p.4-12, set. 2001. Editada pelo Programa Radis. PAIVA, Vera. Fazendo arte com a camisinha: sexualidades jovens em tempos de AIDS. São Paulo: Summus, 2000. PARANÁ. Fundação Caetano Munhoz da Rocha. Seminário SUDS: histórico e evolução do Sistema de Saúde. Curitiba, 1989. PARANÁ. Estatuto Penitenciário do Estado do Paraná. Decreto Estadual n.1276 de 31 de outubro de 1995. Curitiba, 1995a. PARANÁ. Regimento Interno da Penitenciária Estadual de Maringá. Resolução n.120/95. Curitiba: Secretaria do Estado da Justiça e Cidadania, 1995b. PARANÁ. Ministério Público. AIDS: legislação. Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais. Curitiba: Associação Paranaense do Ministério Público, 1997 PARANÁ. Secretaria do Estado da Justiça e Cidadania. Regimento Interno do Departamento Penitenciário do Estado do Paraná – DEPEN. Resolução n.121/95. Curitiba: Grupo Auxiliar de Planejamento Sistema Penitenciário do Paraná – Regimentos, 2002. PARANÁ. Secretaria do Estado de Saúde. Câmara Técnica de Ética e Cidadania em HIV e AIDS. Curitiba: Ministério da Saúde, Instituto de Saúde do Paraná. Diretoria de Sistemas em Saúde. Coordenação Estadual de DST e AIDS, 2003. PARANÁ. Departamento Penitenciário do Estado do Paraná (DEPEN). Estabelecimentos penais e Faixa Etária. 2004a. Disponível em: <http://www.pr.gov.br/depen/dp_quem.shtml>. Acesso em: 18 mar. 2005. PARANÁ. Secretaria do Estado da Justiça e Cidadania. Sistema de Informações Penitenciarias (SPR): estatísticas de presos por unidade penal. Maringá: Departamento Penitenciário do Estado do Paraná (DEPEN). Penitenciária Estadual de Maringá, 2004b. PARKER, R. Na contramão da AIDS: sexualidade, intervenção, política. Rio de Janeiro: ABIA; São Paulo: Ed 34, 2000. 76 PARKER, R.; GALVÃO, J; BESSA, M. Introdução: políticas sociais, desenvolvimento econômico e saúde coletiva: o caso da AIDS. In: ______. Saúde desenvolvimento e política: respostas frente à AIDS no Brasil. Rio de Janeiro: ABIA, São Paulo: Ed 34, 1999. p.7-20. PIMENTA, Maria Cristina et al. Passagem segura para a vida adulta: oportunidades e barreiras para a saúde sexual dos jovens brasileiros. Rio de Janeiro: Associação Interdisciplinar de AIDS, 2001. Coleção ABIA – Saúde Sexual e Reprodutiva, n.1. RIZOTTO, N. L. F.; CONTERNO, S. F. R. A reforma do setor de saúde nos anos noventa: desdobramento da reforma do Estado Brasileiro. In: ______ . Estado e Políticas Sociais no Brasil. Cascavel: Edunioeste, 2001. p.73-95. SCHERER-WARREN, Ilse. Redes de movimentos sociais. São Paulo: Loyola, 1996. SILVA, Sonia Maria Batista; BARROS, Sandra Regina. CTA contextualizando a sua história. In: SZAPIRO, Ana Maria (Org.). Cento de Testagem e Aconselhamento (CTA): integrando prevenção e assistência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS, 2004. p.19-25. SILVEIRA, Claudia. A Saúde Publica no Brasil. Curitiba, 1990. Apostila confeccionada para o Curso de Administração e Gerência dos Serviços Públicos em Saúde. SIQUEIRA, Jailson Rocha. O trabalho e a assistência social na reintegração do preso à sociedade. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo: Cortez, n.67, p.53-75, 2001. SOUSA, Rosangela M. S. Controle social em saúde e cidadania. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo: Cortez, n.74, p.68-84, 2003. SPOSITO, Marília. Trajetórias na constituição de políticas públicas no Brasil. In: FREITAS, Maria Virgínia; PAPA, Fernanda de Carvalho. Políticas públicas: juventude em pauta. São Paulo: Cortez, 2003. p.57-75. TEIXEIRA, Paulo Roberto. Políticas públicas em AIDS. In: Parker Richard (Org.). Políticas, instituições e AIDS: enfrentando a epidemia no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed: ABIA, 1997. p.43-68. TORRES, Andréa Almeida. Direitos humanos e sistema penitenciário brasileiro. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo: Cortez, n.67, p.76-92, 2001. UNAIDS. Os Jovens e o HIV/AIDS: informativo do UNAIDS. 1998. 77 VERMELHO, L. L.; BARBOSA, R. H. S. AIDS: um desafio para saúde coletiva. In: SZAPIRO, Ana Maria (Org.). Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA): integrando prevenção e assistência. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Programa Nacional de DST e AIDS, 2004. p.7-13. VILELLA, W. V. Das interfaces entre os níveis governamentais e a sociedade civil. In: PARKER, R.; GALVÃO, J.; BESSA, M. Saúde desenvolvimento e política: respostas frente à AIDS no Brasil. Rio de Janeiro: ABIA, São Paulo: Ed 34, 1999. p.177-224. XAVIER, Jesuan. Redes Internacionais em saúde. Revista Tema, Rio de Janeiro: Manguinhos, Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. Escola Nacional de Saúde Pública, n.31. p.8-11, mar. 2005. Editada pelo Programa Radis. APÊNDICE 79 APÊNDICE A: FORMULÁRIO DE ATENDIMENTO DO SI-CTA