1257 Emoção, Ansiedade Social e Conformidade de Memória V Mostra de Pesquisa da PósGraduação Apresentadora: Rosa Helena Delgado Busnello¹; Dr. Gérson Américo Janczura3 (coorientador), e Dra. Lilian Milnitsky Stein² (orientadora) 1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Psicologia da PUCRS; ²Professora da Faculdade de Psicologia e do PPGR da PUCRS; ³Professor da Faculdade de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Psicologia da UnB. Introdução A memória humana, ainda que treinada e aprimorada, é falha. E bem mais socializada do que parece a princípio, já que, muitas vezes, lembramos o que partilhamos com o grupo social. Ou lembramos o que nos parece menos arriscado de assumir perante os demais, mesmo em situações sérias como um testemunho. Por quê? Porque vivemos em grupo, e o isolamento social costuma ser evitado. Portanto, a importância dada à memória como um instrumento fundamental para o “estar-no-mundo” é compreensível, legitimando sua investigação empírica em várias de suas possíveis interações. O estudo aqui apresentado é parte do projeto de doutorado da primeira autora, tendo como base investigativa o fato de que, em situações sociais, é comum haver um ajuste implícito entre o que o sujeito lembra e o que absorve de seus pares, assumindo-os como memórias próprias. Na literatura, esse ajuste é comumente denominado como conformidade de memória (Mori, 2003; Wright, Self & Justice, 2000). No paradigma experimental da conformidade de memória (CM), os participantes são testados em duplas ou em grupo, de forma que sua memória episódica (i.e., aquela relativa a um evento) possa ser seja contagiada pela alheia, através das chamadas informações pós-evento (IPE). O objetivo do presente estudo é investigar o efeito da interação de dois fatores com a CM: (1) a emoção dos eventos estudados; e (2) os níveis individuais de ansiedade social. De forma geral, considera-se que eventos emocionais costumam apresentar um status privilegiado na memória humana, pois constituem o cerne de nossa história pessoal (Damasio, 2004; LeDoux, 2001). 1258 Não obstante, pouco se sabe a respeito da CM relacionada a estímulos com valência positiva, em comparação à negativa e à neutra, bem como qual seria o protocolo de contágio social capaz de potencializar a evidência empírica dessa interação. Não se sabe, igualmente, o peso das diferenças individuais (relacionadas aos aspectos emocionais e afetivos) no efeito de conformidade de memória. Ao que tudo indica, níveis altos de ansiedade de performance acarretam maior predisposição à CM, enquanto que índices altos de ansiedade de interação social (da evitação à fobia) levam o sujeito a manter sua independência em relação ao grupo, evidenciando pouca ou nenhuma CM. Essa relação foi assumida por Wright, London e Waechter (2009), a partir de pesquisa com adolescentes, sendo por nós investigada em adultos. Nosso estudo está em andamento, e seus resultados preliminares serão apresentados à banca examinadora da Mostra do PPG2010. Método Delineamento: Experimental fatorial e intragrupo, do tipo: 3 (Valência: negativa x positiva x neutra) X 3 (IPE: acurada x sugerida x controle) X 2 (Escala de Ansiedade Social: performance x interação) X 2 (Fase de teste: imediata x posterior). As variáveis dependentes são: (1) o desempenho da memória; e (2) a avaliação subjetiva da memória. Participantes: 10a amostra total será em torno de 100 u0 universitários, maiores de 18 anos e de diferentes unidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Materiais e procedimentos: O experimento ocorre no Laboratório de Processos Psicológicos Básicos da PUCRS, utilizando-se: (1) computadores; (2) o software Super Lab Pro (Versão 4.0); (3) 168 fotos do IAPS (Lang, Bradley & Cuthbert, 1990); e (4) uma escala de ansiedade social (Liebowitz, 1987). O IAPS consiste em um material com cerca de mil fotografias coloridas de alta resolução que representam vários aspectos da vida ordinária; como, p.ex., cenas de acidentes e de violência, famílias, bebês, erotismo, paisagens e utensílios domésticos. As fotos estão classificadas em três dimensões emocionais: (1) alerta; (2) valência; e (3) dominância. Os dois primeiros domínios referemse, respectivamente, a: (1) o quanto a foto provoca excitabilidade (i.e., alto ou baixo alerta), e (2) o quanto ela é agradável ou desagradável (i.e., positiva, neutra ou negativa). Este material foi validado para a população brasileira por Ribeiro, Pompéia e Bueno (2004), sendo por nós utilizado em suas dimensões de alerta (controlado) e de valência (positiva, negativa e neutra). Os participantes da coleta-piloto aqui relatada (em torno de 20 pessoas) foram testados em duplas (participantes 1 e 2) do mesmo sexo, sentados lado a lado em frente a computadores. Inicialmente, os experimentadores solicitaram a leitura e assinatura dos 1259 Termos de Consentimento Livre e Esclarecido. Em seguida, houve a fase de estudo, na qual cada um estudou 135 fotos em computadores separados. As fotos foram apresentadas com um segundo de exposição e sem tela interestímulos. As fotos foram apresentadas da seguinte forma: a cada quatro fotos iguais para ambos os participantes, a quinta e sexta foram, respectivamente, apresentadas a apenas um deles, de forma que participante 1 estudou 108 fotos idênticas e 27 diferentes do participante 2, e este ultimo, por sua vez, estudou as mesmas 108 fotos e 27 diferentes. A diferença entre as fotos não abrange a categoria. Assim,quando um participante estudou uma foto retratando um bebê, por exemplo, o outro também estudou o mesmo tema, em imagem diferente. Ao final da fase de estudo houve uma fase de intervalo, na qual os participantes preencheram os 24 itens da Escala de Liebowitz (1987). Essa escala é composta por 24 frases (e.g. “telefonar em público”), as quais devem ser pontuadas em escala de 0 a 3 no quanto os participantes temem e evitam cada situação. Na sequência, procedeu-se ao teste de conformidade de memória (i.e., a fase de contágio social da memória), apresentando-se 168 fotos para teste de memória de reconhecimento simultâneo (i.e., ambos foram testados juntos em um mesmo computador). As 168 fotos apresentadas na fase de contágio social da memória dividem-se em: 108 comuns a ambos, 27 de cada versão (total de 54 fotos) e mais seis (06) de controle, sendo duas de cada valência. Nessa fase, os participantes foram sentados à frente de um mesmo computador com a instrução de olhar as fotos e responder em voz alta SIM se lembrassem de ter visto a foto na fase de estudo do experimento, ou NÃO, caso não lembrassem. A ordem de resposta foi intercalada, bem como a de apresentação das fotos vistas em cada versão. Os experimentadores anotaram as respostas enunciadas; sempre um experimentador para um participante. Ao final da fase de contágio, os participantes foram relembrados de voltarem dois dias após, para o teste de reconhecimento posterior. Este foi realizado com o mesmo material da fase de contágio, mas as respostas foram registradas pelo participante diretamente no computador, em teclas marcadas com adesivos para respostas LEMBRO, NÃO LEMBRO e SEI (esta última resposta significando que a foto era familiar, mas que não havia a memória de tê-la visto na fase de estudo), para avaliação subjetiva da memória. Segundo a literatura (Meade & Roediger, 2002), as respostas não e lembro são analisadas como índices de memória (verdadeira ou falsa) e as repostas sei são computadas como respostas conformistas. 1260 Análise dos dados: Em andamento. As análises estatísticas serão efetuadas com o programa Statistical Package for the Social Sciences na versão 11.0. Utilizaremos a Análise de Variância (ANOVA) com medidas repetidas para verificação das diferenças entre médias. Todos os testes estatísticos terão como critério de significânciaα = 0,05. Os dados obtidos na Escala de Ansiedade Social (Liebowitz, 1987) terão suas interações com o desempenho da memória analisadas em análises de regressão. Referências Damásio, A. R. (1996). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras. Lang, P. J., Bradley, M. M., & Cuthbert, B. N. (1990). Emotion, attention, and startle reflex. Psychological Review, 97(3), 377-395. LaBar, K. S., & Cabeza, R. (2006). Cognitive neuroscience of emotional memory. Nature Reviews of Neuroscience, 7(1), 54-64. Liebowitz, M. R. (1987). Social phobia. Modern Problems in Pharmacopsychiatry, 22, 141-173. Mori, K. (2003). Surreptitiously projecting different movies to two objects of viewers. Behavior Research Methods, Instruments & Computers, 35, 599-604. Ribeiro, R. L., Pompéia, S., & Bueno, O. F. A. (2004). Normas brasileiras para o International Affective Picture System (IAPS): Comunicação breve. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 26(2), 190-194. Wright, D. B., London, K., & Waechter, M. (no prelo). Social Anxiety moderates memory conformity in adolescents. Applied Cognitive Psychology. Wright. D. B., Self, G., & Justice, C. (2000). Memory conformity: Exploring misinformation effects when presented by another person. British Journal of Psychology, 91, 189-202.