5 UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA UNIVERSIDAD DE LA SABANA INSTITUTO DE ENSINO E FOMENTO ROSENEY DE FÁTIMA CUNHA VANDA LÚCIA DOS SANTOS INTERVENÇÃO PREVENTIVA COM FAMÍLIAS: EXPECTATIVAS E POSSIBILIDADES. PONTA GROSSA 2006 6 ROSENEY DE FÁTIMA CUNHA VANDA LÚCIA DOS SANTOS INTERVENÇÃO PREVENTIVA COM FAMÍLIAS: EXPECTATIVAS E POSSIBILIDADES. Monografia apresentada para a obtenção do título de especialista em Desenvolvimento pessoal e Familiar, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa / Univerdidad de La Sabana / IEF. Orientador (a): Neiva de Oliveira Moro. PONTA GROSSA 2006 7 SUMÁRIO RESUMO .............................................................................................................. 05 INTRODUÇÃO ......................................................................................................06 CAPÍTULO 1 1. REVISÃO DE LITERATURA.............................................................................09 1.1. CONCEITO HISTÓRICO DE FAMÍLIA...........................................................09 1.2. FAMÍLIA..........................................................................................................13 1.3. ESTRUTURAS FAMILIARES.........................................................................17 1.3.1 PAPÉIS NA FAMÍLIA....................................................................................24 1.3.2. FUNÇÕES DA FAMÍLIA...............................................................................26 1.4 FAMÍLIA FUNCIONAL E DISFUNCIONAL....................................................,.29 1.5 A POLÍTICA PÚBLICA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL E A CENTRALIDADE NA FAMÍLIA.................................................................................................................32 1.6 OS SERVIÇOS DE PROTEÇÃO SOCIAL, BÁSICA E ESPECIAL..............................................................................................................37 1.7. INTERVENÇÃO SOCIAL............................................................................39 1.8 OS DIFERENTES TIPOS DE INTERVENÇÕES QUE PODEM ACONTECER NA FAMÍLIA...........................................................................................................42 CAPÍTULO 2 2. O MUNICÍPIO E A CIDADE...............................................................................48 2.1. PERFIL DO MUNICÍPIO..................................................................................48 2.2. A CIDADE........................................................................................................52 2.3. ÁREA RURAL.................................................................................................53 8 2.4. HISTÓRICO SOCIAL DO MUNICÍPIO............................................................53 2.4.1. PROGRAMAS SOCIAIS..............................................................................61 2.5 DIAGNÓSTICO SOCIAL DO MUNICÍPIO........................................................65 CAPÍTULO 3 3. A PERCEPÇÃO DAS PESSOAS QUANTO AO TRABALHO PREVENTIVO COM AS FAMÍLIAS EM SITUAÇÃO DE EXCLUSÃO SOCIAL 3.1. DESCRIÇÃO DA PESQUISA DE CAMPO.....................................................68 4.CONCLUSÃO......................................................................................................78 5. REFERÊNCIAS..................................................................................................80 6. GLOSSÁRIO......................................................................................................84 7. ANEXOS E APÊNDICE.....................................................................................86 9 RESUMO Esta pesquisa apresenta uma forma de intervenção preventiva dirigida a famílias dos programas sociais da Secretaria de Promoção Social e Cidadania de Araucária. Procuramos primeiro, fundamentar nossas idéias a esse respeito, buscando na literatura existente idéias sobre Família, seu papel e função na sociedade. Também na legislação que trata desse grupo social, buscamos documentos legais que nos subsidiassem e que nos auxiliassem a compreender melhor o que pretendíamos realizar. Tentamos contextualizar o município onde a pesquisa foi realizada, para entendermos melhor as pessoas com quem estaríamos trabalhando. Na Intervenção nos preocupamos com aspectos ligados ao desenvolvimento das funções e papéis parentais. Esta proposta foi realizada e integrada no contexto de vida destas famílias. O projeto de intervenção junto a famílias surgiu como uma excelente oportunidade de melhorar os níveis de informação e as competências educativas parentais, associando a resultados obtidos na pesquisa efetuada. Utilizamo-nos de uma amostra de vinte questionários aplicados a técnicos, a famílias dos programas sociais e comunidade. A análise permitiu identificar os principais temas a serem abordados em um projeto de intervenção preventiva para famílias que irá contribuir para a educação dos filhos e compreensão do sistema familiar. Palavras Chave: Intervenção preventiva centrada na família. Papéis e funções parentais. 10 INTRODUÇÃO A pesquisa intervenção preventiva com famílias: Expectativas e Possibilidades; foi realizada a partir de um estudo investigatório aplicado a técnicos, a famílias de programas sociais da Secretaria de Promoção Social e Cidadania e a pessoas da comunidade em geral, no município de Araucária em meados de 2006, buscando a percepção dos diferentes sujeitos quanto a um trabalho preventivo junto a famílias em situação de exclusão. Foi conduzida por duas Assistentes Sociais com o objetivo de analisar e avaliar as expectativas em relação a melhor forma de implantar um trabalho preventivo, através de Assessoria Familiar, priorizando desenvolver essas ações com famílias em situação de exclusão social. A avaliação se efetivou através de questionários a fim de verificarmos a importância da prevenção na área da família. A palavra prevenção aponta para a mobilização no sentido de evitar que algo desagradável aconteça. Em particular para o profissional do serviço social que desenvolve seu trabalho, totalmente, voltado para o atendimento com famílias em situação de exclusão social a prevenção poderá constituir-se, talvez, numa alternativa com resultados positivos, em futuro próximo. Quando falamos em família submetida à situação de exclusão social, estamos tratando daquela família que, na maioria das vezes, já apresenta além da carência sócio-econômica, todos os sintomas da família em disfunção. A exclusão 11 social dificulta ainda mais um novo enfoque para essa família. Acreditamos que a família não existe isolada e sim fazendo parte de um contexto social e, é neste contexto, que aparecerão todas as conseqüências dessa disfunção. Portanto, ao desenvolvermos um trabalho de prevenção esta poderá ser uma ferramenta a mais no sentido de recuperação das famílias que estão em disfunção e, também, de famílias que ainda estão por se formar. No primeiro capítulo da pesquisa, nós procuramos vários autores que abordassem esse tema, e discorremos sobre conceitos e histórico da “família” revelando suas variadas funções e os papéis que são desenvolvidos dentro do sistema familiar e na comunidade. Foi interessante percebermos, na literatura consultada, como se apresentam nos conceitos de sistema em homeostase e em construção, caracterizando a família funcional e disfuncional. Ainda, em âmbito de pesquisa bibliográfica, fomos tentar elucidar o que são políticas públicas, e procuramos trazer uma visão do SUAS (Sistema Único da Assistência Social) que rege políticas voltadas a essas famílias com apoio sóciofamiliar para sustentar e preservar os vínculos familiares. Esclarecemos que, no que se refere a essa política, os serviços se dividem em proteção social básica e especial. No segundo capítulo procuramos refazer o percurso histórico do Município e da instituição que trata das políticas sociais, realizando uma pesquisa extensa em decretos, leis e consultando estudos e pesquisas de conclusão de cursos realizados por profissionais e estagiários. Buscamos informações em livros editados pelo município que tratam de variados temas, mas que contextualizam o 12 perfil do município, e deste modo, contribuíram teoricamente aprofundando de forma consistente o processo de análise de dados até a conclusão. Explanamos sobre os diferentes momentos da evolução dos programas sociais e da organização institucional e do processo de desenvolvimento do município suas características físicas, culturais, geográfica e socioeconômica. No terceiro capítulo, tratamos da concretização deste estudo que busca a percepção das pessoas quanto ao trabalho preventivo com as famílias em situação de exclusão social. Descrevemos a pesquisa de campo associando os conceitos teóricos escolhidos e estudados confirmando a idéia da pesquisa, a qual congrega a visão da amostra do universo pesquisado. Na Conclusão deixamos claro que, pretendemos com o conhecimento produzido avançar construindo um novo olhar em relação às perspectivas e possibilidades, nos permitindo propor um trabalho preventivo para famílias. 13 CAPÍTULO I 1. REVISÃO DE LITERATURA 1.1. CONCEITO HISTÓRICO DE FAMÍLIA. Conforme explicação do Professor Zorro, a origem da sociedade familiar, com base nas idéias de Adán (apud ZORRO, 2005, p. 5), são as seguintes: entendemos por família do ponto de vista sociológico um grupo de pessoas que convivem entre si, vinculados por relações de parentesco laços biológicos e sociais que se desprendem dos primeiros por consangüinidade, afinidade, adaptação e que cumprem funções com respeito a seus integrantes e a sociedade em seu conjunto.1 Para Zorro (2005) a Família é a instituição primária de toda sociedade, tem por elementos fundamentais, a relação entre os sexos, união duradoura entre homem e mulher. Vincula-se potencialmente a perpetuação da espécie (gerações) e de divulgadora de preceitos de caráter social como: sexualidade, gerações e reconhecimento social. Constatamos que é na família que se iniciou a divisão do trabalho baseada no sexo. Que a família é um instrumento para regular e controlar os comportamentos sociais e que, progressivamente, foi se fazendo mais extensa da origem do clã a tribo, princípios da sociedade organizada. A família tem importância para a formação das pessoas e para a manutenção das estruturas sociais como riqueza, estratificação. E como 1 Entendemos por família desde el punto de vista sociológico um grupo de personas convivientes, vinculadas por relaciones de parentesco – lazos biológicos y sociales que se desprenden de los primeros; consanguinidad, afinidad y adopción – que cumple funciones con respecto a sus integrantes y a la sociedad en su conjunto. (ADÁN, José Perez, apud ZORRO, 2005, p.5) 14 instituição social é um instrumento para manter a organização social, chamada a proteger valores e estruturas. (ZORRO 2005). Encontramos em dicionário da língua portuguesa que “o termo „família‟ é derivado do latim „famulus‟, que significa „escravo doméstico‟. E segundo Moreira (2001) este termo foi criado na Roma Antiga para designar um novo grupo social que surgiu entre as tribos latinas, ao serem introduzidas à agricultura e [...] e a escravidão”. O texto de Moreira ainda traz que, nesta época predominava uma estrutura familiar patriarcal em que um [...] e que de pessoas se encontrava sob a autoridade do mesmo chefe, nos tempos medievais [...], as pessoas começaram a estar ligadas por vínculos matrimoniais, formando novas famílias. Dessas novas famílias fazia também parte a descendência gerada que, assim, tinha duas famílias, a paterna e a materna. (MOREIRA, 2001, p.21 e 22) Compreendemos por descendência gerada os filhos advindos da união sexual dos cônjuges, os quais são irmãos entre si e tem vinculação sanguínea. Ainda, com base nas idéias de Moreira (2001 p. 22), consta que “com a Revolução Francesa, surgiram os casamentos laicos no Ocidente e, com a Revolução Industrial, tornaram-se freqüentes os movimentos migratórios para cidades maiores, construídas em redor dos complexos industriais”. O texto mostra, também, que “estas mudanças demográficas originaram o estreitamento dos laços familiares e as pequenas famílias, num cenário semelhante ao de hoje em dia. As mulheres saem de casa, integrando a população ativa, e a educação dos filhos é partilhada com as escolas”. (Ibid.) Consta que com esse movimento, as pessoas mais velhas, “os idosos deixam também de poder contar com o apoio direto dos familiares nos moldes pré- 15 Revoluções Francesa e Industrial, sendo entregues aos cuidados de instituições de assistência”. (MOREIRA, 2001, p. 21). Entendemos que com a saída da mulher para o mercado de trabalho, a família entra em uma nova fase, onde os cuidados e a proteção dos filhos são repassados para terceiros, conhecidos atualmente, como cuidadores, em instituições como creches, ou como contra turnos sociais e escolares, e os berçários que passam a desempenhar, parte da função que era executada pela família. A família começa a ver-se mais como espaço privado que como instituição social. A família passa a viver parte de sua vida fora do seu ambiente. “À medida que a sociedade vai ocupando espaço individual a família vai perdendo pesoespaço (DURKHEIM, 1984)”. 2 Pudemos perceber que na sociedade pós-industrial começam a aparecer às crises familiares. A Igualdade entre homens e mulheres, estreita a divisão, traz diferenças e as crises afetivas com o cônjuge ou com os filhos começam a surgir. Parece que cada um quer estar acomodado, centrado em seu individualismo. A crise é a quebra do que deveria ser, porém, pode não ser negativa, pois, é uma mudança. Nesta época, a família era definida como um “agregado doméstico [...] composto por pessoas unidas por vínculos de aliança, consangüinidade ou outros laços sociais, podendo ser restrita ou alargada” (MOREIRA, 2001, p. 22). Nesta definição, nota-se a ambigüidade motivada pela transição entre o período anterior 2 Conforme, ZORRO, 2005, Apostila da disciplina de Sociologia da Família, do Curso de Especialização em Desenvolvimento Pessoal e Familiar ofertado pela UEPG/IEF/UNISABANA. 16 às revoluções, representada pelas referencias à família alargada, com a tendência reducionista que começava a instalar-se refletida pelos vínculos de aliança matrimonial. A autora explica que na cultura ocidental, uma família é definida especificamente como um grupo de pessoas de mesmo sangue, ou unidas legalmente (como no matrimônio e na adoção). Muitos etnólogos argumentam que a noção de “sangue” como elemento de unificação familiar deve ser entendida metaforicamente; dizem que em muitas sociedades culturas não-ocidentais a família é definida por outros conceitos que não “sangue”. (MOREIRA, 2001). Explica ainda, que a família poderia sim se constituir de uma instituição normatizada por uma série de regulamentos de afiliação e aliança, aceitos pelos membros. Alguns destes regulamentos envolvem: a exogamia, a endogamia, o incesto, a monogamia, a poligamia e a poliandria. 3 Pudemos constatar que a família vem-se transformando através dos tempos, acompanhando as mudanças religiosas, econômicas e sócio-culturais do contexto em que se encontram inseridas. Ela aparece como um espaço sóciocultural que deve ser continuamente renovado e reconstruído e deve ser vista como um espaço político de natureza criativa e inspiradora. Assim, a família deverá ser encarada como um todo que integra contextos mais vastos como a comunidade em que se insere. A família é um “sistema de membros interdependentes que possuem dois atributos: comunidade dentro da família e interação com outros membros”. (STANHOPE, 1999, p. 492). 3 Estes conceitos se encontram explicados no Glossário 17 1.2. FAMÍLIA. Ferrari (2002, p. 28), define: família como a instituição de vários indivíduos que compartilham circunstâncias históricas, culturais, sociais, econômicas e afetivas. Família é uma unidade social emissora e receptora de acontecimentos históricos. Possui comunicação própria e determinada dinâmica. A autora ainda coloca que a “Família é unidade de desenvolvimento de experiências, de realização ou de fracasso, de saúde ou de doença”. (Ibid.). O conceito da família tem evoluído ao longo dos tempos, quer nas suas funções enquanto sistema quer nas funções de cada elemento que a compõe. Assim sendo, verifica-se, que o conceito de família não é fácil de caracterizar, variando de autor para autor. No Novo Dicionário Aurélio, encontramos que, sociologicamente, “família é um grupo formado por indivíduos que são ou se consideram consangüíneos, uns dos outros, ou descendentes dum tronco comum ou estranho admitidos por adoção”. (FERREIRA, 1975, p. 609). Compreendemos que a família representa um grupo social primário que influencia e é influenciado por outras pessoas e instituições. É um grupo de pessoas, ou número de grupos domésticos ligados por descendência (demonstrada ou estipulada), a partir de um ancestral comum, matrimônio ou adoção. Nesse sentido, o termo confunde-se com clã. Dentro de uma família existe algum grau de parentesco. Membros de uma família costumam compartilhar do mesmo sobrenome, herdado dos ascendentes diretos. A família é unida por 18 múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente durante uma vida e durante as gerações. (ZORRO, 2005) O autor continua explicando que podemos entender por família a instituição mais antiga e primordial de um grupo social e, que a forma de sua estruturação é determinada pelos aspectos culturais e pelas hierarquias axiológicas de cada sociedade. Mostra que existe, cada vez mais, um distanciamento do conceito tradicional de família. A família tradicional apresentava-se com uma imagem de grupo atuante e mobilizado para a sobrevivência de um grupo mais numeroso e fortemente orientado pela lógica da transmissão de herança, garantindo deste modo à continuidade, enquanto que a família dos nossos dias se apresenta através de uma valorização da vida emocional e afetiva. Encontramos que historicamente, a família dispõe de um modo de funcionamento impar – o amor – algo que não se adquire nas prateleiras de qualquer supermercado, mas supõe, idealmente a gratuidade e a incondicionalidade. Assim, das inúmeras mudanças, algo permanece, ou seja, a preocupação com os filhos, que segundo Minuchin (1990), são hoje criados por muitas delas, com muito mais desvelo, amor, carinho e preocupação com seu bem estar e crescimento harmonioso. Podemos então, dizer que Minuchin (1990, p. 26), define família como “um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interação dos membros da família, considerando-a, igualmente, como um sistema, que opera através de padrões transacionais”. O autor continua explicando que, sendo assim, no interior da família, os indivíduos podem constituir subsistemas, podendo estes ser formados pela geração, sexo, interesse e/ou função, havendo diferentes níveis de 19 poder, e onde os comportamentos de um membro, afetam e influenciam os outros membros. A família, como unidade social, enfrenta uma série de tarefas de desenvolvimento, diferindo em nível dos parâmetros culturais, mas possuindo as mesmas raízes universais. Szymanski (2002), em seu artigo “Viver em família como experiência de cuidado mútuo”, explica que Kaslow (2001), define o grupo familiar por meio de nove tipos de composição familiar: 1) Família nuclear, incluindo duas gerações, com filhos biológicos; 2) Famílias extensas, incluindo três ou quatro gerações; 3) Famílias adotivas temporárias; 4) Famílias adotivas, que podem ser bi-raciais ou multiculturais; 5) Casais; 6) Famílias monoparentais, chefiadas por pai ou mãe; 7) Casais homossexuais com ou sem crianças; 8) Famílias reconstituídas depois do divorcio; 9) Varias pessoas vivendo juntas, sem laços legais, mas com forte compromisso mutuo. (KASLOW, 2001, apud SZYMANSKI, 2002, p. 10). A autora diz que essa diversidade muda o modo de enfocar a “estrutura familiar nuclear, como modelo de organização familiar, para a consideração das novas questões referentes à convivência entre as pessoas na família, sua relação com a comunidade mais próxima e com a sociedade mais ampla”. (SZYMANSKI, 2002, p. 10). Cerveny (2001), também, fala que conceitos e pesquisas sobre famílias foram feitos e continuam a ser estudados por vários segmentos da ciência, em diferentes dimensões espaço-temporais e, que dificilmente, vamos conseguir esgotar o assunto. Segue citando algumas definições do que entendemos por categorias de família: de origem, extensa, nuclear, atual e substituta. Estaremos explicitando, a seguir, como define cada tipo. 20 Explica a “Família de Origem [...] ligada aos conceitos de ascendência e descendência, pressupondo laços sanguíneos. Assim, a família de origem de um indivíduo, inclui seus pais e os pais desses, numa ascendência progressiva”. (CERVENY, 2001, p. 21). Compreendemos este tipo de família, como sendo vista pelo resultado da bagagem genética. A autora diz que se serve das idéias de Bell (1975), para explicar o que é “Família Nuclear [...] é uma unidade composta de pais e filhos, desenvolvida a partir de um relacionamento biológico. [...] É intacta formada por cônjuge em um primeiro casamento com seus filhos biológicos”. (CERVENY, 2001, p. 22). Ela coloca que “para Goode (1964) a família extensa pode ser vertical, com três ou mais gerações, ou lateral: pela adoção de outras unidades nucleares”. (CERVENY, 2001, p. 21). E, afirma que, para ela este tipo de família “pressupõe parentesco sangüíneo ou afinidade de pessoas ligadas entre si no tempo e no espaço e que se articulam com o presente”. (Ibid). Encontramos em Cerveny (2001, p. 22) que para ela a “Família Substituta [...] refere-se a uma família que assume a criação de uma ou mais pessoas com as quais não tem laços de parentesco”. Entendemos que isto poderá acontecer por adoção ou em caráter de guarda temporária (família guardiã). Na família atual ou em qualquer outro modelo de composição familiar, citado ou não, usualmente descrito, pressupõe primeiro considerar a análise da estrutura emocional, em segundo lugar, o estudo da rotina da atividade familiar, das funções da vida familiar e em terceiro nível como as instituições políticas, econômicas, religiosas e urbanas influem na família e no grau de equilíbrio ou conflito entre ela e a sociedade. 21 1.3. ESTRUTURAS FAMILIARES. Consultando, Whaley e Wong encontramos que A família assume uma estrutura característica. Por estrutura entende-se, „uma forma de organização ou disposição de um número de pessoas que se inter-relacionam de maneira específica e recorrente‟. (WHALEY e WONG, 1989 p.21). [...] estrutura familiar compõe-se de um conjunto de indivíduos com condições e em posições, socialmente reconhecidas, e com uma interação regular socialmente aprovada. (WHALEY E WONG, 1989, p.22) Falando ainda das idéias das autoras citadas, o texto mostra como elas explicam as diferentes divisões que a estrutura familiar tem recebido e como as caracterizam; A família pode então, assumir uma estrutura nuclear ou conjugal, que consiste em um homem, uma mulher e seus filhos, biológicos ou adoptados, [...] reformulando a sua constituição, quando necessário. Existem também famílias com uma estrutura de pais únicos ou monoparental, [...] a variação de estrutura nuclear tradicional [...] a fenômenos sociais, como o divorcio, óbito, abandono de lar, ilegitimidade ou adopção de crianças por uma só pessoa. (Ibid.). As autoras fazem referência à família extensa (ampliada) e/ou consangüínea dentro da estrutura familiar, e a outras formas alternativas de família e a descentralização dos papéis. Constatamos que para as autoras, a família ampliada ou consangüínea é outra estrutura, que consiste na família nuclear, mais os parentes diretos ou colaterais, existindo uma extensão das relações entre pais e filhos para avós, pais e netos. Afirmam que existe, também a família denominada de alternativa, sendo um exemplo delas, as famílias comunitárias. Dizem que as famílias comunitárias, 22 ao contrário dos sistemas familiares tradicionais, onde a total responsabilidade pela criação e educação das crianças se restringe aos pais e a escola que tem estruturação diversa. Nestas famílias, o papel dos pais é descentralizado, sendo que as crianças passam a ser da responsabilidade de todos os membros adultos. No que se refere ao tipo de relações pessoais que se apresentam numa família, fazemos referência a Lévi-Straus (1982,) que apresenta três tipos de relações: a de aliança (casal), a de filiação (pais e filhos) e a de consangüinidade (irmãos). Explica também, que é nesta relação de parentesco, de pessoas que se vinculam pelo casamento e/ou por uniões sexuais, que se geram os filhos. Entendemos com base nos autores citados que a família é um sistema social único composto por um grupo de pessoas cada qual com um papel definido. No entanto, embora diferenciados, possuem a engrenagem de um único sistema, apresentando-se como um todo. Apresentamos então, a família como um todo, espaço onde os membros se inter-relacionam, onde as ações, atitudes e experiências vividas influenciam todos os seus membros. E para que possamos entender melhor este sistema familiar e suas funções, consultamos a dissertação de mestrado de Padilha (2003). A autora na Abordagem Sistêmico-Integrativa utiliza-se da visão sistêmica do desenvolvimento humano para fundamentar a sua pesquisa chegando a algumas hipóteses sobre a influência das relações parentais na estruturação da personalidade. Para ela a “abordagem [...] tem por referencial teórico o desempenho das funções parentais necessárias a um desenvolvimento integrado da personalidade 23 que, estruturaria um ser social humanizado, que respeitaria a si mesmo e a seus semelhantes”. (PADILHA, 2003, p. 41). Concretamente, segundo a abordagem sistêmico-integrativa a família deverá criar mecanismos para que as funções parentais, maternas, paternas e de casal sejam desempenhadas para garantir o desenvolvimento integral da pessoa em sua integralidade. Segundo a abordagem Sistêmico-Integrativa, a Função materna tem as atribuições de Nutrição, Organização e vínculo; a Função paterna, de proteção, Limite e Direção e a Função Casal propicia o modelo de Companheirismo, sexualidade e Afetividade. Para exercer a Função Materna, é necessário que a mãe tenha um mínimo de organização para dispensar ao filho os cuidados básicos de alimentação, higiene, calor, aconchego etc., que vão garantir a sua sobrevivência. Ao ser atendido nas suas necessidades básicas, o bebê vai estruturando a confiança básica, a fé de que existem soluções para os problemas, que será à base de sua visão de homem e de mundo, e da sua própria capacidade de reorganização nas situações desestruturantes de frustração e conflito, na fase adulta. O vínculo que a mãe desenvolve com o filho no desempenho dessas tarefas é que vai proporcionar a ele a capacidade de vincular-se, ou seja, uma base de humanização para os futuros relacionamentos. Este é um dos aspectos fundamentais da importância da Função Materna na prevenção da violência e da doença mental. (PADILHA, 2003, p. 41). Se pensarmos na questão da afetividade, podemos correlacionar com a capacidade de estabelecer vínculos, criar laços e manter relações duradouras. Entendemos que quando a função materna não é bem desenvolvida a criança e ,posteriormente, o adulto não desenvolve a capacidade de entregar-se a outra pessoa, confiar em um terceiro, de doar-se, de aconchegar-se. Se não recebi proteção, não sei proteger. A Função Paterna, assim como a Função Materna e a Função Casal, começam a ser desenvolvidas já na vida intra-uterina, quando o pai “grávido” protege a “mãe”, estabelecendo fronteiras entre ela e o social, dispensando-lhe os cuidados necessários ao seu equilíbrio físico e 24 emocional durante a gestação. Na relação direta com o filho, as atribuições de Proteção, Limite e Direção começam a ser desempenhadas quando a criança passa a enfrentar o mundo lá fora, onde terá que respeitar regras, limites e estabelecer metas, ter uma direção na vida. É o que vai propiciar ao ser humano a segurança necessária para a vivência no mundo, para enfrentar as dificuldades e frustrações, diferente de segurança desenvolvida pela Função Materna, que garante a sobrevivência. (PADILHA, 2003, p. 41-42) A autora mostra que a função paterna está ligada à direção e ao limite. Quando esta função é bem desenvolvida, muitos problemas da adolescência e da vida adulta podem ser evitados. Quando o pai ou a mãe se distancia do desenvolvimento adequado de suas funções estas repercutirão no comprometimento da formação da personalidade, que se manifestarão, na infância, dentro da própria família e na escola. Na adolescência com os pais, vida escolar e comunitária e na fase adulta no trabalho, em suas relações sociais, acadêmica e conjugal. Na função casal, o casal de pais, não necessariamente os pais biológicos, vai dar aos filhos, através do modelo de companheirismo, sexualidade e afetividade a matriz da convivência, da sobrevivência na relação com o outro, da estruturação e manutenção da família. A Função casal é percebida como a lapidação do desenvolvimento do ser humano, o seu aprimoramento, a sua individuação, no sentido que Carl Jung dá a esse termo, ou seja, o processo de totalização da personalidade. (Ibid, p. 42). Por função casal, entendemos os pais passando a seus filhos o modelo da vivência em família, de socialização, de conjugalidade, de transcendência, assim como de modelo de sexualidade reafirmando a identidade sexual das crianças e dos adolescentes. Ela ainda explica que [...] Uma pessoa que tenha internalizado as atribuições da Função Paterna, de Proteção, Limite e Direção, não será uma ameaça à sociedade. Terá 25 aprendido a respeitar regras, a não invadir o território do outro, saberá perseguir uma meta. Acrescentando a isso a confiança básica, desenvolvida através das atribuições da Função Materna, não se exporá a situações de perigo, de risco de vida sem necessidade; tendo uma autoimagem positiva e capacidade de se vincular, não se transformará no assassino frio que trata outro ser humano como se fosse apenas um instrumento, algo que se usa a um fim. (PADILHA, 2003, p. 42). Se pudéssemos imaginar todas as famílias com os pais desenvolvendo todas as funções parentais, certamente, teríamos pessoas confiantes, seguras, com projetos de vida, formando novas famílias com responsabilidade. Seriam diferentes das que se encontram em situação de abandono, violência, negação de direitos fundamentais a que a criança e o adolescente da atualidade estão submetidos e que, comprovadamente, segundo a abordagem sistêmico-integrativa esta família não conseguiu desenvolver integralmente suas funções parentais. Ferrari (2002, p.26), descreve que, [...] à integridade do Eu dependerá dos vínculos e da organização entre os agrupamentos de papéis sociais, psicológicos (ou psicodramáticos) e sociais. As variações e os desequilíbrios no acoplamento das estruturas desses papéis em seu desenvolvimento originam características e/ou distúrbios do EU. Compreendemos que para a autora todos os aspectos de desenvolvimento da pessoa devem ocorrer com integralidade. À medida que alguns aspectos de formação da personalidade não forem observados ou contemplados e, possivelmente, revistos, comprometerão respectivamente futuros vínculos e desenvolvimento de papéis, caracterizando a circularidade deste pensamento. O processo de desenvolvimento não é único e acabado ele acontece em todas as fases da vida da pessoa. Ela continua a elucidar que 26 desempenhar um papel não é algo aprendido subitamente e de forma acabada. Existe todo um processo de etapas de desenvolvimento que se superpõem e freqüentemente operam em conjunto. As primeiras vivências das crianças quanto à formação, percepção e aprendizado emocional relacionam-se estreitamente com o desenvolvimento da Matriz de identidade. Constituindo dessa forma o primeiro processo de aprendizagem emocional da criança. (Ibid). Ferrari (2002, p. 26), ainda explica que “para Moreno, numa fase inicial ocorre à identidade do Eu com o Tu”. Isto quer dizer que, a criança confunde seu eu com as coisas e as pessoas ao seu redor. Ela não faz esta distinção. A autora continua dizendo que para o autor que cita, na segunda vivência da criança [...] ocorre o reconhecimento do Eu, de suas peculiaridades como pessoa, aos poucos vai percebendo que existe algo que não é ela. Depois vai tendo a consciência do Eu e do Tu. E em um terceiro momento ocorre a separação da realidade e fantasia; surgem os papéis sociais (relativos ao mundo real) e os psicológicos (relativos ao mundo da fantasia). (MORENO, apud FERRARI, 2002, p. 26) Entendemos que para a criança o seu reconhecimento como pessoa acontece aos poucos, e isso, faz com que ela tome consciência do mundo real. A autora continua sua explanação, citando as idéias de KorczaK (1983), que mostra de forma poética essa fase de reconhecimento do Eu e do Tu: O seio: uma nuvem clara, um perfume, o calor, isto é bom. A criança lambe o peito e fixa os olhos nesta coisa estranha que aparece sempre acima do seio, esta coisa que envia um sopro quente e emite sons. Não sabe que este seio, este rosto e estas mãos familiares constituem um conjunto, uma coisa só; (...) Chega o dia em que o rosto de sua mãe não é mais uma sombra, porque foi longa e sistematicamente explorado. Mil vezes a criança a pegou pelo nariz, tocou seus cabelos e seus olhos, tão engraçados porque às vezes são brilhantes às vezes embaçados, escondidos pelas pálpebras. Quanta vez abriu a boca da sua mãe para olhar para dentro, inspecionar os dentes, circunspecto sério, a testa franzida. Muitas vezes, querendo divertir a criança nos atrapalhamos a exploração com conversas inúteis e beijos inoportunos. Pensávamos que ela estava brincando, quando, na verdade, estudava. Agora têm em seu ativo algumas certezas e suposições que pedem para ser verificadas. (KORCZAK, 1983, apud FERRARI, 2002, p. 26-27). 27 Este interesse pela mãe ou pelo responsável ocorre desde o nascimento até o terceiro mês ou quarto mês de vida como mostram Aberasturi e Salas (1984) citados por Ferrari (2002, p. 27-28), explicam que: [...] Entre o terceiro e o quarto mês produzem-se mudanças fundamentais em sua mente e em seu corpo; já conhece sua mãe, ama-a e rejeita-a (morde, arranha, bate o pé, chora ao vê-la), sente-se amado e rejeitado por ela; toca-a e começa a brincar com seu corpo e pouco a pouco vai se preparando para seu definitivo encontro com o pai. Ama e odeia os dois alternadamente. A perda do vínculo exclusivo com a mãe e a necessidade de um terceiro (que é a figura do pai, não importa se real ou substituto) determina uma nova primazia de necessidades na vida do menino. Mas não é suficiente à presença do pai; é necessário que ele também encontre uma forma de comunicação adequada às necessidades de paternidade do filho que, se bem que parecidas com as da maternidade, tem matizes diferentes. Um pai que possa banhar o filho alimentá-lo, brincar com ele, sair com ele, é importante. O é mais ainda se reforça sua união com a mãe e oferece ao filho „o casal como fonte de identificação e como primeira imagem social, de comunidade, que tem o individuo‟. Através destas idéias pudemos notar que “a criança necessita de uma figura afetiva estável para ir, por intermédio dela, construindo sua identidade”. (FERRARI, 2002, p.28). Se isto não ocorrer, poderá ter dificuldades em seu processo de identificação, que “será conturbado se este contexto não for protetor e continente. Esse ambiente em geral é denominado família”. (Ibid). Muitos autores mostram que o conceito de família nos remete, obrigatoriamente, aos conceitos de papéis e funções, que são desempenhados por seus membros, os quais estaremos descrevendo e tentando distinguir, nos itens seguintes. 1.3.1 Papéis na Família De acordo com a autora Stanhope (1999, utilizando idéias de NYE) ela explica que 28 [...] em todas as famílias, independentemente da sociedade, cada membro ocupa uma determinada posição [...]: marido, mulher, filho ou irmão, sendo orientados por papéis. [...] começando pelos adultos na família, os seus papéis variam muito. A „socialização da criança‟, relacionada com as atividades contribuintes para o desenvolvimento das capacidades mentais e sociais da criança; os „cuidados às crianças‟ tanto físicos como emocionais, visando o seu desenvolvimento saudável; o „papel de suporte familia‟ que inclui a produção e/ou obtenção de bens e serviços necessários à família; o „papel de encarregados dos assuntos domésticos‟, onde estão incluídos os serviços domésticos, que visam o prazer e o conforto dos membros da família. Continuando sua explicação, a autora, Stanhope (1999, p. 502) mostra ainda, que para NYE [...] „o papel de manutenção das relações familiares‟, relacionado com a manutenção do contacto com parentes e implicando a ajuda em situações de crise; os „papéis sexuais‟, relacionados com as relações sexuais entre ambos os parceiros; „o papel terapêutico‟, que implica a ajuda e apoio emocional quando dos problemas familiares; o „papel recreativo‟, relacionado com o proporcionar divertimentos à família, visando o relaxamento e desenvolvimento pessoal. Relativamente aos papéis dos irmãos, estes são promotores e receptores, em defensores e protectores, interpretando o mundo exterior, ensinando os outros sobre eqüidade [...]. Compreendemos que, ao exercer estes papéis de modo simultâneo, estarão atuando no processo de socialização na família, ajudando a estabelecer e manter as normas, promovendo o desenvolvimento da cultura familiar. Interpretando os autores citados concluímos que os papéis desenvolvidos pelos membros das famílias em seus respectivos núcleos devem apresentar certa flexibilidade permitindo quando necessário à inversão ocasional deles. Dentro da disciplina sociologia da família, que foi ministrada no curso de Especialização Desenvolvimento Pessoal e Familiar ofertado pela UEPG/IEF/UNISABANA, em Zorro (2005, apoiando-se nas idéias de Adán, José Peres) ele define o papel da família como sendo: 29 - Papel intermediário em todos os processos sociais e individuais. - Formadora de critérios para que os membros da família possam ver o mundo por uma lente, encontrando sentido para as coisas. - Transmissora da cultura para seus filhos. - Fortalecedora das capacidades a fim de que as pessoas disponham de elementos para amar, discernir, sonhar e criar. - Estimuladora da realização pessoal, social, cultural, ambiental, econômico e político. - Promotora do reconhecimento dos valores, capacidades e oportunidades. - Ensina a pensar no futuro (ZORRO, 2005, p. 6). Analisando esses papéis, podemos constatar a responsabilidade da família no desenvolvimento global de seus filhos. Ao mesmo tempo, que percebemos sua importância dentro do grupo comunidade, sociedade em geral, e como é imprescindível que ela desempenhe esses papéis com eficiência e eficácia. 1.3.2. Funções da Família Encontramos em Minuchin (1990) que “como os papéis, as funções estão igualmente implícitas nas famílias, [...]. As famílias como agregações sociais, ao longo dos tempos, assumem ou renunciam funções de proteção e socialização dos seus membros”, (MINUCHIN, 1990). Elas fazem isso, para atenderem aspectos da vida familiar, necessários a vida da comunidade a que pertencem. Tendo em mente esta perspectiva, para Minuchin (1990, p.25 a 69), “as funções da família regem-se por dois objetivos, sendo um de nível interno, como a proteção psicossocial dos membros, e outro de nível externo, como a acomodação a uma cultura e sua transmissão”. O autor ainda coloca que, para dar conta disso, “a família deve então, responder às mudanças internas e externas, de modo a atender às novas 30 circunstancias sem, no entanto, perder a continuidade, proporcionando sempre um esquema de referência para os membros”.(MINUCHIN,1990). Fica claro para nós que, as pessoas da família desempenhando suas funções, corretamente, servem de modelos para as atitudes e ações dos outros membros. Destacamos, ainda que “existe conseqüentemente, uma dupla responsabilidade, isto é, a de dar resposta às necessidades quer dos seus membros, quer da sociedade”. (STANHOPE, 1999). Referindo-se à formação dos filhos e discorrendo sobre duas funções legítimas dos pais, como matrizes no desenvolvimento psicológico das crianças, bem como, para a construção do seu espaço para a vida social, Ferrari (2002, p. 89), explica que são elas: à socialização e a reprodução ideológica. A primeira refere-se a família como núcleo de procriação, cuja função principal é a formação da personalidade dos indivíduos e a socialização primaria das crianças. A segunda função diz respeito à família como espaço de transmissão de hábitos, costumes, idéias, valores, padrões de comportamento. Observando as funções descritas pela autora, novamente precisamos refletir sobre a enorme responsabilidade da família no cumprimento dessas funções, e a profundidade que tem a segunda função proposta por ela. Falando sobre o mesmo tema, encontramos que Stanhope (1999) identifica como funções familiares, as seguintes: [...] „Geradora de afeto‟, entre os membros da família; „proporcionadora de segurança e aceitação pessoal‟, promovendo um desenvolvimento pessoal natural; „proporcionadora de satisfação e sentimento de utilidade‟ das atividades que satisfazem seus membros da família; „asseguradora da continuidade das relações‟, proporcionando relações duradouras entre familiares; „proporcionadora de estabilidade e socialização‟, 31 assegurando a continuidade da cultura da sociedade correspondente; „impositora da autoridade e do sentimento do que é correto‟, relacionando com a aprendizagem das regras, normas, direitos e obrigações características das sociedades humanas. Além destas funções, Ferrari (2002), acrescenta ainda uma função relativa à saúde, na medida, em que a família protege a saúde dos seus membros, promove apoio e resposta às necessidades básicas em situações de doença. “A família, como uma unidade social, desenvolve um sistema de valores, crenças e atitudes face à saúde e doença que são expressas e demonstradas através dos comportamentos dos seus membros (estado de saúde da família)”.(FERRARI, 2002, p. 28). Compreendemos, que tendo que desenvolver bem, todas estas funções é enorme a incumbência da família. Entendemos que a família tem como função primordial à de proteção, tendo, sobretudo, potencialidades para dar apoio emocional aos seus membros, para a resolução de problemas e conflitos, podendo formar uma barreira defensiva contra agressões externas. É a família quem deve ajudar a manter a saúde física e mental do individuo, por constituir-se o maior recurso natural para lidar com situações que podem causar stress, ou outros problemas, associados à vida na comunidade. O tema família, nas idéias de Stanhope (1999), traz, também, discussões sobre as necessidades fundamentais da criança, e coloca como sendo: [...] à necessidade mais básica da criança, como a figura materna, que a alimenta protege e ensina, assim cria um apego individual seguro, contribuindo para um bom desenvolvimento da família e conseqüentemente para um bom desenvolvimento da criança. A família é então, para a criança, um grupo significativo de pessoas, de apoio, os pais, ou tutores, os irmãos, entre outros. Assim, a criança assume um lugar relevante na unidade familiar, onde se sente segura. O processo de socialização que a família assume, é muito importante, pois ela é que 32 modela e programa o comportamento e o sentido da identidade da criança. A família delimita áreas de autonomia, que a criança experiência, como a separação. A família tem também, um papel essencial para com a criança, que é o da afetividade, o alimento afetivo é tão imprescindível como os nutrientes orgânicos. Sem o afeto de um adulto, o ser humano enquanto criança não desenvolve a sua capacidade de confiar e de se relacionar com o outro. A família constitui o primeiro, e o mais importante grupo social de toda a pessoa, bem como a sua referência, estabelecido através das relações e identificações que a criança criou durante o seu desenvolvimento. (STANHOPE,1999 p. 503). A autora, ainda confirma a importância do desenvolvimento real das funções parentais dentro do sistema familiar, bem como, acentua a família como primeiro espaço de socialização para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Remete, também, para a função familiar o estabelecimento de vínculos, o desenvolvimento da afetividade e de espaço de proteção, segurança e satisfação das necessidades básicas à formação integral da pessoa. Zorro (2005, utilizando-se das idéias de Adán José Perez), define Função Familiar como: - Unidade de produção econômica e centro de consumo. - Responsável pelos cuidados dos menores e dos anciãos. - Formadora da personalidade das crianças (estruturas psíquicas) -Transmissora de valores cultuais e religiosos (culturalização) - Lugar de socialização primária e secundária (culturalização: valores, atitudes, motivações, comportamentos, oportunidades e apoio). - A família pode influenciar na transformação da sociedade. - Âncora da responsabilidade individual: estabilização social e controle sócio cultural. - Preparar e proteger os membros para entregar para a esfera pública. - Matrimônio – instrumento para proteger e preservar a estabilidade da família - Dar aos filhos a capacidade de pensar e refletir. - De sobrevivência, de proteção, de afeto, de reconhecimento e de apoio à geração na busca de oportunidades de desenvolvimento pessoal, físico e emocional. Compreendemos que os autores consultados reconhecem que a família pode vir a perder algumas de suas funções, porém, todos eles deixam claro, que ela não pode deixar de exercer as que irão garantir a estabilização da pessoa 33 adulta, nos aspectos psicológico e social e, no processo de socialização primária da família. A responsabilidade dos pais é muito grande, nesse sentido. 1.4 Família funcional e disfuncional Para VANEGAS (2005, p.1), “as famílias nas sociedades modernas necessitam ser dinâmicas, evolutivas e tem funções que devem cumprir durante a sua etapa de desenvolvimento, principalmente as funções de afeto, socialização, cuidado, reprodução e status familiar”. 4 A autora explica que “a disfunção familiar é entendida como o não cumprimento de algumas funções, devido a alterações nos subsistemas familiares”, 5 (Ibid.), e são provocadas por crises familiares vivenciadas pelos seus membros. Mostra ainda, que, o estado de saúde adequado é necessário para o funcionamento da família, considerando o modo de vida do indivíduo, suas condições e estilo de vida. Diz que, geralmente, o homem pertence, vive e se desenvolve dentro de um grupo social primário denominado de família. A autora afirma que “a família como grupo social deve cumprir algumas funções básicas que são: a função econômica, a biológica, cultural e espiritual”. 6 (VANEGAS, 2005, p. 1). Coloca que o fato da família ser “capaz de satisfazer as 4 “Las famílias aún em las sociedades más modernas necesitan ser dinámicas, evolutivas y tienen funciones que se deben cumplir durante las etapas de desarrollo de la misma, principalmente en las funciones de afecto, socialización, cuidado, reproducción y estatus familiar” (VANEGAS, 2005, p. 1). 5 “La disfunción familiar se entiende como el no-cumplimiento de alguna/s de estas funciones por alteración el algunos de los subsistemas familiares.” (Ibid). 6 “La família como grupo social debe cumplir algumas funciones básicas que son [...]: la función económica, la biológica y la educativa, cultural e espiritual.” (VANEGAS, 2005,p.1). 34 necessidades básicas, materiais e espirituais de seus membros, atuando como um sistema de apoio”7 (Ibid.), é que lhe dá credibilidade. Segundo SOUZA (2005) alguns autores entendem que a família se faz disfuncional quando não tem capacidade de assumir as mudanças e quando a rigidez de suas de regras impede o próprio ciclo de desenvolvimento de seus membros. Outros autores, já definem como características disfuncionais, às dificuldades intrafamiliares e o não cumprimento das funções básicas. Para medir o funcionamento familiar a autora define alguns critérios: 1- Cumprimento eficaz de suas funções, econômica, biológica e cultural espiritual. 2- Que o sistema permita o desenvolvimento da identidade pessoal e a autonomia de seus membros - Estabelecendo limites claros, fronteiras psicológicas entre as pessoas que permitam preservar seu espaço vital. 3- Flexibilidade das regras em situações de crise e para solução de conflitos. Quando as tarefas e papéis estão claros e aceitos pelos membros da família. As relações matrimoniais devem estar em sistema de hierarquia horizontal e com os filhos deve ser vertical. 4- Comunicação clara, coerente e afetiva que permita compartilhar os problemas. 5- Capacidade de adaptação às mudanças. (SOUZA, 2005 p. 3). A partir dessas idéias, podemos deduzir que para ser uma família funcional, ela deve atender a todos estes indicadores, possibilitando que seu funcionamento seja adequado e dando possibilidades a seus membros de se desenvolver em todos os aspectos de sua personalidade. Segundo a autora, [...] a principal característica que deve ter uma família funcional é que promova um desenvolvimento favorável a saúde de seus membros, para o qual é imprescindível que tenha: hierarquias claras, limites claros e 7 [..] capaz de satisfazer las necesidades básicas materiales y espirituales de sus miembros, atuando como sistema de apoio. (Ibid.) 35 definidos, comunicação aberta e explícita e capacidade de adaptação às mudanças. (SOUZA, 2005, p.4). Analisando essas idéias, Muszkat (2003, p. 25), diz que a palavra “disfuncionais aqui é utilizado em oposição a desorganizadas, que pressupõe uma forma de organização ideal. Disfuncional se refere às famílias nas quais as figuras parentais não conseguem exercer suas funções”. A autora adota os termos [...] ‟família funcional‟ e „família disfuncional‟ em contraposição a idéia comum de que famílias são organizadas ou desorganizadas. Entende que uma família que não esteja estruturada dentro de um modelo convencional, em que coabitam pais e filhos, não tem necessariamente sua funcionalidade afetada. A idéia de funcionalidade ou disfuncionalidade, diz respeito ao exercício de funções parentais, estas sim determinantes na organização e no desenvolvimento de seus membros. Por sua vez, a idéia associada à organização e desorganização tende a vir carregada de conotação normatizadora, assim como pensada dentro do modelo de masculinidade hegemônica. (MUSZKAT, 2003). Partindo dessas reflexões sobre o conceito, papéis e funções da família a Política de Assistência Social, em dezembro de 2003, na IV Conferência Nacional de Assistência Social, foi aprovada uma nova agenda política para o reordenamento da gestão das ações descentralizadas e participativas de Assistência Social no Brasil, as Diretrizes e Bases para uma política na perspectiva de um Sistema Único. Nele surgiu a discussão do papel da família como política pública criando novos espaços para defesa e atenção aos interesses sociais dos grupos familiares e ao território em que esta inserida. A política pública de Assistência Social e a política de proteção às pessoas, as circunstâncias e dentre elas, o seu principal núcleo de apoio: a família. 36 1.5. A POLÍTICA PÚBLICA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL E A CENTRALIDADE NA FAMÍLIA Podemos dizer que foi após essa nova agenda que a Assistência Social inicia seu trâmite para o campo dos direitos, da universalização dos acessos e da responsabilidade estatal. A Assistência Social como política pública de proteção social se configura como uma situação nova para o Brasil. Apenas em 1988, na Constituição Federal, a Assistência Social passou a integrar o Sistema de Seguridade Social, como política pública não contributiva, pautada pela universalidade da cobertura e do atendimento, ao lado da saúde (não contributiva) e da Previdência Social (contributiva). Isso significa que a Assistência Social é hoje um dever do Estado e um direito de “quem dela necessitar, independentemente de contribuição a Seguridade Social” .(Constituição Federal, art. 203). As definições legais atinentes à regulamentação da Política Pública da Assistência social, no período entre 1993 e 2003, estão estabelecidas em três instrumentos principais, a saber: a Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS; o primeiro texto da Política Nacional de Assistência Social (PNAS), de 1988, e as Normas Operacionais Básicas (NOB/97) e (NOB/98). Acreditamos que a política de Assistência Social é um espaço para a defesa e atenção dos interesses sociais, particularmente das famílias, seus membros e para a população mais pobre e excluída da sociedade. Em 1993, a Lei Orgânica da Assistência Social –LOAS, que é a Lei Federal n 8.742 93, (anexo A), que dispõe sobre a organização da Assistência Social e dá outras providências, foi quem veio regulamentar a Assistência Social de acordo 37 com os princípios fixados pela constituição, definindo uma estrutura descentralizada e democrática para a Política Nacional de Assistência Social. (FIGUEIREDO, 2005, p.1-2). Nesta lei, consta que como competência da Assistência Social, cabem as ações de prevenção, proteção, promoção e inserção, assim como o provimento de um conjunto de garantias ou seguranças que cubram, reduzam ou previnam exclusões, riscos e vulnerabilidade sociais, bem como atendam ás necessidades emergentes ou permanentes decorrentes de problemas pessoais ou sociais de seus usuários. Constatamos que as garantias aí existentes se efetivam por uma rede de proteção social básica, e ou, especial através de programas, projetos e benefícios, na perspectiva de inclusão social. Em decorrência dessas vulnerabilidades, o contexto da Assistência Social se constitui no sentido da prevenção, proteção básica, promoção e inserção social. As condições de vulnerabilidades próprias do ciclo da vida atingem crianças, adolescentes, jovens, idosos e pessoas em condição de desvantagens por deficiências que apresentem perda ou anormalidade da estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica ou de incapacidade ou redução de capacidade para exercer uma atividade dentro dos limites considerados normais para o ser humano. (SUAS, 2004). Vulnerabilidade é aqui entendida como a condição “desfavorável”, situação de exclusão objetiva, identificada pelos processos sociais e situações que produzam fragilidade, discriminação, desvantagem e exclusão social, econômica e cultural. 38 Entendemos que em situações de vulnerabilidade social e de risco a população está sujeita á violação de direitos pela negligência, violência, abandono e outras formas que exijam ações de prevenção, proteção especial, promoção e inserção social. Dentre elas podem os citar: abuso e exploração comercial e sexual, trabalho infanto-juvenil, pessoas em situação de rua, migrantes, dependentes do uso e vítimas da exploração comercial de substâncias psicoativas, vítimas do abandono e da desagregação familiar, vítimas de maus tratos e das diversas formas de violência e o fato dos adolescentes entrarem em conflito com a lei. Acreditamos que o risco é a dimensão subjetiva onde os indivíduos contrabalançam as condições de vulnerabilidades e suas possibilidades e capacidades de enfrentá-las. Nos princípios da Lei Orgânica da Assistência Social, no cap. II - seção I, art. 4 º, inciso III, a Política de Assistência Social rege-se por: “Respeito à dignidade do cidadão, a sua autonomia e ao seu direito a benefícios e serviços de qualidade, bem como á convivência familiar e comunitária, vedando-se qualquer comprovação vexatória de necessidade”. (LOAS, 1993, p. 09). Encontramos, também, que as suas diretrizes têm como base, conforme a LOAS, capítulo II, seção I, artigo 5º, inciso IV: “Centralidade na família para concepção e implementação dos benefícios, serviços, programas e projetos”. (Ibid.). Constatamos que a tradução ou o reconhecimento da família na condição de sujeito de direitos se encontra confirmada na Constituição Federal de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8,069 de 13 de julho de 1990), na Lei 39 Orgânica de Assistência Social (Lei nº 8.742 de 07 de dezembro de 1993) e no Estatuto do Idoso (Lei nº 8.842 de 04 de janeiro de 1994). (Anexos B, A e C, respectivamente). Como aparece mencionado no Sistema Único da Assistência Social – SUAS, a família, independentemente dos formatos ou modelos que assume, ainda é o lócus por excelência na história da humanidade onde aprendemos a ser e a conviver. É mediadora das relações entre sujeitos e a coletividade, delimitando continuamente, os deslocamentos entre o público e o privado, bem como, é geradora de modalidades comunitárias de vida. Todavia, não se pode desconsiderar que ela se caracteriza como um espaço contraditório, cuja dinâmica cotidiana de convivência é marcada por conflitos e, geralmente, também, por desigualdades, além de que nas sociedades capitalistas a família é fundamental no âmbito da proteção social. (SUAS, 2004). O cenário de discussão em família remete-nos a três dimensões clássicas de sua definição: sexualidade, procriação e convivência. Quando estamos diante de uma família, encontramos um conjunto de pessoas que se acham unidas por laços consangüíneos, afetivos ou de solidariedade. Constatamos, dessa forma, que devemos superar a referência de tempo e de lugar para a compreensão do conceito de família. (SUAS, 2004). A importância da família no contexto social e reconhecida há muito tempo, são inúmeros as declarações, decretos e leis que dela tratam. No Brasil, isso se concretiza O reconhecimento da importância da família no contexto da vida social está explícito no artigo 226, da Constituição Federal do Brasil, quando 40 declara que a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado, endossando, assim, o artigo 16 da Declaração dos Direitos humanos, que traduz a família como sendo o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da Sociedade e do Estado. No Brasil, tal reconhecimento se confirma nas legislações específicas da Assistência Social, Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, Estatuto do Idoso e na própria Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS, dentre outras. (SUAS/PNAS, 2005, p.14). Verificamos, também, que a matricialidade sócio-familiar passa a ter papel de destaque no âmbito da Política Nacional de Assistência Social – PNAS, aprovada em 14 de outubro de 2004. Enfatiza-se a centralidade na família, repousando no pressuposto de que para a família prevenir, proteger, promover e incluir seus membros é necessário em primeiro lugar, garantir condições de sustentabilidade para tal. (ARNS, 2005) As transformações ocorridas na sociedade contemporânea, relacionadas á ordem econômica, à organização do trabalho, à revolução na área da reprodução humana, à mudança de valores e à liberalização dos hábitos e dos costumes, bem como, ao fortalecimento da lógica individualista em termos societários, ocasionaram em mudanças radicais na organização das famílias. (SUAS – 2005, p.13) Conseqüentemente, podemos observar um enxugamento no contexto familiar, compondo famílias menores e uma diversidade de arranjos familiares, monoparentais, reconstituídas, além do empobrecimento acelerado e do abandono das terras pelas famílias, isto ocasionado pela migração. Essas transformações desencadearam um processo de fragilização dos vínculos familiares e comunitários, da identidade do grupo familiar e de seus membros tornando seus vínculos simbólicos e afetivos vulneráveis. A vulnerabilidade está também ligada às tipologias ou arranjos familiares e aos ciclos de vida das famílias, além dos fatores econômicos. (Ibid.). A centralidade da família será garantida á medida que na Assistência Social, com base em indicadores das necessidades familiares, seja desenvolvida 41 uma política de cunho universalista, que para além da transferência de renda em patamares aceitáveis se desenvolva redes de proteção social que suportem as tarefas cotidianas de cuidado, e valorizem a convivência familiar e comunitária. 1.6 OS SERVIÇOS DE PROTEÇÃO SOCIAL, BÁSICA E ESPECIAL. Encontramos em documentos oficiais, que os serviços de proteção social, básica, e especial, voltadas às famílias deverão ser prestadas, preferencialmente, em equipamentos próprios do município, em CRAS -Centros de Referência da Assistência Social básico e especializado. Consta que poderão ser executados, também, em parceria com as entidades governamentais de Assistência Social, os serviços, programas e projetos de atenção aos membros das famílias e indivíduos, integrando a rede de proteção social. Como já destacamos, os serviços de proteção social básica da política de assistência social são organizados coordenados e executados nos Municípios, pelo “Centro de Referência da Assistência Social - CRAS que é uma unidade pública estatal, que atua com famílias e indivíduos em seu contexto comunitário, visando à orientação e o fortalecimento do convívio sócio-familiar”. (SUAS, 2004, p. 10). As ações com as famílias e as pessoas que nela vivem são feitas na comunidade onde vive, visando garantir as relações familiares e vicinais. O CRAS, realiza o mapeamento, a organização da rede de proteção social local e a inserção nos serviços de Assistência Social e das demais políticas públicas e sociais. O Centro dispõe de um serviço de informação, orientação e realiza os devidos encaminhamentos, com posteriores acompanhamentos. Seu maior objetivo é potencializar a família como unidade de referência, fortalecendo 42 seus vínculos internos e externos de solidariedade, promovendo seus membros com ações intersetoriais que visem a sustentabilidade, rompendo com o ciclo intergeracional da pobreza, evitando a violação dos seus direitos. (Ibid.). Os Centros de Referência da Assistência Social Básica e os Centros de Referência da Assistência Social Especializado são espaços onde as equipes técnicas compostas por no mínimo um Assistente Social, um Psicólogo e um Auxiliar Administrativo irão intervir integrando uma rede social de serviços. (SUAS, 2004). Encontramos, ainda, nesse documento, que na Proteção Social Especial de Média Complexidade, executam-se serviços para resolver situações de violação de direitos, cujos vínculos familiares e comunitários não foram rompidos. Visa a “a reestruturação do grupo familiar, a elaboração e fortalecimento de referências morais e afetivas”. (SUAS,2004, p. 12). Já o serviço de Proteção Social Especial de Alta Complexidade, executa serviços que garantam a proteção integral, moradia, alimentação, higienização e trabalho protegido para as famílias e indivíduos que se encontram sem referência e ou situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e ou comunitário. “[...] são priorizados os serviços que possibilitam a organização de um novo projeto de vida, a aquisição de novas referências na sociedade e a conscientização dos direitos e deveres de cidadania”. (SUAS, 2004, p. 12). 1.7 INTERVENÇÃO SOCIAL A Professora Ercilia Silva diz que o termo intervenção em ciências sociais desperta diferentes reações. Alguns optam pela utilização do termo, outros acham 43 necessário desconstruir, em especial pela associação à idéia de intromissão ou mesmo de um ato de força. Encontramos no dicionário on line, que intervenção vem: do Latim: Interventione; que significa acto de intervir; mediação; interferência; intercessão. Na área da Medicina significa: cirurgia, operação. Já o conceito Militar é de: forças, forças militares, constituídas por indivíduos especializados, que têm por função defender e manter a ordem pública em locais ameaçados por grupos armados ou desordeiros. Podemos dizer que [...] se por um lado, articula-se a idéia de um ato de força de algo que vem de fora para intrometer na dinâmica interna de uma pessoa, um grupo ou uma instituição. Por outro lado articula-se a tomar parte voluntariamente, tornar-se mediador, interceder, ser, ou estar presente, assistir, participar. Intervenção é uma ação que se interpõe a um processo espontâneo de algum grupo social. (SILVA, 2005)8. Para nós, o conceito que orientará a nossa prática se assemelha ao de Silva, pois, pretendemos voluntariamente, estarmos presentes, participando e procurando estabelecer novas formas de atendimento, de assessoria e de intervenção sobre as famílias que disso necessitam. A autora da idéia faz referência a outras ciências que se preocupam com as relações entre as pessoas e os diferentes meios de interagir. [...] A psicossociologia (comunica psicologia e social – conhecimento) expressa a concepção de intervenção social como: Uma ação neutra, uma ação complexa, Implementação de um ambiente da vida real, não sendo uma ação espontânea e sim uma ação planejada e como espaço de integração entre teoria e prática. (Ibid.) 8 SILVA, Ercília. IN: Apostila da disciplina de Técnicas de Moderação e de Intervenção Social, do Curso da Pós Graduação em Administração e Planejamento de Projetos Sociais da Universidade Gama Filho, em 2005. 44 Logo, a intervenção não é espontânea, à medida que conhecemos a problemática, passamos a mudar a realidade de forma organizada, planejada com antecedência, pelo conhecimento dos fatos reais. A ação de intervir na vida real busca a concretude, deve-se recusar a separação entre o psíquico e social, aceitar trabalhar com os sujeitos em situação de mudança e reconhecer a relação entre pesquisa e ação. A autora ainda mostra que na intervenção existem diferentes abordagens: intervenção psíquico social onde há diferentes correntes, pesquisa participante, oficina psicossocial, e projetos sociais. O projeto social localiza-se no contexto das políticas públicas, programa e projetos através de ações. O projeto social atual, contemporâneo é uma forma de instrumento de atuação que altera a relação (dinâmica) de exclusão e inclusão social. O Projeto surge dentro da lógica organizada pela instituição. (SILVA,2005). A Política é a grande orientação do que tem que ser feito. Os programas e os projetos são formas de intervenção, é a proposição concreta de executar as ações. A ação é a intervenção social. Na intervenção os fenômenos interagem entre si, mas, cada fenômeno individual, volta e altera ele mesmo. Existe uma reciprocidade. Quando um fenômeno bate na realidade ele vai alterar aquele fenômeno, ressignificar o fenômeno em todos os elementos. (Ibid.) Compreendemos que quando se propõe uma ação que altera a realidade não podemos esquecer a dimensão cultural, história, psicológica, e a dimensão política. A unidade social existe, a unidade singular, também, existe. O ser singular é a perspectiva psicológica. 45 Silva (2005), diz que pressupomos, então, que o sujeito é afetado pelo social, não um ser social, porque o sujeito tem individualidade e que um elemento a mais na relação interfere naquela relação. Sujeitos são seres humanos totais, singulares em construção e em permanente processo de movimento, inseridos e afetados, em condições concretas de existência dos quais, eles mesmos são parte constitutiva. Argumenta ainda que o social determina o sujeito em construção que congrega outras dimensões culturais, históricas, psicológicas e a dimensão política. Para afetar o sujeito não tem caminho à priori a ser seguido, todos eles estão ali. A realidade em si é a objetividade, mas para o sujeito fica na subjetividade. São indispensáveis, se produzem ao mesmo tempo, não tem realidade, nem sujeito nesta lógica. Todo fenômeno é produzido assim: com sujeitos de cultura, não de natureza; Toda unidade singular tende a desaparecer como unidade singular; sujeitos e instituições sociais possuem relativa autonomia e auto realização; a síndrome não determina o sujeito; os seres se constituem na relação. (Ibid.). Intervenção é fazer aquilo que é novo naquela realidade, respeitando o conceito de sentido subjetivo. [...] Subjetividade [...] é um complexo e plurideterminado do sistema, afetado, pelo próprio curso da sociedade e das pessoas que a constituem dentro do contínuo movimento das complexas relações que caracterizam o desenvolvimento social. [...] Se apóia no conceito de sentido subjetivo, que representa a forma essencial dos processos de subjetivação. O sentido exprime as diferentes formas da realidade em complexas unidades simbólica emocionais.(REY, 2003, p. 7). 46 Nesse sentido a subjetividade é destituída de toda forma de apreensão racional de uma realidade externa, se volta para o sentido interno. É o que o sujeito internalizou, o que ele, às vezes, idealizou em relação ao real, que será executado ou dinamizado. Compreendemos que em relação ao processo espontâneo a intervenção tem por objetivo aquilo que eu quero atingir, fundamentado pelo diagnóstico. O pesquisador interfere o tempo todo na realidade. O olhar do pesquisador emerge da interação com o pesquisado para chegar mais próximo a realidade. A pesquisa participante é uma forma de intervenção social e determina um plano de ação e para analisar um fenômeno utiliza-se da pesquisa qualitativa ou da pesquisa participante. (Ibid.). Para agirmos, descobrimos que em relação aos procedimentos metodológicos, há novos fundamentos para uma visão qualitativa da ciência, a idéia de movimento, a construção de sentido, a superação de dicotomias, a provisoriedade dos postulados, a função social da ciência e o diálogo entre os saberes. 1.8 OS DIFERENTES TIPOS DE INTERVENÇÕES QUE PODEM ACONTECER NA FAMÍLIA Na edição de 1988, Famílias: aspectos conceituais e questões metodológicas em projetos, os autores falam em família, fazendo recorte e reconhecimento do grupo (PALMA E SILVA, STANNISCI, BASCCHETO, 1988). Conseqüentemente, falam de uma forma de intervenção associando a questão da 47 qualidade de vida socialmente determinada pelo potencial de risco e pelos benefícios a que este grupo esta submetido. Nessa perspectiva, pensam no social enquanto um processo histórico, de constituição e estruturação da sociedade. Focalizam as questões de valores, do recorte da mudança de paradigmas como importantes para a compreensão e para o desenvolvimento de uma metodologia de abordagem de grupos e famílias. Buscam entender o significado da família admitindo que esta sofre transformações e adaptações em função da época, da cultura, das condições sociais, das crenças e valores. Nesta edição, os autores fazem referência a Pichon Rivière (1988), então para compreendermos melhor a referência consultamos a obra na qual o autor cita as formas de atendimento e análise da família como grupo primário. Enrique Pichon-Rivière, coloca em três diferentes níveis de análise polidimensional o que os autores da edição de 1988, Famílias: aspectos conceituais e metodológicos em projetos, consideram por tarefa corretora. Estaremos discorrendo sobre o que o citado autor enfatiza a esse respeito: Do ponto de vista psicológico ou psicossocial, os problemas a serem estudados são: a conduta do individuo em função do seu próprio meio familiar, as reações de agressão e submissão em relação aos diferentes tipos de autoridade familiar, o impacto que significa para ele o ingresso de novos membros na família, suas crenças e atitudes como resultado da educação e as experiências familiares. Os problemas desse tipo devem ser investigados através de estudo do campo psicológico do indivíduo, esclarecendo as noções de idéias sobre sua família e sobre cada membro em particular. Do ponto de vista da dinâmica de grupo ou sociodinâmico, investigam-se os problemas referentes a determinadas famílias segundo determinadas circunstâncias. Perigos externos que ameaçam a felicidade da família, morte ou admissão de novos membros na família acarretam mudanças nas relações de autoridade, prestigio, etc. A partir daí é importante medir os índices de rigidez ou de maleabilidade do grupo familiar. 48 Do ponto de vista institucional, os problemas típicos são os da estrutura da família nas diversas classes sociais (meio urbano, rural, classes abastadas, pobres); as transformações da instituição familiar devida a crises econômicas, guerras, mudanças de costumes.(PICHON-RIVIÈRE, 1988 p. 40). Constatamos então que para ele, o atendimento deve ser realizado visando atender aspectos psicossociais do desenvolvimento das pessoas na família, seu relacionamento, modos de ser e suas experiências. Ao mesmo tempo, sugere que se atenda ao aspecto social da família, modificações que sofre, sua maleabilidade. Ainda, enfatiza que se cuide do ponto de vista institucional da família, alertando sobre outros aspectos. Os autores de Famílias: aspectos conceituais e metodológicos em projetos estudam estes problemas baseando-se, por um lado, na busca de correlações entre os índices da estrutura da família e da força do patrimônio familiar, e, por outro, analisam os diferentes índices da situação econômica, meio geográfico, casamentos, nascimentos, etc. Segundo eles, estes três níveis completam-se e estão em uma relação de dependência recíproca, sendo impossível interpretar os dados recolhidos em um nível sem apelar para aqueles que foram obtidos nos outros. Na visão desses autores os estudos dos aspectos patológicos de um grupo familiar e sua abordagem terapêutica deverão incluir vários vetores de análise como: diagnóstico, prognóstico, tratamento e profilaxia, seja para um indivíduo ou para uma situação. Por análise podemos entender: tornar explícito o que está implícito. Ciampone (1988, p.23) comenta que 49 [...] as intervenções tradicionais têm pautado as ações pragmáticas no indivíduo, deixando muito a desejar em relação à visão ampliada do grupo familiar centrando apenas no indivíduo isoladamente (...) estudos demonstram a existência de uma correlação entre os elementos préverbais da dinâmica de uma família e sua expressão verbal. Isso possibilita trabalhar além daqueles aspectos que chegam como demanda explícita a um serviço de atendimento social. A criança vitimizada, espancada, a pessoa portadora de deficiência, o doente crônico devem ser tomados como um sintoma que a família traz. Muitas vezes, os sintomas dos filhos são a expressão da ausência de uma determinada aprendizagem psicológica dos pais ou muitas vezes uma dinâmica própria desse grupo. Por aprendizagem psicológica podemos entender a capacidade de comunicação em que um pode ver o outro e transformar-se com ele. Também podemos compreender as diferentes relações entre as pessoas que acontecem nos aspectos afetivo, cognitivo e social. A autora, também, aborda o esquema de análise polidimensional de Pichon Rivière e inclui dois novos conceitos complexos, mas que parecem ser uma ferramenta de manejo importante no trabalho dos técnicos que irão fazer intervenção com família. São os conceitos de transferência e contratransferência. Transferência é o processo pelo qual os afetos inconscientes se atualizam na situação de interação entre família e técnico. Há um desprendimento de afetos de uma representação anterior, de uma situação vivida por essa família, a uma outra representação que tem a ver aqui-agora na relação da família com a equipe técnica. Contratransferência é o conjunto de afetos que o terapeuta, o técnico, enfim o operador social experimenta diante da pessoa ou do grupo com que esta estabelecendo relação. (CIAMPONE, 1988 p. 29) Ela diz que esse contato entre profissionais e família traz significações muito sérias e profundas para ambos o qual caracteriza a transferência e a contratransferência. Evidencia a defesa e projeta o espelho. Este processo acontece com o técnico, com o grupo e com o indivíduo nos atendimentos. (Ibid.) 50 Muszkat (2003), traz em seu livro um artigo escrito por três Assistentes Sociais9: O papel do Serviço Social em um programa de Mediação familiar, o qual aborda que o [...] Serviço Social, como profissão, tem conhecimentos teóricos e metodológicos para atuar nas complexidades dos processos relacionais e que a intervenção do Assistente Social tem caráter mediador na sua natureza ora entre o usuário e a instituição, ora entre capital e trabalho. [...] O assistente social atua intervindo nos aspectos relacionados às condições de vida e a busca da melhoria de vida, entendendo a realidade para além das aparências, buscando a essência dos fatos para a efetivação do compromisso ético-político profissional [...]. (MOREIRA, BAPTISTA e SILVA, apud MUSZKAT, 2003, p.133). É de competência do Serviço Social o procedimento de avaliação social cujos instrumentos são: a entrevista individual ou em grupo. Na entrevista os usuários expressam as suas dificuldades, angústias, ansiedades. “Observamos, entretanto que em alguns casos os usuários não têm clareza do seu real desejo, apresentando-se fragilizados, buscando ajuda, permeada de ambigüidades e contradições”. (MUSZKAT, 2003, p.135). As autoras do artigo definem que “a prática do Assistente Social viabiliza um processo reflexivo a quem procura o serviço, permitindo um pensar na sua atitude diante do problema vivenciado”. (MOREIRA, BAPTISTA E SILVA, apud MUSKAT, 2003, p.135). Segundo as autoras deste artigo o atendimento social e o trabalho com grupos constituem um espaço socioeducativo, que busca soluções para o enfrentamento de seus problemas. As técnicas de dinâmica de grupo, contribuem para diminuição da ansiedade e elevação da auto-estima criando no contexto 9 Carla Regina Moreira, Claúdia Rosa Baptista e Euniceana Peloso da Silva. O papel do Serviço Social em um Programa de Mediação Familiar.IN: MUSZKAT, Malvina Éster. Mediação de Conflitos. SP: 2003. 51 grupal o sentimento de solidariedade, de cooperação ampliando o campo de reflexão sobre a situação vivida. A visita domiciliar é percebida como outro instrumento, considerada extensão do trabalho técnico do Assistente social, representa a saída da esfera institucional, para outros espaços. Permite resgatar vínculos e conhecer a dinâmica familiar. Entendemos então, que os profissionais tanto do campo da saúde, como da assistência social tem recebido pouca atenção e capacitação para atuar em casos tão complexos. Logo, a capacitação se torna uma questão chave para executar programas e projetos de intervenção na área da família. 52 CAPÍTULO II 2. O MUNICÍPIO E A CIDADE Este capítulo tem por objetivo, contextualizar e caracterizar, em nível macro social e histórico, as análises que efetivamos no último capítulo dessa monografia. Vamos estar construindo um breve histórico do município e da cidade de Araucária, cidade onde aconteceu a pesquisa a respeito da intervenção preventiva com as famílias que aí residem. 2.1. PERFIL DO MUNICÍPIO No livro o Perfil do Municipal (2003), editado pela Prefeitura de Araucária, em trabalho realizado através da Secretaria Municipal de Planejamento (SMPL), encontramos que este município se encontra “Integrado à região metropolitano de Curitiba – RMC, no primeiro planalto paranaense, ocupa uma área de 460,85 km², situa-se a 857m do nível do mar”. (SMPL, 2003, p.12). Nele, consta que o “Município de Araucária faz parte do centro mais ativo e desenvolvido do Estado, com área de influência em crescente expansão e destaque na região sul do país”. (Ibid.). No que diz respeito a seus limites, o autor esclarece que “o município de Araucária faz divisa com os municípios de: Campo Largo, Curitiba, fazenda Rio Grande, Mandirituba, Quitandinha, Contenda e Balsa Nova”. (SMPL, 2003, p. 28). Segundo dados do IPARDES/92(apud SMPL, 2003, P.18) o “município de Araucária conta com uma área de 460,65 Km2 sendo que a Área Urbana 53 corresponde a 84,00 Km2 equivalente a 18,23% do total e a Área Rural conta com 376,85 Km2 equivalentes a 81,77% da área do município”. O livro Perfil Municipal enfatiza que a área total 460,65 Km2, ou seja, os 100% da área do município correspondem a 5,35% da Região Metropolitana de Curitiba - RMC, podemos então considerar que é apenas um percentual pequeno dessa região. ÁREAS Área Urbana = 84,00 Km 2 - 18,23% Área Rural = 376,85 Km 2 - 81,77% Área do Município = 460,85 Km 2 - 100,00% Corresponde a 5,35% da RMC. (Fonte: IPARDES/92) Consideramos que, apesar de ser uma parte pequena da RMC, “é o 2º Município em arrecadação de ICMS no Estado do Paraná” (SMFI/02, apud SMPL, 2003,p.76). Encontramos ainda, no livro da Secretaria Municipal de Planejamento que o Município de Araucária, sendo estrategicamente localizado em relação ao Mercosul, o centro industrial de Araucária – CIAR, com 46.137.500,00 m² de área destinada ao pólo industrial, sediando as indústrias já instaladas e reservadas as novas implantações, conta com matéria prima, local disponível para atender, principalmente a agroindústria e a Petroquímica, com infraestrutura, acesso rodo-ferroviário e fácil conexão com aeroportos e portos marítimos. (SMCT/02, apud SMPL, 2003, p. 12) 54 O livro mostra também, como se distribuem as áreas geoeconômicas no município. Possui 43% de áreas verdes, 7% de áreas agrícolas, 39% de espaços urbanos/industriais e 11% de represas. Distribuição de áreas no Município (Fonte: SMUR/01) No que diz respeito às pessoas que vivem neste Município pudemos constatar que sua população atual é formada por descendentes dos primeiros habitantes da região (luso brasileiros, índios e negros) por descendentes de imigrantes poloneses principalmente, italianos, ucranianos, sírios, alemães, japoneses e por migrantes vindos de outras regiões atraídos pela industrialização a partir da década de 70. (SMCT/02, apud SMPL, 2003, p. 12) No Livro Perfil do Município de 2001-2004 encontramos registrado que no município de Araucária residem, aproximadamente, 94.258 pessoas. No que diz respeito à distribuição da população com relação à sexualidade masculina e feminina os dados que encontramos são: Homens = 47.504 sendo 50,42 % do total da população e Mulheres = 46.754 sendo 49, 58%. De acordo com o que o livro Perfil Municipal coloca e que mostramos no quadro e no gráfico abaixo, essa população se encontra assim distribuída 55 demograficamente. Aspecto físico-demográficos População de Araucária (2000) Urbana = 86.111 habitantes - 91,36% - 1.026 hab/km² Rural = 8.147 habitantes - 8,64% - 22 hab/km² Município = 94.258 habitantes - 100,00% - 205 hab/km² Homens = 47.504 Mulheres = 46.754 (Fonte: Censo IBGE/00) A partir destes dados, pudemos constatar que existe uma grande concentração da população do município, vivendo na zona urbana e que, somente, 9% da população reside na zona rural. Estes dados relativos à localização da população residente – na zona urbana ou na zona rural do município é extremamente importante, para entendermos a posição social e econômica dos moradores do município e sua inserção na comunidade social como um todo e na escola. Vamos caracterizar um pouco a zona urbana da qual fazem parte os bairros e a zona rural do município suas localidades. 56 2.2. A CIDADE Segundo o livro Perfil do Município (2001-2004), a cidade está “situada às margens do rio Iguaçu é cortada pela BR 476 – Rodovia do Xisto, via de interligação da região sudoeste do país, está a 27 km do centro de Curitiba”. (SMTC/02, apud SMPL, 2003, p.12). Encontramos descrito que ela surgiu “de uma concentração de imigrantes eslavos voltados inicialmente para a agricultura pelas condições propícias de clima e solo, com o cultivo de culturas como o trigo, milho, batata, hortaliças, fruticultura e aviculturas”. (Ibid.). A Secretaria Municipal de Planejamento relata em seu livro, que o desenvolvimento da cidade tornou-se mais intenso com a implantação da Refinaria Presidente Getúlio Vargas – REPAR, na década de 70, a cidade começou a sofrer influências do desenvolvimento industrial, servindo de sede as novas industrias com geração de empregos e o deslocamento de trabalhadores da área rural para a área urbana. (SMTC/02, apud SMPL, 2003, p. 12). Mostra ainda que, o município tem procurado se adaptar “ao processo de industrialização, mantendo suas características agrícolas o que torna um importante pólo agro-industrial”. (SMTC/02, apud SMPL, 2003, p.12). Fazem parte da cidade de Araucária os seguintes bairros: Birigui, Boqueirão, Cachoeira, Campina da Barra, Capela Velha, Chapada, Costeira, Estação, Fazenda Velha, Passaúna, Porto das Laranjeiras, Sabiá, São Miguel, Thomaz Coelho, Tindiquera, Vila Nova, Centro, Iguaçu. (SMUR/02, apud SMPL, 2003, p.19). O livro explica que existem áreas de expansão urbana, que são Guajuvira e General Lucio. (Ibid.). 57 2.3 ÁREA RURAL Fazem parte da área rural do município, de acordo com o livro o Perfil Municipal as seguintes localidades: Bela Vista, Botiatuva, Campestre, Campina das Palmeiras, Campina das Pedras, Campina dos Martins, Campo Redondo, Campo Tomaz, Camundá, Capinzal, Capoeira Grande, Colônia Melado, Espigão Alto, Faxinal, Faxinal do Tanque, Fazendinha, Formigueiro, Fundo Campo, Guajuvira de Cima, Ipiranga, Lagoa Grande, Lagoa Suja, Lavra, Mato Dentro, Onças, Palmital, Ponzal, Rio Abaixinho, Rio Abaixo, Rio Verde Abaixo, Rio Verde Acima, Roça Nova, Roça Velha, São Sebastião, Taquarova, Tietê. (SMUR/02 apud SMPL, 2003, p.20) 2.4. HISTÓRICO SOCIAL DO MUNICÍPIO A prefeitura de Araucária, instituição de ordem pública está situada na região central do município. Das dezesseis Secretarias Municipais que compõem o poder público, enfocaremos aquela que se construirá o espaço de realização da pesquisa, Secretaria Municipal de Promoção social e Cidadania (SMPS). A Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania apresenta esta denominação a partir de janeiro de 2005, anteriormente possuiu as seguintes denominações: Secretaria Municipal de Ação Social e do Trabalho (Lei Municipal 1.101/97) Secretaria Municipal de Ação Social (Lei Municipal 1.005/97) Secretaria Municipal de Assistência Social (Lei Municipal 985/95) Secretaria Municipal do Trabalho e Bem Estar Social (Decreto Municipal 5350/87, Lei Municipal 675/87). 58 Constatamos que, anteriormente a 1987, a Assistência Social era inserida no Departamento de Saúde e Bem Estar Social, criado em 1969. Hoje existe uma Secretaria responsável por esta atuação. Atualmente a administração da Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania está situada na rua Frederico Basso, nº 37, Centro, ao lado da Prefeitura Municipal de Araucária. Verificamos a Lei 1.547/2005, (Anexo D), que dispõe sobre a reestruturação básica da Prefeitura do Município de Araucária e a Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania cuja sigla SPMS, está colocada como de 1º nível hierárquico para o planejamento, comando, coordenação, fiscalização, execução, controle e orientação normativa da ação do poder executivo. A Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania é descrita na Seção IV e tem por atribuição as seguintes funções de acordo com a lei municipal 1.547/05, em seu art.25 que diz: É de competência da Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania a programação, coordenação e execução da política de assistência social do município; a proteção à família, á maternidade, á infância, à adolescência e à velhice; o amparo à criança e ao adolescente em situação de risco; a execução de projetos de enfrentamento à pobreza e o atendimento às ações emergenciais, em conjunto com os demais níveis de Governo e de entidades da iniciativa privada; o planejamento, a execução e o acompanhamento de programas de capacitação para ofício nos setores formal e informal que promovam oportunidades para o trabalho e a melhoria da renda familiar; a organização e controle de cursos, e outras atividades similares para a formação e capacitação profissional e especialização de mão de obra; a execução orçamentária de sua área e outras atividades correlatas. Art. 26 – fica criada a Assessoria de Emprego e das Relações do Trabalho, vinculada à secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania, tendo como área de competência a implementação do programa de geração de emprego e renda, do programa de qualificação profissional e dos programas de incentivo á criação de cooperativas; a articulação e integração dos programas sociais desenvolvidos por outros órgãos da Administração relacionados à geração de emprego e renda; as tarefas específicas que lhe forem atribuídas e outras atividades correlatas.(Lei Municipal 1.547/05, art. 25 e 26) 59 Atendendo o que esta Lei estabelece, está prevista nova reestruturação, neste primeiro semestre de 2006 dentro da Secretaria Municipal de Promoção Social que é a independência da Assessoria de Emprego e Relações de Trabalho para Secretaria Municipal de 1º nível hierárquico. A Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania coordena e gerencia o repasse de recursos das diversas esferas governamentais e nãogovernamentais destinadas à assistência Social do Município, garantindo o comando na área, conforme o disposto no inciso I do artigo 5º da Lei Federal nº 8.742/93. Estabelece parcerias com instituições públicas e privadas para a realização de atividade nas áreas de atuação da Secretaria, conforme o disposto no artigo 6º da Lei Federal nº 8.742/93. (Anexo A) Conhecida como Lei Orgânica da Assistência Social – (LOAS) que “dispõe sobre a organização da Assistência Social e da outras providências”. (COLETÂNEA DE LEIS, 2000, p.34) São outras atribuições desta Secretaria conforme relato dos Diretores desta Secretaria em entrevista as autoras desta pesquisa, e mediante consulta em Trabalhos de Conclusão de Serviço Social e em consulta a Lei Orgânica da Assistência Social e ao que diz o SUAS – Sistema Único da Assistência Social/2005: Articular, coordenar, subsidiar e observar as disponibilidades orçamentárias e o interesse público, a execução de ações da área social junto a entidades sociais organizadas, comunitárias e assistenciais, públicas e privadas, através de apoio técnico e financeiro ou na forma de convênios que objetivem alcançar os fins coligados, cabendo-lhe, igualmente, no caso de convênios, a fiscalização dos 60 recursos repassados por intermédio dos conselhos municipais através de seus respectivos fundos e pela própria Secretaria no caso dos convênios. Desenvolver atividades relativas à assistência, orientação e apoio sócio familiar no município. Desenvolver programas de estimulo e apoio ao desenvolvimento comunitário, envolvendo organizações formais e informais; Implementar programas que visem o atendimento à criança e ao adolescente, de zero a dezoito anos nas casas da criança e adolescentros em contra turno social, conforme prevê o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, lei 8.069 de 13.07.1990, que “dispõe sobre o estatuto da criança e do adolescente e da outras providências “. (CEDCA, 2001, p. 151). Promover o atendimento da criança e do adolescente através de projetos de proteção social, na área da aprendizagem profissional, profissionalização e de formas alternativas de ocupação; bem como de convivência familiar e de medidas sócio-educativas. Implantar e executar medidas de proteção e defesa da criança e do adolescente contra atos de violência por parte da família, da comunidade, ou do Estado; Executar programas, projetos e atividades relacionadas com serviços de natureza comunitária, voltados à família, seus membros e para indivíduos que dela necessitarem. Planejar, executar e acompanhar programas de geração e renda e de capacitação para o oficio no setor formal e informal que promovam oportunidades para o trabalho e melhoria de renda familiar e demais atividades correlatas; 61 Articular a integração com os outros órgãos do Município, demais níveis de governo e entidades de iniciativa privada, nas programações inerentes ao emprego, trabalho, geração e renda e outras atividades pertinentes; Criar, organizar e implementar o banco de dados da área social, coletando, reunindo, sistematizando e repassando subsídios às demais entidades, visando a compatibilização e a potencialização das ações e recursos existente; Promover a qualificação profissional continuada de pessoal técnico e administrativo que atue na área; Realizar estudos e pesquisas concernentes ao âmbito de atuação da Secretaria, bem como a captação dos recursos necessários ao eficiente desempenho de suas atribuições; Realizar outras atividades pertinentes. (SUAS, 2005; LOAS, 1995). Constatamos ainda que, no que diz respeito a sua estrutura organizacional básica da Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania - SMPS constituise pelo Gabinete do Secretario; Núcleo de Apoio Administrativo e Financeiro; Diretor Geral; Departamento de Assuntos da Família e da Comunidade; Departamento da criança e do adolescente; Departamento do Trabalho e Assessoria do emprego e relações do trabalho. (Organograma, SMPS, 2005). Na Secretaria Municipal de Promoção Social SMPS estão também ligados os conselhos Municipais de Assistência Social, Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente, Conselho Tutelar, Conselho Municipal do Idoso, Conselho Municipal do Emprego e Relações de Trabalho e Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência e sua Família. (Organograma, SMPS, 2005). 62 Em consulta ao trabalho de Conclusão de Curso de Serviço Social de Francieli Greichiweski (2005), encontramos que o Serviço Social foi implantado na instituição no ano de 1969, e estava engajado em todo o trabalho desenvolvido pelo Departamento de Saúde e Bem Estar Social e Escola do Trabalho. Encontramos ainda, que o Departamento de Saúde e Bem Estar Social foi criado através da Lei 400/69, com o objetivo de atender, principalmente, às famílias de baixo poder aquisitivo, apresentando as mínimas condições de vida, fornecendo meios para melhor atendimento à clientela. Estava registrado, também, que o trabalho do Serviço Social foi sendo desenvolvido por uma assistente social e duas estagiárias de Serviço Social que trouxeram para a cidade de Araucária motivação para o desenvolvimento da comunidade numa dinâmica de valorização humana. (Ibid.). A autora do trabalho, conta que através do Serviço Social foi criada a Associação de Promoção Social de Araucária – (APSA), uma entidade filantrópica prestando auxilio a comunidade. Após quatro anos, todo o trabalho social foi reformulado a fim de buscar uma maior participação da comunidade. Mas também passou por um período em que houve mudança na administração municipal, trazendo alterações na área da saúde e na área social, permanecendo sem orientação técnica adequada. Diz que, em 1977, a administração municipal deu nova ênfase ao Serviço Social, em resposta ao crescimento acelerado e desproporcional do município e da população absorvida pela força das indústrias e interferência da Petrobrás. O Serviço Social tem seu grande avanço, sendo administrado por profissionais da área. 63 Greicheweski (2005), explica que com uma nova política de ação, em fevereiro de 1983, o Departamento de Saúde e Bem Estar Social foi transferido estabelecendo-se no Centro Social Urbano São Francisco de Assis (CSU), sob direção do Setor Médico. Mostra que a partir deste ano, houve uma reestruturação no organograma da prefeitura, alterando o Departamento de Saúde e Bem Estar Social. Foi dividido em: divisão de Medicina Social, divisão de Odontologia Social e divisão de Desenvolvimento Comunitário. Em julho de 1984, foi criada a Divisão de Trabalho e Assuntos Comunitários. A Divisão do Desenvolvimento Comunitário, passa a denominar-se Divisão de Serviço Social. A criação destas divisões deve-se ao fato de grande oferta e procura de empregos das áreas empresariais.(GREICHEWESKI,2005) Por estarmos, trabalhando neste serviço executado pela Prefeitura de Araucária, podemos dizer o que acontece, neste setor, neste momento. Atualmente, o Serviço Social está inserido na Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania com a denominação de Departamento de Assuntos da Família e da Comunidade, mantendo em seu quadro trinta Assistentes Sociais e oito estagiárias de Serviço Social, distribuídas nas áreas urbanas e rurais com atuação na comunidade, nos núcleos de Serviço Social e em programas sociais de geração e renda, programa reciclar, programa de acolhimento familiar, programa de erradicação do trabalho infantil – PETI, programa Sentinela, programa do idoso, programa do prato popular, na assessoria técnica ao Conselho Tutelar e no centro medidas sócio educativas. Na Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania na proteção social básica se classificam os seguintes serviços: 64 -Núcleos de Serviço Social – CRAS - O trabalho social nas comunidades urbanas e rurais é realizado por técnicos do Serviço Social, nos doze Núcleos de Serviço Social, cuja denominação atual - SUAS – Sistema Único de Assistência Social, passa a se chamar CRAS – Centro de Referência da Assistência Social -Casas da Criança e Adolescentros. Dentro da proteção social especial de média complexidade, situações de violação de direitos, cujos vínculos familiares e comunitários não foram rompidos: -Centro de medidas sócio-educativas em meio aberto. -Programa Erradicação do Trabalho Infantil -Agente Jovem Dentro da proteção social especial de Alta Complexidade, serviços que garantam a proteção integral, moradia, alimentação, higienização e trabalho protegido para as famílias e indivíduos que se encontram sem referência e ou situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e ou comunitário: -Programa de acolhimento familiar com medida de proteção sob forma de guarda subsidiada em famílias substitutas e guarda familiar. - Programa Sentinela 2.4.1. PROGRAMAS SOCIAIS Vamos a seguir, fazer a descrição dos programas do Departamento de Assuntos da família e da Comunidade conforme dados obtidos em consulta aos coordenadores destes programas. 65 BOLSA FAMÍLIA – Programa Federal de Transferência de Renda Faixa etária: Sem limites de idade. Objetivo: garantir condições de gestação, nascimento e crescimento saudável. Público Alvo: famílias com renda per capita até R$ 100,00 Valor do repasse: R$ 15,00 por criança, até três crianças por família. A per capita menor de R$ 50,00 é variável de repasse até R$ 95,00, mais R$ 15,00 por criança. Em 2005, foram atendidas no município 2966 famílias.O valor total de repasse foi de R$ 169.225,00. PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL – PETI Faixa etária: 7 a 14 anos Objetivo: Erradicar as piores formas de trabalho infantil e garantir acesso permanência e bom desempenho da criança na escola. Público: famílias com renda per capita de até ½ salário mínimo. Valor de repasse: - Para a família: R$ 25, 00 na área rural e R$ 40,00 na área urbana sem limite de número de crianças. - Para a prefeitura: R$ 20,00 na área rural e R$ 10,00 na área urbana, para a realização da jornada ampliada. Universo atendido: 316 crianças, 245 área urbana 71 área rural. Universo de famílias: 164 famílias na área urbana e 41 famílias na área rural. PROGRAMA DE GERAÇÃO E RENDA 66 Estratégias para a superação da pobreza prevêem que as famílias da rede de proteção social tenham acesso a um conjunto de programas de geração de trabalho e renda. Faixa etária: acima de 15 anos Universo de pessoas atendidas: 100 pessoas ano Cursos: Informática, artesanato e operador de máquina de costura industrial. PROGRAMA SENTINELA Está sendo implantado no município neste ano de 2006 Objetivo: Atender famílias e crianças vítimas de violência ou outras formas de negligências. PROGRAMA DE ACOLHIMENTO FAMILIAR COM MEDIDA DE PROTEÇÃO SOB FORMA DE GUARDA SUBSIDIADA EM FAMÍLIA SUBSTITUTA E GUARDA FAMILIAR. Faixa etária: Zero a dezoito anos. Objetivo: Prestar serviço de proteção social integral por meio de proposta técnico operativo, de atenção especializada, acompanhamento sistemático e monitorado às crianças e adolescentes cujos vínculos familiares foram rompidos, e que necessitam ser retiradas temporariamente do núcleo familiar ou comunitário, bem como às suas famílias de origem e às famílias substitutas. Valor de repasse: R$ 5,00 ao dia por criança e adolescente para as famílias substitutas e à guarda familiar, mais auxílio alimentação em gênero. 67 Universo de crianças e adolescentes nas duas modalidades: em família substituta, 116 crianças e adolescentes. Em guarda familiar (família extensa), 25 crianças e adolescentes. Universo de Famílias substitutas: 20 famílias Universo de Guarda Familiar: 09 famílias PROGRAMA RECICLAR – Assessorar as associações e iniciativas individuais, com relação à legislação e organização visando a melhoria da renda familiar. Faixa etária: acima de 18 anos. ATIVIDADE COM IDOSOS NO CENTRO DE CONVIVÊNCIA E NOS NÚCLEOS DE SERVIÇO SOCIAL - atividade cultural, esportiva, de lazer, alfabetização e de geração e renda. Faixa etária: acima de 55 anos Universo: 658 idosos no centro de convivência e 60 nos núcleos de serviço social. PRATO POPULAR – Restaurante comunitário, parceria com a Empresa Gerdau e Risotolândia, Prefeitura de Araucária e SESI. Objetivo: Garantir a segurança alimentar da parcela da população mais vulnerável; fornecendo alimentação de qualidade com preço baixo. E resgatar a auto-estima e a cidadania das pessoas. Universo: população do bairro Califórnia em Araucária com renda per capita de R$ 150,00 por família. Capacidade: 150 refeições ao dia (Almoço). 68 BENEFÍCIOS SOCIAIS – BPC Os benefícios sociais assistenciais fazem parte de um conjunto de programas de repasse direto de recursos que apesar de terem como órgão repassador o INSS, não exigem contribuição prévia, saindo da lógica previdenciária e se caracterizando como assistenciais. BPC-Benefício de Prestação Continuada – LOAS Público Alvo: Idosos a partir de 65 anos em famílias com renda até ¼ do salário mínimo e pessoas com deficiência ou doença crônica. PROGRAMA RENDA SOCIAL – Garantir o desenvolvimento da cidadania através da inclusão social – complemento da renda pago pelo poder público municipal com recurso do município. Condições: Acesso no programa por avaliação do Serviço Social. Faixa etária: Idosos sem aposentadoria, pessoas com deficiência e mulher arrimo de família acima de 25 anos. Universo: 300 famílias Valor de repasse: R$ 80,00 O Serviço Social atua também em programas da Secretaria Municipal de Educação, Secretaria Municipal de Saúde e na Companhia de Habitação Municipal (COHABITAR), com profissionais á disposição para programas específicos destas áreas, porém com lotação na Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania. 69 2.5 DIAGNÓSTICO SOCIAL DO MUNICÍPIO. Constatamos em entrevista com os funcionários do Núcleo Administrativo e Financeiro da Secretaria de Promoção social e Cidadania e com os funcionários da Secretaria Municipal de Finanças que receita geral do município, arrecadada até outubro de 2005 foi de R$ 201.809.359,27, estando previsto o valor de R$ 268.542.130,00 até dezembro de 2005. Cinco por cento do orçamento municipal é destinado à assistência social e destes 10% vão para o Fundo Municipal de Assistência Social. A receita orçamentária destinada à Assistência Social para o exercício financeiro de 2005 foi de 13.475.000,00. Cabe ressaltar que em 2004 e 2005 os recursos foram 100% executados. Segundo dados do IBGE - Censo Demográfico de 2000 a renda per capita dos moradores de Araucária é de R$ 242,06 mensais. No universo de 94.176 habitantes, 39,48 % recebem até dois salários mínimos. O índice de desenvolvimento humano municipal (IDH-M) de Araucária/Pr é de 0,801, sendo que a média no Paraná é de 0,740. Na região Sul encontramos 0,771, e no Brasil 0.699. (www. caminhos. ufms. br/matrizdados/pr/.) Na área da família temos cadastrado 14.258 pessoas com renda inferior a dois salários mínimos e que são atendidos pelos programas de serviço social. Na área do idoso são atendidos 658 idosos no centro de convivência. Segundo nota do Jornal Cidade (2006), Araucária além de ser o segundo maior Pólo Industrial do Paraná, é também destaque na economia Brasileira. 70 O município de Araucária é conhecido como o segundo maior arrecadador do Paraná também tem grande representatividade no país. Araucária possui a segunda maior arrecadação de ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviço) do Paraná. O município assume esta posição ao responder por 20% das riquezas produzidas no estado, sendo também o segundo maior pólo industrial do Paraná. Além disso, a cidade é a 54ª exportadora do país. Araucária também representa 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil com uma produção de R$ Seis bilhões ao ano. Ou seja, “mais de 1% do que é produzido no país tem a participação do município”. Este anúncio foi feito na última sexta feira (10) pelo Ministro de Planejamento, Paulo Bernardo, quando esteve na Refinaria Getúlio Vargas. Na ocasião, o Ministro destacou ainda que, apesar de ser uma cidade com grande destaque no cenário nacional, Araucária sofre com problemas de desigualdade tanto social quanto econômica. O município está com a 27ª colocação entre as cidades da Região Metropolitana em empregabilidade e anualmente chegam à cidade, cerca de nove mil novos habitantes, aproximadamente 10% da sua população atual”. (JORNAL CIDADE, Sexta-Feira 17 de março de 2006 – Araucária) No que se refere ao atendimento das demandas Municipais para a assistência social há necessidade de investimento em capacitação e qualificação na área trabalho, em programas de geração e renda com novos espaços e equipamentos para potencializar as suas atividades e inovar em ações voltadas a promoção e prevenção da família. Executando programas e atuando nos núcleos de Serviço social, junto à comunidade, desenvolvendo ações na área da promoção da pessoa e sua família, verificamos uma lacuna na intervenção de forma preventiva com famílias. Pensamos que um plano de intervenção, através de assessoria familiar que complementará de maneira inovadora as ações do Departamento de Assuntos da Família e da Comunidade da Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania de Araucária, oportunizando a reflexão da população sobre a função da família em cada fase do desenvolvimento humano. 71 CAPÍTULO 3 3. A PERCEPÇÃO DAS PESSOAS QUANTO AO TRABALHO PREVENTIVO COM AS FAMÍLIAS EM SITUAÇÃO DE EXCLUSÃO SOCIAL 3.1. DESCRIÇÃO DA PESQUISA DE CAMPO A nossa experiência como Assistentes Sociais no Município de Araucária, nos fez sentir a necessidade de uma aproximação com a realidade vivenciada por algumas famílias, em nossa comunidade (ou neste município). Procuramos investigar como seria visto um trabalho preventivo junto às famílias que se encontram excluídas, e em situação de risco. Procuramos saber como as pessoas percebem o grupo social: família. Se elas sabem qual é o seu papel, suas funções e importância numa comunidade. E a partir dessa percepção iniciar um trabalho de intervenção preventiva com famílias. Para isto, realizamos uma pesquisa exploratória, descritiva e analítica que objetivou coletar dados que nos permitissem entender e perceber como as pessoas vêem a realidade. A revisão de literatura inicial permitiu que esclarecêssemos o tema em questão, e ao mesmo tempo, foi utilizada no entendimento dos dados coletados. Como instrumento metodológico utilizamos questionários com perguntas abertas e fechadas, que nos forneceram os dados que analisamos. Os questionários foram aplicados de forma direcionada com o objetivo de atingirmos segmentos diversos da comunidade local, isto é, técnicas da área social, da saúde 72 e da educação, comunidade e programas atendidos pelo serviço social e sociedade civil organizada (ONG‟S, Associações de moradores e conselhos). Aplicamos em média 20 questionários com intenção de analisar dez questionários. A pesquisa foi realizada no período de Janeiro a Abril de 2006. As questões propostas envolveram idéias que propiciassem as autoras, o entendimento de como a situação problema era percebida pelas pessoas da comunidade, que as responderam. As questões abordaram: -Significação do tema família (relacionado à pergunta 01) -Convivência no grupo familiar (relacionado à pergunta 02 e 03) -Responsabilidades e educação de filhos (relacionado à pergunta 03, 04 e 05) -Percepção em relação à busca de ajuda enfocando o atendimento técnico profissional e a escola (relacionado à pergunta 06, 07 e 08) -Percepção em relação à educação de valores e transcendência (relacionado à pergunta 09 e 10) -Percepção e importância do trabalho com famílias (relacionado à pergunta 11, 12, 13, 14 e 15). Distribuímos 20 questionários e recebemos de volta 20 dos quais analisamos 10, cujas respostas analisadas vêm a seguir. Para evitar o constrangimento das pessoas, os questionários foram identificados por letras do alfabeto: Pessoa a; Pessoa t, etc. Com relação à pergunta: 1 – Significado de família: nas dez respostas que recebemos as pessoas deixaram evidente a importância que dão a instituição social: família. 73 A maioria das respostas enfatiza que a família é à base da sociedade, que é um lugar de união, convivência, harmonia, amor. Transcrevemos na integra, algumas respostas, para demonstrar o que afirmamos: Assim disseram: Pessoa f „Família é amor, união, respeito “; Pessoa p –” Família, lugar de aconchego, oportunidade de trabalhar conflitos “. Concordando com o que estas pessoas disseram trazemos as idéias de Minuchin (1990), que explica que apesar das inúmeras mudanças, algo permanece, ou seja, a preocupação com os filhos, que segundo são hoje criados com muito mais desvelo, amor, carinho e preocupação com seu bem estar e crescimento harmonioso. Destacamos, também, estas respostas: Pessoa t - “Família não é apenas laços sangüíneos, mas de convivência, acolhimento”; Pessoa u – “União de pessoas, onde há harmonia, paz, compreensão”; Pessoa m – “É a base de tudo, é desde pequenos que aprendemos os valores e como respeitar o próximo, ser honesto, companheiro, educado”. Reafirmando essas idéias, encontramos em Padilha (2003, p.42) que é a família, o casal, vivenciando esses valores [...] vai dar aos filhos, através do modelo de companheirismo, sexualidade e afetividade a matriz da convivência, da sobrevivência na relação com o outro, da estruturação e manutenção da família. A Função casal é percebida como a lapidação do desenvolvimento do ser humano, o seu aprimoramento, a sua individuação, no sentido que Carl Jung dá a esse termo, ou seja, o processo de totalização da personalidade. Com relação à pergunta: 2 e 3 Convivência no grupo familiar: nas dez respostas que analisamos a maioria das pessoas evidenciaram a importância da 74 boa convivência no grupo familiar. A seguir passaremos a transcrever na íntegra algumas respostas que evidenciam nossa afirmação: Assim disseram: Pessoa a “É poder contar um com o outro, viver unido”; Pessoa c - “Prazeroso, realizador”. Ocupar seu lugar, com responsabilidade e dedicação total e respeitar acima de tudo, o espaço dos familiares; Pessoa g - “É aprender a aceitar as diferenças para se viver em harmonia, tendo respeito e liberdade”. Assim, em concordância com essas respostas, trazemos as idéias de Ferrari (2002, p.28), que explica a família como uma unidade básica de desenvolvimento de experiências, de realização ou de fracasso, de saúde ou de doença. Destacamos, também, estas respostas: Pessoa m - “Viver bem, sem problemas, discussões, sempre unidos, respeitando um o limite do outro”; Pessoa b - “É estar sempre junto, não abandonar nunca, dar atenção, preocupar-se com o outro, ser amigo, saber ouvir quando necessário, saber perguntar e saber falar. É cuidar uns dos outros”. Reafirmando, encontramos em (Zorro, 2005), que diz que: a família é unida por múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e, reciprocamente, durante uma vida e durante gerações. Ele ainda afirma que: a família dos nossos dias se apresenta de uma valorização da vida emocional e afetiva. Em Minuchin (1990, p.26), encontramos a definição de grupo familiar “[...] como um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interação dos membros da família considerando-a igualmente como um sistema, que opera através de padrões transacionais”. 75 Com relação à pergunta 3, 4 e 5: Responsabilidades e educação de filhos: nas respostas que recebemos os entrevistados deixaram claro a importância da responsabilidade dos pais na educação dos filhos. A maioria das respostas aponta os pais como principais educadores dos filhos, vindo em seguida as pessoas próximas, como avô, avó, tio, tia e depois órgãos públicos como a escola. Assim transcrevemos na íntegra algumas respostas: Pessoa p - “Os pais, os professores, os amigos, os padrinhos, os vizinhos, os que estão próximos”; Pessoa u - “Pai e mãe: concordância nas responsabilidades. Pessoa t -” Um dos pais em comum acordo ou a pessoa que estiver no papel do responsável no momento; Pessoa c -“Primeiro os pais, parentes próximos e órgãos públicos”. Em concordância com essas respostas encontramos nas idéias da teoria de Whaley e Wong (1989 p. 21), que [...] “a família ampliada ou consangüínea é outra estrutura, que consiste na família nuclear, mais os parentes diretos ou colaterais, existindo uma extensão das relações entre pais e filhos para avós, pais e netos”. Afirma que existe, também a denominada de alternativa, sendo um exemplo delas as famílias comunitárias. O autor diz que as famílias comunitárias, ao contrário dos sistemas familiares tradicionais, onde a total responsabilidade pela criação e educação das crianças se restringe aos pais e a escola que tem estruturação diversa. Nestas famílias, o papel dos pais é descentralizado, sendo que “as crianças passam a ser responsabilidade de todos os membros adultos [...]” e ainda em Minuchin (1990) e Stanhope (1999) “[...] A família é então, para a criança, um grupo significativo de pessoas, de apoio, os pais, ou tutores, os 76 irmãos, entre outros. Assim, a criança assume um lugar relevante na unidade familiar, onde se sente segura [...]”. Com relação à pergunta 6, 7 e 8: Percepção em relação à busca de ajuda enfocando o atendimento técnico profissional e a escola: nas respostas os entrevistados deixam claro a importância de propiciar informações às famílias orientadas através de palestras, troca de experiência com grupo de pais, grupos de adolescente, entre outros. Para clarificar passaremos a transcrever algumas respostas: Pessoa a - “Fazendo reunião de pais e alunos juntos, orientando pais em pequenos grupos, incentivando a troca de experiência”; Pessoa f - “Fazendo reunião mensal de pais, promovendo cursos e palestras informativas”. Assim, buscando evidenciar a questão do papel da escola, encontramos em Moreira (2001, p.5), “[...] as mulheres saem de casa, integrando a população ativa, e a educação dos filhos é partilhada com as escolas [...]”. As famílias passam a contar com os cuidados das instituições. Entendemos que com a saída para o mercado de trabalho, a família entra em uma nova fase, onde os cuidados e a proteção repassados para terceiros, as instituições como creches ou escolas, com contra turnos sociais que passam a desempenhar parte da função que antes era executada pela família. Em relação ao encaminhamento da família quando está necessitando de ajuda, os entrevistados dizem que primeiro torna-se necessário ouvir a família e só depois encaminhar para um serviço especializado. As respostas apontaram: Pessoa u e g - “Ouvindo”; Pessoa i - “Encaminhando para um serviço especializado”. Podemos considerar que para desenvolver uma ação interventiva há que se ter uma atitude técnica. Assim, de acordo com o que preconiza o SUAS 77 (Sistema Único da Assistência Social) fundamentamos o que se refere ao trabalho especializado com famílias que “[...] constitui-se [...] em Política Pública de proteção social básica e proteção social especializada [...] As garantias se efetivam [...] através de programas, projetos e benefícios na perspectiva de inclusão social”. (SUAS, 2005, p.06) Com relação à pergunta 9 e 10: Percepção em relação à educação de valores e transcendência, nesta questão procuramos identificar a importância da educação de valores e virtudes na família. Nas respostas, os entrevistados afirmam a necessidade da educação de valores. Para evidenciar a posição de cada família, destacamos: Pessoa a - “educação e trabalho, honestidade e responsabilidade; Pessoa i -” Educação e trabalho, amizade e companheirismo, honestidade, lealdade, responsabilidade, amor ao próximo “; Pessoa t -” Amizade e companheirismo, honestidade, lealdade, responsabilidade, amor ao próximo “. Os entrevistados deixaram evidente a importância da educação dos filhos através do exemplo, ao serem questionados sobre o que seria mais importante para os pais deixarem aos filhos, todos responderam: “exemplo a ser seguido”. Buscando nas referencias idéias semelhantes, encontramos as de Zorro (2005), que define o papel da família como sendo: - Papel intermediário em todos os processos sociais e individuais. - Formadora de critérios para os membros da família possam ver o mundo por uma lente, encontrando sentido para as coisas. - Transmissora da cultura para seus filhos. - Fortalecedora das capacidades a fim de que as pessoas disponham de elementos para amar, discernir, sonhar e criar. - Estimuladora da realização pessoal, social, cultural, ambiental, econômico e político. - Promovedora de reconhecimento dos valores, capacidades e oportunidades. -Ensina a pensar no futuro. (Zorro, 2005, p. 6). 78 Com relação às perguntas 11, 12, 13, 14 e 15: Percepção e importância do trabalho com famílias, nesta questão buscamos pesquisar qual o nível de conhecimento dos entrevistados sobre trabalho com famílias. A opinião sobre a importância desse tipo de atendimento e quais as expectativas. Para evidenciar melhor, o pensamento das famílias transcrevemos, também algumas respostas: Quando perguntado sobre a existência de atendimento especializado com família no município: Pessoa a - “Sim. Qual? Atendimento do Serviço Social”. Pessoa g - “Não”, Pessoa t - “Sim. Qual? Psicólogo, Assistente Social. Quando perguntamos sobre a importância do atendimento, os entrevistados responderam: Pessoa -m “Sim, porque muitas pessoas podem ser ajudadas; Pessoa u -” Sim se não conseguimos melhorar por si mesmo, devemos procurar quem nos ajude; Pessoa t - “Sim, família é o ponto principal na formação integral de qualquer ser humano”. Quando as perguntas se referiam a como imaginaram que pudesse acontecer o atendimento com família, responderam: Pessoa a - “Grupo de pais visando troca de experiência”; Pessoa i - “Grupo de pais visando à troca de experiência”, Pessoa u - “Orientação de um profissional com encontros semanais”; Pessoa b - “Orientação de um profissional com encontros semanais”;. Quando perguntamos que profissionais podem fazer atendimento à família e que temas seriam importantes trabalhar com as famílias, os entrevistados responderam: Pessoa a - “Médico, Assistente Social; Temas: Maneira de educar os filhos, como conviver um com o outro, como ser responsável, etc; Pessoa p –” 79 Psicólogo, Médico, psiquiatra, Assistente Social, Professor, Pedagogo, naturólogo; Temas: Conflitos e crises, religião, profissões, filhos, estudar a árvore genealógica e outros”; Pessoa m -“ Assistente Social; Temas: Respeito, educação, valores, princípios, amizade. Pudemos constatar que as famílias já possuíam um conhecimento razoável, a esse respeito, tendo opiniões definidas sobre o assunto. Assim, fomos buscar na teoria a significação do tema Intervenção Social, sobre o qual, em (SILVA, 2005) encontramos: Se por um lado, articula-se a idéia de um ato de força de algo que vem de fora para intrometer na dinâmica interna de uma pessoa, um grupo ou uma instituição. Por outro lado articula-se a tomar parte voluntariamente, tornarse mediador, interceder, ser ou estar presente, assistir, participar. Intervenção é uma ação que se interpõe a um processo espontâneo de algum grupo social. A autora, também, faz referência a: a psicossociologia que trata da intervenção social como: “Uma ação neutra, uma ação complexa, implementação de um ambiente da vida real, não sendo uma ação espontânea e sim uma ação planejada e como espaço de integração entre a teoria e a prática”. (Ibid.) Outros autores preocupam-se com os profissionais que irão fazer a intervenção, dizendo que [...] as intervenções tradicionais têm pautado as ações pragmáticas no indivíduo, deixando muito a desejar em relação à visão ampliada do grupo familiar centrando apenas no indivíduo isoladamente (...) estudos demonstram a existência de uma correlação entre os elementos préverbais da dinâmica de uma família e sua expressão verbal. Isso possibilita trabalhar além daqueles aspectos que chegam como demanda explícita a um serviço de atendimento social. A criança vitimizada, espancada, a pessoa portadora de deficiência, o doente crônico devem ser tomados como um sintoma que a família traz. Muitas vezes, os sintomas dos filhos são a expressão da ausência de uma determinada aprendizagem psicológica dos pais ou muitas vezes uma dinâmica própria desse grupo. Ciampone (1988, p.23). 80 A autora Ciampone (1988), diz, ainda, que esse contato entre profissionais e família traz significações muito sérias e profundas para ambos, isto ela caracteriza como sendo a transferência e a contratransferência. Evidencia a defesa e projeta o espelho. Este processo acontece com o técnico, com o grupo e com o indivíduo nos atendimentos. Internalizados estes conceitos concluímos que a intervenção sugerida pelos entrevistados seja realizada por profissionais preparados e de área afim com essa temática, pois se trata de atuar diretamente com o que se traduz como sendo o núcleo natural e fundamental da sociedade que é a família e, como tal, à Constituição Federal do Brasil, no seu artigo 226 declara que “esta é a base da sociedade e tem especial proteção do Estado”. 81 CONCLUSÃO Ao Chegarmos nesta etapa, entendemos que o conhecimento adquirido durante todo esse processo de pesquisa, foi de grande e extrema importância. Consideramos que as dificuldades encontradas ao longo do caminho ocorreram como resultantes das limitações de nossa condição de pesquisadora. Quando nos propusemos a realizar a investigação, buscamos entender e estudar o fenômeno para confirmar ou não a proposta da pesquisa, Intervenção Preventiva com Famílias: Perspectivas e Possibilidades. Assim sendo, compreendemos que no início tínhamos clara a necessidade de intervenção no que se refere à prevenção com famílias, entretanto, tornava-se necessário pesquisar a percepção e entendimento dos diferentes atores. Como resultado deste estudo, encontramos respostas que confirmaram a nossa intenção e apontaram caminhos para a sistematização e planejamento de uma proposta de intervenção. De uma maneira geral, levantamos questões que abordaram: Significado de família, Convivência no grupo familiar, Responsabilidades e educação dos filhos, Percepção em relação à busca de ajuda enfocando o atendimento técnico profissional e a escola, Percepção em relação à educação de valores e transcendência, Percepção e importância do trabalho com famílias. Os entrevistados demonstraram clareza no que se refere aos conceitos e através de questionários apresentaram sugestões indicando quais profissionais que em seu entendimento estariam habilitados para essa tarefa. Foi possível 82 entendermos, ainda, a importância da criação de um trabalho de assessoria voltada para a família. Assim, por intermédio das teorias que estudamos, compreendemos que o trabalho com famílias passa a ser priorizado a partir do SUAS (Sistema Único da Assistência Social), tornando-se uma política pública que prevê: O reconhecimento da importância da família no contexto da vida social está explícito no artigo 226, da Constituição Federal do Brasil, quando declara que a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado, endossando, assim, o artigo 16 da Declaração dos Direitos humanos, que traduz a família como sendo o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da Sociedade e do Estado. No Brasil, tal reconhecimento se confirma nas legislações específicas da Assistência Social, Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, Estatuto do Idoso e na própria Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS, dentre outras. (SUAS/PNAS, 2005, p.14) Buscamos incluir nesta pesquisa, também, que a matricialidade sóciofamiliar passa a ter papel de destaque no âmbito da Política Nacional de Assistência Social – PNAS, aprovada em 14 de outubro de 2004. Passando a enfatizar a centralidade na família, repousando no pressuposto de que para a família prevenir, proteger, promover e incluir seus membros é necessário em primeiro lugar, garantir condições de sustentabilidade para tal. (ARNS, 2005) Remetemos a esta conclusão uma resposta da pessoa “q” que respondeu em relação à pergunta: Na implantação de um serviço especializado para famílias que assuntos deveriam ser abordados? “Na minha opinião os profissionais deveriam estar preparados para trabalhar com a realidade que lhe forem sendo trazidas pelas famílias, ou seja, devem ter conhecimento da teoria que embasa esta realidade, mas devem saber muito mais ouvir, escutar que dar receitas prontas”. 83 A partir do estudo e da sugestão recebida através dos questionários aplicados entendemos que um plano de Intervenção através de Assessoria Familiar direcionada a famílias dos programas sociais do Departamento de Assuntos da Família e da Comunidade da Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania de Araucária deve estruturar-se da seguinte forma: 1- Oportunizando troca de experiência com grupos de pais, proporcionando orientação profissional uma vez por semana, ministrando palestras informativas e promovendo cursos para pais. 2- Acreditamos que os temas a serem abordados, nesse processo, segundo a pesquisa devem ser: Educação de filhos; adolescência; educação sexual; interesse e incentivo aos estudos; cursos profissionalizantes, mostrando como escolher uma profissão; mostrar o perigo das drogas; criminalidade; violência doméstica; internet e meios de comunicação; rotinas familiares e tarefas domésticas; convívio familiar; doenças; assuntos sociais; diálogo entre os pais e entre pais e filhos; responsabilidade de todos; afeto entre pais e filhos; amor e paciência com os filhos; ética e cidadania; valores; honestidade; educação familiar e religiosa; orientação psicológica; companheirismo; direitos e deveres; qualidade de vida; amizade; papel e importância da família na sociedade e em relação ao trabalho; gravidez na adolescência; planejamento familiar; conflitos e crises; estudo da árvore genealógica; relacionamento conjugal; comunicação da família; respeito e princípios. As autoras desta pesquisa puderam então concluir que os eixos possíveis de intervenção com famílias estão relacionados às intervenções comunitárias e 84 em programas sociais, na área da justiça, nos programas de área da saúde e educação em empresas públicas, privadas e no terceiro setor, seja na intervenção ou na prevenção. Constatamos que as intervenções familiares mais conhecidas do âmbito psicossocial são as terapias de família e as terapias individuais. No âmbito sócio dinâmico, as terapias comunitárias, mediações familiares e as atividades com grupos. Verificamos que no âmbito institucional a intervenção que será realizada nos programas que determinam o trabalho com famílias, deve acontecer na área da criança e do adolescente, na área do idoso, na transferência de renda ou geração de renda, capacitação profissional, na área da pessoa com deficiência, nas condutas típicas, na área da dependência química, da doença mental, nos hospitais, nas clinicas e nas empresas. Todas estas intervenções, devem estar considerando a proposta institucional e o compromisso do técnico de ter um olhar sobre as fortalezas do grupo familiar e não tão somente sobre suas vulnerabilidades, visando identificar e desenvolver potencialidades e talentos. Bem como, o fortalecimento dos vínculos relacionais, o desenvolvimento da auto-estima, a primazia das dimensões ética, estética e comunicativa. E para finalizar a reflexão de que a família ganha um lugar de destaque na política pública e no campo de trabalho com famílias. Entendemos que o terapeuta e o operador social devem ter formação na área da família, dinâmica de grupo e análise pessoal. Estes elementos permitirão conhecer os lugares familiares, e compreender a dimensão institucional familiar, identificando-a, dentro da história, do social mais amplo, de todo o sistema de 85 valores. Ainda um aspecto importante para destacar é que a intervenção vem como um processo de ajuda para que as pessoas conheçam a si mesmas e o seu entorno ajudando-as a resolverem os problemas que as envolvem, independente do método escolhido para intervir. 86 5.REFERÊNCIAS ARNS, Flávio. SUAS. Política Nacional de Assistência Social. Secretaria Especial de Editoração e Publicação. Brasília: Senado Federal, 2005 BRASIL - Secretaria Nacional de assistência Social. Política Nacional de Assistência Social. Apostila-Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome. Brasília, Junho de 2004. BRASIL - Ministério de Desenvolvimento social. Política Nacional da Assistência Social – SUAS, Brasília 2005. CERVERNY, Ceneide M. de O. A Família como Modelo. SP: Livros Pleno, 2001. CIANPONE, Maria Helena. Uma proposta de intervenção baseada na família. IN: PALMA E SILVA, Luiz A; STANNISCI, Silvia Andrade; BASCCHETTO, Sinésio. (Orgs.). Famílias: Aspectos conceituais e questões metodológicas em projetos. 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Curitiba, Ed: ASTF, 2003. 89 CRESS – Conselho Regional de Serviço Social. 10ª reg. Coletânea de leis. Revista e ampliada. Porto Alegre: Calábria, 2000. CRUZ, Juan Cruz. Metafísica da Família. Navarra,ES: Eunsa, 1995. __________ Trabalhando com Famílias pobres. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. ERICKSON, Eric. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. ___________ Teoria do Vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 1988. SOUZA, Anna Maria Nunes de. A família e seu espaço: uma proposta de terapia familiar. Rio de Janeiro: Agir, 1997. STANHOPE, Márcia. Teorias e Desenvolvimento Familiar. In: STANHOPE, Márcia; LANCASTER, Jeanette. Enfermagem Comunitária: Promoção de Saúde de Grupos, Famílias e Indivíduos. Lisboa: Lusociência,1999. 90 6.GLOSSÁRIO Para as definições das palavras descritas utilizamos o Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa/Folha/Aurélio, (1988). AXIOLÓGICO – Concernente, a, ou que constitui uma axiologia (estudo ou teoria de alguma espécie de valor, particularmente a valores morais, crítica teórica dos conceitos de valor), concernente a ou que constitui um valor. CLÃ - Entre os antigos escoceses irlandeses, tribo constituída de pessoas de descendência comum. Aglomeração de famílias que são ou se presumem descendentes de ancestrais comuns. CONSANGUINIDADE – Parentesco do lado paterno, consangüinidade – Parentesco de rocha, indicado pela semelhança de composição química ou mineralógica. DESCENDÊNCIA - série de pessoas provenientes de um mesmo tronco genético, prole. DESCENDÊNCIA – Demonstrada – que serve para provar, comprovar, confirmar, patentear, argumentos demonstradores, revelados. Estipulada – Ajustada, combinada, aquilo que combinou, ou estipulou, condição de um ajuste de contrato ou cláusula. ENDOGAMIA – Regime pelo qual o individuo se casa no interior de sua classe, e que implica num sistema de castas. ESTRUTURA NUCLEAR OU CONJUGAL –Constituída por um homem e uma mulher, unidos por laço matrimonial, e pelos filhos nascidos dessa união. Unidade conjugal que inclui marido, esposa e filhos não casados. 91 EXOGAMIA – Regime social em que os matrimônios se efetuam com membros de tribo estranha, ou de dentro da mesma tribo, com os de outra família ou de outro clã. FAMILIA AMPLIADA – Constituída pelos tios, avós, primos etc. FUNÇÕES – O conjunto de direitos, obrigações e atribuições duma pessoa em sua atividade profissional específica. HOMEOSTASE – capacidade do sistema para manter um equilíbrio estável a despeito das alterações exteriores. INCESTO – União sexual ilícita entre parentes consangüíneos, afins ou adotivos. MONOGAMIA – Aquele que tem uma só esposa estado de monogâmico, aparece como uma forma de matrimônio, típicas das culturas evoluídas. PAPÉIS – parte que cada ator desempenha no teatro, no cinema, na televisão, etc. A personagem representa da por um ator. Atribuição de natureza moral, jurídica, técnica, etc. desempenho, função. PARENTESCO – Rede de relações que se derivam da filiação e do matrimônio. POLIANDRIA - matrimônio da mulher com diversos homens. Regime que se observa em sociedades matrilineares e no qual diversos homens em geral irmãos ou primos participam de posse de uma mulher. VICINAIS - que é vizinho, próximo; que pertence ou diz respeito às cercanias. 92 7.ANEXOS e APÊNDICE ANEXO A – LOAS –Lei Federal nº 8.742 de 07 de dezembro de 1993 ANEXO B – ECA – Lei nº 8.742 de 13 de julho de 1990 ANEXO C – Estatuto do Idoso – lei nº 8.842 de 04 de janeiro de 1994 ANEXO D – Lei Municipal nº 1547 de 2005 APÊNDICE – Questionário