Escola de Governo - 07 ago 2012
Aula : Profa. Dra. Ligia Fonseca Ferreira (UNIFESP)
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2012, 130º. Aniversário de falecimento
Luiz Gama (1830-1882):
de escravo a “cidadão”
Apresentamos a seguir algumas facetas do poeta, advogado e jornalista negro Luiz
Gama (1830-1882), cuja “biografia de novela”, na expressão de Boris Fausto, confunde-se
com a histόria da capital paulista, onde notabilizou-se como um de seus mais ilustres
“cidadãos. É sempre
oportuno evocar, além de seus escritos, os lugares de memória
presentes na cidade, desconhecidos ou invisíveis à pressa dos paulistanos: o imponente
busto no Largo do Arouche, homenagem da comunidade negra ao centenário do libertador;
o túmulo no Cemitério da Consolação, erigido à mesma época pela Loja Maçônica América
ao seu ex-venerável; a Rua Luiz Gama no Bairro do Cambuci.
Luiz Gama encontraria o extremo oposto da paisagem geográfica e humana da sua
Bahia natal: uma cidade fria, monótona e provinciana, à qual chegara como escravo aos
dez anos de idade depois de atravessar a pé a Serra do Mar. Quarenta anos depois,
narrando episódios de seu passado em carta a Lúcio de Mendonça, um de seus textos mais
conhecidos, confessou: “Oh! eu tenho lances doridos em minha vida, que valem mais do
que as lendas sentidas da vida amargurada dos mártires”.
Aos 17 anos, Luiz Gama aprende a ler e a escrever, iniciando a sua apaixonada
aventura num universo da palavra escrita que se descortinava ao único intelectual
autodidata brasileiro tendo passado pela experiência da escravidão. Doze anos depois, ele
publica na capital paulista a primeira edição de seu livro único, as Primeiras Trovas
Burlescas de Getulino, uma coletânea de poemas satíricos e românticos até bem pouco
tempo rara1. Pela primeira vez, um negro tivera a audácia de denunciar os paradoxos
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Luiz Gama, Primeiras Trovas Burlescas e outros poemas, organização e introdução de Ligia F. Ferreira, Martins
Fontes, 2000.
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políticos, éticos e raciais da sociedade imperial. Contrariamente ao que ainda se afirma, a
obra de Luiz Gama foi recebida com sucesso no restrito círculo de letrados da cidade,
sendo dois anos depois “corrigida e aumentada” para a segunda e última edição no
verdadeiro espaço de consagração, o Rio de Janeiro. Curiosidade cercava também a
poesia de um autor sui generis, pois, no Brasil escravocrata, jamais foram lidos versos de
um negro se assumindo como tal.
Seu poema mais célebre, Quem sou eu?, conhecido também como A Bodarrada, foi
considerado por Manuel Bandeira como uma das obras-primas da nossa poesia satírica.
Luiz Gama zomba da pretensa brancura racial dos que, “embranquecidos” socialmente,
renegavam sua descendência africana. De sua pena sairiam outras poesias importantes,
sendo ele também pioneiro ao louvar a negra mulher amada, como se pode ler em Meus
amores, publicado em meados de 1860 num órgão da imprensa paulistana.
A poesia, no entanto, acabaria sendo substituída pelo jornalismo e pela defesa dos
escravos nos tribunais paulistas.
Luiz Gama iniciou sua atividade jornalística em 1864 fundando, ao lado do
caricaturista Angelo Agostini, o Diabo Coxo, primeiro periódico humorístico ilustrado de São
Paulo. Em 1866, ajudou a criar o semanário humorístico Cabrião, também com Agostini e
Américo de Campos, companheiros de maçonaria e da campanha republicana e
abolicionista.
Daí por diante, a carreira do jornalista não cessaria mais. Foi proprietário do
semanário político e satírico O Polichinelo (1876), tendo colaborado em vários jornais da
capital, dentre eles o Correio Paulistano, o mais importante jornal da cidade, dirigido por seu
amigo Américo de Campos. Depois de 1875, encontramos alguns artigos no diário A
Província de São Paulo, predecessor d´O Estado de São Paulo.
O final dos anos de 1860 foram marcantes para Luiz Gama: sofre perseguições
políticas, perde seu emprego, recebe ameaças de morte por defender “causas de
liberdade”. Paralelamente, ganha uma projeção pública que só aumentaria até a sua morte,
graças às conferências públicas, a artigos polêmicos nos jornais paulistanos, às iniciativas
para o alforriamento de escravos organizadas por ele e pela Loja América, a mais popular
da cidade, dos quais foi um dos membros fundadores.
O advogado autodidata tornou-se uma autoridade respeitada por muitos “doutores”
formados pela egrégia Faculdade de Direito que ele não pôde cursar. Enfrentar o
emaranhado jurídico para tratar de casos de escravização ilegal ou de alforrias individuais e
coletivas demandava uma paciência e determinação que só se encontrariam num homem
que, em virtude de seu passado, jurou
“ódio aos senhores” e declarou “guerra aos
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salteadores da liberdade”. Estas e outras sentenças lapidares encontram-se no artigo “Pela
última vez”, que sela a ruptura pública com seu ex-protetor, Conselheiro Furtado de
Mendonça, chefe da polícia da cidade e docente da Faculdade do Largo São Francisco 2. O
gesto corajoso foi definitivo para sua independência em relação ao paternalismo daquele
homem branco que impunha limites à ação e à consciência que Luiz Gama defenderia
veementemente. Num artigo anterior - a polêmica estendeu-se por quase um mês - o
temerário negro afirmava alto e bom som aos leitores paulistanos: “Eu advogo de graça, por
dedicação sincera à causa dos desgraçados; não pretendo lucros, não temo violências.”3
A partir de 1870, sob a liderança de Luiz Gama, a Loja América participou judicial e
financeiramente do alforriamento e “manutenção” da frágil liberdade de dezenas de
pessoas. Ao final da vida, segundo o próprio Gama, contribuiu para a liberdade de mais de
500 escravos, o que fazia dele não só o terror dos fazendeiros como também o de
advogados e juízes. Um de seus principais adversários preferidas era o então juiz municipal
Dr. Rego Freitas. Do alto de sua cultura jurídica, o advogado negro não se intimidava em
chamá-lo de “incompetente”, provando, em muitas ocasiões que “a inteligência repele os
diplomas como Deus repele a escravidão”4.
Mas, se Luiz Gama podia vangloriar-se de ter amigos por toda a parte, de ser o
“amigo de todos”, como escrevera o jovem Raul Pompéia numa crônica antológica sobre a
morte do amigo, o defensor dos escravos não escondia que muitos desejavam “enviá-lo
para a eternidade”, clara alusão aos fazendeiros do interior de São Paulo, àquela altura a
maior província negreira da Nação. Em dada circunstância, deixou uma carta ao seu filho,
Benedito Graco Pinto da Gama, verdadeiro legado de um homem para quem o moral devia
pautar-se por atitudes concretas.
Em 1881, ciente de que a morte poderia arrastá-lo a qualquer momento, antes de ver
realizados seus dois maiores sonhos - a Abolição e a República -, e exasperado pelas
“cenas de horror” cada vez mais freqüentes, Luiz Gama publicou n’A Província de São
Paulo um de seus últimos libelos, a Carta a Ferreira de Menezes, carregando de heroísmo
o gesto desesperado de quatro escravos do interior, quatro “sóis”, que mataram seu senhor,
entregaram-se à polícia, sendo pouco depois linchados pela população ensandecida.
Luiz Gama faleceu em 24 de agosto de 1882 aos 52 anos. A doença transformara-o
uma “venerável ruína” que saía, mesmo assim, carregado para tratar de seus clientes.
2
Correio Paulistano, 2 de dezembro de 1869, in : Ligia Fonseca Ferreira, Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos,
cartas, máximas. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2011.
3 Correio Paulistano, 20 de novembro de 1869, in: Com a palavra Luiz Gama, op. cit.
4 Idem.
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Dedicara seus últimos anos unicamente à causa dos escravos, abandonando qualquer
veleidade literária ou política. As imagens cruéis da escravidão não lhe comprometiam,
contudo, o espírito “jovial” e “folgazão”. Ninguém deixaria melhor retrato da personalidade
cativante de Luiz Gama do que seu jovem amigo Raul Pompéia, estudante de direito que,
como muitos outros, ligou-se ao líder abolicionista, venerando seu exemplo cívico.
A partir de 1883, organizar-se-iam visitas cívicas ao túmulo de Luiz Gama, que a
comunidade negra de São Paulo procurou manter viva ao longo do século XX.
Lugar de memória, patrimônio de todos os brasileiros, o exemplo do “cidadão” Luiz
Gama deve ser por todos nós conhecido, por nossas crianças - negras, brancas, índias,
mestiças - em particular das classes desfavorecidas, pois a trajetória do ex-escravo
libertador nos traz uma mensagem clara: a razão, a fé, a determinação e o altruísmo podem
levar o ser humano a alçar-se de condições trágicas, de fatalidades e de conformismo.
Todo homem imbuído de tais valores torna-se, assim, artesão de seu destino.
Profa. Dra. Ligia Fonseca Ferreira – UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo)
Bacharel em Letras e Lingüística pela Universidade de São Paulo, doutorou-se em letras
pela Universidade de Paris III – Sorbonne com a tese sobre a vida e obra do ex-escravo,
escritor, jornalista e advogado abolicionista Luiz Gama (1830-1882). Tem vários artigos
publicados no Brasil e no exterior sobre este tema e outros conexos. Organizou, como
trabalhos pioneiros, a reedição crítica das Primeiras Trovas Burlescas de Luiz Gama e
Outros Poemas, pela editora Martins Fontes (2000), e a antologia crítica Com a palavra
Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas. Prefácio de Fábio Konder Comparato.
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo : 2011.
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Todos
os
textos
a
seguir
encontram-se,
integralmente,
em
:
Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas. Organização, introdução e
notas Ligia Fonseca Ferreira. Prefácio de Fábio Konder Comparato. Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, 2011.
CARTA DE LUIZ GAMA A LÚCIO DE MENDONÇA
São Paulo, 25 de julho de 1880.
Meu caro Lúcio,
Recebi o teu cartão com a data de 28 de pretérito.
Não me posso negar ao teu pedido, porque antes quero ser acoimado de ridículo, em
razão de referir verdades pueris que me dizem respeito, do que vaidoso e fátuo, pelas ocultar, de
envergonhado : aí tens os apontamentos que me pedes, e que sempre eu os trouxe de memória.
Nasci na cidade de S[ão] Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da rua
do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma,
na Freguesia de Sant’Ana, a 21 de junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos
depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.
Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina, (Nagô de Nação) de nome
Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.
Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem
lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.
Dava-se ao comércio - era quintadeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi
presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.
Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela
ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856, em 1861, na Corte, sem que a
pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas, que conheciam-na e que deram-me sinais
certos que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma «casa de dar fortuna», em 1838,
fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Em opinião dos
meus informantes que esses «amotinados» fossem mandados para fora pelo governo, que, nesse
tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores.
Nada mais pude alcançar a respeito dela. Nesse ano, 1861, voltando a São Paulo, e
estando em comissão do governo, na vila de Caçapava, dediquei-lhe os versos que com esta carta
envio-te5.
Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas, neste país,
constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores
humanas : era fidalgo e pertencia a uma das principais famílias da Bahia de origem portuguesa. Devo
poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.
Ele foi rico ; e nesse tempo, muito extremoso para mim : criou-me em seus braços. Foi
revolucionário em 1837. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons
cavalos ; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, amava as súcias e os divertimentos :
esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836 ; e reduzido à pobreza extrema, a 10 de
novembro de 1840, em companhia de Luiz Cândido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro,
que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem, na cidade da Bahia, estabelecida em um sobrado
de quina, ao largo da praça, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho «Saraiva».
(...)
5
Luiz Gama alude aqui ao poema «Minha mãe» do qual Lúcio de Mendonça publicará um trecho no ensaio
biográfico «Luiz Gama», publicado no Almanaque Literário de São Paulo para o ano de 1881, pp. 50-62.
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PRIMEIRAS TROVAS BURLESCAS (1859, 1861)
QUEM SOU EU ?
Quem sou eu ? que importa quem ?
Sou um trovador proscrito,
Que trago na fronte escrito
Esta palavra — Ninguém ! —
A. E. Zaluar — «Dores e
flores»
Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico ;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho :
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia ;
Das manadas de Barões ?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência :
Eis aqui o Getulino,
Que no plectro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta ;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não — das
Calendas,
E , com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos ;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções,
Galgam altas posições !
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratantes, bem ou mal,
Com semblante festival.
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante,
Que blasona arte divina,
Com sulfatos de quinina,
Trabuzanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas,
Que, sem pingo de rubor,
Diz a todos, que é DOUTOR !
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
— Faz a todos injustiça —
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
— N’este dou com dupla
força,
Té que a manha perca ou
torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista —
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados,
Mas que, tendo ocasião,
São mais feros que o Leão.
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza,
Vive à lei da natureza ;
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas num momento.
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfunados,
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo ;
E que os homens poderosos
D’esta arenga receosos
Hão de chamar-me — tarelo,
Bode, negro, Mongibelo ;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode,
Pouco importa. O que isto
pode ?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito
vasta...
Há cizentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, n’esta boa terra,
Marram todos, tudo berra ;
Nobres Condes e Duquesas[,]
Ricas Damas e Marquesas,
Deputados, senadores,
Gentís-homens, veadores ;
Belas Damas emproadas,
De nobreza empantufadas ;
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres
gentes,
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança ;
Guardas, Cabos, Furriéis,
Brigadeiros, Coronéis,
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar e guerra,
— Tudo marra, tudo berra —.
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
—
O amante de Siringa
Tinha pêlo e má catinga ;
O deus Mendes, pelas
contas,
Na cabeça tinha pontas ;
Jove quando foi menino,
Chupitou leite caprino ;
E, segundo o antigo mito,
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão
Guarda um bode o Alcorão ;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas :
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho ?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria ;
Cesse, pois, a matinada,
Porque tudo é bodarrada ! —
Porque tudo é bodarrada ! —
In : Primeiras Trovas
Burlescas, org. e introd. Ligia
F. Ferreira, São Paulo,
Martins Fontes, 2000.
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Com rigor deprime o pobre,
Presta abrigo ao rico, ao nobre
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Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
SORTIMENTO DE GORRAS6
PARA
A GENTE DO GRANDE TOM
(...) 2 Se os nobres desta terra empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados ;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios ;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina :
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade !
3 Se o governo do Império Brasileiro,
Faz cousas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
O jumento transforma em sor Barão ;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado ;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N’Assembléia vai dar seu — apolhado :
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade !
(...)
5 Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros, e outros chuchadores[,]
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão ;
Se já temos calçadas — mac-lama,
Novidade que esfalfa a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p’ra o regresso :
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira !
(...)
6
Gorra = «carapuça».
(...)
Se os nobres d’esta terra, empanturrad
11 Se a justiça, por ter olhos vendados,
É vendida, por certos Magistrados,
Que o pudor aferrando na gaveta,
Sustentam — que o Direito é pura peta ;
E se os altos poderes sociais,
Toleram estas cenas imorais ;
Se não mente o rifão, já mui sabido :
— Ladrão que muito furta é protegido —
É que o sábio, no Brasil, só quer lambança,
Onde possa empantufar a larga pança !
(...)
In : Primeiras Trovas Burlescas, org. e
introd. Ligia F. Ferreira, São Paulo,
Martins Fontes, 2000.
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Aula : Profa. Dra. Ligia Fonseca Ferreira (UNIFESP)
Luiz Gama, “Foro da Capital”, Radical Paulistano, 13.11.1869
(...)
«Neste requerimento7 todo firmado em lei, e sem período ou frase alguma que
possa oferecer controvérsia, pôs o meritíssimo juiz este inqualificável despacho :
«— Constando da presente alegação,8 [aliás denúncia, sapientíssimo senhor doutor] 9
que o senhor do escravo Jacinto é morador no termo do Amparo, não estando, por isso,
debaixo da jurisdição deste juízo, requeira ao juízo competente.
São Paulo, 25 de outubro de 1869.
Rego Freitas.»
E doze dias estudou o sábio jurisconsulto para lavrar este inconcebível
despacho que faria injúria à inteligência mais humilde!
REQUEIRA AO JUÍZO COMPETENTE?!...
Consinta o imponente juiz, sem ofensa do seu amor próprio, que muito respeito,
e da reconhecida ilustração de seus venerandos mestres, que eu lhe dê uma
proveitosa lição de direito, para que não continue a enxovalhar em público o
pergaminho de bacharel que foi-lhe conferido pela mais distinta das faculdades
jurídicas do Império.
Esta lição está contida e escrita com a maior clareza na seguinte disposição de
Lei, que o meritíssimo juiz parece ou finge ignorar :
«Em qualquer tempo, em que o preto requerer a QUALQUER JUIZ DE PAZ, OU
CRIMINAL, que veio para o Brasil depois da extinção do tráfico, o juiz o interrogará sobre
todas as circunstâncias que possam esclarecer o fato, e OFICIALMENTE PROCEDERÁ A
TODAS AS DILIGÊNCIAS NECESSÁRIAS PARA CERTIFICAR-SE DELE, obrigando o
senhor a desfazer as dúvidas que suscitarem-se a tal respeito.
HAVENDO PRESUNÇÕES VEEMENTES DE SER O PRETO LIVRE, O MANDARÁ
DEPOSITAR e proceder nos mais termos da Lei.»
Nessa disposição é que devera o sr. dr. Rego Freitas estribar o seu despacho,
como juiz [íntegro], e não em sofismas fúteis que bem revelam a intenção de
frustrar o direito de um miserável africano, que não possui brasões nem títulos
honoríficos para despertar a simpatia e a veia jurídica do eminente e amestrado
jurisconsulto.
Descanse, porém, o sr. dr. Rego Freitas, porque eu protesto perante o país
inteiro de obrigá-lo a cingir-se à lei, respeitar o direito e cumprir estritamente o seu
dever para o que é pago com o suor do povo, que é o ouro da Nação.
(...)
Luiz Gama.»10
7
Trata-se da petição encaminhada por Luiz Gama.
Todas as partes em itálico ou maiúsculas da citação são grifos do autor.
9 Comentário de Luiz Gama
10 «Foro da Capital», Radical Paulistano, 13.11.1869.
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Referências Bibliográficas
FERREIRA, Ligia Fonseca. Luiz Gama (1830-1882) : étude sur la vie et l’œuvre d´un Noir
citoyen, militant de la lutte anti-esclavagiste au Brésil. Tese de doutorado. Orientador:
Georges Boisvert. Paris: Universidade de Paris 3 / Sorbonne Nouvelle, 2001, 4 vols.
_________. “Negritude(s), Negridade, Negrícia: história e sentidos de três conceitos
viajantes”. In: Via Atlântica. Revista da área de estudos comparados de língua portuguesa
(FFLCH, USP), n. 9, São Paulo, 2006, 163-184.
________. “Luiz Gama: um abolicionista leitor de Renan”, in Estudos Avançados 21 (60),
São Paulo, 2007, p. 271-288 (revista também disponível em versão digital :
http://www.iea.usp.br/iea/revista/)
_________. “Luiz Gama por Luiz Gama: carta a Lúcio de Mendonça”. In: Teresa. Revista de
Literatura Brasileira, n. 8/9; São Paulo, 2008, p. 300-321.
_________. “A voz negra na autobiografia: o caso de Luiz Gama”. In: Em primeira Pessoa.
Abordagens de uma teoria da autobiografia. Organizado por Helmut Galle, Ana Cecília
Olmos, Adriana Kanzepolsky, Laura Zuntini Izarra. São Paulo: Annablume; Fapesp; FFLCH,
USP, 2009.
_________. “Luiz Gama, defensor dos escravos e do Direito”. In : Carlos Guilherme Mota
(org.). Os Juristas na Formação do Estado-Nação Brasileiro. Vol.2. São Paulo: FGV Editora,
2010.
________. Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas. São Paulo :
Imprensa Oficial, 2011.
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