Rede social e rede básica de saúde: o papel formador da Pesquisa Operaconal em hanseníase Social and primary health care netwoerks: educational role of Operational Research in Hansen’s disease Marcia Gomide1, Jaqueline Caracas Barbosa2, Jorg Heukelbach3, Alberto Novaes Ramos Jr.4 Resumo Oficinas de Pesquisa Operacional propõem-se a preparar técnicos e gestores da área da saúde na identificação e resolução de problemas operacionais de forma científica. O presente estudo objetivou identificar a percepção de profissionais atuantes no Programa de Controle da Hanseníase, e treinados em Oficinas de Pesquisa Operacional, no que se refere à aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos nestas Oficinas, com vistas à melhoria do Programa na rede de serviços de saúde, no Sistema Único de Saúde (SUS). Para tanto foram realizados dois Grupos Focais. Participaram, ao todo, 16 indivíduos: seis enfermeiras, três fisioterapeutas; três médicos(as); um bioquímico, duas assistentes sociais e um economista. Discutem-se como ocorre a relação da rede social com a rede básica de saúde, suas implicações na inserção com o SUS e o papel da Pesquisa Operacional nesta relação. Conclui-se que a valorização pessoal a partir das Oficinas de Pesquisa Operacional é um fator preponderante na relação rede social e rede básica de saúde. Palavras-chave Rede social, avaliação, programas de saúde, pesquisa operacional, hanseníase Abstract Operational Research Workshops are to prepare technicians and policy makers of the health sector to identify and solve operational problems, based on evidence. The objective of the present study was to identify the perception of the professionals working within the Brazilian Leprosy Control Program and who had participated of an Operational Research Workshop, regarding further application of the knowledge acquired in these workshops in their daily professional routine and in the network of control programs of the Brazilian National Health System. We conducted two Focus Groups. Discussions were carried out with the participation of 16 professionals: six nurses, three physiotherapists, three physicians, two social workers, one biochemist and one economist. The relationship between social and primary health care networks was discussed, as well as the consequences of its integration into the Brazilian National Health System and the role of Operational Research in this context. We concluded that 1 Doutora em Saúde Pública. Professora Adjunta da Faculdade de Medicina. Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro. End: Praça Jorge Machado Moreira, 100 – Ilha do Fundão – Rio de Janeiro. E-mail: [email protected] 2 Doutora em Saúde Pública. Enfermeira no Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará 3 Doutor em Farmacologia. Professor Adjunto da Universidade Federal do Ceará 4 Doutorando em Ciências Médicas. Professor Assistente da Universidade Federal do Ceará. Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 – 103 M a rc i a G o m i d e , J a q u e l i n e C a r a c a s B a rb o s a , J o r g H e u k e l b a c h , A l b e r t o N o v a e s R a m o s J r . personal valuation resulting from Operational Research Workshops is an important factor in the relationship between both social and primary health care networks. Key words Social networks, evaluation, health programs, operational research, leprosy 1. Introdução A hanseníase representa um processo infeccioso crônico de elevada magnitude. Apesar disto, de uma forma ampliada, o caráter de doença negligenciada compromete sistematicamente o seu controle. Em todo o mundo, 259.000 casos novos foram detectados em 2006. O Brasil contribuiu com 17,2% desses casos, sendo o país com maior número no continente Americano (WHO, 2007). Considerando-se a sua natureza incapacitante, a baixa gravidade e o estigma relacionado, um grande contingente de pessoas que vivem com hanseníase apresenta necessidades marcantes relacionadas à reabilitação ao longo de suas vidas (WHO, 2005). Esta situação indica a necessidade de informações claras do ponto de vista operacional e epidemiológico para que se possam desenvolver estratégias diferenciadas de controle que sejam baseadas em evidências. Há quase duas décadas a melhora dos programas de saúde vem sendo um desafio (Koplan, 1999). Estes têm enfrentado dificuldades na implementação de diversas ordens que comprometem a sua qualidade, havendo, desta forma, a necessidade de constante avaliação e esforço (Victora, 2002). Esse esforço implica essencialmente a construção de práticas inovadoras, considerando a gestão, o planejamento e o processo de trabalho e o usuário (Santos et al., 2007). A Pesquisa Operacional vem sendo uma interessante alternativa inovadora para a identificação das informações que versam dentre os principais elementos da estratégia global, para aliviar a carga da hanseníase e manter as atividades de controle da hanseníase (Ramos Jr. et al., 2006; Varkevisser et al., 2001). A metodologia das Oficinas de Pesquisa Operacional foi idealizada e desenvolvida pela Dra. Corlien M. Varkevisser, do Royal Tropical Institute em Amsterdã (Países Baixos). Nos últimos anos, o Programa Nacional do Controle da Hanseníase e várias organizações não-governamentais, atuantes no Brasil, utilizaram a metodologia em oficinas de treinamento, alcançando um impacto importante (Ramos Jr. et al., 2006). O que se depreende ao longo da exposição desses autores é o recorrente sucesso resultante de um esforço individual e coletivo dos grupos de pesquisa que passaram por esta capacitação. Nessas oficinas, participam usualmente quatro equipes, compostas cada uma por quatro integrantes. O processo de 104 – Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1):103 - 114, 2009 Rede social e rede básica de saúde: o papel formador da Pesquisa Operaconal em hanseníase mobilização é iniciado por convites às equipes dos estados endêmicos, no sentido de encaminharem propostas de projetos operacionais na área de hanseníase. Os participantes selecionam problemas prioritários das suas próprias situações de trabalho, que não podem ser resolvidos a não ser que seja obtida mais informação. Ao final da oficina cumpre-se o cronograma previsto de trabalho de campo (6 a 12 meses). Na maior parte dos casos, a equipe de participantes realiza a investigação planejada simultaneamente às suas atividades profissionais habituais. Findada a pesquisa, após identificarem as recomendações para melhor desempenho do programa, buscam implementá-las, dentro da equipe ou no programa. Esta relação entre a equipe e seu novo aporte de conhecimentos gera um novo conjunto de relações, as quais podem influenciar no processo de trabalho. Um conjunto de relações entre pessoas ou entre grupos sociais é designado como rede social (Merckle, 2004). Os pesquisadores das ciências sociais que abordam o tema saúde ao desenvolverem investigações em redes sociais se preocupam em analisar a forma na qual os indivíduos de determinado contexto se coordenam e constroem seus mundos comuns. Interrogam-se sobre a ideologia da organização da rede social (Cresson et al., 2003) e qual é o impacto, ou a influência, da rede social para as organizações e instituições (Cohen et al., 1985). Esta perspectiva inova a maneira de se avaliar os processos de trabalho em determinado grupo, permitindo-nos descrever um contexto sem olvidar seus componentes, suas ligações e reações, as quais, acreditamos, podem influenciar a sua forma de trabalhar e, em consequência, o desempenho do programa de saúde ao qual estejam vinculados. O presente artigo tem como objetivo identificar a visão de diversos profissionais, que atuam no Programa de Controle da Hanseníase e que participaram de uma Oficina de Pesquisa Operacional, realizada em 2006, referente ao seu treinamento e posterior aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos, no seu dia a dia profissional, com vistas à melhoria do programa e de sua inserção na rede de saúde. 2. Metodologia A partir de uma Oficina de Pesquisa Operacional realizada em 2006 em Fortaleza/CE foram feitos dois Grupos Focais (GF) versando sobre a temática de operacionalização das tarefas diárias do serviço, bem como a influência da pesquisa operacional na atuação desses profissionais. A pergunta de partida utilizada: “Como foi a sua participação na Oficina e como ela influenciou no seu dia a dia de trabalho?” Os participantes foram técnicos das Secretarias de Saúde Estaduais e Municipais, Centros de Referência, além de Hospitais e Unidades Básicas de Saúde Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 – 105 M a rc i a G o m i d e , J a q u e l i n e C a r a c a s B a rb o s a , J o r g H e u k e l b a c h , A l b e r t o N o v a e s R a m o s J r . dos estados do Ceará, Paraíba, Sergipe e Rondônia. Os convites para participação nas Oficinas foram enviados às respectivas Coordenações do Programa, as quais nos indicaram os nomes dos participantes. Os Estados, convidados à Oficina, são endêmicos ou hiperendêmicos para a hanseníase. Foram selecionados a partir dos indicadores epidemiológicos e operacionais, bem como pela atuação em parceria com uma das Organizações Não-Governamentais Netherlands Leprosy Relief (NLR) e British Leprosy Relief Association (LRA/LEPRA). As duas organizações têm experiência e envolvimento com oficinas de pesquisas operacionais em hanseníase no Brasil desde 2001 dando apoio e realizando essas oficinas (Ramos Jr. et al., 2006). No total, participaram 16 indivíduos: seis enfermeiras, três fisioterapeutas; três médicos(as); um bioquímico, duas assistentes sociais e um economista. Todos os participantes da Oficina foram convidados ao estarem presentes no GF, realizado alguns meses após a oficina, já em 2007. Este distanciamento teve como propósito aguardar o tempo de “experimentação” dos conteúdos adquiridos pelos componentes da Oficina. Devido à distância geográfica e a questões de ordem prática, dividimos os participantes em dois grupos focais. O primeiro GF foi realizado com os participantes de Rondônia e o segundo com os participantes dos estados nordestinos. O grupo focal em Rondônia foi realizado um mês antes do GF com os participantes oriundos dos estados nordestinos. A técnica do GF foi aplicada e analisada de acordo com Goldemberg (2000), e Victora et al. (2000). Esta consiste em agrupar os indivíduos em ambiente tranquilo para ouvir as opiniões, visões ou percepções daquelas pessoas sobre o tema de interesse da pesquisa. Essa técnica não tem como objetivo levar a um consenso de pontos de vista dos participantes e nem tampouco imprimir-lhes mudanças, seja de ordem intelectual, seja comportamental. Ao coordenador do GF cabe apenas o papel de conduzir a discussão, de forma a que todos expressem suas opiniões, cuidando para que o tema seja aprofundado suficientemente dentro do interesse da pesquisa. Tem duração média de uma hora e meia, no máximo duas. Todos os participantes assinam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, antes de iniciada a discussão, que normalmente é gravada e posteriormente transcrita. Os participantes recebem codinomes, que podem ser escolhidos por eles mesmos antes de iniciado o grupo. Outra opção é dar-lhes números identificadores. No caso desta pesquisa a primeira opção foi a escolhida. Estas são estratégias que contribuem para a garantia do anonimato. A análise do material transcrito é feita pelo pesquisador responsável, que normalmente é o mesmo que conduz o GF, e seu assistente, também um componente do grupo de pesquisa. Seguimos os procedimentos analíticos baseados na construção de categorias pós-definidas. Ou seja, elas têm origem no grupamento das falas de acordo com os blocos temáticos 106 – Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 Rede social e rede básica de saúde: o papel formador da Pesquisa Operaconal em hanseníase surgidos da discussão. Em primeiro lugar procede-se a identificação desses blocos temáticos dentro da conversa geral do GF. Normalmente tais blocos são o resultado das próprias perguntas conduzidas pelo pesquisador-coordenador do GF, mas não obrigatoriamente. Em seguida são identificadas as afinidades temáticas dentro desses blocos. As afinidades são compostas pelas falas ou trechos destas e vão formar conjuntos que expressam padrões, aos quais nomeamos “categorias analíticas”. As categorias analíticas são, portanto, descritoras do problema e as respostas aos objetivos de busca do GF. A partir delas se desenvolvem as reflexões explicativas, argumentativas, descritivas ou informativas que são o objeto de interesse da pesquisa. Neste caso, o interesse era o de captar as visões e impressões dos participantes quanto à influência da estratégia da Oficina de Pesquisa Operacional em suas atividades. A análise dos conteúdos buscou aporte nas teorias de redes sociais, principalmente na literatura francesa, por encontrar nesta subsídios teóricos inovadores para a avaliação de programas tais como Degenne e Forsé (2004); Grosseti (2003); Grossetti e Baez (2001) e Merckle (2004). Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva IESC da Universidade Federal do Rio de Janeiro/ UFRJ, Parecer 06/2006, Processo n° 42/2005, fazendo parte de projeto de pesquisa financiado pelo CNPq. 3. Resultados e discussão Na presente pesquisa, a utilização da técnica de grupo focal permitiu-nos identificar as percepções e visões dos atores envolvidos no controle da hanseníase quanto ao seu papel no processo de descentralização e nas ações de controle, bem como suas visões a respeito do desempenho dos programas a partir de suas vivências na Oficina de Pesquisa Operacional. Essas percepções foram divididas em três grandes categorias analíticas, a saber: (a) o “Desenvolvimento pessoal” sentido pelos participantes, que diz respeito ao esforço em se aprimorar. Observa-se o empenho pessoal em superar as dificuldades impostas, ora por situações técnicas, ora por desejos pessoais ou por contextos de vida. (b) As “dificuldades enfrentadas no treinamento” referem-se à determinação para a superação destas dificuldades e aos resultados colhidos pelos esforços, que se tornam estimulantes para uma melhoria da conduta profissional. (c) A terceira categoria, que diz respeito aos “desafios na operacionalização” dos conhecimentos adquiridos, os quais estiveram sujeitos as diferentes condutas relacionais e sua maneira de reagir à estagnação e ao estímulo. Os problemas de relação aparecem no contexto diário de enfrentamentos que limita o crescimento do grupo e se difunde entre diferentes hierarquias. Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 – 107 M a rc i a G o m i d e , J a q u e l i n e C a r a c a s B a rb o s a , J o r g H e u k e l b a c h , A l b e r t o N o v a e s R a m o s J r . De um modo geral, observou-se uma influência muito positiva no desenvolvimento pessoal dos participantes após a Oficina, decorrentes do esforço pessoal em superar suas limitações. Todos concordaram que retornaram ao serviço com ideias novas para a operacionalização do programa. Contudo, os participantes encontraram dificuldades de implementação, de muitas das novas ideias, ou mesmo das recomendações identificadas como resultado da pesquisa operacional, como se verifica em uma das falas: “[...] ficou evidente que a forma que a gente via não era a mesma que ele via! [...]”. Se retomamos a ideia de Grossetti (2003; 2004) de que as atividades profissionais dependem das estruturas sociais e em particular das relações sociais, e considerando os cenários de incerteza (Contandriopoulos et al., 1997), a diversidade de linhas de tensão que pode existir em um programa (Coelho & Paim, 2005) e a força oculta das relações interpessoais (Grossetti & Bes, 2001, 2003), podemos compreender o quão complexo é inserir novas ideias dentro de um processo de trabalho incorporado por diferentes atores e, por isso mesmo, entendido de diversas formas. O que tem orientado a avaliação da qualidade dos programas têm sido as dimensões passíveis de quantificação excluindo-se a dimensão intersubjetiva propriamente humana. Não entrando no mérito da questão da institucionalização da avaliação-quantificação, e concordando com Teixeira (2006), urge diversificar os objetivos e níveis de avaliação e de estratégias de implementação de programas, tendo como possibilidade um recorte em “planos de profundidade”. Importante notar que por esse tipo de abordagem é possível considerar que as relações pessoais certamente estão presentes e direcionando informalmente o futuro dos programas de saúde. Dever-se-á, portanto, incluir como “elementos” preponderantes das propostas avaliativas, ou qualquer outra estratégia que vise à melhoria do programa, as relações interpessoais, pois as pessoas e suas intersubjetividades são indissociáveis de seu contexto (Bourdieu, 2005). É a dimensão do comportamento humano que começa a receber mais a atenção dos pesquisadores. Não é só avaliar o serviço em seu componente técnico, mas sim considerar os próprios profissionais envolvidos nestes serviços de saúde, em todos os níveis hierárquicos e técnicos, pois estes são elementos de uma corrente silenciosa, invisível, não percebida, ou mensurável. Nas instâncias decisórias, o poder toma corpo de um jogo, onde algumas categorias que vão da esperada competência técnica à “fidelidade”, “confiança” e ao “jogo de compadres” caracterizam essa corrente, social e informal (Coelho & Paim, 2005). Grossetti (2003) sugeriu que as atividades profissionais dependem das estruturas sociais e em particular das relações sociais, formadas por uma rede de proximidades, seguindo a ideia subjacente de que as relações pessoais, mesmo que menos visíveis, são mais importantes que as ligações formais entre as organizações. 108 – Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 Rede social e rede básica de saúde: o papel formador da Pesquisa Operaconal em hanseníase Problemas decorrentes das intersubjetividades nas relações “profissionaispessoais” foram repetidamente relatados pelos participantes desta pesquisa podendo ser identificados nas três categorias, deixando clara a influência destas sobre seu processo de trabalho. Em algumas situações o retorno do profissional ao serviço, após a oficina, foi suficiente para gerar uma reação coletiva, como no exemplo da fala: “[...] os outros setores [...] ficaram interessados e aí a gente passava essas informações. O pessoal, eu acho, [...] se sentiu de alguma forma [...]estimulado a participar.” Mas essa reação variou em número de envolvidos e em aceitação das novas ideias. As relações entre os indivíduos que obrigatoriamente pertencem a um grupo de trabalho estão sujeitas ao maior ou menor grau de afinidade entre cada um deles. A transmissão de “recursos/informações” está sujeita a estas diferentes afinidades, como pode ser observado nos exemplos de comportamentos opostos que se seguem relativos à categoria “Desenvolvimento pessoal”: “[...] eu já estava mobilizando os funcionários. Porque eles ajudavam [...]. Sabiam que era para a pesquisa, então facilitavam uma coisa, facilitavam outra.” E relativos à categoria “Desafio de implementação”: “[...] a gente chega ao serviço, [...] tenta melhorar, tenta fazer alguma coisa, implantar alguma coisa, mas sempre existem as dificuldades. [...] Então a gente fica quase que inútil [...] não se consegue fazer as coisas melhor do que o que [...] já estava fazendo [...].” “Agora... Ter o envolvimento, mostrar, sensibilizar as autoridades, os gestores principalmente, para implementar essas ações, [...] O caminho é negociar[...]. É o técnico conciliado com o político [...] a gente vai muito pela persistência.” Resolver um problema operacional interno ou externo vai depender, portanto, do tipo de relações que cada indivíduo tem com o outro que o possa auxiliar a resolver determinada questão. E assim se forma de modo inconsciente a rede social que extrapola os limites e as hierarquias formais do grupo de trabalho (Barnes, 1954). Mesmo que no momento não tenhamos como identificar o quanto cada equipe de pesquisa operacional foi capaz de influenciar os colegas diretamente ligados pela função e local de trabalho, também não podemos descartar a possibilidade de existir esta influência invisível, dentro da perspectiva ideológica de cada indivíduo do grupo, conforme podemos verificar nas falas que se seguem procedentes das três categorias: Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 – 109 M a rc i a G o m i d e , J a q u e l i n e C a r a c a s B a rb o s a , J o r g H e u k e l b a c h , A l b e r t o N o v a e s R a m o s J r . “[...] os colegas do serviço [...] tinham interesse em saber como é que era, o quê [...] a gente tinha feito, por que tanto tempo?” Ou então: “ [...] a gente vê que as coisas não são só incentivo, [...] tem que estar na ação mesmo! [...] Essas ações é que são difíceis de [...] conseguir [...] a gente fica triste [...] de saber que [...] está impotente [...].” Outro exemplo: “[...] a gente excluiria alguns e incluiria outros! [...] você sabe quem pode ser seu parceiro, [...] ter interesse e estimular também para que o outro tenha interesse [...]; a partir do momento que você sente diferente, com outro potencial, [...] até onde vai o seu limite, a sua... Digamos assim, influência sobre o outro... [...] que influência exerceu sobre os outros?” As influências variam conforme ao grau de centralidade, de intermediação e de proximidade (Degenne & Forsé, 1994) que o ex-participante da oficina representa nesta rede social de seu trabalho. Esta se expressa, segundo o autor, pela quantidade de relações (centralidade), de “caminhos” de resolução (intermediação) e pela capacidade de aproximação em relação a todos os demais envolvidos (proximidade). Talvez a invisível rede de proximidades possa estar, em grande medida, relacionada às modificações mais simples do dia a dia, como também a implementação das recomendações. A mudança de hábitos profissionais ou a incorporação de novas medidas mais gerais esbarram nestas relações interpessoais e na forma de organização da rede social. Em outras palavras, é possível considerarmos que a capacidade pessoal dos profissionais – fundamentais para a integração da rede de Saúde com o SUS – vai a algum grau (centralidade, intermediação e proximidade) influenciar na sua forma de ligação na rede social. A identificação desta rede pode ser a chave para a implementação de novas ideias pessoais ou das recomendações que venham a ser identificadas pela equipe. Seguindo esta lógica, o elo invisível entre as pessoas resultará no tipo de desfecho do programa, ou de ações ou recomendações desejadas ou desejáveis. Mas como ele é invisível, sua previsibilidade não é possível pelos meios atuais de investigação que até então temos utilizado ou de estratégias pedagógicas. Podemos ousar dizer, portanto, que a interação da Rede Básica de Saúde com o próprio SUS – ou seja, até que ponto a Rede está implementando satisfatoriamente as premissas do SUS – está hoje na dependência da rede social construída por seus atores ao longo do processo de descentralização. O espaço do “invisível” pode ser detectado quando a subjetividade e as relações interpessoais formadas e formadoras das redes sociais forem consideradas nas investigações/estratégias. Neste ponto a Oficina de Pesquisa Operacional, 110 – Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 Rede social e rede básica de saúde: o papel formador da Pesquisa Operaconal em hanseníase mesmo visando em primeira instância ao aprimoramento operacional, acabou por meio da valorização pessoal trazendo à tona a base de todo sucesso profissional: a forma de se fazer. Esta, por sua vez, está diretamente ligada à valorização do profissional, na sua esfera de conhecimento e confiança. Nas categorias analíticas “Dificuldades no treinamento”, verificamos essa realidade: “Eu acho que tem que ter esse desafio [refere-se a treinamento] porque, se não, a gente não pára e não faz! [...]”; “Nós ficamos vagando, [...] aquele passo no mesmo lugar! Desesperado olhando para os lados... [...] Você quer melhorar e não sabe como... [...]” e “[...] eu acho que foi um enriquecimento muito grande, é uma coisa que é árdua, que é cansativa, mas que vale a pena!” representam não só a importância da oficina no serviço, mas também o retorno social a estes profissionais. Se entendermos políticas de saúde como uma resposta social de uma organização governamental diante de determinadas condições ou situações no campo individual, coletivo, ou nas esferas gerenciais capazes de afetar a saúde humana (Paim & Teixeira, 2006, Teixeira, 2006), entendemos também que se relacionam com o poder e com o estabelecimento de diretrizes, planos e programas de saúde, se desdobrando no próprio sistema de saúde (Gerschman & Santos, 2006). Assim é que a forma de atuação de cada componente da rede social terá implicações na Rede Básica de Saúde. A tendência verticalizadora dos programas de controle (Teixeira & Paim, 1990), mesmo que com o sentido de horizontalizar/descentralizar, acaba por ativar os recursos das relações da rede social, proporcionando o aumento da diversidade de atuações do programa de hanseníase, pelos estados e municípios. A Pesquisa Operacional na forma de oficinas como vem sendo desenvolvida no Brasil desde 2001 (Ramos Jr. et al., 2006) conquistou no ano 2008 sua institucionalização junto ao Ministério da Saúde ao entrar como meta no Plano Nacional. Este papel formador da pesquisa operacional como um elo entre o serviço, a atenção, a saúde e a ciência baseia-se em sua sustentabilidade técnico-política, capaz de formar pessoas, identificar problemas, definir soluções e incentivar implementações por meio do aporte teórico-prático. Além do papel formador, seu método torna acessível aos participantes-técnicos a apreensão rápida e eficiente do “instrumental básico” da pesquisa e a partir desta aquisição estes tornam-se capazes de buscar soluções para os problemas antes “insolúveis”, dandolhes confiança, autonomia e mais eficiência. Contudo, cabe a nós, “condutores da ciência”, rever nossas estratégias analítico-avaliativas de forma a encontrar a chave para o sucesso dos programas. Esta chave certamente passa pela dimensão das relações interpessoais e sua forma de organização na rede social. Cad. Saúde Colet., Rio de Janeiro, 17 (1): 103 - 114, 2009 – 111 M a rc i a G o m i d e , J a q u e l i n e C a r a c a s B a rb o s a , J o r g H e u k e l b a c h , A l b e r t o N o v a e s R a m o s J r . 4. Considerações finais As pesquisas operacionais têm apresentado resultados e reflexos bastante positivos nas gerências dos programas municipais e estaduais de controle da hanseníase. A participação nas Oficinas de Pesquisa Operacional permitiu uma reflexão mais aprofundada sobre a atuação de cada profissional no dia a dia dos programas. Eles foram capazes de se superarem. Encontraram diversos níveis de dificuldades na implantação de suas novas ideias, quanto de resolução de problemas. Em contrapartida, nas situações em que conseguiram o envolvimento da equipe que restou na retaguarda, sem participar da Oficina, aplicar e repassar as novas ideias e foi, simples e gratificante. Constatou-se um importante desenvolvimento pessoal dos participantes, com valorização e autoconfiança do trabalhador em saúde, além de resgate da autoestima e da criatividade. Vários participantes foram motivados a realizar especializações, mestrados e mesmo doutorado. A forma de inserção da rede básica de saúde no SUS está sujeita às relações estabelecidas na rede social construída a partir da necessidade de resolução mais ou menos imediata, de problemas operacionais “estagnados” pelos limites das relações formais, tanto técnicas quanto humanas. A pesquisa operacional é o elo entre o serviço, a atenção à saúde e ciência. Cabe aos seus “seguidores” incorporar a dimensão das relações interpessoais em sua rotina de pesquisa. * Agradecimentos: Às ONGs Netherlands Leprosy Relief (NLR) e Leprosy Relief Association (LRA) pelo apoio na realização da Oficina de Pesquisa Operacional. Jorg Heukelbach é bolsista de produtividade em pesquisa (PQ) do CNPq. Marcia Gomide foi bolsista do Programa de Bolsas no Exterior, Estágio Pós-Doutoral da CAPES, em 2008. Referências Andrade, V. L. G. A descentralização das atividades e a delegação das responsabilidades pela eliminação da hanseníase ao nível municipal. Boletim de Pneumologia Sanitária. v. 8, n. 1, p. 47 – 51, 2000. Barnes, J. Class and committees in a Norwegian island parish. Human Relations. v. 7, p. 39 - 58, 1954. Bourdieu, P. O poder simbólico. 8. ed. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil, 2005. 316p. Brasil. Plano Nacional de Monitoramento e Avaliação. Brasília: Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância de Saúde. Programa Nacional de DST/AIDS, 2005. 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