Rede social e rede básica de saúde: o papel formador da Pesquisa
Operaconal em hanseníase
Social and primary health care netwoerks: educational role of Operational
Research in Hansen’s disease
Marcia Gomide1, Jaqueline Caracas Barbosa2, Jorg Heukelbach3, Alberto
Novaes Ramos Jr.4
Resumo
Oficinas de Pesquisa Operacional propõem-se a preparar técnicos e gestores da área
da saúde na identificação e resolução de problemas operacionais de forma científica. O
presente estudo objetivou identificar a percepção de profissionais atuantes no Programa
de Controle da Hanseníase, e treinados em Oficinas de Pesquisa Operacional, no
que se refere à aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos nestas Oficinas, com
vistas à melhoria do Programa na rede de serviços de saúde, no Sistema Único de
Saúde (SUS). Para tanto foram realizados dois Grupos Focais. Participaram, ao todo,
16 indivíduos: seis enfermeiras, três fisioterapeutas; três médicos(as); um bioquímico,
duas assistentes sociais e um economista. Discutem-se como ocorre a relação da
rede social com a rede básica de saúde, suas implicações na inserção com o SUS e
o papel da Pesquisa Operacional nesta relação. Conclui-se que a valorização pessoal
a partir das Oficinas de Pesquisa Operacional é um fator preponderante na relação
rede social e rede básica de saúde.
Palavras-chave
Rede social, avaliação, programas de saúde, pesquisa operacional, hanseníase
Abstract
Operational Research Workshops are to prepare technicians and policy makers of
the health sector to identify and solve operational problems, based on evidence.
The objective of the present study was to identify the perception of the professionals
working within the Brazilian Leprosy Control Program and who had participated of
an Operational Research Workshop, regarding further application of the knowledge
acquired in these workshops in their daily professional routine and in the network of
control programs of the Brazilian National Health System. We conducted two Focus
Groups. Discussions were carried out with the participation of 16 professionals: six
nurses, three physiotherapists, three physicians, two social workers, one biochemist
and one economist. The relationship between social and primary health care networks
was discussed, as well as the consequences of its integration into the Brazilian National
Health System and the role of Operational Research in this context. We concluded that
1 Doutora em Saúde Pública. Professora Adjunta da Faculdade de Medicina. Departamento de Medicina Preventiva da
Universidade Federal do Rio de Janeiro. End: Praça Jorge Machado Moreira, 100 – Ilha do Fundão – Rio de Janeiro.
E-mail: [email protected]
2 Doutora em Saúde Pública. Enfermeira no Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal do Ceará
3 Doutor em Farmacologia. Professor Adjunto da Universidade Federal do Ceará
4 Doutorando em Ciências Médicas. Professor Assistente da Universidade Federal do Ceará.
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personal valuation resulting from Operational Research Workshops is an important
factor in the relationship between both social and primary health care networks.
Key
words
Social networks, evaluation, health programs, operational research, leprosy
1. Introdução
A hanseníase representa um processo infeccioso crônico de elevada magnitude.
Apesar disto, de uma forma ampliada, o caráter de doença negligenciada
compromete sistematicamente o seu controle. Em todo o mundo, 259.000 casos
novos foram detectados em 2006. O Brasil contribuiu com 17,2% desses casos,
sendo o país com maior número no continente Americano (WHO, 2007).
Considerando-se a sua natureza incapacitante, a baixa gravidade e o estigma
relacionado, um grande contingente de pessoas que vivem com hanseníase
apresenta necessidades marcantes relacionadas à reabilitação ao longo de suas
vidas (WHO, 2005). Esta situação indica a necessidade de informações claras
do ponto de vista operacional e epidemiológico para que se possam desenvolver
estratégias diferenciadas de controle que sejam baseadas em evidências. Há quase
duas décadas a melhora dos programas de saúde vem sendo um desafio (Koplan,
1999). Estes têm enfrentado dificuldades na implementação de diversas ordens
que comprometem a sua qualidade, havendo, desta forma, a necessidade de
constante avaliação e esforço (Victora, 2002). Esse esforço implica essencialmente
a construção de práticas inovadoras, considerando a gestão, o planejamento e o
processo de trabalho e o usuário (Santos et al., 2007).
A Pesquisa Operacional vem sendo uma interessante alternativa inovadora
para a identificação das informações que versam dentre os principais elementos
da estratégia global, para aliviar a carga da hanseníase e manter as atividades de
controle da hanseníase (Ramos Jr. et al., 2006; Varkevisser et al., 2001).
A metodologia das Oficinas de Pesquisa Operacional foi idealizada e
desenvolvida pela Dra. Corlien M. Varkevisser, do Royal Tropical Institute em
Amsterdã (Países Baixos).
Nos últimos anos, o Programa Nacional do Controle da Hanseníase e várias
organizações não-governamentais, atuantes no Brasil, utilizaram a metodologia
em oficinas de treinamento, alcançando um impacto importante (Ramos Jr. et al.,
2006). O que se depreende ao longo da exposição desses autores é o recorrente
sucesso resultante de um esforço individual e coletivo dos grupos de pesquisa
que passaram por esta capacitação. Nessas oficinas, participam usualmente
quatro equipes, compostas cada uma por quatro integrantes. O processo de
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mobilização é iniciado por convites às equipes dos estados endêmicos, no sentido
de encaminharem propostas de projetos operacionais na área de hanseníase. Os
participantes selecionam problemas prioritários das suas próprias situações de
trabalho, que não podem ser resolvidos a não ser que seja obtida mais informação.
Ao final da oficina cumpre-se o cronograma previsto de trabalho de campo (6 a 12
meses). Na maior parte dos casos, a equipe de participantes realiza a investigação
planejada simultaneamente às suas atividades profissionais habituais. Findada
a pesquisa, após identificarem as recomendações para melhor desempenho do
programa, buscam implementá-las, dentro da equipe ou no programa. Esta relação
entre a equipe e seu novo aporte de conhecimentos gera um novo conjunto
de relações, as quais podem influenciar no processo de trabalho. Um conjunto
de relações entre pessoas ou entre grupos sociais é designado como rede social
(Merckle, 2004).
Os pesquisadores das ciências sociais que abordam o tema saúde ao
desenvolverem investigações em redes sociais se preocupam em analisar a forma
na qual os indivíduos de determinado contexto se coordenam e constroem seus
mundos comuns. Interrogam-se sobre a ideologia da organização da rede social
(Cresson et al., 2003) e qual é o impacto, ou a influência, da rede social para as
organizações e instituições (Cohen et al., 1985). Esta perspectiva inova a maneira
de se avaliar os processos de trabalho em determinado grupo, permitindo-nos
descrever um contexto sem olvidar seus componentes, suas ligações e reações, as
quais, acreditamos, podem influenciar a sua forma de trabalhar e, em consequência,
o desempenho do programa de saúde ao qual estejam vinculados.
O presente artigo tem como objetivo identificar a visão de diversos profissionais,
que atuam no Programa de Controle da Hanseníase e que participaram de uma
Oficina de Pesquisa Operacional, realizada em 2006, referente ao seu treinamento e
posterior aplicabilidade dos conhecimentos adquiridos, no seu dia a dia profissional,
com vistas à melhoria do programa e de sua inserção na rede de saúde.
2. Metodologia
A partir de uma Oficina de Pesquisa Operacional realizada em 2006 em
Fortaleza/CE foram feitos dois Grupos Focais (GF) versando sobre a temática
de operacionalização das tarefas diárias do serviço, bem como a influência da
pesquisa operacional na atuação desses profissionais. A pergunta de partida
utilizada: “Como foi a sua participação na Oficina e como ela influenciou no
seu dia a dia de trabalho?”
Os participantes foram técnicos das Secretarias de Saúde Estaduais e
Municipais, Centros de Referência, além de Hospitais e Unidades Básicas de Saúde
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dos estados do Ceará, Paraíba, Sergipe e Rondônia. Os convites para participação
nas Oficinas foram enviados às respectivas Coordenações do Programa, as quais
nos indicaram os nomes dos participantes. Os Estados, convidados à Oficina, são
endêmicos ou hiperendêmicos para a hanseníase. Foram selecionados a partir dos
indicadores epidemiológicos e operacionais, bem como pela atuação em parceria
com uma das Organizações Não-Governamentais Netherlands Leprosy Relief (NLR) e
British Leprosy Relief Association (LRA/LEPRA). As duas organizações têm experiência
e envolvimento com oficinas de pesquisas operacionais em hanseníase no Brasil
desde 2001 dando apoio e realizando essas oficinas (Ramos Jr. et al., 2006).
No total, participaram 16 indivíduos: seis enfermeiras, três fisioterapeutas;
três médicos(as); um bioquímico, duas assistentes sociais e um economista. Todos
os participantes da Oficina foram convidados ao estarem presentes no GF,
realizado alguns meses após a oficina, já em 2007. Este distanciamento teve como
propósito aguardar o tempo de “experimentação” dos conteúdos adquiridos pelos
componentes da Oficina. Devido à distância geográfica e a questões de ordem
prática, dividimos os participantes em dois grupos focais. O primeiro GF foi
realizado com os participantes de Rondônia e o segundo com os participantes dos
estados nordestinos. O grupo focal em Rondônia foi realizado um mês antes do
GF com os participantes oriundos dos estados nordestinos.
A técnica do GF foi aplicada e analisada de acordo com Goldemberg (2000), e
Victora et al. (2000). Esta consiste em agrupar os indivíduos em ambiente tranquilo
para ouvir as opiniões, visões ou percepções daquelas pessoas sobre o tema de
interesse da pesquisa. Essa técnica não tem como objetivo levar a um consenso de
pontos de vista dos participantes e nem tampouco imprimir-lhes mudanças, seja
de ordem intelectual, seja comportamental. Ao coordenador do GF cabe apenas
o papel de conduzir a discussão, de forma a que todos expressem suas opiniões,
cuidando para que o tema seja aprofundado suficientemente dentro do interesse
da pesquisa. Tem duração média de uma hora e meia, no máximo duas. Todos
os participantes assinam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, antes
de iniciada a discussão, que normalmente é gravada e posteriormente transcrita.
Os participantes recebem codinomes, que podem ser escolhidos por eles mesmos
antes de iniciado o grupo. Outra opção é dar-lhes números identificadores. No
caso desta pesquisa a primeira opção foi a escolhida. Estas são estratégias que
contribuem para a garantia do anonimato. A análise do material transcrito é feita
pelo pesquisador responsável, que normalmente é o mesmo que conduz o GF,
e seu assistente, também um componente do grupo de pesquisa. Seguimos os
procedimentos analíticos baseados na construção de categorias pós-definidas. Ou
seja, elas têm origem no grupamento das falas de acordo com os blocos temáticos
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surgidos da discussão. Em primeiro lugar procede-se a identificação desses blocos
temáticos dentro da conversa geral do GF. Normalmente tais blocos são o resultado
das próprias perguntas conduzidas pelo pesquisador-coordenador do GF, mas não
obrigatoriamente. Em seguida são identificadas as afinidades temáticas dentro desses
blocos. As afinidades são compostas pelas falas ou trechos destas e vão formar
conjuntos que expressam padrões, aos quais nomeamos “categorias analíticas”.
As categorias analíticas são, portanto, descritoras do problema e as respostas aos
objetivos de busca do GF. A partir delas se desenvolvem as reflexões explicativas,
argumentativas, descritivas ou informativas que são o objeto de interesse da pesquisa.
Neste caso, o interesse era o de captar as visões e impressões dos participantes
quanto à influência da estratégia da Oficina de Pesquisa Operacional em suas
atividades.
A análise dos conteúdos buscou aporte nas teorias de redes sociais, principalmente
na literatura francesa, por encontrar nesta subsídios teóricos inovadores para a
avaliação de programas tais como Degenne e Forsé (2004); Grosseti (2003); Grossetti
e Baez (2001) e Merckle (2004).
Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de
Estudos de Saúde Coletiva IESC da Universidade Federal do Rio de Janeiro/
UFRJ, Parecer 06/2006, Processo n° 42/2005, fazendo parte de projeto de pesquisa
financiado pelo CNPq.
3. Resultados
e discussão
Na presente pesquisa, a utilização da técnica de grupo focal permitiu-nos
identificar as percepções e visões dos atores envolvidos no controle da hanseníase
quanto ao seu papel no processo de descentralização e nas ações de controle,
bem como suas visões a respeito do desempenho dos programas a partir de
suas vivências na Oficina de Pesquisa Operacional. Essas percepções foram
divididas em três grandes categorias analíticas, a saber: (a) o “Desenvolvimento
pessoal” sentido pelos participantes, que diz respeito ao esforço em se aprimorar.
Observa-se o empenho pessoal em superar as dificuldades impostas, ora por situações
técnicas, ora por desejos pessoais ou por contextos de vida. (b) As “dificuldades
enfrentadas no treinamento” referem-se à determinação para a superação destas
dificuldades e aos resultados colhidos pelos esforços, que se tornam estimulantes para
uma melhoria da conduta profissional. (c) A terceira categoria, que diz respeito aos
“desafios na operacionalização” dos conhecimentos adquiridos, os quais estiveram
sujeitos as diferentes condutas relacionais e sua maneira de reagir à estagnação e ao
estímulo. Os problemas de relação aparecem no contexto diário de enfrentamentos
que limita o crescimento do grupo e se difunde entre diferentes hierarquias.
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De um modo geral, observou-se uma influência muito positiva no desenvolvimento
pessoal dos participantes após a Oficina, decorrentes do esforço pessoal em superar
suas limitações. Todos concordaram que retornaram ao serviço com ideias novas para
a operacionalização do programa. Contudo, os participantes encontraram dificuldades
de implementação, de muitas das novas ideias, ou mesmo das recomendações
identificadas como resultado da pesquisa operacional, como se verifica em uma das
falas: “[...] ficou evidente que a forma que a gente via não era a mesma que ele via! [...]”.
Se retomamos a ideia de Grossetti (2003; 2004) de que as atividades profissionais
dependem das estruturas sociais e em particular das relações sociais, e considerando
os cenários de incerteza (Contandriopoulos et al., 1997), a diversidade de linhas de
tensão que pode existir em um programa (Coelho & Paim, 2005) e a força oculta
das relações interpessoais (Grossetti & Bes, 2001, 2003), podemos compreender o
quão complexo é inserir novas ideias dentro de um processo de trabalho incorporado
por diferentes atores e, por isso mesmo, entendido de diversas formas.
O que tem orientado a avaliação da qualidade dos programas têm sido
as dimensões passíveis de quantificação excluindo-se a dimensão intersubjetiva
propriamente humana. Não entrando no mérito da questão da institucionalização
da avaliação-quantificação, e concordando com Teixeira (2006), urge diversificar
os objetivos e níveis de avaliação e de estratégias de implementação de programas,
tendo como possibilidade um recorte em “planos de profundidade”. Importante
notar que por esse tipo de abordagem é possível considerar que as relações pessoais
certamente estão presentes e direcionando informalmente o futuro dos programas
de saúde. Dever-se-á, portanto, incluir como “elementos” preponderantes das
propostas avaliativas, ou qualquer outra estratégia que vise à melhoria do programa,
as relações interpessoais, pois as pessoas e suas intersubjetividades são indissociáveis
de seu contexto (Bourdieu, 2005).
É a dimensão do comportamento humano que começa a receber mais a atenção
dos pesquisadores. Não é só avaliar o serviço em seu componente técnico, mas sim
considerar os próprios profissionais envolvidos nestes serviços de saúde, em todos os
níveis hierárquicos e técnicos, pois estes são elementos de uma corrente silenciosa,
invisível, não percebida, ou mensurável. Nas instâncias decisórias, o poder toma
corpo de um jogo, onde algumas categorias que vão da esperada competência
técnica à “fidelidade”, “confiança” e ao “jogo de compadres” caracterizam essa
corrente, social e informal (Coelho & Paim, 2005).
Grossetti (2003) sugeriu que as atividades profissionais dependem das estruturas
sociais e em particular das relações sociais, formadas por uma rede de proximidades,
seguindo a ideia subjacente de que as relações pessoais, mesmo que menos visíveis,
são mais importantes que as ligações formais entre as organizações.
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Problemas decorrentes das intersubjetividades nas relações “profissionaispessoais” foram repetidamente relatados pelos participantes desta pesquisa podendo
ser identificados nas três categorias, deixando clara a influência destas sobre seu
processo de trabalho. Em algumas situações o retorno do profissional ao serviço,
após a oficina, foi suficiente para gerar uma reação coletiva, como no exemplo
da fala:
“[...] os outros setores [...] ficaram interessados e aí a gente passava essas informações. O
pessoal, eu acho, [...] se sentiu de alguma forma [...]estimulado a participar.”
Mas essa reação variou em número de envolvidos e em aceitação das novas
ideias. As relações entre os indivíduos que obrigatoriamente pertencem a um
grupo de trabalho estão sujeitas ao maior ou menor grau de afinidade entre cada
um deles. A transmissão de “recursos/informações” está sujeita a estas diferentes
afinidades, como pode ser observado nos exemplos de comportamentos opostos
que se seguem relativos à categoria “Desenvolvimento pessoal”:
“[...] eu já estava mobilizando os funcionários. Porque eles ajudavam [...]. Sabiam que
era para a pesquisa, então facilitavam uma coisa, facilitavam outra.”
E relativos à categoria “Desafio de implementação”:
“[...] a gente chega ao serviço, [...] tenta melhorar, tenta fazer alguma coisa, implantar
alguma coisa, mas sempre existem as dificuldades. [...] Então a gente fica quase que inútil
[...] não se consegue fazer as coisas melhor do que o que [...] já estava fazendo [...].”
“Agora... Ter o envolvimento, mostrar, sensibilizar as autoridades, os gestores principalmente,
para implementar essas ações, [...] O caminho é negociar[...]. É o técnico conciliado com
o político [...] a gente vai muito pela persistência.”
Resolver um problema operacional interno ou externo vai depender, portanto,
do tipo de relações que cada indivíduo tem com o outro que o possa auxiliar a
resolver determinada questão. E assim se forma de modo inconsciente a rede social
que extrapola os limites e as hierarquias formais do grupo de trabalho (Barnes,
1954).
Mesmo que no momento não tenhamos como identificar o quanto cada equipe
de pesquisa operacional foi capaz de influenciar os colegas diretamente ligados
pela função e local de trabalho, também não podemos descartar a possibilidade de
existir esta influência invisível, dentro da perspectiva ideológica de cada indivíduo
do grupo, conforme podemos verificar nas falas que se seguem procedentes das
três categorias:
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“[...] os colegas do serviço [...] tinham interesse em saber como é que era, o quê [...]
a gente tinha feito, por que tanto tempo?” Ou então: “ [...] a gente vê que as coisas
não são só incentivo, [...] tem que estar na ação mesmo! [...] Essas ações é que são
difíceis de [...] conseguir [...] a gente fica triste [...] de saber que [...] está impotente
[...].” Outro exemplo:
“[...] a gente excluiria alguns e incluiria outros! [...] você sabe quem pode ser seu
parceiro, [...] ter interesse e estimular também para que o outro tenha interesse [...]; a
partir do momento que você sente diferente, com outro potencial, [...] até onde vai o seu
limite, a sua... Digamos assim, influência sobre o outro... [...] que influência exerceu
sobre os outros?”
As influências variam conforme ao grau de centralidade, de intermediação
e de proximidade (Degenne & Forsé, 1994) que o ex-participante da oficina
representa nesta rede social de seu trabalho. Esta se expressa, segundo o
autor, pela quantidade de relações (centralidade), de “caminhos” de resolução
(intermediação) e pela capacidade de aproximação em relação a todos os demais
envolvidos (proximidade).
Talvez a invisível rede de proximidades possa estar, em grande medida,
relacionada às modificações mais simples do dia a dia, como também a
implementação das recomendações. A mudança de hábitos profissionais ou a
incorporação de novas medidas mais gerais esbarram nestas relações interpessoais
e na forma de organização da rede social. Em outras palavras, é possível
considerarmos que a capacidade pessoal dos profissionais – fundamentais para
a integração da rede de Saúde com o SUS – vai a algum grau (centralidade,
intermediação e proximidade) influenciar na sua forma de ligação na rede social.
A identificação desta rede pode ser a chave para a implementação de novas ideias
pessoais ou das recomendações que venham a ser identificadas pela equipe.
Seguindo esta lógica, o elo invisível entre as pessoas resultará no tipo de
desfecho do programa, ou de ações ou recomendações desejadas ou desejáveis.
Mas como ele é invisível, sua previsibilidade não é possível pelos meios atuais de
investigação que até então temos utilizado ou de estratégias pedagógicas. Podemos
ousar dizer, portanto, que a interação da Rede Básica de Saúde com o próprio
SUS – ou seja, até que ponto a Rede está implementando satisfatoriamente as
premissas do SUS – está hoje na dependência da rede social construída por
seus atores ao longo do processo de descentralização.
O espaço do “invisível” pode ser detectado quando a subjetividade e as
relações interpessoais formadas e formadoras das redes sociais forem consideradas
nas investigações/estratégias. Neste ponto a Oficina de Pesquisa Operacional,
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mesmo visando em primeira instância ao aprimoramento operacional, acabou por
meio da valorização pessoal trazendo à tona a base de todo sucesso profissional:
a forma de se fazer. Esta, por sua vez, está diretamente ligada à valorização do
profissional, na sua esfera de conhecimento e confiança. Nas categorias analíticas “Dificuldades no treinamento”, verificamos essa
realidade: “Eu acho que tem que ter esse desafio [refere-se a treinamento] porque, se não,
a gente não pára e não faz! [...]”; “Nós ficamos vagando, [...] aquele passo no mesmo lugar!
Desesperado olhando para os lados... [...] Você quer melhorar e não sabe como... [...]” e “[...]
eu acho que foi um enriquecimento muito grande, é uma coisa que é árdua, que é cansativa,
mas que vale a pena!” representam não só a importância da oficina no serviço,
mas também o retorno social a estes profissionais. Se entendermos políticas de
saúde como uma resposta social de uma organização governamental diante
de determinadas condições ou situações no campo individual, coletivo, ou nas
esferas gerenciais capazes de afetar a saúde humana (Paim & Teixeira, 2006,
Teixeira, 2006), entendemos também que se relacionam com o poder e com o
estabelecimento de diretrizes, planos e programas de saúde, se desdobrando no
próprio sistema de saúde (Gerschman & Santos, 2006). Assim é que a forma de
atuação de cada componente da rede social terá implicações na Rede Básica
de Saúde.
A tendência verticalizadora dos programas de controle (Teixeira & Paim,
1990), mesmo que com o sentido de horizontalizar/descentralizar, acaba por ativar
os recursos das relações da rede social, proporcionando o aumento da diversidade
de atuações do programa de hanseníase, pelos estados e municípios.
A Pesquisa Operacional na forma de oficinas como vem sendo desenvolvida
no Brasil desde 2001 (Ramos Jr. et al., 2006) conquistou no ano 2008 sua
institucionalização junto ao Ministério da Saúde ao entrar como meta no
Plano Nacional. Este papel formador da pesquisa operacional como um elo
entre o serviço, a atenção, a saúde e a ciência baseia-se em sua sustentabilidade
técnico-política, capaz de formar pessoas, identificar problemas, definir soluções
e incentivar implementações por meio do aporte teórico-prático. Além do papel
formador, seu método torna acessível aos participantes-técnicos a apreensão rápida
e eficiente do “instrumental básico” da pesquisa e a partir desta aquisição estes
tornam-se capazes de buscar soluções para os problemas antes “insolúveis”, dandolhes confiança, autonomia e mais eficiência. Contudo, cabe a nós, “condutores
da ciência”, rever nossas estratégias analítico-avaliativas de forma a encontrar a
chave para o sucesso dos programas. Esta chave certamente passa pela dimensão
das relações interpessoais e sua forma de organização na rede social.
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4. Considerações
finais
As pesquisas operacionais têm apresentado resultados e reflexos bastante
positivos nas gerências dos programas municipais e estaduais de controle da
hanseníase. A participação nas Oficinas de Pesquisa Operacional permitiu uma
reflexão mais aprofundada sobre a atuação de cada profissional no dia a dia dos
programas. Eles foram capazes de se superarem. Encontraram diversos níveis de
dificuldades na implantação de suas novas ideias, quanto de resolução de problemas.
Em contrapartida, nas situações em que conseguiram o envolvimento da equipe
que restou na retaguarda, sem participar da Oficina, aplicar e repassar as novas
ideias e foi, simples e gratificante. Constatou-se um importante desenvolvimento
pessoal dos participantes, com valorização e autoconfiança do trabalhador em
saúde, além de resgate da autoestima e da criatividade. Vários participantes foram
motivados a realizar especializações, mestrados e mesmo doutorado.
A forma de inserção da rede básica de saúde no SUS está sujeita às relações
estabelecidas na rede social construída a partir da necessidade de resolução mais
ou menos imediata, de problemas operacionais “estagnados” pelos limites das
relações formais, tanto técnicas quanto humanas. A pesquisa operacional é o elo
entre o serviço, a atenção à saúde e ciência. Cabe aos seus “seguidores” incorporar
a dimensão das relações interpessoais em sua rotina de pesquisa.
* Agradecimentos: Às ONGs Netherlands Leprosy Relief (NLR) e Leprosy Relief Association (LRA)
pelo apoio na realização da Oficina de Pesquisa Operacional. Jorg Heukelbach é bolsista
de produtividade em pesquisa (PQ) do CNPq. Marcia Gomide foi bolsista do Programa
de Bolsas no Exterior, Estágio Pós-Doutoral da CAPES, em 2008.
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Recebido em: 04/11/2008
Aprovado em: 14/06/2009
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