10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil ERP SYSTEMS INFLUENCE OVER SMES’ MANAGEMENT ACCOUNTING PRACTICES IN BRAZIL: A CASE STUDY Denis Lima e Alves (Universidade Federal de Uberlândia, Minas Gerais, Brasil) – [email protected] ERP systems have been studied in various situations and contexts, both geographical and social and economic. By its turn, institutionalization of Management Accounting practices has also received attention. Whether it's in the context of business process reengineering, large companies against small companies, developed countries or not, in family businesses or even under regulatory pressures, several research methods have investigated how the practice of Management Accounting in the institutional environment develops and evolves, aiming to shed light on the processes of change and make them less expensive and more successful. This paper, through a case study, analyzed the process of Management Accounting practices institutionalization as a result of the implementation and usage of an ERP system in a small business retailer. The results obtained through interviews point to the fact that using a new system, even years after implementation, did not contribute to the change in management practices of the company analyzed, keeping the previous practices, although operational processes have evolved as a result of the system's implementation. Thus, it is possible to conclude that, if one disregards pre-existing institutions in the process of change, implementing new ERP systems is not enough to cause disruptions to institutionalize new management accounting practices. It is recommended that this research be replicated in small businesses in similar situations in order to understand why ERP systems may not be useful for institutionalizing Management Accounting practices. Keywords: ERP; institutionalization; Management Accounting; SMEs. 0182 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil 1. Introdução Sistemas e práticas de Contabilidade Gerencial constituem normas e rotinas organizacionais (Burns & Scapens, 2000) que, institucionalizadas,representam o status quo, contexto estabelecido e dado por certo, para a forma de pensar e fazer as coisas dentro de uma empresa.Estando sujeita a normas e procedimentos enquanto estabelece, por sua vez, normas e procedimentos de atuação nas organizações (Müller, Beuren, & Frezatti, 2007), a Contabilidade Gerencial encontra-se imersa em um emaranhado de instituições e interesses diversos que, em conjunto, formam o contexto sócio-organizacional que direciona a dinâmica do seu desenvolvimento e prática. Pequenas e médias empresas brasileiras existem nesses ambientes dinâmicos, onde relações e instituições desempenham papeis importantes na tomada de decisão. Dado que a Contabilidade Gerencial tradicional, em tese, é calcada nas premissas da Economia neoclássica, que, por sua vez, fundamenta-se na racionalidade econômica e noção de equilíbrio (Burns & Scapens, 2000), tais artefatos de controle e planejamento podem não ser os mais adequados em momentos de mudança e incerteza, tão característicos na rotina das pequenas e médias empresas brasileiras. Ademais, como sugerido porGuerreiro, Frezatti, Broedel Lopes, e Pereira (2005), cabe indagar qual seria o papel da Contabilidade em um ambiente em que não existe a pressuposição de problemas informacionais como o ambiente racional otimizador de decisões neoclássico. A literatura correlata defende que pouca atenção tem sido dada aos processos de desenvolvimento de artefatos de Contabilidade Gerencial, sendo que a maioria do que existe tem foco na Contabilidade Gerencial como um resultado(Burns & Scapens, 2000), embora pesquisas na área já tenham tido aspectoprescritivo, descritivo ou crítico e contingencial (Scapens, 2006). Torna-se, portanto, relevante investigar como a Contabilidade Gerencial desenvolve-se em empresas brasileiras que passam por processos de mudanças em sua forma de gerir custos, processos e resultados, ou seja, como ocorrem as alterações em rotinas e hábitos estabelecidos previamente e, ademais, é importante mencionar que o processo inverso, a influência da prática sobre o desenvolvimento das ferramentas gerenciais, constitui assunto de interesse. Embora a natureza das informações fornecidas pela Contabilidade Gerencial tenha passado por alterações significativas, principalmente em função da relevância adquirida pela tempestividade, assertividade e objetividade do fornecimento dessas informações(Müller et al, 2007), não é recorrente o uso institucionalizado de ferramentas gerenciais decorrentes do advento das tecnologias de informações em empresas brasileiras(Guerreiro et al, 2005). De fato, alguma atenção tem sido dirigida ao potencial impacto das Tecnologias da Informação (TIs) sobre o desenho e efetividade de sistemas de controle gerencial (Berry et al, 2009),mas poucos trabalhos têm sido publicados no intuito de descrever desenvolvimentos no uso de ferramentas da Contabilidade Gerencial decorrentes do uso de sistemas integrados de gestão (ERPs), ficando a produtividade, nesta área, mais relacionada aos estudos com foco em desenho de processos gerenciais, como ilustrado emAl-Mashari (2001). Estudos existentes apontam, como causa para o reduzido impacto da TI nos processos de controle gerencial, a dificuldade de lidar com esta, a dificuldade de transferir informações contábil-financeiras de um sistema antigo para outro novo e a falha da maioria dos sistemas em atender necessidades de implantação de ferramentas modernas como Balanced Scorecard e ActivityBasedCosting (Berryet al, 2009). 0183 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil A investigação ora proposta envolve, como expresso por Burns e Scapens (2000), entender como as práticas de Contabilidade Gerencial evoluem frente a um estímulo, nesse caso, o advento de um sistema de gestão integrada, admitindo, no contexto institucional desenvolvido pelos autores, que a estabilidade não é uma realidade imutável e que regras de rotinas de procedimentos contábeis gerenciais podem mudar. Para tornar a pesquisa em Contabilidade Gerencial relevante para aqueles que a praticam, é necessário entender os processos de mudança nos artefatos de controle e planejamento que levam a organização de um estado de equilíbrio para outro (Burns & Scapens, 2000). Dado o exposto, algumas premissas tornam-se evidentes: (i) a Contabilidade Gerencial provê métodos que, embora devam ser adaptados a novas realidades e mercados de atuação, mantêm características que os tornam eficientes como ferramentas de apoio à decisão; (ii) os métodos providos pela Contabilidade Gerencial mostram baixos graus de uso, de acordo com a literatura atual; (iii) existem barreiras culturais, sociais e tecnológicas ao uso dos métodos da Contabilidade Gerencial; (iv) o que se observa da forma aplicada da Contabilidade Gerencial nas empresas é a racionalização de processos e maximização de resultados em um contexto abstrato e inadequado de equilíbrio de mercado internalizado às entidades; e (v) pequenas e médias empresas apresentam maiores desafios para implantar e usar sistemas eletrônicos de gestão da informação, bem como ferramentas mais sofisticadas de Contabilidade Gerencial. O uso de ferramentas da tecnologia da informação e suas influências na mudança da forma de aplicação da Contabilidade Gerencial traz à tona a necessidade de incluir, nas pesquisas sobre práticas de Contabilidade Gerencial, investigações acerca de como a Contabilidade Gerencial, por meio do uso de sistemas integrados de gestão, tem suas práticas institucionalizadas em empresas brasileiras. Este trabalho, com o intuito de verificar o processo de mudança e institucionalização da Contabilidade Gerencial como decorrência do uso de um sistema ERP, terá uma empresa que adota sistema integrado de gestão da informação como foco de estudo. Os objetivos da pesquisa incluem: descrever o contexto organizacional da empresas ora analisada em termos de uso de ferramentas de Contabilidade Gerencial e suas influências nos processos decisório e produtivo, apresentar as potenciais contribuições do sistema em questão ao desenvolvimento e uso da Contabilidade Gerencial na empresa analisada e apresentar resultados de entrevistas realizadas com foco na institucionalização de novas práticas gerenciais. Dessa forma, será verificado se o arcabouço teórico ora aplicado explica a situação estudada ou se carece de novas considerações. Este estudo procurará responder à seguinte pergunta: - Qual é a influência de um sistema integrado de gestão da informação ERP na institucionalização de práticas de Contabilidade Gerencial em uma empresa varejista atacadista de médio porte?A restrição do segmento de atuação deve-se à disponibilidade de empresas deste ramo na região em que a pesquisa foi realizada, evidenciando a importância do setor; a restrição ao porte da empresa ocorre em função de: (i) pequeno número de pesquisas sobre sistemas integrados de gestão em empresas de pequeno e médio portes, (ii) disponibilidade de empresas destes portes e (iii) relevância dessas empresas para a economia do país e do mundo. Espera-se contribuir para o conhecimento acerca de como sistemas ERP estimulam a produção e reprodução contínuas de práticas de Contabilidade Gerencial, evidenciando os sistemas ERP como uma força promotora do processo de transformação da Contabilidade Gerencial dentro das empresas. 0184 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil 2. Literatura Relacionada 2.1. A Contabilidade Gerencial e as Pequenas e Médias Empresas Guerreiro et al (2005) apontam algumas das principais ferramentas da Contabilidade Gerencial citadas na literatura internacional, como Custeio Baseado em Atividades (ABC), Gestão Baseada em Atividades (ABM) e Balanced Scorecard (BSC), ressaltando a importância de se desenvolverem conhecimentos e habilidades acerca de como lidar com as informações obtidas por sistemas dessa natureza em contextos de rápidas mudanças nos mercados e globalização tecnológica. É possível queformas racionais e semelhantes de agir e conduzir organizações derivem-se dessa generalizada importância atribuída aos mecanismostradicionais de controle das organizações, resultando em modelos de gestão replicados e replicadores, independente do fato de que as organizações são sistemas distintos uns dos outros. Pequenas e médias empresas são descritas pela OCDE (Organização para Cooperação e desenvolvimento Econômico) como "mais flexíveis, inovadoras, rápidas para responder às mudanças de mercado, menos burocráticas, empreendedoras e 'alinhadas com a realidade'" (Hughes, 2005). No entanto, há evidências de que a falta de habilidades organizacionais é um dos principais fatores limitantes para o desenvolvimento de pequenas e médias empresas (Garengo & Bernardi, 2007). Estudos empíricos têm mostradoque determinadas características das empresas exercem influências significativas sobre o grau de complexidade da Contabilidade Gerencial usada por essas organizações.Abdel-Kader e Luther (2008)investigam o grau de influência de variáveis como ambiente externo, estratégia, tamanho e natureza do processo produtivo sobre a sofisticação das ferramentas de Contabilidade Gerencial usadas por organizações. Tendo como referência para "sofisticação" a adoçãode ferramentas recentes de Contabilidade Gerencial, nos termos da IFAC, InternationalFederationofAccountants, os autores encontraram, dentre outros resultados, que empresas maiores tendem a usar ferramentas mais sofisticadas de Contabilidade Gerencial. A relação encontrada por Abdel-Kader e Luther (2008) pode ser corroborada por resultados encontrados no Brasil, conforme evidenciam Carvalho e Lima (2011). No estudo realizado por estes pesquisadores, a amostra foi composta de pequenas empresas cujos gestores apresentam baixo grau de instrução e fazem uso de ferramentas de Contabilidade Gerencial de grau incipiente, em termos de sofisticação, como controle de caixa, de vendas e de estoques. Segundo os autores, "o uso de práticas gerenciais ocorre de forma desordenada e de maneira informal", não provendo aos gestores condições de lidar com a dinâmica dos mercados em que as empresas estavam inseridas. Embora o controle formal não seja realizado por parcela significativa de pequenas empresas, situação que se inverte com o aumento do tamanho das empresas, em que a sofisticação (detalhamento do planejamento) das ferramentas de controle e planejamento tem correlação positiva com o desempenho de pequenas empresas, apesar de a direção da causalidade nessa relação ainda não estar clara (Wijewardena, Zoysa, Fonseka, & Perera, 2004).Se, por um lado, não muitas pequenas e médias empresas adotem técnicas sofisticadas de planejamento e controle, por outro tem sido verificado que aquelas que as adotam em seu planejamento estratégico, sendo o "detalhamento" como critério para sofisticação, têm atingido seus objetivos organizacionais mais facilmente, aumentando lucros e elevando seus valores (Peel & Bridge, 1998).No entanto, embora a relação entre sofisticação de práticas gerenciais e tamanho da organização pareça ser facilmente descrita como proporcional e 0185 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil linear, pequenas e médias empresas não podem ser consideradas "grandes empresas em menor escala" (Federici, 2009). Uma das razões para tal discrepância no desenvolvimento das ferramentas de Contabilidade Gerencial por parte de empresas menores pode ser simplesmente o fato de que estas contam com menos recursos do que as grandes empresas para avançar no desenvolvimento e uso de tais técnicas ou sistemas. Conforme Supyuenyong, Islam e Kulkarni (2009), gerir conhecimento nas empresas menores é um processo que lida com variáveis diferentes daquelas existentes no contexto das grandes empresas. Desde o fato de que participam de diversas cadeias de valor, interagindo com grandes empresas e todos os seus diferenciados produtos, até a condição de que a gestão do conhecimento nas pequenas e médias empresas as diferencia, em todas as fases desse processo, daquelas que são grandes, as pequenas e médias companhias enfrentam, na aquisição, armazenagem, aperfeiçoamento, distribuição e aplicação do conhecimento, desafios distintos daqueles enfrentados pelas maiores(Supyuenyong et al, 2009), o que é, aparentemente, uma situação natural e previsível, dados os diferentes contextos. O uso de sistemas de gestão de informações, sejam estes eletrônicos e integrados a processos produtivos ou não, é descrita em diversos estudos (Lavarda, Feliu, & Palanca, 2009; Hughes, 2005; Laitinen, 2002; Gunasekaran, Marri, & Grieve, 1999),que apresentam a introdução de artefatos de Contabilidade Gerencial como uma forma de desenvolver ou aplicar ferramentas que meçam ou melhorem o desempenho empresarial. Tem sido evidenciado que quaisquer processos que reduzam as saídas de caixa para a organização teriam consequências nas capacidades de redução de dívida e aumento de competitividade e eficiência de pequenas e médias empresas. Talvez por isso, muita atenção tenha dada aos métodos de custeio durante as décadas de 1980 e 1990. No entanto, medidas não financeiras têm adquirido crescente importância para a gestão de pequenas e médias empresas com, dentre outros, o objetivo de alinhar suas estratégias ao atendimento das necessidades específicas dos clientes, mas de forma lucrativa (Gunasekaran et al, 1999). Laitinen (2001) aponta, em um contexto de pequenas e médias empresas, a existência de três tipos de usuários-organizações para o uso de informações gerenciais: usuários de informações não-financeiras, usuários de informações financeiras com foco no cliente e os usuários de informações financeiras com foco nos empregados e nas atividades, sendo,a razão para esta segmentação, o segmento de atividade da empresa. Embora o setor de atuação, manufatura ou serviço, seja uma variável que dificulte a generalização do uso de determinadas ferramentas de Contabilidade Gerencial (Brignall, Fitzgerald, Johnston, & Silvestro, 1991),Laitinen (2001) propõe um sistema de gestão e aperfeiçoamento de desempenho cujo modelo pode, segundo o autor, ser aplicado em qualquer segmento de atuação da organização, com especial atenção às etapas de especificação (de requisitos) e implantação em cada caso. A razão para tal flexibilidade seria a possiblidade de atribuir pesos distintos a cada grupo de informações, levando à mensuração específica do desempenho em cada segmento de atuação organizacional. Avariável tamanho adquire, na gestão do conhecimento, maior importância, como corroborado por diversos autores aqui citados. O conhecimento relacionado às ferramentas de Contabilidade Gerencial é adquirido/criado, organizado/retido, disseminado e usado em processos que ocorrem com formas, intensidade e objetivos diferentes dentro de cada sistema modelado para aplicação das técnicas contábil-gerenciais. No contexto das pequenas e médias empresas, estudos indicam que diferentes etapas do processo de gestão do conhecimento têm efeitos distintos, embora todos positivos, em elementos diversos das empresas e produtos, 0186 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil além de efeitos também positivos em aspectos individuais e sobre os clientes(Supyuenyong & Swierczek, 2011). Grandes empresas tendem a ter mais ativos de conhecimentos a gerenciar, e estes encontram-se dispersos por todos os subsistemas corporativos. Ainda, há evidências de que a variável tamanho guarda correlação positiva com implementação de tecnologia, inovação e maior grau de uso de sistemas de Contabilidade Gerencial(Uc Heredia, Domingo, & Batisda A., 2008), bem como de que o tamanho também é determinante da própria adoção de sistemas eletrônicos e integrados de gestão empresarial(Ramdani & Kawalek, 2009). Embora isso não signifique que pequenas empresas não precisem de ferramentas sofisticadas para gerir conhecimento, o desenvolvimento de ferramentas para gestão de seus processos têm limites específicos, muitas vezes relacionados ao tamanho (Supyuenyong et al, 2009). Resta, portanto, investigar se sistemas eletrônicos de gestão da informação podem prover adequada organização, disseminação e uso institucionalizado do conhecimento gerado nas empresas cujas limitações decorrem de seus tamanhos e idiossincrasias, no que tange à quantidade e qualidade de habilidades de gestão. 2.2. Sistemas Eletrônicos de Gestão da Informação A disponibilidade atual de sistemas Contabilidade Gerencial é evidente. No entanto, predomina um "baixo grau de implementação de novas técnicas e procedimentos de Contabilidade Gerencial nas empresas" (Guerreiroet al, 2005). Sistemas (eletrônicos) Integrados de Gestão (SIG), por sua vez,fornecem informações relevantes à administração, contribuindo para a mitigação de riscos e para o planejamento estratégico (UC EREDIAet al, 2008). A extensão da habilidade que as empresas têm de obter e processar informações relevantes a respeito de fornecedores, clientes, competidores e outrosstakeholders, cujo desenvolvimento é fomentado por avanços na Tecnologia da Informação (TI), afeta diretamente sua competitividade.Nas últimas duas décadas, o desenvolvimento da TI tem permitido que os sistemas avancem de facilitadores de tarefas para elementos fundamentais nos processos de tomada de decisão. A literatura aponta que, até o finalda década de1990, apenas grandes empresas usavam SIGs para atividades de planejamento e suporte à tomada de decisão, sendo que as pequenas e médias dispunham de tecnologias para processos mais simples, como transações negociais e redação de textos(Temtime, Chinyoka, & Shunda, 2003). SIGs são fontes de mudança organizacional cada vez mais importantes. Sistemas ERP (Enterprise Resource Planning), sistemas computadorizados de informação que integram dados da organização e impõem padrões para a entrada, uso e disseminação dos dados, estão associados com downsizing, maior eficiência da cadeia de comando e descentralização concomitante com aumento de controle (Hall, 2002). No entanto, os impactos da implantação e uso de um sistema ERP raramente são previsíveis. De fato, o próprio sistema, dado o grau de sua influência sobre processos, comportamento, cultura e valor corporativos, torna-se uma variável na determinação do futuro das organizações (Rikhardsson & Kraemmergaard, 2006). As conclusões de Rikhardsson e Kraemmengaard (2006) são relativas a grandes empresas. Neste contexto, sistemas ERP podem ter resultados indesejáveis, como prejuízos e até mesmo falência, dado que impõem sua própria lógica à estratégia, organização e cultura organizacionais (Davenport, 1998), com resultados frequentemente descritos como invariavelmente positivos (Grant, Hall, Wailes, & Wright, 2006). Este determinismo pode não ser tão forte atualmente (Laitinen, 2002),bem como há evidências de que (i) sistemas ERP podem não ter influência homogênea e benéfica em todas as empresas e de que (ii) o discurso 0187 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil desenvolvido na organização acerca da adoção e uso do sistema implementado pode ter influência no sucesso (ou não) do sistema na organização (Grantet al,2006). Não há quantidade expressiva de evidências de que a previsibilidade dos efeitos da implementação e uso de sistemas ERP seja diferente em pequenas e médias empresas, quando comparadas às grandes. No entanto, Martens (2001, p. 70)encontrou resultados que apontam, em pequenas empresas brasileiras do setor de manufatura, para um crescimento da quantidade de contingências relacionadas à TI conforme crescem as quantidades de funcionários, computadores em uso e usuários do sistema ERP em questão. Tais contingências são problemas inesperados de diversas naturezas, como alto custo das TIs e pouco aproveitamento da ferramenta. Dentre o conjunto de pequenas empresas analisadas, a autora encontrou que o grupo das maiores empresas apresentaram problemas comuns: alto custo das TIs, pouco aproveitamento das mesmas, necessidade de reavaliação de processos para adequação à TI, estrutura inadequada da empresa para das suporte às novas TIs e os treinamentos exigidos. É razoável que essas contingências estejam relacionadas ao tamanho das organizações. O desenho dos processos de negócios em conjunto com a implantação do sistema pode contribuir para a redução da incerteza com relação aos resultados da implantação e uso de sistemas ERP por pequenas e médias empresas (Silva & Pereira, 2006). Nesse sentido, a customização, entendida como a adaptação do sistema ERP aos processos da empresa por meio de desenvolvimento e incorporação das rotinas e processos da organização ao sistema, é apresentada como solução. Verissimo (2011) apresenta evidências de que empresas que se adaptam ao sistema como ele é originalmente têm maiores chances de desenvolver implantação e uso bem-sucedidos. A customização foi determinante para a classificação do projeto de um dos casos estudados por Verissimo (2011) como "um fracasso", causando a substituição do sistema implantado em função de divergências existentes entre os procedimentos resultantes das customizações e os processos correntes da empresa. Apesar da incerteza recorrente relacionada aos resultados da implantação de sistemas ERP, há evidências de que o uso destes sistemas, em geral, decorre da busca por seus benefícios prometidos. Dentre as razões para a implantação de um sistema ERP, estacam-se: crescente demanda por informação em tempo real, informação para tomada de decisões, integração de processos e reengenharia de processos. As razões para adoção de sistemas ERP, combinadas com suas expectativas de uso, fomentam expectativas de mudanças significativas nas práticas contábeis. De fato, atividades como auditoria interna, geração de indicadores nãofinanceiros de desempenho e análise de lucratividade por segmento de negócios e produtos desenvolvem-se significativamente em função da adoção de sistemas ERP, atendendo às expectativas geradas em função das razões pelas quais os sistemas foram implantados(Spathis & Constantinides, 2004). No entanto, pouca (ou nenhuma) evidência existe acerca da contribuição de sistemas ERP para o processo institucionalização dessas práticas, com seus desafios e vantagens para a organização. 2.3. Instituições e Contabilidade Gerencial Contabilidade Gerencial tem se tornado um importante campo de pesquisa nos últimos anos, no contexto de países emergentes. Scapens (2006) defende que as práticas de Contabilidade Gerencial constituem parte das regras e rotinas empresariais que fornecem lastro para que os agentes individuais tomem decisões e pratiquem ações consideradas, por eles e por todos os outros membros da organização, como coerentes com o ambiente institucional da organização em que se encontram. No entanto, a institucionalização e desenvolvimento de tais práticas tem se mostrado baixa (Mayr, 2012). 0188 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil Instituições são formas impositivas de coesão social que, por reprodução ou produção contínua de hábitos, pensamentos e ações, “cristalizam” rotinas formais características de determinados grupos de pessoas (Scapens, 1994) e defende-se, na Velha Economia Institucional (VEI), que as instituições moldam os processos cognitivos dos agentes individuais e também recebem, destes, influência. Por outro lado, a teoria neoclássica da firma, arcabouço teórico característico da Nova Economia Institucional (NEI),ignora os arranjos institucionais que regem a atividade econômica dentro da firma. Entenda-se, por “arranjos institucionais”, a definição citada em Scapens (1994) em que “instituição é um ato ou modo de pensar persistente e permanente, imerso nos hábitos de um grupo ou nos costumes de um povo”. Além de tornar coerentes as ações, rotinas e regras nas organizações, as chamadas instituições, se de fato amplamente compartilhadas e lastreadas em valores aceitos no grupo, reduzem o potencial para conflitos nas organizações, orientando as ações e tomadas de decisão. Ainda, constituem o know-how organizacional, garantindo, dessa forma, sua própriasobrevivência, embora sujeita a alterações, apesar da constante mudança de pessoas dentro das empresas(Scapens, 2006). De acordo com Scapens (1994), no estudo da Contabilidade Gerencial, considerar as práticas contábeis como rotinas institucionalizadasé um ponto de referência mais frutífero do que entender que elas representam procedimentos racionais para a maximização da riqueza da organização ou do proprietário.O autor defende que as ferramentas de Contabilidade Gerencial são uma peculiaridadedo caráter rotineiro da organização, um conjunto estruturado de hábitos e procedimentos institucionalizados, visão que se apresenta como alternativa à abordagem neoclássica racional de prescrever, dentro de um suposto equilíbrio de mercado, as práticas de tomada de decisão dentro das empresas. De maneira geral, o principal objetivo da Contabilidade Gerencial é prover informações para a tomada de decisão, bem como a comunicação de desempenho em diversas instâncias e dentro de normas específicas. O processo decisório acontece, normalmente, em ambiente de incerteza em relação a diversos fatores, como os conjuntos de alternativas possíveis à decisão e avaliação das mesmas em tempo hábil ou mesmo considerações acerca da viabilidade dos meios para atingir determinados objetivos. Bazerman (2004) defende que a racionalidade do processo que define como uma decisão deve ser tomada fica restringida por diversos fatores, desde a indisponibilidade de informações relacionadas à situação em questão, passando por restrições de tempo e custo e mesmo por limitações cognitivas, inteligência e percepção. Juntas, essas limitações impedem a identificação da solução racional ótima, fazendo surgir a necessidade de se analisarem as diversas situações que surgem em diversos contextos organizacionais, humanos e tecnológicos. Por outro lado, esta função elementar da Contabilidade Gerencial, o suporte à tomada de decisão, não converge totalmentecom o arcabouço proposto por Burns e Scapens (2000), referência neste trabalho. Entender a Contabilidade Gerencial como um repositório de informações contribui de forma menos significativa para o entendimento da mudança desse processos gerenciais dentro da organização. A investigação dessa dinâmica, ao contrário de basear-se na Nova Economia Institucional (NEI) e na teoria neoclássica da firma, parece ser mais produtiva se fundamentada nos preceitos da VEI e da Nova Sociologia Institucional (NSI), em que tanto a mudança individual, em termos de agentes dentro da organização, quanto as pressões externas são relevantes no processo de institucionalização de regras e rotinas (Scapens, 1994, 2006; Burns &Scapens, 2000). 0189 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil Burns e Scapens (2000) defendem que o ambiente de aplicação da Contabilidade Gerencial tem passado por diversas mudanças ao longo das últimas décadas, bem como tem mudado, também, a forma como a Contabilidade Gerencial é praticada. Segundo os autores, a principal razão para essas mudanças é composta por avanços nas tecnologias da informação, que possibilitam análises e tomada de decisões complexas de forma rápida e menos arriscada. A corroborar o contexto subjacente a esta crítica, Guerreiro et al (2005) defendem que, embora a Contabilidade Gerencial contribua para a legitimação dos processos e relações dentro do sistema empresa, "as organizações não utilizam em larga escala as novas abordagens de contabilidade gerencial porque os processos de institucionalização dos novos conceitos efetivamente não ocorreram". Ainda, Burns e Scapens (2000) alegam que pequeno número de pesquisas tem sido realizado no sentido de estudar a Contabilidade Gerencial como um processo, ou seja, como ela é transformada ao longo do tempo dentro das entidades. Adicione-se a isso a corrente necessidade de estudos acerca da relação entre o desenvolvimento, uso e institucionalização de ferramentas contábeis como uma função da adoção de sistemas eletrônicos de gestão da informação. Há que se chamar a atenção o fato de que restrições à tomada de decisão podem configurar um mecanismo que leva ao uso de heurísticas, conforme relata Bazerman (2004) (para maiores detalhes, ver Tversky e Kahneman, 1974).No entanto, pouca investigação tem sido feita acerca do potencial da tecnologia, com seus benefícios de velocidade e assertividade no fornecimento de informações, para a redução dos vieses na tomada de decisão e entendimento de como são institucionalizadas as rotinas decisórias baseadas em heurísticas. Interpretadas como instituições dentro da organização, as ferramentas de Contabilidade Gerencial criam estabilidade e ordem no ambiente por meio do fornecimento de informações acerca da forma como se espera que as pessoas se comportem. Ao lidar diariamente com atividades complexas e incertas, o estabelecimento de rotinas e regras para tomada de decisão e comportamento ocorre como função dos resultados de decisões anteriores, sendo que estes influenciam as regras criadas e vice-versa, resultando no estabelecimento de normas e procedimentos (Scapens, 1994) a serem seguidos. Consequentemente, práticas de Contabilidade Gerencial, institucionalizadas, fazem com que as ações de tomadores de decisão sejam estáveis e previsíveis, embora, ao reproduzir, ao longo do tempo, comportamentos coerentes com as normas estabelecidas, não resultem, necessariamente, nas decisões ótimas previstas pela teoria econômica neoclássica (Scapens, 1994). Corre-se o risco de fazer as coisas sempre do mesmo jeito e esperar resultados diferentes. A reprodução de rotinas é necessária em um ambiente organizacional, chegando ao ponto de existir uma trégua intraorganizacional no sentido de não se modificarem tais instituições, mantendo a coesa a organização. De fato, para que se entenda inclusive a diversidade das práticas de Contabilidade Gerencial, "é necessário entender a complexa mistura de influências inter-relacionadas que moldam essas práticas em cada organização" (Scapens, 2006). Como citado anteriormente, a redução de conflitos é um dos resultados da institucionalização de rotinas, processo que envolve, muitas vezes, a desvinculação da prática de determinadas ações com suas origens históricas, resultando no que se conhece por "é assim que se fazem as coisas por aqui" (Scapens, 2006). É possível, portanto, que essa redução do potencial de conflitos venha acompanhada de uma automação no processo decisório, sem o necessário questionamento acerca da eficiência das decisões tomadas dessa forma. A institucionalização da Contabilidade Gerencial, juntamente com a legitimidade do profissional contábil, agrega o aspecto racional ao comportamento gerencial imposto, o que, entretanto, não garante que esse aspecto racional resulte em decisões meramente racionais. 0190 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil Adicionalmente, Scapens (1994) argumenta que, embora a Contabilidade Gerencial seja parte importante do processo decisório das organizações que a institucionalizaram, tal uso não acontece no formato apregoado pela teoria econômica neoclássica, em que seria uma ferramenta lógica e racional, mas com objetivos que se voltam mais para a manutenção da coesão organizacional e legitimação externa. Os principais argumentos de Scapens (1994) na crítica à inadequação dos fundamentos neoclássicos como base para a tomada de decisão dentro de organizações se relacionam ao fato de que as pressuposições centrais do paradigma neoclássico, racionalidade econômica e equilíbrio de mercado, não têm resultado na habilidade superior para lidar com a realidade econômica institucional. Isso pode ser explicado pelo fato de que o objeto de pesquisa neoclássico exclui iniciativas heterodoxas de investigação acerca da existência de aspectos sociais nos fenômenos econômicos, relegando tais pesquisas a linhas destinadas a investigar fenômenos sociais, ignorando processos e relações sociais relacionadas à distribuição e troca de riqueza e renda. Embora a reprodução das rotinas seja um efeito da legitimação das práticas, mudanças ambientais são inevitáveis, especialmente em organizações inseridas em setores dinâmicos, os tecnológicos, por exemplo. Scapens (1994) defende que a mudança pode ser do tipo evolutiva ou revolucionária, sendo, este último, o rompimento com as instituições existentes, normalmente desencadeado de forma consciente, com o objetivo de estabelecer novas formas de trabalhar e novos significados para a atividade organizacional. Por exemplo, a implantação de um sistema de Contabilidade Gerencial ou de um sistema ERP enquadra-se nesta classificação de disrupção do status quo das rotinas. Com vistas aos objetivos deste trabalho, a mudança em questão relaciona-se com a influência de arranjos institucionais mais amplos sobre o estabelecimento de práticas contábilgerenciais nas organizações estudadas. Institucionalização acontece em dois estágios: implementação e internalização, respectivamente, a adoção formal de práticas de Contabilidade Gerencial e a incorporação, pelos funcionários, dos valores que a prática representa (Kostova, 1998 apudMüller, Beuren, & Frezatti, 2007). Procurou-se entender o ambiente de produção e reprodução de práticas de Contabilidade Gerencial desencadeadas a partir de um evento disruptivo das instituições existentes nas organizações, e este evento é a implantação de um sistema ERP que, em tese, inclui novas práticas e altera quantidade significativa daquelas já existentes na forma de gerir negócios. 3. Aspectos Metodológicos Este artigo teve o método do estudo de caso como forma de realização de seus objetivos e a razão para tal reside, principalmente, nos aspectos exploratórios e explanatórios da investigação. Ao buscar descrever e conhecer os principais elementos que contribuem para o estabelecimento de novas práticas de Contabilidade Gerencial dentro de uma organização, métodos positivos seriam de utilidade limitada, dado que, em tais pesquisas, fundamentam-se em preceitos neoclássicos. Estudos de caso, por outro lado, são investigações empíricas que "investigam um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto na vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos" (Yin, 2005: p. 32). Conforme esta definição, o fenômeno contemporâneo em estudo, uso e institucionalização de artefatos de Contabilidade Gerencial, encontra-se, normalmente, inserido em um contexto de construção de regras, rotinas e discursos, contexto este pertinente ao fenômeno em questão e de entendimento fundamental para o sucesso da administração de tais mudanças. 0191 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil Conforme defende Scapens (1994), estudos de caso oferecem a possibilidade de entender a natureza da Contabilidade Gerencial na forma como é praticada.Nesse contexto, buscou-se, aqui, gerar ideias e hipóteses acerca da influência de um sistema ERP na institucionalização de práticas de Contabilidade Gerencial, bem como identificar razões para o uso de práticas específicas dentro da empresa analisada. Scapens (1994) argumenta que parte significativa da pesquisa feita sobre Contabilidade Gerencial nas duas décadas precedentes à publicação de seu artigo aponta esta ferramenta como um instrumento para manter e aumentar o controle da gerência superior sobre as atividades econômicas das médias gerências, por meio de tarefas como "prover informações para planejamento e controle", "prover resumos de eventos econômicos que afetam a empresa ou divisão", "motivar e avaliar gestores" e outras (Scapens, 1994). Neste contexto, a relação entre Contabilidade Gerencial e o método do estudo de caso é orgânica, sendo que este estaria lastreado em uma função pressuposta (taken for granted, do original em inglês) da Contabilidade Gerencial, com base em pressupostos neoclassicistas, e teria, como principal objetivo, desenvolver teorias positivas acerca desta (Scapens, 1994). No entanto, para o contexto do presente trabalho, considerando o referencial teórico adotado, o método do estudo de caso teve função de evidenciar a existência de influências entre o comportamento social individual e acriação de novas normas e rotinas gerenciais e operacionais dentro de uma empresa como decorrência de mudança organizacional específica, realizada de forma consciente, planejada e tendo objetivos determinados previamente. O grau de institucionalização das práticas de Contabilidade Gerencial, neste estudo, pode ser evidenciado pela convergência e coerência de ideias, discursos e hábitos individuais em relação às práticas preconizadas pelas chamadas "melhores práticas" ofertadas pelo fornecedor do sistema ERP em questão, considerando que os artefatos gerenciais embarcados no sistema ERP configuram a nova forma de fazer as coisas na organização, ou seja, constituem o contexto que, em tese, fornece legitimidade às ações dos indivíduos. Estudos de caso são, de acordo com Scapens (1994), o método mais indicado para "adotar uma orientação holística e estudar Contabilidade (gerencial) como parte de um sistema social unificado" (p. 10). Segundo o autor, embora não provejam o tipo de teoria preditiva buscado por positivistas, os estudos de caso ajudam a construir teorias sociais que fomentam o entendimento das estruturas sociais que moldam as práticas correntes, ficando, em seguida, sujeitas a testes positivos de hipóteses. O framework proposto por Burns e Scapens (2000) foi o contexto para análise da situação proposta. Guerreiro, Pereira e Frezatti (2008) verificaram a aplicabilidade deste framework para avaliar o processo de institucionalização da Contabilidade Gerencial, também por meio do método do estudo de caso. Estes autores avaliaram os processos descritos por Burns e Scapens (2000), quais sejam, codificação, incorporação, reprodução e institucionalização. No estudo ora proposto,foi adotada uma visão prática da institucionalização das práticas de Contabilidade Gerencial, em que a intensidade da institucionalização é dada pela convergência, com as práticas propostas pelo sistema ERP, dos hábitos e rotinas individuais na execução das atividades operacionais e gerenciais da empresa. Torna-se evidente, dessa forma, o direcionamento dado, pelas "melhores práticas" fornecidas pelo sistema ERP, ao gerenciamento da organização, bem como o atendimento a esse direcionamento por parte das pessoas envolvidas.De fato, a proposta original de Burns e Scapens (2000) é "descrever e explicar conceitos que podem ser usados em estudos de casos interpretativos sobre mudança nas práticas de Contabilidade", não necessariamente propondo "prover constructos operacionais para pesquisas empíricas e testes de hipóteses" (p. 7). No entanto, a estrutura "codificação, incorporação, reprodução e institucionalização", conforme 0192 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil Burns e Scapens (2000) e avaliado por Guerreiro, Pereira e Frezatti (2008), constitui contexto fundamental para avaliação e entendimento do processo de institucionalização das práticas de Contabilidade Gerencial. Conforme o framework proposto, a institucionalização de regras e rotinas depende da dissociação entre as práticas e as razões históricas para suas existências, adquirindo qualidade normativa e ficando desvinculadas dos interesses dos diversos agentes na organização. A adoção do sistema ERP é uma mudança consciente e planejada, ocorrida no passado que acarreta mudanças processuais que podem acontecer em diversas intensidades e estão sujeitas a diversos interesses. Este trabalho buscou, para realizar seu objetivo, verificar se o uso das ferramentas de Contabilidade Gerencial na empresa analisada é (i) vinculadoao sistema, (ii) está dissociado do processo de transição, tendo adquirido status de pressuposição intrínseca nos processos de controle, planejamento e tomada de decisão, bem como (iii) não encontra-se sujeito a interesses distintos, ocorrendo de forma homogênea (ou pouco heterogênea) e independente ao longo dos processos organizacionais, embora como resultado de ações individuais. Efetivamente, investigou-se se as práticas de Contabilidade Gerencial propostas pelo sistema ERP se tornaram a "forma de fazer as coisas por aqui" na organização avaliada. Dados foram coletados por meio de entrevistas com gestores e colaboradores operacionais, observação direta do desempenho das atividades da empresa, levantamento de práticas gerenciais contidas no sistema ERP em uso e análise de documentos e relatórios fornecidos pela empresa. 4. Análise dos Dados A empresa analisada tem atuação no varejo da construção civil, fornecendo materiais para acabamento, piso, revestimentos, banheiros, cozinhas e outros relacionados. Conta com 39 funcionários, possui cerca de 12 mil itens cadastrados no sistema, dos quais 4 mil, aproximadamente, encontram-se no show room. A empresa fatura de 9,5 a 10 milhões de reais por ano, está constituída sob a forma de Sociedade de Responsabilidade Limitada, com um sócio detendo 99% da propriedade e apura seu Imposto de Renda com base no Lucro Real. Possui uma unidade comercial, que abriga o setor administrativo e onde fica estocada a maior parte dos itens que vende. No entanto, o item de maior giro, pisos, encontra-se em depósito nos arredores da cidade. O sistema ERP em uso foi implantado no ano de 2007 como forma de atender a uma necessidade de uso de ferramentas para avaliação de resultados e geração de indicadores operacionais, econômicos e financeiros. Este sistema foi adotado na substituição de outro, do mesmo fornecedor, desenvolvido em linguagem defasada, com processos organizacionais não integrados, sem geração de indicadores gerenciais, mas com pleno atendimento de funções operacionais como contas a pagar e a receber e controle de estoques. Embora a implantação do sistema esteja oficialmente finalizada, diversos fatores de adequação do sistema a processos organizacionais e melhoria de processos ainda encontram-se pendentes, como será visto a seguir. A estrutura organizacional gerencial da empresa analisada é constituída de três níveis: diretor-proprietário (1), controller (1) e gerentes de áreas (4). Os gerentes de áreas possuem equipes sob sua supervisão e estas constituem-se de grupos que contém de uma a quatro pessoas. O diretor-proprietário é o "dono" da empresa, sendo responsável pelas principais decisões estratégicas da empresa e relacionamento com os principais fornecedores. O controller tem função deavaliar os resultados da empresa, determinar políticas de preços 0193 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil eparticipar, em revezamento, do atendimento aos clientes e dos direcionamentos operacionais nas demais áreas, além de fornecer suporte administrativo às gerências. As gerências são divididas em: logística, responsável pela conferência, entrada, armazenamento, saída e entrega dos produtos vendidos e realização de inventários; administrativa, responsável por folha de pagamento, faturamento, pagamentos e outras relacionadas à administração física da loja; comercial, responsável pela coordenação dos vendedores, relacionamentos com parceiros (arquitetos, promotores de vendas, etc...), organização do show room, estabelecimento de campanhas promocionais e geração de indicadores para análise das atividades de vendas; e suprimentos, responsável por compras e relacionamentos com fornecedores em geral e, juntamente com o controller, determinação de metodologias de cálculos de custos. O sistema ERP em uso é de fornecedor local com atuação nacional. A versão adotada pela empresa não tem acessibilidade nativaonline, devendo o aplicativo ser instalado em cada computador existente e com conexão local ao banco de dados. O principal artefato de Contabilidade Gerencial disponibilizado pelo sistema é a análise por meio de Margem de Contribuição. Este indicador está presente em diversas funções no sistema, especialmente nos processos de vendas, em que o gerente de vendas, mas não o vendedor, tem acesso a todos os números relacionados a esta análise no momento em que o pedido de vendas é gerado: preço de venda, despesas variáveis, custo variável e custo fixo alocado ao produto. Portanto, o gerente possui, no momento da venda, a informação de qual é o lucro daquele documento fiscal que é produzido. No entanto, o vendedor não tem acesso a essas informações, conhecendo apenas qual é a margem de desconto permitida para negociação com o cliente. As principais ferramentas de análise de resultado econômico presentes no sistema são estruturadas sobre o conceito de Margem de Contribuição, ou Custeio Variável. As aquisições resultam na geração de diversos tipos de "custos", que agregam valores diferentes a cada instância por meio de fórmulas de cálculo personalizável. Por exemplo, o "custo de reposição, que é o valor médio de aquisição de cada produto e o "custo gerencial", que inclui gastos variáveis e apropriação de parcela dos gastos fixos, que são alocados a cada produto por meio de absorção. Custos são automaticamente calculados quando o produto entra na empresa, por meio do registro da nota fiscal e "baixa" do pedido pendente de compra. Este método de custeio e análise redunda em outra ferramenta, que evidencia, de forma gráfica, o ponto de equilíbrio da empresa, a data em que este foi atingido e, se tal ainda não ocorreu, uma linha de tendência estima uma data em que o será. Dessa forma, orçamentos de venda são negociados com potenciais clientes, pelos vendedores, com base nesses indicadores de custos e nas taxas de Margem de Contribuição e lucro líquido desejados. Os valores das operações são acompanhados em tempo real pelo controller em uma tela do sistema que consolida todas as vendas, compras, recebimentos e pagamentos em diversas unidades de tempo. Se por um lado é possível realizar planejamento e controle da Margem de Contribuição total agregada e da lucratividade sobre vendas, por outro esta possibilidade não é explorada em sua totalidade pela administração. Durante as entrevistas, o controller evidenciou que todos os relatórios por ele usados no planejamento e controle econômico são gerados por meio de planilhas eletrônicas, criadas a partir de dados brutos "exportados" do sistema ERP. Esta prática resulta, de acordo também com entrevistas realizadas com as gerências, no fato de que as informações por elas providas à administração superior não provêm de relatórios habituais gerados no sistema, mas de dados brutos deste extraídos. Nas palavras do controller: 0194 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil Sabemos da existência de diversas "ferramentas gerenciais" no sistema, mas não usamos elas porque não sabemos como, ou porque não tivemos treinamento ou porque não são necessárias ao nosso modelo de gestão. Antes da implantação deste sistema ERP, período no qual o controller já fazia parte da equipe, sabia-se da necessidade de usar métodos mais sofisticados de planejamento, controle e avaliação dos resultados da empresa. Por isso, optou-se por adquirir um sistema dessa natureza, dado que o anterior apenas registrava as informações e as mantinha em um banco de dados. No entanto, mesmo pessoas que participaram deste momento de transição admitem que, embora o controle seja mais exato com o novo sistema, o aspecto gerencial muito pouco mudou e, o que mudou, foi a facilidade de extração dos dados do sistema ERP para usá-los nas planilhas eletrônicas. Atividades operacionais tiveram um incremento na facilidade, velocidade e segurança de realização. As atividades de controle de perdas, de quantidades em estoque, de lotes de estoques e de locais de armazenamento se tornaram mais dinâmicas e eficientes. No entanto, algumas atividades da operação, embora previstas no sistema, ainda são realizadas de forma manual, como inventários, controle de produtos vendidos ainda não entregues e controle de produtos perecíveis. Dessa forma, conforme evidenciado nas entrevistas com a gerência de suprimentos, controles do tipo "primeiro a entrar, primeiro a sair" são realizados manualmente, por meio do estabelecimento de locais onde ficam produtos mais antigos ou mais novos. Essa mesma gerência é responsável por controles como prazos médios de pagamento de compras e de estoques, que, por sua vez, são indicadores gerados de forma integrada pelo sistema, mas que não são usados, preferindo, o controller, realizar seus próprios cálculos em planilhas eletrônicas. Controles financeiros, realizados pela gerência administrativa, apresentam maior intensidade de uso do que ouras ferramentas do sistema. Relatórios como fluxo de caixa, contas a pagar e contas a receber estão disponíveis em vários formatos, com possibilidade de análises temporais e categorizadas por tipos de gastos e recebimentos, contas bancárias, centros de custos e resultados, fornecedores, clientes, etc... . Boa parte destes dados são, eventualmente, exportados e tabulados em planilhas eletrônicas para geração de relatórios geralmente usados nas reuniões gerenciais e com a diretoria. De fato, conforme palavras do controller e dos gerentes, o sistema atua como um repositório de dados que provê matéria-prima para a fabricação das planilhas e indicadores usados na gestão econômica e financeira da empresa.Embora, segundo dados das entrevistas, o fornecedor do sistema ERP realize esforços no sentido de mudar a atual situação e incentivar o uso generalizado das ferramentas de gerência na empresa, tal não tem surtido efeitos relevantes. Se, por um lado, a organização depende do fornecedor para realizar diversas atividades no sistema, configurar relatórios e parametrizar dispositivos mais complexos, por outro o controle operacional constitui tarefa relativamente simples, deixando a empresa independente dos serviços do fornecedor e livre da pressão por aumentar a sofisticação no uso do sistema.Portanto, admite-se que as práticas de Contabilidade Gerencial realizadas na empresa não são, em essência, vinculadas ao sistema, fato que contribui para a redução da influência do sistema ERP na institucionalização das mesmas. 5. Conclusões O processo de transição para o sistema ERP ocorreu há aproximadamente 5 anos. Considerando as razões pelas quais se deu, foi um processo relativamente bem-sucedido no sentido de que proveu condições para automação de vários processos e incremento na 0195 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil integridade dos dados gerados na atividade organizacional. No entanto, embora os objetivos de aumento da eficiência gerencial por meio da geração de indicadores econômicos e financeiros tenham sido alcançados, tal se deu apenas em parte como resultado da adoção do sistema ERP. Embora o advento da adoção deste sistema traga uma nova cultura para o ambiente empresarial, o processo não foi realizado de forma completa, pois que, dessa forma, culminaria na aplicação das ferramentas tecnológicas ao uso intensivo da Contabilidade Gerencial nesta organização. Atualmente, existem dois questionamentos na empresa acerca deste assunto. O primeiro diz respeito a como podem ser melhoradas as práticas gerenciais e, o segundo, a como essas práticas podem ser disseminadas no ambiente do sistema. Além do fato de o primeiro questionamento ter prioridade nas atividades do controller, deixando o segundo para "o futuro", este último depende em grande parte do fornecedor do sistema, da realização de treinamentos e consultorias. De acordo com funcionários da empresa, estas iniciativas ocorrem eventualmente, mas têm se mostrado inócuas no sentido de inserir de fato o sistema ERP e seus indicadores nos processos de tomada de decisão. Como visto no referencial, as razões para não uso do sistema podem ter diversas causas e, no estudo em questão, as principais parecem ser a não adequação do sistema aos processos gerenciais e os poucos recursos e tempo dispendidos no esforço de incorporar o sistema a essas práticas. Conforme palavras do gerente de logística, "se subutilizamos o sistema hoje, é falha nossa, pois as ferramentas existem. Basta querermos usá-las", o que envolveria treinamentos, dispêndio de tempo e, provavelmente, algum remanejamento de pessoal. No entanto, considerando o referencial teórico consultado para a realização deste trabalho, há que se considerar a existência de hábitos e rotinas há muito institucionalizados nesta empresa. A dependência de relatórios com os quais os gestores têm familiaridade constitui um aspecto cultural, uma forma de pensar que influencia o processo de mudança na contabilidade gerencial usada na organização. Conforme Scapens (2006) defende, "tentativas de novas técnicas e sistemas de Contabilidade Gerencial, sem considerar cuidadosamente as instituições previamente estabelecidas na empresa, provavelmente encontrão resistência" (p. 20). Neste caso específico, não foi uma resistência declarada, mas uma de um tipo tácito que, aliada a um direcionamento mais rigoroso do processo de mudança, foi responsável pela manutenção do uso das ferramentas gerenciais anteriormente usadas. Apesar de serem em pequeno número e usadas em baixa intensidade, as ferramentas de Contabilidade Gerencial, em especial o Custeio Variável, são aplicadas na gestão e operação de maneira orgânica. Seus resultados são aceitos por todos na empresa e usados como critério para o estabelecimento de preços e análise de custos. Com poucas exceções, tais práticas não encontram-se mais vinculadas ao processo de transição de sistemas, tendo sido agregadas aos processos operacionais e de tomada de decisão, fazendo parte dos hábitos e rotinas institucionalizados da empresa. Da mesma forma, essas práticas constituem um "idioma comum", falado por todas as gerências e controladoria. Embora nem todos os níveis operacionais conheçam a relevância dos artefatos de Contabilidade Gerencial em suas atividades rotineiras, tais práticas gerenciais determinam, em certa medida, a forma como as atividades operacionais são desempenhadas. Não existem conflitos entre a determinação "ótima" de executar as atividades operacionais, direcionada pela Contabilidade Gerencial existente na empresa, e a forma de fato realizada nos níveis operacionais, especialmente vendas e controle de estoques, configurando, assim, um ambiente comum de diálogo e desempenho de ações entre os indivíduos na organização. Neste estudo de caso, as informações obtidas por meio de entrevistas evidenciaram o fato de que o uso do sistema ERP na empresa analisada apresenta baixa intensidade, no que se 0196 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil refere a artefatos de Contabilidade Gerencial. Embora o sistema proveja a possibilidade para que esta situação seja diferente, o contexto organizacional não incentiva a aplicação de ferramentas mais sofisticadas, afora o Custeio Variável, nos processos gerenciais da empresa, como precificação, orçamento e custeio. A adoção de um sistema ERP, apesar do intuito, existente à época, de renovar os métodos de análise de desempenho, não teve força suficiente para vencer a tendência de usar relatórios e métodos de avaliação previamente existentes, fazendo com que o novo sistema atuasse, por sua vez, como um repositório avançado e mais bem organizado de dados para a criação de planilhas eletrônicas a serem usadas nos processos de tomada de decisão. A estabilidade evidente nesta situação é de natureza descrita por Scapens (2006). Tal qual em um dos casos descritos por este autor, o sistema ERP foi implantado pro forma, não tendo muitos impactos significativos nos processos de gestão ou forma de pensar dos gestores. Ainda, alguns dos princípios relacionados à Contabilidade Gerencial foram, ao longo dos anos que se passaram após a implantação do sistema, incorporados à operação, mas não da forma como o fornecedor pretendia. Rotinas próprias da organização foram desenvolvidas a partir da disponibilização de dados no sistema de forma a atender necessidades gerenciais específicas e recalcitrantes na empresa, mas principalmente, para atender a algumas necessidades operacionais, o que o sistema fez de forma bastante eficiente. Portanto, estabilidade e mudança operaram como resultado da adoção do sistema, embora não de forma a produzir os resultados que eram desejados à época da adoção. 6. Recomendações O advento da implantação de um sistema ERP enquadre-se na categoria de elementos de mudança organizacional que contam com aspectos institucionais e tecnológicos. É possívelque a adoção de um sistema ERP seja resultado tanto de influências externas, como a pressão por adotar forma cada vez mais sofisticadas de controle e gerenciamento, quanto internas, configurando tanto um contexto racional e determinístico, propício a análises fundamentadas na NEI, quanto um contexto sócio-ambiental, sujeito a abordagens baseadas na NSI. Este trabalho buscou analisar a institucionalização de práticas de Contabilidade Gerencial como resultado da adoção de um sistema ERP, com base nos pressupostos da VEI, para a qual, de acordo com Scapens (2006), o comportamento dentro de uma organização pode se tornar institucionalizado e moldar as atividades organizacionais, inclusive as práticas de Contabilidade Gerencial. Embora a abordagem institucional da mudança em Contabilidade Gerencial dentro de organizações seja mais apropriada para explicar o processo após o ocorrido do que para prever os resultados de tal empreitada, estar consciente dos conflitos que podem surgir em decorrência de regras e instituições divergentes habilita os gestores a lidar de forma adequada com as intempéries inerentes. Por outro lado, dada a disponibilidade reduzida de recursos, é natural que gestores de pequenas e médias empresas busquem soluções rápidas e eficientes para o gerenciamento de suas organizações. Dessa forma, embora não sejam de tão rápida adoção, os sistemas ERP, com todas as promessas de transferência de tecnologia e implantação das "melhores práticas" existentes no mercado, se apresentam como uma solução ideal, trazendo, de uma vez só, integridade, segurança, agilidade e adequação das informações ao gestor. Por outro lado, como evidenciou o presente estudo de caso, a adoção de um sistema ERP por si só pode não ser garantia de ruptura com hábitos e rotinas indesejados, nem de adoção de práticas sofisticadas e renovadoras de Contabilidade Gerencial. De fato, regras e rotinas, quando fundamentadas em formas institucionalizadas de agir e pensar, tornam difícil para os indivíduos reconhecer que é 0197 10th International Conference on Information Systems and Technology Management – CONTECSI June, 12 to 14, 2013 - São Paulo, Brazil hora de mudar essas mesmas formas de agir e pensar (Scapens, 2006: 26), fazendo com que tais projetos tenham, portanto, seu risco de insucesso elevado. Estudos de caso contêm limitações exatamente em suas mais fortes contribuições, ou seja, o aprofundamento da análise individual pode trazer insights valiosos aos interessados nos resultados do estudo em questão, mas não pode garantir resultados similares em outros casos. Do caso presente neste estudo, uma das principais conclusões é o fato de que, embora sistemas ERP possam contribuir de forma significativa para o aumento da sofisticação e eficiência das práticas de Contabilidade Gerencial nas empresas, por si só estes sistemas não garantem a sustentabilidade dessas práticas no ambiente organizacional. Há que se considerarem hábitos e rotinas institucionalizados previamente à adoção do sistema em questão e planejar a mudança de forma que seja alicerçada por elementos legítimos da organização, sejam eles técnicos ou culturais, sob pena de não se conseguir levar as ferramentas propostas para o discurso individual e dos grupos dentro da empresa. No presente estudo, o sistema foi adotado com o objetivo de trazer novas ferramentas para a gerência. No entanto, as ferramentas antigas permaneceram, mudando apenas a forma de gerar as informações e relatórios. Não constituem objeto deste estudo, mas recomenda-se que as razões pelas quais o sistema ERP não contribuiu para a institucionalização das práticas de Contabilidade Gerencial neste caso sejam foco de estudos futuros, dados seu alto custo e elevado montante de demais recursos para implantação. 7. Referências Abdel-Kader, M., & Luther, R. (2008). The impact of firms characteristics on management accounting practices: A UK-based empirical analysis. British Accounting Review , 40 (1), pp. 2-27. Al-Mashari, M. (2001). Process Orientation through Enterprise Resource Planning (ERP): A Review of Critical Issues. Knowledge and Process Management, 8, pp. 175-185. Bazerman, M. H. (2004). Processo decisório: para cursos de administração, economia e MBAs. Rio de Janeiro, RJ, Brasil: Campus. Berry, A. J., Coad, A. F., Harris, E. P., Otley, D. T., & Stringer, C. (24 de Setembro de 2009). Emerging themes in management control: A review of recent literature. 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