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Copyright 2000, by Judas Tadeu de Medeiros Costa
Direitos reservados ao autor
Judas Tadeu de Medeiros Costa
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COSTA, JUDAS TADEU DE MEDEIROS
“SEU GRANDE”
Judas Tadeu de Medeiros Costa
Recife: 2000
151p. il
1. Literatura brasileira – memórias.
I. Título
869.0(81)-94 (CDU 2. ed artesanal)
B869.092
(CDD 19 ed artesanal)
Capa: bico de pena de André Dória de Menezes
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“SEU GRANDE”
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“Eu me trepava num banco e dizia para ele: Olhe papai com eu to grande”
“É mesmo você está grande de verdade”
“E começou a me chamar ‘Seu Grande’, até quando morreu.”
(Joaquim José da Fonseca Costa)
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SUMÁRIO
PREFÁCIO.................................................................................................11
INTRODUÇÃO...........................................................................................12
OS PRIMÓRDIOS......................................................................................13
ADOLESCÊNCIA E JUVENTUDE..............................................................27
A GRANDE DESILUSÃO E A SAUDADE INFINDA....................................34
O FILHO EXEMPLAR.................................................................................39
SÍNTESE GENEALÓGICA..........................................................................42
O PAI DE FAMÍLIA......................................................................................46
O AVÔ DEDICADO.....................................................................................63
OUTROS ESCRITOS E VERSOS..............................................................79
O FINAL DE VIDA.......................................................................................84
DEPOIMENTOS..........................................................................................88
ÍNDICE DE FOTOS
TIA MARIA DO CARMO..............................................................................32
LADISLAU AUGUSTO DE OLIVEIRA FONSECA.......................................33
BENVINDA DA NÓBREGA FONSECA.......................................................37
JOSÉ CEZAR DE ALBUQUERQUE COSTA..............................................38
ZULMIRA DA NÓBREGA FONSECA..........................................................57
“SEU GRANDE” (CRIANÇA).......................................................................58
“SEU GRANDE” (MEU GRANDE PAI)........................................................75
NEUSA DE MEDEIROS COSTA (MINHA MÃE).........................................76
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DEDICATÓRIA
Dedico este livro à minha esposa, filhos,
irmãos, sobrinhos, aos demais parentes,
contra-parentes e a todos aqueles que fizeram
parte do ciclo de amizade de meu pai.
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PREFÁCIO
“Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves dentro do coração...
mesmo que o tempo e a distância digam não”
(Milton Nascimento &Fernando Brant)
Em qualquer que seja o idioma não existem palavras suficientes para caracterizar cada
sentimento humano. Cada pessoa tem um referencial para entender cada palavra. Alguns
referenciais são os mesmos para todos, outros variam muito.
Joaquim nos deixou um significado para muitas palavras: uma definição de amizade, um
modelo de vida, um exemplo de gente, de filho, de pai e avô. Ele construiu sua família e
seus amigos sobre alicerces muito fortes. É bom saber que alguém como ele existiu e
que influenciou nossas vidas. Eu aprendi muito com ele.
Eu nasci e fui criado numa casa do lado da de Joaquim. Assim eu lembro dele, de Neusa
e de seus filhos desde que tenho memória. A casa deles era uma extensão da minha, lá
eu recebia muita atenção e consideração.
Às vezes, quando já aposentado Joaquim passava tardes jogando damas comigo. Ele
jogava muito bem. Lembro da primeira vez que ganhei um jogo. Ficou surpreso por ter
perdido e meio orgulhoso porque seu pupilo aprendeu o que lhe ensinara. Lembro ainda
quando ficávamos grudados ao pé do rádio ouvindo ansiosos os jogos do nosso Sport.
Foi ele quem primeiro me disse que meu pai tinha morrido. Creio que sabia exatamente
como eu me sentia, pois também tinha recebido notícia semelhante quando tinha seis
anos.
Num trabalho bem feito, com depoimentos sérios e fatos bem relatados, Tadeu conta a
história de seu pai. Primeiro transcreve textos do próprio Joaquim sobre suas origens,
seus pais, seus avós, irmãos, e como ganhou o apelido de Seu Grande. O restante do
livro consiste de uma combinação de relatos de fatos contados por Tadeu, textos e
poemas do próprio Joaquim e depoimentos de seus filhos, netos, parentes e amigos.
Antônio Sá Barreto Filho
Lafayette, Fevereiro de 1993.
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INTRODUÇÃO
“Ouve, meu filho, a instrução de teu pai, não desprezes o ensinamento de tua mãe. Isto
será, pois, um diadema de graça para tua cabeça e um colar para o teu pescoço.” (Prov. 1,
8-9)
Meu pai foi um homem que soube educar homens. Tenho certeza que este é o
pensamento de todos os seus filhos, bem como o de todos aqueles que o conheceram de
perto e observaram de alguma forma seu modo de ser. Homem simples, amável, amigo,
sincero ao extremo, consciente de sua missão de chefe de família e, sobretudo, honesto
em todas as suas ações, quer em casa, quer fora dela.
A família representava para o meu pai uma das coisas mais importantes e, apesar da
incompatibilidade de gênios existente entre ele e minha mãe, manteve a integridade
familiar até o fim, fazendo questão de mostrar para os filhos a importância de tal
instituição. Sem dúvida, esta valorização foi muito contagiante para todos os seus filhos
até onde chega meu conhecimento.
Por ter sido meu pai o único membro dos FONSECA COSTA que sobreviveu e constituiu
descendência achei que era importante registrar para meus familiares e amigos, depois
de sua morte, uma série de fatos interessantes que caracterizaram este valoroso Homem,
procurando assim manter viva a sua memória entre nosotros e transmitir a importância
que representa sua herança moral para todos os seus descendentes, principalmente no
que toca aos valores da instituição familiar, atualmente tão desvalorizada por modernas
formas de comportamento.
A tarefa não foi fácil! Procurei me isentar de qualquer paixão no relato dos fatos, que
foram enriquecidos pelas poesias e escritos outros de meu pai, muito fiéis à sua
personalidade, que facilitaram muito este trabalho.
Em muitas ocasiões surgem passagens que incluem histórias não só da minha infância e
da dos meus irmãos, bem como, passagens de outras fases de nossas vidas, o que não
poderia deixar de ser diferente, pois, grande parte da vida de JOAQUIM JOSÉ DA
FONSECA COSTA foi também parte das nossas vidas, que mantemos bem presentes
em nossas mentes. Afinal, esta é uma história de família... É a história de “SEU
GRANDE”, o GRANDE HOMEM QUE FOI MEU PAI.
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OS PRIMÓRDIOS
“Então compreenderás a justiça e a equidade,a retidão e todos os caminhos que
conduzem ao bem. (Prov. 2,9)
Joaquim José da Fonseca Costa, conhecido também como “seu Joaquim”, para os mais
estranhos, “Joaquinzinho” e “Quinca” ou às vezes “Quincas”, para a maioria dos membros
da família, “Fonseca” para seu sogro Coriolano e para alguns amigos e ainda “Seu
Grande” para seu pai, tias e tios, apelido pelo qual tinha muito carinho, e que fiz questão
de usar como título deste livro.
Veio ao mundo aos 30 de agosto de 1907, nascido de sete meses, sendo o segundo filho
de uma prole de cinco, do casal José Cezar de Albuquerque Costa e Zulmira Fonseca
Costa e foi o único sobrevivente da família FONSECA COSTA, como ele próprio relatou
no poema FATOS DE MINHA ORIGEM.
Segue-se a este poema, um texto escrito por Papai entre 1981 e 1982, a pedido de sua
prima Raimunda Fonseca de Aguiar, que foi transcrito em parte no seu livro “Retratos de
Família”, portanto, contava ele com a idade de 75 anos, é impressionante a lembrança de
coisas que lhe aconteceram em tão tenra idade. Graças ao poema e àquele relato, foi
possível a nós, seus descendentes, tomarmos conhecimento de muitos fatos de sua vida,
de seus ascendentes, e preservar a memória da nossa família.
FATOS DE MINHA ORIGEM.
Foi minha origem cheia de problemas,
sou de uma prole de cinco filhos o segundo,
que através de um parto complicado vim ao mundo
pequeno, prematuro, com sete meses apenas !
Em face de assim ter acontecido,
nasci semimorto sem poder tomar do peito
segundo minha mãe, não vira outro jeito,
de que me batizar com três dias de nascido.
Mas de volta da Igreja minha mãe dizia;
ter melhorado sensivelmente meu estado !
Abri a boca, antes de queixo cerrado,
e, tirei o atraso nos seios de tia Maria !
Daí, como por milagre minha cabeça,
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de pouco a pouco, fora se erguendo,
e, de pouco a pouco, também me refazendo,
por mais incrível e duvidoso que pareça !
Depois todos os meus irmãos foram morrendo
mesmo nascidos em tempo próprio e com saúde
enquanto eu tão cheio de problemas pude
até a presente data estar vivendo!
Raimunda,
Atendendo à sua solicitação no sentido de fornecer-lhe dados acerca da vida de Mamãe
e de quem mais eu entendesse de fazê-lo, confesso-lhe de antemão, ser para mim uma
tarefa muito difícil, dado ao fato de não me sentir preparado para tanto, nem dispor de
tendências vocacionais para escritor, como é o caso da prezada prima! Porém irei me
esforçar na medida do possível, e, ao mesmo tempo pedir-lhe perdão por qualquer falha
verificada no conteúdo deste relato:
Como através de uma janela aberta para um campo longínquo divulgamos certos pontos,
mas não podemos distingui-los bem, devido à longa distância que os separa.
Assim, a lembrança de certos fatos ocorridos no limiar de nossa vida, mesmo quando tais
fatos nos chamam a atenção, por saírem da ordem normal, assim mesmo a nossa
imaginação por mais que se esforce não consegue coordená-los devido ao longo tempo
que passou.
Desta forma, lembro-me de casos passados quando ainda não tinha, talvez, três anos.
Por exemplo, da morte de meu tio e padrinho Quincas, repentinamente, em casa de vovó,
como se vê, um caso fora de rotina. Talvez por isso, ficaram na minha mente as imagens
de um caixão na sala de tia Anunciada, sua irmã, chorando, havendo ainda, tanta gente
em casa, como era natural, mas só me lembro dela e de mais ninguém.
Depois, do casamento de Santo. Deste, já me recordo com mais clareza e detalhes;
contudo, eu estava mais crescido. Por exemplo, de Madrinha vestida de noiva, de Santo
com um terno escuro, da reunião à mesa, dos bolos, etc. e ainda do assunto que mais se
falava no momento, que era o casamento de Candinha.
Embora tudo isso muito apagado, mas não escapou de minha lembrança.
***
Continuando, Papai fala de sua relação com os pais e conta como recebeu o apelido de
“Seu Grande”:
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Outra coisa que muito interessa à criança e que nunca a esquece é da maneira como é
tratada, principalmente, pelo adulto. Qualquer criança se sente muito importante, quando
tratada com atenção e carinho.
Por isso eu guardo grandes recordações de meus pais! Por exemplo, quando nós
moramos na Torre, onde Papai trabalhava na fábrica de tecidos local, eu era muito
pequeno, mas não me esqueço quando Mamãe saía pela manhã a passear com a gente,
que nesse tempo éramos três: José, eu e Conceição, ainda de braços. Eu teria pouco
mais de três anos, mas aqueles passeios ficaram gravados na minha memória para
sempre! Como pode essa lembrança perdurar de uma idade tão remota? É fácil saber:
Mamãe nos dispensava a máxima atenção, com todo o carinho que lhe era peculiar,
naturalmente, procurando nos oferecer tudo que naquelas oportunidades mais nos
interessasse. Isso conversando com a gente, mostrando-nos uma coisa e outra, contanto,
que através desses passeios, eu me lembro da ponte da Torre, do bonde de burro e que
uma vez chegamos até a andar num deles. É pena não ter quem possa confirmar tudo
isso, pois sou o único sobrevivente no caso.
Quanto a Papai, esse levava horas e horas conversando com a gente, sempre nos
tratava com todo carinho e bondade. Nunca nos chamava a atenção com impaciência,
por castigo, nunca nos deu nem um cafuné. Quando em nossas conversas eu dizia:
Papai, quando eu ficar grande eu faço um carro, eu faço isso, eu faço aquilo... e assim
eu me soltava na conversa! Pois eu tinha muita vontade de ficar grande!
Eu não dizia quando eu crescer, mas quando eu ficar grande! Eu me trepava num banco
e dizia para ele: olhe Papai como eu tô grande! E Papai:
- É mesmo você está grande de verdade!
E começou a me chamar “seu Grande”, até quando morreu. E esse apelido pegou. Ainda
hoje Tia Anita só me chama “seu Grande”. Tio Joaquim também, era: “seu Grande”, “seu
Grande”. Tão grande era a minha vontade de ser grande que nunca cheguei a sê-lo. Ao
contrário diminuí, por força da escoliose que me envergou a coluna! A coisa que mais me
fazia inveja, era a de ver uma pessoa sentar-se numa cadeira e por os pés no chão. Ao
que ainda cheguei a fazê-lo.
Então, Papai brincava muito com a gente e tudo fazia para nos distrair, lembro-me de
umas modinhas que cantava para a gente assim:
Que café tão quente! Mana,
De manhã tão cedo, Mana,
Tantos mulatinhos, Mana,
Me fazendo medo, Mana.
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Não chore não moreninha,
Que eu vou e torno a voltar
Dá-me um aperto de mão,
Para de ti me lembrar.
Cantava também uma sátira do corcunda, assim:
Quando o corcunda sai a passear
As moças na janela começam a mangar
Eu sou corcunda, mas tenho dinheiro,
A falta de moças não morro solteiro!
Eu faço um buraco no chão e me deito
Pra ver se a corcunda assim toma jeito
Eu sou corcunda, mas tenho dinheiro,
A falta de moças não morro solteiro!
Veja como são as coisas da vida! Não sabia ele, que ali mesmo, defronte a si, estava um
futuro corcunda, aquele a quem tanto o chamava “seu Grande”. Ainda com a diferença,
de que, o corcunda de quem o criticava tinha dinheiro! Enquanto o outro, o predestinado,
nada tem, e quase morria solteiro por falta de moça que o quisesse, e dinheiro! Mas...
são os caprichos da sorte!
***
Após transcrever este trecho chegaram a mim as melhores lembranças de meu pai, a
mim parecia ser ele contando de viva voz. Embora não tivesse conhecimento deste texto,
lembro-me perfeitamente das melodias das músicas da Mana e do Corcunda. O meu pai
era um homem muito ligado ao seu passado e também bastante sentimental, tanto pelos
momentos tristes, como pelos alegres, pelos quais passou. Como todo homem, era triste
nas horas de tristeza e nostalgia, e alegre, nos momentos de alegria. No trecho que
segue, Papai fala sobre seus avós paternos:
José Joaquim da Costa Gomes (seu Cazuzinha) – Mestre – como nós seus netos, o
chamávamos, a começar pelos filhos de Tia Brasilina, liderados por Vino, que era mais
velho.
Mestre! Que criatura boníssima! Como nós o queríamos bem! E como ele nos queria,
inclusive a Mamãe, que a considerava como uma filha estimada. Quase todas as tardes
ele ia lá pra casa e levava sempre algumas canas do seu roçado, e, quando nós víamos
que ele vinha chegando, corríamos todos ao seu encontro para abraçá-lo, e ele também
nos retribuía muito alegre e nem entrava em casa. Íamos diretos para debaixo de um
cajueiro em frente à nossa casa e ali nos sentávamos como ele sobre a raiz daquela
árvore e cada um de nós já com sua vasilhinha na mão, ele tirava do bolso uma faquinha
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bem afiada com a qual descascava as canas de uma por uma e rolava-as bem certinho,
para a devida distribuição que a fazia comigo, José e Conceição que já estava grandinha
com três anos aproximadamente, e nós chupávamos aqueles roletes tão doces, até não
poder mais. Depois ele mesmo se encarregava de recolher todo o bagaço, que antes era
jogado em cima de uma toalha ou em qualquer outro pano, para facilitar a limpeza. Ainda
ficava ali algum tempo brincando conosco, principalmente com Conceição que era a
menor, muito sabida e linda demais. E nós: – Mestre pra aqui! Mestre pra ali! – E ele com
tanta paciência e carinho, respondia com toda atenção às nossas perguntas. Nunca
deixava de dar uma prosinha com Mamãe; e depois saía.
Lembro-me bem que, certa vez, de tardezinha, ele chegou lá em casa, chorando muito e
abraçara-se com Papai e Mamãe dando-lhes a notícia da morte de Dindinha; sua querida
Mocinha. Papai já estava doente. E Dindinha também já vinha há tempo. Desde que eu
me lembro dela, já a notava assim adoentada, sempre tomando remédios. Mas, sabe-se
como é: dessas coisas não se falam com crianças.
Depois que ela morreu, ele deixou mais de freqüentar a nossa casa, já por motivo de
saúde.
Depois adoeceu gravemente e foi pra Paudalho para a casa do Tio Argemiro. Pouco
tempo depois, faleceu...
Joaquina Maria de Albuquerque Costa (D. Mocinha) - Dindinha. Minha avó paterna.
Era uma criatura alegre, comunicativa, muito boazinha e carinhosa para a gente. Gostava
muito de conversar comigo e dava muitas risadas às minhas custas! Quando ela me via,
gostava sempre de puxar por um assunto que me envolvia com uma velhinha vizinha
nossa.
Tratava-se de uma prima de vovó, Tia Nenzinha. Era como Mamãe e minhas tias a
chamavam, dado a seu parentesco com vovó. Era viúva, já bem velhinha, tinha um filho
casado; Emiliano, e uma filha solteirona, que trabalhava na fábrica, com quem morava a
sós, a quem chamava, Maria Minha. Certa vez, Tia Nenzinha estava conversando com
Mamãe e eu também junto delas. Mas eu estava descuidado, quando ela me chamou a
atenção dizendo:
– Joaquinzinho, tenha cuidado com o boizinho pra não fugir.
Quando vim dar pela estória, me compus e disse pra ela:
– E você também não tem boi?
– Que é isso menino?
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E continuei:
– Pensa que eu não vejo você despejar o penico debaixo do pé de açafrão?
A velha ficou toda encabulada e disse para Mamãe:
– Tá vendo? Não se deve brincar com menino!
E minha mãe também:
– Deixe disso Joaquinzinho.
Então Dindinha sabendo disso, todas as vezes que a gente ia à sua casa, ela vinha logo
puxar por mim perguntando:
– Joaquinzinho, eu soube que você viu o boi de Tia Nenzinha ?
Eu lhe respondia:
– O boi mesmo eu não vi, mas sei que ela tem.
– Por que você sabe?
– Porque eu vejo ela despejar o penico no pé de açafrão.
Ela caia na gargalhada e começava a me dar corda.
Eu tinha no máximo cinco anos, mas notava que ela vivia doente, sempre numa cadeira
de balanço. Mas era bem alegre e gostava muito de conversar com Mamãe.
***
No processo de escrever esta biografia de Papai, iniciei a verificação de documentos com
o intuito de juntar elementos para uma pesquisa sobre a árvore genealógica da família
COSTA e encontrei uma contradição no nome do seu avô paterno: No registro de
casamento de vovô Cezar com vovó Zulmira, que eu chamava “bivó”, o nome de “Seu
Cazuzinha” aparece como José Joaquim de Albuquerque Costa e, na certidão de óbito,
de vovô Cezar, figura como José Joaquim da Costa Gomes, que é o nome correto. Neste
último documento, o nome de meu avô está escrito com “s” e não com “z”. No meu
registro de nascimento o nome de meu avô está escrito com “z”. O nome do meu irmão
mais novo é o mesmo do meu avô e Papai o registrou como José César de Albuquerque
Costa (com “s”). Assim, adoto a grafia antiga nas referências que faço a Cezar; meu avô,
sempre com “z” e a César; meu irmão, com “s”, seguindo a grafia atual.
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Vovô Cezar que faleceu a 7 de novembro de 1913, quando meu pai contava com a idade
de 6 anos, 2 meses e dias, deve ter exercido uma influência muito grande sobre Papai,
que, apesar do pouco tempo de convivência com ele, lembrava-se de muitas passagens
deste curto período e sempre nos contava muitas coisas desta época, pena que me
lembre apenas de poucas das suas histórias. Papai contava que, segundo lhe dizia minha
avó Zulmira, vovô Cezar era muito inteligente, um autodidata. Conhecia de mecânica
celeste, fazia previsões de eclipses e etc. É impressionante a narrativa escrita com
detalhes por Papai sobre a morte de vovô Cezar:
... Depois, viera a morte de Papai. Era uma hora da madrugada do dia 7 de novembro de
1913, quando meu pai morria! Eu me acordei, ouvindo Mamãe chorando muito. José
dormia no mesmo quarto comigo. Mas ele foi bastante sincero, levantou-se para enfrentar
a realidade, quando Tio Joaquim chegou a ele dizendo-lhe:
– Meu filho, seu pai morreu agora mesmo.
Ele chorando respondeu:
– Já estou sabendo.
E ambos saíram para a sala, onde estava o cadáver de Papai. Enquanto eu,
covardemente, ouvia tudo aquilo e fazia que dormia, sem ter a coragem suficiente de
enfrentar aquele quadro para mim tão desolador !
Pela manhã, me levantei, receoso, desconfiado, arrependido ou mesmo com remorso de
toda aquela mentira. E, me aproximei da sala quando Mamãe viera ao meu encontro,
chorosa:
– Meu filho, seu pai está morto...
Dizendo-me e olhando para uma cama de lona, armada no meio da sala, na qual estava
o cadáver de Papai coberto com um lençol muito alvo.
Eu então, fingindo ainda que não sabia, desatei um choro meio fingido e meio sentido,
olhando para aquela cama! Coisa estranha é a morte! Pois, me parecia que ela estava
vazia, mas apenas como se ali tivesse uma coisa qualquer, como se fosse, por exemplo
um graveto embaixo do lençol, pelo qual se via aquelas curvas partidas de uma ponta à
outra, mas nunca a idéia de que ali houvesse o corpo de uma pessoa! Então
aproximando-me da cama, Mamãe levantou a ponta do lençol, para que eu pudesse ver o
seu rosto. Que surpresa para mim quando o fitei! Muito barbado, macilento, com um
lençol atado para prender-lhe o queixo e de uma sisudez esquisita!
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Foi mesmo impressionante! Desaparecera aquele sorriso franco, quando brincava com a
gente e me chamava seu Grande! Estava tudo consumado! Passei a curtir minha tristeza,
convencido daquela triste realidade!
Então durante todo o dia até a saída do enterro, de vez em quando surgia uma pessoa
com ar austero, demonstrando tristeza, dirigia-se a Mamãe, abraçava-se com ela e dizialhe: – Meus pêsames, ou: – Meus sentimentos! Que se há de fazer? Foi a vontade de
Deus, etc.
Eu olhava a expressão do rosto de Mamãe, a cada vez que ouvia aquele palavreado, já
vermelho de tanto chorar, aquilo me causava tanta pena e já estava me incomodando
demais. Depois aquela gente ficava por ali um pouco, às vezes fazia comentários e aos
poucos ia saindo.
Mais tarde, chegara Tia Maria, que a exemplo também apresentava suas condolências,
embora de um modo mais familiar, inclusive chorando e abraçada com Mamãe.
Passados alguns instantes, eu ouvi uma conversa dela, a qual prestei muita atenção e
nunca mais me esqueci. Com um ar de sorriso discreto dizia:
– Veja como são as coisas. Cezar tão moço! Bem fiz eu, me casei com um velho e ainda
hoje está bem forte e com saúde! Enquanto Zulmira, coitada, casou com Cezar tão jovem
e ai está, tão moça, com 27 anos e já viúva !
Eu pensei comigo... “E Tio Medeiros é velho ?” Coisa que eu não tinha ainda reparado.
Daí com meu raciocínio de criança, pensava... “Ta vendo? Velho é duro de morrer!” E,
perguntava a mim mesmo... “E Mamãe, por que não casou com um velho?” Mas ao
mesmo tempo eu ponderava... “Não, assim eu teria outro pai e eu não queria”. O que eu
queria mesmo, era que o meu pai de verdade não tivesse morrido! Aí, me lembrei das
palavras que ouvira de tanta gente.... “Que se há de fazer? Foi vontade de Deus!...”
Pouco tempo mais, chegara a hora do enterro. A hora maior de todo aquele desengano.
A grande hora da despedida para sempre! Mamãe, fazia pena vê-la! Tão grande era o
seu abatimento causado pelo sofrimento, pelo cansaço, por toda a sua dedicação há
tanto tempo, dia e noite ao lado de Papai, empregando todos os esforços que se faziam
necessários, mais além de suas forças física e moral. Contudo, que depois da morte de
Papai ela ficou tão abatida, que só faltou adoecer pra morrer! E eu morrendo de medo
que tal acontecesse!
Eu àquela hora, me sentia verdadeiramente tomado de angústia! Com pena de Papai
pelo seu desaparecimento. Com pena de Mamãe, em vê-la naquele estado de magrém e
fraqueza!
Naquele tempo, quando morria alguém adulto, a família tinha de cumprir determinado
período de luto fechado mesmo. A viúva então, tinha que se vestir de preto, pelo menos
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um ano e depois desse período tinha luto aliviado, que consistia em branco, azul, preto
com bolinhas brancas, etc., porém jamais vestir-se-ia de vermelho, verde, rosa, etc.
Assim também tinha regulamento para luto de pai e mãe, avós, tios, etc. Mamãe, era
quem bem entendia dessa convenção.
Bem, então a fábrica, quando morria um operário, se dignava de tingir a roupa
pertencente a família. Era como se fosse um prêmio conferido à família em
reconhecimento pelos bons serviços prestados pelo falecido.
Mamãe, detentora de tão grande privilégio, pegou toda a roupa de casa, excluiu a de
cama e mesa e tocou para a tinturaria da fábrica, acompanhada de uma relação de peças
e nome do beneficiário! Passados três ou quatro dias, recebeu-a de volta devidamente
tinturada.
Ah! Afinal chegou o dia do nosso luto fechado. Que motivo de orgulho para mim! Tinha
certeza de que aquilo faria inveja aos filhos de Chico sapateiro e a outras crianças que
moravam perto de nós !
Ainda bem que da morte de Papai ainda me restou esse motivo de contentamento,
embora momentâneo.
E assim terminou esse episódio tão cheio de tristezas e tão marcante para a minha vida
de criança.
No trecho que segue, Papai se reporta aos parentes do ramo materno:
Quanto a Mamãe, é a sua vida por demais conhecida de todos nós, como são as de suas
irmãs, como exemplo de mulheres íntegras sob todos os pontos de vista, que não
freqüentaram escolas superiores, mas que tiveram a felicidade de receberem a maior
lição de bom exemplo, que tão bem lhes fora administrada por aquela grande mestra, que
foi BENVINDA DA NÓBREGA FONSECA!
***
Faço aqui um parêntese para dizer que escrevi o nome de minha bisavó BENVINDA DA
NÓBREGA FONSECA com letras maiúsculas, não porque estava assim na narrativa de
Papai, mas sim pelo valor que representa esta verdadeira matrona para nossa família.
Tive ainda a felicidade de conhecê-la e, apesar da pouca idade que eu tinha (minha
bisavó morreu no dia 14 de março de 1953, quando eu contava com quase dez anos de
idade), nunca consegui me esquecer desta fantástica Mulher, com “M” maiúsculo. Não
pelo seu aspecto como pessoa, pois ninguém dava nada por ela; tratava-se de uma
mulher franzina e pequena, talvez com uma estatura inferior a 1,50 m; contudo, transmitia
a sensação de uma verdadeira fortaleza, aprendi a admirá-la mais ainda, à medida que
fui crescendo e conhecendo passagens de sua vida, através de minha tia Anita e Papai.
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A respeito de minha bisavó Benvinda, que eu chamava “vovinda” transcrevo algumas
frases do livro “Retratos de Família” da prima Raimunda Fonseca de Aguiar:
Falar ou escrever sobre minha vó Benvinda é para mim não apenas um prazer, mas uma
honra, porque a considero como dizia Quincas, seu sobrinho amigo, “a mulher forte de
que fala a Bíblia, resoluta, lutadora, enfim, uma heroína....”
Era distinta, bondosa e enérgica; de uma altivez que não conheci em nenhuma outra
mulher....
Era uma mulher de energia e coragem sobre-humanas! Nunca vi lágrimas nos olhos de
vovó Benvinda. Não temia a face da morte. Diante da morte de pessoas queridas,
certamente ela teria saudade ou sofrimento, mas não ao ponto de levá-la ao desequilíbrio
ou à revolta e encontrava resignação....
Todos os netos, filhos de suas filhas, vieram ao mundo por suas mãos.
Sobre esta última frase citada por Raimunda eu acrescento que alguns dos bisnetos
devem ter vindo ao mundo por suas mãos, eu mesmo fui um deles e também Ignês neta
de minha tia avó Anita.
***
Voltando à narrativa de Papai, percebe-se o que representou esta mulher para a
formação moral da família, bem como o valor que foi dado por meu pai aos seus
familiares, valor este que, com seu exemplo foi-nos também transmitido:
Os dedos das mãos não são iguais. Mas falando-se de qualidades morais, de caráter, de
bondade e do cumprimento do dever sob todos os aspectos, entre as filhas de D.
Benvinda, não há nenhuma diferença a mais nem a menos de uma para a outra !
Existem sim: umas mais expansivas, outras mais retraídas. Como exemplo, no primeiro
caso, temos: Mamãe, Tia Cecília, Tia Anita e Tia Hermínia; enquanto no segundo
citamos: Tia Candinha (Madrinha) e Tia Lilita
Já se tratando de Tia Maria, que era relativamente expansiva, porém de gênio mais forte,
quando alguém lhe pisava os calos, ela explodia! Mas era coisa passageira, logo, parecia
nada ter acontecido. E que grande coração o seu! Como se sacrificava pelos outros! Por
exemplo, no tempo de Tio Medeiros, sua família vivia muito bem financeiramente, com as
rendas provenientes de seus moradores, referentes a recebimento de foros, aluguéis;
cortes na mata de madeiras, lenhas, etc., além de uma pequena mercearia defronte à
casa de residência, ainda quando fora instalada em 1915, a feira de Camaragibe, então
na Aldeia de Baixo, bem próxima à nossa casa, ele conseguira funcionar na mesma um
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banco para a venda de mercadorias procedentes de sua mercearia e outros produtos do
seu sítio, etc.
Lembro-me bem de umas laranjas-cravo lindas, enormes, que mais pareciam (laranja)
comum pelo seu tamanho e vendidas a três por um tostão! Como se vê, quanto encargo
aquele senhor, já tão idoso, assumia, mas nunca vi tão forte e tão trabalhador como o
era! Contanto que em compensação de todo aquele trabalho ele usufruía de um
rendimento relativamente bom! Em sua casa não faltava nada do bom nem do melhor !
Então, com a sua morte repentinamente em 1916, a situação mudou completamente. Tia
Maria ficou viúva muito moça, aos 32 anos, com seis filhos pequenos e ainda grávida de
Enedina. Sendo o mais velho Ladislau com 11 anos, Lourdes com 9 (minha irmã de leite,
somos do mesmo ano de 1907, ela de janeiro e eu de agosto), Pedrinho com 7 anos,
Luiza com 5, Conceição com 3, José com mais ou menos 1 ano e Enedina pra nascer.
Como era natural, minha tia não podia tomar a frente de toda aquela carga de trabalhos.
Logo acabou-se a venda, ficando ela vivendo apenas de outras rendas, como eram
aluguéis, havia também uma produção muito grande de café, que naturalmente Tio
Medeiros vinha controlando muito bem. Mas com Tia Maria, apesar de seu esforço junto
com os meninos maiores, a apanhada (colheita) de café era na maioria feita pelos
moradores em troca de cuias cheias, contadas e despejadas num grande celeiro para
secar e levar ao pilão para descascar e armazenar os grãos para a venda do produto.
Contudo, esse trabalho era muito dispendioso, enquanto a sua saída era pequena e não
compensava com a despesa e sempre resultava em prejuízo. Outro problema sério era o
que ela enfrentava com os moradores, que nunca pagavam direito. Tinham sempre uma
satisfação, uma choradeira, e minha tia, como eu dizia antes, penalizada, ia na conversa
e sempre se sacrificava por eles a ponto de não ter mais condições de sobrevivência,
mudou-se para Jaboatão, aonde em menos de um ano veio a falecer, em 1930, com a
idade de 46 anos, não sei se completos.
Assim, partiu para a eternidade aquela tia tão querida de quem recebi infinidades de
carinhos e bondades, inclusive o primeiro leite. Sim, pois Mamãe dizia que devido ao meu
nascimento muito complicado e prematuro o meu estado de saúde era muito precário,
sem poder me amamentar, de queixos cerrados, ela resolvera me batizar aos três dias de
nascido. Mas quando de volta da Igreja, encontrava-se lá em casa de Tia Maria, que me
tomou nos braços aconchegando-me ao seio, e como se fosse um milagre, me
amamentara pela primeira vez! É como Mamãe dizia, que eu tirei o atraso nos peitos de
Tia Maria. Daí levantei a cabeça até hoje !
***
Neste último parágrafo Papai relatou em prosa o início da sua vida, contada em versos
algum tempo depois, sob o título FATOS DA MINHA ORIGEM, transcrito no início desta
biografia, sendo muito interessante à comparação dos dois estilos. Voltemos ao relato:
- 23 -
Então em Jaboatão Luiza gostou de Luís Jorge dos Santos (Lula – então funcionário da
Rede Ferroviária, na época da Great-Western, onde servia na Locomoção, repartição ali
localizada) com quem casara e passaram a residir em Tabatinga. Daí pra frente a coisa
mudou muito de figura! Lula conseguira dominar a situação, superar aquela crise
financeira e progredir bastante! E como progrediu! Hoje Tabatinga é um centro bastante
adiantado. Com ônibus a todo instante, dentre outros adiantamentos e progressos,
encontra-se localizada a Faculdade de Odontologia de Pernambuco.
Quem conheceu a chã de Tabatinga de D. Maria Medeiros, e vê-la hoje, não mais a
conhece.
E aquele sítio enorme, maravilhoso, de tantas espécies de fruteiras e em grande
quantidade, em cujos galhos grandes variedades de passarinhos em busca de frutos para
a sua sobrevivência, que apesar da nossa perseguição com espingardas, bodoques,
baliadeiras, alçapões, etc., mas nunca faltavam aquelas constantes presenças.
E aquele cheiro forte de frutas maduras, goiaba, pitanga, cajá, jaca, manga e tantas
outras que de maduras caiam e ficavam debaixo dos pés, ali apodreciam e ali mesmo se
misturavam com a terra como se fossem lama, por não ter quem as desse vencimento,
tão grande era a quantidade das mesmas !
E o banho? O banho da bica em plena mata, cuja água era permanentemente gelada,
mas que não nos causava arrepios nem medo de enfrentá-la fosse que hora fosse, para
aqueles gostosos banhos de horas esquecidas, onde brincávamos a valer de:
Galinha gorda,
Gorda ela.
Vamos comê-la?
Vamos a ela.
E o melhor dela?
É a titela
Tibungo... zoava a pedra de encontro à superfície da água, arremessada por aquele que
antes havia retirado-a do fundo do poço.
E assim, sucessivamente continuávamos horas e horas com aquela inocente brincadeira
de criança!
Que saudade daquele tempo! Da melhor fase da nossa vida... Do nosso tempo de
criança!
Hoje da família de Tia Maria, sem falar dos seus netos e outros descendentes, somente
Conceição (Ceça gorda) ainda vive. Embora numa cadeira de rodas.
- 24 -
Quanto aos outros, que partiram para a outra vida, deles só nos resta a longa separação
e a grande recordação com a Saudade que tanto maltrata nossos Corações!
***
Após transcrever este texto, onde Papai concentrou muitas de suas lembranças em tia
Maria, sua mãe de leite, lembrei-me de uma história que me contou uma certa vez nos
momentos de suas recordações de infância:
Algumas semanas após o falecimento de tio Medeiros, Papai encontrava-se na casa de
tia Maria, à noite, quando se deitou na rede para dormir, escutou sua querida tia a chorar
e a se lamentar pela morte do esposo.
Aquele quadro desencadeou em Papai um grande constrangimento e sentimento de pena
pela situação daquela senhora. Que poderia fazer para minorar a angústia de sua tia?
Eis que, virando-se para um dos lados da rede, para conciliar o sono, verificou um rosto
difusamente familiar fitando-o com um ar de agradecimento.
Para se certificar daquela visão, que de certo modo o atordoou, levantou o braço
passando-o na direção do que via, seu braço não tocou em nada e o rosto desapareceu.
Um frio gelado correu pelas suas vértebras provocando-lhe um desfalecimento seguido
de um sono profundo.
Acordou no outro dia impressionado com aquele acontecimento, que ficou para sempre
gravado em sua memória, fazendo-o pensar ter sido aquela visão o espectro do seu tio
Medeiros, que o agradecia pela sua preocupação com a situação de tia Maria.
Entre os cadernos e escritos guardados por Papai, encontrei o rascunho de uma carta
que ele escreveu para tio Joaquim, que achei interessante reproduzi-lo em parte, para
sentirmos mais ainda o valor que meu pai dava à instituição familiar e por conter ali
lembranças de sua infância:
Recife, 7 de março de 1986
Meu caro e prezado tio Joaquim, Antes de tudo, em nome de Deus a sua benção !
Foi com muita alegria que recebi sua estimada cartinha, e muito me sensibilizou, a sua
lembrança da feliz fase de nossas vidas, relativamente à minha infância e à sua
mocidade, fase aquela em que mais convivemos juntos no ambiente de “uma família tão
rica em Paz, onde não faltavam sorrisos”. De fato! Onde não faltavam Amor, Carinho,
Compreensão... Onde havia respeito. Não respeito por imposição, mas por
reconhecimento, por formação. Eu mesmo não me lembro, de jamais ter sido
admoestado pelos meus tios. Ao contrário. Só me vem a lembrança do amor, do carinho,
que por eles me eram dedicados. Daí a razão desse respeito. Afinal, era um respeito
- 25 -
mútuo. Do senhor mesmo, por exemplo, nunca me esquecerei do modo como me tratava,
sempre com um sorriso nos lábios me chamando “seu Grande”, apelido que herdei do
meu pai, dos pequenos presentes que nos dava, quando vinha do Recife, dos pacotes
de fogos que nos eram entregues quando nas festas de São João! Tio Joaquim, tudo isso
faz transbordar de alegria um coração de criança. Principalmente de duas crianças órfãs
de pai, de quem cessara todo esse carinho, como era nosso caso. Eu e José!
Portanto, tio Joaquim, há muita coisa na minha vida de criança, que muito se relaciona
com o senhor e que jamais me esquecerei. Inclusive de caso triste, como o foi na noite da
morte de Papai. Eu tinha 6 anos. Quando o senhor chegou pra José e disse:
– Meu filho, seu pai morreu.
E ele respondeu chorando:
– Já estou sabendo.
Eu também já estava sabendo. Mas por covardia fazia que estava dormindo. Enquanto o
senhor, por delicadeza, por piedade, preferiu não me acordar daquele sono de mentira,
para me dar uma notícia tão triste !...”
Com esta transcrição encerra-se este capítulo dos primórdios.
- 26 -
ADOLESCÊNCIA E JUVENTUDE
“Oxalá a bondade e a fidelidade não se afastem de ti! Ata-as ao teu pescoço, grava-as em
teu coração! ”(Prov. 3,3).
Este capítulo está baseado em relatos contados por Papai à mim e meus irmãos, quer
nos seus momentos de recordações, quer quando de um fato que acontecia conosco se
constituía em fatos semelhantes da sua vida. Outras informações foram dadas por primos
que conviveram com ele nesta fase de sua vida.
Tentei fazer um esforço para relatar estes fatos cronologicamente; começando ainda com
algumas ocorrências de sua infância.
Já no primeiro capítulo foi possível se perceber, que a infância de Papai teve momentos
de alegrias, misturados com momentos de tristezas profundas; afinal nossa vida é feita de
momentos, vividos ou não, intensamente.
Muito cedo Papai passou pela profunda tristeza de perder o pai, vovô Cezar, tanto que
seu relato sobre o fato foi bastante marcante. O quadro daquela ocorrência o
acompanhou durante toda a vida e não podia ser diferente. Depois disto, foi perdendo
todos os irmãos, como ele relatou em “FATOS DA MINHA ORIGEM”.
A morte do irmão mais velho, José, representou um profundo pesar para Papai, que,
inclusive, não falava sobre este assunto. Tio José morreu de tétano em conseqüência de
um ferimento de espingarda no tornozelo. A espingarda que se encontrava atrás de uma
porta caíra no chão detonando a espoleta que, por descuido, ficara no gatilho. Versões
existem de que o acidente acontecera numa hora que Papai entrara em casa, derrubando
a espingarda ao empurrar a porta, com isto tomou para si a culpa do ocorrido. Nesta
época, Papai tinha 12 anos e carregou por toda sua existência o sentimento de culpa por
um acontecimento totalmente acidental.
Papai estudou apenas o curso primário. Não sei se todo o curso, apenas sei que teve
pelo menos parte de sua formação escolar com as Irmãs da Sagrada Família e com os
Irmãos Maristas; que, sem dúvida, contribuíram muito, juntamente com o exemplo de
toda a família para a sua formação religiosa como Católico Apostólico Romano; religião
que praticava com forte convicção.
Contudo, sua vida escolar teve também seus dissabores, como se pode notar em parte
de um dos seus relatos:
- 27 -
...No ano seguinte entramos na escola da corporação da fábrica, isso porque tias Lilita e
Cecília trabalhavam. José já tinha sete anos completos foi para a Escola dos Maristas,
eu com 6 anos fui para o Jardim da Infância das Irmãs da Sagrada Família e Conceição
que tinha quatro anos ficou em outro curso também das Irmãs. Naquela escola eu passei
justamente todo aquele ano de 1914, no seguinte passei para a Escola dos Irmãos.
Embora que essa alegria durou pouco. Depois que Tia Lilita casou no fim de 1916 ou
princípio de 1917 e ficado somente Tia Cecília trabalhando. Então Dr. Collier o gerente
da Fábrica mandou chamar vovó para dizer-lhe que não era mais possível a nossa
continuação na escola. Então minha avó apelou para todos os seus sentimentos no que
fosse possível contanto que nós não saíssemos da escola, que nessa época era somente
eu e José. Pediu-lhe que ele admitisse Mamãe no trabalho, mas não atendeu alegando
que não tinha vaga. Então a gente sofreu mais este retrocesso em nossa vida. Passamos
para outras escolas, eram escolas municipais, primeiramente a de D. Leopoldina, que
depois mudou-se para São Lourenço, então nós passamos para a de D. Cecília, mas
eram muito diferente da nossa escola dos Irmãos...
Papai começou a trabalhar fora muito cedo, conforme me dizia. Seu primeiro trabalho foi
numa mercearia, trabalhando duro, pois além do serviço normal de balcão, ele carregava
os sacos com milho, feijão, farelo, farinha, etc. pela sua fotografia ainda jovem Papai
sempre me pareceu muito franzino, acredito que por conta de carregar estes pesos veio a
desenvolver uma pronunciada escoliose que o acompanhou por toda a vida, lembram-se
do corcunda? Que ele via em si o corcunda da canção que vovô Cezar cantava ?
Em 16 de setembro de 1927, com seus 20 anos completos, Papai foi admitido na GREAT
WESTERN; a atual REDE FERROVIÁRIA FEDERAL, como praticante de telegrafista,
com uma diária de 6$000 (seis mil réis). As anotações de admissão e dispensa em sua
carteira de trabalho, registrada sob o número T.4111, vão até 19 de maio de 1930.
Acredito que por questões trabalhistas da época haviam estas admissões, dispensas por
cerca de dois meses e readmissões, pois segundo me consta, Papai foi excelente
profissional, seu último salário nesta companhia foi de 200$000 (duzentos mil réis).
Ao contrário do serviço que exercia em mercearia, a função de Papai na GREAT
WESTERN realmente o realizava profissionalmente, pois sempre falava com muita
satisfação do tempo que passara trabalhando naquela Companhia. Contava histórias dos
colegas, dos erros que cometera no início de sua função como aprendiz de telegrafia e
dos trotes e xingamentos que fazia para os colegas quando já dominava bem o
manipulador de telegrafia. Lógico que essas brincadeiras não prejudicavam o bom
andamento do serviço, uma vez que meu pai possuía uma rígida responsabilidade como
profissional.
Por várias vezes, quando conversava comigo sobre aquela época de sua vida, tentava
me induzir a aprender telegrafia, principalmente quando tomou conhecimento que eu
havia entrado para o rádioamadorismo. Infelizmente a telegrafia que aprendi foi apenas o
- 28 -
suficiente para passar nos exames de categoria, tanto que hoje sou radioamador classe
“A” e opero somente em fonia, mas devo, em parte a Papai, os parcos conhecimentos de
telegrafia que obtive. Lembro-me que, quando estava para fazer os exames para a classe
“B” construí um oscilador de radiotelegrafia para treinamento das lições de telegrafia.
Quão grande foi a alegria de Papai ao ver o manipulador acoplado ao oscilador, que ao
ser operado emitia os sons que ele tanto conhecia, e logo, como se retornasse aos
tempos de sua juventude, começou a manipular os sinais sonoros que letra a letra
formavam o seu nome.
Sempre mantive no meu íntimo a vontade de aprender e praticar realmente a telegrafia,
pois Papai dizia sempre gostaria muito que um dos meus filhos aprendesse telegrafia.
Embora tenha aprendido um pouco, nunca a pratiquei. Quem sabe um dia !... Ou quem
sabe um de seus netos venha a se interessar! Por isso, vou abrir um parêntese e falar um
pouco sobre telegrafia para meus filhos e sobrinhos para que tenham um pouco de
conhecimento sobre este meio de comunicação, que, com o avanço da tecnologia, vai
pouco a pouco, se tornando fora de uso (não no radioamadorismo). Sem nenhuma
presunção de minha parte, imaginem ser o bondoso vovô Joaquim falando de telegrafia
para vocês:
A telegrafia como conhecemos hoje, foi desenvolvida por Samuel Morse, que viveu entre
1791 e 1872. Ele usou um aparelho que utilizava um eletroímã e desenvolveu o código de
traços (-) e pontos (.), que correspondem respectivamente a sinais sonoros longos e
breves. A junção de traços e pontos corresponde as letras do alfabeto, números e sinais
gráficos (acentos, vírgula, ponto e etc.).
O sinal sonoro correspondente ao ponto tem uma duração aproximada de 1/24 de
segundo. O sinal sonoro de um traço tem a duração de três pontos.
Se uma letra é formada de dois ou mais sinais, a duração da emissão de um sinal para o
outro é equivalente a um ponto.
A duração da emissão entre uma letra e outra é equivalente a três pontos.
Finalmente a duração da emissão entre uma palavra e outra corresponde a cinco pontos.
O código desenvolvido por Samuel Morse foi posteriormente denominado CÓDIGO
MORSE, em homenagem a seu autor e é reconhecido internacionalmente, este código é
reproduzido a seguir:
LETRAS
._
_...
A
B
_._
._
K
L
.._
..._
U
V
- 29 -
_._.
_..
.
._.
_ _.
....
..
._ _ _
C
D
E
F
G
H
I
J
__
_.
___
._ _.
_ _._
._.
...
_
NÚMEROS
._ _ _ _
.._ _ _
..._ _
...._
.....
_....
_ _...
_ _ _..
_ _ _ _.
_____
1
2
3
4
5
6
7
8
9
0
M
N
O
P
Q
R
S
T
_.._
X
._ _
W
_._ _ Y
_ _.. Z
PONTUAÇÃO
._._._ ( . ) ponto
_ _.._ _ ( , ) vírgula
.._ _.. ( ? ) interrogação
_ _ _... ( : ) dois pontos
_._._. ( ; ) ponto e vírgula
_...._ ( - ) ponto de união
._ _ _ _.( ' ) apóstrofo
_.._.
( / ) travessão
_._ _._ ( ) parênteses
._.._.
( “ ) aspas
Desta forma o nome JOAQUIM seria escrito assim:
._ _ _ J
___ O
. _A
_ _ . _Q
.._U
..I
_ _M
Aí está a telegrafia que tanto fascinava Papai.
Outra coisa que fez parte de sua juventude foi o carnaval. Papai contava que gostava
muito de brincar o carnaval. Falava das músicas antigas que faziam parte deste festejo e,
muitas vezes, relembrava algumas delas e uma lhe trazia muitas recordações, que ele
ligava às lembranças de sua noiva que faleceu; da qual falarei no próximo capítulo. A
canção de suas recordações do carnaval, regravada atualmente por Claudionor
Germano, era:
- 30 -
Eu bem sabia, que este amor um dia
Também tinha seu fim
Esta vida é mesmo assim
Não sei se fico triste
Nem se vou chorar
Eu vou cair no frevo até me acabar...
Do carnaval, Papai também falava dos lança-perfumes argentinos, que eram feitos de
vidro, depois apareceram os da Rhodoro, que eram metálicos. As laranjas de cheiro,
serpentinas, confetes, etc. Ressaltava sempre que a festa de carnaval do seu tempo de
juventude era mais sadia, em nada se comparando com o carnaval atual.
Em sua juventude, Papai foi um fumante inveterado, chegando a consumir conforme ele
dizia, até três carteiras de cigarros por dia. Falava muito das marcas de cigarros do seu
tempo. Deixou de fumar de um dia para o outro, por causa de minha mãe; que muito
combatia o seu vício. Papai era possuidor de uma grande força de vontade. Apesar da
ausência do fumo ter-lhe causado transtornos orgânicos, abandonou-o de uma vez por
todas. Muito tempo depois, não lembro que idade eu tinha, talvez uns sete ou oito anos,
quando fomos passar uma de suas férias na casa de uma sobrinha de Mamãe – Nininha
– em Limoeiro, por influência dela e do Dr. Liberato; seu esposo, ambos fumantes, Papai
voltou a dar umas fumadas, mas foi por muito pouco tempo, acredito que, no máximo, por
dois meses; e suspendeu outra vez, abruptamente, e não voltou a fumar mais.
Outra paixão de sua adolescência e juventude, que cultivou mais ou menos até seus 60
anos foi a criação de passarinhos, seus pássaros prediletos foram: “curió”, “patativachorona” ou “chorão”, “concriz”, “sabiá”, “canário-da-terra” e “caboclinho”. Lembro-me
ainda de um “caboclinho” que ele criava, quando ainda morávamos no Caiara. Este
“caboclinho” morreu devido a gaiola ter caído no chão. Segundo Papai, já o possuía por
mais de 12 anos. Por um bom tempo criou “periquitos australianos”, fazia gaiolas com
muita perfeição, ensinando-nos inclusive a fazê-las.
Estes são alguns fatos da adolescência e juventude de meu pai. Muitos outros perderamse nos subterrâneos da minha memória.
- 31 -
TIA MARIA DO CARMO
Primeira filha de vovó Benvinda. Foi para Papai: “aquela tia tão querida de quem recebi
nfinidades de carinhos e bondades, inclusive o primeiro leite”. Sem dúvidas ele a tinha
como seu anjo protetor.
- 32 -
LADISLAU AUGUSTO DE OLIVEIRA FONSECA
Avô materno de “Seu Grande”.
- 33 -
A GRANDE DESILUSÃO E A SAUDADE INFINDA
“O coração conhece as próprias amarguras”
(Prov. 14,10)
Desta feita a vida pinta novas matizes de desilusão e sofrimento para Papai, produzindo
lesões profundas em sua existência e marcando-o com a saudade infinda.
Foi a fase do seu namoro e noivado com uma moça chamada Arací Cabral de
Albuquerque; cujo apelido de família era “Cicí”.
Era o final do ano de 1932 e início de 1933. Papai estava noivo de Cicí há três anos,
contava ela na época com 23 anos e Papai com 25. Conforme as palavras de Duquinha;
irmã de Cicí – “Amavam-se intensamente, todos contavam como certo o casamento entre
os dois”. Formavam, por assim dizer, o par perfeito.
Dentro da rigidez daquele tempo, quando namorados ou noivos não podiam sair
sozinhos, Duquinha era sempre indicada por seu pai, o Sr. Antônio, para acompanhar
Papai e Cicí em seus passeios.
– Papai, vou dar uma volta com Joaquinzinho, aqui mesmo na rua de casa.
– Duquinha! Acompanhe os dois – dizia seu Antônio.
E lá saia Duquinha danada de raiva, por ter que cumprir a ordem recebida. Hoje, conta
isto, rindo da rigidez imposta naqueles tempos.
Cicí queixava-se há algum tempo de incômodos abdominais, que, apesar de repetidas
consultas médicas, não cediam com os medicamentos indicados.
De volta de um passeio que dera para um outro município agudizaram-se aquelas dores,
sendo a mesma hospitalizada no Hospital Centenário, onde teve que se submeter a uma
intervenção cirúrgica para extirpação de um tumor das vias biliares. A cirurgia fora
delicada e o caso patológico havia causado de certa forma espanto aos médicos que a
operaram, que fizeram inclusive fotografias do tumor.
Alguns dias após a operação, o estado clínico de Cicí agravara-se acompanhado de uma
retenção urinária. Não havia sinais de melhora. Numa das visitas de Papai, Cicí, olhando
para ele, retirou a aliança do dedo e a entregou, virando-se em seguida para a parede,
não voltando mais a fitá-lo.
- 34 -
Naquele dia, 23 de janeiro de 1933, depois de comunicar para a família a gravidade do
estado de saúde de sua noiva, Papai voltou para o hospital, não mais a encontrando em
seu quarto. Cicí havia morrido. Inconsolável, e chorando copiosamente, deitou-se Papai
atravessado naquela cama onde antes estivera Cicí. Acabara-se ali o sonho que
acalentara.
Começaria também ali, a saudade que jamais o deixaria. Tanto que, no ocaso da sua
vida, escreveu:
SAUDADE INFINDA
Encontrei na mocidade,
Uma jóia como se fora uma flor.
Vi que era uma Saudade
E que em pouco tempo murchou !...
Mesmo assim depois de murcha,
Dentro do meu coração ficou !
Saudade, que não me deixa,
Saudade, que vive em mim,
Saudade, que não se acaba,
Saudade, que não tem fim !...
Após escrever este poema Papai continua:
A propósito deste pequeno e simples poema, me vem à lembrança uma jóia de soneto,
que me foi oferecido por um meu grande amigo e colega de telégrafo, muito inteligente,
José do Vale, já falecido. Ele quis prestar sua solidariedade ao meu sofrimento, e
escrevendo-o assim, como segue:
SÉTIMO DIA
(Homenagem póstuma à noiva de Fonseca)
Como um lírio sem mácula Senhora,
Penetrastes da morte nos Arcanos!
Rosa que murcha ao despontar da aurora,
Ave que tomba ao alvorecer dos anos
No vosso lar quanta tristeza agora!
Quantos soluços, quantos desenganos !
E o vosso noivo como sente e chora,
A dor que mata os corações humanos!
- 35 -
Somente há sete dias que partistes!...
Em nossa alma, a saudade é tanta, é tanta!
Que o coração da gente não resiste!
Mas a verdade deve estar sem véu.
Eu digo a soluçar: Era uma Santa,
E as santas foram feitas para o Céu!...
José do Vale - janeiro de 1933
Encerro aqui este capítulo; cujos fatos representaram com toda a força para Papai, “a
grande desilusão e a saudade infinda” que o acompanharam por toda a sua vida.
Na revisão deste capítulo lembrei-me de uma canção brasileira em que uma de suas
frases diz que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Com certeza o
restante da canção não se aplicaria a este caso.
Agradeço a grande atenção que me foi dada por Alcide Cabral de Albuquerque
(Duquinha), irmã de Cicí; cujo relato foi imprescindível para que escrevesse este capítulo.
- 36 -
BENVINDA DA NÓBREGA FONSÊCA
A grande matriarca da família
Nóbrega da Fonseca, avó materna de papai.
- 37 -
JOSÉ CEZAR DE ALBUQUERQUE COSTA
Pai de “Seu Grande”.
- 38 -
O FILHO EXEMPLAR
“Fui um (verdadeiro) filho para meu pai, terno e amado junto de minha mãe.”
(Prov. 4,3)
Todos os fatos que me chegam à mente com relação ao comportamento de Papai diante
de sua mãe, a querida vovó ZULMIRA, são condizentes com o título que dou a este
capítulo, “O filho exemplar”.
Papai, conforme minha tia avó Anita contava, foi um exemplo de obediência para com sua
mãe, desde pequeno. Lembro-me que Papai não fazia nada, sem que antes tomasse
aconselhamento com bivó. Não que ele fosse um dependente ou subserviente, mas
simplesmente, pelo fato de reconhecer o valor e a experiência de vida de sua mãe. Como
foi importante este exemplo de vida que ele nos deixou!
A seguir, transcrevo um trecho escrito por Papai para sua mãe, no dia 6 de abril de 1986:
Minha mãe! Hoje, domingo 6 de abril de 1986, dia de seu centenário natalício! Como
passa depressa esta vida! Ainda mais, quando se trata de uma vida pertencente a uma
criatura tão querida, tão cheia de virtudes, pelas quais soube tão bem ser boa filha, irmã
amiga e devotada! Esposa fiel, e, companheira até o fim, sabendo enfrentar
pacientemente todas as dificuldades, notadamente, com as doenças graves, e
demoradas de meu pai e posteriormente de meu padrasto. Sim porque meu pai faleceu e
eu fique com 6 anos de idade e você ainda tão moça e bonita, com 27 anos apenas.
Mas o destino quis que se realizasse outro casamento, enquanto a Senhora contava 40
anos e eu 19 já homem feito. Mas a Senhora ainda moça, bonita e saudável, portanto,
era natural, e além disso em se tratando de duas pessoas boníssimas, não havia como é
natural nenhum motivo para objeção de minha parte! Assim a Senhora casou-se pela
segunda vez, de cujo consórcio não houve filhos e que durou aproximadamente 26 anos.
***
O cuidado que Papai demonstrava para com bivó era “fora de série”. Como se diz,
popularmente. Bivó era hipertensa e vivia constantemente em regime alimentar sem sal e
gordura. Usava muito chuchu em sua alimentação e tomava constantemente alcachofra
como remédios auxiliares para diminuir a pressão arterial, além dos medicamentos
indicados pelos médicos. Mas sua hipertensão era rebelde e isto era motivo de muita
preocupação para Papai, que sempre estava procurando saber se ela estava seguindo as
orientações médicas, tomando seus remédios, etc.
- 39 -
O fato de ter perdido o pai muito cedo não invalida sua dedicação para com meu avô
Cezar. O pequeno período de convivência foi muito bem registrado na memória de Papai,
quando nos falava de vovô Cezar deixava transparecer o orgulho que tinha de seu pai.
Encerro este capítulo transcrevendo três poemas, o primeiro em homenagem ao
centenário natalício de vovó Zulmira e os dois restantes, escritos respectivamente nos Dia
dos Pais e das Mães, no ano de 1979, que bem mostram o valor que o velho Joaquim
Fonseca dava às figuras da mãe e do pai na família.
SEIS DE ABRIL
Seis de abril de mil novecentos e oitenta e seis!
É esta data para mim, um dia extraordinário!
Porque nele se assinala desta vez,
De minha mãe, a passagem do seu centenário !
No entanto, somente setenta anos ela fez
De vida, e nela teve um trajeto tão fadário!
De sofrimentos, desgostos, que contando, talvez
Somariam as contas de um rosário !
Mas, contudo, ela soube com muita altivez,
Dominar com resignação o seu calvário,
Cheia de compreensão e sensatez !
Ela soube no sofrimento, quando necessário,
Não deixar transparecer em sua tez,
A dor que se lhe ia na alma, em seu itinerário !
PRECE DE UMA MÃE
Senhor, eis aqui, de Mulher e Mãe este meu Coração
Estou diante de teu infinito e penetrante amor,
Agradecendo-te, de mãos postas com todo o meu calor,
A graça de ser Mãe, e de poder cumprir esta Missão!
Lanças teu olhar sobre os filhos de minha geração!
Que eles cresçam e descubram no teu rosto o seu fulgor
De toda beleza! Que eles se apaixonem com ardor,
Pela bondade de teu infinitamente grande Coração!
- 40 -
Eles são meus e são teus, Tu me deste a satisfação
Imensa, de poder gerá-los dentro do meu seio!
Ouvi, ó Pai! A minha prece de amor e gratidão:
Que eles, se necessário for, com toda abnegação,
Defendam os injustiçados. É este o meu anseio!
E ajam com prudência e vigor. Mas com violência, Não!
ORAÇÃO DE UM PAI
Senhor, Pai de todas as coisas, Tu me deste
A ventura de ser Pai! Aqui estou eu.
De cabelos brancos, cujo vigor o tempo feneceu,
Dando-te graças! Por tão grande bem que me fizeste!
Sinto o sol de minha vida penetrar no oeste.
Mas nesse percurso, quanta coisa de bom aconteceu
Meus filhos cresceram! E, para contentamento meu,
São bons, maravilhosos, porque assim o quiseste!
Hoje, quando me é dado o prazer de encontrar,
Na rua, a passeio, em qualquer lugar,
Alguém que deles seja amigo ou conhecido,
Deles, só profere palavras de bondade!
Portanto, ó Pai! É com toda a honestidade,
Que a Ti confesso: Mil vezes!... Agradecido!
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SÍNTESE GENEALÓGICA
“Todos eles adquiriram fama junto aos seus contemporâneos, e foram a glória do seu
tempo. Aqueles que deles nasceram deixaram um nome... Outros há, dos quais não se tem
lembrança; Pereceram como se nunca tivessem existido...”(Eclo. 44,7-9).
Teoricamente esta biografia está dividida em duas partes: na primeira parte, que vai até o
capítulo anterior, tivemos os fatos relacionados com a infância, adolescência e juventude
de Papai, bem como, os da sua conduta como o filho exemplar, com maior envolvimento
dos seus ascendentes. Na segunda, teremos o pai de família e o avô dedicado que ele
foi, envolvendo mais seus descendentes.
Assim, entre uma parte e outra, incluí esta síntese genealógica, nomeando seus
ascendentes e descendentes.
Contribuíram para a síntese genealógica dos ascendentes do ramo paterno, as anotações
que me foram gentilmente cedidas pelo primo Jonas Borba da Costa, filho de tio
Argemiro, irmão do meu avô Cezar.
Para os ascendentes do ramo materno reproduzi as informações contidas no livro
“Retratos de Família”, da prima Raimunda Fonseca de Aguiar, filha de tia Candinha, irmã
de vovó Zulmira.
Partindo dessas informações, foram coligidos novos dados sobre os ascendentes,
principalmente no que se refere a novos nomes e algumas datas. Contudo, são ainda
passíveis de confirmação. Assim, são mantidas quase integralmente as anotações de
Jonas e Raimunda.
ASCENDENTES
Pais:
José Cezar de Albuquerque Costa, nasceu em 1880 no município de Limoeiro, foi
operário da Fábrica de Camaragibe. Faleceu aos 7 de novembro de 1913.
Zulmira da Nóbrega Fonseca, nasceu no dia 6 de abril de 1886 no município de Vitória de
Santo Antão, foi também operária da Fábrica de Camaragibe. Com o casamento adotou o
nome de Zulmira Fonseca Costa. Faleceu aos 22 de setembro de 1956.
Cezar e Zulmira casaram-se no dia 13 de setembro de 1905, viveram juntos apenas 9
anos, tiveram 5 filhos: José Joaquim (1906/1920), Joaquim José (Papai) (1907/1988),
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Maria da Conceição (1909/1914), Benvinda Flora e Terezinha, cujos anos de nascimento
e morte me são desconhecidos.
Ramo paterno:
Avós:
José Joaquim da Costa Gomes (Cazuzinha) e Joaquina Maria de Albuquerque (Mocinha).
Bisavós:
Antônio (Desconheço o sobrenome) e Thereza Felismina de Albuquerque (pais de
Joaquina).
Trisavós:
Antônio de Albuquerque (pai de Thereza), nome da trisavó desconhecido.
Nota: Thereza Felismina de Albuquerque era irmã de Antônia Albina de Albuquerque,
casada com Antônio Gonçalves de Oliveira, do Engenho Aurora, município de
Itambé. Pais de Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, Bispo de Pernambuco, na
afamada questão religiosa na década de 70 do século passado. Papai era portanto
primo em 3º grau de D. Vital, de que muito se orgulhava.
Ramo materno:
Avós:
Ladislau Augusto de Oliveira Fonseca (14.04.1850 / 24.07.1901) e Benvinda
Interaminense da Nóbrega (05.02.1867/14.03.1953), que adotou o nome Benvinda da
Nóbrega Fonseca.
Bisavós:
Joaquim José da Fonseca e Cândida Josefina de Oliveira (pais de Ladislau).
Anastácio Alves da Nóbrega Filho e Flora de Souza Interaminense, que adotou o nome
de Flora Interaminense da Nóbrega (pais de Benvinda).
Trisavós:
São desconhecidos os nomes dos pais de Joaquim José da Fonseca
José Joaquim de Oliveira e Ana Xavier de Oliveira (pais de Cândida Josefina de Oliveira).
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Anastácio Alves da Nóbrega e Escolástica de Arruda Câmara (pais de Anastácio).
José Francisco de Souza Interaminense e Pacheca Rodrigues Interaminense (pais de
Flora)
DESCENDENTES
Joaquim José da Fonseca Costa casou com Neusa Antão de Medeiros, que adotou o
nome de Neusa de Medeiros Costa, no dia 11 de setembro de 1940, conforme registro de
casamento número 2360, folha 8 do livro 33 do Cartório do Arruda, Cidade do Recife.
Tiveram os seguintes filhos (F) e netos (N):
F1. Judas Tadeu de Medeiros Costa, nascido a 7 de abril de 1943, no bairro da Várzea,
Recife. Biólogo, Mestre em Botânica, Professor da Universidade Federal de
Pernambuco, casado com Maria José da Silva Carneiro, que adotou o nome de Maria
José Carneiro Costa, Pedagoga, Professora da Rede Oficial de Ensino de
Pernambuco.
Possuem os seguintes Filhos:
N1. Maria Angélica Carneiro Costa, nascida a 20 de fevereiro de 1971, em Recife.
N2. Cynthia Maria Carneiro Costa, nascida a 23 de julho de 1972, em São Paulo.
N3. Paulo de Tarso Carneiro Costa, nascido a 9 de agosto de 1978, em Recife.
F2. Antônio Fernando de Medeiros Costa, nascido a 15 de julho de 1947, Bacharel em
História, Funcionário do Banco do Estado de Pernambuco (BANDEPE), casado com
Neuza Cavalcanti de Morais, que adotou o nome de Neuza de Morais Costa,
Enfermeira, Funcionária do Centro de Hematologia de Pernambuco (HEMOPE).
Possuem os seguintes filhos:
N5. Saulo de Morais Costa, nascido a 14 de setembro de 1979, em Recife.
N7. Juliana de Morais Costa, nascida a 10 de janeiro de 1981, em Recife.
F3. José César de Albuquerque Costa, nascido a 13 de agosto de 1949, Engenheiro de
Minas, Professor da Universidade Federal da Paraíba, Campus de Campina Grande,
casado com Maria Amélia Rocha Burgos Josué, que adotou o nome de Maria Amélia
Burgos Costa, Licenciada em Letras, Assistente Social, Funcionária do INSS em
Campina Grande, PB.
São os seus filhos:
N4. José César de Albuquerque Costa Filho, nascido a 29 de novembro de 1978, em
Recife.
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N6. Maria Carolina Burgos Costa, nascida a 12 de fevereiro de 1980, em Recife.
N8. João Bosco Burgos Costa, nascido a 22 de janeiro de 1982, em Recife.
F4. Maria do Rosário de Fátima de Medeiros Costa, Pedagoga, casada com José Arturo
Escobar, Engenheiro Agrônomo. Fátima adotou o nome de Maria do Rosário de
Fátima Costa Escobar.
São seus filhos:
N 9. José Arturo Costa Escobar, nascido a 17 de abril de 1982, em Recife.
N10. Indra Elena Costa Escobar, nascida a 7 de março de 1984, em Recife.
N11. Narayana Flora Costa Escobar, nascida a 2 de agosto de 1985, em Recife.
N12. Surya Ananda Costa Escobar, nascida a 21 de novembro de 1986, em Recife.
N13. Arjuna Joaquim Costa Escobar, nascido a 3 de maio de 1988, em Recife.
Nota: os netos N1 a N13 estão relacionados na ordem cronológica.
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O PAI DE FAMÍLIA
“Aquele que dá ensinamentos a seu filho será louvado por causa dele, e nele mesmo se
gloriará entre os seus amigos.” (Eclo. 30,2).
Segundo o Registro de Casamento de nº 2360, folha 8, do livro de nº 33, do Cartório do
Arruda, Joaquim José da Fonseca Costa casou-se com Neusa Antão de Medeiros no dia
onze de setembro de 1940. Foram testemunhas do casamento: Alfredo Julião de Souza e
Geraldo Fonseca Bastos; este primo de Papai, filho de Tia Anita.
Papai tinha 33 anos completos e Mamãe iria completar 17 anos em novembro, Mamãe
adotou o nome Neusa de Medeiros Costa, filha de Coriolano Monteiro de Medeiros; o
extremamente brincalhão, vovô “Corió” e Josepha Antão de Medeiros, que chamávamos
vovó “Mena”.
O apelido de Mamãe, quando jovem era “Manga Rosa”; devido às bochechas muito
vermelhas. Acredito que assim como não existem pais que achem seus filhos feios, não
devem existir também filhos, que achem os pais feios. Mamãe, hoje, com 68 anos é uma
mulher bonita e devia ser muito mais, quando jovem.
Deste casamento nasceram quatro filhos já nomeados no Capítulo “SÍNTESE
GENEALÓGICA”, que deram 13 netos ao casal como foi visto, o mais novo Arjuna
nasceu após a morte de Papai.
Tanto Papai como Mamãe tiveram formação religiosa Católica Apostólica Romana.
Mamãe, por conta própria; pois sempre gostou da Igreja. Meus avós maternos não a
tinham laços religiosos, ao contrário da família dos meus avós paternos, que eram
católicos, por formação.
Esta formação religiosa influenciou os nomes dos filhos do casal: o meu nome, Judas
Tadeu, foi resultante de promessa feita por minha mãe para São Judas. O nome de
Antônio Fernando, deve-se a grande devoção de Papai a Santo Antônio. Antônio se
chamaria Mário do Carmo, se tivesse nascido no dia 16 de julho, dia de Nossa Senhora
do Carmo; padroeira da cidade do Recife e o de Fátima em homenagem a Nossa
Senhora de Fátima, por devoção de Mamãe. O único que fugiu a esta regra foi César,
que tem o mesmo nome de meu avô Cezar. Assim mesmo é José. Quem sabe o primeiro
nome de vovô Cezar (José) tivesse sido resultado de alguma influência da religião dos
meus bisavós?
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A convicção religiosa, com o forte conceito de casamento indissolúvel, sagrada família,
família cristã, etc., foi Graças a Deus o grande sustentáculo do casamento de Papai com
Mamãe. Apesar das desavenças existentes entre os dois, o casamento perdurou até que
a morte os separasse, depois de 47 anos de casados. Para Papai, os filhos estavam
acima de todas as crises, assim como ainda os são, para Mamãe, que sempre foi uma
supermãe.
No poema que segue, de dezembro de 1978, Papai refere-se a respeito das
incompreensões, que ele chama “ingratidão”, vividas entre ele e Mamãe. Falando
também de sua opção em não se separar.
Papai era um homem extremamente sensível, magoando-se com muita facilidade. Talvez
exagerasse um pouco, ou quem sabe muito, mas este comportamento era resultante dos
desgostos que a vida lhe aprontara: morte do pai, quando ainda criança, morte de todos
os irmãos, morte da noiva, morte da mãe. Eu compreendia Papai! Embora em alguns
momentos aqueles desentendimentos me incomodassem. Mas, vamos ao poema...
RETALHOS DE TRISTEZA
Ai meu Deus, quanta incerteza
Tenho no meu coração!
Quem me dera a solução
Que me curasse a tristeza!...
Mas minha tristeza é incurável
Porque é do coração
Uma lesão formidável
Que se chama ingratidão.
Dos que me prestam atenção
Já me acho separado,
Cada um tomou seu lado
Deixando-os-me na solidão.
Embora em compensação
Me sinta resignado,
Pois estão construindo seus ninhos,
Cheios de amores, carinhos
E muita compreensão!
Pois bem souberam escolher
Com quem deverão viver.
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Enquanto por nosso lado
Por não sabermos escolher,
Devido à cega paixão
Vou curtindo a solidão
E vivendo do passado.
Como podíamos prever
O que viria acontecer?
É que, ao nos casarmos, depois,
Chegamos à realidade
Da incompatibilidade
Existente entre nós dois.
Não tomei a decisão
Que muita gente tem feito,
Pelos filhos e preconceito,
Que seria a separação.
Hoje, nos meus momentos tranqüilos
Sinto que meu sacrifício
Compensou com o benefício
De viver bem com meus filhos!
O que não teria se dado,
Se tivessemo-nos separado.
Mas, pelas incompreensões, divergências
Surgidas em nossa trilha,
Vamos sofrendo as conseqüências
Com relação à nossa filha.
Como eu seria feliz
Se me fosse dado na vida,
Ser minha filha querida
Aquela que sempre eu quis!
Meiga, alegre, bondosa.
Fosse ela para mim,
Como em criança era assim,
E sobretudo carinhosa!
Agora a minha presença
Pra ela não vem ao caso
- 48 -
“Eu sou seu pai por acaso!”
Daí, me trata com indiferença
Assim a cada momento
A medida que o tempo passa
Mais vou sorvendo essa taça
Sabor de meu sofrimento!
Pra pintar meu sofrimento
Somente a ingratidão o pinta
Porque só ela usa a tinta
Que se ajusta ao meu tormento!
Dessa tal ingratidão,
Quanto mais eu me lamento
Mais se agrava o sentimento
Dentro do meu coração!
Ai meu Deus, quanta incerteza
Tenho-a em meu coração!
Quem me dera a solução
Que me curasse a tristeza !
Sinceramente, não sou capaz de dosar as influências que tiveram em mim as desavenças
entre Papai e Mamãe. Em algumas ocasiões, as discussões dos dois me incomodavam
bastante, mas ao mesmo tempo, eu tentava compreender todo aquele processo, levando
em consideração as desilusões que meu pai havia passado. Não sei a profundidade que
os mesmos problemas influenciaram os meus irmãos homens.
Minha irmã, Fátima, creio eu, ter sido talvez a mais atingida pelas desavenças de meus
pais. Irmã mais nova, atingiu sua fase de adolescência, exatamente quando ocorria o
crescimento dos desentendimentos entre os dois.
Não havia consenso entre Papai e Mamãe na forma de educá-la. Desta forma, Papai
dava uma ordem e Mamãe uma contra-ordem e vice-versa; o que prejudicou
sobremaneira o relacionamento dela com eles.
Fátima tornou-se arredia e, posso até dizer, uma pessoa revoltada e muito rústica no
tratamento que dispensava aos dois. Esta é a razão pela qual Papai se expressa em
“RETALHOS DE TRISTEZA” como se lê a seguir:
- 49 -
Mas, pelas incompreensões, divergências
Surgidas em nossa trilha,
Vamos sofrendo as conseqüências
Com relação à nossa filha.
Como eu seria feliz
Se me fosse dado na vida,
Ser minha filha querida
Aquela que sempre eu quis !
Meiga, alegre, bondosa.
Fosse ela para mim,
Como em criança era assim,
E sobretudo carinhosa!
Agora a minha presença
Pra ela não vem ao caso
“Eu sou seu pai por acaso!”
Daí, me trata com indiferença
Sempre que eu meditava sobre os desentendimentos de meus pais, procurava fazer
interpretações sobre a raiz do problema. A minha conclusão sempre se dirigia para o fato
de meu pai ter se casado com Mamãe, sem uma certeza de que a amava o suficiente,
que existisse simplesmente uma paixão e esta paixão naquele momento ou por alguns
anos, tivera encoberto os defeitos que ambos encontrariam reciprocamente.
Outra coisa possível era o fato de que Papai, com esta nova paixão esperasse encontrar
em Mamãe a nova Cicí de sua vida, descobrindo depois que enganara-se redondamente,
pois não existem substituições nestes casos, uma vez que cada pessoa possui
características próprias que não podem ser comparadas.
Após transcrever “RETALHOS DE TRISTEZA”, que eu não conhecia antes da elaboração
desta biografia, fica confirmada a hipótese da paixão e a ligação ao passado, que, sem
dúvida, representava Cicí, como se pode ler no que segue::
Por não sabermos escolher,
Devido a cega paixão,
Vou curtindo a solidão
E vivendo do passado.
Como podíamos prever
O que viria acontecer ?
- 50 -
É que, ao nos casarmos, depois,
Chegamos à realidade
Da incompatibilidade
Existente entre nós dois
Contudo, acho que Papai teve sua forma de amar minha mãe. Mesmo não sendo ela a
pessoa ideal, conforme suas expectativas. De uma coisa tenho certeza: “Papai foi um
homem fiel para minha mãe até a morte”; o que se traduziu num exemplo para todos os
seus filhos. A fidelidade sempre foi também uma característica de Mamãe, além da
extrema dedicação que sempre teve e tem pelos filhos.
Outra coisa que sempre me impressionou, apesar de todas as desavenças existentes, foi
a dedicação ao lar, que sempre caracterizou Papai. E, finalmente, a grande incoerência,
que era a preocupação que Papai tinha com relação à Mamãe, pela sua saúde, seu bem
estar, etc., e sempre procurou na medida de suas possibilidades, realizar as coisas que
Mamãe queria.
Por todas estas coisas, eu afirmo que “foi sábia a decisão de Papai e Mamãe de não se
separarem” e esta decisão exigiu renúncia de ambos e, para mim onde há renúncia,
existe amor, amor na sua mais forte acepção Cristã, que é o amor-doação. Talvez não
seja entendido por aqueles que tenham absorvido as novas formas de comportamento.
Esta doação e amor, que ele chamou “meu sacrifício”, estão bem expressos nos versos
nove a onze:
Não tomei a decisão
Que muita gente tem feito,
Pelos filhos e preconceito,
Que seria a separação.
Hoje, nos meus momentos tranqüilos
Sinto que meu sacrifício
Compensou com o benefício
De viver bem com meus filhos !
O que não teria se dado,
Se tivessemo-nos separado.
Como já citei anteriormente, Papai era uma pessoa extremamente sensível, a ponto de
exagerar nos seus sentimentos, considerava-se extremamente sofrido e marcado por
fatalidades, claro que estes sentimentos se pronunciaram mais na velhice, nos momentos
da chamada “depressão senil”, quando ele escreveu a maioria dos seus poemas.
Este fatalismo o marcava consideravelmente e foi expressado com fortes pinceladas em
“ADVERSIDADES”, escrito em abril de 1981, que transcrevo a seguir, e, que considero, o
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poema síntese do fatalismo de Papai. Pode-se observar suas mágoas e tristezas com
relação ao casamento, a revolta de Fátima, a morte da noiva e dos irmãos.
ADVERSIDADES
Há muita sorte adversa
Verificada na vida:
Viúvos de esposa viva
E bem assim vice-versa
Que mundo de sentimentos tortos!...
Quantos órfãos de pais vivos!
Ainda, quantos pais vivos,
Que Pra certos filhos são mortos!
De um pai a grande tristeza
Que mais o atormenta a vida
É ter no peito a certeza
De ser a filha perdida!
De um jovem tomado de paixão
Por sua noiva querida!
Por quem tanto sonhara na vida!
E vê-la morta dentro dum caixão!...
De uma santa mãe, cuja sorte,
Com cinco filhos, cheia de esperanças!
Quando perdera quatro ainda crianças!
Arrebatados, bruscamente, pela morte!
Assim, há muito sofrimento oriundo
De tantos males presentes e passados
Que sem falar de casamentos fracassados...
Há infinidades de adversidades neste mundo.
Mas Papai não foi só o homem triste e sofrido, tinha os seus grandes momentos de
alegria e não podia ser diferente, pois não era nem um Deus perfeito, nem um Satanás,
ERA UM HOMEM, com todos os seus defeitos e virtudes, para a minha opinião com
muito mais virtudes e a maior delas foi ser um VERDADEIRO PAI, por isto o nome deste
capítulo ser “O pai de família”, é sobre um pouco deste grande homem como pai, que
passo a fazer alguns interessantes relatos, que me envolvem e a meus irmãos.
Não sei precisar a idade a partir da qual me lembro das histórias que passo a contar;
mas, considerando que me lembro do dia em que Mamãe foi para a maternidade para dar
à luz meu primeiro irmão Antônio, eu tinha quatro anos completos. Na verdade, estes
fatos iniciais são lampejos de memória.
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Morávamos na Estrada do Caiara, uma transversal da avenida Caxangá, na localidade
chamada Bomba Grande, mais ou menos o limite entre os Bairros da Iputinga e do
Cordeiro. A casa era de taipa, pequena mas muito agradável.
Não me recordo de discussões entre Papai e Mamãe nesta época; me lembro sim, que
todos os dias de manhã, cedinho, antes de ir trabalhar, ele saía a passear conosco, eu e
meus dois irmãos, pelas campinas. Era um passeio gostoso, pisando nos matos ainda
molhados do orvalho da madrugada; a vacaria de seu Danda; a ponte de tronco de
coqueiro sobre um riachinho, que a gente passava nela se equilibrando e tome conversa.
Nesta época Papai já era funcionário do Governo do Estado e seu expediente começava
a partir das onze horas.
E assim, Papai fazia conosco o mesmo que fizeram com ele os seus pais. Naquela época
não existia televisão com sua função de separar as pessoas, mesmo que reunidas em
uma mesma sala. Papai realmente nos curtia e nos cativava.
“Eu te cativo, tu me cativas”
(Saint Exupery).
Na rua que morávamos, realizava-se anualmente a parte profana da festa de São
Severino dos Ramos. Eram instalados carrosséis, roda-gigante, jaús para adultos e
crianças, montanha-russa e outros divertimentos comuns nestas festas de bairro, como a
bela e a fera, a mulher que virava lobisomem, etc., junte-se a isto as pipoqueiras, as
bolas de oxigênio, além das tradicionais guloseimas, como castanha de caju e amendoim
confeitado, tapioca-de-coco, churrasquinho-no-espeto e por aí. A gente se esbaldava
durante aqueles nove dias, que correspondia à novena de São Severino.
Todas as noites depois da novena, rezada numa pequena capelinha no final da rua íamos
com Papai para os brinquedos do parque de diversões e ele nos punha a correr em todas
aquelas bugigangas, comprava bexigas, que eram cheias com um gás, que mais leve que
o ar fazia com que as mesmas flutuassem amarradas a uma linha, no ou dia estavam
murchas e não flutuavam mais, mas todas as noites, enquanto durava a novena Papai
comprava novas bolas.
Lembro-me bem que tudo para mim tinha uma dimensão muito grande. A rua do parque
de diversões era enorme, o período dos festejos demorava bastante, a semana era longa
demais. É a relatividade do tempo e espaço em nossa vida de criança, que depois, com o
passar dos anos, a gente vai descobrindo como as coisas passam rápido; estas coisas
boas que se passaram há cerca de 40 anos, parecem-me, hoje, que ocorreram ontem.
Papai sempre falava sobre estas impressões, de como o tempo passava mais rápido à
medida que a gente ia crescendo e envelhecendo.
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Certo dia apareceu uma novidade na rua em que morávamos. Em um terreno baldio, que
ficava no final da rua, começaram a armar um circo, desses sem cobertura, só com as
lonas laterais. Chamava-se Circo Uberlândia.
A curiosidade crescia dentro de nós diante daquele novo acontecimento. Acompanhamos
da frente de casa os trabalhos das pessoas que armavam o circo, foi um trabalho rápido,
em uma manhã concluíram tudo.
Depois do almoço, uma grande algazarra na rua chamou nossa atenção. Corremos para
frente de casa e nos surpreendemos com um dos palhaços do circo sobre pernas-de-pau.
Vestia longa calça listrada verticalmente, cobrindo as longas pernas de mais de 2 m de
altura.
A meninada o acompanhava zoarenta, respondendo a uma série de perguntas da autoria
daquele exímio equilibrista, que fazia a propaganda do espetáculo de logo mais à noite.
Aqueles que acompanhavam o pernas-de-pau tinham direito a ingresso grátis para o
espetáculo. Nunca acompanhei aquele palhaço, Mamãe não deixava. – Isso é coisa de
moleque, dizia ela.
Papai nos levou várias vezes àquele circo. Ficávamos embevecidos com as evoluções
dos trapezistas, e os palhaços nos arrancavam grandes gargalhadas. Devido ao fato de
não ter lona de cobertura, o povo denominava o circo de: Deus tomara que não chova.
Acredito que o circo tenha se demorado ali por mais de um mês. Um dos palhaços,
chamado “Canetinha”, conversava sempre com Papai na frente de nossa casa. Era bem
diferente de quando se caracterizava com suas pinturas de rosto, sua roupa frouxa e
sapatos enormes, que causava dificuldade em seu caminhar.
Nas festas de São João ficávamos ansiosos esperando Papai chegar do trabalho na
véspera deste tradicional folguedo nordestino; dias 23 e 24 de junho. Ele não dispensava
a fogueira na frente de casa, às seis horas ele acendia a fogueira e começavamos a
soltar fogos, até dez, onze horas.
E a brincadeira continuava no outro dia continuava, soltava-se fogos ao meio-dia,
principalmente os de tiros como “bombas”, “peido-de-velha”, “bicha-de-rodeio” e à noite,
após reacender a fogueira tome novamente os fogos de artifício como “pistolas”,
“assovios”, “estrelinhas”, “rodinhas”, “mosquitinhos-do-ar”, “emboás”, “cara-dura”,
“vesúvios”, “vulcões” e outros.
Papai gostava também de soltar pequenos balões, que eram comprados prontos nos
bazares de fogos. Naquela época não havia proibição para soltar balões, proibiram para
evitar que os balões quando caíssem não queimassem as matas, grande coisa, cortaram
depois quase todas as matas para plantar cana e fazer moradias e fábricas, em nome do
progresso, pensava eu à medida que ia crescendo..
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Só me recordo de uma vez, já quando morávamos na nova casa da Rua Conselheiro
Silveira de Souza, que Papai comprou os fogos somente na véspera de São João e
pediu, constrangido, para economizarmos pois não tinha tido condições de comprar mais
naquele ano.
Nunca Papai nos disse nada sobre a compra daquela pouca quantidade de fogos, mas,
eu e meus irmãos, sempre pensamos que Papai pediu dinheiro emprestado para comprálos. É possível até, que, sendo verdade esta nossa suposição, alguém ignore esta atitude
de Papai, mas, não adianta; ele era capaz de tudo pelos filhos e nós o temos sempre em
nossos corações por todos os seus feitos e resoluções que ele tomava.
Sobre esta nossa nova residência, chega-me vagamente à memória as conversas que
Papai estava à procura de um terreno para construir uma casa. Bem mais tarde vim a
saber através do próprio Papai que ele havia comprado o terreno no outro lado da
Avenida Caxangá, seguindo os conselhos de minha avó que dizia que ele não devia
comprar terreno no lado que morávamos devido a possíveis enchentes do rio Capibaribe.
Ora, não me lembro de enchentes naquela época, uma coisa eu sei Papai obedecia
cegamente a sua mãe e nunca perdeu com isto, pelo contrário. Várias cheias ocorreram
depois de nos mudarmos para a nova casa, nunca atingindo nosso lado. Somente na
grande cheia de julho de 1975, a água atingiu nossa casa em cerca de 50 cm, enquanto
no lado que morávamos antes, muitas casas foram totalmente cobertas.
Quanta premonição nos conselhos de minha avó, quanta sabedoria na obediência de
Papai!
Papai comprou o terreno seguindo aqueles sábios conselhos e iniciou a construção da
casa com empréstimo imobiliário do IPSEP (Instituto de Pensão dos Servidores do
Estado de Pernambuco) e, com grande sacrifício, conseguiu construí-la. As parcelas do
empréstimo eram irregulares e Papai, nos períodos entre a liberação de uma parcela e
outra, tocava os serviços com seus próprios e parcos recursos.
Chegou o ano de 1954 e com ele nossa mudança para a casa nova da Rua Conselheiro
Silveira de Souza nº 1181. Não sei precisar o mês que nos mudamos, mas, estava
realizado o sonho de Papai e também, o nosso.
Continuava nossa noção infantil de espaço grande e tempo demorado. Que casa grande
aquela! Alta, de alvenaria, terraço bem espaçoso, toda estucada, água encanada,
paredes emassadas em plastex (a novidade do momento) e portas bonitas com
maçanetas metálicas bem brilhantes. Como era diferente da nossa simples casinha de
taipa da estrada do Caiara! E Papai orgulhoso do seu novo lar. E o quintal? Papai já havia
providenciado as mudas de mangueiras, uma delas trazida da antiga casa.
- 55 -
E começamos nossa nova vida no novo lar. Papai continuava no seu expediente a partir
das onze horas e nossa rotina de passeios matinais não mudara, agora em novas plagas;
o sítio de seu Chinino, a baixada para a Rua do Camarão, o mesmo riacho que
passávamos antes lá no Caiara, só que em outro trecho, que também para atravessá-lo
usava-se uma pontezinha de troncos de coqueiro, que se denominava “pinguela”.
Mamãe estava grávida outra vez. Desta feita, havia muita expectativa; pois ela havia feito
mastectomia há cerca de três a quatro anos por ter contraído câncer no seio, se apegara
muito com Nossa Senhora de Fátima para tudo correr bem.
E tudo correu bem e, no dia 20 de agosto de 1955, nascia uma menina, que recebeu o
nome de Maria do Rosário de Fátima; em homenagem à Senhora de Fátima.
Foi uma alegria geral. Éramos três homens e agora havia, uma menina. Papai e Mamãe,
nem se fala! Tínhamos, depois de um mês ou dois, nova companhia nos nossos
passeios matinais. Os braços de Papai se ocupavam agora da pequenina Fatinha, muito
alvinha e com bochechas bem rosadinhas.
Fazíamos novas amizades pela redondeza: os filhos de Anita e Tônio, nossos primos,
que eram nossos vizinhos, os filhos de Manoel Carlos e dona Argemira, que moravam na
casa após a de Tônio, e, à noite, nos juntávamos na frente de casa para brincar de
“pega”, “queimado”, “barra-bandeira”. Como se brincava! Ainda não existia televisão!
OS MEUS FILHOS PEQUENINOS
Filhinhos dos amores meus!
Ó dádivas de Deus,
Que tanto as acaricio!
Florinhas
De perfume leve,
Alvinhas
Como a neve,
Em manhãs de estio!
Vidinhas da minha vida!
Tal primavera florida,
Fontes de tanta bonança!
Criancinhas
Provindas do meu amor!
Tenrinhas
Como uma flor,
Motivos de tanta esperança!
Poema de Papai para seus filhos.
- 56 -
ZULMIRA DA NÓBREGA FONSECA,
Mãe de “Seu Grande”.
- 57 -
“SEU GRANDE“
Com cerca de 9 anos
- 58 -
Uma quadrinha que fez para Fátima:
O RISO DA MINHA FILHA
Toda a riqueza da terra,
Mesmo o sol que tanto brilha,
Não tem a beleza que encerra
O riso da minha filha!...
Em seu caderno de poemas, após escrever OS MEUS FILHOS PEQUENINOS se lia o
seguinte:
Como sempre gostei muito de crianças, faço figurar nesta página o seguinte soneto
extraído do livro Primores da Poesia Portuguesa, isto é, uma coletânea de vários poetas,
entre os quais; Guerra Junqueiro, Anthero do Quental, Gonçalves Crespo e tantos outros;
este por exemplo é da autoria de Antônio Macedo Papança:
AOS TRISTES
Uma criança que salta,
Que canta, que ri e chora
É uma risonha aurora
Que o coração nos esmalta.
Triste daquele a quem falta,
Na vida que se evapora,
Uma criança que salta,
Que canta, que ri e chora.
Se o desalento me assalta,
Se a doença me devora
Dá-me uma estranha melhora,
Que me anima e que me exalta,
Uma criança que salta,
Que canta, que ri e chora
Antônio Macedo Papança (Conde de Monsaraz)
- 59 -
As histórias da convivência e trato com os filhos do grande PAI DE FAMÍLIA não
terminam aqui. Muitas coisas continuam muito vivas em minha lembrança, que não
podem deixar de ser contadas.
São fatos exemplares, não só para nós; seus filhos, que somos agora pais como ele, bem
como para nossos filhos e sobrinhos e outros parentes que estejam desempenhando ou
que venham desempenhar a nobre função de ser pai.
Durante todo o seu relacionamento comigo e meus irmãos em nossas fases de crianças
e adolescentes Papai sempre manteve a cabeça fria. Uma única vez ele bateu em
Antônio e em César. Comigo apenas levantou a mão uma vez, mas não chegou a bater e
com Fátima não me recordo sequer que ele tenha, ao menos levantado a mão. Nem por
isso deixamos de obedecê-lo! Não que fôssemos santos, mas pelo fato dele saber impor
sua autoridade apenas com o olhar.
Quando mais crescidos respondíamos, éramos contrários a alguns dos seus conceitos,
relutávamos algumas vezes em aceitá-los, mas sempre terminávamos obedecendo-lhe.
Até mesmo Fátima, que de certa forma, por razões já mencionadas, era um tanto quanto
revoltada e mais independente no período de sua adolescência e juventude; acabava, às
vezes, cedendo; embora contestando de viva voz ou em seu íntimo.
Contudo, posso assegurar que, apesar do constrangimento de Papai com relação ao
comportamento arredio de Fátima, ele lhe devotava um carinho todo especial.
Representava sem dúvida o bom pastor; o que me faz lembrar a “Parábola da Ovelha
Perdida” do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, narrada por Lucas, capítulo 15,
versículos 5 a 7: “Quem de vós que, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa
as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu até encontrá-la? E
depois de encontrá-la, põe-na nos ombros, cheio de alegria e, voltando para casa, reúne
os amigos e vizinhos dizendo-lhes: alegrai-vos comigo, achei a minha ovelha que se
havia perdido”. Dentro da sua rígida concepção moral e religiosa, Fatinha era a ovelha
desgarrada, mas tudo fazia para mantê-la junto ao seu rebanho.
Janeiro de 1960. Meus irmãos César com 11 anos e Antônio com 13, entraram para o
Seminário dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. Eu já contava com quase 17 anos,
tivera a experiência da primeira e segunda namoradas, meu relacionamento com a vida já
era um pouco diferente daquele dos meus irmãos.
Papai não fez qualquer oposição à vontade deles. Ele sempre nos respeitou como
pessoas e acatava as nossas vontades; desde que não fossem absurdas para os seus
conceitos.
Contudo, a saída dos meus irmãos para o seminário, com o vazio das suas ausências,
mexeu bastante com Papai, acostumado que era de sempre tê-los em casa.
- 60 -
Mamãe preocupava-se quando chegava a hora da resenha esportiva pelo rádio, sempre
assistida diariamente por ele e pelos meninos, Papai saía para frente de casa, pois seus
companheiros de audição daquele programa não se encontravam em casa. Não faltava
por hipótese alguma, às visitas ao seminário. Não esquecendo de levar algo para os dois.
A saudade de Papai era muito grande e transparecia isto para todos.
A este respeito me recordo de um fato ocorrido muitos anos depois. Precisamente em
dezembro de 1972; já me encontrava casado e no mês de janeiro daquele mesmo ano,
eu havia ido para São Paulo para realizar curso de pós-graduação na USP. Rara era a
semana que Papai não escrevia uma carta, além dos quase semanais contatos que
mantínhamos por telefone. Nunca mais me esqueci da sua alegria no meu retorno junto
com minha esposa e minhas duas filhas ainda pequenas. Sem qualquer cerimônia, ele
pulou a mureta que naquela época separava o saguão de espera do aeroporto da pista
de pouso, indo nos encontrar correndo no pátio das aeronaves e quão grande foi a sua
satisfação em conhecer a nova neta que havia nascido em São Paulo!
Voltando à época quando meus irmãos estiveram no seminário, não me parecia, apesar
de ser católico convicto e praticante, ser Papai muito favorável à ida de Antônio e César
para a clausura. Sempre achara ele ter havido muita influência para aquela decisão dos
meus irmãos, por parte do vigário da nossa paróquia, o que depois foi constatado quando
da saída dos meninos daquele estabelecimento de preparação para o sacerdócio. Da
mesma forma que ele concordou com a saída, apoiou a volta para casa e, talvez, com
muito mais satisfação.
Os tempos mudavam; já tínhamos fogão a querosene, e chegara a vez de comprar uma
geladeira. Aperta daqui, aperta dali e comprou. Foi uma alegria danada quando chegou a
dita cuja em nossa casa. “Bota água pra fazer gelo!”, e, lá pras tantas, tava a meninada
toda chupando picolé de água. Era o entusiasmo primeiro de se ter em casa um objeto de
pessoas mais abastadas financeiramente. Papai vibrava não só por ele como por toda
família: – “Vamos fazer picolé de maracujá?” – perguntava ele animado.
Bem mais tarde, quando eu já contava com 17 ou 18 anos, década de 1960, Papai
comprou um televisor. Ainda me lembro da marca: Visorama. Um monstrengo de 20
polegadas, pesadíssimo, mais de 60 cm de profundidade devido ao tamanho do tubo de
imagem. Papai trabalhava no estado no expediente de 7 às 13 horas e, na parte da tarde,
saía de porta em porta a vender televisores, comprando o seu com dinheiro das
comissões de vendas. E passamos de televizinhos para gozar daquela “maravilha” da
eletrônica em nossa própria casa.
Antes do advento da televisão à nossa cidade, a diversão era o cinema. Havia cinema em
quase todos os bairros; Cine Iputinga, na Iputinga, Cine Cordeiro e Cine Brasil, ambos no
bairro do Cordeiro. Este último pertencia à rede de cinemas de Luiz Severiano Ribeiro.
Era um cinema moderno, com tela para cinemascope e som de alta fidelidade.
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As quartas e sábados íamos ao cinema com Papai e nos dias de domingo, ia a meninada
e a rapaziada toda para a matinê. Apagavam-se as luzes e começava a sessão: jornal da
Atlântida, os traillers dos próximos filmes, o filme principal e, no final da sessão, as
famosas séries ou seriados semanais: “Flashe Gordon no Planeta Marte”, “O Cavaleiro
Negro”, “O Zorro”, e tantos outros. Certo dia houve uma briga entre mim e meus irmãos,
que não me lembro qual o motivo e lá ficamos nós de castigo, proibidos de ir ao cinema
por várias semanas. Que sofrimento!
Assim foi nossa infância, adolescência e juventude com Papai, tantas coisas
maravilhosas nos proporcionava e, quando já casados, jamais deixamos de contar com
as suas constantes e agradáveis visitas às nossas casas. Quando por razões de trabalho
moramos em outro estado, seus telefonemas semanais eram sagrados e as suas visitas
anuais de quinze dias ou um mês nos causavam recíproca satisfação.
Jamais ele interveio no nosso modo de vida com nossos cônjuges; nem no modo com
que educávamos nossos filhos. O grande PAI DE FAMÍLIA passara a ser o grande
SOGRO admirado e respeitado por suas noras e genro, e se transformaria também no
grande AVÔ DEDICADO.
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O AVÔ DEDICADO
“Os filhos dos filhos são a coroa dos velhos e a glória dos filhos são os pais.”(Prov. 17,6)
Com o nascimento da minha primeira filha Maria Angélica a 20 de fevereiro de 1971, o
velho PAI DE FAMÍLIA tornou-se o AVÔ DEDICADO. Todos os sábados, antes de ir para
a missa vespertina, Papai passava em nosso apartamento e ficava passeando com ela na
maior animação.
Dedicou aos seus netos uma série de sonetos e poemas. Na espera ansiosa, da chegada
de cada novo rebento de sua descendência, versejava sobre os possíveis nomes que
iriam ganhar. Assim foi em: “PROGNÓSTICO DO VOVÔ” e “SAULO OU TATIANA ?”.
Em “NOSSA PRECE PELO NETINHO”, pediu a Deus que o novo neto fosse perfeito
fisicamente, fosse ele menino ou menina, pois o sexo para ele não era o importante, por
não ser uma escolha nossa mas sim um resultado da própria vontade do Supremo Ser.
Neste mesmo soneto, o bom vovô aproveita a última estrofe para dar uma lição de
respeito e bons costumes:
Que saiba discernir o direito
E... Seja um filho de verdade,
Que trate os pais com respeito!
Com o nascimento de Paulo, no dia 9 de agosto de 1978, minha esposa se submetia à
terceira cesariana, aproveitando o parto para fazer a laqueadura das trompas. Na época
os médicos não aconselhavam mais que três cesarianas. Papai se confessava triste com
aquela cirurgia, eu e minha esposa também, nosso planejamento familiar era quatro
filhos, como cessaria naquela ocasião a prole do seu filho primogênito e, nas duas
estrofes finais do soneto dedicado a Paulo ele expressou seu sentimento a este respeito:
Pra mim... É lamentável saber
O que veio acontecer
Pela força do destino...
E ficar, portanto, encerrada,
A prole tão estimada
Da qual veio esse menino...
A exemplo do que acontecera com Zeza, Amélia, esposa de César, também fizera
laqueadura de trompas após o nascimento de João Bosco no dia 22 de janeiro de 1982 e
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Papai ao dedicar seu poema à este novo neto, em uma só palavra – “derradeiro” –
expressou sua tristeza por este fato:
Qual avezinha que no aconchego de seu ninho,
Recebe da mãezinha o calor fagueiro!
Repleto de alegria, amor e carinho!
Por seu rebento tão lindo! Mas derradeiro...
Quando Fátima deu à luz Arturinho ainda não havia se casado com Arturo, e isto foi um
grande golpe para Papai no que tocava aos seus princípios religiosos, principalmente,
pela razão de ser Fátima, sua única filha.
Ele falava que tinha um desgosto muito grande por isto, uma vez que todos os seus filhos
homens haviam se casado civil e religiosamente.
Fátima casou-se posteriormente no civil. Considero, contudo, que ela foi coerente com
suas convicções, uma vez que havia se afastado na época da religião Católica, tornandose Hari Krishna, tanto que, como se verá adiante, à exceção de Arturinho os seus demais
filhos têm nomes relacionados com aquele credo religioso.
No credo Hari Krishna, o enviado especial de Sri Krishna, o Supremo, chama-se Arjuna.
Os nomes Indra, Narayana e Surya correspondem a deuses menores, inferiores a Sri
Krishna.
Mais uma vez chamo atenção para a grande sinceridade de Papai. Sua palavra sempre
foi sim, sim, não, não, sem existência de meio-termos. No poema dedicado a Arturinho
ele demonstra seu pensamento a respeito da “ilegitimidade” deste neto, o que não o
impede de considerá-lo “meu neto, filho de minha filha” e “meu netinho querido e
estimado”. Refere-se também ao “passo incerto” de Fátima, por ele considerado.
Contudo, faz questão de ressaltar o posterior casamento civil, citando inclusive o número
da certidão de casamento e nome do Cartório, conforme se verá em nota sob o poema.
Os poemas e sonetos que seguem foram dispostos na ordem cronológica do nascimento
de cada neto, uma vez que, somente em alguns deles, Papai anotou a data da
composição.
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MARIA ANGÉLICA
Fora, em mil novecentos e setenta e um,
Que, a vinte de fevereiro,
Neste dia alvissareiro!
Da minha casta de netos, nascera a de número um!
Sentira-me feliz! Como nenhum
Outro ser no mundo inteiro,
Muito alegre, lisonjeiro!
Com aquele evento incomum!
Perfeita qual uma flor! Sendo também muito linda!
E assim continua ainda
Até a presente época!
Os pais puseram-lhe, então,
Cheios de muita razão
O nome de... “Maria Angélica”!
Nota minha: Maria Angélica nasceu em Recife, no dia 20 de fevereiro de 1971. O
soneto foi composto em dezembro de 1978.
CYNTHIA MARIA
A outra que nasceu depois,
É paulista. É da terra do barulho!
Foi a vinte e três de julho
De mil novecentos e setenta e dois.
Com esse acontecimento, pois,
Não pude dominar meu orgulho!
Sentia-me n'alma um arrulho
De carícia, àquela que nasceu depois!
A cor de sua tez é morena,
Da maciez d'uma açucena!
Enfim... é uma criança linda e sadia!
E o nome, que lhe foi pôsto
Pelos pais com muito gosto,
Foi o de... Cynthia Maria...
Nota minha: Cynthia nasceu em São Paulo, no dia 23 de julho de 1972.
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PAULO DE TARSO
Após seis anos de espaço
Nasceu a nove de agosto
De mil novecentos e setenta e oito,
Um lindo menino! Mas, lindo mesmo de fato
Sempre confirmo o que digo,
do mesmo modo o que faço
Pois, trata-se de um belo garoto
E ainda bem, de bom gosto,
Chama-se Paulo de Tarso!
Pra mim... É lamentável saber
O que veio acontecer
Pela força do destino...
E ficar, portanto, encerrada,
A prole tão estimada
Da qual veio esse menino...
Nota minha: Paulo nasceu em Recife, no dia 9 de agosto de 1978.
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PROGNÓSTICO DE VOVÔ
Seja menino, ou menina,
O bebê que vai nascer,
Cesar Filho? Pode ser.
Ou Maria Carolina.
A alegria me fascina,
Quando isto acontecer,
Seja menino, ou menina,
O bebê que vai nascer.
É tão grande a minha estima,
Por gente tão pequenina
Que ninguém pode conter.
... Tudo de bom venha ter!
Seja menino ou menina,
O bebê que vai nascer!
Nota de Papai: Aos filhos César e Amélia quando esta estava grávida de César Filho.
CESAR FILHO
Agora, quando sinto que minha vida vai
Avançando da sua trajetória um longo trilho,
Surge mais um neto. O Cesar Filho!
Herdeiro dos nomes do meu, e do seu pai.
Nosso jardim tem uma florinha a mais
Que comparada, assim... a um junquilho,
Com sua pureza, seu perfume e brilho!
Enche-nos de amor, felicidade e paz!
Inda há poucos dias eu fitando,
Sorridente, os lindos olhinhos dele
Pareciam-me tão meigos e serenos.
Comparando-o aos outros, fico pensando
Que, sendo ele o mais novinho, é ele
O neto com quem hei de viver menos...
Nota minha: César Filho nasceu em Recife, no dia 29 de novembro de 1978.
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Apesar de uma fase de “depressão senil” pela qual Papai passava, sua alegria era
imensa com o nascimento do novo neto e o nome dele lhe trazia grande alegria: “Herdeiro
dos nomes do meu, e do seu pai”.
Nota de Papai: Nessa época, eu me achava muito pressentido com a morte.
SAULO OU TATIANA?
Vem por aí, mais um netinho chegando!
Neste Ano Universal da Criança!...
Por cuja vinda, com tanta confiança!
Estamos, alegremente, esperando.
Quanto mais o tempo vai passando,
Dentro de nós, nosso desejo avança,
De recebê-la nos braços, essa criança,
Que tanto amor, já nos vem causando!
Curioso, a seu pai, eu perguntei:
Que nome terá teu filho, que inda não sei?
(Isso, foi na praia, num fim de semana)
Ele me respondeu tranqüilo e calmo:
“Se for menino, chamar-se-á de Saulo
E, se menina, se chama Tatiana”.
Nota de Papai: Fev. 1979 - O nome Tatiana foi posteriormente optado para Juliana.
- 68 -
SAULO
Manhã, sexta-feira, catorze de setembro,
Deste Ano Internacional da Criança,
Certa família – Morais Costa – cheia de esperança,
Recebe prazerosa o seu primeiro membro!
Com este acontecimento ainda mais relembro,
Dois que jamais se me apagam da lembrança,
Que no ano precedente ao da criança,
Ocorreram nos meses de agosto e de novembro!
São três netinhos nascidos nesses dois anos,
Que com tanta graça me amenizam os desenganos,
São eles: Paulo, Cesar Filho e agora, Saulo!
Este me trouxe uma alegria imensa,
Que me provoca uma vontade intensa
De poder sofregamente acaricia-lo!
Nota minha: Saulo nasceu em Recife, no dia 14 de setembro de 1979.
NOSSA PRECE PELO NETINHO
Já está chegando a hora
De mais um netinho nascer!
Como será esse agora?
Deus é quem pode saber!...
Menino ou menina, embora,
Nós não vamos escolher.
Uma prece ao Pai, nesta hora,
É tudo o que vamos fazer:
– Pai, Dá-lhe um físico perfeito,
Um espírito de bondade,
E que seja bom, com efeito!
Que saiba discernir o direito
E... Seja um filho de verdade,
Que trate os pais com respeito!
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Nota de Papai: O poema acima foi composto Em 12-02-80, dia em que Amélia foi para a
maternidade N. Sra. de Fátima, dar à luz a Maria Carolina.
MARIA CAROLINA
Nasceu Maria Carolina
Essa menina
Tão esperada!
Não vi ainda
Coisa tão linda
E mais estimada!
Ela nos trouxe
Muita alegria
E nem poderia
Se assim não o fosse.
Pois, ela nasceu
Para nosso bem
E por este meio
Foi que ela veio
Ser nossa também
Que ela nos seja
Sempre querida
E sempre a veja
O bom lado da vida
Aonde o esteja
Que essa menina
Tão meiga, tão linda,
E tão esperada
Seja querida,
De todos na vida
E sempre estimada
Nota minha: Maria Carolina nasceu em Recife, no dia 12 de fevereiro de 1980. Poema
composto em 20 de fevereiro de 1980.
- 70 -
NASCEU JULIANA
Tarde, sábado, dez de janeiro.
Oh! Que dia prazenteiro!
Que belo fim de semana!
Exultamos!...
Muita alegria!
Saudamos
Tão grande dia,
Porque nasceu Juliana!
Há mais uma estrela surgida,
Ao longo da minha vida,
É mais uma flor que aparece.
Netinha
Que tanto a quero!
Santinha
Que tanto venero!
E tanto a minh'alma envaidece!
Nota minha: Juliana nasceu em Recife, no dia 10 de janeiro de 1981.
JOÃO BOSCO
Mais uma flor que surge em meu caminho
Nesta manhã de vinte e dois de janeiro!
Com o nascimento ditoso de um netinho,
Pelo que me sinto feliz e lisonjeiro!
Qual avezinha que no aconchego de seu ninho,
Recebe da mãezinha o calor fagueiro!
Repleto de alegria, amor e carinho!
Por seu rebento tão lindo! Mas derradeiro...
E assim veio o nosso querido João Bosco
Para também participar conosco
De nossas vidas sem riqueza nem herança!
Pois, muitas graças, portanto, sejam dadas!
Por sua almejada e feliz chegada!
Motivo de nossas alegria e esperança!
Nota minha: João Bosco nasceu em Recife, no dia 22 de janeiro de 1982.
- 71 -
ARTURINHO
Nasceu o meu neto, filho da minha filha.
Mesmo, não sendo como os outros legitimado,
Mas... é meu netinho, querido e estimado,
Enfim... há no meu “Céu” mais uma estrela que brilha
Este é um marco ao longo da minha trilha
Que me torna por demais sensibilizado,
Diante de um passo incerto, por mim considerado,
Dado inconseqüentemente pela minha filha!
Mas não se pode reparar um mal sem jeito,
Nem tão pouco lamentar o que já está feito.
Pois, que esse menino antes de nada mais,
Seja mesmo, um bom filho! E com efeito
Tenha-o pelos seus, um grande afeto e respeito
Ao invés de outros que não ligam pra seus pais!
Nota minha: José Arturo nasceu em Recife, no dia 17 de abril de 1982. Papai fez a
seguinte anotação: “Os pais depois se casariam civilmente. Conforme Certidão nº 1.420
de 1/7/84, lavrada no Cartório de Areia - PB”
- 72 -
INDRA
Chama-se Indra, esta nova netinha!
(Ouvi falar ser um nome indiano),
Que no dia sete de março deste ano,
Ela nasceu, Pra mais uma alegria minha!
Assim, dentre dissabores, desenganos,
Vou colhendo aqui e ali, uma Florzinha!...
Para lenitivo nesses longos anos,
De uma vida, ora, curtida e tão sozinha!
Indra!...Que seja muito feliz a tua vida!
Que sejas por todos nós sempre querida,
E...Muito grata e amiga de tua mãezinha!
Pois, por seu intermédio vieste ao mundo
Sob seu sofrimento e seu amor profundo!
Naquele citado dia, já de tardezinha...
Nota minha: Indra Elena nasceu em Recife, no dia 7 de março de 1984. O soneto foi
composto em abril de 1984.
NARAYANA
Mais uma flor brotou no meu jardim.
Uma florzinha chamada Narayana,
Que a dois de agosto dum lindo fim de semana,
Ela trouxe mais alegria para mim!
É mais um gozo que do meu ser se emana,
Como se vê, é minha vida mesmo assim:
Um lado, de tristezas, e eu chegando ao fim...
E noutro, de alegrias, mais uma pequena chama!
Não sei de nenhum significado,
Nem de motivos em torno de teu nome,
Que, o é, para mim tão singularizado.
Mas, estou certo, entretanto, que nele some,
Um todo de graça e beleza a teu lado
E que depois de uma longa vida se consome...
Nota minha: Narayana Flora nasceu em Recife, no dia 2 de agosto de 1985.
- 73 -
SURYA
Mais uma florzinha mimosa,
Desabrochou no meu jardim!
Ela tem a forma duma rosa,
E o perfume dum jasmim!
Essa florzinha mimosa
Surya, é o seu nome assim:
Não sei se é uma espécie de rosa,
Ou uma espécie de jasmim!
Sei bem que a flor do momento,
A quem tanto me detenho,
De todo o meu sentimento!
Enfim... É mais um poema que tenho,
Fruto do meu pensamento,
Para inserir no meu canhenho...
Nota minha: Surya nasceu em Recife no dia 21 de novembro de 1986. Papai compôs este
soneto no dia 30 de novembro, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital dos
Servidores do Estado de Pernambuco, restabelecendo-se de uma insuficiência
cardivascular.
Faltou apenas o poema dedicado a Arjuna Joaquim, o filho caçula de Fátima, nascido a
03 de maio de 1988, dois meses após o falecimento de Papai. Mas, seu poema Arjuna,
deve ter sido composto por Papai junto aos Anjos da eterna morada do Pai Universal.
Deve ter sido o mais lindo, sem desmerecer todos os outros que ele compôs.
- 74 -
“SEU GRANDE”
Por volta dos 35 anos.
- 75 -
NEUSA DE MEDEIROS COSTA,
Esposa de “Seu Grande”
na época do casamento.
- 76 -
Jamais esqueci dos dias em que todos nós nos juntávamos em casa de Papai, sempre
aos domingos e feriados, junto com nossos filhos. Eram dias especiais para ele. Deitado
na rede do terraço tirava graça com um, afagava um outro e assim passava todo o dia
satisfeito da vida com a presença zoarenta de sua segunda geração.
Ia chegando a tardinha e ele já começava a dizer que o dia de alegria estava terminando:
– “Daqui a pouco vai todo mundo embora e eu fico por aqui curtindo minha solidão”.
O tempo foi passando, chegou a festa de 15 anos de Angélica, Papai estava eufórico:
– Não esqueça do convite de Tio Joaquim. Mandou convite para Maria?
Claro que participou de todos os momentos; da Missa de Ação de Graças, da Festa no
Clube da Telpe, dançando elegantemente e emocionado a valsa com sua primeira neta.
Estas imagens tenho gravadas em videocassete e pela atualidade do poema que Papai
fez para Angélica, gravei-o também naquele vídeo.
Tio Joaquim não pôde comparecer ao aniversário de Angélica, e em um trecho da carta
escrita para ele em 7 de março de 1986, Papai fala do evento e de sua primeira neta:
“Quanto à falta da presença do Senhor e dos seus à festa do aniversário de 15 anos da
minha primeira neta, aliás dos 11 netos que tenho (nesse caso de prole estou muito
distante do Senhor, mas muito distante mesmo), gostaríamos bastante de vê-los
presentes... Eu muito gostaria de ver outras pessoas suas comparecerem...Foi uma festa
organizada com muito gosto pelos pais da menina e realizada, sinceramente, com
destaque, a que muito me surpreendeu! Ela, a minha neta é uma criaturinha adorável!
Meiga, linda, inteligente, estudiosa, enfim muito digna e merecedora de toda essa
consideração! Breve, faremos o possível para fazer-lhes uma visita...”
Nos 15 anos de Cynthia Maria, Papai já se encontrava doente. Mesmo acometido por
dores, compareceu à Missa de Ação de Graças, mas, pediu-me, que o dispensasse da
festa no clube.
A exemplo do aniversário de Angélica, também fiz um videocassete e a imagem de Papai
foi também gravada, pena que ela nos traz uma triste lembrança, ali eu já estava
consciente que sua doença era fatal e aquilo me causava muita angústia.
O poema que segue, em homenagem aos 15 anos de Cynthia foi sem dúvida o último
poema de Papai:
- 77 -
CYNTHIA MARIA
(seu 15º aniversário)
Faz hoje, quinze anos, que nascia,
Uma menina linda e sadia!
E quando nasceu essa criança,
Nasceu também em nós a esperança!
Os pais, então, cheios de alegria,
Lhe deram o nome de Cynthia Maria.
A cor de sua tez é morena,
Da maciez da açucena!
E quanto mais o tempo passa, ainda,
Ela se torna cada vez mais linda!
Ela é risonha e cheia de beleza,
Como bem lhe dotou a natureza!...
Feliz e alegre como as crianças,
Que só vivem de sonhos e esperanças.
E pelo brilho castanho dos olhos dela,
Ela vê através do espelho quanto é bela!...
Enfim, é um encanto
De amor e simpatia!
A minha segunda neta
Cynthia Maria!...
Foram, pois, ao todo treze netos. Aos doze que conheceu em vida, ele dedicou a maior
das atenções. Conversava horas e horas com eles. Ensinava-os a jogar damas e outros
jogos inocentes. Vez por outra cantava para eles suas velhas canções e contava as mais
diversas histórias. Foi sem dúvida o AVÔ DEDICADO, deixando para seus netos a maior
das heranças: o AMOR.
- 78 -
OUTROS ESCRITOS E VERSOS
“O Senhor é quem te dá a sabedoria e de tua boca é que procedem a ciência e a
prudência” (Prov. 2,6).
Por volta dos seus 79-80 anos, Papai começou a passar a limpo todos os seus versos.
Na primeira folha do caderno ele fez a seguinte apresentação:
Este caderno servirá para registro de alguns versos de minha autoria, assim como de
outros, que se relacionam com meu modo de agir, de pensar, ou sejam, de acordo com
meus sentimentos. Mas não faço com a pretensão de aparecer como poeta, pois
reconheço que não o sou. Não é poeta quem quer. A poesia é um talento, uma
sabedoria, um dom; enfim são predicados que vêm de berço! Embora, que ajudada pela
cultura, tanto melhor.
Poeta é o repentista. É aquele que não vacila. Haja vista, criaturas que não tiveram
cultura, no entanto, têm toda a facilidade de versejar na hora certa! São pessoas providas
de sabedoria. Porque a sabedoria é um dom de Deus. A sabedoria já é de dentro do
indivíduo, enquanto a cultura se adquire de fora pra dentro. É este o meu discernimento.
Perdoem-me se não estou certo, bem como pelos versos por mim escrevinhados, uma
vez que não conto com sabedoria nem cultura. Pois os fiz, ajudados pelo amor, pelo
sofrimento, pela saudade.
Aceitar meu pai dizer que não teve cultura, eu aceito. Mas, não ter sabedoria?
Era preciso ter muita sabedoria para ser o homem que foi. Tinha que ser muito sábio para
educar os filhos como educou ser muito sábio para que eu não conhecesse uma pessoa
sequer que não o admirasse. Enfim, tinha que ser muito sábio, para ser um homem tão
modesto e tão cheio da Graça de Deus. Ser um homem, que apesar dos sofrimentos e
amarguras que a vida lhe aprontou, se considerava convictamente abençoado pelo seu
Deus. Ser um homem que por obediência a seu Deus e coerência com suas convicções
religiosas, manteve sua família unida até o fim.
A pequena coletânea que segue, não estava ainda passada a limpo para o seu caderno;
razão porque a deixei para este capítulo. Comentários são feitos quando necessários.
- 79 -
QUADRINHAS SOLTAS
Como um náufrago numa ilha
Em busca de uma saída
Assim procuro na vida
O amor de minha filha.
***
Menina quando te vejo
Eu sinto dentro de mim,
A chama de um estopim
Explodir o meu desejo
***
Menina do coração
A cada vez que te vejo
Sinto na alma um lampejo
Incendiar minha paixão
***
Quem nunca amou nesta vida
Vegetou, mas não viveu
Eu tive uma paixão perdida
Mas era uma santa! Morreu.
***
Quem muito se apega à vida
Pouco se lembra da morte
No entanto, nesta divisa
Se decide a nossa sorte!
***
Saudade teu nome é suave
É atribuído a uma flor
Todavia tens a arte
De matar a gente de dor.
***
Saudade, flor fascinante
Com teu perfume discreto
Maltratas quem está distante
Ao invés de quem está perto.
***
- 80 -
Saudade, quem poderia,
Acaso, sentir-se contente
Se não queres alegria
Dentro do peito da gente.
***
Saudade, pronúncia suave
Mas ecoa no coração
Como se fosse uma nave
De encontro à separação.
***
Saudade, florzinha frágil
Quem poderia saber
Que, contudo, tens a arte
De fazer a gente sofrer...
***
Saudade, palavra singela
Atribuída a uma flor
No entanto quem vive com ela
Só falta morrer de dor.
UMA BREVE MENSAGEM PARA O NETO ARTURINHO
Em se tratando de mensagens de parentes e amigos de seus pais, ninguém melhor
deveria fazê-lo que o seu velho avô, quando no ocaso de sua vida tem a grande alegria
de receber em sua prole um netinho tão lindo e perfeito sob todos os aspectos!”.
“Seja-lhe portanto esta pequena mensagem portadora dos nossos melhores votos de
felicidades por todo o seu futuro...
***
ALGO SOBRE OS 15 ANOS DE ANGÉLICA
O curso da vida de cada indivíduo é cheio de alegrias e também de sofrimento e
tristezas, entretanto, essa trajetória é por assim dizer uma incógnita, isto é, que nem
todos têm a mesma parcela tanto de alegrias como de tristezas. Há pessoas cujas vidas
são mais de alegrias que de tristezas.
É com a nossa alma transbordante de satisfação que estamos aqui, em festa para
comemorar o aniversário de 15 anos de Maria Angélica.
***
- 81 -
O MEU PAU-BRASIL
Era uma árvore linda,
De pequeno porte!...
(Ou melhor, um arbusto)
Plantada defronte da minha casa,
Do muro, no lado de dentro,
Era ela para mim um adorno,
Uma beleza!...
Uma obra prima da Natureza!
Por ela eu tinha a maior estima!
Eu via naquela árvore pequenina,
Além do seu valor tradicional,
Também, a sua beleza natural!
Mas, começou minha mulher a implicá-la
Dizia que ela estava morrendo,
E dando-lhe outros defeitos,
Que precisaría cortá-la.
Assim, estava traçada a sorte,
Daquela árvore linda,
De pequeno porte!...
Eu então lhe roguei com insistência!
Por Deus! Não a corte!
Não vê a sua resistência?
Toda a sua folhagem verdejante?
E, ainda floreando?
Não! Eu vejo bem é que ela está murchando.
Mas, apenas capricho e mais nada!
E mais uma vez, minha vontade era cassada...
Era um sábado à tarde.
Um dia triste, como quase sempre
Me acontece. Como quem pressente
Uma derrota, um fracasso...
Contudo, talvez pelo cansaço,
Adormeci.
Embora eu acordado não daria jeito
Para evitar o mal que fora feito!
Quando acordei,
Olhei pelo basculhante e perguntei:
Cadê o meu Pau-Brasil?
Pois no seu lugar não havia nem raiz !
– “Eu arranquei,
- 82 -
Aproveitei o carro da Prefeitura,
Que o levou”.
Ai meu Deus! Quanta maldade!!!
Nessa hora eu chorei!
Não com lágrimas no rosto!
Mas com o coração partido de desgosto
E... Assim se foi!
Não sei se para o Sul
Ou para o Norte!
Aquela árvore linda,
De pequeno porte!...
Nota minha: Em “O MEU PAU-BRASIL” Papai usou tintas muito fortes, dando a entender
que Mamãe usara de uma maldade premeditada para arrancar aquela
arvoreta. Na verdade, ele interpretou o ato de Mamãe como uma implicância
da parte dela para com ele. Não foi bem assim. Posso assegurar que se
tratou de uma incompreensão da parte de Papai, nunca reconhecida por ele.
Mamãe sempre adorou e adora suas plantas, mas, mais importante que
qualquer coisa para Mamãe, são seus filhos e netos. Houve uma época, que
por conta dos netos, ela eliminou todas as plantas “comigo-ninguém-pode”
de sua casa. Quem conhece o “pau-brasil” sabe que seus frutos são vagens
cobertas por espinhos e por várias ocasiões seus preferidos netos, ao
brincar em frente de casa, furaram os pés com as referidas vagens; o que
foi para ela motivo suficiente para tomar a decisão de arrancar aquela
arvoreta, mesmo contrariando a vontade de Papai.
- 83 -
O FINAL DE VIDA
“Os cabelos brancos são uma coroa de glória, a quem se encontra no caminho da
justiça.” (Prov. 16,31)
Papai foi um homem completamente dedicado ao trabalho em quaisquer dos lugares que
tenha atuado, sendo muito querido pelos companheiros e especialmente pelos seus
dirigentes, devido a sua elevada responsabilidade com todas as tarefas desempenhadas.
Em muitas ocasiões tive oportunidade de visitar seus locais de trabalho e comprovado
suas qualidades de companheiro, chefe e subordinado, todos lhes dedicavam uma
atenção especial.
Pela função de tesoureiro pagador ou recebedor, que desempenhou por algum tempo em
repartições públicas do Governo do Estado de Pernambuco, era prestimoso no
atendimento ao público e muito eficiente na tramitação de processos referentes a
pagamentos ou recebimentos de contas do Estado e extremamente honesto no trato da
coisa pública.
Aposentou-se com 70 anos, pouco tempo após ter sido vítima de uma insuficiência
cardiovascular, e ter se submetido em seguida a uma cirurgia de próstata. Encarou a
aposentadoria como chegada no tempo certo, dando-se ao direito de gozá-la em toda a
sua plenitude, aproveitando sua nova fase de vida para vivê-la intensamente.
Quando estava em casa, não parava; mexia daqui, mexia dali, fazia palavras cruzadas, lia
bastante, escrevia, atuava muito na paróquia, principalmente, na conferência de São
Vicente de Paula, na assistência social aos pobres, principalmente idosos. Mas, me
parecia que, entre todas as suas atividades, a mais agradável, era a convivência com os
netos.
Fazia gosto ver aquele velhinho ativo, cabeça bem alvinha, andando para todo canto.
Freqüentemente ia ao centro da cidade, fazendo questão de resolver pagamento de
contas de luz, água, etc., dele e dos filhos.
Entre janeiro de 1984 e dezembro de 1985 eu morei em Teresina, desenvolvendo
trabalho de pesquisa na sede da EMBRAPA local, no Programa Nacional de Pesquisa de
Babaçu. Papai nos visitou por duas vezes, causando-nos imensa satisfação com sua
presença, fazendo questão de conhecer aquela aconchegante cidade e seus arredores.
Conversava horas a fio com um nosso vizinho, o Sr. João Paulo Nogueira, de saudosa
memória.
- 84 -
Mas o passar dos anos ia pouco, a pouco e implacavelmente, cumprindo seu papel:
trazendo com ele os problemas inerentes à idade.
Em novembro de 1986, já me encontrava em Recife. Papai foi vítima de outra
insuficiência cardiovascular, com dores no peito e acompanhada de problemas
respiratórios, uma pequena infecção pulmonar, conforme o diagnóstico radiográfico. Hoje
reconheço que aquele internamento no hospital dos Servidores do Estado era o início do
fim. As dores no peito na realidade não estavam ligadas a nenhum quadro anginoso.
Depois da alta hospitalar, a saúde de Papai não era mais a mesma, o quadro mórbido
avançava lentamente, quase imperceptível, permitindo que Papai continuasse sua vidinha
pacata, agora mais caseira, diminuindo suas idas para o centro da cidade.
Em fevereiro de 1987 minha primeira filha completou 15 anos, Papai participou de todos
os eventos; missa de Ação de Graças, valsa da meia-noite. Que satisfação lembrar
desses momentos!
Agosto de 1987, Papai completava a linda idade de 80 anos. Fizemos uma grande festa,
todos os filhos e netos se fizeram presentes.
Naquele dia, num dado momento, Papai perguntava para mim e meus irmãos, que
tomávamos com ele uma cervejinha no terraço:
– Que é que vocês estão adivinhando com toda essa festa?
Na realidade, não pensávamos em nada, a não ser festejar aquele evento, para nós,
maravilhoso. Apesar dos problemas de saúde, até ali não existia nada de grave, pois
Papai convivia bem com suas leves dores “anginosas”. Parecia ser mesmo coisas da
própria idade. Na parte da tarde tiramos em frente de casa uma fotografia com Papai,
Mamãe e toda sua descendência, curioso que esta fotografia histórica para todos nós,
nunca a vimos. Até hoje não sabemos se queimou ou se foi perdida no processo de
revelação.
Dei-lhe de presente um livro com o seguinte oferecimento em versos:
MEU PAI, 80 ANOS
Um presente de Deus,
Da natureza.
Oitenta anos,
Um presente da vida,
Bem vivida,
Alegre e também sofrida
Na dualidade constante
Do animal homem;
Que ri e chora,
- 85 -
Que afaga e bate,
Que ama e odeia,
Que castiga e perdoa,
Que acredita e duvida,
Que é homem e Deus.
O dual se funde
E se confunde
No caminho da existência.
Fins de setembro, começo de outubro. Uma forte gripe agravara o estado das dores
peitorais de Papai. Os vasodilatadores, do tipo Isordil e similares não surtiam efeito. O
estado gripal se demorava, com febre constante, mas leve, e muita expectoração.
O cardiologista aconselhou que o levássemos a um pneumologista, que, pelos exames
radiográficos, suspeitou de câncer; o que foi confirmado no dia 26 de novembro com o
exame de citologia oncótica do escarro realizado pela Dra. Isa Krutman Rosenfeld.
Daí para adiante, o estado de Papai foi se agravando gradativamente. Os analgésicos
surtiam pouco efeito e dava pena ver o seu estado de angústia e ansiedade pela espera
de uma melhora que não chegava, pelo contrário.
Nunca contamos a Papai a verdade sobre a sua doença. Dizíamos se tratar de uma
fibrose provocada pela idade avançada e agravada pela sua forte escoliose. O tratamento
ideal para aquele caso era a radioterapia, que, segundo os médicos serviria apenas para
eliminar as dores. O tumor, conforme sua localização, era inoperável. Na realidade, nos
restava apenas esperar a marcha incontrolável daquele mal, tratando apenas de minorar
seus sintomas com os instrumentos de que dispunha a medicina, para proporcionar a
Papai o mínimo de sofrimento para aquele caso.
Como eu fugia para não presenciar o estado de Papai! Era duro ter de levá-lo para as
sessões de radioterapia, sabendo que se tratava apenas de um paliativo e que breve
teríamos que enfrentar a grande realidade que a vida guarda para todos nós.
Estava próximo o dia da Força Divina invadir Papai, levamos Papai ao médico, eu e meu
irmão Antônio. No consultório, a espera do médico, meu pai baixou a cabeça sobre os
braços, sobre a mesa que se encontrava em sua frente, tenho certeza que naquele
momento ele exclamou em seu íntimo: “Pai, seja feita a Tua Vontade!”.
Dali saiu para ser internado no Posto de Serviço do INAMPS em Areias. Não havia vaga
na oncologia do Hospital Osvaldo Cruz. O delírio da luta da vida contra a morte o
acompanhou por dois ou três dias: queria sair daquele local, levantava-se da cama,
principalmente na primeira noite, quando ele ficou na companhia de César. Delirava, não
dizia coisa com coisa.
- 86 -
Quando, depois de três dias, foi transferido para o Hospital dos Servidores do Estado de
Pernambuco, tornou-se um homem sereno, e conformado, apesar da dificuldade de
respiração e locomoção. Recebeu o Sacramento da Eucaristia. Ainda assistiu Missa pela
televisão e no dia 30 de março de 1988, por volta das nove horas, entregou seu espírito
ao Pai.
Sentimos demais a sua ausência amiga, mas, um profundo sentimento de conformação
invadia os espíritos de todos nós, seus filhos; pois tínhamos a certeza de que ele estava
em paz com o seu e, nosso Deus. Papai havia realmente cumprido sua missão nesta
terra e isto nos dava muita paz e conforto.
Todos os seus netos presentes em Recife, do mais velho, Angélica, com 17 anos, ao
mais novo, João Bosco, com apenas 6 anos, fizeram questão de acompanhar o seu
sepultamento. Fátima, seu esposo e filhos se encontravam na época morando na Bahia,
sem condições de comparecer.
Naquela cerimônia, embora com tristeza em nossos corações, elevamos a Deus nossos
louvores em forma de cânticos, orações e leituras do Evangelho, dando Graças a Ele pelo
maravilhoso pai que nos deu e que naquele momento voltava para o Seu convívio Eterno.
Assim, o vazio de sua ausência, era preenchido com a certeza de sua entrada na
GLÓRIA DO PAI.
Poucos dias depois completei minha “ORAÇÃO PARA MEU PAI”, denominando este
complemento de:
MEU PAI COM O PAI
Cerca de 15 dias antes de sua “morte”
Você aceitou a vontade do Pai.
Comportando-se com um cordeiro,
Preparando-se para o encontro com Ele
Numa das maiores provas de humildade
E coragem que já presenciei.
Agregando-se totalmente ao Todo
Em 30 de março de 1988,
Nos deixando um grande exemplo de Vida.
“SEU GRANDE” deixava o nosso convívio, desaparecia sua presença física, mas, sua
presença em espírito, permanecerá na memória dos seus descendentes e amigos, por
toda a eternidade.
- 87 -
DEPOIMENTOS
“Um amigo fiel é uma poderosa proteção, quem o achou, descobriu um
tesouro.”(Eclo. 6,14).
Considerei importante incluir nesta biografia de meu pai depoimentos de pessoas
intimamente ligadas a ele, para que a mesma fosse enriquecida ao máximo. Nenhuma
das pessoas, exceto Roberto Leite de Aguiar, revisor deste documento teve acesso ao
meu relato, e aos outros depoimentos apresentados, para que não houvesse influências.
Os depoimentos não receberam revisão gráfica, e estão dispostos por ordem de data que
os recebi.
***
ANTÔNIO FERNANDO DE MEDEIROS COSTA, segundo filho de Joaquim José da
Fonseca Costa, em 2 de novembro de 1991:
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE MEU PAI
Não costumo tecer considerações a respeito de pessoas, nem mesmo as que me são
mais caras, não que eu dispense minhas gratidões ou admirações pelas mesmas, mas
tenho muito respeito com individualidades pessoais.
No entanto não seria o forte motivo que me levaria a negar um pedido do irmão Tadeu,
levando em consideração seu importante e belo trabalho, perseverante e obstinado sobre
a vida do nosso pai, que nada mais será que um grande legado aos nossos filhos que
serão a continuidade da família.
Quando se fala de Papai não se reporta ao ser humano, personalidade como outra
qualquer com virtudes e defeitos. Não seria simpático enumerar particularidades de uma
vida, no tocante ao convívio familiar em que todas as pessoas são passíveis de
momentos diversos, pois aí surge a questão individualidade que de modo geral as
análises são precipitadas por serem constatadas mais pela emoção do que pela razão.
Agora quando me reporto a Papai como o homem, aí sim, não tenho nenhum receio de
emoções exageradas. Só posso lhe tributar elogios e acima de tudo agradecimentos,
grande transparência de amadurecimento transmitindo sentimentos como: respeito,
obediência, responsabilidade, cultivo de amizades, etc.
- 88 -
Alertando sempre para que nunca confundíssemos as qualidades; como a obediência
com a subserviência ou o pedir com o bajular, etc.
Por demais foi uma pessoa compreensiva e amiga com os filhos; nunca faltou com o
apoio dentro das limitações, respeitou a liberdade do pensamento de cada um mesmo
com as discordâncias, não tinha predileções.
Enfim, este depoimento não vejo como uma contribuição mas como uma oportunidade
que obtive de meu irmão nesse seu belíssimo e merecido trabalho, para tecer
considerações sobre o homem meu pai, que tenho certeza que será testemunho de
nossos filhos. Agora o ser humano Papai como todos nós em tal qualidade, somente a
Deus é reservada a análise.
***
CYNTHIA MARIA CARNEIRO COSTA, minha segunda filha e segunda neta de Papai
apresenta o seguinte depoimento em 4 de novembro de 1991:
Pode ser uma maneira bastante diferente de se começar a falar sobre alguém e
principalmente quando esse alguém trata-se de seu avô, mas no momento em que meu
pai nos disse que gostaria de ter escrito na biografia do meu avô, algumas linhas, através
das quais nós netos falássemos sobre vovô, logo me lembrei de uma ida nossa ao
supermercado Bompreço no qual fomos lanchar juntos e ele me fez gostar de ketchup,
pode até parecer bobagem, mas jamais me esqueci deste dia.
Recordo-me bem das coisas que vovô me falava sobre sua infância um tanto quanto
sofrida pela perda de todos os irmãos, do seu pai e de outros parentes queridos. Falavame também sobre a perda de sua querida mãe já bem mais tarde.
Não esqueço nunca das vezes em que ele ia ao centro da cidade, o qual costumava
chamar de “Recife” e na volta lá vinha ele, com sua coluna defeituosa, mas cheio de
sacolas com coisas para casa e com alguma coisa para nós, ao menos um bombom que
fosse, eu adorava, lembro-me do primeiro “ovo de páscoa” bem grande que recebi do
meu avô.
Como era imensa a satisfação que deixava transparecer claramente no seu olhar, pelas
vezes em que eu ia dormir em sua casa e na manhã seguinte, acordava ele bem cedo e
eu logo depois, tomávamos café juntos, ficando conversando até que chegasse a hora
que eu fosse para o colégio.
Vovô adorava ouvir rádio, brincar conosco, fazer adivinhações para respondermos e
ainda o seu adorável costume de fazer poesias. Ele foi para mim uma figura que jamais
esquecerei e que fazia de tudo para agradar a todos.
- 89 -
JOSÉ FONSECA DE AGUIAR, primo de Papai, filho de tia Candinha, me entregou seu
depoimento em 14 de dezembro de 1991.
Recordações de família são relíquias que conservam a essência das pessoas queridas.
São amizades que aliviam as nossas angústias, numa verdadeira mensagem de amor.
Em minha adolescência mantive com todos os meus primos uma amizade fraternal.
Éramos como irmãos, numa pura alegria de vida. Havia muita ternura em nossa
convivência.
Era admirável ver e sentir o entusiasmo das nossas reuniões de juventude, para
comentários de literatura. Nós éramos bem jovens, sem estudo, sem orientação
intelectual, mas havia uma vibração nas nossas participações, quase sempre com
Joaquinzinho, João Medeiros e eu, quando surgia um livro novo, levado por mim, nas
minhas aquisições no sebo.
Lembro-me do nosso entusiasmo com o fascínio da imagem poética de Gonçalves Dias,
Guerra Junqueiro, Castro Alves e outros.
Era vibrante. Mas o que me sensibilizou intimamente e que ficou para mim, gravado da
sua angústia, foi a poesia pungente de Augusto dos Anjos:
“Meu coração tem catedrais imensas,
templos de priscas e longínquas datas,
onde um nome de amor, em serenata,
conta a aleluia virginal das crenças”.
Um dia Joaquinzinho apareceu com um livro sobre esoterismo. Isso durou porque nós
nos comprometemos a estudar e praticar o esoterismo, com toda sua beleza filosófica e
científica, até que nos perdemos na profundeza da matéria. Era muito pra gente.
Lembro-me, como episódio tocante, quando eu morava isoladamente numa modesta
pensão no centro da cidade, e muitas vezes ia à noite prosar com Joaquinzinho, que
trabalhava na Estação Central da Great-Western como telegrafista.
Ficava horas inteiras, vendo e admirando a perícia de Joaquinzinho nas ritmadas batidas
do telégrafo e morria de inveja do seu desempenho.
Numa Sexta-feira Santa fizemos um programa para assistir um filme sacro que se exibia
no cinema Moderno. Saímos do cinema profundamente emocionados com o enredo do
filme, e na saída fomos ao Gemba, uma sorveteria de elite naquela época, que ficava na
mesma praça do cinema. Servimo-nos de um delicioso sorvete, e lembramo-nos, por
acaso, que estávamos cometendo um grave pecado, em tomar sorvete numa Sexta-feira
Santa.
- 90 -
Foi um tocante drama de consciência. Lastimamos a nossa vil crueldade, em não
respeitar os mandamentos da Igreja do Senhor.
Desse transbordamento de angústia, e como resgate dos nossos pecados, fizemos em
comum, uma prece com promessa de comungar no próximo domingo, para aliviar o
nosso agravo. E ficamos contritos.
As vezes coisas simples marcam um episódio na vida da gente. Eu não ia na cidade que
não fosse pesquisar as prateleiras dos sebos, a procura de alguma preciosidade literária
ao meu alcance intelectual. E realmente encontrei uma raridade. Um livro brochura, velho
e mal tratado: “As Mais Belas Cartas de Amor”. Eu vibrei com o livro. Comprei-o e na
mesma noite fui mostrá-lo a Joaquinzinho. E lemos entusiasmados, belíssimas cartas de
amor:
“Querida eu espero realizar com você o nosso himeneu venturoso”.
“Ama-me com todo o mistério contido no meu ser”.
“Se entrares no meu lar o divino Cupido abençoará os teus passos”.
Estas eram das poucas frases do livro que ainda me lembro, e que na época me
encantava liricamente. E agora Joaquinzinho? E naquela mesma noite traçamos os
nossos planos. Fizemos tranqüilamente a lista das destinatárias. A primeira carta quem
escreveu foi Joaquinzinho. Escreveu para Tetê, filha do sargento Manoel Victor. E deu
certo. Dias depois foi lhe dado a confirmação de amor, ardente e graciosa, numa cartinha
toda desenhada.
***
ROBERTO LEITE DE AGUIAR, companheiro de seminário dos meus irmãos, sempre foi
uma presença constante em nossa casa. Roberto foi responsável pela revisão deste
trabalho, no que toca à parte escrita por mim. Seu depoimento foi datado de 26 de
dezembro de 1991:
Solicitado pelo amigo Judas Tadeu de Medeiros Costa para prestar um depoimento sobre
seu saudoso genitor, passo a fazê-lo movido pela emoção, pela forte impressão que o
evocado suscitou sempre nesse depoente amigo. Prolixo como sempre fui, custa-me
preencher este exíguo espaço, com pinceladas concisas e precisas sobre “Seu
Joaquinzinho” como costumeiramente o chamava. Vamos à ingente tarefa.
Num primeiro instante, lembro-me de JOAREZ TÁVORA e sua autobiografia intitulada
“UMA VIDA DE MUITAS LUTAS”. Tomo emprestado ao cearense de Jaguaribe, a
expressiva citação para adequá-la à vida de meu dileto homenageado. Foi inevitável a
comparação. Logo associei-a à profícua e laboriosa existência de JOAQUIM JOSÉ DA
- 91 -
FONSECA COSTA. Sem vacilação, qualifico-a assim. Uma vida toda tecida de dedicação
ao labor diário, à firme e forte educação de sua prole, à religião; a qual devotou parte
substancial de sua vida. Tive o prazer e, rara felicidade de desfrutar-lhe a amizade e,
posso, sem medo de errar, confessar minha profunda e inesquecível admiração por ele.
Repito, o espaço de papel limita meu pensamento.
Heráclito Fontoura Sobral Pinto, recém desaparecido, certa vez, comentando o
desaparecimento do pensador Alceu Amoroso Lima, afirmou que aquele ilustre brasileiro
fora um presente de DEUS à vida. Aposso-me também da frase sobralina, para exaltar as
qualidade de “Seu Joaquinzinho” e dizer, que aquele senhor também foi um presente que
DEUS nos deu. Conheci-lhe as multiplicadas virtudes e posso asseverar isto. Seus
defeitos ou vícios, não os conheço até hoje. Enfim dizer de meu querido amigo, que foi
gratificante conviver momentos imperecíveis em sua modelar e luminosa companhia.
Consola-me a frase de Guimarães Rosa quando proclamava: “Nós não morremos;
ficamos encantados”. DEUS premiou-nos com a dinâmica e honrosa participação de “Seu
Joaquinzinho” nessa vida terrena e, coerente como o É, haverá de garantir-lhe, por
prêmio, o galardão que representa habitar “A Mansão dos Justos”.
***
JOSÉ CESAR DE ALBUQUERQUE COSTA, terceiro filho de Joaquim José da Fonseca
Costa, em 8 de janeiro de 1992:
Só agora estou atendendo a solicitação que Tadeu me fez há alguns meses atrás, de
escrever um depoimento sucinto sobre nosso Pai. Nem eu mesmo sei justificar a razão
dessa minha demora em atendê-lo.
Certamente isto não se deve exclusivamente ao fato de ser uma pessoa descansada,
como ele costuma dizer. Acho que o motivo principal deste adiamento, é a dificuldade que
sinto em expressar em linguagem escrita, o que representou Papai, e o que ainda
representa a lembrança dele, para a minha vida.
Ao longo de todo o meu convívio, sua presença foi sempre marcante, como protetor,
educador, conselheiro, e, já no fim de sua vida, tendo humildade suficiente para querer
ser protegido, amparado ou aconselhado.
Lembro-me de quando, eu ainda muito pequeno, com dois ou no máximo três anos de
idade, ele vinha da feira de Camaragibe, nas manhãs de sábado, às vezes com minha
avó Zulmira e também com Tadeu, e às vezes Tonho. Eu corria para abraçá-lo e
perguntava: – “Quando é que o senhor vai me levar pra feira ?” E ele sempre me
respondia sorrindo: – “Você ainda é muito pequeno. Breve você vai.” Eu ficava
conformado, mesmo sem saber direito quando era breve, e ia logo brincar com bois ou
cavalos de barro que ele ou minha vó traziam da feira. Esta cena se repetiu várias vezes
- 92 -
até que um dia (acho que com quatro ou cinco anos de idade) Papai passou a me levar
também para a feira.
Um outro fato que muito me marcou, ocorreu em um São João, quando Papai chamou a
mim e a Tonho (pois Fátima era muito pequena e Tadeu já estava bastante crescido) e
nos avisou que naquele ano não teríamos fogos pois a situação financeira não permitia
que ele os comprasse. Este seria o nosso primeiro São João sem fogos. Mas tudo bem,
nós já estávamos conformados, apesar de termos uma ponta de esperança de que a
situação poderia reverter. Na véspera do dia de São João, ao passarmos de ônibus por
uma barraca de fogos (se não me engano, na Madalena), vimos, com surpresa, Papai
comprando nossos fogos, mesmo sem ser uma grande quantidade como podemos
comprovar depois. Mas nosso São João não passou em branco.
Muitas passagens do nosso relacionamento com Papai, trago guardadas na memória, do
nosso tempo de infância, do tempo em que estivemos no Seminário (eu e Tonho), na
nossa adolescência e mesmo como adultos, do seu acompanhamento de perto da nossa
vida escolar, desde o primário até a Universidade, nunca deixando que nos faltasse o
essencial para nossa formação profissional e moral.
Como pai de família, portanto, Papai teve uma vida de doação, de sacrifícios, além de ter
sido para nós, seus filhos, um grande exemplo de honestidade e retidão de princípios.
***
JOSÉ ARTURO ESCOBAR, esposo de Fátima, de nacionalidade Salvadorenha,
apresentou o seu depoimento em seu idioma no dia 20 de janeiro de 1992:
Quiero dejar mi impresión que tengo sobre el Señor Joaquim José da Fonseca Costa.
El fue para mi una grande persona que me ajudo e aconsejo bastante para tener una vida
mas equilibrada.
Siempre que hablabamos me decia para cuidar de la hija, tratarla bien y tener paciencia
con ella.
Por todo el cariño que le tengo dicidi desde que Arturito nacio que mi otro hijo se llamaria
Joaquim y estoy muy cierto que al viejito le gusto, y desde el cielo nos esta viendo.
Es dificil y triste intentar escribir sobre una persona como el, porque fue Buena gente y
honrado con todos siempre los enseño que la moral deve ser primero.
***
- 93 -
MARIA DO ROSÁRIO DE FÁTIMA COSTA ESCOBAR a filha caçula de Joaquim José da
Fonseca Costa, me entregou seu depoimento datado de 24 de janeiro de 1992:
Mesmo trazendo uma certa tristeza acumulada na transcorrência do seu próprio destino,
meu pai era muito espirituoso e agradável, tinha um jeito amável de tratar as pessoas de
que gostava.
Nós tínhamos alguma coisa em comum, o gênio parecido; teimosos, orgulhosos e
turrões. Mas sempre falávamos das coisas com muita seriedade, e mesmo tendo
posições e opiniões quase sempre diferentes ele soube compreender e aceitar nossas
divergências.
Meu pai era uma pessoa que jogava aberto e tinha uma cabeça muito boa apesar dos
preconceitos de um homem que teve uma criação dentro da moralidade religiosa e da
obediência rígida, podia trazer.
Finalizando, foi uma pessoa cumpridora dos seu deveres e sempre muito responsável.
Tinha muitas virtudes, entre elas a de ter sido um pai excelente.
***
MARIA CAROLINA BURGOS COSTA, sexta neta de Joaquim José da Fonseca Costa,
filha de César. Carol, atualmente com 12 anos de idade, nos apresenta o seguinte
depoimento:
Campina Grande 23-01-92
Bem, eu tenho algumas lembranças do meu avô, que nunca eu vou esquecer.
Quando eu era menor vovô perguntava a mim, a César (meu irmão), a João Bosco (meu
irmão), a Juliana, a Saulo e a Paulo (meus primos) a tabuada, para ver quem respondia
primeiro dos 6, e quem respondia mais rápido era eu ou César. Os tipos de tabuada eram
assim: 3+5-2-4; 5-3+1-2.
Outra lembrança que eu tenho de vovô era quando ele apertava minha mão e eu não
gritava.
Isto que eu vou contar agora eu nunca vou esquecer e eu acho que nenhum primo meu
vai esquecer.
No dia da Páscoa, 19 de abril de 1986, vovô me deu o maior ovo de Páscoa que eu já
ganhei até hoje e ele deu 1 a cada neto, mas antes de ele entregar os ovos de Páscoa
ele escondeu cada ovo em um lugar diferente.
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Eu me lembro que o meu ovo estava escondido na 3ª gaveta da cômoda. Foi minha
melhor Páscoa.
Eu ainda tenho muitas lembranças de vovô mas estão guardadas para mim.
***
JULIANA DE MORAIS COSTA, sétima neta de Joaquim José da Fonseca Costa, filha de
Antônio. Juliana tem agora 11 anos:
Recife, 25 de janeiro de 1992
Eu me lembro que meu avô fazia muitas poesias para mim. E ele só vivia me
perguntando:
– Juliana, você é bonita da cara de cabrita ou feia da cara de sereia?
Ele também desenhava carinhas de bonequinhas nas pontas dos dedos da gente (eu e
Carol). Quando minha mãe chegou com a notícia que vovô morreu eu fiquei muito triste e
jamais vou esquecê-lo. E aqui estou terminando mais uma recordação do meu vovô
querido.
***
RAIMUNDA FONSECA DE AGUIAR, esta prezada prima que muito tem contribuído para
manter viva a memória das nossas famílias, publicou recentemente “Eu... e os meus
mortos” e, com sua permissão, finalizo este capítulo dos DEPOIMENTOS transcrevendo
ipsis literis o que ela escreveu sobre Papai nas páginas 122 e 123 do seu livro:
JOAQUIM JOSÉ DA FONSECA COSTA
Nasceu em 30 de agosto de 1907
Faleceu em 30 de março de 1988
Joaquinzinho, meu amigo, meu irmão, você leu este livro inacabado, faz muito tempo e ao
entregá-lo de volta, me disse:
– Qualquer dia, meu nome estará neste livro...
Pois é Quincas, passaram-se alguns anos e sua lembrança, seu nome, ficarão de fato
nestas páginas, porque você é um dos meus mortos.
Você não foi apenas meu primo, nosso primo, você foi um irmão. Meus pais o
consideravam, com justa razão, mais um filho e nós fomos criados como irmãos de
verdade. Você nos transmitiu amor, compreensão. Nos dias de festa você estava feliz
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conosco, nos momentos de dor você sofria conosco, acolhia com amor todos os
descendentes dessa família “Fonseca de Aguiar”.
Eis-me aqui, escrevendo com o coração machucado de saudade. Perder amigos
queridos, um a um como tem acontecido é muito doloroso. Há quantos anos, até perdi a
conta venho escrevendo algo sobre os “meus mortos” mas ainda hoje sinto dificuldade de
falar sobre alguém que partiu para não mais voltar.
Não fui ao seu sepultamento nem assisti ao seu velório por motivos tão dolorosos que
nem se pode definir: o meu filho estava agonizante e partia também dois dias depois de
você.
Você, um pouco mais velho que eu, não lembro você criança, recordo sua juventude, sua
mocidade, você telegrafista, passando conosco os fins de semana; depois nosso vizinho
em Pedra Mole, seu casamento com Neusa também nossa amiga. No meu livro “Retratos
de Família” você escreve:
“Conversando com Papai eu sempre dizia: – Papai quando eu for grande em compro um
carro... quando eu for grande... e me soltava na conversa...
Eu tinha em mente a vontade de ficar grande e não dizia – quando eu crescer – mas
quando ficar grande... Subia em um banco e dizia – Olhe Papai como eu estou grande! E
Papai começou a me chamar “Seu Grande” até quando morreu. E o apelido ficou. Tão
grande era a minha vontade de ser grande que nunca cheguei a sê-lo. Ao contrário
diminuí por força da escoliose que me envergou a coluna!”
Entretanto meu amigo, meu irmão, você foi GRANDE, não em estatura mas em grandeza
de alma, em bondade, em generosidade e em tantas virtudes que nem poderíamos
descrever.
Não sei se você conheceu aquela canção “Gregorinho”, o garoto que quis ser grande
assim como você e nada conseguiu na vida por ser pequeno demais.
Morrendo, São Pedro não lhe abre a porta dizendo: “Só me serve um anjo grande, és
pequenino demais, meu bom rapaz”.
“Entretanto a coisa ouvindo
Jesus se zangou,
E o seu peito entreabrindo
Nele o abrigou.
A Gregorinho deu entrada
No seu paraíso,
E lhe diz - essa morada
É dos pequenos demais meu bom rapaz”.
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E assim deve ter acontecido com você.
São Pedro lhe abriu a porta, com a experiência que tivera com Gregorinho...
O Papai Cézar, a Mamãe Zulmira, a vovó Benvinda, suas irmãzinhas, seu irmão Cézar
lhe carregaram nos braços, felizes pelo reencontro e o entregaram a Jesus, amigo dos
pequenos, dos humildes, como foi você aqui na terra.
Tua ausência Joaquinzinho não arrefecerá o amor daqueles que te amaram e continuam
a amar-te e em Deus aguardam um feliz reencontro
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