TRÊS BARRAS DO PARANÁ CONTEXTO histórico, SOCIAL E POLÍTICO José Davi Paludo Elizabeth Paludo FICHA CATALOGRÁFICA Imagem da Capa: Visão Panorâmica do Município de Três Barras do Paraná, contornada pelo mapa do município Montagem de Capa: ALGUÉM DA EDITORA Projeto Gráfico e Diagramação: Nilson Rosa de Faria Revisão de Texto: Elizete Inês Paludo Revisão Editorial: ALGUÉM DA EDITORA Paludo, José Davi. Três Barras do Paraná: Contexto Histórico, Social e Político / José Davi Paludo e Elizabeth Paludo. Três Barras do Paraná, PR: EDITORA, 2012. OUTROS DADOS DA EDITORA Agradecimentos A Deus: Pelo dom da vida; Pela família; Pela saúde; Pelo dom da inteligência; Pelas oportunidades de trabalho. À família: Pela compreensão; Pelo apoio; Pela ajuda. Pelo carinho e amor dos filhos: Elizete Silvia Deivis E, com eles, todos os familiares. Ao professor Nilson: Por colaborar para que este trabalho fosse realizado. Aos pioneiros entrevistados, Aos professores e alunos do Colégio Estadual Princesa Izabel, um agradecimento especial: Por terem auxiliado na busca do fazer e divulgar o conhecimento. Enfim, a todas as pessoas que, de uma forma ou outra, contribuíram para a realização deste sonho: Nossa eterna gratidão. José Davi e Elizabeth SUMÁRIO APRESENTAÇÃO …................................................................................................................... 09 1 HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO E DA REVOLTA …......................................................… 12 1.1 Os Primeiros Habitantes ......................................................................................................... 12 1.2 O Povoamento do Oeste do Paraná e o Governo de Getúlio Vargas ...................................... 16 1.3 Os Pioneiros de Três Barras do Paraná .................................................................................. 22 1.4 Reflexos da Revolta do Sudoeste em Três Barras do Paraná ................................................. 27 1.5 A Revolta de Três Barras: ...................................................................................................... 31 1.6 A colonização e documentação das terras .............................................................................. 50 2 ASPECTOS GEOGRÁFICOS E CULTURAIS ...................................................................... 52 2.1 A Geografia do Município ...................................................................................................... 52 2.2 A Vegetação …...................................................................................................................... 56 2.3 Informações Climáticas ..….................................................................................................... 59 2.4 A Hidrografia …...................................................................................................................... 61 2.4.1 Usina Hidrelétrica Governador José Richa - Salto Caxias …...................................... 64 2.4.2 Breve Histórico da Construção da Usina de Salto Caxias …....................................... 68 2.5 Limites e Confrontações …..................................................................................................... 72 2.6 O Relevo ................................................................................................................................. 72 2.7 A Economia …........................................................................................................................ 74 2.8 A Religiosidade ...................................................................................................................... 75 2.9 A Educação …......................................................................................................................... 86 2.9.1 Trajetória Histórica do Colégio Estadual Princesa Izabel …........................................90 2.9.2 Trajetória da Escola Municipal Carlos Gomes …........................................................ 92 3 HISTÓRIA POLÍTICA DO MUNICÍPIO …............................................................................ 95 3.1 Emancipação do Município …................................................................................................ 95 3.2 A Primeira Gestão Municipal …........................................................................................... 100 3.3 A Segunda Gestão Municipal ............................................................................................... 103 3.4 A Terceira Gestão Municipal …........................................................................................... 105 3.5 A Quarta Gestão Municipal .................................................................................................. 107 3.6 A Quinta Gestão Municipal .................................................................................................. 109 3.7 A Sexta Gestão Municipal …................................................................................................ 110 3.8 A Sétima Gestão Municipal ...............................…............................................................... 112 3.9 O Poder Executivo …............................................................................................................ 114 3.10 O Poder Legislativo ............................................................................................................ 114 4 OS SÍMBOLOS DO MUNICÍPIO …...................................................................................... 116 4.1 A Bandeira ….................................................................................................................... 116 4.2 O Hino Oficial ….............................................................................................................. 116 4.3 O Brasão do Executivo Municipal …................................................................................ 118 4.4 O Brasão do Legislativo Municipal ….............................................................................. 120 5 DEMONSTRAÇÃO DE AFETO DO POVO TRIBARRENSE …......................................... 120 REFERÊNCIAS ......................................................................................................................... 123 9 APRESENTAÇÃO Ao escrever este livro, intitulado como “Três Barras do Paraná: Contexto Histórico, Social e Político”, levamos em consideração a necessidade de disponibilizar no Município um recurso a mais para servir na realização de estudos e pesquisas, no que diz respeito à origem do povoamento, à luta pela conquista da terra e também às administrações públicas desse município. Por haver grande defasagem de material bibliográfico que versa sobre a temática em questão, a cada novo concurso realizado no município, existe considerável procura por pesquisas na área. Devido a isso, parte dos candidatos busca respostas às suas indagações, tanto na parte da História quanto da Geografia, e no que se refere aos dados sobre o povoamento e a política local. Sendo assim, com o propósito de auxiliar aos que procuram ter conhecimento mais específico sobre o assunto, é que surgiu a ideia de editar o presente livro, o qual conta com relatos da história política e dados geográficos que, somados a alguns dados históricos já formalizados e outros vivenciados, certamente servirão de apoio às pessoas que se interessarem pelo estudo da História do Município de Três Barras do Paraná, da Região Oeste do Estado. Ao mesmo tempo, esperamos que este livro possa ser um referencial capaz de permitir aos leitores análise crítica de alguns aspectos históricos duvidosos, em especial, a história de alguns poucos heróis anônimos e de outros 'heróis' talvez nem tão merecedores de homenagens. Nesse sentido, para que os conteúdos possam ser abordados de forma clara e precisa, esclarecemos que, em relação ao que já foi escrito sobre Três Barras do Paraná e o que está sendo exposto sobre o assunto, houve algumas contrariedades. Por exemplo, na dissertação de Myskiw (2002), citada neste livro, a história contada na época, foi com base nos registros que o autor teve acesso por meio da documentação que conseguiu. Registros esses, que nem sempre expressam a versão de quem realmente viveu a história. Neste livro, portanto, buscamos resgatar a história contada pelos posseiros, os pioneiros dessas terras, aqueles que aqui viveram e, de forma direta ou indireta, participaram da revolução. Logo, relataram o que de fato aconteceu. Com esse objetivo, no ano de 2002, iniciamos um trabalho em sala de aula com pesquisas e entrevistas aos pioneiros do município ou seus descendentes. Pessoas que, de alguma maneira, 10 participaram da revolta de Três Barras. Muitos dos entrevistados não concordaram em se expor e, apesar de relatarem os fatos detalhadamente, preferiram ficar no anonimato. Devido a isso, mesmo tendo várias entrevistas em arquivo, muitos dos relatos coletados não puderam ser revelados e, em outros, não se tornou possível revelar a fonte. Todavia, como grande parte dessas pesquisas estão agregadas a fatos vivenciados por nós, autores desta pesquisa investigativa, uma vez que também residimos no município desde o final da década de sessenta e atuamos como professores há mais de quarenta anos, sempre nessa região, alguns fatos partem do nosso conhecimento experienciado, sem que outras fontes sejam mencionadas. Por outro lado, diversas bibliografias subsidiaram nossa fundamentação, dentre as quais, destacamos: - “A Revolta dos Posseiros no Sudoeste do Paraná em 1957” (Gomes, 2005), cuja história da revolta dos posseiros do Sudoeste do Paraná, assemelha-se com o movimento ocorrido no município de Três Barras do Paraná, na década seguinte. - “Colonos, Posseiros e Grileiros: Conflitos de Terra no Oeste Paranaense (1961/66)” (Myskiw, 2002), dissertação analisada e citada em estudos posteriores, pelas informações consistentes a respeito dos acontecimentos nessa região. Entre os esclarecimentos trazidos, o autor cita a revolta vivenciada pelo povo de Três Barras do Paraná. - “Uma História de Areia” (Fiúza et al., 1998), que trata de uma proposta de estudo com contribuições educacionais, apoiada no registro da História como processo evolutivo contínuo da vida e dos homens em sociedade. Para facilitar a localização dos fatos, dividimos este livro em três partes. Na primeira parte, são relatados fatos a respeito da origem e do povoamento desse município, destacando-se a História da Colonização e da Revolta, que marcaram a história do município de Três Barras do Paraná e sempre são lembradas pela população tribarrense. Na segunda parte, a análise é voltada aos Aspectos Geográficos e Culturais, procurando trazer, além da localização do município, a população, os símbolos, a educação, a cultura, a religião, entre outros aspectos históricos e sociais, tidos por nós, como relevantes. Na terceira e última parte, o estudo investiga a Trajetória Política, com enfoque voltado a fatos que marcaram a história política local. 11 Como se pode perceber, optamos nesta obra pela utilização de uma linguagem simples e objetiva, pois consideramos que o conhecimento não se expressa apenas em palavras excessivas ou de difícil entendimento, até porque esse é o nosso jeito de ser, simples, verdadeiros e diretos, à semelhança da maioria do povo tribarrense. Compreendemos que relatar a história do município de Três Barras do Paraná é falar da própria história que nos envolve e, apesar das dificuldades, traz à tona a lembrança sempre acompanhada de saudades. Cada antigo morador desse lugar envolvido na luta histórica, deve lembrar do tempo em que todos lutaram para construir melhores condições de vida. Esse povo é o mesmo que continua buscando meios para a superação das dificuldades, no intuito de preservar como principal riqueza: a terra e a cultura do povo tribarrense. “Acreditamos que a identidade de um povo se faz com o conhecimento do seu processo de desenvolvimento, ou seja, pelo conhecimento dos seus caminhos e caminhadas. Só assim é possível preservar o passado, consolidar o presente e construir um futuro forte” (HOERNER, 2007). Conforme esclarece Fiúza et al. (1998), importante é “Aprender com a História, que muitos lutaram, sofreram, ganharam e perderam para a construção do mundo em que vivemos hoje [...] A educação de todos é fundamental para garantir uma realidade melhor”. Conhecer a história registrada neste livro significa, antes de qualquer coisa, “compreender a realidade atual, reconhecer a força de todos aqueles que a produziram, perceber que os homens são os produtores do mundo em que vivem e cada um é responsável por ele [...] nada se constrói sem muita luta ou subsiste, tudo se transforma” (FIÚZA et al., 1998). Enfim, este livro trata-se de uma visão da história do município de Três Barras do Paraná. Ressaltamos esta obra como inacabada, ao considerarmos as formações históricas como obras dos seres humanos enquanto processo evolutivo e contínuo. Portanto, ao partirmos da visão de uma história local, esperamos contribuir com este registro a todos os que se interessam em compreender a construção do processo histórico da humanidade. 12 1 HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO E DA REVOLTA Este livro está dividido em três partes. Nesse primeiro momento, relatamos fatos que dizem respeito à origem e ao povoamento do município de Três Barras do Paraná, com destaque à História da Colonização e da Revolta na Década de 60. 2.1 OS PRIMEIROS HABITANTES Vários autores escreveram sobre os primeiros habitantes mas, nem sempre o que um disse foi confirmado por outro, até porque cada pesquisador revela uma face da História. Contudo, consideramos os dados deste livro relevantes para que se ampliem conhecimentos. Passamos, então, a relatar a História dos primeiros habitantes desse pedacinho do Paraná. Inicialmente, a área de terra que constitui o Município de Três Barras do Paraná, assim como a de outros municípios dessa região, foi habitada por povos indígenas que aqui deixaram marcas de sua existência. Para os índios, a terra era mais do que uma simples fonte de sobrevivência, era a 'mãe' que lhes fornecia os instrumentos de trabalho, a alimentação, o lazer. Como ainda não dominavam plenamente as técnicas agrícolas e, portanto, não conseguiam produzir tudo o que era necessário para a vida do grupo, as tribos sempre se viam obrigadas a mudar de lugar. Eram tribos nômades que, de tempos em tempos, buscavam outras terras onde pudessem coletar alimentos, caçar, pescar e plantar. Sendo assim, era muito comum que uns penetrassem no território de outros, o que provocava constantes desentendimentos e guerras inter-tribais (FIÚZA et al., 1998, p. 26). Para Filho (2011, p. 77), na tentativa de justificar o processo colonial, a desvalorização do território fez parte de uma estratégia por parte das autoridades colonizadoras. Com a Carta Régia de 08 de novembro de 1809, “o discurso do colonizador se circunda de um imaginário puxado de todo um medievalismo cavaleiresco frente a uma imensidão de terras cercadas de índios”. 13 Steca e Flores (2008, p. 54), no que diz respeito aos índios da Região Sul do Brasil, revelam que eles eram “divididos em dois grupos: Gê e Tupi-Guarani, que predominavam no Litoral, Noroeste e Oeste do Estado do Paraná”. Constatação que também figura na obra de Lopes (2005): Os índios do Paraná, estavam divididos em dois grupos: Tupi-Guarani e Gê. A grande maioria desses era Tupi-Guarani, que predominavam no litoral, Noroeste e Oeste do Estado. Enquanto que tribos Kaingang e Xocléng (botocudos) do grupo linguístico Gê, habitavam a Região Central do Paraná de Norte a Sul, e Litoral (LOPES, 2005, p. 54). Nesse sentido, Nitsche (2001) aponta para evidências de batalhas indígenas que foram travadas no município de Três Barras do Paraná num passado distante. Em Três Barras foram encontradas evidências de artefatos indígenas, conhecidos como ponta de projéteis e lâmina de machado que foram talhadas com uma técnica padronizada, que os arqueólogos denominam de tradição, a padronização dessas peças (modo como as pontas de projéteis foram manufaturadas) pertencem à tradição Umbu, pré-cerâmica, caracterizada pela presença de pontas de flechas e uma indústria lítica com lascas retocadas […] o lascamento por pressão foi amplamente utilizado na confecção de tais artefatos, podendo inferir que tais achados pertencem à fase Bituruna (NITSCHE, 2001, p. 21). Segundo Filho (2011, p. 80), “Os Campos de Palmas, chamados pelos povos nativos de 'Bituruna', a existência desses Campos era novidade apenas para os brancos, Bituruna era uma rota de fuga indígena”. Vasco e Silva (2004, p. 26) esclarecem que “temos ainda, no Paraná, 17 reservas indígenas” e que uma delas é a do Rio das Cobras, onde ainda é possível encontrar índios de descendência Guarani e Kaingang. Mas, segundo pioneiros deste município, os guaranis seriam os principais índios de nossa região. Nas regiões próximas ao Rio Paraná (Oeste do Paraná, Paraguai e Argentina), em povoações indígenas fundadas pelos jesuítas, os índios que se destacaram também foram os guaranis. Essas vilas ficaram conhecidas como Missões. As Missões Jesuíticas na América, também chamadas de Reduções, foram destruídas pelos bandeirantes. 14 Segundo Silva (2010), os primeiros padres jesuítas chegaram ao Brasil em março de 1549. Com a catequização indígena, a Coroa portuguesa pretendia unificar o território brasileiro com base na religião hegemônica de Portugal: o Catolicismo. Para que os indígenas compreendessem o ensinamento religioso, os jesuítas construíram, ao longo de 20 anos, vilas com escolas de instrução elementar. Ensinar aos índios os costumes e as crenças europeias seria uma maneira de estabelecer efetivas colônias de Portugal, onde obedeceriam ordens impostas pelos portugueses. Num primeiro momento, as Missões Jesuíticas confirmaram os interesses de integrar os indígenas ao processo de colonização. Porém, quando os jesuítas perceberam que o interesse de Portugal consistia na escravização indígena, iniciaram um trabalho de orientação para que os índios vivessem independentes e afastados dos colonizadores portugueses, formando as Reduções ou Missões Jesuíticas. Entretanto, os colonizadores as descobriam, prendiam e torturavam povos de grandes aldeias, a fim de escravizá-los. Em 1759, “o primeiro-ministro de Portugal Sebastião José de Carvalho, conhecido como Marques de Pombal, ordenou uma expulsão em massa dos jesuítas de todas as colônias portuguesas”. Os jesuítas atuaram junto aos povos oprimidos como defensores, orientadores, religiosos, professores e até médicos. Para muitos brasileiros, os bandeirantes foram considerados heróis. Esses “heróis”, porém, foram os mesmos que se assujeitaram à ganância na busca do ouro e na escravização dos índios, acabando por destruir os povoamentos e matar milhares de inocentes, inclusive padres jesuítas que, naquela época, eram os defensores dos índios e das suas famílias. Júnior (2009 p. 36), afirma que os bandeirantes “para conseguir muitos índios de uma só vez, atacavam as missões, provocando grande mortandade e destruição”. Então, em dez anos (1628 a 1638), destruíram as missões de Guairá (PR), Itatim (MS) e Tape (RS), entre outras, sendo que milhares de índios foram aprisionados e o gado se dispersou. Conforme destacam Vasco e Silva (2004, p. 23): “No fim do Século XVII e meados do XVIII, uma violenta guerra entre bandeirantes e os povos das Missões levou à completa destruição dos Sete Povos e a milhares de indígenas mortos e escravizados”. As marcas dessa destruição até hoje podem ser constatadas, pois certas ruínas das Missões Jesuíticas se tornaram pontos turísticos que atraem muitos estudiosos e visitantes. Um exemplo das ruínas de aldeias indígenas que fizeram parte da atuação dos jesuítas são as Ruínas de San Inácio, da província de Missiones, na Argentina, construídas nas proximidades do Rio Paraná, em 15 território paraguaio e argentino. Essas ruínas frequentemente são visitadas por pesquisadores e por turistas, como pode ser percebido nas figuras que seguem. Figura 01: Autor, José Davi, e sua filha, Elizete, em visita às Ruínas de San Ignacio, na Argentina, para pesquisa sobre as Missões Jesuíticas, em 30/11/2011. no dia 30/11/2011. 16 Figura 02: José Davi e Elizabeth em visita às Ruínas para pesquisa, 30/11/2011. 1.2 O POVOAMENTO DO OESTE DO PARANÁ E O GOVERNO DE GETÚLIO VARGAS O nome Três Barras se deve ao fato de a cidade ter sido fundada no local onde havia três nascentes de água (localizadas na extensão da Rua Mato Grosso denominada de Vila Alta), que se encontravam para formar um rio, chamado de Rio Três Barras, afluente do Rio Guarani, que deságua no Rio Iguaçu. Esse foi um dos lugares paranaenses que, por ser considerado de clima saudável, com boa hidrografia e terras férteis para a produção agrícola, favoreceu a ocupação por gaúchos, catarinenses e paranaenses, a partir dos anos de 1940. Podemos dizer que o povoamento de Três Barras do Paraná, das Regiões Oeste e Sudoeste do Estado do Paraná e o Oeste de Santa Catarina, contam com um percurso marcado por fatos ocorridos nessa região, principalmente no governo de Getúlio Vargas. Para melhor transparência do nosso objetivo, priorizamos o estudo sobre a Região Oeste do Paraná, pois é nesse contexto que está inserido o Município de Três Barras do Paraná, foco principal desta edição. 17 Conforme esclarece Myskiw (2002, p. 27), os “ideais de Vargas estimulavam, na população, ideias de conquista e de uma contínua ocupação dos vazios demográficos”. Essa política migratória era resultado de uma estratégia geoeconômica, que objetivava articular economicamente regiões do Brasil não desenvolvidas. O governo se empenhou no povoamento dessa e das demais áreas de fronteira do Brasil, tendo como principal objetivo a garantia da posse e soberania nacional sobre as terras conhecidas por área de fronteira, as quais se estendiam por uma extensão de até 150 km da fronteira com os países vizinhos. Retrocedendo um pouco na história, lembramos que desde o império até quando Getúlio Vargas assumiu o poder, a maior parte das áreas de fronteira, principalmente as regiões Oeste e Sudoeste do Paraná e o Oeste de Santa Catarina eram consideradas, por parte dos brasileiros, como espaços de terra despovoados ou vazios demográficos. Segundo Mota (1994), para o governo brasileiro, essas terras eram consideradas devolutas, ou seja, acreditava-se que não eram habitadas. Ignorava-se a presença de índios, caboclos e no caso da Região Oeste do Paraná dos obrageros e dos mensús, donos e trabalhadores nas fazendas de erva-mate e de extração de madeira. Assim, considerava-se que as terras eram do governo e este era o responsável por colonizá-las. No Paraná, essa “falta de população” compreendia as terras do Oeste e Sudoeste, desde o Município de Catanduvas até o Rio Paraná, sendo esse espaço dominado por grupos argentinos, que exploravam e comercializavam os produtos regionais. De acordo com Lopes (2002, p. 49), no Oeste e Sudoeste paranaense, até a década de 20, “a presença brasileira era tímida e ineficaz no que se refere ao povoamento. A Oeste de Catanduvas, mesmo no ano de 1930, não parecia Brasil”. O domínio econômico estava nas mãos de argentinos que levavam embora a madeira e a erva-mate, nossos principais produtos na época. No que se refere à situação de exploração vivenciada pelo povo do Oeste do Paraná, oportunizando a saída das riquezas regionais, Steca e Flores (2008, p. 95), esclarecem que nossas riquezas eram exploradas por meio das obrages, ou seja, fazendas organizadas para a extração de madeira e mate. Para as autoras, “obrages eram como firmas, organizadas com trabalhadores paraguaios e/ou brasileiros, denominados mensus, porque eram pagos mensalmente”. Lopes (2002, p. 88) enfatiza a situação de abandono da Região Oeste do Paraná naquela época. Segundo ele, durante vários meses transpareceram as dificuldades enfrentadas pelos 18 grupos de pessoas encarregadas pelo governo para a abertura de picadas na mata, com o objetivo de chegar à Foz do Iguaçu (novembro de 1888 a agosto de 1889). Outro desafio foi enfrentado pela expedição encarregada de instalar uma colônia militar no local: “Em 13 de setembro de 1889, partiu de Guarapuava a expedição que criaria a Colônia Militar, que chegou à Foz em 22 de novembro de 1889”. Após sua instalação, persistia o descontentamento pela falta de uma armada na base militar construída. Conforme explicita Lopes (2002, p. 93), no próprio relato do Marechal Cândido Rondon, que passou pela região em 1924, como um dos participantes da Coluna Prestes, essa insatisfação transparecia: “Inadmissível que, sendo Foz do Iguaçu um ponto estratégico, não disponha de uma força armada para a defesa nacional”. Com base nas análises feitas anteriormente, podemos constatar que até esse momento o Oeste do Paraná se encontrava em estado de abandono, esquecido pelos governos anteriores. Quando Getúlio Vargas assumiu o poder e iniciou uma política nacionalista, aos poucos as coisas foram acontecendo, dando impulso ao desenvolvimento paranaense. Nesse período, contamos a abertura de algumas estradas, principalmente a BR - 277. Em 1938, após a criação do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, que foi “incumbido, em 1941, de desenvolver o Programa Rodoviário Marcha para o Oeste, como fruto da grande estratégia oficial de desenvolver a região e propiciar um grande salto ao processo de colonização”. O objetivo era o de construir a estrada entre Ponta Grossa e Foz do Iguaçu, passando por Cascavel. “Tratava-se da BR 35, hoje, BR 277” (LOPES, 2002, p. 55). Segundo observa Vorpagel (2007, p. 02), o projeto de colonização federal (colonização oficial dirigida pela CANGO) teve como propósito fixar na região agricultores com uma economia baseada na agricultura familiar de pequena propriedade. A maior parte dessas pessoas veio do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, “de colônias agrícolas formadas por descendentes de alemães e italianos”. Entenda-se que a CANGO representava todo tipo de ajuda e assistência aos colonos que chegavam para fixar propriedade: terra, casa, ferramentas, sementes agrícolas, ajuda médica. “Tudo de graça, mas sem o título de propriedade da terra. De modo que, na prática, os agricultores eram posseiros. Tinham a posse da terra, mas não um documento que atestasse a sua propriedade. E essa situação constituiria um problema grave mais adiante”. Todavia, o que mais preocupava o governo era o domínio dos grupos argentinos nas áreas de fronteira com o Paraná e Santa Catarina. A preocupação do governo com as questões de 19 povoamento, ocupação dos espaços vazios e das fronteiras brasileiras, pode ser compreendido sob a ótica do nacionalismo. Como estratégia, Vargas investiu na implementação das políticas territoriais e da criação dos Territórios Federais de Fronteiras. No entanto, as terras do Oeste e Sudoeste do Paraná já estavam sendo ocupadas, principalmente por argentinos. Devido a isso, a política que visava povoar e desenvolver ações de nacionalização para o desenvolvimento da população brasileira e o domínio brasileiro na faixa de fronteira deveria ser implementada com urgência. Com esse propósito, em 1943, Getúlio Vargas publicou um decreto-lei criando cinco Territórios Federais de Fronteiras. Assim, por meio do Decreto-Lei n.º 5.812, de 13 de setembro de 1943, foi criado o Território Federal do Iguaçu, juntamente com os Territórios Federais do Amapá, do Rio Branco, de Ponta Porã e do Guaporé” (LOPES, 2002, p. 112). Três Barras do Paraná ficou incluída nessa área de terra onde foi criado o Território Federal do Iguaçu, extinto em 18 de setembro de 1946. Na faixa de terra que pertenceu ao Território do Iguaçu, haviam sido instaladas três colônias militares: a de Foz do Iguaçu; a de Chopin, no Paraná; a de Chapecó, em Santa Catarina. 20 Figura 03: Mapa do Território Federal do Iguaçu. Extraído do livro: O Território do Iguaçu no Contexto da “Marcha Para Oeste”, de Sérgio Lopes. Cascavel-PR, 2002, p. 116. No entanto, a criação de territórios federais e fundação de colônias militares não foi suficiente para despertar o sentimento nacionalista da população que morava nas terras do Oeste e Sudoeste do Paraná. Assim, medidas precisaram ser tomadas. Conforme esclarece Lopes (2002, p. 45), no caso do Sudoeste e do Oeste Paranaense, economia e população possuíam laços estreitos com argentinos e paraguaios. Com base nisso, o poder público, nessas regiões de divisas nacionais, procurou “evidenciar e explicitar os sentimentos nacionalistas. Até impô-los quando necessário”. 21 No intuito de colonizar e desenvolver a faixa de fronteira, Getúlio Vargas tratou de implementar sua política nacionalista. Passou a incentivar os brasileiros à ocupação e exploração dessas áreas de terra. Para esse fim, Lopes (2002, p. 41) argumenta que o governo Vargas “para despertar nos brasileiros o sentimento nacionalista e de brasilidade”, priorizou a propaganda em rádio e a utilização de imagens: “Só a imagem, pois, convence o povo, em nossa democracia sentimental. Uma imagem vale cem vezes mais do que um argumento”, ou seja, a imagem aliada ao uso da palavra torna-se recurso eficaz para atender a finalidades imediatas, pois, desse modo, o discurso circula com maior rapidez e precisão. Reportando-nos mais especificamente à região Oeste do Paraná, sabemos que o Governo Vargas assumiu o poder em 1930 e, no ano seguinte, organizou uma comissão, chefiada por Zeno Silva, para percorrer essa região a fim de fazer o reconhecimento, iniciando pelo Alto Paraná. O desbravamento iniciado foi chamado de “A Marcha para o Oeste”. Para comprovar esse fato, citamos a publicação do Jornal Gazeta do Povo, de julho de 1931, onde Ciro Silva, irmão de Zeno Silva, que fazia parte da referida comissão, publicou um artigo em que, entre outras coisas, comentava sobre o relatório apresentado pela referida comissão ao governo federal, nos seguintes termos: “Já está produzindo ótimos resultados o relatório apresentado ao governo da República […] o interesse paranaense por aquela zona parece agora despertado, depois de setenta e sete anos de completa indiferença” (LOPES, 2002, p. 95). No Oeste e Sudoeste do Paraná e Oeste de Santa Catarina, a “Marcha para o Oeste” teve ainda o objetivo de atender aos apelos de capitalistas, colonizadores e também de colonos riograndenses, os quais necessitavam de maior espaço para a fronteira agrícola. De acordo com Wachowicz (apud Lopes, 2002, p. 57), diante dessa situação, Getúlio Vargas atentou para os interesses dos capitalistas e colonizadores do Rio Grande do Sul, oportunizando aos colonos e colonizadores gaúchos o preparo da expansão do Território do Rio Grande do Sul. Dessa forma, poderiam aumentar a fronteira agrícola. Para esses grupos, diante da problemática vivenciada, o excesso de mão de obra rural do Rio Grande do Sul, acarretou na necessidade de deslocamento e ocupação do Oeste de Santa Catarina e do Paraná. Além dos motivos acima citados, para trazer para essa região os colonos gaúchos, Steca e Flores (2008, p. 113), esclarecem que “a escolha do elemento sulista, assim denominado por ser 22 originário do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, não foi aleatória. Os sulistas dominavam a tecnologia agrícola dos descendentes de italianos e alemães, considerada mais evoluída”. Três Barras do Paraná foi um dos municípios do Oeste do Paraná, que recebeu grande impulso em seu desenvolvimento, graças à vinda de colonos do Sul do Brasil. Com espírito aventureiro, trabalhador e destemido, esses agricultores adentraram o “sertão de Três Barras” de forma a contribuir com o povoamento e o progresso, dando origem a um novo município. Das origens à atualidade, Três Barras do Paraná deve seu desenvolvimento, principalmente, ao trabalho dos agricultores: pioneiros dessa povoação. Acreditamos que, em grande parte, a Região Oeste do Estado do Paraná tenha sido beneficiada com a vinda desses colonos, não somente na área agrícola, mas também ao estimularem o desenvolvimento do comércio e da industrialização dessa região. Os povoadores vindos do Sul, na luta pela sobrevivência e sustento de suas famílias, trabalharam com a exploração da madeira e com o cultivo das terras. O desenvolvimento agrícola foi tão importante que deu ao Paraná o título de “Celeiro do Brasil”. Pela avaliação do IBGE, esse título é mantido até hoje, pois o Paraná mantém a liderança na produção nacional de grãos. Diante do exposto, consideramos Getúlio Vargas como um grande presidente, muito respeitado pela população da época, principalmente pelos colonos do Sul do Brasil. Ficaram marcados na memória do autor, José Davi, fatos que reforçam essa afirmação: Saímos, eu e meu pai, de São Domingos – Santa Catarina, da localidade de São Braz, no dia 23 de agosto de 1954, com uma carroça puxada por animais. Fomos para Pato Branco buscar um tambor de duzentos litros de querosene para ser vendido no armazém do meu pai. O uso do querosene era comum nessa região porque, na época, não havia energia elétrica e o lampião a querosene era muito utilizado. Saímos às seis da manhã e só chegamos em Pato Branco em torno de nove ou dez horas do dia seguinte. Pernoitamos na carroça, coberta com uma espécie de lona que era chamada de “tolda”. Quando chegamos no posto de combustível de Pato Branco, apesar de ter apenas seis anos de idade naquele tempo, lembro bem o que disseram alguns colonos, conhecidos do meu pai, quando se aproximaram preocupados: “Seu Pedro, não sei se o senhor vai ser atendido hoje. As rádios estão anunciando que o Brasil está de luto porque mataram o Getúlio Vargas. E agora o que vai ser do Brasil?... Hoje, com uma saca de feijão compramos uma saca de açúcar ou uma saca de farinha de trigo. E agora, quem vai garantir um bom preço para os nossos produtos?” (Depoimento de José Davi Paludo, 19 mar. 2012, em Três Barras do Paraná). 23 Consideramos relevante, portanto, o conhecimento de alguns dos fatos que marcaram a história do Governo de Getúlio Vargas. Então, além do que já foi explicitado nesta obra, a título de exemplificação, selecionamos mais algumas das realizações desse governo: - Investimento na infraestrutura do país, com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (1940), Companhia Vale do Rio Doce (1942), Companhia Hidroelétrica do São Francisco (1945) e Petrobrás, a maior empresa brasileira (1953); - Criação do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (1938), Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (1930); OAB – Ordem dos Advogados do Brasil (1930); - Criou os Direitos Trabalhistas - Justiça do Trabalho (1939), o Salário Mínimo (1940), Semana de Trabalho de 48 Horas (1943), Carteira Profissional (1932) e Lei de Férias Remuneradas (1926), CLT (1943), Institutos de Aposentadorias e Pensões (1933); Justiça Eleitoral (1930) e Código Eleitoral (1932), com o voto secreto e voto feminino. Além do que já foi citado, acreditamos também que, com a defesa das áreas de fronteira, a criação dos territórios federais e o incentivo à vinda dos colonos gaúchos, a política nacionalista do Governo Vargas muito contribuiu para colonizar e desenvolver o Sudoeste e o Oeste do Paraná, onde se inclui o Município de Três Barras do Paraná. De acordo com Fonseca (1989, apud Dutra e Bastos, 2009), Getúlio Vargas foi considerado pelo jornal Folha de S. Paulo, em 2007, o “maior brasileiro de todos os tempos”. Getúlio Vargas foi o grande estadista que o Brasil teve no século XX, foi capaz de chamar os empresários industriais à burocracia pública e os trabalhadores urbanos para um pacto político e uma estratégia nacional desenvolvimentista. Com um governo autoritário entre 1930 e 1945, ele quebrou a hegemonia das oligarquias agrária e mercantilista que dominavam o Brasil até então. Um populista, ele foi o primeiro político a estabelecer uma relação com o povo ao invés de apenas com suas elites. Em seu segundo governo, entre 1951 e 1954, ele completou seu projeto nacional. Depois dele e do governo Kubitschek, a revolução industrial e capitalista do Brasil iniciada em 1940 podia ser considerada completa – o que abriu espaço para uma democracia mais consolidada no país (FONSECA, 1989, apud DUTRA e BASTOS, 2009). 1.3 OS PIONEIROS DE TRÊS BARRAS 24 Na década de quarenta, atraídas pela caça e pesca que era abundante nesta região, chegaram pessoas vindas do Sudoeste do Paraná, principalmente de Dois Vizinhos e Salto do Lontra. Conforme esclarecem as pesquisadoras Fresca, Salvi e Archela (2005, p. 206): “... a partir de 1940, a colonização ultrapassou o Rio Iguaçu, entrando no Oeste Paranaense...” Esse forte fluxo migratório contribuiu para que os espaços vazios fossem preenchidos e a agricultura desenvolvida, trazendo progresso, estabilidade social e cultura à localidade. A história da povoação de Três Barras, conhecida anteriormente como Encruzo, se construiu de maneira intimamente ligada à de Catanduvas, município ao qual pertenceu. O Distrito Administrativo de Três Barras, criado em 1966, por meio de Lei Municipal, deu lugar à criação do Município, em 13 de maio de 1980, pela Lei Estadual nº 7305. O território foi desmembrado de Catanduvas e a instalação oficial se deu no dia 01 de fevereiro de 1983. Com sua emancipação, no dia 13 de maio de 1980, a denominação foi alterada para Três Barras do Paraná (Fonte: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/painel/painel.php?codmun=412785#). Gomes (2005, p. 98) argumenta que, durante a época da revolta, algumas famílias atravessaram o Rio Iguaçu para fugir da perseguição das companhias. Parte dessas famílias fixou residência nas terras que atualmente pertencem ao município de Três Barras do Paraná. Mas também jagunços passaram o Rio Iguaçu. Segundo a autora, Jácomo Trento, conhecido como Porto Alegre, líder do movimento em Pato Branco, ao narrar a vitória contra as companhias e seus jagunços teria dito: “os jagunços estavam presos, os escritórios lacrados, os que não foram presos se entregaram no quartel em Francisco Beltrão ou fugiram atravessando o Rio Iguaçu”. A propaganda do governo federal, a notícia da terra fértil e a abundância de madeira se espalharam, chamando a atenção de colonos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, que transferiram-se para essa região. Por exemplo, em São Domingos, próximo a Chapecó - SC (lugar onde o autor deste livro, José Davi, passou a infância), ouvia-se dizer: “Vamos para o Paraná. Em Três Barras, só com a madeira você paga a terra”. Assim, quando aconteceu a revolta, já residiam em Três Barras mais de quatrocentas famílias. Conforme entrevista concedida por um dos pioneiros, o saudoso Timóteo Bernardes Prestes: “ele, quando aqui chegou, no início da década de cinquenta, nas proximidades de Três Barras, só havia dois moradores: Pedro Silvério e Juvêncio Gonçalves; então, teria sido o terceiro morador”. 25 Logo depois vieram as famílias: Boaretto, Moreschi, Farias, Martins, Cordeiro entre outras. E assim foram chegando os pioneiros de Três Barras do Paraná. Ao mesmo tempo, várias famílias se instalaram no interior do município. Citamos aqui algumas dessas famílias, as quais foram mencionadas pelos posseiros nas pesquisas e entrevistas realizadas. Fixaram residência na região de Santo Isidoro, a Família Martendal e a família de Adílio dos Passos. Em Santa Bárbara, as famílias Rossi e Berlanda. Nas imediações de Três Barras, para o lado das localidades de Barra Grande, Linha Nova, Palmital e Alto Palmares: as famílias Cordeiro, Farrapos e Martins. Em Barra Bonita: as famílias Meurer, Oenning e Schlickmann. Próximo a Flores da Cunha: as famílias Cassol, Ludvichak e Pedroso. Em Alto Alegre, a família de José Maria Borges Vieira. Em Rosário D’Oeste, as famílias de Antônio José da Silva (Antoninho Albino), José Antônio da Rocha, Teodoro Brand, Hilário Ecker, além de outras. Os pioneiros foram chegando, se instalando, povoando e contribuindo para o desenvolvimento desse município. De São Domingos, por exemplo, vieram várias famílias para residir em Três Barras: a família de Pedro Zacarias Paludo (pai do autor deste livro), a família de Alberto Paludo (tio do autor deste livro), de Arquilau Nunes de Carvalho, de Estanislau Nunes de Carvalho, de Celso Palmas, de Giovani Palmas de Lima, de João Erbílio Borges, de Idevino Zanetim, entre outras. Várias famílias, como é o caso da família Paludo e de algumas das famílias citadas, vieram para Três Barras após a revolta e, quando aqui chegaram, a maior parte dessas terras já estava povoada. Entre os relatos de pioneiros entrevistados, houve informações de que essas terras, até o final da década de trinta, eram habitadas somente por algumas famílias de mestiços, conhecidos por caboclos, dos quais não se sabia a procedência. Alguns pioneiros entrevistados relataram que, nos primeiros anos que viveram nas terras tribarrenses, acamparam como caçadores e pescadores nas margens de rios. Passavam vários dias acampados, se alimentando da caça, da pesca, da coleta de frutos e de outros alimentos que a mata oferecia. Naquele momento histórico, a ocupação causava sofrimento, mas com o passar do tempo, quando conseguiram se fixar na região e fazer amizades, essa atividade passou a ser menos penosa e até divertida. Então, acampavam nas matas de Três Barras, principalmente nas proximidades do Rio Guarani, junto com alguns companheiros que também vinham se colocar para, posteriormente, trazer suas famílias. Mas, devido ao fato de terem recebido a visita de 26 animais ferozes nos acampamentos, para conseguirem se proteger, andavam sempre armados. Segundo esses aventureiros, nessas matas havia muitos animais ferozes, como: tigre, leão baio, jaguatirica, canguçu e outros. Também havia vários tipos de cobras venenosas: cascavel, urutu preto, urutu dourado, urutu cruzeiro, jararacuçu, jararaca da cola branca e cobra coral. Em dezembro de 2011, junto com um grupo de professores do Colégio Estadual Princesa Izabel, em um curso de especialização realizado no mesmo Colégio, a história foi revivida por meio de uma entrevista realizada com os pioneiros e seus descendentes, conforme foto que segue. Figura 04: Pioneiros e descendentes entrevistados em dezembro de 2011, no Colégio Estadual Princesa Izabel. Da direita p/ esquerda: Carmela Boaretto Rossa, Noel Lopes da Veiga, Ivo Pedroso, Júlio Lautharte Santana, Francisco Ludvichak e Aristides Martendal do Passos. Contaram os entrevistados que chegavam a pé ou a cavalo, passando por picadas abertas a facão, pois não havia estradas nas terras de Três Barras. As primeiras estradas foram abertas pelos próprios posseiros, que se reuniam em forma de puxirão (mutirão) e abriam picadas na mata com o corte de algumas árvores para conseguirem entrar com carroças e trazer as mudanças. As primeiras mudanças foram trazidas nos lombos de animais, com grande sofrimento. Uma das maiores dificuldades enfrentadas era a travessia do Rio Iguaçu. Mesmo depois de 27 colocados, quando alguém ficava doente, buscava-se um curador, ou seja, alguém que fazia remédios com a utilização de plantas silvestres. Mas para a locomoção das pessoas na busca por algum recurso, devido a poucos caminhos abertos na mata fechada, só podiam ir a cavalo. Conta o pioneiro Ivo Pedroso que, se o doente não pudesse ser transportado a cavalo, tinha de rezar para que Deus o salvasse ou para que os remédios de ervas surtissem o efeito necessário, pois nessas terras não tinha hospital e nem meios para transportar o adoentado até onde pudesse ser socorrido. Conforme nos lembra Sanches (2010), como em outros lugares da região, houve a necessidade do comércio para a subsistência populacional nas vilas que se formavam. E assim surgiram os “armazéns de secos de molhados”. A título de esclarecimento, segundo informações do Dicionário Online de Português, esse ramo de comércio abrange lojas de comestíveis onde os gêneros secos (como trigo, feijão ou grãos em geral) são vendidos sob medida ao freguês. São considerados gêneros molhados, os produtos que não estão livres de umidade (compotas de frutas produzidas artesanalmente, queijos, linguiças etc.). Essas expressões e costumes eram naturalmente utilizados naquela época, em diversos lugares paranaenses. Com o aumento da população e a dificuldade de irem para outros lugares fazer compras, surgiram as primeiras casas de comércio (casas de secos e molhados, como eram registradas), onde vendiam de tudo: tecido, carne, arroz, pão, latarias, brinquedos, etc., não tinham a sofisticação dos mercados de hoje, geralmente eram de madeira, com grandes balcões, onde o vendedor (caixeiro) como era chamado, atendia o freguês (SANCHES, 2010, p. 32). Dentre as várias informações fornecidas, os pioneiros também fizeram questão de lembrar que o início do povoamento de Três Barras se deu próximo ao local onde existia um moinho, na saída da cidade, rumo à localidade de Linha Alta. Havia uma antiga estrada que passava pelo referido moinho, por uma antiga serraria, por Linha Alta e que seguia para Catanduvas. Atualmente, esse trajeto conta com uma estrada asfaltada que passa em frente à Coopavel, na Rodovia PR-471. Dos três riachos existentes, restaram apenas dois. Mesmo assim, o nome do município foi mantido, pela marca histórica de origem. 28 Vários dos pioneiros que ainda residem nesse município já foram homenageados pelas autoridades locais, representadas pelos Vereadores e Prefeito, com a entrega solene de títulos de Cidadão Honorário do Município. 1.4 REFLEXOS DA REVOLTA DO SUDOESTE EM TRÊS BARRAS DO PARANÁ Para melhor entender o movimento conhecido como “A Revolta de Três Barras”, realizamos uma análise do que aconteceu no Paraná na década de 50, destacando as semelhanças dos fatos ocorridos nessa localidade com os conflitos da região paranaense. Segundo Vorpagel (2007), houve uma confusão jurídica: Os posseiros do sudoeste do Paraná foram instalados em áreas de terra que estavam sendo alvo de disputa judicial entre os governos federal e estadual. Juridicamente, a área não tinha dono, mas estava incorporada à União […] As companhias colonizadoras oficiais e particulares estavam envolvidas na disputa pela posse da área do sudoeste do Paraná: no meio do caminho havia os colonos (VORPAGEL, 2007, p. 03). Contudo, podemos dizer que o conflito pela posse da terra, em 1957, envolveu posseiros, companhias colonizadoras e o poder público. O conflito teve origem na disputa jurídica pela posse da gleba MISSÕES e parte da gleba CHOPIM. O governo federal, através da CANGO, implantou na região projeto de colonização e incentivou gaúchos e catarinenses para povoá-la. A companhia colonizadora CITLA, formada por particulares, igualmente instalou-se na área na condição de herdeira das glebas, resultado de longo processo judicial envolvendo o poder público e empreendedores particulares (VORPAGEL, 2007, p. 01). Essa revolta, segundo Gomes (2005, p. 51), na Região de Francisco Beltrão foi liderada pelo Dr. Walter Alberto Pécoits e por Jácomo Trento, o popular Porto Alegre, na região de Pato Branco. Na luta dos posseiros pelas terras, o medo da violência imposta pelos jagunços das companhias, a união em torno de um objetivo comum, a conquista da posse das terras e a defesa de suas famílias, foi semelhante ao que aconteceu em Três Barras do Paraná. De um lado estavam as companhias e seus jagunços. De outro, os colonos que haviam cultivado, mas não tinham documentos que comprovassem a posse de suas terras. Enquanto isso, o conflito tomava rumos 29 assustadores: “Com a reeleição de Moysés Lupion, em 1955, a CITLA retoma a venda dos lotes de terra, agora de forma mais ofensiva... se alguém se revoltasse contra eles, mandavam matar...”. As companhias COMERCIAL - Companhia Comercial e Agrícola Paraná Ltda., APUCARANA - Imobiliária Apucarana Ltda., CITLA - Clevelândia Industrial e Territorial Ltda., entre outras, tinham a autorização do Governador Moysés Lupion para medir, vender e documentar terras nessa região. Conforme esclarece Gomes (2005), a CITLA teria sido a companhia que mais prejudicou os colonos do Sudoeste do Paraná. Seus jagunços, com o aval do Governador Moysés Lupion, atuaram com extrema violência: Conforme inquérito do Banco do Brasil, publicado como suplemento nº 26, no Diário do Congresso Nacional de 04.02.1953, a CITLA fazia parte do Grupo Moysés Lupion, composto pelas empresas: M. Lupion e Cia., Clevelândia Industrial e Territorial Ltda., Mineração de Carvão Norte do Paraná, Indústrias Brasileiras de Papel e Serrarias Reunidas Santisi. O surgimento da CITLA nessa trama dá uma nova dinâmica aos fatos. Essa empresa vai ser responsável pela intensificação do processo de luta (GOMES, 2005, p. 35). A título de informação, Moysés Lupion foi governador do Paraná por duas gestões: 19461951 e 1956-1960. No intervalo dos seus dois governos (1951 a 1955), o Paraná esteve sob comando do Governador Bento Munhoz da Rocha. Parte da terras de Três Barras foram denominadas de Colônia Timburi e pertenciam à Empresa BELLÉ & SIMIONI que, a exemplo de outras companhias que atuaram no Sudoeste do Paraná, conforme relato dos posseiros, trouxe jagunços, alguns dos quais já haviam sido contratados pela CITLA, para atuarem no embate pela conquista das terras da região. Depoimentos de Alcides Nunes Prestes e outros posseiros entrevistados, destacam a presença de um dos representantes dessa empresa, conhecido pelo nome de Aarão. Esse sujeito trazia consigo vários jagunços e ordenava que batessem nos colonos para intimidá-los e pressioná-los a abandonarem as terras que tinham ocupado. Gomes (2005, p. 65), enfatiza a tamanha crueldade dos jagunços da Companhia COMERCIAL em relação aos posseiros que não queriam se assujeitar às suas ordens de retirada, com assassinatos de pessoas comuns: “De todas as mortes, a da mulher de João Saldanha, colono que morava em Rio Ampére, município de Francisco Beltrão, e de seus dois filhos menores, foi 30 sem dúvida a mais bárbara”. E esclarece, em seguida que “Lino Marquetti, administrador da Companhia Comercial do Paraná, teria mandado matar João Saldanha porque este não queria assujeitar-se às exigências da referida companhia”. Conforme também relata Cariconde (apud Gomes, 2005), os jagunços intimidavam os colonos, com “espancamentos, torturas, violências sexuais, assassinatos, incêndios de roças, casas e galpões e exigência de pagamento de pedágio nas estradas”. Cariconde revela ainda que, “aos colonos, coagidos a fazer os pagamentos das tais 'vendas', eram entregues recibos debochados, manuscritos em papel de embrulho e de cigarro, assinados pelos próprios jagunços, não com seu nome legítimo, mas com o apelido. Eram cenas humilhantes”. E, quanto ao assassinato do vereador Pedro Luis Camargo, da mulher do colono João Saldanha e seus dois filhos, destaca os requintes de crueldade com que açoitaram três crianças entre 8 e 11 anos, o que acabou por levar os moradores a se rebelarem contra tais atitudes: “pela sua força os camponeses barraram o terror do latifúndio e a ganância dos monopolistas. Apenas com suas próprias mãos”. Por outro lado, referindo-se à Revolta de Três Barras, Myskiw (2002, p. 87) argumenta que a violência partiu dos posseiros: “Este levante mobilizou cerca de 400 posseiros e colonos, levando pânico aos moradores daquela vila”. Segundo o julgamento feito pelas autoridades, no final da revolta, os posseiros foram considerados culpados e foram punidos por práticas criminosas: bando armado, constrangimento ilegal, sequestro e cárcere privado, homicídio qualificado e lesões corporais. Foram também considerados invasores das terras das companhias, como as da empresa Bellé & Simioni, pois elas possuíam os títulos de propriedade, concedidos pelo governo do Estado do Paraná. Entretanto, ao ouvirmos os posseiros, seus argumentos deixam claro que a violência partiu das companhias e que lutaram em defesa própria, de suas terras e de suas famílias, do mesmo modo como agiram outros colonos do Sudoeste do Paraná. Outro aspecto da Revolta a ser destacado, refere-se ao cunho político do movimento. Em certo sentido, Gomes (2005, p. 76) comenta sobre o interesse político do Governo Moysés Lupion e seus aliados em atribuir a culpa pelo conflito no Sudoeste aos seus opositores: “Fica aqui evidente que, para os políticos da situação, PSD, toda inquietação reinante na região era decorrente de uma luta político-partidária, na qual os adversários políticos (PTB e UDN), junto com o Núcleo Agrícola General Osório, seriam responsáveis pela sublevação dos colonos”. 31 Myskiw (2002, p. 94), evidencia a interferência política de Benedito Antunes Pereira, que assumiu o cargo de Prefeito de Catanduvas no lugar do Prefeito Augusto Gomes. Conforme Benedito deixou em registro, após Augusto Gomes ter deixado a Prefeitura por ter sido impedido pela Câmara de continuar o mandato, parou de convulsionar a região, “como o novo levante de posseiros que eclodiu dois dias depois de sua ida à região de Três Barras”, e a calma, de certa forma, voltou. Outro registro diz respeito ao adversário político, Dr. Walter Alberto Pécoits que, na ocasião, era deputado Estadual pelo PTB: No pretenso objetivo de defender os interesses dos posseiros da região da Gleba Andrada e Costa do Iguaçu, sitas no Município de Catanduvas, ultimamente instigava-os e orientava-os no sentido de se rebelarem, no maior número possível, contra as medições que ali se processavam, e que promovessem toda a sorte de delitos, prendendo e matando agrimensores, topógrafos e proprietários, tidos como grileiros e fazendo crer aos posseiros que a prática desses crimes seria a única solução para o problema da terra, de vez que, pela amplitude e envergadura do movimento delituoso, provocaria a pronta intervenção do Exército Nacional na região conflagrada e, consequente acomodação dos interesses conflitantes (MYSKIW 2002, p. 95). Com as análises feitas, procuramos esclarecimentos sobre a Revolta dos Posseiros no Paraná, um conflito que estourou em 1957 entre posseiros e colonizadoras. Embora não seja de interesse geral para nossos propósitos, após isso, nos anos de 1962 a 1973, O GETSOP - Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste do Paraná, conseguiu concluir a obra iniciada pela CANGO e interrompida pela atuação das companhias. Os posseiros, mesmo que a duras penas, conseguiram manter a posse de suas terras, regularizando-as. As áreas em litígio foram desapropriadas no governo Jânio Quadros, em 1961. Entre 1962 a 1973, o governo federal realizou uma verdadeira reforma agrária no sudoeste, concedendo cerca de 43 mil títulos de propriedade numa área de 545 mil hectares de Terras […] O conflito foi concluído com a vitória dos posseiros, que tiveram suas posses regularizadas e tituladas a partir de 1962 (VORPAGEL, 2007, apud GOMES, 2005, p. 29). Esclarecemos que o movimento ocorrido em Três Barras, não foi um movimento isolado. Na realidade, pode ser entendido como um reflexo do movimento que aconteceu em outros lugares do Paraná e contra os mesmos adversários: companhias colonizadoras que, dizendo-se autorizadas pelo Governo Estadual, atuaram de forma abusiva na região. 32 Lembramos que o Governo Federal atuou em defesa dos posseiros, na medida em que, ao tomar conhecimento do movimento conhecido por “A Revolta de Três Barras”, mandou para essa região dois órgãos federais: o IBRA - Instituto Brasileiro de Reforma Agrária e o INDA Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário, com o objetivo de tranquilizar a população, mediram e documentaram as terras, fornecendo os títulos definitivos de propriedade, também abriram estradas e escolas, oportunizando o desenvolvimento dessa região. 1.5 A REVOLTA DE TRÊS BARRAS Estudos realizados sobre a História do Brasil, desde o tempo das capitanias hereditárias, demonstram uma forte tendência dos governantes em doar terras a seus aliados políticos. Gomes (2005), confirma essa tendência: Essas concessões têm início em 1889 quando D. Pedro II, através do Decreto nº 10.432, de 10 de novembro, concede ao Engenheiro João Teixeira Soares uma área de terras devolutas e nacionais equivalente a 9 km para cada lado da linha, na extensão total das estradas construídas, em troca da construção da estrada de ferro Itararé - Uruguai e dois ramais (GOMES, 2005, p. 29). No Paraná, essa tendência ficou evidenciada no governo de Moysés Lupion, o qual se envolveu com as companhias colonizadoras que exploravam, colonizam e documentavam terras do Sudoeste paranaense: “Vários fatos comprovam que Moysés Lupion, pessoalmente, tinha ligações com a CITLA e suas concessionárias, A Companhia Comercial Agrícola e a Companhia Apucarana” (Gomes, 2005, p. 51). Parte das terras de Três Barras do Paraná foram denominadas de Colônia Timburi, a qual pertencia à Empresa Colonizadora BELLÉ & SIMIONI. Conforme diziam os posseiros, a documentação que concedia o direito de posse dessas terras à referida empresa foi concedida pelo Governo Moysés Lupion. Passaram-se vários anos sem que os representantes dessa companhia manifestassem preocupação em explorar e colonizar as terras que elas faziam parte dessa colônia. No entanto, ao perceberem que essas terras já estavam ocupadas por centenas de famílias vindas do Sul do Brasil, principalmente, da Região Sudoeste do Estado do Paraná, resolveram brigar pelo direito de posse. 33 Figura 05: Sudoeste do Paraná: localização da área em litígio no Sudoeste do Paraná que resultou na Revolta dos Posseiros em 1957. Fonte: Caderno Cultural da Prefeitura de Francisco Beltrão, no Paraná. In.: Vorpagel, 2007, p. 03. No início da década de sessenta, espalharam-se notícias que essas terras seriam do governo federal. Na verdade eram por motivo de pertencer à faixa de fronteira. Mas havia uma disputa judicial entre o Governo Federal e o Governo do Paraná, para decidir a quem de fato as terras pertenciam. Um fato que colocou os paranaenses na disputa de terras com o Governo Federal foi a Constituição Federal de 1891, pois estabelecia que as “terras devolutas e nacionais” passariam ao domínio dos Estados. (GOMES, 2005, p. 30). Esse fato permitiu que o governo do Paraná, assinasse contratos, concedendo direitos sobre glebas de terras às companhias imobiliárias, mas que tiveram pouco valor diante dos ditames da Lei. Por isso, ocorreu um conflito de interesses entre governo federal e estadual, culminando com algumas anulações de contratos. Conforme Gomes (2005): Com o Decreto – Lei n.º 2.436, de 22 de julho de 1940, o Governo da União incorpora os bens e empresas da Brasil Railway Company, para indenizar-se das somas que, por esta companhia, lhe era devido, por sonegações e recebimentos indébitos, e para extinguir a exploração de seus administradores, que agiam fora da lei em detrimento do Brasil (GOMES, 2005, p. 32). Myskiw (2002, p. 92) comenta que “O levante de posseiros ocorreu dentro da área urbana da vila denominada Três Barras, situada na colônia denominada “Timburi” (103.096 hectares), 34 titulada pelo Estado do Paraná, em 1959, à empresa BELLÉ & SIMIONI”. De acordo com o autor, essa colônia era uma das que tinha os títulos de propriedade de terras sob disputa judicial entre o Paraná e a União, pois ficava na faixa de fronteira internacional. Aos posseiros de Três Barras pouco interessava se as terras eram do Governo Federal ou Estadual. Foram apenas entrando e se colocando, com suas famílias, na esperança de, mais tarde, receberem a documentação legal que garantiria aos mesmos a posse definitiva das terras. Vale ressaltar que o Governo Getúlio Vargas já havia incentivado a ocupação das terras produtivas no Oeste e Sudoeste do Paraná, pelos colonos do Sul do Brasil. Inclusive tinha sido criada a CANGO - Colônia Agrícola Nacional General Osório, em 1943, no Sudoeste do Paraná, para medir e documentar as terras aos colonos. Todavia, em Três Barras do Paraná, quando a Companhia BELLÉ & SIMIONI percebeu que as terras estavam sendo povoadas, considerou os agricultores como invasores e tratou de apressar a medição, a venda e a documentação das terras ocupadas. Conforme esclareceram alguns dos posseiros entrevistados, essa companhia chegou com vários funcionários e mais um grupo de pessoas, para intimidá-los e pressioná-los a aceitar as medições, exigindo dos colonos o pagamento do valor estipulado pela companhia. Os que não concordavam, sofriam maus tratos e ameaça de morte. Por esse motivo, muitas famílias abandonaram as terras. Outras foram embora por não concordarem com a luta armada e/ou porque temiam represálias por parte dos representantes das companhias. Entre os agricultores estavam também alguns foragidos da justiça de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, os quais, ao perceberem a situação de conflito que havia se formado, trataram de ir embora antes que a polícia os encontrasse. Mas houve quem decidiu permanecer e lutar para não perder suas propriedades, sendo que, várias delas haviam sido adquiridas dos primeiros moradores, que intencionavam não apenas trabalhar e sustentar suas famílias, mas criar raízes nessas terras e construir um futuro de maior prosperidade. Esses “heróis anônimos” doaram seu sangue para preservar esse chão paranaense aos seus descendentes. Alguns dos posseiros entrevistados contaram que os colonos vindos do Sul negociavam a compra dos terrenos dos primeiros moradores, por eles intitulados de caboclos, pagando-os com dinheiro, armas, ferramentas e até alimentos. Conforme depoimentos obtidos, os contratos de 35 compra e venda do direito de posse eram elaborados de forma manuscrita. As partes interessadas ditavam as cláusulas contratuais, assinavam e o pagamento era acertado à vista, no ato da assinatura do contrato, que significava a compra das terras. Essa era a forma de contrato que existia na época, pois ainda não havia cartório em Três Barras. Se o contrato manuscrito não valia como documento oficial, ao menos serviria para comprovar o direito de posse. E assim consideravam-se legítimos proprietários, com o poder de posse e o dever de lutar para defender sua propriedade. Com a pressão das companhias para que os posseiros comprassem deles as terras, aconteceu também que alguns madeireiros se aproveitaram da situação, por considerarem esses contratos como frios e sem valor legal, invadiam as terras para fazer a retirada da madeira. Pela falta de uma medição oficial, não havia um limite exato entre as propriedades, fato que gerou a invasão de terras pelos madeireiros. Os interessados em lucrar com a extração e comercialização da madeira se justificavam, dizendo que não sabiam exatamente onde passava a divisa das terras. Enquanto as companhias pressionavam os posseiros, chegou até eles à notícia de que os documentos liberados por essas empresas eram frios, sem validade, porque os legítimos títulos de propriedade somente poderiam ser liberados pelo Governo Federal, a quem realmente essas terras pertenciam. Conforme depoimento do posseiro Afonso Steiner, registrado na dissertação de Myskiw (2002, p. 102), “que os títulos eram frios e que a documentação só era válida quando era do governo federal, tendo o mesmo sabido disso pelo rádio”. Naquela época, segundo Pegoraro (2007), o rádio desempenhava função relevante, pois assumia o papel de liderança no fornecimento das informações sobre o conflito. Único veículo de comunicação da região nessa época, em meio a uma população em sua grande maioria analfabeta, o rádio desempenhava a função de informador, mediador e conselheiro. Seus radialistas eram tidos em grande consideração pelos ouvintes. Foi dessa forma que Ivo Thomazoni, radialista da Colméia em Pato Branco, foi gradativamente assumindo o papel de uma das lideranças do levante. A emissora não apenas fornecia informações sobre as dificuldades enfrentadas por colonos e posseiros para o público ouvinte, mas também alimentava a imprensa de Curitiba, pois somente no mês de outubro de 1957 alguns veículos de comunicação enviaram repórteres para cobrir in loco o conflito. Enquanto a imprensa da capital do Estado, distante do cotidiano de luta, abordava principalmente o aspecto político do movimento agrário, a imprensa regional tomava parte direta no confronto, embora sem abandonar os seus próprios interesses partidários (PEGORARO, 2007, p. 01). 36 Após essa análise, podemos concluir que, entre as várias causas da referida revolta, é possível evidenciar pelo menos três delas: I - A luta contra as companhias pela posse da terra, para não pagar novamente as terras adquiridas; II - A revolta contra os madeireiros que invadiam as terras e se apossavam da madeira existente; III - A notícia que corria entre os posseiros que os documentos das companhias não tinham validade. Segundo relatos de Benedito Antunes Pereira, Prefeito de Catanduvas na época, os posseiros teriam sido alertados por Augusto Gomes e o Dr. Walter Alberto Pécoits da não validade dos títulos emitidos pela companhia. Eles os teriam incentivado a lutar, afirmando que, “em caso de luta armada, o exército de Francisco Beltrão interviria e o governo daria a eles a posse de suas terras” (MYSKIW, 2002, p. 94). Após a revolta de Três Barras, sendo preso em Cascavel, o Dr. Walter teria negado as acusações de incentivar o “Levante de Três Barras”, diante das autoridades. No entanto, os demais citados como mentores do movimento, ao serem pressionados, teriam confirmado que contavam com o apoio de Augusto Gomes, o ex-prefeito, e do Dr. Walter, ex-deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro - PTB. As lutas em Três Barras aconteceram poucos anos após as lutas pela posse das terras no Sudoeste do Paraná, sendo que, dentre os posseiros que lutaram pelo direito da terra, muitos vieram de Francisco Beltrão e, sendo assim, sabiam exatamente como as coisas aconteceram naquele local. Lá a Revolta dos Posseiros teve um final feliz, eles invadiram Francisco Beltrão e dominaram a cidade: “No dia 10 de outubro de 1957, cerca de 6.000 colonos tomaram a sede do município de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná” (GOMES, 2005, p. 07). Esse fato serviu de exemplo e incentivo à luta para os posseiros de Três Barras. As terras, segundo os líderes do movimento, deveriam ser conquistadas com lutas. Além disso, tinham um grande respeito pelo Dr. Walter, o que reforçava a certeza da vitória. E diziam: “aqui vai dar tudo certo, assim como deu certo no Sudoeste do Paraná”. Para Myskiw (2002, p. 94), o movimento tinha como modelo o levante de posseiros ocorrido na Região Sudoeste do Paraná. Os líderes do movimento foram: “João Antônio Farias, Rodolfo Farias, Sílvio Farias, Dorival Alves Martins, Luiz Alves Martins, Domingos Pizza e 37 João Alves Martins, qualificados como sendo os mentores do levante de posseiros de Três Barras”. Todavia, causaram espanto e indignação por parte dos posseiros de Três Barras as declarações feitas pelo então prefeito de Catanduvas, Benedito Antunes Pereira. É fato público e notório que os posseiros de Três Barras, em sua quase totalidade, não querem terra para cultivo e sim para comerciar com ela, vendendo pedaços de suas posses a novos posseiros. Se medida a área e abertas as divisas, acaba-se com o comércio ilícito [...] Não existe cultura alguma onde existe posseiro [...] fato que desmoraliza qualquer colonização e impede que autênticos colonos comprem a terra legítima e cultivem-na (MYSKIW, 2002, p. 110). Pelo que foi exposto, podemos dizer que o Prefeito de Catanduvas, na época, Benedito Antunes Pereira estava contra os posseiros. Por outro lado, o ex-prefeito de Catanduvas Augusto Gomes e o Dr. Walter Pécoits estavam do lado dos posseiros, incentivando-os a lutar para defender as terras que possuíam. Com base nas entrevistas realizadas com posseiros e pioneiros deste município, contamos um lado da história da Revolta de Três Barras, sendo essa, segundo eles, a história real de quem participou do movimento. Mas as pesquisas de apoio foram importantes para esclarecermos pontos duvidosos e incompletos, uma vez que não tínhamos em mãos, documentos com o registro de depoimentos dos posseiros presos, relatos da polícia, relato do delegado que instaurou o processo e depoimentos das testemunhas da época, documentos já investigados que, conforme esclarecemos, estariam guardados no Fórum de Toledo - Paraná. Pesquisadores que se basearam nos registros das autoridades da época, como Myskiw, Gomes, Lopes, pesquisadores da Unioeste ligados ao DNP - Núcleo de Documentação, Informação e Pesquisa, e demais estudiosos no assunto, elaboraram trabalhos consistentes. Descobriram também que, por falta de espaço para serem guardados, inúmeros autos criminais e cíveis corriam o risco de serem incinerados. E serviram para que pudéssemos confrontar as informações, de forma a acrescer dados a essa história que faz parte da trajetória do povo tribarrense para sua devida construção histórica. Sabemos que Yonissa Marmitt Wadi, com auxílio de alguns colegas do DNP, contribuiu para evitar que acontecesse tal crime contra a história regional. Conforme as análises feitas por 38 Myskiw (2002, p. 88): “São cerca de 6.500 Autos alocados no DNP, datados do período de 1954 a 1979. Aproximadamente 1.500 deles referentes à Vara Criminal, dos quais mais de 300 Autos discorrem sobre a disputa pela posse de terras na região”. Entre esses autos que corriam o risco de serem incinerados, estava o “Auto de Ação Criminal n.º 147/64” que se referia à Revolta dos Posseiros de Três Barras do Paraná. O agrimensor Adauto da Silva Rocha, em sua declaração de 10.08.1964, citada por Myskiw (2002, p. 93), disse que “a partir do momento, quando forem extraídas informações do Auto de Denúncia, Auto de Declaração, Auto de Qualificação e interrogatório, saber-se-á que todos estes integram o Auto de Ação Criminal N.º 147/64”. Se Autos de Ação Criminal como esse fossem destruídos, perderíamos uma das importantes fontes de pesquisa, as quais serviram de auxílio para o esclarecimento de dúvidas e contradições nas pesquisas realizadas. Uma observação notável parece ser a de Laurindo Rill, um dos pioneiros que participou da Revolta de Três Barras. Segundo ele, muito do que foi comentado na época não era verdade. Por exemplo, espalhar histórias de que alguns dos revoltosos teriam ficado loucos favorecia àqueles que desejavam ficar com parte de suas terras. Afirma que passou por essa situação, mas que mantém guardados os verdadeiros documentos das referidas terras e pode reavê-las. Com base em depoimentos arquivados no Núcleo de Documentação, Informação e Pesquisa, os colonizadores foram enquadrados pelas autoridades da época como sendo pessoas perigosas, criminosas e cruéis, que se apossavam do terreno alheio. Eles foram tidos como invasores que deveriam ser presos, julgados e condenados. Contudo, podemos dizer que a versão da história registrada pelas vozes desses posseiros, mesmo com muita pesquisa de campo ou bibliográfica, pouco pode ser encontrada. Então não há muito o que se possa confirmar a esse respeito, pois essas vozes pouco foram ouvidas. Em certo sentido, acreditamos que nossa vivência por mais de 40 anos nesse município pode ter algum mérito, por conhecermos boa parte dos posseiros que participaram dessa revolta e pelas inúmeras entrevistas realizadas a fim de revelarmos uma face a mais dessa história. O cerne das confusões, fato que serviu para desencadear o início do movimento armado, conforme nos conta o posseiro Ivo Pedroso, foi um desentendimento que aconteceu entre João Antônio Farias e o madeireiro Clemente Luiz Boaretto (proprietário da primeira serraria instalada em Três Barras). João Antônio Farias reclamou que Clemente teria retirado alguns pinheiros de 39 sua propriedade. Clemente negou essa acusação, argumentando que não havia ainda uma medição legal das terras e, assim sendo, não havia uma divisa definitiva. De acordo com o referido posseiro, as terras de João Antônio localizavam-se onde hoje é a cidade de Três Barras do Paraná e compreendiam o espaço que ia, desde as proximidades do atual Lago Municipal Vitório Pasa, até onde hoje se encontra o Ginásio de Esportes Mário Lopes, seguindo na direção do local onde está instalado o Laticínio Silvestre. Nessas terras havia muitos pinheiros, madeira nobre de elevado valor comercial. Segundo Ivo Pedroso e também outros posseiros entrevistados, alguns madeireiros já tinham retirado madeiras de propriedades dos posseiros, contando com o apoio da polícia e da Companhia BELLÉ & SIMIONI que, segundo diziam os madeireiros, seria a legítima proprietária dessas terras. Esse fato está registrado na Dissertação de Myskiw (2002, p. 94), com o depoimento do posseiro Juvenil Ferreira dos Santos, com esclarecimentos de que o posseiro João Antônio Farias foi “o maior prejudicado em pinhais na região [...] Corria a notícia de que os posseiros teriam direito em somente 5 alqueires de terra, a razão de Cr$ 30.000,00 por alqueire, mais a medição e o pagamento da escritura que seria por conta do posseiro”. Quanto ao desentendimento entre João Antônio Farias e Clemente Boaretto, conta Ivo Pedroso que, ao considerar-se prejudicado, João Antônio foi reclamar com as autoridades de Cascavel. Foi a cavalo até Catanduvas e lá embarcou numa Kombi, a única condução da época que fazia a linha de Catanduvas a Cascavel. Chegando a Cascavel, procurou as autoridades e registrou queixa contra Clemente. Não se sabe ao certo como foi que o Sargento Moacir, comandante da polícia de Catanduvas, ficou sabendo da queixa. O certo é que Sargento Moacir, considerou-se ofendido por João Antônio, alegando que este teria passado por cima de sua autoridade indo resolver o impasse diretamente em Cascavel. Então, no momento que João Antônio retornou a Catanduvas, o local onde deixara seu cavalo, foi logo cercado pelo Sargento Moacir e alguns policiais. De acordo com o referido posseiro, “João Antônio levou uma surra daquelas. Apanhou muito e voltou para casa, todo machucado”. Entretanto, apesar do acontecido, ele não desistiu de seus objetivos. Assim que se recuperou, foi até o município de Verê - PR, onde se encontrou com alguns dos seus irmãos e contou a eles o que lhe ocorrera. 40 De acordo Ivo Pedroso, a Família Farias era composta por homens valentes, daqueles que não levam desaforo para casa. Eles pegaram suas armas e vieram para Três Barras dispostos a fazer vingança. Intencionavam enfrentar o referido madeireiro e, se fosse necessário, até os policiais. E assim aconteceu. Chegando em três Barras, instigaram outros posseiros a pegar suas armas e lutar em defesa de suas propriedades. João Antônio recebeu o apoio da Família Martins, principalmente de Dorival Alves Martins e seus irmãos, que o ajudaram a liderar o movimento, convencendo os posseiros a lutarem por seus direitos, ou seja, a posse das terras. Os posseiros das famílias Martins e Farias, segundo os entrevistados, passaram a visitar outros posseiros, dizendo: “É hora de lutar. Se não lutarmos, perderemos a terra”. Conforme depoimento de Juvenil Ferreira dos Santos, citado por Myskiw (2002, p. 94), “Deveriam os posseiros reunir-se e se alguma morte houvesse, o Exército de Francisco Beltrão baixava em favor dos posseiros e paralisava os serviços de engenharia particular”. Dorival mantinha contato com o Dr. Walter Pecoits e com os militares do exército de Francisco Beltrão. Ele concordava com o que foi exposto por Juvenil Ferreira dos Santos, quanto à necessidade de lutar e, de acordo com alguns posseiros entrevistados, dizia aos companheiros: “Só conseguiremos a terra, com luta. Eu tenho notícias que os documentos oferecidos pelas companhias são frios, não tem valor. E se houver batalha, o exército de Beltrão irá intervir em nosso favor e nos defender. Assim seremos donos das terras e receberemos a documentação legal, do governo federal”. Assim, muitos posseiros aderiram ao movimento, convencidos de que essa era a melhor forma de garantir a posse das terras. Outros posseiros foram pressionados à adesão e só acompanharam os revoltosos por medo de represálias dos próprios lideres do movimento. Em julho de 1964, conforme Myskiw (2002, p. 93), o posseiro Juvenil Ferreira dos Santos afirmara que já estava tudo acertado para darem início ao movimento: “a revolta dos posseiros já estava sendo organizada desde o início do mês de julho de 1964, por iniciativa do posseiro João Antônio de Farias”. O acordado entre as partes foi o seguinte: João Antônio lideraria o movimento para invadir Três Barras e Dorival Martins comandaria o movimento em Santo Isidoro, onde a Companhia BELLÉ & SIMIONI já estava medindo e demarcando as terras, vendendo e assinando contratos com os posseiros e, através dos seus jagunços, ameaçando os que não queriam assinar os contratos com a empresa. Vários dos posseiros não concordavam com 41 isso, considerando que estavam sendo explorados indevidamente pelos altos valores cobrados pela companhia. Além disso, tinham dúvidas quanto à validade da documentação oferecida. Então resolveram aderir à causa dos demais líderes do movimento. Sabiam que não seria fácil vencer essa luta, mas o grupo formado estava disposto a enfrentar o que fosse necessário para ter a posse definitiva de suas terras. Em média, quatrocentos posseiros participaram do movimento em Três Barras do Paraná. Invadiram Três Barras no dia 06.08.1964, levando o pânico aos moradores dessa vila. Segundo relatos de posseiros, confirmados por Myskiw (2002, p. 96 e 97), nessa data, os colonos prenderam o inspetor policial João Matias, o agrimensor Adauto da Silva Rocha, o topógrafo Carlos Pernichelli, o madeireiro Clemente Luiz Boarreto, juntamente com seus irmãos: Roque, Egídio e Octacílio, mais alguns jagunços e também funcionários da companhia, entre os quais Nacor Rodrigues de Morais, o topógrafo Vicente Gomídio, o picadeiro Orlando Bueno da Rocha e o comerciante Adão Alves Ferreira. De acordo com a entrevista realizada com o Professor Cleverson Luiz Rossa, sobrinho de Clemente Luiz Boaretto, a prisão dos irmãos Boaretto não significa que eles estavam contra os colonos. Esclareceu que a Família Boaretto teria sido proprietária de um estabelecimento comercial, que era um bar, no local da antiga rodoviária, além de um hotel que pertencia a Octacílio Boaretto. Por esse motivo, não queriam ficar contra os posseiros, muitos dos quais eram seus clientes. Dessa forma, preferiam ficar neutros nesse movimento. Na sequência, em 06.08.1964, foi morto o topógrafo Carlos Pernichelli. Os demais permaneceram presos no hotel pertencente a Octacílio Boaretto. Alguns dos posseiros (Laureano José de Souza, Rosalino Simão e João Arruda e outros) montaram a guarda e passaram a noite vigiando para que os prisioneiros não fugissem. Essa afirmação dos posseiros confere com os registros de Myskiw (2002, p. 98), em sua dissertação, quando revela o que dissera em depoimento o Agrimensor Nacor Rodrigues de Morais: “na manhã do dia 06.08.1964, Dorival Martins, com um Jeep cheio de posseiros, foi a Santo Isidoro (...). Nacor deixou alguns picadeiros armando uma barraca e ia saindo para o lado de Cascavel, quando foi cercado e preso pelo grupo de Dorival Martins (...)”. “Durante o trajeto para Três Barras, Dorival ia reunindo posseiros, levando em caminhões, que já haviam arrumado 42 algumas casas, e a todos explicava que o Exército tomaria conta das terras conflagradas e para tanto já havia mandado um emissário”. Na manhã do dia 07 de agosto, segundo relatos de participantes do movimento, em conformidade com Myskiw (2002, p. 98), os posseiros Geneci Antunes Rodrigues, Darci Antunes Rodrigues e Laurindo Rill, acompanhados por outros colonos, foram até a localidade de Santo Isidoro, onde prenderam João Albino Martendal, Adílio dos Passos e Joaquim Rotille, transportando-os para o local do levante, na carroceria de um caminhão. Todavia, no percurso, à altura da “Serra do Facão”, os ditos “revoltosos” se desentenderam com Joaquim Rotille e desferiram contra ele seis tiros de revólver calibre 38, deixando-o à margem da estrada. Com base no relato do Laurindo Rill, não ficou claro quem atirou no Rotille. Ele mesmo não conseguiu identificar quem foi, pois estava na cabine e o caminhão estava cheio de gente. Para o transporte dos posseiros e prisioneiros, contavam apenas com o uso de dois caminhões, sendo um de propriedade do Sr. João Martendal e outro do Sr. Bonamigo, que era proprietário de uma serraria na localidade de Itaguaçu. Mas por onde passavam, iam incentivando os demais posseiros para a concentração em Três Barras, local onde seria decidido o destino do movimento. Em Três Barras, com a chegada dos presos de Santo Isidoro, segundo relatos dos posseiros entrevistados, foram contados vinte e um prisioneiros. Diante do relato do Agrimensor Adauto da Silva Rocha, descrito como “a noite de terror dos prisioneiros”, ouvia-se dos posseiros que estavam do lado de fora do presídio a combinação de como iriam matá-los: “escutava os posseiros revoltosos combinarem a maneira como deveriam matá-los, opinando uns pela matança em massa, enquanto que outros opinavam pela execução em horas pré-determinadas” (MYSKIW, 2002, p. 98). Então, no dia 08.08.1964, por volta das quatro horas da manhã, por ordem de João Antônio Farias, retiraram da prisão o inspetor de quarteirão João Matias Ribeiro que, juntamente com Clemente Luiz Boaretto, deveriam ser os primeiros a morrer. Esse fato foi citado por vários posseiros entrevistados e confirmado pelos registros de Myskiw (2002). O inspetor João Matias foi levado para um local, afastado da Vila de Três Barras, e foi morto à queima roupa pelo posseiro João Arruda, o popular carcereiro: 43 […] por volta de 4 horas da madrugada do dia 8 de agosto, João Antônio Faria determinou a Laureano José de Souza e João Arruda que retirassem da “prisão” o inspetor de quarteirão, João Matias Ribeiro que, em companhia dos revoltosos Rodolfo Faria e Guito Cordeiro, foi levado para trás da vila de Três Barras e morto a tiros à queima roupa, por João arruda (MYSKIW, 2002, p. 98). Por volta das seis horas da manhã, tiraram da prisão o madeireiro Clemente Luiz Boaretto para também ser executado. Mas, de acordo com o depoimento do próprio Clemente, não fora executado pelo fato de ser amigo de Guito Cordeiro, que intercedeu por ele várias vezes. Esse fato também consta em registro de Myskiw (2002, p. 100): “De acordo com o depoimento de Clemente Luiz Boaretto, o mesmo só não foi executado pelo fato de ser amigo de Guito Cordeiro, que intercedeu por ele várias vezes”. Conta o entrevistado Cleverson Luiz Rossa que seu tio Clemente possuía um jipe, na época, o único veículo de pequeno porte que existia em Três Barras. Sendo assim, várias vezes esse veículo era utilizado para socorrer pessoas doentes, levando-as até onde tivesse recurso. Por esse motivo, alguns posseiros que teriam sido por ele favorecidos, não queriam que morresse. Mesmo assim, a intenção dos líderes era de matá-lo. Clemente, então, pediu para se despedir da esposa e dos filhos, e os líderes consentiram. Ele ficou nessa aflição até que, por volta de oito horas, os posseiros foram informados da aproximação de carros da polícia de Cascavel. Com a chegada dos policiais, sob comando do Coronel Lapa, acompanhado do Sargento Artur, muito conhecido por sua valentia, os posseiros revoltosos correram para as trincheiras que haviam construído, prontos para darem início à batalha. Aproveitando-se da ocasião, alguns prisioneiros conseguiram fugir. Outros permaneceram presos, até que a própria polícia os libertou. Contam os posseiros Artidônio Martendal dos Passos, Alcides Nunes Prestes e alguns outros que estiveram nessa revolta que, estando os posseiros nas trincheiras, não souberam como, mas os policiais foram informados de suas posições. A polícia, ao ter conhecimento das posições dos posseiros e da intenção de enfrentamento, colocou em prática a seguinte estratégia: enquanto os veículos carregados de soldados desciam uma serra na localidade de Linha Alta, um soldado veio gritando na frente da tropa, com uma bandeira branca pendurada num galho de árvore, pedindo paz. O tal soldado vinha gritando bem 44 alto, para conseguir ser ouvido, que “todos poderiam sair das trincheiras, pois eles vinham em missão de paz”. Os posseiros acreditaram nisso. Os que estavam nas trincheiras, jogaram suas armas no chão e saíram de braços erguidos ao encontro dos soldados, confiantes de que iriam comemorar o final da revolta. Porém, não foi isso que aconteceu. Assim que saíram detrás das trincheiras, a polícia “abriu fogo” contra eles. Muitos já estavam desarmados e só puderam se atirar no chão. Praticamente todos os que estavam nas primeiras trincheiras, foram presos. Os que estavam mais atrás, em outras trincheiras, inclusive uma parte deles que estava entrincheirada atrás de um trator, ao sentir que foram enganados, começaram a atirar contra os policiais. No entanto, ao ver que seus companheiros estavam sendo presos ou mortos e a polícia continuava avançando contra eles com forte tiroteio, puseram-se a correr, fugindo para dentro da mata e em várias outras direções possíveis. Algumas dezenas de posseiros entraram na mata de pinhais, nas terras de João Antônio, passando pelo local onde hoje é o Ginásio de Esporte Mário Lopes, seguiram na direção da Linha Trigolândia e Itaguaçu, escapando da perseguição dos policiais. Outra parte dos que conseguiram fugir, em torno de vinte homens, conseguiu atravessar o Rio Iguaçu. Os policiais perseguiram e prenderam parte dos fugitivos. Ao todo, foram presos, segundo relatos dos entrevistados, quarenta e três posseiros. 45 Figura 06: Os posseiros de Três Barras que foram presos Fonte: Arquivo do Pioneiro Gabriel Bento Coreia Alguns curiosos, que viram o fato de longe e preferem não ser identificados, pensaram que estivessem todos mortos e por esse motivo saíram dizendo que quarenta e três posseiros estavam mortos. Atualmente, com as informações trazidas por Myskiw (2002, p. 96), destacamos que os policiais não mataram nenhum posseiro, mas quarenta e três deles foram presos: “Muitos posseiros e agricultores que marcavam posição nas trincheiras e em locais estratégicos nem chegaram a reagir. Aqueles que permaneceram no local foram presos e levados para a delegacia de Cascavel, 43 pessoas ao todo”. Os participantes da Revolta entrevistados afirmam que, no dia do combate, 08 de agosto de 1964, foram presas quarenta e três pessoas. Porém, em seguida, dez delas foram liberadas por justificarem e convencerem os policiais de que estavam no local apenas porque foram obrigadas pelos líderes do movimento. O depoimento de Domingo Frederico Wilke, confirma essa informação: 46 […] participou do Levante de Três Barras porque foi obrigado a acompanhar os revoltosos [...] Que João Antônio Farias e os outros diziam que quem não acompanhasse os revoltosos eram “grileiros” e como tal seriam presos ou mortos se resistissem à prisão. Assim como ele, muitos outros colonos foram constrangidos a comparecerem e permanecerem naquela vila, inclusive em trincheiras preparadas nas ruas e estradas que davam acesso à área urbana (MYSKIW, 2002, p. 96). Com base nos relatos dos posseiros entrevistados, os presos foram colocados sobre um caminhão e levados a Cascavel. Na sequência, foi instaurado processo criminal e trinta e três deles foram indiciados. Cabe lembrar que, sendo época de ditadura militar, “as intervenções militares em levantes, revoltas e conflitos agrários, em território paranaense, costumavam ser cercadas de muita violência e mortes” (MYSKIW, 2002, p. 103). Mas, “em Três Barras, a polícia agiu no sentido de liberar as pessoas mantidas em cárcere privado e acabar com o levante dos posseiros”. Realmente, nesse caso, a polícia resolveu libertar os que estavam presos, para impedir que os posseiros os matassem. Após a revolta, o policiamento de Cascavel permaneceu em Três Barras por vários dias. Os policiais percorriam as estradas do interior do município para prender mais posseiros que pudessem ter participado da revolta. De acordo com Artidônio Martendal dos Passos, agricultor que também participou da Revolta de Três Barras, ele foi um dos que fugiu e conseguiu atravessar a nado o Rio Iguaçu para escapar da perseguição dos policiais. Ele esclarece, e também mais oito posseiros - Júlio Gotardo, Eugênio Gotardo, Procópio Fagundes, Sr. Ordenante (cunhado de Procópio), Domingos Pizza, Dercilio Pinto, Francisco de Lima e outro posseiro conhecido por Bernardo - que após atravessarem o Rio Iguaçu, se hospedaram num pequeno hotel, num local conhecido por “Porto Vorá”. E que foram bem recebidos pela dona do referido hotel, cujo esposo também havia participado da Revolta no Sudoeste do Paraná e, mesmo que nessa data ele não estivesse presente, puderam se alimentar e descansar. Porém, na madrugada do dia seguinte, o hotel de Porto Vorá foi cercado por cinco policiais, que vieram prendê-los. Contudo, a dona do hotel não permitiu que os policiais entrassem em seu estabelecimento sem que apresentassem uma ordem judicial. Na verdade, ela queria evitar o confronto, pois os nove posseiros, além de estarem armados, não estavam dispostos a se entregar. Mas, por sorte deles, antes que acontecesse o confronto, chegou ao local uma patrulha do exército de Francisco Beltrão, com um sargento e quatro soldados. Entre estes 47 soldados, havia um que se chamava João Pinto, que servia o exército em Beltrão e era primo de Artidônio Martendal dos Passos. A patrulha do exército trazia uma metralhadora instalada sobre um jipe e deu voz de prisão aos policiais militares que cercavam o hotel. Os policiais, então, se renderam e entregaram suas armas aos militares. Desse local, esses posseiros partiram para o porto de Ouro Verde. Lá estavam várias viaturas lotadas de policiais, comandados pelo Sargento Pernambuco, que guarneciam o local para prender posseiros que pretendessem fugir pela balsa que ali existia. Mas, ao avistarem os soldados do exército de Beltrão, os policiais não os enfrentaram, deram meia volta em seus jipões, passaram por Três Barras e seguiram para Cascavel. Assim, os posseiros puderam voltar para suas casas. Os policiais do exército de Francisco Beltrão permaneceram por alguns dias em Três Barras, instalados em frente à igreja, garantindo a ordem e a paz. Era o fim da revolta. Mesmo assim, o sentimento de insegurança permaneceu por algum tempo depois da Revolta. Muitos colonos estavam com medo de serem perseguidos e presos. E, quando se tornavam vítimas de qualquer suspeita, preferiam abandonar novamente suas casas, embrenhando fuga pela mata ou simplesmente se escondendo, para que não fossem presos ou para que não tivessem suas vidas e de suas famílias postas em risco. A título de demonstração, Artidônio Martendal dos Passos conta que, logo após a revolta, ele seguia com alguns amigos por uma estrada do interior de Três Barras, quando ouviram o ronco de um veículo, temendo que fossem os policiais, saltaram para fora da estrada e se esconderam no mato. Mas um dos seus companheiros se atirou sobre uma moita de espinhos conhecidos por “inhapindá” e, após o veículo passar, foi bem difícil tirá-lo do meio dos espinhos. Aconteceu também que, após a revolta, alguns colonos que tinham fugido para o meio da mata, continuaram escondidos durante dias e até semanas, com medo de aparecer. Eles ficaram sem saber que a revolta havia terminado e que poderiam voltar em paz para suas casas. No momento em que foram informados disso, comemoraram. Quanto aos trinta e três posseiros que estavam presos, mesmo com o fim da revolta, não foram libertados. Alguns ficaram presos por meses. Outros permaneceram na prisão por aproximadamente quatro ou cinco anos depois do fim da Revolta. Pesavam contra eles as 48 acusações de: bando armado, constrangimento ilegal, sequestro, cárcere privado, homicídio qualificado e lesões corporais. Conforme Auto de Ação Criminal n.º 147/64: Dessa revolta foram indiciados trinta e três posseiros: João Antônio Farias, Rodolfo Farias (apelidado de olho de vidro), Sílvio Farias, Dorival Alves Martins, Luiz Alves Martins, João Alves Martins, Domingos Pizza, João Arruda (o carcereiro), Laureano José de Souza, Domingos Frederico Wilke, Antônio Frederico Wilke, Guito Cordeiro, Geneci Antunes Rodrigues, Darci Antunes Rodrigues, Laurindo Rill, Lúcio Batista do Nascimento, Rosalino Simão, Vergílio Cassol, Ernesto Cassol, Gentil Ludovick, Serafim Ludovick, Aristides Duarte da Silva, Emilio Azevedo, José Pereira dos Santos, Lealsino Manoel Tomaz, Natalício Manoel Teodoro, Fidélis Xavier Simões, Alfonso Steiner, Gregório Chervinski, Valdevino Guimarães, Antônio Teles Godinho, Pedro Antônio de Oliveira e o Dr. Walter Alberto Pécoits (MYSKIW, 2002, p. 90). João Manoel Teodoro, um dos pioneiros, relata que também foi preso devido à participação nesse movimento, mas por pouco tempo, pois logo depois o libertaram. O pai dele, porém, ficou alguns anos na prisão. Alguns dos posseiros que foram presos na época da Revolta, foram por nós entrevistados. Eles contaram que, ao serem levados de caminhão para a prisão, em Cascavel, foram maltratados e alguns deles foram torturados durante o tempo de carceragem. No que se seguiu o processo contra os posseiros presos, os depoimentos deles foram colhidos, mas não foram transcritos conforme o que disserem e sim conforme a interpretação de quem os redigiu: Antes de dar vez e voz aos depoentes, é necessário salientar que, após abertura de inquérito policial onde são indiciados os envolvidos, teve início a coleta dos depoimentos dos prejudicados pelo conflito, as companhias de terra. Também dos réus e testemunhas, não necessariamente nessa ordem. Após a leitura dos depoimentos dos envolvidos, houve a transcrição da linguagem oral para a linguagem escrita, ou seja, as informações mencionadas pelos depoentes, sejam eles réus, testemunhas ou vítimas, foram filtrados pelo delegado chefe da 7.ª Subdivisão Policial de Cascavel, Coronel João Rodrigues da Silva Lapa, que por sua vez relatava ao escrivão, utilizando um vocabulário técnico, com palavras diferentes daquelas proferidas pelos depoentes (MYSKIW, 2002, p. 91). Concordamos com Myskiw, quando afirma que durante esse processo de coleta dos depoimentos, muitas informações valiosas podem ter sido perdidas, na “passagem de linguagem oral para a escrita, isto é, as entonações, dúvidas, silêncios, gestos, entre outras coisas”. E ainda o 49 delegado havia se transformado numa espécie de “agente de filtragem das informações”, com poder de definir o que de fato entraria nos relatos escritos ou a forma como seriam transcritos. Quanto aos comentários de colonos que conviverem com Laurindo Rill, afirmando que ele teria ficado louco na prisão, Myskiw (2002, p. 107) conseguiu atestar a veracidade dessa afirmação, por meio de análises documentais realizadas: “Os réus foram julgados em plenário, na Comarca de Toledo. Em relação a este último, o julgamento em plenário não foi realizado porque, de acordo com exames médicos, ficou louco dentro da prisão”. Atualmente, o posseiro Laurindo Rill reside em Quedas do Iguaçu, município vizinho de Três Barras do Paraná. Buscamos confirmar o que foi dito, entrevistando-o em março de 2012. Iniciamos a conversa sobre o referido movimento e Laurindo Rill aparentou gozar de boa saúde, física e mental, por demonstrar bom raciocínio e lembrar com detalhes os acontecimentos e o que viveu durante a época da Revolta. Então, resolvemos perguntar a ele se teria de fato ficado louco. E nos esclareceu que “isso era do interesse de algumas pessoas que pretendiam ficar com parte de suas terras porque, quando saiu da prisão, essas terras já tinham outro dono”. Mas ele acredita que, se levar para a justiça os documentos que tem em mãos, ainda poderá reaver essas terras. Laurindo Rill nos contou também que, antes da Revolta, utilizou-se de um trator que pertencia a um órgão do governo: o Departamento de Terras. Esse trator foi deixado por alguns meses em sua propriedade, com a autorização do prefeito de Catanduvas da época, Sr. Augusto Gomes, e essa máquina foi bastante utilizada para abrir estradas, beneficiando vários agricultores. Diante de todas as considerações feitas, entendemos que o movimento dos posseiros em Três Barras do Paraná, além de ter servido para garantir a posse da terra a quem nela residia e era por direito proprietário, serviu também para chamar a atenção do Governo Federal que, na sequência, enviou para esse município o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (IBRA) e o Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (INDA). Mais tarde, esses dois órgãos se fundiram constituindo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), para documentar as terras e dar a cada posseiro o título definitivo de sua propriedade: a documentação legal que tanto desejavam. Em data de 29 de abril de 1969, foi realizado o julgamento final dos presos por meio da sentença do juiz Ronaldt Grollmann. Todos os acusados foram absolvidos, encerrando-se o conflito pela posse das terras em Três Barras do Paraná. 50 Sabemos que, além dos posseiros citados, muitas outras pessoas que também participaram do movimento mereceriam ser lembradas, pois contribuíram com sua coragem e luta para que os pioneiros deste município recebessem do Governo Federal o título definitivo de posse de suas terras. No entanto, essas pessoas preferiram ficar no anonimato, direito que precisamos respeitar. Mesmo assim, deixamos registrado o apoio e o incentivo recebidos para que a história dessa terra pudesse ser publicada. Além das pesquisas que validaram a elucidação dos fatos aqui relatados, temos em arquivo vários registros de entrevistas realizadas por professores e alunos. Veremos a seguir as fotos dos pioneiros Virgílio Cassol e Serafim Ludvichak, em 2002, momento em que foram entrevistados pelas professoras Elizabeth Paludo e Iolete Maria Pickler da Silva, juntamente com um grupo de alunos do Colégio Estadual Princesa Izabel - Ensino Fundamental, Médio e Normal de Três Barras do Paraná. Figura 07: Alunos e professores em entrevista a Virgílio Cassol, em 2002. Fonte: Arquivos do Colégio Estadual Princesa Izabel, de Três Barras do Paraná. 51 Figura 08: Alunos e professores em entrevista a Serafim Ludvichak, em 2002. Fonte: Arquivos do Colégio Estadual Princesa Izabel, de Três Barras do Paraná. 1.6 A COLONIZAÇÃO E DOCUMENTAÇÃO DAS TERRAS Conforme esclarecimentos feitos anteriormente, logo após a revolta, o Governo Federal enviou para Três Barras do Paraná representantes de importantes órgãos. Primeiramente vieram o INDA (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário) e o IBRA (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária). O INDA tinha por objetivo auxiliar e defender os colonos, dando a eles segurança e tranquilidade social para propiciar produção e desenvolvimento. Esses institutos prestavam também auxílio médico, odontológico e principalmente educativo, com reuniões de orientação e construção de várias escolas. O Sr. Euclides Aranha, conhecido por Doutor Aranha, que residia em Francisco Beltrão, foi o responsável na região pelo INDA. Na sequência, as atribuições do INDA foram repassadas ao IBRA, órgão responsável pela medição, legalização e documentação das terras, a fim de fornecer aos posseiros o título definitivo de propriedade. Os próprios autores deste livro comprovam o trabalho realizado pelos órgãos citados em benefício da população local. O professor Davi trabalhou como professor pelo INDA e posteriormente pelo IBRA. Diversas vezes, recebeu o pagamento, até mesmo na própria sala de aulas, pelas mãos da Senhora Eneri Marquetti, que era, na época, a coordenadora regional do 52 IBRA e atualmente presta serviços ao Estado do Paraná, no NRE - Núcleo Regional de Educação de Cascavel. Essa respeitável senhora conhece muitas histórias que versam a respeito das dificuldades enfrentadas na época para que fosse possível chegar às escolas e realizar o trabalho. O escritório do IBRA foi instalado na localidade do Itaguaçu, onde trabalharam Dr. Jorge, Vitório Pasa e João Erbílio Borges (popular Nego Borges). Essas pessoas de reconhecida idoneidade moral contam com familiares que ainda residem no município. O INDA e o IBRA foram unidos, constituindo o INCRA, que continuou as atividades de medição, legalização e documentação das terras. Durante longo período de tempo, o escritório regional do INCRA permaneceu instalado na Cidade de Cascavel - Paraná. Após regularização das propriedades, Três Barras do Paraná se desenvolveu. Podemos dizer que a ocupação efetiva desse lugar ocorreu após a década de 50, sendo o maior atrativo o potencial de exploração madeireira, principalmente o Pinheiro-do-Paraná, abundante na região. Com a mobilização de mão-de-obra e instalação de serrarias, as vias de acesso e estradas foram sendo abertas, permitindo a ocupação antrópica e a definitiva conquista de uma região ainda pouco conhecida e explorada. Figura 09: Vista Parcial Perímetro Urbano de Três Barras do Paraná Fonte: IAP – Instituto Ambiental do Paraná 53 2 ASPECTOS GEOGRÁFICOS Nessa parte da obra procuramos investigar os Aspectos Geográficos e Culturais de Três Barras do Paraná, trazendo a localização do município, a população, os símbolos, a educação, a cultura, a religião, entre outros aspectos históricos e sociais, tidos por nós, como relevantes. 2.1 A GEOGRAFIA DO MUNICÍPIO No que se refere ao objeto da Geografia, entendemos que o objetivo de estudo seja: “O estudo da superfície terrestre, descrição da Terra, estudo da paisagem, estudo da individualidade dos lugares, estudo da diferenciação das áreas, estudo do espaço, estudo das relações entre o homem e o meio ou, entre a sociedade e a natureza, a ação humana na transformação do meio, a relação que existe entre os dados humanos e os naturais” (Paludo, 2007, apud Morais, 2005). Assim, a Geografia é tida neste livro como herança da história natural e resultado da ação humana, considerando o espaço como o local de sobrevivência dos seres humanos, os quais, a cada momento, modificam sua realidade. Levamos em conta essa “ação subjetiva” em sua dimensão espacial, com destaque às lutas de classe. Pensamento apoiado em Lacoste (2005, p. 30), quando comenta a respeito da importância do estudo geográfico: “É importante hoje, mais do que nunca, estar atento a esta função política e militar da Geografia, que é sua desde o início”. Ideia defendida por Andrade (1987, p. 66), ao destacar como atributo dessa ciência social, “a responsabilidade de analisar a própria sociedade, as relações que influem no tipo de espaço produzido e explicar a razão de ser da ação da sociedade sobre esse espaço”. O município de Três Barras do Paraná é um dos 399 municípios paranaenses. O Estado do Paraná, juntamente com Santa Catarina e Rio Grande do Sul, formam a Região Sul do Brasil. 54 Figura 10: Região Sul do Brasil Fonte: parlim.blogspot.com Segundo o IBGE, censo de 2010, o município brasileiro da Região Oeste do Paraná, Três Barras do Paraná, possui área de 505,2 Km² e a distância da sede do município à capital é de 460,15km. Sua posição geográfica é marcada por uma altitude de 562 metros; latitude 25 º 25 ' 08 '' S e longitude 53 º 10 ' 51 '' W. De acordo com dados do IBGE, a Evolução Populacional desse município brasileiro: em 1991, contou com 14.982 habitantes; em 1996, 12.956; em 2000, 11.822; em 2004, 11.822; em 2007, 11.718 habitantes. Três Barras do Paraná conta com uma população de 11.824 pessoas. São eleitores desse município: 4.109 homens e 4.064 mulheres. Na zona urbana residem 4.932 habitantes (41,71%) e, na zona rural, 6.892 habitantes (58,29%). O PERG (Parque estadual Rio Guarani) está localizado no município de Três Barras do Paraná. Sua localização pode ser observada no mapa que segue. 55 Figura 11: Localização de Três Barras, no Estado do Paraná Fonte: http://tiosam.org/enciclopedia/index.asp_tres-barras-do-parana Quanto às Unidades de Conservação do Paraná, pode-se verificar a localização do PERG (Parque Estadual Rio Guarani) em Três Barras do Paraná no próximo mapa: Figura 12: Informações Gerais - Unidades de Conservação do Paraná Fonte:www.uc.pr.gov.br/modules/ucps/aviso.php?codigo_cat=11 56 No mapa seguinte, é possível visualizar o PERG (Parque Estadual Rio Guarani) no município de Três Barras do Paraná. Figura 13: Unidades de Conservação do Paraná Fonte:www.uc.pr.gov.br/modules/ucps/aviso.phpcodigo_cat=11 Podem ser visualizados, no próximo mapa, os municípios de abrangência do Núcleo Regional de Educação de Cascavel, no Paraná. Três Barras do Paraná é um desses municípios. 57 Figura 14: Municípios de abrangência do Núcleo Regional de Educação de Cascavel Fonte:http://www.nre.seed.pr.gov.br/cascavel/modules/conteudo. php?Conteudo=2 2.2 A VEGETAÇÃO Figura 15: Educação Ambiental no Parque Estadual Rio Guarani Fonte: institutoguara.org.br 58 Na época da colonização de Três Barras, havia uma grande variedade de madeiras de lei, como: pinheiro, cedro, peroba, angico, canela, marfim, canafístula, louro, ipê, soita, guajuvira e outras. Atualmente, a maior parte dessa madeira já foi retirada, deixando o espaço para pastagens e atividades agrícolas, de produção agropecuária. Mesmo assim, a vegetação característica dessa região continua sendo a floresta subtropical, com madeiras-de-lei que foram preservadas. Figura 16: Extração de madeiras na década de 70 Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Na década de 70, havia em Três Barras duas laminadoras que produziam para exportação e quatorze serrarias em funcionamento. Hoje, apenas duas serrarias continuam serrando e industrializando a madeira. Em Três Barras ainda existe uma vasta área de preservação ambiental: o “Parque Estadual Rio Guarani”, com trilhas abertas para visitação. Mesmo que essa área tenha sido invadida por ação de madeireiros na época da colonização desse município, grande parte da vegetação original ainda permanece. 59 Figura 17: Parque Estadual Rio Guarani Fonte: www.uc.pr.gov.br/arquivos/...Rio_Guarani/7_cap_iii_infgerais.pdf De acordo com o Plano de Manejo, concluído em 2002, do IAP (Instituto Ambiental do Paraná), o Parque Estadual Rio Guarani, localizado no Sudeste do Paraná, no município de Três Barras do Paraná, possui grande extensão de florestas ainda preservadas, porém devastadas pela derrubada da madeira de corte. Abriga inúmeras espécies de animais, tais como: quati, macaco, tatu, tucano, cutia, porco-espinho, porco-do-mato, gato-do-mato, cateto, anta, paca, onça, jaguatirica, capivara... além de enorme quantidade de aves, insetos e répteis. Criado pelo Decreto nº 2.322, em 19 de julho do ano 2000, pelo Governo do Paraná, o Parque Estadual Rio Guarani tem área de 2.235,00 ha (hectares) e perímetro (m) de 28.210,00. Limita-se ao Leste com o Rio Guarani; ao Norte, com Arroio do Meio; ao Sul e Oeste, com propriedades particulares. Pelo Decreto de Criação, as Coordenadas Geográficas do Centro da UC são as seguintes: Longitude W: 53º 8'; Latitude S: 25º 26'. Biomas e Ecossistemas: Floresta Estacional Semidecidual e transição para Floresta Ombrófila Mista com Araucária angustifolia. 60 Atividades conflitantes: pressão de caça, principalmente paca e queixada; presença de linha de transmissão de energia no local. Atividade desenvolvida: vigilância. Existem no local algumas construções para abrigo dos funcionários e pesquisadores. Porém, em decorrência do recebimento de verbas pouco significativas, não há ainda um centro de atendimento para o público em geral, o que acaba por dificultar sua visitação. 2.3 INFORMAÇÕES CLIMÁTICAS O clima tribarrense, igualmente aos demais municípios do Sul do Brasil, é subtropical e temperado, geralmente oscila entre 25ºC a 30°C. Normalmente, nos verões a temperatura pode passar de 30ºC e no inverno pode chegar a 0ºC, dependendo da região. Sofre, em parte, o efeito da continentalidade, tendo verões quentes e invernos frios, porém, menos rigorosos que em outras regiões do sul do país. De modo geral, as chuvas são regulares, porém, já aconteceram secas que causaram falta de água e prejuízos consideráveis nas áreas agrícolas. Enchentes aconteceram poucas vezes e, até essa data, não trouxeram grandes prejuízos ao município. Três Barras do Paraná também sofre as consequências do aquecimento global, por meio das mudanças climáticas que acabam provocando tempestades, acompanhadas de vendaval e granizo, causando destruição de casas, aviários, chiqueirões e trazendo prejuízos aos moradores. 61 Figura 18: Propriedade Rural de Antoninho Foralosso devastada pela tempestade em outubro de 2010. Fonte: www.portaltres.com/fotos/tresbarras Figura 19: Granizo em Três Barras do Paraná na Serra do Facão, outubro de 2010. Fonte:www.portaltres.com/fotos/tresbarras 62 2.4 A HIDROGRAFIA Todos os rios do município, destacando-se os rios Adelaide, Guarani e Tormenta, são afluentes ou subafluentes do Rio Iguaçu. O Rio Iguaçu é um afluente do Rio Paraná, que é o maior rio paranaense. No entanto, o Rio Três Barras, que deu origem ao nome da cidade, é afluente do Rio Guarani, que é afluente do Rio Iguaçu e deságua no Rio Paraná. Figura 20: Foto do Rio Guarani no limite entre Três Barras do Paraná e Quedas do Iguaçu Fonte: panoramio.com Em Três Barras do Paraná também há um lago que merece destaque. É o lago artificial formado pela Barragem de Salto Caxias, que abastece a Usina Hidrelétrica Governador José Richa. A construção dessa usina provocou vários problemas ambientais e, por causa do alagamento, muitos moradores tiveram de abandonar suas propriedades. Se por um lado a construção da usina gerou transtornos, por outro, veio acompanhada pelo progresso, com asfalto e melhorias nas estradas da região, além de várias praias artificiais como boas opções de lazer para turistas. 63 Figura 21: Foto da Praia Artificial de Barra Bonita: areia, água e vegetação Fonte: www.portaltres.com/fotos/tresbarras Figura 22: Praia Artificial de Barra Bonita: águas limpas para um bom banho Fonte: www.portaltres.com/fotos/tresbarras 64 Figura 23: Foto do Lago Artificial da Barragem de Salto Caxias: local para boas pescarias Fonte: www.portaltres.com/fotos/tresbarras O Rio Três Barras tem mérito nesse percurso porque, apesar de pequeno, não apenas deu origem ao nome da cidade. Suas águas, ao passarem pelo Parque Estadual Guarani e seguirem junto às águas do Rio Guarani, ajudaram a formar o lago da represa. Observamos, porém, que mesmo com a quantidade de água acumulada pela Usina Hidrelétrica de Salto Caxias, o povo tribarrense sofre pela falta de água potável, tanto para os seres humanos quanto para abastecer aviários e chiqueirões, que são em grande número no município. Essa falta de água já causou problemas no reservatório da Linha Trigolândia, na Empresa Laticínios Silvestre Ltda. e na Indústria de Fécula de Mandioca. O reservatório da Linha Trigolândia que ajuda no abastecimento de água, por várias vezes, também devido à poluição, teve capacidade hídrica insuficiente para o abastecimento da cidade. Outros exemplo são a Empresa Laticínios Silvestre Ltda. e a Indústria de Fécula de Mandioca, as quais, para terem água suficiente, tiveram que investir na construção de poços artesianos. Na contemporaneidade, a busca de novas fontes alternativas para a falta de água em Três Barras do Paraná é um dos mais graves problemas a serem solucionados pelas autoridades locais, que cobram providências da SANEPAR (Companhia de Saneamento do Paraná), órgão 65 responsável pelo armazenamento, tratamento e distribuição de água potável. Dentre as alternativas buscadas até o momento, seria uma proposta viável a canalização da água do Lago de Salto Caxias, mas pouco se conta com ações concretas nesse sentido. Sabemos também que a falta de água hoje é problema mundial. Segundo a BBC Brasil (2001), “o consumo mundial de água cresceu duas vezes mais rápido do que a população mundial no último século - e os países mais pobres devem sofrer com isso, nos próximos anos”. E ainda: “Outro fator que aumenta a preocupação com a falta de água nos próximos anos é o aquecimento global - alguns cientistas preveem um aumento na ocorrência de secas e o surgimento de mais desertos”. Parece-nos controverso que o planeta terra, formado por dois terços de água, não possa abastecer sua população. Todavia, com apoio em pesquisa nos sites http:www.onu-brasil.org.br, http:wwwuniagua.org.br e http://wwwsocioambiental.org, compreendemos que essa água se encontra distribuída sob a forma de água salgada ou de gelo, o que impede seu consumo imediato pela humanidade. Para piorar a situação, sua distribuição pela superfície terrestre é desigual. Assim, há lugares naturalmente secos, que acabam exigindo a captação em locais distantes, fazendo com que as autoridades competentes, além do tratamento, invistam em estruturas de captação e distribuição. Então, na busca de garantir seu consumo, utilizam-se práticas de cobrança, já bastante difundidas. As pessoas mais lesadas por essas atitudes são as que pouco (ou nada) possuem condições de pagar pelo uso desse recurso hídrico que deveria ser, por direito, de todos. Como se não bastassem as dificuldades impostas pela natureza, contamos ainda com as dificuldades impostas pelo homem. A questão é que contamos com grande desperdício desse bem escasso e caro. Muitos compartilham ainda com a ideia de que a água nunca faltará. Felizmente, aos poucos, boa parte da população mundial tem se conscientizado da importância de preservá-la. Ato que exige de cada pessoa atitudes de menor abuso e maior cuidado com os recursos naturais, como economia e reutilização pois, além das dificuldades geográficas e climatológicas, existem as mortes causadas por falta de água potável a pessoas e animais. Consideramos, portanto, que a “cultura do desperdício” deve ser combatida e isso é algo que está ao alcance de cada um de nós, pelas mudanças de atitude, necessárias na atualidade para a vida em sociedade. 66 2.4.1 USINA HIDRELÉTRICA GOVERNADOR JOSÉ RICHA – SALTO CAXIAS Figura 24: Usina Hidrelétrica Governador José Richa Fonte: http://www.copel.com/hpcopel/hotsite_caxias/ Em Três Barras do Paraná, entre outras coisas, destacamos o lago artificial formado pela Barragem de Salto Caxias, que abastece a Usina Hidrelétrica Governador José Richa, construída entre os municípios de Capitão Leônidas Marques e Nova Prata do Iguaçu. Sabemos que a Usina Hidrelétrica Governador José Richa foi uma das primeiras a seguir toda a legislação ambiental. Também, graças à organização dos atingidos pelo impacto ambiental, foi a primeira das usinas hidrelétricas a indenizar todas as famílias atingidas. Compreendemos a importância desses fatos porque nem sempre os responsáveis pela instalação de hidrelétricas tiveram tanta preocupação com a legislação ambiental ou com o impacto humano. Em decorrência disso, além dos danos causados à flora e à fauna, por falta de organização ou planejamento, muitas famílias indenizadas gastaram facilmente o dinheiro recebido e, em pouco tempo, pouco ou nada possuíam. E os que não tinham suas terras devidamente legalizadas ficavam sem indenização. Como resultado, famílias passavam a residir em aglomerados urbanos, sobrevivendo como boias-frias, diaristas, serventes de pedreiro ou carpinteiros, serviços gerais, entre outros. Quanto aos indígenas, ao terem suas terras alagadas, eram obrigados a migrar para locais onde deveriam aprender a viver de outro modo. Ficavam sem 67 seus terrenos, os quais significavam seu chão, seu habitat natural, ou seja, ficavam sem sua dignidade preservada, sua história ou sentido de suas vidas. Lembramos que os impactos causados por uma barragem refletem de uma forma ou outra em toda a população dos municípios atingidos. No entanto, as famílias que precisam deixar suas moradas e migrar para outros locais são diretamente afetadas. Basta pensar nas pessoas que construíram suas moradas com sacrifício ou nas pessoas idosas, que poderiam não estar predispostas a sair se suas benfeitorias construídas para toda vida não fossem desaparecer sob as águas. Precisamos considerar o amor à terra e o apego à vizinhança, ou seja, levar em conta o impacto sentimental. Com relação à construção da Usina Hidrelétrica Governador José Richa, para que esses impactos fossem amenizados, fazia parte das preocupações indenizações justas às 600 famílias atingidas. Para tal, foi criado o projeto Pró-Caxias, em defesa dos interesses comuns dos nove municípios a serem afetados: Boa Esperança do Iguaçu, Boa Vista da Aparecida, Capitão Leônidas Marques, Cruzeiro do Iguaçu, Nova Prata do Iguaçu, Quedas do Iguaçu, Salto do Lontra, São Jorge D' Oeste e Três Barras do Paraná. 68 Figura 25: Três Barras e os Municípios do Pró-Caxias Fonte: http://www.sudoesteonline.com.br/franciscobeltrao/notindividual.asp?id=83736 Na defesa dos interesses da população local, o município de Três Barras do Paraná, contou com dois líderes: Hélio Kuerten Bruning e José Camilo. Eles se destacaram, podendo contar com o apoio do prefeito de Três Barras do Paraná, Sr. Valdir Martinazzo, eleito para o cargo de Presidente do PROCAXIAS em 2004 e, ao convocar novas eleições do Conselho, novamente eleito. Assim, organizaram reuniões, dialogando com moradores, representantes da Copel e do governo do Paraná. Além de terem negociado indenizações justas, preocuparam-se com os reassentamentos e sua infraestrutura, para que cada família tivesse condições de sobreviver dignamente em outro lugar. De acordo com registro em http://www.procaxias.npi.pr.gov.br/#: “lideranças regionais discutiram um projeto comum de desenvolvimento, pois perceberam que sozinhos nenhum deles 69 é tão forte e capaz como todos juntos, foi assim que no final do ano de 1997 nasceu o PROCAXIAS, e hoje dá exemplos para o Paraná e para o Brasil”. Conforme consta no Jornal RI Independência (2005): “O documento do Pró-Caxias foi entregue aos secretários pelo prefeito de Salto do Lontra, Luiz Gottardi, e pelo presidente do Conselho, Jair Morgan, prefeito de Nova Prata do Iguaçu. Os municípios ficam situados ao redor do lago e fazem parte do Projeto Pró-Caxias”. Essas divulgações dão respaldo para constatarmos que a boa organização do movimento em prol dos atingidos com a construção da Usina Hidroelétrica de Salto Caxias no Rio Iguaçu serviu de exemplo para a organização de outros possíveis movimentos sociais. O próprio Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra da região pode ter se espelhado na organização do PROCAXIAS para ter conseguido se espalhar pelo país, servindo de modelo para que países vizinhos também se organizassem, a exemplo do Brasil. No que diz respeito aos líderes tribarrenses do Projeto Pró-Caxias, o Senhor José Camilo fixou residência no norte do país onde também teve boa atuação, sendo inclusive convidado pelo Governo do Piauí, para trabalhar na área social. O Senhor Hélio Kuerten Bruning, no entanto, preferiu fixar residência no município de Três Barras do Paraná. Ele continuou envolvido com projetos sociais e se destacou politicamente. Assumiu como vereador na quarta gestão municipal (1997-2000) e foi vice-prefeito em duas gestões: quinta gestão municipal (2001-2004) e sexta gestão municipal (2005-2008). 2.4.2 BREVE HISTÓRICO DA CONSTRUÇÃO DA USINA DE SALTO CAXIAS Conforme consta no site http://www.copel.com/hpcopel/hotsite_caxias/, de acordo com estudos realizados pela Copel na fase de planejamento, seriam construídas duas usinas: Salto Caxias Baixo e Cruzeiro. Contudo, em 1978, foi realizada uma reavaliação pela empresa, que concluiu ser mais viável o aproveitamento do trecho Salto Osório / Salto Caxias em apenas uma usina / Salto Caxias Alto, englobando o projeto Cruzeiro e eliminando a Usina Julio de Mesquita Filho, na foz do Rio Chopim. Isso explica o fato de a usina ser mais conhecida como “Salto Caxias”, embora o nome oficial atribuído seja “Usina Hidrelétrica Governador José Richa”. 70 Em 1995, começaram as obras de construção, no trecho final do Rio Iguaçu, entre os municípios de Capitão Leônidas Marques e Nova Prata do Iguaçu, distantes cerca de 400 quilômetros da capital Curitiba, no Estado do Paraná. O nome “Governador José Richa” foi escolhido como forma de homenagear o exgovernador, que administrou o Paraná de 1983 a 1986. Segundo Requião (O Estado do Paraná, 2003), as grandes obras deixadas por José Richa mudaram a face do Paraná. Ele foi “um dos maiores governadores do Paraná de todos os tempos”: revolucionou a agricultura paranaense e recuperou a dignidade do funcionalismo público estadual. Portanto, José Richa (1934 - 2003) merece dos paranaenses “eterna lembrança e perene gratidão”. Figura 26: Usina Hidrelétrica Governador José Richa Fonte: http://www.copel.com/hpcopel/hotsite_caxias/localizacao.html Com relação aos impactos decorrentes do empreendimento, desde a fase inicial das obras, a Copel demonstrou preocupação com isso e procurou estabelecer diálogo com a população das áreas atingidas. A partir do mês de dezembro de 1997, essas pessoas passaram a fazer parte do 71 Pró-Caxias, um programa para analisar e acompanhar os investimentos que viriam em favor da população e do meio ambiente. Os representantes das comunidades locais, ao fazerem parte do Projeto Pró-Caxias, ajudaram a identificar as potencialidades de cada município que teria suas áreas inundadas, a fim de que a empresa pudesse apoiar o potencial da região com estudos técnicos e investimentos, como a construção de barracões industriais e verbas destinadas aos Fundos de Desenvolvimentos Municipais. Dessa forma, o Relatório de Impacto Ambiental da Usina Hidrelétrica Governador José Richa foi analisado e, após ter sido aprovado, resultou na implantação de programas voltados à compensação dos efeitos ambientais e à melhoria da qualidade de vida. Na sequência, a Companhia Paranaense de Energia Elétrica, em parceria com o Sebrae, investiu em obras de melhoria nos setores de saúde, educação, segurança, sistema viário, rural e de turismo nos lugares que tiveram suas terras submersas pelo lago da Usina de Salto Caxias. Além desses investimentos, foram implantados vários projetos e ações de desenvolvimento, geração de emprego e renda, ou na área ambiental e turística, indicados pelo Relatório de Impacto Ambiental da obra, totalizando um investimento de 25% do custo total da usina, de R$ 1 bilhão. Conforme publicação no site oficial do PROCAXIAS, a população da região pôde contar com “centenas de cursos, palestras, treinamentos e oportunidades de promover missões de estudos e novas experiências em outras regiões do Brasil, e até fora do Brasil, em países como: Itália, França, Espanha, Alemanha e Estados Unidos”. Foram desenvolvidos neste território projetos, como os que seguem: Programa de Agricultura Orgânica; Patrulha Mecanizada; Implantação de Frigorífico e Fábrica de Ração; Programa Operação Lago Limpo; Programa SEPARE, Coleta de Material Reciclável; Constituição da COOPERÇU – Cooperativa de Produtores de Peixes; Repovoamento de Peixes no Lago de Salto Caxias; Calendário de Eventos; Festival de Teatro; Festival da Canção; Projeto de Artesanato; Turismo Integrado; Jeep Raid Salto Caxias; Olimpíadas PROCAXIAS; Compra Integrada de Medicamentos para Postos de Saúde; Projeto de Placas de Sinalização Turística. No que se diz respeito às desapropriações, pela primeira vez na história do setor energético brasileiro, uma usina hidrelétrica seguiu na íntegra a legislação ambiental e teve perfeitamente resolvida a questão das desapropriações antes de formar seu reservatório. 72 De antemão, a empresa de energia adquiriu um total de 18.590 hectares, nos municípios de Boa Esperança do Iguaçu, Campo Bonito, Cascavel, Catanduvas, Ibema, Nova Prata do Iguaçu e Três Barras do Paraná. Houve preocupação em comprar áreas de terras próximas ao ponto de origem das famílias. Nos reassentamentos, o solo foi preparado para o plantio, foram instaladas redes de água e energia elétrica, foram feitas moradias, estradas e também estruturas necessárias à comunidade reassentada e ao trabalho agrícola. Mas cada família teve liberdade para decidir se preferia viver em reassentamentos oferecidos pela companhia ou se faria a opção por receber cartas de crédito. Teriam direito às indenizações: agricultores, pequenos proprietários de terras, meeiros, arrendatários, parceiros e trabalhadores rurais, que antes ocupavam a área prestes a ficar alagada (23.128 hectares). Somando-se às informações e apoio oferecido pela comissão do Pró-Caxias, todos os que teriam suas terras inundadas (cerca de 2.800 pessoas), foram devidamente instalados em terras que ajudaram a escolher. Das famílias indenizadas, algumas preferiram ir para os reassentamentos e outras optaram por receber cartas de crédito. Assim, em julho de 1997, as 1.108 propriedades total ou parcialmente atingidas haviam sido indenizadas e o Programa de Desapropriações da Copel para a área de ocupação do Lago de Salto Caxias pôde ser concluído. O governo paranaense investiu R$ 95 milhões nesse programa de reassentamento que foi considerado um modelo de reforma agrária no país. A partir de 06 de outubro de 1998, o lago com 131 km² de superfície, 67 metros de altura, 1,083 metros de comprimento começou a ser formado. Na noite de 20 de novembro, pela primeira vez, atingiu sua capacidade máxima de acumulação (912,000 m³). Conforme estimativas da Copel, Salto Caxias foi construída para, em plena carga, produzir 5,4 bilhões de quilowatts-hora por ano. Foram instaladas 4 unidades geradoras, com capacidade que corresponde a 40% da geração de energia elétrica no Paraná e mais de 30% do consumo paranaense, podendo a oferta de energia elétrica ser ampliada para outras regiões do Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil. A usina foi inaugurada em 26 de março de 1999, com uma capacidade de 1.240 MW de potência, suficiente para abastecer uma cidade de 4 milhões de habitantes e assegurando ao Estado o fornecimento de energia vital para novos planos de expansão industrial. 73 Atualmente, a barragem da Usina Hidrelétrica Governador José Richa, do tipo gravidade em CCR (Concreto Compactado a Rolo) é considerada a maior da América do Sul e a 8ª barragem de CCR em volume do mundo. O CCR leva em sua composição baixa quantidade de cimento e é utilizado basicamente na edificação do corpo da barragem. As áreas onde há contato e atrito com a água são revestidas com Concreto Convencional (CCV), também utilizado em toda a construção da casa de força. Conforme registro na Revista Cidades do Brasil (1999), a Usina Hidrelétrica Governador José Richa, uma das maiores obras de infraestrutura do governo do Estado do Paraná, foi inaugurada com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso. “A energia gerada por Salto Caxias é suficiente para abastecer uma cidade com 4 milhões de habitantes, quase metade da população do Paraná, de 9 milhões de habitantes”. Somente no início do seu funcionamento, em torno de oitenta e duas empresas anunciaram a construção de unidades industriais no Paraná. 2.5 LIMITES E CONFRONTAÇÕES Três Barras do Paraná é um dos municípios do Pró-Caxias. Ao Norte, limita-se com Catanduvas; ao Sul, com Nova Prata do Iguaçu e Boa Esperança do Iguaçu; ao Leste, com Quedas do Iguaçu; a Oeste, com Boa Vista da Aparecida; a Sudeste, com Cruzeiro do Iguaçu; a Noroeste, com o Município de Cascavel. O Rio Iguaçu, ao passar pelo nosso município, serve de limite entre as Regiões Oeste e Sudoeste do Estado do Paraná. O Rio Adelaide, em parte do seu percurso, serve de limite entre Três Barras e o município de Catanduvas. O Rio Guarani serve de limite com o município de Quedas do Iguaçu. O Rio Tormenta serve de limite com os municípios de Cascavel e Boa Vista da Aparecida. 2.6 O RELEVO O relevo de Três Barras do Paraná é irregular, com partes acidentadas e partes planas. As partes acidentadas formam colinas e pequenas montanhas, denominadas serras. As principais serras do município são: Serra do Facão, Serra do Iguaçu, Serra do Guarani e Serra do Maroto. 74 O nome Serra do Facão foi atribuído por alguns dos primeiros caçadores que passaram pelo local e ali encontraram um facão. As serras do Iguaçu e do Guarani têm esse nome devido a proximidade com os rios Iguaçu e Guarani. O nome Serra do Maroto teve origem com o Rio Adelaide que, logo após entrar no município de Três Barras, passou a ser chamado de Rio Maroto por causa das forças de suas correntezas em época de chuvas. Na atualidade, a maior parte do Rio Maroto não existe mais, pois as águas da Barragem de Salto Caxias encobriram. Grande parte do território do município é formado por colinas e pequenas montanhas, o que favorece a formação de pequenas e médias propriedades. Nesse contexto, as práticas principais de subsistência são: a agricultura familiar, a agroindústria e o agronegócio. Nessas localidades, a mão-de-obra local é praticada prioritariamente em centenas de galpões de fumo, aviários, chiqueirões, açudes de peixe e gado leiteiro. As maiores propriedades recebem a denominação de fazendas. As com maior destaque são: Fazenda Gabana, Fazenda Extangue I e Fazenda Extangue II e Fazenda de Hercílio Orben. As fazendas Extangue I e II, até poucos anos, eram conhecidas como Fazendas Camilotti e Fazenda Trento. Todas elas são ricas em pastagens e nelas se pratica, principalmente, a pecuária bovina para a produção do gado de corte. A maioria das terras planas das pequenas e médias propriedades divide sua utilização entre a agricultura familiar e a agricultura comercial. Quanto ao relevo, destacamos que o município, com altitude média de 562 metros, está entre as cidades da Região Oeste do Paraná situadas no 3° Planalto. O Rio Iguaçu passa pela Região Sul de Três Barras do Paraná, estabelecendo os limites entre esse lugar e a Região Sudoeste do Paraná. O solo tribarrense é rico em ferro, pois tem em sua constituição o basalto. A fim de esclarecimento, esse mineral é formado de maneira semelhante à formação do magma dos vulcões. Em outras palavras, pela ação de fatores climáticos e biológicos, as matérias minerais entram em decomposição e os resíduos, provenientes das zonas profundas da Terra (onde as rochas são submetidas a pressões e a temperaturas elevadíssimas), se misturam. Então, quando sofre a ação do sol, da chuva, dos ventos, começa a "dissolver" e o ferro “enferruja”, dando ao solo a cor "roja" (vermelho em espanhol). A cor se deve à mistura da oxidação desses 75 elementos que o compõem, que dão origem ao tom marrom avermelhado. Por isso, alguns dizem “terra roxa” e outros “terra vermelha”. Ocorre que, devido à sua composição, esse tipo de solo é considerado um dos solos mais férteis do mundo. Constatação que pode explicar a ocupação, em outros países, de áreas próximas aos vulcões, mesmo com o risco de erupções vulcânicas. Dessa forma justificamos, portanto, a alta fertilidade e considerável capacidade agrícola da “terra vermelha” de Três Barras do Paraná. 2.7 A ECONOMIA O local onde se formou a cidade de Três Barras do Paraná teve, na época do povoamento, um intenso movimento de madeireiros e pessoas do sul, atraídas pela madeira e pela terra fértil. Na parte da agricultura, destaca-se a agricultura familiar, com produção de feijão, milho, soja, algodão, batata-doce, mandioca, trigo e amendoim. O feijão, por ser o principal produto da época na região, teve destaque nos primeiros anos da criação desse município e foi o responsável por Três Barras do Paraná ter recebido o título de “Capital do Feijão”, fato que consta em registro na bandeira do município. Na agropecuária, continua a se desenvolver o agronegócio e a agroindústria, com a produção de suínos, frangos, leite, fumo (tabaco) e outros produtos. Essas atividades são bastante importantes para a economia desse município. Grande parte do dinheiro que movimenta o comércio local vem dos produtores rurais e dos trabalhadores assalariados do próprio município. O comércio conta com o apoio e a devida orientação da Associação Comercial, o que faz com que seja bem organizado e consiga ofertar variados tipos de mercadoria. Também merecem destaque as indústrias instaladas no município pois, apesar de não serem numerosas, oferecem emprego e renda para a população tribarrense. A indústria de mais destaque em Três Barras do Paraná é a Laticínio Silvestre Ltda. que, além de ser a principal indústria deste município, está entre as maiores do Estado e talvez até do Brasil no ramo da industrialização de produtos derivados do leite. 76 O turismo também é uma atividade que, aos poucos, se desenvolve no município, com potencial para se tornar uma importante fonte de emprego e renda à população. Mas, para que isso aconteça, torna-se necessário um maior investimento na organização e incentivo às visitas de turistas ao Parque Estadual Guarani e uma atenção maior às praias artificiais. A Praia Artificial do Dionísio Ecker, mesmo contando com boa localização de forma a facilitar o acesso dos turistas que visitam o município, ainda carece de investimentos na sua infraestrutura. Felizmente, na Praia Artificial de Barra Bonita existe uma pequena estrutura para receber os visitantes, pois já houve alguns investimentos, conforme pode ser percebido na foto. Figura 27: Praia Artificial de Barra Bonita Fonte:www.portaltres.com/fotos/tresbarras 2.8 A RELIGIOSIDADE Até esse momento, nessa parte da obra, nosso estudo esteve mais voltado aos aspectos geográficos. Agora passamos a enfatizar os aspectos culturais, no que diz respeito à questão da religiosidade no município de Três Barras do Paraná. 77 Coutinho (2011), esclarece que “a cultura é o único bem intelectual que pode ser considerado individual e coletivo ao mesmo tempo […] cada grupo social manifesta seus costumes, anseios e pensamentos de uma maneira”. Entendemos assim que os dois elementos principais da cultura do povo tribarrense sejam sua religião e sua língua. Essa justificativa se deve ao fato de que, assim como outros povos brasileiros, os cidadãos desse município, por meio de suas crenças e modos de comunicá-las, revelam sua forma de pensar e agir, levando à posteridade suas filosofias individuais que permeiam suas tradições culturais na longevidade, por séculos ou milênios. A exemplo dos colonizadores portugueses que trouxeram a cultura e a língua portuguesa, a qual foi sendo enriquecida com vocábulos de origem indígena, africana e de outros povos imigrantes, em Três Barras do Paraná, os primeiros habitantes mantiveram a cultura e as tradições herdadas dos seus antepassados. Ainda hoje a religião é tida no município como o elemento cultural que determina a conduta e estabelece as normas de convivência, buscando preservar o amor a Deus e ao próximo, a organização da sociedade cristã, bem como a preservação da moral e dos bons costumes. Então, assim como em outros lugares do país, a principal religião é a Católica Apostólica Romana, seguida por várias religiões evangélicas, as quais também pregam o amor ao próximo, a defesa da moral e dos bons costumes, que são ensinamentos cristãos. Além desses ensinamentos, a religiosidade é tema assumido pelas diversas crenças de origem cristã que têm, entre outros objetivos, o combate aos vícios. Incluem-se aqui, além dos modos de convivência, a fraqueza humana diante do fumo, do álcool e também do uso de diversas drogas que acabam por destruir a saúde. Como a preocupação com a saúde também é tema constante, lembramos de um provérbio latino que diz: “mens sana in corporis sano”, ou seja, só se pode ter uma mente sã na medida em que se tem um corpo saudável. Em Três Barras do Paraná, a comunidade Cristã Católica é a que pode ser mais evidenciada. A religião católica esteve presente nesse município desde as origens: veio com a formação do povoamento e acompanhou toda evolução histórica local, presentificando-se nas mais variadas atitudes da população. 78 Entre os primeiros padres que vieram para a localidade, destacamos o padre Martinho Penosa e o Frei Mariano Maria Scaíni, que residiam no Seminário de Ibema ou na Paróquia São Sebastião, em Catanduvas, pois Três Barras ainda era somente um distrito. Os padres Martinho e Mariano vinham uma ou duas vezes por mês a Três Barras, para rezar missas e administrar sacramentos, acontecendo também de virem em algumas capelas do interior somente uma vez a cada dois meses. Entre os principais motivos das escassas visitas dos padres, destacamos a falta de párocos e o estado precário das estradas que, em dias de chuva, ficavam praticamente intransitáveis pelos vários atoleiros que se formavam em diversos lugares numa época em que não havia asfaltos, nem calçamentos, nem sequer cascalhos nas estradas. Tempos depois, com a autorização de Dom Armando Círio (bispo de Cascavel), foi iniciada a construção da Igreja Matriz Nossa senhora Aparecida, em Três Barras do Paraná. Esse bispo foi mais tarde nomeado Arcebispo de Cascavel. Na construção dessa importante obra para a população tribarrense, destacou-se o Padre Domingos Pasa. Ele veio para Três Barras em junho de 1974 e permaneceu até janeiro de 1982, quando Três Barras foi elevada à categoria de município. Além dos seus ensinamentos religiosos, ele se empenhou na construção da Igreja Matriz. Envolveu-se em trabalhos que exigiram grande esforço físico, ajudando a derrubar árvores doadas pelos colonos e coordenando os trabalhos de puxar grandes troncos de madeira com juntas de bois até carregá-los em caminhões. 79 Figura 28: Padre Domingos Pasa Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná O Padre Domingos Pasa também acompanhava o transporte das toras até a serraria onde a madeira era industrializada, fazendo com que aproveitassem toda matéria-prima necessária para estruturar a referida igreja. Como símbolo de fé, deu início à grande obra da igreja matriz que, ainda hoje, é tida como cartão-postal da cidade. Parte dos seus empreendimentos podem ser visualizados pelas fotos que seguem. 80 Figura 29: Início da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Figura 30: Extração da madeira para a construção da Igreja Matriz Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná 81 Figura 31: Transporte da madeira para a construção da Igreja Matriz Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Figura 32: Construção da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Figura 33: Construção da Fonte: Arquivos da Igreja 82 Lembramos que, durante a construção da igreja, o Padre Domingos sofreu dois acidentes: uma vez quando tombou um trator que ele próprio dirigia ao fazer a terraplanagem do solo; outra vez quando caiu de um andaime. Ainda na atualidade ele sofre as consequências desses acidentes. Mesmo naquela época já se evidenciavam as consequências do aquecimento global, com capacidade de mudar a temperatura e provocar tempestades acompanhadas de vendavais com granizo, causando destruição e trazendo prejuízos. Aconteceu que, quando a igreja estava quase pronta, um forte temporal a derrubou. Em decorrência disso, toda a cobertura e a estrutura de ferro precisaram ser reconstruídas. Figura 34: Igreja Matriz de Três Barras do Paraná, atingida por um vendaval. Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Novamente o Padre Domingos se empenhou e incentivou os moradores a não desistirem perante as adversidades. Mas foi transferido antes de ter sua obra concluída ou mesmo de inaugurá-la. Esse fato o entristeceu e também a toda comunidade. Mesmo assim, enquanto continuou no município, manteve-se firme na fé e na devoção à Nossa Senhora Aparecida, que lhe deu forças para continuar a pregação do evangelho e administração dos sacramentos em outras paróquias distantes, que só teriam a ganhar com sua presença. Quem concluiu a obra da Igreja Matriz foi seu sucessor Padre Giovani Battista Cerrutti, conhecido por Padre João. 83 Figura 35: Igreja Matriz de Três Barras do Paraná concluída. Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná No ato de inauguração, o Padre João foi homenageado pelo prefeito da época, Hélio João Laurindo e, após aprovação da Câmara de Vereadores, seu nome foi colocado na praça central da cidade, localizada em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora Aparecida. Anos mais tarde, o Padre Domingos Pasa precisou regressar ao município. Mas, dessa vez, para ser homenageado pelo povo. Ele foi convidado para receber pelas mãos das autoridades locais o título de Cidadão Honorário do Município de Três Barras do Paraná. No dia de sua visita a Três Barras ficou bastante emocionado, não apenas pela homenagem, mas também por ver sua obra concluída e por rever velhos amigos que havia deixado e há tanto tempo não via. 84 Figura 36: Entrega do título de Cidadão Honorário do Município de Três Barras do Paraná ao Padre Domingos Pasa. Fonte: Arquivos da Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Fizeram parte dessa história, além do Padre Domingos e do Padre João, outros padres que de alguma forma se destacaram, merecendo serem homenageados: Padre Leo, Padre Duílio, Padre Miguel, Padre Celso, Padre Devanil, Padre Sérgio, Padre Fernando, Pastores Evangélicos, entre outros que colaboraram para manter a fé, o respeito aos bons costumes e às tradições dessa população. Esses padres foram exemplos de pessoas, pois contribuíram com seus ensinamentos para que a cidade fosse mais tranquila para viver e a população pudesse ser constituída por gente hospitaleira, honesta, trabalhadora e feliz. Algo que podemos perceber hoje como traço cultural de grande maioria das pessoas que residem no município. A Igreja Matriz Nossa Senhora Aparecida recentemente passou por uma reforma que modificou um pouco seu visual, deixando-a mais moderna e confortável. 85 Figura 37: Igreja Matriz de Três Barras do Paraná Reformada Fonte: panoramio.com Abordamos a religiosidade em seu aspecto cultural, sendo que muitos outros eventos merecem ser destacados: as festas de igrejas em todas as comunidades, competições esportivas, os Festivais Regionais e Nacionais da Música Popular e Sertaneja (FERMUPS) e (FENMUPS), as promoções organizadas pelo Centro de Tradições Gaúchas (CTG), as cavalgadas e os torneios de laço, as comemorações do dia do município, as festas juninas, as comemorações da semana da Pátria, as festas de virada de ano, as semanas culturais e os jogos escolares, as pescarias e outras atividades de lazer nas praias artificiais do município, e outros acontecimentos culturais. Também merece reconhecimento o esporte desse município, pois já revelou vários destaques que, ao conquistarem vitórias em campeonatos de futebol de campo disputados pelos municípios do Pró-caxias e por quatro vezes vencerem os campeonatos da Copa Cantu, trouxeram alegria ao povo. No futebol de salão, o atleta de Três Barras que mais se destacou até o momento, foi Vanderson Ronsani. Ele foi campeão paranaense de futsal, jogando pela equipe do Cascavel, e também jogou na Itália por alguns anos, sempre com bom desempenho. 86 Entre as competições infantis e juvenis destacam-se os tantos prêmios conquistados por alunos e demais munícipes que participam de vários eventos regionais representando Três Barras do Paraná sendo, na maioria das vezes, treinados por professores e simpatizantes do esporte. Além dos destaques esportivos já mencionados, as visitas às Praias Artificiais e ao Parque Estadual Guarani (cujos responsáveis estão capacitados para receber os turistas e visitantes), são boas opções de lazer. Dessa forma, numa mescla de aspectos culturais, Três Barras do Paraná se mantém em destaque na Região Oeste do Paraná. 2.9 A EDUCAÇÃO Quando comentamos a respeito da importância da educação na vida das pessoas, dentre os inúmeros ensinamentos que poderíamos atribuir relevância maior, nosso pensamento se volta a uma das célebres frases de Pitágoras: “Educai as crianças e não será preciso punir os homens”. E como já disse Johann Goethe: “Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a”. Sabemos que vários estudiosos já tentaram demonstrar a importância de uma pessoa adquirir cultura, seja pelos conhecimentos do mundo ou pelos meios escolares, mas nem todos conseguiram obter bons resultados práticos ao tentarem aplicar todas as teorias que procuraram defender. Por outro lado, seus estudos serviram para deixar à humanidade uma riqueza de informações que, se bem aproveitadas, podem reverter em seu benefício. E aí está o objetivo maior do ato educativo como um todo, mas que só poderá surtir efeitos na prática se for pensado como um ato de amor ao próximo. Acreditamos que não se torna possível educar as próximas gerações sem que se sirva de exemplo ou que se adotem atitudes melhores nos relacionamentos entre as pessoas. Entendemos que o ato de educar as próximas gerações pode vir em benefício de todos. Contudo, para que isso seja possível, depende de maiores investimentos por parte das entidades mantenedoras no que diz respeito a maior compromisso com a formação humana e também da valorização da sociedade, da dedicação total dos educadores e das famílias, principalmente do empenho daqueles que de fato se dispõem a aprender. 87 É desse modo que pensamos a educação e que sempre nos fizemos presentes firmando propósitos de que “todos podem vir a ser melhores, se bem educados”. O histórico que marca a educação de Três Barras do Paraná teve início com a inauguração de uma escola, em 1965, nominada como Grupo Escolar Castro Alves. Mais tarde, em uma reunião realizada em suas dependências pelas autoridades locais, pais e professores, por unanimidade, optaram por chamá-la de Grupo Escolar Carlos Gomes. O Grupo Escolar Carlos Gomes foi construído onde hoje está situado o Colégio Estadual Princesa Izabel e, posteriormente, passou a funcionar no mesmo local em que existia uma escola de 1ª a 4ª séries, no centro de Três Barras, nominada como Pedro Viriato Parigot de Souza. Pelo Decreto do dia 28 de maio de 1971, divulgado em Diário Oficial na mesma data, o Grupo Escolar Carlos Gomes foi oficializado. Durante o período de 1968 e 1969, doze escolas foram criadas pelo INDA (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário), todas no Distrito de Três Barras. Essas escolas, em outubro de 1969, passaram a pertencer ao IBRA (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária) e, em seguida, ao INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Nessa época, os professores recebiam seus vencimentos, muitas vezes, na própria sala de aula. Todavia, algum tempo depois, o governo assinou um convênio em que os professores do INCRA passaram a receber seus vencimentos pelo Município de Catanduvas. Na década de 1970, Três Barras contou também com uma extensão do Ginásio Estadual Dom Manoel da Silveira D’Elboux, de Catanduvas, de 5ª a 8ª séries. Posteriormente foi criada uma escola de 2º Grau, com habilitação de Técnico em Contabilidade. Em 08 de março de 1983, o Curso de 2º Grau – Habilitação Magistério, autorizado pela Resolução nº 706/83 e reconhecido pela Resolução nº 4669/86 de 31 de outubro de 1986 passou a integrar a história da educação em Três Barras. No ano de 1991, teve início o Curso de 2º Grau – Educação Geral – Preparação Universal, no período noturno. O Curso foi autorizado pela Resolução nº 470/91, de 06 de dezembro de 1991, e reconhecido pela Resolução n° 3125/97, de 10 de setembro de 1997. No ano de 1992 o Curso de 2º Grau, com Habilitação de Técnico em Contabilidade deixou de ser Curso Profissionalizante e passou à Formação de Técnico em Contabilidade, oferecendo apenas a formação de Auxiliar de Contabilidade. 88 Um período bastante difícil para os professores foi entre 1971 e 1980, quando Três Barras deixou de pertencer ao Município de Catanduvas. Ocorre que, nessa época, pela falta de um responsável pela realização dos pagamentos na Subprefeitura de Três Barras, na maioria das vezes, os professores precisavam se deslocar até o município vizinho (Catanduvas), para receberem seus salários. Contudo, mesmo comparecendo na Prefeitura de Catanduvas, eles permaneciam sem receber seus vencimentos. Procuravam falar com o prefeito, mas não o encontravam. Um dos funcionários, o tesoureiro da época, conhecido por Sr. Alceu, somente informava que não havia dinheiro disponível em caixa. Desse modo, mesmo insatisfeitos com o descaso das autoridades, os professores se obrigavam a voltar para casa sem sequer terem sido ouvidos e, muito menos, recebido pelo trabalho prestado. Esses “heróis anônimos” continuavam seu trabalho sem, no entanto, receber nada por isso. Por duas vezes, aconteceu de passarem até seis meses sem que recebessem seus pagamentos. Os autores deste livro, por terem sido professores nesse período e terem vivenciado esses fatos, são testemunhas do que costumava acontecer. O descaso com eles e com os demais professores fez com que esses profissionais dedicados trabalhassem pelo amor à profissão e pelo compromisso assumido com a comunidade. Todavia, por diversas vezes, para que conseguissem se deslocar até Catanduvas (município vizinho) a fim de receber seus salários ou para participar de cursos de formação, tinham que emprestar dinheiro para poderem pagar a passagem do ônibus. Foi somente a partir da municipalização de Três Barras do Paraná que a situação da categoria melhorou. A partir desse momento histórico, o salário passou a ser pago sempre de maneira pontual a todos os servidores municipais. Depois, com a nuclearização do ensino, as escolas municipais do interior foram fechadas e o atendimento aos alunos permaneceu somente nas escolas localizadas na sede do município e em alguns distritos. Então, para viabilizar o acesso dos alunos, houve a necessidade de transporte escolar. E os ônibus para esse transporte passaram a ser chamados pelos alunos de “lotações”. Mas os distritos permaneceram com aulas de 1º a 9º ano do Ensino Fundamental. Lembramos que a partir de 2008, foi feita a implantação do Ensino Fundamental de Nove Anos, justificado pela alteração na LDBEN nº 9394/96, em seus artigos 6º, 32 e 87, da Lei Federal nº 11.274, de 06/02/06, Resolução nº 03 de 03/08/05 da CNEB e Deliberação nº 3/06– 89 CEE, com a obrigatoriedade do Ensino Fundamental desde os seis anos de idade, com duração de nove anos. Como essa implantação foi gradativa, no Colégio Estadual Princesa Izabel e nos demais estabelecimentos de ensino de Três Barras do Paraná que ofertavam o Ensino Fundamental de 5ª a 8ª série, a partir de 2011 passaram a ofertar o Ensino Fundamental do 6º ao 9º ano. Em 2011 também teve início o Ensino Médio no Colégio Estadual Pedro Luiz Messias, situado no Distrito de Santo Isidoro. Nos dias de hoje, grande parte dos alunos do interior do município utiliza transporte escolar para deslocar-se até a sede do município, onde ficam o Colégio Estadual Princesa Izabel e a Escola Municipal Carlos Gomes. O Colégio Estadual Princesa Izabel – Ensino Fundamental, Médio e Normal é o estabelecimento de ensino em Três Barras do Paraná que mais atende alunos. Conta com média de 1.600 a 1.800 estudantes entre o Ensino Fundamental de 6º ao 9º ano, o Ensino Médio e o Curso de Formação de Docentes da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, em Nível Médio, na Modalidade Normal (o antigo Magistério). O Governador que iniciou a obra do Colégio Estadual Princesa Izabel foi Ney Amintas de Barros Braga, utilizando recursos da FUNDEPAR (Fundação Educacional do Paraná). A obra foi concluída em 1982 e inaugurada em 1983, pelo Prefeito de Catanduvas, o Sr. Antério Francisco da Motta, pai do atual Presidente da Câmara de Vereadores de Três Barras do Paraná, o Sr. Antenor Carlos da Motta. Na ocasião da inauguração, o Governador do Paraná em Exercício era o Sr. José Hosken de Novaes. Consideramos importante salientar que, durante o Governo Jaime Lerner, o Colégio Estadual Princesa Izabel, juntamente com as demais escolas do Paraná, foram pressionadas para cessar com o Curso Magistério. No entanto, a diretora do estabelecimento, na época, a Senhora Terezinha Baú, contando com o apoio dos professores e da APMF (Associação de Pais, Mestres e Funcionários da Escola), com suporte político dado pela administração municipal, resistiu à pressão. Como resultado, o Colégio Estadual Princesa Izabel permaneceu com o curso. Para justificar o termo “pressão” do governo, explicamos que, na época, por meio da SEED (Secretaria Estadual da Educação) eram oferecidas várias vantagens aos colégios que aceitassem a extinção do ensino do Magistério, em nível de segundo grau. Essas “vantagens” eram prometidas em forma de verbas, bens móveis, além de outros benefícios. 90 De todas as Escolas Estaduais do Paraná, somente catorze resistiram à pressão e continuaram sem que tivessem o Curso Magistério extinto. Lembramos que o Colégio Estadual Princesa Izabel está entre estas escolas. Esse fato se mostra relevante, pois os municípios que cessaram o curso na época e tentaram voltar atrás, não mais conseguiram reverter essa situação. 2.9.1 TRAJETÓRIA HISTÓRICA DO COLÉGIO ESTADUAL PRINCESA IZABEL Figura 38: Espaços do Colégio Estadual Princesa Izabel Fonte: Arquivos do Colégio Estadual Princesa Izabel, em Três Barras do Paraná O Colégio Estadual Princesa Izabel – Ensino Fundamental, Médio e Normal, encontra-se circunscrito na Avenida Paraná, n° 859, zona urbana do município de Três Barras do Paraná, a aproximadamente 95 km do Núcleo Regional de Educação de Cascavel e tem como mantenedor o Governo Estadual do Paraná. A escolha do nome “Princesa Izabel” se deve ao fato de que o Município de Três Barras do Paraná, pertencente ao Município de Catanduvas, foi emancipado no dia 13 de maio, data em que a Princesa Isabel havia assinado a libertação dos escravos. Um dos objetivos mais almejados pelos tribarrenses era a sua “libertação”: Três Barras, sendo elevada à categoria de município, passaria a ter maior autonomia nas decisões políticas, as quais poderiam reverter em benefício da população. Assim, o nome serviu como forma de representar os anseios de todos os que, daquele momento em diante, poderiam iniciar uma nova etapa em suas vidas. 91 Conforme consta em registro no Projeto Político Pedagógico do Colégio Estadual Princesa Izabel – Ensino Fundamental, Médio e Normal de Três Barras do Paraná, suas atividades foram iniciadas no ano de 1983, com o Curso de 2º Grau – Habilitação Magistério, autorizado pela Resolução nº 706/83, de 08 de março de 1983, e reconhecido pela Resolução nº 4669/86, de 31 de outubro de 1986. O Curso de 2º Grau – Educação Geral – Preparação Universal foi criado em 1991, pela Resolução nº 470/91, de 06 de dezembro de 1991, e reconhecido pela Resolução nº 3125/97, de 10 de setembro de 1997. Esse curso funcionava apenas no período noturno. Posteriormente, o Curso de Educação Geral foi adequado de acordo com a Lei 9394/96, transformando-se em Ensino Médio. O último ato de reconhecimento do Ensino Médio é datado de 02 de outubro de 2007, por meio da Resolução nº 3545/2007. A Habilitação Magistério cessou gradativamente suas atividades a partir do início do ano letivo de 2001. No início do ano letivo de 2001, o Colégio Estadual Princesa Izabel passou a ofertar o Curso de Formação de Docentes da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, em Nível Médio, na Modalidade Normal, com implantação gradativa, autorizado pela Resolução nº 3056/01, de 12.12.2001. Em decorrência da implantação desse curso, o estabelecimento de ensino passou à denominação de Colégio Estadual Princesa Izabel – Ensino Fundamental, Médio e Normal. A partir do ano letivo de 2004 o Colégio passou a ofertar o Curso de Formação de Docentes Para a Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental em Nível Médio Integrado, na modalidade Normal, com implantação gradativa, reconhecido pela Resolução nº 2001/07 de 14.06.2007. A partir de 17 de abril do ano de 2006, o colégio passou a oferecer a Educação Especial, com funcionamento de Sala de Recursos para o Ensino Fundamental de 5ª a 8ª série e para a área da Deficiência Mental e Distúrbios de Aprendizagem, conforme Resolução nº 470/91, de 06.02.1991. O reconhecimento veio com a Resolução nº 357207, de 10 de outubro de 2007. No ano de 2006 esse estabelecimento de ensino se tornou a Escola Base da Casa Familiar Rural, conforme Resolução 2638/07, que regulamentou seu regime de alternância. Passou a ser função do Colégio Estadual Princesa Izabel, incluir os alunos no SERE (Sistema Estadual de 92 Registro Escolar), prever turmas, guardar documentos, expedir transferências, certificação e documentação referente à vida escolar do aluno. O último Ato de Reconhecimento do Ensino Médio é datado de 02 de outubro de 2007, pela Resolução nº 3545/2007. Em 2010 houve a descentralização do Curso de Formação de Docentes Para a Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental em Nível Médio Integrado, na modalidade Normal, para o município de Boa Vista da Aparecida. O Colégio Estadual Princesa Izabel passou a ser a escola sede de uma turma de 1º ano que funciona no Colégio Estadual Paulo VI. O Colégio Estadual Princesa Izabel – Ensino Fundamental, Médio e Normal segue normatização estabelecida pelas Políticas Públicas Legais da SEED – Secretaria de Educação do Estado do Paraná e do Regimento Escolar do Estabelecimento, aprovado pelo Ato Administrativo nº 682, de 17 de dezembro de 2007. 2.9.2 TRAJETÓRIA DA ESCOLA MUNICIPAL CARLOS GOMES De acordo com registros do Projeto Político Pedagógico da Escola Municipal Carlos Gomes, seguem as informações postuladas no texto que segue contando sua trajetória histórica. A Escola Municipal Carlos Gomes – Educação Infantil e Ensino Fundamental, situada à Avenida Paraná, no Centro do Município de Três Barras do Paraná – Comarca de Catanduvas, mantida pelo Governo do Estado do Paraná, iniciou suas atividades em 1965, com a construção de uma escola, inaugurada com o nome de Grupo Escolar Castro Alves. Mais tarde, em uma reunião realizada em suas dependências pelas autoridades locais, pais e professores, por unanimidade de opção, passaram a chamá-lo de Grupo Escolar Carlos Gomes. O “Grupo Escolar Carlos Gomes” foi oficializado em Decreto do dia 28 de maio de 1971, divulgado em Diário Oficial na mesma data. Em 1980, com a implantação da Lei 5.692/71, o Grupo Escolar Carlos Gomes precisou ser reorganizado e, assim, continuou a funcionar nos termos da legislação vigente. A referida escola passou a ministrar o ensino completo de 1º Grau, não mais apenas o de 1ª a 4ª séries de 1º Grau, e passou a ser conhecida como Escola Estadual Carlos Gomes – Ensino de 1º Grau. 93 Em 1981, com a nova reorganização, passou a funcionar com turmas de 1ª a 5ª série, ampliando gradativamente sua oferta de ensino até a 8ª série. A autorização de funcionamento atribuída por meio da Resolução n.º 1.287/82, de 12 de maio de 1982. O reconhecimento do estabelecimento e do curso se deu pela Resolução n.º 3.359/86, de 04 de agosto de 1986. Em 1990, por meio da Resolução n.º 985/90, foi criado o Centro de Atendimento Especializado para a Área de Deficiência Visual. Em 11 de agosto de 1993, pela Resolução n.º 4.377/93, foi criado o Centro de Atendimento Especializado para a Área de Deficiência Auditiva. Em 12 de dezembro de 1994, por meio da Resolução n.º 6.051/94, foi criado o Centro de Atendimento na Área de Deficiência Mental. A partir do ano letivo de 2001, depois de uma reunião realizada no mês de outubro de 2000 com a chefe do NRE (Núcleo Regional de Educação), Marise Jussara Franz Luvison, os funcionários dessa escola, junto com os funcionários do Colégio Princesa Izabel, decidiram-se pela passagem das turmas de pré-escola à 4ª série na Escola Carlos Gomes e as turmas de 5ª a 8ª série e Ensino Médio no Colégio Princesa Izabel. Diante disso, a partir de 2001, a escola Carlos Gomes passou a atender alunos da Educação Infantil (pré-escola), do Ensino Fundamental (1ª a 4ª série), da Educação Especial (DM, DA e DV) e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mas a Educação de Jovens e Adultos, com extinção gradativa: sem novas matrículas, somente até que encerrasse suas atividades. A Resolução nº 2001/01, de 11.09.2001, procedeu à mudança da Entidade Mantenedora, que passou do Governo do Estado do Paraná para a Prefeitura Municipal de Três Barras do Paraná. Em decorrência disso, passou a ser chamada de “Escola Municipal Carlos Gomes – Ensino Fundamental”. A Resolução nº 2560/03, de 11 de setembro de 2003, autorizou o funcionamento da Educação Infantil para as crianças de 6 (seis) anos, desde o início de 2004. Razão pela qual, a partir de 2004, a Escola passou a ser denominada como: “Escola Municipal Carlos Gomes – Educação Infantil e Ensino Fundamental”. De acordo com a Resolução nº 5935/06, de 12 de dezembro de 2006, o Ensino Fundamental Fase I, presencial, na modalidade EJA - Educação de Jovens e Adultos voltou a funcionar. 94 Em 2008, foi feita a implantação do Ensino Fundamental de Nove Anos, justificado pela alteração na LDBEN nº. 9394/96, em seus artigos 6º, 32 e 87, da Lei Federal nº. 11.274, de 06/02/06, Resolução nº. 03 de 03/08/05 da CNEB e Deliberação nº. 3/06–CEE, com a obrigatoriedade do Ensino Fundamental desde os seis anos de idade, com duração de nove anos. Figura 39: Escola Municipal Carlos Gomes Fonte: Arquivos do Colégio Estadual Princesa Izabel, em Três Barras do Paraná De acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Educação, além da Escola Municipal Carlos Gomes, existe o Centro Municipal de Educação Infantil Sonho de Criança, que atende 167 crianças de 0 (zero) a 6 (seis) anos das Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Existem também três escolas no interior do município que ofertam atendimento a alunos dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e à Educação Infantil, na modalidade pré-escolar. A título de exemplificação, essas escolas são: Escola Rural Municipal Abelardo Luz, que atende 76 alunos na comunidade de Barra Bonita; Escola Rural Municipal João Mello de Morais, com 50 alunos na comunidade de Alto Alegre; Escola Rural Municipal Salgado Filho, que oferta o ensino a 100 alunos na comunidade de Santo Izidoro. Como forma de reconhecimento pelos substanciais serviços prestados à educação do município de Três Barras do Paraná, foi aprovado recentemente o Projeto de Lei de autoria do vereador João Batista de Souza, que concedeu o “Título de Cidadão Honorário do Município de 95 Três Barras do Paraná” aos ex-diretores: Elizabeth Paludo, Flávia Conradi, Inês Fontaniva Nunes, Iodete Terezinha Bresola Lunardi, Nairo Marcos Ribeiro, Terezinha Baú, Zenilda de Araújo Vaz. 96 3 A HISTÓRIA POLÍTICA DO MUNICÍPIO Nessa parte final do estudo, investigamos a Trajetória Política, com enfoque voltado aos fatos que marcaram a História Política do Município de Três Barras do Paraná. 3.1 EMANCIPAÇÃO DO MUNICÍPIO Após a revolta de Três Barras, com medo de nova revolta ou da perseguição policial, muitos moradores se mudaram para outros municípios ou até para outras regiões do país. Para isso, venderam os direitos de posse de suas propriedades a preço bem acessível. Os que permaneceram, investiram na regularização da documentação legal e no trabalho, não somente pelo objetivo subsistência, mas também a fim de gerar maior produção e, consequentemente, desenvolvimento para o lugar. O INCRA fez um levantamento para saber quem residia nas propriedades rurais e providenciou a entrega do título definitivo de propriedade a cada morador. Providenciou também a Planta da Cidade. Três Barras chegou a ter aproximadamente trinta mil habitantes, porém, com a escassez da madeira, muitas serrarias foram fechadas e os maquinários foram levados para outros lugares do Brasil, como Mato Grosso e Pará. Quando Três Barras passou a ser Distrito, por meio da Lei Estadual n.º 5.424/66, de 15.12.1966, contava com média de 25.000 habitantes. Até 1980, período em que os cidadãos tribarrenses ainda pertenciam ao Município de Catanduvas, alguns deles conseguiram fazer parte do Poder Político daquele lugar, mesmo residindo em Três Barras. José Marcolino Cardoso, por exemplo, chegou a ser eleito Prefeito de Catanduvas. João Martendal, Silvestre Hinselmann e Vitório Pasa foram vice-prefeitos. Os tribarrenses foram beneficiados com a criação do Distrito de Três Barras e também com a instalação de uma Subprefeitura, no local onde hoje se encontra a Praça Padre Giovani Battista Cerrutti. Na Subprefeitura de Três Barras, trabalharam lideranças políticas da época como: Hélio João Laurindo, Vitório Pasa, Vilson Ronsani, Neuri Baú, entre outros. 97 José Davi Paludo, autor deste livro, exerceu no Distrito de Três Barras o cargo de Secretário de Educação, na época, nominado como cargo de Inspetor Escolar. Graças ao empenho e garra do povo tribarrense, Três Barras passou a se desenvolver mais que o Município Sede. Fato que gerou rivalidade política entre Três Barras e Catanduvas. Contudo, dessa rivalidade surgiu a ideia da emancipação política, que culminou na criação de um novo município paranaense. Os vereadores do Legislativo Municipal de Catanduvas - Gestão de 1977 a 1983 - que aprovaram o Plebiscito para Emancipação do Município de Três Barras, foram: Antério F. da Motta, Antonio M. de Souza, Antonio Bórak, Arlindo M. da Silva, José Alves dos Santos, Lauro C. Scabene, Luiz A. da Cunha, Marcos A. A. Meurer, Teodoro R. de Oliveira, Valdomiro M. Julianotti. O Prefeito Nelson Valmini e o Vice-Prefeito Vitório Pasa que, na ocasião, ocupava o cargo de Prefeito, conforme pode ser visualizado no quadro. 98 Figura 40: Vereadores do Legislativo Municipal de Catanduvas/PR - Gestão de 1977 a 1983. Fonte: Câmara Municipal de Catanduvas Os vereadores que fizeram frente para que o plebiscito fosse aprovado foram três representantes do Distrito de Três Barras: Antério Francisco da Motta, Marcos Alexandre Meurer e Valdomiro Julhanotti. O Vereador Antério Francisco da Motta foi o que mais se destacou nessa gestão, pois foi Vereador, Presidente da Câmara de Catanduvas e também assumiu o cargo de Prefeito por ocasião da licença do Vice-Prefeito Vitório Pasa. 99 Figura 41: Antério Francisco da Motta, Prefeito de Catanduvas em Exercício. Fonte: Câmara Municipal de Catanduvas. Muitos políticos da época entraram na campanha para conscientizar a população sobre a importância da criação do Município de Três Barras, o que seria decidido por meio de plebiscito (consulta à população). Dentre eles, um dos que mais se destacou nesta luta foi o ex-prefeito de Catanduvas: Sr. José Marcolino Cardoso, que foi o fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Três Barras. 100 Figura 42: José Marcolino Cardoso Fonte: Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Três Barras do Paraná Além de José Marcolino Cardoso, merecem destaque: Valdir Bernardino Martinazzo, João Horácio Laurindo, Hélio João Laurindo, João Bibiano da Silva, Hercílio Orbem, Vitório Pasa, Ivo Pedrozo, entre outros. Para realização do sonho de transformar o Distrito de Três Barras em Município, os referidos senhores representaram o povo de Três Barras, conseguindo o apoio de políticos influentes da esfera federal e estadual, os quais também merecem ter seus nomes lembrados. São os Deputados Federais daquela época Alípio Aires de Carvalho e Otávio Cesário, bem como os Deputados Estaduais Fuad Nacli, Ivo Thomazoni e Davi Cheriegate. Também foi importante o apoio do Secretário de Estado da Justiça, na época, o Sr. Otávio Pereira Júnior. O plebiscito foi um sucesso: o Município de Três Barras do Paraná foi criado pela Lei Estadual n.º 7.305/80, de 13 de maio de 1980, que foi devidamente assinada pelo Governador Ney Amintas de Barros Braga. Na mesma ocasião, foram criados os Distritos de Santo Isidoro, Barra Bonita e Alto Alegre. 101 A área urbana de Três Barras do Paraná foi escolhida como Sede do Município. A Prefeitura Municipal foi instalada em uma edificação onde funcionava a Subprefeitura, na praça em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora Aparecida. O primeiro Prefeito de Três Barras do Paraná foi o Sr. Hélio João Laurindo. Durante seu mandato, foi construído o Paço Municipal Treze de Maio. As novas instalações da prefeitura permanecem nesse endereço até a presente data: Avenida Brasil, nº 245, Centro, Três Barras do Paraná – PR, CEP 85.485-000. 3.2 PRIMEIRA GESTÃO MUNICIPAL A primeira eleição municipal aconteceu em data de 15.11.1982. Nessa eleição, o prefeito escolhido pelo povo foi Hélio João Laurindo, do PMDB, com o vice-prefeito Mário Bongiolo, também do PMDB. A instalação do novo município, a posse do prefeito e dos vereadores eleitos, aconteceu em data de 01 de fevereiro de 1983. Naquele momento histórico do Município de Três Barras do Paraná, a Câmara de Vereadores foi composta com vereadores de apenas duas siglas partidárias. O PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) elegeu cinco vereadores: Alencar José Arrosi, Elichio Bertoldo Conradi, Olimpio Fachini, Roberto Borgrever e Severino Bampi. O PDS (Partido Democrático Social), elegeu quatro vereadores: Ângelo Antoninho Boscari, Ivo Pedrozo, Marcos Alexandre Meurer e Valdevino Moreira. 102 Figura 43: 1ª Gestão Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná Com a prorrogação do mandato, esses gestores municipais permaneceram na Câmara Municipal de Três Barras do Paraná por seis anos, no período de 1983 a 1988. Nessa gestão, assumiram como Presidente da Câmara dos Vereadores: Olímpio Fachini (1983-1984), Roberto Borgrever (1985-1986) e Alencar José Arrosi (1987-1988). As eleições para renovação da Mesa da Câmara sempre aconteceram de dois em dois anos, na primeira Sessão Ordinária do ano, na segunda quinzena de fevereiro, após o recesso. Em janeiro de 1987, o Presidente da Câmara Roberto Borgrever se afastou do cargo de Vereador e Presidente da Câmara Municipal. Seu lugar na Presidência da Câmara, até o final do recesso, foi ocupado pelo vice Ângelo Antoninho Boscari. Em seguida, o Vereador Alencar José 103 Arrosi foi eleito Presidente. Como Vereador, no lugar de Roberto Borgrever, assumiu o Sr. Antônio Sechini, que permaneceu no cargo até o final do mandato. Merece destaque um fato ocorrido na primeira Gestão Municipal: Diante das dificuldades financeiras advindas das mudanças de Distrito para Município, para que Três Barras do Paraná pudesse se estruturar, os vereadores da época optaram por não receber qualquer remuneração durante o primeiro ano de mandato. No segundo ano, receberam apenas uma pequena parte dos subsídios a que tinham direito. O reconhecimento a esse ato veio recentemente, com a aprovação de um Projeto de Lei na Câmara Municipal, que concedeu a cada um deles o título de Cidadão Benemérito do Município de Três Barras do Paraná. Os títulos foram entregues no mês de dezembro de 2010. Nessa primeira Gestão Municipal, os Suplentes que assumiram o cargo de Vereador, foram: Altamiro Martendal (por três meses em 1987 e um mês em 1988) e o Sr. Vilson Ronsani (em 1988, por quarenta e cinco dias). Figura 44: 1º Prefeito Hélio João Laurindo de Três Barras do Paraná, em 1988. Fonte: Jornal / Ed. Especial de 05 de outubro de 1986 (Por se tratar de Ed. Especial, não foi possível identificar o nome do Jornal). 104 Figura 45: 1º Prefeito Hélio João Laurindo, em Recue no Tempo. Fonte: Jornal / Ed. Especial de 05 de outubro de 1986 (Por se tratar de Ed. Especial, não foi possível identificar o nome do Jornal). 3.3 SEGUNDA GESTÃO MUNICIPAL 105 Figura 46: 2ª Gestão Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná. Na Segunda Gestão Municipal (1989-1992) foram eleitos em 15.11.1988, o Prefeito Hercílio Orbem do PDT e seu vice Irineu farias Fraga, também do PDT. A posse aconteceu em 01 de janeiro de 1989. Para o Legislativo Municipal, o PMDB elegeu cinco vereadores: David Schlickmann, Euripes Piva, Jorge Luiz dos Santos Zorzella, Lévio Savi Mondo e Osmar Geraldo Fernandes. Pelo PDT, foram eleitos quatro vereadores: Antônio Marques, Antônio Scandolara Salla, Ivo Pedrozo e Joaquim Donizete da Silva. 106 Contudo, o Vereador Antônio Marques não chegou a assumir o cargo, pois faleceu antes da posse, em acidente automobilístico. No seu lugar, o primeiro Suplente João Manoel Teodoro assumiu como Vereador. Nessa gestão, foram eleitos ao cargo de Presidente da Câmara Municipal: Jorge Luiz dos Santos Zorzella (1989-1990) e Joaquim Donizete da Silva (1991-1992). Porém, faltando dois meses para concluir o mandato, o Vereador Joaquim Donizete da Silva se licenciou do cargo de Vereador e Presidente da Câmara Municipal, por motivo de mudança para Santa Catarina. O Suplente Willy Schlickmann, substituindo o Vereador Joaquim Donizete da Silva, assumiu o cargo de Vereador por quatro vezes, nos seguintes períodos: 06.02.1990 a 06.03.1990; 10.03.1992 a 10.05.1992; 30.06.1992 a 30.08.1992. A quarta vez foi nos dois últimos meses de mandato: 01.11.1992 a 31.12.1992. Na ausência de Joaquim Donizete da Silva (01.11.1992 a 31.12.1992), quem assumiu o cargo de Presidente do Legislativo Municipal foi o Vereador Ivo Pedroso. 3.4 TERCEIRA GESTÃO MUNICIPAL 107 Figura 47: 3ª Gestão Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná A Terceira Gestão Municipal (1993-1996) iniciou em 15.11.1992, com a eleição do Prefeito Hélio João Laurindo, do PMDB, e seu vice Antônio Márcio Ganassim, também do PMDB. A posse aconteceu na Câmara Municipal, em data de 01.01.1993. Foram eleitos cinco vereadores do PMDB: Avenir Gonçalves de Azevedo, Euripes Piva, Osmar Geraldo Fernandes, Paulo Marques e Valdemar Machado. Pelo PFL, foram eleitos quatro vereadores: Agenor Nunes, Argemiro Osvaldo Matiello, Ivo Pedrozo e Sérgio Dezan. Os presidentes da Câmara Municipal dessa gestão foram: Osmar Geraldo Fernandes (1993-1994) e Avenir Gonçalves de Azevedo (1995-1996). 108 No dia 31 de março de 1994, o Prefeito Hélio João Laurindo renunciou ao mandato para se candidatar a Deputado Federal. Teve expressiva votação, porém, não suficiente para se eleger. O cargo de Prefeito foi ocupado pelo vice Antônio Márcio Ganassim. Durante o mandato, de 30.08 a 09.09.1994, o Dr. Antônio (como era chamado) se licenciou do cargo. Quem ocupou interinamente seu lugar foi o Presidente da Câmara Osmar Geraldo Fernandes. Após ter reassumido o cargo, no período de 06 a 26 de abril de 1995, o Prefeito Antônio Márcio Ganassim tirou nova licença. Quem assumiu como Prefeito foi o Vereador Avenir Gonçalves de Azevedo e, na Presidência da Câmara, quem assumiu foi o Vereador Valdemar Machado. Num período próximo ao final do mandato, em 10 de Outubro de 1996, o Prefeito Antônio Márcio Ganassim se licenciou por prazo indeterminado, e não mais retornou ao cargo. Nessa época, o Presidente da Câmara Avenir Gonçalves de Azevedo também estava licenciado porque tinha assumido como Chefe do Setor Rodoviário e Secretário da Prefeitura Municipal de Três Barras do Paraná. Então, o Vice-Presidente Valdemar Machado, que estava no exercício da Presidência da Câmara, assumiu o cargo de Prefeito, até o final da gestão. Durante esse período, compreendido entre 10.10.1996 e 31.12.1996, quem assumiu a Presidência da Câmara Municipal foi o Vereador Paulo Marques. Os Suplentes que assumiram o cargo de Vereador nessa Gestão Municipal, foram: Antônio Sechini (a partir de 07.02.1995 até o final do mandato) em lugar de Avenir Gonçalves de Azevedo; Nelson Pauli (08.03.1994 a 08.04.1994), em lugar de Antônio Sechini; Levy Mendes Pereira (19.09.1995 a 19.10.1995), em lugar de Sérgio Dezan; David Schlickmann (10.10.1996 a 31.12.1996), em lugar de Valdemar Machado. 3.5 QUARTA GESTÃO MUNICIPAL Na Quarta Gestão Municipal (1997-2000), os eleitos à Prefeitura de Três Barras do Paraná foram o Prefeito Hercílio Orbem e seu vice Sérgio Dezan, ambos do PFL. A posse aconteceu em 01 de janeiro de 1997. 109 Para compor o Legislativo Municipal, foram eleitos cinco vereadores do PMDB: Antônio Manoel da Silva, Hélio Kuerten Bruning, João Batista de Souza, Luiz Alberton e Osmar Geraldo Fernandes. O PFL elegeu quatro vereadores: Adelmo Tártari de Souza, Ademar Chetco, Hélio Nojehovsi e Ivo Pedrozo. Figura 48: 4ª Gestão Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná Para presidir a Câmara Municipal de Três Barras do Paraná foram eleitos, nessa gestão, o Vereador Osmar Geraldo Fernandes (1997-1998) e o Vereador Luiz Alberton (1999-2000). Nessa Gestão Municipal, os Suplentes que assumiram o cargo de Vereador foram: 110 Euripes Piva, que substituiu o Vereador Hélio Kuerten Bruning, por trinta dias: de 10.11.1997 a 10.12.1997; Rosalino Macedo, que substituiu o Vereador Ivo Pedrozo, de 15.03.1999 a 15.04.1999; Roberto Borgrever, que substituiu o Vereador Adelmo de Souza, de 21.08.2000 a 02.10.2000. 3.6 QUINTA GESTÃO MUNICIPAL Figura 49: 5ª Gestão Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná Na Quinta Gestão Municipal (2001-2004), pela coligação PMDB-PT, foram eleitos o Prefeito Valdir Bernardino Martinazzo e seu vice Hélio Kuerten Bruning, ambos do PMDB. 111 Para o Legislativo Municipal, foram eleitos pelo PMDB os Vereadores Ailton Conradi, Nelson Pauli e Waldir Antônio Todescatto. Pelo PFL, foram eleitos: Alcides Natal Brandini e Paulo Rossi. O PSDB elegeu Antenor Carlos da Motta. O PT elegeu José Valter da Rosa. O PTB elegeu Antônio Dezan. O PSB elegeu João Ari da Silva. Pela primeira vez, nesse município, houve mais de duas siglas partidárias na composição do Legislativo Municipal. Devido a isso, houve maior diálogo entre os vereadores, ao terem que escolher o Presidente da Câmara. O Presidente da Câmara eleito foi o Vereador Nelson Pauli (2001-2002). Ele conseguiu estabelecer bom diálogo entre os vereadores, de forma a unir esforços para o progresso do município, minimizando atritos e buscando a aprovação de projetos em benefício de toda população. Para o biênio 2003-2004, foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Três Barras do Paraná o Vereador Antenor Carlos da Motta que, a exemplo de Nelson Pauli, manteve o diálogo entre as diferentes siglas partidárias. No período de 10.08.2004 a 10.09.2004, o Suplente que assumiu o cargo de Vereador foi Dorival Lino, que substituiu o Vereador Antônio Dezan. 3.7 SEXTA GESTÃO MUNICIPAL A Sexta Gestão Municipal (2005-2008) iniciou com a reeleição do Prefeito Valdir Bernardino Martinazzo, do PMDB, e seu vice Hélio Kuerten Bruning, também do PMDB. A posse aconteceu em 01 de janeiro de 2005. 112 Figura 50: 6ª Gestão Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná Os Vereadores eleitos para essa Sexta Gestão Municipal, foram: Danilo Oenning, João Batista de Souza, Osmar Geraldo Fernandes e Valdecir Borges, pelo PMDB. Antenor Carlos da Motta e Osmar Zorsi, pelo PSDB. Clarice Dengo Rodrigues, pelo PT. Eliane Dezan, pelo PTB. Paulo Rossi, pelo PFL. Os Suplentes eleitos foram: Adão Lino-PT, Ivo Pedrozo- PFL e Pedro José da Silva-PMDB. Para Presidente da Câmara Municipal, foram eleitos: Antenor Carlos da Motta (20052006) e João Batista de Souza (2007-2008). 113 Nessa Gestão, somente o Suplente Ivo Pedroso assumiu o cargo de Vereador, em substituição à Vereadora Eliane Dezan (10.04.2006 a 20.05.2006). Ocorre que, em data de 13.11.2006, a jovem Vereadora Eliane Dezan faleceu. Desse modo, o Vereador Ivo Pedrozo se fez representar nas atividades legislativas até o final do mandato, em 31.12.2008. 3.8 SÉTIMA GESTÃO MUNICIPAL A Sétima Gestão Municipal iniciou com a eleição, que se deu por meio de candidatura única, do Prefeito Gerso Francisco Gusso, do DEM, e seu vice João Alberton, do PMDB. A eleição foi realizada em 03 de outubro de 2008 e a posse aconteceu no dia 01 de janeiro de 2009, na Câmara Municipal de Três Barras do Paraná. 3.9 OITAVA GESTÃO MUNICIPAL A Oitava Gestão Municipal (2013-2016) terá início em 01.01.2013 com a reeleição do prefeito Gerso Francisco Gusso com o seu vice João Alberton. Para compor o Legislativo Municipal, foram eleitos os seguintes vereadores: Antônio Edson da Silva, João Batista de Souza, Antônio Lechinski e Valdecir Borges (PMDB); Antenor Carlos da Motta e Osmar Zorsi (PSDB); Nerceu de Souza (PMN); Adão Lino (DEM) e Antônio Dezan (PDT). O vereador mais votado, nessa eleição, foi Antenor Carlos da Motta, com 600 votos, sendo eleito pela quarta vez. Para suplentes foram confirmados os senhores: Pedro José da Silva e Eli do Carmo Schubert Teodoro pelo PMDB, Silvonei Bampi pelo PP e Paulo Rossi pelo DEM. 114 Figura 51: 7ª Gestão Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná Para compor o Poder Legislativo, foram eleitos os seguintes vereadores: João Batista de Souza, Pedro José da Silva, Valdecir Borges e Valmir Schlickmann (PMDB); Antenor Carlos da Motta e Osmar Zorsi (PSDB); Antônio Dezan e Waldir Antônio Todescatto (PDT); Nerceu de Souza (PMN). Foram eleitos dois suplentes: Ivo Pedrozo e Clarice Dengo Rodrigues. Para Presidente da Câmara Municipal foi eleito o Vereador Antônio Dezan, que presidiu o Legislativo Municipal em 2009. No final do primeiro exercício, renunciou a Presidência em favor do seu vice Valmir Schlickmann, o qual foi Presidente no Exercício Financeiro de 2010. 115 Para o período 2011-2012, foi eleito Presidente o Vereador Valmir Schlickmann que, no final de 2011, renunciou ao cargo em favor do seu vice Antenor Carlos da Motta, o qual ficou na Presidência da Câmara de Três Barras do Paraná, no exercício de 2012. Os suplentes que assumiram o cargo de Vereador, nessa Gestão Municipal, foram: Ivo Pedrozo, que substituiu o Vereador Waldir Antônio Todescatto, no período de: 13.10.2009 a 13.11.2009 e Clarice Dengo Rodrigues, que substituiu o Vereador João Batista de Souza, no período de 01.12.2009 a 01.01.2010. 3.10 O PODER EXECUTIVO No Executivo Municipal, o trabalho, a dedicação, o esforço, a responsabilidade, o compromisso e a criatividade, foram os principais atributos de todos os prefeitos que esse município elegeu até a data dessa edição. As limitações orçamentárias, as incompreensões políticas, entre outras dificuldades, foram superadas pelas conquistas que possibilitaram o progresso e o desenvolvimento. Podemos dizer que os tribarrenses vivem hoje em um município com mais infraestrutura, melhor índice de saúde, educação e cultura, maiores oportunidades de trabalho, profissionais mais bem qualificados... Enfim, Três Barras do Paraná conta com mais pessoas felizes. Sendo assim, não podíamos deixar de registrar nossa homenagem e gratidão a todas as autoridades locais, as quais nos representam sem medir esforços, bem como aos ex-prefeitos e ao atual prefeito desse município. 3.11 O PODER LEGISLATIVO A Câmara Municipal de Três Barras do Paraná iniciou suas atividades em primeiro de fevereiro de 1983, utilizando-se temporariamente das instalações da Prefeitura Municipal, na praça em frente à Igreja Matriz. Os Serviços da Secretaria Municipal: elaboração de projetos de lei, requerimentos, atas, correspondências, arquivos e outros, eram realizados por um secretário da prefeitura e a contabilidade era realizada, até 1986, pelo contador da prefeitura. 116 No mês de janeiro de 1987, a Câmara Municipal passou a ter um ambiente próprio para o seu funcionamento. Para tanto, alugou um prédio na Avenida Paraná, na época, pertencente ao Sr. Ari Fontana. Na mesma ocasião, foi descentralizado o serviço de contabilidade da Câmara Municipal e suas finanças passaram a ser realizadas por uma empresa de contabilidade, de propriedade do Sr. Natal Estevão Acordi. Para realizar os pagamentos aos vereadores, arquivos e serviços de secretaria, atendimento ao público, organização das Sessões da Câmara entre outras atribuições, foi contratado o Sr. José Davi Paludo, autor deste livro, o qual continua até a presente data prestando serviços nessa Casa de Leis. Com a inauguração do novo prédio da Prefeitura (Paço Municipal 13 de Maio), a Sede do Legislativo Municipal foi transferida para seu andar térreo, onde permanece atualmente. Conforme consta em registros da Câmara Municipal de Três Barras do Paraná, destacamos a importância das funções de um vereador: “Ser vereador é ter consciência das necessidades do povo que lhe conferiu a missão de bem representá-lo”. Portanto, cabe ao vereador a função de levar ao prefeito os pedidos da comunidade. Mas não é só isso. Cabe-lhe também a função elaborar as leis, de fiscalizar as contas do Poder Executivo Municipal, os atos do prefeito, denunciando o que estiver ilegal ou imoral à população e aos órgãos competentes. O vereador tem, na verdade, uma responsabilidade social muito grande, que vai bem além da função de fazer leis e fiscalizar os atos do Executivo. Por estar mais presente na comunidade, em contato direto com a população, é ele quem recebe diariamente toda a carga de reclamações e de pedidos diversos, sendo que precisa ouvir as críticas (quase nunca elogios) e, na medida do possível (quase que por mera obrigação), atender o eleitor e/ou encaminhar a demanda aos órgãos competentes. Por tudo isso, rendemos nossa homenagem a todos os Vereadores e Ex-Vereadores pelo papel importantíssimo desempenhado no Município de Três Barras do Paraná. Em especial, aos Ex-Vereadores: Antônio Marques, Argemiro Osvaldo Matiello, Euripes Piva, Eliane Dezan e Nelson Pauli que, mesmo já tendo partido dessa vida, sempre se farão presentes na memória do povo tribarrense. 117 4 OS SÍMBOLOS DO MUNICÍPIO Três Barras do Paraná se faz representar pela Bandeira, pelo Brasão e pelo Hino Oficial, símbolos cívicos que retratam a história e as características desse município paranaense, bem como pelo Povo Tribarrense, retrato vivo e contínuo que marca cada passo dessa história. 4.1 A BANDEIRA 4.2 O HIN O OFI CIA L O Hino Ofic ial de Figura 52: A Bandeira do Município de Três Barras Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná Três Barr as foi elaborado pelo Professor Nereu Milaneze, com larga experiência na elaboração de hinos municipais. Ele foi contratado pelo Sr. Osmar Geraldo Fernandes que, em 1988, era o Presidente da Câmara de Vereadores. Também foi formada uma comissão para acompanhar e subsidiar esse trabalho, tendo como representantes os vereadores: Osmar Geraldo Fernandes, Sargento Hélio Nojehovsi e Antônio Manuel da Silva (Toninho do Karatê). Cabe lembrar, no entanto, que todos 118 os vereadores da época colaboraram para a elaboração da letra do Hino do Município, por meio de estudo minucioso e aprovação do respectivo Projeto de Lei. Em reunião aberta ao público, convocada pelo Presidente da Câmara Municipal, para proceder à análise do texto escrito e propor sugestões à letra do referido hino, destacaram-se os três vereadores já mencionados, juntamente com os professores José Davi Paludo e Elizabeth Paludo, os quais analisaram cuidadosamente o texto inicial e sugeriram algumas adequações, que foram bem aceitas pelo autor, o Professor Nereu Milaneze. A música tem autoria do Sargento Gilberto Alves de Camargo, da Banda do Exército de Cascavel, Paraná. O Hino Oficial do Município de Três Barras do Paraná foi instituído pela Lei Municipal n.º 079/98, de 12 de maio de 1998. Os autores da letra e da música foram homenageados na ocasião do Lançamento do Hino Municipal de Três Barras do Paraná, quando o hino foi cantado pela primeira vez no município, pela Banda do Exército de Cascavel, no dia 13 de maio de 1998. 119 HINO OFICIAL DO MUNICÍPIO DE TRÊS BARRAS DO PARANÁ Letra: Nereu Milaneze Música: Sargento Gilberto Alves de Camargo Brasileiros do Sul acamparam Desbravando florestas fechadas E na foz de três rios fundaram O rincão da querida Três Barras. Estribilho: Um futuro brilhante virá, Se plantarmos estudo e labor. E Três Barras do meu Paraná Viverá sempre em paz e amor! Grandes lutas, ferozes, sangrentas, Sangue vivo tingiu tua terra. Por sagrado direito, tua gente Bateu firme, venceu crua guerra. Tuas matas já foram tua mesa Que nutriu nossa brava, boa gente. Nosso solo – lavoura é riqueza, Recebeu escolhida semente. Tanto gado em verdes pastagens, Do feijão és a mor capital. As indústrias que agora plantares Gerarão teu progresso ideal. 4.3 O BRASÃO DO EXECUTIVO MUNICIPAL 120 Figura 53: O Brasão do Executivo Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná O Brasão do Município de Três Barras do Paraná destaca a riqueza agrícola desta boa terra, o trabalho do agricultor, desmatando e mecanizando a terra, plantando, colhendo e transformando as paisagens. No lado direito do brasão vemos um ramo feijão e no lado esquerdo um ramo de milho que foram os produtos principais deste município, nos primeiros anos de sua colonização. 121 Na época da criação do Hino, Três Barras do Paraná já era conhecida por “capital do feijão”, título atribuído ao produto que mais se destacou neste município, na gestão do primeiro prefeito deste município: Hélio João Laurindo (1983-1988). 4.4 O BRASÃO DO LEGISLATIVO MUNICIPAL Figura 54: O Brasão do Legislativo Municipal Fonte: Câmara Municipal de Três Barras do Paraná 122 5 DEMONSTRAÇÃO DE AFETO DO POVO TRIBARRENSE Deixamos também em registro uma demonstração de afeto do povo tribarrense, que se dá em dois trabalhos de alunos, realizados no início de nossa pesquisa, no ano de 2002. Estendemos nosso agradecimento a todos os demais alunos que, por meio dessas duas demonstrações de afeto a Três Barras do Paraná, foram representados. 123 124 REFER ÊNCIA S BIBLIO GRÁFI CAS ANDR ADE, Manuel Correia de. 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