XVI CONGRESO LATINOAMERICANO DE ESCUELAS DE TRABAJO SOCIAL -LA GLOBALIZACIÓN Y SU IMPACTO EN EL TRABAJO SOCIAL HACIA EL SIGLO XXI TÍTULO DO TRABALHO: Neoliberalismo e Assistência Estudantil: limites/possibilidades para o acesso e permanência no Ensino Superior Público. EIXO TEMÁTICO: Intervenção Profissional SUB-EIXO TEMÁTICO: Processos de inclusão/exclusão: estratégias de intervenção do trabalhador social, experiências sistematizadas, produção de novos conhecimentos. TIPO DE TRABALHO: monografia PALAVRAS CHAVES: neoliberalismo, assistência social, universidade pública, assistência estudantil NOME DA AUTORA: Sheilla Nadíria R. Rocha – mestranda em Serviço Social/ UFPE CIDADE: Recife/PE [email protected] PAÍS: Brasil TELEFAX: (081) 4530817 E-MAIL: ABSTRACT: O atual contexto brasileiro é marcado pelo processo de ajustamento estrutural oriundo dos organismos financeiros transnacionais para a nossa inserção na economia mundial, o qual tem gerado o choque entre os processos de democratização - decorrentes da organização da sociedade civil nos anos 80 – e a grave crise econômica que envolve também os outros países periféricos da América Latina. Dessa maneira, a assistência social, enquanto política de seguridade social, assim como a política pública de ensino superior são duas das garantias constitucionais que vêm sendo ameaçadas pela implementação do projeto neoliberal em curso no Brasil. Os limites conjunturais à implementação da assistência social, enquanto direito, aliados ao processo de privatização das universidades federais vêm desestruturando a assistência estudantil como mecanismo de democratização ao processo de produção e transmissão de conhecimentos reduzindo as oportunidades de acesso universal ao ensino público gratuito. Tendo por base os aspectos teóricos referidos, estudamos a forma pela qual a assistência estudantil é operacionalizada na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), através da monografia intitulada “As perspectivas de operacionalização da assistência estudantil na UFPE dos anos 90: análise de uma experiência” . 1 1 Monografia apresentada ao Departamento de Serviço Social da UFPE em junho de 1997, sob a orientação de Ângela Santana do Amaral como requisito para a obtenção do grau de assistente social. www.ts.ucr.ac.cr 1 NEOLIBERALISMO E ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL: LIMITES E POSSIBILIDADES PARA O ACESSO E PERMANÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR PÚBLICO. Sheilla Nadíria Rodrigues Rocha – Assistente Social, Mestranda em Serviço Social/UFPE 1. Introdução O presente trabalho visa inserir a discussão sobre os impactos do neoliberalismo à operacionalização da assistência social no âmbito das universidades públicas federais brasileiras nas temáticas do XIV Congreso Latinoamericano de Escuelas de Trabajo Social – La Globalizacíon y su impacto en el Trabajo Social hacia el siglo XXI, e está baseado na síntese da monografia intitulada “As perspectivas de operacionalização da assistência estudantil na UFPE dos anos 90: análise de uma experiência” . 2 O estudo pretendeu analisar as formas de operacionalização da política de assistência social voltada para os usuários das Casas de Estudantes3 da Universidade Federal de Pernambuco (CEU/UFPE) no contexto dos anos 90. O interesse por este estudo foi determinado pelos questionamentos decorrentes da experiência de estágio vivenciada entre os meses de abril a novembro de 1996, no Departamento de Assuntos Estudantis (DAE), vinculado à Pró-Reitoria Comunitária (PROCOM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O Departamento de Assuntos Estudantis é o setor responsável pela operacionalização da política de Assistência Social aos estudantes da UFPE. Esta política tem como objetivo promover o acesso e a permanência do estudante no ensino superior público, ofe recendo-lhe condições materiais para a garantia do processo de formação acadêmica e profissional. 2 Monografia apresentada ao Departamento de Serviço Social da UFPE em junho de 1997, sob a orientação da profª Mestra em Serviço Social Ângela Santana do Amaral como requisito para a obtenção do grau de assistente social pela referida instituição. 3 Há duas residências estudantis na UFPE, uma feminina outra masculina, ambas situadas no campus universitário. Seus usuários são provenientes, em sua maioria, do interior do estado de Pernambuco e oriundos de famílias que sobrevivem da agricultura e/ou trabalhos informais. www.ts.ucr.ac.cr 2 A vivência no Departamento de Assuntos Estudantis permitiu apreender novos subsídios teóricos e metodológicos, através da aproximação com a prática profissional da Assistente Social/DAE que é direcionada para dar apoio aos moradores das Casas de Estudantes/UFPE. Por isso, desde o início do estágio, passamos a nos envolver com a realidade dos usuários dessas residências estudantis. Entretanto, a motivação central da nossa prática de intervenção foi a de conhecer a relação estabelecida entre os que prestam os serviços de assistência e os que usufruem destes mesmos serviços. Em outras palavras, a relação estabelecida entre os sujeitos é de troca, doação, ou de possibilidade, acesso? Os serviços são operacionalizados com vistas à prestação de serviços assistenciais em sua perspectiva restrita ou ampliada? Dessa forma, evidenciou-se a necessidade de conhecer a política de assistência ao estudante como espaço contraditório de interesses e que levou à construção do seguinte problema: “a política de assistência social aos usuários das Casas de Estudantes/UFPE, no contexto dos anos 90, vem operacionalizando os seus objetivos sob qual perspectiva de assistência: de direito ou de assistencialismo?” Este problema nos levou a não só conhecer ou investigar tal realidade, mas a partir deste estudo, repensar a política de assistência estudantil da UFPE. Mas, como repensá-la além de sua concepção restrita de prestação de serviços? De que maneira percebê-la enquanto suporte à democratização de oportunidades para o acesso ao sistema de ensino superior e não apenas como uma forma de atendimento imediato às necessidades dos estudantes? Segundo Pereira (1996), os serviços assistenciais assumem duas perspectivas teóricas de operacionalização: uma restrita ou stricto sensu, a outra ampliada, ou lato sensu. Foi com base nestas categorias teóricas, que estudamos a prática de assistência na UFPE e por isto, é preciso que saibamos o significado de cada uma delas. Compreendemos a assistência stricto sensu, como a prática de assistência fundamentada na idéia de pobreza absoluta. A concepção de pobreza absoluta significa um padrão de privação extrema pela ausência de requerimentos mínimos necessários à sobrevivência biológica. Então, as ações da assistência stricto sensu são caracterizadas por programas e serviços de baixa qualidade e abrangência social oferecendo, apenas, os recursos para a sobrevivência da população usuária. Já a www.ts.ucr.ac.cr 3 assistência lato sensu, está baseada na concepção de pobreza relativa que significa um padrão de privação determinado pelo nível de vida dos membros de uma determinada sociedade. Assim, a hipótese sustentada no estudo foi a de que a política de assistência estudantil na UFPE tem um caráter assistencialista, restrito ou stricto sensu, caracterizando-se por uma prática deteriorada pela crise que atinge as políticas públicas brasileiras nos anos 90 com o advento do neoliberalismo, principalmente as políticas de assistência social e educação universitária. Seus objetivos são operacionalizados com vistas a atender, estritamente, as necessidades básicas dos estudantes: alimentação, moradia e saúde. É importante destacar que no estudo monográfico utilizamos como procedimentos metodológicos as pesquisas documental, bibliográfica e o levantamento de dados sobre o perfil dos usuários da assistência estudantil na UFPE, realizado durante o estágio curricular no DAE/PROCOM. Enfim, perante os aspectos mencionados, acreditamos que a manutenção da política de assistência estudantil significa um compromisso social das universidades pela democratização do ensino superior público gratuito e de qualidade. E diante de tal importância, é que justificamos a discussão dessa temática no XVI Congreso Latinoamericano de Escuelas de Trabajo Social - La Globalización y su Impacto en el Trabajo Social hacia el siglo XXI, visto que além de ter enriquecido o processo de formação profissional no qual estivemos inseridos, poderá contribuir para outras reflexões acerca da assistência estudantil no âmbito universitário. 2. Desenvolvimento: As formas de operacionalização da assistência social no espaço acadêmico estão diretamente vinculadas aos processos conjunturais que vêm alterando o perfil das políticas sociais no Brasil dos anos 90, especificamente às políticas de seguridade social e a de educação universitária. O atual contexto brasileiro é marcado pelo processo de ajustamento estrutural oriundo dos organismos financeiros transnacionais para a nossa inserção na economia mundial, o qual tem gerado o choque entre os processos de democratização www.ts.ucr.ac.cr 4 decorrentes da organização da sociedade civil nos anos 80 pelo fim da ditadura – e a grave crise econômica que envolve também os outros países periféricos da América Latina. Desta maneira, compreender o perfil da assistência social e da educação universitária no Brasil, implica inseri -las no movimento da sociedade capitalista. Neste sentido, dois processos vêm interferindo no perfil das políticas públicas brasileiras: as mudanças no mundo do trabalho, no espaço produtivo propriamente dito, e as consequentes transformações nas relações entre Estado, sociedade e mercado. Estes dois processos são produtos de um movimento a nível mundial que vem sendo gestado desde a década de 70 e responsável pelas atuais transformações societárias. Netto (1996:90) explica que “é no curso da década de 70, que emergem visivelmente as transformações societárias - embora já sinalizadas no decênio anterior vão marcar os anos 80 e 90 revelando inflexões significativas no evolver da sociedade capitalista, onde a visibilidade de novos processos se torna progressiva, à medida que o capital monopolista se vê compelido a encontrar alternativas para a crise em que é engolfado”. Assim, desde os anos 70, uma profunda depressão econômica atinge de maneira diferenciada, tanto os países centrais quanto os periféricos. O motivo que sustenta e vem sustentando a retração econômica no mundo capitalista é o desgaste do modelo de acumulação monopolista e as estratégias engendradas para a sua superação. O sistema monopolista de acumulação estava fundamentado no fordismo 4, enquanto método científico de organização do trabalho. O fordismo foi, portanto, suporte para o capitalismo monopolista utilizando formas científicas de organização do trabalho aliadas a um elevado grau de mecanização e divisão técnica do processo de produção. 4 Compreendemos o fordismo com base nas leituras de Antunes (1995:17) que entende o fordismo como “a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram -se ao longo deste século e cujos os elementos constitutivos eram dados pela produção em massa, através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos, através do controle dos tempos e dos movimentos pelo cronômetro fordista e a produção em série; pela existência do trabalho parcelar e fragmentação das funções de elaboração e execução no processo de trabalho; pela existência de fábricas concentradas numa mesma área geográfica e pela constituição da luta coletiva dos operários por melhores condições de trabalho e de vida”. www.ts.ucr.ac.cr 5 Entretanto, ao final dos anos 60 e durante a década de 70, o fordismo passa a apresentar queda na produtividade em razão da obsolescência da base tecnológica que lhe dava sustentação favorecendo, assim, o aumento do desemprego e de um progressivo surto inflacionário nos países centrais. Esta crise da produtividade nos países centrais foi ampliada pela crise do petróleo em 1973, principal combustível industrial no período em questão 5. A partir dessa situação, os países centrais elaboraram uma estratégia de superação para a crise da produtividade, através da modernização dos padrões fordistas de produção. E o aperfeiçoamento produtivo deu-se pela incorporação dos avanços da micro eletrônica, da robótica, da genética e outras novidades científicas às técnicas fordistas de produção. Estas inovações tecnológicas conjugadas ao fordismo provocam o aumento qualitativo da produção, além de uma internacionalização dos mercados implementados por empresas multinacionais - consideradas atualmente como transnacionais - e pelos grandes organismos financeiros. Segundo Antunes (1995:16), com o movimento de internacionalização de mercados, surgem novos processos de trabalho, que substituem o cronômetro e a produção em série fordistas. Os novos processos de trabalho são sustentados por um elevado padrão tecnológico que lhes possibilita avanços impossíveis na vertente produtiva do fordismo. Silva Júnior (1996:18) explica que, neste contexto, o trabalho passa a ser organizado tendo como objetivo a flexibilidade, ou seja, “a possibilidade de alteração, sem comprometimentos: da velocidade de produção, da qualidade do processo e do produto, do próprio projeto, do processo de produção, a partir da alteração feita no projeto, e da execução das duas últimas funções simultaneamente. Por outro lado, o processo de fabricação de diferentes produtos são integrados e geridos a partir de uma central microeletrônica de informações”. 5 Uma interessante e esclarecedora explicação sobre a relação entre a queda da produtividade e a crise de petróleo é trabalhada em Mota (1995:53). www.ts.ucr.ac.cr 6 Assim, a flexibilidade da produção inaugura processos de trabalho que determinam velocidade e qualidade para a produção dos países centrais destinada a mercados transnacionais e exigentes. Enfim, há com todas as modificações nos processos de trabalho, uma reestruturação produtiva que intensifica a concorrência e a interdependência dos mercados transnacionais. Ao mesmo tempo em que a reestruturação produtiva vem se consolidando nos países centrais, ocorre uma mudança nas formas de intervenção estatal, como descreve Mota (1995: 118): “as mudanças na esfera da produção e da organização social, implicaram um reordenamento na forma de intervenção do Estado, em especial nos mecanismos de produção material e gestão estatal e privada da força de trabalho, alterando as relações entre Estado, sociedade e mercado”. Desta maneira, para que os países centrais pudessem competir internacionalmente, as barreiras econômicas e políticas dos Estados Nacionais deveriam ser substituídas por uma intervenção pública também flexível. Mota (1995:51) explica que “uma das consequências mais significativas da internacionalização dos mercados, do ponto de vista político, residiu no fato de que as forças produtivas ultrapassaram os limites do próprio Estado Nacional, pela ação das empresas multinacionais, que passaram a produzir em vários países ao mesmo tempo, sempre se esquivando das políticas de controle estatal regionalizadas”. Referimos anteriormente que durante o capitalismo monopolista, o Estado era a peça-chave para o processo de acumulação produtiva fordista. O Estado monopolista regulava as relações econômicas, através de políticas sociais compensatórias e por isto, foi concebido como “Estado de Bem-Estar”. Assim, à medida em que ocorre a substituição das bases produtivas fordistas restruturando a economia a nível mundial, o “Estado de Bem-Estar” é gradativamente afastado do controle das relações econômicas, ou seja, as bases de intervenção estatal, aos poucos, são substituídas pela política macroeconômica do neoliberalismo. Segundo Schons (1994:189), é difícil conceituar neoliberalismo, porque, este “não constitui um corpo teórico propriamente dito; não é também, um conjunto de regras práticas harmonicamente ordenadas e válidas para além de um momento dado”. www.ts.ucr.ac.cr 7 Entretanto, de acordo com esta autora, o que caracteriza o neoliberalismo é a teoria do Estado mínimo, ou melhor, os mecanismos políticos e econômicos que determinam a restrição do Estado na economia, favorecendo a ilvre concorrência e a hegemonia das leis do mercado. Conforme a explicação de Laurell (1995:161), o neoliberalismo parte do pressuposto de que a hegemonia do mercado é a melhor garantia de crescimento econômico e de satisfação das necessidades individuais. No contexto das idéias neoliberais, as pessoas devem trabalhar e produzir para conseguirem atender as suas demandas e os que são incapazes, que sejam ajudados pela família, ou comunidade. Então, sob o ponto de vista neoliberal, a solução para a crise consiste em reconstruir o mercado, a competição e o individualismo. Isto significa, por um lado, restringir a atuação do Estado na economia, tanto nas funções de planejamento e condução, quanto como agente econômico direto, através das privatizações e das desregulamentações econômicas. Neste sentido, as funções públicas de seguridade social devem ser restringidas. Destruindo as conquistas sociais alcançadas pela universalização das políticas públicas de bem-estar se torna mais fácil afastar e desarticular as forças sociais organizadas do âmbito estatal. Desta maneira, a política neoliberal foi uma estratégia desencadeada pelos países centrais com o auxílio das multinacionais e dos organismos financeiros mundiais para a saída da crise dos anos 70. É importante evidenciar que apesar da reestruturação produtiva e das mudanças nas relações do Estado, sociedade civil e empresariado terem facilitado a concorrência dos países centrais no contexto da internacionalização dos mercados, a crise ainda não foi superada. Pelo contrário, se estende pelas décadas de 80 e 90 gerando dificuldades econômicas e sociais tanto para os países centrais quanto para os periféricos. Segundo Mota (1995:69), todo o processo de mudanças produtivas e sociais nos países centrais ocorreu, em grande parte, às custas dos países periféricos. Na década de 70, o movimento de expansão dos mercados a nível global determinou a inserção dos países periféricos através da adoção de modelos de desenvolvimento centrados no endividamento externo. Durante os anos 80 e 90, os países periféricos não só www.ts.ucr.ac.cr 8 ampliaram os montantes das dívidas externas e internas, como também ampliaram as fronteiras da periferia. Apesar das dívidas, os países periféricos têm tentado se inserir no mercado internacional. De que maneira o s governos periféricos têm alcançado este objetivo ? Os grandes organismos financeiros internacionais têm constituído “receitas” para que os países periféricos sejam incorporados à economia mundial. Os pré-requisitos para esta inserção dos países periféricos no mercado globalizado são o incremento de um arsenal tecnológico avançado associado a uma economia competitiva. Laurell (1995) afirma que as estratégias para implementação do projeto neoliberal nos países periféricos são “os cortes dos gastos sociais, a privatização, a centralização dos gastos sociais públicos em programas seletivos de combate à pobreza e a descentralização”. Dentre estas estratégias, a privatização é o elemento central para a articulação e a concretização do projeto neoliberal nos países periféricos. As três outras estratégias são as bases ideológicas que irão legitimar a privatização dos serviços sociais públicos sem que haja maiores conflitos políticos. A privatização dos serviços sociais nos países periféricos ocorre de maneira seletiva. Apenas os serviços sociais rentáveis para o mercado são privatizados, como os serviços de saúde, a previdência e a educação universitária, por exemplo. Assim, só os serviços sociais que possam servir para a acumulação do capital internacional deverão ser seletivamente privatizados. Segundo Laurell (1995), o projeto dos grupos transnacionais para os países latino americanos é a implantação de programas públicos voltados para o alívio da pobreza. Apoiados financeiramente pelos organismos transnacionais, os programas de combate à pobreza terão como objetivo garantir níveis mínimos de sobrevivência para a população em situação de pobreza absoluta. A autora alerta que se forem comparados os altos níveis de pobreza com os recursos manipulados pelo poder público, constatase que estes programas de combate à pobreza têm um significado oculto: “assegurar uma clientela política em substituição ao apoio popular baseado em um pacto amplo, impossível de se estabelecer no padrão das políticas neoliberais” (1995:173). www.ts.ucr.ac.cr 9 Não podemos esquecer de mencionar a estratégia de descentralização, que associada à privatização seletiva e à implementação de programas pontuais de combate à pobreza, compõem o projeto neoliberal para os países latinos-americanos. A descentralização administrativa dos serviços sociais públicos, sob a égide do neoliberalismo, não tem o caráter de democratizar a administração pública, mas de permitir a introdução de mecanismos gerenciais e incentivar os processos de privatização, repassando a nível local a decisão de como financiar, administrar e produzir serviços. Diante destas estratégias, é que se busca implementar a redefinição da atuação estatal, aproximando-o da configuração liberalista 6 de Estado, através do conjunto de políticas sociais criadas pelos governos latino-americanos de inspiração neoliberal. Entretanto, na América Latina, esta redefinição do papel do Estado na sociedade gera consequências diferentes das que ocorrem nos países europeus e nos Estados Unidos. Isto porque, os Estados latino-americanos não chegaram, sequer, a desenvolver sistemas de proteção social realmente universais. Logo, os serviços privados de proteção social, nos países latino americanos, estão destinados a uma minoria populacional que ainda não se encontra inclusa nos altos índices de pobreza absoluta, desemprego e sub-emprego. Já os serviços públicos, são insuficientes para esta maioria pobre, devido à transferência dos recursos públicos para a área privada. Assim, os países periféricos sob a influência neoliberal, acabam por gerar um aumento dos programas assistenciais para o atendimento das demandas da maioria pobre e privatizar os serviços sociais rentáveis, favorecendo os interesses do capital internacional. Inserindo o Estado brasileiro no âmbito dessas discussões, Carvalho (1995:67) explica que o país se encontra diante de um duplo desafio: “ajustar-se à nova ordem mundial e ao mesmo tempo, responder à crise social encontrando alternativas de sobrevivência para parcelas significativas de sua população”. A implantação do plano real, as privatizações seletivas, as tentativas de reformas estruturais (administrativa, fiscal, tributária, previdenciária, trabalhista, eleitoral e 6 Schons (1994:83) realiza uma importante análise sobre os serviços de assistência social Estado de configuração liberal. no www.ts.ucr.ac.cr 10 constitucional), além da abertura aos investimentos estrangeiros, colocam o país nos moldes da lógica neoliberal para os países periféricos. É importante salientar que este processo de ajuste estrutural da economia brasileira tem suas raízes desde a década de 80, com o governo Sarney e posteriormente, com o governo Collor. O processo de ajuste estrutural da economia brasileira já gera consequências como: o aumento da dívida pública, com a venda das estatais a preços irrisórios para os grandes empresários internacionais; o aumento do índice de desemprego e do número de trabalhos informais; o corte do financiamento para as políticas sociais públicas que ameaçam as garantias alcançadas com a Constituição de 1988. Dessa maneira, a assistência social, enquanto política de seguridade social, assim como a política pública de ensino superior, são duas das garantias constitucionais que vêm sendo ameaçadas pela implementação do projeto neoliberal em curso no Brasil. No caso da política de assistência social observa -se um momento de contradição: de um lado, é formalmente direito social, de outro, passa por um processo de redução dos serviços, por via de privatizações e de cortes de gastos públicos. Tradicionalmente, a assistência emergencial de combate à pobreza. social brasileira é concebida como ação Vale salientar que de acordo com Pereira (1996:60), a noção de pobreza preponderante nas práticas de assistência é a de pobreza absoluta. Isto significa, como afirmamos anteriormente, que os programas e serviços assistenciais estão direcionados para suprir de maneira seletiva a “ausência de requerimentos mínimos necessários para manter a vida ou a subsistência de pessoas submetidas a essa condição”. Logo, as pessoas que são usuárias dos referidos programas e serviços de assistência não possuem, sequer, condições mínimas de sobrevivência biológica. Em contrapartida, a Constituição de 1988 amplia o significado da assistência social como produto das lutas implementadas pela sociedade civil nos anos 80/90. A assistência passou a ser, em conjunto com a saúde e a previdência, uma política de seguridade social estabelecida para a preservação, a segurança e a dignidade do cidadão brasileiro. Regulamentada através da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) em 1993, a assistência se torna juridicamente, política pública de atendimento às necessidades sociais mais amplas e como política de seguridade social, a assistência www.ts.ucr.ac.cr 11 provê não apenas as demandas de origem biológica, mas é destinada à proteção contra os riscos sociais7. Apesar do avanço jurídico-institucional, as formas de operacionalização da assistência continuam vinculadas ao padrão de proteção social calcado na ajuda aos incapazes de suprir as suas necessidades no mercado. Observamos, então, que a política de assistência no Brasil, apresenta-se em processo de tensão entre o avanço e o retrocesso, ou em outras palavras, oscilando entre as perspectivas do direito e do favor. Estes impasses decorrem do não entendimento ou da discriminação às práticas assistenciais, tradicionalmente vinculadas a ações assistencialistas estabelecedoras de relações de dependência e favor entre os usuários e as instituições que prestam os programas e serviços. Destaca-se ainda que outro obstáculo à efetivação da assistência como direito é determinado pelo projeto governamental de inspiração neoliberal que restri nge a política de assistência - cujas diretrizes, princípios básicos, objetivos, operacionalização e fontes de recursos são definidos pela LOAS para transformá-la em ações ou programas de combate à pobreza absoluta. Assim como a assistência social, a universidade pública vem sendo ameaçada em suas funções de produzir e socializar o saber em face às constantes reduções orçamentárias que obedecem a uma política privatizante em consonância com as orientações de cooperações transnacionais interessadas na hegemonia do capital financeiro. De acordo com as diretrizes desses organismos financeiros, o combate à pobreza, obstáculo para a inscrição dos países periféricos no mercado transnacional, far-se-á pela qualificação mínima das classes trabalhadoras, através da escolarização básica. Quanto ao nível de ensino superior, este deverá ser privatizado e permitido apenas aos que podem pagá-lo. Podemos compreender que estas “investidas neoliberais” vêm gerando um processo de priva tização no âmbito das universidades públicas e que projetos privatizantes têm como meta transformar estas universidades públicas em centros produtores de saber para o atendimento das demandas do mercado. Por isso, uma das 7 Conforme as discussões da Conferência de Assistência Social, 1 (1995), os riscos sociais são situações de perigo social, onde qualquer cidadão poderá ser vítima, tais como: os riscos de morte, abandono, desemprego, violência e outros. www.ts.ucr.ac.cr 12 atuais tendências para as universidades públicas é a sua aproximação aos setores produtivos com a finalidade de garantir fontes de financiamento para as atividades de ensino, pesquisa e extensão. A busca das universidades por suas próprias fontes de financiamento decorre da crescente desobrigação do Estado para a manutenção do ensino universitário no país. Ao assumir tais diretrizes, o governo federal vem operacionalizando uma política de cortes orçamentários para as Instituições de Ensino Superior que tem por consequência a degradação e o abandono dos bens materiais e dos serviços universitários como os laboratórios, as bibliotecas e os programas de assistência social, de saúde e esportivos. Esses problemas atingem o cotidiano universitário de forma a desestruturar e desvalorizar o processo de formação profissional e acadêmico. Sob os impactos desses fatores, a assistência estudantil é, nos anos 90, uma prática em deterioração no espaço universitário, apesar de ser, em tese, uma política de suporte material para que os estudantes, independente de renda, tenham acesso a uma formação profissional e acadêmica sintonizada às novas exigências do mercado de trabalho. Os limites conjunturais à implementação da assistência social, enquanto direito, aliados ao processo de privatização das universidades federais, vêm reduzindo as oportunidades de acesso universal ao ensino público gratuito. E com isto, desestruturando a assistência estudantil como um dos mecanismos de democratização do processo de produção e transmissão de conhecimentos. De acordo com Bastos (1995:13), esta deterioração da assistência estudantil nas universidades públicas se dá pelos seguintes fatores: “a não priorização da área social no espaço acadêmico, com a consequente falta de empenho e de uso da imaginação na busca de soluções alternativas para a área orçamentária, e ainda ao uso paternalista e clientelista dos recursos públicos disponíveis na área de assistência”. Essa situação é ampliada pela inexistência de uma direção para a assistência estudantil a nível nacional, apesar da crescente demanda por parte dos estudantes. Há mais de quatro décadas, as ações de apoio ao estudante não possuem uma regulamentação, nem um projeto específico de intervenção, e sem uma política orçamentária planejada nacionalmente, torna-se reduzida aos já escassos recursos financeiros das www.ts.ucr.ac.cr 13 universidades que ainda conseguem manter os seus programas básicos: as casas de estudantes e os restaurantes universitários. Conforme o Fórum de Pró-Reitores Comunitários e Estudantis, 14 (1996), o Banco Mundial elaborou, em 1995, um documento intitulado “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiência”, cujas diretrizes são: as universidades latino americanas devem cobrar mensalidades e outros encargos, sem nenhuma interferência estatal e eliminar todos os subsídios para gastos distintos da instituição, tais como moradia e alimentação. Se forem implementadas, de acordo com o Fórum de Pró Reitores Comunitários e Estudantis, 14 (1996), levarão à falta dos programas de moradias estudantis, inibindo o intercâmbio entre docentes e discentes de outras instituições (nacionais e internacionais), impedindo o acesso de estudantes do meio rural; à falta de restaurantes universitários, dificultando a permanência do estudante no campus, ampliando a evasão escolar além de contribuir para a baixa produtividade não apenas de seu corpo discente, mas também de docente e funcionários; à implementação de programas e ações assistencialistas, seletivas e pontuais para os estudantes “carentes”. Diante disso, a assistência estudantil nas universidades se torna ação paliativa e circunstancial, não contribuindo para alterar o perfil das desigualdades dentro do espaço acadêmico. Além do que é mais grave do ponto de vista da democracia: estigmatiza o aluno com dificuldades sócio-econômicas como carente e não como sujeito portador de direitos. Tendo por base os aspectos teóricos analisados e através da caracterização dos sujeitos envolvidos com a assistência estudantil estudamos a forma pela qual essa prática vem sendo operacionalizada na UFPE. Observamos que a assistência estudantil na UFPE se torna burocrática por estar direcionada a dar respostas, em parte, restritas às demandas institucionais, pois apesar de atender às necessidades emergenciais dos estudantes, a assistência estudantil fica limitada aos encaminhamentos, às declarações, à realização de processos seletivos e ao controle de frequência referente aos alunos inseridos nos programas de ajuda de custo através de bolsas para a manutenção. Essa característica tem como consequência a imediaticidade das ações e como tal, a realização dos programas e serviços não está embasada em estudos sobre a realidade dos usuários, nem tão pouco, encontra-se www.ts.ucr.ac.cr 14 sistematizada e orientada por diretrizes, objetivos e metas. Enfim, as demandas estudantis são atendidas sem que os seus fatores determinantes, agravantes e possíveis alternativas de superação sejam questionados. Ainda observamos que outra característica da assistência estudantil na UFPE, é a tendência para seletividade dos programas e serviços, visto que, o processo seletivo para os programas e serviços vem se baseando no critério de carência sócio-econômica. O nosso estudo mostrou que a assistência estudantil na UFPE é tratada sob a perspectiva stricto sensu. Sua prática leva em consideração os níveis mínimos de manutenção dos estudantes, principalmente os que estão inseridos no programa de residências. Por esta razão, na relação entre o usuário e a instituição, mediada pelo assistente social, o estudante não usufrui do serviço como um direito, mas sob uma relação de dependência entre ele e a universidade. Acreditamos, portanto, que romper com as formas restritas de assistência estudantil na UFPE, implica considerá-la como um instrumento de universalização do ensino superior público, onde o estudante é visto enquanto sujeito partícipe das decisões sobre as ações assistenciais. Assim, superar esta maneira de conceber e praticar a assistência estudantil fortalecerá o vínculo entre universidade e sociedade, possibilitando o acesso e a permanência de estudantes dos variados níveis sociais no processo de formação acadêmica e profissional. 3. Considerações finais Acreditamos que o estudo monográfico sobre as perspectivas de operacionalização da assistência no espaço universitário e especificamente na UFPE, nos possibilitou apreender o significado dessa prática enquanto política de seguridade, o que implica visualizá -la além de sua aparência cotidiana da prestação de serviços imediatos. Aprofundar essa reflexão proporciona a compreensão de uma das funções mais importantes da assistência: a de inclusão social. Dessa forma, concordamos com Pereira (1996: 54) quando afirma que a assistência “não deve ser em si mesma universal, mas propiciadora da concretização do princípio de universalização inerente às demais políticas, mediante a sua participação nos processos de extensão da www.ts.ucr.ac.cr 15 cidadania e da inclusão dos segmentos excluídos no universo em aberto destas demais políticas.” Não podemos esquecer que, atualme nte, a reflexão sobre a importância da assistência estudantil na UFPE assume direções que poderão aos poucos incentivar a ampliação dessa prática na referida instituição. É dessa maneira que encaramos a tentativa de planejamento das ações do departamento responsável pela assistência estudantil contando com a colaboração de profissionais em ciências humanas da própria universidade, como também de seus usuários. Por outro lado, é importante destacar as conquistas desses usuários junto à instituicão quanto ao atendimento de suas demandas, tais como a construção da Casa feminina; a reforma completa da Casa masculina; residências, e aperfeiçoamento o que do sistema de segurança de ambas aponta uma melhoria nas formas de negociações entre usuários e instituição. Outro fator a ser mencionado como relevante nas possibilidades atuais de ampliação da assistência estudantil na UFPE é a continuação do programa de estágio curricular em serviço social no DAE/PROCOM garantindo mais um espaço de enriquecimento da formação profissional, além de facilitar a troca de informações/experiências entre os profissionais da área e os sujeitos envolvidos com a assistência estudantil nessa universidade. E finalmente, o prosseguimento dos estudos sobre assistência estudantil na UFPE, através dos subsídios teórico-metodológicos a serem apreendidos no Mestrado em Serviço Social do Departamento de Serviço Social/UFPE e assim, gerar novas discussões acerca da assistência estudantil sob uma perspectiva ampliada. www.ts.ucr.ac.cr 16 4. Bibliografia básica: ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?: ensaio sobre as metamorfoses e centralidade do mundo do trabalho. 2. ed., São Paulo: Cortez; Campinas: UNICAMP, 1995. BASTOS, Maria Durvalina Fernandes. Desafios atuais à formação universitária. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo, v. 16, n. 47, p. 5 - 16. 1995. CARVALHO, Alba Maria Pinho. Assistência social no contexto do Estado brasileiro: Limites e perspectivas. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo, v. 14, n. 47, p. 63-78. 1995. Conferência Nacional de Assistência Social,1. Cadernos Textos. Brasília:MPAS/CNAS,1995. CORAGGIO, José Luís. 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